Do outro
lado da faixa de terra derretida e calcinada, que a Stardust-III parecia ter
traçado a régua em meio à selva, alguns homens da divisão de defesa de foguetes
do general Tomisenkow conseguiram ficar vivos.
De início, o
destacamento espacial de desembarque contara com mais de duzentos homens. Agora
sobravam vinte e oito.
Das dez
rampas de lançamento apenas duas continuavam de pé. O suprimento de foguetes
nucleares se reduzira de cem para cinco.
O major
Lysenkow assumiu o comando dos vinte e oito sobreviventes. Era um homem
relativamente jovem, que punha todo seu empenho em mostrar aos homens que
mantinha o domínio perfeito da situação.
Também a
leste da faixa devastada, a nave em sua rápida passagem afetara os tímpanos dos
homens. Lysenkow teve de se comunicar por escrito com seus homens; não lhe ocorreu
a idéia brilhante de Tomisenkow.
Depois de
algumas horas, quando acreditava estar em condições de manejar um dos
transmissores portáteis, procurou entrar em contato com o general. Até então os
vinte e oito homens só estavam ocupados em tratar das feridas, apurar a
radiatividade da faixa derretida e, de tempos em tempos, medir a temperatura do
solo na mesma.
Tomisenkow
não respondeu, e nenhuma outra pessoa acusou o recebimento do chamado.
Lysenkow se
sentiu terrivelmente perturbado. Levou bastante tempo até que lhe ocorreu que
provavelmente Tomisenkow teria abandonado o acampamento, deixando no local
alguma indicação sobre seu paradeiro atual.
Lysenkow não
gostou da idéia de aguardar até que a faixa calcinada esfriasse a ponto de não
representar qualquer perigo. Eram cento e oitenta horas, tempo local; dentro de
dez ou doze horas ficaria escuro.
Lysenkow
participara do bombardeio infrutífero da nave inimiga; por isso estaria em
condições de imaginar mais ou menos o que tinha acontecido, mesmo que não
soubesse explicar certos detalhes. Mas calculava que dentro de algum tempo o
inimigo voltaria a atacar e mandou preparar as rampas de disparo que ainda
restavam.
Depois, ficaram
à espera.
* * *
O major
Deringhouse recebera instruções para verificar de ambos os lados da faixa
calcinada, para apurar se ainda havia restos das tropas inimigas escondidos na
área em que antes se encontrava o acampamento.
Deringhouse
se afastara do destacamento com dois dos seus câmbios; passando rente à copa
das árvores, avançou na direção sul.
Encontrou a
parte oeste do acampamento vazia e abandonada, com exceção dos cadáveres de
alguns homens vitimados pelo furacão.
Passou pela
faixa devastada a cerca de quinhentos metros de altitude. Ao pôr do sol os dois
veículos pousaram junto a uma das rampas de foguete escondidas na folhagem, que
o furacão derrubara.
Deringhouse
examinou a rampa; a única coisa interessante que encontrou foi uma inscrição em
letras cirílicas existente no quadro de comando eletrônico, que provava se
tratar de uma expedição do Bloco Oriental.
O que ainda
dava que pensar era o fato de que a rampa — se porventura não tivesse sido
atirada para aquele local em virtude do deslocamento do ar — se encontrava em
meio à folhagem, com um campo de tiro mínimo. Poderia haver mais uma dúzia
dessas posições de disparo; mas sem encostar o nariz nelas não seria possível
descobri-las.
Deringhouse
dispunha de um único mutante em seu grupo. Era Son Okura. O japonês franzino
com os grandes óculos de aro de tartaruga possuía uma faculdade estranha. Seus
olhos sabiam captar uma faixa muito mais ampla do espectro eletromagnético que
os de um homem comum. Son Okura via o infravermelho com suas ondas longas, da
mesma forma que o azul radiante do céu terreno. Estava em condições de captar
até mesmo certa faixa de luz ultravioleta.
Naquele
instante era da maior importância para Deringhouse, porque este, apesar da
escuridão que irrompia, não quis assumir o risco de usar os holofotes de luz
infravermelha, que poderiam ser detectados pelos instrumentos do inimigo. Mas,
como o calor do dia se mantivesse, úmido e opressivo, sob a cobertura espessa
das folhas, os olhos de Okura mantinham toda sua eficiência. Para ele, de noite
a floresta continuava tão iluminada como uma paisagem coberta pelos raios do
sol.
Outro
auxiliar de Deringhouse consistia nos pequenos localizadores de microondas, que
todo câmbio conduzia a bordo. Um dos homens estava pesquisando os arredores do
local de pouso. Pequeninos pontos verdes começavam a emitir uma débil
luminosidade sempre que o feixe de ondas atingia a massa metálica de outras
rampas de lançamento.
Outro homem
anotava os resultados num mapa provisório.
Enquanto
Deringhouse ainda aguardava o resultado, o homem que manejava o dosímetro
anunciou um nível anormal de radiatividade. Deringhouse pegou um pequeno
contador e, acompanhado de dois homens, saiu em busca da fonte de radiações. Um
dos dois homens era Son Okura.
Aproximaram-se
da faixa de terra calcinada.
Subitamente
Okura parou e ergueu a mão. Deringhouse permaneceu imóvel. O ruído produzido
por uma série de pisadas e estalos se aproximou da esquerda. Deringhouse viu
uma sombra comprida e achatada, que atravessou a folhagem a uns vinte metros de
distância.
Desapareceu
na direção norte. Ao que parecia não percebera o grupo dos três homens que se
mantinham numa expectativa ansiosa, ou não se interessava pelo mesmo.
Prosseguiram
em sua marcha. Para vencer obstáculos maiores, valiam-se dos geradores
antigravitacionais de seus trajes. Finalmente chegaram a um ponto em que o
contador acusava uma emanação tão elevada que Deringhouse achou preferível não
prosseguir.
A uns cem
metros de distancia, na faixa da selva que o furacão escaldante da Stardust-III
reduzira a cinzas, Okura pôde distinguir um conjunto de objetos de cor escura;
provavelmente tratava-se dos remanescentes de um edifício. Não havia a menor
dúvida de que as radiações provinham dali. Deringhouse estava praticamente
convencido de que os homens do Bloco Oriental haviam armazenado parte de seu
armamento nuclear naquele edifício, e que esse armamento fora atingido pela
tempestade de fogo.
Dispôs-se a
regressar. Mas nesse instante Okura, num gesto de advertência, colocou a mão sobre
seu braço.
— Psiu!...
Aguçaram os
ouvidos. Ouviram sons martelantes, vindos do sudoeste, trazidos pelo vento
causado pelo calor da faixa de terra queimada. Deringhouse não sabia que ruído
era esse, mas Okura logo descobriu.
— É um
facão! — cochichou. — Alguém se aproxima. Eu o vejo.
Deringhouse
resolveu esperar.
As pancadas
chicoteantes cessaram assim que o desconhecido atingiu a faixa devastada,
passando a se mover em terreno desimpedido. Nem Deringhouse nem o cabo que o
acompanhava distinguiam qualquer coisa; mas o japonês via o homem com toda
nitidez.
— Está de
uniforme — cochichou. — Traz uma carabina automática na mão esquerda e um
pequeno aparelho na direita.
Dali a um
minuto acrescentou:
— Vem
exatamente em nossa direção. Vamos procurar uma cobertura.
Agacharam-se
atrás do toco de uma gigantesca árvore que o furacão carregara. Deringhouse
preparou seu radiador de impulsos energéticos.
Pouco depois
viu o vulto desconhecido emergir da escuridão. Ouviu-o murmurar.
Parou a uns
cinco metros de seu esconderijo. Continuava a segurar a carabina descuidadamente
na mão esquerda. Mas colocara a caixinha bem diante dos olhos; Deringhouse viu
uma luz débil, que na sua opinião provinha de uma escala luminosa.
Era um
dosímetro. Os homens do Bloco Oriental vigiavam o foco do perigo radiativo.
Deringhouse
não teve muito tempo para refletir sobre a tática que devia empregar. Se
atirasse com o radiador de impulsos, mataria o homem. Acontece que pretendia
saber alguma coisa por seu intermédio.
Ergueu-se
cautelosamente. O desconhecido se encontrava quase de costas. As longas pernas
de Deringhouse venceram a distância em dois ou três saltos rápidos. Antes que o
homem compreendesse o que estava acontecendo, foi golpeado na cabeça com a
coronha da arma de Deringhouse.
Dobrou os
joelhos e caiu molemente ao solo.
— Venham! —
chamou Deringhouse a meia voz. — Agarrei-o.
* * *
O major
Lysenkow fez tudo para que seus homens não percebessem nada, mas já não
conseguia esconder a verdade de si mesmo: se a incerteza durasse mais algumas
horas, sofreria um colapso.
Tinha diante
de si, sobre o solo batido diante da cabana de folhas primitiva que sobrara do
furacão, um mapa provisório da área em que pousara a expedição do general
Tomisenkow. Guiando-se pelas estimativas realizadas juntamente com seus homens
desenhara no mapa a faixa atingida pelo furacão, a faixa de terra calcinada e o
ponto em que a radiatividade atingia um nível perigoso, em cujo centro se
encontravam os foguetes derretidos.
Quis o acaso
que justamente nesse ponto a faixa aquecida fosse mais estreita. Dentro de três
horas, o mais tardar, Lysenkow assumiria o risco de fazer com que seus homens
transpusessem a faixa nesse ponto, em passo acelerado; numa situação dessas não
importava quantos homens resistissem a um empreendimento desses. O que
interessava a Lysenkow era que ele mesmo, o chefe do grupo, fosse bastante
rápido para atingir o lado oposto são e salvo.
Mas havia a
mancha contaminada. Se o nível de radiatividade não baixasse com suficiente
rapidez, teriam de esperar até que a faixa de terra queimada esfriasse o
bastante em outro ponto, onde a largura era maior.
É que nem
mesmo o major Lysenkow estava livre dos efeitos das emanações radiativas.
Enviara um
homem ao local para medir as radiações.
Olhou para o
relógio.
Por que o
sujeito estaria demorando tanto?
Lysenkow se
levantou e saiu da cabana. Seguiu na direção em que o homem se afastara.
Passando entre as trepadeiras que lhe barravam o caminho, aguçou o ouvido.
Percebeu o
som de passos.
Parou. A
folhagem se movimentou diante dele e uma sombra emergiu da mesma.
— Por que
demorou tanto? — chiou Lysenkow.
O homem
parou; não respondeu.
—
Aproxime-se! — ordenou Lysenkow.
O homem deu
alguns passos em sua direção.
— Por que
demorou tanto? — repetiu Lysenkow. — Responda.
No momento
em que começou a suspeitar, porque o homem que tinha diante de si era mais
baixo que aquele que enviara ao local, já era tarde.
Com um salto
de felino, Son Okura se grudou na garganta do major. Lysenkow não teve a menor
chance. Uma pancada vigorosa com a coronha do radiador de impulsos energéticos
pôs fim à luta antes que a mesma tivesse começado.
Okura deu um
assobio estridente. Trinta segundos depois Deringhouse e o cabo se encontravam
ao seu lado.
O japonês
apontou para o corpo imobilizado de Lysenkow.
— Parece que
é o chefe — cochichou.
Deringhouse
confirmou com um aceno de cabeça.
— Vamos
amarrá-lo e amordaçá-lo — ordenou laconicamente.
O cabo
recorreu a algumas trepadeiras e ao seu lenço para cumprir essa incumbência.
—
Prosseguir! — ordenou Deringhouse. — Deixem o homem aqui.
Son Okura
seguiu à frente. Andando pelo caminho que Lysenkow abrira em meio à vegetação,
encontraram a cabana. Num raio de cinqüenta metros Okura notou mais três
cabanas, de maiores proporções, espalhadas sob as árvores. Pelos cálculos de
Deringhouse deviam ser uns trinta homens que viviam ali.
Convocou o
resto de seus homens e lhes explicou a posição exata do objetivo. A fonte de
radiatividade constituía um excelente ponto de referência.
Oito minutos
depois, os câmbios pousaram. Atrás da cabana de Lysenkow, ao sudoeste, havia
uma faixa de mata livre de vegetação rasteira. Desceram ali sem provocar o
menor ruído.
Deringhouse
transmitiu instruções lacônicas. Quando terminou, viu uma sombra que se
aproximava da cabana, vinda do leste. Admirado, Deringhouse se ergueu por
completo.
— Kto tam? — perguntou a sombra.
Aquelas palavras de uma língua estrangeira provocaram a reação instantânea de
Deringhouse. Antes que a sentinela soubesse se a suspeita que o trouxera até
ali era justificada ou não, Deringhouse atirou. O efeito do choque térmico do
radiador de impulsos energéticos foi tão fulminante que a vítima nem teve tempo
para gritar.
O resto foi
fácil. Diante de cada cabana havia uma sentinela. Todos foram dominados
prontamente e com um mínimo de ruído. As dificuldades causadas pelos soldados
que dormiam no interior das cabanas foram ainda menores. Dentro de quinze
minutos a ação estava concluída. Deringhouse capturara mais vinte e sete
prisioneiros. Um deles lhe havia revelado que daquele lado da faixa de terra
calcinada não havia outros homens do bloco Oriental. Mandou dois dos seus
homens trazerem o prisioneiro capturado em primeiro lugar, através do qual
souberam a situação daquela posição provisória.
Quando uma
tormenta desabou sobre a selva, Deringhouse prosseguiu no interrogatório. Mas
só dali a uma hora, quando a tormenta já estava amainando, apurou a importância
de sua presa. Depois que o furacão causado pela Stardust-III destruíra a maior
parte do arsenal nuclear da expedição do Bloco Oriental, e uma vez capturados
pelos homens de Deringhouse os cincos foguetes nucleares remanescentes, a mesma
já não dispunha de qualquer arma nuclear cujo poder explosivo fosse superior a
um quiloton de TNT. Restavam as armas defensivas das naves espaciais, das quais
Tomisenkow — no meio tempo Deringhouse apurara o nome — provavelmente teria
salvo algumas.
O perigo
maior havia sido eliminado.
Deringhouse
imediatamente transmitiu o respectivo relatório a Rhodan, através do
hipertransmissor.
3
A tempestade,
que Deringhouse e seus homens enfrentaram sem maiores problemas, trouxe uma
situação bastante difícil para o general Tomisenkow, seu ajudante e os outros
membros da coluna que comandava.
Depois da
aventura pavorosa junto ao lago, Tomisenkow também perdera o terceiro dentre
seus acompanhantes. Quinze minutos depois, quando o mesmo se esforçava para
afastar um cipó grosso e resistente, percebeu tarde demais que se havia metido
com uma cobra.
Esta, que
era do tamanho de uma jibóia, fugiu pelo ombro do jovem oficial que a atacara a
golpes de facão e desapareceu em meio à vegetação. Parecia que tudo tinha
terminado bem; fora só o susto, que atingira Tomisenkow e seu ajudante quase
com a mesma intensidade que ao jovem oficial.
Mas, alguns
minutos depois, o jovem subitamente caiu ao chão. Tomisenkow procurou lhe
prestar auxílio. O pescoço, que era a única parte do corpo tocada pela cobra,
estava tão inchado que era da mesma grossura da cabeça. O homem morreu dentro
de poucos instantes.
O ajudante
tirou o facão das mãos do morto e foi abrindo caminho. Em uma hora não
avançaram mais que mil e quinhentos ou dois mil metros.
Ao pôr do
sol perceberam que a trilha aberta por um dos grupos que ia à frente começava a
se abrir; parecia mais recente. Realmente, dali a quarenta e cinco minutos
alcançaram um grupo de cinco homens levemente feridos, que carregavam as macas
em que iam dois feridos graves.
Quase no
mesmo instante, o ajudante, que carregava o rádio pendurado ao pescoço, recebeu
a mensagem expedida por um dos grupos que iam mais à frente. O grupo havia
encontrado um local adequado para montar acampamento, numa área de terreno
aberto. Muito embora os cinco homens com ferimentos leves a que se haviam
reunido minutos antes bem merecessem que alguém lhes prestasse auxílio,
carregando as pesadas macas ao menos por alguns metros, Tomisenkow não hesitou
em seguir à frente com seu ajudante, para chegar ao local do acampamento antes
que ficasse completamente escuro.
— Abriremos
um bom caminho para vocês — prometeu Tomisenkow para consolar os homens.
Pouco depois
do pôr do sol chegaram ao pé do platô de pedra de onde fora expedida a mensagem
do grupo de vanguarda.
Quinze
minutos depois, Tomisenkow e seu ajudante chegaram ao acampamento levantado
nesse meio tempo. Ficava numa clareira circular com cerca de trinta metros de
diâmetro, situada em meio à vegetação rasteira.
Nas
proximidades havia uma nascente que despejava sua água num ribeirão, por cima
de uma pedra ligeiramente inclinada. Era uma água fresca e boa de beber; mas
logo se percebia seu elevado teor de ferro. Havia possibilidade de cuidar dos
homens que haviam sofrido ferimentos graves, cujas condições gerais tinham
piorado bastante face às condições adversas em que eram transportados e ao
calor úmido reinante em Vênus.
Foi quando
desabou a tempestade.
Quando
Tomisenkow decolou com sua frota expedicionária, foi informado de que, face à
reduzida velocidade com que Vênus executava seu movimento de rotação, a
diferença entre a temperatura diurna e noturna devia ser considerável, o que
provavelmente ocasionaria fenômenos atmosféricos anormais ao nascer e ao pôr do
sol.
Acontece que
Tomisenkow não sabia muito bem o que seriam esses fenômenos atmosféricos
anormais, motivo por que decidiu aguardar os acontecimentos.
Se tivesse
sido avisado de que o alvorecer e o anoitecer traziam consigo furacões de
intensidade extraordinária, teria tomado suas providências.
Como de nada
desconfiasse, o rugido surdo que se aproximava do leste, de início, só causou
um ligeiro susto a ele e a seu ajudante. Ambos procuraram disfarçar o susto.
Quando
perceberam que o rugido representava um perigo real já era tarde.
O furacão
atingiu o acampamento com a intensidade de uma gigantesca punhalada. Pela
segunda vez no mesmo dia Tomisenkow se sentiu agarrado por uma mão de ferro e
arrastado para a frente. Caiu dentro de alguma coisa que devia ter uma forte
semelhança com as urtigas terrenas. De um instante para outro sentiu um ardor
insuportável no rosto e nas mãos. Teve vontade de gritar; mas, como era um
homem duro, mesmo para consigo mesmo, deixou de fazê-lo.
A tempestade
prosseguiu no seu rugido, agitou a vegetação e lhe tornou impossível a
respiração enquanto virasse o rosto na direção de onde soprava o vento.
Voltou-se para o outro lado e comprimiu o corpo contra o solo pedregoso.
Ficou
deitado por alguns minutos, que lhe pareceram horas. Seus olhos, ofuscados
pelas lâmpadas de pilha do acampamento, se acostumaram à escuridão.
Viu alguma
coisa que se aproximava sob a vegetação. Eram formigas, ou alguma coisa que se
parecia com formigas, uma massa cintilante, coberta por córneas. Cada animal
media uns cinco centímetros.
Centenas
delas se deslocavam em sua direção, rentes ao chão. Imobilizado pelo susto,
permaneceu deitado até que a primeira atingisse o ponto em que se encontrava
sua mão estendida. O animal percebeu que havia algo de estranho, levantou a
cabeça e cravou as tenazes na mão. Tomisenkow soltou um grito de dor, encolheu
a mão e sacudiu-a até se livrar da formiga. Na mão havia uma pequena mancha
vermelha.
O incidente
parecia ter despertado a atenção das formigas. Numa velocidade maior que antes,
precipitaram-se em sua direção.
Sacudido de
pânico, o general se ergueu de um salto. Esquecera a tempestade. Esta agarrou-o
com uma força irresistível, levantou-o por cima das moitas e tangeu-o como se
fosse uma folha. Bem ao oeste, largou-o no chão. Com o impacto perdeu os
sentidos.
* * *
Rhodan
passou a hora da tempestade crepuscular em plena segurança, no chão da selva.
Desde a primeira expedição a Vênus ficou sabendo que a parede formada pela mata
constituía a melhor proteção contra a força do furacão. A selva era tão densa,
e as plantas que a compunham tão flexíveis que no acampamento de Rhodan a
tempestade só era sentida como um ruído perturbador.
O
acampamento se situava ao pé de uma singular encosta de pedra, que se erguia
suavemente em direção ao sul e estava coberta somente de pequenos arbustos.
Rhodan
pretendia prosseguir assim que amainasse a tempestade, a fim de se lançar
quanto antes ao ataque do primeiro grupo inimigo. Mas nem desconfiava de que Tomisenkow,
cujo nome ficara conhecendo através do relato de Deringhouse, naquele mesmo
instante se encontrava a apenas dois quilômetros de distância, pouco além da
elevação de cento e cinqüenta metros de altura, que a encosta de pedra formava
em meio à planura da selva.
A bordo da
Stardust-III tudo ia bem.
* * *
Por mais que
a tempestade tivesse fustigado o acampamento e os homens, assim que tudo
terminou, ainda havia bastante disciplina para que os homens compreendessem que
antes de mais nada deveriam procurar o general Tomisenkow.
A única
coisa que o ajudante sabia era que Tomisenkow fora arrastado pelo vento na
direção oeste.
Equipados
com lanternas de pilha, os homens penetraram na área coberta de arbustos.
Encontraram-se com uma trilha de gigantescas formigas marrom-claras e tiveram
inteligência suficiente para contorná-las a grande distância.
Depois de
uma hora de buscas encontraram Tomisenkow. Estava recuperando a consciência e
gemia. A costela, trincada pelo furacão que a Stardust-III desencadeara, fora
fraturada totalmente na queda.
Tomisenkow
foi carregado por um trecho. Quando recuperou os sentidos por inteiro, achou
que essa forma de locomoção não correspondia à sua elevada dignidade e passou a
se arrastar sobre as próprias pernas, sempre resmungando.
O balanço
levantado por dois homens ilesos que haviam permanecido no acampamento era
assustador. Inicialmente o grupo era composto de trinta homens, doze deles
ligeiramente feridos e dezoito com lesões graves. Destes últimos, seis haviam
morrido e oito não foram encontrados. Entre os feridos leves havia dois mortos
e quatro desaparecidos.
As cabanas
tiveram de ser levantadas de novo. Tomisenkow mandou que seu ajudante entrasse
em contato pelo rádio com a nave espacial pousada nas montanhas. Depois de
algumas tentativas inúteis o ajudante conseguiu estabelecer contato. Tomisenkow
deu ordem para que uma das naves voltasse a decolar e viesse buscá-lo. Nada
restava do desejo de fornecer um exemplo brilhante aos subordinados.
Os
componentes da expedição espacial haviam sido preparados para as condições
especiais reinantes nas selvas do planeta Vênus. Por isso não gastaram mais de
quinze minutos em levantar uma cabana relativamente confortável, e outros
quinze minutos para fechar a entrada com uma cortina de trepadeiras
praticamente opaca, da qual Tomisenkow fazia questão. Sabia perfeitamente que
várias horas seriam necessárias para colocar um foguete pousado em condições de
decolar, e que ele mesmo disporia de pelo menos oito horas para tratar suas
feridas e descansar.
Deitou
confortavelmente no leito de folhas e pôs-se a discutir com seu ajudante as
perspectivas que a situação abria para o futuro. A dor provocada pela costela
fraturada era suportável e, passado o susto das últimas horas, a confiança
começou a voltar ao espírito de Tomisenkow.
O ajudante
se mostrava menos confiante.
— Sou de
opinião que nos encontramos numa posição perdida — disse com toda franqueza. —
A tempestade provou que nosso preparo é insuficiente até mesmo para enfrentar
os fenômenos naturais deste planeta. Acontece que, além da natureza de Vênus,
ainda teremos de lutar contra um inimigo superior em forças. Como poderemos
resistir a isso?
Tomisenkow
se zangou.
— Não culpe
o Ministério da Força Espacial pela presença de Rhodan. Todo mundo estava
convencido de que ele se encontrava em algum ponto bem afastado do espaço.
Ninguém poderia prever que iria retornar justamente neste instante.
O ajudante
deu de ombros. Não cometeria a imprudência de continuar a contrariar seu
superior.
— O que acha
— principiou Tomisenkow depois de algum tempo. Mas nesse instante alguma coisa
mexeu na cortina de trepadeiras.
— Quem é? —
perguntou Tomisenkow em tom áspero.
Ouviu-se um
ruído borbulhante, vindo do lado de fora.
— Veja o que
é. — ordenou Tomisenkow.
O ajudante
se levantou, afastou a cortina e se defrontou com dois olhos vermelhos e
chamejantes de tamanho descomunal, que se encontravam bem diante de seu rosto.
Recuou com
um grito estridente; mas quem se encontrava do lado de fora — fosse lá quem
fosse — não quis saber de brincadeira. Tomisenkow, cuja atenção fora despertada
pelo incidente, viu uma pata com vários dedos sair da cortina e segurar o
ajudante pela gola do uniforme. Este foi arrastado aos gritos; a cortina foi
arrancada. Lá fora, viu-se uma sombra disforme e oscilante, e dois círculos
chamejantes do tamanho de uma palma de mão dançavam pelo ar.
Os gritos do
homem surpreendido de maneira tão apavorante cessaram. Tomisenkow, que estava
enrijecido de susto, ouviu sons tateantes, que se afastavam rapidamente, e logo
a seguir uma estranha batida.
Só então
recuperou as faculdades. Sem se preocupar com as dores que sentia na costela,
saltou do leito e pôs-se a gritar:
— Alarma!
Socorro!
Logo foi
ouvido. Mas algum tempo se passou até que os homens pudessem deduzir de seu
relato confuso o que realmente havia acontecido. Os três holofotes de pilha de
que o grupo dispunha foram montados e os feixes de luz iluminaram toda a área
do acampamento. Nem o ajudante, nem o ser misterioso que o vitimara foi
encontrado. A frente da cabana de Tomisenkow o chão era duro. Não havia
rastros.
Tomisenkow
mandou dobrar as sentinelas. Ainda estava transmitindo instruções aos homens,
quando um grito selvagem soou nos fundos do acampamento. Um dos holofotes girou
rapidamente e abrangeu, do lado direito, junto à última cabana, ainda não
concluída, um quadro horripilante.
Um animal
que se movia sobre duas pernas e, à primeira vista, parecia ser da metade do
tamanho de uma casa se aproximara de um dos feridos em estado grave, agarrara-o
com o bico longo e pontudo e, sem dúvida, estava prestes a se afastar com a
presa quando foi surpreendido pela luz ofuscante do holofote. Fechou os grandes
olhos vermelhos encravados na cabeça semelhante à de um pássaro e ficou na
expectativa. O ferido continuava a gritar.
— O que
estão esperando? — berrou Tomisenkow. — Atirem logo! Atirem.
Com essa
ordem os homens puseram-se em movimento. Ouviu-se o estrondo de uma confusão de
tiros: as pancadas duras e matraqueantes das carabinas automáticas e o estouro
metálico das pistolas.
À luz dos
holofotes via-se que grande número de tiros acertou o alvo. A pele do animal,
que tinha a configuração do couro, se abriu sob os impactos, e um tipo de
sangue porejou pelas feridas. O ferido silenciou de repente.
O animal já
não parecia ter interesse nele. Deixou-o cair e saiu correndo. Enquanto corria,
as pernas pareciam crescer em comprimento. Pela segunda vez, Tomisenkow ouviu o
ruído rápido e tateante, sempre que as patas tocavam o chão.
O estranho
animal havia percorrido uns cem metros, a uma velocidade cada vez maior.
Subitamente dois retalhos de pele desdobraram-se nas suas costas e se abriram
em asas de uma envergadura inacreditável. A velocidade da corrida foi
suficiente para erguer o animal no ar de um instante para outro. Produziu
alguns sons repulsivos produzidos pelas batidas das asas e saiu voando tão
rapidamente que a luz dos holofotes não pôde segui-lo.
Por algum
tempo Tomisenkow e os membros do grupo mal ousavam respirar, de tão assustados
que estavam. Depois de uns dois ou três minutos alguém disse com a voz quase
devota:
— Um lagarto
voador!
O encanto
estava rompido.
Examinaram o
ferido. Estava morto.
Tomisenkow
não se atrevia a voltar à cabana. Mandou suspender a construção das mesmas e
determinou aos homens que dormissem ao ar livre. Mais da metade dos membros dos
grupos foram destacados para servir de sentinelas. Assim mesmo Tomisenkow
praguejou contra a técnica e os pilotos dos foguetes, que levavam tanto tempo
para vir buscá-lo.
* * *
Rhodan
dormira duas horas. Isso bastava para que se sentisse perfeitamente descansado.
Desenvolveu,
com base nos novos dados fornecidos pelo sistema de localização da Stardust-III
uma rota de marcha provisória que, pelos seus cálculos, devia levá-lo a pelo
menos dois grupos inimigos.
Ainda estava
ocupado em interpretar os dados, quando um dos homens do sistema de localização
se fez ouvir:
— Aí vem
alguma coisa. É do tamanho de um avião, mas não faz o menor ruído.
Rhodan deu
alguns passos e se colocou junto ao pequeno aparelho de localização. Surpreso,
observou a larga mancha verde, que lentamente foi rastejando da borda para o
centro da tela.
— A
velocidade é de cerca de oitenta quilômetros por hora — completou o homem.
A mancha
ainda se encontrava a certa distância do centro da tela, quando subitamente
alterou sua rota.
— Está
descendo — disse o homem surpreso.
Rhodan
recebeu a informação com os olhos semicerrados. Procurou descobrir que objeto
seria este; mas a imagem projetada na tela de microondas praticamente não
permitia qualquer conclusão além do tamanho.
Com a
modificação da altitude a mancha verde se aproximara bastante do centro da
tela. Antes que o alcançasse, parou subitamente.
— O que será
isso?
Rhodan
compreendeu. Um animal provocara o reflexo. Era um animal grande, com asas,
talvez um lagarto voador. Descera sobre as árvores nas proximidades do lugar em
que se encontravam. A mancha verde encontrava-se exatamente sobre a linha
sinuosa que marcava a altura da mata.
— Não se
preocupe — disse Rhodan ao vigilante. — Foi apenas um animal. Provavelmente
um...
Estacou.
— Ouviu
alguma coisa? — perguntou.
— Também
tive a impressão... — respondeu o vigilante.
Prenderam a
respiração e aguçaram o ouvido, bastante tensos.
Depois de
algum tempo voltaram a ouvir o ruído. Era um grito, um grito que exprimia o
grau mais elevado de pavor. Um grito humano.
A reação de
Rhodan foi instantânea.
— Verifique
a direção! — gritou para o vigilante.
Logo
desapareceu na escuridão.
Dentro de
poucos segundos estava pronto para decolar num câmbio, juntamente com cinco de
seus homens. Colocou o veículo pouco acima da cabeça do vigilante-localizador e
mandou que este lhe indicasse a direção exata. Depois rompeu a folhagem das copas
das árvores e pôs-se a procurar.
O câmbio
dispunha de um localizador próprio. Na tela do oscilógrafo o animal estranho e
imenso se destacava nitidamente sob a forma de um ponto reluzente contra o
fundo representado pela mata.
— Mantenham
as armas prontas para disparar — disse Rhodan, enquanto deu uma brusca
acelerada no câmbio. — Abram os olhos. Um homem está em perigo.
A distância
que separava o animal do acampamento não era superior a duzentos metros. O
câmbio se aproximou a trinta metros; os homens já haviam enquadrado seguramente
o alvo.
Rhodan ligou
o holofote de luz infravermelha e olhou através do filtro. Viu o gigantesco
animal na copa de uma árvore gigantesca. Por um instante se assustou com o
vulto horrível envolvido por uma pele nua.
Era um lagarto
voador, não havia a menor dúvida, muito embora se parecesse bastante com um
pássaro.
Ao que
parecia o raio infravermelho inquietava o animal. A cabeça se levantou e Rhodan
pôde distinguir o bico longo e pontudo, de mais de dois metros de comprimento.
— Acionar o
raio neutrônico — ordenou Rhodan, sem tirar os olhos do filtro. — Um centésimo.
A ordem foi
executada imediatamente. A graduação mais fraca do radiador neutrônico mal foi
suficiente para fazer o animal sentir que alguma coisa não estava em ordem.
Abriu as asas e, com algumas batidas surdas transmitidas pelo microfone
externo, elevou-se alguns metros acima da copa da árvore.
Não se via
mais nada do homem que gritara ainda há pouco.
— Um décimo
— ordenou Rhodan.
A
intensidade do raio neutrônico foi aumentada. O animal soltou um grito agudo e
procurou fugir.
— Acionar o
radiador de impulsos! — gritou Rhodan.
A terrível
arma alcançou o animal em meio ao vôo e fez com que se precipitasse na selva.
Rhodan
voltou a acelerar. A folhagem da gigantesca árvore foi bastante densa para
sustentar o veículo. Rhodan desceu e recomendou aos homens que tivessem cautela
ao saírem.
Além da
pequena comporta de ar foram recebidas pelo cheiro nauseante do animal
queimado. Equilibravam-se sobre os galhos da grossura de um braço humano, que
as garras do lagarto haviam limpado de toda folhagem. Com o auxílio de um
holofote manual, encontraram o corpo amolecido daquele que pouco antes gritara
por socorro. Estava deitado num entroncamento de galhos.
Rhodan
examinou o homem antes que fosse carregado ao câmbio. Seu uniforme estava
rasgado, e sangrava por várias feridas. Rhodan espalhou sobre as mesmas um
remédio destinado a estancar o sangue, pertencente à farmácia arcônida da
Stardust-III.
Não conhecia
o homem. Mas, pelo uniforme, concluiu que pertencia ao Bloco Oriental. Se
permanecesse vivo poderia fornecer indicações importantes.
Levaram-no
com todo cuidado ao câmbio e retornaram ao acampamento.
Sob a
influência dos medicamentos de que Rhodan podia dispor lá, o homem logo recuperou
a consciência. Ao despertar não sentiu dores; Rhodan cuidara disso.
Olhou em
torno, um tanto admirado, apoiou-se sobre os cotovelos e levantou-se.
— Onde
estou? — perguntou em russo.
— Não o
entendo — respondeu Rhodan. — O senhor fala inglês?
O homem fez
que sim.
— O
senhor... é Rhodan? — perguntou em tom hesitante.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Quem é o
senhor?
Talvez o
homem não tivesse a intenção e dar uma resposta verídica a Rhodan. Mesmo que
este o tivesse libertado das garras do lagarto, ainda continuava a ser seu
inimigo.
Mas o olhar
de Rhodan, a força imensa daquela vontade e as energias vitais irradiadas por
um homem dotado de imortalidade relativa representavam uma sugestão
irresistível que reforçou a pergunta. Ao homem não restou outra alternativa
senão dizer a verdade.
— Meu nome é
Trewuchin. Sou ajudante do general Tomisenkow.
Satisfeito,
Rhodan acenou com a cabeça.
Formulou
outras perguntas. Embora Trewuchin antes estivesse decidido da enganar Rhodan
na medida do possível, respondeu sem hesitação e conforme a verdade.
* * *
Tomisenkow
não conseguiu conciliar o sono.
A costela
doía, e os acontecimentos do dia que passara representavam uma carga excessiva
até mesmo para um homem enrijecido como o general.
Sempre que
conseguia mergulhar numa espécie de torpor, lagartos voadores que cuspiam fogo
exibiam seus olhos vermelhos e queriam agarrá-lo, fazendo-o despertar com um
grito de pavor reprimido.
Deitou sobre
o lado direito do corpo e olhou para a orla da moita de arbustos que, numa
linha negra, se destacava de forma estranha contra o céu cinzento.
A atmosfera
densa e o sol muito próximo, curou sua mente cansada. Em Vênus a claridade
nunca é completa, porque o ar é muito denso, nem a escuridão é total, porque a
atmosfera é um ótimo condutor da luz.
Um holofote
iniciou o trabalho, cansado, descrevendo um círculo lento. O círculo começou ao
norte, girou para o leste e para o sul. Tomisenkow cerrou os olhos para não ser
ofuscado quando o feixe de luz atingisse os arbustos.
Pretendia
fechar os olhos; mas não o fez.
Viu alguma
coisa. Os arbustos se moviam, e alguma coisa larga e desajeitada saiu por entre
os mesmos.
Só
Tomisenkow o vira à luz do holofote. De início pensara que fosse um animal; mas
logo ouviu o zumbido fraco e agudo de uma máquina.
Perry
Rhodan!
A idéia
provocou o impacto de um choque elétrico.
Rhodan
descobrira a posição do acampamento e iria atacar.
Nem concluiu
seus pensamentos. Levantou-se, devagar e gemendo baixinho, para não chamar a
atenção dos outros.
A área dos
arbustos não ficava a mais de cem metros. Rhodan usaria de cautela ao se
aproximar do acampamento, e até lá...
Seria inútil
tentar organizar a resistência com o punhado de homens sonolentos e de moral
abalada. Se Rhodan atacasse o acampamento, estaria preparado.
Naquela
situação só uma coisa importava: que ele, Tomisenkow, não caísse nas mãos do
inimigo.
Penetrou no
mato de arbustos na direção noroeste, rastejou por uns cinqüenta metros e ficou
aguardando.
Levou algum
tempo para examinar a decisão tomada às pressas e nada de errado viu na mesma.
De nada teria adiantado despertar os homens que se encontravam no acampamento e
procurar resistir a Rhodan. Mas, ao sair furtivamente e sozinho, teria uma
chance de escapar na confusão do combate que devia começar a qualquer momento.
Depois de
ter esperado uns cinco minutos sem ouvir nada, começou a ficar nervoso. Pelos
seus cálculos Rhodan já deveria ter iniciado o ataque.
Outros cinco
minutos se passaram e Tomisenkow se sentiu dominado pela curiosidade. Rastejou
cautelosamente em direção ao acampamento.
Quando se
encontrava a quinze metros da clareira, ouviu vozes. Mais três metros, e
conseguiu distinguir as palavras.
Alguém
falava em inglês.
Por um
instante ficou imobilizado de susto, ao ouvir a voz de Rhodan:
— Deve estar
escondido nestas moitas. Não pode ter ido longe. Procurem-no; tenham cuidado.
Tomisenkow
ouviu o estalo de galhos que se quebravam. O ruído reanimou-o. Voltou a fugir
na direção noroeste o mais rápido que pôde.
Não se
sentiu nada bem ao correr a toda pressa pelo matagal escuro. Mas não perdeu
tempo em refletir para onde a fuga o levaria. A direção geral era correta, e
talvez conseguisse chamar a atenção dos tripulantes do foguete.
O que mais o
perturbava era que, segundo tudo indicava, Rhodan tomara o acampamento em
silêncio e sem qualquer luta.
Depois de
algum tempo — não saberia dizer há quanto tempo já vinha percorrendo o matagal
de arbustos — o terreno, que até então subia suavemente em direção ao norte,
tornou-se plano para depois descer, num declive também suave, na mesma direção.
A vegetação
de arbustos foi se tornando cada vez mais densa e vez ou outra surgiam árvores,
das quais Tomisenkow se desviava. Toda vez que fazia uma pausa para descansar
ouvia seus perseguidores, que falavam e faziam farfalhar os arbustos.
Não era de
admirar. Se dispusessem de lâmpadas, mesmo que estas não fossem muito boas, o
rastro teria de lhes revelar o caminho.
Dali em
diante se esforçou para usar um pouco mais de agilidade, não quebrando tantos
galhos e evitando deixar marcas no solo.
Esse esforço
devia ter consumido toda sua atenção, pois apesar do tamanho descomunal só
percebeu aquilo que dele se aproximava quando, por um triz, iria esbarrar no
peito largo e peludo e o hálito fétido e chiante atingiu seu rosto, vindo de
cima.
Tomisenkow
reagiu de forma instintiva, e foi o que o salvou. Não sabia que animal era este
em cujas garras quase chegara a se atirar espontaneamente. Pelo que podia ver
no escuro parecia um urso, mas tinha pelo menos o triplo do tamanho do maior
dos ursos que Tomisenkow já havia visto.
De qualquer
maneira Tomisenkow, muito assustado, deu um salto para o lado, escapando assim
à primeira patada. Ao primeiro salto se seguiu um segundo, que, no momento o
colocou fora do alcance das patas do animal exaltado.
Saiu
tropeçando, sem prestar atenção à direção em que se deslocava. Atrás de si
ouviu o ruído de patas e de galhos que quebravam. Lançou um olhar rápido por
cima do ombro e viu a massa escura e cambaleante que vinha atrás dele.
Provavelmente
estaria perdido, se o acaso não o tivesse protegido de forma tão estranha.
Ao se
levantar depois de um grande salto por cima de uma árvore tombada, o chão cedeu
sob seus pés. Soltou um grito abafado e abriu os braços, à procura de apoio.
Mas ao que parecia aquele buraco traiçoeiro tinha um diâmetro maior que a
envergadura de seus braços. Praticamente sem a menor resistência caiu
vertiginosamente para dentro de um poço onde a escuridão era ainda maior que na
selva noturna.
Aos
arranhões e pancadas a viagem para o fundo prosseguiu ao menos por uns cinco ou
seis metros. Depois o poço descreveu uma curva. Uma viagem infernal levou
Tomisenkow a um recinto cuja forma era regular, semelhante à de um funil,
conforme constatou logo depois.
Aguçou o
ouvido e percebeu um rugido profundo. Torrões de terra caíram pelo poço. Depois
houve alguns segundos de silêncio. Logo depois ouviu passos retumbantes que se
afastavam lá em cima.
Tomisenkow
respirou aliviado. Fosse qual fosse o lugar em que acabara de aterrisar, se
salvara das garras do urso.
Arriscou-se
a acender um fósforo e observou o lugar em que se encontrava.
Era um
verdadeiro milagre que se encontrasse são e salvo depois da queda. O funil
tinha cerca de quatro metros de altura, e o buraco pelo qual viera ficava mais
de três metros acima da ponta do funil. Havia outros buracos, indicando que
vários poços desembocavam ali.
Infelizmente
a parede era tão íngreme e lisa que Tomisenkow não poderia subir por ela para
alcançar a borda de um dos buracos.
Tirou o
grande canivete que trazia consigo e pôs-se a trabalhar a parede revestida de
uma massa vítrea. O trabalho progredia bem. Embora não fosse fácil, Tomisenkow
tinha esperança de, nas próximas cinco horas, cavar os degraus que lhe fossem
necessários para atingir um dos buracos.
O que
importava por enquanto era que Rhodan e seus homens não o encontrassem. Quanto
a isso, se julgava em segurança lá embaixo.
Só depois de
algum tempo começou a refletir sobre a finalidade daquele funil e de suas
diversas entradas. Notara que, até a altura de cerca de cinqüenta centímetros,
a ponta do funil estava cheia de certo tipo de lixo; talvez fosse a poeira que
penetrava pelos buracos, fechados apenas por uma fina camada de terra. Acontece
que aquilo que Tomisenkow sentia sob os pés eram objetos sólidos.
Acendeu
outro fósforo e examinou o material sobre o qual se apoiavam seus pés. Pegou ao
acaso um objeto duro e examinou-o.
Era um
pedaço de osso; não havia a menor dúvida.
Tomisenkow
teve uma sensação desagradável. Como teria aquele osso vindo parar no buraco em
que se encontrava?
O formato do
funil era tão regular que não poderia ter sido escavado pela erosão provocada
pela água da chuva. Ainda havia o revestimento vítreo da parede. E os buracos
no solo, tão bem disfarçados.
Era uma
armadilha!
Uma
armadilha pertencente a qualquer fera do planeta Vênus. De tempos em tempos
viria para verificar o que havia capturado e devorava-o.
Tomisenkow
pôs-se a cavar o revestimento vítreo numa rapidez desesperada.
* * *
Perry Rhodan
valera-se do projetor mental para atacar o acampamento, cuja localização lhe
fora revelada pelo ajudante de Tomisenkow.
Poucos
segundos depois da fuga de Tomisenkow, o projetor cobriu toda a área do
acampamento, impondo a vontade de Rhodan aos que ali se encontravam. Não se opuseram
quando lhes tiraram as armas e amarraram os braços. Ninguém ofereceu
resistência.
Só quando se
encontravam em segurança Rhodan suspendeu a influência hipnotizante. Os
prisioneiros puseram-se a praguejar.
Rhodan
deixou-os à vontade. Escolheu um deles e interrogou-o sobre o general
Tomisenkow que, segundo tudo indicava, não se encontrava entre as pessoas
aprisionadas. O homem estivera de sentinela próximo ao lugar em que Tomisenkow
havia desaparecido no matagal. Dispôs-se prontamente a prestar um relato fiel,
já que Rhodan reforçara sua pergunta com toda a força sugestiva do projetor
mental.
Após isso
Rhodan ordenou a saída de um grupo de busca, o mesmo do qual Tomisenkow havia
fugido.
Depois de
uma hora o grupo retornou sem ter conseguido nada. Encontrara a pista do
gigantesco animal, que encobria a de Tomisenkow. Era tudo. Ninguém sabia dizer
onde se encontrava o general.
O êxito
inicial de Rhodan foi seguido de outro. Cerca de duas horas após o ataque ao
acampamento, um foguete grosseiro desceu cuspindo fogo e, depois de executar
algumas manobras complicadas, pousou a uns quinhentos metros do acampamento.
O piloto foi
aprisionado, e também o resto da tripulação. O piloto revelou que, naquela
altura, a divisão só dispunha de um total de oitenta naves espaciais. A
resposta de Rhodan foi lacônica: — Agora só restam setenta e nove.
4
Para Rhodan,
Tomisenkow estava desaparecido. Estava convencido que sua fuga desesperada lhe
causara a própria morte. Nenhum homem isolado que dispusesse apenas do
armamento do Bloco Oriental, totalmente inadequado para as condições reinantes
em Vênus, conseguiria se manter vivo na selva por mais de meio dia de Vênus.
O próximo
objetivo de Rhodan era o acampamento da divisão espacial, situado na parte
noroeste do complexo montanhoso. Pelo que ouvira dos prisioneiros, o trabalho
não seria fácil. Muito embora não conhecesse as características do local, Tomisenkow
dera ordem para que os remanescentes de sua divisão se distribuíssem por uma
área extensa. Se ainda considerasse o terreno difícil, Rhodan poderia ter
certeza de que teria de travar uma verdadeira guerra de guerrilhas.
Seria inútil
atacar o acampamento nas montanhas com o armamento da Stardust-III. As armas de bordo haviam sido concebidas para
alvos compactos, e Rhodan teria de calcinar toda a zona montanhosa para ter
certeza de que a expedição do Bloco Oriental havia sido destruída.
Não
pretendia fazer nada disso. Suas armas leves também eram muito superiores às de
que dispunham os membros da expedição. Se agisse com alguma cautela poderia
atingir seu objetivo sem sofrer perdas e sem recorrer às armas da Stardust-III,
que provocariam alterações na superfície de Vênus.
Ainda era de
se considerar que nesse meio tempo o objetivo de Rhodan se modificara.
Já não
estava interessado em destruir a expedição do Bloco Oriental. Antes pelo
contrário, gostaria que o maior número possível de membros da divisão espacial
sobrevivesse às lutas que se aproximavam.
Pretendia
destruir suas naves espaciais e lhes tirar as armas com que poderiam causar
estragos em Vênus. Poderiam conservar o resto, inclusive a vida.
Rhodan
imaginava perfeitamente o que seria feito dos remanescentes da divisão depois
disso.
* * *
Tomisenkow
desenvolveu uma atividade tão furiosa que só ouviu o ruído rastejante quando
quase já era tarde demais.
Imobilizado
pelo susto, entreparou, aguçou o ouvido, percebeu o rastejar que se aproximava
cada vez mais, e finalmente ouviu um zumbido no ar.
Não
imaginava o que poderia ser aquilo. A escuridão era total, e não se atrevia a
acender uma luz.
Mas aquela
coisa monstruosa espalhou um mau cheiro que quase o levou a vomitar.
Ouviu outro
zumbido e sentiu uma forte pancada no ombro. Quase chegou a cair. Apesar do
pânico que se apossou dele, percebeu que aquilo que o havia atingido no ombro
era mole e tinha a grossura de um robusto braço de homem.
Ao menos era
o que concluía com base na sensação provocada pela pancada.
Tomisenkow
se encolheu o mais que pôde. O medo projetou luzes coloridas e dançantes diante
de seus olhos e cobriu-lhe a testa de suor. Sentiu um chiado no ouvido.
Mas tirou a
pistola, reuniu a coragem que lhe restava e esperou.
Ao que tudo
indicava a coisa que acabara de ouvir havia penetrado por um dos poços. Mas o
fato de que não despencara como ele, mas movia-se tranqüilamente, indicava que
não era uma das vítimas da armadilha, mas provavelmente o possuidor da mesma.
Naquele
momento parecia bastante irritado. Alguma coisa tateou na escuridão, acima da
cabeça de Tomisenkow, e logo o braço mole e vigoroso voltou a descer.
Desta vez se
moveu com segurança. Envolveu o ombro de Tomisenkow e passou por baixo de seus
braços. Este se controlou e esperou.
Só começou a
disparar quando o braço flácido e gosmento começou a levantá-lo.
Os tiros de
pistola encheram o recinto subterrâneo com um ribombar ensurdecedor. Quase
inconsciente, Tomisenkow percebeu que a sensibilidade acústica dos ouvidos
diminuía, e eles se encheram de uma música aguda.
Os tiros
provocaram nele uma espécie de embriaguez. Continuou a comprimir o gatilho da
arma automática, até que a pancada seca do percussor indicou que o pente de
balas estava vazio.
O braço que
enlaçara Tomisenkow começou a tremer. Este percebeu que a força do mesmo
diminuía, e subitamente caiu ao solo. O braço soltara-o. Por cima dele, o animal,
ferido pelos tiros de pistola, provocava um barulho infernal em meio à
escuridão.
Com um
movimento suave, Tomisenkow enfiou outro pente de balas na pistola e esperou.
Calculava que o animal, ferido pelos tiros, se poria em fuga ou morreria.
Por isso levou
um susto quase mortal quando voltou a ouvir o zumbido que já conhecia e, pelo
que se deduzia do deslocamento de ar, o braço tentacular passara rente ao seu
rosto. Com a queda, Tomisenkow encontrava-se em posição diferente. O animal
teria que procurá-lo de novo.
A
resistência de seus nervos estava chegando ao fim. Não quis esperar para ver se
o animal conseguiria encontrá-lo de novo; apontou a pistola na direção de que
viera o ruído e apertou o gatilho.
Quando o
pente estava vazio, seu corpo emborcou para o frente e o rosto caiu em meio ao
lixo fedorento acumulado na ponta do funil.
As forças o
haviam abandonado por completo. Tentou em vão levantar o corpo com o auxílio
dos braços, mas os músculos já não suportavam o peso. Com um choro desesperado
voltou a cair para a frente.
Só depois
disso se deu conta de que acima dele tudo estava em silêncio.
Aguçou o
ouvido.
Tinha a
impressão de que percebia um ruído rastejante bem ao longe, mas era só.
A idéia de
que talvez tivesse posto o animal em fuga lhe deu novo ânimo. Conseguiu pôr-se
de pé e, depois de ter esperado cinco minutos, durante os quais não ouvira
nada, voltou a riscar um fósforo.
O funil
estava vazio, tal qual ele o vira meia hora atrás. Não havia o menor vestígio
dos acontecimentos que se desenrolaram no meio tempo, com exceção dos buracos
que os tiros de pistola abriram na parede.
Tomisenkow
estacou. Percebiam-se nitidamente duas séries de pontos de impacto. Era óbvio
que a primeira provinha do primeiro pente de balas que disparara, e a outra do
segundo.
As duas
séries ficavam à direita e à esquerda de um dos buracos, aproximadamente a
igual distância do mesmo. Concluía-se que fizera pontaria em direção ao buraco
onde supunha que o animal estivesse, mas só atingira a parede, uma vez à
direita, outra vez à esquerda do alvo.
Cada pente
continha cinqüenta balas. Segundo um cálculo ligeiro de Tomisenkow, cada série
de impacto era formado por uns cinqüenta furos.
Concluía-se
que nenhum dos tiros havia atingido o alvo.
Por que
teria fugido o animal?
Tomisenkow
achou a pergunta muito interessante; mas o que importava no momento era sair
daquele buraco. Num trabalho febril voltou a escavar degraus na parede. Dentro
de pouco tempo pôde subir ao buraco pelo qual caíra no interior do funil.
Ainda
esperava encontrar algumas dificuldades no interior do poço que, de forma tão
surpreendente, o conduzira ao interior do planeta Vênus. Mas constatou que
parte da cobertura superior do mesmo consistia em cipós. Com a queda de
Tomisenkow estes foram arrastados para o interior do poço e esperavam que ele
os usasse como uma corda de escalada. Experimentou sua firmeza, julgou-a
satisfatória e pôs-se a subir. Prosseguindo sem pausa, conseguiu pôr-se em chão
firme.
Uma vez lá
em cima, ficou deitado por algum tempo de bruços e respirou profundamente.
Depois se levantou e dispôs-se a prosseguir em sua caminhada, na direção
primitiva.
Não se ouvia
mais nada dos perseguidores que Rhodan mandara no seu encalço. Às vezes
ouviam-se ruídos estranhos e pavorosos; mas Tomisenkow era de opinião que, de
animais estranhos e pavorosos, não eram de se esperar ruídos de outra espécie.
Por enquanto deu-se por satisfeito com o fato de que não estava sendo atacado
nem perseguido.
No entanto,
se interessou em saber em que direção seguira o animal em cuja armadilha caíra.
Não estava disposto a realizar uma fuga apressada e cair novamente em suas
garras.
Acendeu um
fósforo e lançou os olhos em torno.
A
luminosidade do fósforo não alcançava muito longe; mas logo encontrou o que
estava procurando.
Não era o rastro do animal, mas o próprio
animal.
oB�9�oX0� @$� — respondeu — o que esta derrota representa para mim e para todos
os arcônidas. Para alcançarmos a perfeição final só nos faltava o segredo da
vida eterna, nada mais. É um golpe duro ouvir que o grau mais elevado da
evolução nos foi recusado.
Rhodan
refletiu no que devia dizer. Sentou perto de Crest.
— Sairei da
nave — disse em tom sério. — Alguém se instalou em Vênus e vem nos causando
dificuldades.
Crest ergueu
as sobrancelhas brancas e espessas. De resto não deu mostras de qualquer
surpresa ou nervosismo.
— Não sei
quanto tempo demoraremos lá fora — prosseguiu Rhodan. — Por isso quero lhe
pedir um favor.
Crest
conseguiu esboçar um sorriso débil.
— Tem
certeza de que ainda conseguirei levantar desta cadeira e vencer minha
depressão? — perguntou.
Rhodan fez
que sim.
— Tenho
certeza absoluta. Cuide de Thora, sim? Também foi afetada por essa história do
planeta Peregrino; além disso, é muito impetuosa.
Crest ainda
estava sorrindo.
— É claro
que cuidarei — asseverou. — Desde a decolagem não a vejo mais, mas irei vê-la
imediatamente.
Levantou-se.
— Faça um
bom trabalho! — disse, dirigindo-se a Rhodan. — E volte são e salvo.
Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça.
Dois minutos
depois se encontrava na comporta sul e transmitia as últimas instruções aos
seus homens.
O corpo
expedicionário de cinqüenta homens estava subdividido em quatro grupos. Rhodan
confiou o comando dos grupos aos experimentados majores Deringhouse e Nyssen, e
ao tenente Tanner.
Cada homem
envergava um traje transportador arcônida. Tratava-se de um aparelho de
múltiplas aplicações, dotado de um gerador de força gravitacional para a
produção de gravidade artificial. Com isso, podia transportar seu portador pelo
ar. Além disso, um minúsculo dispositivo eletromagnético produzia um campo de deflexão,
que conferia qualidades quase hidromecânicas ao meio circundante, em relação à
propagação de emanações luminosas, de forma que as ondas luminosas contornavam
o campo em forma de linhas de fluxo, tornando invisível o traje e o homem que o
envergasse.
Cada grupo
dispunha de três câmbios. Tratava-se do veículo ultra versátil dos arcônidas,
que se deslocava com igual facilidade em três elementos.
Os homens
estavam equipados com o armamento usual. Só os oficiais portavam pequenos
projetores mentais.
— O inimigo
encontra-se em marcha — explicou Rhodan. — Creio que conheço seu objetivo; mas,
para termos certeza, devemos manter contato ininterrupto com a nave. O que
temos pela frente é nada menos que uma guerra na selva ao estilo antigo. Quem
quer que detenha o comando do outro lado há de saber que os recursos de que dispomos
são superiores aos seus, e planejará sua ação de acordo com esse fato.
Distribuirá seus homens por uma área bastante ampla e travará uma guerra de
guerrilhas, o que nos impedirá tirarmos proveito de nossa superioridade. Apesar
de tudo isso, temos de chegar quanto antes a uma solução final. Não temos tempo
a perder. Portanto, façam um trabalho bem feito.
* * *
O general
Tomisenkow logo constatou que subestimara grandemente as dificuldades da
marcha.
Chanicadse,
um jovem tenente armênio, marchara durante duas horas diante dele, cuidando
para que os galhos, que a selva já voltara a estender por cima da trilha aberta
pelo destacamento de vanguarda, não fustigassem o rosto do general com
demasiada violência.
No início da
terceira hora, quando Chanicadse se dispunha a remover uma trepadeira, um verme
branco, da grossura de uma cocha humana, surgiu da esquerda com uma agilidade
incrível, envolveu o corpo do tenente, e desapareceu com ele na selva.
Antes que
Tomisenkow, seu ajudante e os dois oficiais que o acompanhavam se dessem conta
do que estava acontecendo, o gigantesco verme já havia desenrolado uns vinte
metros de sua repugnante extensão. Sobre o resto, que media outros vinte
metros, dirigiram que nem um bando de loucos os disparos de suas pistolas automáticas;
mas aquela criatura de Vênus pouco se incomodou com as balas.
Chanicadse
continuava desaparecido. Tomisenkow proibiu a perseguição do verme. Não queria
perder mais gente naquela selva impenetrável.
Meia hora
depois ouviram um ruído rítmico e retumbante vindo do oeste. O ajudante
acreditava que se tratasse de um terremoto.
Uma hora
depois viram o que era — ou melhor, estavam em condições de realizar uma
reconstituição aproximada do quadro. Um animal de dimensões fenomenais cruzara
a trilha, colocando uma das pernas exatamente sobre a mesma. A marca do pé era
redonda, e tinha o diâmetro de cinco metros. No centro da mesma viam-se alguns
restos de uniforme, e o solo estava ensopado de sangue. Nem havia possibilidade
de verificar quantos dos homens de Tomisenkow haviam perecido.
Dali a dois
quilômetros a trilha descreveu uma curva acentuada em direção ao sul e conduzia
a um lago estreito e comprido, rodeado pela selva. Um dos dois oficiais não
quis percorrer o caminho longo em torno do lago. Entrou na água, andou um
pedaço e pôs-se a nadar.
Depois de
ter vencido cerca de três quartos da distância, teve que se desviar de um
objeto estranho; parecia um tapete brilhante e colorido, pousado tranqüilamente
na superfície da água. O oficial passou a grande distância. Mas subitamente o
tapete pôs-se em movimento e seguiu-o. De início o nadador não percebeu nada.
Só teve a atenção despertada quando Tomisenkow, o ajudante e o outro oficial o
preveniram aos gritos.
Com amplas
braçadas procurou alcançar a margem oposta. Mas, no lugar exato em que seus pés
alcançaram o fundo do lago, foi alcançado pelo tapete. A água começou a
fervilhar, e o homem mergulhou aos gritos. O tapete passou por uma estranha
transformação. Subitamente não era mais colorido, nem se estendia sobre a água;
tornou-se cinzento e assumiu o formato de uma massa compacta e disforme, cujas
forças evidentemente eram muito superiores às de sua vítima.
Com uma rapidez incrível aquela massa atingiu a
zona de água profunda. Mergulhou. O homem do grupo de Tomisenkow nunca mais foi
visto.

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