Nas telas de
visão global do girino, viu-se uma estrela que parecia ter explodido nas
imediações. O fenômeno luminoso ofuscante devia se desenrolar no máximo a meio
milhão de quilômetros de distância, isto é, a menos de dois segundos-luz.
Os
turbilhões horríveis, puramente energéticos, que se formavam nas proximidades
de uma nave que volta a penetrar no espaço, não podiam ser vistos, apenas
sentidos. Um objeto não protegido, por maior que fosse, estaria
irremediavelmente perdido se penetrasse no campo circular atingido pelas
influências desencadeadas por uma nave de grandes proporções que sai da
transição.
E a nave que
tinham diante deles era de grandes proporções. Nas telas de localização ótica,
Tiff percebeu um objeto gigantesco, de formato cilíndrico, cuja proa e popa
apresentava um arredondamento semi-esférico.
Considerando
o tempo que um raio de luz gasta para vencer o percurso, a nave desconhecida
devia ter se rematerializado há cerca de dois segundos.
A ampliação
ótica trouxe a imagem do objeto estranho para mais perto; via-se perfeitamente
o revestimento exterior da mesma.
Chamas
começaram a sair da popa da nave. Tratava-se de feixes energéticos de cor
violeta, que emitiam uma estranha fosforescência, provando que a nave
funcionava com base num mecanismo propulsor de impulsos construído segundo o
modelo arcônida, que era capaz de um elevado empenho.
Tifflor
levou poucos segundos para digerir essas impressões. Depois foi atingido pelas
vibrações extremamente duras do envoltório da nave, transformando-se num montão
lamentoso de carne e sangue.
Sua
inteligência se revoltou. Surgiram aquelas estranhas vibrações do hiperespaço,
que se situam, em parte, na mesma freqüência das emitidas pelo cérebro humano.
Tiff gritou para dar vazão à sua angústia. Todos gritavam com as dores de
cabeça que surgiam a intervalos regulares. Os segundos se transformavam numa
eternidade.
O ruído
ensurdecedor e as sacudidelas continuaram. Embaixo da sala de comando, os
reatores das usinas de força começaram a uivar. Se não conseguissem manter em
nível adequado o suprimento de energia dos campos de defesa, que constituíam a
única proteção, ao menos a parte mais débil e menos resistente da nave seria
destruída: o elemento humano.
— Santo
Deus! — cochichou Tifflor, martirizado. — Isso não! Oh, isso não!
6
Os sensores
estruturais dos postos de observação das unidades pesadas não se queimaram, mas
foram forçados até o limite máximo de sua capacidade.
Perry Rhodan
não aguardou qualquer aviso do hiperespaço. As experiências desagradáveis
colhidas em numerosos vôos permitiam-lhe compreender o gracejo de mau gosto que
alguém se havia permitido.
Os efeitos
da manobra de penetração no espaço não foram sentidos pelas unidades do grupo
comandado por Rhodan. Só os sensores estruturais sofreram certos danos.
As três
naves estavam bem espalhadas nas proximidades da órbita de Urano. A distância
entre elas e a Good Hope-IX era de cerca de três bilhões de quilômetros. Era
uma distância muito curta para a transição e muito longa para um vôo a uma
velocidade próxima à da luz.
Perry
Rhodan, que só a contragosto admitira a possibilidade de um ataque de surpresa
através de uma transição de adaptação, via-se na contingência de encarar a mais
desfavorável de todas as hipóteses sob a forma de realidade consumada.
Não deu
atenção ao praguejar de seu representante. Reginald Bell estava fora de si. Ao
ouvir o rugido dos sensores estruturais, deu-se conta de que havia acontecido
exatamente aquilo que, ao contrário de Rhodan, previra com a força da
evidência.
O inimigo
desconhecido preferira não correr o risco de num vôo normal caçar o girino, que
quase atingia a velocidade da luz. Uma manobra desse tipo seria loucura
rematada, pois todo mundo tinha certeza de que uma batalha espacial travada
junto à barreira da luz era extremamente difícil, ou melhor, quase
impraticável.
— Ai está! —
gritou, superando o rugido dos sensores. — Aproximaram-se num salto ligeiro. Se
também dermos um salto nas proximidades, a Good Hope-IX se esfacelará. Não
agüentará tanta coisa! Não agüentaria sequer um único cruzador que penetrasse
no espaço nas suas proximidades.
Rhodan já
compreendera aquilo que Bell acabava de exprimir em voz alta.
Seus dedos
tocaram o hipercomunicador. Os cruzadores pesados Terra e Solar System se
encontravam numa distância de três minutos-luz, no mesmo plano espacial, nas
posições verde e vermelha.
— Rhodan para MacClears e Nyssen. Instruções:
Sigam-me em vôo normal e visual. Mantenham o curso exatamente na direção da
Good Hope-IX. Saltarei sozinho com a Stardust-III. Aguarde minhas ordens antes
de iniciar a transição de curta distância. Em nenhuma hipótese mergulhem ao
mesmo tempo. Sairei do hiperespaço a dois minutos-luz da Good Hope-IX. Não há
dúvida de que agüentará isso. Fiquem atentos à situação. Fim.
Bell se
espantou. Era uma situação improvisada, típica de Rhodan. Os êxitos deste foram
devidos unicamente às decisões instantâneas, que esgotavam os limites do
possível até a última gota.
Realmente, a
Good Hope-IX não correria nenhum perigo se o supercouraçado saltasse do espaço
superior para o universo normal a uma distância de dois minutos-luz. Afinal,
dois minutos-luz representavam uma distância de cerca de trinta e seis milhões
de quilômetros.
Rhodan
também poderia ter optado por uma distância de meio minuto-luz. Isso ainda
ficaria no âmbito daquilo que a Good Hope-IX era capaz de suportar.
Mas ainda
neste ponto Rhodan calculara rapidamente e, num raciocínio instantâneo, pesara
todas as circunstâncias. Devia-se contar com certa margem de erro. Nenhum ser
pensante do universo e nenhum aparelho automático, por mais aperfeiçoado que
fosse, poderia calcular um salto tão complicado com a precisão de um
quilômetro. Isso resultaria, quando menos, da inevitável tolerância que tinha
de ser admitida nos propulsores e nos campos estruturais. Rhodan tinha de se
fixar na distância de dois minutos-luz. Não tinha outra alternativa. Se
realizasse um vôo normal, à velocidade da luz, chegaria tarde ao local do
ataque. E o fato de que se tratava de um ataque era tão certo como a existência
de icebergs na Groenlândia.
Os
tripulantes do supergigante de oitocentos metros de diâmetro se puseram a
trabalhar. Os dados aproximados, já disponíveis, foram convertidos com uma
rapidez espantosa em valores precisos. O imenso cérebro positrônico do
couraçado da classe Império deu mostras de sua capacidade.
Apesar
disso, demorou cerca de seis minutos até que os dados finais pudessem ser
introduzidos no dispositivo automático do hipersalto. Só então a Stardust-III
estava preparada para entrar em ação.
— O
comandante para todos os tripulantes — soou a voz retumbante vinda dos
alto-falantes. — A transição será realizada dentro de vinte e quatro segundos.
Esforcem-se para que a recuperação do choque transacional seja imediata.
Ninguém deve atirar sem minha autorização. Assumirei o comando pessoalmente.
Para a sala de máquinas: preparar a injeção de massa de apoio. Devemos ser um
pouco mais rápidos que as outras naves. Atenção. Saltar!
Logo se
sentiu o solavanco duro da transição, que rompia as moléculas. A última palavra
de Rhodan, ao se apagar, ficou presa em alguma coisa que os hiperfísicos
arcônidas costumavam chamar de forma estrutural despadronizada. Só quem
dispusesse do saber arcônida poderia transformar esse conceito em dados
matemáticos. Os homens da Terceira Potência tinham esse saber.
A imensa
Stardust-III, reduzida a um fenômeno luminoso tremeluzente, desapareceu da
estrutura espaço-temporal. Os cruzadores pesados preferiram não registrar o
salto nos sensores estruturais. O impulso de deslocamento de um gigante desses
abalaria um grande setor do espaço.
* * *
Dos robôs
arcônidas costumava-se dizer que seus cérebros mecânicos eram supersensíveis.
Ao que parecia, a opinião não era verdadeira: foram justamente esses robôs os
primeiros a se recuperarem do choque.
Quando
homens como Conrad Deringhouse e o sargento Rous, ainda semiconsciente, estavam
pendurados nos cintos de segurança, os tripulantes mecânicos já haviam começado
a trabalhar. A outra nave já se encontrava muito próxima. Os instrumentos de
bordo revelaram que a distância não ultrapassava um segundo-luz. Eram cerca de
trezentos mil quilômetros, mas para os cosmonautas de Rhodan isso não passava
de uma insignificância.
Uma arma de
impulsos vencia essa distância em 1,23485 segundos. Portanto, não representava
uma verdadeira distância, mas uma aproximação muito perigosa, que praticamente
não deixava margem para qualquer manobra.
E, o que era
pior, a nave estranha desenvolvia praticamente a mesma velocidade. Naturalmente
emergira no hiperespaço a uma velocidade que se aproximava da da luz.
O rugido
surdo provocado pelos disparos de uma das torres arrancou o major Deringhouse
de sua dolorosa apatia. Quando conseguiu enxergar, percebeu, na torre César,
que os impactos eram terríveis.
O forte
recuo da peça fez com que a Good Hope-IX girasse em sentido contrário ao dos
disparos. O giroscópio logo corrigiu o desvio, mas de qualquer maneira se
tornou necessário corrigir o desvio de uma fração de um milésimo de grau
através de um movimento giratório das torres.
Foi por isso
que Deringhouse não pôde comprimir imediatamente os botões que acionavam as
armas. O cérebro positrônico ainda não emitira o sinal vermelho.
Com os olhos
tensos procurou descobrir os efeitos do impacto. A nave desconhecida, que o
amplificador fazia aparecer com o tamanho de uma mão humana, mostrou uma reação
extremamente violenta.
Nos campos
energéticos surgiu uma incandescência apavorante. Não havia dúvida de que a
violência do impacto fizera girar a popa, muito embora o raio térmico
propriamente dito evidentemente não conseguira romper os campos energéticos.
Mas os
sinais do impacto eram tão desastrosos que Deringhouse soltou uma longa
exclamação.
Seus olhos
se estreitaram. A pontaria automática deu sinal de fogo. Todas as lâmpadas
vermelhas se acenderam.
O comandante
poderia ter tocado todos os botões de uma só vez, usando os dez dedos. Não era
necessário dizer a um piloto da classe de Deringhouse o que sobraria, nesse
caso, da nave desconhecida.
Tifflor
soltou um grito de decepção quando viu que o major só tocou um dos botões. E
nem sequer escolheu o do pesadíssimo radiador de impulsos da calota polar
inferior.
Só disparou
um dos canhõezinhos situados na saliência da zona equatorial da nave. O barulho
foi infernal, mas o efeito forçosamente seria nulo.
Esse canhão
era usado quando se queria perguntar gentilmente
quem era a outra pessoa.
Apesar do
berreiro desesperado dos cadetes, o major Deringhouse conseguiu exibir um
sorriso que lhe cobria todo o rosto. Até parecia que não tinha diante de si uma
gigantesca nave, de dimensões verdadeiramente impressionantes.
Um raio
energético ofuscante, da grossura de um dedo, correu em direção à Good Hope-IX.
Face à velocidade que desenvolvia, sua percepção ótica só se tornou possível no
último instante.
Os homens
encolheram as cabeças. Um gemido surdo foi ouvido nos alto-falantes de
capacete.
O que se
seguiu foi um verdadeiro fim de mundo. Uma incandescência solar encheu os
campos protetores. Verdadeiras tempestades energéticas afetaram a estrutura
desses campos. O impacto foi tamanho que os dispositivos de absorção de pressão
foram forçados ao máximo de sua capacidade.
Mais uma vez
o envoltório esférico da nave se transformou num sino retumbante, que vibrava
intensamente. Só depois de alguns segundos, que pareceram uma eternidade, a
vibração diminuiu. A incandescência do campo hipergravitacional se apagou.
— As
intenções deles são as melhores possíveis — gemeu Rous para dentro do microfone
de capacete. — Se essa gente disparar uma salva, nós já éramos.
— Atire,
atire logo! — gritou alguém fora de si. Num movimento instantâneo Tiff virou a
cabeça. Humpry Hifield, que gostava de bancar o homem forte e superior, estava
pendurado no cinto de segurança, sacudido de convulsões.
A Good
Hope-IX estava transformada num verdadeiro inferno. E Tifflor estava firmemente
convencido de que bastaria Deringhouse disparar em salvas para liquidar o
desconhecido.
Por que,
santo Deus, por que o major se limitava a brincar com o ridículo canhão da zona
equatorial da nave? Qualquer um notaria o absurdo. Afinal, aquele estranho dera
a entender de forma inconfundível que suas intenções não eram nada amistosas.
Quando o
segundo impacto atingiu os campos protetores da Good Hope-IX, a situação se
tornou ainda mais perigosa. E o agravamento veio quando os telegrafistas
informaram que os ocupantes da outra nave não davam a menor atenção às
mensagens não codificadas que lhes eram dirigidas.
Quando os
efeitos do impacto cessaram, o rosto do major Deringhouse apresentava certa
palidez. Deu um aceno de cabeça em direção a Rous. Foi tudo. Dali se concluía
que os dois homens haviam combinado tudo antes do início da batalha. Se não
fosse assim, o sargento não teria concebido a idéia louca de confundir a Good
Hope-IX, que afinal tinha um tamanho bem regular, com um simples caça tripulado
por um homem.
Ligou os
controles manuais. Apenas o dispositivo de absorção de pressão continuou sob
controle mecanizado. Até chegou a cuidar pessoalmente dos propulsores e iniciou
alguma coisa que chamou de manobra desviacionista.
Se Tiff
soubesse que Perry Rhodan em pessoa se encontrava num ponto bem próximo, com
uma potente força de combate, talvez poderia compreender a ação turbulenta de
Rous. O sargento quis ganhar tempo.
Deringhouse
não atirava de verdade; tudo indicava que não tinha interesse em destruir a
nave desconhecida. Não se mata uma pessoa da qual se espera obter algum
esclarecimento.
A voz de
Deringhouse superou o uivo dos reatores, que trabalhavam com um desempenho
absurdo.
— Mantenham
os cintos atados. É possível que vez ou outra os campos de absorção sejam
atravessados. Ninguém deve soltar os cintos.
As estrelas
que apareciam na tela transformaram-se em figuras rodopiantes. O curso tomado
por Rous não poderia ser calculada por qualquer dispositivo automático, por
melhor que fosse. Isso só podia ser feito por um ser pensante, dotado de vida
orgânica.
Os feixes de
incandescência passavam junto à Good Hope-IX, que dançava de um lado para
outro. Só mesmo por acaso poderia ocorrer um impacto.
Tifflor se
limitou a observar o rosto tenso de Rous. Resolveu dizer oportunamente ao
sargento que, em comparação às suas peripécias, a manobra de aproximação à Lua
por ele realizada não passava de uma brincadeira inocente.
Ficou
mergulhado nessas reflexões que se afastavam totalmente da situação em que se encontravam.
Subitamente o ranger agudo atravessou a nave. Um solavanco apavorante passou
pela Good Hope-IX. O trovejar dos propulsores continuou, mas a eles se uniu uma
tremenda pressão, que lembrava os tempos primitivos da cosmonáutica.
A pressão
subiu rapidamente para 3, 6 e 8 g. Nesse instante a direção manual foi
substituída automaticamente pelos controles de segurança.
O cérebro
positrônico desligou todos os propulsores. A energia liberada foi transferida
para o mecanismo de absorção de pressão. A pressão martirizante diminuiu e logo
cessou.
Com um
gemido, Deringhouse se ergueu da poltrona. Alguns dos cadetes haviam desmaiado.
Quando os
olhos injetados de sangue de Tiff voltaram ao normal, ele apenas conseguiu
gemer. A nave desconhecida encontrava-se bem próxima à Good Hope-IX, a essa
hora reduzida à impotência.
— Um raio de
sucção; que porcaria — soou uma voz nos alto-falantes de capacete. —
Conseguiram nos pegar. Rous, dê a potência máxima aos propulsores. Temos de
sair do campo de sucção, senão estamos liquidados.
O sargento
manipulou desesperadamente as chaves, mas o mecanismo automático já não reagia.
A bordo da nave desconhecida devia haver gente muito inteligente. Ao que
parecia, sabiam perfeitamente que os controles de segurança se concentravam
exclusivamente na estabilidade do campo de neutralização de pressão. Bastava
que mantivessem o raio de sucção pouco abaixo do limite máximo para que as
máquinas não pudessem ser ligadas.
Uma
luminosidade ofuscante passou pelas telas quando os campos protetores das suas
naves entraram em contato. Na Good Hope-IX as chaves automáticas de segurança
se desligaram, o que provava cabalmente que a nave maior possuía máquinas mais
potentes.
No último
instante Deringhouse tirou os dedos de cima dos botões de acionamento das
armas. Se disparasse a essa hora, o girino estaria liquidado.
A manobra de
aproximação do estranho foi executada com uma perícia impressionante. Pilotos
muito experientes deviam se encontrar junto aos painéis de controle. O longo
corpo da outra nave logo cobriu as telas de estibordo. A bordo da pequena nave
esférica quase todo mundo gritava.
Deringhouse
correu para a sala de telegrafia. A Good Hope-IX continuava presa ao potente
raio de sucção do desconhecido. Nem se poderia pensar numa fuga, a não ser que
na outra nave houvesse algum descuido.
— O inimigo
está pondo sua nave em movimento — berrou alguém pelo rádio de capacete. —
Carrega-nos consigo. A aceleração é muito elevada. Cuidado!
Tiff viu que
Deringhouse falava apressadamente para dentro do microfone do grande
telecomunicador. Os feixes luminosos da antena direcional estavam em posição
paralela. Era o sinal violeta, que indicava que apenas a Terra poderia ser
atingida pela transmissão.
A pressão
crescente voltou a ser sentida. A aceleração devia ser ligeiramente superior a
500 km/s2. Não havia como pôr as máquinas da Good Hope-IX a
funcionar. Rous manipulava as chaves que nem um louco. Era impossível enganar a
regulagem positrônica de catástrofe. Estava programada para proteger antes de
tudo a vida dos que se encontrassem a bordo da nave. Todo watt que os reatores
de energia conseguiram produzir foi destinado aos campos de absorção. Por isso
os agregados auxiliares dos propulsores não recebiam a energia necessária ao
seu funcionamento.
Deringhouse
mal conseguiu se deixar cair num assento que logo se colocou na horizontal
antes que a pressão chegasse a um nível perigoso.
Tifflor
respirava com dificuldade. Viu bem ao longe o rosto de Rous, que se
transformara numa careta. Eram as deformações típicas da musculatura.
Segundo os
cálculos de Tiff, a pressão devia atingir 10 g acima do limite de tolerância
quando o zumbido ensurdecedor soou nos controles do sensor estrutural. Uma nave
enorme devia ter emergido do hiperespaço.
Os
rastreadores, que continuavam a funcionar, mostraram a enorme esfera reluzente
de um couraçado da classe Império. A Stardust-III havia chegado.
Tiff ouviu o
riso entrecortado do comandante. De um instante para outro o cadete compreendeu
o jogo de Conrad Deringhouse. Seu grande trunfo era a Stardust-III. Restava
saber se Perry Rhodan chegara em tempo.
O veículo
espacial do desconhecido entrou numa aceleração tresloucada, o que se tornava
fácil em virtude da velocidade já adquirida.
A pressão
subiu para 11 g. Logo se sentiu a pressão mortificante da desmaterialização,
que Tifflor esperara no subconsciente.
Era claro...
a enorme nave injetara novas quantidades de massa de apoio e, juntamente com a
Good Hope-IX presa a ela, resolvera executar a manobra de transição.
Os traços do
rosto de Rous se desvaneceram. Só restou uma nebulosa pálida sem contornos
fixos. Ouviu o chiado e o sussurro suave da transição.
Tudo
indicava que uma coisa inesperada e surpreendente acabara de acontecer.
7
Perry Rhodan,
que costumava ser chamado de reator
instantâneo pelos psicólogos da Força Espacial dos Estados Unidos,
compreendeu numa fração de segundo.
Quando a
Stardust-III reentrou no universo normal, a nave estranha foi captada
imediatamente pelos raios dos rastreadores automáticos e projetada nas telas.
Rhodan levou
cerca de um segundo para vencer o choque da rematerialização. Só depois disso
se encontrava verdadeiramente presente.
O
dispositivo positrônico de medição indicou a distância entre as duas naves:
1,9356 minutos-luz. O salto fora realizado com muita precisão; apenas,
gastara-se um minuto a mais para sair do hiperespaço.
O rugido
medonho dos gigantescos propulsores irrompeu em meio às reflexões de Rhodan. O
engenheiro-chefe, Manuel Garand, agira com muita rapidez e precisão ao cumprir
as instruções que lhe haviam sido ministradas antes do salto.
O supercouraçado
entrou em movimento. Em poucos segundos atingiu o limite máximo de deslocamento
à velocidade inferior à da luz.
A tripulação
acordou. A sala de interpretação chamou.
— A nave
estranha encontra-se em viagem preparatória do salto. A ocorrência de uma
transição é bastante provável.
Perry Rhodan
ouviu o primeiro-oficial praguejar em altas vozes. Reginald Bell sabia que os
cálculos demorados fizeram com que chegassem pouco depois da hora.
— A Good
Hope-IX deve se encontrar num campo de sucção de enorme potência — completou a
interpretação. — Não é aconselhável disparar contra a nave.
Rhodan já
sabia disso. Agindo rapidamente, sem perder tempo com palavras desnecessárias,
experimentou a última possibilidade.
As torres
escamoteadas do gigante silenciaram. Em compensação nos pavilhões de reatores
eram realizadas regulagens extremamente rápidas. O uivo dos transformadores se
misturou ao ruído dos condutores de força. Quase no mesmo instante o radiador
de tração começou a trabalhar com uma potência que absorveu o suprimento de
energia de quase todas as unidades geradoras da Stardust-III. Um raio gravitacional
de vinte metros de diâmetro, que se propagava à velocidade da luz, saiu do
projetor. Esse campo energético, altamente concentrado, era capaz de arrancar
um astro de pequenas dimensões de sua órbita. A nave desconhecida não teria a
menor chance, nem mesmo levando a massa da Good Hope-IX no reboque energético.
A bordo do
couraçado as discussões acaloradas cessaram. Notava-se perfeitamente a
luminosidade pálida do raio de tração. Era um pouco mais veloz que a
Stardust-III, que já desenvolvia uma boa velocidade.
Assim mesmo
o tempo gasto no percurso foi longo demais. Rhodan foi o primeiro a reconhecer
que não devia se entregar a ilusões.
Antes que o
alvo fosse atingido os sensores estruturais emitiram um ruído. O desconhecido
desapareceu em meio a um turbilhonante fenômeno luminoso.
A mão de
Rhodan bateu na chave de energia. O projetor de tração se apagou.
— Silêncio a
bordo — irrompeu a voz de Rhodan dos alto-falantes. Veio num tom frio e
metálico, que fez até Bell se calar. — Vejo perfeitamente que chegamos tarde. A
Good Hope-IX foi capturada por uma nave muito maior. O que é de admirar é que o
desconhecido tenha conseguido levar para a transição a nave amarrada fora de
sua célula. Estão utilizando a técnica arcônida. Central de observação: fiquem
de prontidão absoluta. O sensor estrutural deve ser regulado para a precisão
máxima. Apurem de qualquer maneira em que ponto a nave desconhecida atinge o
hiperespaço. O salto não deve ser muito longo. Acho que se trata apenas de uma
transição de emergência, realizada sem um objetivo definido, tão-somente para
possibilitar a fuga rápida. Por enquanto basta verificar a posição aproximada
em que ocorreu o mergulho.
As instruções
logo foram confirmadas. Dali a um instante os cruzadores pesados Terra e Solar
System receberam ordens para, dentro de meia hora de tempo padrão, avançar até
a órbita de Plutão.
O major
Nyssen e o capitão MacClears confirmaram o recebimento da ordem.
— Ainda não
desistiu? — perguntou uma voz sonora.
Rhodan virou
a cabeça. Crest, o arcônida, estava de pé a seu lado.
— Nem penso
nisso. Se conseguirmos fixar o ponto de mergulho, poderemos realizar um cálculo
aproximado da posição da nave. Uma pergunta: o formato da nave lhe permitiu
qualquer conclusão sobre quem seja o inimigo com que nos defrontamos?
Crest
sacudiu a cabeça comprida.
— Não; não
consegui chegar a qualquer conclusão. Muitas raças de cosmonautas da galáxia constroem
suas naves nesse estilo. Precisaria de maiores detalhes.
Desapontado,
Rhodan se virou para o painel de controle. Dali a pouco os sensores estruturais
emitiram um leve ruído.
— A
rematerialização acaba de ser levada a efeito — anunciou o posto de observação.
— A distância é grande. Torna-se muito difícil calcular a posição.
— Já conheço
as fontes de erro; muito obrigado — interrompeu Rhodan. — Apurem os valores
aproximados. Juntamente com a equipe matemática cuidarei da obtenção de outros
dados. Crest, peço seu auxílio.
Dali a vinte
minutos os dois cruzadores pesados chegaram ao mesmo tempo. Aproximaram-se a
alta velocidade e realizaram uma manobra de adaptação muito bem executada.
* * *
Rhodan
estava em meio aos seus mutantes. Todos tinham comparecido. Os telepatas
forçavam os sentidos para captar as vibrações intensíssimas que há pouco ainda
repercutiam dolorosamente em seus cérebros.
— Então? —
perguntou Rhodan.
Seu rosto,
que se tornara mais estreito, parecia inexpressivo.
Marshall era
o porta-voz do exército especializado. Ergueu os ombros.
— Chefe, se
Tifflor pode ser localizado a uma distância de dois anos-luz, no momento deve
se encontrar bem mais longe. Não estamos captando mais nada.
— Será que a
proximidade dos tripulantes os incomoda? Se for assim, poderei destacar um destróier
para levá-los a algumas horas-luz espaço afora.
— As
emanações dessa gente não nos perturbam. Estamos acostumados a elas. É bem
possível que o cadete Tifflor tenha perdido qualquer forma de expressividade.
Não conseguimos estabelecer contato.
Rhodan
caminhou lentamente em direção à escotilha. As três naves se encontravam em
plena manobra de frenagem. Ainda faltava determinar a posição de mergulho do
estranho fugitivo com a maior precisão possível. Era uma tarefa tremenda.
Rhodan não se iludia a este respeito.
Os mutantes
olharam-no em silêncio. O plano de Rhodan fora executado segundo seus desejos;
apenas o desconhecido procedera com uma rapidez e exatidão muito maior do que
seria desejável na situação. Desde o início sabia-se que não poderiam ter chegado
ao local mais cedo. Afinal, não era possível seguir nos calcanhares da
nave-chamariz.
Apesar de
tudo, Rhodan estava satisfeito no íntimo. Adquirira a certeza de que no âmbito
da Terceira Potência devia operar uma organização de espionagem de primeira
ordem. Haviam descoberto a missão aparentemente tão importante do cadete
Tifflor.
Mas, por
enquanto, Rhodan nem pensava em liquidar o agente. Antes de mais nada
tornava-se necessário descobrir quem demonstrava tamanho interesse pelo planeta
Terra. Só depois disso poderia tirar suas conclusões sobre o equipamento
técnico e a linha de conduta. Por enquanto ainda estava tateando no escuro.
Rhodan parou
diante do grande elevador antigravitacional do eixo central; parecia pensativo.
Alguns homens fizeram continência. O chefe olhou através deles como se nem
existissem.
Rhodan se
lembrou de que sua melhor arma havia sido colocada em ação. Seu nome era Julian
Tifflor. O emissor embutido no organismo de Tiff funcionaria ininterruptamente.
Se fosse possível se aproximar dele a menos de dois anos-luz, não haveria mais
qualquer problema em realizar a localização por meio do goniômetro.
Seria inútil
para o inimigo se esconder nas montanhas ou nos hangares subterrâneos de mundos
estranhos. Ali estaria ao abrigo de uma localização realizada por meios
técnicos, mas não da que se valesse de recursos puramente espirituais.
Portanto, só
faltava engatilhar a arma secreta chamada Tifflor. O detonador ilusório ainda
teria de ser criado sob a forma de cálculos razoavelmente precisos.
Rhodan se
consolou com a idéia de que afinal poderia se dar ao luxo de uma tolerância de
dois anos-luz. Era muito grande.
Antes de
subir à sala de comando, realizou uma inspeção na sala de comando das máquinas
da nave.
A equipe
técnica dirigida pelo Dr. Manuel Garand realizara um trabalho excelente. As
complexas instalações da grande estação de controle não ofereciam o menor
segredo para eles.
O rosto
bochechudo de Garand se iluminou quando viu o chefe.
— Deseja
alguma coisa? — perguntou no tom alegre de uma criança que acaba de ganhar um
lindo presente.
Rhodan
recuperou o riso. Garand era uma dessas criaturas aparentemente inofensivas,
que em caso de emergência sabiam falar com uma jovialidade toda especial. Se o
engenheiro-chefe Garand estava radiante, o ar devia estar muito carregado.
— Não tenho
nenhum desejo — disse Rhodan em tom enfático. — De qualquer maneira, mantenha
as máquinas em estado de prontidão. Daqui a pouco precisaremos delas. Seria uma
vergonha se não conseguíssemos agarrar o sujeito.
— No que
depender de nós, não haverá nenhum problema — exultou o gorducho. — Aliás,
andei pensando sobre o campo de tração. Gostaria de examinar os dados?
O sorriso de
Rhodan era genuíno.
— Pois então
— disse, esticando as palavras. — Sabia que por aqui devia haver alguma coisa.
Enquanto
Rhodan caminhava em direção ao cérebro positrônico, a Stardust-III atingiu a
imobilidade. Parou a uns duzentos e oitenta milhões de quilômetros da órbita de
Plutão. O Sol, tão familiar, estava reduzido a um pequeno disco, muito pálido.
Ninguém acreditaria que seria capaz de transformar um planeta como Mercúrio num
inferno de fogo.
Na sala de
comando, Bell regulou os controles para a marcha em ponto morto. Resmungando,
se ergueu do assento.
— Gostaria
de saber como vai terminar isso — murmurou. — É o diabo. Preferia ter esse
sujeito diante de um canhão. Assim seria muito mais fácil formular perguntas.
Seria mesmo?
O robô ao
qual foram dirigidas essas palavras não lhe deu a menor atenção. Bell se
lembrou de que não adiantava xingar. Por isso caminhou em direção ao autômato
que fornecia bebidas; parecia bastante contrariado.
No entanto,
tinha a impressão de que, apesar dos contratempos, Rhodan ainda acabaria por
atingir o objetivo.
8
Conheciam perfeitamente
a dor cruciante da rematerialização. Por isso não podiam deixar de perceber
imediatamente que a transição havia chegado ao fim.
A grave
perturbação dos sentidos e as luzes vermelhas que dançavam diante de seus olhos
revelavam que o salto fora muito longo. Efeitos desse tipo só costumavam surgir
quando se percorria num salto uma distância superior a duzentos anos-luz.
Deringhouse
se esforçou para sair da poltrona reclinada. Os outros homens que se
encontravam na sala de comando foram recuperando os sentidos. Os cadetes, que ainda
não estavam habituados a esse tipo de provação, levaram mais alguns minutos.
Tifflor viu
que o comandante saiu cambaleante da sala de telegrafia. Nos capacetes
fechados, a respiração de Deringhouse era ouvida sob a forma de assobios
agudos. Ao que tudo indicava precisava reunir todas as forças para vencer o
cansaço.
Rous também
já recuperara os sentidos. O primeiro movimento pesado da mão de Tiff foi
dirigido para o cilindro metálico guardado no bolso do uniforme. Enquanto o
traje espacial continuasse fechado, não poderia atingir a chave da carga
destrutiva embutida no mesmo.
Sentiu-se
dominado pelo pânico. Ninguém precisaria lhe contar o que os desconhecidos
haviam feito com a Good Hope-IX. Era bem
verdade que Tifflor não saberia dizer se estavam interessados na nave ou na
mensagem secreta que trazia consigo; de qualquer maneira, isso já não importava
muito.
Face às
instruções que lhe haviam sido ministradas, julgou que havia chegado o momento
de destruir o cilindro juntamente com as microfitas guardadas nele.
As telas
voltaram a se iluminar. Tiff lançou um rápido olhar sobre as telas frontais. A
pequena distância da nave que, ao que tudo indicava, ainda se deslocava à
velocidade da luz, brilhava uma estrela geminada perfeitamente visível.
O sol maior,
de cor alaranjada, parecia bem mais próximo que seu companheiro azul.
Por um
momento Tiff se esforçou para vasculhar a memória em busca do nome de estrelas
desse tipo. Havia muitas, motivo por que desistiu. O que importava realmente
era cumprir as instruções recebidas.
Dali a mais
um instante conseguiu se colocar de pé. Foi nesse momento que os desconhecidos
abriram a grande comporta de carga situada pouco acima da saliência equatorial
que abrigava as máquinas.
As luzes de
controle da sala de comando se acenderam. Poucos segundos depois mudaram para o
verde.
O sargento
Rous praguejava horrivelmente. A uma boa distância ouviu-se o ruído
característico dos radiadores de impulsos térmicos. Tiff se virou, apavorado.
Qual seria o idiota que era capaz de utilizar nos recintos apertados da Good
Hope-IX uma arma energética cujos feixes superaquecidos teriam que gerar
temperaturas elevadíssimas?
— Utilizem
os desintegradores — gritou o comandante pelo rádio. — Que diabo, suspendam
imediatamente o fogo térmico. Será que querem transformar a nave numa nuvem de
gases?
A resposta
veio sob a forma de um uivo das sereias de alarma das instalações de
condicionamento de ar. Em vários setores da nave a temperatura devia ter
chegado a níveis insuportáveis.
Tifflor não
se preocupou com os acontecimentos. Dificilmente a pequena tripulação da Good
Hope-IX teria uma chance.
Com um
movimento ágil pegou a arma que Eberhardt lhe atirou. Era um desintegrador
pesado, cujo efeito consistia na dissociação da matéria estável.
Nos
capacetes surgiu tamanho inferno de ruídos que os homens se viram obrigados a
regular o volume quase para zero. Todo mundo berrava. A toda hora soavam gritos
de dor, que faziam com que Deringhouse temesse o pior. E o estampido abafado de
armas estranhas não poderia deixar de ser ouvido.
— Esconda-se
na sala 0, rápido — gritou o comandante para o cadete. — Ande logo!
Tiff se
arriscou a abrir o capacete no interior da sala de comando hermeticamente
fechada. O rumor das armas se tornou ainda mais forte. Aproximou-se. Várias das
telas que retratavam outras salas haviam deixado de funcionar. Poucos segundos
depois, o suprimento de energia foi interrompido. Os tubos luminosos se
apagaram, as telas não mais refletiram qualquer imagem.
— Ocuparam a
sala de comando das máquinas — disse o sargento Rous com a voz débil. — Devem
ter uma resistência extraordinária. Penetraram na nave quando nós ainda
estávamos quase inconscientes. Se não fosse assim, isso não teria acontecido.
Palavra de honra!
Talvez Rous
tivesse razão, mas isso não interessava mais. Quando o ruído chegou perto da
escotilha fechada da sala de comando e uma mancha de incandescência branca
surgiu na chapa resistente de aço arcônida, Tiff tirou o traje espacial de cima
do corpo. Teve vontade de gritar de raiva quando o fecho magnético que ficava
na altura do pescoço emperrou, recusando-se obstinadamente a obedecer aos dedos
trêmulos.
A sala de
telegrafia estava vazia. Quem fosse capaz de carregar uma arma estava abrigado
atrás de objetos pesados.
O fecho se
abriu no momento em que a escotilha começou a derreter. O rosto desprotegido de
Tiff foi atingido por uma rufada dolorosa de ar quente. Depois a escotilha caiu
para dentro com um forte ruído.
Lá fora tudo
era luz ofuscante. No momento em que Tiff abriu o uniforme, a sala de comando
se transformou num espaço cortado por relâmpagos. Atiravam com armas
desconhecidas para dentro do amplo recinto. De repente Deringhouse compreendeu
por que ouvira os gritos no rádio de capacete.
O cadete
Eberhardt foi o primeiro que caiu ao chão. Foi seguido por Rous, Martin e
Hifield. Deringhouse disparou em direção ao corredor antes que fosse atingido
por um dos relâmpagos.
Logo depois,
caiu duro como um pau e soltou um gemido.
Julian
Tifflor só se lembrou de sua missão. Não tocou em nenhuma arma, nem perdeu
tempo em se abrigar.
No momento
em que os vultos gigantescos penetraram na sala e de repente uma luz forte se
acendeu, estava tranqüilamente de pé em meio à sala de telegrafia perfeitamente
visível, cuja parede blindada e transparente repelira os impactos energéticos.
Fascinado,
contemplou o cilindro metálico que se desfazia num fogo branco e frio.
Colocara-o de forma perfeitamente visível em cima de um dos aparelhos de
telegrafia.
Tifflor, o
homem eternamente deprimido, que sempre duvidava de si mesmo, já não sabia o
que era ter nervos.
Com um
sorriso irônico contemplou os invasores que se aproximavam. Não havia dúvida de
que tinha diante de si inteligências semelhantes à do homem. Quando o primeiro
chegou perto dele, ainda estava sorrindo.
O estranho,
que tinha quase dois metros de altura e um corpo extremamente pesado, deteve-se
em meio ao salto. Usava um traje leve de modelo arcônida. Mas não era arcônida.
A primeira
coisa que Tiff notou foi a barba vermelha e aparada, os grandes olhos ameaçadores,
plantados em meio a um rosto largo, e os cabelos longos, também vermelhos como
fogo. Era um verdadeiro gigante que se plantara diante daquele homem
aparentemente fraco do planeta Terra.
Outros
vultos do mesmo tamanho foram surgindo. Os gritos haviam cessado. Lançaram
olhares ameaçadores para Julian Tifflor, cujo sorriso tranqüilo parecia ser
mais eficaz que qualquer gesto de defesa.
Tiff se
elevou acima de si mesmo. Com uma amabilidade extrema e sem demonstrar o menor
nervosismo disse, falando em intercosmo:
— Olá.
Permita que na qualidade de representante do comandante, que está impedido por
doença, lhe dê as boas-vindas a bordo da nave espacial terrana Good Hope-IX.
Sua entrada foi um tanto agitada. Mas a champanha não deve demorar. Será que faz
questão de tomar a legítima champanha francesa? Perdão. Provavelmente o senhor
nem sabe qual é o velho povo que se especializou na produção dessa bebida
divina. Faça o favor de sentar.
Um dos
barbas-vermelhas levantou a mão. Parecia uma pata. O indivíduo que devia estar
no comando soltou um som que parecia um rosnado.
Voltou a
passar os olhos de um lado para outro, entre Tiff e a mancha de queimadura
produzida no aparelho de rádio. Do cilindro não sobrara nem mesmo a cinza.
Por pouco
Tiff não acaba desmaiando. O barba-vermelha cruzou as mãos sobre a barriga,
inclinou o corpo bem para trás e soltou uma gargalhada tão retumbante que os
órgãos auditivos de Tifflor quase entraram em pane.
Tiff se
lembrou da velha sereia de alarma contra fogo que, quando menino, encontrara
num montão de lixo. Juntamente com um amigo colocara-a em condições de
funcionar.
A essa hora
quase chegou a compreender por que, por ocasião do primeiro ensaio, seu pai
sofrera um ataque de fúria nada agradável. Ele, Tiff, encontrava-se numa situação
muito semelhante.
Se ainda
conservava algum nervosismo em sua alma, essa gargalhada acabou por
tranqüilizá-lo. Os outros sujeitos, de aspecto tão temível, fizeram coro com o berreiro
do chefe. Parecia ser um povo que possuía o dom do riso irreprimível.
Quem sabe se
não era um sinal de raiva? Tiff empalideceu ligeiramente. As reações de uma
inteligência desconhecida podiam ser o extremo oposto do que se supunha. Ao
menos era o que haviam lhe ensinado na Academia Espacial.
O barbudo de
rosto enrugado levou vários minutos para se acalmar. Tiff cometeu outro erro ao
dizer em tom cortês:
— De
qualquer maneira fico satisfeito em notar que os senhores não são monstros de
olhos salientes e com ventosas nos pés.
O berreiro
que se seguiu sacudiu a Good Hope-IX. Julian Tifflor resolveu que não mais
provocaria o riso daqueles indivíduos que, segundo tudo indicava, reagiam
facilmente às palavras que lhes eram dirigidas.
— Vamos
levá-lo — gemeu o barba-vermelha depois de algum tempo. — É formidável,
excelente. Amigo, como é que o senhor fala a língua comercial da grande ilha?
— Está
aludindo à Via Láctea? — indagou Tiff em tom hesitante. Lançou um olhar
bastante preocupado para os companheiros, que continuavam inconscientes.
— Logo
acordarão — explicou o desconhecido em tom jovial. — Não somos piratas, mas
comerciantes pacíficos. Meu nome é Orlgans. Sou comandante e proprietário
independente da nave comercial Orla XI. Amamos e
respeitamos as raças inteligentes da grande ilha. Nunca nos intrometemos nas
suas divergências internas, a não ser que alguém se atreva de atacar nosso
monopólio comercial. Peço que me desculpe pelo tratamento um tanto rude. Mas
ninguém saiu machucado. No entanto, seu comandante terráqueo tentou atacar
minha nave. Escapei no último instante.
Tiff não se
admirava mais e não temia mais nada. Embora só tivesse vinte anos, era um homem
dotado de um raciocínio límpido. E isso não era de admirar, pois era um dos
alunos superselecionados de uma escola superior, que são mandados para o
caminho da vida depois de lhes terem sido aplicados os métodos de ensino de uma
raça antiqüíssima.
Tiff não fez
nada. Apenas sentiu-se muito desconfiado, com o que foram afastados os
complexos de inferioridade que costumavam atormentá-lo. Teve a impressão de que
o grande jogo era travado em torno da Terra, em torno de seu mundo natal, de
sua Humanidade, de seu grande ideal. Nada, absolutamente nada justificaria
melhor um engajamento de todas as suas forças que a preocupação pelos numerosos
seres humanos que se encontravam no planeta Terra. Nunca o cadete Tifflor
sentira tão intensamente que toda criatura pensante nascida na Terra é
simplesmente um ser humano, seja qual for a cor de sua pele ou suas crenças.
Essa
compreensão transformou o jovem num tático, que refletia com a maior frieza.
Orlgans era um elemento perigoso. Sua jovialidade era uma máscara, e sua
gargalhada berrante talvez não passasse de uma característica da espécie a que
pertencia.
Tiff
desistiu de seu sorriso de cortesia. Lá na central, outros barbudos carregavam
os companheiros inconscientes como se fossem bonecos.
— Muito
obrigado pelo tratamento relativamente humano — disse. — Mas de qualquer
maneira o senhor chegou com um atraso de dez segundos. Foi o tempo de que
precisei para destruir o cilindro. Deve estar informado a respeito disso, não
está?
Era claro
que Orlgans estava informado. Por um instante seu rosto largo esboçou uma
expressão sombria.
— É um ótimo
negociador — disse com um olhar perscrutador. — Fala com franqueza quando
conhece seus pontos fortes. Nunca usa de franqueza quando supõe ter um lado
fraco. É assim que os seres inteligentes conseguem fundar impérios. Sim, estou
informado. Por que motivo teria atacado sua navezinha se não por isso?
Tifflor
esteve prestes a dizer que teria sido fácil destruir a nave comercial Orla XI com uma única salva. Mas preferiu não fazê-lo.
— O que
pretende fazer? — perguntou laconicamente. — Onde estamos?
— Isso não é
da sua conta. Aliás, aceite meus cumprimentos. O senhor fala um excelente
intercosmo.
— Nossos couraçados
são mais excelentes que meu intercosmo — retrucou Tiff.
O rosto de
Orlgans assumiu uma expressão rígida. Com uma frieza enorme disse:
— A bordo de
minha nave existe um terráqueo cujo nome é Jean Pierre Mouselet. Ele nos contou
que só por um acaso seu miserável mundo primitivo conseguiu adquirir um
couraçado. E é um único; procure compreender. O senhor é, ou foi, portador de
uma mensagem cujo conteúdo diz respeito à minha área de interesses. Um projeto
de intercâmbio cósmico a longo prazo faz com que pessoas como eu se esqueçam de
rir. Como já disse, somos gente pacífica. Mas nem por isso desistimos do
direito de defender nossos velhos privilégios. Há muito tempo o Grande Império
nos conferiu plenos poderes para exercer o comércio sem quaisquer restrições.
Ainda temos muito a conversar, ser humano chamado Julian Tifflor.
— Conhece
meu nome?
— Acreditava
que não conhecesse? O senhor se julgava muito inteligente, não é mesmo?
Mais uma vez
a gargalhada retumbante se fez ouvir. Tiff sentiu-se humilhado. Não tinha a
menor idéia do plano global de Rhodan. Antes, acreditava realmente que fora
portador de notícias da maior importância. Por isso acreditou que as
declarações de Orlgans não eram destituídas de base. Num homem como
Deringhouse, as mesmas apenas teriam provocado sorrisos. Era claro que as
pretensas notícias secretas eram fictícias.
Tiff foi
levado dali de maneira um pouco violenta, mas assim mesmo gentil. Enquanto isso
Orlgans sorriu e disse:
— Nossas
espécies são aparentadas, Tifflor. Bem que devíamos viver em paz. Não há nenhum
motivo que impeça isso. É bem provável que o senhor nem suspeite da existência
de nosso povo. Nós, os saltadores, somos mais poderosos que o próprio império.
Vivo negociando com inteligências completamente estranhas. Não sei por que isso
não seria possível com a sua. É bom que saiba que meus antepassados foram
arcônidas iguais ao mestre dos senhores, que chamam de Crest.
Tiff
estremeceu por dentro. Aquele estranho sabia muito; sabia demais! Quem era Jean
Pierre Mouselet? Sem dúvida era francês.
Tifflor
nunca ouvira esse nome. Mas disse a si mesmo que as informações detalhadas de
que Orlgans dispunha só podiam provir de um ser humano. E devia ser um ser
humano bastante intelectualizado, que dispunha de grande cabedal de conhecimentos
científicos. Não havia outra explicação para os conhecimentos de Orlgans.
De passagem,
Tiff notou que os tripulantes, ainda inconscientes, foram levados ao grande
salão da nave auxiliar. Todos os postos de importância estavam ocupados por
criaturas que tinham o mesmo aspecto de Orlgans.
Ao chegar à
grande comporta de carga, situada acima da saliência equatorial, teve de
envergar um traje espacial. A menos de vinte metros dali via-se o abaulamento
do casco da nave estranha. Havia nele uma abertura negra. Quando viu as
criaturas gigantescas flutuarem em direção à mesma, percebeu que se encontravam
em queda livre. O sol geminado que havia visto devia estar tão longe que por
enquanto não havia necessidade de realizar uma manobra de frenagem.
Tiff foi
puxado num cabo. Quando penetrou na comporta da outra nave, teve a impressão de
que praticamente era um homem morto.
Esses
saltadores — nome que o próprio Orlgans acabara de dar a essas criaturas — eram
mais que perigosos. Não havia a menor dúvida de que se sentiam ameaçados pela
Terceira Potência dirigida por Perry Rhodan. Receavam que a mesma viesse
colocar em risco seu monopólio comercial, que, ao que tudo indicava, até então
era exercido sem restrições. Provavelmente só se zangavam quando alguém se
atrevia a violar seus direitos sagrados.
Perry Rhodan
devia ter feito precisamente isso, sem que o soubesse. Tiff apostaria sua
cabeça como Rhodan não tinha a menor idéia da existência dos saltadores.
Durante a
compensação de pressão Orlgans bateu paternalmente no ombro de Tiff.
— É claro
que nosso ar é respirável para o senhor — disse em tom condescendente. — Tem
mais alguma piada em seu arsenal?
— Piadas? —
espantou-se Tiff muito assustado.
Teria feito
alguma piada? Isso mesmo parecia representar outra piada para os saltadores.
Mais uma vez irromperam numa sonora gargalhada.
9
Não havia a
menor dúvida de que aquela criatura esbelta, de cabelos negros e olhos
irrequietos, cujos dedos brincavam nervosamente, era um ser humano. Os barbudos
deviam ter o triplo do peso daquele homem de cerca de cinqüenta anos, cujo
rosto se contorcia em tiques. Ao que tudo indicava estava próximo ao
esgotamento nervoso.
— Jean
Pierre Mouselet, antigo diretor comercial de um conglomerado industrial europeu
— foi assim que se apresentou aquele homem emagrecido. Tifflor se limitou a
lançar-lhe um olhar frio como gelo.
— Não tem
mesmo nenhum cigarro? — implorou Mouselet, aproximando-se mais um pouco.
— Não sou
fumante — respondeu Tiff laconicamente. — Sinto muito. Se tivesse cigarros, não
os daria a um traidor do planeta Terra. É bom que saiba logo como são as
coisas.
Mouselet,
que era uma verdadeira ruína humana, não conseguiu reunir forças para dizer um
palavrão, nem sequer para lançar um olhar venenoso. Em seus olhos inconstantes
voltou a brilhar aquele desespero que provocou em Tifflor uma paixão
indefinida.
— Está bem,
queira desculpar — apressou-se Mouselet a dizer. — Eu... sou um fumante
inveterado, sabe? O último maço que eu tinha acabou há...
— Vamos ao
assunto — interrompeu-o o cadete em tom tranqüilo. — Suponho que o tal do
Orlgans o tenha enviado para soltar minha língua. É bom que saiba que não há
nada a soltar. Não fui informado sobre o conteúdo dos documentos por mim
destruídos. Ou será que acredita que decorei todos os detalhes do gigantesco
plano?
O olhar de
Mouselet se tornou penetrante.
— Por que
não? Rhodan dispõe de métodos que lhe permitem armazenar um volume gigantesco
de saber no cérebro de um homem. É possível que nem mesmo o senhor saiba que é
portador de informações hipnóticas facilmente decifráveis. Talvez os registros
em fita sejam simulados. Fale, meu jovem. Os saltadores também sabem transformar
um homem num louco palrador. Se isso lhe acontecer, o senhor será um mentecapto
para o resto da vida. O que lhe deram para levar à base de Vega?
— De certo
eles lhe darão uns cigarros se o senhor conseguir arrancar alguma informação de
mim, não é? — escarneceu Tiff apesar da palidez que se desenhava em seu rosto.
Começava a desconfiar de que um perigo tremendo surgia diante dele.
Mouselet
soltou uma terrível praga. Levantou-se de um golpe e passou a caminhar pela
pequena cabina. Do lado de fora, havia duas sentinelas dos saltadores.
— Antes de
dizer qualquer coisa quero saber como é que o senhor foi se ligar a esses sujeitos
— acrescentou Tiff apressadamente.
Mouselet
ergueu os ombros num gesto de resignação.
— Por que
não? Sou um dos colaboradores do supermutante que costumamos chamar de
Supercrânio. Foi por isso que me interessei bastante pela chamada Terceira
Potência. Todos os documentos secretos ficaram à minha disposição. Por isso é
bom que não tente enganar esses mercadores. Sabem perfeitamente de que forma
Rhodan adquiriu seu saber e suas naves. Orlgans teria subjugado toda a Terra,
se isso não contrariasse suas tradições.
— O senhor é
muito auto-suficiente! — disse Tiff em tom de desprezo.
Mais uma vez
esteve prestes a dizer que lhe teria sido fácil destruir a grande nave.
— É bom que
não se iluda quanto a essa gente — disse Mouselet em tom exaltado. — Já cheguei
a acreditar que são amáveis e inofensivos. Quando Rhodan saiu em perseguição do
Supercrânio, este, desesperado, enviou para o espaço uma mensagem de socorro
não codificada. Orlgans se encontrava nas proximidades. Acudiu ao chamado e me
salvou. É claro que tive que lhe dar meu saber em troca da salvação. Um
saltador nunca faz nada de graça. Tem certeza de que não tem cigarro? Dê uma
olhada.
— Tire a mão
do meu bolso — chiou Tiff, furioso. — Se eu fosse o senhor, meteria uma bala
bem ordinária na minha cabeça. O senhor é um patife. Traiu a Humanidade. Não
pode haver crime maior que este.
— Essa
Humanidade me expulsou e me condenou — disse Mouselet com o rosto pálido. — Não
lhe devo mais nada.
— De certo o
senhor cometeu algum crime. Ninguém é condenado por nada. O que o senhor sofreu
foi bem feito. Não conte com a minha compreensão. Sempre deve ter sido um
patife dissimulado. O Supercrânio foi outro. E conseguimos liquidá-lo.
Mouselet
conseguiu se controlar. Respirando com dificuldade e molhando os lábios com a ponta
da língua, parou diante do cadete.
— O senhor
será interrogado — disse em tom indiferente. — Nem desconfia do poderio que tem
diante de si. Os negociantes galácticos dominam a Via Láctea. Estão divididos
em castas e em famílias. Nenhum saltador aceita ordens dos outros. A liberdade
de ação é uma tradição de dez mil anos. Desconfiam um do outro e se espionam
mutuamente, mas ai do estranho que se atreve a tocar no seu monopólio. Seria
bom que visse como as inúmeras castas e famílias sabem se unir num abrir e
fechar de olhos quando isso acontece. Há tempos imemoriais chamam-se a si
mesmos de saltadores, porque saltam de um planeta a outro para comprar e vender
suas mercadorias. Sua frota comercial é calculada em mais de trezentas mil
naves pesadas e superpesadas. Cada linhagem familiar tem um patriarca que a
comanda em caso de necessidade. Os comandantes e proprietários independentes
das naves submetem-se ao mesmo. O grande império comercial mantém uma frota de
combate, que é sustentada com uma parte bem definida dos lucros que cada
comandante tem de entregar. Possuem muitos planetas, que transformaram em
gigantescas bases e estaleiros. Em parte, sua tecnologia é superior à do Grande
Império dirigido por Árcon. São descendentes dos arcônidas, mas, graças à influência
exercida pelos habitantes dos outros mundos, inúmeras variedades se
desenvolveram no curso dos milênios. Mas todos eles são saltadores, e como tais
são independentes, orgulhosos e fortes. Seu poder econômico é superior ao do
império e, quando necessário, sabem ser unidos. Sabe o que significa isso? Os
negociantes nunca se intrometem em guerras ou coisa que o valha. Fornecem suas
mercadorias a todas as facções em luta, e nenhuma das facções gosta de ficar
mal com eles. Se alguém deseja negociar no ambiente cósmico, tem de se
habilitar com uma concessão outorgada por eles. E lá vem essa figura ridícula
do Perry Rhodan com a idéia maluca de instalar entrepostos comerciais no
sistema Vega.
Mouselet
soltou uma risada estridente. Mal conseguiu se acalmar. Tiff assumiu uma
postura rígida. Aos poucos estava compreendendo com quem se defrontava. O tal
do Orlgans era só uma rodinha numa engrenagem enorme e antiqüíssima. Quanto ao
mais, Tiff só teve uma idéia: informar o chefe pela forma mais rápida.
— O senhor
há de concordar comigo em que seu silêncio é inútil. A ganância inata a essa
espécie de mercadores faz com que vejam em qualquer planeta recém-descoberto
uma zona de comércio inteiramente privada. Nenhum deles pensa em chamar em seu
auxílio outras naves pertencentes à mesma linhagem familiar, quanto mais naves
pertencentes a outras linhagens. Foi este o motivo por que Orlgans penetrou
sozinho no sistema solar. Tem uma rede de agentes muito eficiente. Não demorou
em saber que o senhor foi despachado pelo espaço para servir de mensageiro
confidencial. Aliás, nem era de esperar que fizessem outra coisa, depois que
Orlgans apresou uma nave espacial e dois destróieres da Terceira Potência para
fins de estudo.
Tiff se
levantou de um salto, como se tivesse sido picado por um marimbondo.
— O quê?
— Ah, ainda
não sabe disso? — espantou-se Mouselet. — Pois está na hora de saber. Rhodan
enganou o senhor. Contando sua Good Hope-IX, as naves desaparecidas já são
quatro. Isso devia dar que pensar a Rhodan, não é mesmo?
Tiff voltou
a afundar lentamente na cadeira de formato esquisito. Aos poucos começou a
compreender por que o chefe o mandara ao espaço como mensageiro confidencial em
circunstâncias tão misteriosas.
Tiff chegou
bem próximo à verdade, mas nem de leve desconfiou de que havia sido
transformado num chamariz cósmico dotado de qualidades todas especiais. Mas
tudo indicava que Rhodan sabia que um perigo vindo do espaço ameaçava a Terra.
Tiff também compreendeu por que Deringhouse não atirou de verdade, e por que a
Stardust-III chegou tão depressa. Reprimiu um sorriso de triunfo.
No videofone
de parede, que era quase idêntico ao aparelho dessa espécie existente a bordo
da Good Hope-IX, uma luz amarela se acendeu. Mouselet estremeceu. Virou-se com
uma expressão de pavor no rosto.
— Seu mestre
e senhor está chamando — disse Tiff em tom irônico. — É claro que estamos sendo
vigiados, não é? Pois bem, Orlgans, já que está ouvindo o que digo, é bom que
saiba que sua chamada potência mercantil não me impressiona nem um pouco. A
história da Terra já nos mostra muitos atravessadores e aproveitadores de
guerra, que trocam um beijo fraternal com qualquer dos partidos em luta e nunca
se intrometem enquanto não se trata do dinheiro. Vocês não são melhores que
eles, apenas demonstram maior habilidade. Estão lucrando com a ruína do grande
império dos arcônidas. Mantêm a neutralidade até que farejem um perigo. Então
vocês se transformam numas feras que se unem para defender seus interesses,
para liquidar um penetra indesejável. O traidor que está à minha frente chamou
a atenção de vocês sobre a Terra. Tenha cuidado, Orlgans, pois ainda poderemos
lhe mostrar os dentes.
Alguém
fungou no alto-falante do videofone. Logo após a voz de Orlgans irrompeu no
recinto.
— Meu amigo,
suas palavras são grandes, mas seu poder é pequeno. Transformaremos a Terra
numa base de nosso império comercial, mas antes disso procurarei aproveitar meu
privilégio de descobridor. Quero que você me diga quais são os planos cósmicos
da Terceira Potência. E ainda quero saber o que esse rapazinho chamado Perry
Rhodan encontrou no mundo lendário da vida eterna. Pelas notícias que chegaram
aos meus ouvidos soube que ele o descobriu contra todas as leis da
probabilidade.
Tiff lançou
um olhar de agressiva ironia para o receptor. Suas palavras revelavam uma
maturidade extraordinária numa pessoa de vinte anos.
— Daí
deveria concluir que se encontra diante de um ser de inteligência superior, que
merece o respeito de outros indivíduos que também se consideram inteligentes.
Sua exigência representa uma imposição resultante da exploração bárbara de uma
superioridade de forças.
Mouselet
lançou um olhar de pavor para o cadete. Depois de um instante de silêncio, um
riso retumbante soou do alto-falante de parede. O capitão dos saltadores era
dotado de um senso de humor muito estranho.
— Muito bem,
muito bem — disse Orlgans. — O senhor acaba de me apresentar a melhor prova de
que esse Rhodan escolheu um homem muito competente para desempenhar a tarefa
especial. Meu amigo, nas próximas horas estarei ocupado com a manobra de
entrada em órbita que planejamos. Esperarei por aqui até que a situação se
esclareça um pouco. Se necessário chamarei a frota de minha dinastia. Mouselet
já lhe explicou que os impostos que pagamos habilitam todo comandante
independente a recorrer, a qualquer instante, ao auxílio de nossa frota de
combate, independentemente do pagamento das despesas? Meu caro, basta uma
mensagem telegráfica para que quinhentas naves de guerra de grande porte surjam
do hiperespaço. Reflita sobre o que vai dizer. Ainda tem tempo.
Orlgans
desligou. O estalido do aparelho provou que realmente o fez.
— Não faça a
minha desgraça — implorou Mouselet, tremendo como uma vara verde. — Fale, senão
seremos ambos eliminados. Confie em mim. Sou um ser humano.
— Pois na
minha opinião o senhor nunca foi um ser humano na verdadeira acepção da palavra
— advertiu-o Tifflor com um gesto de repulsa. — Sem dúvida apenas dava a
impressão de ser um quando seu raciocínio consciente despertou.
A porta da
cabina se abriu e dois gigantes barbudos entraram. Tiff soubera que todos os
membros da numerosa tripulação pertenciam à linhagem de Orlgans. Tudo indicava
que o comandante e proprietário da nave ocupava uma posição hierárquica muito
elevada.
Tiff
compreendera perfeitamente que se encontrava diante de uma grande potência galácticas.
Essa gente não dominava apenas um sistema solar com alguns planetas mais ou
menos habitáveis. Seu domínio estendia-se por toda a galáxia, que iam adaptando
discretamente aos seus desejos e interesses, à maneira das companhias de
comércio que desenvolviam atividades guerreiras.
Isso já
acontecera na Terra, mas não em proporções tão grandes.
Tiff começou
a compreender que os chamados saltadores representavam o perigo mais sério que
a Terceira Potência, ainda tão jovem, já tivera diante de si.
Não se
tratava de DI nem de tópsidas, criaturas que Perry Rhodan conseguiu derrotar
com uma relativa facilidade. Uma grande potência surgira no cenário cósmico.
O que Tiff
não compreendia era o motivo do silêncio de Perry Rhodan sobre essa série de
ocorrências. Se é que algumas naves haviam desaparecido, os órgãos
governamentais já deviam ter conhecimento do fato.
— Venha
conosco — disse um dos barbudos, sorrindo. — Não, não é você. É o rapazinho.
Tiff se levantou
sem dizer uma palavra. Jean Pierre Mouselet ficou para trás; estava reduzido a
um montículo de desgraça. Falhara. Face a isso, se tornara bastante duvidoso
que Orlgans, um calculista frio, ainda visse qualquer utilidade nele. Em caso
negativo, a vida de Mouselet não valeria um centavo.
Tiff
imaginava como esses seres que riam tão ruidosamente sabiam ser frios e
implacáveis. Consideravam Perry Rhodan um fator de perturbação.
Provavelmente
o relato enfeitado de Mouselet não permitira que se dessem conta do fato de que
Rhodan não representava apenas um fator de perturbação, mas também de perigo.
De um modo geral pareciam subestimar o gênero humano. Não contavam com sua
inteligência, sua capacidade de agir e sua pertinácia.
X
Fazia quatro
horas, tempo de bordo, que Tiff fora levado de volta para a Good Hope-IX.
Fizeram-no com a finalidade de induzi-lo a travar palestras com os amigos, das
quais pudessem extrair alguma informação. Evidentemente os cadetes já haviam
percebido que os receptores de videofone funcionavam ininterruptamente. Com
isso tornava-se possível saber o que se passava em praticamente todos os
recintos da nave.
— Isso é
muito primitivo! — chiou Mildred Orson, expelindo um olhar chamejante de
desprezo, quando Tifflor reapareceu.
A manobra de
entrada em órbita, anunciada por Orlgans, fora concluída há uma hora. A nave
Orla XI circulava em queda livre em torno de
um grande planeta, cuja posição era totalmente desconhecida do homem. As
numerosas sentinelas se limitaram a informá-lo de que esse sol geminado tinha
quatro planetas que descreviam órbitas bastante esquisitas.
Algumas
telas de observação ótica exterior continuaram a funcionar. Dessa forma o astro
pôde ser visto perfeitamente. Mas tudo isso apenas se revestia de um interesse
secundário para os tripulantes da Good Hope-IX.
Bastava que
o major Deringhouse, o sargento Rous e os cadetes da Academia Espacial se
encontrassem a bordo para que o tempo durante o qual Tiff esteve ausente fosse
gasto em fabricar planos.
Quando Tiff
entrou na grande sala dos tripulantes, os ânimos estavam muito tensos. As
palestras vazias e indiferentes eram tão estranhas que não poderiam deixar de
ser alarmantes.
Pediram-lhe
que contasse o que havia acontecido com ele. Enquanto isso, lançavam olhares de
esguelha para as telas apagadas. Tifflor compreendeu que um grupo especial dos
mercadores ouvia cada palavra que se dizia por ali.
Apresentou
seu relato com a mesma indiferença, até que surgiu a oportunidade. Humpry
Hifield era o homem indicado para encenar um barulho a valer. Era de espantar a
raiva obstinada com que se envolvia numa briga com um dos membros da
tripulação. Aquilo já não era um boxe decente, mas não deixou de preencher sua
finalidade.
Dentro de
poucos segundos os canos compridos dos radiadores de impulsos térmicos surgiram
na escotilha. Logo foram seguidos pelos vultos enormes das sentinelas. Quando
viram que não se tratava de um motim, a finalidade da medida havia sido
atingida.
Aos berros
instigavam os lutadores. Em virtude disso a sobrancelha esquerda de Hump se
arrebentou sob um soco direto de seu contendor musculoso.
Tiff se
sentiu arrastado para trás de um grupo que também berrava. Deringhouse se
limitou a acenar ligeiramente com a cabeça. Seus olhos pareciam comandar. Face
a isso a reação de Tifflor foi instantânea, quando Mildred Orson, que chorava
profusamente, se atirou nos seus braços e se lamentou da falta de juízo dos
homens.
— Tenha
cuidado, perigo de escuta — cochichou apressadamente em meio aos seus lamentos.
— Felicitas e eu praticamente não somos vigiadas. Andamos livremente pela nave.
Consegui roubar uma micro bomba no depósito de combate da comporta número três.
Tome! Esconda-a antes que Hump fique esticado no chão.
Tiff empalideceu.
Não sabia a quem dedicar sua atenção, se à moça necessitada de auxílio ou à micro
bomba atômica. Finalmente se decidiu pela bomba atômica.
Deringhouse
observava-os discretamente. Rous empenhou toda a largura de seu corpo para
evitar que os dois jovens pudessem ser captados pelo receptor de videofone.
A pequena
bomba em forma de ovo, cujo tamanho não ultrapassava o do verdadeiro produto de
uma galinha terrena, passou para o bolso da calça de Tiff.
Imediatamente
o sargento Rous se pôs a berrar.
— Que
intimidade é essa, cadete Tifflor? — gritou furiosamente, piscando os olhos. —
Senhorita Orson, dirija-se imediatamente ao seu camarote. Vejo-me forçado a
denunciar a ofensa à moral de bordo. Separem-se.
Milly fungou
enquanto se desprendia dos braços de Tiff, o que este notou com grande
tristeza. Nunca antes ela estivera tão próxima dele. Enquanto isso o sargento
Rous cochichou apressadamente:
— Tenha
cuidado, Tiff. É uma bomba térmica cujos efeitos duram quinze minutos. Ela
apenas libera calor, que em média chega a cento e cinqüenta mil graus
centígrados no interior da esfera de gases. O detonador leva exatamente uma
hora para desencadear a explosão. Por ocasião do próximo interrogatório
esconda-a em algum lugar na outra nave, anotando a hora exata. Depois trate de
voltar. Procure algum pretexto, fale, por exemplo, num prazo de reflexão num
ambiente costumeiro. Entendido? Mais alguma pergunta?
O
procedimento era típico dos homens audazes do comando de caça espacial. Rous e
Deringhouse tiveram uma idéia maluca. Naturalmente os cadetes e mesmo as moças
cooperaram com o maior entusiasmo. O comandante não poderia desejar
colaboradores mais eficazes.
Tiff logo se
sentiu contagiado. Sabia perfeitamente por que Hump encenara aquele barulho.
Não havia como negar: teve um desempenho excelente na luta de boxe que
degenerou em pancadaria. Era o homem indicado para isso.
— Tudo
entendido — disse Tiff. — Daqui a pouco terei de voltar para lá. Descobrirei um
meio. O que vai acontecer quando a carga detonar.
— No mesmo
instante o barulho come cará por aqui. Há vinte e três sentinelas a bordo. As
moças contaram. Conseguiremos nos livrar delas. Primeiro devemos ocupar a sala
de comando; o resto virá por si. Dê uma boa olhada nos radiadores de impulsos
térmicos de canos longos dessa gente. Trabalham com fluxos de impulsos térmicos
da grossura de um fio de cabelo. Fora do ponto de impacto a geração de calor é
muito reduzida. Ao que parece estão protegidos contra efeitos colaterais. São
armas muito eficientes. Daremos um jeito de nos apoderar delas. O plano é este.
Basta. Hump tem de interromper a função.
Tudo isso
foi obra de poucos segundos. Não havia o menor risco de que as mensagens
cochichadas fossem ouvidas em meio ao barulho.
Fizeram um
sinal quase imperceptível para Hifield. Mais um soco, e ele caiu ao chão sem se
levantar.
As sentinelas
exultavam. O espetáculo parecia corresponder ao seu gosto. Dentro de poucos
minutos o silêncio foi restabelecido na sala da tripulação. Com um sorriso os
homens foram prevenidos de que, por ocasião da próxima batalha, deviam avisar a
tempo, para que os saltadores pudessem aproveitar o espetáculo.
Deringhouse
olhou o gigante barbudo com um sorriso contrafeito.
— Queiram
cuidar de Hifield — pediu às moças. Milly e Felicitas Kergonen ajudaram o
cadete que gemia terrivelmente a pôr-se de pé. Seu adversário passou a língua
pelos lábios arrebentados.
— Uma vez
que tudo correu bem, e considerada a situação em que nos encontramos, dispenso
a punição desta vez — disse Deringhouse em tom solene. Só o tom de sua voz
revelava alguma coisa. Todo mundo sabia que a micro bomba arcônida se
encontrava no bolso de Tiff.
Se ela
detonasse no interior da nave dos mercadores, a mesma ficaria reduzida a uma
nuvem incandescente.
Tiff sentiu
o suor porejar em sua testa. Obrigou-se a participar da conversa que se
arrastava penosamente. Poucos minutos depois, ouviu-se o som da campainha da
cozinha automática. Dava-se todo o conforto possível aos prisioneiros; apenas a
liberdade lhes era negada.
Deringhouse
estava firmemente decidido a mudar essa situação quanto antes. Pensou desesperadamente
na força poderosa comandada por Perry Rhodan, que ainda devia estar parada no
espaço nas proximidades de Plutão. De qualquer maneira, Deringhouse ainda
acreditava que mesmo nessa situação o chefe encontraria um caminho.
Tiff
apresentou um relato silencioso sobre a verdadeira natureza dos saltadores.
Assim se passou o tempo de espera.
Exatamente
uma hora depois da refeição, a escotilha se abriu. Tiff seria conduzido a bordo
da Orla XI para ser submetido a novo
interrogatório.
Caminhou
tranqüilamente, mantendo um perfeito autocontrole. Por algum tempo os olhos de
sua mente continuaram a ver um rosto de moça muito pálido. Entre as duas
comportas de ar havia sido montado um campo energético de compensação de
pressão. Tiff pôde flutuar de um lado para outro sem recorrer ao traje
espacial. O rumorejar das máquinas provava que não havia a menor intenção de
permitir que a veloz Good Hope-IX se libertasse do domínio da nave maior.
Não havia a
menor dúvida de que Orlgans era um ótimo negociante, se é que esse nome podia
ser aplicado a um mercador galáctico.
Sua tática e
sua psicologia também eram formidáveis. Um homem da idade de Tifflor, que não
tivesse a mesma força de vontade deste, logo teria sucumbido às numerosas
perspectivas tentadoras que o saltador lhe oferecia.
Muitas vezes
o fato de realmente não saber nada dos pretensos planos econômicos da Terceira
Potência veio em auxílio de Tiff. Aos poucos chegou mesmo a desconfiar de que
Perry Rhodan apenas o utilizara como chamariz, para capturar alguns dos
desconhecidos.
Tudo
indicava que o interesse de Orlgans nem se dirigia ao planejamento ilusório,
pois sua lógica potente logo lhe permitira reconhecer que um homem como Tiff
nunca seria capaz de guardar o mesmo na memória. Na melhor das hipóteses, se lembraria
das linhas gerais, mas nunca dos detalhes, que eram o que realmente importava.
Por isso o
comandante dos saltadores absteve-se de perguntas a esse respeito. Em
compensação, insistia sempre e sempre na idéia do mundo da vida eterna. Isso
representava um sério perigo para Tifflor, já que Orlgans não quis se convencer
de que também sobre este assunto o cadete não sabia absolutamente nada.
Levou duas
horas para, em atitude benevolente, conduzir Tiff através da nave. Julian não
se impressionou com o armamento. Nem se comparavam com as armas que se
encontravam a bordo da Good Hope-IX. Em compensação, os propulsores da Orla XI eram potentes e modernos. Havia outras coisas
que deviam representar o produto da criatividade dos cientistas da raça dos
saltadores.
Orlgans
explicou de forma quase casual que se tratava apenas de uma nave de comércio
armada, e que o armamento da mesma era suficiente para permitir a visita a
mundos primitivos.
Quando o
caso fosse mais sério, dispunha da frota especializada, para cuja convocação
tinha competência.
Tiff foi
empurrado brutalmente para dentro do último compartimento. Quando entrou no
mesmo, o comandante se esqueceu da cortesia e do cuidado paternal até então
demonstrados. Voltou a chamar Tiff de senhor, muito embora nas últimas horas
lhe tivesse dado o tratamento de você. Julian viu diante de si um par de olhos
frios e impiedosos.
— Essa
máquina é um dissolvente mental — explicou Orlgans em tom ameaçador. — O
interrogatório realizado por meio dela destrói o cérebro de qualquer ser, mas
em compensação extrai todos os dados armazenados no mesmo. Precisamos da
máquina para lidar com gente de comportamento menos recomendável, cujo saber se
torna importante para nós. Dou-lhe mais três horas da sua contagem de tempo. Se
depois disso não quiser falar, colocaremos o capacete em cima de sua cabeça.
Pode se retirar, meu jovem amigo.
De uma hora
para outra, Orlgans foi todo cordialidade. Quase chegou a carregar o cadete
cambaleante e arrasado.
Também fez
questão de levá-lo pessoalmente à cabina que já conhecia. Ficava na parte
dianteira da grande nave, perto da sala de comando. Antes que Orlgans se
retirasse, Tiff resolveu fazer uma jogada arriscada. Em tom suplicante
gaguejou:
— O senhor
permite que eu reflita na minha nave? Por favor, não me deixe num ambiente
estranho. Aqui não me sinto muito...
—
Naturalmente, naturalmente — interrompeu-o Orlgans numa jovialidade exultante.
— Um momento, meu caro, vou chamar seus acompanhantes.
Tiff começou
a suar quando o gigante barbudo saiu e, uma vez no corredor, pôs-se a chamar as
sentinelas aos berros.
Tiff pôs a
mão no bolso. Desistira de esconder a micro bomba em outro lugar. Se fosse
revistado, seria encontrada de qualquer maneira. Mas não fora submetido a outra
revista. Puxou o pino de segurança, comprimiu o botão do detonador de tempo até
ouvi-lo engatar com um estalo e fez o ovo mortífero rolar para baixo da cama.
Deu um baque surdo quando bateu contra a parede.
Mal
conseguiu se levantar antes que as sentinelas entrassem.
— O senhor
está muito pálido — disse Orlgans em tom de piedade. — Daqui a três horas
voltaremos a nos encontrar, meu jovem amigo.
Essas
palavras foram um pretexto suficiente para que Tiff lançasse um olhar discreto
para seu relógio de precisão. Eram exatamente 17:58 h, tempo de bordo da Good
Hope-IX. Exatamente às 18:58 h ouviriam o estouro, ou mais precisamente, cinco
segundos antes, pois foi quando acionou o detonador.
Em atitude
apática, deixou que o levassem de volta. Ao regressar à sala dos tripulantes,
caiu numa cadeira giratória. Estava muito pálido. Deringhouse lançou-lhe um
olhar ansioso.
Acenou a
cabeça de forma quase imperceptível e acrescentou:
— Seguraram-me
exatamente até as 17:58 h. Orlgans me deu três horas para refletir.
O rosto de
Rous se descontraiu. Os homens trocaram olhares. Deringhouse começou a fazer
seus cálculos. Cinco minutos antes do momento crítico, Humpry Hifield devia
encenar a briga seguinte.
Os planos de
Deringhouse foram elaborados com o maior cuidado. Ninguém desconfiaria se
atribuísse a nova pancadaria ao espírito de revanche do cadete derrotado.
Depois disso teriam que fazer com que as quatro sentinelas entrassem na sala.
Não havia outras sentinelas postadas diante da sala dos tripulantes. Os outros
saltadores estavam espalhados pela nave. O plano não poderia deixar de ser bem
sucedido.
Deringhouse
caminhou tranqüilamente pela grande sala e parou diante de uma das telas.
— Lá fora o
tempo está formidável, não é? — disse, esticando as palavras. As estrelas
cintilavam friamente. Não responderam.
* * *
Eram
exatamente 18:35 h quando Hump começou a se enfurecer. Seu velho adversário
irritara-o até a medula com suas observações irônicas. A pancadaria começou com
a precisão de um segundo. Dentro de cinco minutos a bomba explodiria. No mesmo
instante as sentinelas seriam atacadas.
Cerca de
trinta segundos depois do início da gritaria, as sentinelas surgiram na
escotilha. Mais uma vez o espetáculo parecia diverti-los. Não perceberam que
doze homens robustos se colocaram atrás deles! Era um comando bem escolhido.
Nem mesmo aqueles quatro gigantes conseguiriam enfrentá-lo.
Os olhos de
Deringhouse se fixaram na arma de impulsos térmicos dos saltadores. Enquanto
isso, Hump lutava encarniçadamente, distribuindo pancadas de verdade.
Tiff também
estava pronto para saltar. Tinha os olhos presos ao relógio eletrônico de
precisão. Era muito exato.
Dois minutos
antes do instante zero, Rous foi se aproximando lentamente. Hump desferiu um
golpe mortífero. Os saltadores exultaram.
— Atenção,
você irá no meu grupo — Tiff entendeu o cochicho do sargento. — Ocuparemos a
sala de comando.
Rous logo
desapareceu. Atrás dos saltadores os homens do comando dobraram os joelhos.
Tudo estava bem calculado. Assim que as quatro sentinelas tivessem sido postas
fora de combate e as armas trocassem de mão, uma esfera de incandescência
atômica surgiria no interior da nave vizinha. Com isso, a Orla XI praticamente
teria sido destruída. Pelo menos as sentinelas que se encontravam na nave
esférica não poderiam contar com qualquer auxílio vindo de lá. Por outro lado,
os condutores de eletricidade logo se volatilizariam, com o que o potente campo
de amarração se dissolveria.
Faltavam
trinta segundos para o momento zero. O berreiro dos homens que assistiam à luta
tornou-se histérico. Ao menos podiam dar vazão ao seu nervosismo.
Quando
faltavam quinze segundos para o momento zero, os doze homens do comando
saltaram para a frente. Quatro homens investiram contra cada uma das
sentinelas. Objetos metálicos retirados da cozinha robotizada, que ficava num compartimento
contíguo, desceram sobre os crânios. Num instante os gigantes barbudos caíram
ao chão, quase sem emitir o menor ruído.
Deringhouse
correu para a frente, seguido de Rous e Tiff. Quando chegou o momento, já
tinham as armas nas mãos.
Tudo correu
segundo o plano. O berreiro continuou, mas os grupos foram saindo pela
escotilha aberta.
Uma
sentinela apareceu mais adiante. Deringhouse atirou enquanto corria. Um grito
se misturou ao chiado agudo da arma. O gigante caiu ao chão.
— Dividam-se
— gritou Deringhouse. — Rous, vá à sala de comando.
Corriam em
direção à escada de emergência quando o som uivante começou. Não era o ruído
que Tiff esperava. As paredes da Good Hope-IX começaram a vibrar. Eram 18:59 h.
— O que
houve com a bomba? — gritou Rous fora de si. Seu rosto se contorceu. — Com os
mil demônios, por que essa geringonça não estoura?
Tiff teve
vontade de gritar. Mais adiante, Deringhouse caiu sob os efeitos de um disparo
energético. Atrás dele surgiram vultos barbudos, que disparavam loucamente para
todos os lados.
— Para trás
— disse Deringhouse, falando com dificuldade. — Pelo amor de Deus, para trás.
Carregaram-no
para a sala da tripulação, não muito distante. Alguma coisa não havia dado
certo. Poucos segundos depois, as vibrações da nave tornaram-se ainda mais
fortes. Pouco depois todos começaram a sentir os primeiros deslocamentos em
seus organismos. Antes de compreenderem que o inimigo envolvera a Good Hope-IX
num potente campo de vibrações, sem demonstrar a menor consideração pelas sentinelas
dos saltadores que se encontravam a bordo, os homens começaram a gemer
angustiados.
Cada célula
de seu corpo parecia executar uma dança louca sob o efeito dos impulsos cada
vez mais fortes.
Hump Hifield
foi o primeiro que largou a arma que acabara de se apoderar. Tiff, Rous e
Martin seguiram seu exemplo.
Quando o som
uivante atingiu os níveis mais elevados da escala auditiva, os homens se
contorceram, martirizados. O destino das sentinelas foi idêntico. Mas ao menos
os homens da tripulação da Good Hope-IX não atiravam mais.
— Traição —
gemeu Rous antes de desmaiar. — Com os mil demônios, o que aconteceu com essa
bomba?
Tiff teria
chorado se ainda pudesse fazê-lo. Teve a impressão de que sua cabeça iria
arrebentar; logo perdeu a consciência. Fora tudo em vão. Alguma coisa não saíra
segundo as previsões.
* * *
Desta vez
Orlgans estava armado. De pernas abertas, parou diante do major Deringhouse,
que tinha uma ferida feia na parte superior da coxa, e lançou-lhe um olhar
gelado. Fora uma penetração direta, mas o canal aberto na carne apresentava
queimaduras graves.
Deringhouse
achou que não valia a pena bancar o herói. Todo mundo sabia que sofria dores
cruciantes. Por isso gemeu. Se isso lhe desse um ligeiro alívio por um segundo,
já teria ganho muita coisa.
Os outros
homens da tripulação estavam de pé, encostados às paredes da sala. Mais de
trinta armas mortíferas estavam apontadas para eles.
Quando
recuperaram a consciência, Orlgans já se encontrava no recinto.
— Quem
tramou isso? — voltou a perguntar o comandante. — Foi o senhor?
Deringhouse
deu um sorriso forçado. Finalmente deu uma risada convulsiva.
— Só podia
ser eu — gemeu. — Afinal, sou o comandante da nave.
Orlgans se
aproximou do leito de Deringhouse. A raiva fria não o privou do autocontrole. O
ferido deu um grito.
— Seu
patife! — gritou Milly Orson.
Orlgans não
lhe deu atenção. Foi caminhando pesadamente na direção de Tifflor.
Julian
sentiu o hálito quente do gigante. Orlgans fervia por dentro. Ao que parecia
sabia perfeitamente que só por pouco escapara à destruição. Mas como chegou a
saber?
A explicação
foi de uma simplicidade enorme.
— Foi você,
seu hipócrita dos infernos, que fez rolar a bomba para baixo do leito, não é?
Por certo não se lembrou de que somos gente muito limpa. Os camarotes de minha
nave são limpos pelos robôs depois de cada utilização. Nessa oportunidade os
leitos são embutidos na parede. Que pena, não é, Julian Tifflor? Um dos meus
homens desarmou a bomba com um dedo. Também é uma pena, não é?
Tiff soltou
uma risada de desespero. Então foi isso. Viu a sombra gigantesca caminhar em
sua direção. A pancada terrível da pata de Orlgans o fez cair ao chão sem um
gemido. Não chegou a ver a revolta que quase irrompeu.
Quando
recuperou a consciência, estava deitado num leito do hospital de bordo, ao lado
de Deringhouse. A ferida do comandante fora tratada. Mais atrás, as moças
estavam trabalhando. Não se via nenhuma sentinela.
Deringhouse
estava acordado. Fitou os olhos de Tiff.
— Calma,
rapaz, está tudo OK. Escapamos mais uma vez.
— Não... não
foi minha culpa — gaguejou Tiff e seus olhos ficaram úmidos. — Não contava com
isso.
— Esses
sujeitos poderiam ter feito a limpeza cinco minutos mais tarde — disse
Deringhouse, soltando uma gargalhada entrecortada. — OK, não diga mais nada. O
plano foi excelente. Sempre temos de contar com algum imprevisto. Durma. Você
sofreu um abalo cerebral. Oh, grande Netuno, que pata tem esse sujeito!
— E agora? —
cochichou Tiff antes que seus olhos se fechassem de novo.
— Ora, isso
se arranjará de alguma forma — disse Deringhouse, esticando as palavras. — Não
me diga que acredita que o chefe se aposentou na Stardust-III. Tudo OK.
Descanse. Isto é uma ordem, cadete Tifflor.
Tiff viu
anéis vermelhos dançarem diante de seus olhos. Deles se destacaram os contornos
do imenso supercouraçado. Na verdade, se o mesmo aparecesse por aqui, os
saltadores já não teriam motivo para rir. Mesmo que Tifflor não acreditasse em
mais nada, isso ele sabia.
De qualquer
maneira, por enquanto sua atuação terminara. O resto dependia do chefe.
* * *
* *
*
O cadete Julian Tifflor, formando da Academia Espacial da Terceira
Potência, foi escolhido por Perry Rhodan para desempenhar o papel de chamariz
cósmico.
O cadete caiu na armadilha em que lhe puseram. Mas Perry Rhodan,
que na Stardust-III pretende tirá-lo prontamente da armadilha, defronta-se com
dificuldades, pois de repente tem diante de si A Frota dos Saltadores.
A Frota dos
Saltadores é o título do próximo
volume da série Perry Rhodan.

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