Autor
K. H. SCHEER
Tradução
RICHARD PAUL
NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
A Terceira Potência, uma feliz aliança da supertécnica arcônida
com o espírito de iniciativa do homem, já conta com alguns anos de existência,
segundo a escala de tempo terrestre.
Muita coisa aconteceu nesses anos: a defesa bem sucedida contra
invasores vindos do espaço, a decifração dos velhos mistérios do planeta Vênus,
a luta, no sistema Vega, com os tópsidas, criaturas reptilóides, e a descoberta
do mundo da imortalidade; isso para mencionar apenas algumas das realizações
mais dramáticas registradas pela história ainda recente da Terceira Potência,
criada e dirigida por Perry Rhodan.
Até mesmo o Supercrânio, um mutante dotado de energias hipnóticas
de potência inacreditável, acabou sendo derrotado. Mas, ao que tudo indicava, a
luta com o Supercrânio não deixou de ser notada por outras criaturas. Só assim
se explica o súbito surgimento de espiões cósmicos...
E, para descobrir quem são esses espiões, de onde vêm e o que
pretendem, Perry Rhodan recorre à Cilada Cósmica.
= = = = = = =
Personagens Principais: = = = = =
= =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Julian Tifflor — Um homem que Rhodan usa como chamariz cósmico.
Primeiro-sargento Rous — Que
prepara os futuros cosmonautas da Terra.
Major Deringhouse — Cuja missão consiste
em levar o chamariz ao local da ação.
Humpry Hifield e Klaus Eberhardt — Dois
cadetes da Academia Espacial da Terceira Potência.
Mildred Orson — Estudante de bacteriologia cósmica.
Orlgans — Um negociante galático que
descobriu a Terra.
1
“Treinamento tático”... era este o nome
dado àquelas manobras tresloucadas e temerárias, que faziam porejar o suor até
mesmo na testa dos pilotos mais experimentados do comando de caças espaciais.
Exigiam o
máximo. De certa forma eram implacáveis, muito embora depois de concluída a
ação costumassem ser ótimos companheiros, com um sorriso brejeiro nos lábios.
Eles — os instrutores da Academia Espacial — eram homens que já haviam
saído do sistema solar a serviço da Terceira Potência, aventurando-se pelas
amplidões do espaço cósmico para lutar em prol da Humanidade.
Dificilmente
teriam qualquer tipo de sentimentalismo, quando se tratasse de fazer das novas
gerações de cosmonautas da Terceira Potência homens iguais a eles.
O cadete
Julian Tifflor recebeu uma ordem, proferida em tom indiferente, para, no âmbito
do exame final que estava prestando, assumir o comando de um destróier espacial
rápido.
Além disso,
fora instruído a fazer de conta que o cume alto e anguloso de uma montanha
lunar era uma nave inimiga, da qual não poderia se desviar em virtude da
velocidade elevada.
Para cumprir
essa ordem, o examinando Tifflor poderia passar rente à pedra alcantilada, ou
embolar-se na idéia enganadora de que aquele obstáculo maciço poderia, no
último instante, se transformar, por um passe de mágica, numa nuvem macia.
Ao que tudo
indicava, Julian Tifflor, um homem meigo e conciliador enquanto ninguém o
irritasse, acreditava com toda a inocência de seus vinte anos de vida que
aquela massa de pedra de três mil metros de altura se transformaria numa nuvem.
O
primeiro-sargento Rous, um piloto do comando de caças espaciais consagrado em
inúmeras ações, inclusive nas lutas arrepiantes travadas no sistema Vega,
soltou um grito de pavor quando os propulsores retumbantes impeliram a máquina
dirigida pelo cadete Julian Tifflor para cima da montanha a uma velocidade de
exatamente dez mil quilômetros por segundo.
Foi nesse
instante que o sargento Rous se lembrou de suas palavras “engraçadas”, segundo as quais um “rapaz inteligente”
simplesmente passaria por dentro da montanha. Também foi o instante em que o
sargento conjurou todos os santos, para explicar que não era “isso” que ele queria dizer;
principalmente, não pretendia dizer que a montanha devia ser atravessada a uma
velocidade tamanha.
Não faria o
menor sentido interferir nos controles duplicados do destróier. Afinal,
encontravam-se numa das chamadas naves de exame final, em que o instrutor de
vôo nem sequer dispunha de controles desse tipo.
Além disso,
o cume da montanha se aproximava a uma velocidade de dez mil quilômetros por
segundo o que, em termos exatos, significava que a nave dirigida pelo cadete
Tifflor se precipitava sobre a superfície lunar num ângulo de quarenta e cinco
graus.
— O senhor
ficou lou...!
O sargento
Rous não conseguiu berrar mais que isso, pois o canhão de impulsos, rigidamente
montado na estrutura da nave, produziu um som mais forte que o da sua voz.
Rous sentiu
as tremendas sacudidelas da nave de instrução de três lugares. Era a vibração
forte provocada pelo imenso desprendimento de energia, que saía da boca do
canhão sob a forma de um raio violeta, quente como o Sol.
Julian
Tifflor, que costumava ser chamado Tiff, atirou com o auxílio da pontaria
automática de precisão a uma distância de trinta mil quilômetros. A distância
seria perfeitamente normal num combate espacial. Como o disparo térmico se
deslocasse a uma velocidade próxima à da luz, ainda dispunha de cerca de três
segundos para refletir sobre as medidas a serem tomadas.
Para o
sargento Rous aqueles instantes se transformaram numa eternidade. O fogo
ininterrupto do pesado canhão de impulsos continuava a bramir, e a velocidade
do destróier não foi reduzida.
Rous voltou
a berrar; mas o pior já havia passado. Os restos da matéria gaseificada se
incendiaram de encontro ao envoltório protetor do destróier. Antes que o chiado
agudo das partículas repelidas pelo envoltório protetor pudesse ser ouvido, a
nave, depois de descrever um ângulo extremamente perigoso, voltou a subir em
direção ao espaço vazio. O que ficou para trás foi uma cratera que brilhava
numa incandescência branca e borbulhante, e que se formara exatamente no ponto
em que antes se encontrara o cume pontudo.
O zumbido
grave da arma energética cessou. Só se ouvia o forte retumbar do propulsor de
impulsos.
Na testa de
Julian Tifflor havia gotículas de suor. Sua voz parecia um pouco áspera quando,
segundo o regulamento, apresentou seu relato:
— Ordens
cumpridas, sargento. Tive que destruir a nave inimiga, porque não havia
possibilidade de me desviar dela. Passei por dentro da mesma.
Com um
rápido movimento de mão, Rous tentou espantar a palidez de seu rosto. Seus
olhos semicerrados miraram o rosto magro, mas meigo do cadete, que mal acabara
de livrar-se de uma violenta tensão. Só depois de algum tempo o brilho sonhador
voltou a surgir nos olhos castanhos de Tiff. Poucos instantes antes ainda se
mostravam frios e escuros; de certa forma pareciam profundos e imperscrutáveis.
— Costuma
levar sempre tão ao pé da letra as ordens que recebe? — indagou Rous com uma
mansidão que parecia perigosa.
Tiff engoliu
em seco. A insegurança parecia se apossar de novo de seu espírito.
— Sim —
respondeu. Lançou um rápido olhar para trás, onde o cadete Eberhardt estava
acomodado no assento do observador.
O rosto
largo de Eberhardt parecia uma mancha de tinta desbotada.
— Rapaz! —
fungou. — Ora essa! Já me vi sob a forma de uma nuvem de gás. Já...
— Cadete
Eberhardt, sua opinião é irrelevante — chiou Rous. — OK. Agora você assumirá o
comando. Troquem de lugar.
Tiff esboçou
um sorriso martirizado. Raramente um sorriso genuíno, tão comum nos alegres
cadetes da Academia Espacial, aflorava em seus lábios.
Saiu
desajeitadamente do assento e passou para trás. O cadete Klaus Eberhardt
começou a transpirar. Era a vez dele!
Os olhos de
Tifflor piscaram em direção aos dedos de Rous, que naquela lentidão costumeira
e enervante pegaram o “livro da inteligência”.
Esse livro não passava de uma corriqueira agenda de bolso, mas as anotações
lançadas nele representavam tudo para os examinandos da Academia Espacial.
O sargento
Rous não disse mais nada. Nem Tifflor nem Eberhardt desconfiaram de que
sentimentos conflitantes martirizavam a mente daquele homem.
“Que teste
dos infernos”, pensou Rous para si mesmo. “Que teste dos infernos.”
Poucos
instantes depois, o espírito de Tifflor mergulhou num oceano de veneração,
respeito e admiração irrestrita.
O sargento
Rous, um piloto de caça espacial competente e extremamente corajoso, ficou
imóvel de susto, e Eberhardt soltou um gritinho agudo.
O
telecomunicador dera sinal de vida. Na tela do aparelho que funcionava à
velocidade da luz surgiu o rosto estreito e anguloso de um homem.
— Rous, é o
senhor? — soou a voz retumbante pela cabina apertada.
O sargento
recuperou a fala. Era o chefe em pessoa. O que teria levado Perry Rhodan a
chamar o pequeno destróier?
Rous
apresentou seu relato. O homem que aparecia na tela acenou ligeiramente com a
cabeça.
— Obrigado,
já sei. Pouse imediatamente e apresente-se a mim. O cadete Julian Tifflor está
com o senhor?
A essa
altura Rous começou a morder o beiço. Um olhar carregado de terríveis ameaças
foi disparado em direção ao cadete. Rous confirmou a presença do cadete.
— O cadete
Tifflor deverá se apresentar às onze horas, tempo padrão. O senhor virá alguns
minutos antes. Entendido?
Era a
maneira de falar típica de Rhodan, um homem que num espaço de alguns anos
transformara o planeta Terra num fator de poder galático de primeira ordem.
— Sim senhor
— gaguejou Rous, totalmente desorientado.
Seus olhos
pareciam sair das órbitas.
— Perdão, o
senhor acaba de dizer que o cadete Tifflor deve se apresentar ao senhor? No
palácio?
Os olhos de
Perry Rhodan se estreitaram ligeiramente. Aquelas palavras pareciam diverti-lo.
— Isso
mesmo; no palácio. Também poderia dizer que é no edifício da administração.
Aliás, suas manobras de prova foram um tanto arriscadas. Quem estava pilotando
o aparelho?
— Foi o tal
do Tifflor — cochichou Rous com os lábios secos.
— Ah, então
foi isso. Muito bem. Fim.
A tela se
apagou. Só o chiado dos microfones do telecomunicador continuou a encher o
recinto.
O sargento
Rous se virou lentamente no assento. Seus olhos escuros pareciam pedras de gelo
quebradiço. Perdera todo senso de humor.
— Tifflor, o
que é que andou fazendo? Fale logo! Fale imediatamente! Por que o chefe
resolveu convocar um cadetezinho como você ao edifício do governo? O que houve?
Tiff sentiu
que seus olhos se enchiam de água e as palmas das mãos secavam.
— Não faço a
menor idéia, sargento. Com toda a sinceridade, não sei.
— Veremos,
meu caro. Nem queira saber o que será feito de você se, por alguma bobagem,
você fez a caveira de meu grupo de exame. Se foi isso, você já era um aluno da Academia Espacial.
Eberhardt, tome a direção do espaçoporto de Gobi. Aceleração máxima.
Um objeto
refulgente disparou a toda velocidade em direção à foice nitidamente
perceptível que representava a Terra. Para um destróier que se deslocava à
velocidade da luz, uma excursão à Lua era apenas um pulo, uma questão de poucos
instantes.
O cadete
Julian Tifflor, geralmente chamado de Tiff, sentiu o coração palpitar. Ficou
refletindo; por que cargas d’água o chefe queria vê-lo pessoalmente? Nunca
houvera uma coisa dessas. O que diriam os alunos da Academia Espacial?
Estremeceu
ao se lembrar do escárnio e da compaixão com que seria recebido pelos colegas.
Não havia a menor dúvida: alguma coisa não devia estar certa. Um cosmonauta da
nova geração não seria convocado ao santuário sem mais nem menos. Nuvens
ameaçadoras surgiram no horizonte da imaginação de Tifflor.
* * *
O homem alto
desligou o telecomunicador. Com uma expressão pensativa, Perry Rhodan,
presidente da Terceira Potência, olhou para a tela que se apagava.
“Esse rapaz
deve estar perto de um
colapso nervoso”, recriminou-o a voz do subconsciente. “Você poderia ter-lhe dito
isso em outra oportunidade e de outra maneira.”
Rhodan
levantou a cabeça. Reginald Bell, companheiro fiel e consagrado em numerosas
ações, que desempenhava as funções de ministro da segurança da Terceira
Potência, fazia uma figura insignificante naquela sala gigantesca.
Tinha os
lábios cerrados. Lançou um olhar contrariado para o chefe, que continuava
sentado. Bell era um dos homens que pareciam impiedosos sempre que um cadete se
achasse presente. Mas, quando falava a respeito deles, mostrava um coração de
ouro.
Rhodan
sorriu de forma quase imperceptível. Era evidente que mais uma vez conseguira
descobrir os pensamentos íntimos daquele homem de ombros largos.
— Tifflor
não tem nervos — murmurou Rhodan em tom pensativo. — Já tivemos oportunidade de
conhecê-lo nas ações empreendidas contra o chamado Supercrânio. Tifflor agiu
com uma tática inteligente. Terei que lhe confiar outra missão, uma missão
muito dura.
Reginald
Bell aspirou ruidosamente o ar. Seu rosto largo se tornou ainda mais anguloso.
— OK. Estou
de acordo, mas só se você lhe der todas as informações.
A testa de
Rhodan se franziu. Levantou-se muito devagar atrás da enorme mesa, que mais
parecia um complicado painel de instrumentos que uma escrivaninha. Quando se
encontrava ao lado de Bell, os olhares dos dois homens se encontraram.
— Não
devemos nos iludir — disse Rhodan com certa ênfase. — O rapaz só poderá saber
de tudo quando sua missão estiver concluída.
— Você vai
arrancá-lo em meio aos exames finais.
— Terei
muito prazer em assinar seu diploma, assim que a missão esteja concluída.
Os ombros de
Bell desceram. Lançou um olhar inexpressivo para as inúmeras telas que existiam
naquela sala, o centro nervoso da Terceira Potência.
Com voz
hesitante disse:
— Acho que
você não se sente nada feliz com o desaparecimento de três unidades de nossa
frota espacial, não é?
Rhodan
exibiu seu sorriso, que já se tornara célebre e temível. Era tão meigo que não
podia ser convincente.
— Adivinhou!
Alguém que nos é desconhecido começou a se interessar por nós. Aquilo que
procurei evitar durante anos acabou acontecendo: a descoberta da Terra e do
sistema solar por inteligências desconhecidas. Já está provado que não se trata
dos Deformadores Individuais.
Bell se
lembrou daqueles seres estranhos, com os quais tiveram que se defrontar pouco
depois da instalação da Terceira Potência. Desta vez as coisas pareciam mais
sérias.
A grande
nave auxiliar K-l, da classe Good Hope, estava desaparecida, além de dois
destróieres espaciais. Para Rhodan tais fatos bastavam para desencadear uma
atividade imediata.
Seres
desconhecidos surgiram de um instante para outro e logo desapareceram. Não
havia a menor dúvida de que estavam informados sobre a existência do planeta
Terra e, portanto, da Humanidade.
O serviço de
escuta de rádio de Rhodan captara misteriosos impulsos ligeiros transmitidos à
velocidade superior à da luz. A decifração não produzira qualquer resultado.
Tratava-se de grupos simbólicos codificados, aparentemente formados de maneira
inteiramente arbitrária para designar vários conceitos.
Portanto,
Rhodan não tinha a menor dúvida de que havia agentes de um poder estranho na
Terra. Nem mesmo através da atuação dos extraordinários mutantes, que compunham
um destacamento especial do exército, fora capaz de localizar por via
telepática qualquer desses agentes. Até parecia bruxaria. Tinha-se a impressão
de que sombras provindas do nada se haviam espalhado sobre a Terra; sombras que
não se podiam ver nem tocar, apenas imaginar.
Rhodan se
dirigiu ao videofone mais próximo. Fez a ligação. O rosto do Dr. Haggard
apareceu na tela. Haggard era ministro da saúde da Terceira Potência e chefe da
Clínica Arcônida, que adquirira fama mundial, e funcionava segundo os padrões
arcônidas.
— Nosso
homem chegará dentro de duas horas — disse Rhodan em tom lacônico. — O Dr. Kärner
já viajou?
— Saiu há
cerca de três horas. Eu irei dentro de dez minutos. Acho que conseguiremos.
Rhodan não disse
mais nada. Fez um gesto para o receptor ótico e desligou.
— Então você
vai arriscar? — disse Bell, esticando as palavras. — Acho que terá um osso duro
de roer. Devíamos lhe perguntar se está de acordo.
— Se houver
qualquer vestígio do acontecimento armazenado em sua memória, correrá um perigo
maior do que aquele que enfrentará se for mantido na ignorância. Faremos uma
pequena brincadeira cósmica, meu caro.
Bell enfiou
o boné protetor sobre a cabeça. Pisando fortemente, caminhou em direção à
escotilha blindada da sala de trabalho e comando.
— Ninguém
mais quer saber da opinião da gente — resmungou. — OK, então faça seu joguinho.
Para mim isso não passa de uma idéia maluca. O ataque ainda é a melhor defesa.
— Onde
poderíamos atacar, e a quem poderíamos atacar? — perguntou Rhodan com a voz
controlada.
Bell cerrou
os lábios e desapareceu, soltando uma praga.
O problema
era justamente este. O que podia ser atacado, se não se tinha nada de palpável
à frente?
Registrava-se
o dia 28 de junho quando Perry Rhodan, depois de avaliar cuidadosamente os
dados disponíveis, acionou um esquema de cujos efeitos ninguém estava
informado, a não ser o próprio Rhodan.
Era um
esquema grande e potente. Apesar disso poderia se quebrar com a mesma rapidez
com que fora elaborado por Rhodan.
28 de junho.
Era o grande dia em que o presidente da Terceira Potência interveio com mão de
ferro no espaço cósmico. Seria registrado como um dos momentos mais importantes
da história da Humanidade. Mas naquela época ninguém imaginaria que aquele era
um marco histórico. O homem ainda era um ser fraco e pequenino, inferior a
vários seres do universo no terreno científico e tecnológico. Mas tinha uma
qualidade que pouquíssimas inteligências poderiam apresentar: uma iniciativa
imensa, a intrepidez, a coragem e uma tremenda curiosidade.
Rhodan
contava com isso, e não estava errado.
2
O cadete Julian
Tifflor olhou para o relógio. Levou um segundo para perceber que o tremor
incessante dos ponteiros provinha dos seus olhos. Engolindo em seco, foi ao espelho
do armário embutido e lançou mais um olhar sobre o uniforme.
Evidentemente
teria de vestir uniforme para comparecer diante do chefe. E neste se incluía a
arma manual, o capacete com rádio e o cinto de múltipla finalidade.
Humpry
Hifield, um tipo louro sem inibições nem complexos perceptíveis, estava atirado
numa posição desleixada sobre seu colchão de espuma.
Hump sabia
perfeitamente em que ponto levava vantagem sobre Tifflor. Se este era
considerado o gênio matemático da Academia Espacial, não havia a menor dúvida
de que Humpry Hifield saíra vitorioso nos últimos campeonatos de boxe. Para
Hump a cosmomatemática e o boxe eram disciplinas praticamente idênticas. Para
Tiff era um azar ter de ocupar justamente o mesmo quarto que Hifield.
— Calma,
rapaz, calma — resmungou o cadete Eberhardt em tom de advertência. Era o
terceiro ocupante do aposento. Fungando e repuxando seu cinto muito apertado,
colocou-se ao lado de Tifflor, cuja raiva momentânea logo se desvaneceu. Olhou
para o colega; parecia desorientado.
— Certamente
vou desmaiar quando estiver diante do chefe — confessou em tom sombrio.
Hump Hifield
se ergueu do leito. Aproximou-se a passos balouçantes, com as enormes mãos
enterradas nos bolsos. Tinha a altura de Tifflor, mas quase o dobro da largura deste.
— Sempre
vivo dizendo que uns tagarelas sonhadores não servem para o espaço. Antes que
você vá, preciso da equação do campo protetor que retrate as relações entre a
micromatemática espacial e um campo gravitacional superposto. O que me diz?
O sorriso de
Hump se tornou mais largo. Suas mãos balançavam junto ao corpo.
— Que diabo!
Não tenho nada com isso. Procure descobrir a equação — disse Tiff indignado,
engolindo em seco.
— Isso dá
muito trabalho — disse Hump, esticando as palavras. — Você ainda dispõe de uma
hora. Minha aula começa daqui a trinta minutos.
— Que tal se
você encostasse o punho no rosto desse aprendiz de matemática que é um
fracalhão? — perguntou Eberhardt.
Virou o
corpo gordo e baixo. Hump estreitou os olhos.
— Não se
meta nisso, gorducho — advertiu-o Hifield. — Quando eu estiver falando, chegou
a hora de você calar a boca. Entendido?
— Fiquem
quietos — interveio Tiff em tom nervoso. — Que diabo! No momento tenho outros
problemas.
— Vejam só!
O pintinho está xingando — disse Hump em tom de espanto. — Será possível?
Tiff cerrou
fortemente os olhos. A gargalhada do outro o atingiu profundamente.
— Ainda
chegará o dia em que alguém lhe fechará essa boca grande — disse Eberhardt numa
estranha frieza. — Quando isso acontecer, você nunca mais abrirá a boca. Que
equação, que nada!
— Você vai
contar ao diretor? — perguntou Hump num cochicho.
Seus ombros
se inclinaram para a frente.
Descontraiu-se
num golpe quando alguém bateu à porta. De um instante para outro um sorriso
jovial surgiu em seu rosto.
Eberhardt
lhe deu as costas.
— É o tipo
do ciclista — chiou. — Para cima torce o corpo bem bonitinho, não é? É mais
fácil dar as pisadas para baixo.
Os cadetes
entraram em posição de sentido. Mas não era nenhum superior.
— Posso
entrar? — disse uma voz clara.
— É proibido
— apressou-se Tiff em responder. — Santo Deus, não crie uma situação
inconveniente para você mesma. O lugar das moças não é aqui.
Mildred Orson,
estudante de bacteriologia cósmica do Instituto de Biologia Cósmica da Academia
Espacial, atirou os cabelos pretos na nuca, num gesto todo seu. Entrou com um
movimento lânguido.
Sem dizer
uma palavra, examinou Tiff com os olhos críticos.
— Vire-se —
comandou. — Hum, o cinto está torto de novo. Vim para avisar que Deringhouse
vai examiná-lo pessoalmente. Na coronha de sua arma há uma mancha escura. Isso
é mau, meu caro, muito mau. Aliás, o quarto de vocês parece um alojamento de
selvagens.
Tifflor
estava tremendamente embaraçado. Seria um bom sinal aquela atitude da moça?
Milly Orson, estimada por todos, tão interessada no seu bem-estar pessoal!
— Vou... vou
tirá-la — prometeu apressadamente. — Por favor, vá embora. Se pegarem você no
setor dos cadetes, haverá dificuldades.
A mania de
justiça de Milly festejava triunfos espontâneos. Era uma daquelas pessoas que,
por causa de um cachorro magro, querem destruir o mundo.
Seus olhos
escuros chispavam fogo. Tiff se encolheu.
— Não é
justo que um rapaz seja tratado dessa forma — disse cheia de indignação. —
Klaus me disse como a ordem foi transmitida a você. Ao que parece o chefe não
sabe o que arrumou com isso. Pois bem, alguém tem de cuidar do seu bem-estar.
Conseguimos convencer o sargento Rous de que alguém tem que dar uma olhada no
seu uniforme. Olhe só essa bota. Está borrada de chocolate.
Tiff virou a
cabeça para baixo. Logo a seguir seus olhos passaram a encarar Hifield, em cujo
rosto se via um sorriso de deboche.
— Eu as
engraxei muito bem — disse Tifflor fora de si. — Você é mesmo um sujeito muito
falso. Há dez minutos comeu chocolate. Foi você que borrou minhas botas. Eu...
— Silêncio —
gritou Milly, antes que Tiff pudesse se atirar sobre Hump, que o aguardava em
postura relaxada.
— Será que
todo mundo ficou louco? Hump, essa história do chocolate é verdadeira? Se for,
permita que lhe diga que você é um patife nojento.
— Não gosto
de gente prosa — confessou Hifield em tom odiento. — O sujeito vive gritando
aos quatro ventos que tem de comparecer diante do chefe.
— Recebi ordem
para isso — berrou Tiff. — Não sei por quê...
O estalo no
alto-falante fez com que o cadete se calasse. Hump foi o primeiro que ficou em
posição de sentido. Imóvel, fitou a tela do videofone embutida na parede, onde
acabava de surgir o rosto do major Deringhouse. Deringhouse exercia as funções
de chefe da Associação de Ensino Espacial. No momento a turma que estava
prestes a concluir o curso da Academia Espacial lidava quase exclusivamente com
ele.
Milly deu um
grande salto para se colocar fora do alcance do receptor ótico. Muito pálida,
se escondeu atrás da porta do armário.
— Cadete
Tifflor, está pronto? — ressoou a voz vinda do aparelho.
Tiff
adiantou-se um passo.
— Sim senhor
— confirmou com a voz rouca.
— Está bem.
Venha imediatamente ao meu escritório. Peço que apareça decentemente trajado,
senão o diabo o carregará para o inferno. Não há mais alguém no seu quarto?
Tiff quase
destroncou os olhos.
— Não... não
senhor — mentiu.
— Seja o que
quiser. Mas, se essa dama for de opinião que deve dar o último retoque aos seus
trajes, convém que apareça. Ainda falaremos a este respeito, Tifflor. Fim.
Deringhouse
desapareceu. Milly saiu de trás da porta. Tremia como uma vara verde.
— Santo
Deus, o homem me viu — gemeu. — Paciência; só podemos aguardar os
acontecimentos. Passe para cá o sapato. Klaus, preciso de uma flanela.
— Prefiro
dar o fora — observou Humpry Hifield.
— Está com
medo, hein? — chiou Eberhardt. — O mui honrado senhor Hifield, estudante, que
está cursando o último semestre da Academia Espacial, poderia ser descoberto ao
fazer uma coisa proibida. Desapareça da minha vista!
Humpry deu
de ombros e saiu. Alguns minutos depois, o capacete-rádio esférico foi enfiado
embaixo do braço de Tiff.
— Muito bem;
não se esqueça de respirar — disse Milly.
Tiff saiu
cambaleante e se dirigiu ao elevador gravitacional. Entrou tão desajeitadamente
que aterrizou de barriga no hall. O sargento Rous quase chegava a chorar.
—
Levante-se, homem — gemeu. — Vá correndo, vá pulando. Não consigo olhar para
você sem ter um ataque.
Tiff pôs as
longas pernas em movimento. Apavorado, correu pelo longo corredor que dava para
o escritório de Deringhouse.
— A arma! —
uivou Rous atrás dele. — Com os mil demônios! Não é que o sujeito esqueceu a
arma no elevador?
Tiff se
transformou num artista. Girou no ar, disparou em sentido contrário e arrancou
o radiador de impulsos das mãos do instrutor de vôo, soltando uma observação
totalmente incompreensível.
Rous seguiu
o cadete com os olhos. Sentia-se profundamente abalado. Isso ainda poderia
ficar muito divertido.
* * *
Para Julian
Tifflor a impressão de fim de mundo começou no instante em que um robô arcônida
de combate o conduziu através da estreita comporta do gigantesco campo
energético em forma de esfera.
Em meio ao
espaço coberto pelo campo energético erguia-se o palácio do governo da Terceira
Potência. Perto dali ficava a abóbada blindada com o cérebro positrônico
instalado no deserto de Gobi.
Passara
pelos rigorosos controles quase inconsciente, como se fosse um sonâmbulo. Agora
se encontrava no gigantesco gabinete de um homem que alguns anos antes, quando
ainda era um simples major da Força Espacial dos Estados Unidos, fizera pousar
a primeira nave tripulada na superfície da Lua.
Esse fato
bastava para transformar Tiff num monte de desgraça. Mas, quando se lembrou das
dificuldades que Perry Rhodan tivera de enfrentar para utilizar o saber dos
arcônidas em benefício da Humanidade, sentiu-se próximo a um desmaio.
Agora se
encontrava diante dele; diante do ídolo, do homem que se transformara numa
figura lendária, e de quem se dizia, à boca pequena, que um poder incomensurável
lhe havia conferido a vida eterna.
Mas havia um
ponto sobre o qual Tiff estava bem informado: as realizações militares e
políticas do chefe, na Terra e em outros planetas. E isso bastava para fazer
com que suasse de medo.
Na sua
posição de extremo cuidado parecia-se com um saca-rolha entortado. Por estranho
que parecesse, as pernas só tremiam abaixo dos joelhos, motivo por que num
pânico crescente Tifflor aguardava o momento do colapso final.
Outros
cadetes teriam se saído melhor numa situação dessas; não havia a menor dúvida.
Provavelmente Humpry Hifield teria se postado como um toco de pau na frente do
chefe; não mexeria um dedo e não sofreria complexos.
Perry Rhodan
realizou um exame demorado e cuidadoso no aluno da Academia Espacial com seus
vinte anos de idade. Ele mesmo já ficara assim diante do comandante da força
espacial; tremendo por dentro, com os músculos endurecidos. Foi naquela época
em que a força espacial havia sido criada sob o comando do general Pounder.
Reprimiu um
sorriso que iria aflorar aos seus lábios. Continuou a reprimi-lo quando John
Marshall, o telepata, que se encontrava presente na oportunidade, lhe
transmitiu a mensagem silenciosa:
“Chefe, daqui a pouco ele cai. Para ele você
é uma espécie de deus.”
Rhodan compreendia
razoavelmente as mensagens telepáticas. Por isso pigarreou e disse:
— Cadete
Tifflor, você foi chamado em caráter particular. Faça o favor de se sentar.
Tiff
cambaleou em direção à poltrona. Quando caiu na mesma, o capacete-rádio
adquiriu sua independência, deixando se levar pela força da gravidade.
O impacto
produziu um ruído tremendo nos ouvidos de Tiff. Apavorado e preparado para
tudo, lançou um olhar para o homem sentado do outro lado da mesa-painel.
— Que chapéu
bonito! — disse Rhodan em tom seco. — Não gosta dele?
Tiff
gaguejou várias afirmações solenes no sentido de que nunca tivera nada contra
os capacetes de serviço. Evidentemente. Antes pelo contrário. Os aparelhos de
radiofonia e comunicação visual embutidos no mesmo eram excelentes e extremamente
úteis.
Rhodan teve
dez minutos de paciência, até que Tiff concluísse os elogios derramados sobre o
capacete-rádio.
John
Marshall se retirou discretamente. O ligeiro aceno de cabeça que deu em direção
a Rhodan dizia tudo. Tudo estava em ordem com o cadete Julian Tifflor. Em sua
consciência não havia nada que tivesse que ocultar de Rhodan.
— Ainda bem
que estamos de acordo — interrompeu-o Rhodan. — Muito obrigado pela minuciosa
explanação. Sabe por que mandei chamá-lo?
Tiff se
calou. Um pouco mais tranqüilo, disse que não. O rosto de Rhodan assumiu uma
expressão indiferente. Aquela indiferença enfatizada deixaria qualquer outra
pessoa desconfiada. Tifflor apenas sentiu o palpitar do coração. Agora a
catástrofe iria desabar sobre ele.
Rhodan tirou
uma folha de papel dobrada de uma pilha de pastas.
— O senhor
seu pai demonstra uma resolução extraordinária. Não é todo dia que alguém
expede um telegrama estritamente particular ao presidente da Terceira Potência.
Neste instante, você entra em licença, cadete Tifflor.
Tiff se
descontraiu para sentir uma tremenda estupefação.
— Um... um
telegrama? — gaguejou, perplexo.
Rhodan fez
que sim. Daquelas explicações não se poderia concluir que o chefe estivesse
disposto a conceder favores especiais ao cadete. Foi a impressão que Tiff teve.
Fitando o cosmonauta da nova geração pelo canto dos olhos, Rhodan notou a
súbita lucidez de seu espírito. O jovem parecia alterado. A insegurança cessara
por completo.
— Sua irmã
se casa hoje. Por causa disso tive tanta pressa.
— Eileen vai
se casar?
— Isso
mesmo. Às dezoito horas, tempo da costa leste dos Estados Unidos. Você
levantará vôo dentro de uma hora. Irá num caça espacial de um tripulante. O
aparelho está sendo preparado. Julga-se capaz de levar essa máquina superveloz
até Nova Iorque sem arrebentá-la pelo caminho?
O rosto de
Tifflor parecia arder. Santo Deus! Iria a Nova Iorque num caça espacial da
Terceira Potência! A notícia era mais que surpreendente. Tiff não disse uma
palavra; limitou-se a acenar com a cabeça. Já não sabia o que dizer.
Rhodan o
contemplou com os olhos pensativos. O telegrama passou de um lado da
escrivaninha para outro. Realmente tratava-se de uma notícia extraordinária.
—
Normalmente o conteúdo deste telegrama nunca teria chegado ao meu conhecimento
— observou Rhodan. — Acontece que pretendo lhe confiar uma missão toda
especial. E para isso o casamento de sua irmã vem a calhar. Não tenho um meio
melhor de enviar um mensageiro especial a Nova Iorque sem chamar a atenção de
ninguém. Você ficará em casa de seu pai até que receba alguma notícia com a
senha porta do céu. Quando isso
acontecer, apresente-se imediatamente a Homer G. Adams, chefe da General Cosmic
Company. Já ouviu falar no senhor Adams?
Tiff soprou
um “sim senhor”. Naturalmente já
ouvira falar em Adams.
— Muito bem.
Você viajará com um passaporte diplomático da Terceira Potência. Além disso,
receberá uma autorização especial, que o habilitará a usar livremente sua arma
sempre que haja algum perigo. Seu caça espacial será registrado por lá. Por isso
não precisa se preocupar com os limites dos Estados Unidos; pode sobrevoar o
país sem quaisquer formalidades. Pouse na nova base espacial de Nova Iorque,
onde nossa gente cuidará de seu aparelho. Uma vez lá, dirija-se imediatamente à
casa de seus pais. Participe da festa de casamento. Mais alguma pergunta?
— Nenhuma —
respondeu Tifflor tranqüilo e senhor de si.
Seu rosto
estreito assumiu uma expressão dura.
Os olhos de
Rhodan se estreitaram.
— Excelente,
cadete Tifflor. Fique logo com este pequeno cilindro de metal. Entregue-o a Mr.
Adams, a mais ninguém. Se qualquer outra pessoa demonstrar interesse por ele,
lembre-se de que tem ordem para atirar. Outras instruções serão ministradas por
Homer G. Adams. Em Nova Iorque estará subordinado a ele. O major Deringhouse
lhe entregará o caça espacial. Além disso, receberá uma arma de verdade. É só.
Muito obrigado.
Julian
Tifflor não formulou outras perguntas. Guardou o cilindro metálico de cerca de
vinte centímetros de comprimento no bolso interno do uniforme, executou uma
continência impecável e caminhou silenciosamente em direção à escotilha que se
abria. Antes de atravessá-la voltou a ouvir as palavras de Rhodan:
— Tifflor,
trata-se de uma missão especial. Não se espante com nada. Caso ache que a
tarefa é arriscada demais ofereço-lhe a possibilidade de desistir após sua
chegada a Nova Iorque.
Tiff
caminhava como um sonâmbulo. Exatamente dez metros antes do primeiro posto de
controle, um robô arcônida de combate lhe entregou uma arma de impulsos
carregada. A arma que costumava carregar mudou de mãos.
Num
escritório lhe foram entregues as credenciais específicas. Dali a quinze
minutos estava de volta ao seu quarto, onde dispunha de outros quinze minutos
para guardar seus pertences pessoais. O cadete Klaus Eberhardt ardia de
curiosidade.
— O que
houve? — perguntou em tom nervoso. — Vamos, fale logo!
— Seu prosa
— resmungou Hifield nos fundos do quarto. — Ficando calado a coisa torna-se
mais interessante, não é? O que é que você tem no bolso? Deixe-me dar uma
olhada.
Tiff trancou
o fecho magnético do uniforme. A cápsula que Rhodan lhe confiara estava em
segurança.
— O que é
isso? Já lhe disse que mostrasse. Eu vou...
Mal percebeu
o movimento fugaz da mão. Em compensação notou perfeitamente que o cano espiral
da arma arcônida emitia um brilho avermelhado.
— Nem um
passo mais, Hump — advertiu Tiff em tom indiferente. — Nem um passo, senão você
já era.
— Será que
você ficou doido? — disse Eberhardt, engolindo em seco e empalidecendo. — Quem
foi que lhe deu esse pau de fogo?
— Não tenho
comentários. Saia do meu caminho, Hump.
Hifield
recuou apressadamente. Sentia que nunca Tifflor havia falado tão sério. Sua
gargalhada insegura soou atrás do cadete que se retirava do quarto.
A vários
quilômetros dali, Rhodan desligou o videofone. Os contornos do aposento de três
camas desapareceram.
— Suas
reações são rápidas e seguras — murmurou Rhodan em tom pensativo. Dirigiu o
olhar para os oficiais da Terceira Potência que se encontravam presentes.
— Bell,
cuide da permissão de ingresso da nave. Allan D. Mercant providenciará o que
for necessário. Freyt, informe Adams de que a decolagem é iminente. Marshall,
você fará com que todo mundo nos alojamentos fique sabendo por que Tifflor voa
para Nova Iorque. É apenas por causa do casamento, evidentemente. O pai de
Tifflor é o advogado criminalista mais conhecido da parte leste dos Estados
Unidos. Ninguém há de se espantar com o fato de eu ter concedido uma licença ao
filho de um homem tão célebre. Quanto ao resto, veremos no devido tempo. O Dr. Haggard
já partiu?
— Sim, o
médico já partiu há bastante tempo.
— Ok. Muito
obrigado. Capitão MacClears, você assumirá imediatamente o comando do cruzador
espacial pesado Terra. Ao major Deringhouse será confiada outra missão. Procure
conhecer a tripulação quanto antes e coloque a nave em condições de decolar no
mais curto espaço de tempo possível. Major Nyssen, você também manterá a nave
Solar System em condições de decolar. Eu mesmo assumirei o controle do
couraçado Stardust-III. Bell, peço-lhe que vá para bordo imediatamente. Irei
depois. Capitão Klein, você continuará a cuidar do serviço de escuta de rádio.
Quero saber se a decolagem de Tifflor, que deve dar na vista de qualquer um,
causará reflexos em qualquer emissora secreta do espaço. Se não estou enganado,
uma criatura inteligente poderá acreditar em qualquer possibilidade, menos na
de que alguém obtém uma licença em plena época de exames finais por causa de um
acontecimento de importância relativamente reduzida. A máquina está começando a
funcionar, cavalheiros.
Rhodan se
ergueu da cadeira. Nas telas de vigilância do espaçoporto surgiu um objeto de
proporções minúsculas. Disparou para o céu azul de Gobi praticamente na
vertical. Alguns minutos depois o ribombar abafado dos jatos chegou ao local.
Julian Tifflor decolara segundo o plano.
O projeto de
Perry Rhodan entrou em sua primeira fase. A avalanche começara a rolar.
— Devíamos
tê-lo informado — resmungou Reginald Bell. — A situação dele poderá se tornar
bastante melindrosa.
— Isso deve
acontecer, e vai acontecer mesmo — afirmou Rhodan em tom pensativo. — Já
discutimos o assunto. Só nos resta aguardar. Tenente Everson, você decolará
exatamente dentro de quatro horas em sua nave auxiliar e tomará a direção do
sistema Vega. Não terá qualquer problema em vencer os vinte e sete anos-luz.
Levará mercadorias comuns, destinadas ao comércio dos entrepostos existentes no
planeta Ferrol. Faremos com que acreditem que, além disso, é portador de
notícias muito importantes. Se tudo sair de acordo com as previsões, perceberão
a mentira e acreditarão que Tifflor é o verdadeiro mensageiro. Decole e
mantenha seu girino em condições de entrar em combate a qualquer instante. Não
estou interessado em que mais uma das nossas preciosas naves com velocidade
superior à da luz seja perdida de forma tão misteriosa.
Markus
Everson não disse uma palavra; limitou-se a fazer continência. Sua tarefa
estava perfeitamente caracterizada. Se fosse atacado em pleno espaço, devia se
concluir que o plano de Rhodan havia sido descoberto. Se completasse a
transição são e salvo, o primeiro obstáculo estaria superado.
Na testa de Rhodan viam-se rugas de preocupação.
Tifflor estava a caminho. Agora tudo dependia das reações do misterioso
inimigo.

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