Poucos
segundos depois, houve o primeiro contato radiofônico do cadete Tifflor. A
decolagem fora bem sucedida. O caça corria a trezentos mil metros de altura em
direção à costa leste dos Estados Unidos, que atingiria dentro de cinco
minutos.
— É uma
loucura mandar esse rapazinho fazer uma viagenzinha como essa num caça espacial
— resmungou Bell. Tinha o rosto contorcido. — Se isso der certo, eu como um
prego enferrujado.
— Aqui
dificilmente você encontrará um — advertiu-o Rhodan em tom gentil. — No
território da Terceira Potência um prego enferrujado é um objeto antiquado.
John
Marshall procurou reprimir um sorriso. Depois se concentrou juntamente com os
outros mutantes, para captar as vibrações mentais das pessoas que haviam sido
informadas sobre a verdadeira missão de Tiff.
Não se notou
nenhuma série anormal de pensamentos. Se é que no território da Terceira
Potência havia agentes de um poder estranho, eles sabiam se camuflar muito bem.
Em compensação, o serviço secreto de escuta de rádio registrou, vinte minutos
após a decolagem de Tifflor, uma mensagem curta transmitida na faixa de ondas
do hiperespaço. Tratava-se de uma mensagem codificada de dez segundos de
duração. A decifração era praticamente impossível. Neste ponto até mesmo a
calculadora positrônica falhara, pois se tratava de símbolos completamente
estranhos às características da espécie, que além disso estavam expressas num
código muito bem concebido.
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia zangado. Era exatamente isso que esperava.
— Então,
Marshall. Como se explica que nem você nem os outros telepatas consigam
identificar os agentes? Essa gente tem de pensar; e, pensando, irradia impulsos
que podem ser captados por via telepática. Como é que você não capta nada?
John
Marshall lançou um olhar desolado para Betty Toufry. Limitou-se a dar de
ombros.
— Não sei
como explicar. Apenas posso asseverar que não há nenhum traidor entre as
pessoas que estão informadas sobre tudo.
— Isso é
formidável — disse o coronel Freyt com um pigarro.
Rhodan
assobiou baixinho. Era uma idéia!
No
território da Terceira Potência todos os trabalhos se desenvolviam normalmente.
Pouca gente sabia que lá fora, no espaço cósmico, surgira um perigo misterioso.
E o número das pessoas que tinham qualquer idéia do passo decisivo que Rhodan
acabara de dar, ao atender a um telegrama em si mesmo pouco importante vindo de
um advogado nova-iorquino, era ainda menor.
O pedido
telegráfico de licença do cadete Julian Tifflor passou a figurar como um
documento da maior importância na história da Humanidade.
3
Para Julian
Tifflor a cerimônia de casamento foi um verdadeiro martírio. As intenções do
pastor Shielmann, um velho amigo da família, foram boas demais. O sermão foi
muito longo.
Finalmente,
quando a cerimônia chegou ao fim, Julian saiu da igreja quase correndo. No
pequeno jardim fronteiro procurou com as mãos trêmulas a arma que ali havia
escondido.
Sua
consciência e suas boas maneiras não puderam se conformar em entrar na casa de
Deus com um instrumento de destruição.
Encontrou a
arma de impulsos, juntamente com o cinto, atrás da densa cerca de rosas.
Suspirando aliviado, colocou-o segundo as prescrições, botou a mão sobre o
peito para se certificar de que a cápsula metálica continuava no mesmo lugar e
se apressou para não chegar atrasado às congratulações.
James
Frederik Tifflor, um homem bem apresentável, de pouco mais de cinqüenta anos,
lançou um olhar arrasador sobre o filho. A irmã de Tiff, que acabara de se
transformar em mulher casada, soltou um grito de pavor, e os olhos de algumas
damas de meia-idade tornaram-se vidrados.
Ninguém poderia
negar que uma arma arcônida de impulsos não só tinha um efeito devastador, mas
também parecia representar um perigo comum, ainda mais que a mesma só podia ser
carregada num coldre aberto.
— Você não
podia ter deixado de fazer uma coisa dessas, meu filho? — perguntou James
Tifflor em tom gelado.
Pela
primeira vez, Julian se deu conta de como era difícil estabelecer a devida
distinção entre as leis da cortesia e os preceitos emanados de uma ordem
lacônica.
— Não
poderia, papai — disse em tom gutural e ficou em posição de sentido.
Durante a
pomposa viagem de regresso, a situação piorou ainda mais, pois Tiff foi
obrigado a ir no carro de uma velha tia.
Palavras
duras foram proferidas sobre a Terceira Potência e sobre Perry Rhodan, tão
célebre e tão difamado.
A grande
casa de campo da família de Tifflor ficava a leste da cidade, em Long Island.
James F. Tifflor era um homem que podia se permitir esse luxo.
Quatro horas
depois da cerimônia de casamento e pouco antes do escurecer, Tiff ainda estava
sentado em seu quarto. Ninguém conseguira convencê-lo a largar a perigosa arma.
— Para mim
seria preferível que você resolvesse trabalhar em meu escritório — disse
Tifflor-pai laconicamente. — Não dou muito valor à chamada conquista das
estrelas. Pode-se saber o que significa essa palhaçada?
Mais uma vez
Julian não soube dar resposta. Pouco depois do pôr do sol se sentiu rejeitado
pela família. Defendera-se com algumas palavras ásperas das aproximações
interesseiras das moças e das perguntas idiotas dos rapazes de sua idade. Tiff
não pertencia à classe dos cadetes da Academia Espacial que gostavam de
apresentar seu saber numa bandeja. Dessa forma, houve uma verdadeira ruptura
social.
Amargurado,
Julian saiu para a pequenina sacada de seu quarto. As primeiras estrelas haviam
surgido no céu noturno. Pareciam chamar e seduzir. Exprimiam um profundo
mistério e um poder desconcertante.
Ali
permaneceu mais ou menos até as vinte e três horas. Só então chegou o momento
que estava aguardando com tamanha impaciência; mas não veio pela forma que
esperava.
O ataque
mental foi desfechado de sopetão. Um poder invisível procurou se apoderar de
sua personalidade consciente.
Tiff gemeu e
recuou cambaleante. Conhecia os efeitos daquilo. De uma hora para outra voltou
a se transformar num cadete da Academia Espacial que recebera um excelente
treinamento.
Procurou
bloquear sua mente, repelir os impulsos estranhos, fazer qualquer coisa contra
eles. Levou algum tempo para reconhecer a mensagem que chegava juntamente com o
ataque.
“Aqui fala John Marshall, do Exército de
Mutantes”, soou claramente a voz em sua mente. “Já nos conhecemos. Você deixou cair o capacete no gabinete do chefe.
Desista do seu bloqueio mental. Já me identifiquei.”
Tiff se
esqueceu do lugar em que se encontrava. Subitamente tudo estava mudado. O
ambiente marcado de impressões familiares perdeu todo significado. A tarefa
misteriosa iria começar. Esforçou-se para compreender.
“Muito bem; assim fica mais fácil”, foi a
próxima mensagem. “A senha é porta do céu. Tome imediatamente um
táxi aéreo e mande que o leve ao edifício da G.C.C. Tenha cuidado; alguns
desconhecidos o estão observando. Ficarei por perto. Não se despeça. Deixe um
bilhete e passe pelo jardim. Tenha cuidado. Fim.”
A pressão
mental cessou. Seu cérebro recuperou a liberdade. Soltou um suspiro de alívio e
escreveu algumas linhas.
Já conhecia
o caminho pelo amplo parque. Não havia qualquer recanto que não tivesse
inspecionado repetidas vezes.
Antes de
chegar ao portão de ferro recebeu a nova mensagem.
“Aqui fala Marshall. Estou num planador
gravitacional bem em cima do lugar em que você se encontra. Vá à rua e chame o
táxi aéreo.”
“Existe algum perigo?”, pensou Tiff,
forçando a mente ao máximo.
O outro
hesitou em responder.
“Não tenho certeza. As impressões estão um
tanto apagadas. Há muita gente na casa. Experimente.”
Tiff
engatilhou a arma. A luz vermelha começou a brilhar na parte superior da
coronha. O portão era usado poucas vezes.
Quando
estava prestes a puxar o enorme ferrolho, percebeu a advertência enérgica do
telepata invisível. Tifflor se virou apressadamente.
Atrás dos
velhos carvalhos surgiram os vultos apagados de dois homens. Não se percebiam
os rostos, mas Tiff viu as pernas que se moviam apressadamente.
Ouviu seu
próprio grito. Apesar das ordens terminantes que recebera, não conseguiu abrir
fogo sem prévio aviso.
“Atire!”, retumbou a mensagem telepática
em sua mente. Ao que parecia, Marshall estava dominado pelo pânico.
Tifflor
puxou a arma e saltou para trás da enorme coluna da pedra que ladeava o portão.
No momento em que caía ruidosamente ao chão, sentindo a forte dor provocada
pelo impacto do joelho, ouviu um chiado agudo, seguido de um baque surdo.
Numa fração
de segundo, viu os vapores que saíam de um envoltório de plástico rompido. Sua
fluorescência azulada rompeu a escuridão que reinava sob as árvores do parque.
Mais ao longe alguém soltou um grito gutural.
Naquele
instante dois rostos mascarados surgiram numa estranha luminosidade. Ao inalar
o ar, Tiff sentiu-se próximo a um desmaio.
Enquanto os
objetos começaram a ondear diante de seus olhos, reuniu as últimas forças e
comprimiu o botão que acionava a arma.
Um fluxo
incandescente que brilhava numa branquidão ofuscante saiu do cano. Abrindo-se
em leque, atingiu os dois vultos e se espalhou para as árvores do parque.
Foi um
disparo de radiações de curta duração. Tiff ainda ouviu o rugido da arma de
impulso e o estrépito de uma grande árvore que, enquanto caía, começava a ser
consumida pelas chamas.
Não
conseguiu fugir da nuvem de gases fluorescentes antes de inalar o ar mais uma
vez. Soltou um gemido e caiu para trás. Bilhões de cristais de aço pareciam
espetar seu pescoço. Não chegou a ver o planador gravitacional que desceu do
céu enrubescido pelas chamas.
Ao longo da
trajetória do raio disparado pela arma de impulsos toda a vegetação ardia. Um
pequeno inferno fora desencadeado por um simples movimento de dedo daquele
jovem.
* * *
O recinto
não era muito grande nem muito alto. Mas nele se viam coisas tão estranhas que
qualquer outro homem que não fosse Homer G. Adams dificilmente conseguiria se
orientar ali.
Numa das
grandes telas via-se o rosto marcante, um tanto cansado, de um homem
uniformizado. Era Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência.
— Como foi
que ele o encontrou? — soou a voz baixa vinda do alto-falante invisível.
Homer G.
Adams, um homem baixo e largo, que exercia as funções de diretor da G.C.C., era
considerado o maior gênio financeiro do século. Passou a mão de traços
extraordinariamente finos pelo enorme crânio.
Piscando em
virtude de uma miopia recentemente adquirida, contemplou a figura do homem que
proporcionou a ele, Adams, a possibilidade de montar um gigantesco complexo em
base interestelar.
A mão da
General Cosmic Company já se estendia em direção às estrelas. O monopólio de comércio
com os ferrônios, uma raça semelhante à dos humanos, trazia lucros que se
aproximavam das receitas tributárias de todas as grandes nações do planeta
Terra. Não havia a menor dúvida de que Homer G. Adams controlava a maior
potência econômica de todos os tempos.
— Não é
fácil responder a essa pergunta — respondeu Adams em tom cauteloso. — Caso não
se oponha, gostaria de comparecer pessoalmente diante de você. Meu
hipertransmissor de matéria está preparado.
Adams lançou
um olhar para o mais estranho dos aparelhos que havia no recinto. Ele lhe
permitira por várias vezes penetrar no palácio da Terceira Potência sem ser
visto nem percebido.
— Sinto
muito; estou nos preparativos de uma decolagem — recusou Rhodan. — Qual foi a
reação dos atacantes? E quem são eles?
—
Infelizmente não foi possível identificar os homens mortos por Tifflor. Mas
conseguimos recolher pequena quantidade do gás estranho por eles utilizado. A
análise dos mesmos deverá trazer alguns esclarecimentos. No último instante
John Marshall tirou Tifflor da nuvem de gás. Quase chegou a desmaiar. É uma
droga infernal.
— É de
procedência terrestre?
Adams ergueu
os ombros encurvados.
— Ainda não
temos certeza. Tudo isso é muito misterioso. Estou em contato com o serviço
secreto deste país. A imprensa foi enganada sobre a verdade dos fatos, ainda
mais que os agentes de Mercant conseguiram prender alguns sujeitos. Trata-se de
um conhecidíssimo bando nova-iorquino, que foi encarregado por um desconhecido
de dar cabo de Julian Tifflor através de uma carga de gás. Foi só o que
conseguimos descobrir até agora. Uma coisa é certa: as pessoas que puderam ser
agarradas não são os verdadeiros inimigos. Nosso inquérito hipnótico não
forneceu qualquer indicação. Ninguém sabe quem é o mandante do crime.
— Como está Tifflor?
— Seu estado
é satisfatório. Graças ao seu desmaio nos livramos da preocupação de
narcotizá-lo sem que ele desconfiasse. O professor Kärner adiou sua intervenção
por cinco horas, porque deseja verificar os prováveis efeitos colaterais do gás
inalado por Tifflor. Não foram notadas quaisquer perturbações orgânicas. Antes
que Tifflor despertasse, lhe proporcionamos uma narcose profunda. A intervenção
está sendo realizada neste instante.
Uma
expressão séria surgiu no rosto de Perry Rhodan.
A hora havia
chegado.
— Adams, por
enquanto tenho de confiar exclusivamente em você. Caso o micro instrumento
provoque em Tifflor a reação que esperamos, ele se transformará num emissor
goniométrico de potência extraordinária. Um telepata do tipo de Marshall conseguirá
localizá-lo a uma distância de dois anos-luz com a mesma rapidez e precisão de
quem se encontra a seu lado. Uma vez realizada a intervenção, faça a
experiência.
Homer G.
Adams respirava com dificuldade. Uma fina camada de suor cobria a testa
abaulada.
— Esse
instrumento é uma coisa do diabo. Mal consegui permanecer próximo a ele, embora
não tenha nada de telepata. As vibrações superdimensionais que emite são
extremamente intensas. Onde arranjou aquilo?
Rhodan viu
crescer o rosto de seu interlocutor distante. Adams aproximara-se do receptor.
— Quando
souber, cale a boca. Há poucos dias regressei do planeta Peregrino, o mundo da
vida eterna. Você já está informado a este respeito. Por lá não existem deuses,
mas inteligências inconcebíveis que conseguiram decifrar os segredos mais
recônditos da natureza. Foram esses seres que me forneceram esse aparelho, que
foi fabricado a meu pedido num espaço de tempo reduzidíssimo, como se não
passasse de um simples brinquedo de criança. O micromodulador de vibrações celulares
alterará as vibrações de cada uma das células do corpo do cadete. Tifflor será
transformado num emissor galático. Só nos resta esperar que o desconhecido
venha captá-lo. O ataque que sofreu constitui um indício de que já é
considerado um mensageiro secreto. Procure estimular essa opinião, Adams,
especialmente perante Tifflor. Entre os dados armazenados em sua memória não
deve haver nada que num inquérito hipnótico possa levá-lo a revelar algum
segredo. Não sabe nada, nem deve saber. Entendido?
Adams se
limitou a acenar com a cabeça. Seu rosto parecia cansado.
— Faça o
favor de me ligar para a sala de operações — pediu Rhodan em tom indiferente.
As mãos de
Adams entraram em atividade. A clínica da G.C.C., instalada no gigantesco
arranha-céu em que a empresa tinha sua sede, surgiu em outra tela.
O
médico-operador era o Dr. Kärner, um cirurgião genial. O Dr. Haggard e o Dr.
Eric Manoli serviam de assistentes. Ainda outros médicos com treinamento
arcônida se encontravam presentes.
Qualquer
outro médico estranharia bastante a técnica operatória ali empregada. O próprio
aparelho de anestesia era uma maravilha da micropositrônica mais avançada.
Um corte já
fora feito do lado direito da região renal. O soro arcônida de anticorpos
permitia que o transplante de substâncias estranhas se realizasse sem qualquer
risco. No momento em que Adams ligou a tela, o Dr. Kärner estava implantando um
objeto que tinha o tamanho de um dedal cercado de numerosos tentáculos.
O
alto-falante reproduziu a respiração pesada do operador treinado nos métodos
arcônidas. Nesse momento aquela figura meio orgânica meio mecânica começou a
ligar seus tentáculos microscópicos ao tecido nervoso da coluna vertebral. O contato
com os vasos sangüíneos também foi realizado sem qualquer participação dos
médicos. Todo o processo não durou mais de cinco minutos. Depois disso aquela
coisa estranha se havia unido de forma quase invisível aos tecidos do corpo de
Tiff.
— Pronto —
disse alguém. — Vamos começar?
Homer G.
Adams desligou. Logo voltou a fitar a outra tela.
— Que coisa
medonha — cochichou. — Como é que se pode fabricar um objeto destes? Até parece
que tem inteligência.
Rhodan
soltou uma risada um tanto forçada. Parecia ter os lábios ressequidos.
— Não
pergunte mais nada. Parece que no planeta Peregrino nada é impossível. Quanto
tempo demorará a cicatrização da ferida?
— Doze horas
no máximo. É o que Haggard afirma. Com o plasma arcônida a cicatrização que não
deixa nenhum vestígio pode ser até mais rápida.
— OK. É
preferível esperar as doze horas. Quando despertar diga-lhe que aquele gás
misterioso provocou um desmaio prolongado. Não perca a cabeça, Adams. O tenente
Everson já partiu. No momento encontra-se nas proximidades da órbita de Plutão
e prepara o salto interestelar em direção ao sistema Vega. Por enquanto não foi
atacado nem localizado. Tenho a impressão de que morderam a isca que é Tifflor.
Assim que estiver restabelecido, envie-o à base na Lua. Ali o major Deringhouse
o aguardará com a Good Hope-IX. Entendido?
Adams
confirmou as últimas observações, um tanto misteriosas, e concluíram a
palestra.
O cadete
Julian Tifflor, um estudante da Academia Espacial que cursava o último
semestre, iria desempenhar um papel importante na história da Humanidade.
Ainda não
sabia disso. Aliás, ninguém sabia exatamente o que Perry Rhodan esperava
conseguir com a ação de Tiff. Adams tinha certeza de uma coisa: o chefe fizera
exatamente o necessário para provocar uma suspeita mínima em relação a Tifflor.
Se os indícios fossem mais fortes, o fracasso seria fatal.
Adams, um
homem genial e decidido em questões financeiras, estremeceu por dentro.
Lembrou-se das notícias que o cadete carregaria pelo espaço afora. Sabia
perfeitamente que o cérebro positrônico instalado na base de Vênus gastara três
semanas de tempo terrestre para dar um caráter de verossimilhança aos dados
registrados em microfita. Face à enorme capacidade de processamento da máquina,
três semanas representavam um tempo imenso.
O rosto de
Rhodan desapareceu da tela.
O silêncio
passou a tomar conta daquela sala estranha, onde só um homem podia penetrar
além de Rhodan. Na verdade, a pequena sala situada no quartel-general da G.C.C.
era uma das estações de controle que os cronistas de épocas posteriores
designariam como bases-miniatura do imortal.
Adams se
ergueu do assento giratório. O transplante ainda não havia sido concluído,
segundo descobriu ao lançar um ligeiro olhar para o aparelho de observação
ótica que voltara a ser ligado.
Kärner e
Haggard estavam fechando a ferida com bioplasma arcônida. Não havia a menor
possibilidade de que se formasse uma cicatriz visível. A cura se processava com
uma rapidez desconcertante. Começava praticamente no mesmo instante em que o
plasma, despejado por um spray, atingia
a ferida.
Adams
estremeceu quando ouviu alguém choramingar pelo alto-falante. Apressou-se em
ligar o amplificador de ângulo do receptor.
John
Marshall, o telepata, que assistira ao transplante como simples observador, foi
conduzido apressadamente para fora da sala de operações por dois médicos.
Aqueles sons estranhos haviam sido emitidos por ele. Estava com o rosto
contorcido.
Adams
concluiu que o micromodulador celular já estava funcionando. Julian Tifflor se
transformou num emissor. No entanto, os impulsos irradiados por seu corpo só
poderiam ser captados por um telepata bastante capacitado que se tivesse
sintonizado com as vibrações de Tifflor.
Foi através
de um planejamento grandioso e de múltiplas ramificações que Perry Rhodan
finalmente estendeu a mão em direção às estrelas. Naquele dia 28 de junho
transformou-se no fator invisível do poder, que se mantinha atrás dos
bastidores.
Adams
penetrou no campo identificador de cinco dimensões do espaço secreto. Uma vez
reconhecida sua legitimação para entrar ali, uma parede de concreto do último
pavimento subterrâneo se transformou num conjunto materialmente instável.
Passando
pelo campo de desmaterialização, saiu do edifício. A matéria sólida voltou a se
estruturar atrás dele. No momento em que Adams pegou o elevador especial para
subir ao centésimo oitavo pavimento, o cadete Julian Tifflor, ainda sob os
efeitos da anestesia, estava sendo levado para fora da sala de operações. A
intervenção cirúrgica mais misteriosa de toda a história da Humanidade havia
sido concluída.
4
O Secretariado
ainda apresentava um aspecto corriqueiro e inofensivo. Se não considerássemos o
elevado número de pessoas que ali trabalhavam e as instalações altamente
sofisticadas, destinadas à rápida transmissão de mensagens, a sala era igual a
qualquer uma das que se situavam nos arranha-céus daquela área.
Mas a
impressão sofreu uma modificação radical no instante em que Julian Tifflor foi
conduzido à porta corrediça, cujo aspecto nada tinha de especial.
Abriu-se
silenciosamente, mas não havia como abafar o ruído do aço arcônida que deslizava.
Logo se viram os dois robôs colocados de um e outro lado da entrada. Os braços
mecânicos armados, dotados de ampla mobilidade, não pareciam tão vulgares.
Tiff entrou
sem demonstrar a menor emoção. Já estava acostumado a esse tipo de medida de
segurança. Homer G. Adams, largo e pesado, estava sentado atrás de um
gigantesco instrumento de trabalho que já não poderia ser designado como
escrivaninha.
Era a
primeira vez que Tifflor se defrontava com o homem que costumava ser
considerado o ministro das finanças da Terceira Potência. O estranho era que a
sede das atividades de um funcionário de categoria tão elevada se localizasse
em Nova Iorque.
— Queira se
sentar — disse uma voz cheia e agradável.
Adams
sorriu. Tiff fora informado de que aquele homem de espinha curvada era um
semimutante. Era só o que sabia a seu respeito. Não tinha a menor idéia da
memória fotográfica de Adams e de sua capacidade de prever os acontecimentos
econômicos.
— Lamento
que por minha causa tenha se envolvido em acontecimentos tão desagradáveis —
precipitou Adams em tom indiferente. — É claro que poderia tê-lo chamado antes,
através de John Marshall, visto que seus
deveres sociais já haviam sido cumpridos. Mas estava interessado em retê-lo em
casa de seus pais, até que pudesse contar com o aparecimento dos prováveis
inimigos. Digamos que eu quis fazer certo tipo de experiência.
Tifflor
engoliu em seco de forma a ser ouvido perfeitamente. A revelação era um tanto
surpreendente.
—
Naturalmente — disse com a voz apagada.
— De qualquer
maneira o senhor se saiu bem. As informações de nossos médicos são
satisfatórias. Como se sente?
Tiff parecia
mergulhar nos olhos grandes e ardentes do corcunda. Desvencilhou-se à força,
para dar expressão à sua angústia mental:
— Acho que
matei dois seres humanos. Adams lançou um olhar sobre suas mãos estreitas.
Conhecia o sentimento de auto-recriminação que angustiava aquele jovem.
— Não se
preocupe com isso. Não há dúvida de que agiu em legítima defesa. Não será
aberto inquérito. De resto, o caso está sendo examinado pela Federação de
Defesa da Terra. Tenho instruções para mandá-lo imediatamente à Lua, onde a
nave Good Hope-IX, comandada pelo major Deringhouse, está à sua espera. Não
queremos que a conclusão de seu exame final seja retardada ainda mais.
Um
sentimento de profunda decepção se apossou de Julian Tifflor. Aquilo começara
de forma tão estranha, interessante e misteriosa... e vinha aquele homem falar
no seu exame final.
— Sim senhor
— disse.
Adams se
esforçou para sorrir. Mas só o conseguiu em parte. Falando devagar, disse:
— Quero lhe
pedir que cuide de mais um assunto. Senhor Tifflor, tenho ordens para lhe
lembrar que poderá desistir a qualquer hora. Ninguém, nem mesmo Perry Rhodan,
vai obrigá-lo a aceitar esta missão.
Tiff se
transformou na concentração personificada. De uma hora para outra a lembrança
do temível exame final de treinamento tático se desvaneceu.
— De que se
trata? — perguntou com voz gutural.
Um cilindro
metálico de cerca de vinte centímetros de comprimento surgiu na mão de Adams.
Era praticamente idêntico àquele que Tiff recebera poucas horas antes das mãos
de Rhodan.
— Chegamos à
conclusão de que é necessário recorrer a um meio extraordinário para fazer
chegar estes dados secretos sobre o planejamento econômico da Terceira Potência
ao sistema Vega, que fica a uma distância de vinte e sete anos-luz. Neste
cilindro se encontra uma microfita de gravações audiovisuais, que em hipótese
alguma deve cair em mãos de pessoas não credenciadas. O senhor há de
compreender que o planejamento econômico a longo prazo é de importância vital
para toda a Humanidade. Os dados obtidos pelos planejadores não podem ser
alterados da noite para o dia, pois deles dependem, além das construções de
naves, muitas outras coisas que em linhas gerais devem ser adaptadas aos
planos. Sua missão consistirá em entregar este cilindro ao governador das
dependências da Terceira Potência situadas no planeta Ferrol, sem que ninguém o
perceba. É só. Concorda em se encarregar desta missão secreta?
Mais uma vez
Tiff se sentiu decepcionado. Era evidente que o destino da nave Good Hope-IX
seria o sistema Vega. Indagou a este respeito.
— É claro
que irá a Vega — confirmou Adams em tom enfático. — O major Deringhouse recebeu
instruções nesse sentido. O que nos interessa é que os dados cheguem a Ferrol
sem que caiam em mãos estranhas. O senhor não deverá falar sobre isto com
ninguém.
Tiff
concordou. A pequena cápsula metálica mudou de mãos. Antes de se erguer de trás
de sua monstruosa mesa de trabalho, Adams formulou mais uma advertência:
— Se houver
qualquer problema, basta apertar o botão blindado que aciona a carga
destrutiva. Com isso o envoltório se desmanchará. Dê uma olhada.
Tiff fez
questão de se informar sobre todos os detalhes. Foi nesse instante que começou
a desconfiar de que sua missão não ficaria restrita a um simples serviço de
mensageiro. Devia haver outras coisas em jogo, que preferiam não comunicar a um
simples cadete como ele.
Adams ficou
satisfeito ao registrar a desconfiança do cadete, que começava a despertar. As
coisas estavam correndo exatamente pela forma que Perry Rhodan havia previsto.
Tiff devia desconfiar, mas não a tal ponto que a simples suposição se
transformasse num verdadeiro saber.
Tiff guardou
o cilindro. Permaneceu imóvel diante do homem de meia-idade com a cabeleira
loura rala e desbotada.
— Quer dizer
que aceita? — procurou se certificar Adams. Tiff quase chegou a ter a impressão
de que aqueles grandes olhos imploravam: “Não
o faça!”
Mas logo
sacudiu aquela idéia fugaz.
—
Naturalmente; terei muito prazer.
— Pois venha
— disse Adams, pigarreando para dentro da mão colocada diante da boca. — Pegue
meu elevador particular. Já sabe como funciona um hipertransmissor de matéria?
O calafrio
provocado por um grande nervosismo sacudiu Tiff. Um hipertransmissor de
matéria! Era um daqueles aparelhos extraordinários que Perry Rhodan encontrara
no sistema Vega e que chegara a compreender. O cadete gaguejou com a garganta
ressequida:
— Conheço os
princípios do seu funcionamento, mas não tenho qualquer experiência com o
aparelho.
— Pois vai
adquirir essa experiência. Faça o favor de vir comigo.
O pequeno
elevador especial desceu vertiginosamente. Tiff quase chegou a engasgar quando
Adams recorreu às suas ondas individuais programadas para acionar o
transformador de cinco dimensões. Num ponto as paredes maciças do subterrâneo
se transformaram numa espiral cintilante.
— É um campo
de dissolução situado num espaço de grau superior — explicou Adams em tom
indiferente. — A matéria se transforma numa forma de energia capaz de ser
atravessada. Não, não são gases. E a travessia não é tão curta como se poderia
ser levado a acreditar. A sala de controle fica a mais de um quilômetro daqui,
nas rochas de Manhattan. Venha comigo. Já realizei sua identificação junto ao
controle automático.
A passos
hesitantes Tifflor penetrou no estranho campo. Não sentiu nada, além de uma
leve pressão na nuca. Era muito menos penoso que uma transição no espaço
cósmico.
A distância
indicada por Adams parecia exagerada. De qualquer maneira, Tiff não se lembrava
de jamais ter vencido a distância de um quilômetro com um único passo.
Nem
desconfiou de que nesse ligeiro instante deixara de existir materialmente. Pela
própria natureza das coisas era impossível atravessar um campo de dissolução da
quinta dimensão mantendo estável a forma normal da matéria.
O raciocínio
matemático de Tiff deu sinal de vida. Poucos segundos depois encontrou um
esboço da provável solução. Ao menos sua inteligência bem treinada lhe permitia
imaginar de forma realista esses fenômenos aparentemente improváveis. Era uma
coisa que só se aprendia na Academia Espacial da Terceira Potência.
Seu olhar
foi atraído por um aparelho com o formato de jaula, em cujo interior se via uma
plataforma circular. Devia ser o hipertransmissor. Adams já estava ocupado com
as regulagens.
Pesadas
máquinas começaram a rumorejar.
— É a usina
de força independente — explicou Adams, seguindo as instruções recebidas.
Rhodan
fizera questão de que Tifflor fosse informado sobre essas coisas.
— É claro
que não podemos depender do suprimento de energia sempre incerto da cidade.
Faça o favor de entrar. Dentro de um instante o senhor voltará a se
materializar no hipertransmissor sincronizado da Lua. Prepare-se para sentir
uma dor leve. Faça de conta que vai passar pela transição de uma nave espacial.
Com os olhos
vidrados e as pernas cambaleantes, Tifflor se dirigiu à terrível máquina. Uma
luminosidade violeta surgiu entre as barras circulares que cercavam a
plataforma.
— Não há o
menor perigo — tranqüilizou-o Adams. — A máquina foi regulada para o senhor. É
bem verdade que não recomendaria a uma pessoa não autorizada que se atrevesse a
um hipersalto espacial. O cilindro com os dados está com o senhor?
Tiff fez que
sim. Colocou-se entre as duas plataformas e segurou os pólos com ambas as mãos.
Antes que
pudesse formular outra pergunta, sentiu a dor intermitente da desmaterialização.
Adams viu que uma espiral turbilhonante se formava entre os bastões dos pólos,
para desaparecer dentro de poucos segundos. O hipertransmissor emitiu um
zumbido grave e parou de funcionar. Julian Tifflor, estudante de cosmonáutica,
havia desaparecido.
Ao se
rematerializar, Tifflor acreditou que tivesse sonhado por uma fração de
segundo. Não havia a menor recordação do transporte a uma velocidade superior à
da luz, realizada através de uma dimensão de ordem superior, que não conhece as
leis que prevalecem no universo comum.
Voltou a
distinguir nitidamente o quadro que se oferecia diante de seus olhos.
Encontrava-se num aparelho absolutamente idêntico ao que deixara na Terra. A
única diferença era que não se encontrava naquela sala situada bem abaixo da
rocha de Manhattan.
— Olá —
disse o major Deringhouse em tom seco. — Como se sente? Deixe de bobagens. Um
homem que acaba de se rematerializar não deve perder tempo em continência. Saia
logo dessa jaula.
Tiff passou
desajeitadamente por cima da linha vermelha que demarcava a zona de perigo.
Perplexo, lançou os olhos em torno de si. O hipertransmissor estava instalado
num recinto cavado na rocha. As paredes estavam nuas, com exceção de um enorme
painel de controle, preso a uma delas. Atrás do mesmo, uma máquina cessou de
funcionar com um ligeiro zumbido. Devia ser a usina atômica que gerava a
energia. Uma coisa era certa: não devia ser muito grande. Os construtores
dessas estranhas transportadoras nunca fizeram questão de que os geradores
fossem de dimensões avantajadas. Pelo que se dizia, havia hipertransmissores
cujas fontes de energia estavam embutidas nas plataformas inferiores.
De qualquer
maneira, Tiff colocou a mão no boné do uniforme. Deringhouse o examinou
detidamente antes de formular a pergunta lacônica:
— Tudo em
ordem? Como se sente?
— Muito bem.
Foi uma experiência excitante.
— Não foi
isso que perguntei, mas acredito em você. Venha comigo.
Tiff
esperara uma série de perguntas. Deringhouse não soltou qualquer observação que
pudesse se relacionar com a missão confiada a Tiff. Apesar disso, o major
parecia estar informado sobre as linhas gerais da mesma. O olhar perscrutador
que lançou sobre o bolso do uniforme de Tiff era bastante revelador.
O
desmaterializador subia pela superfície nua e áspera da parede. Isso
significava que também aqui a pessoa era levada para fora através de um campo
do tipo A.
— Você se
encontra no satélite Lua, bem abaixo da base do pólo sul — explicou
Deringhouse. — Quando chegarmos lá em cima, você não vai dizer nada que não
seja absolutamente necessário. Decolaremos imediatamente para realizar nosso
vôo de treinamento, e você ocupará o lugar que normalmente cabe a um
examinando. Entendido?
— Sim senhor
— gaguejou Tiff em tom deprimido. As coisas estavam ficando cada vez mais
confusas.
Um sorriso
parecia se insinuar no rosto estreito de Deringhouse. Todos sabiam que o jovem
oficial tinha bastante senso de humor.
— As
perguntas que seus colegas certamente formularão não lhe interessam. Sou a
única pessoa a bordo da nave que está informada sobre sua tarefa de mensageiro.
Se acreditar que haverá dificuldades, dirija-se diretamente a mim. Acho que não
há mais nada a dizer, não é? Ah, sim, há mais uma coisa. Devo informá-lo de
que, dentro de uma hora, seu sósia voltará para o deserto de Gobi. Ao que
parece os fabricantes de máscaras fizeram um serviço excelente. Neste instante
seu substituto provavelmente se encontra numa cerimônia de despedida regada a
lágrimas. Fazemos questão de encenar um ligeiro engano para os visitantes que
certamente se encontrarão presentes.
Tiff sentiu
sua garganta se estreitar ainda mais. Engoliu com grande esforço.
— Um sósia?
— gaguejou.
Um largo
sorriso cobriu o rosto de Deringhouse.
— Isso mesmo
— confirmou. — Dissemos ao rapaz que, em hipótese alguma, deve beijar sua irmã.
Numa súbita
clarividência, Tiff percebeu com que cuidado o chefe planejara tudo. A nave
Good Hope-IX havia decolado sem Tifflor; não havia a menor dúvida. Se de
repente seu sósia aparecesse por lá, só por obra do demônio alguém poderia
perceber a trama.
Era essa a
opinião de Tiff. Não contava com a lógica fria de um homem que acreditava
plenamente que outras inteligências pudessem ter bastante visão para perceber a
manobra. Se isso acontecesse, a história da missão de mensageiro deveria
parecer verdadeira.
— Há uma
certa turbulência — disse Tiff em tom respeitoso.
—
Turbulência? — exaltou-se Deringhouse. — É uma névoa em espiral. Muito bem.
Entre... e não diga uma palavra sobre sua missão.
O comandante
da Good Hope-IX seguiu o cadete para o interior do campo transportador, que
nada mais era senão um hiper-transmissor para distâncias reduzidas. Quando
chegaram à parte de cima, lâmpadas fortes iluminavam o espaço. A saída ficava
no escritório do chefe de segurança. O homem mal levantou os olhos quando os
dois homens uniformizados passaram junto à sua escrivaninha.
Sob a imensa
abóbada energética que cobria a base lunar estava estacionada a nave esférica
auxiliar do tipo Good Hope, que tinha um diâmetro de sessenta metros. Um
couraçado da classe da Stardust-III trazia doze naves desse tipo a bordo.
Sem dizer
uma palavra, caminharam em direção à nave, pronta para decolar. A comporta do
pólo inferior fora aberta entre os suportes bastantes estáveis. Subiram no
elevador antigravitacional e logo entraram na sala de comando.
— Atenção! —
berrou alguém a plena força dos pulmões.
Tiff
estremeceu ao reconhecer a voz de Humpry Hifield. Com o rosto pálido, passou os
olhos pelos cadetes enfileirados. À entrada do comandante, mantinham-se imóveis
como colunas de granito.
O sargento
Rous também estava presente. Exercia as funções de imediato do girino que se
deslocava a velocidade superior à da luz.
Tiff contou
onze cadetes de sua turma. Ainda havia duas moças, uma das quais era Mildred
Orson. Também conhecia a outra, Felicitas Kergonen, uma pessoa frágil e esguia.
Felic, como era chamada, só tinha dezoito anos. Ainda tinha dois semestres de
estudos de botânica galáctica diante de si. O que estaria fazendo a bordo da
nave dos formandos?
Tiff sentiu
seu pulso bater mais depressa quando seu olhar se encontrou com o de Milly. Ao
que tudo indicava, Deringhouse preferira não mencionar sua ligeira excursão ao
setor residencial dos cadetes.
— A licença
especial do cadete Tifflor chegou ao fim. Decolaremos imediatamente. Ocupem
seus lugares — foram as palavras bastante lacônicas de Deringhouse. Para os
nervos tensos dos futuros cosmonautas representavam uma indicação pouco precisa
sobre o misterioso aparecimento de Tiff.
Klaus
Eberhardt parecia prestes a estourar. O rosto de Hump se manteve impassível.
Sempre permanecia assim quando um superior se encontrava nas proximidades.
Enquanto
Deringhouse caminhava em direção à comporta de segurança transparente da cabina
de telegrafia, para realizar pessoalmente algumas das regulagens que se faziam
necessárias, Rous resmungou naquela gentileza que lhe era peculiar:
— Não
precisamos de estátuas. Quem sabe se os cavalheiros não querem ocupar logo os
seus lugares? As damas farão o favor de desaparecerem no interior dos seus
camarotes. Vamos logo!
As intenções
de Rous não eram tão ruins. Quando Milly Orson, ao passar por ele, lhe lançou
um olhar aniquilador, reprimiu um palavrão bem intencionado.
Felic
Kergonen, uma loura tímida, caminhava atrás de sua colega, que tinha um ano
mais que ela. A escotilha voltou a se fechar. A respiração de Rous emitia um
chiado igual ao do vapor que escapa de uma caldeira.
— Que
porcaria! — chiou, lançando um olhar furioso. — Afinal, qual é a graça? Não são
moças, mas alunas da Academia Espacial. Entendido? Peço que recebam um
tratamento igual ao de qualquer homem que se encontre a bordo. As damas terão
de mostrar em mundos estranhos o que aprenderam de bacteriologia cósmica e
botânica galáctica. Cadete Tifflor!
Tiff se
encolheu. Mais uma vez Rous, seu velho martirizador, parecia ser feito de uma
carga de explosivo.
— No
primeiro intervalo o senhor cuidará do controle de armamentos. Se quiser, pode
fazer a Good Hope-IX passar por dentro do primeiro planeta que tivermos pela
frente. Eberhardt e Hifield, os senhores controlarão o setor técnico. Os outros
homens ocuparão os postos anteriores. Decolaremos dentro de cinco minutos.
Aquilo era
típico do sargento Rous! Tinha que ser levado conforme era.
— Ora, veja!
Você ainda está de traje de gala — disse o sargento, muito nervoso. — Daqui a
alguns segundos você estará de volta, em trajes de serviço.
Tifflor saiu
correndo. Não chegou a ver o sorriso largo de Rous. Eberhardt e Hifield se
dirigiram às poltronas giratórias que ficavam junto aos dois assentos de
piloto.
— Que
cachorrão, não é? — chiou Eberhardt. — Você viu alguma nave pousar? Ainda está
com a arma de verdade.
— Depois da
decolagem receberemos uma igual. Fique quieto.
As máquinas
começaram a trabalhar no gigantesco bojo da Good Hope-IX. A reação do
dispositivo automático aos comandos de Rous foi tão precisa que nenhum homem
conseguiria fazer igual. A nave em que se encontravam não fora construída na
Terra. A supertecnologia arcônida ressaltava em todos os cantos. O desempenho
dos conversores de impulso arcônidas subia numa curva íngreme. Eberhardt
anunciou que a energia necessária à ativação dos neutralizadores de pressão se
encontrava disponível. Uma vida de múltiplas facetas passara a tomar conta da
nave ainda há pouco amortecida.
Rous
mantinha contato audiovisual com o comandante da base. Além da cortina
energética protetora começava o espaço cósmico. Para que a Good Hope-IX pudesse
decolar tornava-se necessário abrir a abóbada energética, por uma fração de
segundo, no setor pelo qual a nave teria de passar.
— Pronto
para decolar. Solicito a delimitação vertical do setor — transmitiu Rous.
Fora do
girino os projetores do espaçoporto lunar entraram em funcionamento.
Uma coluna
energética luminosa se projetou para o alto, combinou-se com o abaulado da
gigantesca abóbada e envolveu a nave.
Tratava-se
de uma comporta imensa e superaperfeiçoada, que ainda provocava a admiração dos
cientistas terrestres. No distante planeta de Árcon já há dez mil anos a
decolagem das naves espaciais era realizada dessa forma. A manobra era indicada
sempre que o espaçoporto se localizasse em astros onde não houvesse atmosfera,
ou esta fosse venenosa.
Olhando pela
parede blindada e transparente, Rous contemplou a sala de telegrafia. O
comandante continuava sentado diante de uma tela de telecomunicação. Da sala de
comando não se podia ver a pessoa que aparecia na mesma.
* * *
— Tudo
pronto a bordo — disse Deringhouse, em voz muito baixa, para dentro do
microfone do aparelho de comunicação audiovisual, que funcionava à velocidade
superior à da luz.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. O major não sabia quem era a pessoa para a
qual olhava de esguelha. De qualquer maneira, Perry Rhodan parecia satisfeito.
Deringhouse
nem desconfiava de que, ao recolher Tifflor a bordo, colocara no interior da nave
uma emissora orgânica que funcionava no espaço hiperdimensional. Nem mesmo
Deringhouse sabia tudo.
Rhodan
percebera o aceno de cabeça do telepata do Exército de Mutantes que se
encontrava a seu lado. Isso lhe bastava para provar que Tifflor chegara em boas
condições à base situada na Lua.
— Muito
obrigado. Nave liberada para a decolagem. Queira seguir estritamente as suas
instruções. Mais algum esclarecimento?
Deringhouse
hesitou. Depois de algum tempo perguntou apressadamente.
— Everson
passou?
— Sim,
realizou a transição sem qualquer problema. Mais alguma coisa?
Deringhouse
disse que não. Não se atreveu a perguntar se o sósia de Tifflor já havia
chegado. Era quase certo que sim.
— Nesse caso
lhes desejo boa sorte — concluiu Rhodan. — Cuide para que o exame final dos
cadetes seja o mais perfeito possível. Os cadetes de hoje serão os combatentes
siderais de amanhã.
O major
compreendia perfeitamente aquele estranho sorriso do chefe. Naquele instante o
inferno devia andar às soltas no espaçoporto da Terceira Potência.
Há tempo as
três maiores dentre as unidades de Perry Rhodan estavam prontas para decolar em
caso de alarma. Deringhouse se lembrou com saudades do cruzador pesado Terra,
que costumava comandar. A essa hora o comando estava sendo exercido pelo
capitão MacClears. Tratava-se de uma nave de duzentos metros de diâmetro,
construída na Terra.
Ao
lembrar-se de seu cruzador, Deringhouse teve a impressão de que dali a pouco
tempo bem que precisaria de seus potentes canhões de radiação. A Good Hope-IX,
sem dúvida muito grande, não passava de um brinquedo se comparada com o
cruzador Terra.
A imagem de
Rhodan se apagou. Deringhouse se levantou lentamente e se dirigiu à sala de
comando. Rous desfiou um relato. Aqueles homens já se conheciam; sabiam o que
pensar um do outro.
O comandante
lançou um olhar bastante expressivo para o sargento.
— Tudo bem,
Rous? Não temos nenhum pé-frio a bordo?
— Nenhum —
disse Rous, esticando as palavras e olhando Deringhouse de baixo.
A ponta da
língua passou ligeiramente pelos lábios ressequidos.
— Ok. Vamos
dar partida. Tifflor, tudo bem no seu setor?
Tiff, que
depois de uma complicada troca de roupas acabara de voltar à sala de comando,
confirmou em atitude tensa. Se ninguém mais desconfiava que dali a pouco as
coisas ficariam muito sérias, ele desconfiava.
* * *
Fazia
exatamente trinta minutos, tempo padrão, que a Good Hope-IX havia saído da
comporta de campo para penetrar no espaço vazio. As estações de Marte
anunciavam que, seguindo as instruções, Deringhouse acelerava exatamente na
base de 500 km/s2. Dessa forma atingiria, dentro de cerca de dez
minutos, uma velocidade aproximada à da luz.
No momento
em que chegou o primeiro aviso da estação automática instalada em Calisto, uma
das luas de Júpiter, essa marca havia sido atingida.
Rhodan se
acomodou no assento do primeiro-oficial. Bem embaixo dele vibravam as máquinas
titânicas do couraçado Stardust-III, um gigante esférico de oitocentos metros
de diâmetro, pertencente à classe das naves arcônidas do tipo Império. No
império estelar de Árcon jamais foram construídos couraçados maiores e mais
potentes. A forma pela qual Rhodan conseguiu apresar o gigantesco veículo
espacial constitui, por si, uma história.
—
Decolaremos dentro de vinte segundos — anunciou pelo rádio.
Nas grandes
telas de observação global via-se a imagem reluzente de dois cruzadores
pesados, o Terra e o Solar System.
Com a
precisão de um segundo, as três naves espaciais mais poderosas da Terceira
Potência se levantaram do solo. Muito embora Rhodan tivesse dado instruções
para manter a aceleração num nível mínimo até que atingissem a ionosfera, a
cidade de Terrânia, situada nas proximidades do espaço-porto, assistiu a um
verdadeiro fim de mundo. Nunca antes os três gigantes haviam subido ao céu ao
mesmo tempo.
Uma vez
ultrapassadas as camadas superiores da atmosfera terrestre, o grupo acelerou ao
máximo. Seguiu exatamente a rota que Deringhouse tomara pouco antes.
— Rigorosa
prontidão em todas as unidades!
Essa ordem
foi transmitida depois que as três naves haviam cruzado a órbita de Marte. Os
tripulantes, todos homens altamente especializados, se encaravam. O chefe
falara com uma indiferença tão estranha!
— Se nos
próximos quinze minutos não houver uns estouros por aqui, volto para casa a pé
— disse um dos engenheiros de máquinas do cruzador pesado Solar System.
Trezentos
metros acima dele, Perry Rhodan se dirigiu ao mutante John Marshall.
— Conseguiu
estabelecer contato, John? — indagou nervosamente.
Marshall
esboçou um sorriso contrafeito.
— Que coisa
horrível! — gemeu. — Esse rapaz irradia impulsos como uma superbomba. Mal
consigo bloquear as vibrações.
— Apesar de
tudo continue nos exercícios goniométricos. A qualquer momento devemos estar em
condições de determinar a posição de Tifflor sem lançar mão de quaisquer
recursos técnicos. É bom que se acostume quanto antes aos duros impulsos. Tem
de ser.
Reginald
Bell que, como sempre, ocupava o assento do segundo-oficial, contorceu os
lábios muito largos.
Nas
gigantescas telas, Júpiter surgiu em forma de uma estreita foice. Passariam
pelas proximidades do planeta.
— Sinto-me
como um patife — recriminou-se, falando por entre os dentes.
— Era nosso
dever avisá-lo sobre o transplante que pretendíamos realizar.
Rhodan
estreitou os lábios. Sentiu-se martirizado por idéias sombrias. Além da órbita
de Plutão começava o espaço intercósmico. Se alguma coisa tivesse de acontecer,
só poderia ser nessa região.
— Se
soubesse dessas coisas, isso lhe teria custado a vida, ou melhor, poderia ter
lhe custado a vida.
— Você conta
com um ataque dos desconhecidos?
Rhodan não
disse uma palavra; se limitou a acenar com a cabeça. No momento em que Plutão
se tornou bem perceptível, o chefe da Terceira Potência concluiu a palestra com
estas palavras:
— Tenho a
impressão de que procurarão agarrar a Good Hope-IX, porque supõem que Tifflor
está no interior da mesma. As indicações por nós deixadas são muito fracas, mas
um bom observador, dotado de um raciocínio perfeito, saberá interpretá-las.
Everson não foi molestado. A esta hora já chegou ao sistema Vega.
— É um
prognóstico frio — disse Bell com um riso que não revelava muito senso de
humor. — E se esses desconhecidos não possuírem a lógica que você supõe neles?
Nesse caso seu lindo plano cai na água. Nosso chamariz cósmico terá piado em
vão.
— Vamos
aguardar. A coisa acontecerá para lá de Plutão. Nós só teremos de aparecer em
tempo. A manobra será preparada assim que atingirmos a órbita de Urano.
Transmita isso à tripulação. Se necessário efetuaremos um ligeiro salto de
transição. Preciso descobrir quem está de olho em nós. Tifflor saberá se
defender. O homem por mim escolhido não é nenhum fracote. É só.
Bell voltou
a fechar a boca, que já se abrira para dizer alguma coisa. Conhecia
perfeitamente essa expressão no rosto de Rhodan.
Rhodan
lançou um olhar para a figura magra de Crest, um ser extraterreno. Tratava-se
do cientista mais capaz do planeta Árcon, que trouxera à Humanidade não só uma
tecnologia superior, mas também o verdadeiro saber. Seu cabelo quase
completamente branco brilhava na luminosidade das inúmeras telas.
Sem dizer
uma palavra, acenou com a cabeça. Parecia muito sério. Se havia alguém capaz de
descobrir quem era o inimigo com que se defrontavam nas profundezas do espaço,
era Crest, o representante de uma velha dinastia de soberanos.
Os arcônidas
haviam fundado seu império estelar numa época em que o homem ainda habitava as
cavernas. Agora o mesmo homem se tornara adulto. Lançando mão de suas enormes
reservas de energia, penetrou com audácia, disposição de assumir riscos e
decisão em áreas que, sem o supersaber dos arcônidas, ainda lhe permaneceriam
fechadas por muitos séculos.
Rhodan fez
um ligeiro sinal àquele homem que tanto se parecia com um humano. Enquanto
isso, nas três naves estavam sendo tomados os preparativos para uma ligeira
demonstração de força.
— Eu os
agarrarei, não tenha a menor dúvida — cochichou Rhodan. — Esses seres nunca
destruirão aquilo que conseguimos erguer num trabalho estafante. Não existe
nenhum risco que eu não esteja disposto a assumir em benefício de nossa
Humanidade.
5
O Sol se
transformara num ponto cintilante. Plutão, o planeta exterior do sistema solar,
não recebia muita luz daquela fonte de vida.
As telas de
visão global da Good Hope-IX, que quase
havia atingido a velocidade da luz, não mostravam nada daquele mundo de gelo.
Plutão se encontrava em oposição ao Sol. Por isso, Conrad Deringhouse teve que
dispensar o contato com a estação automática lá instalada.
Há quinze
minutos os estéreo compensadores forneciam as medidas comparativas necessárias
à transição.
Os doze
cadetes que se encontravam a bordo ao lado da tripulação normal haviam
realizado, nas últimas horas, todas as tarefas que geralmente ficam a cargo de
experimentados cosmonautas. Era claro que os examinandos eram rigorosamente
controlados e vigiados. Embora no exame final se exigisse tudo que um
cosmonauta competente deve saber, os instrutores da Terceira Potência nunca
seriam capazes de agir levianamente.
Isso se
aplicava especialmente a um salto executado numa velocidade superior à da luz,
onde o menor erro de cálculo poderia ter conseqüências catastróficas.
Só dois
homens a bordo desconfiavam que, desta vez, o que interessava não era tanto uma
transição exata. Era claro que o comandante pretendia realizar um salto bem
calculado, se é que teria de saltar. O que importaria nesse caso era que a nave
realmente atingisse o distante sistema Vega.
Deringhouse
e Rous eram os homens nos quais a tensão crescia a cada minuto que passava.
Percorreram a escala de sentimentos de cima para baixo, o que, apesar de todo o
autocontrole, se refletia em seus rostos.
Talvez
Julian Tifflor fosse o único homem que, além dos cosmonautas que haviam sido
informados sobre os fatos, suspeitava de que pensamentos de outra espécie
desfilavam atrás da testa enrugada de Deringhouse.
Eberhardt,
Hifield e os outros cadetes não tinham a menor dúvida de que o nervosismo do
comandante estava ligado à transição que seria realizada pelos alunos. Para um
piloto espacial experimentado não seria nada agradável deixar o destino da nave
a cargo de um grupo de jovens.
Era claro
que todos eles já haviam realizado muitos saltos à velocidade superior à da
luz, mas nunca tiveram de agir sob responsabilidade própria. Havia uma pequena
diferença; nem mesmo Hifield deixou de reconhecer isso. A situação era
comparável à do primeiro vôo desacompanhado dos alunos de aviação de tempos
idos. Uma prova desse tipo desgastava os nervos, por mais certeza que se
tivesse de dominar perfeitamente a matéria.
A distância
relativamente pequena em que se encontrava o sol de Vega permitia um salto
direto por meios óticos. A velocidade da estrela era tão pequena em comparação
ao tempo de transição que podia ser desprezada.
Há uma hora
Tifflor, que era considerado o melhor matemático da Academia Espacial, operava
a calculadora cosmonáutica que apuraria as últimas correções de dados. Os dados
fundamentais, introduzidos na calculadora, eram fornecidos pela cúpula polar
superior, onde as medições comparativas eram realizadas de forma inteiramente
automática.
O cérebro
central das naves da classe da Good Hope tinha a finalidade de receber a
programação corrigida, obtida de forma semi-automática, para transmiti-la aos
mecanismos propulsores, que afinal teriam de realizar as pequeninas correções
de curso.
O ribombar
surdo dos conversores de impulso arcônidas enchia a Good Hope-IX. O
funcionamento dos reatores de energia era muito mais silencioso.
— Tudo
preparado para o desempenho máximo dos propulsores. Tudo claro para a inserção
das massas de apoio — comunicou Deringhouse à central de controle de máquinas.
Ali alguns
homens experimentados estavam sentados atrás dos painéis. Os examinandos de
engenharia só poderiam desencadear os impulsos vitais quando se verificasse que
os dados eram rigorosamente corretos.
— Tudo
preparado na central de máquinas — soou a resposta vinda das profundezas da
nave. — Massa de apoio a cinco segundos da manobra de transição.
Tifflor
acompanhava a troca de mensagens. Não sabia por que motivo Deringhouse e Rous
pareciam cada vez mais nervosos. Apenas notara que, já há duas horas, haviam
dado ordem para que a estação de rastreamento de alta precisão da Good Hope-IX
fosse ocupada.
Ali os
experimentados telegrafistas-localizadores estavam sentados diante dos
rastreadores e dos sensores estruturais. Os aparelhos funcionavam à velocidade
superior à da luz.
A
localização ótica comum estava fadada ao fracasso.
Tiff prestou
atenção ao ribombar surdo dos mecanismos propulsores, localizados no
abaulamento equatorial da nave. Esse tipo de construção era de feição
tipicamente arcônida, e apresentava vantagens consideráveis face a outras
modalidades. A principal delas era a de permitir a utilização de todo o volume
da célula principal. A mudança de direção das radiações durante as manobras de
frenagem também era muito menos complicada que nas naves dotadas de propulsores
de popa.
Essas e
muitas outras idéias passaram pelo cérebro de Tiff. Os cálculos que estavam a
seu cargo foram executados num estado que chegara a ser de sonambulismo.
Quando a
débil luz vermelha se acendeu, anunciou pelos microfones de bordo:
— Faltam
treze minutos inteiros para a manobra. Contagem regressiva funcionando.
Deringhouse
voltou a cabeça. Lançou um olhar perscrutador sobre as superfícies
diagramáticas iluminadas do robô cósmico. Os dados eram corretos.
Era de
admirar que Rous vivesse olhando para o relógio de uso diário, que para essa
finalidade era de uma inexatidão lamentável. Uma sensação pouco agradável logo
se apossou de Tiff.
Lançou um
olhar rígido para os dois pilotos. Deringhouse ainda não tirara a cobertura de
plástico da chave de contato, embutida na braçadeira direita de seu assento.
Enquanto a capa transparente continuasse ali, não se poderia cogitar do salto.
Seria
evidentemente uma tolice e uma leviandade remover a capa treze minutos antes da
transição. Apesar disso, Tiff teve a impressão um tanto gratuita de que seria
preferível, no interesse da Good Hope-IX, que a capa fosse retirada.
Quando ainda
estava refletindo sobre os prós e os contra, o contador anunciou que o primeiro
dos treze minutos havia chegado ao fim. Faltavam doze minutos para a transição.
A contagem de precisão teria início sessenta segundos antes. Ali até os
milésimos de segundo importariam. Qualquer alteração do momento do impulso
poderia trazer conseqüências surpreendentes, sempre incontroláveis. Várias
naves arcônidas já haviam desaparecido no hiperespaço sem deixar o menor vestígio.
Exatamente
6,53 segundos depois da contagem chegou uma notícia que o major Deringhouse
registrou com um forte estremecimento do corpo. Rous virou apressadamente a
cabeça.
— Central de
observação — disse a voz saída do alto-falante. — Objeto desconhecido no verde
45,3°, localização vertical verde 18,6°. Distância apurada pelo rastreador de
objetos 0,8 horas-luz. Deslocamento provável do objeto estranho abaixo da
muralha L. Resultado da análise estrutural pouco preciso. Provavelmente
trata-se de ligas metálicas. Fim.
Deringhouse
não disse uma palavra. Isso não condizia com sua personalidade, e o mesmo
acontecia com os olhares indiferentes que lançava em torno de si. Um sorriso
gelado se desenhou em seus lábios largos. O rosto do jovem major adquiriu certa
semelhança com o de Perry Rhodan. Eram os tipos admiráveis de homem que, ao
serem avisados de algum perigo, esquecem que têm nervos.
Tiff
respirava com dificuldade. Teve a impressão de que o cilindro metálico que
trazia no bolso interno do uniforme, na altura do peito, iria lhe esmagar as
costelas.
Eberhardt se
admirou com a estranha reação do comandante. Hifield empalideceu. Seu olhar
seguro caminhava de um dos responsáveis para outro.
Depois da
segunda observação do rastreador que, apesar da distância ainda grande, era bem
precisa e minuciosa, Deringhouse se ergueu do seu assento com a tranqüilidade
de quem vai tomar uma xícara de café. Todo mundo viu quando ligou o rádio do
grosso capacete de serviço.
— Sargento
Rous, o senhor assumirá o comando da nave — soou a voz clara e enfática vinda
dos alto-falantes em concha embutidos nos capacetes. — Para os tripulantes:
ligar a comunicação individual. Para a sala de controle de máquinas: anular os
preparativos de manobra. Preparar a nave para a batalha.
O punho cerrado
de Rous bateu sobre a chave-mestra do dispositivo automático de transição. O
cérebro central parou de funcionar, emitindo um zumbido grave. De um instante
para outro, os cálculos haviam perdido todo sentido. Logo após o comando de
preparar a nave para o combate, o inferno parecia andar às soltas no interior
da nave. Os homens corriam apressadamente em busca de seus trajes espaciais,
cujo uso não podia ser dispensado numa oportunidade como esta.
Os dedos de
Tiff trabalharam com uma segurança e um automatismo de quem está sonhando. Não
saberia dizer quantas vezes já haviam treinado o ajuste do traje protetor, que
sempre era trazido ao alcance da mão.
As
fechaduras automáticas se trancaram. As luzes de controle que se acendiam davam
notícia da prontidão dos principais agregados. Subitamente Tifflor acreditou
compreender por que o comandante substituíra as inofensivas armas de
treinamento dos cadetes por perigosas armas de radiações logo depois que haviam
cruzado a órbita de Marte. Alguma coisa iria acontecer, alguma coisa que,
segundo tudo indicava, já era esperada há bastante tempo.
Tiff voltou
apressadamente ao seu lugar. Do envoltório da nave, até então de uma lisura
impecável, saíram as torres de armas, dirigidas automaticamente. Nas cúpulas
giratórias não tripuladas começaram a funcionar os geradores independentes. Os
projetores de campos energéticos começaram a funcionar com um baque surdo.
Consumiam quase toda a energia das usinas de bordo.
A Good
Hope-IX, que ainda há pouco se preparava para empreender um hiper-salto
inofensivo, estava transformada num corpo cheio de saliências, que funcionavam
como dentes afiados.
A Good
Hope-IX não poderia ser comparada com um dos cruzadores pesados da frota da
Terceira Potência, muito menos com o couraçado Stardust-III. Apesar disso,
Perry Rhodan atacara toda uma frota espacial com uma dessas naves de sessenta
metros, causando graves estragos.
Deringhouse
mandou que os capacetes esféricos dos trajes espaciais ainda não fossem
fechados. Se houvesse qualquer queda de pressão, eles se fechariam
automaticamente.
Por isso seu
capacete balançava sobre as ombreiras da mochila de oxigênio e de energia. Na
sala de comando, o destacamento de robôs de combate entrou em formação. As
comportas de saída anunciaram a prontidão dos aparelhos arcônidas
especializados.
Deringhouse
estava de pé, com as pernas afastadas, atrás do assento vazio do piloto. O
sargento Rous havia assumido a direção da nave.
Tifflor
notou o olhar indagador do cadete Eberhardt, cujo rosto pálido sobressaía da
parte superior do traje espacial.
Tiff ergueu
os ombros de forma quase imperceptível. Alguém praguejou no microfone do
capacete. Era Humpry Hifield.
— Todos os
tripulantes, atenção. Não se trata de um exercício. Repito. Não se trata de um
exercício — anunciou o comandante. — A transição será suspensa. Uma
reformulação dos cálculos só poderá ser útil para o êxito dos exames finais. Os
senhores hão de compreender que o surgimento inopinado de uma nave não
pertencente à Terceira Potência nas proximidades do sistema solar constitui
motivo mais que suficiente para desistir de um hipersalto já programado. A
tripulação da Good Hope-IX praticamente
está duplicada. Os cadetes terão oportunidade de dar provas de sua habilidade
num combate que, ao que tudo indica, iremos travar. Estou interessado em saber
que nave é essa.
— Será que é
um meteoro... ou um cometa? — piou uma voz fina nos alto-falantes em concha.
— Um objeto
desses não costuma se deslocar a uma velocidade próxima à da luz — disse
Deringhouse em tom professoral, sem se mostrar interessado em saber quem havia
dito essas palavras.
Tiff era uma
das poucas pessoas a bordo da nave que, nem por uma fração de segundo,
contorceram os lábios num sorriso. Havia alguma coisa que Deringhouse não
queria ou não podia dizer.
O major
atirou a mão esquerda para cima. Colocou os dedos médio e indicador em posição
de V. O homem sentado diante do hipertelégrafo parecia ter esperado apenas esse
sinal. Os feixes luminosos bem coordenados do ajustamento demonstravam
claramente que a enorme antena direcional da calota polar superior da nave já
apontava para a Terra.
Tiff notou
perfeitamente que o telegrafista bateu na tecla um breve sinal, certamente já
combinado. Dali se concluía que o comandante preferia não recorrer ao contato
radiofônico, perfeitamente possível. Provavelmente a breve mensagem devia ter
sido muito bem codificada.
Não chegou
qualquer resposta; mas Tifflor desconfiava de que certos especialistas já
estavam com os ouvidos aguçados para captar a mensagem. Mais uma vez ficou com
a garganta ressequida, o que constituía sinal evidente de um grande nervosismo.
Deringhouse
notou o olhar quase desesperado do jovem cadete. Olhou-o rigidamente, até que
uma das sobrancelhas se moveu. Tifflor conseguiu engolir de novo. Parecia adivinhar
o que estava para vir, embora não soubesse nada do aparecimento de
inteligências extraterrestres. Em compensação sentiu nitidamente que um grande
jogo estava chegando à fase decisiva.
Por que
Deringhouse não chamara o chefe? Rhodan poderia chegar ao local num tempo
curtíssimo com suas potentes naves. Havia algo de misterioso em tudo aquilo.
Deringhouse
expulsou um dos cadetes da enorme poltrona giratória do oficial de armas. As
poucas chaves e botões que se encontravam diante dessa poltrona encerravam todo
o potencial de fogo da Good Hope-IX.
Dessa vez,
mesmo os tripulantes normais da nave se espantaram. Por que o comandante
resolvera exercer pessoalmente as funções de pistoleiro?
E foi o
próprio Deringhouse que acionou a chave decisiva que, nos combatentes do espaço
já experimentados, sempre provocava um certo nervosismo. A pontaria automática
foi acoplada aos instrumentos de localização. Ai da nave inimiga que fosse
alcançada pelos raios dos rastreadores! O superautomatismo arcônida não
oferecia qualquer margem de erro. As imperfeições de sua construção já haviam
sido eliminadas há oito mil anos.
— Distância
inalterada, velocidade constante — anunciou a central de observação. — Não
constatamos nenhuma alteração da velocidade ou da rota de vôo. Temos diante de
nós a interpretação do cérebro positrônico. O objeto desconhecido consiste num
corpo metálico alongado de cerca de trezentos metros de comprimento. Margem de
erro, mais ou menos cinco por cento. Fim.
Deringhouse
assobiou entre os dentes. Uma nave de trezentos metros de comprimento e de
formato cilíndrico não poderia ter sido construída na Terra.
— Que
monstro, não é? — cochichou Rous no microfone de capacete. — Bem que eu
gostaria que a Solar System estivesse por per...
Um ruído
ensurdecedor arrancou a palavra da boca de Rous. A central de observação,
visível através da parede blindada e transparente, estava envolta numa
luminosidade azulada. O ruído só durou alguns segundos.
Logo se
ouviu a voz nervosa de um dos ocupantes do posto de observação:
— O objeto
estranho entrou em transição. Desapareceu do campo de alcance do rastreador.
Sensor estrutural: nível sonoro vinte e três; é muito elevado. Abalo estrutural
a uma distância de 0,8 horas-luz. Cuidado.
O sargento
Rous bateu na chave dos cintos de segurança. Em todos os assentos as fitas
magnéticas flexíveis saíram dos encostos. De uma hora para outra Tiff sentiu
que essas fitas o amarravam implacavelmente.
Os dedos
ágeis de Rous continuaram a manipular as chaves. Como piloto não ficava a dever
nada ao próprio Deringhouse. E, ao que tudo indicava, o sargento sabia
perfeitamente o que isso importava naquele instante.
Tiff ouviu o
súbito rugir dos reatores de energia. Rous supriu o campo de defesa
hipergravitacional até o máximo da capacidade. E isso foi feito no último
instante.
Tifflor
segurou fortemente as braçadeiras de sua poltrona quando os relampejos
branco-azulados atravessaram a central de observação. Os dois sensores
estruturais de alta precisão, destinados à medição de abalos contínuos de maior
intensidade, queimaram-se ao mesmo tempo.
Fragmentos
incandescentes chiavam enquanto atravessavam o enorme recinto. O ranger agudo
dos alto-falantes só durou alguns segundos. Logo perderam sua vida mecânica.
Deringhouse
berrou alguma coisa que ninguém entendeu. Tiff viu apenas que o comandante
apertava o contato de seu capacete.
Antes que as terríveis sacudidelas começassem,
Tiff lhe seguiu o exemplo.

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