terça-feira, 30 de outubro de 2012

P-020 - Ameaça a Vênus - Kurt Mahr [parte 3]


Oferecia uma visão estranha. Tomisenkow ofereceu outro e mais outro fósforo e deixou que lhe queimassem os dedos para não perder nada do quadro.
O animal estava morto; não havia a menor dúvida. Se o nariz de Tomisenkow não tivesse sido irritado pela fumaça dos tiros, provavelmente já teria sentido o mau cheiro.
Era um animal sem esqueleto, conforme já supusera, uma espécie de pólipo terrestre. O tronco, que devia ter um metro e meio de altura, estendia em todas as direções tentáculos de mais de três metros. Um deles fora o suposto braço que erguera Tomisenkow.
Tomisenkow refletiu sobre o que poderia ter causado a morte do animal. Finalmente teve uma idéia que de início lhe pareceu um tanto ousada.
Os tiros que disparara produziram três efeitos distintos: primeiro as balas, depois a fumaça e finalmente o barulho.
As balas não haviam acertado o alvo.
Concluía-se que a morte do animal fora causada por um dos outros efeitos — o barulho ou o cheiro. As probabilidades a favor de uma ou outra das alternativas eram idênticas, e Tomisenkow não se decidiu por nenhuma delas.
Introduziu outro pente de balas na pistola e pôs-se a andar. O fato de ter se livrado do pólipo reforçou-o na convicção de que conseguiria resistir também aos outros perigos da selva.

* * *

Nesse meio tempo Rhodan obtivera informações precisas sobre as intenções, a força e as relações pessoais da expedição do Bloco Oriental.
Sabia que originariamente a expedição era formada por quinhentas naves.
O comando cabia ao general Tomisenkow. Era assessorado por dois majores, cinco coronéis e grande número de oficiais de menor graduação. Dos dois majores só um sobrevivera. Era Lemonovitch. Os prisioneiros de Rhodan tinham certeza de que Lemonovitch assumiria em definitivo o comando dos remanescentes da expedição, assim que soubesse que não devia contar com o aparecimento de Tomisenkow.
O objetivo da expedição era evidente. Ao retornar de sua primeira grande expedição a Vênus, Rhodan não ocultara o fato de que ali realizara descobertas importantes — descobertas que o tornariam independente da boa ou má vontade dos blocos de potências terrenas.
O Bloco Oriental também não dispunha de dados mais exatos. Mas o novo governo do mesmo decidira se apossar dessas descobertas de qualquer maneira, mesmo sem conhecer sua natureza. Por isso a divisão de Tomisenkow decolou em direção a Vênus depois de ter sido submetida a um treinamento intensivo, e ali pousara com quinhentas naves, segundo as previsões.
Ainda mais notável que a falta de escrúpulos do governo do Bloco Oriental foi o trabalho técnico levado a efeito. As naves da divisão espacial dispunham de mecanismos de propulsão nuclear do tipo daqueles com que estava equipada a Stardust em seu primeiro vôo à Lua. No momento da decolagem, Vênus se encontrava no ponto mais afastado da Terra. A viagem durara quatro semanas, e a frota conseguiu realizá-la sem qualquer perda.
— Com esse tipo de gente poderíamos conquistar o Universo, se não aparecesse sempre algum idiota que os põe no caminho errado — disse Rhodan em tom amargo.
Prosseguindo na execução de seu plano, decolou do acampamento conquistado em direção ao noroeste, onde pretendia atacar os remanescentes da expedição em seu novo esconderijo. Nesse meio tempo, Deringhouse voltara a se reunir ao pequeno grupo. Conduzira Lysenkow e seus homens à Stardust-III, e fizera com que principalmente Lysenkow fosse interrogado sob constrição hipnótica. Suas declarações foram cotejadas com as de Trewuchin, ajudante de Tomisenkow. Coincidiam.
Pela meia-noite de Vênus o grupo de Rhodan atingiu o pé da cordilheira em que os remanescentes da divisão espacial se ocultavam com suas naves. Além das escassas indicações sobre a direção do vôo, fornecidas pelo setor de localização da Stardust-III, Rhodan não dispunha de dados sobre a área em que deveria procurá-los. Mas, como soubesse que o novo esconderijo abrangia uma área de dez mil quilômetros quadrados, supôs que, de tempos em tempos, os homens do Bloco Oriental se comunicariam pelo rádio.
Mandou que o grupo assumisse suas posições num ponto elevado e instruiu os operadores de rádio para que procurassem captar as mensagens expedidas pela expedição e localizassem os emissores por meio do goniômetro.
Dentro de umas oitenta horas já havia registrado cinqüenta pontos em seu mapa. Cada um deles correspondia à posição de um emissor inimigo.
Os pontos se estendiam em três filas, por vezes em quatro, sobre a área central da zona montanhosa. Rhodan não pôde extrair qualquer detalhe do mapa levantado por ocasião do primeiro vôo sobre Vênus. Mas estava convencido de que, em todo lugar em que havia registrado um ponto, ficava um vale. As naves não teriam pousado em encostas onde seriam facilmente visíveis, muito menos em platôs.
Pelas oitenta e cinco horas da manhã, quando a noite já ia chegando ao fim, Rhodan pôs-se a caminho com os membros de seu grupo. Da Stardust-III, Bell transmitira a informação de que tudo estava em ordem. Mas observou que, segundo os dados fornecidos pelo dispositivo positrônico da nave, não deveria retardar muito sua entrada no forte de Vênus, pois do contrário o grande dispositivo positrônico da fortaleza não mais estaria em condições de, com base no trecho conhecido, calcular toda a órbita do planeta Peregrino.
O grupo de câmbios voou próximo às encostas, na direção noroeste. Deslocava-se a uma altitude média de quatro mil metros acima da planície. Mesmo nessa altitude os flancos da montanha estavam cobertos com uma selva tão densa como na planície. Quatro mil metros não representavam uma diferença de altitude muito significativa para o clima quente e úmido reinante em Vênus.
A projeção do terreno sobre as telas localizadoras forneceu um quadro bizarro. A montanha era uma formação jovem. As rochas eram íngremes, arestosas e, na expressão de Deringhouse, “livres de qualquer compromisso”.
Pelas oitenta e oito horas passaram à altura do primeiro ponto registrado no mapa de Rhodan. Este não pretendia atacar a posição mais próxima. Preferia vir do norte, para lançar confusão nas posições inimigas.
Dentro de uma hora atingiram o centro da fileira de pontos. Rhodan tomou o rumo do sul e se dirigiu a um ponto que, segundo as medições realizadas pelo telegrafista, apresentava uma potência emissora maior que os demais.
O primeiro alvorecer do novo dia surgia no horizonte quando o câmbio de Rhodan passou cautelosamente por cima do cume pontudo da montanha que limitava um vale que, em linha quase vertical, descia profundamente por entre as montanhas. A diferença de altitude entre o cume da montanha e o fundo do vale era superior a dois mil metros. Todas as encostas eram verticais, embora entrecortadas, e o diâmetro do vale era de cerca de oito quilômetros.
Os câmbios foram descendo rentes à encosta. No fundo do vale o mundo ainda não percebera o irromper do novo dia. Era escuro; se os radares inimigos não estivessem dirigidos exatamente sobre a encosta vertical, não perceberiam nada do ataque iminente.
Por enquanto Rhodan só conseguia perceber a nave nas telas dos localizadores. Os holofotes de luz infravermelha não revelavam nada, e Son Okura, já em companhia de Rhodan, também não pôde distinguir o objeto. Ao que tudo indicava a nave se encontrava num lugar cercado de árvores muito altas. Com o crescimento incrivelmente vigoroso que se verificava em Vênus, a clareira aberta durante o pouso já devia ter sido fechada.
Rhodan pousou junto ao paredão de rocha. Deixou quatro homens junto aos câmbios, para servirem de sentinelas. Com os outros avançou pela selva em direção à nave, cuja posição era indicada com elevado grau de precisão pelo reflexo do aparelho localizador.
Deslocaram-se pelo chão da selva. Rhodan achou que seria muito arriscado recorrer aos trajes transportadores. Levaram duas horas para atingir a área em que supunham que estivesse o objetivo.
Nesse meio tempo clareara também no fundo do vale. Son Okura já não era o único que conseguia ver alguma coisa.
Subitamente se depararam com a nave espacial.
Afundara alguns metros no chão macio da selva e se encontrava em posição ligeiramente inclinada. Mas não havia dúvida de que estava em boas condições, e para um piloto hábil a inclinação não representaria maior problema durante a decolagem.
A nave descansava sobre os suportes de popa. Entre dois dos suportes, os contornos da escotilha de uma comporta desenhavam-se sobre o metal. Rhodan deu ordem para que os homens parassem.
— Abriremos a escotilha a maçarico — sugeriu. — Não deve demorar mais de um minuto; terminaremos antes que lá dentro desconfiem de qualquer coisa. Cada nave destas tem uma espécie de depósito, onde são alojados vinte homens durante o vôo, e, na ponta, a sala do piloto. Não sei quantos homens se encontram nesta nave, mas de qualquer maneira deveremos encontrar alguns tanto no depósito como na sala do piloto. Fiquem de olhos abertos. Não queremos torcer-lhes o pescoço, mas se houver qualquer resistência, atirem imediatamente. Entendido? Tudo há de dar certo!

* * *

O major Lemonovitch pousara sua nave na extremidade noroeste da cordilheira. Uma segunda nave pousara pouco depois da sua no mesmo vale.
Face à mensagem de Tomisenkow, Lemonovitch deu ordem para que uma das naves pousadas no setor sudeste decolasse e fosse buscar o general. A nave não deu mais sinal de vida, e já fazia cem horas que decolara. Lemonovitch estava convencido de que caíra ou fora derrubada pelo inimigo. Fazia aproximadamente o mesmo tempo que não tinha qualquer contato com o general Tomisenkow e seu ajudante. Procurara localizar o general pelo rádio e, de algumas horas para cá, acreditava que fora vitimado pelas condições reinantes em Vênus, tal qual o piloto e seu foguete.
Esclarecera a tropa de que provavelmente o general Tomisenkow estaria morto, ou teria caído em mãos do inimigo, e que ele mesmo, Lemonovitch, como oficial de patente mais elevada, assumiria o comando da divisão.
Parecia tudo muito simples; mas Lemonovitch ficou quebrando a cabeça sobre o que deveria fazer.
Ao que tudo indicava o esconderijo era seguro. Aquilo que receara no início, que o inimigo atacasse toda a zona montanhosa com suas armas superiores e a transformasse num pantanal incandescente e radiativo, não se realizara. Não sabia dizer por que Rhodan não adotara esse procedimento, mas o mesmo lhe convinha sobremaneira.
Todavia, a missão da divisão espacial não consistia em ficar parado nos esconderijos até que as naves se deteriorassem ou os homens envelhecessem. Alguma coisa tinha de ser feita.
O dia foi amanhecendo, e Lemonovitch, sorvendo seu café preto — que para os demais membros da divisão fora submetido a um racionamento extremamente rigoroso — matutava sobre seu problema, quando houve uma ocorrência que de golpe o livrou de todas as dores de cabeça.
Alguém abriu com uma forte pancada a escotilha que separava a sala do piloto do depósito situado abaixo da mesma e enfiou a cabeça. Lemonovitch esteve a ponto de repreender o homem. Mas este pôs-se a falar, extremamente exaltado:
— Há um comunicado, major, um comunicado! A C-145 foi atacada pelo inimigo. Só a sala do piloto ainda resiste com cinco tripulantes. Estão pedindo socorro. Rhodan participa pessoalmente do ataque.
Por alguns segundos Lemonovitch ficou imobilizado pelo susto. Compreendeu em primeiro lugar o perigo que ameaçava a C-145, e logo após a chance que se lhe oferecia.
Levantou-se de um salto, comprimiu o botão que acionava as sereias de alarma e gritou para o ordenança:
— Diga ao oficial de armas que se apresente imediatamente com seus homens.
A escotilha foi fechada com um forte ruído. Lemonovitch se inclinou sobre uma grande folha de papel coberta por uma rede de coordenadas. A posição das naves estava registrada com a precisão de um minuto de coordenada, a configuração das montanhas apenas constava com certa aproximação.
Quando o oficial de armas e seus três homens precipitaram-se através da escotilha, Lemonovitch já sabia como devia ser orientado o tiro.
Pegou o oficial pelo ombro e arrastou-o para junto do mapa.
— Aqui! — disse ofegante. — Esta é a C-145. Há poucos minutos foi atacada por Rhodan e seus homens. Dirija uma salva de ao menos cinco foguetes contra a mesma. Nunca mais teremos uma chance destas. E atire bem para o alto. Não quero que os projéteis sejam interceptados por alguma montanha. Entendido?
O oficial fez que sim e transmitiu a um de seus homens as coordenadas constantes do mapa. Três oficiais subalternos começaram a apontar as peças de artilharia.
Subitamente o homem que havia recebido a ordem de Lemonovitch estacou:
— Major, será que Rhodan já se apoderou da C-145? — indagou. — Todos os nossos homens estão mortos?
Lemonovitch se limitou a gritar:
— Podemos agarrar Rhodan, e vamos agarrá-lo!
O jovem oficial de armas deu de ombros.
— Pronto para disparar — anunciou um de seus subordinados.
E o oficial ordenou, lançando um olhar para Lemonovitch:
— Fogo!

* * *

Os quarenta homens que se encontravam no compartimento de depósito se entregaram imediatamente. Mas não foi possível evitar todo e qualquer ruído, e os cinco homens que se encontravam na sala do piloto desconfiaram. A escotilha foi trancada, e mesmo a força unida dos quatro projetores mentais levou algum tempo para transpor o maciço anteparo metálico e vencer a resistência da tripulação da sala do piloto.
A escotilha foi aberta, e Rhodan entrou com uma pressa estranha. Os cinco homens se agruparam em torno da escotilha e pelos seus rostos se concluiria que há muito tempo se preparavam para receber a visita de Rhodan.
Este fez sinal para que o japonês se aproximasse. Son Okura subiu pela escotilha com a agilidade de um esquilo.
— Pergunte se enviaram uma mensagem pelo rádio — ordenou Rhodan.
Okura formulou a pergunta em russo. Rhodan viu que um dos homens respondeu com um aceno de cabeça. O homem disse algumas palavras, que Okura traduziu:
— Informou o major Lemonovitch de que a nave estava sendo atacada, e de que o senhor se encontrava entre os atacantes.
Rhodan virou-se apressadamente e gritou pela escotilha:
— A nave será evacuada imediatamente. Existe um perigo gravíssimo.
Houve muita confusão. Só os homens de Rhodan sabia que este aludia a um perigo realmente gravíssimo quando usava essa expressão. Apesar da influência hipnótica a que se achavam submetidos, os prisioneiros não se deram muita pressa em executar a ordem de evacuação. Os homens de Rhodan tiveram que tangê-los com suas armas.
— Aos câmbios — gritou Rhodan atrás deles.
Depois disso fez os cinco tripulantes da sala do piloto saírem pela escotilha e descerem a escada. Ele mesmo e Okura puseram-se no fim da fila. Okura estava curioso para conhecer o motivo de tanta pressa, mas nem sequer teve tempo para perguntar.
Uma vez fora da nave, Rhodan indicou aos prisioneiros a direção em que deviam correr.
Son Okura traduziu:
— O caminho é este. Corram como o diabo, se quiserem continuar vivos.
Rhodan e o japonês valeram-se dos trajes transportadores arcônidas e voaram a toda velocidade acima da folhagem das árvores. Satisfeito, Rhodan constatou que seus homens iam uns duzentos metros à sua frente. Tinha certeza de que, uma vez livres da influência do projetor mental, não teriam coisa mais urgente a fazer senão se reagrupar na tentativa de um contra-ataque. O importante era que tinha chamado sua atenção para o perigo.
Quando Rhodan e Okura alcançaram o local do pouso, os câmbios estavam prontos para decolar. Levantaram vôo imediatamente e foram subindo junto à encosta íngreme.
Finalmente Rhodan teve tempo para esclarecer seus homens sobre o perigo que os ameaçava.
— Lemonovitch, que é o comandante atual da expedição, está informado sobre nosso ataque — disse pelo telecomunicador. — Até sabe que eu participei dele. É de esperar que, sem consideração por sua gente, procure destruir nosso grupo. Conforme sabemos, as naves do Bloco Oriental dispõem... olhem, aí vem.
Os câmbios haviam vencido aproximadamente metade da encosta quando, lá embaixo, sucederam-se quatro explosões ofuscantes. Quem prestasse atenção perceberia que duas delas ocorreram exatamente sobre o local em que se encontrava pousada a nave, enquanto as outras detonaram mais ao sul.
Dentro de uma fração de segundo, uma enorme onda de compressão atingiu os câmbios. Ao mesmo tempo o ribombar tremendo das explosões envolveu os veículos e provocou um forte zumbido no ouvido dos homens.
Os câmbios dispunham de um dispositivo automático de compensação. Mantiveram o equilíbrio e, além disso, o deslocamento de ar provocado pela explosão levou-os para o alto com uma velocidade maior do que seria conseguido com a potência dos motores.
Depois de terem passado pelo cume da montanha e pousado do lado oposto, encontravam-se em segurança.
Rhodan espiou para o interior do vale. Sabia que com isso se expunha pessoalmente, pois o nível de radiatividade desprendida até mesmo por um foguete de tamanho médio era considerável, e o traje arcônida, que era um excelente meio de transporte, oferecia uma proteção reduzida contra a mesma.
Não viu nenhum sinal dos homens que tangera para fora da nave. Contara com um único foguete. Mas já que Lemonovitch não quis assumir nenhum risco, disparando quatro foguetes de vez, achou duvidoso que qualquer dos tripulantes da C-145 ainda estivesse vivo.
Apesar disso entrou em contacto com a Stardust-III, e instruiu Bell para que enviasse quanto antes um câmbio cujos tripulantes deviam ser protegidos contra radiações, para empreender a busca de eventuais sobreviventes.
Enquanto isso, um dos subordinados do tenente Tanner constatou que, no flanco norte da montanha que fechava o vale pelo oeste, explodira um quinto foguete, que abrira uma cratera de dimensões apreciáveis.
Poucos minutos depois, os cinqüenta homens da expedição de Rhodan puseram-se a caminho, tanto para abandonarem a área submetida a uma radiatividade mais intensa como para, quanto antes, acrescentarem outra ação à primeira. Rhodan não se iludiu: dali em diante as dificuldades seriam bem maiores. Lemonovitch estava prevenido. Se não estivesse plenamente convencido de que Rhodan fora vitimado pelos foguetes, avisaria seus homens.
Por enquanto o que mais importava a Rhodan era a constatação de que a expedição do Bloco Oriental fora desfalcada de mais uma nave.
Ainda sobravam setenta e oito.

* * *

Pelas cento e dez horas, tempo local, o general Tomisenkow chegou a um lugar da selva em que acreditava reconhecer uma trilha aberta por seus homens.
Não tinha certeza absoluta. O crescimento vegetal extremamente rápido de Vênus faria desaparecer dentro de uma hora qualquer trilha que fosse aberta. Mas na antiga trilha predominariam os brotos recentes.
Tomisenkow examinou o local e concluiu que tivera razão. Seus homens haviam passado por ali; se seguisse a trilha, dentro de pouco tempo se uniria a eles.
As horas passadas — pela contagem de tempo terreno seriam dias — produziram uma modificação profunda em Tomisenkow.
Matara a tiros dois monstros em forma de urso que queriam devorá-lo, esmagara uma cobra com a mão, e matara quinze outras também a tiro. Escapara a um daqueles pólipos, cujos métodos de caça não ficavam restritos às armadilhas, mas compreendiam a perseguição em terreno aberto; imitando os macacos, deslocou-se pelos galhos com rapidez maior que o animal de corpo flácido. No fim de seu passeio aéreo ficara preso numa teia de aranha cujos fios tinham a grossura de um dedo humano. Vira a horrível aranha, de tamanho superior ao de um homem, bem perto de si; balançando-se fortemente e de maneira ritmada, conseguiu romper a rede. Gastara duas horas para se libertar dos fios pegajosos a ponto de poder se locomover livremente. Nessas duas horas estivera praticamente indefeso.
Às cento e quinze horas fez uma longa pausa. Consumiu os alimentos colhidos no caminho e se deitou para dormir num entroncamento de galhos, bem no alto, na copa de uma árvore.
Descobrira que a vida na selva se desenvolve em quatro degraus distintos. O primeiro era o das armadilhas dos pólipos e dos animais revestidos de córneas que, como os enormes vermes, com eles viviam em simbiose. Esse degrau ficava em média cinco metros abaixo do solo. O segundo degrau era o nível do solo, com seus animais perigosos, entre os quais se destacavam os sáurios, com os quais Tomisenkow ainda não se defrontara diretamente, e os monstros em forma de urso que, conforme Tomisenkow descobrira, também pertenciam à classe dos sáurios, sendo apenas de uma outra espécie.
O terceiro degrau situava-se na altura das copas das árvores, na galeria inferior de galhos, a uns dez metros acima do nível do solo. Era o reino das aranhas, muito mais numerosas do que Tomisenkow supusera de início. Isso acontecia porque sabiam esconder suas teias com muita astúcia. Quem não desconfiasse de sua presença nunca as encontraria.
O último degrau, situado entre uns vinte e quarenta metros acima do nível do solo, correspondia à parte superior das copas das árvores, cuja população era bastante restrita. Havia pequenos lagartos voadores, cujo tamanho variava entre o de um pardal e o de um pombo, e outros seres estranhos, também inofensivos, que para Tomisenkow representavam um degrau intermediário entre os lagartos e a classe mais baixa de animais de sangue quente. Ali podia se deitar para dormir sem ser devorado imediatamente, e Tomisenkow aproveitou a vantagem. No início se aborreceu com o fato de que um lagarto voador curioso, que pousara em seu rosto, despertou-o de um sono profundo. Mas acabou se conformando com o fato de que o lugar mais agradável de Vênus era muito pior que o chão duro da tundra siberiana.
Outra zona a ser evitada era o limite superior da folhagem. É que acima das árvores mais altas começava um setor que poderia ser designado como o quinto degrau. Era a região dos grandes lagartos voadores, pelos quais Trewuchin, seu ajudante, havia sido vitimado.
Mas quem se mantivesse escondido na folhagem não tinha por que temê-los.
Perto do meio-dia, Tomisenkow voltou a pôr-se a caminho. Cinco horas de sono foram suficientes para restituir-lhe as forças. A mata fumegava sob os raios do sol, e a temperatura na superfície do solo aproximava-se da marca dos cinqüenta graus. Mas também a esse calor Tomisenkow já se acostumara.
Manteve-se na trilha aberta por seus homens, afastando com os braços os galhos e as trepadeiras finas que cresceram nesse meio tempo.
Dali a duas horas, percebeu que o terreno entrava em aclive. Poucos minutos depois o caminho se tornou bastante íngreme, e o suor começou a porejar na testa de Tomisenkow.
Num lugar em que havia uma pequena abertura na folhagem viu os cumes das montanhas, quase na vertical acima de sua cabeça.
Atingira a cordilheira! Conseguira!
Tinha certeza de que encontraria ainda nesse dia algum dos seus homens.
A trilha, que até então cortara a selva em linha reta, começou a descrever curvas. Grandes blocos de pedra estavam espalhados pela mata, e às vezes a subida era tão íngreme que Tomisenkow teve que se deslocar de quatro.
Não teve mais sossego. Avançava rapidamente sem pensar em outra coisa além do caminho e da esperança feroz de encontrar seus homens além da primeira curva.
Não foi na primeira curva, nem na segunda. Mas, depois de ter marchado quase dez horas depois do último descanso, viu-se num desfiladeiro estreito que representava a entrada de um imenso vale, que se estendia entre as montanhas na direção quase exata do norte. Espantado, Tomisenkow constatou que praticamente não havia qualquer vegetação no fundo do vale. Era o primeiro trecho de solo nu que descobria em Vênus. Talvez os vapores vulcânicos fossem responsáveis pelo fenômeno. Tomisenkow viu a neblina passar diante das encostas.
As imensas montanhas que fechavam o vale retinham a luz, já por si bastante turva. Tomisenkow não enxergava a mais de cem metros. Mas, como seus homens deviam ter penetrado no vale, não hesitou em proceder da mesma maneira.
Depois de percorrer algumas centenas de metros fora da selva, a atmosfera começou a se modificar. Sentiu o cheiro do enxofre e de outras coisas desagradáveis. Parou por um instante e aspirou o ar. Ao que parecia não havia qualquer perigo. Teve uma ligeira tosse, era tudo.
Depois de ter prosseguido por meia hora, ficou perguntando a si mesmo qual seria o comprimento daquele vale. Subitamente alguém o chamou da escuridão reinante entre as rochas caídas.
Eram palavras russas. Mas fazia tanto tempo que Tomisenkow não ouvira qualquer voz humana, que até sua língua materna o assustou. Reagindo com a rapidez que aprendera na selva, deixou-se cair para a frente e procurou abrigo numa fenda na rocha.
— Sou Tomisenkow! — respondeu. — Quem está chamando?
Um riso de deboche soou entre as rochas.
— Conte isso a outro! Tomisenkow está morto.
Furioso, Tomisenkow se levantou de um salto.
— Pois olhe, seu idiota! — gritou. — Sou Tomisenkow ou não sou?
A sentinela não se perturbou.
— Largue a arma; depois darei uma olhada em você.
Tomisenkow obedeceu.
— Está bem; já vou.
O homem saiu de seu esconderijo, com a pistola automática engatilhada. Parou a dois metros de Tomisenkow. Ficou intrigado com o cabelo branco do mesmo, e a barba crescida no meio tempo. Além disso, o general não tivera oportunidade ou interesse em se lavar. Cada centímetro quadrado de sua pele estava oculto sob uma grossa camada de sujeira.
Apesar disso a sentinela o reconheceu.
— É o general! — disse perplexo. — Vejam só!
Voltou-se e sua mão apontou para um ponto situado no fundo do vale.
— Por ali está a C-103. É a última nave de que dispomos.
O susto de Tomisenkow foi tamanho que por algum tempo não conseguiu dizer uma palavra.
— Não é bem isto — retificou a sentinela. — Temos mais algumas; mas estão deitadas de nariz, ou os tanques estão vazios, ou o reator queimou, e não sei mais o quê. De qualquer maneira, a C-103 é a única que está em condições de voar.
Durante sua marcha Tomisenkow não se entregara a muitas ilusões; mas o que acabara de ouvir ultrapassou seus piores temores. Levou algum tempo para se recuperar do choque.
— Leve-me para junto dos meus homens — ordenou à sentinela.

5



Rhodan agiu rapidamente e com uma precisão absoluta. O ataque à C-145 ficou sendo um caso isolado. Dali em diante Rhodan colocou seus homens em ação em vários pontos ao mesmo tempo e lhes ordenou que não assumissem qualquer risco. Utilizando o dispositivo defletor dos trajes transportadores, se aproximavam de forma invisível das naves inimigas. Colocavam sob os suportes uma carga de explosivo suficiente para derrubar a nave, abriam os tanques a tiro, fazendo com que o precioso hidrogênio líquido se exalasse em poucos segundos ou danificavam os reatores de tal forma que ficavam inutilizados para sempre.
Todas essas ações foram executadas praticamente sem incidentes. Pelo meio-dia o inimigo só dispunha de três naves, que Rhodan poupara para o caminho de volta. Às cento e vinte e cinco horas, duas delas haviam sido destruídas, e Rhodan dispôs-se a atacar a última, a C-103, com maior dose de cautela, já que, do contingente de cerca de cinco mil homens com que a expedição do Bloco Oriental ainda contava, mais de dois mil se encontravam no esconderijo da C-103.

* * *

O motivo era convincente.
Depois da evacuação do primeiro acampamento, a maior parte dos sobreviventes teve que se privar de qualquer conforto e empreender a marcha pela selva.
Ao chegar à cordilheira, a coluna encontrou em primeiro lugar a nave C-103, que pousara mais ao leste. Como os homens não tivessem a intenção de acrescentar outros quilômetros aos até então percorridos para encontrar o esconderijo de outra nave, a maioria ficou junto à C-103. Só alguns homens mais corajosos e apenas levemente feridos prosseguiram na marcha e se abrigaram junto a uma das outras naves.
Os dois mil e duzentos homens que o general Tomisenkow encontrou no acampamento da C-103 contavam que o próximo alvo dos ataques de Rhodan seria aquela nave.
À primeira vista, Tomisenkow percebeu que teria de jogar tudo numa cartada e pôs-se a preparar a recepção de Rhodan. Soube que poucos dos grupos atacados por Rhodan ainda mantinham contato radiofônico. A opinião generalizada era a de que, nos outros pontos, ninguém mais estava vivo. Mas Tomisenkow retificou essa opinião pronta e radicalmente.
— Sempre que Rhodan inutiliza uma nave, derrubando-a, as instalações de rádio são destruídas — explicou. — Assim que nossos homens tenham reparado os aparelhos, voltaremos a ter notícias deles.
As informações recebidas das naves cujas instalações radiofônicas não haviam sido destruídas pareciam um tanto confusas a Tomisenkow. Em todas elas se dizia que, apesar da vigilância intensa da área que cercava a nave, a aproximação do inimigo não foi notada.
— O que é isso? — resmungou Tomisenkow. — Ele não pode se tornar invisível.
Mas não estava muito convencido do que estava afirmando.
Para Tomisenkow era ainda mais estranho o fato de que, em todas as ações de Rhodan sobre as quais recebera relatos radiofônicos, nenhuma pessoa sofrerá o menor dano. Sem dúvida a coisa seria diferente no caso das naves tombadas. Teria havido mortos e feridos. De qualquer maneira, dos relatos chegados à C-103 se deduzia que Rhodan se esforçava para derramar a menor quantidade possível de sangue.
Por quê?
De inicio Tomisenkow mandou retirar da nave duas bases de lançamento de foguetes e empilhar uma reserva de munições em redor das mesmas. Se, apesar de tudo, Rhodan conseguisse derrubar a nave, não ficaria indefeso.
Os foguetes traziam um núcleo explosivo do tipo Baby, com uma carga de plutônio que, por si, estava abaixo do limite crítico. Ela só se tornava crítica por meio de um refletor de paredes grossas que funcionava com base no oxido de berílio. O detonador funcionava segundo o princípio da implosão. Os foguetes, com os respectivos detonadores, não eram muito maiores que a granada de um projétil de canhão.
Além disso, Tomisenkow postou seus homens em várias fileiras através dos blocos de rocha que, de ambos os lados, margeavam as encostas do vale. Um grupo de técnicos de comunicação instalou uma linha telefônica provisória de ambos os lados da entrada do vale, para que a sentinela pudesse avisar Tomisenkow assim que Rhodan se aproximasse.
Tomisenkow ordenou, ainda, a suspensão de todas as comunicações pelo rádio. Não havia dúvida de que Rhodan só conseguira descobrir os esconderijos com tamanha rapidez porque os telegrafistas das naves lhe facilitaram a localização goniométrica. O general rugiu de raiva ao saber que ninguém se lembrara de suspender em tempo as comunicações pelo rádio.
A última instrução que transmitiu antes do ataque foi dirigida aos mil e quinhentos homens que não receberam qualquer incumbência específica. Receberam ordem para se comportar como quem se sente em segurança. Tomisenkow tinha certeza de que Rhodan observaria o acampamento por algum tempo antes de iniciar o ataque.
Depois disso Tomisenkow ficou à espera.

* * *

Rhodan veio do norte. Pelas cento e quarenta horas os câmbios sobrevoaram a entrada do vale e pousaram junto à borda oeste, uns mil metros acima do fundo.
O acampamento foi observado por algum tempo.
— Parece que está tudo em ordem — disse o major Deringhouse.
Rhodan olhou pelo binóculo.
— Alguns prisioneiros afirmaram que nesse acampamento se encontram dois mil e duzentos homens — disse em tom pensativo. — Lá embaixo vejo uns mil e quinhentos. Onde estão os outros?
Deringhouse deu de ombros.
— Não faço a menor idéia. Talvez estejam caçando.
Rhodan riu.
— Setecentos homens? Não, alguma coisa não está em ordem. Sabem que nós atacaremos e estão preparados.
Deringhouse voltou a pegar o binóculo e olhou para o vale. Mas, como Tomisenkow tivesse escondido seus homens muito bem, não pôde ver nada.
O major Nyssen e o tenente Tanner sugeriram que se desistisse do procedimento habitual, destruindo a nave e o acampamento por meio de uma bomba nuclear.
Rhodan rejeitou a proposta.
— Não posso dispensar nenhum homem em Vênus — respondeu.
Decidiu voar para dentro do acampamento em companhia de Tanner e Deringhouse. Enquanto isso, Nyssen assumiria o comando dos câmbios.
Rhodan e seus acompanhantes tornaram-se invisíveis por meio dos defletores. O único objeto visível era a carga explosiva, do tamanho de um melão, que Tanner carregava consigo e pretendia colocar por baixo de um dos suportes da C-103. Mas só parte do melão ficava fora do campo de deflexão.
A grande desvantagem dos campos defletores consistia no fato de que um homem envolto pelo mesmo não podia ver outro que se encontrasse nas mesmas condições; neste ponto era tal qual um estranho. Para não perderem o contato, Rhodan e seus homens tiveram de voar de mãos dadas.

* * *

O tenente Jossip ocupava seu posto na última fileira, junto à encosta oeste. Ali estava há algumas horas e já começara a praguejar contra o mundo em geral e contra o general Tomisenkow em particular, porque proibira fumar.
O que Jossip mais precisava era de um cigarro, mas não podia...
Alguma coisa atingiu-o no ombro e caiu ao solo com um baque.
Era uma pedra, uma pedra bem achatada.
Jossip se virou e procurou descobrir de onde viera a pedra.
Evidentemente de cima. Às vezes alguma pedra se desprendia do paredão. A posição não era isenta de perigo. Mesmo que Rhodan não atacasse, a gente poderia esticar as botas.
Jossip voltou à posição anterior e, por falta do que fazer, olhou por cima da mira de sua pistola automática. Dali poderia acertar...
Jossip cerrou os olhos e bateu com a palma da mão na testa. Mas a coisa continuava ali.
Era uma semi-esfera de uns quinze centímetros de diâmetro, de cor cinza-escura. O objeto flutuava no ar, um metro ou pouco mais acima da superfície da rocha achatada, atrás da qual Rhodan estava deitado.
Dançava para cima e para baixo e foi se afastando lentamente.
Jossip levantou a arma e fez pontaria. No mesmo instante alguém bateu no seu ombro.
— No que pretende atirar?
Jossip se virou sobressaltado.
— Deixe de tolices! — chiou alguém.
Era o capitão Ljubol, que se encontrava atrás dele. A mão trêmula de Jossip apontou na direção do objeto voador.
— Olhe, ali está... — gaguejou.
Parou espantado. A semi-esfera havia desaparecido.
Mas a curiosidade de Ljubol fora aguçada. Jossip contou sua história. Ljubol torceu o rosto e disse:
— Dê-me um gole daquilo que você andou bebendo e ficarei bem quietinho.

* * *

O tenente Tanner procurou avaliar a melhor posição para provocar a queda da nave. Decidiu-se pelo suporte voltado para o interior do vale e ali colocou seu melão, sem que ninguém desconfiasse.
A explosão arrancaria o suporte e faria a nave tombar para o lado em que se encontrava o mesmo. A proa bateria perto do lugar em que estavam sentados alguns dos homens aos quais Tomisenkow ordenara que fizessem de conta que não temiam qualquer perigo, e lhes meteria um tremendo susto.
— Pronto? — perguntou Rhodan com a voz baixa.
— Sim — respondeu Tanner.
— Tenha cuidado; vamos regressar — ordenou Rhodan.
Voltaram pelo mesmo caminho. Mas, antes de chegar à primeira linha de soldados, Rhodan deu ordem para acionar os neutralizadores gravitacionais para voarem acima das fileiras, em vez de passarem andando.
Foi quando aconteceu o desastre.
Tanner estava de pé sobre uma rocha inclinada; quando se dispôs a acionar o neutralizador, escorregou. Não teve tempo para regular o desempenho do mesmo de tal forma que o traje o conduzisse para cima. Praguejando, caiu sobre a rocha e rolou para baixo. Com um baque, mas invisível, aterrizou no chão mole do vale.
Sua praga foi ouvida e a sentinela viu a impressão que o corpo de Tanner deixara no chão macio.
O homem não perdeu tempo em descobrir o que havia acontecido ou indagar se uma coisa dessas era possível: atirou. Gritou para os que se encontravam nas proximidades e apontou para a impressão deixada pelo corpo de Tanner. Dentro de poucos segundos o fogo de pelo menos vinte pistolas automáticas se concentrou sobre o tenente.
Era bem verdade que o traje transportador de Tanner dispunha de um anteparo energético que absorvia os projéteis e os fazia cair ao chão. Mas fora concebido de forma a permitir que seu portador resistisse incólume ao fogo de uma ou duas armas. Para resistir a centenas de impactos produzidos pelas balas expelidas por vinte pistolas automáticas teria de recorrer a uma suplementação de energia, e esta foi extraída do gerador do dispositivo de neutralização gravitacional e do defletor.
Com isso Tanner ficou privado da possibilidade de se locomover, e seu defletor falhou: tornou-se visível. Além disso, o impacto dos projéteis sobre o envoltório energético causou uma série de sacudidelas desagradáveis, que o impediam até mesmo de sair correndo.
Procurou cobertura às pressas e respondeu ao fogo com seu radiador de impulsos. Seguindo a ordem de Rhodan, de, na medida do possível, poupar vidas humanas, traçou uma barreira incandescente sobre a barreira de rocha atrás da qual se abrigara a primeira linha de atiradores, obrigando os homens a encolherem a cabeça e se afastarem apressadamente da área atingida pelo calor escaldante.
Mas Tanner não alcançou um êxito completo porque fora observado por grupos mais distantes, que contra ele dirigiram seu fogo.
— Agüente firme! — gritou Rhodan de algum lugar.
Tanner resmungou sua concordância.
Tinha certeza de que Rhodan e Deringhouse não o abandonariam.
Sua situação não era das mais brilhantes. Era verdade que estava a salvo de ferimentos; mas o fogo concentrado ininterrupto impediu o funcionamento do neutralizador e do defletor. Estava preso ao lugar, e todo mundo podia vê-lo.

* * *

O general Tomisenkow logo compreendeu a situação. Não gastou um segundo para rever sua opinião de que o inimigo não poderia se tornar invisível.
Numa pressa extrema convocou os homens das posições mais afastadas e lançou-os em combate no lugar em que Tanner lutava desesperadamente pela invisibilidade e pela liberdade de movimentos.
Nesse instante, Deringhouse, com um ligeiro impulso transmitido pelo rádio, provocou o melão alojado sob o suporte da nave. Tanner, que se encontrava a menos de cem metros de distância, foi erguido no ar e atirado para o lado. De sua nova posição viu a proa da nave se inclinar e desaparecer numa imensa nuvem de pó. Poucos instantes depois o solo começou a dançar sob o impacto do colosso metálico.
O fogo cessou por alguns segundos. O defletor de Tanner voltou a funcionar, e ao mesmo tempo a tração leve do campo neutralizador da gravidade se fez sentir.
Mas, naquele instante, o major Nyssen já cometera seu erro funesto. Sem ter a visão da luta que se desenrolava rio fundo do vale, ficou convicto de que por algum motivo inexplicável Rhodan e seus homens corriam perigo. Por isso ordenou o ataque geral. Todos os câmbios, com exceção de um, que permaneceria no cume da montanha para servir de posto de observação, desceram pela encosta.
Os câmbios provocaram um susto tremendo entre as últimas linhas de atiradores dos homens do Bloco Oriental. Os veículos pousaram praticamente sem ruído; ouviram-se vozes exaltadas, mas não se via nada. Poucos segundos depois a rocha começou a entrar em incandescência e a ferver bem diante do nariz dos homens.
Os homens de Tomisenkow não tiveram outra alternativa senão a fuga. Saíram dos abrigos aos montes e correram para o centro do vale.
Tomisenkow logo reconheceu a situação e percebeu que contra um inimigo desses era quase indefeso.
Quase! Ainda havia uma possibilidade.
Fez sinal a três dos seus oficiais para que se aproximassem e transmitiu-lhes algumas instruções apressadas. Os oficiais se puseram a caminho, de início em direção à saída norte do vale.

* * *

Rhodan ordenou a retirada.
No mesmo instante o inimigo, que assumira novas posições no centro do vale, começou a dirigir o fogo de suas armas contra os câmbios. Como estes dispusessem de campos protetores, nem mesmo as granadas de fuzil, que funcionavam como foguetes em miniatura, podiam lhe causar qualquer dano. Mas os homens de Rhodan se tornaram visíveis assim que penetraram na chuva de granadas que desabava em redor dos câmbios, e o fogo das fileiras de atiradores concentrou-se sobre os homens que por alguns instantes podiam ser vistos.
Rhodan deu ordem para decolar, pois acreditava que todos já se encontravam em seus lugares. As máquinas se ergueram de um golpe e dispararam para o alto.
Todos os câmbios, com exceção de um.
Quando começou a confusão, Tanner se afastou em direção ao norte. No momento em que Rhodan deu ordem de retirada, voou em direção ao câmbio que pousara mais ao norte.
Ouviu vozes. A tripulação do câmbio seguia as instruções de Rhodan. Tanner não se deu conta de que, ao contrário dos outros, este câmbio não estava sendo submetido ao fogo do inimigo. Mas ouviu que os homens praguejavam enquanto tentavam colocar em funcionamento o gerador.
— O que houve? — perguntou em tom áspero.
Não via ninguém, e ninguém o via.
— Não quer pegar — lamentou-se um dos interlocutores invisíveis.
— Deixe-me ver.
Tanner ocupou o assento do piloto. Comprimiu o botão verde que acionava o gerador e aguardou o zumbido que já conhecia.
Não veio.
— Não há tempo a perder — gritou. — Procurem se acomodar num dos outros veículos ou subam nos seus trajes. Rápido!
Ouviu o ruído de passos que se afastavam.
Tanner deixou-se cair de lado, para fora do veículo, e examinou o chassi. À primeira vista, notou o buraco oval cortado no lugar exato em que antes ficara o transmissor de impulsos positrônicos, que conduz os comandos emitidos pelo piloto ao mecanismo de propulsão.
Alguém o retirara. Alguém que não entendia praticamente nada da estrutura do câmbio, pois do contrário teria retirado o gerador.
De qualquer maneira a falta do transmissor de impulsos bastava para inutilizar o veículo.
Nesse instante Tanner foi alvejado. Alguém devia ter visto a impressão que suas botas deixaram no chão macio.
Não era um fogo concentrado. O campo protetor absorvia-o sem necessidade de recorrer à energia destinada ao neutralizador e ao defletor. Tanner se levantou e viu, a uns vinte metros de distância, metade de um braço e uma pistola automática que saía de detrás de uma rocha. Disparou o radiador de impulsos até que a rocha entrasse em incandescência e achou que já era tempo de dar o fora.
Os câmbios já se encontravam próximos à borda do vale. Tanner dependia de seu traje transportador. Deu o empenho máximo ao neutralizador gravitacional, se desprendeu do solo e foi subindo rente à encosta. Levou mais tempo que os câmbios para atingir a borda segura. Mas agora, que não deixava qualquer rastro, ninguém mais o molestava.
No fundo do vale os tiros emudeceram quando os atiradores não tinham mais nada em que atirar. A poeira levantada pela queda da C-103 já desaparecera. Viu-se que a nave se partira no meio. Nunca mais decolaria.
Os homens de Rhodan haviam capturado três prisioneiros e conseguiram levá-los apenas com ferimentos leves através do fogo dos próprios companheiros. Rhodan julgava necessário interrogar esses homens o quanto antes. Era bem verdade que considerava a posição atual muito perigosa; ordenou o regresso imediato à Stardust-III.
Tanner ofereceu seu relato sobre a maneira pela qual o último câmbio fora impedido de decolar. Rhodan ergueu as sobrancelhas e disse com certo respeito:
— Parece que lá embaixo o comando é exercido por um homem bastante inteligente.

* * *

Tomisenkow tomou conhecimento de que, entre seus homens, havia sete mortos e vinte e dois feridos graves.
Mas não demonstrava muito interesse.
Os homens com os quais confabulava eram os especialistas em eletrônica da C-103.
— Peguem o bloco — insistiu Tomisenkow — e coloquem-no no mesmo lugar de que foi retirado. Não pode ser difícil. Depois coloquem a coisa em funcionamento.
Os técnicos puseram-se a trabalhar. Realmente não houve a menor dificuldade em recolocar o bloco. Como o buraco fosse oval, só havia uma posição de encaixe.
Uma vez que a técnica de transmissão de impulsos dos arcônidas funcionavam sem fios, não havia condutores arrancados dos quais não se soubesse quais os seus correspondentes. Uma vez recolocado e soldado, o bloco estava em condições de funcionar.
Os técnicos não tiveram que fazer outra coisa senão mexer cautelosamente nos diversos comandos e observar a reação da nave.
Dentro de uma hora sabiam perfeitamente o que teriam de fazer para movimentar o câmbio, para dirigi-lo à direita ou à esquerda, para cima ou para baixo. A incumbência mais importante recebida de Tomisenkow estava cumprida.

* * *

Rhodan realizou o interrogatório na margem de um pequeno lago situado aproximadamente a meio caminho entre o acampamento da C-103 e o ponto em que se encontrava a Stardust-III.
Realizou o interrogatório pessoalmente e valeu-se do projetor mental para obter a verdade.
Quando soube tudo que lhe interessava, se tornou bastante pensativo.
— Tomisenkow voltou a aparecer — disse, dirigindo-se ao major Deringhouse. — Ninguém tem a menor idéia de como conseguiu vencer a distância entre aquele acampamento e a C-103, mas o fato é que voltou.
Deringhouse olhou-o perplexo.
— Qual é a distância? Um momento... Quase duzentos quilômetros, não é? Duzentos quilômetros percorridos a pé na selva de Vênus, e isso com uma pistola automática ou seja lá o que ele trazia.
— E metade do caminho foi percorrida de noite — completou Rhodan.
Deringhouse respondeu com um aceno de cabeça.
— Este homem é de tirar o chapéu — disse Rhodan, em tom pensativo.
— O que pretende fazer? — perguntou Deringhouse.
Rhodan deu de ombros e sorriu.
— Nada. O inimigo não dispõe de qualquer nave com que possa sair de Vênus. Talvez consiga reparar o câmbio; nesse caso não será mais obrigado a se deslocar a pé. O que acha que será deles?
— Acredita que esses homens continuarão vivos? — perguntou Deringhouse.
Rhodan fez que sim.
— Um deles conseguiu. Para todos em conjunto será muito mais fácil.

* * *

Logo após a decolagem, Rhodan transmitiu pelo telecomunicador a ordem para que Tako Kakuta, que se encontrava na Stardust-III, executasse o salto.
Dias atrás — segundo o tempo terreno — quando Rhodan adotou o plano de, na medida do possível, poupar a vida de Tomisenkow e seus homens, abandonou automaticamente a outra alternativa, isto é, o plano de livrar Vênus dos invasores para convencer o dispositivo positrônico de que não havia mais perigo, fazendo com que abrisse as portas.
Tako Kakuta, japonês como Son Okura e muitos outros membros do Exército de Mutantes, era até então o único dentre os homens de Rhodan que possuía o dom da teleportação. As energias encerradas no cérebro de Tako Kakuta, submetido a um processo de mutação, lhe possibilitavam o transporte por um trecho de até cinqüenta mil quilômetros, e isso por um meio que equivalia à transição realizada por uma nave espacial.
Face a isso, era o único que poderia estar em condições de penetrar pelas barreiras atrás das quais o cérebro positrônico de Vênus se isolava do mundo exterior.
Desde o início Rhodan considerara essa possibilidade. Mas, como a mesma envolvesse certo risco para o japonês, teve outra idéia. Mas agora, que a sobrevivência dos homens de Tomisenkow parecia compensar o risco a que iria submeter o mutante, não hesitou em transmitir a este a ordem correspondente, para a qual o mesmo já estava preparado há algum tempo.
O campo protetor que o cérebro positrônico estendera em torno da fortaleza tinha um raio de quinhentos metros. Mesmo com um traje transportador, Tako levaria algum tempo para penetrar no recinto da fortaleza propriamente dita.

* * *

Pela alegria quase infantil que os homens demonstraram quando a silhueta da Stardust-III se desenhou no horizonte, Rhodan percebeu que, depois dos dias difíceis passados no planeta Peregrino e da atuação ininterrupta de Vênus, os mesmos haviam chegado ao limite de suas forças.
Os câmbios se deslocaram na formação usual, cerca de dez metros acima da folhagem das árvores.
Todos os perigos haviam chegado ao fim, e o conforto da gigantesca nave acenava ao longe. Uma cama macia, um bom café — que não viria dos pacotes de rações arcônidas — e, principalmente, tempo para ficar de papo para o ar. Não eram motivos mais que suficientes para ficar alegre?
Por algum tempo Rhodan acompanhou com um sorriso a palestra excitada que se desenvolvia pelo telecomunicador. Depois pediu silêncio.
Reginald Bell fizera todos os preparativos para o regresso da pequena expedição. A uma distância de vinte quilômetros, Rhodan percebeu com o auxílio de um bom binóculo que o portão da comporta sul havia sido aberto.
Tako Kakuta efetuara o salto. Valendo-se do telecomunicador, que não era afetado pelos campos protetores da fortaleza, avisou que se encontrava a caminho da entrada da base. Executara o salto sem o menor contratempo. Rhodan calculou que mais uma hora se passaria até que Tako obtivesse do cérebro positrônico autorização para desativar o campo protetor.

* * *

— Consegui! — gritou o capitão Ljubol cheio de entusiasmo.
Fitou a tela de pontaria do radiador neutrônico e puxou a alavanca que acreditava ser o gatilho. De início nada aconteceu, mas dentro de poucos segundos as árvores que apareciam na tela se desfizeram em cinza.
O general Tomisenkow resmungou satisfeito.
— Já estava na hora — disse. — Aí vêm eles.
Esforçou-se para não olhar a área da tela que mostrava os arredores do veículo na direção nordeste. O vulto brilhante da gigantesca nave o preocupava e lhe incutia a idéia de que aquilo que pretendia fazer talvez fosse tão arriscado e irracional que ele e seus homens não conseguiriam sobreviver aos acontecimentos.
Depois de pôr o câmbio em funcionamento, procuraram encontrar a pista de Rhodan. Não encontraram a pista, mas a Stardust-III. Não se atreviam a atacar a nave; mas tinham certeza de que nessa área conseguiriam interceptar Rhodan e seu grupo. De início só contavam com suas próprias armas, pistolas automáticas e lança-granadas. Mas através de tentativas ininterruptas, o capitão Ljubol descobrira o funcionamento de uma das armas embutidas no veículo.

* * *

— Localização! — gritou o homem diante do aparelho de busca de microondas.
Mas já era tarde.
A estrutura do câmbio emitiu um ruído crepitante. Rhodan logo identificou o ruído: Era produzido pelo impacto de um radiador neutrônico.
O veículo e seus ocupantes estariam perdidos, se Rhodan não possuísse a faculdade de, na fração de um décimo de segundo, reagir adequadamente à situação mais surpreendente.
Atirou-se para a frente e manipulou a direção do veículo por cima do ombro do homem que, imobilizado de pavor, estava sentado diante do volante oval.
O câmbio emborcou para a frente e despencou os dez metros que o separavam das folhagens da selva. Os galhos bateram ruidosamente na carroçaria, mas quando o veículo se imobilizou estava abrigado dos olhares do inimigo sob uma folhagem de três metros de espessura.
A campainha do monitor de radiações soou ininterruptamente. A radiatividade induzida pelos nêutrons havia atingido o limite da periculosidade.
A voz estereotipada de Deringhouse se fez ouvir:
— Reconheci o inimigo. Vou disparar.
O radiador de impulsos do câmbio de Deringhouse foi posto a funcionar.
A primeira salva teria transformado o veículo de Tomisenkow numa massa incandescente, se este não tivesse reagido instantaneamente ao fracasso da tentativa de aniquilar o inimigo, colocando o veículo em movimento.
O tiro disparado por Deringhouse atingiu o câmbio de Tomisenkow na popa, onde se situavam os principais pólos gravitacionais que propagavam o campo neutralizador. O câmbio caiu como uma pedra antes que Tomisenkow pudesse executar qualquer manobra para equilibrá-lo.
Uma forte pancada se fez ouvir quando o veículo penetrou pela folhagem. A cabeça de Tomisenkow bateu com tamanha violência contra um dos painéis que o general imediatamente perdeu a consciência.
Neste meio tempo Rhodan havia empurrado o piloto para fora de seu assento, assumindo pessoalmente a direção. Pelos cantos dos olhos, através de uma abertura na folhagem, observou a queda do veículo inimigo e viu outro câmbio que se precipitava atrás dele.
— Deringhouse, é você?
— Sim — respondeu Deringhouse. — Desta vez o sujeito não escapa!
— Deixe-o em paz! — ordenou Rhodan em tom enérgico.
— Ele usa nossas próprias armas contra nós! — protestou Deringhouse.
— Assim mesmo deixe-o em paz.
Deringhouse fez meia-volta. Os câmbios voltaram a entrar em formação.
Rhodan enviou à Stardust-III um ligeiro relato do incidente e concluiu:
— Meu carro precisa de uma descontaminação, e os ocupantes também. Preparem tudo.
Descontaminação é a expressão para a remoção da radiatividade que adere a qualquer corpo. A Stardust-III, o produto refinado de uma técnica superior, estava preparada para incidentes como o que acabara de se verificar. A campainha do monitor de radiações deixaria de soar assim que o câmbio fosse colocado sob o chuveiro descontaminador.

* * *

Tako Kakuta, o teleportador japonês, tinha uma noção bastante precisa da forma pela qual o cérebro positrônico reagiria à sua visita não anunciada. Apesar disso não se sentiu muito à vontade quando foi avançando pelos corredores amplos e profusamente iluminados em direção à sala de comando da gigantesca máquina.
Estava sendo observado, não havia a menor dúvida. Havia grande número de aparelhos de visão e de escuta ocultos nas paredes.
Quando tinha percorrido metade do caminho no interior da montanha, o cérebro compreendeu qual era o lugar a que se dirigia. Subitamente a parede lateral direita do corredor se abriu e dela saiu grande número dos guardas robotizados que há milênios cuidavam da vigilância e conservação da fortaleza.
Tako não resistiu. Os robôs conduziram-no pelos corredores e galerias antigravitacionais. Penetraram cada vez mais profundamente na terra, até chegarem ao recinto em que o cérebro positrônico inquiria seus prisioneiros pela forma mais detalhada e segura: o interrogatório hipnótico.
Sem que pudesse fazer qualquer coisa, a consciência de Tako se abriu à inquirição da máquina, deixando claro que a última ordem fornecida por Perry Rhodan não poderia ser cumprida mais, pois do contrário ele mesmo correria sério perigo.
Por ora o cérebro positrônico assumiu seu autocomando e fez aquilo que achava mais acertado.
Um receptor de telecomunicação da Stardust-III deu sinal e anunciou:
— Os campos energéticos ficarão abertos das cento e setenta e três horas e zero minutos até as cento e setenta e três horas e dez minutos. Penetrem nesse intervalo.
Rhodan preparou a nave.

* * *

Sentado na parte mais elevada da copa de uma gigantesca árvore, o capitão Ljubol observava a Stardust-III. Outro homem estava sentado ao seu lado.
O general Tomisenkow, cuja cabeça apresentava um enorme galo e zumbia terrivelmente, esperava mais embaixo e, de tempos em tempos, perguntava o que havia para ver.
O quarto homem da equipe, um técnico em eletrônica, se equilibrava nos destroços da nave, mantidos em posição inclinada por três galhos fortes, procurando descobrir se os mesmos ainda poderiam servir para alguma coisa.
Era bem verdade que a Stardust-III oferecia um quadro impressionante; mas depois de ter esperado meia hora sem que a gigantesca esfera se movesse, Ljubol teve a impressão de que estavam desperdiçando seu tempo.
O técnico em eletrônica teve um resultado mais compensador, embora o mesmo levasse Tomisenkow à beira do desespero.
Conseguiu constatar, fora de qualquer dúvida, que as peças mais importantes do câmbio haviam sido danificadas a ponto tal que sem o conhecimento da estranha tecnologia jamais lhe seria possível voltar a utilizá-lo.
— Pois retire ao menos o canhão com que Ljubol atirou há pouco — resmungou Tomisenkow.
— Isso não adiantaria nada, general — respondeu o técnico. — Todos os componentes do veículo, inclusive as armas, são alimentados por um gerador, e é justamente este que sofreu as piores avarias.
Tomisenkow não acreditou enquanto o técnico não lhe mostrou as peças do veículo e lhe explicou como estavam danificadas, e como ninguém poderia ter a menor idéia dos princípios em que se baseava a tecnologia daqueles seres estranhos.
Só então Tomisenkow reconheceu que também perdera esse round do jogo, um round em que jogara extremamente alto.
Compreendeu que, dali em diante, ele e seus homens teriam de viver em paz com aquele mundo. Teriam de encontrar um meio de se adaptar às condições reinantes em Vênus, ou não viveriam sequer o bastante para que uma expedição pudesse vir em seu socorro.
— Ljubol desça daí! — gritou Tomisenkow.
A ordem foi prontamente executada pelo capitão. Estava contente de poder abandonar aquele posto tedioso.
Ainda não havia descido dois metros quando a Stardust-III começou a se mover, deslocando-se numa velocidade considerável em direção a uma cordilheira que se via no horizonte. Mas Ljubol não a via mais.
— Esse veículo está imprestável — disse Tomisenkow com um gesto de desprezo, depois de ter reunido seus homens no chão da selva. — Teremos de caminhar até o acampamento. Será duro; mas nós havemos de conseguir o que já pude fazer sozinho. Ljubol, pegue a bússola e vá na frente. Por enquanto a regra mais importante é esta: ficarmos bem juntos e não tocar em nada que não seja necessário. Vamos!
No início as coisas nem pareciam tão ruins. A vegetação era muito densa, e por vezes certos animais que passavam sobre seus pés causavam-lhes calafrios. Mas foram avançando, e não muito devagar.
Só quando o sol começou a descer sobre o horizonte se lembraram de que a noite que se aproximava duraria cinco dias da contagem de tempo terrena. Passariam cento e vinte horas na escuridão da selva.
Continuando a refletir, chegaram à conclusão de que dali em diante nunca mais seria diferente. Não dispunham de naves nas quais pudessem sair daquele planeta. Teriam de viver para sempre em Vênus.
Por algumas horas não disseram nada; cada um seguia a trilha de seus pensamentos melancólicos.
Mas logo dois daqueles animais em forma de urso começaram a se ocupar com eles. Ljubol foi o primeiro a notá-los, e Tomisenkow deu instruções sobre o comportamento que deveriam adotar. Esconderam-se e, quando aqueles animais dotados de inteligência medíocre puseram-se a procurá-los, mataram-nos com granadas disparadas dos fuzis.
Prosseguiram em sua marcha.
Ainda teriam de lutar várias vezes antes de chegarem ao acampamento. De repente a coragem voltou, e também o orgulho entusiástico de poderem mostrar àquele mundo que havia chegado alguém que era mais poderoso que a selva com seus sáurios de milhares de toneladas, seus ursos-lagartos e toda a gama de vermes nojentos e rastejantes.
Fosse qual fosse o deus em que acreditavam, fosse qual fosse a ideologia implantada em seus cérebros, fossem quais fossem as injustiças que praticavam entre si, eram homens.
Pertenciam à raça mais ativa, arrojada e orgulhosa da galáxia.
E continuariam vivos, não todos, mas um número suficiente para que o fio não se rompesse.

* * *

O cérebro positrônico interpretou o trecho da órbita de Peregrino e deu a entender que o problema seria solucionado nas próximas duas horas.
Mais um dia, e a órbita total do planeta Peregrino não seria mais mistério.
Pela primeira vez desde que o conheciam, os homens notaram a sensação de alívio que se espelhava no rosto de Rhodan.
Ele manteve uma palestra com o coronel Freyt, que se encontrava em Galáxia, a capital da Terceira Potência. Freyt se mostrou muito satisfeito quando soube que, dentro de poucas horas, Rhodan e a Stardust-III regressariam à Terra.
— Não sei se compreende, mas aos poucos... começo a não ser entendido por meus homens — confessou. — Querem que eu faça alguma coisa contra as tendências expansionistas do Bloco Oriental, mas eu... eu...
Rhodan acenou com a cabeça.
— Poremos tudo em ordem. Não se preocupe. Mas fique de boca calada; não diga a ninguém que estamos para chegar. Entendido?
Reginald Bell, que acompanhara a palestra, entendia muito pouco do que estava sendo feito. Enquanto o cérebro positrônico estava ocupado no cálculo da órbita do planeta Peregrino, Rhodan forneceu a explicação:
— Quando saímos da Terra, não sabia quando regressaríamos. Fiz do coronel Freyt o meu representante. Mas será que o conhecia bastante bem? Quem me garantiria que não se aproveitaria da primeira oportunidade para usar o poderio imenso que tinha ao seu dispor para fazer alguma tolice? Tive que tomar minhas precauções. Freyt ficou submetido a um bloqueio hipnótico que o impede de interferir na política terrena. Além disso, deixei mutantes em Galáxia, que exerceram certa vigilância sobre Freyt, cuidando para que não fizesse bobagens. Conforme vemos hoje, a idéia do bloqueio hipnótico teve sua origem num erro de cálculo da minha parte. Em outras palavras, minha opinião sobre o desenvolvimento da política terrena foi muito simplista. Acreditei que reinasse uma situação de razoável estabilidade. Não calculava com a possibilidade de que alguém ainda poderia ter interesse, muito menos que poderia conseguir, pôr uma pedra no caminho da união.
Sacudiu os ombros.
— Se não fosse assim, as ordens transmitidas a Freyt evidentemente teriam sido outras. Da forma como agora se encontra na base de Gobi, não poderia fazer outra coisa senão se defender de um ataque contra a mesma. Até agora não houve nada disso. Mas, quanto ao mais, ficou de mãos amarradas.
— Você não deve se recriminar por isso — disse Bell. — Ninguém poderia prever que nossa viagem duraria quatro anos e meio.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Poderia, sim. Quem se acha investido das minhas responsabilidades deve incluir em seus cálculos até mesmo as possibilidades mais remotas.
Passou a outro tema.
— Aqui na fortaleza tivemos de enfrentar o mesmo problema. Fui cauteloso demais, e, além disso, nunca imaginei a possibilidade de que, em qualquer tempo, outros homens que não nós fossem pousar em Vênus. O cérebro reagiu pela forma que eu lhe prescrevi: deixou os homens em paz, eram os homens de Tomisenkow, e, se não tivéssemos aparecido em tempo, provavelmente a fortaleza já teria sido ocupada por eles. No momento em que Tomisenkow disparou seus foguetes contra nós, o cérebro registrou acontecimentos extraordinários e inquietantes e se bloqueou também contra nós. Modifiquei tudo isso. No futuro, assim que você, eu ou alguma das outras pessoas que ainda selecionarei irradiar um sinal em código, o cérebro positrônico abrirá as portas, por mais crítica que seja a situação.
— Obrigado — respondeu Bell.
— Por quê? — indagou Rhodan, perplexo.
— Pela confiança depositada em mim.
— Ora, cale a...
O cérebro positrônico fez soar um sinal.
Os cálculos serão concluídos dentro de cinqüenta minutos — anunciou uma voz metálica.
Bell se levantou.
— O que faremos agora?
Subitamente o rosto de Rhodan assumiu uma expressão dura.
— Acho que já tivemos muita paciência — disse baixinho, mas com um tom ameaçador na voz. — Se os homens que habitam a Terra não quiserem se unir, terão de ser obrigados. Não podemos operar no universo com a insegurança representada pela desunião terrena às nossas costas. Temos de limpar a mesa. E começaremos com os perturbadores da ordem. Às vezes ainda surge um sinal.
Mal Rhodan acabou de pronunciar estas palavras, um vulcão começou seu trabalho terrível no oeste. Sob a pressão tremenda desencadeada pelas forças aprisionadas no interior do planeta, uma lava amarela e incandescente subiu numa coluna de centenas de metros e envolveu a paisagem semi-obscurecida numa luz irreal.
— Até parece um símbolo — murmurou Bell.




* * *




A breve permanência em Peregrino, o planeta da imortalidade, custou a Perry Rhodan e sua equipe quase quatro anos e meio de tempo terreno. Por isso era compreensível que as potências da Terra, que já não contavam com seu regresso, iniciassem seu velho jogo.
Mas Perry Rhodan estraga a festa. A Guerra Atômica que não Houve, é este o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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