quarta-feira, 21 de novembro de 2012

P-028 - Cilada Cósmica - K. H. Scheer [parte 2]


Poucos segundos depois, houve o primeiro contato radiofônico do cadete Tifflor. A decolagem fora bem sucedida. O caça corria a trezentos mil metros de altura em direção à costa leste dos Estados Unidos, que atingiria dentro de cinco minutos.
— É uma loucura mandar esse rapazinho fazer uma viagenzinha como essa num caça espacial — resmungou Bell. Tinha o rosto contorcido. — Se isso der certo, eu como um prego enferrujado.
— Aqui dificilmente você encontrará um — advertiu-o Rhodan em tom gentil. — No território da Terceira Potência um prego enferrujado é um objeto antiquado.
John Marshall procurou reprimir um sorriso. Depois se concentrou juntamente com os outros mutantes, para captar as vibrações mentais das pessoas que haviam sido informadas sobre a verdadeira missão de Tiff.
Não se notou nenhuma série anormal de pensamentos. Se é que no território da Terceira Potência havia agentes de um poder estranho, eles sabiam se camuflar muito bem. Em compensação, o serviço secreto de escuta de rádio registrou, vinte minutos após a decolagem de Tifflor, uma mensagem curta transmitida na faixa de ondas do hiperespaço. Tratava-se de uma mensagem codificada de dez segundos de duração. A decifração era praticamente impossível. Neste ponto até mesmo a calculadora positrônica falhara, pois se tratava de símbolos completamente estranhos às características da espécie, que além disso estavam expressas num código muito bem concebido.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia zangado. Era exatamente isso que esperava.
— Então, Marshall. Como se explica que nem você nem os outros telepatas consigam identificar os agentes? Essa gente tem de pensar; e, pensando, irradia impulsos que podem ser captados por via telepática. Como é que você não capta nada?
John Marshall lançou um olhar desolado para Betty Toufry. Limitou-se a dar de ombros.
— Não sei como explicar. Apenas posso asseverar que não há nenhum traidor entre as pessoas que estão informadas sobre tudo.
— Isso é formidável — disse o coronel Freyt com um pigarro.
Rhodan assobiou baixinho. Era uma idéia!
No território da Terceira Potência todos os trabalhos se desenvolviam normalmente. Pouca gente sabia que lá fora, no espaço cósmico, surgira um perigo misterioso. E o número das pessoas que tinham qualquer idéia do passo decisivo que Rhodan acabara de dar, ao atender a um telegrama em si mesmo pouco importante vindo de um advogado nova-iorquino, era ainda menor.
O pedido telegráfico de licença do cadete Julian Tifflor passou a figurar como um documento da maior importância na história da Humanidade.


3



Para Julian Tifflor a cerimônia de casamento foi um verdadeiro martírio. As intenções do pastor Shielmann, um velho amigo da família, foram boas demais. O sermão foi muito longo.
Finalmente, quando a cerimônia chegou ao fim, Julian saiu da igreja quase correndo. No pequeno jardim fronteiro procurou com as mãos trêmulas a arma que ali havia escondido.
Sua consciência e suas boas maneiras não puderam se conformar em entrar na casa de Deus com um instrumento de destruição.
Encontrou a arma de impulsos, juntamente com o cinto, atrás da densa cerca de rosas. Suspirando aliviado, colocou-o segundo as prescrições, botou a mão sobre o peito para se certificar de que a cápsula metálica continuava no mesmo lugar e se apressou para não chegar atrasado às congratulações.
James Frederik Tifflor, um homem bem apresentável, de pouco mais de cinqüenta anos, lançou um olhar arrasador sobre o filho. A irmã de Tiff, que acabara de se transformar em mulher casada, soltou um grito de pavor, e os olhos de algumas damas de meia-idade tornaram-se vidrados.
Ninguém poderia negar que uma arma arcônida de impulsos não só tinha um efeito devastador, mas também parecia representar um perigo comum, ainda mais que a mesma só podia ser carregada num coldre aberto.
— Você não podia ter deixado de fazer uma coisa dessas, meu filho? — perguntou James Tifflor em tom gelado.
Pela primeira vez, Julian se deu conta de como era difícil estabelecer a devida distinção entre as leis da cortesia e os preceitos emanados de uma ordem lacônica.
— Não poderia, papai — disse em tom gutural e ficou em posição de sentido.
Durante a pomposa viagem de regresso, a situação piorou ainda mais, pois Tiff foi obrigado a ir no carro de uma velha tia.
Palavras duras foram proferidas sobre a Terceira Potência e sobre Perry Rhodan, tão célebre e tão difamado.
A grande casa de campo da família de Tifflor ficava a leste da cidade, em Long Island. James F. Tifflor era um homem que podia se permitir esse luxo.
Quatro horas depois da cerimônia de casamento e pouco antes do escurecer, Tiff ainda estava sentado em seu quarto. Ninguém conseguira convencê-lo a largar a perigosa arma.
— Para mim seria preferível que você resolvesse trabalhar em meu escritório — disse Tifflor-pai laconicamente. — Não dou muito valor à chamada conquista das estrelas. Pode-se saber o que significa essa palhaçada?
Mais uma vez Julian não soube dar resposta. Pouco depois do pôr do sol se sentiu rejeitado pela família. Defendera-se com algumas palavras ásperas das aproximações interesseiras das moças e das perguntas idiotas dos rapazes de sua idade. Tiff não pertencia à classe dos cadetes da Academia Espacial que gostavam de apresentar seu saber numa bandeja. Dessa forma, houve uma verdadeira ruptura social.
Amargurado, Julian saiu para a pequenina sacada de seu quarto. As primeiras estrelas haviam surgido no céu noturno. Pareciam chamar e seduzir. Exprimiam um profundo mistério e um poder desconcertante.
Ali permaneceu mais ou menos até as vinte e três horas. Só então chegou o momento que estava aguardando com tamanha impaciência; mas não veio pela forma que esperava.
O ataque mental foi desfechado de sopetão. Um poder invisível procurou se apoderar de sua personalidade consciente.
Tiff gemeu e recuou cambaleante. Conhecia os efeitos daquilo. De uma hora para outra voltou a se transformar num cadete da Academia Espacial que recebera um excelente treinamento.
Procurou bloquear sua mente, repelir os impulsos estranhos, fazer qualquer coisa contra eles. Levou algum tempo para reconhecer a mensagem que chegava juntamente com o ataque.
Aqui fala John Marshall, do Exército de Mutantes”, soou claramente a voz em sua mente. “Já nos conhecemos. Você deixou cair o capacete no gabinete do chefe. Desista do seu bloqueio mental. Já me identifiquei.”
Tiff se esqueceu do lugar em que se encontrava. Subitamente tudo estava mudado. O ambiente marcado de impressões familiares perdeu todo significado. A tarefa misteriosa iria começar. Esforçou-se para compreender.
Muito bem; assim fica mais fácil”, foi a próxima mensagem. “A senha é porta do céu. Tome imediatamente um táxi aéreo e mande que o leve ao edifício da G.C.C. Tenha cuidado; alguns desconhecidos o estão observando. Ficarei por perto. Não se despeça. Deixe um bilhete e passe pelo jardim. Tenha cuidado. Fim.”
A pressão mental cessou. Seu cérebro recuperou a liberdade. Soltou um suspiro de alívio e escreveu algumas linhas.
Já conhecia o caminho pelo amplo parque. Não havia qualquer recanto que não tivesse inspecionado repetidas vezes.
Antes de chegar ao portão de ferro recebeu a nova mensagem.
Aqui fala Marshall. Estou num planador gravitacional bem em cima do lugar em que você se encontra. Vá à rua e chame o táxi aéreo.”
Existe algum perigo?”, pensou Tiff, forçando a mente ao máximo.
O outro hesitou em responder.
Não tenho certeza. As impressões estão um tanto apagadas. Há muita gente na casa. Experimente.”
Tiff engatilhou a arma. A luz vermelha começou a brilhar na parte superior da coronha. O portão era usado poucas vezes.
Quando estava prestes a puxar o enorme ferrolho, percebeu a advertência enérgica do telepata invisível. Tifflor se virou apressadamente.
Atrás dos velhos carvalhos surgiram os vultos apagados de dois homens. Não se percebiam os rostos, mas Tiff viu as pernas que se moviam apressadamente.
Ouviu seu próprio grito. Apesar das ordens terminantes que recebera, não conseguiu abrir fogo sem prévio aviso.
Atire!”, retumbou a mensagem telepática em sua mente. Ao que parecia, Marshall estava dominado pelo pânico.
Tifflor puxou a arma e saltou para trás da enorme coluna da pedra que ladeava o portão. No momento em que caía ruidosamente ao chão, sentindo a forte dor provocada pelo impacto do joelho, ouviu um chiado agudo, seguido de um baque surdo.
Numa fração de segundo, viu os vapores que saíam de um envoltório de plástico rompido. Sua fluorescência azulada rompeu a escuridão que reinava sob as árvores do parque. Mais ao longe alguém soltou um grito gutural.
Naquele instante dois rostos mascarados surgiram numa estranha luminosidade. Ao inalar o ar, Tiff sentiu-se próximo a um desmaio.
Enquanto os objetos começaram a ondear diante de seus olhos, reuniu as últimas forças e comprimiu o botão que acionava a arma.
Um fluxo incandescente que brilhava numa branquidão ofuscante saiu do cano. Abrindo-se em leque, atingiu os dois vultos e se espalhou para as árvores do parque.
Foi um disparo de radiações de curta duração. Tiff ainda ouviu o rugido da arma de impulso e o estrépito de uma grande árvore que, enquanto caía, começava a ser consumida pelas chamas.
Não conseguiu fugir da nuvem de gases fluorescentes antes de inalar o ar mais uma vez. Soltou um gemido e caiu para trás. Bilhões de cristais de aço pareciam espetar seu pescoço. Não chegou a ver o planador gravitacional que desceu do céu enrubescido pelas chamas.
Ao longo da trajetória do raio disparado pela arma de impulsos toda a vegetação ardia. Um pequeno inferno fora desencadeado por um simples movimento de dedo daquele jovem.

* * *

O recinto não era muito grande nem muito alto. Mas nele se viam coisas tão estranhas que qualquer outro homem que não fosse Homer G. Adams dificilmente conseguiria se orientar ali.
Numa das grandes telas via-se o rosto marcante, um tanto cansado, de um homem uniformizado. Era Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência.
— Como foi que ele o encontrou? — soou a voz baixa vinda do alto-falante invisível.
Homer G. Adams, um homem baixo e largo, que exercia as funções de diretor da G.C.C., era considerado o maior gênio financeiro do século. Passou a mão de traços extraordinariamente finos pelo enorme crânio.
Piscando em virtude de uma miopia recentemente adquirida, contemplou a figura do homem que proporcionou a ele, Adams, a possibilidade de montar um gigantesco complexo em base interestelar.
A mão da General Cosmic Company já se estendia em direção às estrelas. O monopólio de comércio com os ferrônios, uma raça semelhante à dos humanos, trazia lucros que se aproximavam das receitas tributárias de todas as grandes nações do planeta Terra. Não havia a menor dúvida de que Homer G. Adams controlava a maior potência econômica de todos os tempos.
— Não é fácil responder a essa pergunta — respondeu Adams em tom cauteloso. — Caso não se oponha, gostaria de comparecer pessoalmente diante de você. Meu hipertransmissor de matéria está preparado.
Adams lançou um olhar para o mais estranho dos aparelhos que havia no recinto. Ele lhe permitira por várias vezes penetrar no palácio da Terceira Potência sem ser visto nem percebido.
— Sinto muito; estou nos preparativos de uma decolagem — recusou Rhodan. — Qual foi a reação dos atacantes? E quem são eles?
— Infelizmente não foi possível identificar os homens mortos por Tifflor. Mas conseguimos recolher pequena quantidade do gás estranho por eles utilizado. A análise dos mesmos deverá trazer alguns esclarecimentos. No último instante John Marshall tirou Tifflor da nuvem de gás. Quase chegou a desmaiar. É uma droga infernal.
— É de procedência terrestre?
Adams ergueu os ombros encurvados.
— Ainda não temos certeza. Tudo isso é muito misterioso. Estou em contato com o serviço secreto deste país. A imprensa foi enganada sobre a verdade dos fatos, ainda mais que os agentes de Mercant conseguiram prender alguns sujeitos. Trata-se de um conhecidíssimo bando nova-iorquino, que foi encarregado por um desconhecido de dar cabo de Julian Tifflor através de uma carga de gás. Foi só o que conseguimos descobrir até agora. Uma coisa é certa: as pessoas que puderam ser agarradas não são os verdadeiros inimigos. Nosso inquérito hipnótico não forneceu qualquer indicação. Ninguém sabe quem é o mandante do crime.
— Como está Tifflor?
— Seu estado é satisfatório. Graças ao seu desmaio nos livramos da preocupação de narcotizá-lo sem que ele desconfiasse. O professor Kärner adiou sua intervenção por cinco horas, porque deseja verificar os prováveis efeitos colaterais do gás inalado por Tifflor. Não foram notadas quaisquer perturbações orgânicas. Antes que Tifflor despertasse, lhe proporcionamos uma narcose profunda. A intervenção está sendo realizada neste instante.
Uma expressão séria surgiu no rosto de Perry Rhodan.
A hora havia chegado.
— Adams, por enquanto tenho de confiar exclusivamente em você. Caso o micro instrumento provoque em Tifflor a reação que esperamos, ele se transformará num emissor goniométrico de potência extraordinária. Um telepata do tipo de Marshall conseguirá localizá-lo a uma distância de dois anos-luz com a mesma rapidez e precisão de quem se encontra a seu lado. Uma vez realizada a intervenção, faça a experiência.
Homer G. Adams respirava com dificuldade. Uma fina camada de suor cobria a testa abaulada.
— Esse instrumento é uma coisa do diabo. Mal consegui permanecer próximo a ele, embora não tenha nada de telepata. As vibrações superdimensionais que emite são extremamente intensas. Onde arranjou aquilo?
Rhodan viu crescer o rosto de seu interlocutor distante. Adams aproximara-se do receptor.
— Quando souber, cale a boca. Há poucos dias regressei do planeta Peregrino, o mundo da vida eterna. Você já está informado a este respeito. Por lá não existem deuses, mas inteligências inconcebíveis que conseguiram decifrar os segredos mais recônditos da natureza. Foram esses seres que me forneceram esse aparelho, que foi fabricado a meu pedido num espaço de tempo reduzidíssimo, como se não passasse de um simples brinquedo de criança. O micromodulador de vibrações celulares alterará as vibrações de cada uma das células do corpo do cadete. Tifflor será transformado num emissor galático. Só nos resta esperar que o desconhecido venha captá-lo. O ataque que sofreu constitui um indício de que já é considerado um mensageiro secreto. Procure estimular essa opinião, Adams, especialmente perante Tifflor. Entre os dados armazenados em sua memória não deve haver nada que num inquérito hipnótico possa levá-lo a revelar algum segredo. Não sabe nada, nem deve saber. Entendido?
Adams se limitou a acenar com a cabeça. Seu rosto parecia cansado.
— Faça o favor de me ligar para a sala de operações — pediu Rhodan em tom indiferente.
As mãos de Adams entraram em atividade. A clínica da G.C.C., instalada no gigantesco arranha-céu em que a empresa tinha sua sede, surgiu em outra tela.
O médico-operador era o Dr. Kärner, um cirurgião genial. O Dr. Haggard e o Dr. Eric Manoli serviam de assistentes. Ainda outros médicos com treinamento arcônida se encontravam presentes.
Qualquer outro médico estranharia bastante a técnica operatória ali empregada. O próprio aparelho de anestesia era uma maravilha da micropositrônica mais avançada.
Um corte já fora feito do lado direito da região renal. O soro arcônida de anticorpos permitia que o transplante de substâncias estranhas se realizasse sem qualquer risco. No momento em que Adams ligou a tela, o Dr. Kärner estava implantando um objeto que tinha o tamanho de um dedal cercado de numerosos tentáculos.
O alto-falante reproduziu a respiração pesada do operador treinado nos métodos arcônidas. Nesse momento aquela figura meio orgânica meio mecânica começou a ligar seus tentáculos microscópicos ao tecido nervoso da coluna vertebral. O contato com os vasos sangüíneos também foi realizado sem qualquer participação dos médicos. Todo o processo não durou mais de cinco minutos. Depois disso aquela coisa estranha se havia unido de forma quase invisível aos tecidos do corpo de Tiff.
— Pronto — disse alguém. — Vamos começar?
Homer G. Adams desligou. Logo voltou a fitar a outra tela.
— Que coisa medonha — cochichou. — Como é que se pode fabricar um objeto destes? Até parece que tem inteligência.
Rhodan soltou uma risada um tanto forçada. Parecia ter os lábios ressequidos.
— Não pergunte mais nada. Parece que no planeta Peregrino nada é impossível. Quanto tempo demorará a cicatrização da ferida?
— Doze horas no máximo. É o que Haggard afirma. Com o plasma arcônida a cicatrização que não deixa nenhum vestígio pode ser até mais rápida.
— OK. É preferível esperar as doze horas. Quando despertar diga-lhe que aquele gás misterioso provocou um desmaio prolongado. Não perca a cabeça, Adams. O tenente Everson já partiu. No momento encontra-se nas proximidades da órbita de Plutão e prepara o salto interestelar em direção ao sistema Vega. Por enquanto não foi atacado nem localizado. Tenho a impressão de que morderam a isca que é Tifflor. Assim que estiver restabelecido, envie-o à base na Lua. Ali o major Deringhouse o aguardará com a Good Hope-IX. Entendido?
Adams confirmou as últimas observações, um tanto misteriosas, e concluíram a palestra.
O cadete Julian Tifflor, um estudante da Academia Espacial que cursava o último semestre, iria desempenhar um papel importante na história da Humanidade.
Ainda não sabia disso. Aliás, ninguém sabia exatamente o que Perry Rhodan esperava conseguir com a ação de Tiff. Adams tinha certeza de uma coisa: o chefe fizera exatamente o necessário para provocar uma suspeita mínima em relação a Tifflor. Se os indícios fossem mais fortes, o fracasso seria fatal.
Adams, um homem genial e decidido em questões financeiras, estremeceu por dentro. Lembrou-se das notícias que o cadete carregaria pelo espaço afora. Sabia perfeitamente que o cérebro positrônico instalado na base de Vênus gastara três semanas de tempo terrestre para dar um caráter de verossimilhança aos dados registrados em microfita. Face à enorme capacidade de processamento da máquina, três semanas representavam um tempo imenso.
O rosto de Rhodan desapareceu da tela.
O silêncio passou a tomar conta daquela sala estranha, onde só um homem podia penetrar além de Rhodan. Na verdade, a pequena sala situada no quartel-general da G.C.C. era uma das estações de controle que os cronistas de épocas posteriores designariam como bases-miniatura do imortal.
Adams se ergueu do assento giratório. O transplante ainda não havia sido concluído, segundo descobriu ao lançar um ligeiro olhar para o aparelho de observação ótica que voltara a ser ligado.
Kärner e Haggard estavam fechando a ferida com bioplasma arcônida. Não havia a menor possibilidade de que se formasse uma cicatriz visível. A cura se processava com uma rapidez desconcertante. Começava praticamente no mesmo instante em que o plasma, despejado por um spray, atingia a ferida.
Adams estremeceu quando ouviu alguém choramingar pelo alto-falante. Apressou-se em ligar o amplificador de ângulo do receptor.
John Marshall, o telepata, que assistira ao transplante como simples observador, foi conduzido apressadamente para fora da sala de operações por dois médicos. Aqueles sons estranhos haviam sido emitidos por ele. Estava com o rosto contorcido.
Adams concluiu que o micromodulador celular já estava funcionando. Julian Tifflor se transformou num emissor. No entanto, os impulsos irradiados por seu corpo só poderiam ser captados por um telepata bastante capacitado que se tivesse sintonizado com as vibrações de Tifflor.
Foi através de um planejamento grandioso e de múltiplas ramificações que Perry Rhodan finalmente estendeu a mão em direção às estrelas. Naquele dia 28 de junho transformou-se no fator invisível do poder, que se mantinha atrás dos bastidores.
Adams penetrou no campo identificador de cinco dimensões do espaço secreto. Uma vez reconhecida sua legitimação para entrar ali, uma parede de concreto do último pavimento subterrâneo se transformou num conjunto materialmente instável.
Passando pelo campo de desmaterialização, saiu do edifício. A matéria sólida voltou a se estruturar atrás dele. No momento em que Adams pegou o elevador especial para subir ao centésimo oitavo pavimento, o cadete Julian Tifflor, ainda sob os efeitos da anestesia, estava sendo levado para fora da sala de operações. A intervenção cirúrgica mais misteriosa de toda a história da Humanidade havia sido concluída.

4



O Secretariado ainda apresentava um aspecto corriqueiro e inofensivo. Se não considerássemos o elevado número de pessoas que ali trabalhavam e as instalações altamente sofisticadas, destinadas à rápida transmissão de mensagens, a sala era igual a qualquer uma das que se situavam nos arranha-céus daquela área.
Mas a impressão sofreu uma modificação radical no instante em que Julian Tifflor foi conduzido à porta corrediça, cujo aspecto nada tinha de especial.
Abriu-se silenciosamente, mas não havia como abafar o ruído do aço arcônida que deslizava. Logo se viram os dois robôs colocados de um e outro lado da entrada. Os braços mecânicos armados, dotados de ampla mobilidade, não pareciam tão vulgares.
Tiff entrou sem demonstrar a menor emoção. Já estava acostumado a esse tipo de medida de segurança. Homer G. Adams, largo e pesado, estava sentado atrás de um gigantesco instrumento de trabalho que já não poderia ser designado como escrivaninha.
Era a primeira vez que Tifflor se defrontava com o homem que costumava ser considerado o ministro das finanças da Terceira Potência. O estranho era que a sede das atividades de um funcionário de categoria tão elevada se localizasse em Nova Iorque.
— Queira se sentar — disse uma voz cheia e agradável.
Adams sorriu. Tiff fora informado de que aquele homem de espinha curvada era um semimutante. Era só o que sabia a seu respeito. Não tinha a menor idéia da memória fotográfica de Adams e de sua capacidade de prever os acontecimentos econômicos.
— Lamento que por minha causa tenha se envolvido em acontecimentos tão desagradáveis — precipitou Adams em tom indiferente. — É claro que poderia tê-lo chamado antes, através de John Marshall, visto que seus deveres sociais já haviam sido cumpridos. Mas estava interessado em retê-lo em casa de seus pais, até que pudesse contar com o aparecimento dos prováveis inimigos. Digamos que eu quis fazer certo tipo de experiência.
Tifflor engoliu em seco de forma a ser ouvido perfeitamente. A revelação era um tanto surpreendente.
— Naturalmente — disse com a voz apagada.
— De qualquer maneira o senhor se saiu bem. As informações de nossos médicos são satisfatórias. Como se sente?
Tiff parecia mergulhar nos olhos grandes e ardentes do corcunda. Desvencilhou-se à força, para dar expressão à sua angústia mental:
— Acho que matei dois seres humanos. Adams lançou um olhar sobre suas mãos estreitas. Conhecia o sentimento de auto-recriminação que angustiava aquele jovem.
— Não se preocupe com isso. Não há dúvida de que agiu em legítima defesa. Não será aberto inquérito. De resto, o caso está sendo examinado pela Federação de Defesa da Terra. Tenho instruções para mandá-lo imediatamente à Lua, onde a nave Good Hope-IX, comandada pelo major Deringhouse, está à sua espera. Não queremos que a conclusão de seu exame final seja retardada ainda mais.
Um sentimento de profunda decepção se apossou de Julian Tifflor. Aquilo começara de forma tão estranha, interessante e misteriosa... e vinha aquele homem falar no seu exame final.
— Sim senhor — disse.
Adams se esforçou para sorrir. Mas só o conseguiu em parte. Falando devagar, disse:
— Quero lhe pedir que cuide de mais um assunto. Senhor Tifflor, tenho ordens para lhe lembrar que poderá desistir a qualquer hora. Ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, vai obrigá-lo a aceitar esta missão.
Tiff se transformou na concentração personificada. De uma hora para outra a lembrança do temível exame final de treinamento tático se desvaneceu.
— De que se trata? — perguntou com voz gutural.
Um cilindro metálico de cerca de vinte centímetros de comprimento surgiu na mão de Adams. Era praticamente idêntico àquele que Tiff recebera poucas horas antes das mãos de Rhodan.
— Chegamos à conclusão de que é necessário recorrer a um meio extraordinário para fazer chegar estes dados secretos sobre o planejamento econômico da Terceira Potência ao sistema Vega, que fica a uma distância de vinte e sete anos-luz. Neste cilindro se encontra uma microfita de gravações audiovisuais, que em hipótese alguma deve cair em mãos de pessoas não credenciadas. O senhor há de compreender que o planejamento econômico a longo prazo é de importância vital para toda a Humanidade. Os dados obtidos pelos planejadores não podem ser alterados da noite para o dia, pois deles dependem, além das construções de naves, muitas outras coisas que em linhas gerais devem ser adaptadas aos planos. Sua missão consistirá em entregar este cilindro ao governador das dependências da Terceira Potência situadas no planeta Ferrol, sem que ninguém o perceba. É só. Concorda em se encarregar desta missão secreta?
Mais uma vez Tiff se sentiu decepcionado. Era evidente que o destino da nave Good Hope-IX seria o sistema Vega. Indagou a este respeito.
— É claro que irá a Vega — confirmou Adams em tom enfático. — O major Deringhouse recebeu instruções nesse sentido. O que nos interessa é que os dados cheguem a Ferrol sem que caiam em mãos estranhas. O senhor não deverá falar sobre isto com ninguém.
Tiff concordou. A pequena cápsula metálica mudou de mãos. Antes de se erguer de trás de sua monstruosa mesa de trabalho, Adams formulou mais uma advertência:
— Se houver qualquer problema, basta apertar o botão blindado que aciona a carga destrutiva. Com isso o envoltório se desmanchará. Dê uma olhada.
Tiff fez questão de se informar sobre todos os detalhes. Foi nesse instante que começou a desconfiar de que sua missão não ficaria restrita a um simples serviço de mensageiro. Devia haver outras coisas em jogo, que preferiam não comunicar a um simples cadete como ele.
Adams ficou satisfeito ao registrar a desconfiança do cadete, que começava a despertar. As coisas estavam correndo exatamente pela forma que Perry Rhodan havia previsto. Tiff devia desconfiar, mas não a tal ponto que a simples suposição se transformasse num verdadeiro saber.
Tiff guardou o cilindro. Permaneceu imóvel diante do homem de meia-idade com a cabeleira loura rala e desbotada.
— Quer dizer que aceita? — procurou se certificar Adams. Tiff quase chegou a ter a impressão de que aqueles grandes olhos imploravam: “Não o faça!
Mas logo sacudiu aquela idéia fugaz.
— Naturalmente; terei muito prazer.
— Pois venha — disse Adams, pigarreando para dentro da mão colocada diante da boca. — Pegue meu elevador particular. Já sabe como funciona um hipertransmissor de matéria?
O calafrio provocado por um grande nervosismo sacudiu Tiff. Um hipertransmissor de matéria! Era um daqueles aparelhos extraordinários que Perry Rhodan encontrara no sistema Vega e que chegara a compreender. O cadete gaguejou com a garganta ressequida:
— Conheço os princípios do seu funcionamento, mas não tenho qualquer experiência com o aparelho.
— Pois vai adquirir essa experiência. Faça o favor de vir comigo.
O pequeno elevador especial desceu vertiginosamente. Tiff quase chegou a engasgar quando Adams recorreu às suas ondas individuais programadas para acionar o transformador de cinco dimensões. Num ponto as paredes maciças do subterrâneo se transformaram numa espiral cintilante.
— É um campo de dissolução situado num espaço de grau superior — explicou Adams em tom indiferente. — A matéria se transforma numa forma de energia capaz de ser atravessada. Não, não são gases. E a travessia não é tão curta como se poderia ser levado a acreditar. A sala de controle fica a mais de um quilômetro daqui, nas rochas de Manhattan. Venha comigo. Já realizei sua identificação junto ao controle automático.
A passos hesitantes Tifflor penetrou no estranho campo. Não sentiu nada, além de uma leve pressão na nuca. Era muito menos penoso que uma transição no espaço cósmico.
A distância indicada por Adams parecia exagerada. De qualquer maneira, Tiff não se lembrava de jamais ter vencido a distância de um quilômetro com um único passo.
Nem desconfiou de que nesse ligeiro instante deixara de existir materialmente. Pela própria natureza das coisas era impossível atravessar um campo de dissolução da quinta dimensão mantendo estável a forma normal da matéria.
O raciocínio matemático de Tiff deu sinal de vida. Poucos segundos depois encontrou um esboço da provável solução. Ao menos sua inteligência bem treinada lhe permitia imaginar de forma realista esses fenômenos aparentemente improváveis. Era uma coisa que só se aprendia na Academia Espacial da Terceira Potência.
Seu olhar foi atraído por um aparelho com o formato de jaula, em cujo interior se via uma plataforma circular. Devia ser o hipertransmissor. Adams já estava ocupado com as regulagens.
Pesadas máquinas começaram a rumorejar.
— É a usina de força independente — explicou Adams, seguindo as instruções recebidas.
Rhodan fizera questão de que Tifflor fosse informado sobre essas coisas.
— É claro que não podemos depender do suprimento de energia sempre incerto da cidade. Faça o favor de entrar. Dentro de um instante o senhor voltará a se materializar no hipertransmissor sincronizado da Lua. Prepare-se para sentir uma dor leve. Faça de conta que vai passar pela transição de uma nave espacial.
Com os olhos vidrados e as pernas cambaleantes, Tifflor se dirigiu à terrível máquina. Uma luminosidade violeta surgiu entre as barras circulares que cercavam a plataforma.
— Não há o menor perigo — tranqüilizou-o Adams. — A máquina foi regulada para o senhor. É bem verdade que não recomendaria a uma pessoa não autorizada que se atrevesse a um hipersalto espacial. O cilindro com os dados está com o senhor?
Tiff fez que sim. Colocou-se entre as duas plataformas e segurou os pólos com ambas as mãos.
Antes que pudesse formular outra pergunta, sentiu a dor intermitente da desmaterialização. Adams viu que uma espiral turbilhonante se formava entre os bastões dos pólos, para desaparecer dentro de poucos segundos. O hipertransmissor emitiu um zumbido grave e parou de funcionar. Julian Tifflor, estudante de cosmonáutica, havia desaparecido.
Ao se rematerializar, Tifflor acreditou que tivesse sonhado por uma fração de segundo. Não havia a menor recordação do transporte a uma velocidade superior à da luz, realizada através de uma dimensão de ordem superior, que não conhece as leis que prevalecem no universo comum.
Voltou a distinguir nitidamente o quadro que se oferecia diante de seus olhos. Encontrava-se num aparelho absolutamente idêntico ao que deixara na Terra. A única diferença era que não se encontrava naquela sala situada bem abaixo da rocha de Manhattan.
— Olá — disse o major Deringhouse em tom seco. — Como se sente? Deixe de bobagens. Um homem que acaba de se rematerializar não deve perder tempo em continência. Saia logo dessa jaula.
Tiff passou desajeitadamente por cima da linha vermelha que demarcava a zona de perigo. Perplexo, lançou os olhos em torno de si. O hipertransmissor estava instalado num recinto cavado na rocha. As paredes estavam nuas, com exceção de um enorme painel de controle, preso a uma delas. Atrás do mesmo, uma máquina cessou de funcionar com um ligeiro zumbido. Devia ser a usina atômica que gerava a energia. Uma coisa era certa: não devia ser muito grande. Os construtores dessas estranhas transportadoras nunca fizeram questão de que os geradores fossem de dimensões avantajadas. Pelo que se dizia, havia hipertransmissores cujas fontes de energia estavam embutidas nas plataformas inferiores.
De qualquer maneira, Tiff colocou a mão no boné do uniforme. Deringhouse o examinou detidamente antes de formular a pergunta lacônica:
— Tudo em ordem? Como se sente?
— Muito bem. Foi uma experiência excitante.
— Não foi isso que perguntei, mas acredito em você. Venha comigo.
Tiff esperara uma série de perguntas. Deringhouse não soltou qualquer observação que pudesse se relacionar com a missão confiada a Tiff. Apesar disso, o major parecia estar informado sobre as linhas gerais da mesma. O olhar perscrutador que lançou sobre o bolso do uniforme de Tiff era bastante revelador.
O desmaterializador subia pela superfície nua e áspera da parede. Isso significava que também aqui a pessoa era levada para fora através de um campo do tipo A.
— Você se encontra no satélite Lua, bem abaixo da base do pólo sul — explicou Deringhouse. — Quando chegarmos lá em cima, você não vai dizer nada que não seja absolutamente necessário. Decolaremos imediatamente para realizar nosso vôo de treinamento, e você ocupará o lugar que normalmente cabe a um examinando. Entendido?
— Sim senhor — gaguejou Tiff em tom deprimido. As coisas estavam ficando cada vez mais confusas.
Um sorriso parecia se insinuar no rosto estreito de Deringhouse. Todos sabiam que o jovem oficial tinha bastante senso de humor.
— As perguntas que seus colegas certamente formularão não lhe interessam. Sou a única pessoa a bordo da nave que está informada sobre sua tarefa de mensageiro. Se acreditar que haverá dificuldades, dirija-se diretamente a mim. Acho que não há mais nada a dizer, não é? Ah, sim, há mais uma coisa. Devo informá-lo de que, dentro de uma hora, seu sósia voltará para o deserto de Gobi. Ao que parece os fabricantes de máscaras fizeram um serviço excelente. Neste instante seu substituto provavelmente se encontra numa cerimônia de despedida regada a lágrimas. Fazemos questão de encenar um ligeiro engano para os visitantes que certamente se encontrarão presentes.
Tiff sentiu sua garganta se estreitar ainda mais. Engoliu com grande esforço.
— Um sósia? — gaguejou.
Um largo sorriso cobriu o rosto de Deringhouse.
— Isso mesmo — confirmou. — Dissemos ao rapaz que, em hipótese alguma, deve beijar sua irmã.
Numa súbita clarividência, Tiff percebeu com que cuidado o chefe planejara tudo. A nave Good Hope-IX havia decolado sem Tifflor; não havia a menor dúvida. Se de repente seu sósia aparecesse por lá, só por obra do demônio alguém poderia perceber a trama.
Era essa a opinião de Tiff. Não contava com a lógica fria de um homem que acreditava plenamente que outras inteligências pudessem ter bastante visão para perceber a manobra. Se isso acontecesse, a história da missão de mensageiro deveria parecer verdadeira.
— Há uma certa turbulência — disse Tiff em tom respeitoso.
— Turbulência? — exaltou-se Deringhouse. — É uma névoa em espiral. Muito bem. Entre... e não diga uma palavra sobre sua missão.
O comandante da Good Hope-IX seguiu o cadete para o interior do campo transportador, que nada mais era senão um hiper-transmissor para distâncias reduzidas. Quando chegaram à parte de cima, lâmpadas fortes iluminavam o espaço. A saída ficava no escritório do chefe de segurança. O homem mal levantou os olhos quando os dois homens uniformizados passaram junto à sua escrivaninha.
Sob a imensa abóbada energética que cobria a base lunar estava estacionada a nave esférica auxiliar do tipo Good Hope, que tinha um diâmetro de sessenta metros. Um couraçado da classe da Stardust-III trazia doze naves desse tipo a bordo.
Sem dizer uma palavra, caminharam em direção à nave, pronta para decolar. A comporta do pólo inferior fora aberta entre os suportes bastantes estáveis. Subiram no elevador antigravitacional e logo entraram na sala de comando.
— Atenção! — berrou alguém a plena força dos pulmões.
Tiff estremeceu ao reconhecer a voz de Humpry Hifield. Com o rosto pálido, passou os olhos pelos cadetes enfileirados. À entrada do comandante, mantinham-se imóveis como colunas de granito.
O sargento Rous também estava presente. Exercia as funções de imediato do girino que se deslocava a velocidade superior à da luz.
Tiff contou onze cadetes de sua turma. Ainda havia duas moças, uma das quais era Mildred Orson. Também conhecia a outra, Felicitas Kergonen, uma pessoa frágil e esguia. Felic, como era chamada, só tinha dezoito anos. Ainda tinha dois semestres de estudos de botânica galáctica diante de si. O que estaria fazendo a bordo da nave dos formandos?
Tiff sentiu seu pulso bater mais depressa quando seu olhar se encontrou com o de Milly. Ao que tudo indicava, Deringhouse preferira não mencionar sua ligeira excursão ao setor residencial dos cadetes.
— A licença especial do cadete Tifflor chegou ao fim. Decolaremos imediatamente. Ocupem seus lugares — foram as palavras bastante lacônicas de Deringhouse. Para os nervos tensos dos futuros cosmonautas representavam uma indicação pouco precisa sobre o misterioso aparecimento de Tiff.
Klaus Eberhardt parecia prestes a estourar. O rosto de Hump se manteve impassível. Sempre permanecia assim quando um superior se encontrava nas proximidades.
Enquanto Deringhouse caminhava em direção à comporta de segurança transparente da cabina de telegrafia, para realizar pessoalmente algumas das regulagens que se faziam necessárias, Rous resmungou naquela gentileza que lhe era peculiar:
— Não precisamos de estátuas. Quem sabe se os cavalheiros não querem ocupar logo os seus lugares? As damas farão o favor de desaparecerem no interior dos seus camarotes. Vamos logo!
As intenções de Rous não eram tão ruins. Quando Milly Orson, ao passar por ele, lhe lançou um olhar aniquilador, reprimiu um palavrão bem intencionado.
Felic Kergonen, uma loura tímida, caminhava atrás de sua colega, que tinha um ano mais que ela. A escotilha voltou a se fechar. A respiração de Rous emitia um chiado igual ao do vapor que escapa de uma caldeira.
— Que porcaria! — chiou, lançando um olhar furioso. — Afinal, qual é a graça? Não são moças, mas alunas da Academia Espacial. Entendido? Peço que recebam um tratamento igual ao de qualquer homem que se encontre a bordo. As damas terão de mostrar em mundos estranhos o que aprenderam de bacteriologia cósmica e botânica galáctica. Cadete Tifflor!
Tiff se encolheu. Mais uma vez Rous, seu velho martirizador, parecia ser feito de uma carga de explosivo.
— No primeiro intervalo o senhor cuidará do controle de armamentos. Se quiser, pode fazer a Good Hope-IX passar por dentro do primeiro planeta que tivermos pela frente. Eberhardt e Hifield, os senhores controlarão o setor técnico. Os outros homens ocuparão os postos anteriores. Decolaremos dentro de cinco minutos.
Aquilo era típico do sargento Rous! Tinha que ser levado conforme era.
— Ora, veja! Você ainda está de traje de gala — disse o sargento, muito nervoso. — Daqui a alguns segundos você estará de volta, em trajes de serviço.
Tifflor saiu correndo. Não chegou a ver o sorriso largo de Rous. Eberhardt e Hifield se dirigiram às poltronas giratórias que ficavam junto aos dois assentos de piloto.
— Que cachorrão, não é? — chiou Eberhardt. — Você viu alguma nave pousar? Ainda está com a arma de verdade.
— Depois da decolagem receberemos uma igual. Fique quieto.
As máquinas começaram a trabalhar no gigantesco bojo da Good Hope-IX. A reação do dispositivo automático aos comandos de Rous foi tão precisa que nenhum homem conseguiria fazer igual. A nave em que se encontravam não fora construída na Terra. A supertecnologia arcônida ressaltava em todos os cantos. O desempenho dos conversores de impulso arcônidas subia numa curva íngreme. Eberhardt anunciou que a energia necessária à ativação dos neutralizadores de pressão se encontrava disponível. Uma vida de múltiplas facetas passara a tomar conta da nave ainda há pouco amortecida.
Rous mantinha contato audiovisual com o comandante da base. Além da cortina energética protetora começava o espaço cósmico. Para que a Good Hope-IX pudesse decolar tornava-se necessário abrir a abóbada energética, por uma fração de segundo, no setor pelo qual a nave teria de passar.
— Pronto para decolar. Solicito a delimitação vertical do setor — transmitiu Rous.
Fora do girino os projetores do espaçoporto lunar entraram em funcionamento.
Uma coluna energética luminosa se projetou para o alto, combinou-se com o abaulado da gigantesca abóbada e envolveu a nave.
Tratava-se de uma comporta imensa e superaperfeiçoada, que ainda provocava a admiração dos cientistas terrestres. No distante planeta de Árcon já há dez mil anos a decolagem das naves espaciais era realizada dessa forma. A manobra era indicada sempre que o espaçoporto se localizasse em astros onde não houvesse atmosfera, ou esta fosse venenosa.
Olhando pela parede blindada e transparente, Rous contemplou a sala de telegrafia. O comandante continuava sentado diante de uma tela de telecomunicação. Da sala de comando não se podia ver a pessoa que aparecia na mesma.

* * *

— Tudo pronto a bordo — disse Deringhouse, em voz muito baixa, para dentro do microfone do aparelho de comunicação audiovisual, que funcionava à velocidade superior à da luz.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. O major não sabia quem era a pessoa para a qual olhava de esguelha. De qualquer maneira, Perry Rhodan parecia satisfeito.
Deringhouse nem desconfiava de que, ao recolher Tifflor a bordo, colocara no interior da nave uma emissora orgânica que funcionava no espaço hiperdimensional. Nem mesmo Deringhouse sabia tudo.
Rhodan percebera o aceno de cabeça do telepata do Exército de Mutantes que se encontrava a seu lado. Isso lhe bastava para provar que Tifflor chegara em boas condições à base situada na Lua.
— Muito obrigado. Nave liberada para a decolagem. Queira seguir estritamente as suas instruções. Mais algum esclarecimento?
Deringhouse hesitou. Depois de algum tempo perguntou apressadamente.
— Everson passou?
— Sim, realizou a transição sem qualquer problema. Mais alguma coisa?
Deringhouse disse que não. Não se atreveu a perguntar se o sósia de Tifflor já havia chegado. Era quase certo que sim.
— Nesse caso lhes desejo boa sorte — concluiu Rhodan. — Cuide para que o exame final dos cadetes seja o mais perfeito possível. Os cadetes de hoje serão os combatentes siderais de amanhã.
O major compreendia perfeitamente aquele estranho sorriso do chefe. Naquele instante o inferno devia andar às soltas no espaçoporto da Terceira Potência.
Há tempo as três maiores dentre as unidades de Perry Rhodan estavam prontas para decolar em caso de alarma. Deringhouse se lembrou com saudades do cruzador pesado Terra, que costumava comandar. A essa hora o comando estava sendo exercido pelo capitão MacClears. Tratava-se de uma nave de duzentos metros de diâmetro, construída na Terra.
Ao lembrar-se de seu cruzador, Deringhouse teve a impressão de que dali a pouco tempo bem que precisaria de seus potentes canhões de radiação. A Good Hope-IX, sem dúvida muito grande, não passava de um brinquedo se comparada com o cruzador Terra.
A imagem de Rhodan se apagou. Deringhouse se levantou lentamente e se dirigiu à sala de comando. Rous desfiou um relato. Aqueles homens já se conheciam; sabiam o que pensar um do outro.
O comandante lançou um olhar bastante expressivo para o sargento.
— Tudo bem, Rous? Não temos nenhum pé-frio a bordo?
— Nenhum — disse Rous, esticando as palavras e olhando Deringhouse de baixo.
A ponta da língua passou ligeiramente pelos lábios ressequidos.
— Ok. Vamos dar partida. Tifflor, tudo bem no seu setor?
Tiff, que depois de uma complicada troca de roupas acabara de voltar à sala de comando, confirmou em atitude tensa. Se ninguém mais desconfiava que dali a pouco as coisas ficariam muito sérias, ele desconfiava.

* * *

Fazia exatamente trinta minutos, tempo padrão, que a Good Hope-IX havia saído da comporta de campo para penetrar no espaço vazio. As estações de Marte anunciavam que, seguindo as instruções, Deringhouse acelerava exatamente na base de 500 km/s2. Dessa forma atingiria, dentro de cerca de dez minutos, uma velocidade aproximada à da luz.
No momento em que chegou o primeiro aviso da estação automática instalada em Calisto, uma das luas de Júpiter, essa marca havia sido atingida.
Rhodan se acomodou no assento do primeiro-oficial. Bem embaixo dele vibravam as máquinas titânicas do couraçado Stardust-III, um gigante esférico de oitocentos metros de diâmetro, pertencente à classe das naves arcônidas do tipo Império. No império estelar de Árcon jamais foram construídos couraçados maiores e mais potentes. A forma pela qual Rhodan conseguiu apresar o gigantesco veículo espacial constitui, por si, uma história.
— Decolaremos dentro de vinte segundos — anunciou pelo rádio.
Nas grandes telas de observação global via-se a imagem reluzente de dois cruzadores pesados, o Terra e o Solar System.
Com a precisão de um segundo, as três naves espaciais mais poderosas da Terceira Potência se levantaram do solo. Muito embora Rhodan tivesse dado instruções para manter a aceleração num nível mínimo até que atingissem a ionosfera, a cidade de Terrânia, situada nas proximidades do espaço-porto, assistiu a um verdadeiro fim de mundo. Nunca antes os três gigantes haviam subido ao céu ao mesmo tempo.
Uma vez ultrapassadas as camadas superiores da atmosfera terrestre, o grupo acelerou ao máximo. Seguiu exatamente a rota que Deringhouse tomara pouco antes.
— Rigorosa prontidão em todas as unidades!
Essa ordem foi transmitida depois que as três naves haviam cruzado a órbita de Marte. Os tripulantes, todos homens altamente especializados, se encaravam. O chefe falara com uma indiferença tão estranha!
— Se nos próximos quinze minutos não houver uns estouros por aqui, volto para casa a pé — disse um dos engenheiros de máquinas do cruzador pesado Solar System.
Trezentos metros acima dele, Perry Rhodan se dirigiu ao mutante John Marshall.
— Conseguiu estabelecer contato, John? — indagou nervosamente.
Marshall esboçou um sorriso contrafeito.
— Que coisa horrível! — gemeu. — Esse rapaz irradia impulsos como uma superbomba. Mal consigo bloquear as vibrações.
— Apesar de tudo continue nos exercícios goniométricos. A qualquer momento devemos estar em condições de determinar a posição de Tifflor sem lançar mão de quaisquer recursos técnicos. É bom que se acostume quanto antes aos duros impulsos. Tem de ser.
Reginald Bell que, como sempre, ocupava o assento do segundo-oficial, contorceu os lábios muito largos.
Nas gigantescas telas, Júpiter surgiu em forma de uma estreita foice. Passariam pelas proximidades do planeta.
— Sinto-me como um patife — recriminou-se, falando por entre os dentes.
— Era nosso dever avisá-lo sobre o transplante que pretendíamos realizar.
Rhodan estreitou os lábios. Sentiu-se martirizado por idéias sombrias. Além da órbita de Plutão começava o espaço intercósmico. Se alguma coisa tivesse de acontecer, só poderia ser nessa região.
— Se soubesse dessas coisas, isso lhe teria custado a vida, ou melhor, poderia ter lhe custado a vida.
— Você conta com um ataque dos desconhecidos?
Rhodan não disse uma palavra; se limitou a acenar com a cabeça. No momento em que Plutão se tornou bem perceptível, o chefe da Terceira Potência concluiu a palestra com estas palavras:
— Tenho a impressão de que procurarão agarrar a Good Hope-IX, porque supõem que Tifflor está no interior da mesma. As indicações por nós deixadas são muito fracas, mas um bom observador, dotado de um raciocínio perfeito, saberá interpretá-las. Everson não foi molestado. A esta hora já chegou ao sistema Vega.
— É um prognóstico frio — disse Bell com um riso que não revelava muito senso de humor. — E se esses desconhecidos não possuírem a lógica que você supõe neles? Nesse caso seu lindo plano cai na água. Nosso chamariz cósmico terá piado em vão.
— Vamos aguardar. A coisa acontecerá para lá de Plutão. Nós só teremos de aparecer em tempo. A manobra será preparada assim que atingirmos a órbita de Urano. Transmita isso à tripulação. Se necessário efetuaremos um ligeiro salto de transição. Preciso descobrir quem está de olho em nós. Tifflor saberá se defender. O homem por mim escolhido não é nenhum fracote. É só.
Bell voltou a fechar a boca, que já se abrira para dizer alguma coisa. Conhecia perfeitamente essa expressão no rosto de Rhodan.
Rhodan lançou um olhar para a figura magra de Crest, um ser extraterreno. Tratava-se do cientista mais capaz do planeta Árcon, que trouxera à Humanidade não só uma tecnologia superior, mas também o verdadeiro saber. Seu cabelo quase completamente branco brilhava na luminosidade das inúmeras telas.
Sem dizer uma palavra, acenou com a cabeça. Parecia muito sério. Se havia alguém capaz de descobrir quem era o inimigo com que se defrontavam nas profundezas do espaço, era Crest, o representante de uma velha dinastia de soberanos.
Os arcônidas haviam fundado seu império estelar numa época em que o homem ainda habitava as cavernas. Agora o mesmo homem se tornara adulto. Lançando mão de suas enormes reservas de energia, penetrou com audácia, disposição de assumir riscos e decisão em áreas que, sem o supersaber dos arcônidas, ainda lhe permaneceriam fechadas por muitos séculos.
Rhodan fez um ligeiro sinal àquele homem que tanto se parecia com um humano. Enquanto isso, nas três naves estavam sendo tomados os preparativos para uma ligeira demonstração de força.
— Eu os agarrarei, não tenha a menor dúvida — cochichou Rhodan. — Esses seres nunca destruirão aquilo que conseguimos erguer num trabalho estafante. Não existe nenhum risco que eu não esteja disposto a assumir em benefício de nossa Humanidade.

5



O Sol se transformara num ponto cintilante. Plutão, o planeta exterior do sistema solar, não recebia muita luz daquela fonte de vida.
As telas de visão global da Good Hope-IX, que quase havia atingido a velocidade da luz, não mostravam nada daquele mundo de gelo. Plutão se encontrava em oposição ao Sol. Por isso, Conrad Deringhouse teve que dispensar o contato com a estação automática lá instalada.
Há quinze minutos os estéreo compensadores forneciam as medidas comparativas necessárias à transição.
Os doze cadetes que se encontravam a bordo ao lado da tripulação normal haviam realizado, nas últimas horas, todas as tarefas que geralmente ficam a cargo de experimentados cosmonautas. Era claro que os examinandos eram rigorosamente controlados e vigiados. Embora no exame final se exigisse tudo que um cosmonauta competente deve saber, os instrutores da Terceira Potência nunca seriam capazes de agir levianamente.
Isso se aplicava especialmente a um salto executado numa velocidade superior à da luz, onde o menor erro de cálculo poderia ter conseqüências catastróficas.
Só dois homens a bordo desconfiavam que, desta vez, o que interessava não era tanto uma transição exata. Era claro que o comandante pretendia realizar um salto bem calculado, se é que teria de saltar. O que importaria nesse caso era que a nave realmente atingisse o distante sistema Vega.
Deringhouse e Rous eram os homens nos quais a tensão crescia a cada minuto que passava. Percorreram a escala de sentimentos de cima para baixo, o que, apesar de todo o autocontrole, se refletia em seus rostos.
Talvez Julian Tifflor fosse o único homem que, além dos cosmonautas que haviam sido informados sobre os fatos, suspeitava de que pensamentos de outra espécie desfilavam atrás da testa enrugada de Deringhouse.
Eberhardt, Hifield e os outros cadetes não tinham a menor dúvida de que o nervosismo do comandante estava ligado à transição que seria realizada pelos alunos. Para um piloto espacial experimentado não seria nada agradável deixar o destino da nave a cargo de um grupo de jovens.
Era claro que todos eles já haviam realizado muitos saltos à velocidade superior à da luz, mas nunca tiveram de agir sob responsabilidade própria. Havia uma pequena diferença; nem mesmo Hifield deixou de reconhecer isso. A situação era comparável à do primeiro vôo desacompanhado dos alunos de aviação de tempos idos. Uma prova desse tipo desgastava os nervos, por mais certeza que se tivesse de dominar perfeitamente a matéria.
A distância relativamente pequena em que se encontrava o sol de Vega permitia um salto direto por meios óticos. A velocidade da estrela era tão pequena em comparação ao tempo de transição que podia ser desprezada.
Há uma hora Tifflor, que era considerado o melhor matemático da Academia Espacial, operava a calculadora cosmonáutica que apuraria as últimas correções de dados. Os dados fundamentais, introduzidos na calculadora, eram fornecidos pela cúpula polar superior, onde as medições comparativas eram realizadas de forma inteiramente automática.
O cérebro central das naves da classe da Good Hope tinha a finalidade de receber a programação corrigida, obtida de forma semi-automática, para transmiti-la aos mecanismos propulsores, que afinal teriam de realizar as pequeninas correções de curso.
O ribombar surdo dos conversores de impulso arcônidas enchia a Good Hope-IX. O funcionamento dos reatores de energia era muito mais silencioso.
— Tudo preparado para o desempenho máximo dos propulsores. Tudo claro para a inserção das massas de apoio — comunicou Deringhouse à central de controle de máquinas.
Ali alguns homens experimentados estavam sentados atrás dos painéis. Os examinandos de engenharia só poderiam desencadear os impulsos vitais quando se verificasse que os dados eram rigorosamente corretos.
— Tudo preparado na central de máquinas — soou a resposta vinda das profundezas da nave. — Massa de apoio a cinco segundos da manobra de transição.
Tifflor acompanhava a troca de mensagens. Não sabia por que motivo Deringhouse e Rous pareciam cada vez mais nervosos. Apenas notara que, já há duas horas, haviam dado ordem para que a estação de rastreamento de alta precisão da Good Hope-IX fosse ocupada.
Ali os experimentados telegrafistas-localizadores estavam sentados diante dos rastreadores e dos sensores estruturais. Os aparelhos funcionavam à velocidade superior à da luz.
A localização ótica comum estava fadada ao fracasso.
Tiff prestou atenção ao ribombar surdo dos mecanismos propulsores, localizados no abaulamento equatorial da nave. Esse tipo de construção era de feição tipicamente arcônida, e apresentava vantagens consideráveis face a outras modalidades. A principal delas era a de permitir a utilização de todo o volume da célula principal. A mudança de direção das radiações durante as manobras de frenagem também era muito menos complicada que nas naves dotadas de propulsores de popa.
Essas e muitas outras idéias passaram pelo cérebro de Tiff. Os cálculos que estavam a seu cargo foram executados num estado que chegara a ser de sonambulismo.
Quando a débil luz vermelha se acendeu, anunciou pelos microfones de bordo:
— Faltam treze minutos inteiros para a manobra. Contagem regressiva funcionando.
Deringhouse voltou a cabeça. Lançou um olhar perscrutador sobre as superfícies diagramáticas iluminadas do robô cósmico. Os dados eram corretos.
Era de admirar que Rous vivesse olhando para o relógio de uso diário, que para essa finalidade era de uma inexatidão lamentável. Uma sensação pouco agradável logo se apossou de Tiff.
Lançou um olhar rígido para os dois pilotos. Deringhouse ainda não tirara a cobertura de plástico da chave de contato, embutida na braçadeira direita de seu assento. Enquanto a capa transparente continuasse ali, não se poderia cogitar do salto.
Seria evidentemente uma tolice e uma leviandade remover a capa treze minutos antes da transição. Apesar disso, Tiff teve a impressão um tanto gratuita de que seria preferível, no interesse da Good Hope-IX, que a capa fosse retirada.
Quando ainda estava refletindo sobre os prós e os contra, o contador anunciou que o primeiro dos treze minutos havia chegado ao fim. Faltavam doze minutos para a transição. A contagem de precisão teria início sessenta segundos antes. Ali até os milésimos de segundo importariam. Qualquer alteração do momento do impulso poderia trazer conseqüências surpreendentes, sempre incontroláveis. Várias naves arcônidas já haviam desaparecido no hiperespaço sem deixar o menor vestígio.
Exatamente 6,53 segundos depois da contagem chegou uma notícia que o major Deringhouse registrou com um forte estremecimento do corpo. Rous virou apressadamente a cabeça.
— Central de observação — disse a voz saída do alto-falante. — Objeto desconhecido no verde 45,3°, localização vertical verde 18,6°. Distância apurada pelo rastreador de objetos 0,8 horas-luz. Deslocamento provável do objeto estranho abaixo da muralha L. Resultado da análise estrutural pouco preciso. Provavelmente trata-se de ligas metálicas. Fim.
Deringhouse não disse uma palavra. Isso não condizia com sua personalidade, e o mesmo acontecia com os olhares indiferentes que lançava em torno de si. Um sorriso gelado se desenhou em seus lábios largos. O rosto do jovem major adquiriu certa semelhança com o de Perry Rhodan. Eram os tipos admiráveis de homem que, ao serem avisados de algum perigo, esquecem que têm nervos.
Tiff respirava com dificuldade. Teve a impressão de que o cilindro metálico que trazia no bolso interno do uniforme, na altura do peito, iria lhe esmagar as costelas.
Eberhardt se admirou com a estranha reação do comandante. Hifield empalideceu. Seu olhar seguro caminhava de um dos responsáveis para outro.
Depois da segunda observação do rastreador que, apesar da distância ainda grande, era bem precisa e minuciosa, Deringhouse se ergueu do seu assento com a tranqüilidade de quem vai tomar uma xícara de café. Todo mundo viu quando ligou o rádio do grosso capacete de serviço.
— Sargento Rous, o senhor assumirá o comando da nave — soou a voz clara e enfática vinda dos alto-falantes em concha embutidos nos capacetes. — Para os tripulantes: ligar a comunicação individual. Para a sala de controle de máquinas: anular os preparativos de manobra. Preparar a nave para a batalha.
O punho cerrado de Rous bateu sobre a chave-mestra do dispositivo automático de transição. O cérebro central parou de funcionar, emitindo um zumbido grave. De um instante para outro, os cálculos haviam perdido todo sentido. Logo após o comando de preparar a nave para o combate, o inferno parecia andar às soltas no interior da nave. Os homens corriam apressadamente em busca de seus trajes espaciais, cujo uso não podia ser dispensado numa oportunidade como esta.
Os dedos de Tiff trabalharam com uma segurança e um automatismo de quem está sonhando. Não saberia dizer quantas vezes já haviam treinado o ajuste do traje protetor, que sempre era trazido ao alcance da mão.
As fechaduras automáticas se trancaram. As luzes de controle que se acendiam davam notícia da prontidão dos principais agregados. Subitamente Tifflor acreditou compreender por que o comandante substituíra as inofensivas armas de treinamento dos cadetes por perigosas armas de radiações logo depois que haviam cruzado a órbita de Marte. Alguma coisa iria acontecer, alguma coisa que, segundo tudo indicava, já era esperada há bastante tempo.
Tiff voltou apressadamente ao seu lugar. Do envoltório da nave, até então de uma lisura impecável, saíram as torres de armas, dirigidas automaticamente. Nas cúpulas giratórias não tripuladas começaram a funcionar os geradores independentes. Os projetores de campos energéticos começaram a funcionar com um baque surdo. Consumiam quase toda a energia das usinas de bordo.
A Good Hope-IX, que ainda há pouco se preparava para empreender um hiper-salto inofensivo, estava transformada num corpo cheio de saliências, que funcionavam como dentes afiados.
A Good Hope-IX não poderia ser comparada com um dos cruzadores pesados da frota da Terceira Potência, muito menos com o couraçado Stardust-III. Apesar disso, Perry Rhodan atacara toda uma frota espacial com uma dessas naves de sessenta metros, causando graves estragos.
Deringhouse mandou que os capacetes esféricos dos trajes espaciais ainda não fossem fechados. Se houvesse qualquer queda de pressão, eles se fechariam automaticamente.
Por isso seu capacete balançava sobre as ombreiras da mochila de oxigênio e de energia. Na sala de comando, o destacamento de robôs de combate entrou em formação. As comportas de saída anunciaram a prontidão dos aparelhos arcônidas especializados.
Deringhouse estava de pé, com as pernas afastadas, atrás do assento vazio do piloto. O sargento Rous havia assumido a direção da nave.
Tifflor notou o olhar indagador do cadete Eberhardt, cujo rosto pálido sobressaía da parte superior do traje espacial.
Tiff ergueu os ombros de forma quase imperceptível. Alguém praguejou no microfone do capacete. Era Humpry Hifield.
— Todos os tripulantes, atenção. Não se trata de um exercício. Repito. Não se trata de um exercício — anunciou o comandante. — A transição será suspensa. Uma reformulação dos cálculos só poderá ser útil para o êxito dos exames finais. Os senhores hão de compreender que o surgimento inopinado de uma nave não pertencente à Terceira Potência nas proximidades do sistema solar constitui motivo mais que suficiente para desistir de um hipersalto já programado. A tripulação da Good Hope-IX praticamente está duplicada. Os cadetes terão oportunidade de dar provas de sua habilidade num combate que, ao que tudo indica, iremos travar. Estou interessado em saber que nave é essa.
— Será que é um meteoro... ou um cometa? — piou uma voz fina nos alto-falantes em concha.
— Um objeto desses não costuma se deslocar a uma velocidade próxima à da luz — disse Deringhouse em tom professoral, sem se mostrar interessado em saber quem havia dito essas palavras.
Tiff era uma das poucas pessoas a bordo da nave que, nem por uma fração de segundo, contorceram os lábios num sorriso. Havia alguma coisa que Deringhouse não queria ou não podia dizer.
O major atirou a mão esquerda para cima. Colocou os dedos médio e indicador em posição de V. O homem sentado diante do hipertelégrafo parecia ter esperado apenas esse sinal. Os feixes luminosos bem coordenados do ajustamento demonstravam claramente que a enorme antena direcional da calota polar superior da nave já apontava para a Terra.
Tiff notou perfeitamente que o telegrafista bateu na tecla um breve sinal, certamente já combinado. Dali se concluía que o comandante preferia não recorrer ao contato radiofônico, perfeitamente possível. Provavelmente a breve mensagem devia ter sido muito bem codificada.
Não chegou qualquer resposta; mas Tifflor desconfiava de que certos especialistas já estavam com os ouvidos aguçados para captar a mensagem. Mais uma vez ficou com a garganta ressequida, o que constituía sinal evidente de um grande nervosismo.
Deringhouse notou o olhar quase desesperado do jovem cadete. Olhou-o rigidamente, até que uma das sobrancelhas se moveu. Tifflor conseguiu engolir de novo. Parecia adivinhar o que estava para vir, embora não soubesse nada do aparecimento de inteligências extraterrestres. Em compensação sentiu nitidamente que um grande jogo estava chegando à fase decisiva.
Por que Deringhouse não chamara o chefe? Rhodan poderia chegar ao local num tempo curtíssimo com suas potentes naves. Havia algo de misterioso em tudo aquilo.
Deringhouse expulsou um dos cadetes da enorme poltrona giratória do oficial de armas. As poucas chaves e botões que se encontravam diante dessa poltrona encerravam todo o potencial de fogo da Good Hope-IX.
Dessa vez, mesmo os tripulantes normais da nave se espantaram. Por que o comandante resolvera exercer pessoalmente as funções de pistoleiro?
E foi o próprio Deringhouse que acionou a chave decisiva que, nos combatentes do espaço já experimentados, sempre provocava um certo nervosismo. A pontaria automática foi acoplada aos instrumentos de localização. Ai da nave inimiga que fosse alcançada pelos raios dos rastreadores! O superautomatismo arcônida não oferecia qualquer margem de erro. As imperfeições de sua construção já haviam sido eliminadas há oito mil anos.
— Distância inalterada, velocidade constante — anunciou a central de observação. — Não constatamos nenhuma alteração da velocidade ou da rota de vôo. Temos diante de nós a interpretação do cérebro positrônico. O objeto desconhecido consiste num corpo metálico alongado de cerca de trezentos metros de comprimento. Margem de erro, mais ou menos cinco por cento. Fim.
Deringhouse assobiou entre os dentes. Uma nave de trezentos metros de comprimento e de formato cilíndrico não poderia ter sido construída na Terra.
— Que monstro, não é? — cochichou Rous no microfone de capacete. — Bem que eu gostaria que a Solar System estivesse por per...
Um ruído ensurdecedor arrancou a palavra da boca de Rous. A central de observação, visível através da parede blindada e transparente, estava envolta numa luminosidade azulada. O ruído só durou alguns segundos.
Logo se ouviu a voz nervosa de um dos ocupantes do posto de observação:
— O objeto estranho entrou em transição. Desapareceu do campo de alcance do rastreador. Sensor estrutural: nível sonoro vinte e três; é muito elevado. Abalo estrutural a uma distância de 0,8 horas-luz. Cuidado.
O sargento Rous bateu na chave dos cintos de segurança. Em todos os assentos as fitas magnéticas flexíveis saíram dos encostos. De uma hora para outra Tiff sentiu que essas fitas o amarravam implacavelmente.
Os dedos ágeis de Rous continuaram a manipular as chaves. Como piloto não ficava a dever nada ao próprio Deringhouse. E, ao que tudo indicava, o sargento sabia perfeitamente o que isso importava naquele instante.
Tiff ouviu o súbito rugir dos reatores de energia. Rous supriu o campo de defesa hipergravitacional até o máximo da capacidade. E isso foi feito no último instante.
Tifflor segurou fortemente as braçadeiras de sua poltrona quando os relampejos branco-azulados atravessaram a central de observação. Os dois sensores estruturais de alta precisão, destinados à medição de abalos contínuos de maior intensidade, queimaram-se ao mesmo tempo.
Fragmentos incandescentes chiavam enquanto atravessavam o enorme recinto. O ranger agudo dos alto-falantes só durou alguns segundos. Logo perderam sua vida mecânica.
Deringhouse berrou alguma coisa que ninguém entendeu. Tiff viu apenas que o comandante apertava o contato de seu capacete.
Antes que as terríveis sacudidelas começassem, Tiff lhe seguiu o exemplo.

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