domingo, 31 de março de 2013

P-064 - A Prisão do Tempo - Clark Darlton [parte 3]

Harras disse, esticando as palavras:
Tenho um pressentimento nada agradável, tenente. Estamos em plena planície, sem a menor proteção. E a nave estranha está bem acima de nós. Se quisessem matar-nos, não teríamos a menor chance de defesa.
Que motivo poderiam ter para matar-nos?
Motivo? Não acha que está perdendo um tempo precioso, refletindo sobre os motivos?
Steiner fez que sim.
Harras tem razão, tenente. Afinal, o que é que sabemos dos desconhecidos que se mantêm numa dimensão estranha? Ragow até que foi inteligente quando resolveu ir às montanhas.
Se andarmos depressa, ainda poderemos alcançá-lo — disse Rous, olhando para cima. — A nave desloca-se cada vez mais depressa.
Josua mexeu nervosamente nos controles de seu traje de luta. Rous franziu a testa, mas Steiner e Harras seguiram o exemplo do africano.
Não me digam que querem voar! — admirou-se Rous.
E se nos tornássemos invisíveis? — perguntou Harras. — Até agora supúnhamos que os habitantes da outra dimensão temporal não nos viam, porque aos seus olhos somos rápidos demais.
Podemos usar os campos energéticos defensivos! — a sugestão de Steiner era muito melhor que a de Harras.
Mas Josua sacudiu a cabeça.
Não; deveríamos sair voando. Para as montanhas, as cavernas.
Rous sabia que uma velocidade não superior a três metros por segundo não representaria o menor perigo. Face à composição dessa atmosfera, uma velocidade relativamente elevada como esta não teria nenhum efeito desfavorável. Sentiriam apenas um ligeiro calor provocado pêlo atrito.
Devemos ter muito cuidado — advertiu. — Ninguém deverá voar mais depressa que eu. Também acho que uma marcha a pé não nos adiantaria muito.
Steiner foi o último a elevar-se no ar. Sustentado pelos campos antigravitacionais, pairou poucos metros acima dos companheiros.
É maravilhoso deixar as pernas balançando. Vamos voar em formação unida?
Gostaria de ver os rostos dos “uuuns”, se é que nos viram — disse Harras enquanto subia, seguido de perto por Josua, que parecia muito satisfeito porque sua sugestão fora aceita.
Rous subiu por último.
Fiquem logo atrás de mim e não voem muito depressa. Assim que o calor se torne muito forte, freiem. Garanto-lhes que eu nunca poderia imaginar que a densidade do envoltório atmosférico depende do tempo que se escoa em seu interior.
A expressão não era bem correta, mas atingia o cerne do problema. Na verdade, era o tempo que modificava este mundo a ponto de causar uma subversão aparente nas leis mais elementares da natureza. Se o fluxo do tempo pudesse ser acelerado em 72 mil vezes, este mundo estranho voltaria ao normal.
Ou será que este mundo era real?
Será que o plano temporal estranho era o normal?
Estas indagações atingiram a mente de Rous com a intensidade de um raio. Sentiu a impressão de ter envolvido a chave do problema.
Deslocaram-se poucos metros acima do solo pedregoso. Rous deu-se conta de que no início de sua aventura nem pensaram na possibilidade de que, se necessário, poderiam voar.
Quase haviam esquecido seus trajes especiais.
Steiner lançou um olhar para o céu e exclamou:
A nave persegue-nos, mas é mais lenta que nós! Quer dizer que não nos querem perder de vista. De qualquer maneira, estamos desenvolvendo sessenta vezes a velocidade do som, se quisermos encarar a coisa sob este ângulo.
Rous acenou lentamente com a cabeça.
Estão sentindo o calor? Atrás de nós está surgindo um verdadeiro vácuo, porque o movimento do ar é muito lento — também olhou para o alto. — É verdade, Steiner. A nave-câmera nos persegue.
Cruzaram o rio e o vale e atingiram a encosta suave que já conheciam. A pequena nave ficara bem para trás. Ao que parecia, conseguia percorrer uns dois centímetros por segundo, isto é, desenvolvia pelo menos quatro vezes a velocidade do som.
Será que ainda nos vêem? — perguntou Harras.
Não acredito que o alcance das câmaras chegue até aqui — disse Rous, sacudindo a cabeça. — Do contrário não teriam necessidade de seguir-nos.
Dali a alguns minutos, viram junto à rocha dois vultos humanos que se moviam. E neste mundo imobilizado qualquer movimento logo despertava a atenção.
Eram Ivã Ragow e André Noir!
No momento em que o pé de Rous tocou o chão, Steiner soltou um grito estridente. O braço estendido do físico apontava para a planície. Os homens seguiram seu olhar e ficaram estarrecidos.
Rous sentiu uma mão fria comprimir seu coração, pois estava assistindo a fatos que comprovavam suas suspeitas. No lugar em que pouco antes estivera a árvore em forma de forca só havia um feixe energético ofuscante, que parecia descer verticalmente, envolvendo a árvore a ponto de só deixar Rous perceber uma silhueta confusa da mesma.
Disse com a voz zangada:
Eles demoraram muito a atacar. O raio mortífero nos teria atingido, e não seríamos suficientemente rápidos para desviar-nos. Afinal, a luz ainda desenvolve seus quatro quilômetros por segundo, o que representa uma velocidade inconcebível para este mundo da rigidez. Aquilo ali é um raio energético disparado contra nós. Isso prova que os “uuuns” nos descobriram. E descobrimos mais uma coisa: têm a intenção de matar-nos.
Aquilo ali é um raio energético? — perguntou Rous e inclinou a cabeça, enquanto procurava rememorar seus conhecimentos de física. — Pode ser tão demorado?
Rous sorriu e continuou:
Qual é o significado da palavra demorado num mundo como este? Admitamos que o senhor dispare um raio energético com a duração de um centésimo de segundo. Se a nave estiver a quatrocentos quilômetros de altura, o raio levará exatamente um minuto e quarenta segundos para atingir a superfície. E depois, feita a respectiva conversão, permanecerá no espaço por doze minutos. Para os “uuuns” doze minutos equivalem exatamente a um segundo. Se minha suposição for correta, daqui a pouco o raio se apagará. O processo de extinção começará na parte superior e progredirá à velocidade de quatro quilômetros por segundo.
É inacreditável! — observou Steiner, mas acrescentou: — Contudo, não deixa de ser lógico.
Rous disse em tom pensativo:
Nem por isso podemos concluir que em quaisquer circunstâncias poderemos desviar-nos de um disparo energético. Tivemos sorte por termos mudado de posição. Se ainda estivéssemos perto daquela árvore, estaríamos irremediavelmente perdidos. Mesmo que o raio se desloque à velocidade de apenas quatro quilômetros por segundo, não o veremos antes de sermos atingidos por ele. Para todos os efeitos práticos, tanto faz que o raio se aproxime a uma velocidade de quatro ou de trezentos mil quilômetros por segundo.
Steiner olhou para o céu nublado.
O que acontecerá se resolverem fazer nova ajustagem de seus dispositivos de mira?
Rous sacudiu a cabeça.
Não se preocupe, Steiner. Já pensei nisso. Aqui não corremos o menor perigo. O senhor acha que os “uuuns” seriam capazes de matar sua própria gente? Dificilmente assumirão o risco de destruir uma de suas povoações.
Ragow, que se encontrava agachado perto de um provável habitante daquele mundo, voltou a erguer-se. Em seu rosto havia uma expressão indagadora.
Não compreendo — disse enquanto se levantava. — Esses seres têm naves espaciais e canhões energéticos, mas vivem em cavernas. Como podemos combinar esses fatos?
Mesmo desta vez a resposta de Rous foi imediata.
Basta recuar cem anos, Ragow. Como eram as condições na Terra? Os antepassados de Josua talvez ainda vivessem na selva africana e ficavam felizes quando conseguiam abater um leão com suas lanças. E na mesma época a primeira bomba atômica foi construída a cinco mil quilômetros daquele lugar. Se entre os habitantes de um mesmo planeta pode haver tamanha diferença no desenvolvimento técnico e cultural, essas diferenças serão muito maiores quando a mesma raça povoa uma série de sistemas solares...
Ragow acenou lentamente com a cabeça.
E claro que o senhor tem razão, tenente. Nunca se devem tirar conclusões precipitadas, esquecendo a própria história. Quer dizer que o senhor está convencido de que estas lagartas são as inteligências dominantes desta dimensão temporal?
Apenas podemos formular suposições, Ragow. Só poderemos ter certeza quando pela primeira vez nos defrontarmos com os “uuuns”. Devo confessar que a perspectiva desse encontro me causa uma sensação nada agradável.
Noir apontou para o céu.
A nave-câmara não se aproxima. Está parada.
Acho que seria fácil voar até lá e derrubar esse artefato. — conjeturou Harras.
Rous lançou-lhe um olhar rápido.
O senhor ficou louco?
Por quê? Afinal, fomos atacados. Temos o direito de nos defender. Ninguém sabe quanto tempo teremos de passar neste mundo. Não estou com vontade de correr constantemente dessas “lesmas”.
Harras tem razão! — disse Steiner.
Noir e Josua fizeram um sinal de assentimento. E o rosto de Ragow também não parecia exprimir uma opinião contrária.
Hum — fez Rous, compreendendo que acabara de ser derrotado pela maioria. — Acho que a coisa não será tão fácil como Harras imagina. Não nos esqueçamos de que os “uuuns” podem ver-nos e...
Só nos vêem quando estão na nave-câmera. Se esta for destruída, levarão uma eternidade para encontrar um substituto — Harras parecia entusiasmado pela idéia. — Pego um radiador portátil e fundo as câmaras. Depois procurarei danificar a nave, para que caia.
Rous lançou os olhos para o alto.
Olhem! — gritou subitamente. — O raio energético está se apagando.
Viram perfeitamente.
O processo prosseguia de cima para baixo, com uma velocidade enorme, mas também com uma relativa lentidão. Pela primeira vez na história, olhos humanos puderam seguir o percurso da luz. Nada menos de dez segundos se passaram até que o raio se extinguisse de vez.
O centésimo de segundo havia chegado ao fim.
Harras mexeu no cinto em que estavam guardados os instrumentos.
Rous disse:
Andei pensando em certas coisas, e quero pô-los a par do resultado de minhas reflexões. Há uma hora ainda receávamos que um disparo de nossas pistolas de radiações poderia causar uma catástrofe, porque os impulsos luminosos percorreriam a dimensão estranha a uma velocidade 72 mil vezes maior. Até receávamos que a estrutura espaço-temporal pudesse ser rompida. Agora já não penso assim.
Por quê? — perguntou Steiner em tom indiferente.
Porque estamos transmitindo mensagens pelo rádio. E as ondas de rádio desenvolvem a mesma velocidade da luz. Alguém observou um efeito estranho? Ninguém, não é? Conclui-se que nada acontecerá se nesta dimensão alguma coisa se deslocar em velocidade superior à da luz, em termos relativos. Por isso acredito que Harras poderá usar tranqüilamente seu radiador de impulsos.
Para dizer a verdade — começou Harras, esforçando-se para conservar a calma — já me tinha esquecido dessas especulações. Teria atirado de qualquer maneira.
O senhor sempre foi um homem impulsivo — repreendeu-o Ragow, lançando um olhar pensativo para os “uuuns” que se encontravam diante das cavernas. — Tomara que depois disso tenha oportunidade de examinar estas lagartas.
Não tenho a menor idéia de como pretende fazer isso — confessou Rous.
O cientista sorriu.
Mas eu tenho — disse com a maior tranqüilidade.
5



O processo de retardamento ainda é muito demorado.
Nunca conseguiremos matá-los, pois são rápidos demais.
Foram para as montanhas. Enquanto permanecerem nas proximidades dos escravos de asas, não poderemos atacar.
Os contatos de relê deram um estalido, as telas iluminaram-se e figuras coloridas percorreram a lâmina opaca. Em algum lugar, nas profundezas da nave, os reatores estavam zumbindo.
Devemos tentar acelerar o processo de retardamento, para que os acontecimentos não resvalem longe demais para o passado. Como poderemos destruir um inimigo que sempre se mantém umas cinco ou dez unidades de tempo no futuro? Nunca o alcançaremos!
Mais uma vez, os rostos envoltos em sombras inclinaram-se sobre as telas. Examinaram principalmente a décima, que retransmitia os acontecimentos de alguns minutos atrás. Mostrava-os da forma pela qual os veria alguém que vivesse setenta mil vezes mais depressa que o espectador.
Eles sabem voar, mestre.
Sem asas. Provavelmente conseguem eliminar a gravidade.
Houve uma pausa prolongada. Depois alguém disse:
Um deles aproxima-se de nós.
Sozinho!
O que pretende fazer? Subitamente a voz prosseguiu num tom apavorado e com uma súbita certeza:
Traz uma arma e se dirige para nossa nave-câmera. Acontece que aquilo que estamos vendo aconteceu há algumas unidades de tempo. Devemos fazer alguma coisa e...
Já é tarde!
De um instante para outro as dez telas se apagaram.
A análise dos desconhecidos, realizada pelo sistema de câmara lenta, foi interrompida.
Viviam num passado de cinco minutos. E esses cinco minutos eram demais...

* * *

Fred Harras não se sentiu muito bem quando se aproximava lentamente da nave imóvel, com o radiador de impulsos pronto para disparar.
A nave devia ter uns dez metros de comprimento; seus cálculos haviam sido corretos. Cem metros abaixo de Harras ficava a superfície do planeta desconhecido. Flutuava sobre a mesma, libertado de seu peso, e controlava o vôo por meio dos instrumentos embutidos no cinto que trazia sob o uniforme. Era como se boiasse na água.
A nave estava a apenas alguns metros. Viu nitidamente as objetivas de dez câmaras. A primeira delas dirigiu-se para ele. Devia ter demorado uns cinco minutos até que notassem sua presença.
A teoria de que a análise pelo processo de câmara lenta demorava alguns minutos parecia confirmar-se.
Falando para dentro do microfone do transmissor embutido no anel, Harras disse:
Estou à distância de tiro. Devo...?
O que está esperando? — soou a pergunta de Rous, que na verdade representava uma ordem.
Harras acenou com a cabeça e fez pontaria para a primeira câmara. O estreito feixe energético atingiu-a e a fundiu num segundo. Acontece que a câmara havia sido produzida em outra dimensão temporal, motivo por que obedecia às leis naturais que prevaleciam nesta. Harras pôde notar o processo de fusão, mas os pingos de metal e os gases produzidos pelo mesmo tiveram o mesmo comportamento dos demais objetos desse mundo tresloucado.
As peças incandescentes se deslocavam com uma lentidão inacreditável, embora tivessem recebido uma aceleração notável, produzida pelo impulso energético que se deslocava à velocidade da luz. Mas dali a alguns metros sua velocidade diminuiu.
A segunda câmara também se derreteu, depois a terceira, a quarta...
Dentro de trinta segundos a destruição foi completada. Se os desconhecidos não possuíssem outra nave-objetiva, estariam “cegos”.
Harras hesitou. Deveria descer à superfície, ou seria preferível tentar derrubar a nave? A mesma executou um movimento quase imperceptível. Não representava um perigo para eles, mas era possível que em seu interior existissem elementos que poderiam representar alguma indicação sobre o inimigo desconhecido da outra dimensão temporal.
Que Rous decidisse. E Rous tomou sua decisão:
Caso acredite que pode atingir e destruir uma peça vital, tente. Talvez a derrube. Nesse caso Steiner terá o que fazer.
Talvez na popa”, pensou Harras e contornou cautelosamente o objeto prateado.
Teve o cuidado de não penetrar no raio de propulsão perfeitamente visível, que saía dos bocais a uma velocidade não superior a quatro quilômetros por segundos. O que representavam esses quatro quilômetros face à verdadeira velocidade da luz?
Recuou um pouco, desviou-se, levantou a arma e dirigiu-a para o conjunto de bocais de popa. Depois comprimiu o botão acionador.
O resultado foi perfeitamente visível e bastante impressionante. A nave explodiu.
Mas explodiu em câmara lenta. No início, a dilatação chegava a cinqüenta centímetros por segundo, mas depois foi-se tornando mais lenta. Harras não teve a menor dificuldade em desviar-se dos destroços que começavam a descer com a lentidão de penas. Trinta segundos depois da explosão, esses destroços flutuavam, aparentemente imóveis. Tinha de olhar atentamente para notar que desciam com uma lentidão incrível, enquanto as peças menores caíam mais depressa. O envoltório esférico assumiu o formato de um ovo, isso em virtude da gravitação.
Em seu receptor Harras ouviu as exclamações dos companheiros, que contemplavam o fenômeno do solo.
É incrível!
Devia ser Steiner, que nunca deixava de admirar-se sobre os efeitos oticamente perceptíveis da dilatação do tempo, embora os compreendesse perfeitamente.
Volte! — gritou Rous em tom preocupado. — Senão o senhor acabará sendo atingido pelo raio vingador da nave-mãe, se é que esta existe.
Quem poderia ter descoberto nossa entrada nesse mundo senão ela? — disse Harras e desceu obliquamente. Passou pelos destroços, que atingiriam o solo a pouco menos de duzentos metros dali, no lugar exato em que devia encontrar-se a gazela, naturalmente em sua própria dimensão temporal.

* * *

Enquanto esses acontecimentos se desenrolavam, Ivã Ragow não permaneceu inativo.
Parece impossível — disse Rous, enquanto o zoólogo explicava seu plano — que até a gravitação está ligada ao tempo. O que lhe deu essa idéia, Ragow?
O cientista exibiu um sorriso quase tímido.
Bem, as relações não são tão estreitas como as que existem entre o tempo e o espaço, mas são inegáveis. E convém não esquecer que minha opinião não passa de uma simples teoria. Só a prática dirá se é correta. O que me deu a idéia? É simples! Fiquei refletindo para descobrir um meio de vencer a inércia destas lagartas petrificadas. Só a energia não basta; logo, deve-se recorrer a outra coisa. E essa outra coisa poderá perfeitamente ser a gravitação.
O senhor tem razão — disse Steiner e lançou um olhar para o alto, contemplando Harras que se esforçava para não se aproximar excessivamente da onda de calor. Descia à velocidade de quatro metros por segundo. — Quer dizer que pretende colocar uma dessas lagartas num campo antigravitacional a fim de vê-la se mover?
Exatamente! — confirmou o russo e passou a manipular os controles de seu traje especial arcônida. — Além disso, porei a funcionar minha abóbada energética. Talvez consiga gerar um campo temporal próprio no interior da mesma. Não sei se compreende o que quero dizer.
Os homens fitaram-se. Rous sacudiu a cabeça.
O senhor tem muitas idéias; ninguém poderá negar isso. Criar um campo: temporal autônomo...?! Quer dizer que o senhor acredita que talvez seja possível’ aproximar os dois planos temporais, através da criação de outro campo, um campo neutro, que possibilitaria a comunicação com os desconhecidos, mais precisamente, com os “uuuns”?
Sim; é o que quero dizer. Exatamente isso.
E pretende fazer tudo isso no interior de uma pequena abóbada energética?
Perfeitamente; ali posso criar as condições que desejar. Poderei eliminar a gravitação, gerar qualquer temperatura que me agrade, modificar minha posição, enquanto as condições permanecem...
Mas não conseguirá modificar a condição temporal preexistente.
Ragow continuava a exibir seu sorriso modesto.
Quem foi que lhe disse isso? Até parece que o senhor se esquece de que a velocidade da luz é parenta próxima do tempo. E, conforme constatamos, neste mundo a velocidade da luz não ultrapassa quatro quilômetros por segundo. E no interior da abóbada energética estarei protegido contra o calor gerado pela fricção com a atmosfera. O que acontecerá, portanto, se nessas condições eu me deslocar à velocidade de doze ou treze mach?
Rous fitou-o perplexo. Em seus olhos surgiu um início de compreensão. E Steiner acenou lentamente com a cabeça. Noir demonstrou uma admiração indisfarçada pelas conclusões arrojadas do cientista. Josua manteve uma atitude de expectativa.
Quando Harras pôs os pés no chão, mal teve tempo de assistir ao início da experiência.
Um dos “uuuns” manteve-se um pouco afastado do grupo. Ragow colocou-se a seu lado e com um gesto resoluto ativou a abóbada energética. A figura cintilante tinha um metro e meio de diâmetro e três de altura. Envolveu o cientista e a lagarta que parecia petrificada.
Depois Ragow acionou outra chave de seu traje. Manteve-se completamente imóvel, para não esbarrar no teto da abóbada energética, pois com a eliminação da gravidade perdia seu peso.
Um sorriso leve surgiu em seus lábios quando se abaixou e levantou o “uuum” com uma das mãos. Isso mesmo: levantou-o. Aquele ser, aparentemente emparedado no tempo, começou a mover-se de uma hora para outra. Era bem verdade que seu interior continuava petrificado e aparentemente morto, mas o conjunto do corpo perdeu a rigidez. A gigantesca lagarta com suas asas vítreas flutuava lentamente ao lado de Ragow.
Subitamente Ragow mexeu em outro controle. A abóbada energética com seu conteúdo vivo subiu rapidamente. Dentro de poucos segundos, a velocidade de Ragow ultrapassou o limite de segurança que até então vinham observando e o cientista desapareceu rapidamente dos olhares dos companheiros.
Rous fitou Steiner.
Não deveríamos ter permitido que voasse por aí — disse o tenente. — Quem sabe se suas teorias são corretas?
Deveríamos ter pensado nisso mais cedo — respondeu o físico. — Mas acredito que não temos motivo para preocupações. Será que poderíamos entrar em contato com ele por meio do rádio?
Rous tentou, mas o resultado foi negativo.
Talvez não tenha tempo — conjeturou Harras, que fora posto a par da situação por Noir. — Deve ser isso! Quando me encontrava lá em cima para destruir a nave, quase cheguei a esquecer-me de que possuo um transmissor.
Ragow não tem tempo? — perguntou Steiner em tom de incredulidade. — Ele está modificando o tempo; logo, não pode deixar de tê-lo.
Ninguém disse nada. Sentiam-se oprimidos pelo peso da imobilidade.
E pelo silêncio, interrompido somente por um prolongado uuuuum...

* * *

Devemos deixar para depois os estranhos que penetraram em nossa dimensão. Por enquanto temos de providenciar para que os escravos cuidem das criaturas de que nos apossamos. Trata-se da população de um planeta. Será que com isso não conseguimos uma aproximação sensível das dimensões temporais?
Pelo que dizem os cientistas, os estranhos acabam adotando nosso fluxo temporal, motivo por que não exercem qualquer influência sobre o mesmo. Não se espera um ajustamento total das duas dimensões.
Temos de alcançar esse ajustamento; do contrário voltaremos a viver na solidão como sempre vivemos. Voltaremos a resvalar para a eternidade solitária da ausência do tempo. É bastante duvidoso que depois disso voltemos a ter uma chance de entrar em contato com as outras inteligências do Universo.
A grande nave voltou a acelerar e sua velocidade ultrapassou a da rotação do planeta colonial.
Dali a alguns minutos, o alarma soou pelos amplos corredores e salões.
O que aconteceu?
Não sei. O mestre dirá.
Atenção, todos! Houve uma invasão de nossa dimensão, vinda de outro plano temporal. Trata-se de uma invasão violenta. Estamos sendo atacados.
Atacados?
Sim, atacados!
Levaram nada menos de cinco segundos para esboçar a reação.
Foram cinco segundos preciosos. Cinco segundos que foram demais...
6



Ivã Ragow estava com o “uuum” imobilizado.
Numa altitude de dez quilômetros, atravessava vertiginosamente a atmosfera do planeta estranho; a abóbada energética protegia-o. O reator de seu traje especial garantia uma velocidade cada vez maior. Ao contrário do Tenente Rous, Ragow estava convencido de que a ultrapassagem da velocidade da luz que prevalecia nesse mundo provocaria certos efeitos.
Três quilômetros por segundo!
Isso correspondia aproximadamente a 255 mil quilômetros por segundo, no Universo de Ragow. A dilatação einsteiniano ainda não se tornou perceptível, ao menos num grau em que pudesse ser registrada.
O “uuum” não se mexeu. Mantinha-se imóvel ao lado de Ragow sustentado no interior da cabine energética pelos campos energéticos. Neste meio tempo, a lagarta levantara a presa direita por alguns centímetros.
Ao ler nos instrumentos que estava percorrendo três mil novecentos e noventa metros por segundo, Ragow percebeu a primeira modificação no objeto de sua experiência. De início as duas presas se moveram, depois os pés e finalmente as finas asas e os olhos.
Os olhos! Fitavam Ragow!
Quatro quilômetros por segundo. Pouco menos que a velocidade da luz. Talvez fosse suficiente.
O “uuum” parecia despertar de um sono profundo. Uma expressão inteligente surgiu em seus olhos. Ao que parecia, começava a compreender que algo de extraordinário estava acontecendo com ele ou com o ambiente em que se encontrava. Fez um movimento que o projetou contra a barreira invisível do campo energético, que o repeliu e fez com que se deslocasse em sentido oposto.
Soltou um grito ligeiro e agudo.
Ragow sorriu; estava satisfeito. O ajustamento ótico era seguido pelo acústico. O “uuum” longo e profundo transformara-se num pio agudo. Talvez a lagarta ainda se movimentasse um pouquinho mais devagar que ele mesmo. Mas de qualquer maneira fora arrancada daquela rigidez notável.
Fique bem quietinha, lagartinha — disse o cientista em tom paternal e apontou para baixo, onde uma camada de nuvens fechava a vista sobre a superfície do planeta. — Se você cair daqui quebrará os ossos, a não ser que escorregue imediatamente para seu preguiçoso plano temporal.
O “uuum” inclinou ligeiramente a cabeça e procurou ouvir o som da voz de Ragow. Não compreendeu o sentido das palavras, mas parecia sentir o tom de advertência. A expressão dos olhos passou do espanto ao pânico.
Ragow reduziu a velocidade da cápsula energética. Imediatamente os movimentos do “uuum” voltaram a tornar-se mais lentos. Com a redução da velocidade aquele ser retornava ao seu plano temporal.
O cientista praguejou baixinho.
Paciência, tenho que tentar de outro jeito! — disse em tom obstinado e voltou a acelerar.
Nem ele nem o “uuum” sentiram qualquer espécie de pressão, pois os campos antigravitacionais criavam um ambiente que não poderia ser atingido por qualquer influência vinda de fora.
Estou curioso para ver o que vai acontecer! — sussurrou.
O minúsculo ponteiro da escala aproximou-se de uma marcação que não estava assinalada, pois no Universo normal não possuía qualquer significado especial.
Quatro mil, cento e sessenta metros por segundo! Era a velocidade da luz! Ao menos aqui... — disse admirado.
Os movimentos do “uuum” eram completamente normais e em relação à velocidade correspondiam exatamente aos de Ragow. O ajuste total das duas dimensões temporais acabara de ser realizado, mas a situação criada era instável. Qualquer modificação na velocidade faria com que os dois planos temporais voltassem a afastar-se.
Quatro mil, cento e sessenta metros por segundo!
Sem dúvida aconteceria aquilo que ele previra quando a velocidade voltasse a ser inferior à da luz. Mas o que aconteceria se antes disso a velocidade da luz fosse ultrapassada? Ragow já se formulara esta pergunta, mas não encontrou qualquer resposta que possuísse fundamento lógico. Praticamente não havia qualquer possibilidade de ultrapassar a velocidade final, mas neste ambiente de tempo retardado era possível.
O que aconteceria?
Cinco quilômetros por segundo. Dez quilômetros.
Era muito mais que a velocidade da luz. Ragow observou o “uuum” com a mesma atenção que dedicou ao próprio corpo. Não notou qualquer alteração. Os movimentos da lagarta continuavam absolutamente normais; apenas tentava adaptar-se ao estado de ausência de gravidade.
Ragow ligou o transmissor e chamou Rous. A resposta demorou alguns minutos. As pessoas com que pretendia entrar em contato encontravam-se trezentos quilômetros à sua frente.
O que houve? — perguntou Rous. — Onde se meteu, Ragow? Já estávamos preocupados.
Sem motivo, como sempre — disse o russo para tranqüilizá-lo. — Neste instante, estou correndo a uma velocidade relativa superior à da luz pelas camadas superiores da atmosfera. O comportamento do “uuum” é normal. Permanece em nosso plano temporal.
Pretende pousar?
A resposta demorou um pouco:
Estou com vontade, mas receio que depois disso o objeto de minhas experiências volte a transformar-se numa massa petrificada. É bem verdade que tenho uma esperança que pode parecer maluca...
Diga logo!
Ultrapassei a velocidade da luz. É possível que algum fenômeno desconhecido tenha estabilizado a dimensão temporal.
É apenas uma suposição! — disse Rous em tom decepcionado. — Pouse logo.
Ragow reduziu a velocidade, sem tirar os olhos do “uuum”.
Três quilômetros por segundo... dois...
Os movimentos do “uuum” continuaram normais. Não se via o menor sinal de retorno ao plano temporal mais lento.
Um quilômetro por segundo.
Ragow quase não acreditou, mas não havia a menor dúvida: a dimensão temporal do “uuum” ajustara-se à sua. A ultra-passagem da velocidade relativa da luz produzia a fusão das suas dimensões.
Só o futuro diria se o processo era duradouro, ou se apenas se tratava de efeito transitório.
Ragow continuou a reduzir a velocidade e desceu. Mal tocou o solo pedregoso do planeta, desligou o campo energético e deixou que a gravitação normal retornasse. O “uuum”, que mantinha o corpo ereto, tinha uns vinte centímetros menos que ele.
A estranha criatura lançou olhares atentos e curiosos em todas as direções.
Evidentemente a visão de seres humanóides não constituía novidade para ele.
Até que é um sujeito engraçado — disse Steiner. — Está completamente normal? Move-se com a mesma rapidez que nós? É incrível!
Ragow deu de ombros.
Depois poderemos quebrar a cabeça sobre isso. De qualquer maneira, sei que podemos trazer qualquer ser para nosso plano temporal, desde que queiramos. Para os “uuuns” a coisa é mais fácil; basta passar por cima de nós com sua frente temporal, e estamos transformados.
O que pretende fazer com ele?
Ragow não respondeu. Fitou atentamente o “uuum” quando o ser se pôs sobre as pernas curtas e saiu andando. Soltou gritos agudos, que nem de longe lembravam o “uuum” que antes emitira.
A lagarta caminhou até as cavernas e subitamente estacou. Ragow, que o seguira, percebeu o motivo: reconhecera seus companheiros imobilizados.
Era a primeira prova visível da inteligência desses seres. A hipótese de se tratar realmente dos donos da outra dimensão obteve um reforço.
Ragow quase chegou a assustar-se quando percebeu a expressão indagadora nos olhos negros do “uuum” que o fitava. Depois o estranho ser começou a tatear os companheiros enrijecidos com as presas e a examiná-los. Isso demorou dez minutos. Os seis homens acompanhavam seus movimentos numa expectativa muda e ansiosa, sempre dispostos a repelir um eventual ataque.
Subitamente o “uuum” virou-se e caminhou em sua direção. Parou à frente de Ragow.
Será que o conhecia?
Noir saltitava nervosamente. Rous cochichou ao seu ouvido:
É telepata? Está notando alguma coisa?
Sou apenas um hipno — respondeu Noir. — Infelizmente não sei ler pensamentos; só posso influenciar o cérebro de outras criaturas. Mas posso criar no cérebro do “uuum” certas imagens mentais que o façam compreender o que desejamos dele. Se formulo uma imagem visual em minha mente, o “uuum” também a enxergará. Ainda posso ordenar-lhe que não fuja, se é isso que o senhor deseja.
Por enquanto prefiro que conserve sua vontade — disse Ragow. — Por isso peço-lhe que se limite a procurar uma forma de comunicação através de imagens mentais.
O hipno acenou com a cabeça e pôs-se a trabalhar.
Encontrou um aluno muito inteligente...

* * *

Trouxeram mais dois “uuuns” para sua dimensão temporal, com o que provaram que o resultado obtido com a primeira experiência de Ragow não era fruto do acaso. Mas nem mesmo Steiner conseguiu encontrar uma explicação fundamentada para o fenômeno. Só lhes restava aceitar o fato como tal e deixar as perguntas em aberto. Rous afastou-se juntamente com Harras, a fim de não perturbar as experiências de Noir. Ragow também estava muito ocupado, e preferia ficar só. Steiner voava em direção aos destroços da nave-câmara, que continuavam a descer, a fim de iniciar o exame dos mesmos. Josua montava guarda sobre uma rocha mais elevada.
Será que devíamos trazer um dos arcônidas de volta ao nosso tempo? — disse Rous, apontando para a planície, onde o destacamento policial petrificado do administrador de Tats-Tor levava uma existência imóvel.
Para quê? — perguntou Harras. — Não devemos nada a esses sujeitos convencidos; pelo contrário. Além disso, não compreenderiam; diriam que somos culpados de tudo.
Concordo plenamente com o senhor, mas não é assim que devemos pensar. Rhodan nos confiou uma tarefa, e esta foi cumprida quase completamente. Apenas não conseguimos voltar e apresentar nosso relatório. A esta hora devem estar preocupados conosco e talvez resolvam agir. A gazela ainda deve estar no mesmo lugar.
Se é que resistiu ao ataque e o GCR continua intacto — comentou Harras.
Uma sombra passou pelo rosto de Rous.
Este é o ponto mais importante. Qual é o motivo da falha do aparelho? O fato deve ter ocorrido independentemente de qualquer intervenção humana, pois quando aconteceu não havia um único ser humano em Tats-Tor. Além disso, estou convencido de que isto aqui — com um movimento amplo apontou para a planície, até o horizonte distante — não é Tats-Tor. Encontramo-nos em outro planeta. Apesar disso a gazela só pode estar perto da árvore-forca. Será que dois planetas podem existir simultaneamente no mesmo lugar?
Harras sacudiu a cabeça.
Simultaneamente nunca, tenente. Acontece que os dois planetas constituem mundos que vivem em dimensões temporais diferentes; por isso é possível que se encontrem aparentemente no mesmo lugar. Na verdade, só permaneceram simultaneamente no mesmo lugar por um milionésimo de segundo, que é o momento em que se verificou o contato.
Rous pôs as mãos nos quadris.
Quer saber de uma coisa, Harras? Não devemos pensar muito sobre isso. Nunca desvendaremos o mistério, ao menos enquanto permanecermos no terreno das sutilezas especulativas. Se um dia conseguirmos esclarecer tudo, isso só se verificará por meio da física ou da matemática. Talvez Steiner possa ajudar.
Olharam para cima. Viram perfeitamente que a uns cinqüenta metros de altura o físico achava-se entre os destroços da nave. Steiner ainda estava examinando as peças que lhe pareciam importantes e procurava introduzi-las no envoltório energético. Conseguiu fazê-lo por meio do campo antigravitacional.
Rous ligou o rádio.
Conseguiu alguma coisa, Steiner?
Depende... — respondeu Steiner prontamente. — Ainda não sei como estes fragmentos poderiam ser examinados. Estão submetidos às leis da outra dimensão temporal. Assim que saem do campo antigravitacional de meu traje especial; não consigo movê-los.
Aplique o método de Ragow. Aquilo que aconteceu com os seres orgânicos também deverá funcionar com a matéria inorgânica. Faça uma viagem com eles.
Steiner compreendeu imediatamente.
É uma ótima idéia. Ultrapassarei a velocidade da luz e trarei as peças para nosso plano temporal. Se começarmos a refletir sobre isso, concluímos que é um absurdo.
Deixou que os dois homens que se encontravam em terra contraditassem sua tese e saiu voando com sua abóbada energética. Os destroços que ficaram para trás continuaram a descer tranqüilamente, como se nada tivesse acontecido. A velocidade da queda aumentava lentamente, mas demorariam a atingir o solo. Provavelmente o impacto infinitamente lento os romperia ou deformaria com a mesma vagarosidade.
Quer saber o que estou pensando, tenente? — perguntou Harras, olhando para o lugar em que Steiner desaparecera no horizonte.
O que é?
Estamos vivendo na outra dimensão, e até agora conseguimos rechaçar todos os ataques. Até gozamos de certa superioridade sobre os desconhecidos. Mas as diferentes concepções sobre o tempo deixam-me confuso. Veja só o que Ragow fez: conseguiu... bem, quase diria que conseguiu inverter “os pólos do uuum”. Mas o que gostaria de saber, tenente, é quanto tempo se passou realmente... Lá na nossa dimensão, quero dizer.
Rous fitou-o atentamente.
Isso é uma coisa que ninguém de nós sabe, meu caro. Só podemos fazer votos de que a diferença não seja muito grande.
Calou-se, porque nesse instante o receptor embutido em seu anel emitiu um zumbido. Comprimiu um botão.
Alô; quem está falando?
É Steiner. Preste atenção, Rous! Acabo de encontrar uma coisa. Está a uns cem quilômetros ao oeste do platô em que você se encontra. Poderia vir o mais rápido possível?
O que é?
Seguiu-se uma ligeira pausa, depois da qual Steiner disse:
É um girino da classe de sessenta metros, pousado no solo. Se não me engano, traz uma designação usual entre nós: K-7.
O Tenente Marcel Rous teve a impressão de que seu coração iria parar.
A K-7 era comandada por ele há exatamente três meses, quando o planeta Mirsal III foi assaltado e despovoado pelos seres da outra dimensão temporal. De início Becker tornou-se invisível e desapareceu por completo juntamente com dois outros homens. Depois, quando retornou duma excursão à cidade abandonada, a nave auxiliar K-7 também deixara de existir. Os desconhecidos haviam levado a nave juntamente com os tripulantes, e desde então esta foi dada como perdida.
E agora... três meses depois!
Rous respirou profundamente e disse:
Fique onde está e transmita sinais goniométricos, Steiner. Irei imediatamente.
Irei com o senhor — disse Harras em tom resoluto.
7



Só encontraram Steiner graças aos sinais goniométricos irradiados por seu transmissor. De uma grande altitude dificilmente se reconheceria o girino, que mal se destacava do fundo rochoso. Mas à medida que os dois homens foram descendo, a nave esférica surgia cada vez mais nítida. Estava parada no platô, com a escotilha principal aberta, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
A K-7 desaparecera num tempo em que ninguém suspeitava de que maneira ocorria o cruzamento entre os dois planos temporais.
Steiner fez um sinal para Rous e Harras, que desceram devagar e pousaram suavemente.
Podia ter entrado, mas pensei que isso cabe ao tenente. Realmente é uma das nossas naves?
Rous acenou com a cabeça; parecia zangado.
Se é! Até é minha nave, que é considerada desaparecida há três meses. Já desistimos das buscas. Nunca pensei que pudesse reencontrar minha boa e velha K-7. Como foi que a encontrou?
Foi por um simples acaso, tenente. No momento em que ultrapassei a velocidade da luz e desacelerei para retornar, meus instrumentos registraram a presença de grande quantidade de minérios. Bem, foi só isso. Quando procurei localizar os minérios, encontrei o girino — só agora Steiner parecia compreender o que Rous havia dito. — O que foi que disse, tenente? Esta é sua antiga nave? É mesmo sua nave? Isso seria...
Não soube mais o que dizer.
Rous não lhe deu mais atenção; dirigiu-se à K-7. Harras seguiu-o, depois de ter dado umas palmadinhas no ombro dei Steiner. Às vezes, o físico custava a compreender.
O girino — este nome dado às naves esféricas já se tornara oficial — estava apoiado sobre os suportes telescópicos e, ao que parecia, esperava por alguma coisa. A escotilha aberta levava à conclusão de que os tripulantes se sentiam seguros e tinham certeza de que não corriam qualquer risco.
Enquanto o Tenente Rous se aproximava da K-7, os acontecimentos de três meses atrás voltaram a passar por sua mente.
Naquele tempo, pousaram no planeta Mirsal III, a fim de encontrar-se com o embaixador do computador-regente de Árcon. Foi então que souberam do imenso perigo que ameaçava o Universo. Enquanto ainda se discutiam os detalhes da aliança entre a Terra e Árcon verificou-se um ataque dos inimigos invisíveis contra Mirsal III.
Durante uma missão isolada desapareceram o cadete Becker e mais dois tripulantes da K-7. O Tenente Rous estava presente quando se verificou o acontecimento inacreditável. Logo após saiu da K-7, a fim de fazer uma excursão pela cidade. Quando retornou ao lugar em que estivera pousada a K-7, notou que o girino desaparecera sem deixar o menor vestígio. Pela primeira vez os terranos ficaram sabendo que o temível inimigo não se apoderava apenas dos seres orgânicos.
Isso acontecera em princípios de setembro de 2.040. E agora estavam em princípios de janeiro de 2.041. Quatro meses haviam passado.
E ali, a centenas de anos-luz do local dos acontecimentos, estava a K-7, intacta, como se nada de alarmante tivesse acontecido.
Rous chegou à escada que levava à comporta de ar. Harras estava a seu lado. Os dois homens olharam-se. Cinqüenta metros atrás deles, Steiner achava-se recolhendo os destroços que agora estavam sujeitos às leis de sua dimensão temporal.
Será que ainda estão vivos? — perguntou Harras em voz baixa. Rous deu de ombros.
Não sei, Harras. Já se passou muito tempo.
Talvez — disse Harras em tom misterioso e começou a subir a escada. Nem pensou em deixar o chefe da expedição passar à frente. — Logo saberemos.
Rous seguiu-o até que chegaram à ampla comporta. A escotilha interna também estava aberta. Se estivesse fechada, não saberiam como abri-la. Era de supor que a K-7 estivesse sujeita à nova dimensão temporal e se regesse pelas leis naturais que prevaleciam na mesma.
O corredor estava vazio.
Vamos à sala de comando — disse Rous e estremeceu quando o eco de suas palavras foi devolvido pelas paredes do corredor. — Talvez estejam em conferência.
Não se encontraram com ninguém. Felizmente os receios de Rous não se confirmaram: todas as portas estavam abertas. A nave parecia deserta. A porta que dava para a sala de comando estava entreaberta.
Um homem que envergava o uniforme verde-claro do Império Solar acabara de entrar na sala de comando e estava fechando a porta. Rous o conhecia de vista. Pertencia à equipe técnica. Estava imóvel e como que petrificado, com o rosto dirigido para o corredor vazio e a mão sobre a maçaneta. Estava fechando a porta, mas isso levaria algumas horas.
Cautelosamente, Rous abaixou-se para passar sob o braço dele e entrou na sala de comando. Suas suposições revelaram-se corretas. Toda a tripulação estava reunida ali. O recinto era apertado, mas todos os homens haviam encontrado lugar. O Tenente Hiller, imediato da K-7, estava de pé sobre um caixote e proferia um discurso. Estava com a boca bem aberta e a palavra que estava proferindo devia conter a letra O.
Santo Deus, quanto tempo duraria um ‘o’ num lugar como este? Duas horas ou três?”, pensou interrogativamente.
Os olhos dos seqüestrados estavam dirigidos para o Tenente Hiller, com exceção daquele que estava entrando.
Meu Deus! — gritou Harras, que seguira Rous. — Isto até parece uma reunião... de cadáveres...
Realmente estão mortos, ao menos para nós — disse Rous com a voz tranqüila. — Felizmente já sabemos como trazê-los de volta à vida. Ah — disse, apontando para um homem que envergava o uniforme dos cadetes da Academia Espacial — ali está Becker. Gostaria de saber como conseguiu chegar ao girino. Quando os desconhecidos foram buscá-lo, estava bem longe dos outros.
Harras não respondeu. Aproximou-se do orador que, segundo dissera Rous, era o Tenente Hiller. Fitou por algum tempo a boca arredondada do oficial e deixou que a visão de um homem congelado no tempo o fascinasse. Depois prestou atenção ao zumbido que enchia a sala de comando e não queria cessar.
Uma batida do coração dura umas quinze ou vinte horas — disse Rous em meio ao silêncio.
Harras fez um gesto afirmativo; parecia despertar de um sonho.
Sei, tenente, sei. Como poderemos libertá-los?
Usaremos o mesmo método que aplicamos para trazer o “uuum” ao nosso plano temporal.
Harras apontou para a porta.
Acho que devemos andar depressa. Quando esse sujeito tiver fechado a porta, estaremos presos. Conhece algum meio de sairmos de uma armadilha como esta? Eu não conheço.
Rous empalideceu. Infelizmente Harras tinha razão. Quando a porta que dava para a sala de comando estivesse fechada, não haveria como sair dali. Se o imediato resolvesse falar durante dez minutos, isso bastaria para que na realidade se passassem quase dois anos.
Embora a temperatura fosse amena, subitamente sentiu um calor abrasador.
Há quanto tempo se encontravam no plano temporal estranho?
Quanto tempo se passara lá fora? Rous fez um esforço para controlar-se. — O senhor tem razão, Harras. Devemos andar depressa. Pelos meus cálculos ainda deverão passar algumas horas antes que a porta se feche. Peça a Ragow, Noir e Josua que venham até aqui. Aproveite para levar um dos homens. Eu cuidarei de Becker.
Ligou o campo antigravitacional de seu traje, segurou Becker pela cintura e conduziu-o cautelosamente ao corredor. Becker estava rígido como vidro, mas em virtude da ausência de gravidade foi fácil movê-lo. Lá fora explicou a situação a Steiner, que o seguira, deixando para trás os destroços da nave. A tarefa que os esperava ali era mais urgente e mais interessante.
O físico também correu para o interior da nave para tirar um tripulante.
Rous ativou seu campo defensivo e subiu com Becker. Quando atingiu a altitude de dez quilômetros acelerou e assistiu ao “despertar” de seu cadete. No inicio, os movimentos de Becker eram quase imperceptíveis. Mas à medida que os dois planos temporais se aproximavam, tornavam-se cada vez mais visíveis. Depois entraram em sintonia.
Os olhos arregalados de Becker constituíam sinal evidente do que estava acontecendo. Rous fez um gesto e disse:
Um momento, Becker! Explicarei tudo. Não fale!
Becker olhou para baixo e viu a superfície do planeta deslizar. Rous aumentou a velocidade para cinco quilômetros por segundo, descreveu uma curva bem aberta, retornou pela mesma rota, e reduziu a velocidade. Voltaram a pousar na superfície do planeta, junto à K-7.
Rous desligou o campo defensivo e o campo antigravitacional.
Seja bem-vindo, cadete Becker — disse com um sorriso forçado. — Pergunte à vontade. Enquanto isso meus homens libertarão seus companheiros. Acho que já sabe que foram prisioneiros. Prisioneiros de outra dimensão temporal.
Becker acenou lentamente com a cabeça, olhou em torno e cochichou em tom assustado:
Como veio parar aqui? O que diz Sikermann?
Rous empalideceu; viu confirmadas suas suposições, por mais estranhas que fossem.
Sikermann... bem, Sikermann já se esqueceu do incidente. Fique bem tranqüilo, Becker. Está lembrado do que aconteceu? Ainda sabe como começou tudo?
O cadete Becker acenou com a cabeça; parecia espantado.
É claro que sei. O senhor mandou que entrasse naquela casa, que desapareceu juntamente com todas as outras casas da cidade. Depois tive a impressão de que alguma coisa me arrastava para fora do mundo visível. Deve ter sido uma espécie de teleportação forçada. Quando voltei a abrir os olhos, estava aqui. Durante um instante Horrahk, Jeffers e eu ficamos sós no platô. Depois a K-7 materializou-se perto de nós, juntamente com a tripulação. Não compreendemos o que estava acontecendo, mas o imediato, Tenente Hiller, mandou que fôssemos à sala de comando. Acreditou que tinha encontrado uma explicação. Apenas disse algumas frases, e depois aconteceu uma coisa estranha.
Os pensamentos de Rous começaram a atropelar-se em seu cérebro. Desconfiava da verdade e receava extrair as conseqüências da mesma. Aquilo que ocorria com Becker e seus companheiros também se aplicava a eles.
Ou será que não se aplicava? Afinal de contas, haviam permanecido em seu plano temporal, embora se encontrassem em outra dimensão.
O que aconteceu?
Foi quase a mesma coisa de antes. Vi o Tenente Hiller desaparecer diante dos meus olhos; era como se uma nuvem se interpusesse entre nós. Alguma coisa me arrastava, mas levei alguns instantes para perceber a modificação. Por algum tempo não vi mais nada, e depois vi o senhor.
Rous compreendeu. Antes que os nervos de Becker pudessem transmitir os reflexos, a modificação já se completara.
Conservamos nossa extensão temporal, muito embora nos encontremos num plano estranho. Mais tarde Steiner poderá explicar tudo. Achamos um meio de transferir seres vivos e matéria orgânica da outra dimensão para a nossa. Resta saber o que acontecerá com o girino. É muito grande para que possamos libertá-lo da prisão do tempo.
Becker sacudiu a cabeça.
Como foi que o senhor conseguiu fazer isso tão depressa? Quem é Steiner? Também não conheço os outros, com exceção do hipno...
Rous colocou a mão no ombro de Becker.
Diga-me mais uma coisa, e não se espante com minha pergunta. Sabe dizer quanto tempo se passou desde o momento em que saiu da casa em Mirsal e o outro plano temporal o atingiu e devorou?
Becker lançou um olhar pensativo para seu superior. Percebeu que o Tenente Rous prendeu a respiração enquanto aguardava a resposta.
Bem — disse, falando devagar — no máximo dois minutos. Mal cheguei ao platô, a K-7 surgiu, abriu a escotilha, o Tenente Hiller apareceu para mandar que...
Rous não estava ouvindo mais.
Começou a desconfiar de que era perfeitamente possível que, ao rever o planeta Terra — se é que um dia conseguisse revê-lo — o mesmo tivesse envelhecido alguns milênios, a não ser que acontecesse um milagre.
Entretanto milagre havia acontecido poucos segundos antes.

* * *

Dali a pouco, Harras sacudiu energicamente a cabeça.
Não, tenente, isso é impossível! A K-7 terá de ficar onde está. Nunca conseguiremos retirá-la do plano em que se encontra e restituir-lhe a dimensão temporal que lhe é própria. Aliás, o que teríamos a ganhar com isso? Já temos possibilidade de levar os mantimentos, a água e outras coisas de que precisamos para subsistir neste plano temporal. Poderemos agüentar até que recebamos auxílio. Se não voltarmos, Rhodan nos procurará. Neste meio tempo, poderemos morar na K-7. Constatamos que, se ligarmos o campo antigravitacional, as portas podem ser abertas e fechadas.
É verdade que encontramos um lugar para abrigar-nos. — Começou Rous — mas tenho minhas preocupações. Não nos esqueçamos que, enquanto envelhecemos três meses, o cadete Becker e os tripulantes da K-7 apenas envelheceram dois minutos. O que acontecerá se a mesma lei não se modificar? Haverá uma dilatação. Ainda não sabemos qual é a extensão da mesma e qual é sua proporção em relação ao verdadeiro fluxo do tempo.
Steiner fez um gesto negativo.
Acho que estamos nos preocupando à toa. Se realmente tivesse passado um tempo muito longo, Rhodan já teria tomado alguma providência. Será que alguém acredita que Rhodan é capaz de abandonar seus homens? Pois então! Se ainda não apareceu, isso só pode ter um motivo: o tempo decorrido é tão curto que ainda não teve motivo para preocupar-se.
É possível que o lugar onde estamos fique em outro setor espacial — disse Harras com a maior tranqüilidade. — Nesse caso, não haveria como encontrar-nos.
Steiner preferiu não apresentar qualquer argumento contrário. Aliás, não dispunha de nenhum.
Degenhoff, o operador de rádio da K-7, encontrava-se num ponto um tanto afastado, ouvindo a conversa. Aproximou-se e disse:
Tenente Rous, permita uma sugestão. Por que não expedimos uma mensagem pelo rádio? A bordo do girino temos um hipertransmissor de alta potência. Pouco importa se os arcônidas ou quem quer que seja nos localizem. Interessa-nos é que Rhodan receba nosso pedido de socorro.
Rous esteve a ponto de fazer um gesto de recusa, mas conteve-se em meio ao movimento. Lançou um olhar indagador para Steiner e Harras.
Como poderíamos manipular o transmissor? — perguntou.
Na verdade, é muito grande para ser transportado à nossa dimensão temporal; mas poderíamos desmontá-lo, tenente. Depois de realizada a transferência, poderemos montar as peças.
Excelente — disse Rous com um sorriso malicioso. — O que acontecerá com os impulsos que irradiarmos depois de realizada essa operação? Será que conseguirão deixar o plano temporal em que nos encontramos e atingir os receptores do planeta Terra? Acho que nem mesmo o senhor, Degenhoff, poderá responder a esta pergunta.
Ninguém poderá — interveio Steiner com ligeira recriminação na voz. — Todavia, mais vale experimentar que estudar. Sou a favor da proposta de Degenhoff.
Eu também — disse Harras. — Se bem que estou convencido de que os impulsos de rádio sofrerão alguma alteração. Serão absorvidos pela barreira do tempo, ou então sofrerão uma aceleração ou um retardamento tamanho que ninguém conseguirá decifrá-los.
Está bem — disse Rous, encerrando a discussão. — Vamos experimentar.
Degenhoff pôs-se a trabalhar. Dali a duas horas, anunciou que o transmissor havia sido desmontado em três partes. Por enquanto o complicado receptor não sofreria a mesma operação.
Dali a mais duas horas o hipertransmissor estava montado à sombra da K-7, pronto para entrar em funcionamento. Degenhoff aguardou o sinal.
Rous disse:
As chances são muito reduzidas, pois nem sequer sabemos em que direção fica a Terra ou qualquer outra estação receptora. Pelo que vê, Degenhoff, não é só o tempo que representa um problema para nós. Também o espaço deverá causar-nos certas dificuldades.
Farei a fita reproduzir a mensagem, e manterei a antena de transmissão em rotação contínua. Dessa forma, todos os setores deste segmento de esfera serão atingidos. Depois teremos de levar o transmissor e o reator à outra face do planeta, para repetir o procedimento. Assim poderemos ter uma certeza relativa de que alguém captou nossa mensagem.
Qual será o teor da mensagem? — perguntou Steiner em tom de ceticismo.
Rous pegou um pedaço de papel e começou a escrever.
Steiner lançou os olhos para o céu, que continuava encoberto. Estava à procura do relâmpago que devia pairar junto à linha do horizonte. Ainda não sofrerá qualquer modificação, e a vista já se acostumara ao mesmo. Concluía-se que ao todo haviam passado menos de um segundo neste mundo. Josua, que voltara a montar guarda junto à árvore-forca que continuava a arder, avisara que o círculo luminoso não reaparecera. Dentro de duas horas, Noir o revezaria. Uma pessoa deveria estar constantemente nesse lugar.
Rous fez algumas correções no texto. Finalmente deu-se por satisfeito com o trabalho.
Acho que poderá ser isto — disse sem muita convicção, e entregou o bilhete a Degenhoff. Este o pegou e leu:

Pedido de socorro. Aqui fala expedição do tempo de Marcel Rous. Dirijo-me a qualquer receptor. Caminho de volta bloqueado, gerador de campo de refração falhou. Posição desconhecida. Fluxo do tempo constante. Tripulação da K-7 encontrada. Tudo bem.
Ten. Marcel Rous.

Steiner fez um gesto afirmativo.
Será uma bela mensagem, desde que alguém a ouça.
Degenhoff fez um gesto nervoso.
Alguém ouvirá; eu lhe garanto. Se estes “uuuns” a captarem, levarão algum tempo para retardá-la o bastante para poderem alcançar a percepção acústica. E quando isso acontecer, ainda terão que decifrá-la. Quanto aos arcônidas... bem, se estes ouvirem a mensagem, Rhodan será informado.
Rous fez um gesto impaciente.
O que está esperando, Degenhoff?
Steiner olhou para o operador de rádio que se afastava e estreitou os olhos. Quando acreditava estar a sós com Harras e Rous, disse em tom contrariado:
Diga-me uma coisa, tenente. Está realmente convencido de que adiantará alguma coisa expedir a mensagem? Será que conseguirá romper a barreira do tempo? Comigo pode ser franco. Saberei suportar a verdade.
Rous lançou um olhar indagador para o físico. Depois mostrou um sorriso frio.
Para dizer a verdade, Steiner, não sei. Não posso responder nem sim, nem não. Só o tempo poderá dar a resposta.
E o tempo não terá pressa — disse Harras com a voz tranqüila.
É bom que saiba uma coisa, tenente. Se a transmissão da mensagem não der resultado, ainda nos restará uma esperança. Confesso que se trata de uma esperança louca, mas não deixa de ter seu fundamento e não se baseia em simples suposições ou especulações vagas. Se nada der certo e não aparecer ninguém para buscar-nos, desmontaremos a K-7 e a libertaremos da prisão do tempo, peça por peça. Depois voltaremos a montá-la e teremos um veículo espacial apto a entrar em ação, que obedecerá às nossas leis do tempo. Aposto qualquer coisa que com ela encontraremos a Terra.
Sim; é possível que encontremos a Terra. Apenas faço votos de que não seja Uma Terra em que ninguém se lembre de nós porque lá decorreram alguns milênios.
Steiner não respondeu. Franziu a testa, meio assustado, hesitou por alguns segundos e afastou-se. Parou junto à encosta do platô e lançou os olhos para a grande planície.
Harras seguiu seu exemplo. Seu rosto não traía o que se passava em sua mente.
Degenhoff estava sentado à frente do transmissor e preparava a fita. Dali a alguns minutos, o reator começou a zumbir. A antena expeliu os impulsos invisíveis que subiram ao céu avermelhado daquele mundo desconhecido, que flutuava nos limites da eternidade, procurando conquistá-la pedaço por pedaço.
O Tenente Rous contemplou o operador de rádio por alguns minutos. Subitamente deu-lhe as costas e afastou-se. Sem olhar para trás subiu pela escada da K-7, atravessou a comporta e, espremendo-se pela porta semi-aberta, entrou na sala de comando.
Caiu pesadamente na poltrona do piloto e, absorto em pensamentos, fitou as telas apagadas e os instrumentos imobilizados.
Era praticamente um morto, um prisioneiro de outro tempo que não o seu, que tanto podia pertencer ao passado, como ao presente ou ao futuro?
Seu olhar caiu sobre o calendário de bordo ligado a um relógio. Era a única coisa que se movia nesse mundo estranho, pois indicava até os milésimos de segundo.
Afinal, um milésimo de segundo ali sempre duraria um minuto e doze segundos!
Fazia exatamente dois minutos e um segundo que pousara em Mirsal.
E exatamente há um segundo atravessara o anel luminoso do GCR...
Soltou um suspiro.
Num gesto de resignação, deixou cair a cabeça sobre o painel de instrumentos e resolveu dormir um quarto de segundo.
Ninguém, nem mesmo ele, poderia dizer qual seria a verdadeira duração desse quarto de segundo...



* * *
* *
*



Só resta a Marcel e seu grupo aguardarem... Até quando, não sabem!
Em Um Sopro de Eternidade, título do próximo volume, algo imprevisível acontece...

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