terça-feira, 30 de outubro de 2012

P-020 - Ameaça a Vênus - Kurt Mahr [parte 1]


Autor
KURT MAHR


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






Perry Rhodan e Reginald Bell, os expoentes máximos de uma humanidade que avança impetuosamente, foram as únicas pessoas submetidas a um tratamento realizado no planeta Peregrino, que por um espaço de sessenta e dois anos interrompe qualquer processo de envelhecimento. Com isso um velho sonho dos homens encontrou sua realização nesses dois terráqueos: o sonho da imortalidade.
Mas tudo tem seu preço. E esse preço tem de ser pago no momento em que a Stardust-III volta a penetrar no sistema solar terreno.








= = = = = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe supremo da Terceira Potência.

Reginald Bell — Amigo íntimo e confidente de Perry Rhodan.

Coronel Freyt — Privado de toda iniciativa por um bloqueio hipnótico.

General Tomisenkow — Que recebeu ordem de conquistar um planeta.

Major Deringhouse — Que constatou o fato de que as armas automáticas de origem terrena podem representar um perigo real para os produtos da supertécnica arcônida.

Tako Kakuta — O único que pode vencer o bloqueio do cérebro positrônico.

Crest — Que sofreu uma decepção cruel em suas esperanças exageradas.




1



Com ele e ao redor dele, a sala de comando redonda da gigantesca nave passou a ser.
Os quadros de comando e de controle, as telas, as poltronas, os instrumentos de medição emergiram do cinza sem contornos, resultante da transição, e recuperaram as formas usuais.
Perry Rhodan foi o primeiro a superar o choque da transição. Seu cérebro voltou a funcionar praticamente no mesmo instante que o relê do dispositivo positrônico: avaliou a situação e fez com que os olhos absorvessem o quadro exibido pelas telas.
Reginald Bell, que naquele vôo desempenhava as funções de primeiro-oficial e co-piloto, estava caído sobre o painel coberto de instrumentos. Levantou-se com um gemido e, com uma expressão de espanto, lançou os olhos arregalados em torno de si.
— Onde... o que...? Ah, sim! É sempre a mesma coisa.
Durante a transição a atividade neurônica do organismo humano era reduzida a um mínimo. O fim da transição representava para o indivíduo a mesma coisa que o despertar de um sono leve ou de um ligeiro desmaio.
— A posição! — ordenou Rhodan com a voz áspera. — Verificar dados. Fornecer a trajetória de um vôo normal.
Bell começou a se mover. Os comandos de Rhodan também sobressaltaram os outros tripulantes que, profundamente reclinados em suas poltronas, ou seguros às bordas das mesas, ainda estavam empenhados em superar o choque do hiper-salto.
A atividade voltou a tomar conta da central de comando. Os comunicados foram rápidos e precisos.
— Posição: R = 6:10l2 m.  Pi = 81°20”.  Teta = 113°.
Ouviu-se o tilintar característico do registrador positrônico que, no cartão introduzido no aparelho, lançou um ponto vermelho que designava a posição da nave.
— Diferença dos dados: R = -108 m.  Pi =  +11’.  Teta =  nenhuma diferença.
Um sorriso apressado passou pelo rosto de Rhodan.
— Mais exato não é possível — resmungou Reginald Bell.
— Solicitaram-se os dados da trajetória para o prosseguimento do vôo — anunciou um dos oficiais-navegadores, e acrescentou, em tom menos rígido: — Aí estão!...

* * *

A Stardust-III se encontrava a seis bilhões de quilômetros do Sol e se deslocava em linha reta em direção ao sistema, ligeiramente inclinada em relação à trajetória dos planetas.
Saíra do hiperespaço com uma velocidade correspondente a setenta e cinco por cento da velocidade da luz; por ordem de Rhodan a velocidade foi aumentada para noventa e cinco por cento.
A Terra se encontrava do lado oposto do sistema. Segundo os cálculos de trajetória, a nave passaria pelo Sol a uma distância de menos de quarenta bilhões de quilômetros.
Vênus e Marte se encontravam em oposição a esse lado do Sol.
A transição decorrera perfeitamente, com um erro muito inferior ao esperado.
Ninguém se deu ao trabalho de verificar se a oposição entre Marte e Vênus se harmonizava com a data registrada no calendário de bordo, existente acima do assento do piloto.

* * *

— Chamado para a central de Gobi!
O oficial de comunicações ligou o hiper-comunicador e regulou a energia de emissão na potência necessária para fazer a mensagem atingir a Terra.
— Quero falar com o coronel Freyt — completou Rhodan.
Observou o jovem oficial que manipulava o aparelho complicado.
Todos estão cansados”, pensou. “Está na hora de descansarmos. Essa história do Peregrino foi mais do que os rapazes podem agüentar.
Vez por outra olhava para a grande escotilha de entrada. Reginald Bell surpreendeu um de seus olhares e um sorriso amargo se esboçou em seu rosto.
— Não querem aparecer, não é?
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Ainda bem. Por mais que me esforce, sempre tenho a impressão de ter feito um papel feio com os arcônidas.
Bell fez um gesto de desprezo.
— A culpa não é sua. Foi ele quem decidiu que nem Thora nem Crest, nem qualquer outro arcônida, jamais poderá ser submetido ao tratamento com o fisiotron. Ele...
— Que nada! — interrompeu Rhodan em tom exaltado. — É sempre ele. Quase chegamos a acreditar que ele é Deus, não é?
No mesmo instante ouviu-se a voz rouca e carregada de pânico do jovem oficial de informações.
— A Terra não responde!
De um instante para outro Rhodan se esqueceu daquilo que ainda há pouco o deixara nervoso. Deu dois ou três passos e se colocou ao lado do hipercomunicador, examinando os controles do mesmo.
— Está tudo em ordem — disse o oficial — se é nisso que está pensando. O instrumento funciona, e pelo eco pode ver que a mensagem está chegando ao destino. Alguma coisa aconteceu na Terra.
Rhodan percebeu.
— Deixe por minha conta! — gritou para o oficial de comunicações.
O jovem oficial se levantou do assento. Rhodan sentou diante do aparelho. Seus dedos ligeiros passaram pelo teclado e introduziram a mensagem automática no aparelho. Viu o ponto verde na lâmina do oscilador e esperou.
Nada.
A Terra continuava muda.
Outro chamado. Mais uma vez a tecla de chamada automática foi comprimida vigorosamente.
O ponto vermelho.
E logo surgiu a luminosidade tremeluzente na tela.
Viu-se o rosto do coronel Freyt, de início desconfiado, mas logo com os olhos brilhantes e a boca sorridente, quando reconheceu seu interlocutor.
— Ora, chefe! É você mesmo?
Rhodan não estava disposto a enfrentar uma cena de boas-vindas.
— O que houve? Apresente um relato em condições e diga por que tivemos de chamar três vezes antes que você respondesse.
O rosto de Freyt enrijeceu. O sorriso desapareceu. Mas os olhos ainda brilhavam.
— É o coronel Freyt de Galáxia — relatou. — Pronto para receber a mensagem. Não respondi aos primeiros dois chamados porque pensava que se tratasse de uma armadilha.
— Uma armadilha?!
— Sim. Pensei que alguém quisesse descobrir nossa posição. Recebi instruções para ter cautela no uso do hipercomunicador.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Sei. Mas você bem poderia imaginar que voltaríamos a chamar mais ou menos a esta hora, não é?
— Não, não poderia. Não estava em condições de adivinhar que você teria tantas dificuldades com sua viagem de regresso. Isso seria...
— Que dificuldades? — gritou Rhodan. — Foi a viagem de regresso mais tranqüila que já tive.
Freyt não se perturbava com muita facilidade.
— Para evitar mal-entendidos, talvez tivesse sido conveniente que, depois de sua última mensagem, houvesse me informado sobre sua nova posição, desde que as condições permitissem, naturalmente.
Rhodan enrugou a testa.
— Ouça, Freyt, quantas mensagens tenho de lhe enviar num mês para que esteja informado sobre minha situação? Acredito...
— Num mês? — interrompeu Freyt aos gritos. — Afinal, sua última mensagem foi recebida há muito mais de um mês!
Rhodan se sobressaltou.
— Hoje não faz um mês e alguns dias da última mensagem?!
Percebia-se que Freyt começava a duvidar da sanidade mental de Rhodan. Este percebeu os olhos semicerrados de seu interlocutor e começou a compreender que, no entretempo, havia acontecido alguma coisa de que ainda não sabia.
— Hoje — disse Freyt, esforçando-se para conservar a calma — faz quatro anos e meio!
A palestra foi conduzida em tom elevado, de modo que alguns dos oficiais que se encontravam nas proximidades conseguiram acompanhá-la.
Rhodan sentiu o silêncio angustiante que de repente se espalhou pelo recinto. Teve algumas idéias bastante aventurosas enquanto encarava o rosto de Freyt e esperava que os homens que se encontravam atrás dele se acalmassem.
— Muito bem — disse depois de algum tempo. Sua voz parecia tão indiferente que qualquer um se indagaria se um salto de quatro anos e meio não significava nada para ele. — Parece que, por algum motivo, deixamos alguns anos de fora. Como é que as coisas têm sido para você nesse meio tempo?
Freyt respirou aliviado. Receara complicações.
— Mal — respondeu segundo a verdade dos fatos. — A Terra está convencida de que não pode contar mais com você. O Bloco Oriental calcula que isso representa uma chance para ele, enquanto a Federação Asiática e a OTAN continuam a se esforçar para formar um verdadeiro governo mundial. No Bloco Oriental houve uma reviravolta. Tudo indica que mais cedo ou mais tarde acabará havendo uma terceira guerra mundial. Até agora não fiz qualquer esforço para interferir na situação, porque...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
— Está bem, Freyt. Pousaremos no máximo dentro de uma hora, e então veremos o resto.
Interrompeu a comunicação e girou a poltrona de tal forma que olhou para Bell. Este parecia desorientado.
— Onde estivemos todo este tempo? — perguntou.
Rhodan deu de ombros.
— Teremos de quebrar a cabeça sobre isso... mais tarde. Talvez no planeta Peregrino o fluxo do tempo seja diferente. O que importa no momento é que, segundo parece, na Terra muitas coisas não são como deviam ser.

* * *

Alguns minutos depois, a Stardust-III passou pela órbita de Marte. O planeta se encontrava a cerca de vinte milhões de quilômetros de distância.
A nave dispôs-se a cruzar a órbita da Terra — apenas a órbita, pois a própria Terra se encontrava além do Sol — quando Rhodan recebeu um chamado do setor de vigilância.
A voz que transmitiu a mensagem parecia espantada.
— Localizamos uma porção de matéria.
— Qual é a posição?
O interlocutor de Rhodan forneceu os dados.
— Em relação a nós — acrescentou — isso fica além de Vênus.
— Prossiga nas observações! — ordenou Rhodan. — Avise assim que obtiver dados mais precisos.
Desligou o aparelho e fixou a tela que se encontrava à sua frente.
Uma localização de matéria junto a Vênus.
Não havia nada que fosse mais precioso para a Terceira Potência, nada de que Rhodan precisasse tanto como da base em Vênus com suas poderosas armas defensivas e o gigantesco cérebro positrônico.
Será que dessa localização se devia concluir que alguém se preparava para pousar em Vênus?
Um sorriso amargo se esboçou no rosto de Rhodan. Acreditara que poderia regressar ao lar em triunfo. Batera um inimigo poderosíssimo, os tópsidas, encontrara o segredo da vida eterna, adquirira conhecimentos que nem sequer estavam ao alcance de Crest e Thora, os dois arcônidas, e obtivera a garantia do ser do planeta Peregrino de que à Humanidade seria concedido o domínio da galáxia.
Eram motivos mais que suficientes para transformar a viagem de regresso numa marcha triunfal.
O homem do posto de observação voltou a chamar, esbaforido:
— Novos resultados: o que temos pela frente são pelo menos quatrocentos objetos. Trata-se de naves espaciais ou coisa parecida. São bem pequenas. O volume de cada objeto não ultrapassa trinta mil metros cúbicos. Aproximam-se de Vênus. Tudo indica que pretendem pousar lá.
Rhodan se sobressaltou.
— Vamos mudar de rota, meus amigos! — disse em tom áspero. — Voaremos em direção a Vênus. Neste instante a nave entra em estado de rigorosa prontidão.
Sem olhar, abaixou a chave de alarma. O uivo das sereias encheu os longos corredores e as salas da gigantesca nave.
A Stardust-III havia retornado ao seu sistema planetário. A primeira coisa que teria de fazer era abrir os tampos dos compartimentos em que se encontravam as peças de artilharia e mostrar ao inimigo que tipo de adversário teria que enfrentar.

* * *

O coronel Freyt não sabia de nada. Rhodan o informou sobre a mudança de rota, no mesmo instante em que a Stardust-III entrou em sua nova trajetória.
Não parecia muito satisfeito; mas sabia que Vênus era importante.
Na central de Gobi não havia sido observada qualquer movimentação no espaço. Ninguém saberia dizer quem estava fazendo das suas na área de Vênus.
Rhodan era o único que tinha suas suposições. Por enquanto as mesmas ainda lhe pareciam um tanto temerárias; mas não havia outras. Freyt não teria deixado de detectar uma frota de quatrocentas naves que penetrasse no sistema solar terreno, vinda do hiperespaço.
Dali se concluía que a mesma não vinha do hiperespaço.
O coronel Freyt recebeu instruções para se manter na expectativa.

* * *

O general Tomisenkow observou os trabalhos de montagem de sua barraca. Usava roupa leve, de acordo com as condições climáticas daquele mundo. Trajava calças curtas e camisa bem aberta no peito. As ombreiras com as platinas haviam escorregado para a frente e balançavam por cima da clavícula.
Tomisenkow tirou o boné e enxugou o suor da testa. Depois olhou para seu ajudante.
— Que tempo horrível, não é?
O ajudante se apressou em assegurar que o tempo realmente estava horrível.
Vinha de Sebastopol, onde o tempo no verão não era muito diferente daquele lugar. Mas o general Tomisenkow passara a maior parte de sua vida em Ochotsk, e naquele lugar as pessoas sentiam frio até no verão.
Não convinha contrariar o general Tomisenkow, fosse no que fosse.
— Não demoraremos em nos livrar disto — prosseguiu Tomisenkow. — Aí não precisaremos mais enxugar o suor a cada trinta segundos.
Nesse instante, um homem com uma folha de papel na mão saiu correndo por entre as barracas que estavam sendo montadas.
— Uma mensagem! — gritou de longe.
— Uma mensagem para o general.
Tomisenkow se virou.
— Passe para cá — resmungou.
Num instante passou os olhos pelas poucas palavras da mensagem. O ordenança viu que seu rosto ficava vermelho.
— Por que ficam correndo de um lado para outro com este papel? — gritou para seu ordenança. — Por que não atiram?
O ordenança ficou em posição de sentido.
— Vamos, corra! — gritou Tomisenkow.
— Diga-lhes que derrubem aquele objeto.
O ordenança saiu correndo. Tomisenkow pegou seu ajudante pelo braço e arrastou-o consigo.
— Localizaram alguma coisa — explicou. — No início pensaram que se tratasse de um corpo celeste, por causa do tamanho. Acontece que seus movimentos estão sendo dirigidos. Agora querem que eu lhes diga o que devem fazer.
Lançou um olhar matreiro para seu ajudante.
— Sabe o que é? — perguntou.
— Não, general.
— Pois eu lhe digo. Andaram falando muito naquele major americano, o tal Perry Rhodan. Está lembrado? E também naquela nave gigantesca em que anda passeando pelo espaço. Acho que ficou sabendo de nossa missão em Vênus mais cedo do que esperávamos, e agora quer estragar nossa festa.
O ajudante ficou pálido.
— Perry Rhodan?
Tomisenkow confirmou com um vigoroso aceno de cabeça.
— Provavelmente. Sempre desejei um encontro com ele. Parece que chegou a hora.
Naquele instante o solo começou a ressoar. Longe dali, no meio da selva, oito foguetes defensivos se puseram a caminho, subindo com um uivo ao céu encoberto de Vênus.
Tomisenkow riu.
— Ficará admirado com a recepção calorosa que lhe estamos preparando.

* * *

— Pouso dentro de quatro minutos. Verificar os envoltórios protetores.
— Em ordem!
Rhodan olhou em torno. Na sala de comando só havia quatro homens, além dele mesmo e do primeiro-oficial Reginald Bell. Os outros tinham retornado às suas posições junto à tripulação, nos postos de observação e de combate.
O céu nublado de Vênus se estendeu nas telas.
Escureceu.
Mas os aparelhos infravermelhos e de microondas captaram a superfície daquele planeta quente coberto de selvas. Surgiu o delta de um rio, que parecia se aproximar vertiginosamente do observador. Percebeu-se o litoral, uma clareira na selva.
— Localização! Foguetes de combate! Um raio ofuscante surgiu nas telas. Era branco-azulado e doía nos olhos surpresos.
Mas não se ouviu o menor ruído. Imperturbável, a gigantesca nave prosseguia na sua rota.
Bell anunciou com a voz indiferente.
— Explosivo nuclear, detonador de fissão. Potência de um megaton de TNT.
Virou-se e indagou perplexo:
— O que será isso?
Rhodan sorriu, divertido. Outro raio passou pela tela de imagem.
— O que poderá ser isso, que dispara foguetes antiquados com um poder explosivo desses contra uma nave espacial?
Deixou a resposta por conta de Bell. Chamou o encarregado do posto de observação e soube que as trajetórias dos foguetes haviam sido fixadas até o ponto de origem. Vinham do continente polar norte, de um ponto situado pouco além do litoral. Os postos de combate esperaram em vão pela ordem de abrir fogo. Rhodan decidiu outra coisa.
Assumiu a direção da Stardust-III e desceu quase ao nível do mar. Depois deslocou-a em alta velocidade em direção ao litoral do continente norte.
Perry Rhodan observou a superfície imóvel do oceano e viu a luminosidade azulada que envolvia as capas protetoras da nave, já que a Stardust-III desenvolvia velocidade tamanha que o impacto das capas protetoras ionizava as moléculas do ar e fazia com que brilhassem.
Na luz turva do meio-dia de Vênus via-se o traço escuro da costa longa e pouco recortada.
Atrás dela começava a selva.

* * *

Tomisenkow praguejou.
— Dispare outra salva! — gritou para o oficial de armas. — Seja qual for a capa protetora, basta bombardeá-la o suficiente para fazê-la ceder.
Acontece que Tomisenkow não tinha a menor idéia sobre o que seria uma sobrecarga para as capas protetoras da Stardust-III. Os cem foguetes nucleares de que dispunha nada representavam; nem mesmo mil.
O oficial de armas pôs-se em movimento. Através do pequeno transmissor portátil deu ordens lacônicas ao pessoal que equipava as rampas de foguetes.
Foi quando os homens encarregados do radar anunciaram outra surpresa.
— O inimigo vem em nossa direção. A velocidade é de cerca de quinze quilômetros por segundo... A nave é enorme!
A bola chamejante foi crescendo. No momento em que acreditava que dentro de um instante se encontraria por cima do acampamento, Tomisenkow percebeu como tinha subestimado seu tamanho.
Continuou a crescer por mais três ou quatro segundos. Depois se encontrava diante do acampamento como se fosse uma montanha que cuspia fogo, passou por cima e...
Então veio o fim do mundo.
Os tímpanos de Tomisenkow deixaram de funcionar quando foram atingidos pelo ruído ensurdecedor do primeiro choque. Não viu mais nada, porque os relâmpagos o cegaram. Mas sentiu nitidamente que uma força irresistível fez com que perdesse o apoio dos pés, ergueu-o e atirou-o para longe. Sentiu uma chicotada no rosto quando foi arrastado por entre os fios de um telefone de campanha, e pouco depois o impacto doloroso sobre uma aresta dura. A pancada expeliu o ar dos seus pulmões. Fez um esforço desesperado para se erguer sobre os joelhos. Depois perdeu a consciência.
Quando recuperou os sentidos, não tinha a menor idéia sobre o tempo que se passara. Seu relógio de pulso havia desaparecido.
Levantou-se. Apesar da dor aguda que sentia no peito, respirou profunda, mas cautelosamente, e lançou os olhos em torno.
O que viu ultrapassou seus piores temores.
O acampamento não existia mais.
A selva estava modificada. Uma faixa de vários quilômetros de largura se abria em meio a ela. Começava ao sul, passava pelo lugar em que fora montado o acampamento, pelas posições de embasamento dos foguetes e pelo campo de pouso da frota espacial e prosseguia em direção ao norte.
Era uma reta perfeita, que parecia ter sido traçada por um gigantesco rolo compressor.
Tomisenkow constatou, admirado, que havia situações em que era perigoso ceder aos sentimentos. Movimentou seu corpo de touro e pôs-se a examinar as pessoas que com ele se encontravam na pequena clareira quando o desastre desabou sobre todos.
O oficial de armas estava morto. Mas no ajudante surgiram sinais de vida, depois que Tomisenkow o sacudira bastante.
Após algum tempo abriu os olhos e encarou o general, todo perplexo.
— Levante! — gritou Tomisenkow. Entendia perfeitamente suas próprias palavras; mas o ajudante sacudiu a cabeça, confuso, e passou as mãos pelas orelhas.
Tomisenkow sabia o que fazer numa situação dessas. Comprimiu a testa contra a do ajudante e repetiu a ordem:
— Levante!
Conseguiu o efeito desejado. Os sons foram transmitidos através da vibração dos ossos do crânio. O ajudante entendeu e se levantou de um pulo.
Tomisenkow fez um movimento amplo do braço em direção ao acampamento. Depois saiu andando. O ajudante seguiu na direção oposta.
A procura pelos sobreviventes teve início.
O general Tomisenkow trouxera dez mil homens para Vênus. Era uma divisão de elite.
Ainda encontraram oito mil. Destes, seis mil estavam gravemente feridos, e os restantes mais ou menos machucados.
Todos tinham perdido a audição. Quando tinham algo a dizer, comunicavam-se por escrito ou comprimiam as testas uma contra a outra.
Das quinhentas naves com que a divisão pousara só oitenta continuavam de pé. O resto fora derrubado pelo torvelinho; algumas chegaram mesmo a ser arrastada e atiradas em meio à selva mais ao norte.
O rastro da tempestade tinha uns dez quilômetros de largura. No centro, havia uma faixa queimada de pouco menos de um quilômetro de largura. A terra derretida irradiava um calor insuportável. No momento, Tomisenkow não poderia atravessar essa faixa para entrar em contato com os homens que se encontravam do lado oposto.
— O que foi isso?
Era esta a única pergunta formulada naquelas horas.
O único que tinha uma idéia clara da situação era Tomisenkow. Tinha coisa mais importante a fazer do que informar seus homens de como subestimara o poderio de Rhodan. O acampamento — ou melhor, o que ainda sobrava dele — teria de ser transferido. Era de recear que Rhodan voltasse, e Tomisenkow ainda não estava convencido de que teria de capitular.
As selvas de Vênus eram muito extensas. Nelas poderiam ser escondidas centenas de divisões, de tal forma que nenhum inimigo conseguiria encontrá-las.
Tomisenkow deu prova de seu talento de organizador. Muito embora perto de seis mil de seus homens estivessem tão gravemente feridos que não conseguiam se deslocar por suas próprias forças, e embora se tivesse de consumir o triplo do tempo usual para fazer com que os ouvidos ensurdecidos entendessem qualquer comando, o início da transferência não demorou mais de duas horas a partir da catástrofe.
As naves que ainda se encontravam intactas transportaram a maior parte dos homens gravemente feridos. O resto foi carregado pela selva sobre macas grosseiras
Para os homens que se encontravam além da faixa de terra incandescente foram deixadas indicações sobre o lugar ao qual teriam de se dirigir.
O destino de Tomisenkow era uma cordilheira situada ao noroeste. Não distava mais de duzentos quilômetros do acampamento; mas, face aos meios primitivos de locomoção de que dispunham, Tomisenkow calculou que levariam pelo menos uma semana do tempo terreno para atingi-la.
Foi o último a abandonar o acampamento, juntamente com o ajudante e alguns oficiais de elevada patente. A evacuação decorrera sem incidentes e não demorara mais que dez horas. Nesse meio tempo os tímpanos haviam recuperado parte de sua capacidade, e os homens podiam conversar, embora aos gritos.
A curiosidade e a insegurança dos homens crescera tanto que Tomisenkow julgou preferível romper seu silêncio e informar os oficiais sobre o que realmente havia acontecido.
— Suponho que todos tenham notado aquela esfera — gritou. — Não existe a menor dúvida de que era a nave espacial que Rhodan usa em suas grandes viagens.
— Mas tinha pelo menos um quilômetro de altura! — objetou alguém.
Tomisenkow balançou a cabeça.
— Mais ou menos. O que nos atingiu não foi nenhuma arma especial. O posto de radar informou no último instante que a nave se deslocava a uma velocidade de cerca de 15 km/s. Isso é quase cinco quilômetros mais que a velocidade de um meteorito que penetra na atmosfera terrestre, vindo do espaço cósmico. O ar não tem tempo de se desviar de um objeto desses. É comprimido. E a compressão é tão intensa que faz com que as moléculas emitam radiações ou sejam mesmo ionizadas. Ao mesmo tempo a compressão do ar produz uma elevação instantânea e considerável da temperatura.
Fez um gesto vago em direção à faixa de terra incinerada e continuou a gritar:
— Vejam! Uma pergunta permanece em aberto: Como é que Rhodan consegue que o ar se torne incandescente, e sua nave não? Não posso fornecer qualquer informação exata a este respeito. Sabemos que a nave está provida de campos energéticos protetores de elevada potência. Provavelmente os mesmos estão em condições de absorver os efeitos nocivos de um vôo desse tipo.
Fez uma pausa, aguardando perguntas. Não houve nenhuma.
— Devemos nos apressar — sugeriu Tomisenkow. — Rhodan não se fará esperar por muito tempo. Sabe perfeitamente quanto tem a perder em Vênus. Vamos lhe preparar uma recepção bem calorosa!

* * *

A uma velocidade de 15 km/s o olho humano não tem capacidade de perceber e fixar detalhes.
Rhodan não tinha a menor idéia sobre o lugar e o momento em que a Stardust-III passara por cima do acampamento inimigo. Mas os instrumentos automáticos haviam tirado fotografias, e não haveria nenhuma dificuldade em obter todos os dados interessantes a partir das mesmas.
A bordo da nave ainda se procurava adivinhar quem teria sido o inimigo que conseguira pousar em Vênus, tão perto da base preciosa que se encontrava naquele planeta.
A única pessoa que poderia dar informações a este respeito permanecia num mutismo total. Aos poucos foi desacelerando a imensa nave, e numa curva suave dirigiu-a para o complexo montanhoso sob cujas encostas rochosas se situava a base.
Mas subitamente a Stardust-III foi detida a cerca de quinhentos quilômetros da mesma. O efeito foi violento, mas não representou qualquer perigo para a nave. Os neutralizadores gravitacionais absorveram o choque produzido pela frenagem. Dentro de poucos segundos a nave se imobilizou pouco acima da selva úmida.
Um tanto cansado, Rhodan se reclinou na poltrona. O nervosismo se espalhou em torno dele. Reginald Bell corria de um instrumento para outro, o telegrafista fez tentativas frenéticas para transmitir o sinal codificado em hiperondas ao grande cérebro positrônico situado no interior da fortaleza, e o terceiro-oficial indagou junto ao centro de comando técnico se toda a aparelhagem estava em ordem.
Nenhuma dessas providências produziu o menor resultado.
Finalmente Rhodan deu o comando:
— Descer! Vamos pousar!
Bell olhou-o perplexo.
— O que houve? Por que não podemos entrar?
— Porque fomos cautelosos demais — respondeu Rhodan com a voz cansada.
No momento se limitou a essa resposta. Observou atentamente como a Stardust-III descia em direção ao solo. A floresta densa, de cerca de quarenta metros de altura, desmoronou como se fosse de capim, sob o peso da nave de oitocentos metros de altura. Os suportes hidráulicos foram escamoteados e afundaram vários metros no solo macio da selva. Uma luz vermelha se acendeu no painel, e um zumbido tranqüilizador anunciou:
— Pousamos!
Rhodan se levantou e foi até o telecomunicador de bordo.
— Peço aos senhores oficiais que compareçam à sala de comando. Tenho uma declaração a fazer.
A ordem foi cumprida imediatamente. De um minuto para outro a sala de comando se encheu. A Stardust-III tinha uma tripulação de quinhentos homens, e menos de quarenta destes eram oficiais. Além disso, havia vários mutantes que, segundo o regulamento da Terceira Potência, ocupavam a posição de oficiais.
A declaração de Rhodan, de que a Stardust-III retornara ao sistema natal quatro anos e meio depois do tempo calculado, provocou um espanto considerável. Mas Rhodan se limitou a transmitir a informação relativa ao fato; não forneceu qualquer comentário, muito menos uma explicação.
Ainda relatou o que soubera do coronel Freyt sobre a evolução dos acontecimentos políticos na Terra.
— Quando retornarmos à Terra — disse — veremos um quadro diferente daquele que temos na lembrança. Ao que parece quatro anos e meio foram suficientes para afastar ao menos parte da Humanidade do caminho certo. Teremos de tomar providências para que essa série de equívocos não produza danos ao nosso planeta. Mas, antes disso, temos de enfrentar outro problema. Todos os nossos planos, na parte em que dizem respeito à Humanidade e ao seu desenvolvimento no quadro galáctico, dependem em boa parte da nossa capacidade de em qualquer tempo, hoje ou dentro de algumas dezenas de milhares de anos, reencontrarmos o planeta Peregrino. Com base no trecho da órbita de que dispomos, o grande cérebro positrônico instalado em nossa base em Vênus pode calcular a órbita de Peregrino até os tempos mais longínquos.
“Por isso uma das nossas tarefas preferenciais consistiria em introduzir no dispositivo positrônico os dados sobre o trecho conhecido da órbita de Peregrino, e isso com a maior urgência, já que a cada minuto que passa o cálculo se torna mais difícil. E essa tarefa se tornou ainda mais premente, já que um inimigo que aparentemente sabe o que quer vem realizando esforços para se apoderar das instalações existentes em nossa base de Vênus.”
Fez uma pausa e lançou os olhos para diante de si, como se tivesse de refletir cuidadosamente sobre as palavras que iria proferir.
— A base positrônica foi regulada de maneira a não produzir dano a qualquer ser humano. Quando efetuei essa regulagem contei com a possibilidade de que num vôo a Vênus pudesse acontecer alguma coisa a um de nós que o impedisse de transmitir o sinal convencionado em código. Com a regulagem anterior o cérebro positrônico teria partido automaticamente ao ataque. Isso tinha de ser impedido. Para ser franco, nunca contei com a possibilidade de que algum ser humano fosse pousar em Vênus contra nossa vontade.
— “Mas tudo indica que foi precisamente o que aconteceu. Não há dúvida de que os numerosos pontos que se deslocavam a pequena velocidade, localizados pelos instrumentos de vigilância nas proximidades da base de Vênus, não são outra coisa senão naves espaciais de propulsão nuclear, construídas na Terra, fora do território da Terceira Potência. Os foguetes com que fomos atacados também indicam que os invasores provêm da Terra. Por fim, o simples fato de que o cérebro positrônico não impediu o pouso constitui a melhor prova de minha suposição.
“Face ao relato do coronel Freyt, não há como duvidarmos de que uma poderosa frota espacial do Bloco Oriental pousou em Vênus para se apoderar da base. O cérebro positrônico ainda fez outra coisa. O bombardeio da Stardust-III com foguetes nucleares foi um acontecimento que na memória do cérebro está armazenado sob a classificação de fato extraordinário e inquietante. Transmiti ordens expressas ao cérebro para que nessa hipótese toda a área da base seja fechada hermeticamente, de tal forma que ninguém possa penetrar na mesma.
“Reconheço, cavalheiros, que efetuei essa regulagem num acesso de cautela excessiva. Mas peço-lhes que considerem que um caso como o presente não poderia ter sido previsto pela fantasia mais extravagante. O fato é que nem mesmo nós podemos romper o campo protetor da base. Devemos nos empenhar em reduzir o invasor à impotência o quanto antes e convencer o cérebro positrônico de que não existe mais qualquer perigo em Vênus.”
Lançou um olhar penetrante para os oficiais.
— Quanto antes, é o que acabo de dizer. Não é difícil compreender que daqui a umas três semanas da contagem de tempo terrena será impossível até mesmo para o grande cérebro positrônico calcular toda a órbita do planeta Peregrino com base no trecho conhecido. Peço-lhes que esclareçam os suboficiais e a tripulação sobre a nova situação e aguardem minhas instruções. Obrigado, cavalheiros.
A Stardust-III encontrava-se diante de um problema difícil, mas não insolúvel.
Na sala de comando só permaneceram Rhodan, Bell e os dois oficiais que ocupavam seus lugares nos postos de telegrafia e de direção.
Bell sacudiu a cabeça.
— Para falar com franqueza — disse, contrariado — já não entendo mais nada. Você acha que foi acertado confessar um erro seu perante os subordinados?
Estavam sentados diante do quadro de pilotagem. O posto de telegrafia e de direção se encontravam a uma distância suficiente para que pudessem conversar à vontade.
Rhodan riu.
— Por que não? Cometi um erro, não cometi?
— Não diria que foi um erro. Todo mundo teria chamado você de idiota se, naquele tempo, tivesse manifestado a idéia de tomar providências para impedir que o Bloco Oriental pousasse em Vênus com uma frota de invasão.
— Acontece que fizeram isso mesmo. Foi um erro meu. Deveria ter considerado todas as possibilidades.
Bell estendeu as mãos, com a palma para cima.
— Está bem. Mas há outra coisa que não entendo.
— O que é?
— Freyt devia estar informado sobre os acontecimentos que se verificaram na Terra. Por que não fez nada?
Rhodan contorceu o rosto.
— Também foi minha culpa — respondeu. — Freyt está sujeito a um bloqueio hipnótico. Não está em condições de exercer qualquer influência sobre a política do Ocidente. Apliquei esse bloqueio nele porque não tinha certeza de que não acabaria acalentando certas ambições. Poderia dispor irrestritamente do potencial técnico da Terceira Potência. Era bem possível que caísse em tentação.
— É por isso que está sujeito ao bloqueio.
— E é por isso que não podia fazer nada quando houve uma reviravolta no Bloco Oriental e este se desviou do bom caminho.
Reginald Bell acenou com a cabeça.
— Pois bem — disse depois de algum tempo. — Naquela época ninguém contaria com a possibilidade de que só depois de quatro anos e meio voltássemos a aparecer, não é? Se não fosse assim, você teria agido de outra forma.
Rhodan acompanhou as riscas de soalho com a ponta da bota.
— Não procure desculpar meu procedimento — recomendou a Bell. — Cometi um erro ao tomar todas as decisões de acordo com minha cabeça e a capacidade restrita de raciocínio de que disponho. No futuro terei de conversar com maior freqüência com nosso grande cérebro positrônico. Suas previsões são mais objetivas que as minhas.
Bell lhe lançou um olhar sério.
— E a frota de invasão? Por que não a eliminamos pura e simplesmente?
Rhodan respondeu em tom hesitante:
— Em primeiro lugar repugna ao meu gênio eliminar alguém pura e simplesmente, e depois isso não será possível. Se o chefe da frota tiver alguma inteligência, terá abandonado imediatamente o lugar em que se encontrava. E nesta selva teremos dificuldade até mesmo em localizá-lo.
Bell se sobressaltou.
— Além disso deve ter espalhado seus homens a tal ponto que um bombardeio concentrado não nos adiantará mais nada. Você não acha?
Rhodan acenou com a cabeça; estava muito sério.
Bell refletiu por algum tempo.
— Quer dizer que teremos de travar uma pequena guerra na selva?
Rhodan sorriu.
— Se for pequena — disse com a voz baixa — poderemos nos dar por satisfeitos.

2
A franqueza que Rhodan demonstrou perante seus subordinados produziu um efeito que era exatamente o oposto do que Reginald Bell previra.
Era a primeira vez em toda a história da Terceira Potência que Rhodan tinha motivo para confessar um erro, porque era a primeira vez que cometia um.
Seus subordinados — os oficiais, suboficiais e tripulantes — que até então o veneravam graças ao seu saber superior e à sua capacidade extraordinária, agora sentiam que precisava deles, porque, apesar de seus dotes geniais, era um homem como qualquer outro.
Pela primeira vez a veneração, que sempre sabia guardar distância, era acompanhada de um forte sentimento de comunhão.
Qualquer ordem que Rhodan desse para preparar a ação contra a frota invasora era executada depressa, mas cuidadosamente. Tudo engrenava exatamente. Duas horas após o pouso, as fotografias tiradas durante o vôo pelos instrumentos automáticos de observação haviam sido interpretadas a tal ponto que Rhodan podia preparar seus planos táticos. Dali a mais duas horas soubera através de sondas de espionagem de que forma o general Tomisenkow reagira ao golpe, e sete horas após o pouso uma força expedicionária com o efetivo inicial de cinqüenta homens, totalmente armado e equipado, estava pronta a sair pelas comportas.
O próprio Rhodan assumiu o comando.
Mas antes teve uma palestra com Thora e Crest, os dois arcônidas.

* * *

A finalidade que levara os dois arcônidas a penetrar nessa área da galáxia a bordo de um cruzador espacial — um dos últimos que a raça arcônida, decadente, conseguira pôr a caminho — fora a procura do mundo da vida eterna, isto é, de um mundo cujos habitantes conheciam o segredo da conservação das células.
O cruzador pousara na lua terrestre em virtude de avarias, justamente no tempo em que o primeiro foguete guiado por homens se punha a caminho da Lua.
O encontro era inevitável, e a constelação das circunstâncias fez com que os tripulantes da velha Stardust, Rhodan, Bell e o Dr. Manoli, se ligassem a Crest e Thora, sobreviventes da nave arcônida, para a vida e a morte.
Na Terra impediram, através do poderio proporcionado pelos recursos arcônidas, a irrupção da terceira guerra mundial, e se constituíram em Terceira Potência no deserto de Gobi.
Do ponto de vista de Rhodan, a ligação de início se inspirara unicamente na finalidade que tinha em vista. Seus objetivos eram muito elevados: a união da Humanidade e a consolidação da posição da Terra no seio da galáxia. Os arcônidas com sua técnica superior apareceram em boa hora.
Também da parte de Crest e de Thora no princípio a perspectiva de uma vantagem pesava mais que qualquer simpatia. Rhodan era um homem ativo. Depois de ter absorvido o saber arcônida através de um processo de treinamento hipnótico, estaria em condições de montar uma indústria capaz de construir uma nave de grande alcance do tipo arcônida. Com uma nave dessas, Crest e Thora poderiam prosseguir na sua viagem em busca do mundo da vida eterna ou retornar a Árcon, seu mundo natal.
Houve complicações. Inteligências estranhas atacaram a Terra. A Terceira Potência conseguiu repeli-las. A Terceira Potência ainda travou uma guerra no sistema Vega, e a Stardust-III, uma nave inimiga apresada, empreendeu uma viagem longa e arriscada à procura do mundo em cuja busca Thora e Crest partiram há anos de Árcon.
Peregrino — era este o nome do planeta da vida eterna.
Um mundo artificial, que seu construtor forçara a descrever uma órbita extravagante em torno de trinta sistemas solares.
Rhodan soube do segredo, e soube ao mesmo tempo que, no relógio do Universo, havia soado a hora final para os arcônidas. Para eles não haveria qualquer renovação celular. A vida eterna lhes foi negada.
Crest e Thora haviam colocado Rhodan na pista do segredo e agora, que o haviam descoberto juntos, a revelação lhes foi recusada.
Rhodan obteve a solução — Rhodan, o herdeiro do império galático.

* * *

Crest estava só, no seu camarote.
Reclinara-se profundamente na macia poltrona articulada e fitava o teto. Não se mexeu quando Rhodan entrou.
Rhodan parou perto dele.
— Não sei — disse em voz baixa e cautelosa depois de algum tempo — se vale a pena se entregar exclusivamente à melancolia.
Falava no idioma arcônida.
Crest deixou passar algum tempo; depois virou a cabeça e lançou um olhar sério para Rhodan.
— O senhor não imagina — respondeu — o que esta derrota representa para mim e para todos os arcônidas. Para alcançarmos a perfeição final só nos faltava o segredo da vida eterna, nada mais. É um golpe duro ouvir que o grau mais elevado da evolução nos foi recusado.
Rhodan refletiu no que devia dizer. Sentou perto de Crest.
— Sairei da nave — disse em tom sério. — Alguém se instalou em Vênus e vem nos causando dificuldades.
Crest ergueu as sobrancelhas brancas e espessas. De resto não deu mostras de qualquer surpresa ou nervosismo.
— Não sei quanto tempo demoraremos lá fora — prosseguiu Rhodan. — Por isso quero lhe pedir um favor.
Crest conseguiu esboçar um sorriso débil.
— Tem certeza de que ainda conseguirei levantar desta cadeira e vencer minha depressão? — perguntou.
Rhodan fez que sim.
— Tenho certeza absoluta. Cuide de Thora, sim? Também foi afetada por essa história do planeta Peregrino; além disso, é muito impetuosa.
Crest ainda estava sorrindo.
— É claro que cuidarei — asseverou. — Desde a decolagem não a vejo mais, mas irei vê-la imediatamente.
Levantou-se.
— Faça um bom trabalho! — disse, dirigindo-se a Rhodan. — E volte são e salvo.
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça.
Dois minutos depois se encontrava na comporta sul e transmitia as últimas instruções aos seus homens.
O corpo expedicionário de cinqüenta homens estava subdividido em quatro grupos. Rhodan confiou o comando dos grupos aos experimentados majores Deringhouse e Nyssen, e ao tenente Tanner.
Cada homem envergava um traje transportador arcônida. Tratava-se de um aparelho de múltiplas aplicações, dotado de um gerador de força gravitacional para a produção de gravidade artificial. Com isso, podia transportar seu portador pelo ar. Além disso, um minúsculo dispositivo eletromagnético produzia um campo de deflexão, que conferia qualidades quase hidromecânicas ao meio circundante, em relação à propagação de emanações luminosas, de forma que as ondas luminosas contornavam o campo em forma de linhas de fluxo, tornando invisível o traje e o homem que o envergasse.
Cada grupo dispunha de três câmbios. Tratava-se do veículo ultra versátil dos arcônidas, que se deslocava com igual facilidade em três elementos.
Os homens estavam equipados com o armamento usual. Só os oficiais portavam pequenos projetores mentais.
— O inimigo encontra-se em marcha — explicou Rhodan. — Creio que conheço seu objetivo; mas, para termos certeza, devemos manter contato ininterrupto com a nave. O que temos pela frente é nada menos que uma guerra na selva ao estilo antigo. Quem quer que detenha o comando do outro lado há de saber que os recursos de que dispomos são superiores aos seus, e planejará sua ação de acordo com esse fato. Distribuirá seus homens por uma área bastante ampla e travará uma guerra de guerrilhas, o que nos impedirá tirarmos proveito de nossa superioridade. Apesar de tudo isso, temos de chegar quanto antes a uma solução final. Não temos tempo a perder. Portanto, façam um trabalho bem feito.

* * *

O general Tomisenkow logo constatou que subestimara grandemente as dificuldades da marcha.
Chanicadse, um jovem tenente armênio, marchara durante duas horas diante dele, cuidando para que os galhos, que a selva já voltara a estender por cima da trilha aberta pelo destacamento de vanguarda, não fustigassem o rosto do general com demasiada violência.
No início da terceira hora, quando Chanicadse se dispunha a remover uma trepadeira, um verme branco, da grossura de uma cocha humana, surgiu da esquerda com uma agilidade incrível, envolveu o corpo do tenente, e desapareceu com ele na selva.
Antes que Tomisenkow, seu ajudante e os dois oficiais que o acompanhavam se dessem conta do que estava acontecendo, o gigantesco verme já havia desenrolado uns vinte metros de sua repugnante extensão. Sobre o resto, que media outros vinte metros, dirigiram que nem um bando de loucos os disparos de suas pistolas automáticas; mas aquela criatura de Vênus pouco se incomodou com as balas.
Chanicadse continuava desaparecido. Tomisenkow proibiu a perseguição do verme. Não queria perder mais gente naquela selva impenetrável.
Meia hora depois ouviram um ruído rítmico e retumbante vindo do oeste. O ajudante acreditava que se tratasse de um terremoto.
Uma hora depois viram o que era — ou melhor, estavam em condições de realizar uma reconstituição aproximada do quadro. Um animal de dimensões fenomenais cruzara a trilha, colocando uma das pernas exatamente sobre a mesma. A marca do pé era redonda, e tinha o diâmetro de cinco metros. No centro da mesma viam-se alguns restos de uniforme, e o solo estava ensopado de sangue. Nem havia possibilidade de verificar quantos dos homens de Tomisenkow haviam perecido.
Dali a dois quilômetros a trilha descreveu uma curva acentuada em direção ao sul e conduzia a um lago estreito e comprido, rodeado pela selva. Um dos dois oficiais não quis percorrer o caminho longo em torno do lago. Entrou na água, andou um pedaço e pôs-se a nadar.
Depois de ter vencido cerca de três quartos da distância, teve que se desviar de um objeto estranho; parecia um tapete brilhante e colorido, pousado tranqüilamente na superfície da água. O oficial passou a grande distância. Mas subitamente o tapete pôs-se em movimento e seguiu-o. De início o nadador não percebeu nada. Só teve a atenção despertada quando Tomisenkow, o ajudante e o outro oficial o preveniram aos gritos.
Com amplas braçadas procurou alcançar a margem oposta. Mas, no lugar exato em que seus pés alcançaram o fundo do lago, foi alcançado pelo tapete. A água começou a fervilhar, e o homem mergulhou aos gritos. O tapete passou por uma estranha transformação. Subitamente não era mais colorido, nem se estendia sobre a água; tornou-se cinzento e assumiu o formato de uma massa compacta e disforme, cujas forças evidentemente eram muito superiores às de sua vítima.
Com uma rapidez incrível aquela massa atingiu a zona de água profunda. Mergulhou. O homem do grupo de Tomisenkow nunca mais foi visto.

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