Oferecia uma
visão estranha. Tomisenkow ofereceu outro e mais outro fósforo e deixou que lhe
queimassem os dedos para não perder nada do quadro.
O animal
estava morto; não havia a menor dúvida. Se o nariz de Tomisenkow não tivesse
sido irritado pela fumaça dos tiros, provavelmente já teria sentido o mau
cheiro.
Era um
animal sem esqueleto, conforme já supusera, uma espécie de pólipo terrestre. O
tronco, que devia ter um metro e meio de altura, estendia em todas as direções
tentáculos de mais de três metros. Um deles fora o suposto braço que erguera
Tomisenkow.
Tomisenkow
refletiu sobre o que poderia ter causado a morte do animal. Finalmente teve uma
idéia que de início lhe pareceu um tanto ousada.
Os tiros que
disparara produziram três efeitos distintos: primeiro as balas, depois a fumaça
e finalmente o barulho.
As balas não
haviam acertado o alvo.
Concluía-se
que a morte do animal fora causada por um dos outros efeitos — o barulho ou o
cheiro. As probabilidades a favor de uma ou outra das alternativas eram
idênticas, e Tomisenkow não se decidiu por nenhuma delas.
Introduziu
outro pente de balas na pistola e pôs-se a andar. O fato de ter se livrado do
pólipo reforçou-o na convicção de que conseguiria resistir também aos outros
perigos da selva.
* * *
Nesse meio
tempo Rhodan obtivera informações precisas sobre as intenções, a força e as
relações pessoais da expedição do Bloco Oriental.
Sabia que
originariamente a expedição era formada por quinhentas naves.
O comando
cabia ao general Tomisenkow. Era assessorado por dois majores, cinco coronéis e
grande número de oficiais de menor graduação. Dos dois majores só um
sobrevivera. Era Lemonovitch. Os prisioneiros de Rhodan tinham certeza de que
Lemonovitch assumiria em definitivo o comando dos remanescentes da expedição,
assim que soubesse que não devia contar com o aparecimento de Tomisenkow.
O objetivo
da expedição era evidente. Ao retornar de sua primeira grande expedição a
Vênus, Rhodan não ocultara o fato de que ali realizara descobertas importantes
— descobertas que o tornariam independente da boa ou má vontade dos blocos de
potências terrenas.
O Bloco
Oriental também não dispunha de dados mais exatos. Mas o novo governo do mesmo
decidira se apossar dessas descobertas de qualquer maneira, mesmo sem conhecer
sua natureza. Por isso a divisão de Tomisenkow decolou em direção a Vênus
depois de ter sido submetida a um treinamento intensivo, e ali pousara com
quinhentas naves, segundo as previsões.
Ainda mais
notável que a falta de escrúpulos do governo do Bloco Oriental foi o trabalho
técnico levado a efeito. As naves da divisão espacial dispunham de mecanismos
de propulsão nuclear do tipo daqueles com que estava equipada a Stardust em seu
primeiro vôo à Lua. No momento da decolagem, Vênus se encontrava no ponto mais
afastado da Terra. A viagem durara quatro semanas, e a frota conseguiu
realizá-la sem qualquer perda.
— Com esse
tipo de gente poderíamos conquistar o Universo, se não aparecesse sempre algum
idiota que os põe no caminho errado — disse Rhodan em tom amargo.
Prosseguindo
na execução de seu plano, decolou do acampamento conquistado em direção ao
noroeste, onde pretendia atacar os remanescentes da expedição em seu novo
esconderijo. Nesse meio tempo, Deringhouse voltara a se reunir ao pequeno
grupo. Conduzira Lysenkow e seus homens à Stardust-III, e fizera com que
principalmente Lysenkow fosse interrogado sob constrição hipnótica. Suas
declarações foram cotejadas com as de Trewuchin, ajudante de Tomisenkow.
Coincidiam.
Pela
meia-noite de Vênus o grupo de Rhodan atingiu o pé da cordilheira em que os
remanescentes da divisão espacial se ocultavam com suas naves. Além das
escassas indicações sobre a direção do vôo, fornecidas pelo setor de
localização da Stardust-III, Rhodan não dispunha de dados sobre a área em que
deveria procurá-los. Mas, como soubesse que o novo esconderijo abrangia uma
área de dez mil quilômetros quadrados, supôs que, de tempos em tempos, os
homens do Bloco Oriental se comunicariam pelo rádio.
Mandou que o
grupo assumisse suas posições num ponto elevado e instruiu os operadores de
rádio para que procurassem captar as mensagens expedidas pela expedição e
localizassem os emissores por meio do goniômetro.
Dentro de
umas oitenta horas já havia registrado cinqüenta pontos em seu mapa. Cada um
deles correspondia à posição de um emissor inimigo.
Os pontos se
estendiam em três filas, por vezes em quatro, sobre a área central da zona
montanhosa. Rhodan não pôde extrair qualquer detalhe do mapa levantado por
ocasião do primeiro vôo sobre Vênus. Mas estava convencido de que, em todo
lugar em que havia registrado um ponto, ficava um vale. As naves não teriam
pousado em encostas onde seriam facilmente visíveis, muito menos em platôs.
Pelas
oitenta e cinco horas da manhã, quando a noite já ia chegando ao fim, Rhodan
pôs-se a caminho com os membros de seu grupo. Da Stardust-III, Bell transmitira
a informação de que tudo estava em ordem. Mas observou que, segundo os dados
fornecidos pelo dispositivo positrônico da nave, não deveria retardar muito sua
entrada no forte de Vênus, pois do contrário o grande dispositivo positrônico
da fortaleza não mais estaria em condições de, com base no trecho conhecido,
calcular toda a órbita do planeta Peregrino.
O grupo de
câmbios voou próximo às encostas, na direção noroeste. Deslocava-se a uma
altitude média de quatro mil metros acima da planície. Mesmo nessa altitude os
flancos da montanha estavam cobertos com uma selva tão densa como na planície.
Quatro mil metros não representavam uma diferença de altitude muito
significativa para o clima quente e úmido reinante em Vênus.
A projeção
do terreno sobre as telas localizadoras forneceu um quadro bizarro. A montanha
era uma formação jovem. As rochas eram íngremes, arestosas e, na expressão de
Deringhouse, “livres de qualquer
compromisso”.
Pelas
oitenta e oito horas passaram à altura do primeiro ponto registrado no mapa de
Rhodan. Este não pretendia atacar a posição mais próxima. Preferia vir do
norte, para lançar confusão nas posições inimigas.
Dentro de
uma hora atingiram o centro da fileira de pontos. Rhodan tomou o rumo do sul e
se dirigiu a um ponto que, segundo as medições realizadas pelo telegrafista,
apresentava uma potência emissora maior que os demais.
O primeiro
alvorecer do novo dia surgia no horizonte quando o câmbio de Rhodan passou
cautelosamente por cima do cume pontudo da montanha que limitava um vale que,
em linha quase vertical, descia profundamente por entre as montanhas. A
diferença de altitude entre o cume da montanha e o fundo do vale era superior a
dois mil metros. Todas as encostas eram verticais, embora entrecortadas, e o
diâmetro do vale era de cerca de oito quilômetros.
Os câmbios
foram descendo rentes à encosta. No fundo do vale o mundo ainda não percebera o
irromper do novo dia. Era escuro; se os radares inimigos não estivessem
dirigidos exatamente sobre a encosta vertical, não perceberiam nada do ataque
iminente.
Por enquanto
Rhodan só conseguia perceber a nave nas telas dos localizadores. Os holofotes
de luz infravermelha não revelavam nada, e Son Okura, já em companhia de
Rhodan, também não pôde distinguir o objeto. Ao que tudo indicava a nave se
encontrava num lugar cercado de árvores muito altas. Com o crescimento
incrivelmente vigoroso que se verificava em Vênus, a clareira aberta durante o
pouso já devia ter sido fechada.
Rhodan
pousou junto ao paredão de rocha. Deixou quatro homens junto aos câmbios, para
servirem de sentinelas. Com os outros avançou pela selva em direção à nave,
cuja posição era indicada com elevado grau de precisão pelo reflexo do aparelho
localizador.
Deslocaram-se
pelo chão da selva. Rhodan achou que seria muito arriscado recorrer aos trajes
transportadores. Levaram duas horas para atingir a área em que supunham que
estivesse o objetivo.
Nesse meio
tempo clareara também no fundo do vale. Son Okura já não era o único que
conseguia ver alguma coisa.
Subitamente
se depararam com a nave espacial.
Afundara
alguns metros no chão macio da selva e se encontrava em posição ligeiramente
inclinada. Mas não havia dúvida de que estava em boas condições, e para um
piloto hábil a inclinação não representaria maior problema durante a decolagem.
A nave
descansava sobre os suportes de popa. Entre dois dos suportes, os contornos da
escotilha de uma comporta desenhavam-se sobre o metal. Rhodan deu ordem para
que os homens parassem.
— Abriremos
a escotilha a maçarico — sugeriu. — Não deve demorar mais de um minuto;
terminaremos antes que lá dentro desconfiem de qualquer coisa. Cada nave destas
tem uma espécie de depósito, onde são alojados vinte homens durante o vôo, e,
na ponta, a sala do piloto. Não sei quantos homens se encontram nesta nave, mas
de qualquer maneira deveremos encontrar alguns tanto no depósito como na sala
do piloto. Fiquem de olhos abertos. Não queremos torcer-lhes o pescoço, mas se
houver qualquer resistência, atirem imediatamente. Entendido? Tudo há de dar
certo!
* * *
O major
Lemonovitch pousara sua nave na extremidade noroeste da cordilheira. Uma
segunda nave pousara pouco depois da sua no mesmo vale.
Face à
mensagem de Tomisenkow, Lemonovitch deu ordem para que uma das naves pousadas
no setor sudeste decolasse e fosse buscar o general. A nave não deu mais sinal
de vida, e já fazia cem horas que decolara. Lemonovitch estava convencido de
que caíra ou fora derrubada pelo inimigo. Fazia aproximadamente o mesmo tempo
que não tinha qualquer contato com o general Tomisenkow e seu ajudante.
Procurara localizar o general pelo rádio e, de algumas horas para cá,
acreditava que fora vitimado pelas condições reinantes em Vênus, tal qual o
piloto e seu foguete.
Esclarecera
a tropa de que provavelmente o general Tomisenkow estaria morto, ou teria caído
em mãos do inimigo, e que ele mesmo, Lemonovitch, como oficial de patente mais
elevada, assumiria o comando da divisão.
Parecia tudo
muito simples; mas Lemonovitch ficou quebrando a cabeça sobre o que deveria
fazer.
Ao que tudo
indicava o esconderijo era seguro. Aquilo que receara no início, que o inimigo
atacasse toda a zona montanhosa com suas armas superiores e a transformasse num
pantanal incandescente e radiativo, não se realizara. Não sabia dizer por que
Rhodan não adotara esse procedimento, mas o mesmo lhe convinha sobremaneira.
Todavia, a
missão da divisão espacial não consistia em ficar parado nos esconderijos até
que as naves se deteriorassem ou os homens envelhecessem. Alguma coisa tinha de
ser feita.
O dia foi
amanhecendo, e Lemonovitch, sorvendo seu café preto — que para os demais
membros da divisão fora submetido a um racionamento extremamente rigoroso —
matutava sobre seu problema, quando houve uma ocorrência que de golpe o livrou
de todas as dores de cabeça.
Alguém abriu
com uma forte pancada a escotilha que separava a sala do piloto do depósito
situado abaixo da mesma e enfiou a cabeça. Lemonovitch esteve a ponto de
repreender o homem. Mas este pôs-se a falar, extremamente exaltado:
— Há um
comunicado, major, um comunicado! A C-145 foi atacada pelo inimigo. Só a sala
do piloto ainda resiste com cinco tripulantes. Estão pedindo socorro. Rhodan
participa pessoalmente do ataque.
Por alguns
segundos Lemonovitch ficou imobilizado pelo susto. Compreendeu em primeiro
lugar o perigo que ameaçava a C-145, e logo após a chance que se lhe oferecia.
Levantou-se
de um salto, comprimiu o botão que acionava as sereias de alarma e gritou para
o ordenança:
— Diga ao
oficial de armas que se apresente imediatamente com seus homens.
A escotilha
foi fechada com um forte ruído. Lemonovitch se inclinou sobre uma grande folha
de papel coberta por uma rede de coordenadas. A posição das naves estava
registrada com a precisão de um minuto de coordenada, a configuração das
montanhas apenas constava com certa aproximação.
Quando o
oficial de armas e seus três homens precipitaram-se através da escotilha,
Lemonovitch já sabia como devia ser orientado o tiro.
Pegou o
oficial pelo ombro e arrastou-o para junto do mapa.
— Aqui! —
disse ofegante. — Esta é a C-145. Há poucos minutos foi atacada por Rhodan e
seus homens. Dirija uma salva de ao menos cinco foguetes contra a mesma. Nunca
mais teremos uma chance destas. E atire bem para o alto. Não quero que os
projéteis sejam interceptados por alguma montanha. Entendido?
O oficial
fez que sim e transmitiu a um de seus homens as coordenadas constantes do mapa.
Três oficiais subalternos começaram a apontar as peças de artilharia.
Subitamente
o homem que havia recebido a ordem de Lemonovitch estacou:
— Major,
será que Rhodan já se apoderou da C-145? — indagou. — Todos os nossos homens
estão mortos?
Lemonovitch
se limitou a gritar:
— Podemos
agarrar Rhodan, e vamos agarrá-lo!
O jovem
oficial de armas deu de ombros.
— Pronto
para disparar — anunciou um de seus subordinados.
E o oficial
ordenou, lançando um olhar para Lemonovitch:
— Fogo!
* * *
Os quarenta
homens que se encontravam no compartimento de depósito se entregaram
imediatamente. Mas não foi possível evitar todo e qualquer ruído, e os cinco
homens que se encontravam na sala do piloto desconfiaram. A escotilha foi
trancada, e mesmo a força unida dos quatro projetores mentais levou algum tempo
para transpor o maciço anteparo metálico e vencer a resistência da tripulação
da sala do piloto.
A escotilha
foi aberta, e Rhodan entrou com uma pressa estranha. Os cinco homens se
agruparam em torno da escotilha e pelos seus rostos se concluiria que há muito
tempo se preparavam para receber a visita de Rhodan.
Este fez
sinal para que o japonês se aproximasse. Son Okura subiu pela escotilha com a
agilidade de um esquilo.
— Pergunte
se enviaram uma mensagem pelo rádio — ordenou Rhodan.
Okura
formulou a pergunta em russo. Rhodan viu que um dos homens respondeu com um
aceno de cabeça. O homem disse algumas palavras, que Okura traduziu:
— Informou o
major Lemonovitch de que a nave estava sendo atacada, e de que o senhor se
encontrava entre os atacantes.
Rhodan virou-se
apressadamente e gritou pela escotilha:
— A nave
será evacuada imediatamente. Existe um perigo gravíssimo.
Houve muita
confusão. Só os homens de Rhodan sabia que este aludia a um perigo realmente
gravíssimo quando usava essa expressão. Apesar da influência hipnótica a que se
achavam submetidos, os prisioneiros não se deram muita pressa em executar a
ordem de evacuação. Os homens de Rhodan tiveram que tangê-los com suas armas.
— Aos
câmbios — gritou Rhodan atrás deles.
Depois disso
fez os cinco tripulantes da sala do piloto saírem pela escotilha e descerem a
escada. Ele mesmo e Okura puseram-se no fim da fila. Okura estava curioso para
conhecer o motivo de tanta pressa, mas nem sequer teve tempo para perguntar.
Uma vez fora
da nave, Rhodan indicou aos prisioneiros a direção em que deviam correr.
Son Okura
traduziu:
— O caminho
é este. Corram como o diabo, se quiserem continuar vivos.
Rhodan e o
japonês valeram-se dos trajes transportadores arcônidas e voaram a toda
velocidade acima da folhagem das árvores. Satisfeito, Rhodan constatou que seus
homens iam uns duzentos metros à sua frente. Tinha certeza de que, uma vez
livres da influência do projetor mental, não teriam coisa mais urgente a fazer
senão se reagrupar na tentativa de um contra-ataque. O importante era que tinha
chamado sua atenção para o perigo.
Quando
Rhodan e Okura alcançaram o local do pouso, os câmbios estavam prontos para
decolar. Levantaram vôo imediatamente e foram subindo junto à encosta íngreme.
Finalmente
Rhodan teve tempo para esclarecer seus homens sobre o perigo que os ameaçava.
—
Lemonovitch, que é o comandante atual da expedição, está informado sobre nosso
ataque — disse pelo telecomunicador. — Até sabe que eu participei dele. É de
esperar que, sem consideração por sua gente, procure destruir nosso grupo.
Conforme sabemos, as naves do Bloco Oriental dispõem... olhem, aí vem.
Os câmbios
haviam vencido aproximadamente metade da encosta quando, lá embaixo,
sucederam-se quatro explosões ofuscantes. Quem prestasse atenção perceberia que
duas delas ocorreram exatamente sobre o local em que se encontrava pousada a
nave, enquanto as outras detonaram mais ao sul.
Dentro de
uma fração de segundo, uma enorme onda de compressão atingiu os câmbios. Ao
mesmo tempo o ribombar tremendo das explosões envolveu os veículos e provocou
um forte zumbido no ouvido dos homens.
Os câmbios
dispunham de um dispositivo automático de compensação. Mantiveram o equilíbrio
e, além disso, o deslocamento de ar provocado pela explosão levou-os para o
alto com uma velocidade maior do que seria conseguido com a potência dos
motores.
Depois de
terem passado pelo cume da montanha e pousado do lado oposto, encontravam-se em
segurança.
Rhodan
espiou para o interior do vale. Sabia que com isso se expunha pessoalmente,
pois o nível de radiatividade desprendida até mesmo por um foguete de tamanho
médio era considerável, e o traje arcônida, que era um excelente meio de
transporte, oferecia uma proteção reduzida contra a mesma.
Não viu
nenhum sinal dos homens que tangera para fora da nave. Contara com um único
foguete. Mas já que Lemonovitch não quis assumir nenhum risco, disparando
quatro foguetes de vez, achou duvidoso que qualquer dos tripulantes da C-145
ainda estivesse vivo.
Apesar disso
entrou em contacto com a Stardust-III, e instruiu Bell para que enviasse quanto
antes um câmbio cujos tripulantes deviam ser protegidos contra radiações, para
empreender a busca de eventuais sobreviventes.
Enquanto
isso, um dos subordinados do tenente Tanner constatou que, no flanco norte da
montanha que fechava o vale pelo oeste, explodira um quinto foguete, que abrira
uma cratera de dimensões apreciáveis.
Poucos
minutos depois, os cinqüenta homens da expedição de Rhodan puseram-se a
caminho, tanto para abandonarem a área submetida a uma radiatividade mais
intensa como para, quanto antes, acrescentarem outra ação à primeira. Rhodan
não se iludiu: dali em diante as dificuldades seriam bem maiores. Lemonovitch
estava prevenido. Se não estivesse plenamente convencido de que Rhodan fora
vitimado pelos foguetes, avisaria seus homens.
Por enquanto
o que mais importava a Rhodan era a constatação de que a expedição do Bloco
Oriental fora desfalcada de mais uma nave.
Ainda
sobravam setenta e oito.
* * *
Pelas cento
e dez horas, tempo local, o general Tomisenkow chegou a um lugar da selva em
que acreditava reconhecer uma trilha aberta por seus homens.
Não tinha
certeza absoluta. O crescimento vegetal extremamente rápido de Vênus faria
desaparecer dentro de uma hora qualquer trilha que fosse aberta. Mas na antiga
trilha predominariam os brotos recentes.
Tomisenkow
examinou o local e concluiu que tivera razão. Seus homens haviam passado por
ali; se seguisse a trilha, dentro de pouco tempo se uniria a eles.
As horas
passadas — pela contagem de tempo terreno seriam dias — produziram uma
modificação profunda em Tomisenkow.
Matara a
tiros dois monstros em forma de urso que queriam devorá-lo, esmagara uma cobra
com a mão, e matara quinze outras também a tiro. Escapara a um daqueles
pólipos, cujos métodos de caça não ficavam restritos às armadilhas, mas
compreendiam a perseguição em terreno aberto; imitando os macacos, deslocou-se
pelos galhos com rapidez maior que o animal de corpo flácido. No fim de seu
passeio aéreo ficara preso numa teia de aranha cujos fios tinham a grossura de
um dedo humano. Vira a horrível aranha, de tamanho superior ao de um homem, bem
perto de si; balançando-se fortemente e de maneira ritmada, conseguiu romper a
rede. Gastara duas horas para se libertar dos fios pegajosos a ponto de poder se
locomover livremente. Nessas duas horas estivera praticamente indefeso.
Às cento e
quinze horas fez uma longa pausa. Consumiu os alimentos colhidos no caminho e
se deitou para dormir num entroncamento de galhos, bem no alto, na copa de uma
árvore.
Descobrira
que a vida na selva se desenvolve em quatro degraus distintos. O primeiro era o
das armadilhas dos pólipos e dos animais revestidos de córneas que, como os
enormes vermes, com eles viviam em simbiose. Esse degrau ficava em média cinco
metros abaixo do solo. O segundo degrau era o nível do solo, com seus animais
perigosos, entre os quais se destacavam os sáurios, com os quais Tomisenkow
ainda não se defrontara diretamente, e os monstros em forma de urso que,
conforme Tomisenkow descobrira, também pertenciam à classe dos sáurios, sendo
apenas de uma outra espécie.
O terceiro
degrau situava-se na altura das copas das árvores, na galeria inferior de
galhos, a uns dez metros acima do nível do solo. Era o reino das aranhas, muito
mais numerosas do que Tomisenkow supusera de início. Isso acontecia porque
sabiam esconder suas teias com muita astúcia. Quem não desconfiasse de sua
presença nunca as encontraria.
O último
degrau, situado entre uns vinte e quarenta metros acima do nível do solo,
correspondia à parte superior das copas das árvores, cuja população era
bastante restrita. Havia pequenos lagartos voadores, cujo tamanho variava entre
o de um pardal e o de um pombo, e outros seres estranhos, também inofensivos,
que para Tomisenkow representavam um degrau intermediário entre os lagartos e a
classe mais baixa de animais de sangue quente. Ali podia se deitar para dormir
sem ser devorado imediatamente, e Tomisenkow aproveitou a vantagem. No início
se aborreceu com o fato de que um lagarto voador curioso, que pousara em seu
rosto, despertou-o de um sono profundo. Mas acabou se conformando com o fato de
que o lugar mais agradável de Vênus era muito pior que o chão duro da tundra
siberiana.
Outra zona a
ser evitada era o limite superior da folhagem. É que acima das árvores mais
altas começava um setor que poderia ser designado como o quinto degrau. Era a
região dos grandes lagartos voadores, pelos quais Trewuchin, seu ajudante,
havia sido vitimado.
Mas quem se
mantivesse escondido na folhagem não tinha por que temê-los.
Perto do
meio-dia, Tomisenkow voltou a pôr-se a caminho. Cinco horas de sono foram
suficientes para restituir-lhe as forças. A mata fumegava sob os raios do sol,
e a temperatura na superfície do solo aproximava-se da marca dos cinqüenta
graus. Mas também a esse calor Tomisenkow já se acostumara.
Manteve-se
na trilha aberta por seus homens, afastando com os braços os galhos e as
trepadeiras finas que cresceram nesse meio tempo.
Dali a duas
horas, percebeu que o terreno entrava em aclive. Poucos minutos depois o
caminho se tornou bastante íngreme, e o suor começou a porejar na testa de
Tomisenkow.
Num lugar em
que havia uma pequena abertura na folhagem viu os cumes das montanhas, quase na
vertical acima de sua cabeça.
Atingira a
cordilheira! Conseguira!
Tinha
certeza de que encontraria ainda nesse dia algum dos seus homens.
A trilha,
que até então cortara a selva em linha reta, começou a descrever curvas.
Grandes blocos de pedra estavam espalhados pela mata, e às vezes a subida era
tão íngreme que Tomisenkow teve que se deslocar de quatro.
Não teve
mais sossego. Avançava rapidamente sem pensar em outra coisa além do caminho e
da esperança feroz de encontrar seus homens além da primeira curva.
Não foi na
primeira curva, nem na segunda. Mas, depois de ter marchado quase dez horas
depois do último descanso, viu-se num desfiladeiro estreito que representava a
entrada de um imenso vale, que se estendia entre as montanhas na direção quase
exata do norte. Espantado, Tomisenkow constatou que praticamente não havia qualquer
vegetação no fundo do vale. Era o primeiro trecho de solo nu que descobria em
Vênus. Talvez os vapores vulcânicos fossem responsáveis pelo fenômeno.
Tomisenkow viu a neblina passar diante das encostas.
As imensas
montanhas que fechavam o vale retinham a luz, já por si bastante turva.
Tomisenkow não enxergava a mais de cem metros. Mas, como seus homens deviam ter
penetrado no vale, não hesitou em proceder da mesma maneira.
Depois de
percorrer algumas centenas de metros fora da selva, a atmosfera começou a se
modificar. Sentiu o cheiro do enxofre e de outras coisas desagradáveis. Parou
por um instante e aspirou o ar. Ao que parecia não havia qualquer perigo. Teve
uma ligeira tosse, era tudo.
Depois de
ter prosseguido por meia hora, ficou perguntando a si mesmo qual seria o
comprimento daquele vale. Subitamente alguém o chamou da escuridão reinante
entre as rochas caídas.
Eram
palavras russas. Mas fazia tanto tempo que Tomisenkow não ouvira qualquer voz
humana, que até sua língua materna o assustou. Reagindo com a rapidez que
aprendera na selva, deixou-se cair para a frente e procurou abrigo numa fenda
na rocha.
— Sou
Tomisenkow! — respondeu. — Quem está chamando?
Um riso de
deboche soou entre as rochas.
— Conte isso
a outro! Tomisenkow está morto.
Furioso,
Tomisenkow se levantou de um salto.
— Pois olhe,
seu idiota! — gritou. — Sou Tomisenkow ou não sou?
A sentinela
não se perturbou.
— Largue a
arma; depois darei uma olhada em você.
Tomisenkow
obedeceu.
— Está bem;
já vou.
O homem saiu
de seu esconderijo, com a pistola automática engatilhada. Parou a dois metros
de Tomisenkow. Ficou intrigado com o cabelo branco do mesmo, e a barba crescida
no meio tempo. Além disso, o general não tivera oportunidade ou interesse em se
lavar. Cada centímetro quadrado de sua pele estava oculto sob uma grossa camada
de sujeira.
Apesar disso
a sentinela o reconheceu.
— É o
general! — disse perplexo. — Vejam só!
Voltou-se e
sua mão apontou para um ponto situado no fundo do vale.
— Por ali
está a C-103. É a última nave de que dispomos.
O susto de
Tomisenkow foi tamanho que por algum tempo não conseguiu dizer uma palavra.
— Não é bem
isto — retificou a sentinela. — Temos mais algumas; mas estão deitadas de
nariz, ou os tanques estão vazios, ou o reator queimou, e não sei mais o quê.
De qualquer maneira, a C-103 é a única que está em condições de voar.
Durante sua
marcha Tomisenkow não se entregara a muitas ilusões; mas o que acabara de ouvir
ultrapassou seus piores temores. Levou algum tempo para se recuperar do choque.
— Leve-me
para junto dos meus homens — ordenou à sentinela.
5
Rhodan agiu
rapidamente e com uma precisão absoluta. O ataque à C-145 ficou sendo um caso
isolado. Dali em diante Rhodan colocou seus homens em ação em vários pontos ao
mesmo tempo e lhes ordenou que não assumissem qualquer risco. Utilizando o
dispositivo defletor dos trajes transportadores, se aproximavam de forma
invisível das naves inimigas. Colocavam sob os suportes uma carga de explosivo
suficiente para derrubar a nave, abriam os tanques a tiro, fazendo com que o
precioso hidrogênio líquido se exalasse em poucos segundos ou danificavam os
reatores de tal forma que ficavam inutilizados para sempre.
Todas essas
ações foram executadas praticamente sem incidentes. Pelo meio-dia o inimigo só
dispunha de três naves, que Rhodan poupara para o caminho de volta. Às cento e
vinte e cinco horas, duas delas haviam sido destruídas, e Rhodan dispôs-se a
atacar a última, a C-103, com maior dose de cautela, já que, do contingente de
cerca de cinco mil homens com que a expedição do Bloco Oriental ainda contava,
mais de dois mil se encontravam no esconderijo da C-103.
* * *
O motivo era
convincente.
Depois da
evacuação do primeiro acampamento, a maior parte dos sobreviventes teve que se
privar de qualquer conforto e empreender a marcha pela selva.
Ao chegar à
cordilheira, a coluna encontrou em primeiro lugar a nave C-103, que pousara
mais ao leste. Como os homens não tivessem a intenção de acrescentar outros
quilômetros aos até então percorridos para encontrar o esconderijo de outra
nave, a maioria ficou junto à C-103. Só alguns homens mais corajosos e apenas
levemente feridos prosseguiram na marcha e se abrigaram junto a uma das outras
naves.
Os dois mil
e duzentos homens que o general Tomisenkow encontrou no acampamento da C-103
contavam que o próximo alvo dos ataques de Rhodan seria aquela nave.
À primeira
vista, Tomisenkow percebeu que teria de jogar tudo numa cartada e pôs-se a
preparar a recepção de Rhodan. Soube que poucos dos grupos atacados por Rhodan
ainda mantinham contato radiofônico. A opinião generalizada era a de que, nos
outros pontos, ninguém mais estava vivo. Mas Tomisenkow retificou essa opinião
pronta e radicalmente.
— Sempre que
Rhodan inutiliza uma nave, derrubando-a, as instalações de rádio são destruídas
— explicou. — Assim que nossos homens tenham reparado os aparelhos, voltaremos
a ter notícias deles.
As
informações recebidas das naves cujas instalações radiofônicas não haviam sido
destruídas pareciam um tanto confusas a Tomisenkow. Em todas elas se dizia que,
apesar da vigilância intensa da área que cercava a nave, a aproximação do
inimigo não foi notada.
— O que é
isso? — resmungou Tomisenkow. — Ele não pode se tornar invisível.
Mas não
estava muito convencido do que estava afirmando.
Para Tomisenkow
era ainda mais estranho o fato de que, em todas as ações de Rhodan sobre as
quais recebera relatos radiofônicos, nenhuma pessoa sofrerá o menor dano. Sem
dúvida a coisa seria diferente no caso das naves tombadas. Teria havido mortos
e feridos. De qualquer maneira, dos relatos chegados à C-103 se deduzia que
Rhodan se esforçava para derramar a menor quantidade possível de sangue.
Por quê?
De inicio
Tomisenkow mandou retirar da nave duas bases de lançamento de foguetes e
empilhar uma reserva de munições em redor das mesmas. Se, apesar de tudo,
Rhodan conseguisse derrubar a nave, não ficaria indefeso.
Os foguetes
traziam um núcleo explosivo do tipo Baby, com uma carga de plutônio que, por
si, estava abaixo do limite crítico. Ela só se tornava crítica por meio de um
refletor de paredes grossas que funcionava com base no oxido de berílio. O detonador
funcionava segundo o princípio da implosão. Os foguetes, com os respectivos
detonadores, não eram muito maiores que a granada de um projétil de canhão.
Além disso,
Tomisenkow postou seus homens em várias fileiras através dos blocos de rocha
que, de ambos os lados, margeavam as encostas do vale. Um grupo de técnicos de
comunicação instalou uma linha telefônica provisória de ambos os lados da
entrada do vale, para que a sentinela pudesse avisar Tomisenkow assim que
Rhodan se aproximasse.
Tomisenkow
ordenou, ainda, a suspensão de todas as comunicações pelo rádio. Não havia
dúvida de que Rhodan só conseguira descobrir os esconderijos com tamanha
rapidez porque os telegrafistas das naves lhe facilitaram a localização goniométrica.
O general rugiu de raiva ao saber que ninguém se lembrara de suspender em tempo
as comunicações pelo rádio.
A última
instrução que transmitiu antes do ataque foi dirigida aos mil e quinhentos homens
que não receberam qualquer incumbência específica. Receberam ordem para se
comportar como quem se sente em segurança. Tomisenkow tinha certeza de que
Rhodan observaria o acampamento por algum tempo antes de iniciar o ataque.
Depois disso
Tomisenkow ficou à espera.
* * *
Rhodan veio
do norte. Pelas cento e quarenta horas os câmbios sobrevoaram a entrada do vale
e pousaram junto à borda oeste, uns mil metros acima do fundo.
O
acampamento foi observado por algum tempo.
— Parece que
está tudo em ordem — disse o major Deringhouse.
Rhodan olhou
pelo binóculo.
— Alguns
prisioneiros afirmaram que nesse acampamento se encontram dois mil e duzentos
homens — disse em tom pensativo. — Lá embaixo vejo uns mil e quinhentos. Onde
estão os outros?
Deringhouse
deu de ombros.
— Não faço a
menor idéia. Talvez estejam caçando.
Rhodan riu.
— Setecentos
homens? Não, alguma coisa não está em ordem. Sabem que nós atacaremos e estão
preparados.
Deringhouse
voltou a pegar o binóculo e olhou para o vale. Mas, como Tomisenkow tivesse
escondido seus homens muito bem, não pôde ver nada.
O major
Nyssen e o tenente Tanner sugeriram que se desistisse do procedimento habitual,
destruindo a nave e o acampamento por meio de uma bomba nuclear.
Rhodan
rejeitou a proposta.
— Não posso
dispensar nenhum homem em Vênus — respondeu.
Decidiu voar
para dentro do acampamento em companhia de Tanner e Deringhouse. Enquanto isso,
Nyssen assumiria o comando dos câmbios.
Rhodan e
seus acompanhantes tornaram-se invisíveis por meio dos defletores. O único objeto
visível era a carga explosiva, do tamanho de um melão, que Tanner carregava
consigo e pretendia colocar por baixo de um dos suportes da C-103. Mas só parte
do melão ficava fora do campo de deflexão.
A grande
desvantagem dos campos defletores consistia no fato de que um homem envolto
pelo mesmo não podia ver outro que se encontrasse nas mesmas condições; neste
ponto era tal qual um estranho. Para não perderem o contato, Rhodan e seus
homens tiveram de voar de mãos dadas.
* * *
O tenente
Jossip ocupava seu posto na última fileira, junto à encosta oeste. Ali estava
há algumas horas e já começara a praguejar contra o mundo em geral e contra o
general Tomisenkow em particular, porque proibira fumar.
O que Jossip
mais precisava era de um cigarro, mas não podia...
Alguma coisa
atingiu-o no ombro e caiu ao solo com um baque.
Era uma
pedra, uma pedra bem achatada.
Jossip se
virou e procurou descobrir de onde viera a pedra.
Evidentemente
de cima. Às vezes alguma pedra se desprendia do paredão. A posição não era
isenta de perigo. Mesmo que Rhodan não atacasse, a gente poderia esticar as
botas.
Jossip
voltou à posição anterior e, por falta do que fazer, olhou por cima da mira de
sua pistola automática. Dali poderia acertar...
Jossip
cerrou os olhos e bateu com a palma da mão na testa. Mas a coisa continuava
ali.
Era uma
semi-esfera de uns quinze centímetros de diâmetro, de cor cinza-escura. O
objeto flutuava no ar, um metro ou pouco mais acima da superfície da rocha
achatada, atrás da qual Rhodan estava deitado.
Dançava para
cima e para baixo e foi se afastando lentamente.
Jossip
levantou a arma e fez pontaria. No mesmo instante alguém bateu no seu ombro.
— No que
pretende atirar?
Jossip se
virou sobressaltado.
— Deixe de
tolices! — chiou alguém.
Era o
capitão Ljubol, que se encontrava atrás dele. A mão trêmula de Jossip apontou
na direção do objeto voador.
— Olhe, ali
está... — gaguejou.
Parou
espantado. A semi-esfera havia desaparecido.
Mas a
curiosidade de Ljubol fora aguçada. Jossip contou sua história. Ljubol torceu o
rosto e disse:
— Dê-me um
gole daquilo que você andou bebendo e ficarei bem quietinho.
* * *
O tenente
Tanner procurou avaliar a melhor posição para provocar a queda da nave.
Decidiu-se pelo suporte voltado para o interior do vale e ali colocou seu
melão, sem que ninguém desconfiasse.
A explosão
arrancaria o suporte e faria a nave tombar para o lado em que se encontrava o
mesmo. A proa bateria perto do lugar em que estavam sentados alguns dos homens
aos quais Tomisenkow ordenara que fizessem de conta que não temiam qualquer
perigo, e lhes meteria um tremendo susto.
— Pronto? —
perguntou Rhodan com a voz baixa.
— Sim —
respondeu Tanner.
— Tenha
cuidado; vamos regressar — ordenou Rhodan.
Voltaram
pelo mesmo caminho. Mas, antes de chegar à primeira linha de soldados, Rhodan
deu ordem para acionar os neutralizadores gravitacionais para voarem acima das
fileiras, em vez de passarem andando.
Foi quando
aconteceu o desastre.
Tanner
estava de pé sobre uma rocha inclinada; quando se dispôs a acionar o neutralizador,
escorregou. Não teve tempo para regular o desempenho do mesmo de tal forma que
o traje o conduzisse para cima. Praguejando, caiu sobre a rocha e rolou para
baixo. Com um baque, mas invisível, aterrizou no chão mole do vale.
Sua praga
foi ouvida e a sentinela viu a impressão que o corpo de Tanner deixara no chão
macio.
O homem não
perdeu tempo em descobrir o que havia acontecido ou indagar se uma coisa dessas
era possível: atirou. Gritou para os que se encontravam nas proximidades e
apontou para a impressão deixada pelo corpo de Tanner. Dentro de poucos
segundos o fogo de pelo menos vinte pistolas automáticas se concentrou sobre o
tenente.
Era bem
verdade que o traje transportador de Tanner dispunha de um anteparo energético
que absorvia os projéteis e os fazia cair ao chão. Mas fora concebido de forma
a permitir que seu portador resistisse incólume ao fogo de uma ou duas armas.
Para resistir a centenas de impactos produzidos pelas balas expelidas por vinte
pistolas automáticas teria de recorrer a uma suplementação de energia, e esta
foi extraída do gerador do dispositivo de neutralização gravitacional e do
defletor.
Com isso
Tanner ficou privado da possibilidade de se locomover, e seu defletor falhou:
tornou-se visível. Além disso, o impacto dos projéteis sobre o envoltório
energético causou uma série de sacudidelas desagradáveis, que o impediam até
mesmo de sair correndo.
Procurou
cobertura às pressas e respondeu ao fogo com seu radiador de impulsos. Seguindo
a ordem de Rhodan, de, na medida do possível, poupar vidas humanas, traçou uma
barreira incandescente sobre a barreira de rocha atrás da qual se abrigara a primeira linha de atiradores, obrigando os homens a encolherem a cabeça e se afastarem apressadamente da área
atingida pelo calor escaldante.
Mas Tanner
não alcançou um êxito completo porque fora observado por grupos mais distantes,
que contra ele dirigiram seu fogo.
— Agüente
firme! — gritou Rhodan de algum lugar.
Tanner
resmungou sua concordância.
Tinha
certeza de que Rhodan e Deringhouse não o abandonariam.
Sua situação
não era das mais brilhantes. Era verdade que estava a salvo de ferimentos; mas
o fogo concentrado ininterrupto impediu o funcionamento do neutralizador e do
defletor. Estava preso ao lugar, e todo mundo podia vê-lo.
* * *
O general
Tomisenkow logo compreendeu a situação. Não gastou um segundo para rever sua
opinião de que o inimigo não poderia se tornar invisível.
Numa pressa
extrema convocou os homens das posições mais afastadas e lançou-os em combate
no lugar em que Tanner lutava desesperadamente pela invisibilidade e pela
liberdade de movimentos.
Nesse
instante, Deringhouse, com um ligeiro impulso transmitido pelo rádio, provocou
o melão alojado sob o suporte da nave. Tanner, que se encontrava a menos de cem
metros de distância, foi erguido no ar e atirado para o lado. De sua nova
posição viu a proa da nave se inclinar e desaparecer numa imensa nuvem de pó.
Poucos instantes depois o solo começou a dançar sob o impacto do colosso
metálico.
O fogo
cessou por alguns segundos. O defletor de Tanner voltou a funcionar, e ao mesmo
tempo a tração leve do campo neutralizador da gravidade se fez sentir.
Mas, naquele
instante, o major Nyssen já cometera seu erro funesto. Sem ter a visão da luta
que se desenrolava rio fundo do vale, ficou convicto de que por algum motivo
inexplicável Rhodan e seus homens corriam perigo. Por isso ordenou o ataque
geral. Todos os câmbios, com exceção de um, que permaneceria no cume da
montanha para servir de posto de observação, desceram pela encosta.
Os câmbios
provocaram um susto tremendo entre as últimas linhas de atiradores dos homens
do Bloco Oriental. Os veículos pousaram praticamente sem ruído; ouviram-se
vozes exaltadas, mas não se via nada. Poucos segundos depois a rocha começou a
entrar em incandescência e a ferver bem diante do nariz dos homens.
Os homens de
Tomisenkow não tiveram outra alternativa senão a fuga. Saíram dos abrigos aos
montes e correram para o centro do vale.
Tomisenkow
logo reconheceu a situação e percebeu que contra um inimigo desses era quase
indefeso.
Quase! Ainda
havia uma possibilidade.
Fez sinal a
três dos seus oficiais para que se aproximassem e transmitiu-lhes algumas
instruções apressadas. Os oficiais se puseram a caminho, de início em direção à
saída norte do vale.
* * *
Rhodan
ordenou a retirada.
No mesmo
instante o inimigo, que assumira novas posições no centro do vale, começou a
dirigir o fogo de suas armas contra os câmbios. Como estes dispusessem de
campos protetores, nem mesmo as granadas de fuzil, que funcionavam como
foguetes em miniatura, podiam lhe causar qualquer dano. Mas os homens de Rhodan
se tornaram visíveis assim que penetraram na chuva de granadas que desabava em
redor dos câmbios, e o fogo das fileiras de atiradores concentrou-se sobre os
homens que por alguns instantes podiam ser vistos.
Rhodan deu
ordem para decolar, pois acreditava que todos já se encontravam em seus
lugares. As máquinas se ergueram de um golpe e dispararam para o alto.
Todos os
câmbios, com exceção de um.
Quando
começou a confusão, Tanner se afastou em direção ao norte. No momento em que
Rhodan deu ordem de retirada, voou em direção ao câmbio que pousara mais ao
norte.
Ouviu vozes.
A tripulação do câmbio seguia as instruções de Rhodan. Tanner não se deu conta
de que, ao contrário dos outros, este câmbio não estava sendo submetido ao fogo
do inimigo. Mas ouviu que os homens praguejavam enquanto tentavam colocar em
funcionamento o gerador.
— O que
houve? — perguntou em tom áspero.
Não via
ninguém, e ninguém o via.
— Não quer
pegar — lamentou-se um dos interlocutores invisíveis.
— Deixe-me
ver.
Tanner
ocupou o assento do piloto. Comprimiu o botão verde que acionava o gerador e
aguardou o zumbido que já conhecia.
Não veio.
— Não há
tempo a perder — gritou. — Procurem se acomodar num dos outros veículos ou
subam nos seus trajes. Rápido!
Ouviu o
ruído de passos que se afastavam.
Tanner
deixou-se cair de lado, para fora do veículo, e examinou o chassi. À primeira
vista, notou o buraco oval cortado no lugar exato em que antes ficara o
transmissor de impulsos positrônicos, que conduz os comandos emitidos pelo
piloto ao mecanismo de propulsão.
Alguém o
retirara. Alguém que não entendia praticamente nada da estrutura do câmbio,
pois do contrário teria retirado o gerador.
De qualquer
maneira a falta do transmissor de impulsos bastava para inutilizar o veículo.
Nesse
instante Tanner foi alvejado. Alguém devia ter visto a impressão que suas botas
deixaram no chão macio.
Não era um
fogo concentrado. O campo protetor absorvia-o sem necessidade de recorrer à
energia destinada ao neutralizador e ao defletor. Tanner se levantou e viu, a
uns vinte metros de distância, metade de um braço e uma pistola automática que
saía de detrás de uma rocha. Disparou o radiador de impulsos até que a rocha
entrasse em incandescência e achou que já era tempo de dar o fora.
Os câmbios
já se encontravam próximos à borda do vale. Tanner dependia de seu traje
transportador. Deu o empenho máximo ao neutralizador gravitacional, se
desprendeu do solo e foi subindo rente à encosta. Levou mais tempo que os
câmbios para atingir a borda segura. Mas agora, que não deixava qualquer
rastro, ninguém mais o molestava.
No fundo do
vale os tiros emudeceram quando os atiradores não tinham mais nada em que
atirar. A poeira levantada pela queda da C-103 já desaparecera. Viu-se que a
nave se partira no meio. Nunca mais decolaria.
Os homens de
Rhodan haviam capturado três prisioneiros e conseguiram levá-los apenas com
ferimentos leves através do fogo dos próprios companheiros. Rhodan julgava
necessário interrogar esses homens o quanto antes. Era bem verdade que
considerava a posição atual muito perigosa; ordenou o regresso imediato à
Stardust-III.
Tanner
ofereceu seu relato sobre a maneira pela qual o último câmbio fora impedido de
decolar. Rhodan ergueu as sobrancelhas e disse com certo respeito:
— Parece que
lá embaixo o comando é exercido por um homem bastante inteligente.
* * *
Tomisenkow
tomou conhecimento de que, entre seus homens, havia sete mortos e vinte e dois
feridos graves.
Mas não
demonstrava muito interesse.
Os homens
com os quais confabulava eram os especialistas em eletrônica da C-103.
— Peguem o
bloco — insistiu Tomisenkow — e coloquem-no no mesmo lugar de que foi retirado.
Não pode ser difícil. Depois coloquem a coisa em funcionamento.
Os técnicos
puseram-se a trabalhar. Realmente não houve a menor dificuldade em recolocar o
bloco. Como o buraco fosse oval, só havia uma posição de encaixe.
Uma vez que
a técnica de transmissão de impulsos dos arcônidas funcionavam sem fios, não
havia condutores arrancados dos quais não se soubesse quais os seus
correspondentes. Uma vez recolocado e soldado, o bloco estava em condições de
funcionar.
Os técnicos
não tiveram que fazer outra coisa senão mexer cautelosamente nos diversos
comandos e observar a reação da nave.
Dentro de
uma hora sabiam perfeitamente o que teriam de fazer para movimentar o câmbio,
para dirigi-lo à direita ou à esquerda, para cima ou para baixo. A incumbência
mais importante recebida de Tomisenkow estava cumprida.
* * *
Rhodan realizou
o interrogatório na margem de um pequeno lago situado aproximadamente a meio
caminho entre o acampamento da C-103 e o ponto em que se encontrava a
Stardust-III.
Realizou o
interrogatório pessoalmente e valeu-se do projetor mental para obter a verdade.
Quando soube
tudo que lhe interessava, se tornou bastante pensativo.
— Tomisenkow
voltou a aparecer — disse, dirigindo-se ao major Deringhouse. — Ninguém tem a
menor idéia de como conseguiu vencer a distância entre aquele acampamento e a
C-103, mas o fato é que voltou.
Deringhouse
olhou-o perplexo.
— Qual é a
distância? Um momento... Quase duzentos quilômetros, não é? Duzentos
quilômetros percorridos a pé na selva de Vênus, e isso com uma pistola
automática ou seja lá o que ele trazia.
— E metade
do caminho foi percorrida de noite — completou Rhodan.
Deringhouse
respondeu com um aceno de cabeça.
— Este homem
é de tirar o chapéu — disse Rhodan, em tom pensativo.
— O que
pretende fazer? — perguntou Deringhouse.
Rhodan deu
de ombros e sorriu.
— Nada. O
inimigo não dispõe de qualquer nave com que possa sair de Vênus. Talvez consiga
reparar o câmbio; nesse caso não será mais obrigado a se deslocar a pé. O que
acha que será deles?
— Acredita
que esses homens continuarão vivos? — perguntou Deringhouse.
Rhodan fez
que sim.
— Um deles
conseguiu. Para todos em conjunto será muito mais fácil.
* * *
Logo após a
decolagem, Rhodan transmitiu pelo telecomunicador a ordem para que Tako Kakuta,
que se encontrava na Stardust-III, executasse o salto.
Dias atrás —
segundo o tempo terreno — quando Rhodan adotou o plano de, na medida do
possível, poupar a vida de Tomisenkow e seus homens, abandonou automaticamente
a outra alternativa, isto é, o plano de livrar Vênus dos invasores para
convencer o dispositivo positrônico de que não havia mais perigo, fazendo com
que abrisse as portas.
Tako Kakuta,
japonês como Son Okura e muitos outros membros do Exército de Mutantes, era até
então o único dentre os homens de Rhodan que possuía o dom da teleportação. As
energias encerradas no cérebro de Tako Kakuta, submetido a um processo de
mutação, lhe possibilitavam o transporte por um trecho de até cinqüenta mil
quilômetros, e isso por um meio que equivalia à transição realizada por uma
nave espacial.
Face a isso,
era o único que poderia estar em condições de penetrar pelas barreiras atrás
das quais o cérebro positrônico de Vênus se isolava do mundo exterior.
Desde o
início Rhodan considerara essa possibilidade. Mas, como a mesma envolvesse
certo risco para o japonês, teve outra idéia. Mas agora, que a sobrevivência
dos homens de Tomisenkow parecia compensar o risco a que iria submeter o
mutante, não hesitou em transmitir a este a ordem correspondente, para a qual o
mesmo já estava preparado há algum tempo.
O campo
protetor que o cérebro positrônico estendera em torno da fortaleza tinha um
raio de quinhentos metros. Mesmo com um traje transportador, Tako levaria algum
tempo para penetrar no recinto da fortaleza propriamente dita.
* * *
Pela alegria
quase infantil que os homens demonstraram quando a silhueta da Stardust-III se
desenhou no horizonte, Rhodan percebeu que, depois dos dias difíceis passados
no planeta Peregrino e da atuação ininterrupta de Vênus, os mesmos haviam
chegado ao limite de suas forças.
Os câmbios
se deslocaram na formação usual, cerca de dez metros acima da folhagem das
árvores.
Todos os
perigos haviam chegado ao fim, e o conforto da gigantesca nave acenava ao
longe. Uma cama macia, um bom café — que não viria dos pacotes de rações
arcônidas — e, principalmente, tempo para ficar de papo para o ar. Não eram
motivos mais que suficientes para ficar alegre?
Por algum
tempo Rhodan acompanhou com um sorriso a palestra excitada que se desenvolvia
pelo telecomunicador. Depois pediu silêncio.
Reginald
Bell fizera todos os preparativos para o regresso da pequena expedição. A uma
distância de vinte quilômetros, Rhodan percebeu com o auxílio de um bom
binóculo que o portão da comporta sul havia sido aberto.
Tako Kakuta
efetuara o salto. Valendo-se do telecomunicador, que não era afetado pelos
campos protetores da fortaleza, avisou que se encontrava a caminho da entrada
da base. Executara o salto sem o menor contratempo. Rhodan calculou que mais
uma hora se passaria até que Tako obtivesse do cérebro positrônico autorização
para desativar o campo protetor.
* * *
— Consegui!
— gritou o capitão Ljubol cheio de entusiasmo.
Fitou a tela
de pontaria do radiador neutrônico e puxou a alavanca que acreditava ser o
gatilho. De início nada aconteceu, mas dentro de poucos segundos as árvores que
apareciam na tela se desfizeram em cinza.
O general
Tomisenkow resmungou satisfeito.
— Já estava
na hora — disse. — Aí vêm eles.
Esforçou-se
para não olhar a área da tela que mostrava os arredores do veículo na direção
nordeste. O vulto brilhante da gigantesca nave o preocupava e lhe incutia a
idéia de que aquilo que pretendia fazer talvez fosse tão arriscado e irracional
que ele e seus homens não conseguiriam sobreviver aos acontecimentos.
Depois de
pôr o câmbio em funcionamento, procuraram encontrar a pista de Rhodan. Não
encontraram a pista, mas a Stardust-III. Não se atreviam a atacar a nave; mas
tinham certeza de que nessa área conseguiriam interceptar Rhodan e seu grupo.
De início só contavam com suas próprias armas, pistolas automáticas e
lança-granadas. Mas através de tentativas ininterruptas, o capitão Ljubol
descobrira o funcionamento de uma das armas embutidas no veículo.
* * *
—
Localização! — gritou o homem diante do aparelho de busca de microondas.
Mas já era
tarde.
A estrutura
do câmbio emitiu um ruído crepitante. Rhodan logo identificou o ruído: Era
produzido pelo impacto de um radiador neutrônico.
O veículo e
seus ocupantes estariam perdidos, se Rhodan não possuísse a faculdade de, na
fração de um décimo de segundo, reagir adequadamente à situação mais
surpreendente.
Atirou-se
para a frente e manipulou a direção do veículo por cima do ombro do homem que,
imobilizado de pavor, estava sentado diante do volante oval.
O câmbio
emborcou para a frente e despencou os dez metros que o separavam das folhagens
da selva. Os galhos bateram ruidosamente na carroçaria, mas quando o veículo se
imobilizou estava abrigado dos olhares do inimigo sob uma folhagem de três
metros de espessura.
A campainha
do monitor de radiações soou ininterruptamente. A radiatividade induzida pelos
nêutrons havia atingido o limite da periculosidade.
A voz
estereotipada de Deringhouse se fez ouvir:
— Reconheci
o inimigo. Vou disparar.
O radiador
de impulsos do câmbio de Deringhouse foi posto a funcionar.
A primeira
salva teria transformado o veículo de Tomisenkow numa massa incandescente, se
este não tivesse reagido instantaneamente ao fracasso da tentativa de aniquilar
o inimigo, colocando o veículo em movimento.
O tiro
disparado por Deringhouse atingiu o câmbio de Tomisenkow na popa, onde se
situavam os principais pólos gravitacionais que propagavam o campo
neutralizador. O câmbio caiu como uma pedra antes que Tomisenkow pudesse
executar qualquer manobra para equilibrá-lo.
Uma forte
pancada se fez ouvir quando o veículo penetrou pela folhagem. A cabeça de
Tomisenkow bateu com tamanha violência contra um dos painéis que o general
imediatamente perdeu a consciência.
Neste meio
tempo Rhodan havia empurrado o piloto para fora de seu assento, assumindo
pessoalmente a direção. Pelos cantos dos olhos, através de uma abertura na
folhagem, observou a queda do veículo inimigo e viu outro câmbio que se
precipitava atrás dele.
—
Deringhouse, é você?
— Sim —
respondeu Deringhouse. — Desta vez o sujeito não escapa!
— Deixe-o em
paz! — ordenou Rhodan em tom enérgico.
— Ele usa
nossas próprias armas contra nós! — protestou Deringhouse.
— Assim
mesmo deixe-o em paz.
Deringhouse
fez meia-volta. Os câmbios voltaram a entrar em formação.
Rhodan
enviou à Stardust-III um ligeiro relato do incidente e concluiu:
— Meu carro
precisa de uma descontaminação, e os ocupantes também. Preparem tudo.
Descontaminação
é a expressão para a remoção da radiatividade que adere a qualquer corpo. A
Stardust-III, o produto refinado de uma técnica superior, estava preparada para
incidentes como o que acabara de se verificar. A campainha do monitor de
radiações deixaria de soar assim que o câmbio fosse colocado sob o chuveiro
descontaminador.
* * *
Tako Kakuta,
o teleportador japonês, tinha uma noção bastante precisa da forma pela qual o
cérebro positrônico reagiria à sua visita não anunciada. Apesar disso não se
sentiu muito à vontade quando foi avançando pelos corredores amplos e
profusamente iluminados em direção à sala de comando da gigantesca máquina.
Estava sendo
observado, não havia a menor dúvida. Havia grande número de aparelhos de visão
e de escuta ocultos nas paredes.
Quando tinha
percorrido metade do caminho no interior da montanha, o cérebro compreendeu
qual era o lugar a que se dirigia. Subitamente a parede lateral direita do
corredor se abriu e dela saiu grande número dos guardas robotizados que há
milênios cuidavam da vigilância e conservação da fortaleza.
Tako não
resistiu. Os robôs conduziram-no pelos corredores e galerias
antigravitacionais. Penetraram cada vez mais profundamente na terra, até
chegarem ao recinto em que o cérebro positrônico inquiria seus prisioneiros
pela forma mais detalhada e segura: o interrogatório hipnótico.
Sem que
pudesse fazer qualquer coisa, a consciência de Tako se abriu à inquirição da
máquina, deixando claro que a última ordem fornecida por Perry Rhodan não
poderia ser cumprida mais, pois do contrário ele mesmo correria sério perigo.
Por ora o
cérebro positrônico assumiu seu autocomando e fez aquilo que achava mais
acertado.
Um receptor
de telecomunicação da Stardust-III deu sinal e anunciou:
— Os campos
energéticos ficarão abertos das cento e setenta e três horas e zero minutos até
as cento e setenta e três horas e dez minutos. Penetrem nesse intervalo.
Rhodan
preparou a nave.
* * *
Sentado na
parte mais elevada da copa de uma gigantesca árvore, o capitão Ljubol observava
a Stardust-III. Outro homem estava sentado ao seu lado.
O general
Tomisenkow, cuja cabeça apresentava um enorme galo e zumbia terrivelmente,
esperava mais embaixo e, de tempos em tempos, perguntava o que havia para ver.
O quarto
homem da equipe, um técnico em eletrônica, se equilibrava nos destroços da
nave, mantidos em posição inclinada por três galhos fortes, procurando
descobrir se os mesmos ainda poderiam servir para alguma coisa.
Era bem
verdade que a Stardust-III oferecia um quadro impressionante; mas depois de ter
esperado meia hora sem que a gigantesca esfera se movesse, Ljubol teve a
impressão de que estavam desperdiçando seu tempo.
O técnico em
eletrônica teve um resultado mais compensador, embora o mesmo levasse
Tomisenkow à beira do desespero.
Conseguiu
constatar, fora de qualquer dúvida, que as peças mais importantes do câmbio
haviam sido danificadas a ponto tal que sem o conhecimento da estranha
tecnologia jamais lhe seria possível voltar a utilizá-lo.
— Pois
retire ao menos o canhão com que Ljubol atirou há pouco — resmungou Tomisenkow.
— Isso não
adiantaria nada, general — respondeu o técnico. — Todos os componentes do
veículo, inclusive as armas, são alimentados por um gerador, e é justamente
este que sofreu as piores avarias.
Tomisenkow
não acreditou enquanto o técnico não lhe mostrou as peças do veículo e lhe
explicou como estavam danificadas, e como ninguém poderia ter a menor idéia dos
princípios em que se baseava a tecnologia daqueles seres estranhos.
Só então
Tomisenkow reconheceu que também perdera esse round do jogo, um round
em que jogara extremamente alto.
Compreendeu
que, dali em diante, ele e seus homens teriam de viver em paz com aquele mundo.
Teriam de encontrar um meio de se adaptar às condições reinantes em Vênus, ou
não viveriam sequer o bastante para que uma expedição pudesse vir em seu
socorro.
— Ljubol
desça daí! — gritou Tomisenkow.
A ordem foi
prontamente executada pelo capitão. Estava contente de poder abandonar aquele
posto tedioso.
Ainda não
havia descido dois metros quando a Stardust-III começou a se mover,
deslocando-se numa velocidade considerável em direção a uma cordilheira que se
via no horizonte. Mas Ljubol não a via mais.
— Esse
veículo está imprestável — disse Tomisenkow com um gesto de desprezo, depois de
ter reunido seus homens no chão da selva. — Teremos de caminhar até o
acampamento. Será duro; mas nós havemos de conseguir o que já pude fazer
sozinho. Ljubol, pegue a bússola e vá na frente. Por enquanto a regra mais
importante é esta: ficarmos bem juntos e não tocar em nada que não seja
necessário. Vamos!
No início as
coisas nem pareciam tão ruins. A vegetação era muito densa, e por vezes certos
animais que passavam sobre seus pés causavam-lhes calafrios. Mas foram
avançando, e não muito devagar.
Só quando o
sol começou a descer sobre o horizonte se lembraram de que a noite que se
aproximava duraria cinco dias da contagem de tempo terrena. Passariam cento e
vinte horas na escuridão da selva.
Continuando
a refletir, chegaram à conclusão de que dali em diante nunca mais seria
diferente. Não dispunham de naves nas quais pudessem sair daquele planeta.
Teriam de viver para sempre em
Vênus.
Por algumas
horas não disseram nada; cada um seguia a trilha de seus pensamentos
melancólicos.
Mas logo
dois daqueles animais em forma de urso começaram a se ocupar com eles. Ljubol
foi o primeiro a notá-los, e Tomisenkow deu instruções sobre o comportamento
que deveriam adotar. Esconderam-se e, quando aqueles animais dotados de
inteligência medíocre puseram-se a procurá-los, mataram-nos com granadas
disparadas dos fuzis.
Prosseguiram
em sua marcha.
Ainda teriam
de lutar várias vezes antes de chegarem ao acampamento. De repente a coragem
voltou, e também o orgulho entusiástico de poderem mostrar àquele mundo que
havia chegado alguém que era mais poderoso que a selva com seus sáurios de
milhares de toneladas, seus ursos-lagartos e toda a gama de vermes nojentos e
rastejantes.
Fosse qual
fosse o deus em que acreditavam, fosse qual fosse a ideologia implantada em
seus cérebros, fossem quais fossem as injustiças que praticavam entre si, eram homens.
Pertenciam à
raça mais ativa, arrojada e orgulhosa da galáxia.
E
continuariam vivos, não todos, mas um número suficiente para que o fio não se
rompesse.
* * *
O cérebro
positrônico interpretou o trecho da órbita de Peregrino e deu a entender que o
problema seria solucionado nas próximas duas horas.
Mais um dia,
e a órbita total do planeta Peregrino não seria mais mistério.
Pela
primeira vez desde que o conheciam, os homens notaram a sensação de alívio que
se espelhava no rosto de Rhodan.
Ele manteve
uma palestra com o coronel Freyt, que se encontrava em Galáxia, a capital da
Terceira Potência. Freyt se mostrou muito satisfeito quando soube que, dentro
de poucas horas, Rhodan e a Stardust-III regressariam à Terra.
— Não sei se
compreende, mas aos poucos... começo a não ser entendido por meus homens —
confessou. — Querem que eu faça alguma coisa contra as tendências
expansionistas do Bloco Oriental, mas eu... eu...
Rhodan
acenou com a cabeça.
— Poremos
tudo em ordem. Não se preocupe. Mas fique de boca calada; não diga a ninguém
que estamos para chegar. Entendido?
Reginald
Bell, que acompanhara a palestra, entendia muito pouco do que estava sendo
feito. Enquanto o cérebro positrônico estava ocupado no cálculo da órbita do
planeta Peregrino, Rhodan forneceu a explicação:
— Quando
saímos da Terra, não sabia quando regressaríamos. Fiz do coronel Freyt o meu
representante. Mas será que o conhecia bastante bem? Quem me garantiria que não
se aproveitaria da primeira oportunidade para usar o poderio imenso que tinha
ao seu dispor para fazer alguma tolice? Tive que tomar minhas precauções. Freyt
ficou submetido a um bloqueio hipnótico que o impede de interferir na política
terrena. Além disso, deixei mutantes em Galáxia, que exerceram certa vigilância
sobre Freyt, cuidando para que não fizesse bobagens. Conforme vemos hoje, a
idéia do bloqueio hipnótico teve sua origem num erro de cálculo da minha parte.
Em outras palavras, minha opinião sobre o desenvolvimento da política terrena
foi muito simplista. Acreditei que reinasse uma situação de razoável
estabilidade. Não calculava com a possibilidade de que alguém ainda poderia ter
interesse, muito menos que poderia conseguir, pôr uma pedra no caminho da
união.
Sacudiu os
ombros.
— Se não
fosse assim, as ordens transmitidas a Freyt evidentemente teriam sido outras.
Da forma como agora se encontra na base de Gobi, não poderia fazer outra coisa
senão se defender de um ataque contra a mesma. Até agora não houve nada disso.
Mas, quanto ao mais, ficou de mãos amarradas.
— Você não
deve se recriminar por isso — disse Bell. — Ninguém poderia prever que nossa
viagem duraria quatro anos e meio.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Poderia,
sim. Quem se acha investido das minhas responsabilidades deve incluir em seus
cálculos até mesmo as possibilidades mais remotas.
Passou a
outro tema.
— Aqui na
fortaleza tivemos de enfrentar o mesmo problema. Fui cauteloso demais, e, além
disso, nunca imaginei a possibilidade de que, em qualquer tempo, outros homens
que não nós fossem pousar em Vênus. O cérebro reagiu pela forma que eu lhe
prescrevi: deixou os homens em paz, eram os homens de Tomisenkow, e, se não tivéssemos
aparecido em tempo, provavelmente a fortaleza já teria sido ocupada por eles.
No momento em que Tomisenkow disparou seus foguetes contra nós, o cérebro
registrou acontecimentos
extraordinários e inquietantes e se bloqueou também contra nós. Modifiquei
tudo isso. No futuro, assim que você, eu ou alguma das outras pessoas que ainda
selecionarei irradiar um sinal em código, o cérebro positrônico abrirá as
portas, por mais crítica que seja a situação.
— Obrigado —
respondeu Bell.
— Por quê? —
indagou Rhodan, perplexo.
— Pela
confiança depositada em mim.
— Ora, cale
a...
O cérebro
positrônico fez soar um sinal.
— Os cálculos serão concluídos dentro de
cinqüenta minutos — anunciou uma voz metálica.
Bell se
levantou.
— O que
faremos agora?
Subitamente
o rosto de Rhodan assumiu uma expressão dura.
— Acho que
já tivemos muita paciência — disse baixinho, mas com um tom ameaçador na voz. —
Se os homens que habitam a Terra não quiserem
se unir, terão de ser obrigados. Não podemos operar no universo com a
insegurança representada pela desunião terrena às nossas costas. Temos de
limpar a mesa. E começaremos com os perturbadores da ordem. Às vezes ainda
surge um sinal.
Mal Rhodan
acabou de pronunciar estas palavras, um vulcão começou seu trabalho terrível no
oeste. Sob a pressão tremenda desencadeada pelas forças aprisionadas no
interior do planeta, uma lava amarela e incandescente subiu numa coluna de
centenas de metros e envolveu a paisagem semi-obscurecida numa luz irreal.
— Até parece
um símbolo — murmurou Bell.
* * *
A breve permanência em Peregrino, o planeta da imortalidade,
custou a Perry Rhodan e sua equipe quase quatro anos e meio de tempo terreno.
Por isso era compreensível que as potências da Terra, que já não contavam com
seu regresso, iniciassem seu velho jogo.
Mas Perry Rhodan estraga a festa. A
Guerra Atômica que não Houve, é este o
título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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