Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização E Revisão
ARLINDO_SAN
A vida no planeta de Goszul torna-se
difícil
para os “deuses”, porque os mutantes de
Perry Rhodan estão trabalhando...
Foi no ano de 1971 que Perry Rhodan, então um oficial da Força
Espacial dos Estados Unidos, chegou à Lua com o foguete Stardust e, recorrendo
à tecnologia encontrada na nave arcônida que ali realizara um pouso de
emergência, fundou a Terceira Potência.
Conflitos na Terra, invasões vindas do espaço, batalhas espaciais,
combates em planetas distantes, a tudo isso a Terceira Potência resistiu
galhardamente nos poucos anos de sua existência.
Agora os saltadores, representam um grave perigo para toda a
Humanidade. Descendentes dos arcônidas, há oito milênios eles detêm o monopólio
comercial irrestrito da galáxia, porque reprimem implacavelmente qualquer
concorrência que se esboce.
Perry Rhodan tem feito tudo que está ao seu alcance para impedir
que os saltadores transformem a Terra num mundo escravo. Levtan, o traidor,
representou uma peça importante no jogo de Rhodan, pois só graças a ele
tornou-se possível introduzir um grupo de agentes na Grande Conferência do
Conselho dos Saltadores.
Esses homens, combatentes consagrados do Exército de Mutantes de
Rhodan, vão parar no Planeta dos Deuses, depois de terem praticado um atentado
contra a Conferência dos Saltadores...
= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi e Tama Yokida — membros do Exército de
Mutantes, que pousaram como náufragos no planeta de Goszul.
Gucky — que
mais uma vez faz o papel de viajante clandestino, tal qual no início de sua
carreira.
Vethussar — um goszul que apóia os inimigos dos
“deuses”.
Honbled — que sabe desempenhar o papel de
sacerdote.
Etztak — um patriarca dos saltadores dado aos
acessos de raiva.
Fafer — comandante do veleiro Storrata.
1
— Astronavegação ao comandante. Distância
do alvo 205.1012
metros . Velocidade zero. Nenhum objeto no raio de
alcance dos instrumentos de observação. Fim.
Sentado de costas para a mesa, Rhodan pôs
a mão para trás e baixou a chave do pequeno receptor de intercomunicação.
Com um sorriso ligeiro e indiferente,
olhou para as pessoas que estavam de pé diante dele: Thora, a arcônida, e
Reginald Bell, co-piloto da Stardust.
— Quer dizer que chegamos — disse em tom
indiferente. — Estamos a oito dias-luz de 221-Tatlira, fora do alcance dos
instrumentos de localização dos saltadores.
A palavra-chave de Thora acabara de ser
pronunciada. Zangada, adiantou-se um passo e dirigiu o brilho chamejante de
seus estranhos olhos vermelhos sobre Rhodan.
— Estamos fora do alcance de seus
instrumentos, sim — disse em tom de escárnio. — Acontece que para chegar até
aqui tivemos de realizar duas transições. Será que os saltadores são tão
idiotas que não notaram nada?
— Bell...
Rhodan virou ligeiramente a cabeça.
Bell sabia o que o amigo esperava dele. De
maneira ostensiva ficou em posição de sentido e disse:
— Os localizadores da nave registram
cinqüenta e cinco transições por hora, em média, naturalmente, num raio de 1015 metros .
Provavelmente trata-se de naves dos saltadores que chegam ou partem da base dos
saltadores situada em Tatlira II.
Rhodan voltou a cabeça.
— Então, Thora?
Thora não gostou de receber um tratamento
professoral como este. Sua raiva cresceu.
— Sei o que está pensando — chiou. —
Acredita que em meio a todas essas transições a sua nem foi notada. O que
acontecerá, porém, se estiver enganado?
Rhodan deu de ombros.
— Nesse caso realizo uma transição rápida
para trás e reapareço num lugar em que os saltadores nunca suspeitariam que eu
estivesse.
Thora estendeu os braços.
— Por que não quer ouvir minha sugestão,
Rhodan? — perguntou. Falava com a voz suplicante; o chiado de raiva havia
desaparecido por completo. — Por que não vai a Árcon e pede socorro ao Grande
Império?
Rhodan inclinou-se para a frente em sua
poltrona. Inclinou-se tanto que suas mãos quase chegavam a tocar as de Thora,
já que sua poltrona se encontrava numa posição mais elevada.
— Permita que lhe explique a situação mais
uma vez, Thora. Através de um comandante rebelde dos saltadores ficamos sabendo
da conferência dos patriarcas dos saltadores a ser realizada no segundo planeta
do sol Tatlira, a mil e doze anos-luz da Terra. A presença do comandante dos
saltadores permite-nos colocar nossos mutantes em Tatlira II, a fim de que, por
meio de seus dons parapsicológicos, possam convencer os saltadores de que um
ataque à Terra poderia representar a destruição final de sua raça.
“O êxito do plano é apenas parcial. Um dos
patriarcas teve a idéia de realizar uma lavagem cerebral no comandante rebelde,
cuja nave transportou nossos homens para Tatlira II. Sabemos que Marshall
conseguiu impedir a lavagem cerebral, matando o saltador rebelde, e que a
maioria dos patriarcas dos saltadores pereceu em virtude da explosão de uma
bomba.
“Não sabemos até que ponto Kitai
Ishibashi, o sugestor, conseguiu inocular na mente dos patriarcas a lenda de
uma Terra armada até os dentes. Não temos tempo para voar a Árcon, gastar
semanas em negociações com o Conselho e enfrentar a possibilidade de afinal não
conseguirmos nada. Temos que ficar aqui para estabelecer contato ao menos com
um dos mutantes.
“Sei perfeitamente que a senhora fez a
sugestão a fim de ajudar a Terra, não para encontrar um meio de voltar à
pátria. Mas não poderá deixar de reconhecer que simplesmente não temos tempo
para aceitar a sugestão”.
Recolheu as mãos e levantou-se. Deu alguns
passos ao acaso, parou de repente, virou-se e sorriu para Thora.
— Além disso — disse em tom suave — quatro
dos meus homens se encontram em Tatlira II. Não deixarei que nenhum deles caia
nas mãos do inimigo, a não ser que isso se torne absolutamente necessário.
Nossa situação não é tão grave que tenhamos de abandonar nossa gente.
* * *
Tako Kakuta era um homem que possuía o dom
parapsicológico da teleportação, que lhe permitia transportar-se, graças
exclusivamente às forças de seu espírito, a qualquer ponto que escolhesse,
desde que este não ficasse a mais de cinqüenta mil quilômetros e suas
coordenadas geométricas fundamentais lhe fossem conhecidas. Naquele instante
dedicava alguns palavrões à situação que o obrigava a usar esse dom.
Deslocava-se pouco acima do chão
acidentado coberto de capim em direção à cidade em cujas proximidades haviam
pousado. Estava invisível graças ao campo defletor produzido por um pequeno
gerador embutido no traje espacial.
O grupo, formado pelo próprio Tako Kakuta,
por John Marshall, o telepata, por Kitai Ishibashi, o sugestor, e por Tama
Yokida, o telecineta, começara a contar aos participantes da Grande Conferência
dos Patriarcas dos Saltadores algumas lendas sobre os armamentos de que
dispunha a Terra, mas o velho Etztak lhes atrapalhara o serviço. Mataram Levtan,
o saltador rebelde que procurava recuperar sua reputação entre os saltadores;
mataram, ainda, a maior parte dos patriarcas, mas depois disso tiveram de
fugir.
Depois de passarem por cima da superfície
infindável de um grande mar vieram pousar naquela ilha, onde o tempo parecia ter
parado. A cidade que se encontrava diante deles, a menos de dez quilômetros de
distância, era composta de casas estreitas e altas, de paredes entremeadas de
madeira. Estavam tão próximas umas às outras que não devia haver ruas, ou então
as mesmas eram muito estreitas.
A cidade ficava junto ao mar e dispunha de
um porto natural. E o que havia nesse porto?
Navios a vela!
Navios a vela de todos os tipos e
tamanhos, mas nenhum deles era mais moderno que os produzidos pela tecnologia
terrestre do início do século XVIII.
E isso acontecia num mundo que os
saltadores consideravam sua propriedade particular, e no qual se haviam reunido
numa conferência muito importante.
Acontecia no planeta de Goszul.
Tako Kakuta regulou a velocidade com a
qual se aproximava da cidade. Preferia não pousar no porto enquanto não
estivesse familiarizado com a disposição geral da cidade.
Encontrava-se a cerca de cinco quilômetros
dos limites ocidentais da cidade. O pequeno neutralizador gravitacional mantinha-o
numa altitude constante de cinco metros acima do solo.
O terreno descia suavemente em direção à
cidade. Era um terreno não cultivado, coberto de capim, com elevações que
chegavam a um metro de altura. Tako concentrou sua atenção exclusivamente sobre
a cidade. Por isso não percebeu a sombra cinzenta que corria pelo ar.
O objeto que produzia a sombra
encontrava-se a cerca de quinhentos metros de altura, desenvolvendo uma
velocidade extraordinária. Seu formato era circular e, quem o observasse por
ocasião da curva que descreveu cerca de dez quilômetros a oeste da cidade,
notaria sua semelhança com uma lentilha.
Voltou em direção à cidade, perdeu
altitude, reduziu a velocidade e produziu um leve chiado.
Esse chiado foi o primeiro sinal de perigo
que chegou ao conhecimento de Tako. Virou-se e descobriu o veículo em forma de
lentilha, poucas centenas de metros atrás dele.
Sabia que era uma nave auxiliar do tipo
daquelas que as grandes naves dos saltadores trazem a bordo às dezenas ou mesmo
às centenas. Seu primeiro impulso foi no sentido de descer ao solo e procurar
um abrigo.
Mas que abrigo, pensou, poderia ser melhor
que a invisibilidade proporcionada pelo campo defletor?
Freou e imobilizou-se no ar. A nave
auxiliar foi se aproximando. Não se deslocava em linha reta, mas numa espécie
de ziguezague, como se estivesse procurando alguma coisa.
O susto gelou o corpo de Tako.
Se procuravam alguma coisa em cima dessa
área desolada, essa coisa não poderia ser outra senão ele mesmo.
No mesmo instante em que Tako reconheceu o
perigo, este começou a concretizar-se. O piloto da nave auxiliar e seus
companheiros pareciam saber muito bem onde estava seu alvo. Num ponto que
correspondia aproximadamente a linha equatorial surgiu um feixe concentrado de
raios energéticos verde-pálidos.
O raio passou a menos de cinco metros de
Tako, alcançou o solo mais adiante e atirou para o alto o capim que se
encontrava na área de combustão, reduzindo-o a uma nuvem de gases
turbilhonantes.
Tako reagiu imediatamente e pela única
forma possível. Rememorou o lugar em que Marshall, Ishibashi e Yokida o
esperavam, procurando fixá-lo com a maior precisão de que era capaz. Depois
retornou a esse lugar num salto de teleportação que não fora preparado com
muito cuidado.
Uma fração de segundo depois disso um
segundo tiro de radiações passou pelo lugar em que Tako estivera.
Uma vez que não tivera tempo para
concentrar-se, Tako pousou a uns duzentos metros do lugar em que o grupo havia
montado um acampamento provisório. O terreno era acidentado. Parecia uma grande
cadeia de montanhas que alguém tivesse coberto de terra, deixando de fora
apenas os cumes mais altos. Em meio ao solo coberto de capim erguiam-se rochas
íngremes que chegavam a atingir cem metros de altura. A poeira, a areia tangida
pelo vento e as sementes de capim tiveram muito trabalho em fixar-se nas
encostas íngremes. Mas no curso dos milênios o conseguiram. Nas encostas
tocadas pelo vento durante a maior parte dos dias do ano de Goszul os flancos
eram mais suaves e cobertos de espessa vegetação. No lado oposto a encosta era
quase vertical, caindo perigosamente do cume ao pé do monte.
Logo após o pouso o grupo descobrira uma
ampla caverna na face ocidental de um dos morros mais altos. Abrigaram-se no
interior dela. Foi dali que Tako partiu meia hora antes para dar uma olhada na
cidade.
Assim que se materializou, lançou um olhar
para o alto. Não viu o veículo em forma de lentilha.
“A
esta hora devem estar quebrando a cabeça sobre como alguém pode desaparecer tão
depressa”, pensou Tako contrariado.
Ainda não se dera conta de que não sabia
explicar como os saltadores haviam conseguido localizar uma pessoa como ele,
invisível.
Tako procurou concentrar-se no nome de
Marshall. Tinha certeza de que dessa forma Marshall, o telepata, o
compreenderia à distância de duzentos metros que ainda os separava. Depois
disso esforçou-se para pensar no incidente que acabara de ocorrer. No momento o
maior perigo era o de que alguém saísse da caverna, fornecendo um alvo a algum
veículo espacial dos saltadores que estivesse cruzando em regiões mais
elevadas.
Marshall não deixaria de prevenir os
outros.
Tako voou até a caverna. Antes de entrar
lançou os olhos em redor. Não viu a nave auxiliar dos saltadores. Mas por
enquanto Tako não via nisso um motivo para concluir que haviam perdido sua
pista.
Entrou na caverna, desativou o campo
defletor e informou os companheiros sobre o que acabara de ocorrer. Viu o pavor
desenhado no rosto dos três e acrescentou:
— Talvez tudo isso não passe de uma
coincidência.
Marshall sorriu.
— Muito obrigado pelo tranqüilizante, Tako
— disse. Abanou a cabeça. — É claro que não foi nenhuma coincidência. Já
receava que os saltadores pudessem estar em condições de realizar a localização
goniométrica dos nossos trajes. Estes contêm um gerador destinado à produção do
campo defletor, um gerador antigravitacional e um gerador que ativa o campo
protetor, que nos resguarda contra as balas. O conjunto desses aparelhos produz
uma quantidade apreciável de radiações disseminadas, e não deve ser difícil medi-las
e determinar o ponto em que se originam.
— Se minha suposição for correta, nossos
trajes espaciais não servem de mais nada. Pelo contrário: atraem os saltadores.
Precisamos...
— Acontece que não sabemos a que distância
conseguem localizá-los — objetou Yokida em tom exaltado. — Se só conseguirem
nos localizar a uma distância de cem metros, com esses trajes, que afinal têm
os campos defensivos, estamos melhores que sem eles.
Marshall ergueu as sobrancelhas.
— Se...! — respondeu Marshall em tom
enfático. — Acontece que não sabemos. É possível que consigam nos localizar a
cem quilômetros de distância.
Abanou a cabeça e olhou fixamente para a
frente.
— Não — murmurou. — Receio que tenhamos
que nos desfazer dos trajes. E...
Subitamente levantou a cabeça e olhou para
o alto. Yokida esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas Marshall o repeliu com
um sinal enérgico.
— Fique quieto!
Dali a dois segundos levantou-se.
— Estão em cima de nós — disse com a maior
tranqüilidade. — E estão bem perto. Quase chego a identificar seus pensamentos
um por um. Conhecem o ponto em que nos encontramos com uma precisão de vinte
metros. Vamos logo! Tirem os trajes espaciais!
Tako tirou o traje e correu em direção à
entrada da caverna. Sem pôr a cabeça para fora, viu a nave auxiliar que
deslizava metros acima do solo.
No mesmo instante Tako concebeu seu plano.
Voltou ao interior da caverna.
— Entreguem-me seus trajes! — disse em tom
enérgico.
Os companheiros arregalaram os olhos.
— Vamos logo! Não façam perguntas.
Levantaram os trajes e colocaram-nos sobre os braços estendidos de Tako. Este
teve que carregar o peso considerável daqueles conjuntos. Todos os aparelhos
estavam desligados. No momento não havia praticamente nenhum impulso que
pudesse ser captado pelos saltadores.
— Esperem por aqui! — ordenou Tako. — Eu
os levarei a uma pista falsa.
Marshall exclamou.
— Não faça isso! É muito perigoso. Você
não vai...
Tako já tinha desaparecido.
Quando voltou a materializar apenas pôde
avaliar a distância que o separava da caverna. Não tinha a menor idéia da
direção. O salto fora muito rápido.
Perdera de vista a nave auxiliar dos
saltadores.
Pousara a poucos metros de uma rocha, e
apressou-se em abrigar-se atrás da ponta esguia da mesma. Pôs no chão os
pesados trajes, vestiu o que pertencia a ele e ligou todos os geradores.
Depois pôs-se a esperar.
* * *
No interior da caverna Marshall ocupara o
lugar de observador. Deitado junto à entrada, observava atentamente a nave dos
saltadores.
— Não se movem — disse. — Se tivéssemos
armas mais potentes que estes pequenos radiadores de impulsos, poderíamos
derrubá-los.
— Se nos uníssemos todos... — sugeriu
Ishibashi; mas no mesmo instante Marshall exclamou:
— Estão indo embora!
Ishibashi e Yokida aproximaram-se da
entrada. Viram a nave auxiliar ganhar velocidade, desaparecendo no rumo
sudoeste, onde ficava o mar.
— Isso foi obra de Tako! — disse Marshall
admirado.
* * *
Tako Kakuta viu a nave chegar.
Voava pouco acima do solo, descrevendo a
mesma rota em ziguezague que há pouco observara. Os goniômetros utilizados
pelos saltadores para localizar a fonte das radiações não deviam ser de muita
precisão.
Tako esperou até que a nave começou a
contornar a rocha.
Só então saltou.
Não percorreu mais de cem metros.
O piloto parecia irritado. Descreveu
alguns círculos em torno da rocha, mas não notou os três trajes espaciais que
Tako escondera cuidadosamente. Não deixou de notar, porém, as radiações
emitidas pelo traje de Tako.
A nave desistiu de descrever círculos e
voltou a aproximar-se. Mais uma vez Tako esperou até que se aproximasse a uma
distância que quase chegava a ser crítica. Depois voltou a saltar. Desta vez
executou um salto de duzentos metros.
Tinha certeza de que o campo protetor do
traje seria capaz de absorver qualquer tiro disparado pela nave. Mas também
tinha certeza de que para isso consumiria uma quantidade de energia maior que a
produzida por seu próprio gerador. E o excedente seria retirado do campo
defletor, fazendo com que Tako se tornasse visível. E isso Tako pretendia
evitar, inclusive para defender sua integridade física. Um dispositivo de mira
automática possibilitaria a fixação indefinida de qualquer alvo, desde que este
tivesse sido claramente determinado. Se necessário, a fixação poderia perdurar
até que o inimigo conseguisse trazer armas pesadas, que acabariam rompendo o
campo protetor.
Desta vez a reação do piloto dos
saltadores foi diferente. Assim que seus goniômetros captaram o novo sinal,
desistiu da busca no local antigo e aproximou-se imediatamente.
Tako executou um salto de quinhentos
metros, que o levou até a costa. A nave dos saltadores seguiu-o docilmente.
Sob a proteção de um rochedo tirou o traje
espacial, mas deixou que os geradores continuassem a funcionar, para que os
impulsos captados pela nave dos saltadores não diminuíssem em intensidade.
Depois executou um último salto, bem
maior, que o levou alguns quilômetros mar afora, com o traje sobre os braços.
Rematerializou cinqüenta centímetros acima
da superfície da água, deixou-se cair e soltou o traje no mesmo instante em que
seu corpo tocou a água. Enquanto boiava, viu que o objeto branco afundava
devagar.
Saltou de volta para o lugar em que
escondera os outros trajes. Completou o serviço, cobrindo os mesmos com grandes
blocos de pedra, até que tivesse certeza de que ninguém os encontraria, ainda
mais que os impulsos dos geradores, desligados há quinze minutos, iam
diminuindo progressivamente, e não poderiam fornecer mais qualquer indicação
aos saltadores.
Executou outro salto que o trouxe a uma
distância de quinhentos metros da caverna, e outro que o colocou em meio aos
companheiros.
— Tudo em ordem — disse com um sorriso. —
A esta hora devem dar tratos à bola para descobrir o que estamos fazendo no
fundo do mar.
Relatou em frases lacônicas o que acabara
de fazer. Marshall deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Muito obrigado, Tako — disse em tom
objetivo.
Tako deu de ombros.
— Não há por quê. O que vamos fazer?
Marshall apontou para a entrada da caverna.
— Seguiremos a pé — sugeriu. — Vamos à
cidade. Não queremos ficar para sempre neste mundo estranho.
Ninguém se opôs.
* * *
No dia 27 de dezembro do calendário
terrestre, às 17:21 h, hora de Terrânia, um feixe de raios do localizador da
Stardust, que girava ininterruptamente, atingiu, junto ao limite do seu
alcance, um objeto metálico; foi refletido pelo mesmo e desenhou um ponto verde
na tela.
Por ordem de Perry Rhodan, o dispositivo
automático de observação havia sido colocado em estado de prontidão permanente.
Uma fração de segundo depois do surgimento do ponto verde, desencadeou o alarma
número III.
Rhodan, que se encontrava na sala de
comando, foi avisado imediatamente. Manteve-se em contato com o posto de
observação e acompanhou a identificação do objeto.
— Distância 7,1010 metros .
Velocidade 1,9.108 m/seg. Componente de deslocamento em nossa
direção...
E alguns segundos depois:
— As dimensões do objeto não ultrapassam
cem metros...
Dali a mais alguns segundos:
— Trata-se de um objeto cilíndrico.
Comprimento oitenta metros, diâmetro cerca de dez metros.
E finalmente:
— Os movimentos do objeto estão sendo
controlados. Trata-se de um veículo espacial.
Rhodan acenou com a cabeça. A direção de
que vinha o objeto dizia tudo. Vinha diretamente de 221-Tatlira.
Era uma nave dos saltadores vinda das
profundezas do espaço.
Rhodan chamou os postos de defesa.
— Como está a proteção contra o
rastreamento?
— Em perfeito estado. Se não fosse assim,
já nos teriam localizado. Em nossa nave os impulsos estão sendo recebidos
ininterruptamente.
A proteção contra o rastreamento que
envolvia a Stardust era um dispositivo novo e muito eficiente. Impedia o
reflexo de feixes de ondas até uma intensidade bastante considerável. Só acima
desse limite havia um reflexo insignificante, que causava no inimigo a
impressão de ter diante de si um objeto que se encontrava a vários milhões de
quilômetros, quando na verdade já se aproximara a algumas centenas de milhares
de quilômetros.
Quando a nave desconhecida havia se
aproximado a uma distância de 109 metros (um milhão de
quilômetros), Rhodan ordenou o alarma número II, e movimentou a Stardust sob a
proteção do campo anti-rastreação.
Durante a manobra, que em parte foi
executada pelo sistema de pilotagem automática, pediu que dois de seus
colaboradores, Ras Tschubai e Gucky, comparecessem à sala de comando.
Tschubai veio pelo caminho mais curto. Era
teleportador, tal qual Tako Kakuta, e de uma hora para outra encontrava-se no
interior da sala de comando.
Poucos segundos depois surgiu Gucky, o
mutante mais competente do Exército de Mutantes de Rhodan. Gucky entrou pela
escotilha, depois que lá fora se erguera sobre as pernas traseiras, apertara o
botão que anunciava sua presença e esperara que Rhodan acionasse o dispositivo
que deixava aberta a entrada.
Para Gucky, um salto de teleportação que o
transportasse de um convés para outro da gigantesca nave não representava
qualquer problema. Em compensação ainda não se familiarizara com a arte de
deslocar-se como um ser humano o bastante para sentir-se satisfeito.
Gucky parecia o resultado do cruzamento de
um rato com um castor. Coberto de pêlo vermelho, tinha um metro de comprimento,
incluído o toco de rabo. Era membro de uma raça originariamente dotada apenas
de inteligência mediana, formada de telecinetas naturais que habitavam o
planeta Vagabundo, ao qual Rhodan já fizera uma visita. Gucky uniu-se ao grupo
de Rhodan. Um programa de treinamento, adaptado especialmente à sua
inteligência, então ainda bastante reduzida, despertou não só o setor
inexplorado de sua inteligência consciente, mas também vários dons paranormais.
Gucky transformou-se num telepata e teleportador. Dominava várias línguas
terrestres e pertencia ao oficialato da Terceira Potência.
Muita gente acreditava que Gucky era um
esquisitão, e que a concessão da patente a um ser como ele fora um erro. Mas
Gucky soube convencer todos sem muita demora de que não era apenas um excelente
mutante, mas também um estrategista dotado de inteligência extraordinária.
Rhodan cumprimentou-o com um sorriso.
Depois que a escotilha se fechou, disse:
— Tenho algumas instruções para os dois.
Dizem respeito à nave inimiga que se encontra ali.
* * *
O pequeno veículo espacial era uma nave de
reconhecimento. Só dispunha de armamento leve, mas em compensação sua
aceleração e maneabilidade eram consideráveis.
O comandante do veículo era Frernad,
membro do poderoso clã dos Frers. Sua nave era a Frer LXXII. Para Frernad esse
número elevado tinha um aspecto horrível, pois os veículos de cada clã são
numerados na ordem decrescente do tamanho, do que resultava claramente que a
Frer LXXII era uma das menores.
Foi graças ao velho Etztak que Frernad
teve de cumprir a missão de penetrar no espaço numa distância de dez dias-luz,
à procura de eventuais inimigos. Etztak se defrontara, num mundo distante, com
os inimigos de que ora se tratava, e por isso sofria, na opinião de Frernad, de
um complexo de prudência.
Frernad detestava a missão que lhe fora
confiada. Todavia, executou-a com o maior cuidado. Os raios dos goniômetros
giravam ininterruptamente, mas até então não havia registrado nada, além de
alguns fragmentos de rocha que se deslocavam lentamente pelo espaço.
Com os olhos cansados, Frernad examinou o
pequeno instrumento que, com base no consumo de energia, registrava a distância
do ponto de decolagem, e cujo mostrador luminoso caminhava lentamente em
direção à marca dos dez dias-luz.
— Mais dois dias — disse alguém. — Depois
estará liquidado.
Frernad virou-se para o interlocutor e
levantou as mãos em sinal de concordância.
— Quando tivermos regressado à base,
cantarei de alegria — disse com um sorriso amargo.
A sala de comando da Frer LXXII era
pequena; só havia três homens no interior dela.
A tripulação da nave era composta de
dezoito homens.
Frernad esteve a ponto de dizer alguma coisa,
quando o homem que controlava o goniômetro começou a falar apressadamente:
— Um reflexo! — exclamou. — Ali...
Contrariado, Frernad interrompeu-o com um
gesto e aproximou-se do goniômetro. O homem que lhe falara apontou a mão rígida
para um ponto da tela em que uma mancha, de início grande e intensa, empalidecia
rapidamente. Frernad ficou perplexo.
— O que é isso? Apareceu sem mais
aquela... e agora não está mais lá?
O homem que lhe falara levantou as mãos.
Ia dizer alguma coisa. Mas no mesmo instante uma voz estranha e áspera falou
junto ao painel de controle.
— Não fiquem quebrando a cabeça, meus
chapas. Quem teve culpa do reflexo fui eu.
Viraram-se abruptamente e fitaram o homem
que, de uma hora para outra, se encontrava junto ao painel de instrumentos.
Nunca haviam visto uma pessoa como ele. Era grande — quase chegava a ser do
tamanho deles — mas sua pele era negra.
Quando percebeu o susto dos outros, riu e
mostrou uma fileira de dentes brancos. Usava um traje espacial de feitio
estranho e, enquanto falava, ficou com o capacete aberto. Falava um impecável
intercosmo, se bem que sua voz fosse estranhamente monótona.
Frernad registrou tudo isso como que por
acaso. A pergunta que mais o martirizava, e para a qual não encontrava
resposta, foi a seguinte: Como esse sujeito conseguiu entrar?
Frernad abriu a boca para formular a
pergunta, mas o homem de pele negra começou a mexer-se, e Frernad sentiu-se
fascinado pela segurança dos seus movimentos. Viu que, num movimento rápido, o
estranho enfiou a mão no bolso de seu traje espacial e tirou um objeto
esférico. Viu-o girar um parafuso ou uma chave que sobressaía da esfera. Depois
levantou o rosto e examinou cuidadosamente Frernad e seus companheiros.
— O que significa isso? — perguntou
Frernad depois de algum tempo. — Quem é você e o que...
Não conseguiu dizer mais nada. Com uma
rapidez que nunca antes conhecera, perdeu a consciência. Nem teve tempo para
perceber o que lhe fizera perder os sentidos. Também não pôde ver se os
companheiros tiveram o mesmo destino. Caiu.
Com um sorriso satisfeito, Ras Tchubai
olhou para os três homens inconscientes. Depois disso fechou o capacete do
traje espacial. Os filtros que trazia no nariz teriam sido suficientes para
continuar a protegê-lo do gás que saía da bomba esférica.
Tinha que contar com a possibilidade de
ter que enfrentar problemas se o gás não se espalhasse logo pela nave. Nesse
caso seria preferível estar pronto para entrar em ação.
Com o pé Ras Tschubai empurrou a esfera,
que colocara no chão, para junto do túnel de exaustão. A circulação
ininterrupta de ar que entrava e saía espalharia o gás incolor e inodoro,
carregando-o para toda a nave.
Ras Tschubai cumprira sua tarefa. A
tripulação da pequena nave ficaria inconsciente por quatro horas. Era um prazo
suficiente para fazer o que Rhodan pretendia.
Com um vigoroso telessalto, Ras voltou
para bordo da Stardust.
* * *
— Agora é sua vez, Gucky — disse Rhodan em
tom sério. — Pode levar suas coisas para lá.
Gucky acenou com a cabeça como se fosse um
ser humano. Por um instante fitou a tela na qual a nave dos saltadores se
desenhava sob a forma de um pontinho luminoso, junto a ela a Stardust se
deslocava a uma distância constante de trinta mil quilômetros. Depois voltou o
rosto para os objetos empilhados ao seu lado: armas, equipamentos,
minicomunicadores.
Com movimentos quase caminhou em direção à
pilha, elevou por via telecinética um pesado desintegrador, cravou os dedos na
embalagem, e teleportou-se.
Dentro de três minutos a pilha
desapareceu; foi teletransportada para a outra nave.
O rato-castor voltou mais uma vez.
Gucky contorceu o rosto e seu dente roedor
insinuou um sorriso.
— Já vou — disse em tom amável.
Rhodan acenou a cabeça e lançou mais um
olhar rápido para o equipamento espacial da pequena criatura. Foi um
equipamento fabricado especialmente para Gucky, o rato-castor.
— Está bem — concordou. — Faça um serviço
bem feito. De qualquer maneira temos de localizar Marshall e seus companheiros.
Queremos saber o que fizeram com os patriarcas. Além disso, queremos salvá-los.
Gucky não respondeu. Olhou fixamente para
a frente e dali a um instante desapareceu da mesma forma que pouco antes com
sua bagagem.
Reapareceu no corredor central da Frer
LXXII. Poucos minutos bastaram-lhe para que se certificasse de que a bomba de
gás de Ras Tschubai colocara toda a tripulação fora de combate; logo encontrou,
também, um lugar em que pudesse passar o tempo até que a nave pousasse no
planeta de Goszul. Era um cubículo situado no fim do corredor principal. Gucky
não tinha a menor idéia da sua finalidade.
Gucky guardou sua bagagem no interior do
cubículo, pegou a arma hipnótica que Rhodan lhe entregara e, com ela,
trabalhou, um por um, todos os tripulantes da nave de uma maneira tal que
garantiria a maior segurança possível a ele e à Stardust. Passou
sistematicamente por todos os compartimentos da nave.
Finalmente chegou à sala de comando.
Também Frernad e seus companheiros receberam instruções.
Depois disso, Gucky dedicou seu interesse
ao goniômetro, que continuava a funcionar. Viu o traço finíssimo que a antena
descrevia enquanto seu ângulo de giro abrangia todo o espaço. Não houve
qualquer reflexo. A Stardust e, mais além, os cruzadores pesados Centauro,
Terra e Solar System estavam invisíveis.
Na opinião de Rhodan, partilhada por
Gucky, nos últimos trinta minutos vários reflexos deviam ter surgido na tela.
Isso teria acontecido quando, por ocasião de um salto de teleportação, todos os
campos protetores da Stardust foram desativados por uma fração de segundo, a
fim de permitir a passagem do teleportador e dos objetos que o mesmo levava
consigo. Em parte os campos energéticos estavam estruturados de maneira a
funcionarem na quinta dimensão, motivo por que representavam uma barreira para
o teleportador, que se deslocava no espaço de cinco dimensões.
“Isso
representa um ponto fraco”, pensou Gucky. “Devemos descobrir um meio de manter a proteção contra o rastreamento
mesmo no instante em que um teleportador sai da nave.”
Razoavelmente satisfeito, voltou ao
esconderijo por ele escolhido, instalou-se confortavelmente entre sua bagagem e
aguardou os acontecimentos. Combinara com Rhodan que só enviaria uma mensagem
pelo microcomunicador quando alguma coisa não estivesse em ordem.
* * *
Os efeitos da bomba lançada por Ras
Tschubai cessaram com a mesma rapidez com que haviam começado.
Quatro horas depois do instante em que os
cabelos de Frernad se arrepiaram com o súbito aparecimento da estranha criatura
de pele negra aconteceu o seguinte na sala de comando da Frer LXXII:
Frernad levantou-se, juntamente com os
dois companheiros, tão depressa que parecia haver caído naquele instante. Não lançou
um único olhar em torno de si. Caminhou diretamente para o goniômetro e olhou
para a tela. No mesmo instante o homem que controlava o aparelho retornara ao
seu lugar diante da tela. O outro homem também voltou ao lugar em que se
encontrava antes que Tschubai aparecesse.
— ...e agora não está mais lá? — repetiu
no mesmo tom de surpresa as palavras que foram as últimas que pronunciara antes
do estranho incidente.
O homem sentado diante do goniômetro
levantou as mãos.
— O reflexo foi grande e nítido!
Frernad riu; parecia contrariado.
— Será que você já se deixa enganar por
uma simples interferência, Sifflon? Algum feixe de ondas sofreu uma interferência
eletromagnética e causou o reflexo. É só isso.
— Está bem — resmungou Sifflon
ligeiramente ofendido. — Nem afirmei que se tratasse de uma nave inimiga.
Frernad voltou ao painel de controle. O
outro homem, que acompanhara atentamente a troca de palavras, voltou a
dedicar-se à atividade que vinha desempenhando. Parecia entediado. Olhou
fixamente para a frente, aguardando o momento em que Frernad fosse revesado.
Ninguém guardara a menor lembrança do
estranho incidente com Ras Tschubai. E os cuidadosos impulsos hipnóticos de
Gucky corrigiram o erro originado no fato de que, desde o momento em que Ras
Tschubai saltara para o interior da nave, a Frer LXXII, deslocando-se a baixa
velocidade, penetrara uma boa distância no espaço.
Nem mesmo a bomba que Tschubai colocara
diante do canal de exaustão provocou a menor suspeita. O terceiro homem
descobriu-a quando por acaso lançou os olhos pela sala, pegou-a e mostrou-a a
Frernad. Este não soube o que fazer com ela.
— Jogue fora! — ordenou.
Gucky conseguiu mais uma coisa. Durante o
vôo nenhum dos tripulantes teve a idéia de abrir a porta do pequeno cubículo
situado no fim do corredor principal.
Cerca de dois dias depois disso, a Frer
LXXII alcançou o ponto de sua trajetória que ficava mais afastado do planeta de
Goszul e retornou. Por ocasião de sua visita à sala de comando, Gucky havia
lido as indicações dos instrumentos. Além disso, conseguia ler através das
paredes espessas do cubículo em que se encontrava os pensamentos dos homens,
não muito distantes.
Sabia que cerca de dez dias ainda se
passariam antes que pudesse sair da nave no planeta de Goszul.
2
Enquanto caminhavam em direção à cidade,
encontraram uma carroça puxada por animais semelhantes a cavalos.
Depois de terem tirado os trajes
transportadores, voltaram a envergar as vestimentas que usavam na nave de
Levtan para não despertar a atenção dos tripulantes. Pelo aspecto exterior,
praticamente não se distinguiam de qualquer das pessoas que se encontravam a
bordo da nave dos saltadores. Até mesmo as barbas, que os saltadores costumavam
usar, haviam crescido nesse meio tempo.
Ignorava-se se os habitantes daquela ilha
sabiam o que vinha a ser uma nave espacial. Geralmente alguém que anda em
navios a vela não tem a menor idéia do que seja uma nave espacial, e muito
menos saberá reconhecer um marinheiro espacial pelas roupas que usa.
— Temos que experimentar — disse Marshall.
— Não podemos ficar escondidos por toda a vida.
Continuaram tranqüilamente na sua
caminhada, enquanto a carroça sacolejante se aproximava pelo caminho que subia
suavemente.
Um único homem estava sentado na boléia, segurando
as rédeas à maneira de um camponês terrestre dos tempos antigos. Quando viu os
três estranhos, o homem sobressaltou-se, fez os animais pararem e protegeu os
olhos com a mão, para enxergar melhor.
Marshall e seus companheiros, que recebiam
pelas costas a luz forte da 221-Tatlira, viram como o homem se assustou.
“Tomara
que compreenda o intercosmo”, pensou Marshall. “Senão teremos que aprender sua língua.”
Pararam junto da carroça. O homem estava
tão assustado que nem teve coragem de se mexer. Continuava com a mão sobre os
olhos.
— Felicidade a cada dia que passa — disse
Marshall, proferindo o cumprimento mais corriqueiro dos saltadores.
O homem sentado em cima da carroça
arregalou os olhos. Com um movimento rápido baixou a mão. Dando um grande salto,
desceu da carroça, caiu de joelhos e ficou deitado, com a cabeça encostada ao
chão. Marshall ouviu que murmurava palavras incompreensíveis.
— Levante-se — pediu Marshall.
O homem obedeceu prontamente. A certeza de
que entendia o intercosmo deixou Marshall muito mais tranqüilo.
— Olhe para mim — prosseguiu Marshall.
O homem, que não era muito jovem, lançou
os olhos apavorados sobre Marshall.
— Como é seu nome? — indagou Marshall.
— Eu... euuu... — gaguejou o velho com a
voz rangedora — ...eu sou Vethussar Ologon, senhor.
— Queremos ir à cidade, Vethussar — disse
Marshall.
Vethussar inclinou-se.
— A cidade sentir-se-á honrada, ó
senhores, se quereis visitá-la, e muito mais honrado me sentirei eu se
permitirdes que vos ofereça minha carroça imunda.
Marshall olhou a carroça. Era um modelo de
limpeza.
— Permitimos — respondeu. — Ficamos muito
gratos pela oferta.
Vethussar ergueu as mãos.
— Não fale em gratidão, senhor. Sou vosso
servo.
O velho esperou até que Marshall e seus
companheiros subissem à carroça. Marshall não se apressou; aproveitou o tempo
para pesquisar os pensamentos de Vethussar. Até então não conseguira nada além
do susto enorme que o encontro causara no velho, e que expulsava todo e
qualquer pensamento consciente. Mas a mente começou a descontrair-se, e nela se
instalou a desconfiança misturada com a admiração.
“Será
que realmente são...?”, pensou Vethussar. “Existem mesmo... conforme dizem?”
O conceito que Marshall só conseguiu
captar vagamente, sem conseguir interpretá-lo, surgiu por duas vezes. Marshall
ficou quebrando a cabeça, enquanto Vethussar virou lentamente a carroça e
começou a descer em direção à cidade.
Depois de ter observado mais algumas vezes
o mesmo impulso nos pensamentos de Vethussar, Marshall chegou à conclusão de
que deveria traduzi-lo pela palavra deuses. Não encontrou nada que mais se
aproximasse do verdadeiro significado.
Marshall virou-se e informou os
companheiros. Falava em inglês e tinha certeza de que isso não provocaria a
menor desconfiança em Vethussar. Afinal os deuses deviam ter bastante
inteligência para dominar mais de uma língua.
Percebeu, porém, que Vethussar ficou
quebrando a cabeça sobre a língua estranha.
Aos poucos foram-se aproximando da cidade.
Nos últimos minutos Vethussar virara-se várias vezes, como se quisesse dizer
alguma coisa. Marshall percebeu o desejo de formular uma pergunta.
— Pode falar! — disse ao velho. — Qual é a
pergunta que quer fazer?
— Desculpe a curiosidade, senhor —
exclamou Vethussar — mas é a primeira vez que uma criatura miserável como eu
tem a felicidade de ver um deus. Já que são tão bondosos, gostaria de saber
como é a terra dos deuses.
Marshall sentiu-se perplexo com a rapidez
com que o ânimo do velho mudava do pavor paralisante e reverente para a
curiosidade indisfarçada. Devia ter uma enorme agilidade espiritual, ou não
estava acreditando...
— Quer saber de uma coisa, Vethussar? —
disse em tom de conversa. — Por lá a coisa não é muito diferente daqui. A grama
é verde, as folhas das árvores também e a água do mar é azul enquanto brilha o
sol. Acontece que por lá existem veículos muito mais rápidos que esta carroça,
e alguns deles podem voar pelos ares, e ainda existem outros com os quais se
pode viajar até as estrelas.
Vethussar parecia impressionado. Marshall
foi o único que percebeu o ligeiro impulso de desconfiança zombeteira que
surgiu nas camadas mais profundas de sua mente. E logo veio outra pergunta:
— Por que estão caminhando a pé, senhor?
Estas palavras foram pronunciadas com a
maior humildade.
“Seu
hipócrita”, pensou Marshall, divertido e zangado ao mesmo tempo, “você nunca acreditou nos deuses, e agora
você quer enganar um.”
Viu-se diante de uma decisão muito
importante. Poderia contar alguma desculpa, mas Vethussar não acreditaria numa
palavra. Por outro lado, poderia explicar-lhe que não eram melhores que ele
mesmo, e que dele se distinguiam apenas pela tecnologia mais desenvolvida, que
não transformava ninguém num deus.
Decidiu-se pela segunda alternativa.
— Pare um pouco, Vethussar! — ordenou.
Vethussar assustou-se. Parou os animais e
olhou para trás, assustado.
— Sim, senhor... o que...
Marshall apontou para a frente.
— Olhe aquela árvore! — disse.
Vethussar voltou a olhar para trás e fitou
a árvore. Marshall pegou a pequena arma de impulsos e, apontando ao lado do ombro
do velho, disparou um tiro para um dos galhos inferiores.
O galho soltou-se da árvore, caiu ao chão
e durante a queda transformou-se em fumaça e cinzas. Pequenas chamas surgiram
em meio ao capim, mas logo se apagaram na umidade do solo.
Vethussar tremia. Mas a aula de Marshall
ainda não estava concluída.
— Agora olhe para a esquerda, ali, onde o
caminho descreve uma curva.
Marshall deu uma cutucada em Tako Kakuta.
Este logo compreendeu do que se tratava. Efetuou um salto rápido, desaparecendo
de cima da carroça e surgindo no mesmo instante no ponto indicado, de onde os
cumprimentou com um gesto da mão.
Vethussar soltou um grunhido de pavor. Sem
que Marshall lhe pedisse, virou-se e, arregalando os olhos, descobriu que o
indivíduo que se encontrava lá adiante realmente era o mesmo que um instante
antes estivera sentado na carroça.
Dali a pouco Tako voltou, pela mesma forma
surpreendente pela qual saíra.
O suor porejava na testa de Vethussar.
Mas quando uma força estranha e invisível
agarrou-o, erguendo-o no ar e fazendo-o girar, pôs-se a gritar. Tama Yokida, o
telecineta, ergueu-o até a altura da copa da árvore, fez com que ele girasse
algumas vezes em torno de si mesmo e recolocou-o suavemente na carroça.
Choramingando e gemendo, Vethussar
encolheu-se. Marshall deixou-o à vontade por algum tempo. Depois levantou-o
pelo ombro e disse:
— Preste atenção, Vethussar!
Obediente, Vethussar parou de lamentar-se
e lançou um olhar de pavor para Marshall. Este prosseguiu:
— Não somos deuses, Vethussar. Não existe
nenhum deus além daquele que ninguém jamais viu. É o único e o onipotente, e
contra vontade dele nada acontece no mundo. Somos apenas gente, gente como
você, Vethussar, e os que vivem na cidade ou em qualquer outro lugar. Apenas
sabemos algumas coisas que você não sabe. Não tenha medo de nós. Pelo
contrário: poderá pedir-nos alguma coisa se nos levar até a cidade.
Dar-lhe-emos uma recompensa.
Sentiu que, embora hesitando, a mente do
velho começou a absorver suas palavras. Aos poucos ia acreditando nelas.
Por algum tempo Vethussar fitou Marshall.
Depois ergueu-se de vez, pegou as rédeas e pôs os animais em movimento.
Sacolejando, a carroça foi seguindo lentamente em direção à cidade.
— Teremos problemas — disse Marshall em
tom pensativo, falando em inglês. — Na cidade haverá um tumulto. Pensarão que
somos deuses. Vethussar desconfiou por causa de nossas vestimentas. Mas quando
usei o cumprimento dos saltadores, “Felicidades
a cada dia que passa”, que entre os habitantes da ilha é considerado um
cumprimento usado pelos deuses, não teve mais a menor dúvida. Poderemos evitar
esse cumprimento. Mas nossos trajes os deixarão desconfiados. Sou de opinião
que Vethussar deverá seguir na frente e arranjar roupas adequadas para nós.
Qualquer objeção?
Sacudiram a cabeça.
Marshall dirigiu-se a Vethussar e começou
a explicar-lhe seu plano.
— É bem verdade — disse ao concluir — que
não tenho dinheiro. Quem sabe se você aceitaria outra coisa?
Vethussar possuía um sentimento de
dignidade altamente desenvolvido. Marshall teve de esforçar-se bastante para
convencê-lo de que a oferta de pagamento não devia ser interpretada como uma
ofensa.
— No lugar de onde venho — explicou
Marshall — costumamos pagar pelas coisas que nos dão.
Quase reconciliado, Vethussar concordou.
— Aqui também é assim — confirmou. — Mas
não entre amigos.
Lendo seus pensamentos, Marshall descobriu
que suas palavras eram sinceras.
Sentira-se impressionado pela sinceridade
com que fora tratado. No momento era o aliado mais fiel que Marshall e seus
companheiros tinham no planeta de Goszul.
A cerca de um quilômetro do dique de terra
que cercava a cidade para o interior, Vethussar deixou a carroça com os amigos
recém-conquistados. Prometeu que voltaria antes do escurecer com roupas
adequadas.
* * *
Szoltan, o piloto da pequena nave auxiliar
que passara a última hora numa busca desesperada, compareceu perante a
assembléia dos patriarcas, ou melhor, daquilo que sobrara da mesma depois do
atentado.
— A busca não deu resultado. Captamos
alguns impulsos. Mas seu ponto de partida mudou várias vezes aos saltos. A
própria perseguição foi um problema. Finalmente deslocaram-se para o mar, e a
última coisa que captamos provinha de uma profundidade de dois mil metros.
Foi só o que Szoltan teve a dizer. Tinha
certeza de que em troca de tais informações não colheria elogios dos
patriarcas. Talvez seria mesmo transferido para...
Mas as especulações de Szoltan foram
infundadas. A resposta dos patriarcas foi imediata:
— Entregue o veículo ao seu companheiro e
siga para Saluntad, capital da ilha. Antes de penetrar na cidade, entre em
contato com nosso agente a-G-25, que lhe arranjará roupas locais, para que você
não desperte desconfiança no interior da cidade. Tenha cuidado, a-G-25 é o
único elemento de que dispomos em Saluntad. A população pertence às camadas
mais primitivas de Goszul. Supomos que os tripulantes da Lev XIV que
conseguiram escapar seguiram diretamente para a cidade, depois de se livrarem
dos instrumentos que poderiam traí-los, jogando-os ao mar. A-G-25 lhe prestará
todo auxílio. Goza de grande influência na cidade. Fim.
Szoltan respirou aliviado. Esperara coisa
pior.
Voou até as proximidades da cidade,
pousou, deixou a nave a cargo de seu companheiro e, antes que este decolasse,
mandou irradiar um chamado dirigido a a-G-25. O agente respondeu e foi
informado do lugar em que Szoltan se encontrava, recebendo instruções para
trazer-lhe roupas que não despertassem a atenção.
Depois disso, a nave decolou e afastou-se
em direção ao norte, ganhando altura. Szoltan esperou paciente. Dentro de uma
hora ou duas o sol se poria.
“Tomara
que a-G-25 não demore”, pensou.
* * *
As roupas trazidas por Vethussar se
pareciam com as que ele mesmo usava.
Uma camisa grosseira, amarrada na cintura
por uma espécie de cordel, uma calça de bombachas um pouco menor, amarrada na
altura dos tornozelos, um par de sandálias e uma manta sem mangas.
Apesar de sua simplicidade, as vestimentas
não pareciam pertencer a um homem pobre. Concluía-se que Vethussar não devia
ser pobre.
Vethussar ficou satisfeito com os agradecimentos
que os amigos lhe manifestaram. Com um sorriso disse:
— Trouxe mais uma coisa.
Pôs a mão no bolso largo da manta e tirou
um pequeno recipiente metálico.
— Vetro! — disse em tom de segredo.
Marshall apressou-se em descobrir o que
seria vetro. Mas Vethussar estava tão
concentrado na reação dos amigos que seus pensamentos não revelaram nada.
— É incrível — disse Marshall, aparentando
uma alegre surpresa. — Passe para cá, amigo.
Vethussar entregou-lhe o recipiente.
Marshall abriu-o e viu que seu conteúdo consistia num tipo de creme
avermelhado.
— Especialmente para você — disse
Vethussar. — É provável que ninguém desconfie dos outros.
No mesmo instante Marshall leu em seus
pensamentos do que se tratava. Vetro
era um corante da pele, que dava a tipos muito claros ou muito escuros a cor
avermelhada dos habitantes de Goszul. Pelo que se deduzia dos pensamentos de
Vethussar, o conteúdo daquele recipiente valia uma pequena fortuna.
Marshall agradeceu e pediu a Vethussar que
passasse o creme nos lugares de seu corpo que ficassem expostos, sempre ou de
vez em quando. Para andarem bem seguros, Yokida, Kakuta e Ishibashi
imitaram-no.
Quando o trabalho foi concluído, o sol
havia desaparecido. A escuridão irrompeu rapidamente. Subiram à carroça de
Vethussar e poucos minutos depois passaram pela abertura no dique que, por
assim dizer, representava o portão ocidental da cidade.
O nome da cidade era Saluntad. Se dali não
encontrassem um caminho que os levasse para o norte, por cima do mar, nunca
mais o encontrariam.
Só lhes restaria pôr suas esperanças nas
faculdades extraordinárias de Tako.
* * *
Sob um aspecto importante, Gucky
distinguia-se da maior parte dos seres humanos: era incapaz de sentir tédio.
Sua raça era dotada de um instinto lúdico
infalível, que não se comprazia tanto na brincadeira como tal, mas antes na
alegria provocada pelas aflições que a brincadeira coerente causava nos
parceiros inconscientes.
Tempos atrás a raça de Gucky causara um
grave perigo à tripulação da Stardust, porque o instinto lúdico inato à mesma
não conhecia medidas. Mais tarde essa falha foi suprida em Gucky através da
educação. Este já sabia até onde podia chegar com suas brincadeiras, inclusive
numa situação como a presente.
Cinco dos dez dias já se haviam passado.
A Frer LXXII retornava ao planeta de
Goszul a 98 por cento da velocidade da luz.
Recorrendo ao projetor hipnótico arcônida,
Gucky ordenou a um dos homens que se aproximara a menos de cinco metros do seu
cubículo que entrasse no mesmo. Por algum tempo divertiu-se com o rosto
desfigurado pelo pavor. Depois recorreu a um impulso hipnótico que o fez
esquecer o quadro e interrogou-o sobre as condições reinantes no planeta de
Goszul.
Dessa forma ligou o útil ao agradável.
Recolheu informações sobre o mundo em que teria de trabalhar e, no fim, ainda
teve o prazer de captar fragmentos de pensamentos que passaram pelo cérebro do
homem depois de este ter saído do cubículo, quando passou a discutir com os
outros tripulantes que quiseram saber por onde tinha andado por todo esse
tempo, enquanto ele mesmo afirmava que não saíra do lugar por um instante
sequer.
O comando hipnótico geral de não abrir a
porta do cubículo não foi afetado pela brincadeira de Gucky.
* * *
O papel que Vethussar desempenhava na
cidade tornou-se evidente quando ele convidou seus amigos a descerem da carroça
diante de sua casa.
Sob a luz de tochas crepitantes tiveram
oportunidade de admirar muitas fachadas, espantando-se pelo fato de que as
construções de Saluntad quase não diferiam daquelas que a cultura ocidental do
início do século XVII criara na Terra.
Mas a casa de Vethussar era uma exceção.
Na verdade não era uma casa. Era um palácio!

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