quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

P-035 - O Planeta dos Deuses - Kurt Mahr [parte 3]



Se não fossem os pensamentos dos tripulantes, Gucky nem teria notado que a pequena nave de reconhecimento acabara de pousar. Os neutralizadores antigravitacionais absorviam os impactos causados pela frenagem e pelo pouso.
A tripulação preparou-se para sair da nave. Gucky fez a mesma coisa.
Num salto de teleportação audacioso e extenso examinou os arredores mais amplos do enorme espaçoporto que os saltadores haviam instalado no continente norte do planeta de Goszul. Depois de algum tempo encontrou um lugar situado numa pequena cadeia de montanhas, que lhe parecia adequado para esconder os objetos que trouxera consigo. Retornou à nave para efetuar o transporte.
Tal qual fizera dez dias antes a bordo da Stardust, levantou cada um dos objetos por meio da telecinésia, segurou-o com as mãozinhas e o teleportou para o esconderijo que acabara de escolher.
Quando ia levantar a última peça, um pesado desintegrador automático, o desastre aconteceu.
Uma sucessão rápida de teleportações, ainda mais com bagagem, exige tamanha concentração que o indivíduo perde quase todo o contato com o mundo exterior.
Gucky não poderia ter percebido a presença do robô de reparos que, depois de a tripulação ter saído da nave, veio pelo corredor para verificar se havia alguma avaria.
Um simples acaso — o fato de que a poeira levantada pelos objetos afastados à pressa obrigou Gucky a espirrar — impediu-o de desaparecer em tempo com o último dos objetos, um desintegrador pesado.
No mesmo instante em que, depois de ter espirrado, Gucky pretendia concluir o trabalho, sentiu a vibração do chão.
Recorreu à telepatia para descobrir quem se aproximava do lado de fora. A tentativa não teve êxito. Antes que Gucky pudesse tomar qualquer providência, a escotilha do cubículo foi aberta, pondo à mostra um robô forte, de mais de dois metros de altura.
Por sorte de Gucky tratava-se de um simples robô de reparos, classe que, além de não portar armas, não possui uma capacidade de reação muito rápida.
Gucky deixou-se cair sobre as patas dianteiras e numa questão de segundos abriu o fecho de contato do envoltório hermeticamente fechado em que estava guardado o desintegrador. A arma era tão pesada que o rato-castor mal conseguiu movê-la, mas a certeza de que sem isso a missão fracassaria antes de ter começado conferiu-lhe novas forças.
Com dois movimentos repentinos elevou o cano o suficiente para que apontasse mais ou menos para o centro do corpo de metal plastificado do robô. Com um forte movimento da pata traseira puxou o gatilho.
O tiro arrancou um pedaço do robô, gaseificou o mesmo e fez com que o resto do mecanismo, dividido em duas partes desiguais, caísse ruidosamente ao solo.
Gucky voltou a guardar a pesada arma no envoltório, cerrou o fecho de contato e teleportou-se juntamente com o volume. Retornou para uma inspeção final.
Foi então que cometeu um erro.
O erro consistiu em acreditar que a falta de um simples robô de reparos não seria notada tão depressa.
Confiando nisso, Gucky saiu da nave a pé. Tinha certeza de que, se alguém o visse, pensaria que se tratava de um animal inofensivo. A única arma que trazia consigo, um pequeno radiador de impulsos, estava cuidadosamente escondida numa dobra da pele, e o traje espacial fora transportado para o esconderijo em que se encontrava o resto da bagagem.
A área imensa do espaçoporto parecia abandonada sob os raios fortes do sol 221-Tatlira, que era o nome sob o qual constava do catálogo estelar dos saltadores.
Havia muitas naves além daquela em que tinha vindo. Mas estavam tão longe que algumas delas permaneciam semi-ocultas sob a linha do horizonte.
Eram as naves dos patriarcas, todas elas gigantescas. Mas a essa distância pareciam delicadas e inofensivas.
Gucky brincou com a idéia de teleportar-se para bordo de um desses veículos e fazer algumas travessuras que causassem problemas aos patriarcas quando estes quisessem decolar. Mas logo se lembrou da missão que lhe fora confiada e da advertência de Rhodan:
— Os saltadores ainda não sabem que têm diante de si a frota espacial da Terra, a não ser que Marshall ou algum dos seus companheiros tenha aberto a boca. Mas se acontecer alguma coisa que lhes traga à lembrança os acontecimentos do Homem de Neve, do setor do Peregrino ou de outro ponto do espaço, não demorarão em tirar suas conclusões. Portanto, tenha cuidado.
Por isso Gucky abandonou a idéia.
Estacou quando viu o movimento acima do horizonte que tremulava ao ocidente. Parou e olhou em torno. Notou o mesmo movimento ao sul, ao leste e ao norte.
Esquadrilhas de pequenos veículos em forma de lentilha corriam velozmente sobre o campo aberto, seguidas por colunas de robôs que marchavam apressadamente. Foi tudo tão rápido que Gucky estava praticamente cercado antes de compreender que a causa de todo aquele movimento era ele mesmo.
Formava o centro para o qual tanto as naves como os robôs convergiam em linha reta.
Notaram a perda do robô”, constatou Gucky.
E registrou mais uma coisa. Desde que Rhodan recebera as últimas notícias de Marshall, deviam ter acontecido algumas coisas que fizeram com que os saltadores se tomassem extremamente cautelosos.
Gucky ficou curioso para saber o que Marshall teria feito nesse meio tempo.
Mas nem por isso esqueceu-se de abandonar em tempo o palco dos acontecimentos.
Afastou-se por meio de um salto de teleportação antes que alguém pudesse identificá-lo claramente, e antes mesmo que alguém pudesse ter a idéia de que o objeto da busca era ele.
Pousou nas proximidades do esconderijo para o qual havia transportado o equipamento. Não se entregou a ilusões. Os saltadores não se contentariam em dar busca no campo de pouso. O aparato de que lançaram mão fazia supor que no caso de um insucesso a estenderiam às áreas adjacentes, atingindo inclusive o local do esconderijo, que ficava a poucos quilômetros da extremidade leste do campo espacial.
E o pior não era isso. Os mini-comunicadores — aparelhos criados há pouco tempo, que apesar de seu tamanho reduzido permitiam o contato verbal direto e instantâneo a uma distância de vários anos-luz — mesmo quando não estavam funcionando emitiam uma radiação constante, gerada pela atividade ininterrupta das pequenas células energéticas, que produziam e armazenavam a energia necessária à próxima transmissão.
Gucky tinha certeza de que não desfrutaria por muito tempo o conforto de seu esconderijo. Mas antes que os saltadores se aproximassem, pretendia fazer alguma coisa que trazia em mente.

* * *

O vôo decorreu sem contratempos, a não ser os pequenos problemas que o manejo dos veículos totalmente desconhecidos causou nos primeiros minutos. Desenvolvendo a velocidade máxima, as duas naves de patrulha aproximaram-se da costa do continente norte.
Ao que parecia, as cidades eram muito raras naquela área. Só Kitai descobriu uma. Ficava à beira-mar e tinha um porto que tinha aproximadamente metade do tamanho do de Saluntad. Alguns navios a vela estavam ancorados no mesmo, o que provava que apesar do temor que lhes inspiravam os deuses, os ingênuos nativos mantinham contato com a terra dos deuses, nome que davam ao continente norte.
Depois que tinham passado pela linha costeira, Marshall desceu com sua nave e pediu que Tako Kakuta o seguisse. As duas naves voavam juntinho ao solo, formando um alvo muito pequeno para as estações de observação dos saltadores.
Marshall deixou-se guiar pelas impressões. Não tinha uma idéia exata sobre o local em que ficava o ponto de reunião dos saltadores. O terreno que sobrevoava era totalmente desconhecido. A única coisa de que se lembrava era que o gigantesco campo espacial em que estavam pousadas as naves dos patriarcas não ficava a mais de cem quilômetros da costa.
Por isso Marshall pousou oitenta quilômetros ao norte da linha costeira. Se fosse mais longe, estaria desafiando a sorte que até então os protegera.
Desceram e deixaram as naves para trás.
O terreno subia. Marshall lembrou-se de que ao sul do espaçoporto vira uma cadeia de montanhas não muito elevadas. Talvez fosse a mesma que começavam a escalar. Talvez bastasse chegar ao cume para ver o espaçoporto aos seus pés.
Quando começou a escurecer, montaram acampamento. Tama Yokida descobriu um pequeno vale que possuía várias saídas bem abrigadas e, principalmente, um suprimento de água.
A água matou sua sede. Mas não tiveram com que matar a fome. Praguejaram contra a própria tolice, que fizera com que não se suprissem de mantimentos.
Apesar disso dormiram profundamente até altas horas da manhã seguinte. Levantaram-se famintos, mas dispostos e animados.
Marshall prometeu que, no correr do dia, usariam o radiador de impulsos para abater um animal comestível, que seria assado no fogo aberto.
— Aliás — constatou Marshall — daqui até o espaçoporto não pode ser longe. Quando conseguirmos vê-lo diante de nós, e desde que Tako possa ajustar-se com uma certa precisão, poderemos viver dos mantimentos dos saltadores. Acho que eles não se alimentam mal.
Sorria e esteve a ponto de dizer mais alguma coisa. Mas de repente teve a impressão de que estava ouvindo alguma coisa. Estacou. O sorriso desapareceu.
Mas dali a pouco voltou.
— Estabelecemos contato! — exclamou. — Gucky está nas proximidades.
Kitai soltou um grito de alegria. Tako estava desconfiado.
— Tem certeza? — perguntou. Marshall confirmou com um rápido aceno de cabeça.
— Certeza absoluta. Gucky está a menos de cinqüenta quilômetros daqui, ao nordeste. Ele... silêncio!
Marshall voltou a escutar. Os outros ouviram que murmurava de si para si, dando respostas telepáticas, apoiadas pela palavra falada a fim de possibilitar uma concentração mais intensa.
— Sim... atentado bem sucedido... oitenta por cento dos patriarcas foram mortos... ainda acreditam que somos gente da Lev... o quê?... Isso mesmo, tripulantes da Lev XIV... só isso, tivemos que fugir... não, não tenho outras informações. Até agora não notamos nada que levasse à conclusão de que os saltadores mudaram de idéia... mas não temos a menor certeza. Sim, pode transmitir isso. Espere aí com quê? Com mini-comunicadores? Está bem. Fim.
Marshall virou-se apressadamente.
— Rhodan está por aí, rapazes! — exultou. — Encontra-se a oito dias-luz. Gucky mantém contato com ele. Traz consigo alguns aparelhos novos.
A alegria e a gratidão apossaram-se de suas mentes, fazendo com que esquecessem a fome que os martirizava. Marchando o mais rápido que o terreno acidentado e de visibilidade restrita permitia, deslocaram-se em direção ao lugar em que Gucky se mantinha escondido com sua bagagem.

* * *

Pela natureza das coisas e segundo a letra dos estatutos, Etztak era um igual entre seus pares — um patriarca entre outros patriarcas.
Todavia, os acontecimentos dos últimos dias, que confirmaram repetidamente que ele tivera razão ao demonstrar uma cautela aparentemente exagerada, e que aqueles que diziam que as coisas não estavam tão ruins assim estavam enganados, elevaram o velho acima dos co-patriarcas.
Passaram a dar atenção às suas palavras.
Todos começaram a indagar se poderia ser correta a suposição de Etztak, segundo a qual os causadores dos incidentes desagradáveis que se vinham verificando eram os seres que o comandante Orlgans descobrira há algum tempo num braço afastado da galáxia. Era uma suposição que há poucas horas qualquer pessoa teria tachado de idiota.
Etztak era um homem muito velho, mas possuía uma inteligência extraordinária.
— Mais uma vez os prisioneiros escaparam — disse com a voz retumbante, e Vallingar e Wovton, os patriarcas sentados ao seu lado no amplo salão, encolheram a cabeça como se fossem responsáveis pelo fracasso. — Um dos nossos agentes mais preciosos foi demolido a ponto de estar completamente inutilizado, um dos nossos homens foi seqüestrado, uma nave auxiliar foi destruída e duas foram aprisionadas, mais três homens foram seqüestrados e três foram mortos, e agora ao menos um daqueles seres traiçoeiros penetrou em nossa base a bordo da Frer LXXII. E não conseguimos encontrá-lo.
— Ainda não conseguimos encontrá-lo — retificou Vallingar em tom suave. — As buscas ainda não foram encerradas.
Etztak fez um gesto de desprezo.
— Se conseguiu desaparecer do campo espacial aberto debaixo de nossas vistas, não terá a menor dificuldade em esconder-se nas montanhas.
Até parecia que o homem da sala de comando aguardava essa palavra. O receptor de bordo emitiu um zumbido no instante exato em que Etztak acabara de proferir a última palavra. Etztak ligou.
— O que houve? — perguntou com a voz zangada.
— As naves de reconhecimento descobriram alguma coisa, senhor — respondeu o homem apressadamente e em tom assustado.
— O que foi que descobriram? — gritou Etztak impaciente.
— Radiações da quinta dimensão, bastante fracas. Não se sabe qual poderia ser a fonte dessas radiações. De qualquer maneira são consideradas suspeitas.
— Ah, são? — disse Etztak com uma risada sarcástica. — Pois diga a esses rapazes que pousem e dêem uma olhada naquilo, senão terão que explicar-se comigo.
Assustado, o homem prometeu que a ordem seria transmitida imediatamente.
Embora poucos segundos antes ele mesmo tivesse manifestado a opinião de que a busca seria infrutífera, Etztak falou em tom exultante quando se dirigiu aos patriarcas:
— Nem tudo está perdido. Dentro de poucos minutos poremos as mãos no sujeito, ou nos sujeitos.

* * *

Gucky surpreendeu-se com a rapidez com que as naves de reconhecimento conseguiram seu intento. Acabara de transmitir a mensagem de Marshall a Rhodan por meio do mini-comunicador e recebera a confirmação da mesma.
No momento em que colocou o aparelho cuidadosamente no chão para guardá-lo, viu a sombra da primeira nave deslizar por cima dele.
Recuou alguns metros, procurando um abrigo, e olhou em torno.
Não era só esta nave que se aproximava do seu esconderijo. Vinham de todos os lados: quinze, vinte, vinte e cinco.
Gucky encontrava-se numa armadilha.
Era bem verdade que a armadilha não o atingia pessoalmente. Mesmo no momento em que um inimigo estendesse a mão em sua direção ainda poderia colocar-se em segurança através de um salto de teleportação.
Mas havia os equipamentos! Além de serem muito preciosos, revelariam aos saltadores quem era o inimigo que tinham diante de si. E por enquanto isso teria que ser evitado a todo custo.
Gucky saiu por um instante de trás da rocha que lhe servia de abrigo para guardar o mini-comunicador e o respectivo estojo. Apressadamente fechou o mesmo e pôs-se a lidar com outro volume, do qual retirou o desintegrador automático.
Começou a levar os volumes a um lugar seguro. Lembrou-se de um rio que corria na extremidade oposta do planalto e, depois de passar por um túnel de rocha, penetrava na planície litorânea. Era bastante profundo para os fins que Gucky tinha em vista. Sua profundidade chegava mesmo a ser suficiente para evitar que as radiações constantes dos minicomunicadores pudessem penetrar na atmosfera.
Gucky tinha uma chance diminuta de livrar-se de toda a bagagem antes que os saltadores chegassem, mas essa chance não se realizou.
Agachado sobre o cano do desintegrador pesado, matou cinco saltadores que haviam descido da nave e, segurando os instrumentos de medição numa das mãos e a arma na outra, vinham na direção exata do esconderijo de Gucky.
Depois disso chamou Marshall.

* * *

Marshall estava subindo por uma rocha lisa, quando o chamado de Gucky o atingiu. A intensidade era tamanha que de tão assustado Marshall largou o apoio que a custo conseguira alcançar, escorregando alguns metros até voltar para junto dos companheiros, que o aguardavam ao pé da rocha.
— Silêncio!
A mensagem de Gucky foi curta e precisa.
— Gucky está em dificuldades — disse Marshall apressadamente. — Os saltadores conseguiram cercá-lo, e não quer deixar a bagagem para trás. Pergunta se Tako poderia chegar para junto dele.
A reação de Tako foi instantânea.
— Qual é a distância e os sinais característicos?
— A distância é de cerca de quarenta e cinco quilômetros, direção leste-norte-leste. Sinal característico: uma reunião de pequenas naves dos saltadores, em parte pousadas, em parte no ar.
Tako confirmou com um aceno de cabeça.
— Está bem — disse laconicamente.
No mesmo instante desapareceu.

* * *

Tako aterrizou dois metros atrás das costas de Gucky. Este esforçava-se para lidar com o desintegrador pesado. No instante em que Tako apareceu, um disparo energético esverdeado saiu do cano com um zumbido, fazendo a desgraça de alguns saltadores que tentavam aproximar-se do esconderijo.
— Cuidado, Gucky! — gritou Tako. — Cheguei.
Gucky virou-se tranqüilamente e exibiu o dente roedor.
— Já sei — sussurrou. — Acontece que ainda não tive tempo para cumprimentá-lo.
Com a pata direita apontou para um dos volumes cinzentos que se encontravam a seu lado.
— Abra isso e tire o radiador de impulsos. Esses sujeitos ainda nos incomodarão por muito tempo.
Tako apressou-se em obedecer Foi só quando segurava a arma nos braços que teve tempo para avaliar a situação.
Gucky encontrava-se no flanco sudoeste de uma rocha monolítica que se erguia em forma de torre. Algumas rochas menores forneciam-lhe abrigo. As naves de reconhecimento pareciam conhecer o ponto exato em que se encontrava o inimigo, pois, ao circularem em torno da rocha, aproximavam-se dela muito mais nos flancos leste e norte que nos outros.
Ainda não tiveram oportunidade de disparar um único tiro eficaz contra Gucky, pois o alcance de arma automática deste era ao menos igual ao dos canhões leves montados nas naves.
Abrigando-se atrás de algumas rochas pequenas, Tako arrastou-se para o flanco norte da elevação, levando o radiador de impulsos. Colocando-se numa posição segura, dirigiu o cano da arma para cima e transformou cinco naves dos saltadores numa massa de metal plastificado em volatilização, antes que estes compreendessem que também deste lado da rocha se defrontavam com um perigo, e que estava na hora de manterem uma distância respeitosa.
Tako rastejou de volta. O monte de bagagem que se encontrava ao lado de Gucky diminuíra. Gucky aproveitava cada segundo de que podia dispor para teleportar-se com uma peça e voltar. Ainda faltavam quatro volumes que teriam de ser transportados para o esconderijo seguro situado sob a superfície do rio.
— Assim que descobrirem que deste jeito não conseguem nada — disse Tako, observando as naves que continuavam a descrever círculos largos em torno da rocha — lançarão sua artilharia pesada contra nós.
Gucky acenou com a cabeça.
— Sei disso. Mas acho que terminaremos antes que cheguem.
Desapareceu com um dos quatro volumes. Dali a vinte segundos levou mais um.
Foi quando os saltadores voltaram ao ataque. Conceberam uma tática diferente. Vindos de dois lados — do sul e do oeste — atacaram a pé. Ao mesmo tempo meia dúzia de naves contornou a rocha próxima ao solo, vindo de cada um dos dois lados.
Se Gucky estivesse sozinho, essa forma de ataque poderia tornar-se muito perigosa. No entanto, Tako encarregou-se de um dos grupos de atacantes e, antes que os mesmos pudessem fazer outra coisa senão disparar alguns tiros a esmo, meteu-lhes tamanho susto que se retiraram precipitadamente. O trabalho que Gucky desenvolveu no outro flanco não foi menos bem sucedido. Os saltadores fugiram aos tropeções e, ao que tudo indicava, Gucky teria alguns minutos de sossego para completar seu trabalho.
Transportou um dos últimos volumes para o novo esconderijo; tratava-se dos estojos vazios do desintegrador automático e do radiador de impulsos que estava sendo usado por Tako. Depois apontou para o último volume e disse:
— Leve-o a Marshall e volte. Faço votos de que até lá consiga defender-me sozinho.
Tako não sabia o que havia naquele volume. De qualquer maneira Gucky achava que era uma coisa importante. Tako colocou-o nos braços, fechou os olhos para rememorar o lugar em que deixara Marshall e seus amigos e saltou.
Marshall não teve tempo para formular qualquer pergunta. Antes que se recuperasse do susto causado pelo súbito aparecimento de Tako, este voltou a desaparecer.
Nada de novo tinha acontecido com Gucky.
— Ainda estão com medo — sussurrou este em tom zombeteiro.
Tako viu que na extremidade do planalto algumas das naves dos saltadores decolaram, subiram obliquamente e tomaram o rumo oeste. Era naquela direção que ficava o enorme espaçoporto. Podia-se apostar mil contra um que haviam saído em busca de apoio.
— É claro que você tem razão — disse Gucky, lembrando Tako de que, além de possuir os dons da telecinésia e da teleportação, era um eficiente telepata. — Saíram em busca de auxílio. Acontece que, quando voltarem, não encontrarão nenhum inimigo contra o qual possam ser ajudados.
Tako descreveu com a maior precisão possível o lugar em que Marshall os esperava. Saltou na frente e surpreendeu-se ao ver que sua descrição fora tão exata que poucos segundos depois Gucky pousou a menos de dez metros.
Marshall, Kitai e Tama cumprimentaram-no cordialmente. Falando com a voz sussurrante e zombeteira que lhe era peculiar, Gucky disse:
— Se fosse por mim, não teria vindo. Acontece que Rhodan disse que fosse ver se, por acaso, os quatro macacos cabeludos ainda estão vivos. Aí não tive outra alternativa.
Mas logo deixaram de fazer brincadeiras. Lembraram-se de que depois do último incidente a situação não era tão brilhante como seria de desejar para que pudessem executar sua missão. A atenção dos saltadores fora despertada, e isso não de forma genérica, como acontecera há algumas semanas, mas de forma especial, sobre os acontecimentos que se desenrolavam nas imediações do lugar em que se encontravam. O continente norte seria coberto por uma rede de naves de reconhecimento, e provavelmente as malhas dessa rede seriam tão estreitas, que dificilmente haveria uma chance razoável de escapar pelas mesmas.
— Temos que descobrir uma coisa inteligente — disse Marshall contrariado — e logo!

* * *

Vallingar constatou que Etztak sofreria um colapso se não se acalmasse logo.
Nunca vira ninguém que soubesse aumentar a própria raiva como Etztak. Com a voz esganiçada, gritava palavras desconexas, praguejando ora contra os pilotos das naves auxiliares, ora contra a organização da operação de busca, e finalmente contra toda a raça “decadente” dos saltadores.
Era bem verdade que Vallingar não pôde deixar de reconhecer que havia motivo para tamanha exaltação.
Treze naves destruídas, trinta e oito homens perdidos!
E isso numa luta contra um inimigo que nem chegara a ser visto, do qual não se sabia sequer quem era e qual era sua força. De início os tripulantes das naves informaram que o fogo só provinha de um lugar. Mas pouco depois tiveram que mudar de opinião, pois o fogo foi aberto de outro lugar, ocasionando a perda de cinco naves e das respectivas tripulações.
Mandaram trazer armas pesadas. Mas antes que as mesmas pudessem ser utilizadas, as tripulações das outras partes conseguiram tomar de assalto o esconderijo do inimigo, sem encontrar a menor resistência.
Esse resultado poderia ser considerado plenamente satisfatório, se em virtude dele tivessem capturado o inimigo. Mas o homem, ou os homens que se defenderam com tamanha eficiência pareciam ter-se dissolvido no ar. O esconderijo estava vazio.
Era essa a causa da fúria de Etztak.
Nos últimos momentos em que esteve em seu perfeito juízo mandara que todas as naves disponíveis se lançassem numa enorme operação de busca, que abrangeria todo o continente e grande parte das áreas marítimas adjacentes.
Depois disso começara a esbravejar e até agora não havia feito nenhuma pausa, muito menos dado mostras de que pretendesse acabar num tempo previsível.
Nos primeiros momentos a fúria do velho enervara Vallingar. Mas acabou acalmando-se e, reclinado confortavelmente na poltrona, suportou os acessos de raiva com uma espécie de agradável curiosidade.
O intercomunicador de bordo deu sinal. De tão furioso que estava, Etztak nem percebeu o zumbido. Por isso Vallingar estabeleceu o contato. O homem que se encontrava do outro lado da linha mostrou-se aliviado por não ver o rosto furibundo de Etztak na tela.
— Mais duas naves foram destruídas, senhor — disse com um suspiro.
— Onde? — perguntou Vallingar com a maior tranqüilidade de que foi capaz.
O homem indicou o local exato em que as naves haviam sido derrubadas. Vallingar procurou-o no mapa de plástico, cuja projeção cobria uma das paredes da sala.
Depois procurou despertar Etztak da sua fúria. Só o conseguiu depois que pegou o robusto velho na gola da capa e o obrigou a virar-se de tal maneira que teve de encará-lo.
— Mais duas naves foram derrubadas — disse Vallingar com a voz tranqüila.
Depois de interrompido no seu acesso de cólera, Etztak não perdia o autocontrole sem mais nem menos.
— Acontece que isso nos fornece uma indicação sobre a rota do inimigo — acrescentou Vallingar.
— Onde... como...?
Vallingar arrastou Etztak até o mapa.
— Aqui — disse, apontando para uma ampla mancha verde-claro. — Foi aqui que há uma hora nossas naves brigaram com o inimigo sem o menor resultado. E aqui — a mão de Vallingar deslizou para a esquerda, apontando para um lugar que ficava mais ou menos no centro da linha que unia a mancha verde ao retângulo branco que representava o espaçoporto — foram derrubadas as duas naves. Compreendeu?
Etztak confirmou com um gesto feroz.
— Compreendi — resmungou. — Estão avançando em direção ao campo de pouso.

* * *

A idéia inteligente concebida por Marshall, Gucky e seus companheiros foi a seguinte:
Precisavam de um lugar seguro para esconder-se durante o tempo em que não recebessem novas instruções de Rhodan, e os saltadores recorressem a toda sua habilidade para localizá-los.
Um esconderijo em algum lugar deserto não serviria. Era justamente ali que os saltadores os procurariam, e com os recursos de que dispunham a chance de não serem descobertos era mínima. Teriam que esconder-se num lugar em que os saltadores só realizariam uma busca superficial, por suporem que nas condições ali reinantes seriam encontrados logo.
Teriam que esconder-se entre homens.
Os saltadores acreditavam que os fugitivos, que eram membros da tripulação da Lev XIV, seriam facilmente reconhecíveis, especialmente, por exemplo, pelos tripulantes dos veleiros primitivos que estavam ancorados junto à costa sul. Se lhes acudisse a idéia de que os homens que procuravam podiam estar escondidos por lá, se limitariam a uma inquirição junto aos comandantes dos navios. Estes não deixariam de dar resposta verídica à indagação de um “deus”.
— Vamos nos esconder num dos navios! — foi esta a diretiva.
Todavia, teriam que tomar seus preparativos. Os saltadores não deveriam conhecer o caminho da fuga, pois isso representaria uma indicação de suma importância.
Era necessário desviar sua atenção. Devia-se fazê-los acreditar que os inimigos se deslocavam em outro sentido — para o espaçoporto, por exemplo, levando-os a chamar os grupos de busca que operavam nas outras partes do continente norte.
Esta parte da missão ficou a cargo de Tako e Gucky. Este fez questão de que Marshall e seu grupo ficassem com uma das armas pesadas. Por isso Marshall ficou com um radiador de impulsos. Tako e Gucky equiparam-se com o desintegrador e uma delicada arma de bolso.
Não havia a menor dúvida de que a missão era perigosa. Assim que tivessem dado sinal de sua presença, teriam que defrontar-se com toda a organização de busca dos saltadores. E acontecia que só tinham um conhecimento bastante limitado do terreno em que teriam de operar. Era bem possível que depois de um salto viessem parar no meio de um grupo de reconhecimento dos saltadores, e nesse caso a possibilidade de escaparem ilesos era bastante reduzida.
Mas tinham de arriscar.
Um tanto abatidos, Marshall, Kitai Ishibashi e Tama Yokida, que seguiriam para o sul em direção à costa, despediram-se dos teleportadores.

* * *

O céu estava preto de tantas naves auxiliares, pesados veículos deslizantes que, entre os saltadores, desempenhavam o papel de caminhões e pequenas naves de reconhecimento, que eram mais ou menos do tamanho da Frer LXXII, na qual Gucky chegara ao planeta.
Tako e Gucky estavam escondidos numa caverna, e esperavam para ver o que fariam os saltadores. Poucos minutos antes haviam derrubado duas de suas naves e, conforme era de prever, logo depois toda a frota que participava da operação de busca se reunira no local.
Acontece que a mesma não possuía a menor indicação, a não ser a destruição das duas naves. Gucky e Tako não emitiam qualquer tipo de radiação que pudesse ser localizada. O mini-comunicador ficara com Marshall.
Tako olhou para o relógio. Fazia uma hora e meia que Marshall se pusera a caminho. Para alcançar o porto mais próximo teria de marchar quase cem quilômetros, pois era de supor que durante a busca intensa os saltadores já tivessem encontrado as duas naves capturadas. Por isso a ação desviacionista teria que ser prolongada ao máximo para que pudesse ajudar Marshall.
— Temos que passar para o outro lado — cochichou Gucky.
Estava aludindo ao lado oposto do longo vale, que se estendia do leste para o oeste, isto é, a um ponto situado algumas centenas de metros ao norte. Sem dúvida esse ponto ficava fora da área em que os saltadores supunham que os autores do atentado estivessem escondidos.
Tako confirmou com um aceno de cabeça. Convinha preparar sempre surpresas novas para os saltadores.
Saltaram com um intervalo, depois de terem combinado com a maior precisão o ponto de destino do salto. Pousaram aproximadamente a meia altura de uma grande encosta de pedras, da qual sobressaíam alguns blocos de rocha. Gucky, que saltou em último lugar, surgiu a menos de quinze metros do japonês e, como este, procurou abrigar-se imediatamente atrás da rocha mais próxima. Estavam bem ajustados um ao outro.
Viram que do lado oposto do vale as naves dos saltadores pousavam cautelosamente e as tripulações desceram ainda mais cautelosamente.
Alguns veículos destacavam-se do grupo, passavam junto aos flancos íngremes do vale e esforçavam-se para encontrar qualquer pista dos homens que procuravam.
— Vamos dar-lhes uma pequena ajuda — sugeriu Tako.
Descansou o desintegrador sobre uma rocha, fez pontaria por cima do cano e esperou. Tinha tempo; não havia necessidade de seguir o inimigo com a arma. A qualquer momento um deles se colocaria à frente da mesma.
Dali a alguns minutos chegou o momento em que isso aconteceu.
A única coisa que Tako teve que fazer foi curvar o dedo e soltar o gatilho em seguida.
Conseguiu o que queria. Um raio desintegrador de apenas um décimo de segundo atingiu a pequena nave que se aproximara demais, e volatilizou parte de seu casco. Tako não teria o menor trabalho em destruí-la juntamente com a tripulação. Mas ficou satisfeito em ver que a nave descontrolada perdeu altitude e atingiu o chão com um forte baque. As equipes de socorro, formadas às pressas, acorreram de todos os lados. Pareciam nervosas e assustadas.
Tako tinha certeza de que a tripulação ainda estava viva.
Desta vez a reação dos outros veículos dos saltadores foi muito interessante. Alguém parecia ter visto de onde viera o tiro e transmitiu seu conhecimento aos outros. Com uma rapidez e segurança até então desconhecida nos saltadores, estes se afastaram do lugar em que estavam procurando e precipitaram-se para o flanco norte do vale.
— O tempo não está bom para nós — resmungou Tako e colocou a pesada arma sobre os braços. — Vamos para o oeste.
Poucos segundos depois de terem mudado de lugar, os projéteis disparados pelas naves dos saltadores começaram a detonar no ponto em que antes se encontravam.

* * *

Depois de terem caminhado durante três horas sem serem perturbados, Marshall e seus companheiros chegaram a uma espécie de estrada.
Marshall trazia o radiador de impulsos sobre o ombro. A arma não pesava muito, pois Tama Yokida, o telecineta, suportava parte do peso por meio de seu dom especial. Concentrou o resto de sua potência telecinética sobre o mini-comunicador, que carregava juntamente com Kitai Ishibashi, caminhando atrás de Marshall.
Marshall parou junto às marcas de roda. Parecia pensativo.
— Alguma coisa não lhe está agradando? — perguntou Kitai.
A mão esquerda de Marshall apontou para as marcas.
— É isto — respondeu. — Você acredita que os saltadores permitiriam que os ingênuos goszuls penetrassem tão profundamente no continente? Afinal, estamos a mais de sessenta quilômetros do mar.
Kitai abanou a cabeça.
— Não devem ser os goszuls. Talvez os próprios saltadores tenham deixado estas marcas.
— Não é possível; eles não usam veículos de rodas. São nômades até o fundo da alma. Percorrem o espaço e não gostam de fixar-se em qualquer planeta. Não saberiam o que fazer com um veículo que anda sobre rodas.
— Quem poderia ter sido? — resmungou Kitai.
Marshall deu de ombros.
— Não sei — respondeu. — Veremos, pois vamos caminhar pela estrada.
Mantinham-se à esquerda do caminho, onde as rodas só haviam chegado vez ou outra, pois era difícil caminhar nas marcas profundas deixadas pelas rodas. Meia hora passou-se sem que sua curiosidade fosse satisfeita.
Subitamente Kitai parou e obrigou Tama, que o ajudava a carregar o mini-comunicador, a parar também.
— Ouçam! — exclamou.
Aguçaram o ouvido. De algum lugar, provavelmente das primeiras montanhas a cujo pé se encontravam, veio um ruído crepitante.
— Olá! — disse Marshall espantado. — Até parece o primeiro automóvel de meu avô.
Pararam e esperaram. Nem de longe pensaram na possibilidade de que uma coisa que fizesse um barulho tamanho pudesse representar um perigo.
Depois de algum tempo viram. Numa curva arriscada, saiu da primeira volta do caminho, entrou pelo capim adentro e parou. O ruído crepitante cessou, mas poucos segundos depois voltou a soar mais forte, e o estranho veículo deslocou-se pelo capim, dócil mas um pouco devagar. Descreveu uma curva larga, voltou à estrada e aumentou de velocidade assim que atingiu as marcas de roda. Aproximou-se do grupo que se mantinha à espera. Marshall riu.
— Isso não é o primeiro carro de meu avô; é o primeiro carro de meu bisavô.
Três homens estavam sentados naquela coisa. Não havia dúvida de que eram goszuls, mas seus trajes eram diferentes daqueles usados pelos goszuls que os homens do grupo de Marshall haviam visto até então.
Marshall não teve necessidade de ler seus pensamentos para saber quem eram. Pertenciam ao grupo que os saltadores haviam julgado digno de receber um superficial treinamento hipnótico, a fim de ser transformado numa força de trabalho barata — ou melhor, numa força de trabalho escrava.
Pareciam orgulhosos em cima do incrível veículo e mostraram-se espantados diante dos três caminhantes que se esforçavam para esconder a hilaridade.
O condutor do veículo esforçou-se para parar. Mas só conseguiu fazê-lo, com o motor aos estalos, quando já havia passado alguns metros pelo grupo de Marshall.
Este percebeu os pensamentos dos goszuls. Pensavam que ele e os dois japoneses também fossem trabalhadores a soldo dos saltadores — ou servos dos deuses, como diziam os ingênuos goszuls.
— Aonde vão? — perguntou o homem que se encontrava na direção, uma vez concluído o difícil trabalho de imobilizar o veículo.
Falava o intercosmo no mesmo tom cantante dos habitantes ingênuos do planeta de Goszul. Marshall nem se esforçou para imitar esse tom.
— Vamos ao porto — disse laconicamente.
O goszul espantou-se.
— A pé?
Marshall leu os pensamentos que iam pela cabeça do goszul. “Será que os deuses não dispunham de nenhum carro?”
— Os deuses não nos puderam dar nenhum carro — respondeu Marshall. — Poderiam levar-nos?
— Você sabe que não é possível — respondeu o goszul.
Marshall leu a informação. O veículo só suportava o peso de três pessoas. Marshall virou-se para Tama e cochichou ao ouvido do mesmo:
— O carro só pode levar três pessoas. Será que você poderia levantá-lo?
Tama confirmou com um aceno de cabeça e Marshall voltou a dirigir-se ao goszul.
— Vamos experimentar com cuidado. Está certo?
Sem aguardar uma resposta, subiu na armação de plástico que formava a parte mais importante do automóvel. O goszul que se encontrava na direção ia protestar, mas não teve tempo para fazê-lo, pois, embora Kitai e Tama subissem logo depois de Marshall, o veículo não quebrou.
— Está vendo? — disse Marshall rindo. — Dá perfeitamente. Vamos embora.
O goszul nem pensou em obedecer. Marshall viu a desconfiança despontar em seus pensamentos.
— Quem são vocês? Por que fala de maneira tão estranha, e que instrumento é este que você carrega no ombro?
— Não sei — respondeu Marshall em tom indiferente. — Os deuses não costumam dizer aos seus servos o que estes estão carregando para o porto a mando deles.
O Goszul parecia satisfeito com a resposta.
— Por que sua fala é tão estranha? — perguntou.
— Venho de longe — explicou Marshall.
— Não me diga que vem do continente sul — disse o goszul com os olhos brilhantes.
Marshall cometeu a imprudência de não formular uma indagação ao cérebro estranho antes de dar a resposta.
— Isso mesmo — disse.
No mesmo instante reconheceu o erro que cometera.
— Também sou de lá — exclamou o goszul. — Somos patrícios; mas... — interrompeu-se e prosseguiu com os olhos semicerrados — justamente por isso não compreendo por que sua fala é tão estranha.
Marshall dispôs-se a prestar um esclarecimento amplo; falaria no destino que o arrastara a muitos países, e dali por diante. Mas antes que pudesse falar o goszul fez um gesto e disse:
— Talvez eu esteja enganado. Para dizer a verdade, seu modo de falar nem é tão estranho.
Virou-se e dispôs-se a pôr o motor a funcionar.
Marshall olhou para Kitai. Este deu um sorriso malicioso. Marshall falou baixo:
— Obrigado. As coisas estavam começando a ficar perigosas.
Marshall interessou-se pelo motor que movia o veículo. Neste meio tempo, o goszul que se encontrava na direção já o pusera a andar. Quando ouviu o ruído bem de perto, Marshall não teve mais a menor dúvida de que se tratava de um motor de combustão interna, do tipo dos motores a gasolina. Era bem verdade que o cheiro dos gases de escapamento não lembrava nada que jamais tivesse tocado o nariz de Marshall, mas isso não significava nada. Afinal, um motor de combustão interna também pode ser alimentado com cachaça.
O milagre era outro. Os saltadores, uma raça ligada ao espaço, que não tinha o menor interesse pelos veículos de roda, deram-se ao trabalho de inventar um veículo semelhante a um automóvel para seus servos. Provavelmente não quiseram arriscar-se a confiar aos goszul recursos técnicos que ultrapassassem este motor que funcionava muito mal.
Dali se deveria concluir que não confiavam muito nos goszuls submetidos ao treinamento hipnótico?
Marshall revolveu os pensamentos dos três servos dos deuses, mas não encontrou a menor indicação de que tivessem qualquer pensamento de rancor para com os saltadores. Era bem verdade que isso não queria dizer nada, pois no momento nem pensavam nos saltadores.
Tama Yokida encarregara-se de aliviar parte do peso do veículo, para que o motor que fungava pesadamente pudesse deslocá-lo. O goszul que se encontrava na direção ficou admirado com a velocidade que o veículo descrevia ao sacolejar pela estrada. Virou a cabeça e gritou em tom alegre:
— Daqui a três horas estaremos no porto.

* * *

A estranha batalha deslocara-se para o norte. Pelos cálculos de Tako, deviam encontrar-se na altura da extremidade norte do enorme espaçoporto. Estava na hora de chegar para o oeste.
As lutas mais ou menos prolongadas haviam custado aos saltadores um total de cinco naves auxiliares e dois transportadores. O único resultado que puderam comunicar aos superiores foi que, depois de cada tiro, conseguiam localizar prontamente o atirador, mas que o contragolpe sempre chegava tarde.
A histeria tomou conta dos grupos de busca.
O que tinham diante de si não era um inimigo como qualquer outro; eram fantasmas.
Etztak gritava num novo acesso de fúria. Disse que qualquer um que se atrevesse a suspender as buscas antes que o inimigo estivesse morto ou preso seria condenado à morte.
Quatro horas e meia já se haviam passado desde que se separaram de Marshall. Pelos cálculos de Tako, pelo menos quatro vezes esse tempo se passaria antes que Marshall conseguisse chegar ao porto. Marshall ainda não os avisara de que conseguira tomar um veículo.

* * *

A cidade não era Saluntad, e nenhuma das casas tinha a menor semelhança com a que Vethussar possuía no sul.
Mas tinha um porto, e nesse porto estavam ancorados três veleiros de alto-mar de grande porte. Havia lugar de sobra para esconder uma companhia inteira de guerrilheiros terrestres.
De repente Marshall teve muita pressa em sair do carro. À primeira vista notou que na cidade havia grande número de robôs dos saltadores e, enquanto não sabiam quais eram suas funções, não poderiam ter certeza de que um deles não fosse examinar por iniciativa própria os ocupantes do veículo trepidante. Nesse caso não se deixaria demover pela sugestão ou por qualquer outra força, a não ser pelo uso das armas.
Marshall agradeceu aos três goszuls, prometeu retribuir a gentileza um belo dia e afastou-se com os companheiros. O goszul que ia na direção ficou admirado ao notar que agora, que a carga era menor, o carro não obedecia tão bem como antes.
Marshall saiu da rua principal, pois achava que a mesma era movimentada demais e muito freqüentada pelos robôs. Juntamente com Tama e Kitai, que novamente carregavam o mini-comunicador, entrou por uma viela que, pela direção, parecia levar à zona portuária.
Marshall refletiu sobre se convinha transmitir a Gucky a informação de que haviam chegado ao porto antes do tempo previsto, mas felizmente não chegou a levar o pensamento ao fim. De outra forma poderia ter enviado a mensagem.
Outra viela cruzou aquela pela qual estavam seguindo, e um pequeno grupo de robôs dobrou a esquina, produzindo um som metálico com suas pisadas.
Marshall olhou disfarçadamente. Havia muita gente que também havia notado os robôs, mas não se preocupava com sua presença. Marshall achou que devia fazer a mesma coisa. Seguiu pelo lado direito, tão perto das casas que a cada passo que dava o cano do radiador de impulso raspava a parede numa extensão de meio metro. Prosseguiu na marcha e olhava fixamente para a frente, como se refletisse sobre um problema importante.
Mas os robôs não estavam dispostos a permitir que os três homens passassem por eles sem mais nem menos. Quando se encontravam a uns cinco metros, o da frente parou, o outro colocou-se ao seu lado, e assim por diante, até fecharem toda a largura miserável do beco.
— Parem! — gritou a voz metálica de um deles. — Vocês vieram à cidade no último carro?
Reunindo todo o sangue-frio que ainda lhe restava, Marshall parou diante do robô que acabara de formular a pergunta, olhou-o dos pés à cabeça num gesto de desprezo e respondeu:
— Isso mesmo. Você tem alguma coisa com isso?
A reação daqueles que, até então, talvez acreditassem que poderiam assistir a uma cena divertida foi bastante significativa. O beco esvaziou-se num instante. Todos procuraram a entrada da casa mais próxima. Só os quatro robôs e os três homens continuavam no beco.
— Que instrumento é este que os dois estão carregando? — prosseguiu o robô nas suas perguntas, sem dar atenção à observação sarcástica de Marshall.
Um lampejo passou pela cabeça de Marshall: o mini-comunicador! Conforme Gucky lhe havia dito, emitia radiações inertes. E os robôs haviam registrado as mesmas.
Pois bem”, pensou Marshall numa atitude resignada. “Ao menos sabemos que não adiantará tentar enganá-los.”
— Não sei — respondeu em tom despreocupado.
Com a rapidez peculiar ao seu cérebro eletrônico o robô tomou sua decisão.
— Sigam-me! — ordenou.
Sem dizer mais uma palavra, virou-se e andou pelo caminho por onde tinham vindo. Marshall seguiu-o. As três máquinas restantes pararam até que Tama, que era o último do grupo, tivesse passado por eles e passaram a formar a retaguarda.
Sem preocupar-se com o risco que isso representava, cochichou em inglês para os companheiros:
— Só atiraremos quando estivermos numa área menos movimentada. Não queremos testemunhas.
Os outros compreenderam. Kitai poderia ordenar a duas, três ou mesmo quatro testemunhas que esquecessem o que haviam visto, mas diante de um número maior seria impotente. E o tumulto que se espalharia na cidade com a notícia da “morte” de quatro robôs era o que menos lhes convinha.
Seguiram docilmente o robô que ia à frente e evitaram virar a cabeça para os que seguiam atrás.
O da frente entrou no beco pelo qual havia vindo. Marshall alegrou-se ao ver que, ao sudoeste, as casas começaram a ficar mais espaçadas. Se conseguissem chegar lá sem que fossem presos pelos robôs, a batalha estaria praticamente ganha.

* * *

Tako atingiu outra nave. Viu que se descontrolou e caiu. Preparou-se para saltar. Os saltadores haviam adotado o hábito de reagir com a maior rapidez diante de cada tiro.
Mas desta vez as coisas foram diferentes. Tako esperou que as máquinas se aproximassem, mas as mesmas continuaram onde estavam.
Por enquanto; depois reagruparam-se, subiram e tomaram o rumo sul. Ultrapassaram a cadeia de montanhas mais próxima e desapareceram.
Tako riu.
— Será que é um novo truque?
Não poderia adivinhar a palestra que poucos segundos antes Etztak mantivera com a cidade portuária de Vintina, nem as instruções que acabaram de ser transmitidas aos pilotos que participavam da busca.
— Não compreendo — cochichou Gucky.
Abanou a cabeça e esteve a ponto de dizer mais alguma coisa. Mas nesse instante seus olhos arregalaram-se. Com o corpo rígido, olhou fixamente para a frente, como se estivesse escutando alguma coisa.
— Marshall e seus companheiros foram aprisionados na cidade por um grupo de robôs. Não compreendo tudo, mas ao que parece estão em dificuldades. Temos que seguir imediatamente para lá.
Marshall havia fornecido a localização aproximada da cidade. Não havia motivo para demora. Saltaram no mesmo instante.

* * *

Os robôs nem pensaram em cumprir o desejo de Marshall. Muito antes de atingirem o setor do beco em que as construções começavam a escassear, a máquina que ia na frente dirigiu-se para o lado, abriu a porta de uma das casas que era tão suja como as demais que havia naquela área, e procurou fazer com que os prisioneiros entrassem no corredor escuro que se via atrás da porta.
Marshall não perdeu tempo. Não sabia o que lhes aconteceria no interior da casa, mas era bem possível que esta fosse apenas uma armadilha da qual dificilmente conseguiriam escapar.
Era preferível arriscar um tumulto na cidade.
— Atenção! — gritou em inglês, sem mover um músculo da face.
A porta era baixa. Marshall fez de conta que tinha que tirar o radiador de impulsos de cima do ombro para poder passar. A arma escorregou para a curva do cotovelo. No momento em que, ao abaixar-se, virou o corpo num movimento instantâneo, puxou o gatilho.
Tama e Kitai haviam compreendido a advertência. Encontravam-se fora da linha de fogo. Marshall deixou que o raio branco chiasse e destruiu o primeiro robô antes que o mesmo compreendesse o que estava acontecendo. O metal chiou ao atingir o chão, formou uma poça cinzenta e espalhou um calor insuportável.
Tama e Kitai foram mais para o lado. Marshall destruiu mais dois robôs que, ao que tudo indicava, não haviam sido programados para a ação. O último, que provavelmente se viu ativado por uma espécie de ligação de emergência, começou a reagir no mesmo instante em que Tama e Kitai se deram conta de que mesmo com suas pequenas armas de bolso poderiam perfeitamente ter uma chance contra a máquina. Os dois raios energéticos, finos como uma agulha, penetraram no crânio da máquina e fizeram com que o robô cambaleasse.
Marshall cuidou do resto.
O calor aumentara tanto que estava chamuscando seus cabelos e as roupas começavam a fumegar.
— Vamos embora! — fungou Marshall. — Para a direita.
Era a direção da qual tinham vindo. As reações de Marshall foram puramente instintivas. Embora não soubesse qual era o estado de espírito da população, tinha a impressão de que estaria mais seguro num lugar em que pudesse esconder-se em meio a muitas pessoas.
Tinha certeza absoluta de que os saltadores tinham conhecimento da morte de um dos seus robôs no mesmo instante em que essa ocorria. Afinal, conhecia a história de Gucky.
O beco estava vazio. Enquanto corria, Marshall via vez por outra um rosto assustado. O pânico parecia ter-se apoderado da população de Vintina. Provavelmente era a primeira vez que alguém se atrevera a enfrentar um robô.
Marshall perguntou de si para si quanto tempo demoraria a primeira reação dos saltadores diante da morte de um dos seus robôs. Teriam tempo de chegar ao porto para esconder-se num dos navios?
Se continuassem a correr como até aqui, não levariam mais de dez minutos para chegar ao porto. Levariam outros dez minutos, talvez quinze, para encontrar um navio e influenciar ao menos o comandante de tal maneira que não se opusesse à estranha hospedagem.
Se os saltadores levassem meia hora para reagir à destruição de quatro dos seus robôs-polícia, tudo estaria em ordem.
E se levassem menos?

* * *

Tako e Gucky aterrizaram junto à cidade. Viram a frota de naves auxiliares, aero-transportadores e naves de pequeno porte aproximar-se ruidosamente e espalhar-se pela cidade. As naves desciam às dezenas nas ruelas estreitas e soltavam os tripulantes.
Tako atingiu com o desintegrador uma nave transportadora que voava a pouca altura, danificando-a de tal forma que se viu obrigada a descer antes da cidade, realizando um pouso de emergência bastante acidentado.
O incidente fez com que parte das forças que operavam sobre a cidade recebesse ordem para regressar e sair à procura do atirador atocaiado.
O jogo realizado horas antes nas montanhas repetiu-se. Tako e Gucky atiravam e saltavam, atiravam e saltavam.
Dessa forma conseguiram concentrar em torno de si três quartas partes dos veículos. Só um quarto prosseguiu nas buscas no interior da cidade. Se Marshall tivesse a idéia de esconder-se por algum tempo, os saltadores se convenceriam de que os homens que haviam praticado o atentado contra os robôs já deviam ter saído da cidade, e eram os mesmos que destruíam uma nave atrás da outra sem serem molestados.
Gucky instruiu Marshall nesse sentido. Este recebeu o impulso e confirmou-o.

* * *

A reação demorou menos de quinze minutos. Marshall ouviu o ruído surdo vindo do alto, olhou para cima enquanto corria e viu uma nave auxiliar redonda passar pouco acima dos telhados.
Foi seguida por outras naves, inclusive transportadoras.
A rua pela qual corriam levava diretamente ao porto. No fim da mesma via-se o casco de um navio. Quase parecia ao alcance da mão.
Enquanto Marshall refletia se não seria preferível esconder-se em algum lugar até que se descobrisse quais eram as intenções dos saltadores, três pequenas naves auxiliares surgiram na rua, vindas do porto, desceram suavemente e abriram as escotilhas.
Três saltadores armados até os dentes desceram delas. Ainda estavam muito longe para poderem descobrir qualquer coisa de suspeito nos três homens que vinham ao seu encontro. Mas os três subiam pela rua, chegavam cada vez mais perto. Sem dúvida desconfiariam se Marshall e seus companheiros fizessem meia-volta e seguissem na direção oposta.
— Cuidado! — cochichou Marshall. — Vamos entrar na primeira casa.
No mesmo instante captou a mensagem de advertência de Gucky. Confirmou o recebimento e acrescentou:
— É o que estamos fazendo.
Tama procurou abrir a porta da primeira casa. Estava trancada. Tama tentou abri-la por meio da telecinésia, mas para isso precisaria concentrar-se, o que exigiria certo tempo. Marshall pegou-o no ombro e empurrou-o até a próxima casa.
— Não temos tempo — resmungou.
Os três saltadores estavam a menos de cem metros. Se a porta da outra casa também estivesse trancada, estaria na hora de atirar.
Tama experimentou a estranha maçaneta triangular, puxou e empurrou com toda força, sacudiu a porta. A madeira velha rangeu...
Nada!
— Fique atrás de mim — ordenou Marshall. — Está na nossa vez.
Tama e Kitai largaram o mini-comunicador. Kitai começou a concentrar-se para que pudesse ajudar Marshall quando chegasse o momento. A distância ainda era grande para tentar a influência sugestiva.
Abrigado na entrada da casa, Marshall foi levantando o cano do radiador de impulsos.
Naquele instante a porta abriu-se devagar, deixando apenas uma fresta livre. Uma mão estendeu-se pela fresta e segurou o braço de Tama, arrastando-o pela porta, que se abriu inteiramente.
Kitai seguiu-o espontaneamente, depois de avisar Marshall. Arrastou o mini-comunicador atrás de si.
Com um grande salto, Marshall colocou-se sob o abrigo da escuridão reinante no corredor.
— Desçam ao porão! — disse uma voz estranha.
Alguma coisa rangeu. Tama, que estava nos fundos do corredor, disse:
— Aqui há uma porta e alguns degraus.
— Não adianta — respondeu Marshall. — Os saltadores viram que entramos aqui. Virão...
Lá fora, passos ruidosos aproximaram-se pelo calçamento desigual e pararam diante da porta. Marshall ouviu a maçaneta girar. Mas ao que parecia a porta voltara a ser trancada.
— Abra! — gritou uma voz rouca.
— Pouco importa quem você seja — disse Marshall baixinho ao desconhecido em meio à escuridão. — Abra, senão eles porão fogo na casa. Saberemos defender-nos.
Passos rastejantes atravessaram o corredor, vindos dos fundos, passaram por Marshall e atingiram a porta.
— Tama, vá para baixo — ordenou Marshall. — Kitai, veja o que pode fazer. Se for necessário poderei trabalhá-los.
Kitai não respondeu. Já estava trabalhando. Os passos tateantes de Tama afastaram-se pela escada. Uma lufada de ar frio passou pelo corredor.
A porta abriu-se, deixando entrar um raio de luz. A figura pequena e franzina destacou-se na escuridão.
Inclinou-se profundamente.
— Que honra imensa... — começou a murmurar.
Um dos saltadores interrompeu-o em tom grosseiro:
— Você escondeu três estranhos nesta casa. Entregue-os.
O magricela endireitou o corpo.
— Eu? Senhor, você está brincando com o mais humilde dos seus servos.
— Pare com essa conversa mole. Quero...
Um dos saltadores colocou a mão sobre seu ombro. O primeiro inclinou-se e deixou que o companheiro cochichasse alguma coisa ao seu ouvido.
— Será? — perguntou ele com a testa enrugada.
Numa fração de segundo foi da mesma opinião, que era a opinião que Kitai já instilara nos dois companheiros: a de que naquela rua nunca haviam passado estranhos, e que por isso mesmo eles não os poderiam ter visto.
— Por que nos olha desse jeito? — gritou para o magricela. — Feche a porta e cuide do seu trabalho.
O magricela voltou a inclinar-se e obedeceu.
Marshall respirou aliviado quando lá fora os passos se afastaram. Os passos rastejantes do magricela voltaram pelo corredor.
— Que poder imenso vocês têm sobre os deuses — disse com uma risadinha. — Acho que vocês bem mereciam que eu os ajudasse.
— Afinal, por que você nos ajudou? — perguntou Marshall.
— Vocês mataram quatro máquinas dos deuses, não é? — perguntou o outro. — Isso é motivo bastante para ser grato e ajudar vocês. Quase todos os outros pensam como eu. Mas têm muita coisa a perder, e por isso têm medo de ajudar. Não querem descer?
— Não, não queremos mais — respondeu Marshall. — Queremos ir ao porto. Talvez a sorte nos ajude para conseguirmos passar sem sermos vistos.
— Talvez — disse o magricela com uma risadinha. — Se vocês descerem ao porão, a sorte os ajudará com toda certeza.
Marshall começou a desconfiar do magricela. Mas a superfície lisa de metal plastificado que sentia no braço tranqüilizou-o. O que poderia ele fazer contra o radiador de impulsos?
— Está bem. Vamos descer — decidiu.
Kitai pegou o mini-comunicador. Tateando, chegou ao início da escada e foi descendo. Marshall seguiu-o. O magricela veio atrás de todos.
Tama gritou lá de baixo.
— Gostaria que não fosse tão escuro. Em algum lugar está entrando ar puro.
O magricela deu outra risadinha. Subitamente Marshall sentiu chão plano sob os pés. Alguma coisa crepitava atrás dele. O magricela acendera um cavaco de lenha.
Encontravam-se num subterrâneo não muito grande. O que havia de estranho nele era a abertura redonda de cerca de um metro existente numa das paredes.
O magricela, um velhinho de roupa esfarrapada e cabeleira imunda e desgrenhada, apontou para a abertura.
— Entrem ali — disse com uma risadinha. — A outra extremidade fica no cais, um palmo acima da água, no momento. Com a maré alta a galeria fica cheia de água até a metade, pois desce em direção ao porto.
Marshall leu seus pensamentos. As indicações eram verdadeiras.
— Nós lhe ficamos muito gratos — disse em tom sério. — Quando chegar a hora, não nos esqueceremos de Wosetell.
O velhinho não parecia espantar-se pelo fato de que Marshall sabia seu nome. Com a voz inalterada, respondeu:
— Vejo que você possui um poder imenso. Acredito que um dia você conseguirá fazer com todos esses deuses malvados a mesma coisa que você fez com quatro de suas máquinas. Não percam tempo; cada instante pode ser precioso.
Rastejando de quatro, Tama entrou na galeria. Kitai empurrou o mini-comunicador atrás dele, para que se encarregasse do mesmo, e seguiu-o. Marshall despediu-se do velho com um aceno de cabeça e entrou na abertura, assim que os sapatos de Kitai haviam desaparecido.
Ouviram a risadinha de Wosetell atrás deles.

* * *

Tudo indicava que a sorte estava favorecendo Marshall.
Dali a uma hora os saltadores estavam convencidos de que na cidade não havia mais nenhuma das pessoas que procuravam. Concentraram sua atenção para os lugares em que surgiam constantemente tiros breves, disparados com boa pontaria, diminuindo lenta mas seguramente as fileiras dos veículos que participavam da busca.
Cada salto levava Tako e Gucky algumas centenas de metros para o norte. Os saltadores viram-se diante de um mistério. Talvez o inimigo com que estavam lutando fosse o mesmo com que se defrontaram nas montanhas. Nesse caso não sabiam explicar como teria chegado tão rapidamente a Vintina sem qualquer auxílio aparente. Também era possível que se tratasse de outro grupo. Nesse caso não havia como explicar que, tal qual o primeiro, se aproximava do grande espaçoporto sob os olhos dos vigilantes.
Tako acreditava que os saltadores se defrontassem com esse tipo de problema, e perguntou de si para si quanto tempo Etztak levaria para descobrir que não se encontrava diante de membros da tripulação da Lev XIV, mas sim dos seus piores inimigos.
Bem, essa idéia já acudira a Etztak há algum tempo. Mas não dispunha de provas, e, além disso, de certo tempo para cá estava tão furioso que não conseguia concatenar seus pensamentos.
O estranho combate deslocava-se cada vez mais para o norte.
À medida que o combate prosseguia, os saltadores iam se convencendo de que realmente em Vintina não havia mais nenhum dos elementos que procuravam. Sabia-se que quatro homens da tripulação da Lev XIV haviam fugido. E o grupo que tornava as coisas tão difíceis para o grupo de busca devia ser composto ao menos de quatro elementos.
Marshall anunciou que ele e seus companheiros haviam subido num navio e “garantido toda a tripulação, inclusive o comandante
Gucky respondeu:
— Tudo em ordem! Seguiremos assim que os saltadores se tiverem afastado-o suficiente da cidade.

* * *

A ocupação do Orahondo foi realizada sem dificuldades. O costado de bombordo ficava a poucos metros do lugar em que a estranha galeria de Wosetell rompia o cais. Deixaram o mini-comunicador e o radiador de impulsos na galeria e nadaram até o navio. Subiram por uma corda.
A tripulação do navio pertencia à classe ingênua de Goszul. Kitai praticamente não teve nenhum trabalho em modular os pensamentos dessa gente de tal forma que acreditavam justamente naquilo que mais convinha à segurança do grupo de três pessoas, posteriormente aumentado para cinco.
Também o comandante foi submetido ao tratamento de Kitai. Indicou-lhes três aposentos confortáveis, e prometeu que mandaria arrumar dois camarotes para as pessoas que deveriam chegar depois.
Depois disso Tama Yokida trouxe para bordo o mini-comunicador e a arma de impulsos.
Marshall comunicou a Gucky que a missão fora coroada de êxito. Este respondeu:
— Tudo em ordem! Seguiremos assim que os saltadores se tiverem afastado o suficiente da cidade.
Subitamente Marshall ficou estarrecido de surpresa, ao captar o impulso retumbante e dolorido:
— Quem vive falando por aí?
Gucky não demorou tanto em recuperar-se do susto. Marshall recebeu sua mensagem:
— O que foi isso?
E logo a resposta dolorida:
— Fui eu!
— Quem é você? — perguntou Gucky.
— Sou um servo dos deuses.
Marshall interveio.
— É um telepata de Goszul, Gucky! — preveniu. — Isso pode ser muito perigoso.
— É mesmo — respondeu Gucky. — Espere um momento.
O próximo impulso foi dirigido ao goszul:
— Quer fazer-nos um favor, amigo?
— Depende.
— Eu explicarei. Coisas importantes estão sendo preparadas. Se você interferir na nossa troca de mensagens, isso poderá perturbar nossa tarefa. Se estiver disposto a ficar calado até que tenhamos liquidado nossos negócios, poderá participar dos nossos lucros.
A resposta veio num tom zombeteiro:
— Você não pode ocultar inteiramente, forasteiro, por mais que você se esforce. Você é um inimigo dos deuses, não é?
Gucky teve bastante inteligência para compreender que realmente o goszul compreendera alguma coisa das vibrações fundamentais de seu cérebro.
— Sou, sim — respondeu.
— Para mim essa recompensa basta — disse o goszul. — Daqui em diante ficarei calado.
Marshall procurou auscultar o impulso. Não havia dúvida de que era genuíno. O goszul pensava o que acabara de dizer por via telepática.
Ao que parecia, havia nessa terra mais inimigos dos deuses do que se poderia acreditar à primeira ou à segunda vista.
— Pois então — suspirou Gucky por via telepática.

* * *

Dali a duas horas, Gucky e Tako também chegaram ao Orahondo, num salto gigantesco que os levou da extremidade sul do espaçoporto, que acabavam de atingir, até o porto de Vintina.
O comandante e a tripulação do navio estavam espiritualmente preparados para receber o estranho visitante que Gucky era sob todos os pontos de vista. Não houve problemas, e não era de recear que qualquer dos tripulantes avisasse os saltadores.
As barreiras erguidas por Kitai eram mais duras que paredes de aço.
Marshall resumiu os acontecimentos dos últimos dias numa mensagem concentrada bastante lacônica e transmitiu-a a Rhodan através do mini-comunicador.
A resposta de Rhodan veio imediatamente.
— A base dos saltadores no continente norte deve ser destruída de qualquer maneira no mais curto prazo. Realizem uma operação de guerrilha. Não esperem qualquer auxílio das nossas naves.
Marshall leu a fita expelida pelo minicomunicador e fitou os companheiros um por um.
— Quer que destruamos a base — murmurou, estupefato. — Com quê? Só se for com as mãos.
Gucky torceu o rosto e exibiu o dente roedor.
— Você se esquece das coisas que escondi no fundo do rio. Com elas podemos destruir meia galáxia...
— Espere aí... — disse Kitai.
— ...quanto mais essa base ridícula.
Marshall suspirou.
— E eu que pensava que bastaria que ficássemos quietos por alguns dias até que Rhodan viesse buscar-nos. Agora tudo vai começar de novo.
Gucky acenou com a cabeça. Parecia muito sério.
— Naturalmente. No momento estamos em paz. Os saltadores não desconfiam de que estejamos em Vintina, nem a bordo do Orahondo. Lá nas montanhas estão gastando as vistas à nossa procura. Toda a atenção deles está concentrada nas áreas adjacentes ao espaçoporto.
— Seria o momento mais favorável para dar o golpe.
Tako Kakuta disse em tom pensativo:
— Talvez seria conveniente que nos interessássemos mais um pouco pelos nativos, tanto os ingênuos como os servos dos deuses. Pelo que vejo, não é impossível que por aqui já exista uma oposição clandestina. Se for assim, não precisaremos realizar todo o trabalho de reconstrução.
Marshall deu um sorriso pálido.
— Muito bem. Vamos começar de novo. Mas antes disso gostaria de saber uma coisa: Com que idade um funcionário da Terceira Potência tem direito de aposentar-se? Será que para mim ainda não está na hora?




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Na verdade, John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishibashi e Tama Yokida naufragaram no planeta de Goszul. Mas, em vez de comportar-se como náufragos, procuram abalar os alicerces do poderio dos saltadores através de uma série de ações de surpresa.
O Flagelo do Esquecimento, o título do próximo volume da série Perry Rhodan, representa o instrumento de libertação de um mundo escravizado.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html