A construção de um pavimento estendia-se
por cerca de cinqüenta metros ao longo da rua estreita. Quanto ao aspecto exterior,
era o cúmulo da falta de gosto.
Mas Marshall sentiu o orgulho exuberante
de Vethussar e mostrou-se bastante impressionado.
Vethussar introduziu os hóspedes por um
portal, e só lá dentro eles se deram conta da riqueza do palácio. O interior da
enorme casa estava recheado de uma ostentação perdulária, sem demonstrar a
mesma falta de gosto da fachada.
Vethussar sentiu-se muito satisfeito com a
admiração sincera que os amigos tributaram a sua casa. Fez questão de que
Marshall e seus companheiros, que não tinham dinheiro, ficassem com ele até que
tivessem uma idéia melhor. Marshall acabou concordando em seu nome e no de seus
companheiros.
Cada um deles recebeu um quarto. Tiveram
muito trabalho em convencer Vethussar de que não havia necessidade de um criado
para cada um deles. Mas Vethussar não se deixou demover do intento de dar um
criado para os quatro.
— Nunca tive hóspedes de categoria tão
elevada como vocês — disse com um alegre piscar dos olhos. — E faço questão de
que recebam um tratamento condigno.
Marshall teria a impressão de que a
gentileza era excessiva, se não tivesse captado nas profundidades da mente de
Vethussar a idéia de que o mesmo esperava que a hospitalidade lhe trouxesse um
proveito, em virtude das faculdades extraordinárias de que seus hóspedes eram
dotados.
* * *
— Muito bem, vamos fazer um plano —
concordou Marshall. — Alguém tem uma idéia?
De madrugada Tako Kakuta dera um giro pela
zona portuária.
— Dei uma olhada nos navios — disse — e
também conversei com algumas pessoas. Os navios têm uma capacidade de enfrentar
o alto-mar que não fica nada a dever a quaisquer outros. Mas, se o vento for
normal, gastam cerca de trinta dias para vencer uma distância de cinco mil
quilômetros. Se não houver outra saída, poderemos ir num desses navios. O
comandante não concordará em ir para o Norte, pois lá fica a terra dos deuses,
da qual eles têm um medo terrível. Kitai teria que influenciar o comandante e
os oficiais, talvez mesmo toda a tripulação, para evitar um motim.
Marshall confirmou com um aceno de cabeça.
— A distância daqui ao continente norte é
de cerca de quatro mil quilômetros — disse. — Se a velocidade para o norte for
idêntica à do sul, a viagem demorará pouco mais de vinte dias. Isso seria
suficiente para os fins que temos em vista.
“Vamos fixar um ponto. Só no continente
norte teremos possibilidade de sair deste planeta e voltar para junto de
Rhodan. Teremos que capturar uma nave dos saltadores. Por outro lado, será
conveniente que algumas semanas se passem entre o atentado contra a assembléia
dos patriarcas e a nova ação que estamos planejando.”
Levantou-se.
— Oportunamente falarei com Vethussar a
este respeito — concluiu. — Pelo que deduzo dos seus pensamentos, sua riqueza
extraordinária provém do comércio marítimo. É possível que possua alguns
navios, e que possa ceder-nos um deles.
Vethussar apareceu dali a alguns minutos.
Parecia bastante contrariado. Marshall compreendeu que certa visita o deixara
indignado.
— Sinto muito — disse Vethussar depois do
cumprimento matinal — mas Honbled soube que tenho hóspedes em minha casa, e
veio para dispensar-lhes as graças dos deuses.
— Quem é Honbled? — perguntou Marshall,
pois Vethussar não pensava em outra coisa senão no aborrecimento que sentia.
— Honbled é o sacerdote supremo da cidade
— respondeu o velho. — Na minha opinião também é o maior idiota. Mas não posso
dizer-lhe isso, pois goza de muito prestígio e quase todo mundo acredita nos
seus deuses.
Marshall riu.
— Pois deixe-o entrar — sugeriu. — Não
tenho nada contra suas bênçãos.
Vethussar suspirou aliviado.
— Muito bem, eu o trarei até aqui.
Esperaram. Dali a alguns minutos o velho voltou com um homem que, de tão gordo,
quase não passa pela porta delicada. Era pálido e tinha barba rala. Pelos
padrões terrestres, aquele homem não devia ter mais de trinta anos.
— Este é Honbled — disse Vethussar em tom
pouco gentil.
Honbled não se perturbou. Levantou a mão
esquerda, comprimiu-a suavemente contra a testa de Marshall e disse:
— Que os deuses o abençoem, meu filho.
Repetiu o procedimento com Tako Kakuta,
com Tama Yokida e finalmente com Kitai Ishibashi.
Depois deixou-se cair pesadamente numa das
poltronas.
— Pelo que soube, vocês vêm de longe —
disse, iniciando a palestra sem rodeios.
— Isso mesmo — respondeu Marshall e pôs-se
a sondar o que ia pelo cérebro do sacerdote.
— Permite que pergunte de onde vêm? —
prosseguiu Honbled.
“Será
que ele não pensa em nada?”, perguntou Marshall de si para si.
— Descemos das montanhas — respondeu.
Era uma resposta dada ao azar. Como Marshall
não conhecesse a topografia da ilha, não sabia se nela existiam montanhas.
Sentiu que Vethussar se divertia ao saber que Honbled estava sendo enganado. E
Honbled?
— Desceram das montanhas? — disse o
sacerdote, espantado. — Nesse caso são daquela raça dura de montanheses que
enfrentam as intempéries e alegram os deuses com sua vida frugal.
Marshall sentia-se cada vez mais confuso.
Tako Kakuta percebeu a confusão do amigo e encarregou-se da resposta.
— Bem, nossa vida não é tão frugal como
costumam dizer aqui embaixo — respondeu em tom insolente. — Levamos nossa vida,
festejamos nossas festas e, pelo que dizem, nossas mulheres são as mais belas
desta terra.
Honbled parecia decepcionado.
— Os deuses não gostarão de ouvir uma
coisa dessas — disse um tanto indignado. — Os deuses gostam que suas criaturas
vivam na abstinência. O castigo da luxúria é muito rigoroso.
Ao que parecia, o japonês se divertia com
a conversa.
— Não digo que vivemos na luxúria —
respondeu. — Apenas quis retificar uma opinião muito em voga. Não passamos o tempo
sentados em galhos secos nem vivemos do ar.
Vethussar divertia-se a valer.
— Também costumamos casar — interveio
Kitai com o rosto mais sério deste mundo.
— E também tomamos nosso trago — exclamou
Tama Yokida.
Ninguém sabia onde aprendera a gíria.
Honbled levantou-se indignado.
— Pelo que vejo — disse, para sair da
situação desagradável — vocês têm atrás de si uma viagem muito longa e ainda
não se recuperaram das canseiras. Com a vontade dos deuses e de vocês voltarei
a visitá-los amanhã, para ouvir mais alguma coisa sobre os homens das
montanhas.
Fez um gesto com a mão esquerda e
retirou-se. Vethussar seguiu-o com um sorriso.
Marshall levantou-se de um salto, assim
que a porta se fechou atrás dos dois.
— O homem tem um bloqueio — disse. — Não
consigo captar seus pensamentos.
Tranqüilo, Tama Yokida sacudiu a cabeça.
— Não, ele não tem nenhum bloqueio —
afirmou calmamente.
Marshall fitou-o perplexo. Sabia que a
capacidade telecinética de Yokida lhe permitia reconhecer os contornos dos
objetos invisíveis. Poderia reconhecer um instrumento mecânico implantado no
cérebro do sacerdote, por menor que fosse.
— O que é que ele tem? — perguntou
Marshall.
— Não tem nada — respondeu Yokida com um
sorriso. — Ele é uma coisa, é um robô...
3
A-G-25 voltou com uma rapidez
surpreendente. Szoltan, que se encontrava no primeiro andar da casa em que
residia o agente, viu-o andar pela rua. Tomou tempo para divertir-se com a
submissão que os transeuntes demonstravam ao cumprimentá-lo e admirar a
engenhosidade dos construtores, que deram a esse robô uma forma tão humana.
A-G-25 passou pela porta estreita situada
no topo de uma pequena escada, que dava diretamente para a rua. Poucos minutos
depois encontrava-se ao lado de Szoltan.
Fungava como um homem de Tirou um lenço do
traje manchado e passou-o pela testa.
— São eles! — exclamou. — Não tenho a
menor dúvida.
— São os tripulantes da Lev XIV?
— Como vou saber? — perguntou. — Não pude
perguntar, não é?
Szoltan ficou contrariado.
— Como é que você sabe que são as pessoas
que procuramos?
— Entre os habitantes da ilha não há
telepatas — respondeu a-G-25, ou melhor, Honbled. — Acontece que um deles é
telepata. Senti que tateou em direção ao meu cérebro.
Szoltan esboçou um sorriso um tanto
depreciativo. O cérebro de a-G-25 não passava de um conjunto de chaves de
reação lenta e rápida, depósitos de impulsos, condutos e controles de medição
de tensões.
Era verdade — e isso era o mais importante
— entre outros instrumentos, o robô possuía um aparelho de registro de
emanações telepáticas.
Szoltan não parecia muito satisfeito.
— O que foi que eles lhe contaram?
A-G-25 relatou a palestra.
— E ainda se divertiram à minha custa —
acrescentou, bastante contrariado.
Szoltan atirou os braços para cima.
— E daí? Será que não pode ser verdade o que
dizem? É bem possível que venham das montanhas, e que entre os homens das
montanhas existam telepatas.
A-G-25 ainda estava suando.
— É possível que entre os homens das
montanhas haja telepatas — reconheceu. Intercalou uma pausa, para aumentar o
efeito de suas palavras. Depois concluiu enfaticamente: — Acontece que nesta
ilha não existe uma única montanha.
* * *
— Será que é um agente dos saltadores? —
perguntou Marshall laconicamente.
Os outros sabiam tanto ou tão pouco quanto
ele; por isso a pergunta era puramente retórica.
Mas dificilmente se poderia conceber outra
resposta que não fosse um sim. Além dos saltadores não havia ninguém neste
mundo que soubesse construir um robô. Qualquer robô que existisse em Saluntad
só poderia ser um robô dos saltadores.
Admitidos esses atos, ainda era certo que
Honbled viera exclusivamente para saber se eram os fugitivos que estavam sendo
procurados.
— Isso afeta nossos planos — constatou
Marshall. — Se um dos saltadores souber que estamos nesta cidade, suporá que
procuraremos embarcar num navio. Vigiará o porto e logo descobrirá que navio
tomamos. Quando nos encontrarmos em alto-mar, os saltadores não terão nenhuma
dificuldade em capturar-nos.
— Hum! — fez Yokida. — Poderíamos
desmascarar o sacerdote. Basta que lhe abramos a barriga em público para
mostrar a todo mundo que o sacerdote que adoravam até então é uma alma de lata.
— Você acha que isso adiantaria alguma
coisa? — perguntou Marshall. — Não adiantaria nada. Os saltadores ficariam de
olho em nós. Nem sequer sabemos se Honbled é o único agente que mantêm nesta
cidade. Teremos que acompanhar o jogo de Honbled por algum tempo. Precisamos
descobrir se suspeita de nós, e precisamos adaptar nossos planos à idéia que
faz a nosso respeito.
A sugestão foi aceita. Vethussar não foi
informado sobre a mesma. Sentiu-se satisfeito porque alguém tivera coragem de
fazer uma brincadeira desse tipo com o sacerdote.
* * *
— Será possível — asseverou a-G-25 em tom
insistente. — Não há a menor dúvida. E será bem simples. Um delito desse tipo
deixará o povo furioso. Não teremos o menor problema, mesmo que se trate de um
dos armadores mais ricos da ilha.
— Deixaremos que as coisas tomem seu curso
normal. Não recorreremos aos meios técnicos. Para viver em paz e realizar um
trabalho útil, preciso de uma população pacata. Quando alguém começar a
arrebentar as casas com desintegradores e trabalhar os homens com armas
hipnóticas, a paz e a credulidade deixarão de existir. Não devemos esquecer que
os goszuls foram levados à força a esse estado de atraso. Ninguém sabe quais
são as recordações do tempo de sua grandeza tecnológica que ainda jazem no seu
subconsciente.
Szoltan deu-lhe razão, embora o fato de
ter sido derrotado por um robô numa discussão franca o deixasse triste.
— Então, quais são seus planos? —
perguntou em tom áspero.
— Colocaremos as provas nos lugares
adequados — respondeu prontamente a-G-25. — Depois mobilizamos os templários e
marchamos em direção à casa. No caminho uma grande massa de povo deverá
juntar-se a nós. Cercamos a casa e intimamos Vethussar a entregar o produto do
roubo. Ele fará pouco de nós. Depois disso ocupamos a casa à força. É tudo.
Como o edifício será cercado em tempo, ninguém escapará. Prenderemos os quatro homens
da Lev e informaremos Vethussar de que ficará isento de pena se os deixar por nossa
conta. Ele não se oporá, pois um delito desse tipo é punido com a morte.
Szoltan virou as palmas das mãos para
cima.
— De acordo!
* * *
Marshall acordou.
Lançou os olhos em torno. Na luz do fogo
quase extinto — um fogo de lenha sem fumaça, aceso constantemente numa tina de
ferro colocada no centro do quarto — descobriu Tako Kakuta, sentado junto à
porta.
Desde que Honbled os visitara os quatro
sempre permaneciam no mesmo quarto, e de noite ficavam de sentinela por turnos.
— Tako...
O japonês virou-se.
— Sim.
— O que houve?
— Nada de especial. Tudo tranqüilo.
Marshall ergueu-se e aguçou o ouvido.
Algo de extraordinário o despertara. Se
fosse alguma coisa que pudesse ser vista, ouvida ou sentida, Tako sem dúvida o
teria percebido. Acontece que não percebeu...
Ali estava de novo.
Um impulso de pensamento gerado por um
medo extraordinário. Mais um, e mais um, vindo de outro cérebro.
“Vem
de longe”, calculou Marshall. “Talvez
da ala direita do edifício.”
Acordou os companheiros.
— Alguma coisa está acontecendo — disse em
tom sério. — Há alguém por lá que sente um medo terrível. São pelo menos duas
pessoas. Vamos dar uma olhada.
No dia anterior haviam conhecido a casa
por dentro. A divisão era simples e metódica. Passando pelo corredor central,
esgueiraram-se pela escuridão em direção à ala direita.
Os impulsos captados por Marshall
tornaram-se mais intensos.
— É naquela sala — cochichou, apontando
para os contornos quase imperceptíveis de uma porta situada poucos metros adiante,
do lado direito do corredor.
Foram avançando grudados à parede. Da
porta saíam ruídos de alguma coisa que era arranhada. Uma voz reprimida falava
apressadamente e com raiva.
Marshall compreendeu os pensamentos:
“Quem
dera que já estivéssemos prontos! Que sacrilégio! Os deuses nos punirão, apesar
da intercessão de Honbled. Vamos dar o fora quanto antes.”
Marshall acenou com a cabeça. Parecia
satisfeito. Viu uma estreita faixa de luz que saía pela fresta da porta.
Concluiu havia luz no interior do quarto. Marshall passou rapidamente junto à
porta fez sinal para que Tako o seguisse. Tama e Kitai continuaram do outro
lado da porta.
Com um forte pontapé Marshall jogou a
porta para dentro. Ouviu-se um grito de pavor. No mesmo instante os quatro
viram-se no centro da pequena sala, iluminada pela luz trêmula de algumas velas
de sebo.
— Segurem-nos! — disse Marshall.
Inspecionou a armação. Viu que suas
suposições não o haviam enganado: a sala era o depósito de valores de
Vethussar. Preciosidades de todos os tipos estavam espalhadas sobre as tábuas
da armação, e o conteúdo da caixa que naquele instante seria colocado sobre uma
delas correspondia ao que já se encontrava lá. Eram estatuetas de ouro, com as
partes mais interessantes do corpo assinaladas por pedras preciosas. Na caixa
haveria umas vinte estatuetas desse tipo. Se no planeta de Goszul, mais
especialmente na cidade de Saluntad, o ouro e as pedras preciosas tinham o
mesmo valor que na Terra, os dois homens haviam carregado uma fortuna
considerável naquela caixa.
“E
daí?”, pensou Marshall. “Ninguém pode
proibir Vethussar de completar seu tesouro durante a noite”.
Mas havia o medo dos dois homens. Por que
esse medo? Por que sentiam tanto medo que nada havia em seus cérebros além
desse sentimento?
Kitai colocou-se diante de um dos homens.
Tako segurou-o e obrigou-o a fitar Kitai.
— Que estatuetas são estas? — perguntou
Kitai.
Seus interrogatórios não admitiam
respostas falsas. A força sugestiva de Kitai Ishibashi era tão intensa que até
então nenhuma vontade conseguira resistir à mesma.
— São figuras tiradas do templo principal
dos deuses — respondeu o homem.
— Vocês as roubaram?
— Não.
— Então, quem foi?
— Honbled, o supremo sacerdote, as
entregou a nós.
— Ordenou que as colocassem aqui?
— Sim.
Marshall interveio.
— Está bem, Kitai. Pode parar.
As perguntas de Kitai e a influência
sugestiva por ele exercida obrigaram o homem a superar o medo e pensar sobre as
coisas a respeito das quais estava sendo interrogado. Marshall sabia o que
havia acontecido e, mais do que isso, o que deveria acontecer.
Virou a cabeça. Parte das tábuas da
armação estava presa aos postes por meio de correias de couro. Marshall tirou
os objetos que se encontravam em cima das tábuas e tirou as correias.
— Amarrem-nos! — disse laconicamente. — Um
de nós tem que buscar Vethussar. Rápido.
Tama Yokida saiu em disparada. Mal os dois
intrusos estavam amarrados e amordaçados, Yokida voltou com Vethussar.
Estupefato, este piscou para a luz das velas.
— Kitai!
O japonês confirmou com um aceno de cabeça.
Sabia que não havia tempo a perder. Vethussar estava sonolento. Se alguém lhe
quisesse explicar os acontecimentos sem recorrer a qualquer pressão sugestiva,
levaria mais de uma hora.
Kitai não teve necessidade de repetir
qualquer palavra. O velho logo compreendeu, e também compreendeu o desastre que
estava prestes a desabar sobre sua casa.
— Estes homens declaram — concluiu Kitai —
que Honbled e seus templários estarão aqui cerca de uma hora depois da
meia-noite, para acusar e prender você. Isso significa que apenas nos restam
noventa minutos. Você tem alguma sugestão sobre o que devemos fazer?
Vethussar não tinha nenhum plano. A
infâmia do sacerdote, que sem dúvida seria bem sucedida se não fosse a
vigilância de seus hóspedes, assustara-o tanto que não conseguia concatenar os
pensamentos.
— Está bem. Nesse caso é conosco — disse
Marshall em inglês. — O velho está tremendo de medo.
Dirigiu-se a Vethussar:
— Onde fica o templo principal?
Vethussar descreveu a situação.
— Tako, você retirará as provas desta
casa.
Tako fez que sim.
— Nossa defesa será mais eficiente —
explicou Marshall, falando em intercosmo, para que o velho o compreendesse — se
os objetos roubados forem levados de volta aos seus lugares. Nesse caso
poderemos acusar Honbled de calúnia e expulsá-lo daqui.
Entusiasmado, Vethussar bateu palmas.
Marshall prosseguiu em inglês:
— Resta saber se isso bastará para que o
robô desista de seus planos. Não acredito que saia daqui sem mais nem menos,
depois que não encontrar as estatuetas. De qualquer maneira tentará
agarrar-nos. Portanto, mantenham as armas preparadas.
Tako ensaiou um salto em direção ao
templo. Marshall completara as indicações de Vethussar com uma descrição dos
arredores do templo, extraídas do cérebro do velho. Por isso o salto foi executado
com a precisão de um metro.
Tako pousou na escuridão do interior do
enorme edifício. Atrás dele, junto ao portal, ardia um pequeno fogo, que
provavelmente era sagrado. Dois guardas estavam juntos à porta. Não notaram a
presença de Tako.
Tako encontrou os altares dos quais
Honbled havia tirado as estatuetas e retornou à casa de Vethussar.
Com mais três saltos levou os objetos
roubados de volta ao lugar a que pertenciam. Pouco depois da meia-noite o
trabalho estava concluído. Ninguém percebera a ação. Vethussar estava garantido
contra as acusações de Honbled. Em palavras exaltadas manifestou sua gratidão
aos hóspedes.
Enquanto isso, Marshall havia refletido
sobre a maneira de escaparem à rede dos saltadores, que se fechava em torno
deles, sem expor-se a qualquer perigo e sem renunciar à posição vantajosa em
que se encontravam.
Dispunha de quarenta minutos para elaborar
seu plano.
* * *
Vethussar enviou um mensageiro para colher
a informação.
Realmente, a partir de ontem Honbled
abrigava em sua casa um hóspede que até o dia anterior ninguém havia visto na
cidade.
Marshall recebeu a informação trinta
minutos depois da meia-noite e respirou aliviado.
Tinha certeza absoluta de que, antes de
acusar Vethussar em público, Honbled mandaria cercar sua casa.
Marshall e seus amigos saíram da casa para
observar o cerco. Vethussar ainda recebeu algumas informações, transmitidas às
pressas e reforçadas por via sugestiva, e mandou um mensageiro ao porto para
que as transmitisse ao homem a que igualmente interessavam.
Finalmente Marshall disse:
— Caro amigo, talvez não possamos
valer-nos mais da sua hospitalidade. Isso dependerá da situação. Se não nos
encontrarmos mais, tenha certeza de que lhe somos muitíssimo gratos. Você foi
um bom amigo, e esperamos que não se esqueça de nós.
Vethussar comoveu-se com estas palavras.
— Não me fale em agradecimentos — disse. —
Sou eu que tenho que agradecer-lhes. Vocês me salvaram da morte e da desonra.
Faltavam apenas quinze minutos para o
momento em que Honbled pretendia avançar. Apressaram as despedidas e saíram
para o grande parque dos fundos do palácio de Vethussar.
Avançaram cautelosamente. Marshall
caminhava no centro, pois estava ocupado exclusivamente em captar pensamentos
estranhos.
Quando captou o primeiro impulso, pegou a
perna de Kitai Ishibashi, que rastejava à sua frente, e segurou-o.
— Ali à frente, um pouco à direita — cochichou.
Kitai confirmou com um aceno de cabeça e
informou Tako Kakuta, que se mantinha na ponta, para que seguisse em outra direção.
Poucos segundos depois ouviram um ruído na
vegetação. Eram os homens de Honbled que ocupavam seus postos.
Marshall estremeceu ao receber o primeiro
impulso de um cérebro bem desenvolvido e treinado. O impulso dizia o seguinte:
“Mais
alguns minutos, e os patriarcas terão seus prisioneiros e eu recuperarei o
sossego.”
* * *
Honbled e Szoltan repartiram suas tarefas.
Como sacerdote, Honbled, acompanhado de seus templários, encarregou-se da
acusação pública. Szoltan, acompanhado de um grupo de pessoas recrutadas e
informadas às pressas, cuidou para que ninguém saísse da casa.
Pouco menos de uma hora depois da
meia-noite, Szoltan espalhara seu grupo. Ele mesmo escolhera um posto bastante
solitário. Impaciente, lia os minutos no relógio luminoso.
Procurou romper a escuridão e disse
furioso:
— Eu não lhes disse que ficassem nos seus
lugares?
A vegetação abriu-se à sua direita e à sua
esquerda e duas figuras abaixadas aproximaram-se às pressas.
— Não, meu filho, você não nos disse nada
disso — respondeu uma voz baixa e desconhecida.
Szoltan assustou-se até a medula dos
ossos. Não teve tempo de recuperar-se do susto. Uma forte pancada atingiu seu
crânio e deixou-o sem sentidos.
— Tudo em ordem — cochichou Marshall.
Kitai e Tama aproximaram-se.
— Vamos aí para os fundos — Marshall apontou
para a direção a que se referia.
Os dois japoneses carregaram o saltador
inconsciente. Escondidos na vegetação espessa, carregaram-no até o muro que
fechava o parque pelos fundos. Tama ajudou-os com suas forças telecinéticas
quando o levaram por cima do muro e manteve-o no ar até que subissem no muro
atrás dele. Tako seguiu-o, e Marshall ia na retaguarda.
— Tudo tranqüilo — disse. — Dentro de um
instante o drama começará.
A poucos passos dali, na viela que ficava
junto ao muro, estava a carroça com dois animais que Vethussar deixara ali a
seu pedido. O saltador inconsciente foi colocado na mesma. Kitai, Tako e Tama
sentaram-se de tal forma que podiam ficar de olho nele, e que o saltador não
pudesse ser visto de fora. Marshall sentou na boléia, tangeu os animais e
seguiu em direção ao porto.
* * *
Vethussar não se apressou quando ouviu o
gordo sacerdote martelar o portal da casa com os punhos. Esperou que o criado
entrasse em seu quarto e dissesse:
— Honbled, o sacerdote supremo, está lá
fora. Está muito zangado...
Vethussar fez de conta que bocejava.
— Peça-lhe que volte amanhã de manhã. De
noite costumo dormir.
O criado tremia.
— Ele não concordará. Veio com quase todos
os templários e afirmam que você cometeu um crime punido com a morte.
Vethussar ergueu-se sobressaltado.
Desempenhava seu papel com muita habilidade.
— Eu, que sou o servo mais fiel dos deuses?
Um crime infame?
Com um salto ágil saiu da cama e gritou
para o criado:
— Traga minha capa. Rápido! E um archote.
Lá fora Honbled voltou a martelar a porta.
Com a capa sobre os ombros e o archote na mão, o velho abriu o portal e em
atitude arrogante colocou-se diante do gordo Honbled.
— Que tolice é essa que você anda contando
ao povo? — gritou. — Quem cometeu um crime digno de morte?
Honbled não se intimidou.
— Foi você! — gritou, apontando para o
velho. — Você roubou quatorze imagens dos deuses do templo para aumentar sua
riqueza. Você ofendeu os deuses.
— Quem lhe disse isso?
— Dois guardas viram você e um criado seu
carregar uma caixa pesada pelo portal pequeno do templo.
— É mentira! — respondeu Vethussar.
— Nada disso! — vociferou Honbled. — Deixe
que revistemos sua casa, e descobriremos onde você escondeu as imagens.
Vethussar deu uma risada sarcástica.
— Antes disso quero que você me leve ao
templo e mostre quais são as imagens desaparecidas.
— Não quer mais nada? — escarneceu
Honbled. — Só assim seus criados terão tempo para esconder os tesouros.
Vethussar estragou-lhe o jogo.
— Pois deixe alguns dos seus homens aqui.
Poderão ficar diante da casa e nos corredores. Assim você terá certeza de que
nada está sendo escondido.
Gritos de concordância soaram na multidão
que se comprimia atrás de Honbled. Este não estava interessado em demorar a
operação. Sabia que, atrás da casa, Szoltan estava de guarda. Por isso decidiu
ceder ao desejo de Vethussar.
Carregando archotes fumegantes, a multidão
que crescia constantemente desceu pela rua, em direção ao templo principal.
— Abram o portão — gritou Honbled de
longe.
Os dois guardas que tinham ficado no templo
obedeceram e abriram o grande portão.
— Vocês que estão carregando archotes,
fiquem junto às paredes para que haja luz.
Os homens foram andando junto às paredes e
pararam em intervalos regulares. Uma claridade amarelenta e esfumaçada encheu o
recinto.
— Agora — anunciou a voz potente de
Honbled — eu lhes mostrarei os altares de onde este malfeitor roubou as imagens
dos deuses. Olhem ali...
Estacou. Nada estava faltando no altar do
deus do mar, embora tivesse ordenado aos seus homens que esvaziasse esse altar
antes dos outros, porque nele se encontrava a mais preciosa das imagens.
— ...ou ali — prosseguiu.
Acontece que também a imagem de ouro do
deus dos peixes continuava no lugar de sempre — com pedras preciosas verdes e
brilhantes que lhe serviam de olhos.
— Ou ali — arremedou Vethussar, brandindo
o archote. — Ou ali... ou ali.
O organismo mecânico de Honbled registrou
e classificou a nova situação e fez com que o exterior de seu corpo
demonstrasse a reação tipicamente humana à mesma, feita de pavor, medo e
espanto.
— Onde estão as imagens roubadas? — gritou
Vethussar. — O que foi que eu roubei? Pois está tudo aqui! O que é que você
esperava encontrar em minha casa?
O mecanismo de processamento de dados de
Honbled trabalhava febrilmente. Pesou todas as alternativas possíveis,
inclusive a de que Vethussar soubera do atentado e levara as imagens de volta
ao templo. Mas o setor lógico recusou-se a transformar esse conhecimento em
impulsos verbais e transmitir os mesmos aos instrumentos de fala, porque a essa
altura ninguém mais acreditaria numa palavra do que o sacerdote dissesse.
Enquanto isso, a fala de Vethussar
inflamava a multidão. Os que não carregavam archotes apinharam-se em torno do
velho e do sacerdote, enquanto os outros saíram de junto das paredes e
iluminaram a cena.
— Ele mentiu — gritou Vethussar. — Mentiu
para me roubar. Ele, o sacerdote.
— O sacerdote supremo — gritou a multidão
enfurecida.
A sorte de Honbled estava selada. A
multidão precipitou-se sobre ele. Era bem verdade que a-G-25 era uma máquina
potente; não teve a menor dificuldade em defender-se do primeiro atacante. Mas
a multidão estava composta de mais de mil pessoas. Honbled não teve outra
alternativa senão emitir o sinal de emergência do agente e deixar que os
acontecimentos seguissem seus cursos. As pancadas e os pontapés sacudiram seu
interior, condenando-o à imobilidade. Sua última reação foi a de fechar os
olhos.
Dali a pouco pensaram que estivesse
inconsciente ou morto. A barriga gorda de Honbled evitara que o corpo
propriamente dito do robô, feito de metal plastificado, fosse colocado à
mostra. Os cidadãos de Saluntad foram poupados ao choque metafísico.
Vethussar já se desprendera da multidão e
retornara a sua casa. Face às notícias que trouxe e ajudado por seus criados
expulsou os servos de Honbled da casa e do jardim.
Concluído este serviço, foi ao seu
aposento particular, mandou que o criado acendesse alguns cavacos de pinho e
contemplou ansiosamente o relógio de água, que mostrava tranqüilamente as
horas.
Fora cheia quatro horas antes da
meia-noite. Agora o nível da água estava junto à linha da sexta hora.
Quando passou por essa linha, três tiros
de canhão soaram na zona portuária.
Vethussar sorriu satisfeito, levantou-se e
apagou os cavacos. Ao deitar-se, pensou:
“Fafer
é um homem de confiança.”
* * *
Os dois animais de tração foram a única
dificuldade com que o grupo se deparou no caminho até o porto. Marshall só
conseguira uma explicação apressada sobre a maneira de dirigi-los, e mais de
uma vez aconteceu que andassem para a esquerda, quando ele queria que seguissem
para a direita.
Apesar disso não levaram mais de meia hora
para chegar ao porto.
O navio que tinham em vista — o Storrata —
foi fácil de encontrar. Era a única embarcação em que havia outra iluminação
além das costumeiras luzes noturnas, e no qual se trabalhava.
Marshall levou a carroça até junto ao
passadiço, que descia do último dos três conveses sobrepostos.
— Vethussar nos manda a esta hora da noite
— gritou Marshall.
Eram as palavras que combinara com o comandante
do Storrata, por intermédio de Vethussar e de seu mensageiro.
— Subam! — gritou alguém.
Descarregaram o saltador, ainda
inconsciente, e subiram pelo passadiço.
Foram recebidos por uma pessoa que
envergava um uniforme colorido. Marshall sondou o conteúdo de seu cérebro:
surpresa, curiosidade e certo aborrecimento causado pela incumbência de zarpar
a uma hora dessas.
— Sou Fafer — disse o homem. — Sejam
bem-vindos.
Marshall agradeceu.
— Sentimos que, por nossa causa, você
tenha tanto trabalho — disse. — Mas tivemos oportunidade de prestar um serviço
nada desprezível ao seu amo, e ele deseja retribuir. Tenho certeza de que
também você sentirá os favores de Vethussar, se puder ajudar-nos a sair desta
terra sem que ninguém o saiba.
Marshall percebeu que o humor de Fafer
logo melhorou.
— Farei o possível — asseverou o
comandante. — Permitam que lhes mostre o lugar em que irão morar.
Perto da popa havia uma escada estreita
que levava ao convés do meio. Fafer seguiu em direção à popa e, depois de
chegar ao fim do corredor, abriu algumas portas atrás das quais ficavam
aposentos cujo esplendor deixou Marshall e seus amigos estupefatos.
— Aquela janela permite uma visão bem
ampla — explicou Fafer. — A popa do navio inclina-se da ponte de comando em
direção à água. Por isso pode-se olhar tanto para baixo como para cima.
Esse detalhe era importante. E outra
vantagem era que cada aposento possuía uma janela desse tipo.
Fafer indagou delicadamente se os
aposentos eram do agrado dos hóspedes. Despediu-se depois que estes asseveraram
que poucas vezes haviam morado num lugar tão confortável.
— A manobra será difícil — disse, como
para desculpar-se. — Daqui a uma hora, aproximadamente, a maré vai mudar. Se
não conseguirmos sair o suficiente com a maré vazante, a maré alta nos
carregará novamente para dentro do porto.
Quinze minutos depois ouviu-se o ribombo
de três tiros de canhão no convés superior. Pouco depois os quatro viram que o
panorama mudava diante das janelas. As luzes do porto recuaram e os contornos
escuros de outros navios deslizavam lentamente diante deles.
O Storrata saiu do porto.
* * *
Na manhã do dia seguinte várias pessoas
perguntaram a Vethussar, como que por acaso, o que era feito de seus hóspedes.
Este, que fora prevenido por Marshall, respondeu às perguntas com a maior boa
vontade.
Os quatro forasteiros haviam saído no
Storrata. Não, não seguiram em direção às ilhas ocidentais, mas para o
continente do sul. Sua missão era muito urgente, por isso Fafer, o comandante,
se mostrara disposto a zarpar ainda na mesma noite.
O primeiro “contato de segurança” de Marshall entrara em funcionamento. O fluxo
de informações estava em desenvolvimento.
* * *
O segundo “contato” era o próprio prisioneiro, chamado Szoltan.
Marshall tivera boas razões para não revistar
seu equipamento, quanto mais tirar-lhe alguma coisa. Tinha certeza de que devia
trazer consigo alguma coisa que lhe permitiria ao menos transmitir um sinal goniométrico
aos seus chefes.
E isso mesmo era necessário. Agora, que os
saltadores tiveram sua atenção despertada para eles, não adiantaria retardar o
regresso ao continente norte. O motivo principal — isto é, a opinião de que com
o tempo o atentado contra os patriarcas cairia no esquecimento — já não
existia.
E, para vencer a distância de cinco mil
quilômetros com maior rapidez do que seria possível num navio a vela, Marshall
precisaria dos próprios saltadores. Estes deveriam saber onde encontrar Szoltan
e os homens que o haviam aprisionado.
O resto correu conforme Marshall desejara.
O Storrata saiu do porto e antes da mudança da maré o vento enfunou suas velas,
deslocando-o lentamente em direção ao sul enquanto ia raiando o dia.
* * *
O planeta de Goszul — era este um nome que
não existia há muito tempo, ao menos em comparação com a história do povo que
atualmente era chamado de goszuls.
Os goszuls, que a si mesmos davam o nome
de gorrs e chamavam seu mundo de Gorr, foram primitivamente um grupo de colonos
arcônidas, que se estabeleceram nesse setor da galáxia, vindos de Árcon numa
imensa frota espacial. Isso acontecera há vários milênios. Portanto, os gorrs pertenciam
à mesma raça de Thora e Crest, ou dois arcônidas aos quais, em última análise,
Perry Rhodan devia o imenso avanço tecnológico da Terceira Potência.
Acontece que certas influências climáticas
e psicológicas existentes no planeta habitado pelos gorrs trouxeram um
retardamento, e finalmente a paralisação do desenvolvimento
técnico-civilizatório. Cerca de mil e quinhentos anos após o início da
colonização, a tecnologia dos gorrs começou a regredir. Certos objetos que,
séculos antes, eram usados por todos deixaram de ser fabricados, porque o povo
havia esquecido a maneira de produzi-los.
Não há dúvida de que o processo foi muito
lento. Provavelmente os habitantes de Gorr continuariam por mais vinte mil anos
uma raça dotada de uma tecnologia relativamente avançada, se o mundo de Goszul
não tivesse sido descoberto pelos saltadores, que decidiram acelerar o processo
de regressão por meios artificiais.
Os saltadores dispunham de todos os meios
para isso. Eram uma raça de mercadores, que não tinha uma verdadeira pátria. Em
compensação, detinham o monopólio do comércio galático e, como fossem os seres
que mais andavam pelos diversos mundos, eram considerados o grupo tecnicamente
mais avançado. Sob o ponto de vista racial também eram aparentados aos
arcônidas, mas no terreno político formavam um reino independente dentro do
Império Arcônida. Enquanto não surgisse nenhum perigo, as ligações entre eles
eram bastante frouxas. Mas sempre que um deles se via numa situação de
emergência causada por um elemento não pertencente ao grupo, vinha
imediatamente em auxílio de seus semelhantes.
Tiveram sua atenção despertada para a
Terra por causa do comandante da nave Orla XI, que observou que, no setor de
Vega, alguém praticava o comércio interestelar, rompendo o monopólio dos
saltadores. Orlgans, o comandante, colocara seus agentes na Terra e, só porque
Rhodan assim o planejara, conseguira capturar um prisioneiro muito importante.
Rhodan seguiu a nave dos saltadores, atacou-a e viu-se envolvido numa batalha
com as naves de guerra que acudiram às pressas. Compreendendo que com um grupo
de três naves, posteriormente aumentado para quatro, não conseguiria enfrentar
por muito tempo o poderio superior dos saltadores, dirigiu-se ao mundo
artificial do planeta Peregrino, a fim de pedir à entidade espiritual coletiva
que ali vivia que lhe concedesse uma arma nova e superior, o transmissor fictício. A entidade
espiritual coletiva, que era a concentração mental de uma raça que há muito se
extinguira fisicamente, apenas lhe concedeu dois transmissores que seriam
instalados na Stardust, o enorme couraçado espacial de Rhodan. Face a isso,
Rhodan continuou em situação inferior no terreno tecnológico. Depois disso
tinha de impedir que os patriarcas dos mercadores, reunidos em conferência
extraordinária no planeta de Goszul, resolvessem lançar um ataque imediato
contra a Terra.
Voltando ao planeta de Goszul: Ao reforçar
o efeito involutivo do ambiente de Gorr e introduzir no processo de regressão
um fator multiplicativo de dez mil, os saltadores criaram um mundo habitado
exclusivamente por inteligências subdesenvolvidas.
Transformaram o continente norte numa
base, deixando o resto intocado. Fizeram com que os gorrs, que passaram a ser
chamados de goszuls, acreditassem em deuses, deuses estes que não eram outros
senão os próprios saltadores. Fizeram de seus robôs os supremos sacerdotes,
controlando dessa forma a evolução do planeta.
Escolheram os mais inteligentes dentre os
goszuls e, depois de submetê-los a um ligeiro treinamento hipnótico,
transformaram-nos numa força de trabalho barata e submissa.
Tudo isso fazia com que o planeta de
Goszul — ou de Gorr — fosse uma advertência ao vivo do que aconteceria à Terra
se um dia os saltadores conseguissem conquistá-la.
* * *
Era perto do meio-dia.
Fafer tomara o rumo sudoeste.
Marshall e seus companheiros subiram ao
convés de comando, observando cuidadosamente os arredores do Storrata.
Quanto a Szoltan, todas as providências
haviam sido tomadas. Podia mover-se livremente num dos aposentos. Mas não podia
sair do camarote para o interior do navio.
Marshall levantou-se. Estivera sentado num
montão de corda enrolada, inspecionando um dos canhões que se encontravam na
ponte de comando.
Só deu alguns passos. Estacou diante das
palavras de Tako.
— Olhe! Ali!
Marshall agachou-se ao lado dele sobre o
tombadilho e olhou na direção em que Tako apontava. Com um suspiro de alívio
viu os três pontos negros que, deslocando-se pouco acima da superfície da água,
vinham do norte.
— Então deu certo — disse, satisfeito.
O vigia da gávea parecia ter descoberto a
mesma coisa ao mesmo tempo.
— Três embarcações estranhas vindas do
norte! — gritou.
Fafer, que se encontrava no convés do
meio, gritou de volta:
— De que tipo?
O vigia gritou:
— Não andam na água, mas acima dela.
Sua voz parecia amedrontada.
Marshall viu que também Fafer se assustou.
Os marinheiros que se encontravam nas proximidades de Marshall haviam
acompanhado a troca de palavras da gávea para o tombadilho. Marshall ouviu-os
murmurar:
— São os deuses nos seus carros voadores.
Fafer voltara a controlar-se.
— Continuem! — soou sua voz retumbante,
atingindo todos os conveses. — Veremos de que se trata.
Marshall transmitiu as últimas instruções.
— Ficaremos de prontidão aqui no convés.
Provavelmente ao menos um dos homens descerá de uma das naves e procurará
entrar em entendimento com o comandante. Não acredito que ataquem o navio, pois
temos um refém a bordo.
As naves aproximaram-se rapidamente.
Apesar das ordens de Fafer a tripulação parou de trabalhar. Atiraram-se ao
tombadilho quando as naves começaram a circular em torno do navio e uma delas
parou na altura do convés do meio, deixando descer um homem.
— Kitai... para a frente! — disse Marshall
entre os dentes.
Kitai esgueirou-se até a beirada da ponte
de comando e, escondido atrás de um mastro, desceu pela escada estreita que
dava para o convés do meio. Marshall viu-o tomar posição atrás do mastro.
Provavelmente o saltador viera na intenção
de falar com o comandante do navio. Mas de repente resolveu outra coisa.
Marshall viu-o segurar o microfone de bolso e mover os lábios.
A reação foi imediata. A nave da qual o
homem acabara de sair desceu ao convés. O outro tripulante também desceu. Outra
das naves ocupou a posição da primeira — na altura do convés do meio — e também
dela saiu um dos tripulantes.
Os três saltadores parados no convés do
meio lançaram os olhos por cima das costas da tripulação que os venerava,
atirada no tombadilho.
— Tako!
Foi uma ordem lacônica, executada
imediatamente. Tako desapareceu.
Marshall observou a nave que se mantinha
no ar, junto ao convés, mas não notou qualquer alteração, embora Tako acabasse de
ocupar o lugar do tripulante que acabara de descer.
Kitai Ishibashi fez um sinal de trás do
mastro. Os três homens que haviam descido estavam submetidos ao seu controle
sugestivo.
Por algum tempo não aconteceu nada.
Subitamente a nave para cujo interior Tako
acabara de teleportar-se foi colocada em movimento. Lentamente, como se estivesse
sendo pilotada por uma pessoa não muito familiarizada com o comando de um
veículo espacial, foi-se afastando do navio, ganhou altura e depois de algum
tempo parou.
Marshall observava-a bastante ansioso.
Um raio compacto de desintegrador saiu da
nave parada no ar e atingiu a outra, que ainda circulava em torno do navio.
Metade do veículo dissolveu-se em nuvens de gases turbilhonantes, enquanto a
outra metade caiu como uma pedra atirada com pouca força, bateu na superfície
com um estalo e desapareceu dentro de três segundos.
Marshall e Yokida desceram ao convés do
meio. Os três saltadores continuavam imóveis. Não haviam notado a derrubada de
uma de suas naves, nem deram a menor atenção aos três homens que se
aproximavam. Entre eles estava Kitai, que se unira a Marshall e Yokida.
— Fafer! — gritou Marshall.
Olhando por cima do cotovelo, Fafer
observara os acontecimentos estranhos que se desenrolaram em torno dele e
chegou à conclusão de que os passageiros que trazia a bordo deviam ser muito
mais poderosos que os deuses parados no convés. Levantou-se de um salto e
aproximou-se solícito.
— Preste atenção, Fafer! — disse Marshall.
— Você prosseguirá na viagem ao continente sul. Largue estes homens na primeira
ilha. Não tenha receio, que não são deuses. No momento em que perderem o navio
de vista terão esquecido tudo que aconteceu com eles. Prometo-lhe que você não
sofrerá qualquer castigo. Faça a mesma coisa com o prisioneiro que se encontra
num dos camarotes e com o homem que daqui a pouco descerá daquela nave.
Tako dispôs-se a pousar. Balançando, a
nave deslizou alguns metros por cima do convés e deu um empurrão violento em
alguns dos marinheiros que continuavam abaixados sobre o tombadilho, antes de
imobilizar-se.
Tako desceu com o rosto muito sério.
— Tive que matá-lo — disse. — Não me
deixava em paz.
— Quer dizer que você terá apenas quatro
prisioneiros — comunicou Marshall, dirigindo-se a Fafer, procurando disfarçar a
tristeza que a morte do saltador lhe causava.
Fafer prosseguiu no mesmo rumo, depois que
os dois carros voadores tinham levantado pouso, levando os passageiros a bordo,
e desapareceram em direção ao norte.

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