Harras
disse, esticando as palavras:
— Tenho
um pressentimento nada agradável, tenente. Estamos em plena
planície, sem a menor proteção. E a nave estranha está bem acima
de nós. Se quisessem matar-nos, não teríamos a menor chance de
defesa.
— Que
motivo poderiam ter para matar-nos?
— Motivo?
Não acha que está perdendo um tempo precioso, refletindo sobre os
motivos?
Steiner
fez que sim.
— Harras
tem razão, tenente. Afinal, o que é que sabemos dos desconhecidos
que se mantêm numa dimensão estranha? Ragow até que foi
inteligente quando resolveu ir às montanhas.
— Se
andarmos depressa, ainda poderemos alcançá-lo — disse Rous,
olhando para cima. — A nave desloca-se cada vez mais depressa.
Josua
mexeu nervosamente nos controles de seu traje de luta. Rous franziu a
testa, mas Steiner e Harras seguiram o exemplo do africano.
— Não
me digam que querem voar! — admirou-se Rous.
— E se
nos tornássemos invisíveis? — perguntou Harras. — Até agora
supúnhamos que os habitantes da outra dimensão temporal não nos
viam, porque aos seus olhos somos rápidos demais.
— Podemos
usar os campos energéticos defensivos! — a sugestão de Steiner
era muito melhor que a de Harras.
Mas Josua
sacudiu a cabeça.
— Não;
deveríamos sair voando. Para as montanhas, as cavernas.
Rous sabia
que uma velocidade não superior a três metros por segundo não
representaria o menor perigo. Face à composição dessa atmosfera,
uma velocidade relativamente elevada como esta não teria nenhum
efeito desfavorável. Sentiriam apenas um ligeiro calor provocado
pêlo atrito.
— Devemos
ter muito cuidado — advertiu. — Ninguém deverá voar mais
depressa que eu. Também acho que uma marcha a pé não nos
adiantaria muito.
Steiner
foi o último a elevar-se no ar. Sustentado pelos campos
antigravitacionais, pairou poucos metros acima dos companheiros.
— É
maravilhoso deixar as pernas balançando. Vamos voar em formação
unida?
— Gostaria
de ver os rostos dos “uuuns”,
se é que nos viram — disse Harras enquanto subia, seguido de perto
por Josua, que parecia muito satisfeito porque sua sugestão fora
aceita.
Rous subiu
por último.
— Fiquem
logo atrás de mim e não voem muito depressa. Assim que o calor se
torne muito forte, freiem. Garanto-lhes que eu nunca poderia imaginar
que a densidade do envoltório atmosférico depende do tempo que se
escoa em seu interior.
A
expressão não era bem correta, mas atingia o cerne do problema. Na
verdade, era o tempo que modificava este mundo a ponto de causar uma
subversão aparente nas leis mais elementares da natureza. Se o fluxo
do tempo pudesse ser acelerado em 72 mil vezes, este mundo estranho
voltaria ao normal.
Ou será
que este mundo era real?
Será que
o plano temporal estranho era o normal?
Estas
indagações atingiram a mente de Rous com a intensidade de um raio.
Sentiu a impressão de ter envolvido a chave do problema.
Deslocaram-se
poucos metros acima do solo pedregoso. Rous deu-se conta de que no
início de sua aventura nem pensaram na possibilidade de que, se
necessário, poderiam voar.
Quase
haviam esquecido seus trajes especiais.
Steiner
lançou um olhar para o céu e exclamou:
— A nave
persegue-nos, mas é mais lenta que nós! Quer dizer que não nos
querem perder de vista. De qualquer maneira, estamos desenvolvendo
sessenta vezes a velocidade do som, se quisermos encarar a coisa sob
este ângulo.
Rous
acenou lentamente com a cabeça.
— Estão
sentindo o calor? Atrás de nós está surgindo um verdadeiro vácuo,
porque o movimento do ar é muito lento — também olhou para o
alto. — É verdade, Steiner. A nave-câmera nos persegue.
Cruzaram o
rio e o vale e atingiram a encosta suave que já conheciam. A pequena
nave ficara bem para trás. Ao que parecia, conseguia percorrer uns
dois centímetros por segundo, isto é, desenvolvia pelo menos quatro
vezes a velocidade do som.
— Será
que ainda nos vêem? — perguntou Harras.
— Não
acredito que o alcance das câmaras chegue até aqui — disse Rous,
sacudindo a cabeça. — Do contrário não teriam necessidade de
seguir-nos.
Dali a
alguns minutos, viram junto à rocha dois vultos humanos que se
moviam. E neste mundo imobilizado qualquer movimento logo despertava
a atenção.
Eram Ivã
Ragow e André Noir!
No momento
em que o pé de Rous tocou o chão, Steiner soltou um grito
estridente. O braço estendido do físico apontava para a planície.
Os homens seguiram seu olhar e ficaram estarrecidos.
Rous
sentiu uma mão fria comprimir seu coração, pois estava assistindo
a fatos que comprovavam suas suspeitas. No lugar em que pouco antes
estivera a árvore em forma de forca só havia um feixe energético
ofuscante, que parecia descer verticalmente, envolvendo a árvore a
ponto de só deixar Rous perceber uma silhueta confusa da mesma.
Disse com
a voz zangada:
— Eles
demoraram muito a atacar. O raio mortífero nos teria atingido, e não
seríamos suficientemente rápidos para desviar-nos. Afinal, a luz
ainda desenvolve seus quatro quilômetros por segundo, o que
representa uma velocidade inconcebível para este mundo da rigidez.
Aquilo ali é um raio energético disparado contra nós. Isso prova
que os “uuuns”
nos descobriram. E descobrimos mais uma coisa: têm a intenção de
matar-nos.
— Aquilo
ali é um raio energético? — perguntou Rous e inclinou a cabeça,
enquanto procurava rememorar seus conhecimentos de física. — Pode
ser tão demorado?
Rous
sorriu e continuou:
— Qual é
o significado da palavra demorado num mundo como este? Admitamos que
o senhor dispare um raio energético com a duração de um centésimo
de segundo. Se a nave estiver a quatrocentos quilômetros de altura,
o raio levará exatamente um minuto e quarenta segundos para atingir
a superfície. E depois, feita a respectiva conversão, permanecerá
no espaço por doze minutos. Para os “uuuns”
doze minutos equivalem exatamente a um segundo. Se minha suposição
for correta, daqui a pouco o raio se apagará. O processo de extinção
começará na parte superior e progredirá à velocidade de quatro
quilômetros por segundo.
— É
inacreditável! — observou Steiner, mas acrescentou: — Contudo,
não deixa de ser lógico.
Rous disse
em tom pensativo:
— Nem
por isso podemos concluir que em quaisquer circunstâncias poderemos
desviar-nos de um disparo energético. Tivemos sorte por termos
mudado de posição. Se ainda estivéssemos perto daquela árvore,
estaríamos irremediavelmente perdidos. Mesmo que o raio se desloque
à velocidade de apenas quatro quilômetros por segundo, não o
veremos antes de sermos atingidos por ele. Para todos os efeitos
práticos, tanto faz que o raio se aproxime a uma velocidade de
quatro ou de trezentos mil quilômetros por segundo.
Steiner
olhou para o céu nublado.
— O que
acontecerá se resolverem fazer nova ajustagem de seus dispositivos
de mira?
Rous
sacudiu a cabeça.
— Não
se preocupe, Steiner. Já pensei nisso. Aqui não corremos o menor
perigo. O senhor acha que os “uuuns”
seriam capazes de matar sua própria gente? Dificilmente assumirão o
risco de destruir uma de suas povoações.
Ragow, que
se encontrava agachado perto de um provável habitante daquele mundo,
voltou a erguer-se. Em seu rosto havia uma expressão indagadora.
— Não
compreendo — disse enquanto se levantava. — Esses seres têm
naves espaciais e canhões energéticos, mas vivem em cavernas. Como
podemos combinar esses fatos?
Mesmo
desta vez a resposta de Rous foi imediata.
— Basta
recuar cem anos, Ragow. Como eram as condições na Terra? Os
antepassados de Josua talvez ainda vivessem na selva africana e
ficavam felizes quando conseguiam abater um leão com suas lanças. E
na mesma época a primeira bomba atômica foi construída a cinco mil
quilômetros daquele lugar. Se entre os habitantes de um mesmo
planeta pode haver tamanha diferença no desenvolvimento técnico e
cultural, essas diferenças serão muito maiores quando a mesma raça
povoa uma série de sistemas solares...
Ragow
acenou lentamente com a cabeça.
— E
claro que o senhor tem razão, tenente. Nunca se devem tirar
conclusões precipitadas, esquecendo a própria história. Quer dizer
que o senhor está convencido de que estas lagartas são as
inteligências dominantes desta dimensão temporal?
— Apenas
podemos formular suposições, Ragow. Só poderemos ter certeza
quando pela primeira vez nos defrontarmos com os “uuuns”.
Devo confessar que a perspectiva desse encontro me causa uma sensação
nada agradável.
Noir
apontou para o céu.
— A
nave-câmara não se aproxima. Está parada.
— Acho
que seria fácil voar até lá e derrubar esse artefato. —
conjeturou Harras.
Rous
lançou-lhe um olhar rápido.
— O
senhor ficou louco?
— Por
quê? Afinal, fomos atacados. Temos o direito de nos defender.
Ninguém sabe quanto tempo teremos de passar neste mundo. Não estou
com vontade de correr constantemente dessas “lesmas”.
— Harras
tem razão! — disse Steiner.
Noir e
Josua fizeram um sinal de assentimento. E o rosto de Ragow também
não parecia exprimir uma opinião contrária.
— Hum —
fez Rous, compreendendo que acabara de ser derrotado pela maioria. —
Acho que a coisa não será tão fácil como Harras imagina. Não nos
esqueçamos de que os “uuuns”
podem ver-nos e...
— Só
nos vêem quando estão na nave-câmera. Se esta for destruída,
levarão uma eternidade para encontrar um substituto — Harras
parecia entusiasmado pela idéia. — Pego um radiador portátil e
fundo as câmaras. Depois procurarei danificar a nave, para que caia.
Rous
lançou os olhos para o alto.
— Olhem!
— gritou subitamente. — O raio energético está se apagando.
Viram
perfeitamente.
O processo
prosseguia de cima para baixo, com uma velocidade enorme, mas também
com uma relativa lentidão. Pela primeira vez na história, olhos
humanos puderam seguir o percurso da luz. Nada menos de dez segundos
se passaram até que o raio se extinguisse de vez.
O
centésimo de segundo havia chegado ao fim.
Harras
mexeu no cinto em que estavam guardados os instrumentos.
Rous
disse:
— Andei
pensando em certas coisas, e quero pô-los a par do resultado de
minhas reflexões. Há uma hora ainda receávamos que um disparo de
nossas pistolas de radiações poderia causar uma catástrofe, porque
os impulsos luminosos percorreriam a dimensão estranha a uma
velocidade 72 mil vezes maior. Até receávamos que a estrutura
espaço-temporal pudesse ser rompida. Agora já não penso assim.
— Por
quê? — perguntou Steiner em tom indiferente.
— Porque
estamos transmitindo mensagens pelo rádio. E as ondas de rádio
desenvolvem a mesma velocidade da luz. Alguém observou um efeito
estranho? Ninguém, não é? Conclui-se que nada acontecerá se nesta
dimensão alguma coisa se deslocar em velocidade superior à da luz,
em termos relativos. Por isso acredito que Harras poderá usar
tranqüilamente seu radiador de impulsos.
— Para
dizer a verdade — começou Harras, esforçando-se para conservar a
calma — já me tinha esquecido dessas especulações. Teria atirado
de qualquer maneira.
— O
senhor sempre foi um homem impulsivo — repreendeu-o Ragow, lançando
um olhar pensativo para os “uuuns”
que se encontravam diante das cavernas. — Tomara que depois disso
tenha oportunidade de examinar estas lagartas.
— Não
tenho a menor idéia de como pretende fazer isso — confessou Rous.
O
cientista sorriu.
— Mas eu
tenho — disse com a maior tranqüilidade.
5
— O
processo de retardamento ainda é muito demorado.
— Nunca
conseguiremos matá-los, pois são rápidos demais.
— Foram
para as montanhas. Enquanto permanecerem nas proximidades dos
escravos de asas, não poderemos atacar.
Os
contatos de relê deram um estalido, as telas iluminaram-se e figuras
coloridas percorreram a lâmina opaca. Em algum lugar, nas
profundezas da nave, os reatores estavam zumbindo.
— Devemos
tentar acelerar o processo de retardamento, para que os
acontecimentos não resvalem longe demais para o passado. Como
poderemos destruir um inimigo que sempre se mantém umas cinco ou dez
unidades de tempo no futuro? Nunca o alcançaremos!
Mais uma
vez, os rostos envoltos em sombras inclinaram-se sobre as telas.
Examinaram principalmente a décima, que retransmitia os
acontecimentos de alguns minutos atrás. Mostrava-os da forma pela
qual os veria alguém que vivesse setenta mil vezes mais depressa que
o espectador.
— Eles
sabem voar, mestre.
— Sem
asas. Provavelmente conseguem eliminar a gravidade.
Houve uma
pausa prolongada. Depois alguém disse:
— Um
deles aproxima-se de nós.
— Sozinho!
— O que
pretende fazer? Subitamente a voz prosseguiu num tom apavorado e com
uma súbita certeza:
— Traz
uma arma e se dirige para nossa nave-câmera. Acontece que aquilo que
estamos vendo aconteceu há algumas unidades de tempo. Devemos fazer
alguma coisa e...
— Já é
tarde!
De um
instante para outro as dez telas se apagaram.
A análise
dos desconhecidos, realizada pelo sistema de câmara lenta, foi
interrompida.
Viviam num
passado de cinco minutos. E esses cinco minutos eram demais...
*
* *
Fred
Harras não se sentiu muito bem quando se aproximava lentamente da
nave imóvel, com o radiador de impulsos pronto para disparar.
A nave
devia ter uns dez metros de comprimento; seus cálculos haviam sido
corretos. Cem metros abaixo de Harras ficava a superfície do planeta
desconhecido. Flutuava sobre a mesma, libertado de seu peso, e
controlava o vôo por meio dos instrumentos embutidos no cinto que
trazia sob o uniforme. Era como se boiasse na água.
A nave
estava a apenas alguns metros. Viu nitidamente as objetivas de dez
câmaras. A primeira delas dirigiu-se para ele. Devia ter demorado
uns cinco minutos até que notassem sua presença.
A teoria
de que a análise pelo processo de câmara lenta demorava alguns
minutos parecia confirmar-se.
Falando
para dentro do microfone do transmissor embutido no anel, Harras
disse:
— Estou
à distância de tiro. Devo...?
— O que
está esperando? — soou a pergunta de Rous, que na verdade
representava uma ordem.
Harras
acenou com a cabeça e fez pontaria para a primeira câmara. O
estreito feixe energético atingiu-a e a fundiu num segundo. Acontece
que a câmara havia sido produzida em outra dimensão temporal,
motivo por que obedecia às leis naturais que prevaleciam nesta.
Harras pôde notar o processo de fusão, mas os pingos de metal e os
gases produzidos pelo mesmo tiveram o mesmo comportamento dos demais
objetos desse mundo tresloucado.
As peças
incandescentes se deslocavam com uma lentidão inacreditável, embora
tivessem recebido uma aceleração notável, produzida pelo impulso
energético que se deslocava à velocidade da luz. Mas dali a alguns
metros sua velocidade diminuiu.
A segunda
câmara também se derreteu, depois a terceira, a quarta...
Dentro de
trinta segundos a destruição foi completada. Se os desconhecidos
não possuíssem outra nave-objetiva, estariam “cegos”.
Harras
hesitou. Deveria descer à superfície, ou seria preferível tentar
derrubar a nave? A mesma executou um movimento quase imperceptível.
Não representava um perigo para eles, mas era possível que em seu
interior existissem elementos que poderiam representar alguma
indicação sobre o inimigo desconhecido da outra dimensão temporal.
Que Rous
decidisse. E Rous tomou sua decisão:
— Caso
acredite que pode atingir e destruir uma peça vital, tente. Talvez a
derrube. Nesse caso Steiner terá o que fazer.
“Talvez
na popa”,
pensou Harras e contornou cautelosamente o objeto prateado.
Teve o
cuidado de não penetrar no raio de propulsão perfeitamente visível,
que saía dos bocais a uma velocidade não superior a quatro
quilômetros por segundos. O que representavam esses quatro
quilômetros face à verdadeira velocidade da luz?
Recuou um
pouco, desviou-se, levantou a arma e dirigiu-a para o conjunto de
bocais de popa. Depois comprimiu o botão acionador.
O
resultado foi perfeitamente visível e bastante impressionante. A
nave explodiu.
Mas
explodiu em câmara lenta. No início, a dilatação chegava a
cinqüenta centímetros por segundo, mas depois foi-se tornando mais
lenta. Harras não teve a menor dificuldade em desviar-se dos
destroços que começavam a descer com a lentidão de penas. Trinta
segundos depois da explosão, esses destroços flutuavam,
aparentemente imóveis. Tinha de olhar atentamente para notar que
desciam com uma lentidão incrível, enquanto as peças menores caíam
mais depressa. O envoltório esférico assumiu o formato de um ovo,
isso em virtude da gravitação.
Em seu
receptor Harras ouviu as exclamações dos companheiros, que
contemplavam o fenômeno do solo.
— É
incrível!
Devia ser
Steiner, que nunca deixava de admirar-se sobre os efeitos oticamente
perceptíveis da dilatação do tempo, embora os compreendesse
perfeitamente.
— Volte!
— gritou Rous em tom preocupado. — Senão o senhor acabará sendo
atingido pelo raio vingador da nave-mãe, se é que esta existe.
— Quem
poderia ter descoberto nossa entrada nesse mundo senão ela? —
disse Harras e desceu obliquamente. Passou pelos destroços, que
atingiriam o solo a pouco menos de duzentos metros dali, no lugar
exato em que devia encontrar-se a gazela, naturalmente em sua própria
dimensão temporal.
*
* *
Enquanto
esses acontecimentos se desenrolavam, Ivã Ragow não permaneceu
inativo.
— Parece
impossível — disse Rous, enquanto o zoólogo explicava seu plano —
que até a gravitação está ligada ao tempo. O que lhe deu essa
idéia, Ragow?
O
cientista exibiu um sorriso quase tímido.
— Bem,
as relações não são tão estreitas como as que existem entre o
tempo e o espaço, mas são inegáveis. E convém não esquecer que
minha opinião não passa de uma simples teoria. Só a prática dirá
se é correta. O que me deu a idéia? É simples! Fiquei refletindo
para descobrir um meio de vencer a inércia destas lagartas
petrificadas. Só a energia não basta; logo, deve-se recorrer a
outra coisa. E essa outra coisa poderá perfeitamente ser a
gravitação.
— O
senhor tem razão — disse Steiner e lançou um olhar para o alto,
contemplando Harras que se esforçava para não se aproximar
excessivamente da onda de calor. Descia à velocidade de quatro
metros por segundo. — Quer dizer que pretende colocar uma dessas
lagartas num campo antigravitacional a fim de vê-la se mover?
— Exatamente!
— confirmou o russo e passou a manipular os controles de seu traje
especial arcônida. — Além disso, porei a funcionar minha abóbada
energética. Talvez consiga gerar um campo temporal próprio no
interior da mesma. Não sei se compreende o que quero dizer.
Os homens
fitaram-se. Rous sacudiu a cabeça.
— O
senhor tem muitas idéias; ninguém poderá negar isso. Criar um
campo: temporal autônomo...?! Quer dizer que o senhor acredita que
talvez seja possível’ aproximar os dois planos temporais, através
da criação de outro campo, um campo neutro, que possibilitaria a
comunicação com os desconhecidos, mais precisamente, com os
“uuuns”?
— Sim; é
o que quero dizer. Exatamente isso.
— E
pretende fazer tudo isso no interior de uma pequena abóbada
energética?
— Perfeitamente;
ali posso criar as condições que desejar. Poderei eliminar a
gravitação, gerar qualquer temperatura que me agrade, modificar
minha posição, enquanto as condições permanecem...
— Mas
não conseguirá modificar a condição temporal preexistente.
Ragow
continuava a exibir seu sorriso modesto.
— Quem
foi que lhe disse isso? Até parece que o senhor se esquece de que a
velocidade da luz é parenta próxima do tempo. E, conforme
constatamos, neste mundo a velocidade da luz não ultrapassa quatro
quilômetros por segundo. E no interior da abóbada energética
estarei protegido contra o calor gerado pela fricção com a
atmosfera. O que acontecerá, portanto, se nessas condições eu me
deslocar à velocidade de doze ou treze mach?
Rous
fitou-o perplexo. Em seus olhos surgiu um início de compreensão. E
Steiner acenou lentamente com a cabeça. Noir demonstrou uma
admiração indisfarçada pelas conclusões arrojadas do cientista.
Josua manteve uma atitude de expectativa.
Quando
Harras pôs os pés no chão, mal teve tempo de assistir ao início
da experiência.
Um dos
“uuuns”
manteve-se um pouco afastado do grupo. Ragow colocou-se a seu lado e
com um gesto resoluto ativou a abóbada energética. A figura
cintilante tinha um metro e meio de diâmetro e três de altura.
Envolveu o cientista e a lagarta que parecia petrificada.
Depois
Ragow acionou outra chave de seu traje. Manteve-se completamente
imóvel, para não esbarrar no teto da abóbada energética, pois com
a eliminação da gravidade perdia seu peso.
Um sorriso
leve surgiu em seus lábios quando se abaixou e levantou o “uuum”
com uma das mãos. Isso mesmo: levantou-o. Aquele ser, aparentemente
emparedado no tempo, começou a mover-se de uma hora para outra. Era
bem verdade que seu interior continuava petrificado e aparentemente
morto, mas o conjunto do corpo perdeu a rigidez. A gigantesca lagarta
com suas asas vítreas flutuava lentamente ao lado de Ragow.
Subitamente
Ragow mexeu em outro controle. A abóbada energética com seu
conteúdo vivo subiu rapidamente. Dentro de poucos segundos, a
velocidade de Ragow ultrapassou o limite de segurança que até então
vinham observando e o cientista desapareceu rapidamente dos olhares
dos companheiros.
Rous fitou
Steiner.
— Não
deveríamos ter permitido que voasse por aí — disse o tenente. —
Quem sabe se suas teorias são corretas?
— Deveríamos
ter pensado nisso mais cedo — respondeu o físico. — Mas acredito
que não temos motivo para preocupações. Será que poderíamos
entrar em contato com ele por meio do rádio?
Rous
tentou, mas o resultado foi negativo.
— Talvez
não tenha tempo — conjeturou Harras, que fora posto a par da
situação por Noir. — Deve ser isso! Quando me encontrava lá em
cima para destruir a nave, quase cheguei a esquecer-me de que possuo
um transmissor.
— Ragow
não tem tempo? — perguntou Steiner em tom de incredulidade. —
Ele está modificando o tempo; logo, não pode deixar de tê-lo.
Ninguém
disse nada. Sentiam-se oprimidos pelo peso da imobilidade.
E pelo
silêncio, interrompido somente por um prolongado uuuuum...
*
* *
— Devemos
deixar para depois os estranhos que penetraram em nossa dimensão.
Por enquanto temos de providenciar para que os escravos cuidem das
criaturas de que nos apossamos. Trata-se da população de um
planeta. Será que com isso não conseguimos uma aproximação
sensível das dimensões temporais?
— Pelo
que dizem os cientistas, os estranhos acabam adotando nosso fluxo
temporal, motivo por que não exercem qualquer influência sobre o
mesmo. Não se espera um ajustamento total das duas dimensões.
— Temos
de alcançar esse ajustamento; do contrário voltaremos a viver na
solidão como sempre vivemos. Voltaremos a resvalar para a eternidade
solitária da ausência do tempo. É bastante duvidoso que depois
disso voltemos a ter uma chance de entrar em contato com as outras
inteligências do Universo.
A grande
nave voltou a acelerar e sua velocidade ultrapassou a da rotação do
planeta colonial.
Dali a
alguns minutos, o alarma soou pelos amplos corredores e salões.
— O que
aconteceu?
— Não
sei. O mestre dirá.
— Atenção,
todos! Houve uma invasão de nossa dimensão, vinda de outro plano
temporal. Trata-se de uma invasão violenta. Estamos sendo atacados.
— Atacados?
— Sim,
atacados!
Levaram
nada menos de cinco segundos para esboçar a reação.
Foram
cinco segundos preciosos. Cinco segundos que foram demais...
6
Ivã Ragow
estava com o “uuum”
imobilizado.
Numa
altitude de dez quilômetros, atravessava vertiginosamente a
atmosfera do planeta estranho; a abóbada energética protegia-o. O
reator de seu traje especial garantia uma velocidade cada vez maior.
Ao contrário do Tenente Rous, Ragow estava convencido de que a
ultrapassagem da velocidade da luz que prevalecia nesse mundo
provocaria certos efeitos.
Três
quilômetros por segundo!
Isso
correspondia aproximadamente a 255 mil quilômetros por segundo, no
Universo de Ragow. A dilatação einsteiniano ainda não se tornou
perceptível, ao menos num grau em que pudesse ser registrada.
O “uuum”
não se mexeu. Mantinha-se imóvel ao lado de Ragow sustentado no
interior da cabine energética pelos campos energéticos. Neste meio
tempo, a lagarta levantara a presa direita por alguns centímetros.
Ao ler nos
instrumentos que estava percorrendo três mil novecentos e noventa
metros por segundo, Ragow percebeu a primeira modificação no objeto
de sua experiência. De início as duas presas se moveram, depois os
pés e finalmente as finas asas e os olhos.
Os olhos!
Fitavam Ragow!
Quatro
quilômetros por segundo. Pouco menos que a velocidade da luz. Talvez
fosse suficiente.
O “uuum”
parecia despertar de um sono profundo. Uma expressão inteligente
surgiu em seus olhos. Ao que parecia, começava a compreender que
algo de extraordinário estava acontecendo com ele ou com o ambiente
em que se encontrava. Fez um movimento que o projetou contra a
barreira invisível do campo energético, que o repeliu e fez com que
se deslocasse em sentido oposto.
Soltou um
grito ligeiro e agudo.
Ragow
sorriu; estava satisfeito. O ajustamento ótico era seguido pelo
acústico. O “uuum”
longo e profundo transformara-se num pio agudo. Talvez a lagarta
ainda se movimentasse um pouquinho mais devagar que ele mesmo. Mas de
qualquer maneira fora arrancada daquela rigidez notável.
— Fique
bem quietinha, lagartinha — disse o cientista em tom paternal e
apontou para baixo, onde uma camada de nuvens fechava a vista sobre a
superfície do planeta. — Se você cair daqui quebrará os ossos, a
não ser que escorregue imediatamente para seu preguiçoso plano
temporal.
O “uuum”
inclinou ligeiramente a cabeça e procurou ouvir o som da voz de
Ragow. Não compreendeu o sentido das palavras, mas parecia sentir o
tom de advertência. A expressão dos olhos passou do espanto ao
pânico.
Ragow
reduziu a velocidade da cápsula energética. Imediatamente os
movimentos do “uuum”
voltaram a tornar-se mais lentos. Com a redução da velocidade
aquele ser retornava ao seu plano temporal.
O
cientista praguejou baixinho.
— Paciência,
tenho que tentar de outro jeito! — disse em tom obstinado e voltou
a acelerar.
Nem ele
nem o “uuum”
sentiram qualquer espécie de pressão, pois os campos
antigravitacionais criavam um ambiente que não poderia ser atingido
por qualquer influência vinda de fora.
— Estou
curioso para ver o que vai acontecer! — sussurrou.
O
minúsculo ponteiro da escala aproximou-se de uma marcação que não
estava assinalada, pois no Universo normal não possuía qualquer
significado especial.
— Quatro
mil, cento e sessenta metros por segundo! Era a velocidade da luz! Ao
menos aqui... — disse admirado.
Os
movimentos do “uuum”
eram completamente normais e em relação à velocidade correspondiam
exatamente aos de Ragow. O ajuste total das duas dimensões temporais
acabara de ser realizado, mas a situação criada era instável.
Qualquer modificação na velocidade faria com que os dois planos
temporais voltassem a afastar-se.
Quatro
mil, cento e sessenta metros por segundo!
Sem dúvida
aconteceria aquilo que ele previra quando a velocidade voltasse a ser
inferior à da luz. Mas o que aconteceria se antes disso a velocidade
da luz fosse ultrapassada? Ragow já se formulara esta pergunta, mas
não encontrou qualquer resposta que possuísse fundamento lógico.
Praticamente não havia qualquer possibilidade de ultrapassar a
velocidade final, mas neste ambiente de tempo retardado era possível.
O que
aconteceria?
Cinco
quilômetros por segundo. Dez quilômetros.
Era muito
mais que a velocidade da luz. Ragow observou o “uuum”
com a mesma atenção que dedicou ao próprio corpo. Não notou
qualquer alteração. Os movimentos da lagarta continuavam
absolutamente normais; apenas tentava adaptar-se ao estado de
ausência de gravidade.
Ragow
ligou o transmissor e chamou Rous. A resposta demorou alguns minutos.
As pessoas com que pretendia entrar em contato encontravam-se
trezentos quilômetros à sua frente.
— O que
houve? — perguntou Rous. — Onde se meteu, Ragow? Já estávamos
preocupados.
— Sem
motivo, como sempre — disse o russo para tranqüilizá-lo. —
Neste instante, estou correndo a uma velocidade relativa superior à
da luz pelas camadas superiores da atmosfera. O comportamento do
“uuum”
é normal. Permanece em nosso plano temporal.
— Pretende
pousar?
A resposta
demorou um pouco:
— Estou
com vontade, mas receio que depois disso o objeto de minhas
experiências volte a transformar-se numa massa petrificada. É bem
verdade que tenho uma esperança que pode parecer maluca...
— Diga
logo!
— Ultrapassei
a velocidade da luz. É possível que algum fenômeno desconhecido
tenha estabilizado a dimensão temporal.
— É
apenas uma suposição! — disse Rous em tom decepcionado. — Pouse
logo.
Ragow
reduziu a velocidade, sem tirar os olhos do “uuum”.
Três
quilômetros por segundo... dois...
Os
movimentos do “uuum”
continuaram normais. Não se via o menor sinal de retorno ao plano
temporal mais lento.
Um
quilômetro por segundo.
Ragow
quase não acreditou, mas não havia a menor dúvida: a dimensão
temporal do “uuum”
ajustara-se à sua. A ultra-passagem da velocidade relativa da luz
produzia a fusão das suas dimensões.
Só o
futuro diria se o processo era duradouro, ou se apenas se tratava de
efeito transitório.
Ragow
continuou a reduzir a velocidade e desceu. Mal tocou o solo pedregoso
do planeta, desligou o campo energético e deixou que a gravitação
normal retornasse. O “uuum”,
que mantinha o corpo ereto, tinha uns vinte centímetros menos que
ele.
A estranha
criatura lançou olhares atentos e curiosos em todas as direções.
Evidentemente
a visão de seres humanóides não constituía novidade para ele.
— Até
que é um sujeito engraçado — disse Steiner. — Está
completamente normal? Move-se com a mesma rapidez que nós? É
incrível!
Ragow deu
de ombros.
— Depois
poderemos quebrar a cabeça sobre isso. De qualquer maneira, sei que
podemos trazer qualquer ser para nosso plano temporal, desde que
queiramos. Para os “uuuns”
a coisa é mais fácil; basta passar por cima de nós com sua frente
temporal, e estamos transformados.
— O que
pretende fazer com ele?
Ragow não
respondeu. Fitou atentamente o “uuum”
quando o ser se pôs sobre as pernas curtas e saiu andando. Soltou
gritos agudos, que nem de longe lembravam o “uuum”
que antes emitira.
A lagarta
caminhou até as cavernas e subitamente estacou. Ragow, que o
seguira, percebeu o motivo: reconhecera seus companheiros
imobilizados.
Era a
primeira prova visível da inteligência desses seres. A hipótese de
se tratar realmente dos donos da outra dimensão obteve um reforço.
Ragow
quase chegou a assustar-se quando percebeu a expressão indagadora
nos olhos negros do “uuum”
que o fitava. Depois o estranho ser começou a tatear os companheiros
enrijecidos com as presas e a examiná-los. Isso demorou dez minutos.
Os seis homens acompanhavam seus movimentos numa expectativa muda e
ansiosa, sempre dispostos a repelir um eventual ataque.
Subitamente
o “uuum”
virou-se e caminhou em sua direção. Parou à frente de Ragow.
Será que
o conhecia?
Noir
saltitava nervosamente. Rous cochichou ao seu ouvido:
— É
telepata? Está notando alguma coisa?
— Sou
apenas um hipno — respondeu Noir. — Infelizmente não sei ler
pensamentos; só posso influenciar o cérebro de outras criaturas.
Mas posso criar no cérebro do “uuum”
certas imagens mentais que o façam compreender o que desejamos dele.
Se formulo uma imagem visual em minha mente, o “uuum”
também a enxergará. Ainda posso ordenar-lhe que não fuja, se é
isso que o senhor deseja.
— Por
enquanto prefiro que conserve sua vontade — disse Ragow. — Por
isso peço-lhe que se limite a procurar uma forma de comunicação
através de imagens mentais.
O hipno
acenou com a cabeça e pôs-se a trabalhar.
Encontrou
um aluno muito inteligente...
*
* *
Trouxeram
mais dois “uuuns”
para sua dimensão temporal, com o que provaram que o resultado
obtido com a primeira experiência de Ragow não era fruto do acaso.
Mas nem mesmo Steiner conseguiu encontrar uma explicação
fundamentada para o fenômeno. Só lhes restava aceitar o fato como
tal e deixar as perguntas em aberto. Rous afastou-se juntamente com
Harras, a fim de não perturbar as experiências de Noir. Ragow
também estava muito ocupado, e preferia ficar só. Steiner voava em
direção aos destroços da nave-câmara, que continuavam a descer, a
fim de iniciar o exame dos mesmos. Josua montava guarda sobre uma
rocha mais elevada.
— Será
que devíamos trazer um dos arcônidas de volta ao nosso tempo? —
disse Rous, apontando para a planície, onde o destacamento policial
petrificado do administrador de Tats-Tor levava uma existência
imóvel.
— Para
quê? — perguntou Harras. — Não devemos nada a esses sujeitos
convencidos; pelo contrário. Além disso, não compreenderiam;
diriam que somos culpados de tudo.
— Concordo
plenamente com o senhor, mas não é assim que devemos pensar. Rhodan
nos confiou uma tarefa, e esta foi cumprida quase completamente.
Apenas não conseguimos voltar e apresentar nosso relatório. A esta
hora devem estar preocupados conosco e talvez resolvam agir. A gazela
ainda deve estar no mesmo lugar.
— Se é
que resistiu ao ataque e o GCR continua intacto — comentou Harras.
Uma sombra
passou pelo rosto de Rous.
— Este é
o ponto mais importante. Qual é o motivo da falha do aparelho? O
fato deve ter ocorrido independentemente de qualquer intervenção
humana, pois quando aconteceu não havia um único ser humano em
Tats-Tor. Além disso, estou convencido de que isto aqui — com um
movimento amplo apontou para a planície, até o horizonte distante —
não é Tats-Tor. Encontramo-nos em outro planeta. Apesar disso a
gazela só pode estar perto da árvore-forca. Será que dois planetas
podem existir simultaneamente no mesmo lugar?
Harras
sacudiu a cabeça.
— Simultaneamente
nunca, tenente. Acontece que os dois planetas constituem mundos que
vivem em dimensões temporais diferentes; por isso é possível que
se encontrem aparentemente no mesmo lugar. Na verdade, só
permaneceram simultaneamente no mesmo lugar por um milionésimo de
segundo, que é o momento em que se verificou o contato.
Rous pôs
as mãos nos quadris.
— Quer
saber de uma coisa, Harras? Não devemos pensar muito sobre isso.
Nunca desvendaremos o mistério, ao menos enquanto permanecermos no
terreno das sutilezas especulativas. Se um dia conseguirmos
esclarecer tudo, isso só se verificará por meio da física ou da
matemática. Talvez Steiner possa ajudar.
Olharam
para cima. Viram perfeitamente que a uns cinqüenta metros de altura
o físico achava-se entre os destroços da nave. Steiner ainda estava
examinando as peças que lhe pareciam importantes e procurava
introduzi-las no envoltório energético. Conseguiu fazê-lo por meio
do campo antigravitacional.
Rous ligou
o rádio.
— Conseguiu
alguma coisa, Steiner?
— Depende...
— respondeu Steiner prontamente. — Ainda não sei como estes
fragmentos poderiam ser examinados. Estão submetidos às leis da
outra dimensão temporal. Assim que saem do campo antigravitacional
de meu traje especial; não consigo movê-los.
— Aplique
o método de Ragow. Aquilo que aconteceu com os seres orgânicos
também deverá funcionar com a matéria inorgânica. Faça uma
viagem com eles.
Steiner
compreendeu imediatamente.
— É uma
ótima idéia. Ultrapassarei a velocidade da luz e trarei as peças
para nosso plano temporal. Se começarmos a refletir sobre isso,
concluímos que é um absurdo.
Deixou que
os dois homens que se encontravam em terra contraditassem sua tese e
saiu voando com sua abóbada energética. Os destroços que ficaram
para trás continuaram a descer tranqüilamente, como se nada tivesse
acontecido. A velocidade da queda aumentava lentamente, mas
demorariam a atingir o solo. Provavelmente o impacto infinitamente
lento os romperia ou deformaria com a mesma vagarosidade.
— Quer
saber o que estou pensando, tenente? — perguntou Harras, olhando
para o lugar em que Steiner desaparecera no horizonte.
— O que
é?
— Estamos
vivendo na outra dimensão, e até agora conseguimos rechaçar todos
os ataques. Até gozamos de certa superioridade sobre os
desconhecidos. Mas as diferentes concepções sobre o tempo deixam-me
confuso. Veja só o que Ragow fez: conseguiu... bem, quase diria que
conseguiu inverter “os
pólos do uuum”.
Mas o que gostaria de saber, tenente, é quanto tempo se passou
realmente... Lá na nossa dimensão, quero dizer.
Rous
fitou-o atentamente.
— Isso é
uma coisa que ninguém de nós sabe, meu caro. Só podemos fazer
votos de que a diferença não seja muito grande.
Calou-se,
porque nesse instante o receptor embutido em seu anel emitiu um
zumbido. Comprimiu um botão.
— Alô;
quem está falando?
— É
Steiner. Preste atenção, Rous! Acabo de encontrar uma coisa. Está
a uns cem quilômetros ao oeste do platô em que você se encontra.
Poderia vir o mais rápido possível?
— O que
é?
Seguiu-se
uma ligeira pausa, depois da qual Steiner disse:
— É um
girino da classe de sessenta metros, pousado no solo. Se não me
engano, traz uma designação usual entre nós: K-7.
O Tenente
Marcel Rous teve a impressão de que seu coração iria parar.
A K-7 era
comandada por ele há exatamente três meses, quando o planeta Mirsal
III foi assaltado e despovoado pelos seres da outra dimensão
temporal. De início Becker tornou-se invisível e desapareceu por
completo juntamente com dois outros homens. Depois, quando retornou
duma excursão à cidade abandonada, a nave auxiliar K-7 também
deixara de existir. Os desconhecidos haviam levado a nave juntamente
com os tripulantes, e desde então esta foi dada como perdida.
E agora...
três meses depois!
Rous
respirou profundamente e disse:
— Fique
onde está e transmita sinais goniométricos, Steiner. Irei
imediatamente.
— Irei
com o senhor — disse Harras em tom resoluto.
7
Só
encontraram Steiner graças aos sinais goniométricos irradiados por
seu transmissor. De uma grande altitude dificilmente se reconheceria
o girino, que mal se destacava do fundo rochoso. Mas à medida que os
dois homens foram descendo, a nave esférica surgia cada vez mais
nítida. Estava parada no platô, com a escotilha principal aberta,
como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
A K-7
desaparecera num tempo em que ninguém suspeitava de que maneira
ocorria o cruzamento entre os dois planos temporais.
Steiner
fez um sinal para Rous e Harras, que desceram devagar e pousaram
suavemente.
— Podia
ter entrado, mas pensei que isso cabe ao tenente. Realmente é uma
das nossas naves?
Rous
acenou com a cabeça; parecia zangado.
— Se é!
Até é minha nave, que é considerada desaparecida há três meses.
Já desistimos das buscas. Nunca pensei que pudesse reencontrar minha
boa e velha K-7. Como foi que a encontrou?
— Foi
por um simples acaso, tenente. No momento em que ultrapassei a
velocidade da luz e desacelerei para retornar, meus instrumentos
registraram a presença de grande quantidade de minérios. Bem, foi
só isso. Quando procurei localizar os minérios, encontrei o girino
— só agora Steiner parecia compreender o que Rous havia dito. —
O que foi que disse, tenente? Esta é sua antiga nave? É mesmo sua
nave? Isso seria...
Não soube
mais o que dizer.
Rous não
lhe deu mais atenção; dirigiu-se à K-7. Harras seguiu-o, depois de
ter dado umas palmadinhas no ombro dei Steiner. Às vezes, o físico
custava a compreender.
O girino —
este nome dado às naves esféricas já se tornara oficial — estava
apoiado sobre os suportes telescópicos e, ao que parecia, esperava
por alguma coisa. A escotilha aberta levava à conclusão de que os
tripulantes se sentiam seguros e tinham certeza de que não corriam
qualquer risco.
Enquanto o
Tenente Rous se aproximava da K-7, os acontecimentos de três meses
atrás voltaram a passar por sua mente.
Naquele
tempo, pousaram no planeta Mirsal III, a fim de encontrar-se com o
embaixador do computador-regente de Árcon. Foi então que souberam
do imenso perigo que ameaçava o Universo. Enquanto ainda se
discutiam os detalhes da aliança entre a Terra e Árcon verificou-se
um ataque dos inimigos invisíveis contra Mirsal III.
Durante
uma missão isolada desapareceram o cadete Becker e mais dois
tripulantes da K-7. O Tenente Rous estava presente quando se
verificou o acontecimento inacreditável. Logo após saiu da K-7, a
fim de fazer uma excursão pela cidade. Quando retornou ao lugar em
que estivera pousada a K-7, notou que o girino desaparecera sem
deixar o menor vestígio. Pela primeira vez os terranos ficaram
sabendo que o temível inimigo não se apoderava apenas dos seres
orgânicos.
Isso
acontecera em princípios de setembro de 2.040. E agora estavam em
princípios de janeiro de 2.041. Quatro meses haviam passado.
E ali, a
centenas de anos-luz do local dos acontecimentos, estava a K-7,
intacta, como se nada de alarmante tivesse acontecido.
Rous
chegou à escada que levava à comporta de ar. Harras estava a seu
lado. Os dois homens olharam-se. Cinqüenta metros atrás deles,
Steiner achava-se recolhendo os destroços que agora estavam sujeitos
às leis de sua dimensão temporal.
— Será
que ainda estão vivos? — perguntou Harras em voz baixa. Rous deu
de ombros.
— Não
sei, Harras. Já se passou muito tempo.
— Talvez
— disse Harras em tom misterioso e começou a subir a escada. Nem
pensou em deixar o chefe da expedição passar à frente. — Logo
saberemos.
Rous
seguiu-o até que chegaram à ampla comporta. A escotilha interna
também estava aberta. Se estivesse fechada, não saberiam como
abri-la. Era de supor que a K-7 estivesse sujeita à nova dimensão
temporal e se regesse pelas leis naturais que prevaleciam na mesma.
O corredor
estava vazio.
— Vamos
à sala de comando — disse Rous e estremeceu quando o eco de suas
palavras foi devolvido pelas paredes do corredor. — Talvez estejam
em conferência.
Não se
encontraram com ninguém. Felizmente os receios de Rous não se
confirmaram: todas as portas estavam abertas. A nave parecia deserta.
A porta que dava para a sala de comando estava entreaberta.
Um homem
que envergava o uniforme verde-claro do Império Solar acabara de
entrar na sala de comando e estava fechando a porta. Rous o conhecia
de vista. Pertencia à equipe técnica. Estava imóvel e como que
petrificado, com o rosto dirigido para o corredor vazio e a mão
sobre a maçaneta. Estava fechando a porta, mas isso levaria algumas
horas.
Cautelosamente,
Rous abaixou-se para passar sob o braço dele e entrou na sala de
comando. Suas suposições revelaram-se corretas. Toda a tripulação
estava reunida ali. O recinto era apertado, mas todos os homens
haviam encontrado lugar. O Tenente Hiller, imediato da K-7, estava de
pé sobre um caixote e proferia um discurso. Estava com a boca bem
aberta e a palavra que estava proferindo devia conter a letra O.
“Santo
Deus, quanto tempo duraria um ‘o’ num lugar como este? Duas horas
ou três?”,
pensou interrogativamente.
Os olhos
dos seqüestrados estavam dirigidos para o Tenente Hiller, com
exceção daquele que estava entrando.
— Meu
Deus! — gritou Harras, que seguira Rous. — Isto até parece uma
reunião... de cadáveres...
— Realmente
estão mortos, ao menos para nós — disse Rous com a voz tranqüila.
— Felizmente já sabemos como trazê-los de volta à vida. Ah —
disse, apontando para um homem que envergava o uniforme dos cadetes
da Academia Espacial — ali está Becker. Gostaria de saber como
conseguiu chegar ao girino. Quando os desconhecidos foram buscá-lo,
estava bem longe dos outros.
Harras não
respondeu. Aproximou-se do orador que, segundo dissera Rous, era o
Tenente Hiller. Fitou por algum tempo a boca arredondada do oficial e
deixou que a visão de um homem congelado no tempo o fascinasse.
Depois prestou atenção ao zumbido que enchia a sala de comando e
não queria cessar.
— Uma
batida do coração dura umas quinze ou vinte horas — disse Rous em
meio ao silêncio.
Harras fez
um gesto afirmativo; parecia despertar de um sonho.
— Sei,
tenente, sei. Como poderemos libertá-los?
— Usaremos
o mesmo método que aplicamos para trazer o “uuum”
ao nosso plano temporal.
Harras
apontou para a porta.
— Acho
que devemos andar depressa. Quando esse sujeito tiver fechado a
porta, estaremos presos. Conhece algum meio de sairmos de uma
armadilha como esta? Eu não conheço.
Rous
empalideceu. Infelizmente Harras tinha razão. Quando a porta que
dava para a sala de comando estivesse fechada, não haveria como sair
dali. Se o imediato resolvesse falar durante dez minutos, isso
bastaria para que na realidade se passassem quase dois anos.
Embora a
temperatura fosse amena, subitamente sentiu um calor abrasador.
Há quanto
tempo se encontravam no plano temporal estranho?
Quanto
tempo se passara lá fora? Rous fez um esforço para controlar-se. —
O senhor tem razão, Harras. Devemos andar depressa. Pelos meus
cálculos ainda deverão passar algumas horas antes que a porta se
feche. Peça a Ragow, Noir e Josua que venham até aqui. Aproveite
para levar um dos homens. Eu cuidarei de Becker.
Ligou o
campo antigravitacional de seu traje, segurou Becker pela cintura e
conduziu-o cautelosamente ao corredor. Becker estava rígido como
vidro, mas em virtude da ausência de gravidade foi fácil movê-lo.
Lá fora explicou a situação a Steiner, que o seguira, deixando
para trás os destroços da nave. A tarefa que os esperava ali era
mais urgente e mais interessante.
O físico
também correu para o interior da nave para tirar um tripulante.
Rous
ativou seu campo defensivo e subiu com Becker. Quando atingiu a
altitude de dez quilômetros acelerou e assistiu ao “despertar”
de seu cadete. No inicio, os movimentos de Becker eram quase
imperceptíveis. Mas à medida que os dois planos temporais se
aproximavam, tornavam-se cada vez mais visíveis. Depois entraram em
sintonia.
Os olhos
arregalados de Becker constituíam sinal evidente do que estava
acontecendo. Rous fez um gesto e disse:
— Um
momento, Becker! Explicarei tudo. Não fale!
Becker
olhou para baixo e viu a superfície do planeta deslizar. Rous
aumentou a velocidade para cinco quilômetros por segundo, descreveu
uma curva bem aberta, retornou pela mesma rota, e reduziu a
velocidade. Voltaram a pousar na superfície do planeta, junto à
K-7.
Rous
desligou o campo defensivo e o campo antigravitacional.
— Seja
bem-vindo, cadete Becker — disse com um sorriso forçado. —
Pergunte à vontade. Enquanto isso meus homens libertarão seus
companheiros. Acho que já sabe que foram prisioneiros. Prisioneiros
de outra dimensão temporal.
Becker
acenou lentamente com a cabeça, olhou em torno e cochichou em tom
assustado:
— Como
veio parar aqui? O que diz Sikermann?
Rous
empalideceu; viu confirmadas suas suposições, por mais estranhas
que fossem.
— Sikermann...
bem, Sikermann já se esqueceu do incidente. Fique bem tranqüilo,
Becker. Está lembrado do que aconteceu? Ainda sabe como começou
tudo?
O cadete
Becker acenou com a cabeça; parecia espantado.
— É
claro que sei. O senhor mandou que entrasse naquela casa, que
desapareceu juntamente com todas as outras casas da cidade. Depois
tive a impressão de que alguma coisa me arrastava para fora do mundo
visível. Deve ter sido uma espécie de teleportação forçada.
Quando voltei a abrir os olhos, estava aqui. Durante um instante
Horrahk, Jeffers e eu ficamos sós no platô. Depois a K-7
materializou-se perto de nós, juntamente com a tripulação. Não
compreendemos o que estava acontecendo, mas o imediato, Tenente
Hiller, mandou que fôssemos à sala de comando. Acreditou que tinha
encontrado uma explicação. Apenas disse algumas frases, e depois
aconteceu uma coisa estranha.
Os
pensamentos de Rous começaram a atropelar-se em seu cérebro.
Desconfiava da verdade e receava extrair as conseqüências da mesma.
Aquilo que ocorria com Becker e seus companheiros também se aplicava
a eles.
Ou será
que não se aplicava? Afinal de contas, haviam permanecido em seu
plano temporal, embora se encontrassem em outra dimensão.
— O que
aconteceu?
— Foi
quase a mesma coisa de antes. Vi o Tenente Hiller desaparecer diante
dos meus olhos; era como se uma nuvem se interpusesse entre nós.
Alguma coisa me arrastava, mas levei alguns instantes para perceber a
modificação. Por algum tempo não vi mais nada, e depois vi o
senhor.
Rous
compreendeu. Antes que os nervos de Becker pudessem transmitir os
reflexos, a modificação já se completara.
— Conservamos
nossa extensão temporal, muito embora nos encontremos num plano
estranho. Mais tarde Steiner poderá explicar tudo. Achamos um meio
de transferir seres vivos e matéria orgânica da outra dimensão
para a nossa. Resta saber o que acontecerá com o girino. É muito
grande para que possamos libertá-lo da prisão do tempo.
Becker
sacudiu a cabeça.
— Como
foi que o senhor conseguiu fazer isso tão depressa? Quem é Steiner?
Também não conheço os outros, com exceção do hipno...
Rous
colocou a mão no ombro de Becker.
— Diga-me
mais uma coisa, e não se espante com minha pergunta. Sabe dizer
quanto tempo se passou desde o momento em que saiu da casa em Mirsal
e o outro plano temporal o atingiu e devorou?
Becker
lançou um olhar pensativo para seu superior. Percebeu que o Tenente
Rous prendeu a respiração enquanto aguardava a resposta.
— Bem —
disse, falando devagar — no máximo dois minutos. Mal cheguei ao
platô, a K-7 surgiu, abriu a escotilha, o Tenente Hiller apareceu
para mandar que...
Rous não
estava ouvindo mais.
Começou a
desconfiar de que era perfeitamente possível que, ao rever o planeta
Terra — se é que um dia conseguisse revê-lo — o mesmo tivesse
envelhecido alguns milênios, a não ser que acontecesse um milagre.
Entretanto
milagre havia acontecido poucos segundos antes.
*
* *
Dali a
pouco, Harras sacudiu energicamente a cabeça.
— Não,
tenente, isso é impossível! A K-7 terá de ficar onde está. Nunca
conseguiremos retirá-la do plano em que se encontra e restituir-lhe
a dimensão temporal que lhe é própria. Aliás, o que teríamos a
ganhar com isso? Já temos possibilidade de levar os mantimentos, a
água e outras coisas de que precisamos para subsistir neste plano
temporal. Poderemos agüentar até que recebamos auxílio. Se não
voltarmos, Rhodan nos procurará. Neste meio tempo, poderemos morar
na K-7. Constatamos que, se ligarmos o campo antigravitacional, as
portas podem ser abertas e fechadas.
— É
verdade que encontramos um lugar para abrigar-nos. — Começou Rous
— mas tenho minhas preocupações. Não nos esqueçamos que,
enquanto envelhecemos três meses, o cadete Becker e os tripulantes
da K-7 apenas envelheceram dois minutos. O que acontecerá se a mesma
lei não se modificar? Haverá uma dilatação. Ainda não sabemos
qual é a extensão da mesma e qual é sua proporção em relação
ao verdadeiro fluxo do tempo.
Steiner
fez um gesto negativo.
— Acho
que estamos nos preocupando à toa. Se realmente tivesse passado um
tempo muito longo, Rhodan já teria tomado alguma providência. Será
que alguém acredita que Rhodan é capaz de abandonar seus homens?
Pois então! Se ainda não apareceu, isso só pode ter um motivo: o
tempo decorrido é tão curto que ainda não teve motivo para
preocupar-se.
— É
possível que o lugar onde estamos fique em outro setor espacial —
disse Harras com a maior tranqüilidade. — Nesse caso, não haveria
como encontrar-nos.
Steiner
preferiu não apresentar qualquer argumento contrário. Aliás, não
dispunha de nenhum.
Degenhoff,
o operador de rádio da K-7, encontrava-se num ponto um tanto
afastado, ouvindo a conversa. Aproximou-se e disse:
— Tenente
Rous, permita uma sugestão. Por que não expedimos uma mensagem pelo
rádio? A bordo do girino temos um hipertransmissor de alta potência.
Pouco importa se os arcônidas ou quem quer que seja nos localizem.
Interessa-nos é que Rhodan receba nosso pedido de socorro.
Rous
esteve a ponto de fazer um gesto de recusa, mas conteve-se em meio ao
movimento. Lançou um olhar indagador para Steiner e Harras.
— Como
poderíamos manipular o transmissor? — perguntou.
— Na
verdade, é muito grande para ser transportado à nossa dimensão
temporal; mas poderíamos desmontá-lo, tenente. Depois de realizada
a transferência, poderemos montar as peças.
— Excelente
— disse Rous com um sorriso malicioso. — O que acontecerá com os
impulsos que irradiarmos depois de realizada essa operação? Será
que conseguirão deixar o plano temporal em que nos encontramos e
atingir os receptores do planeta Terra? Acho que nem mesmo o senhor,
Degenhoff, poderá responder a esta pergunta.
— Ninguém
poderá — interveio Steiner com ligeira recriminação na voz. —
Todavia, mais vale experimentar que estudar. Sou a favor da proposta
de Degenhoff.
— Eu
também — disse Harras. — Se bem que estou convencido de que os
impulsos de rádio sofrerão alguma alteração. Serão absorvidos
pela barreira do tempo, ou então sofrerão uma aceleração ou um
retardamento tamanho que ninguém conseguirá decifrá-los.
— Está
bem — disse Rous, encerrando a discussão. — Vamos experimentar.
Degenhoff
pôs-se a trabalhar. Dali a duas horas, anunciou que o transmissor
havia sido desmontado em três partes. Por enquanto o complicado
receptor não sofreria a mesma operação.
Dali a
mais duas horas o hipertransmissor estava montado à sombra da K-7,
pronto para entrar em funcionamento. Degenhoff aguardou o sinal.
Rous
disse:
— As
chances são muito reduzidas, pois nem sequer sabemos em que direção
fica a Terra ou qualquer outra estação receptora. Pelo que vê,
Degenhoff, não é só o tempo que representa um problema para nós.
Também o espaço deverá causar-nos certas dificuldades.
— Farei
a fita reproduzir a mensagem, e manterei a antena de transmissão em
rotação contínua. Dessa forma, todos os setores deste segmento de
esfera serão atingidos. Depois teremos de levar o transmissor e o
reator à outra face do planeta, para repetir o procedimento. Assim
poderemos ter uma certeza relativa de que alguém captou nossa
mensagem.
— Qual
será o teor da mensagem? — perguntou Steiner em tom de ceticismo.
Rous pegou
um pedaço de papel e começou a escrever.
Steiner
lançou os olhos para o céu, que continuava encoberto. Estava à
procura do relâmpago que devia pairar junto à linha do horizonte.
Ainda não sofrerá qualquer modificação, e a vista já se
acostumara ao mesmo. Concluía-se que ao todo haviam passado menos de
um segundo neste mundo. Josua, que voltara a montar guarda junto à
árvore-forca que continuava a arder, avisara que o círculo luminoso
não reaparecera. Dentro de duas horas, Noir o revezaria. Uma pessoa
deveria estar constantemente nesse lugar.
Rous fez
algumas correções no texto. Finalmente deu-se por satisfeito com o
trabalho.
— Acho
que poderá ser isto — disse sem muita convicção, e entregou o
bilhete a Degenhoff. Este o pegou e leu:
Pedido
de socorro. Aqui fala expedição do tempo de Marcel Rous. Dirijo-me
a qualquer receptor. Caminho de volta bloqueado, gerador de campo de
refração falhou. Posição desconhecida. Fluxo do tempo constante.
Tripulação da K-7 encontrada. Tudo bem.
Ten.
Marcel Rous.
Steiner
fez um gesto afirmativo.
— Será
uma bela mensagem, desde que alguém a ouça.
Degenhoff
fez um gesto nervoso.
— Alguém
ouvirá; eu lhe garanto. Se estes “uuuns”
a captarem, levarão algum tempo para retardá-la o bastante para
poderem alcançar a percepção acústica. E quando isso acontecer,
ainda terão que decifrá-la. Quanto aos arcônidas... bem, se estes
ouvirem a mensagem, Rhodan será informado.
Rous fez
um gesto impaciente.
— O que
está esperando, Degenhoff?
Steiner
olhou para o operador de rádio que se afastava e estreitou os olhos.
Quando acreditava estar a sós com Harras e Rous, disse em tom
contrariado:
— Diga-me
uma coisa, tenente. Está realmente convencido de que adiantará
alguma coisa expedir a mensagem? Será que conseguirá romper a
barreira do tempo? Comigo pode ser franco. Saberei suportar a
verdade.
Rous
lançou um olhar indagador para o físico. Depois mostrou um sorriso
frio.
— Para
dizer a verdade, Steiner, não sei. Não posso responder nem sim, nem
não. Só o tempo poderá dar a resposta.
— E o
tempo não terá pressa — disse Harras com a voz tranqüila.
— É bom
que saiba uma coisa, tenente. Se a transmissão da mensagem não der
resultado, ainda nos restará uma esperança. Confesso que se trata
de uma esperança louca, mas não deixa de ter seu fundamento e não
se baseia em simples suposições ou especulações vagas. Se nada
der certo e não aparecer ninguém para buscar-nos, desmontaremos a
K-7 e a libertaremos da prisão do tempo, peça por peça. Depois
voltaremos a montá-la e teremos um veículo espacial apto a entrar
em ação, que obedecerá às nossas leis do tempo. Aposto qualquer
coisa que com ela encontraremos a Terra.
— Sim; é
possível que encontremos a Terra. Apenas faço votos de que não
seja Uma Terra em que ninguém se lembre de nós porque lá
decorreram alguns milênios.
Steiner
não respondeu. Franziu a testa, meio assustado, hesitou por alguns
segundos e afastou-se. Parou junto à encosta do platô e lançou os
olhos para a grande planície.
Harras
seguiu seu exemplo. Seu rosto não traía o que se passava em sua
mente.
Degenhoff
estava sentado à frente do transmissor e preparava a fita. Dali a
alguns minutos, o reator começou a zumbir. A antena expeliu os
impulsos invisíveis que subiram ao céu avermelhado daquele mundo
desconhecido, que flutuava nos limites da eternidade, procurando
conquistá-la pedaço por pedaço.
O Tenente
Rous contemplou o operador de rádio por alguns minutos. Subitamente
deu-lhe as costas e afastou-se. Sem olhar para trás subiu pela
escada da K-7, atravessou a comporta e, espremendo-se pela porta
semi-aberta, entrou na sala de comando.
Caiu
pesadamente na poltrona do piloto e, absorto em pensamentos, fitou as
telas apagadas e os instrumentos imobilizados.
Era
praticamente um morto, um prisioneiro de outro tempo que não o seu,
que tanto podia pertencer ao passado, como ao presente ou ao futuro?
Seu olhar
caiu sobre o calendário de bordo ligado a um relógio. Era a única
coisa que se movia nesse mundo estranho, pois indicava até os
milésimos de segundo.
Afinal, um
milésimo de segundo ali sempre duraria um minuto e doze segundos!
Fazia
exatamente dois minutos e um segundo que pousara em Mirsal.
E
exatamente há um segundo atravessara o anel luminoso do GCR...
Soltou um
suspiro.
Num gesto
de resignação, deixou cair a cabeça sobre o painel de instrumentos
e resolveu dormir um quarto de segundo.
Ninguém,
nem mesmo ele, poderia dizer qual seria a verdadeira duração desse
quarto de segundo...
*
* *
*
*
*
Só
resta a Marcel e seu grupo aguardarem... Até quando, não sabem!
Em Um
Sopro de Eternidade, título do próximo volume, algo imprevisível
acontece...

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