quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

P-035 - O Planeta dos Deuses - Kurt Mahr [parte 1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização E Revisão
ARLINDO_SAN

A vida no planeta de Goszul torna-se difícil
para os “deuses”, porque os mutantes de
Perry Rhodan estão trabalhando...


Foi no ano de 1971 que Perry Rhodan, então um oficial da Força Espacial dos Estados Unidos, chegou à Lua com o foguete Stardust e, recorrendo à tecnologia encontrada na nave arcônida que ali realizara um pouso de emergência, fundou a Terceira Potência.
Conflitos na Terra, invasões vindas do espaço, batalhas espaciais, combates em planetas distantes, a tudo isso a Terceira Potência resistiu galhardamente nos poucos anos de sua existência.
Agora os saltadores, representam um grave perigo para toda a Humanidade. Descendentes dos arcônidas, há oito milênios eles detêm o monopólio comercial irrestrito da galáxia, porque reprimem implacavelmente qualquer concorrência que se esboce.
Perry Rhodan tem feito tudo que está ao seu alcance para impedir que os saltadores transformem a Terra num mundo escravo. Levtan, o traidor, representou uma peça importante no jogo de Rhodan, pois só graças a ele tornou-se possível introduzir um grupo de agentes na Grande Conferência do Conselho dos Saltadores.
Esses homens, combatentes consagrados do Exército de Mutantes de Rhodan, vão parar no Planeta dos Deuses, depois de terem praticado um atentado contra a Conferência dos Saltadores...


= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi e Tama Yokida — membros do Exército de Mutantes, que pousaram como náufragos no planeta de Goszul.

Gucky — que mais uma vez faz o papel de viajante clandestino, tal qual no início de sua carreira.

Vethussar — um goszul que apóia os inimigos dos “deuses”.

Honbled — que sabe desempenhar o papel de sacerdote.

Etztak — um patriarca dos saltadores dado aos acessos de raiva.

Fafer — comandante do veleiro Storrata.

1



— Astronavegação ao comandante. Distância do alvo 205.1012 metros. Velocidade zero. Nenhum objeto no raio de alcance dos instrumentos de observação. Fim.
Sentado de costas para a mesa, Rhodan pôs a mão para trás e baixou a chave do pequeno receptor de intercomunicação.
Com um sorriso ligeiro e indiferente, olhou para as pessoas que estavam de pé diante dele: Thora, a arcônida, e Reginald Bell, co-piloto da Stardust.
— Quer dizer que chegamos — disse em tom indiferente. — Estamos a oito dias-luz de 221-Tatlira, fora do alcance dos instrumentos de localização dos saltadores.
A palavra-chave de Thora acabara de ser pronunciada. Zangada, adiantou-se um passo e dirigiu o brilho chamejante de seus estranhos olhos vermelhos sobre Rhodan.
— Estamos fora do alcance de seus instrumentos, sim — disse em tom de escárnio. — Acontece que para chegar até aqui tivemos de realizar duas transições. Será que os saltadores são tão idiotas que não notaram nada?
— Bell...
Rhodan virou ligeiramente a cabeça.
Bell sabia o que o amigo esperava dele. De maneira ostensiva ficou em posição de sentido e disse:
— Os localizadores da nave registram cinqüenta e cinco transições por hora, em média, naturalmente, num raio de 1015 metros. Provavelmente trata-se de naves dos saltadores que chegam ou partem da base dos saltadores situada em Tatlira II.
Rhodan voltou a cabeça.
— Então, Thora?
Thora não gostou de receber um tratamento professoral como este. Sua raiva cresceu.
— Sei o que está pensando — chiou. — Acredita que em meio a todas essas transições a sua nem foi notada. O que acontecerá, porém, se estiver enganado?
Rhodan deu de ombros.
— Nesse caso realizo uma transição rápida para trás e reapareço num lugar em que os saltadores nunca suspeitariam que eu estivesse.
Thora estendeu os braços.
— Por que não quer ouvir minha sugestão, Rhodan? — perguntou. Falava com a voz suplicante; o chiado de raiva havia desaparecido por completo. — Por que não vai a Árcon e pede socorro ao Grande Império?
Rhodan inclinou-se para a frente em sua poltrona. Inclinou-se tanto que suas mãos quase chegavam a tocar as de Thora, já que sua poltrona se encontrava numa posição mais elevada.
— Permita que lhe explique a situação mais uma vez, Thora. Através de um comandante rebelde dos saltadores ficamos sabendo da conferência dos patriarcas dos saltadores a ser realizada no segundo planeta do sol Tatlira, a mil e doze anos-luz da Terra. A presença do comandante dos saltadores permite-nos colocar nossos mutantes em Tatlira II, a fim de que, por meio de seus dons parapsicológicos, possam convencer os saltadores de que um ataque à Terra poderia representar a destruição final de sua raça.
“O êxito do plano é apenas parcial. Um dos patriarcas teve a idéia de realizar uma lavagem cerebral no comandante rebelde, cuja nave transportou nossos homens para Tatlira II. Sabemos que Marshall conseguiu impedir a lavagem cerebral, matando o saltador rebelde, e que a maioria dos patriarcas dos saltadores pereceu em virtude da explosão de uma bomba.
“Não sabemos até que ponto Kitai Ishibashi, o sugestor, conseguiu inocular na mente dos patriarcas a lenda de uma Terra armada até os dentes. Não temos tempo para voar a Árcon, gastar semanas em negociações com o Conselho e enfrentar a possibilidade de afinal não conseguirmos nada. Temos que ficar aqui para estabelecer contato ao menos com um dos mutantes.
“Sei perfeitamente que a senhora fez a sugestão a fim de ajudar a Terra, não para encontrar um meio de voltar à pátria. Mas não poderá deixar de reconhecer que simplesmente não temos tempo para aceitar a sugestão”.
Recolheu as mãos e levantou-se. Deu alguns passos ao acaso, parou de repente, virou-se e sorriu para Thora.
— Além disso — disse em tom suave — quatro dos meus homens se encontram em Tatlira II. Não deixarei que nenhum deles caia nas mãos do inimigo, a não ser que isso se torne absolutamente necessário. Nossa situação não é tão grave que tenhamos de abandonar nossa gente.

* * *

Tako Kakuta era um homem que possuía o dom parapsicológico da teleportação, que lhe permitia transportar-se, graças exclusivamente às forças de seu espírito, a qualquer ponto que escolhesse, desde que este não ficasse a mais de cinqüenta mil quilômetros e suas coordenadas geométricas fundamentais lhe fossem conhecidas. Naquele instante dedicava alguns palavrões à situação que o obrigava a usar esse dom.
Deslocava-se pouco acima do chão acidentado coberto de capim em direção à cidade em cujas proximidades haviam pousado. Estava invisível graças ao campo defletor produzido por um pequeno gerador embutido no traje espacial.
O grupo, formado pelo próprio Tako Kakuta, por John Marshall, o telepata, por Kitai Ishibashi, o sugestor, e por Tama Yokida, o telecineta, começara a contar aos participantes da Grande Conferência dos Patriarcas dos Saltadores algumas lendas sobre os armamentos de que dispunha a Terra, mas o velho Etztak lhes atrapalhara o serviço. Mataram Levtan, o saltador rebelde que procurava recuperar sua reputação entre os saltadores; mataram, ainda, a maior parte dos patriarcas, mas depois disso tiveram de fugir.
Depois de passarem por cima da superfície infindável de um grande mar vieram pousar naquela ilha, onde o tempo parecia ter parado. A cidade que se encontrava diante deles, a menos de dez quilômetros de distância, era composta de casas estreitas e altas, de paredes entremeadas de madeira. Estavam tão próximas umas às outras que não devia haver ruas, ou então as mesmas eram muito estreitas.
A cidade ficava junto ao mar e dispunha de um porto natural. E o que havia nesse porto?
Navios a vela!
Navios a vela de todos os tipos e tamanhos, mas nenhum deles era mais moderno que os produzidos pela tecnologia terrestre do início do século XVIII.
E isso acontecia num mundo que os saltadores consideravam sua propriedade particular, e no qual se haviam reunido numa conferência muito importante.
Acontecia no planeta de Goszul.
Tako Kakuta regulou a velocidade com a qual se aproximava da cidade. Preferia não pousar no porto enquanto não estivesse familiarizado com a disposição geral da cidade.
Encontrava-se a cerca de cinco quilômetros dos limites ocidentais da cidade. O pequeno neutralizador gravitacional mantinha-o numa altitude constante de cinco metros acima do solo.
O terreno descia suavemente em direção à cidade. Era um terreno não cultivado, coberto de capim, com elevações que chegavam a um metro de altura. Tako concentrou sua atenção exclusivamente sobre a cidade. Por isso não percebeu a sombra cinzenta que corria pelo ar.
O objeto que produzia a sombra encontrava-se a cerca de quinhentos metros de altura, desenvolvendo uma velocidade extraordinária. Seu formato era circular e, quem o observasse por ocasião da curva que descreveu cerca de dez quilômetros a oeste da cidade, notaria sua semelhança com uma lentilha.
Voltou em direção à cidade, perdeu altitude, reduziu a velocidade e produziu um leve chiado.
Esse chiado foi o primeiro sinal de perigo que chegou ao conhecimento de Tako. Virou-se e descobriu o veículo em forma de lentilha, poucas centenas de metros atrás dele.
Sabia que era uma nave auxiliar do tipo daquelas que as grandes naves dos saltadores trazem a bordo às dezenas ou mesmo às centenas. Seu primeiro impulso foi no sentido de descer ao solo e procurar um abrigo.
Mas que abrigo, pensou, poderia ser melhor que a invisibilidade proporcionada pelo campo defletor?
Freou e imobilizou-se no ar. A nave auxiliar foi se aproximando. Não se deslocava em linha reta, mas numa espécie de ziguezague, como se estivesse procurando alguma coisa.
O susto gelou o corpo de Tako.
Se procuravam alguma coisa em cima dessa área desolada, essa coisa não poderia ser outra senão ele mesmo.
No mesmo instante em que Tako reconheceu o perigo, este começou a concretizar-se. O piloto da nave auxiliar e seus companheiros pareciam saber muito bem onde estava seu alvo. Num ponto que correspondia aproximadamente a linha equatorial surgiu um feixe concentrado de raios energéticos verde-pálidos.
O raio passou a menos de cinco metros de Tako, alcançou o solo mais adiante e atirou para o alto o capim que se encontrava na área de combustão, reduzindo-o a uma nuvem de gases turbilhonantes.
Tako reagiu imediatamente e pela única forma possível. Rememorou o lugar em que Marshall, Ishibashi e Yokida o esperavam, procurando fixá-lo com a maior precisão de que era capaz. Depois retornou a esse lugar num salto de teleportação que não fora preparado com muito cuidado.
Uma fração de segundo depois disso um segundo tiro de radiações passou pelo lugar em que Tako estivera.
Uma vez que não tivera tempo para concentrar-se, Tako pousou a uns duzentos metros do lugar em que o grupo havia montado um acampamento provisório. O terreno era acidentado. Parecia uma grande cadeia de montanhas que alguém tivesse coberto de terra, deixando de fora apenas os cumes mais altos. Em meio ao solo coberto de capim erguiam-se rochas íngremes que chegavam a atingir cem metros de altura. A poeira, a areia tangida pelo vento e as sementes de capim tiveram muito trabalho em fixar-se nas encostas íngremes. Mas no curso dos milênios o conseguiram. Nas encostas tocadas pelo vento durante a maior parte dos dias do ano de Goszul os flancos eram mais suaves e cobertos de espessa vegetação. No lado oposto a encosta era quase vertical, caindo perigosamente do cume ao pé do monte.
Logo após o pouso o grupo descobrira uma ampla caverna na face ocidental de um dos morros mais altos. Abrigaram-se no interior dela. Foi dali que Tako partiu meia hora antes para dar uma olhada na cidade.
Assim que se materializou, lançou um olhar para o alto. Não viu o veículo em forma de lentilha.
A esta hora devem estar quebrando a cabeça sobre como alguém pode desaparecer tão depressa”, pensou Tako contrariado.
Ainda não se dera conta de que não sabia explicar como os saltadores haviam conseguido localizar uma pessoa como ele, invisível.
Tako procurou concentrar-se no nome de Marshall. Tinha certeza de que dessa forma Marshall, o telepata, o compreenderia à distância de duzentos metros que ainda os separava. Depois disso esforçou-se para pensar no incidente que acabara de ocorrer. No momento o maior perigo era o de que alguém saísse da caverna, fornecendo um alvo a algum veículo espacial dos saltadores que estivesse cruzando em regiões mais elevadas.
Marshall não deixaria de prevenir os outros.
Tako voou até a caverna. Antes de entrar lançou os olhos em redor. Não viu a nave auxiliar dos saltadores. Mas por enquanto Tako não via nisso um motivo para concluir que haviam perdido sua pista.
Entrou na caverna, desativou o campo defletor e informou os companheiros sobre o que acabara de ocorrer. Viu o pavor desenhado no rosto dos três e acrescentou:
— Talvez tudo isso não passe de uma coincidência.
Marshall sorriu.
— Muito obrigado pelo tranqüilizante, Tako — disse. Abanou a cabeça. — É claro que não foi nenhuma coincidência. Já receava que os saltadores pudessem estar em condições de realizar a localização goniométrica dos nossos trajes. Estes contêm um gerador destinado à produção do campo defletor, um gerador antigravitacional e um gerador que ativa o campo protetor, que nos resguarda contra as balas. O conjunto desses aparelhos produz uma quantidade apreciável de radiações disseminadas, e não deve ser difícil medi-las e determinar o ponto em que se originam.
— Se minha suposição for correta, nossos trajes espaciais não servem de mais nada. Pelo contrário: atraem os saltadores. Precisamos...
— Acontece que não sabemos a que distância conseguem localizá-los — objetou Yokida em tom exaltado. — Se só conseguirem nos localizar a uma distância de cem metros, com esses trajes, que afinal têm os campos defensivos, estamos melhores que sem eles.
Marshall ergueu as sobrancelhas.
— Se...! — respondeu Marshall em tom enfático. — Acontece que não sabemos. É possível que consigam nos localizar a cem quilômetros de distância.
Abanou a cabeça e olhou fixamente para a frente.
— Não — murmurou. — Receio que tenhamos que nos desfazer dos trajes. E...
Subitamente levantou a cabeça e olhou para o alto. Yokida esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas Marshall o repeliu com um sinal enérgico.
— Fique quieto!
Dali a dois segundos levantou-se.
— Estão em cima de nós — disse com a maior tranqüilidade. — E estão bem perto. Quase chego a identificar seus pensamentos um por um. Conhecem o ponto em que nos encontramos com uma precisão de vinte metros. Vamos logo! Tirem os trajes espaciais!
Tako tirou o traje e correu em direção à entrada da caverna. Sem pôr a cabeça para fora, viu a nave auxiliar que deslizava metros acima do solo.
No mesmo instante Tako concebeu seu plano.
Voltou ao interior da caverna.
— Entreguem-me seus trajes! — disse em tom enérgico.
Os companheiros arregalaram os olhos.
— Vamos logo! Não façam perguntas. Levantaram os trajes e colocaram-nos sobre os braços estendidos de Tako. Este teve que carregar o peso considerável daqueles conjuntos. Todos os aparelhos estavam desligados. No momento não havia praticamente nenhum impulso que pudesse ser captado pelos saltadores.
— Esperem por aqui! — ordenou Tako. — Eu os levarei a uma pista falsa.
Marshall exclamou.
— Não faça isso! É muito perigoso. Você não vai...
Tako já tinha desaparecido.
Quando voltou a materializar apenas pôde avaliar a distância que o separava da caverna. Não tinha a menor idéia da direção. O salto fora muito rápido.
Perdera de vista a nave auxiliar dos saltadores.
Pousara a poucos metros de uma rocha, e apressou-se em abrigar-se atrás da ponta esguia da mesma. Pôs no chão os pesados trajes, vestiu o que pertencia a ele e ligou todos os geradores.
Depois pôs-se a esperar.
* * *

No interior da caverna Marshall ocupara o lugar de observador. Deitado junto à entrada, observava atentamente a nave dos saltadores.
— Não se movem — disse. — Se tivéssemos armas mais potentes que estes pequenos radiadores de impulsos, poderíamos derrubá-los.
— Se nos uníssemos todos... — sugeriu Ishibashi; mas no mesmo instante Marshall exclamou:
— Estão indo embora!
Ishibashi e Yokida aproximaram-se da entrada. Viram a nave auxiliar ganhar velocidade, desaparecendo no rumo sudoeste, onde ficava o mar.
— Isso foi obra de Tako! — disse Marshall admirado.

* * *

Tako Kakuta viu a nave chegar.
Voava pouco acima do solo, descrevendo a mesma rota em ziguezague que há pouco observara. Os goniômetros utilizados pelos saltadores para localizar a fonte das radiações não deviam ser de muita precisão.
Tako esperou até que a nave começou a contornar a rocha.
Só então saltou.
Não percorreu mais de cem metros.
O piloto parecia irritado. Descreveu alguns círculos em torno da rocha, mas não notou os três trajes espaciais que Tako escondera cuidadosamente. Não deixou de notar, porém, as radiações emitidas pelo traje de Tako.
A nave desistiu de descrever círculos e voltou a aproximar-se. Mais uma vez Tako esperou até que se aproximasse a uma distância que quase chegava a ser crítica. Depois voltou a saltar. Desta vez executou um salto de duzentos metros.
Tinha certeza de que o campo protetor do traje seria capaz de absorver qualquer tiro disparado pela nave. Mas também tinha certeza de que para isso consumiria uma quantidade de energia maior que a produzida por seu próprio gerador. E o excedente seria retirado do campo defletor, fazendo com que Tako se tornasse visível. E isso Tako pretendia evitar, inclusive para defender sua integridade física. Um dispositivo de mira automática possibilitaria a fixação indefinida de qualquer alvo, desde que este tivesse sido claramente determinado. Se necessário, a fixação poderia perdurar até que o inimigo conseguisse trazer armas pesadas, que acabariam rompendo o campo protetor.
Desta vez a reação do piloto dos saltadores foi diferente. Assim que seus goniômetros captaram o novo sinal, desistiu da busca no local antigo e aproximou-se imediatamente.
Tako executou um salto de quinhentos metros, que o levou até a costa. A nave dos saltadores seguiu-o docilmente.
Sob a proteção de um rochedo tirou o traje espacial, mas deixou que os geradores continuassem a funcionar, para que os impulsos captados pela nave dos saltadores não diminuíssem em intensidade.
Depois executou um último salto, bem maior, que o levou alguns quilômetros mar afora, com o traje sobre os braços.
Rematerializou cinqüenta centímetros acima da superfície da água, deixou-se cair e soltou o traje no mesmo instante em que seu corpo tocou a água. Enquanto boiava, viu que o objeto branco afundava devagar.
Saltou de volta para o lugar em que escondera os outros trajes. Completou o serviço, cobrindo os mesmos com grandes blocos de pedra, até que tivesse certeza de que ninguém os encontraria, ainda mais que os impulsos dos geradores, desligados há quinze minutos, iam diminuindo progressivamente, e não poderiam fornecer mais qualquer indicação aos saltadores.
Executou outro salto que o trouxe a uma distância de quinhentos metros da caverna, e outro que o colocou em meio aos companheiros.
— Tudo em ordem — disse com um sorriso. — A esta hora devem dar tratos à bola para descobrir o que estamos fazendo no fundo do mar.
Relatou em frases lacônicas o que acabara de fazer. Marshall deu-lhe uma palmadinha no ombro.
— Muito obrigado, Tako — disse em tom objetivo.
Tako deu de ombros.
— Não há por quê. O que vamos fazer? Marshall apontou para a entrada da caverna.
— Seguiremos a pé — sugeriu. — Vamos à cidade. Não queremos ficar para sempre neste mundo estranho.
Ninguém se opôs.

* * *

No dia 27 de dezembro do calendário terrestre, às 17:21 h, hora de Terrânia, um feixe de raios do localizador da Stardust, que girava ininterruptamente, atingiu, junto ao limite do seu alcance, um objeto metálico; foi refletido pelo mesmo e desenhou um ponto verde na tela.
Por ordem de Perry Rhodan, o dispositivo automático de observação havia sido colocado em estado de prontidão permanente. Uma fração de segundo depois do surgimento do ponto verde, desencadeou o alarma número III.
Rhodan, que se encontrava na sala de comando, foi avisado imediatamente. Manteve-se em contato com o posto de observação e acompanhou a identificação do objeto.
— Distância 7,1010 metros. Velocidade 1,9.108 m/seg. Componente de deslocamento em nossa direção...
E alguns segundos depois:
— As dimensões do objeto não ultrapassam cem metros...
Dali a mais alguns segundos:
— Trata-se de um objeto cilíndrico. Comprimento oitenta metros, diâmetro cerca de dez metros.
E finalmente:
— Os movimentos do objeto estão sendo controlados. Trata-se de um veículo espacial.
Rhodan acenou com a cabeça. A direção de que vinha o objeto dizia tudo. Vinha diretamente de 221-Tatlira.
Era uma nave dos saltadores vinda das profundezas do espaço.
Rhodan chamou os postos de defesa.
— Como está a proteção contra o rastreamento?
— Em perfeito estado. Se não fosse assim, já nos teriam localizado. Em nossa nave os impulsos estão sendo recebidos ininterruptamente.
A proteção contra o rastreamento que envolvia a Stardust era um dispositivo novo e muito eficiente. Impedia o reflexo de feixes de ondas até uma intensidade bastante considerável. Só acima desse limite havia um reflexo insignificante, que causava no inimigo a impressão de ter diante de si um objeto que se encontrava a vários milhões de quilômetros, quando na verdade já se aproximara a algumas centenas de milhares de quilômetros.
Quando a nave desconhecida havia se aproximado a uma distância de 109 metros (um milhão de quilômetros), Rhodan ordenou o alarma número II, e movimentou a Stardust sob a proteção do campo anti-rastreação.
Durante a manobra, que em parte foi executada pelo sistema de pilotagem automática, pediu que dois de seus colaboradores, Ras Tschubai e Gucky, comparecessem à sala de comando.
Tschubai veio pelo caminho mais curto. Era teleportador, tal qual Tako Kakuta, e de uma hora para outra encontrava-se no interior da sala de comando.
Poucos segundos depois surgiu Gucky, o mutante mais competente do Exército de Mutantes de Rhodan. Gucky entrou pela escotilha, depois que lá fora se erguera sobre as pernas traseiras, apertara o botão que anunciava sua presença e esperara que Rhodan acionasse o dispositivo que deixava aberta a entrada.
Para Gucky, um salto de teleportação que o transportasse de um convés para outro da gigantesca nave não representava qualquer problema. Em compensação ainda não se familiarizara com a arte de deslocar-se como um ser humano o bastante para sentir-se satisfeito.
Gucky parecia o resultado do cruzamento de um rato com um castor. Coberto de pêlo vermelho, tinha um metro de comprimento, incluído o toco de rabo. Era membro de uma raça originariamente dotada apenas de inteligência mediana, formada de telecinetas naturais que habitavam o planeta Vagabundo, ao qual Rhodan já fizera uma visita. Gucky uniu-se ao grupo de Rhodan. Um programa de treinamento, adaptado especialmente à sua inteligência, então ainda bastante reduzida, despertou não só o setor inexplorado de sua inteligência consciente, mas também vários dons paranormais. Gucky transformou-se num telepata e teleportador. Dominava várias línguas terrestres e pertencia ao oficialato da Terceira Potência.
Muita gente acreditava que Gucky era um esquisitão, e que a concessão da patente a um ser como ele fora um erro. Mas Gucky soube convencer todos sem muita demora de que não era apenas um excelente mutante, mas também um estrategista dotado de inteligência extraordinária.
Rhodan cumprimentou-o com um sorriso. Depois que a escotilha se fechou, disse:
— Tenho algumas instruções para os dois. Dizem respeito à nave inimiga que se encontra ali.

* * *
O pequeno veículo espacial era uma nave de reconhecimento. Só dispunha de armamento leve, mas em compensação sua aceleração e maneabilidade eram consideráveis.
O comandante do veículo era Frernad, membro do poderoso clã dos Frers. Sua nave era a Frer LXXII. Para Frernad esse número elevado tinha um aspecto horrível, pois os veículos de cada clã são numerados na ordem decrescente do tamanho, do que resultava claramente que a Frer LXXII era uma das menores.
Foi graças ao velho Etztak que Frernad teve de cumprir a missão de penetrar no espaço numa distância de dez dias-luz, à procura de eventuais inimigos. Etztak se defrontara, num mundo distante, com os inimigos de que ora se tratava, e por isso sofria, na opinião de Frernad, de um complexo de prudência.
Frernad detestava a missão que lhe fora confiada. Todavia, executou-a com o maior cuidado. Os raios dos goniômetros giravam ininterruptamente, mas até então não havia registrado nada, além de alguns fragmentos de rocha que se deslocavam lentamente pelo espaço.
Com os olhos cansados, Frernad examinou o pequeno instrumento que, com base no consumo de energia, registrava a distância do ponto de decolagem, e cujo mostrador luminoso caminhava lentamente em direção à marca dos dez dias-luz.
— Mais dois dias — disse alguém. — Depois estará liquidado.
Frernad virou-se para o interlocutor e levantou as mãos em sinal de concordância.
— Quando tivermos regressado à base, cantarei de alegria — disse com um sorriso amargo.
A sala de comando da Frer LXXII era pequena; só havia três homens no interior dela.
A tripulação da nave era composta de dezoito homens.
Frernad esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando o homem que controlava o goniômetro começou a falar apressadamente:
— Um reflexo! — exclamou. — Ali...
Contrariado, Frernad interrompeu-o com um gesto e aproximou-se do goniômetro. O homem que lhe falara apontou a mão rígida para um ponto da tela em que uma mancha, de início grande e intensa, empalidecia rapidamente. Frernad ficou perplexo.
— O que é isso? Apareceu sem mais aquela... e agora não está mais lá?
O homem que lhe falara levantou as mãos. Ia dizer alguma coisa. Mas no mesmo instante uma voz estranha e áspera falou junto ao painel de controle.
— Não fiquem quebrando a cabeça, meus chapas. Quem teve culpa do reflexo fui eu.
Viraram-se abruptamente e fitaram o homem que, de uma hora para outra, se encontrava junto ao painel de instrumentos. Nunca haviam visto uma pessoa como ele. Era grande — quase chegava a ser do tamanho deles — mas sua pele era negra.
Quando percebeu o susto dos outros, riu e mostrou uma fileira de dentes brancos. Usava um traje espacial de feitio estranho e, enquanto falava, ficou com o capacete aberto. Falava um impecável intercosmo, se bem que sua voz fosse estranhamente monótona.
Frernad registrou tudo isso como que por acaso. A pergunta que mais o martirizava, e para a qual não encontrava resposta, foi a seguinte: Como esse sujeito conseguiu entrar?
Frernad abriu a boca para formular a pergunta, mas o homem de pele negra começou a mexer-se, e Frernad sentiu-se fascinado pela segurança dos seus movimentos. Viu que, num movimento rápido, o estranho enfiou a mão no bolso de seu traje espacial e tirou um objeto esférico. Viu-o girar um parafuso ou uma chave que sobressaía da esfera. Depois levantou o rosto e examinou cuidadosamente Frernad e seus companheiros.
— O que significa isso? — perguntou Frernad depois de algum tempo. — Quem é você e o que...
Não conseguiu dizer mais nada. Com uma rapidez que nunca antes conhecera, perdeu a consciência. Nem teve tempo para perceber o que lhe fizera perder os sentidos. Também não pôde ver se os companheiros tiveram o mesmo destino. Caiu.
Com um sorriso satisfeito, Ras Tchubai olhou para os três homens inconscientes. Depois disso fechou o capacete do traje espacial. Os filtros que trazia no nariz teriam sido suficientes para continuar a protegê-lo do gás que saía da bomba esférica.
Tinha que contar com a possibilidade de ter que enfrentar problemas se o gás não se espalhasse logo pela nave. Nesse caso seria preferível estar pronto para entrar em ação.
Com o pé Ras Tschubai empurrou a esfera, que colocara no chão, para junto do túnel de exaustão. A circulação ininterrupta de ar que entrava e saía espalharia o gás incolor e inodoro, carregando-o para toda a nave.
Ras Tschubai cumprira sua tarefa. A tripulação da pequena nave ficaria inconsciente por quatro horas. Era um prazo suficiente para fazer o que Rhodan pretendia.
Com um vigoroso telessalto, Ras voltou para bordo da Stardust.

* * *

— Agora é sua vez, Gucky — disse Rhodan em tom sério. — Pode levar suas coisas para lá.
Gucky acenou com a cabeça como se fosse um ser humano. Por um instante fitou a tela na qual a nave dos saltadores se desenhava sob a forma de um pontinho luminoso, junto a ela a Stardust se deslocava a uma distância constante de trinta mil quilômetros. Depois voltou o rosto para os objetos empilhados ao seu lado: armas, equipamentos, minicomunicadores.
Com movimentos quase caminhou em direção à pilha, elevou por via telecinética um pesado desintegrador, cravou os dedos na embalagem, e teleportou-se.
Dentro de três minutos a pilha desapareceu; foi teletransportada para a outra nave.
O rato-castor voltou mais uma vez.
Gucky contorceu o rosto e seu dente roedor insinuou um sorriso.
— Já vou — disse em tom amável.
Rhodan acenou a cabeça e lançou mais um olhar rápido para o equipamento espacial da pequena criatura. Foi um equipamento fabricado especialmente para Gucky, o rato-castor.
— Está bem — concordou. — Faça um serviço bem feito. De qualquer maneira temos de localizar Marshall e seus companheiros. Queremos saber o que fizeram com os patriarcas. Além disso, queremos salvá-los.
Gucky não respondeu. Olhou fixamente para a frente e dali a um instante desapareceu da mesma forma que pouco antes com sua bagagem.
Reapareceu no corredor central da Frer LXXII. Poucos minutos bastaram-lhe para que se certificasse de que a bomba de gás de Ras Tschubai colocara toda a tripulação fora de combate; logo encontrou, também, um lugar em que pudesse passar o tempo até que a nave pousasse no planeta de Goszul. Era um cubículo situado no fim do corredor principal. Gucky não tinha a menor idéia da sua finalidade.
Gucky guardou sua bagagem no interior do cubículo, pegou a arma hipnótica que Rhodan lhe entregara e, com ela, trabalhou, um por um, todos os tripulantes da nave de uma maneira tal que garantiria a maior segurança possível a ele e à Stardust. Passou sistematicamente por todos os compartimentos da nave.
Finalmente chegou à sala de comando. Também Frernad e seus companheiros receberam instruções.
Depois disso, Gucky dedicou seu interesse ao goniômetro, que continuava a funcionar. Viu o traço finíssimo que a antena descrevia enquanto seu ângulo de giro abrangia todo o espaço. Não houve qualquer reflexo. A Stardust e, mais além, os cruzadores pesados Centauro, Terra e Solar System estavam invisíveis.
Na opinião de Rhodan, partilhada por Gucky, nos últimos trinta minutos vários reflexos deviam ter surgido na tela. Isso teria acontecido quando, por ocasião de um salto de teleportação, todos os campos protetores da Stardust foram desativados por uma fração de segundo, a fim de permitir a passagem do teleportador e dos objetos que o mesmo levava consigo. Em parte os campos energéticos estavam estruturados de maneira a funcionarem na quinta dimensão, motivo por que representavam uma barreira para o teleportador, que se deslocava no espaço de cinco dimensões.
Isso representa um ponto fraco”, pensou Gucky. “Devemos descobrir um meio de manter a proteção contra o rastreamento mesmo no instante em que um teleportador sai da nave.
Razoavelmente satisfeito, voltou ao esconderijo por ele escolhido, instalou-se confortavelmente entre sua bagagem e aguardou os acontecimentos. Combinara com Rhodan que só enviaria uma mensagem pelo microcomunicador quando alguma coisa não estivesse em ordem.

* * *

Os efeitos da bomba lançada por Ras Tschubai cessaram com a mesma rapidez com que haviam começado.
Quatro horas depois do instante em que os cabelos de Frernad se arrepiaram com o súbito aparecimento da estranha criatura de pele negra aconteceu o seguinte na sala de comando da Frer LXXII:
Frernad levantou-se, juntamente com os dois companheiros, tão depressa que parecia haver caído naquele instante. Não lançou um único olhar em torno de si. Caminhou diretamente para o goniômetro e olhou para a tela. No mesmo instante o homem que controlava o aparelho retornara ao seu lugar diante da tela. O outro homem também voltou ao lugar em que se encontrava antes que Tschubai aparecesse.
— ...e agora não está mais lá? — repetiu no mesmo tom de surpresa as palavras que foram as últimas que pronunciara antes do estranho incidente.
O homem sentado diante do goniômetro levantou as mãos.
— O reflexo foi grande e nítido!
Frernad riu; parecia contrariado.
— Será que você já se deixa enganar por uma simples interferência, Sifflon? Algum feixe de ondas sofreu uma interferência eletromagnética e causou o reflexo. É só isso.
— Está bem — resmungou Sifflon ligeiramente ofendido. — Nem afirmei que se tratasse de uma nave inimiga.
Frernad voltou ao painel de controle. O outro homem, que acompanhara atentamente a troca de palavras, voltou a dedicar-se à atividade que vinha desempenhando. Parecia entediado. Olhou fixamente para a frente, aguardando o momento em que Frernad fosse revesado.
Ninguém guardara a menor lembrança do estranho incidente com Ras Tschubai. E os cuidadosos impulsos hipnóticos de Gucky corrigiram o erro originado no fato de que, desde o momento em que Ras Tschubai saltara para o interior da nave, a Frer LXXII, deslocando-se a baixa velocidade, penetrara uma boa distância no espaço.
Nem mesmo a bomba que Tschubai colocara diante do canal de exaustão provocou a menor suspeita. O terceiro homem descobriu-a quando por acaso lançou os olhos pela sala, pegou-a e mostrou-a a Frernad. Este não soube o que fazer com ela.
— Jogue fora! — ordenou.
Gucky conseguiu mais uma coisa. Durante o vôo nenhum dos tripulantes teve a idéia de abrir a porta do pequeno cubículo situado no fim do corredor principal.
Cerca de dois dias depois disso, a Frer LXXII alcançou o ponto de sua trajetória que ficava mais afastado do planeta de Goszul e retornou. Por ocasião de sua visita à sala de comando, Gucky havia lido as indicações dos instrumentos. Além disso, conseguia ler através das paredes espessas do cubículo em que se encontrava os pensamentos dos homens, não muito distantes.
Sabia que cerca de dez dias ainda se passariam antes que pudesse sair da nave no planeta de Goszul.

2



Enquanto caminhavam em direção à cidade, encontraram uma carroça puxada por animais semelhantes a cavalos.
Depois de terem tirado os trajes transportadores, voltaram a envergar as vestimentas que usavam na nave de Levtan para não despertar a atenção dos tripulantes. Pelo aspecto exterior, praticamente não se distinguiam de qualquer das pessoas que se encontravam a bordo da nave dos saltadores. Até mesmo as barbas, que os saltadores costumavam usar, haviam crescido nesse meio tempo.
Ignorava-se se os habitantes daquela ilha sabiam o que vinha a ser uma nave espacial. Geralmente alguém que anda em navios a vela não tem a menor idéia do que seja uma nave espacial, e muito menos saberá reconhecer um marinheiro espacial pelas roupas que usa.
— Temos que experimentar — disse Marshall. — Não podemos ficar escondidos por toda a vida.
Continuaram tranqüilamente na sua caminhada, enquanto a carroça sacolejante se aproximava pelo caminho que subia suavemente.
Um único homem estava sentado na boléia, segurando as rédeas à maneira de um camponês terrestre dos tempos antigos. Quando viu os três estranhos, o homem sobressaltou-se, fez os animais pararem e protegeu os olhos com a mão, para enxergar melhor.
Marshall e seus companheiros, que recebiam pelas costas a luz forte da 221-Tatlira, viram como o homem se assustou.
Tomara que compreenda o intercosmo”, pensou Marshall. “Senão teremos que aprender sua língua.”
Pararam junto da carroça. O homem estava tão assustado que nem teve coragem de se mexer. Continuava com a mão sobre os olhos.
— Felicidade a cada dia que passa — disse Marshall, proferindo o cumprimento mais corriqueiro dos saltadores.
O homem sentado em cima da carroça arregalou os olhos. Com um movimento rápido baixou a mão. Dando um grande salto, desceu da carroça, caiu de joelhos e ficou deitado, com a cabeça encostada ao chão. Marshall ouviu que murmurava palavras incompreensíveis.
— Levante-se — pediu Marshall.
O homem obedeceu prontamente. A certeza de que entendia o intercosmo deixou Marshall muito mais tranqüilo.
— Olhe para mim — prosseguiu Marshall.
O homem, que não era muito jovem, lançou os olhos apavorados sobre Marshall.
— Como é seu nome? — indagou Marshall.
— Eu... euuu... — gaguejou o velho com a voz rangedora — ...eu sou Vethussar Ologon, senhor.
— Queremos ir à cidade, Vethussar — disse Marshall.
Vethussar inclinou-se.
— A cidade sentir-se-á honrada, ó senhores, se quereis visitá-la, e muito mais honrado me sentirei eu se permitirdes que vos ofereça minha carroça imunda.
Marshall olhou a carroça. Era um modelo de limpeza.
— Permitimos — respondeu. — Ficamos muito gratos pela oferta.
Vethussar ergueu as mãos.
— Não fale em gratidão, senhor. Sou vosso servo.
O velho esperou até que Marshall e seus companheiros subissem à carroça. Marshall não se apressou; aproveitou o tempo para pesquisar os pensamentos de Vethussar. Até então não conseguira nada além do susto enorme que o encontro causara no velho, e que expulsava todo e qualquer pensamento consciente. Mas a mente começou a descontrair-se, e nela se instalou a desconfiança misturada com a admiração.
Será que realmente são...?”, pensou Vethussar. “Existem mesmo... conforme dizem?
O conceito que Marshall só conseguiu captar vagamente, sem conseguir interpretá-lo, surgiu por duas vezes. Marshall ficou quebrando a cabeça, enquanto Vethussar virou lentamente a carroça e começou a descer em direção à cidade.
Depois de ter observado mais algumas vezes o mesmo impulso nos pensamentos de Vethussar, Marshall chegou à conclusão de que deveria traduzi-lo pela palavra deuses. Não encontrou nada que mais se aproximasse do verdadeiro significado.
Marshall virou-se e informou os companheiros. Falava em inglês e tinha certeza de que isso não provocaria a menor desconfiança em Vethussar. Afinal os deuses deviam ter bastante inteligência para dominar mais de uma língua.
Percebeu, porém, que Vethussar ficou quebrando a cabeça sobre a língua estranha.
Aos poucos foram-se aproximando da cidade. Nos últimos minutos Vethussar virara-se várias vezes, como se quisesse dizer alguma coisa. Marshall percebeu o desejo de formular uma pergunta.
— Pode falar! — disse ao velho. — Qual é a pergunta que quer fazer?
— Desculpe a curiosidade, senhor — exclamou Vethussar — mas é a primeira vez que uma criatura miserável como eu tem a felicidade de ver um deus. Já que são tão bondosos, gostaria de saber como é a terra dos deuses.
Marshall sentiu-se perplexo com a rapidez com que o ânimo do velho mudava do pavor paralisante e reverente para a curiosidade indisfarçada. Devia ter uma enorme agilidade espiritual, ou não estava acreditando...
— Quer saber de uma coisa, Vethussar? — disse em tom de conversa. — Por lá a coisa não é muito diferente daqui. A grama é verde, as folhas das árvores também e a água do mar é azul enquanto brilha o sol. Acontece que por lá existem veículos muito mais rápidos que esta carroça, e alguns deles podem voar pelos ares, e ainda existem outros com os quais se pode viajar até as estrelas.
Vethussar parecia impressionado. Marshall foi o único que percebeu o ligeiro impulso de desconfiança zombeteira que surgiu nas camadas mais profundas de sua mente. E logo veio outra pergunta:
— Por que estão caminhando a pé, senhor?
Estas palavras foram pronunciadas com a maior humildade.
Seu hipócrita”, pensou Marshall, divertido e zangado ao mesmo tempo, “você nunca acreditou nos deuses, e agora você quer enganar um.
Viu-se diante de uma decisão muito importante. Poderia contar alguma desculpa, mas Vethussar não acreditaria numa palavra. Por outro lado, poderia explicar-lhe que não eram melhores que ele mesmo, e que dele se distinguiam apenas pela tecnologia mais desenvolvida, que não transformava ninguém num deus.
Decidiu-se pela segunda alternativa.
— Pare um pouco, Vethussar! — ordenou.
Vethussar assustou-se. Parou os animais e olhou para trás, assustado.
— Sim, senhor... o que...
Marshall apontou para a frente.
— Olhe aquela árvore! — disse.
Vethussar voltou a olhar para trás e fitou a árvore. Marshall pegou a pequena arma de impulsos e, apontando ao lado do ombro do velho, disparou um tiro para um dos galhos inferiores.
O galho soltou-se da árvore, caiu ao chão e durante a queda transformou-se em fumaça e cinzas. Pequenas chamas surgiram em meio ao capim, mas logo se apagaram na umidade do solo.
Vethussar tremia. Mas a aula de Marshall ainda não estava concluída.
— Agora olhe para a esquerda, ali, onde o caminho descreve uma curva.
Marshall deu uma cutucada em Tako Kakuta. Este logo compreendeu do que se tratava. Efetuou um salto rápido, desaparecendo de cima da carroça e surgindo no mesmo instante no ponto indicado, de onde os cumprimentou com um gesto da mão.
Vethussar soltou um grunhido de pavor. Sem que Marshall lhe pedisse, virou-se e, arregalando os olhos, descobriu que o indivíduo que se encontrava lá adiante realmente era o mesmo que um instante antes estivera sentado na carroça.
Dali a pouco Tako voltou, pela mesma forma surpreendente pela qual saíra.
O suor porejava na testa de Vethussar.
Mas quando uma força estranha e invisível agarrou-o, erguendo-o no ar e fazendo-o girar, pôs-se a gritar. Tama Yokida, o telecineta, ergueu-o até a altura da copa da árvore, fez com que ele girasse algumas vezes em torno de si mesmo e recolocou-o suavemente na carroça.
Choramingando e gemendo, Vethussar encolheu-se. Marshall deixou-o à vontade por algum tempo. Depois levantou-o pelo ombro e disse:
— Preste atenção, Vethussar!
Obediente, Vethussar parou de lamentar-se e lançou um olhar de pavor para Marshall. Este prosseguiu:
— Não somos deuses, Vethussar. Não existe nenhum deus além daquele que ninguém jamais viu. É o único e o onipotente, e contra vontade dele nada acontece no mundo. Somos apenas gente, gente como você, Vethussar, e os que vivem na cidade ou em qualquer outro lugar. Apenas sabemos algumas coisas que você não sabe. Não tenha medo de nós. Pelo contrário: poderá pedir-nos alguma coisa se nos levar até a cidade. Dar-lhe-emos uma recompensa.
Sentiu que, embora hesitando, a mente do velho começou a absorver suas palavras. Aos poucos ia acreditando nelas.
Por algum tempo Vethussar fitou Marshall. Depois ergueu-se de vez, pegou as rédeas e pôs os animais em movimento. Sacolejando, a carroça foi seguindo lentamente em direção à cidade.
— Teremos problemas — disse Marshall em tom pensativo, falando em inglês. — Na cidade haverá um tumulto. Pensarão que somos deuses. Vethussar desconfiou por causa de nossas vestimentas. Mas quando usei o cumprimento dos saltadores, “Felicidades a cada dia que passa”, que entre os habitantes da ilha é considerado um cumprimento usado pelos deuses, não teve mais a menor dúvida. Poderemos evitar esse cumprimento. Mas nossos trajes os deixarão desconfiados. Sou de opinião que Vethussar deverá seguir na frente e arranjar roupas adequadas para nós. Qualquer objeção?
Sacudiram a cabeça.
Marshall dirigiu-se a Vethussar e começou a explicar-lhe seu plano.
— É bem verdade — disse ao concluir — que não tenho dinheiro. Quem sabe se você aceitaria outra coisa?
Vethussar possuía um sentimento de dignidade altamente desenvolvido. Marshall teve de esforçar-se bastante para convencê-lo de que a oferta de pagamento não devia ser interpretada como uma ofensa.
— No lugar de onde venho — explicou Marshall — costumamos pagar pelas coisas que nos dão.
Quase reconciliado, Vethussar concordou.
— Aqui também é assim — confirmou. — Mas não entre amigos.
Lendo seus pensamentos, Marshall descobriu que suas palavras eram sinceras.
Sentira-se impressionado pela sinceridade com que fora tratado. No momento era o aliado mais fiel que Marshall e seus companheiros tinham no planeta de Goszul.
A cerca de um quilômetro do dique de terra que cercava a cidade para o interior, Vethussar deixou a carroça com os amigos recém-conquistados. Prometeu que voltaria antes do escurecer com roupas adequadas.

* * *

Szoltan, o piloto da pequena nave auxiliar que passara a última hora numa busca desesperada, compareceu perante a assembléia dos patriarcas, ou melhor, daquilo que sobrara da mesma depois do atentado.
— A busca não deu resultado. Captamos alguns impulsos. Mas seu ponto de partida mudou várias vezes aos saltos. A própria perseguição foi um problema. Finalmente deslocaram-se para o mar, e a última coisa que captamos provinha de uma profundidade de dois mil metros.
Foi só o que Szoltan teve a dizer. Tinha certeza de que em troca de tais informações não colheria elogios dos patriarcas. Talvez seria mesmo transferido para...
Mas as especulações de Szoltan foram infundadas. A resposta dos patriarcas foi imediata:
— Entregue o veículo ao seu companheiro e siga para Saluntad, capital da ilha. Antes de penetrar na cidade, entre em contato com nosso agente a-G-25, que lhe arranjará roupas locais, para que você não desperte desconfiança no interior da cidade. Tenha cuidado, a-G-25 é o único elemento de que dispomos em Saluntad. A população pertence às camadas mais primitivas de Goszul. Supomos que os tripulantes da Lev XIV que conseguiram escapar seguiram diretamente para a cidade, depois de se livrarem dos instrumentos que poderiam traí-los, jogando-os ao mar. A-G-25 lhe prestará todo auxílio. Goza de grande influência na cidade. Fim.
Szoltan respirou aliviado. Esperara coisa pior.
Voou até as proximidades da cidade, pousou, deixou a nave a cargo de seu companheiro e, antes que este decolasse, mandou irradiar um chamado dirigido a a-G-25. O agente respondeu e foi informado do lugar em que Szoltan se encontrava, recebendo instruções para trazer-lhe roupas que não despertassem a atenção.
Depois disso, a nave decolou e afastou-se em direção ao norte, ganhando altura. Szoltan esperou paciente. Dentro de uma hora ou duas o sol se poria.
Tomara que a-G-25 não demore”, pensou.

* * *

As roupas trazidas por Vethussar se pareciam com as que ele mesmo usava.
Uma camisa grosseira, amarrada na cintura por uma espécie de cordel, uma calça de bombachas um pouco menor, amarrada na altura dos tornozelos, um par de sandálias e uma manta sem mangas.
Apesar de sua simplicidade, as vestimentas não pareciam pertencer a um homem pobre. Concluía-se que Vethussar não devia ser pobre.
Vethussar ficou satisfeito com os agradecimentos que os amigos lhe manifestaram. Com um sorriso disse:
— Trouxe mais uma coisa.
Pôs a mão no bolso largo da manta e tirou um pequeno recipiente metálico.
— Vetro! — disse em tom de segredo.
Marshall apressou-se em descobrir o que seria vetro. Mas Vethussar estava tão concentrado na reação dos amigos que seus pensamentos não revelaram nada.
— É incrível — disse Marshall, aparentando uma alegre surpresa. — Passe para cá, amigo.
Vethussar entregou-lhe o recipiente. Marshall abriu-o e viu que seu conteúdo consistia num tipo de creme avermelhado.
— Especialmente para você — disse Vethussar. — É provável que ninguém desconfie dos outros.
No mesmo instante Marshall leu em seus pensamentos do que se tratava. Vetro era um corante da pele, que dava a tipos muito claros ou muito escuros a cor avermelhada dos habitantes de Goszul. Pelo que se deduzia dos pensamentos de Vethussar, o conteúdo daquele recipiente valia uma pequena fortuna.
Marshall agradeceu e pediu a Vethussar que passasse o creme nos lugares de seu corpo que ficassem expostos, sempre ou de vez em quando. Para andarem bem seguros, Yokida, Kakuta e Ishibashi imitaram-no.
Quando o trabalho foi concluído, o sol havia desaparecido. A escuridão irrompeu rapidamente. Subiram à carroça de Vethussar e poucos minutos depois passaram pela abertura no dique que, por assim dizer, representava o portão ocidental da cidade.
O nome da cidade era Saluntad. Se dali não encontrassem um caminho que os levasse para o norte, por cima do mar, nunca mais o encontrariam.
Só lhes restaria pôr suas esperanças nas faculdades extraordinárias de Tako.

* * *

Sob um aspecto importante, Gucky distinguia-se da maior parte dos seres humanos: era incapaz de sentir tédio.
Sua raça era dotada de um instinto lúdico infalível, que não se comprazia tanto na brincadeira como tal, mas antes na alegria provocada pelas aflições que a brincadeira coerente causava nos parceiros inconscientes.
Tempos atrás a raça de Gucky causara um grave perigo à tripulação da Stardust, porque o instinto lúdico inato à mesma não conhecia medidas. Mais tarde essa falha foi suprida em Gucky através da educação. Este já sabia até onde podia chegar com suas brincadeiras, inclusive numa situação como a presente.
Cinco dos dez dias já se haviam passado.
A Frer LXXII retornava ao planeta de Goszul a 98 por cento da velocidade da luz.
Recorrendo ao projetor hipnótico arcônida, Gucky ordenou a um dos homens que se aproximara a menos de cinco metros do seu cubículo que entrasse no mesmo. Por algum tempo divertiu-se com o rosto desfigurado pelo pavor. Depois recorreu a um impulso hipnótico que o fez esquecer o quadro e interrogou-o sobre as condições reinantes no planeta de Goszul.
Dessa forma ligou o útil ao agradável. Recolheu informações sobre o mundo em que teria de trabalhar e, no fim, ainda teve o prazer de captar fragmentos de pensamentos que passaram pelo cérebro do homem depois de este ter saído do cubículo, quando passou a discutir com os outros tripulantes que quiseram saber por onde tinha andado por todo esse tempo, enquanto ele mesmo afirmava que não saíra do lugar por um instante sequer.
O comando hipnótico geral de não abrir a porta do cubículo não foi afetado pela brincadeira de Gucky.

* * *

O papel que Vethussar desempenhava na cidade tornou-se evidente quando ele convidou seus amigos a descerem da carroça diante de sua casa.
Sob a luz de tochas crepitantes tiveram oportunidade de admirar muitas fachadas, espantando-se pelo fato de que as construções de Saluntad quase não diferiam daquelas que a cultura ocidental do início do século XVII criara na Terra.
Mas a casa de Vethussar era uma exceção.
Na verdade não era uma casa. Era um palácio!

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