terça-feira, 30 de outubro de 2012

P-020 - Ameaça a Vênus - Kurt Mahr [parte 2]


Do outro lado da faixa de terra derretida e calcinada, que a Stardust-III parecia ter traçado a régua em meio à selva, alguns homens da divisão de defesa de foguetes do general Tomisenkow conseguiram ficar vivos.
De início, o destacamento espacial de desembarque contara com mais de duzentos homens. Agora sobravam vinte e oito.
Das dez rampas de lançamento apenas duas continuavam de pé. O suprimento de foguetes nucleares se reduzira de cem para cinco.
O major Lysenkow assumiu o comando dos vinte e oito sobreviventes. Era um homem relativamente jovem, que punha todo seu empenho em mostrar aos homens que mantinha o domínio perfeito da situação.
Também a leste da faixa devastada, a nave em sua rápida passagem afetara os tímpanos dos homens. Lysenkow teve de se comunicar por escrito com seus homens; não lhe ocorreu a idéia brilhante de Tomisenkow.
Depois de algumas horas, quando acreditava estar em condições de manejar um dos transmissores portáteis, procurou entrar em contato com o general. Até então os vinte e oito homens só estavam ocupados em tratar das feridas, apurar a radiatividade da faixa derretida e, de tempos em tempos, medir a temperatura do solo na mesma.
Tomisenkow não respondeu, e nenhuma outra pessoa acusou o recebimento do chamado.
Lysenkow se sentiu terrivelmente perturbado. Levou bastante tempo até que lhe ocorreu que provavelmente Tomisenkow teria abandonado o acampamento, deixando no local alguma indicação sobre seu paradeiro atual.
Lysenkow não gostou da idéia de aguardar até que a faixa calcinada esfriasse a ponto de não representar qualquer perigo. Eram cento e oitenta horas, tempo local; dentro de dez ou doze horas ficaria escuro.
Lysenkow participara do bombardeio infrutífero da nave inimiga; por isso estaria em condições de imaginar mais ou menos o que tinha acontecido, mesmo que não soubesse explicar certos detalhes. Mas calculava que dentro de algum tempo o inimigo voltaria a atacar e mandou preparar as rampas de disparo que ainda restavam.
Depois, ficaram à espera.

* * *

O major Deringhouse recebera instruções para verificar de ambos os lados da faixa calcinada, para apurar se ainda havia restos das tropas inimigas escondidos na área em que antes se encontrava o acampamento.
Deringhouse se afastara do destacamento com dois dos seus câmbios; passando rente à copa das árvores, avançou na direção sul.
Encontrou a parte oeste do acampamento vazia e abandonada, com exceção dos cadáveres de alguns homens vitimados pelo furacão.
Passou pela faixa devastada a cerca de quinhentos metros de altitude. Ao pôr do sol os dois veículos pousaram junto a uma das rampas de foguete escondidas na folhagem, que o furacão derrubara.
Deringhouse examinou a rampa; a única coisa interessante que encontrou foi uma inscrição em letras cirílicas existente no quadro de comando eletrônico, que provava se tratar de uma expedição do Bloco Oriental.
O que ainda dava que pensar era o fato de que a rampa — se porventura não tivesse sido atirada para aquele local em virtude do deslocamento do ar — se encontrava em meio à folhagem, com um campo de tiro mínimo. Poderia haver mais uma dúzia dessas posições de disparo; mas sem encostar o nariz nelas não seria possível descobri-las.
Deringhouse dispunha de um único mutante em seu grupo. Era Son Okura. O japonês franzino com os grandes óculos de aro de tartaruga possuía uma faculdade estranha. Seus olhos sabiam captar uma faixa muito mais ampla do espectro eletromagnético que os de um homem comum. Son Okura via o infravermelho com suas ondas longas, da mesma forma que o azul radiante do céu terreno. Estava em condições de captar até mesmo certa faixa de luz ultravioleta.
Naquele instante era da maior importância para Deringhouse, porque este, apesar da escuridão que irrompia, não quis assumir o risco de usar os holofotes de luz infravermelha, que poderiam ser detectados pelos instrumentos do inimigo. Mas, como o calor do dia se mantivesse, úmido e opressivo, sob a cobertura espessa das folhas, os olhos de Okura mantinham toda sua eficiência. Para ele, de noite a floresta continuava tão iluminada como uma paisagem coberta pelos raios do sol.
Outro auxiliar de Deringhouse consistia nos pequenos localizadores de microondas, que todo câmbio conduzia a bordo. Um dos homens estava pesquisando os arredores do local de pouso. Pequeninos pontos verdes começavam a emitir uma débil luminosidade sempre que o feixe de ondas atingia a massa metálica de outras rampas de lançamento.
Outro homem anotava os resultados num mapa provisório.
Enquanto Deringhouse ainda aguardava o resultado, o homem que manejava o dosímetro anunciou um nível anormal de radiatividade. Deringhouse pegou um pequeno contador e, acompanhado de dois homens, saiu em busca da fonte de radiações. Um dos dois homens era Son Okura.
Aproximaram-se da faixa de terra calcinada.
Subitamente Okura parou e ergueu a mão. Deringhouse permaneceu imóvel. O ruído produzido por uma série de pisadas e estalos se aproximou da esquerda. Deringhouse viu uma sombra comprida e achatada, que atravessou a folhagem a uns vinte metros de distância.
Desapareceu na direção norte. Ao que parecia não percebera o grupo dos três homens que se mantinham numa expectativa ansiosa, ou não se interessava pelo mesmo.
Prosseguiram em sua marcha. Para vencer obstáculos maiores, valiam-se dos geradores antigravitacionais de seus trajes. Finalmente chegaram a um ponto em que o contador acusava uma emanação tão elevada que Deringhouse achou preferível não prosseguir.
A uns cem metros de distancia, na faixa da selva que o furacão escaldante da Stardust-III reduzira a cinzas, Okura pôde distinguir um conjunto de objetos de cor escura; provavelmente tratava-se dos remanescentes de um edifício. Não havia a menor dúvida de que as radiações provinham dali. Deringhouse estava praticamente convencido de que os homens do Bloco Oriental haviam armazenado parte de seu armamento nuclear naquele edifício, e que esse armamento fora atingido pela tempestade de fogo.
Dispôs-se a regressar. Mas nesse instante Okura, num gesto de advertência, colocou a mão sobre seu braço.
— Psiu!...
Aguçaram os ouvidos. Ouviram sons martelantes, vindos do sudoeste, trazidos pelo vento causado pelo calor da faixa de terra queimada. Deringhouse não sabia que ruído era esse, mas Okura logo descobriu.
— É um facão! — cochichou. — Alguém se aproxima. Eu o vejo.
Deringhouse resolveu esperar.
As pancadas chicoteantes cessaram assim que o desconhecido atingiu a faixa devastada, passando a se mover em terreno desimpedido. Nem Deringhouse nem o cabo que o acompanhava distinguiam qualquer coisa; mas o japonês via o homem com toda nitidez.
— Está de uniforme — cochichou. — Traz uma carabina automática na mão esquerda e um pequeno aparelho na direita.
Dali a um minuto acrescentou:
— Vem exatamente em nossa direção. Vamos procurar uma cobertura.
Agacharam-se atrás do toco de uma gigantesca árvore que o furacão carregara. Deringhouse preparou seu radiador de impulsos energéticos.
Pouco depois viu o vulto desconhecido emergir da escuridão. Ouviu-o murmurar.
Parou a uns cinco metros de seu esconderijo. Continuava a segurar a carabina descuidadamente na mão esquerda. Mas colocara a caixinha bem diante dos olhos; Deringhouse viu uma luz débil, que na sua opinião provinha de uma escala luminosa.
Era um dosímetro. Os homens do Bloco Oriental vigiavam o foco do perigo radiativo.
Deringhouse não teve muito tempo para refletir sobre a tática que devia empregar. Se atirasse com o radiador de impulsos, mataria o homem. Acontece que pretendia saber alguma coisa por seu intermédio.
Ergueu-se cautelosamente. O desconhecido se encontrava quase de costas. As longas pernas de Deringhouse venceram a distância em dois ou três saltos rápidos. Antes que o homem compreendesse o que estava acontecendo, foi golpeado na cabeça com a coronha da arma de Deringhouse.
Dobrou os joelhos e caiu molemente ao solo.
— Venham! — chamou Deringhouse a meia voz. — Agarrei-o.

* * *

O major Lysenkow fez tudo para que seus homens não percebessem nada, mas já não conseguia esconder a verdade de si mesmo: se a incerteza durasse mais algumas horas, sofreria um colapso.
Tinha diante de si, sobre o solo batido diante da cabana de folhas primitiva que sobrara do furacão, um mapa provisório da área em que pousara a expedição do general Tomisenkow. Guiando-se pelas estimativas realizadas juntamente com seus homens desenhara no mapa a faixa atingida pelo furacão, a faixa de terra calcinada e o ponto em que a radiatividade atingia um nível perigoso, em cujo centro se encontravam os foguetes derretidos.
Quis o acaso que justamente nesse ponto a faixa aquecida fosse mais estreita. Dentro de três horas, o mais tardar, Lysenkow assumiria o risco de fazer com que seus homens transpusessem a faixa nesse ponto, em passo acelerado; numa situação dessas não importava quantos homens resistissem a um empreendimento desses. O que interessava a Lysenkow era que ele mesmo, o chefe do grupo, fosse bastante rápido para atingir o lado oposto são e salvo.
Mas havia a mancha contaminada. Se o nível de radiatividade não baixasse com suficiente rapidez, teriam de esperar até que a faixa de terra queimada esfriasse o bastante em outro ponto, onde a largura era maior.
É que nem mesmo o major Lysenkow estava livre dos efeitos das emanações radiativas.
Enviara um homem ao local para medir as radiações.
Olhou para o relógio.
Por que o sujeito estaria demorando tanto?
Lysenkow se levantou e saiu da cabana. Seguiu na direção em que o homem se afastara. Passando entre as trepadeiras que lhe barravam o caminho, aguçou o ouvido.
Percebeu o som de passos.
Parou. A folhagem se movimentou diante dele e uma sombra emergiu da mesma.
— Por que demorou tanto? — chiou Lysenkow.
O homem parou; não respondeu.
— Aproxime-se! — ordenou Lysenkow.
O homem deu alguns passos em sua direção.
— Por que demorou tanto? — repetiu Lysenkow. — Responda.
No momento em que começou a suspeitar, porque o homem que tinha diante de si era mais baixo que aquele que enviara ao local, já era tarde.
Com um salto de felino, Son Okura se grudou na garganta do major. Lysenkow não teve a menor chance. Uma pancada vigorosa com a coronha do radiador de impulsos energéticos pôs fim à luta antes que a mesma tivesse começado.
Okura deu um assobio estridente. Trinta segundos depois Deringhouse e o cabo se encontravam ao seu lado.
O japonês apontou para o corpo imobilizado de Lysenkow.
— Parece que é o chefe — cochichou.
Deringhouse confirmou com um aceno de cabeça.
— Vamos amarrá-lo e amordaçá-lo — ordenou laconicamente.
O cabo recorreu a algumas trepadeiras e ao seu lenço para cumprir essa incumbência.
— Prosseguir! — ordenou Deringhouse. — Deixem o homem aqui.
Son Okura seguiu à frente. Andando pelo caminho que Lysenkow abrira em meio à vegetação, encontraram a cabana. Num raio de cinqüenta metros Okura notou mais três cabanas, de maiores proporções, espalhadas sob as árvores. Pelos cálculos de Deringhouse deviam ser uns trinta homens que viviam ali.
Convocou o resto de seus homens e lhes explicou a posição exata do objetivo. A fonte de radiatividade constituía um excelente ponto de referência.
Oito minutos depois, os câmbios pousaram. Atrás da cabana de Lysenkow, ao sudoeste, havia uma faixa de mata livre de vegetação rasteira. Desceram ali sem provocar o menor ruído.
Deringhouse transmitiu instruções lacônicas. Quando terminou, viu uma sombra que se aproximava da cabana, vinda do leste. Admirado, Deringhouse se ergueu por completo.
— Kto tam? — perguntou a sombra. Aquelas palavras de uma língua estrangeira provocaram a reação instantânea de Deringhouse. Antes que a sentinela soubesse se a suspeita que o trouxera até ali era justificada ou não, Deringhouse atirou. O efeito do choque térmico do radiador de impulsos energéticos foi tão fulminante que a vítima nem teve tempo para gritar.
O resto foi fácil. Diante de cada cabana havia uma sentinela. Todos foram dominados prontamente e com um mínimo de ruído. As dificuldades causadas pelos soldados que dormiam no interior das cabanas foram ainda menores. Dentro de quinze minutos a ação estava concluída. Deringhouse capturara mais vinte e sete prisioneiros. Um deles lhe havia revelado que daquele lado da faixa de terra calcinada não havia outros homens do bloco Oriental. Mandou dois dos seus homens trazerem o prisioneiro capturado em primeiro lugar, através do qual souberam a situação daquela posição provisória.
Quando uma tormenta desabou sobre a selva, Deringhouse prosseguiu no interrogatório. Mas só dali a uma hora, quando a tormenta já estava amainando, apurou a importância de sua presa. Depois que o furacão causado pela Stardust-III destruíra a maior parte do arsenal nuclear da expedição do Bloco Oriental, e uma vez capturados pelos homens de Deringhouse os cincos foguetes nucleares remanescentes, a mesma já não dispunha de qualquer arma nuclear cujo poder explosivo fosse superior a um quiloton de TNT. Restavam as armas defensivas das naves espaciais, das quais Tomisenkow — no meio tempo Deringhouse apurara o nome — provavelmente teria salvo algumas.
O perigo maior havia sido eliminado.
Deringhouse imediatamente transmitiu o respectivo relatório a Rhodan, através do hipertransmissor.

3



A tempestade, que Deringhouse e seus homens enfrentaram sem maiores problemas, trouxe uma situação bastante difícil para o general Tomisenkow, seu ajudante e os outros membros da coluna que comandava.
Depois da aventura pavorosa junto ao lago, Tomisenkow também perdera o terceiro dentre seus acompanhantes. Quinze minutos depois, quando o mesmo se esforçava para afastar um cipó grosso e resistente, percebeu tarde demais que se havia metido com uma cobra.
Esta, que era do tamanho de uma jibóia, fugiu pelo ombro do jovem oficial que a atacara a golpes de facão e desapareceu em meio à vegetação. Parecia que tudo tinha terminado bem; fora só o susto, que atingira Tomisenkow e seu ajudante quase com a mesma intensidade que ao jovem oficial.
Mas, alguns minutos depois, o jovem subitamente caiu ao chão. Tomisenkow procurou lhe prestar auxílio. O pescoço, que era a única parte do corpo tocada pela cobra, estava tão inchado que era da mesma grossura da cabeça. O homem morreu dentro de poucos instantes.
O ajudante tirou o facão das mãos do morto e foi abrindo caminho. Em uma hora não avançaram mais que mil e quinhentos ou dois mil metros.
Ao pôr do sol perceberam que a trilha aberta por um dos grupos que ia à frente começava a se abrir; parecia mais recente. Realmente, dali a quarenta e cinco minutos alcançaram um grupo de cinco homens levemente feridos, que carregavam as macas em que iam dois feridos graves.
Quase no mesmo instante, o ajudante, que carregava o rádio pendurado ao pescoço, recebeu a mensagem expedida por um dos grupos que iam mais à frente. O grupo havia encontrado um local adequado para montar acampamento, numa área de terreno aberto. Muito embora os cinco homens com ferimentos leves a que se haviam reunido minutos antes bem merecessem que alguém lhes prestasse auxílio, carregando as pesadas macas ao menos por alguns metros, Tomisenkow não hesitou em seguir à frente com seu ajudante, para chegar ao local do acampamento antes que ficasse completamente escuro.
— Abriremos um bom caminho para vocês — prometeu Tomisenkow para consolar os homens.
Pouco depois do pôr do sol chegaram ao pé do platô de pedra de onde fora expedida a mensagem do grupo de vanguarda.
Quinze minutos depois, Tomisenkow e seu ajudante chegaram ao acampamento levantado nesse meio tempo. Ficava numa clareira circular com cerca de trinta metros de diâmetro, situada em meio à vegetação rasteira.
Nas proximidades havia uma nascente que despejava sua água num ribeirão, por cima de uma pedra ligeiramente inclinada. Era uma água fresca e boa de beber; mas logo se percebia seu elevado teor de ferro. Havia possibilidade de cuidar dos homens que haviam sofrido ferimentos graves, cujas condições gerais tinham piorado bastante face às condições adversas em que eram transportados e ao calor úmido reinante em Vênus.
Foi quando desabou a tempestade.
Quando Tomisenkow decolou com sua frota expedicionária, foi informado de que, face à reduzida velocidade com que Vênus executava seu movimento de rotação, a diferença entre a temperatura diurna e noturna devia ser considerável, o que provavelmente ocasionaria fenômenos atmosféricos anormais ao nascer e ao pôr do sol.
Acontece que Tomisenkow não sabia muito bem o que seriam esses fenômenos atmosféricos anormais, motivo por que decidiu aguardar os acontecimentos.
Se tivesse sido avisado de que o alvorecer e o anoitecer traziam consigo furacões de intensidade extraordinária, teria tomado suas providências.
Como de nada desconfiasse, o rugido surdo que se aproximava do leste, de início, só causou um ligeiro susto a ele e a seu ajudante. Ambos procuraram disfarçar o susto.
Quando perceberam que o rugido representava um perigo real já era tarde.
O furacão atingiu o acampamento com a intensidade de uma gigantesca punhalada. Pela segunda vez no mesmo dia Tomisenkow se sentiu agarrado por uma mão de ferro e arrastado para a frente. Caiu dentro de alguma coisa que devia ter uma forte semelhança com as urtigas terrenas. De um instante para outro sentiu um ardor insuportável no rosto e nas mãos. Teve vontade de gritar; mas, como era um homem duro, mesmo para consigo mesmo, deixou de fazê-lo.
A tempestade prosseguiu no seu rugido, agitou a vegetação e lhe tornou impossível a respiração enquanto virasse o rosto na direção de onde soprava o vento. Voltou-se para o outro lado e comprimiu o corpo contra o solo pedregoso.
Ficou deitado por alguns minutos, que lhe pareceram horas. Seus olhos, ofuscados pelas lâmpadas de pilha do acampamento, se acostumaram à escuridão.
Viu alguma coisa que se aproximava sob a vegetação. Eram formigas, ou alguma coisa que se parecia com formigas, uma massa cintilante, coberta por córneas. Cada animal media uns cinco centímetros.
Centenas delas se deslocavam em sua direção, rentes ao chão. Imobilizado pelo susto, permaneceu deitado até que a primeira atingisse o ponto em que se encontrava sua mão estendida. O animal percebeu que havia algo de estranho, levantou a cabeça e cravou as tenazes na mão. Tomisenkow soltou um grito de dor, encolheu a mão e sacudiu-a até se livrar da formiga. Na mão havia uma pequena mancha vermelha.
O incidente parecia ter despertado a atenção das formigas. Numa velocidade maior que antes, precipitaram-se em sua direção.
Sacudido de pânico, o general se ergueu de um salto. Esquecera a tempestade. Esta agarrou-o com uma força irresistível, levantou-o por cima das moitas e tangeu-o como se fosse uma folha. Bem ao oeste, largou-o no chão. Com o impacto perdeu os sentidos.

* * *

Rhodan passou a hora da tempestade crepuscular em plena segurança, no chão da selva. Desde a primeira expedição a Vênus ficou sabendo que a parede formada pela mata constituía a melhor proteção contra a força do furacão. A selva era tão densa, e as plantas que a compunham tão flexíveis que no acampamento de Rhodan a tempestade só era sentida como um ruído perturbador.
O acampamento se situava ao pé de uma singular encosta de pedra, que se erguia suavemente em direção ao sul e estava coberta somente de pequenos arbustos.
Rhodan pretendia prosseguir assim que amainasse a tempestade, a fim de se lançar quanto antes ao ataque do primeiro grupo inimigo. Mas nem desconfiava de que Tomisenkow, cujo nome ficara conhecendo através do relato de Deringhouse, naquele mesmo instante se encontrava a apenas dois quilômetros de distância, pouco além da elevação de cento e cinqüenta metros de altura, que a encosta de pedra formava em meio à planura da selva.
A bordo da Stardust-III tudo ia bem.

* * *

Por mais que a tempestade tivesse fustigado o acampamento e os homens, assim que tudo terminou, ainda havia bastante disciplina para que os homens compreendessem que antes de mais nada deveriam procurar o general Tomisenkow.
A única coisa que o ajudante sabia era que Tomisenkow fora arrastado pelo vento na direção oeste.
Equipados com lanternas de pilha, os homens penetraram na área coberta de arbustos. Encontraram-se com uma trilha de gigantescas formigas marrom-claras e tiveram inteligência suficiente para contorná-las a grande distância.
Depois de uma hora de buscas encontraram Tomisenkow. Estava recuperando a consciência e gemia. A costela, trincada pelo furacão que a Stardust-III desencadeara, fora fraturada totalmente na queda.
Tomisenkow foi carregado por um trecho. Quando recuperou os sentidos por inteiro, achou que essa forma de locomoção não correspondia à sua elevada dignidade e passou a se arrastar sobre as próprias pernas, sempre resmungando.
O balanço levantado por dois homens ilesos que haviam permanecido no acampamento era assustador. Inicialmente o grupo era composto de trinta homens, doze deles ligeiramente feridos e dezoito com lesões graves. Destes últimos, seis haviam morrido e oito não foram encontrados. Entre os feridos leves havia dois mortos e quatro desaparecidos.
As cabanas tiveram de ser levantadas de novo. Tomisenkow mandou que seu ajudante entrasse em contato pelo rádio com a nave espacial pousada nas montanhas. Depois de algumas tentativas inúteis o ajudante conseguiu estabelecer contato. Tomisenkow deu ordem para que uma das naves voltasse a decolar e viesse buscá-lo. Nada restava do desejo de fornecer um exemplo brilhante aos subordinados.
Os componentes da expedição espacial haviam sido preparados para as condições especiais reinantes nas selvas do planeta Vênus. Por isso não gastaram mais de quinze minutos em levantar uma cabana relativamente confortável, e outros quinze minutos para fechar a entrada com uma cortina de trepadeiras praticamente opaca, da qual Tomisenkow fazia questão. Sabia perfeitamente que várias horas seriam necessárias para colocar um foguete pousado em condições de decolar, e que ele mesmo disporia de pelo menos oito horas para tratar suas feridas e descansar.
Deitou confortavelmente no leito de folhas e pôs-se a discutir com seu ajudante as perspectivas que a situação abria para o futuro. A dor provocada pela costela fraturada era suportável e, passado o susto das últimas horas, a confiança começou a voltar ao espírito de Tomisenkow.
O ajudante se mostrava menos confiante.
— Sou de opinião que nos encontramos numa posição perdida — disse com toda franqueza. — A tempestade provou que nosso preparo é insuficiente até mesmo para enfrentar os fenômenos naturais deste planeta. Acontece que, além da natureza de Vênus, ainda teremos de lutar contra um inimigo superior em forças. Como poderemos resistir a isso?
Tomisenkow se zangou.
— Não culpe o Ministério da Força Espacial pela presença de Rhodan. Todo mundo estava convencido de que ele se encontrava em algum ponto bem afastado do espaço. Ninguém poderia prever que iria retornar justamente neste instante.
O ajudante deu de ombros. Não cometeria a imprudência de continuar a contrariar seu superior.
— O que acha — principiou Tomisenkow depois de algum tempo. Mas nesse instante alguma coisa mexeu na cortina de trepadeiras.
— Quem é? — perguntou Tomisenkow em tom áspero.
Ouviu-se um ruído borbulhante, vindo do lado de fora.
— Veja o que é. — ordenou Tomisenkow.
O ajudante se levantou, afastou a cortina e se defrontou com dois olhos vermelhos e chamejantes de tamanho descomunal, que se encontravam bem diante de seu rosto.
Recuou com um grito estridente; mas quem se encontrava do lado de fora — fosse lá quem fosse — não quis saber de brincadeira. Tomisenkow, cuja atenção fora despertada pelo incidente, viu uma pata com vários dedos sair da cortina e segurar o ajudante pela gola do uniforme. Este foi arrastado aos gritos; a cortina foi arrancada. Lá fora, viu-se uma sombra disforme e oscilante, e dois círculos chamejantes do tamanho de uma palma de mão dançavam pelo ar.
Os gritos do homem surpreendido de maneira tão apavorante cessaram. Tomisenkow, que estava enrijecido de susto, ouviu sons tateantes, que se afastavam rapidamente, e logo a seguir uma estranha batida.
Só então recuperou as faculdades. Sem se preocupar com as dores que sentia na costela, saltou do leito e pôs-se a gritar:
— Alarma! Socorro!
Logo foi ouvido. Mas algum tempo se passou até que os homens pudessem deduzir de seu relato confuso o que realmente havia acontecido. Os três holofotes de pilha de que o grupo dispunha foram montados e os feixes de luz iluminaram toda a área do acampamento. Nem o ajudante, nem o ser misterioso que o vitimara foi encontrado. A frente da cabana de Tomisenkow o chão era duro. Não havia rastros.
Tomisenkow mandou dobrar as sentinelas. Ainda estava transmitindo instruções aos homens, quando um grito selvagem soou nos fundos do acampamento. Um dos holofotes girou rapidamente e abrangeu, do lado direito, junto à última cabana, ainda não concluída, um quadro horripilante.
Um animal que se movia sobre duas pernas e, à primeira vista, parecia ser da metade do tamanho de uma casa se aproximara de um dos feridos em estado grave, agarrara-o com o bico longo e pontudo e, sem dúvida, estava prestes a se afastar com a presa quando foi surpreendido pela luz ofuscante do holofote. Fechou os grandes olhos vermelhos encravados na cabeça semelhante à de um pássaro e ficou na expectativa. O ferido continuava a gritar.
— O que estão esperando? — berrou Tomisenkow. — Atirem logo! Atirem.
Com essa ordem os homens puseram-se em movimento. Ouviu-se o estrondo de uma confusão de tiros: as pancadas duras e matraqueantes das carabinas automáticas e o estouro metálico das pistolas.
À luz dos holofotes via-se que grande número de tiros acertou o alvo. A pele do animal, que tinha a configuração do couro, se abriu sob os impactos, e um tipo de sangue porejou pelas feridas. O ferido silenciou de repente.
O animal já não parecia ter interesse nele. Deixou-o cair e saiu correndo. Enquanto corria, as pernas pareciam crescer em comprimento. Pela segunda vez, Tomisenkow ouviu o ruído rápido e tateante, sempre que as patas tocavam o chão.
O estranho animal havia percorrido uns cem metros, a uma velocidade cada vez maior. Subitamente dois retalhos de pele desdobraram-se nas suas costas e se abriram em asas de uma envergadura inacreditável. A velocidade da corrida foi suficiente para erguer o animal no ar de um instante para outro. Produziu alguns sons repulsivos produzidos pelas batidas das asas e saiu voando tão rapidamente que a luz dos holofotes não pôde segui-lo.
Por algum tempo Tomisenkow e os membros do grupo mal ousavam respirar, de tão assustados que estavam. Depois de uns dois ou três minutos alguém disse com a voz quase devota:
— Um lagarto voador!
O encanto estava rompido.
Examinaram o ferido. Estava morto.
Tomisenkow não se atrevia a voltar à cabana. Mandou suspender a construção das mesmas e determinou aos homens que dormissem ao ar livre. Mais da metade dos membros dos grupos foram destacados para servir de sentinelas. Assim mesmo Tomisenkow praguejou contra a técnica e os pilotos dos foguetes, que levavam tanto tempo para vir buscá-lo.

* * *

Rhodan dormira duas horas. Isso bastava para que se sentisse perfeitamente descansado.
Desenvolveu, com base nos novos dados fornecidos pelo sistema de localização da Stardust-III uma rota de marcha provisória que, pelos seus cálculos, devia levá-lo a pelo menos dois grupos inimigos.
Ainda estava ocupado em interpretar os dados, quando um dos homens do sistema de localização se fez ouvir:
— Aí vem alguma coisa. É do tamanho de um avião, mas não faz o menor ruído.
Rhodan deu alguns passos e se colocou junto ao pequeno aparelho de localização. Surpreso, observou a larga mancha verde, que lentamente foi rastejando da borda para o centro da tela.
— A velocidade é de cerca de oitenta quilômetros por hora — completou o homem.
A mancha ainda se encontrava a certa distância do centro da tela, quando subitamente alterou sua rota.
— Está descendo — disse o homem surpreso.
Rhodan recebeu a informação com os olhos semicerrados. Procurou descobrir que objeto seria este; mas a imagem projetada na tela de microondas praticamente não permitia qualquer conclusão além do tamanho.
Com a modificação da altitude a mancha verde se aproximara bastante do centro da tela. Antes que o alcançasse, parou subitamente.
— O que será isso?
Rhodan compreendeu. Um animal provocara o reflexo. Era um animal grande, com asas, talvez um lagarto voador. Descera sobre as árvores nas proximidades do lugar em que se encontravam. A mancha verde encontrava-se exatamente sobre a linha sinuosa que marcava a altura da mata.
— Não se preocupe — disse Rhodan ao vigilante. — Foi apenas um animal. Provavelmente um...
Estacou.
— Ouviu alguma coisa? — perguntou.
— Também tive a impressão... — respondeu o vigilante.
Prenderam a respiração e aguçaram o ouvido, bastante tensos.
Depois de algum tempo voltaram a ouvir o ruído. Era um grito, um grito que exprimia o grau mais elevado de pavor. Um grito humano.
A reação de Rhodan foi instantânea.
— Verifique a direção! — gritou para o vigilante.
Logo desapareceu na escuridão.
Dentro de poucos segundos estava pronto para decolar num câmbio, juntamente com cinco de seus homens. Colocou o veículo pouco acima da cabeça do vigilante-localizador e mandou que este lhe indicasse a direção exata. Depois rompeu a folhagem das copas das árvores e pôs-se a procurar.
O câmbio dispunha de um localizador próprio. Na tela do oscilógrafo o animal estranho e imenso se destacava nitidamente sob a forma de um ponto reluzente contra o fundo representado pela mata.
— Mantenham as armas prontas para disparar — disse Rhodan, enquanto deu uma brusca acelerada no câmbio. — Abram os olhos. Um homem está em perigo.
A distância que separava o animal do acampamento não era superior a duzentos metros. O câmbio se aproximou a trinta metros; os homens já haviam enquadrado seguramente o alvo.
Rhodan ligou o holofote de luz infravermelha e olhou através do filtro. Viu o gigantesco animal na copa de uma árvore gigantesca. Por um instante se assustou com o vulto horrível envolvido por uma pele nua.
Era um lagarto voador, não havia a menor dúvida, muito embora se parecesse bastante com um pássaro.
Ao que parecia o raio infravermelho inquietava o animal. A cabeça se levantou e Rhodan pôde distinguir o bico longo e pontudo, de mais de dois metros de comprimento.
— Acionar o raio neutrônico — ordenou Rhodan, sem tirar os olhos do filtro. — Um centésimo.
A ordem foi executada imediatamente. A graduação mais fraca do radiador neutrônico mal foi suficiente para fazer o animal sentir que alguma coisa não estava em ordem. Abriu as asas e, com algumas batidas surdas transmitidas pelo microfone externo, elevou-se alguns metros acima da copa da árvore.
Não se via mais nada do homem que gritara ainda há pouco.
— Um décimo — ordenou Rhodan.
A intensidade do raio neutrônico foi aumentada. O animal soltou um grito agudo e procurou fugir.
— Acionar o radiador de impulsos! — gritou Rhodan.
A terrível arma alcançou o animal em meio ao vôo e fez com que se precipitasse na selva.
Rhodan voltou a acelerar. A folhagem da gigantesca árvore foi bastante densa para sustentar o veículo. Rhodan desceu e recomendou aos homens que tivessem cautela ao saírem.
Além da pequena comporta de ar foram recebidas pelo cheiro nauseante do animal queimado. Equilibravam-se sobre os galhos da grossura de um braço humano, que as garras do lagarto haviam limpado de toda folhagem. Com o auxílio de um holofote manual, encontraram o corpo amolecido daquele que pouco antes gritara por socorro. Estava deitado num entroncamento de galhos.
Rhodan examinou o homem antes que fosse carregado ao câmbio. Seu uniforme estava rasgado, e sangrava por várias feridas. Rhodan espalhou sobre as mesmas um remédio destinado a estancar o sangue, pertencente à farmácia arcônida da Stardust-III.
Não conhecia o homem. Mas, pelo uniforme, concluiu que pertencia ao Bloco Oriental. Se permanecesse vivo poderia fornecer indicações importantes.
Levaram-no com todo cuidado ao câmbio e retornaram ao acampamento.
Sob a influência dos medicamentos de que Rhodan podia dispor lá, o homem logo recuperou a consciência. Ao despertar não sentiu dores; Rhodan cuidara disso.
Olhou em torno, um tanto admirado, apoiou-se sobre os cotovelos e levantou-se.
— Onde estou? — perguntou em russo.
— Não o entendo — respondeu Rhodan. — O senhor fala inglês?
O homem fez que sim.
— O senhor... é Rhodan? — perguntou em tom hesitante.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Quem é o senhor?
Talvez o homem não tivesse a intenção e dar uma resposta verídica a Rhodan. Mesmo que este o tivesse libertado das garras do lagarto, ainda continuava a ser seu inimigo.
Mas o olhar de Rhodan, a força imensa daquela vontade e as energias vitais irradiadas por um homem dotado de imortalidade relativa representavam uma sugestão irresistível que reforçou a pergunta. Ao homem não restou outra alternativa senão dizer a verdade.
— Meu nome é Trewuchin. Sou ajudante do general Tomisenkow.
Satisfeito, Rhodan acenou com a cabeça.
Formulou outras perguntas. Embora Trewuchin antes estivesse decidido da enganar Rhodan na medida do possível, respondeu sem hesitação e conforme a verdade.

* * *

Tomisenkow não conseguiu conciliar o sono.
A costela doía, e os acontecimentos do dia que passara representavam uma carga excessiva até mesmo para um homem enrijecido como o general.
Sempre que conseguia mergulhar numa espécie de torpor, lagartos voadores que cuspiam fogo exibiam seus olhos vermelhos e queriam agarrá-lo, fazendo-o despertar com um grito de pavor reprimido.
Deitou sobre o lado direito do corpo e olhou para a orla da moita de arbustos que, numa linha negra, se destacava de forma estranha contra o céu cinzento.
A atmosfera densa e o sol muito próximo, curou sua mente cansada. Em Vênus a claridade nunca é completa, porque o ar é muito denso, nem a escuridão é total, porque a atmosfera é um ótimo condutor da luz.
Um holofote iniciou o trabalho, cansado, descrevendo um círculo lento. O círculo começou ao norte, girou para o leste e para o sul. Tomisenkow cerrou os olhos para não ser ofuscado quando o feixe de luz atingisse os arbustos.
Pretendia fechar os olhos; mas não o fez.
Viu alguma coisa. Os arbustos se moviam, e alguma coisa larga e desajeitada saiu por entre os mesmos.
Só Tomisenkow o vira à luz do holofote. De início pensara que fosse um animal; mas logo ouviu o zumbido fraco e agudo de uma máquina.
Perry Rhodan!
A idéia provocou o impacto de um choque elétrico.
Rhodan descobrira a posição do acampamento e iria atacar.
Nem concluiu seus pensamentos. Levantou-se, devagar e gemendo baixinho, para não chamar a atenção dos outros.
A área dos arbustos não ficava a mais de cem metros. Rhodan usaria de cautela ao se aproximar do acampamento, e até lá...
Seria inútil tentar organizar a resistência com o punhado de homens sonolentos e de moral abalada. Se Rhodan atacasse o acampamento, estaria preparado.
Naquela situação só uma coisa importava: que ele, Tomisenkow, não caísse nas mãos do inimigo.
Penetrou no mato de arbustos na direção noroeste, rastejou por uns cinqüenta metros e ficou aguardando.
Levou algum tempo para examinar a decisão tomada às pressas e nada de errado viu na mesma. De nada teria adiantado despertar os homens que se encontravam no acampamento e procurar resistir a Rhodan. Mas, ao sair furtivamente e sozinho, teria uma chance de escapar na confusão do combate que devia começar a qualquer momento.
Depois de ter esperado uns cinco minutos sem ouvir nada, começou a ficar nervoso. Pelos seus cálculos Rhodan já deveria ter iniciado o ataque.
Outros cinco minutos se passaram e Tomisenkow se sentiu dominado pela curiosidade. Rastejou cautelosamente em direção ao acampamento.
Quando se encontrava a quinze metros da clareira, ouviu vozes. Mais três metros, e conseguiu distinguir as palavras.
Alguém falava em inglês.
Por um instante ficou imobilizado de susto, ao ouvir a voz de Rhodan:
— Deve estar escondido nestas moitas. Não pode ter ido longe. Procurem-no; tenham cuidado.
Tomisenkow ouviu o estalo de galhos que se quebravam. O ruído reanimou-o. Voltou a fugir na direção noroeste o mais rápido que pôde.
Não se sentiu nada bem ao correr a toda pressa pelo matagal escuro. Mas não perdeu tempo em refletir para onde a fuga o levaria. A direção geral era correta, e talvez conseguisse chamar a atenção dos tripulantes do foguete.
O que mais o perturbava era que, segundo tudo indicava, Rhodan tomara o acampamento em silêncio e sem qualquer luta.
Depois de algum tempo — não saberia dizer há quanto tempo já vinha percorrendo o matagal de arbustos — o terreno, que até então subia suavemente em direção ao norte, tornou-se plano para depois descer, num declive também suave, na mesma direção.
A vegetação de arbustos foi se tornando cada vez mais densa e vez ou outra surgiam árvores, das quais Tomisenkow se desviava. Toda vez que fazia uma pausa para descansar ouvia seus perseguidores, que falavam e faziam farfalhar os arbustos.
Não era de admirar. Se dispusessem de lâmpadas, mesmo que estas não fossem muito boas, o rastro teria de lhes revelar o caminho.
Dali em diante se esforçou para usar um pouco mais de agilidade, não quebrando tantos galhos e evitando deixar marcas no solo.
Esse esforço devia ter consumido toda sua atenção, pois apesar do tamanho descomunal só percebeu aquilo que dele se aproximava quando, por um triz, iria esbarrar no peito largo e peludo e o hálito fétido e chiante atingiu seu rosto, vindo de cima.
Tomisenkow reagiu de forma instintiva, e foi o que o salvou. Não sabia que animal era este em cujas garras quase chegara a se atirar espontaneamente. Pelo que podia ver no escuro parecia um urso, mas tinha pelo menos o triplo do tamanho do maior dos ursos que Tomisenkow já havia visto.
De qualquer maneira Tomisenkow, muito assustado, deu um salto para o lado, escapando assim à primeira patada. Ao primeiro salto se seguiu um segundo, que, no momento o colocou fora do alcance das patas do animal exaltado.
Saiu tropeçando, sem prestar atenção à direção em que se deslocava. Atrás de si ouviu o ruído de patas e de galhos que quebravam. Lançou um olhar rápido por cima do ombro e viu a massa escura e cambaleante que vinha atrás dele.
Provavelmente estaria perdido, se o acaso não o tivesse protegido de forma tão estranha.
Ao se levantar depois de um grande salto por cima de uma árvore tombada, o chão cedeu sob seus pés. Soltou um grito abafado e abriu os braços, à procura de apoio. Mas ao que parecia aquele buraco traiçoeiro tinha um diâmetro maior que a envergadura de seus braços. Praticamente sem a menor resistência caiu vertiginosamente para dentro de um poço onde a escuridão era ainda maior que na selva noturna.
Aos arranhões e pancadas a viagem para o fundo prosseguiu ao menos por uns cinco ou seis metros. Depois o poço descreveu uma curva. Uma viagem infernal levou Tomisenkow a um recinto cuja forma era regular, semelhante à de um funil, conforme constatou logo depois.
Aguçou o ouvido e percebeu um rugido profundo. Torrões de terra caíram pelo poço. Depois houve alguns segundos de silêncio. Logo depois ouviu passos retumbantes que se afastavam lá em cima.
Tomisenkow respirou aliviado. Fosse qual fosse o lugar em que acabara de aterrisar, se salvara das garras do urso.
Arriscou-se a acender um fósforo e observou o lugar em que se encontrava.
Era um verdadeiro milagre que se encontrasse são e salvo depois da queda. O funil tinha cerca de quatro metros de altura, e o buraco pelo qual viera ficava mais de três metros acima da ponta do funil. Havia outros buracos, indicando que vários poços desembocavam ali.
Infelizmente a parede era tão íngreme e lisa que Tomisenkow não poderia subir por ela para alcançar a borda de um dos buracos.
Tirou o grande canivete que trazia consigo e pôs-se a trabalhar a parede revestida de uma massa vítrea. O trabalho progredia bem. Embora não fosse fácil, Tomisenkow tinha esperança de, nas próximas cinco horas, cavar os degraus que lhe fossem necessários para atingir um dos buracos.
O que importava por enquanto era que Rhodan e seus homens não o encontrassem. Quanto a isso, se julgava em segurança lá embaixo.
Só depois de algum tempo começou a refletir sobre a finalidade daquele funil e de suas diversas entradas. Notara que, até a altura de cerca de cinqüenta centímetros, a ponta do funil estava cheia de certo tipo de lixo; talvez fosse a poeira que penetrava pelos buracos, fechados apenas por uma fina camada de terra. Acontece que aquilo que Tomisenkow sentia sob os pés eram objetos sólidos.
Acendeu outro fósforo e examinou o material sobre o qual se apoiavam seus pés. Pegou ao acaso um objeto duro e examinou-o.
Era um pedaço de osso; não havia a menor dúvida.
Tomisenkow teve uma sensação desagradável. Como teria aquele osso vindo parar no buraco em que se encontrava?
O formato do funil era tão regular que não poderia ter sido escavado pela erosão provocada pela água da chuva. Ainda havia o revestimento vítreo da parede. E os buracos no solo, tão bem disfarçados.
Era uma armadilha!
Uma armadilha pertencente a qualquer fera do planeta Vênus. De tempos em tempos viria para verificar o que havia capturado e devorava-o.
Tomisenkow pôs-se a cavar o revestimento vítreo numa rapidez desesperada.

* * *

Perry Rhodan valera-se do projetor mental para atacar o acampamento, cuja localização lhe fora revelada pelo ajudante de Tomisenkow.
Poucos segundos depois da fuga de Tomisenkow, o projetor cobriu toda a área do acampamento, impondo a vontade de Rhodan aos que ali se encontravam. Não se opuseram quando lhes tiraram as armas e amarraram os braços. Ninguém ofereceu resistência.
Só quando se encontravam em segurança Rhodan suspendeu a influência hipnotizante. Os prisioneiros puseram-se a praguejar.
Rhodan deixou-os à vontade. Escolheu um deles e interrogou-o sobre o general Tomisenkow que, segundo tudo indicava, não se encontrava entre as pessoas aprisionadas. O homem estivera de sentinela próximo ao lugar em que Tomisenkow havia desaparecido no matagal. Dispôs-se prontamente a prestar um relato fiel, já que Rhodan reforçara sua pergunta com toda a força sugestiva do projetor mental.
Após isso Rhodan ordenou a saída de um grupo de busca, o mesmo do qual Tomisenkow havia fugido.
Depois de uma hora o grupo retornou sem ter conseguido nada. Encontrara a pista do gigantesco animal, que encobria a de Tomisenkow. Era tudo. Ninguém sabia dizer onde se encontrava o general.
O êxito inicial de Rhodan foi seguido de outro. Cerca de duas horas após o ataque ao acampamento, um foguete grosseiro desceu cuspindo fogo e, depois de executar algumas manobras complicadas, pousou a uns quinhentos metros do acampamento.
O piloto foi aprisionado, e também o resto da tripulação. O piloto revelou que, naquela altura, a divisão só dispunha de um total de oitenta naves espaciais. A resposta de Rhodan foi lacônica: — Agora só restam setenta e nove.

4



Para Rhodan, Tomisenkow estava desaparecido. Estava convencido que sua fuga desesperada lhe causara a própria morte. Nenhum homem isolado que dispusesse apenas do armamento do Bloco Oriental, totalmente inadequado para as condições reinantes em Vênus, conseguiria se manter vivo na selva por mais de meio dia de Vênus.
O próximo objetivo de Rhodan era o acampamento da divisão espacial, situado na parte noroeste do complexo montanhoso. Pelo que ouvira dos prisioneiros, o trabalho não seria fácil. Muito embora não conhecesse as características do local, Tomisenkow dera ordem para que os remanescentes de sua divisão se distribuíssem por uma área extensa. Se ainda considerasse o terreno difícil, Rhodan poderia ter certeza de que teria de travar uma verdadeira guerra de guerrilhas.
Seria inútil atacar o acampamento nas montanhas com o armamento da Stardust-III. As armas de bordo haviam sido concebidas para alvos compactos, e Rhodan teria de calcinar toda a zona montanhosa para ter certeza de que a expedição do Bloco Oriental havia sido destruída.
Não pretendia fazer nada disso. Suas armas leves também eram muito superiores às de que dispunham os membros da expedição. Se agisse com alguma cautela poderia atingir seu objetivo sem sofrer perdas e sem recorrer às armas da Stardust-III, que provocariam alterações na superfície de Vênus.
Ainda era de se considerar que nesse meio tempo o objetivo de Rhodan se modificara.
Já não estava interessado em destruir a expedição do Bloco Oriental. Antes pelo contrário, gostaria que o maior número possível de membros da divisão espacial sobrevivesse às lutas que se aproximavam.
Pretendia destruir suas naves espaciais e lhes tirar as armas com que poderiam causar estragos em Vênus. Poderiam conservar o resto, inclusive a vida.
Rhodan imaginava perfeitamente o que seria feito dos remanescentes da divisão depois disso.

* * *

Tomisenkow desenvolveu uma atividade tão furiosa que só ouviu o ruído rastejante quando quase já era tarde demais.
Imobilizado pelo susto, entreparou, aguçou o ouvido, percebeu o rastejar que se aproximava cada vez mais, e finalmente ouviu um zumbido no ar.
Não imaginava o que poderia ser aquilo. A escuridão era total, e não se atrevia a acender uma luz.
Mas aquela coisa monstruosa espalhou um mau cheiro que quase o levou a vomitar.
Ouviu outro zumbido e sentiu uma forte pancada no ombro. Quase chegou a cair. Apesar do pânico que se apossou dele, percebeu que aquilo que o havia atingido no ombro era mole e tinha a grossura de um robusto braço de homem.
Ao menos era o que concluía com base na sensação provocada pela pancada.
Tomisenkow se encolheu o mais que pôde. O medo projetou luzes coloridas e dançantes diante de seus olhos e cobriu-lhe a testa de suor. Sentiu um chiado no ouvido.
Mas tirou a pistola, reuniu a coragem que lhe restava e esperou.
Ao que tudo indicava a coisa que acabara de ouvir havia penetrado por um dos poços. Mas o fato de que não despencara como ele, mas movia-se tranqüilamente, indicava que não era uma das vítimas da armadilha, mas provavelmente o possuidor da mesma.
Naquele momento parecia bastante irritado. Alguma coisa tateou na escuridão, acima da cabeça de Tomisenkow, e logo o braço mole e vigoroso voltou a descer.
Desta vez se moveu com segurança. Envolveu o ombro de Tomisenkow e passou por baixo de seus braços. Este se controlou e esperou.
Só começou a disparar quando o braço flácido e gosmento começou a levantá-lo.
Os tiros de pistola encheram o recinto subterrâneo com um ribombar ensurdecedor. Quase inconsciente, Tomisenkow percebeu que a sensibilidade acústica dos ouvidos diminuía, e eles se encheram de uma música aguda.
Os tiros provocaram nele uma espécie de embriaguez. Continuou a comprimir o gatilho da arma automática, até que a pancada seca do percussor indicou que o pente de balas estava vazio.
O braço que enlaçara Tomisenkow começou a tremer. Este percebeu que a força do mesmo diminuía, e subitamente caiu ao solo. O braço soltara-o. Por cima dele, o animal, ferido pelos tiros de pistola, provocava um barulho infernal em meio à escuridão.
Com um movimento suave, Tomisenkow enfiou outro pente de balas na pistola e esperou. Calculava que o animal, ferido pelos tiros, se poria em fuga ou morreria.
Por isso levou um susto quase mortal quando voltou a ouvir o zumbido que já conhecia e, pelo que se deduzia do deslocamento de ar, o braço tentacular passara rente ao seu rosto. Com a queda, Tomisenkow encontrava-se em posição diferente. O animal teria que procurá-lo de novo.
A resistência de seus nervos estava chegando ao fim. Não quis esperar para ver se o animal conseguiria encontrá-lo de novo; apontou a pistola na direção de que viera o ruído e apertou o gatilho.
Quando o pente estava vazio, seu corpo emborcou para o frente e o rosto caiu em meio ao lixo fedorento acumulado na ponta do funil.
As forças o haviam abandonado por completo. Tentou em vão levantar o corpo com o auxílio dos braços, mas os músculos já não suportavam o peso. Com um choro desesperado voltou a cair para a frente.
Só depois disso se deu conta de que acima dele tudo estava em silêncio.
Aguçou o ouvido.
Tinha a impressão de que percebia um ruído rastejante bem ao longe, mas era só.
A idéia de que talvez tivesse posto o animal em fuga lhe deu novo ânimo. Conseguiu pôr-se de pé e, depois de ter esperado cinco minutos, durante os quais não ouvira nada, voltou a riscar um fósforo.
O funil estava vazio, tal qual ele o vira meia hora atrás. Não havia o menor vestígio dos acontecimentos que se desenrolaram no meio tempo, com exceção dos buracos que os tiros de pistola abriram na parede.
Tomisenkow estacou. Percebiam-se nitidamente duas séries de pontos de impacto. Era óbvio que a primeira provinha do primeiro pente de balas que disparara, e a outra do segundo.
As duas séries ficavam à direita e à esquerda de um dos buracos, aproximadamente a igual distância do mesmo. Concluía-se que fizera pontaria em direção ao buraco onde supunha que o animal estivesse, mas só atingira a parede, uma vez à direita, outra vez à esquerda do alvo.
Cada pente continha cinqüenta balas. Segundo um cálculo ligeiro de Tomisenkow, cada série de impacto era formado por uns cinqüenta furos.
Concluía-se que nenhum dos tiros havia atingido o alvo.
Por que teria fugido o animal?
Tomisenkow achou a pergunta muito interessante; mas o que importava no momento era sair daquele buraco. Num trabalho febril voltou a escavar degraus na parede. Dentro de pouco tempo pôde subir ao buraco pelo qual caíra no interior do funil.
Ainda esperava encontrar algumas dificuldades no interior do poço que, de forma tão surpreendente, o conduzira ao interior do planeta Vênus. Mas constatou que parte da cobertura superior do mesmo consistia em cipós. Com a queda de Tomisenkow estes foram arrastados para o interior do poço e esperavam que ele os usasse como uma corda de escalada. Experimentou sua firmeza, julgou-a satisfatória e pôs-se a subir. Prosseguindo sem pausa, conseguiu pôr-se em chão firme.
Uma vez lá em cima, ficou deitado por algum tempo de bruços e respirou profundamente. Depois se levantou e dispôs-se a prosseguir em sua caminhada, na direção primitiva.
Não se ouvia mais nada dos perseguidores que Rhodan mandara no seu encalço. Às vezes ouviam-se ruídos estranhos e pavorosos; mas Tomisenkow era de opinião que, de animais estranhos e pavorosos, não eram de se esperar ruídos de outra espécie. Por enquanto deu-se por satisfeito com o fato de que não estava sendo atacado nem perseguido.
No entanto, se interessou em saber em que direção seguira o animal em cuja armadilha caíra. Não estava disposto a realizar uma fuga apressada e cair novamente em suas garras.
Acendeu um fósforo e lançou os olhos em torno.
A luminosidade do fósforo não alcançava muito longe; mas logo encontrou o que estava procurando.
Não era o rastro do animal, mas o próprio animal. oB�9�oX0� @$� — respondeu — o que esta derrota representa para mim e para todos os arcônidas. Para alcançarmos a perfeição final só nos faltava o segredo da vida eterna, nada mais. É um golpe duro ouvir que o grau mais elevado da evolução nos foi recusado.
Rhodan refletiu no que devia dizer. Sentou perto de Crest.
— Sairei da nave — disse em tom sério. — Alguém se instalou em Vênus e vem nos causando dificuldades.
Crest ergueu as sobrancelhas brancas e espessas. De resto não deu mostras de qualquer surpresa ou nervosismo.
— Não sei quanto tempo demoraremos lá fora — prosseguiu Rhodan. — Por isso quero lhe pedir um favor.
Crest conseguiu esboçar um sorriso débil.
— Tem certeza de que ainda conseguirei levantar desta cadeira e vencer minha depressão? — perguntou.
Rhodan fez que sim.
— Tenho certeza absoluta. Cuide de Thora, sim? Também foi afetada por essa história do planeta Peregrino; além disso, é muito impetuosa.
Crest ainda estava sorrindo.
— É claro que cuidarei — asseverou. — Desde a decolagem não a vejo mais, mas irei vê-la imediatamente.
Levantou-se.
— Faça um bom trabalho! — disse, dirigindo-se a Rhodan. — E volte são e salvo.
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça.
Dois minutos depois se encontrava na comporta sul e transmitia as últimas instruções aos seus homens.
O corpo expedicionário de cinqüenta homens estava subdividido em quatro grupos. Rhodan confiou o comando dos grupos aos experimentados majores Deringhouse e Nyssen, e ao tenente Tanner.
Cada homem envergava um traje transportador arcônida. Tratava-se de um aparelho de múltiplas aplicações, dotado de um gerador de força gravitacional para a produção de gravidade artificial. Com isso, podia transportar seu portador pelo ar. Além disso, um minúsculo dispositivo eletromagnético produzia um campo de deflexão, que conferia qualidades quase hidromecânicas ao meio circundante, em relação à propagação de emanações luminosas, de forma que as ondas luminosas contornavam o campo em forma de linhas de fluxo, tornando invisível o traje e o homem que o envergasse.
Cada grupo dispunha de três câmbios. Tratava-se do veículo ultra versátil dos arcônidas, que se deslocava com igual facilidade em três elementos.
Os homens estavam equipados com o armamento usual. Só os oficiais portavam pequenos projetores mentais.
— O inimigo encontra-se em marcha — explicou Rhodan. — Creio que conheço seu objetivo; mas, para termos certeza, devemos manter contato ininterrupto com a nave. O que temos pela frente é nada menos que uma guerra na selva ao estilo antigo. Quem quer que detenha o comando do outro lado há de saber que os recursos de que dispomos são superiores aos seus, e planejará sua ação de acordo com esse fato. Distribuirá seus homens por uma área bastante ampla e travará uma guerra de guerrilhas, o que nos impedirá tirarmos proveito de nossa superioridade. Apesar de tudo isso, temos de chegar quanto antes a uma solução final. Não temos tempo a perder. Portanto, façam um trabalho bem feito.

* * *

O general Tomisenkow logo constatou que subestimara grandemente as dificuldades da marcha.
Chanicadse, um jovem tenente armênio, marchara durante duas horas diante dele, cuidando para que os galhos, que a selva já voltara a estender por cima da trilha aberta pelo destacamento de vanguarda, não fustigassem o rosto do general com demasiada violência.
No início da terceira hora, quando Chanicadse se dispunha a remover uma trepadeira, um verme branco, da grossura de uma cocha humana, surgiu da esquerda com uma agilidade incrível, envolveu o corpo do tenente, e desapareceu com ele na selva.
Antes que Tomisenkow, seu ajudante e os dois oficiais que o acompanhavam se dessem conta do que estava acontecendo, o gigantesco verme já havia desenrolado uns vinte metros de sua repugnante extensão. Sobre o resto, que media outros vinte metros, dirigiram que nem um bando de loucos os disparos de suas pistolas automáticas; mas aquela criatura de Vênus pouco se incomodou com as balas.
Chanicadse continuava desaparecido. Tomisenkow proibiu a perseguição do verme. Não queria perder mais gente naquela selva impenetrável.
Meia hora depois ouviram um ruído rítmico e retumbante vindo do oeste. O ajudante acreditava que se tratasse de um terremoto.
Uma hora depois viram o que era — ou melhor, estavam em condições de realizar uma reconstituição aproximada do quadro. Um animal de dimensões fenomenais cruzara a trilha, colocando uma das pernas exatamente sobre a mesma. A marca do pé era redonda, e tinha o diâmetro de cinco metros. No centro da mesma viam-se alguns restos de uniforme, e o solo estava ensopado de sangue. Nem havia possibilidade de verificar quantos dos homens de Tomisenkow haviam perecido.
Dali a dois quilômetros a trilha descreveu uma curva acentuada em direção ao sul e conduzia a um lago estreito e comprido, rodeado pela selva. Um dos dois oficiais não quis percorrer o caminho longo em torno do lago. Entrou na água, andou um pedaço e pôs-se a nadar.
Depois de ter vencido cerca de três quartos da distância, teve que se desviar de um objeto estranho; parecia um tapete brilhante e colorido, pousado tranqüilamente na superfície da água. O oficial passou a grande distância. Mas subitamente o tapete pôs-se em movimento e seguiu-o. De início o nadador não percebeu nada. Só teve a atenção despertada quando Tomisenkow, o ajudante e o outro oficial o preveniram aos gritos.
Com amplas braçadas procurou alcançar a margem oposta. Mas, no lugar exato em que seus pés alcançaram o fundo do lago, foi alcançado pelo tapete. A água começou a fervilhar, e o homem mergulhou aos gritos. O tapete passou por uma estranha transformação. Subitamente não era mais colorido, nem se estendia sobre a água; tornou-se cinzento e assumiu o formato de uma massa compacta e disforme, cujas forças evidentemente eram muito superiores às de sua vítima.
Com uma rapidez incrível aquela massa atingiu a zona de água profunda. Mergulhou. O homem do grupo de Tomisenkow nunca mais foi visto.

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