quarta-feira, 21 de novembro de 2012

P-028 - Cilada Cósmica - K. H. Scheer [parte 1]



Autor
K. H. SCHEER


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






A Terceira Potência, uma feliz aliança da supertécnica arcônida com o espírito de iniciativa do homem, já conta com alguns anos de existência, segundo a escala de tempo terrestre.
Muita coisa aconteceu nesses anos: a defesa bem sucedida contra invasores vindos do espaço, a decifração dos velhos mistérios do planeta Vênus, a luta, no sistema Vega, com os tópsidas, criaturas reptilóides, e a descoberta do mundo da imortalidade; isso para mencionar apenas algumas das realizações mais dramáticas registradas pela história ainda recente da Terceira Potência, criada e dirigida por Perry Rhodan.
Até mesmo o Supercrânio, um mutante dotado de energias hipnóticas de potência inacreditável, acabou sendo derrotado. Mas, ao que tudo indicava, a luta com o Supercrânio não deixou de ser notada por outras criaturas. Só assim se explica o súbito surgimento de espiões cósmicos...
E, para descobrir quem são esses espiões, de onde vêm e o que pretendem, Perry Rhodan recorre à Cilada Cósmica.







= = = = = = =   Personagens Principais:  = = = = = = =

Perry RhodanChefe da Terceira Potência.

Julian TifflorUm homem que Rhodan usa como chamariz cósmico.

Primeiro-sargento RousQue prepara os futuros cosmonautas da Terra.

Major DeringhouseCuja missão consiste em levar o chamariz ao local da ação.

Humpry Hifield e Klaus EberhardtDois cadetes da Academia Espacial da Terceira Potência.

Mildred OrsonEstudante de bacteriologia cósmica.

OrlgansUm negociante galático que descobriu a Terra.


1



Treinamento tático”... era este o nome dado àquelas manobras tresloucadas e temerárias, que faziam porejar o suor até mesmo na testa dos pilotos mais experimentados do comando de caças espaciais.
Exigiam o máximo. De certa forma eram implacáveis, muito embora depois de concluída a ação costumassem ser ótimos companheiros, com um sorriso brejeiro nos lábios.
Eles — os instrutores da Academia Espacial — eram homens que já haviam saído do sistema solar a serviço da Terceira Potência, aventurando-se pelas amplidões do espaço cósmico para lutar em prol da Humanidade.
Dificilmente teriam qualquer tipo de sentimentalismo, quando se tratasse de fazer das novas gerações de cosmonautas da Terceira Potência homens iguais a eles.
O cadete Julian Tifflor recebeu uma ordem, proferida em tom indiferente, para, no âmbito do exame final que estava prestando, assumir o comando de um destróier espacial rápido.
Além disso, fora instruído a fazer de conta que o cume alto e anguloso de uma montanha lunar era uma nave inimiga, da qual não poderia se desviar em virtude da velocidade elevada.
Para cumprir essa ordem, o examinando Tifflor poderia passar rente à pedra alcantilada, ou embolar-se na idéia enganadora de que aquele obstáculo maciço poderia, no último instante, se transformar, por um passe de mágica, numa nuvem macia.
Ao que tudo indicava, Julian Tifflor, um homem meigo e conciliador enquanto ninguém o irritasse, acreditava com toda a inocência de seus vinte anos de vida que aquela massa de pedra de três mil metros de altura se transformaria numa nuvem.
O primeiro-sargento Rous, um piloto do comando de caças espaciais consagrado em inúmeras ações, inclusive nas lutas arrepiantes travadas no sistema Vega, soltou um grito de pavor quando os propulsores retumbantes impeliram a máquina dirigida pelo cadete Julian Tifflor para cima da montanha a uma velocidade de exatamente dez mil quilômetros por segundo.
Foi nesse instante que o sargento Rous se lembrou de suas palavras “engraçadas”, segundo as quais um “rapaz inteligente” simplesmente passaria por dentro da montanha. Também foi o instante em que o sargento conjurou todos os santos, para explicar que não era “isso” que ele queria dizer; principalmente, não pretendia dizer que a montanha devia ser atravessada a uma velocidade tamanha.
Não faria o menor sentido interferir nos controles duplicados do destróier. Afinal, encontravam-se numa das chamadas naves de exame final, em que o instrutor de vôo nem sequer dispunha de controles desse tipo.
Além disso, o cume da montanha se aproximava a uma velocidade de dez mil quilômetros por segundo o que, em termos exatos, significava que a nave dirigida pelo cadete Tifflor se precipitava sobre a superfície lunar num ângulo de quarenta e cinco graus.
— O senhor ficou lou...!
O sargento Rous não conseguiu berrar mais que isso, pois o canhão de impulsos, rigidamente montado na estrutura da nave, produziu um som mais forte que o da sua voz.
Rous sentiu as tremendas sacudidelas da nave de instrução de três lugares. Era a vibração forte provocada pelo imenso desprendimento de energia, que saía da boca do canhão sob a forma de um raio violeta, quente como o Sol.
Julian Tifflor, que costumava ser chamado Tiff, atirou com o auxílio da pontaria automática de precisão a uma distância de trinta mil quilômetros. A distância seria perfeitamente normal num combate espacial. Como o disparo térmico se deslocasse a uma velocidade próxima à da luz, ainda dispunha de cerca de três segundos para refletir sobre as medidas a serem tomadas.
Para o sargento Rous aqueles instantes se transformaram numa eternidade. O fogo ininterrupto do pesado canhão de impulsos continuava a bramir, e a velocidade do destróier não foi reduzida.
Rous voltou a berrar; mas o pior já havia passado. Os restos da matéria gaseificada se incendiaram de encontro ao envoltório protetor do destróier. Antes que o chiado agudo das partículas repelidas pelo envoltório protetor pudesse ser ouvido, a nave, depois de descrever um ângulo extremamente perigoso, voltou a subir em direção ao espaço vazio. O que ficou para trás foi uma cratera que brilhava numa incandescência branca e borbulhante, e que se formara exatamente no ponto em que antes se encontrara o cume pontudo.
O zumbido grave da arma energética cessou. Só se ouvia o forte retumbar do propulsor de impulsos.
Na testa de Julian Tifflor havia gotículas de suor. Sua voz parecia um pouco áspera quando, segundo o regulamento, apresentou seu relato:
— Ordens cumpridas, sargento. Tive que destruir a nave inimiga, porque não havia possibilidade de me desviar dela. Passei por dentro da mesma.
Com um rápido movimento de mão, Rous tentou espantar a palidez de seu rosto. Seus olhos semicerrados miraram o rosto magro, mas meigo do cadete, que mal acabara de livrar-se de uma violenta tensão. Só depois de algum tempo o brilho sonhador voltou a surgir nos olhos castanhos de Tiff. Poucos instantes antes ainda se mostravam frios e escuros; de certa forma pareciam profundos e imperscrutáveis.
— Costuma levar sempre tão ao pé da letra as ordens que recebe? — indagou Rous com uma mansidão que parecia perigosa.
Tiff engoliu em seco. A insegurança parecia se apossar de novo de seu espírito.
— Sim — respondeu. Lançou um rápido olhar para trás, onde o cadete Eberhardt estava acomodado no assento do observador.
O rosto largo de Eberhardt parecia uma mancha de tinta desbotada.
— Rapaz! — fungou. — Ora essa! Já me vi sob a forma de uma nuvem de gás. Já...
— Cadete Eberhardt, sua opinião é irrelevante — chiou Rous. — OK. Agora você assumirá o comando. Troquem de lugar.
Tiff esboçou um sorriso martirizado. Raramente um sorriso genuíno, tão comum nos alegres cadetes da Academia Espacial, aflorava em seus lábios.
Saiu desajeitadamente do assento e passou para trás. O cadete Klaus Eberhardt começou a transpirar. Era a vez dele!
Os olhos de Tifflor piscaram em direção aos dedos de Rous, que naquela lentidão costumeira e enervante pegaram o “livro da inteligência”. Esse livro não passava de uma corriqueira agenda de bolso, mas as anotações lançadas nele representavam tudo para os examinandos da Academia Espacial.
O sargento Rous não disse mais nada. Nem Tifflor nem Eberhardt desconfiaram de que sentimentos conflitantes martirizavam a mente daquele homem.
Que teste dos infernos”, pensou Rous para si mesmo. “Que teste dos infernos.”
Poucos instantes depois, o espírito de Tifflor mergulhou num oceano de veneração, respeito e admiração irrestrita.
O sargento Rous, um piloto de caça espacial competente e extremamente corajoso, ficou imóvel de susto, e Eberhardt soltou um gritinho agudo.
O telecomunicador dera sinal de vida. Na tela do aparelho que funcionava à velocidade da luz surgiu o rosto estreito e anguloso de um homem.
— Rous, é o senhor? — soou a voz retumbante pela cabina apertada.
O sargento recuperou a fala. Era o chefe em pessoa. O que teria levado Perry Rhodan a chamar o pequeno destróier?
Rous apresentou seu relato. O homem que aparecia na tela acenou ligeiramente com a cabeça.
— Obrigado, já sei. Pouse imediatamente e apresente-se a mim. O cadete Julian Tifflor está com o senhor?
A essa altura Rous começou a morder o beiço. Um olhar carregado de terríveis ameaças foi disparado em direção ao cadete. Rous confirmou a presença do cadete.
— O cadete Tifflor deverá se apresentar às onze horas, tempo padrão. O senhor virá alguns minutos antes. Entendido?
Era a maneira de falar típica de Rhodan, um homem que num espaço de alguns anos transformara o planeta Terra num fator de poder galático de primeira ordem.
— Sim senhor — gaguejou Rous, totalmente desorientado.
Seus olhos pareciam sair das órbitas.
— Perdão, o senhor acaba de dizer que o cadete Tifflor deve se apresentar ao senhor? No palácio?
Os olhos de Perry Rhodan se estreitaram ligeiramente. Aquelas palavras pareciam diverti-lo.
— Isso mesmo; no palácio. Também poderia dizer que é no edifício da administração. Aliás, suas manobras de prova foram um tanto arriscadas. Quem estava pilotando o aparelho?
— Foi o tal do Tifflor — cochichou Rous com os lábios secos.
— Ah, então foi isso. Muito bem. Fim.
A tela se apagou. Só o chiado dos microfones do telecomunicador continuou a encher o recinto.
O sargento Rous se virou lentamente no assento. Seus olhos escuros pareciam pedras de gelo quebradiço. Perdera todo senso de humor.
— Tifflor, o que é que andou fazendo? Fale logo! Fale imediatamente! Por que o chefe resolveu convocar um cadetezinho como você ao edifício do governo? O que houve?
Tiff sentiu que seus olhos se enchiam de água e as palmas das mãos secavam.
— Não faço a menor idéia, sargento. Com toda a sinceridade, não sei.
— Veremos, meu caro. Nem queira saber o que será feito de você se, por alguma bobagem, você fez a caveira de meu grupo de exame. Se foi isso, você já era um aluno da Academia Espacial. Eberhardt, tome a direção do espaçoporto de Gobi. Aceleração máxima.
Um objeto refulgente disparou a toda velocidade em direção à foice nitidamente perceptível que representava a Terra. Para um destróier que se deslocava à velocidade da luz, uma excursão à Lua era apenas um pulo, uma questão de poucos instantes.
O cadete Julian Tifflor, geralmente chamado de Tiff, sentiu o coração palpitar. Ficou refletindo; por que cargas d’água o chefe queria vê-lo pessoalmente? Nunca houvera uma coisa dessas. O que diriam os alunos da Academia Espacial?
Estremeceu ao se lembrar do escárnio e da compaixão com que seria recebido pelos colegas. Não havia a menor dúvida: alguma coisa não devia estar certa. Um cosmonauta da nova geração não seria convocado ao santuário sem mais nem menos. Nuvens ameaçadoras surgiram no horizonte da imaginação de Tifflor.

* * *

O homem alto desligou o telecomunicador. Com uma expressão pensativa, Perry Rhodan, presidente da Terceira Potência, olhou para a tela que se apagava.
Esse rapaz deve estar perto de um colapso nervoso”, recriminou-o a voz do subconsciente. “Você poderia ter-lhe dito isso em outra oportunidade e de outra maneira.”
Rhodan levantou a cabeça. Reginald Bell, companheiro fiel e consagrado em numerosas ações, que desempenhava as funções de ministro da segurança da Terceira Potência, fazia uma figura insignificante naquela sala gigantesca.
Tinha os lábios cerrados. Lançou um olhar contrariado para o chefe, que continuava sentado. Bell era um dos homens que pareciam impiedosos sempre que um cadete se achasse presente. Mas, quando falava a respeito deles, mostrava um coração de ouro.
Rhodan sorriu de forma quase imperceptível. Era evidente que mais uma vez conseguira descobrir os pensamentos íntimos daquele homem de ombros largos.
— Tifflor não tem nervos — murmurou Rhodan em tom pensativo. — Já tivemos oportunidade de conhecê-lo nas ações empreendidas contra o chamado Supercrânio. Tifflor agiu com uma tática inteligente. Terei que lhe confiar outra missão, uma missão muito dura.
Reginald Bell aspirou ruidosamente o ar. Seu rosto largo se tornou ainda mais anguloso.
— OK. Estou de acordo, mas só se você lhe der todas as informações.
A testa de Rhodan se franziu. Levantou-se muito devagar atrás da enorme mesa, que mais parecia um complicado painel de instrumentos que uma escrivaninha. Quando se encontrava ao lado de Bell, os olhares dos dois homens se encontraram.
— Não devemos nos iludir — disse Rhodan com certa ênfase. — O rapaz só poderá saber de tudo quando sua missão estiver concluída.
— Você vai arrancá-lo em meio aos exames finais.
— Terei muito prazer em assinar seu diploma, assim que a missão esteja concluída.
Os ombros de Bell desceram. Lançou um olhar inexpressivo para as inúmeras telas que existiam naquela sala, o centro nervoso da Terceira Potência.
Com voz hesitante disse:
— Acho que você não se sente nada feliz com o desaparecimento de três unidades de nossa frota espacial, não é?
Rhodan exibiu seu sorriso, que já se tornara célebre e temível. Era tão meigo que não podia ser convincente.
— Adivinhou! Alguém que nos é desconhecido começou a se interessar por nós. Aquilo que procurei evitar durante anos acabou acontecendo: a descoberta da Terra e do sistema solar por inteligências desconhecidas. Já está provado que não se trata dos Deformadores Individuais.
Bell se lembrou daqueles seres estranhos, com os quais tiveram que se defrontar pouco depois da instalação da Terceira Potência. Desta vez as coisas pareciam mais sérias.
A grande nave auxiliar K-l, da classe Good Hope, estava desaparecida, além de dois destróieres espaciais. Para Rhodan tais fatos bastavam para desencadear uma atividade imediata.
Seres desconhecidos surgiram de um instante para outro e logo desapareceram. Não havia a menor dúvida de que estavam informados sobre a existência do planeta Terra e, portanto, da Humanidade.
O serviço de escuta de rádio de Rhodan captara misteriosos impulsos ligeiros transmitidos à velocidade superior à da luz. A decifração não produzira qualquer resultado. Tratava-se de grupos simbólicos codificados, aparentemente formados de maneira inteiramente arbitrária para designar vários conceitos.
Portanto, Rhodan não tinha a menor dúvida de que havia agentes de um poder estranho na Terra. Nem mesmo através da atuação dos extraordinários mutantes, que compunham um destacamento especial do exército, fora capaz de localizar por via telepática qualquer desses agentes. Até parecia bruxaria. Tinha-se a impressão de que sombras provindas do nada se haviam espalhado sobre a Terra; sombras que não se podiam ver nem tocar, apenas imaginar.
Rhodan se dirigiu ao videofone mais próximo. Fez a ligação. O rosto do Dr. Haggard apareceu na tela. Haggard era ministro da saúde da Terceira Potência e chefe da Clínica Arcônida, que adquirira fama mundial, e funcionava segundo os padrões arcônidas.
— Nosso homem chegará dentro de duas horas — disse Rhodan em tom lacônico. — O Dr. Kärner já viajou?
— Saiu há cerca de três horas. Eu irei dentro de dez minutos. Acho que conseguiremos.
Rhodan não disse mais nada. Fez um gesto para o receptor ótico e desligou.
— Então você vai arriscar? — disse Bell, esticando as palavras. — Acho que terá um osso duro de roer. Devíamos lhe perguntar se está de acordo.
— Se houver qualquer vestígio do acontecimento armazenado em sua memória, correrá um perigo maior do que aquele que enfrentará se for mantido na ignorância. Faremos uma pequena brincadeira cósmica, meu caro.
Bell enfiou o boné protetor sobre a cabeça. Pisando fortemente, caminhou em direção à escotilha blindada da sala de trabalho e comando.
— Ninguém mais quer saber da opinião da gente — resmungou. — OK, então faça seu joguinho. Para mim isso não passa de uma idéia maluca. O ataque ainda é a melhor defesa.
— Onde poderíamos atacar, e a quem poderíamos atacar? — perguntou Rhodan com a voz controlada.
Bell cerrou os lábios e desapareceu, soltando uma praga.
O problema era justamente este. O que podia ser atacado, se não se tinha nada de palpável à frente?
Registrava-se o dia 28 de junho quando Perry Rhodan, depois de avaliar cuidadosamente os dados disponíveis, acionou um esquema de cujos efeitos ninguém estava informado, a não ser o próprio Rhodan.
Era um esquema grande e potente. Apesar disso poderia se quebrar com a mesma rapidez com que fora elaborado por Rhodan.
28 de junho. Era o grande dia em que o presidente da Terceira Potência interveio com mão de ferro no espaço cósmico. Seria registrado como um dos momentos mais importantes da história da Humanidade. Mas naquela época ninguém imaginaria que aquele era um marco histórico. O homem ainda era um ser fraco e pequenino, inferior a vários seres do universo no terreno científico e tecnológico. Mas tinha uma qualidade que pouquíssimas inteligências poderiam apresentar: uma iniciativa imensa, a intrepidez, a coragem e uma tremenda curiosidade.
Rhodan contava com isso, e não estava errado.

2



O cadete Julian Tifflor olhou para o relógio. Levou um segundo para perceber que o tremor incessante dos ponteiros provinha dos seus olhos. Engolindo em seco, foi ao espelho do armário embutido e lançou mais um olhar sobre o uniforme.
Evidentemente teria de vestir uniforme para comparecer diante do chefe. E neste se incluía a arma manual, o capacete com rádio e o cinto de múltipla finalidade.
Humpry Hifield, um tipo louro sem inibições nem complexos perceptíveis, estava atirado numa posição desleixada sobre seu colchão de espuma.
Hump sabia perfeitamente em que ponto levava vantagem sobre Tifflor. Se este era considerado o gênio matemático da Academia Espacial, não havia a menor dúvida de que Humpry Hifield saíra vitorioso nos últimos campeonatos de boxe. Para Hump a cosmomatemática e o boxe eram disciplinas praticamente idênticas. Para Tiff era um azar ter de ocupar justamente o mesmo quarto que Hifield.
— Calma, rapaz, calma — resmungou o cadete Eberhardt em tom de advertência. Era o terceiro ocupante do aposento. Fungando e repuxando seu cinto muito apertado, colocou-se ao lado de Tifflor, cuja raiva momentânea logo se desvaneceu. Olhou para o colega; parecia desorientado.
— Certamente vou desmaiar quando estiver diante do chefe — confessou em tom sombrio.
Hump Hifield se ergueu do leito. Aproximou-se a passos balouçantes, com as enormes mãos enterradas nos bolsos. Tinha a altura de Tifflor, mas quase o dobro da largura deste.
— Sempre vivo dizendo que uns tagarelas sonhadores não servem para o espaço. Antes que você vá, preciso da equação do campo protetor que retrate as relações entre a micromatemática espacial e um campo gravitacional superposto. O que me diz?
O sorriso de Hump se tornou mais largo. Suas mãos balançavam junto ao corpo.
— Que diabo! Não tenho nada com isso. Procure descobrir a equação — disse Tiff indignado, engolindo em seco.
— Isso dá muito trabalho — disse Hump, esticando as palavras. — Você ainda dispõe de uma hora. Minha aula começa daqui a trinta minutos.
— Que tal se você encostasse o punho no rosto desse aprendiz de matemática que é um fracalhão? — perguntou Eberhardt.
Virou o corpo gordo e baixo. Hump estreitou os olhos.
— Não se meta nisso, gorducho — advertiu-o Hifield. — Quando eu estiver falando, chegou a hora de você calar a boca. Entendido?
— Fiquem quietos — interveio Tiff em tom nervoso. — Que diabo! No momento tenho outros problemas.
— Vejam só! O pintinho está xingando — disse Hump em tom de espanto. — Será possível?
Tiff cerrou fortemente os olhos. A gargalhada do outro o atingiu profundamente.
— Ainda chegará o dia em que alguém lhe fechará essa boca grande — disse Eberhardt numa estranha frieza. — Quando isso acontecer, você nunca mais abrirá a boca. Que equação, que nada!
— Você vai contar ao diretor? — perguntou Hump num cochicho.
Seus ombros se inclinaram para a frente.
Descontraiu-se num golpe quando alguém bateu à porta. De um instante para outro um sorriso jovial surgiu em seu rosto.
Eberhardt lhe deu as costas.
— É o tipo do ciclista — chiou. — Para cima torce o corpo bem bonitinho, não é? É mais fácil dar as pisadas para baixo.
Os cadetes entraram em posição de sentido. Mas não era nenhum superior.
— Posso entrar? — disse uma voz clara.
— É proibido — apressou-se Tiff em responder. — Santo Deus, não crie uma situação inconveniente para você mesma. O lugar das moças não é aqui.
Mildred Orson, estudante de bacteriologia cósmica do Instituto de Biologia Cósmica da Academia Espacial, atirou os cabelos pretos na nuca, num gesto todo seu. Entrou com um movimento lânguido.
Sem dizer uma palavra, examinou Tiff com os olhos críticos.
— Vire-se — comandou. — Hum, o cinto está torto de novo. Vim para avisar que Deringhouse vai examiná-lo pessoalmente. Na coronha de sua arma há uma mancha escura. Isso é mau, meu caro, muito mau. Aliás, o quarto de vocês parece um alojamento de selvagens.
Tifflor estava tremendamente embaraçado. Seria um bom sinal aquela atitude da moça? Milly Orson, estimada por todos, tão interessada no seu bem-estar pessoal!
— Vou... vou tirá-la — prometeu apressadamente. — Por favor, vá embora. Se pegarem você no setor dos cadetes, haverá dificuldades.
A mania de justiça de Milly festejava triunfos espontâneos. Era uma daquelas pessoas que, por causa de um cachorro magro, querem destruir o mundo.
Seus olhos escuros chispavam fogo. Tiff se encolheu.
— Não é justo que um rapaz seja tratado dessa forma — disse cheia de indignação. — Klaus me disse como a ordem foi transmitida a você. Ao que parece o chefe não sabe o que arrumou com isso. Pois bem, alguém tem de cuidar do seu bem-estar. Conseguimos convencer o sargento Rous de que alguém tem que dar uma olhada no seu uniforme. Olhe só essa bota. Está borrada de chocolate.
Tiff virou a cabeça para baixo. Logo a seguir seus olhos passaram a encarar Hifield, em cujo rosto se via um sorriso de deboche.
— Eu as engraxei muito bem — disse Tifflor fora de si. — Você é mesmo um sujeito muito falso. Há dez minutos comeu chocolate. Foi você que borrou minhas botas. Eu...
— Silêncio — gritou Milly, antes que Tiff pudesse se atirar sobre Hump, que o aguardava em postura relaxada.
— Será que todo mundo ficou louco? Hump, essa história do chocolate é verdadeira? Se for, permita que lhe diga que você é um patife nojento.
— Não gosto de gente prosa — confessou Hifield em tom odiento. — O sujeito vive gritando aos quatro ventos que tem de comparecer diante do chefe.
— Recebi ordem para isso — berrou Tiff. — Não sei por quê...
O estalo no alto-falante fez com que o cadete se calasse. Hump foi o primeiro que ficou em posição de sentido. Imóvel, fitou a tela do videofone embutida na parede, onde acabava de surgir o rosto do major Deringhouse. Deringhouse exercia as funções de chefe da Associação de Ensino Espacial. No momento a turma que estava prestes a concluir o curso da Academia Espacial lidava quase exclusivamente com ele.
Milly deu um grande salto para se colocar fora do alcance do receptor ótico. Muito pálida, se escondeu atrás da porta do armário.
— Cadete Tifflor, está pronto? — ressoou a voz vinda do aparelho.
Tiff adiantou-se um passo.
— Sim senhor — confirmou com a voz rouca.
— Está bem. Venha imediatamente ao meu escritório. Peço que apareça decentemente trajado, senão o diabo o carregará para o inferno. Não há mais alguém no seu quarto?
Tiff quase destroncou os olhos.
— Não... não senhor — mentiu.
— Seja o que quiser. Mas, se essa dama for de opinião que deve dar o último retoque aos seus trajes, convém que apareça. Ainda falaremos a este respeito, Tifflor. Fim.
Deringhouse desapareceu. Milly saiu de trás da porta. Tremia como uma vara verde.
— Santo Deus, o homem me viu — gemeu. — Paciência; só podemos aguardar os acontecimentos. Passe para cá o sapato. Klaus, preciso de uma flanela.
— Prefiro dar o fora — observou Humpry Hifield.
— Está com medo, hein? — chiou Eberhardt. — O mui honrado senhor Hifield, estudante, que está cursando o último semestre da Academia Espacial, poderia ser descoberto ao fazer uma coisa proibida. Desapareça da minha vista!
Humpry deu de ombros e saiu. Alguns minutos depois, o capacete-rádio esférico foi enfiado embaixo do braço de Tiff.
— Muito bem; não se esqueça de respirar — disse Milly.
Tiff saiu cambaleante e se dirigiu ao elevador gravitacional. Entrou tão desajeitadamente que aterrizou de barriga no hall. O sargento Rous quase chegava a chorar.
— Levante-se, homem — gemeu. — Vá correndo, vá pulando. Não consigo olhar para você sem ter um ataque.
Tiff pôs as longas pernas em movimento. Apavorado, correu pelo longo corredor que dava para o escritório de Deringhouse.
— A arma! — uivou Rous atrás dele. — Com os mil demônios! Não é que o sujeito esqueceu a arma no elevador?
Tiff se transformou num artista. Girou no ar, disparou em sentido contrário e arrancou o radiador de impulsos das mãos do instrutor de vôo, soltando uma observação totalmente incompreensível.
Rous seguiu o cadete com os olhos. Sentia-se profundamente abalado. Isso ainda poderia ficar muito divertido.

* * *

Para Julian Tifflor a impressão de fim de mundo começou no instante em que um robô arcônida de combate o conduziu através da estreita comporta do gigantesco campo energético em forma de esfera.
Em meio ao espaço coberto pelo campo energético erguia-se o palácio do governo da Terceira Potência. Perto dali ficava a abóbada blindada com o cérebro positrônico instalado no deserto de Gobi.
Passara pelos rigorosos controles quase inconsciente, como se fosse um sonâmbulo. Agora se encontrava no gigantesco gabinete de um homem que alguns anos antes, quando ainda era um simples major da Força Espacial dos Estados Unidos, fizera pousar a primeira nave tripulada na superfície da Lua.
Esse fato bastava para transformar Tiff num monte de desgraça. Mas, quando se lembrou das dificuldades que Perry Rhodan tivera de enfrentar para utilizar o saber dos arcônidas em benefício da Humanidade, sentiu-se próximo a um desmaio.
Agora se encontrava diante dele; diante do ídolo, do homem que se transformara numa figura lendária, e de quem se dizia, à boca pequena, que um poder incomensurável lhe havia conferido a vida eterna.
Mas havia um ponto sobre o qual Tiff estava bem informado: as realizações militares e políticas do chefe, na Terra e em outros planetas. E isso bastava para fazer com que suasse de medo.
Na sua posição de extremo cuidado parecia-se com um saca-rolha entortado. Por estranho que parecesse, as pernas só tremiam abaixo dos joelhos, motivo por que num pânico crescente Tifflor aguardava o momento do colapso final.
Outros cadetes teriam se saído melhor numa situação dessas; não havia a menor dúvida. Provavelmente Humpry Hifield teria se postado como um toco de pau na frente do chefe; não mexeria um dedo e não sofreria complexos.
Perry Rhodan realizou um exame demorado e cuidadoso no aluno da Academia Espacial com seus vinte anos de idade. Ele mesmo já ficara assim diante do comandante da força espacial; tremendo por dentro, com os músculos endurecidos. Foi naquela época em que a força espacial havia sido criada sob o comando do general Pounder.
Reprimiu um sorriso que iria aflorar aos seus lábios. Continuou a reprimi-lo quando John Marshall, o telepata, que se encontrava presente na oportunidade, lhe transmitiu a mensagem silenciosa:
Chefe, daqui a pouco ele cai. Para ele você é uma espécie de deus.”
Rhodan compreendia razoavelmente as mensagens telepáticas. Por isso pigarreou e disse:
— Cadete Tifflor, você foi chamado em caráter particular. Faça o favor de se sentar.
Tiff cambaleou em direção à poltrona. Quando caiu na mesma, o capacete-rádio adquiriu sua independência, deixando se levar pela força da gravidade.
O impacto produziu um ruído tremendo nos ouvidos de Tiff. Apavorado e preparado para tudo, lançou um olhar para o homem sentado do outro lado da mesa-painel.
— Que chapéu bonito! — disse Rhodan em tom seco. — Não gosta dele?
Tiff gaguejou várias afirmações solenes no sentido de que nunca tivera nada contra os capacetes de serviço. Evidentemente. Antes pelo contrário. Os aparelhos de radiofonia e comunicação visual embutidos no mesmo eram excelentes e extremamente úteis.
Rhodan teve dez minutos de paciência, até que Tiff concluísse os elogios derramados sobre o capacete-rádio.
John Marshall se retirou discretamente. O ligeiro aceno de cabeça que deu em direção a Rhodan dizia tudo. Tudo estava em ordem com o cadete Julian Tifflor. Em sua consciência não havia nada que tivesse que ocultar de Rhodan.
— Ainda bem que estamos de acordo — interrompeu-o Rhodan. — Muito obrigado pela minuciosa explanação. Sabe por que mandei chamá-lo?
Tiff se calou. Um pouco mais tranqüilo, disse que não. O rosto de Rhodan assumiu uma expressão indiferente. Aquela indiferença enfatizada deixaria qualquer outra pessoa desconfiada. Tifflor apenas sentiu o palpitar do coração. Agora a catástrofe iria desabar sobre ele.
Rhodan tirou uma folha de papel dobrada de uma pilha de pastas.
— O senhor seu pai demonstra uma resolução extraordinária. Não é todo dia que alguém expede um telegrama estritamente particular ao presidente da Terceira Potência. Neste instante, você entra em licença, cadete Tifflor.
Tiff se descontraiu para sentir uma tremenda estupefação.
— Um... um telegrama? — gaguejou, perplexo.
Rhodan fez que sim. Daquelas explicações não se poderia concluir que o chefe estivesse disposto a conceder favores especiais ao cadete. Foi a impressão que Tiff teve. Fitando o cosmonauta da nova geração pelo canto dos olhos, Rhodan notou a súbita lucidez de seu espírito. O jovem parecia alterado. A insegurança cessara por completo.
— Sua irmã se casa hoje. Por causa disso tive tanta pressa.
— Eileen vai se casar?
— Isso mesmo. Às dezoito horas, tempo da costa leste dos Estados Unidos. Você levantará vôo dentro de uma hora. Irá num caça espacial de um tripulante. O aparelho está sendo preparado. Julga-se capaz de levar essa máquina superveloz até Nova Iorque sem arrebentá-la pelo caminho?
O rosto de Tifflor parecia arder. Santo Deus! Iria a Nova Iorque num caça espacial da Terceira Potência! A notícia era mais que surpreendente. Tiff não disse uma palavra; limitou-se a acenar com a cabeça. Já não sabia o que dizer.
Rhodan o contemplou com os olhos pensativos. O telegrama passou de um lado da escrivaninha para outro. Realmente tratava-se de uma notícia extraordinária.
— Normalmente o conteúdo deste telegrama nunca teria chegado ao meu conhecimento — observou Rhodan. — Acontece que pretendo lhe confiar uma missão toda especial. E para isso o casamento de sua irmã vem a calhar. Não tenho um meio melhor de enviar um mensageiro especial a Nova Iorque sem chamar a atenção de ninguém. Você ficará em casa de seu pai até que receba alguma notícia com a senha porta do céu. Quando isso acontecer, apresente-se imediatamente a Homer G. Adams, chefe da General Cosmic Company. Já ouviu falar no senhor Adams?
Tiff soprou um “sim senhor”. Naturalmente já ouvira falar em Adams.
— Muito bem. Você viajará com um passaporte diplomático da Terceira Potência. Além disso, receberá uma autorização especial, que o habilitará a usar livremente sua arma sempre que haja algum perigo. Seu caça espacial será registrado por lá. Por isso não precisa se preocupar com os limites dos Estados Unidos; pode sobrevoar o país sem quaisquer formalidades. Pouse na nova base espacial de Nova Iorque, onde nossa gente cuidará de seu aparelho. Uma vez lá, dirija-se imediatamente à casa de seus pais. Participe da festa de casamento. Mais alguma pergunta?
— Nenhuma — respondeu Tifflor tranqüilo e senhor de si.
Seu rosto estreito assumiu uma expressão dura.
Os olhos de Rhodan se estreitaram.
— Excelente, cadete Tifflor. Fique logo com este pequeno cilindro de metal. Entregue-o a Mr. Adams, a mais ninguém. Se qualquer outra pessoa demonstrar interesse por ele, lembre-se de que tem ordem para atirar. Outras instruções serão ministradas por Homer G. Adams. Em Nova Iorque estará subordinado a ele. O major Deringhouse lhe entregará o caça espacial. Além disso, receberá uma arma de verdade. É só. Muito obrigado.
Julian Tifflor não formulou outras perguntas. Guardou o cilindro metálico de cerca de vinte centímetros de comprimento no bolso interno do uniforme, executou uma continência impecável e caminhou silenciosamente em direção à escotilha que se abria. Antes de atravessá-la voltou a ouvir as palavras de Rhodan:
— Tifflor, trata-se de uma missão especial. Não se espante com nada. Caso ache que a tarefa é arriscada demais ofereço-lhe a possibilidade de desistir após sua chegada a Nova Iorque.
Tiff caminhava como um sonâmbulo. Exatamente dez metros antes do primeiro posto de controle, um robô arcônida de combate lhe entregou uma arma de impulsos carregada. A arma que costumava carregar mudou de mãos.
Num escritório lhe foram entregues as credenciais específicas. Dali a quinze minutos estava de volta ao seu quarto, onde dispunha de outros quinze minutos para guardar seus pertences pessoais. O cadete Klaus Eberhardt ardia de curiosidade.
— O que houve? — perguntou em tom nervoso. — Vamos, fale logo!
— Seu prosa — resmungou Hifield nos fundos do quarto. — Ficando calado a coisa torna-se mais interessante, não é? O que é que você tem no bolso? Deixe-me dar uma olhada.
Tiff trancou o fecho magnético do uniforme. A cápsula que Rhodan lhe confiara estava em segurança.
— O que é isso? Já lhe disse que mostrasse. Eu vou...
Mal percebeu o movimento fugaz da mão. Em compensação notou perfeitamente que o cano espiral da arma arcônida emitia um brilho avermelhado.
— Nem um passo mais, Hump — advertiu Tiff em tom indiferente. — Nem um passo, senão você já era.
— Será que você ficou doido? — disse Eberhardt, engolindo em seco e empalidecendo. — Quem foi que lhe deu esse pau de fogo?
— Não tenho comentários. Saia do meu caminho, Hump.
Hifield recuou apressadamente. Sentia que nunca Tifflor havia falado tão sério. Sua gargalhada insegura soou atrás do cadete que se retirava do quarto.
A vários quilômetros dali, Rhodan desligou o videofone. Os contornos do aposento de três camas desapareceram.
— Suas reações são rápidas e seguras — murmurou Rhodan em tom pensativo. Dirigiu o olhar para os oficiais da Terceira Potência que se encontravam presentes.
— Bell, cuide da permissão de ingresso da nave. Allan D. Mercant providenciará o que for necessário. Freyt, informe Adams de que a decolagem é iminente. Marshall, você fará com que todo mundo nos alojamentos fique sabendo por que Tifflor voa para Nova Iorque. É apenas por causa do casamento, evidentemente. O pai de Tifflor é o advogado criminalista mais conhecido da parte leste dos Estados Unidos. Ninguém há de se espantar com o fato de eu ter concedido uma licença ao filho de um homem tão célebre. Quanto ao resto, veremos no devido tempo. O Dr. Haggard já partiu?
— Sim, o médico já partiu há bastante tempo.
— Ok. Muito obrigado. Capitão MacClears, você assumirá imediatamente o comando do cruzador espacial pesado Terra. Ao major Deringhouse será confiada outra missão. Procure conhecer a tripulação quanto antes e coloque a nave em condições de decolar no mais curto espaço de tempo possível. Major Nyssen, você também manterá a nave Solar System em condições de decolar. Eu mesmo assumirei o controle do couraçado Stardust-III. Bell, peço-lhe que vá para bordo imediatamente. Irei depois. Capitão Klein, você continuará a cuidar do serviço de escuta de rádio. Quero saber se a decolagem de Tifflor, que deve dar na vista de qualquer um, causará reflexos em qualquer emissora secreta do espaço. Se não estou enganado, uma criatura inteligente poderá acreditar em qualquer possibilidade, menos na de que alguém obtém uma licença em plena época de exames finais por causa de um acontecimento de importância relativamente reduzida. A máquina está começando a funcionar, cavalheiros.
Rhodan se ergueu da cadeira. Nas telas de vigilância do espaçoporto surgiu um objeto de proporções minúsculas. Disparou para o céu azul de Gobi praticamente na vertical. Alguns minutos depois o ribombar abafado dos jatos chegou ao local. Julian Tifflor decolara segundo o plano.
O projeto de Perry Rhodan entrou em sua primeira fase. A avalanche começara a rolar.
— Devíamos tê-lo informado — resmungou Reginald Bell. — A situação dele poderá se tornar bastante melindrosa.
— Isso deve acontecer, e vai acontecer mesmo — afirmou Rhodan em tom pensativo. — Já discutimos o assunto. Só nos resta aguardar. Tenente Everson, você decolará exatamente dentro de quatro horas em sua nave auxiliar e tomará a direção do sistema Vega. Não terá qualquer problema em vencer os vinte e sete anos-luz. Levará mercadorias comuns, destinadas ao comércio dos entrepostos existentes no planeta Ferrol. Faremos com que acreditem que, além disso, é portador de notícias muito importantes. Se tudo sair de acordo com as previsões, perceberão a mentira e acreditarão que Tifflor é o verdadeiro mensageiro. Decole e mantenha seu girino em condições de entrar em combate a qualquer instante. Não estou interessado em que mais uma das nossas preciosas naves com velocidade superior à da luz seja perdida de forma tão misteriosa.
Markus Everson não disse uma palavra; limitou-se a fazer continência. Sua tarefa estava perfeitamente caracterizada. Se fosse atacado em pleno espaço, devia se concluir que o plano de Rhodan havia sido descoberto. Se completasse a transição são e salvo, o primeiro obstáculo estaria superado.
Na testa de Rhodan viam-se rugas de preocupação. Tifflor estava a caminho. Agora tudo dependia das reações do misterioso inimigo.

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