Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Perry Rhodan e Reginald Bell, os expoentes
máximos de uma humanidade que avança impetuosamente, foram as únicas pessoas
submetidas a um tratamento realizado no planeta Peregrino, que por um espaço de
sessenta e dois anos interrompe qualquer processo de envelhecimento. Com isso
um velho sonho dos homens encontrou sua realização nesses dois terráqueos: o
sonho da imortalidade.
Mas tudo tem seu preço. E esse preço tem de ser pago no momento em
que a Stardust-III volta a penetrar no sistema solar terreno.
= = = = = =
= = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe supremo da Terceira Potência.
Reginald Bell — Amigo íntimo e confidente de Perry Rhodan.
Coronel Freyt — Privado de toda iniciativa por um bloqueio hipnótico.
General Tomisenkow — Que recebeu ordem de conquistar um planeta.
Major Deringhouse — Que constatou o fato de que as armas automáticas de origem terrena
podem representar um perigo real para os produtos da supertécnica arcônida.
Tako Kakuta — O único que pode vencer o bloqueio do cérebro positrônico.
Crest — Que sofreu uma decepção cruel em suas
esperanças exageradas.
1
Com ele e ao
redor dele, a sala de comando redonda da gigantesca nave passou a ser.
Os quadros
de comando e de controle, as telas, as poltronas, os instrumentos de medição
emergiram do cinza sem contornos, resultante da transição, e recuperaram as
formas usuais.
Perry Rhodan
foi o primeiro a superar o choque da transição. Seu cérebro voltou a funcionar
praticamente no mesmo instante que o relê do dispositivo positrônico: avaliou a
situação e fez com que os olhos absorvessem o quadro exibido pelas telas.
Reginald
Bell, que naquele vôo desempenhava as funções de primeiro-oficial e co-piloto,
estava caído sobre o painel coberto de instrumentos. Levantou-se com um gemido
e, com uma expressão de espanto, lançou os olhos arregalados em torno de si.
— Onde... o
que...? Ah, sim! É sempre a mesma coisa.
Durante a
transição a atividade neurônica do organismo humano era reduzida a um mínimo. O
fim da transição representava para o indivíduo a mesma coisa que o despertar de
um sono leve ou de um ligeiro desmaio.
— A posição!
— ordenou Rhodan com a voz áspera. — Verificar dados. Fornecer a trajetória de
um vôo normal.
Bell começou
a se mover. Os comandos de Rhodan também sobressaltaram os outros tripulantes
que, profundamente reclinados em suas poltronas, ou seguros às bordas das
mesas, ainda estavam empenhados em superar o choque do hiper-salto.
A atividade
voltou a tomar conta da central de comando. Os comunicados foram rápidos e
precisos.
— Posição: R
= 6:10l2 m. Pi = 81°20”. Teta = 113°.
Ouviu-se o
tilintar característico do registrador positrônico que, no cartão introduzido
no aparelho, lançou um ponto vermelho que designava a posição da nave.
— Diferença
dos dados: R = -108 m. Pi = +11’. Teta
= nenhuma diferença.
Um sorriso
apressado passou pelo rosto de Rhodan.
— Mais exato
não é possível — resmungou Reginald Bell.
—
Solicitaram-se os dados da trajetória para o prosseguimento do vôo — anunciou
um dos oficiais-navegadores, e acrescentou, em tom menos rígido: — Aí estão!...
* * *
A
Stardust-III se encontrava a seis bilhões de quilômetros do Sol e se deslocava
em linha reta em direção ao sistema, ligeiramente inclinada em relação à
trajetória dos planetas.
Saíra do
hiperespaço com uma velocidade correspondente a setenta e cinco por cento da
velocidade da luz; por ordem de Rhodan a velocidade foi aumentada para noventa
e cinco por cento.
A Terra se
encontrava do lado oposto do sistema. Segundo os cálculos de trajetória, a nave
passaria pelo Sol a uma distância de menos de quarenta bilhões de quilômetros.
Vênus e
Marte se encontravam em oposição a esse lado do Sol.
A transição
decorrera perfeitamente, com um erro muito inferior ao esperado.
Ninguém se
deu ao trabalho de verificar se a oposição entre Marte e Vênus se harmonizava
com a data registrada no calendário de bordo, existente acima do assento do
piloto.
* * *
— Chamado
para a central de Gobi!
O oficial de
comunicações ligou o hiper-comunicador e regulou a energia de emissão na
potência necessária para fazer a mensagem atingir a Terra.
— Quero falar
com o coronel Freyt — completou Rhodan.
Observou o
jovem oficial que manipulava o aparelho complicado.
“Todos estão cansados”, pensou. “Está na hora de descansarmos. Essa história
do Peregrino foi mais do que os rapazes podem agüentar.”
Vez por
outra olhava para a grande escotilha de entrada. Reginald Bell surpreendeu um
de seus olhares e um sorriso amargo se esboçou em seu rosto.
— Não querem
aparecer, não é?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Ainda bem.
Por mais que me esforce, sempre tenho a impressão de ter feito um papel feio
com os arcônidas.
Bell fez um
gesto de desprezo.
— A culpa
não é sua. Foi ele quem decidiu
que nem Thora nem Crest, nem qualquer outro arcônida, jamais poderá ser
submetido ao tratamento com o fisiotron. Ele...
— Que nada!
— interrompeu Rhodan em tom exaltado. — É sempre ele. Quase chegamos a acreditar que ele é Deus, não é?
No mesmo
instante ouviu-se a voz rouca e carregada de pânico do jovem oficial de
informações.
— A Terra
não responde!
De um
instante para outro Rhodan se esqueceu daquilo que ainda há pouco o deixara
nervoso. Deu dois ou três passos e se colocou ao lado do hipercomunicador,
examinando os controles do mesmo.
— Está tudo
em ordem — disse o oficial — se é nisso que está pensando. O instrumento
funciona, e pelo eco pode ver que a mensagem está chegando ao destino. Alguma
coisa aconteceu na Terra.
Rhodan
percebeu.
— Deixe por
minha conta! — gritou para o oficial de comunicações.
O jovem
oficial se levantou do assento. Rhodan sentou diante do aparelho. Seus dedos
ligeiros passaram pelo teclado e introduziram a mensagem automática no
aparelho. Viu o ponto verde na lâmina do oscilador e esperou.
Nada.
A Terra
continuava muda.
Outro
chamado. Mais uma vez a tecla de chamada automática foi comprimida
vigorosamente.
O ponto
vermelho.
E logo
surgiu a luminosidade tremeluzente na tela.
Viu-se o
rosto do coronel Freyt, de início desconfiado, mas logo com os olhos brilhantes
e a boca sorridente, quando reconheceu seu interlocutor.
— Ora,
chefe! É você mesmo?
Rhodan não
estava disposto a enfrentar uma cena de boas-vindas.
— O que
houve? Apresente um relato em condições e diga por que tivemos de chamar três
vezes antes que você respondesse.
O rosto de
Freyt enrijeceu. O sorriso desapareceu. Mas os olhos ainda brilhavam.
— É o
coronel Freyt de Galáxia — relatou. — Pronto para receber a mensagem. Não
respondi aos primeiros dois chamados porque pensava que se tratasse de uma
armadilha.
— Uma
armadilha?!
— Sim.
Pensei que alguém quisesse descobrir nossa posição. Recebi instruções para ter
cautela no uso do hipercomunicador.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Sei. Mas
você bem poderia imaginar que voltaríamos a chamar mais ou menos a esta hora,
não é?
— Não, não
poderia. Não estava em condições de adivinhar que você teria tantas dificuldades
com sua viagem de regresso. Isso seria...
— Que
dificuldades? — gritou Rhodan. — Foi a viagem de regresso mais tranqüila que já
tive.
Freyt não se
perturbava com muita facilidade.
— Para
evitar mal-entendidos, talvez tivesse sido conveniente que, depois de sua
última mensagem, houvesse me informado sobre sua nova posição, desde que as
condições permitissem, naturalmente.
Rhodan
enrugou a testa.
— Ouça,
Freyt, quantas mensagens tenho de lhe enviar num mês para que esteja informado
sobre minha situação? Acredito...
— Num mês? —
interrompeu Freyt aos gritos. — Afinal, sua última mensagem foi recebida há
muito mais de um mês!
Rhodan se
sobressaltou.
— Hoje não
faz um mês e alguns dias da última mensagem?!
Percebia-se
que Freyt começava a duvidar da sanidade mental de Rhodan. Este percebeu os
olhos semicerrados de seu interlocutor e começou a compreender que, no
entretempo, havia acontecido alguma coisa de que ainda não sabia.
— Hoje —
disse Freyt, esforçando-se para conservar a calma — faz quatro anos e meio!
A palestra
foi conduzida em tom elevado, de modo que alguns dos oficiais que se
encontravam nas proximidades conseguiram acompanhá-la.
Rhodan
sentiu o silêncio angustiante que de repente se espalhou pelo recinto. Teve
algumas idéias bastante aventurosas enquanto encarava o rosto de Freyt e
esperava que os homens que se encontravam atrás dele se acalmassem.
— Muito bem
— disse depois de algum tempo. Sua voz parecia tão indiferente que qualquer um
se indagaria se um salto de quatro anos e meio não significava nada para ele. —
Parece que, por algum motivo, deixamos alguns anos de fora. Como é que as
coisas têm sido para você nesse meio tempo?
Freyt
respirou aliviado. Receara complicações.
— Mal —
respondeu segundo a verdade dos fatos. — A Terra está convencida de que não
pode contar mais com você. O Bloco Oriental calcula que isso representa uma
chance para ele, enquanto a Federação Asiática e a OTAN continuam a se esforçar
para formar um verdadeiro governo mundial. No Bloco Oriental houve uma
reviravolta. Tudo indica que mais cedo ou mais tarde acabará havendo uma
terceira guerra mundial. Até agora não fiz qualquer esforço para interferir na
situação, porque...
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Está bem,
Freyt. Pousaremos no máximo dentro de uma hora, e então veremos o resto.
Interrompeu
a comunicação e girou a poltrona de tal forma que olhou para Bell. Este parecia
desorientado.
— Onde
estivemos todo este tempo? — perguntou.
Rhodan deu
de ombros.
— Teremos de
quebrar a cabeça sobre isso... mais tarde. Talvez no planeta Peregrino o fluxo
do tempo seja diferente. O que importa no momento é que, segundo parece, na
Terra muitas coisas não são como deviam ser.
* * *
Alguns
minutos depois, a Stardust-III passou pela órbita de Marte. O planeta se
encontrava a cerca de vinte milhões de quilômetros de distância.
A nave
dispôs-se a cruzar a órbita da Terra — apenas a órbita, pois a própria Terra se
encontrava além do Sol — quando Rhodan recebeu um chamado do setor de
vigilância.
A voz que
transmitiu a mensagem parecia espantada.
—
Localizamos uma porção de matéria.
— Qual é a
posição?
O
interlocutor de Rhodan forneceu os dados.
— Em relação
a nós — acrescentou — isso fica além de Vênus.
— Prossiga
nas observações! — ordenou Rhodan. — Avise assim que obtiver dados mais
precisos.
Desligou o
aparelho e fixou a tela que se encontrava à sua frente.
Uma
localização de matéria junto a Vênus.
Não havia
nada que fosse mais precioso para a Terceira Potência, nada de que Rhodan
precisasse tanto como da base em Vênus com suas poderosas armas defensivas e o
gigantesco cérebro positrônico.
Será que
dessa localização se devia concluir que alguém se preparava para pousar em
Vênus?
Um sorriso
amargo se esboçou no rosto de Rhodan. Acreditara que poderia regressar ao lar
em triunfo. Batera um inimigo poderosíssimo, os tópsidas, encontrara o segredo
da vida eterna, adquirira conhecimentos que nem sequer estavam ao alcance de
Crest e Thora, os dois arcônidas, e obtivera a garantia do ser do planeta
Peregrino de que à Humanidade seria concedido o domínio da galáxia.
Eram motivos
mais que suficientes para transformar a viagem de regresso numa marcha
triunfal.
O homem do
posto de observação voltou a chamar, esbaforido:
— Novos
resultados: o que temos pela frente são pelo menos quatrocentos objetos.
Trata-se de naves espaciais ou coisa parecida. São bem pequenas. O volume de
cada objeto não ultrapassa trinta mil metros cúbicos. Aproximam-se de Vênus.
Tudo indica que pretendem pousar lá.
Rhodan se
sobressaltou.
— Vamos
mudar de rota, meus amigos! — disse em tom áspero. — Voaremos em direção a
Vênus. Neste instante a nave entra em estado de rigorosa prontidão.
Sem olhar,
abaixou a chave de alarma. O uivo das sereias encheu os longos corredores e as
salas da gigantesca nave.
A
Stardust-III havia retornado ao seu sistema planetário. A primeira coisa que
teria de fazer era abrir os tampos dos compartimentos em que se encontravam as
peças de artilharia e mostrar ao inimigo que tipo de adversário teria que
enfrentar.
* * *
O coronel
Freyt não sabia de nada. Rhodan o informou sobre a mudança de rota, no mesmo
instante em que a Stardust-III entrou em sua nova trajetória.
Não parecia
muito satisfeito; mas sabia que Vênus era importante.
Na central
de Gobi não havia sido observada qualquer movimentação no espaço. Ninguém
saberia dizer quem estava fazendo das suas na área de Vênus.
Rhodan era o
único que tinha suas suposições. Por enquanto as mesmas ainda lhe pareciam um
tanto temerárias; mas não havia outras. Freyt não teria deixado de detectar uma
frota de quatrocentas naves que penetrasse no sistema solar terreno, vinda do
hiperespaço.
Dali se
concluía que a mesma não vinha do hiperespaço.
O coronel
Freyt recebeu instruções para se manter na expectativa.
* * *
O general
Tomisenkow observou os trabalhos de montagem de sua barraca. Usava roupa leve,
de acordo com as condições climáticas daquele mundo. Trajava calças curtas e
camisa bem aberta no peito. As ombreiras com as platinas haviam escorregado
para a frente e balançavam por cima da clavícula.
Tomisenkow
tirou o boné e enxugou o suor da testa. Depois olhou para seu ajudante.
— Que tempo
horrível, não é?
O ajudante
se apressou em assegurar que o tempo realmente estava horrível.
Vinha de
Sebastopol, onde o tempo no verão não era muito diferente daquele lugar. Mas o
general Tomisenkow passara a maior parte de sua vida em Ochotsk, e naquele
lugar as pessoas sentiam frio até no verão.
Não convinha
contrariar o general Tomisenkow, fosse no que fosse.
— Não
demoraremos em nos livrar disto — prosseguiu Tomisenkow. — Aí não precisaremos
mais enxugar o suor a cada trinta segundos.
Nesse
instante, um homem com uma folha de papel na mão saiu correndo por entre as
barracas que estavam sendo montadas.
— Uma
mensagem! — gritou de longe.
— Uma
mensagem para o general.
Tomisenkow
se virou.
— Passe para
cá — resmungou.
Num instante
passou os olhos pelas poucas palavras da mensagem. O ordenança viu que seu
rosto ficava vermelho.
— Por que
ficam correndo de um lado para outro com este papel? — gritou para seu
ordenança. — Por que não atiram?
O ordenança
ficou em posição de sentido.
— Vamos,
corra! — gritou Tomisenkow.
— Diga-lhes
que derrubem aquele objeto.
O ordenança
saiu correndo. Tomisenkow pegou seu ajudante pelo braço e arrastou-o consigo.
—
Localizaram alguma coisa — explicou. — No início pensaram que se tratasse de um
corpo celeste, por causa do tamanho. Acontece que seus movimentos estão sendo
dirigidos. Agora querem que eu lhes diga o que devem fazer.
Lançou um
olhar matreiro para seu ajudante.
— Sabe o que
é? — perguntou.
— Não,
general.
— Pois eu
lhe digo. Andaram falando muito naquele major americano, o tal Perry Rhodan.
Está lembrado? E também naquela nave gigantesca em que anda passeando pelo
espaço. Acho que ficou sabendo de nossa missão em Vênus mais cedo do que esperávamos,
e agora quer estragar nossa festa.
O ajudante
ficou pálido.
— Perry
Rhodan?
Tomisenkow
confirmou com um vigoroso aceno de cabeça.
—
Provavelmente. Sempre desejei um encontro com ele. Parece que chegou a hora.
Naquele
instante o solo começou a ressoar. Longe dali, no meio da selva, oito foguetes
defensivos se puseram a caminho, subindo com um uivo ao céu encoberto de Vênus.
Tomisenkow
riu.
— Ficará
admirado com a recepção calorosa que lhe estamos preparando.
* * *
— Pouso
dentro de quatro minutos. Verificar os envoltórios protetores.
— Em ordem!
Rhodan olhou
em torno. Na sala de comando só havia quatro homens, além dele mesmo e do
primeiro-oficial Reginald Bell. Os outros tinham retornado às suas posições
junto à tripulação, nos postos de observação e de combate.
O céu
nublado de Vênus se estendeu nas telas.
Escureceu.
Mas os
aparelhos infravermelhos e de microondas captaram a superfície daquele planeta
quente coberto de selvas. Surgiu o delta de um rio, que parecia se aproximar
vertiginosamente do observador. Percebeu-se o litoral, uma clareira na selva.
—
Localização! Foguetes de combate! Um raio ofuscante surgiu nas telas. Era branco-azulado
e doía nos olhos surpresos.
Mas não se
ouviu o menor ruído. Imperturbável, a gigantesca nave prosseguia na sua rota.
Bell
anunciou com a voz indiferente.
— Explosivo
nuclear, detonador de fissão. Potência de um megaton de TNT.
Virou-se e
indagou perplexo:
— O que será
isso?
Rhodan
sorriu, divertido. Outro raio passou pela tela de imagem.
— O que
poderá ser isso, que dispara foguetes antiquados com um poder explosivo desses
contra uma nave espacial?
Deixou a
resposta por conta de Bell. Chamou o encarregado do posto de observação e soube
que as trajetórias dos foguetes haviam sido fixadas até o ponto de origem.
Vinham do continente polar norte, de um ponto situado pouco além do litoral. Os
postos de combate esperaram em vão pela ordem de abrir fogo. Rhodan decidiu
outra coisa.
Assumiu a
direção da Stardust-III e desceu quase ao nível do mar. Depois deslocou-a em
alta velocidade em direção ao litoral do continente norte.
Perry Rhodan
observou a superfície imóvel do oceano e viu a luminosidade azulada que
envolvia as capas protetoras da nave, já que a Stardust-III desenvolvia
velocidade tamanha que o impacto das capas protetoras ionizava as moléculas do
ar e fazia com que brilhassem.
Na luz turva
do meio-dia de Vênus via-se o traço escuro da costa longa e pouco recortada.
Atrás dela
começava a selva.
* * *
Tomisenkow
praguejou.
— Dispare
outra salva! — gritou para o oficial de armas. — Seja qual for a capa protetora,
basta bombardeá-la o suficiente para fazê-la ceder.
Acontece que
Tomisenkow não tinha a menor idéia sobre o que seria uma sobrecarga para as capas protetoras
da Stardust-III. Os cem foguetes nucleares de que dispunha nada representavam;
nem mesmo mil.
O oficial de
armas pôs-se em movimento. Através do pequeno transmissor portátil deu ordens
lacônicas ao pessoal que equipava as rampas de foguetes.
Foi quando
os homens encarregados do radar anunciaram outra surpresa.
— O inimigo
vem em nossa direção. A velocidade é de cerca de quinze quilômetros por
segundo... A nave é enorme!
A bola
chamejante foi crescendo. No momento em que acreditava que dentro de um
instante se encontraria por cima do acampamento, Tomisenkow percebeu como tinha
subestimado seu tamanho.
Continuou a
crescer por mais três ou quatro segundos. Depois se encontrava diante do
acampamento como se fosse uma montanha que cuspia fogo, passou por cima e...
Então veio o
fim do mundo.
Os tímpanos de
Tomisenkow deixaram de funcionar quando foram atingidos pelo ruído ensurdecedor
do primeiro choque. Não viu mais nada, porque os relâmpagos o cegaram. Mas
sentiu nitidamente que uma força irresistível fez com que perdesse o apoio dos
pés, ergueu-o e atirou-o para longe. Sentiu uma chicotada no rosto quando foi
arrastado por entre os fios de um telefone de campanha, e pouco depois o
impacto doloroso sobre uma aresta dura. A pancada expeliu o ar dos seus
pulmões. Fez um esforço desesperado para se erguer sobre os joelhos. Depois
perdeu a consciência.
Quando
recuperou os sentidos, não tinha a menor idéia sobre o tempo que se passara.
Seu relógio de pulso havia desaparecido.
Levantou-se.
Apesar da dor aguda que sentia no peito, respirou profunda, mas cautelosamente,
e lançou os olhos em torno.
O que viu
ultrapassou seus piores temores.
O
acampamento não existia mais.
A selva
estava modificada. Uma faixa de vários quilômetros de largura se abria em meio
a ela. Começava ao sul, passava pelo lugar em que fora montado o acampamento,
pelas posições de embasamento dos foguetes e pelo campo de pouso da frota
espacial e prosseguia em direção ao norte.
Era uma reta
perfeita, que parecia ter sido traçada por um gigantesco rolo compressor.
Tomisenkow
constatou, admirado, que havia situações em que era perigoso ceder aos
sentimentos. Movimentou seu corpo de touro e pôs-se a examinar as pessoas que
com ele se encontravam na pequena clareira quando o desastre desabou sobre
todos.
O oficial de
armas estava morto. Mas no ajudante surgiram sinais de vida, depois que
Tomisenkow o sacudira bastante.
Após algum
tempo abriu os olhos e encarou o general, todo perplexo.
— Levante! —
gritou Tomisenkow. Entendia perfeitamente suas próprias palavras; mas o
ajudante sacudiu a cabeça, confuso, e passou as mãos pelas orelhas.
Tomisenkow
sabia o que fazer numa situação dessas. Comprimiu a testa contra a do ajudante
e repetiu a ordem:
— Levante!
Conseguiu o
efeito desejado. Os sons foram transmitidos através da vibração dos ossos do
crânio. O ajudante entendeu e se levantou de um pulo.
Tomisenkow
fez um movimento amplo do braço em direção ao acampamento. Depois saiu andando.
O ajudante seguiu na direção oposta.
A procura
pelos sobreviventes teve início.
O general
Tomisenkow trouxera dez mil homens para Vênus. Era uma divisão de elite.
Ainda
encontraram oito mil. Destes, seis mil estavam gravemente feridos, e os
restantes mais ou menos machucados.
Todos tinham
perdido a audição. Quando tinham algo a dizer, comunicavam-se por escrito ou
comprimiam as testas uma contra a outra.
Das
quinhentas naves com que a divisão pousara só oitenta continuavam de pé. O
resto fora derrubado pelo torvelinho; algumas chegaram mesmo a ser arrastada e
atiradas em meio à selva mais ao norte.
O rastro da
tempestade tinha uns dez quilômetros de largura. No centro, havia uma faixa
queimada de pouco menos de um quilômetro de largura. A terra derretida
irradiava um calor insuportável. No momento, Tomisenkow não poderia atravessar
essa faixa para entrar em contato com os homens que se encontravam do lado
oposto.
— O que foi
isso?
Era esta a
única pergunta formulada naquelas horas.
O único que
tinha uma idéia clara da situação era Tomisenkow. Tinha coisa mais importante a
fazer do que informar seus homens de como subestimara o poderio de Rhodan. O
acampamento — ou melhor, o que ainda sobrava dele — teria de ser transferido.
Era de recear que Rhodan voltasse, e Tomisenkow ainda não estava convencido de
que teria de capitular.
As selvas de
Vênus eram muito extensas. Nelas poderiam ser escondidas centenas de divisões,
de tal forma que nenhum inimigo conseguiria encontrá-las.
Tomisenkow
deu prova de seu talento de organizador. Muito embora perto de seis mil de seus
homens estivessem tão gravemente feridos que não conseguiam se deslocar por
suas próprias forças, e embora se tivesse de consumir o triplo do tempo usual
para fazer com que os ouvidos ensurdecidos entendessem qualquer comando, o
início da transferência não demorou mais de duas horas a partir da catástrofe.
As naves que
ainda se encontravam intactas transportaram a maior parte dos homens gravemente
feridos. O resto foi carregado pela selva sobre macas grosseiras
Para os
homens que se encontravam além da faixa de terra incandescente foram deixadas
indicações sobre o lugar ao qual teriam de se dirigir.
O destino de
Tomisenkow era uma cordilheira situada ao noroeste. Não distava mais de
duzentos quilômetros do acampamento; mas, face aos meios primitivos de
locomoção de que dispunham, Tomisenkow calculou que levariam pelo menos uma
semana do tempo terreno para atingi-la.
Foi o último
a abandonar o acampamento, juntamente com o ajudante e alguns oficiais de
elevada patente. A evacuação decorrera sem incidentes e não demorara mais que
dez horas. Nesse meio tempo os tímpanos haviam recuperado parte de sua
capacidade, e os homens podiam conversar, embora aos gritos.
A
curiosidade e a insegurança dos homens crescera tanto que Tomisenkow julgou
preferível romper seu silêncio e informar os oficiais sobre o que realmente
havia acontecido.
— Suponho
que todos tenham notado aquela esfera — gritou. — Não existe a menor dúvida de
que era a nave espacial que Rhodan usa em suas grandes viagens.
— Mas tinha
pelo menos um quilômetro de altura! — objetou alguém.
Tomisenkow
balançou a cabeça.
— Mais ou
menos. O que nos atingiu não foi nenhuma arma especial. O posto de radar
informou no último instante que a nave se deslocava a uma velocidade de cerca
de 15 km/s. Isso é quase cinco quilômetros mais que a velocidade de um
meteorito que penetra na atmosfera terrestre, vindo do espaço cósmico. O ar não
tem tempo de se desviar de um objeto desses. É comprimido. E a compressão é tão
intensa que faz com que as moléculas emitam radiações ou sejam mesmo ionizadas.
Ao mesmo tempo a compressão do ar produz uma elevação instantânea e
considerável da temperatura.
Fez um gesto
vago em direção à faixa de terra incinerada e continuou a gritar:
— Vejam! Uma
pergunta permanece em aberto: Como é que Rhodan consegue que o ar se torne
incandescente, e sua nave não? Não posso fornecer qualquer informação exata a
este respeito. Sabemos que a nave está provida de campos energéticos protetores
de elevada potência. Provavelmente os mesmos estão em condições de absorver os
efeitos nocivos de um vôo desse tipo.
Fez uma
pausa, aguardando perguntas. Não houve nenhuma.
— Devemos
nos apressar — sugeriu Tomisenkow. — Rhodan não se fará esperar por muito
tempo. Sabe perfeitamente quanto tem a perder em Vênus. Vamos lhe preparar uma
recepção bem calorosa!
* * *
A uma
velocidade de 15 km/s o olho humano não tem capacidade de perceber e fixar
detalhes.
Rhodan não
tinha a menor idéia sobre o lugar e o momento em que a Stardust-III passara por
cima do acampamento inimigo. Mas os instrumentos automáticos haviam tirado
fotografias, e não haveria nenhuma dificuldade em obter todos os dados
interessantes a partir das mesmas.
A bordo da
nave ainda se procurava adivinhar quem teria sido o inimigo que conseguira
pousar em Vênus, tão perto da base preciosa que se encontrava naquele planeta.
A única pessoa
que poderia dar informações a este respeito permanecia num mutismo total. Aos
poucos foi desacelerando a imensa nave, e numa curva suave dirigiu-a para o
complexo montanhoso sob cujas encostas rochosas se situava a base.
Mas
subitamente a Stardust-III foi detida a cerca de quinhentos quilômetros da
mesma. O efeito foi violento, mas não representou qualquer perigo para a nave.
Os neutralizadores gravitacionais absorveram o choque produzido pela frenagem.
Dentro de poucos segundos a nave se imobilizou pouco acima da selva úmida.
Um tanto
cansado, Rhodan se reclinou na poltrona. O nervosismo se espalhou em torno
dele. Reginald Bell corria de um instrumento para outro, o telegrafista fez
tentativas frenéticas para transmitir o sinal codificado em hiperondas ao
grande cérebro positrônico situado no interior da fortaleza, e o
terceiro-oficial indagou junto ao centro de comando técnico se toda a
aparelhagem estava em ordem.
Nenhuma
dessas providências produziu o menor resultado.
Finalmente
Rhodan deu o comando:
— Descer!
Vamos pousar!
Bell olhou-o
perplexo.
— O que
houve? Por que não podemos entrar?
— Porque
fomos cautelosos demais — respondeu Rhodan com a voz cansada.
No momento
se limitou a essa resposta. Observou atentamente como a Stardust-III descia em
direção ao solo. A floresta densa, de cerca de quarenta metros de altura,
desmoronou como se fosse de capim, sob o peso da nave de oitocentos metros de
altura. Os suportes hidráulicos foram escamoteados e afundaram vários metros no
solo macio da selva. Uma luz vermelha se acendeu no painel, e um zumbido
tranqüilizador anunciou:
— Pousamos!
Rhodan se
levantou e foi até o telecomunicador de bordo.
— Peço aos
senhores oficiais que compareçam à sala de comando. Tenho uma declaração a
fazer.
A ordem foi
cumprida imediatamente. De um minuto para outro a sala de comando se encheu. A
Stardust-III tinha uma tripulação de quinhentos homens, e menos de quarenta
destes eram oficiais. Além disso, havia vários mutantes que, segundo o
regulamento da Terceira Potência, ocupavam a posição de oficiais.
A declaração
de Rhodan, de que a Stardust-III retornara ao sistema natal quatro anos e meio
depois do tempo calculado, provocou um espanto considerável. Mas Rhodan se
limitou a transmitir a informação relativa ao fato; não forneceu qualquer
comentário, muito menos uma explicação.
Ainda
relatou o que soubera do coronel Freyt sobre a evolução dos acontecimentos
políticos na Terra.
— Quando
retornarmos à Terra — disse — veremos um quadro diferente daquele que temos na
lembrança. Ao que parece quatro anos e meio foram suficientes para afastar ao
menos parte da Humanidade do caminho certo. Teremos de tomar providências para
que essa série de equívocos não produza danos ao nosso planeta. Mas, antes
disso, temos de enfrentar outro problema. Todos os nossos planos, na parte em
que dizem respeito à Humanidade e ao seu desenvolvimento no quadro galáctico,
dependem em boa parte da nossa capacidade de em qualquer tempo, hoje ou dentro
de algumas dezenas de milhares de anos, reencontrarmos o planeta Peregrino. Com
base no trecho da órbita de que dispomos, o grande cérebro positrônico
instalado em nossa base em Vênus pode calcular a órbita de Peregrino até os
tempos mais longínquos.
“Por isso
uma das nossas tarefas preferenciais consistiria em introduzir no dispositivo
positrônico os dados sobre o trecho conhecido da órbita de Peregrino, e isso
com a maior urgência, já que a cada minuto que passa o cálculo se torna mais
difícil. E essa tarefa se tornou ainda mais premente, já que um inimigo que
aparentemente sabe o que quer vem realizando esforços para se apoderar das
instalações existentes em nossa base de Vênus.”
Fez uma
pausa e lançou os olhos para diante de si, como se tivesse de refletir
cuidadosamente sobre as palavras que iria proferir.
— A base positrônica
foi regulada de maneira a não produzir dano a qualquer ser humano. Quando
efetuei essa regulagem contei com a possibilidade de que num vôo a Vênus
pudesse acontecer alguma coisa a um de nós que o impedisse de transmitir o
sinal convencionado em código. Com a regulagem anterior o cérebro positrônico
teria partido automaticamente ao ataque. Isso tinha de ser impedido. Para ser
franco, nunca contei com a possibilidade de que algum ser humano fosse pousar
em Vênus contra nossa vontade.
— “Mas tudo
indica que foi precisamente o que aconteceu. Não há dúvida de que os numerosos
pontos que se deslocavam a pequena velocidade, localizados pelos instrumentos
de vigilância nas proximidades da base de Vênus, não são outra coisa senão
naves espaciais de propulsão nuclear, construídas na Terra, fora do território
da Terceira Potência. Os foguetes com que fomos atacados também indicam que os
invasores provêm da Terra. Por fim, o simples fato de que o cérebro positrônico
não impediu o pouso constitui a melhor prova de minha suposição.
“Face ao
relato do coronel Freyt, não há como duvidarmos de que uma poderosa frota
espacial do Bloco Oriental pousou em Vênus para se apoderar da base. O cérebro
positrônico ainda fez outra coisa. O bombardeio da Stardust-III com foguetes
nucleares foi um acontecimento que na memória do cérebro está armazenado sob a
classificação de fato extraordinário e inquietante. Transmiti ordens expressas
ao cérebro para que nessa hipótese toda a área da base seja fechada
hermeticamente, de tal forma que ninguém
possa penetrar na mesma.
“Reconheço,
cavalheiros, que efetuei essa regulagem num acesso de cautela excessiva. Mas
peço-lhes que considerem que um caso como o presente não poderia ter sido
previsto pela fantasia mais extravagante. O fato é que nem mesmo nós podemos
romper o campo protetor da base. Devemos nos empenhar em reduzir o invasor à
impotência o quanto antes e convencer o cérebro positrônico de que não existe
mais qualquer perigo em Vênus.”
Lançou um
olhar penetrante para os oficiais.
— Quanto
antes, é o que acabo de dizer. Não é difícil compreender que daqui a umas três
semanas da contagem de tempo terrena será impossível até mesmo para o grande
cérebro positrônico calcular toda a órbita do planeta Peregrino com base no
trecho conhecido. Peço-lhes que esclareçam os suboficiais e a tripulação sobre
a nova situação e aguardem minhas instruções. Obrigado, cavalheiros.
A
Stardust-III encontrava-se diante de um problema difícil, mas não insolúvel.
Na sala de
comando só permaneceram Rhodan, Bell e os dois oficiais que ocupavam seus
lugares nos postos de telegrafia e de direção.
Bell sacudiu
a cabeça.
— Para falar
com franqueza — disse, contrariado — já não entendo mais nada. Você acha que
foi acertado confessar um erro seu perante os subordinados?
Estavam
sentados diante do quadro de pilotagem. O posto de telegrafia e de direção se
encontravam a uma distância suficiente para que pudessem conversar à vontade.
Rhodan riu.
— Por que
não? Cometi um erro, não cometi?
— Não diria
que foi um erro. Todo mundo teria chamado você de idiota se, naquele tempo,
tivesse manifestado a idéia de tomar providências para impedir que o Bloco
Oriental pousasse em Vênus com uma frota de invasão.
— Acontece
que fizeram isso mesmo. Foi um erro meu. Deveria ter considerado todas as
possibilidades.
Bell
estendeu as mãos, com a palma para cima.
— Está bem.
Mas há outra coisa que não entendo.
— O que é?
— Freyt
devia estar informado sobre os acontecimentos que se verificaram na Terra. Por
que não fez nada?
Rhodan
contorceu o rosto.
— Também foi
minha culpa — respondeu. — Freyt está sujeito a um bloqueio hipnótico. Não está
em condições de exercer qualquer influência sobre a política do Ocidente.
Apliquei esse bloqueio nele porque não tinha certeza de que não acabaria
acalentando certas ambições. Poderia dispor irrestritamente do potencial
técnico da Terceira Potência. Era bem possível que caísse em tentação.
— É por isso
que está sujeito ao bloqueio.
— E é por
isso que não podia fazer nada quando houve uma reviravolta no Bloco Oriental e
este se desviou do bom caminho.
Reginald
Bell acenou com a cabeça.
— Pois bem —
disse depois de algum tempo. — Naquela época ninguém contaria com a
possibilidade de que só depois de quatro anos e meio voltássemos a aparecer,
não é? Se não fosse assim, você teria agido de outra forma.
Rhodan
acompanhou as riscas de soalho com a ponta da bota.
— Não
procure desculpar meu procedimento — recomendou a Bell. — Cometi um erro ao
tomar todas as decisões de acordo com minha cabeça e a capacidade restrita de
raciocínio de que disponho. No futuro terei de conversar com maior freqüência
com nosso grande cérebro positrônico. Suas previsões são mais objetivas que as
minhas.
Bell lhe
lançou um olhar sério.
— E a frota
de invasão? Por que não a eliminamos pura e simplesmente?
Rhodan
respondeu em tom hesitante:
— Em
primeiro lugar repugna ao meu gênio eliminar alguém pura e simplesmente, e
depois isso não será possível. Se o chefe da frota tiver alguma inteligência,
terá abandonado imediatamente o lugar em que se encontrava. E nesta selva
teremos dificuldade até mesmo em localizá-lo.
Bell se
sobressaltou.
— Além disso
deve ter espalhado seus homens a tal ponto que um bombardeio concentrado não
nos adiantará mais nada. Você não acha?
Rhodan
acenou com a cabeça; estava muito sério.
Bell
refletiu por algum tempo.
— Quer dizer
que teremos de travar uma pequena guerra na selva?
Rhodan
sorriu.
— Se for
pequena — disse com a voz baixa — poderemos nos dar por satisfeitos.
2
A franqueza que
Rhodan demonstrou perante seus subordinados produziu um efeito que era
exatamente o oposto do que Reginald Bell previra.
Era a
primeira vez em toda a história da Terceira Potência que Rhodan tinha motivo
para confessar um erro, porque era a primeira vez que cometia um.
Seus subordinados
— os oficiais, suboficiais e tripulantes — que até então o veneravam graças ao
seu saber superior e à sua capacidade extraordinária, agora sentiam que
precisava deles, porque, apesar de seus dotes geniais, era um homem como
qualquer outro.
Pela
primeira vez a veneração, que sempre sabia guardar distância, era acompanhada
de um forte sentimento de comunhão.
Qualquer
ordem que Rhodan desse para preparar a ação contra a frota invasora era
executada depressa, mas cuidadosamente. Tudo engrenava exatamente. Duas horas
após o pouso, as fotografias tiradas durante o vôo pelos instrumentos
automáticos de observação haviam sido interpretadas a tal ponto que Rhodan
podia preparar seus planos táticos. Dali a mais duas horas soubera através de
sondas de espionagem de que forma o general Tomisenkow reagira ao golpe, e sete
horas após o pouso uma força expedicionária com o efetivo inicial de cinqüenta
homens, totalmente armado e equipado, estava pronta a sair pelas comportas.
O próprio
Rhodan assumiu o comando.
Mas antes teve
uma palestra com Thora e Crest, os dois arcônidas.
* * *
A finalidade
que levara os dois arcônidas a penetrar nessa área da galáxia a bordo de um
cruzador espacial — um dos últimos que a raça arcônida, decadente, conseguira
pôr a caminho — fora a procura do mundo da vida eterna, isto é, de um mundo
cujos habitantes conheciam o segredo da conservação das células.
O cruzador
pousara na lua terrestre em virtude de avarias, justamente no tempo em que o
primeiro foguete guiado por homens se punha a caminho da Lua.
O encontro
era inevitável, e a constelação das circunstâncias fez com que os tripulantes
da velha Stardust, Rhodan, Bell e o Dr. Manoli, se ligassem a Crest e Thora,
sobreviventes da nave arcônida, para a vida e a morte.
Na Terra
impediram, através do poderio proporcionado pelos recursos arcônidas, a
irrupção da terceira guerra mundial, e se constituíram em Terceira Potência no
deserto de Gobi.
Do ponto de
vista de Rhodan, a ligação de início se inspirara unicamente na finalidade que
tinha em vista. Seus objetivos eram muito elevados: a união da Humanidade e a
consolidação da posição da Terra no seio da galáxia. Os arcônidas com sua
técnica superior apareceram em boa hora.
Também da
parte de Crest e de Thora no princípio a perspectiva de uma vantagem pesava
mais que qualquer simpatia. Rhodan era um homem ativo. Depois de ter absorvido
o saber arcônida através de um processo de treinamento hipnótico, estaria em
condições de montar uma indústria capaz de construir uma nave de grande alcance
do tipo arcônida. Com uma nave dessas, Crest e Thora poderiam prosseguir na sua
viagem em busca do mundo da vida eterna ou retornar a Árcon, seu mundo natal.
Houve
complicações. Inteligências estranhas atacaram a Terra. A Terceira Potência
conseguiu repeli-las. A Terceira Potência ainda travou uma guerra no sistema
Vega, e a Stardust-III, uma nave inimiga apresada, empreendeu uma viagem longa
e arriscada à procura do mundo em cuja busca Thora e Crest partiram há anos de
Árcon.
Peregrino —
era este o nome do planeta da vida eterna.
Um mundo
artificial, que seu construtor forçara a descrever uma órbita extravagante em
torno de trinta sistemas solares.
Rhodan soube
do segredo, e soube ao mesmo tempo que, no relógio do Universo, havia soado a
hora final para os arcônidas. Para eles não haveria qualquer renovação celular.
A vida eterna lhes foi negada.
Crest e
Thora haviam colocado Rhodan na pista do segredo e agora, que o haviam
descoberto juntos, a revelação lhes foi recusada.
Rhodan
obteve a solução — Rhodan, o herdeiro do império galático.
* * *
Crest estava
só, no seu camarote.
Reclinara-se
profundamente na macia poltrona articulada e fitava o teto. Não se mexeu quando
Rhodan entrou.
Rhodan parou
perto dele.
— Não sei —
disse em voz baixa e cautelosa depois de algum tempo — se vale a pena se
entregar exclusivamente à melancolia.
Falava no
idioma arcônida.
Crest deixou
passar algum tempo; depois virou a cabeça e lançou um olhar sério para Rhodan.
— O senhor
não imagina — respondeu — o que esta derrota representa para mim e para todos
os arcônidas. Para alcançarmos a perfeição final só nos faltava o segredo da
vida eterna, nada mais. É um golpe duro ouvir que o grau mais elevado da
evolução nos foi recusado.
Rhodan
refletiu no que devia dizer. Sentou perto de Crest.
— Sairei da
nave — disse em tom sério. — Alguém se instalou em Vênus e vem nos causando
dificuldades.
Crest ergueu
as sobrancelhas brancas e espessas. De resto não deu mostras de qualquer
surpresa ou nervosismo.
— Não sei
quanto tempo demoraremos lá fora — prosseguiu Rhodan. — Por isso quero lhe
pedir um favor.
Crest
conseguiu esboçar um sorriso débil.
— Tem
certeza de que ainda conseguirei levantar desta cadeira e vencer minha
depressão? — perguntou.
Rhodan fez
que sim.
— Tenho
certeza absoluta. Cuide de Thora, sim? Também foi afetada por essa história do
planeta Peregrino; além disso, é muito impetuosa.
Crest ainda
estava sorrindo.
— É claro
que cuidarei — asseverou. — Desde a decolagem não a vejo mais, mas irei vê-la
imediatamente.
Levantou-se.
— Faça um
bom trabalho! — disse, dirigindo-se a Rhodan. — E volte são e salvo.
Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça.
Dois minutos
depois se encontrava na comporta sul e transmitia as últimas instruções aos
seus homens.
O corpo
expedicionário de cinqüenta homens estava subdividido em quatro grupos. Rhodan
confiou o comando dos grupos aos experimentados majores Deringhouse e Nyssen, e
ao tenente Tanner.
Cada homem
envergava um traje transportador arcônida. Tratava-se de um aparelho de
múltiplas aplicações, dotado de um gerador de força gravitacional para a
produção de gravidade artificial. Com isso, podia transportar seu portador pelo
ar. Além disso, um minúsculo dispositivo eletromagnético produzia um campo de deflexão,
que conferia qualidades quase hidromecânicas ao meio circundante, em relação à
propagação de emanações luminosas, de forma que as ondas luminosas contornavam
o campo em forma de linhas de fluxo, tornando invisível o traje e o homem que o
envergasse.
Cada grupo
dispunha de três câmbios. Tratava-se do veículo ultra versátil dos arcônidas,
que se deslocava com igual facilidade em três elementos.
Os homens
estavam equipados com o armamento usual. Só os oficiais portavam pequenos
projetores mentais.
— O inimigo
encontra-se em marcha — explicou Rhodan. — Creio que conheço seu objetivo; mas,
para termos certeza, devemos manter contato ininterrupto com a nave. O que
temos pela frente é nada menos que uma guerra na selva ao estilo antigo. Quem
quer que detenha o comando do outro lado há de saber que os recursos de que dispomos
são superiores aos seus, e planejará sua ação de acordo com esse fato.
Distribuirá seus homens por uma área bastante ampla e travará uma guerra de
guerrilhas, o que nos impedirá tirarmos proveito de nossa superioridade. Apesar
de tudo isso, temos de chegar quanto antes a uma solução final. Não temos tempo
a perder. Portanto, façam um trabalho bem feito.
* * *
O general
Tomisenkow logo constatou que subestimara grandemente as dificuldades da
marcha.
Chanicadse,
um jovem tenente armênio, marchara durante duas horas diante dele, cuidando
para que os galhos, que a selva já voltara a estender por cima da trilha aberta
pelo destacamento de vanguarda, não fustigassem o rosto do general com
demasiada violência.
No início da
terceira hora, quando Chanicadse se dispunha a remover uma trepadeira, um verme
branco, da grossura de uma cocha humana, surgiu da esquerda com uma agilidade
incrível, envolveu o corpo do tenente, e desapareceu com ele na selva.
Antes que
Tomisenkow, seu ajudante e os dois oficiais que o acompanhavam se dessem conta
do que estava acontecendo, o gigantesco verme já havia desenrolado uns vinte
metros de sua repugnante extensão. Sobre o resto, que media outros vinte
metros, dirigiram que nem um bando de loucos os disparos de suas pistolas automáticas;
mas aquela criatura de Vênus pouco se incomodou com as balas.
Chanicadse
continuava desaparecido. Tomisenkow proibiu a perseguição do verme. Não queria
perder mais gente naquela selva impenetrável.
Meia hora
depois ouviram um ruído rítmico e retumbante vindo do oeste. O ajudante
acreditava que se tratasse de um terremoto.
Uma hora
depois viram o que era — ou melhor, estavam em condições de realizar uma
reconstituição aproximada do quadro. Um animal de dimensões fenomenais cruzara
a trilha, colocando uma das pernas exatamente sobre a mesma. A marca do pé era
redonda, e tinha o diâmetro de cinco metros. No centro da mesma viam-se alguns
restos de uniforme, e o solo estava ensopado de sangue. Nem havia possibilidade
de verificar quantos dos homens de Tomisenkow haviam perecido.
Dali a dois
quilômetros a trilha descreveu uma curva acentuada em direção ao sul e conduzia
a um lago estreito e comprido, rodeado pela selva. Um dos dois oficiais não
quis percorrer o caminho longo em torno do lago. Entrou na água, andou um
pedaço e pôs-se a nadar.
Depois de
ter vencido cerca de três quartos da distância, teve que se desviar de um
objeto estranho; parecia um tapete brilhante e colorido, pousado tranqüilamente
na superfície da água. O oficial passou a grande distância. Mas subitamente o
tapete pôs-se em movimento e seguiu-o. De início o nadador não percebeu nada.
Só teve a atenção despertada quando Tomisenkow, o ajudante e o outro oficial o
preveniram aos gritos.
Com amplas
braçadas procurou alcançar a margem oposta. Mas, no lugar exato em que seus pés
alcançaram o fundo do lago, foi alcançado pelo tapete. A água começou a
fervilhar, e o homem mergulhou aos gritos. O tapete passou por uma estranha
transformação. Subitamente não era mais colorido, nem se estendia sobre a água;
tornou-se cinzento e assumiu o formato de uma massa compacta e disforme, cujas
forças evidentemente eram muito superiores às de sua vítima.
Com uma rapidez incrível aquela massa atingiu a
zona de água profunda. Mergulhou. O homem do grupo de Tomisenkow nunca mais foi
visto.

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