— É uma
coisa inconcebível! — disse e desistiu. — Ao menos por aqui não
nos molharemos.
Rous olhou
para trás. Seus olhos procuraram o anel luminoso. Ao vê-lo, soltou
um suspiro de alívio.
— Acho
que vamos dar um passeio até a “muralha”
negra. Talvez ainda consigamos descobrir o que há atrás dela.
Cuidado, Ragow! Não tropece no oficial da força policial.
O russo
parou e, com uma expressão indefinível no rosto, contemplou o
arcônida, que se mantinha imóvel e aparentemente sem vida. Os olhos
estavam entreabertos; não se sabia se as pálpebras tendiam a
mover-se para cima ou para baixo. De qualquer maneira, umas oito ou
dez horas se passariam antes que o movimento se completasse. Um
segundo correspondia a vinte horas.
Ragow
encostou o dedo na face do arcônida. Meia hora se passaria até que
o calor gerado pelo corpo do arcônida atingisse os nervos do dedo do
médico.
O rosto
transformado em máscara demonstrara nada ter sentido; ainda não
houvera tempo para isso.
“O
arcônida
levará umas cinqüenta horas para perceber o que aconteceu com ele”,
pensou Rous cheio de pavor. “Agora mantém-se imóvel. Foi
arrancado de seu tempo existencial!”
— Será
que poderíamos vê-lo fazer algum movimento? — perguntou Harras.
— Ele
não nos vê — disse Rous, fazendo um gesto para Ragow. — Somos
rápidos demais para ele. Para tornar-nos visíveis ao seu mundo,
teria de nos filmar com uma câmera que tirasse mais de um milhão de
fotografias por segundo. Para ele somos mais rápidos do que o
projétil de uma arma é aos nossos olhos.
Depois de
refletir um pouco, Rous disse:
— É
simples, Harras. Teríamos de filmar a estátua na base de dezesseis
exposições em vinte horas. Se rodássemos o filme à velocidade
normal de dezesseis exposições por segundo, veríamos o arcônida
tal qual realmente é.
Steiner
apontou para a boca entreaberta do oficial.
— Isso
também se aplica aos efeitos acústicos?
— Naturalmente
— Rous compreendeu imediatamente o que o físico queria dizer. —
As ondas sonoras também refletem um retardamento em relação aos
padrões a que estamos acostumados. Se por aqui prevalecem as mesmas
leis naturais de nosso ambiente, o som se deslocaria à velocidade de
menos de dezessete metros por hora. Isso não ocorre às ondas
sonoras produzidas por nós, que estão submetidas a leis distintas.
Nesta
dimensão a velocidade do som, para nós, é de cinco milímetros.
Talvez isto o ajude a compreender a velocidade enorme com que nos
deslocamos.
— Vamos
romper a barreira do som — disse Harras, o homem pragmático, e
pôs-se a andar com movimentos hesitantes.
Seu rosto
parecia transformado numa única indagação quando sentiu a
resistência do ar, que parecia uma massa viscosa, que cedia com
certa dificuldade.
Aproximaram-se
lentamente da “parede”
negra. Bem no centro da área delimitada pela mesma, brilhava uma
fresta luminosa, pálida mas perfeitamente visível, que permitiria o
ingresso daqueles homens no reino irreal da outra dimensão temporal.
O diâmetro da área circular devia ser de cerca de dois mil e
quinhentos metros.
Rous teve
tempo de olhar para o céu. As formações de nuvens não haviam
sofrido qualquer modificação, e vários dias se passariam antes que
os pingos de chuva, que já caíam, atingissem a superfície do
pavoroso planeta. Dias terranos, evidentemente. Não seria difícil
calcular quanto tempo duraria o dia desta dimensão temporal. Se o
planeta fizesse uma rotação completa em torno de seu eixo dentro de
vinte e quatro horas terranas, o sol brilharia por cerca de cem anos.
Levaria cem anos para percorrer o caminho do nascente ao poente.
O dia
teria uma duração de duzentos anos!
Rous
sentiu um calafrio ao lembrar-se desse fato. Não era de admirar que
um indivíduo levasse vinte horas para pestanejar.
O céu
tinha uma coloração avermelhada, ligeiramente entremeada de verde.
O sol estava oculto atrás das nuvens e, na posição em que se
encontrava, vários anos poderiam passar-se antes de voltar a
brilhar.
Subitamente
Rous compreendeu.
Antes que
pudesse comunicar aos outros o resultado de seus cálculos, estes
fizeram outra descoberta. Um riacho muito largo ainda os separava da
“muralha”
negra, que cortava a paisagem a algumas centenas de metros do lugar
em que se encontravam.
Um
riacho...?
A
superfície da água, tangida pela tormenta que não sentiam,
enrijecera em meio ao movimento. Percebia-se perfeitamente qual era a
direção do vento. Alguns respingos mantinham-se imóveis no ar,
como se fossem cristais reluzentes. Várias horas poderiam passar-se
antes que voltassem a unir-se à massa líquida.
— Como
vamos atravessar isso? — perguntou Harras em tom de decepção. —
Até parece a “corrente
do tempo”
materializada.
— Tolice!
— respondeu Rous, desviando o pensamento do problema sobre o qual
refletira tão intensamente. — Basta seguir-me.
Prosseguiu
em sua caminhada como se o riacho nem existisse. Seu pé entrou em
contato com a superfície enrijecida da água e encontrou um apoio
firme. Antes que os outros compreendessem o que estavam vendo com os
próprios olhos, Rous já se encontrava no meio do riacho e
continuava a andar como se pisasse numa superfície de pedra.
— Não
há o menor perigo — gritou para os companheiros. — Pelo menos
dez minutos se passarão antes que a água tenha tempo para ceder sob
a pressão de meus pés.
Era como
se caminhasse sobre gelo, com a única diferença de que a superfície
não era lisa. As ondas imobilizadas indicavam a direção do vento
que as formara. E essa direção também se revelava em algumas
árvores. A julgar pelos galhos retorcidos, a tormenta que
movimentava o ar devia ser muito forte. Mas não sentiram nada, pois
para eles até mesmo um furacão não desenvolveria velocidade
superior a meio milímetro por segundo.
Atingiram
a “muralha”.
Rous
tateou-a com ambas as mãos e sentiu uma resistência muito forte. A
“parede”
era negra, mas não era de um negrume absoluto e opaco, conforme
esperara; emitia um brilho suave, como se fosse de mármore
cristalizado. A escuridão completa só começava poucos centímetros
depois da superfície translúcida.
Ao menos
parecia que era assim.
A “parede”
era lisa; não apresentava a menor fresta que pudesse servir de apoio
ao dedo ou ao pé. Levantava-se para o céu. Era bem verdade que a
coloração se tornava menos intensa, à medida que subia. No zênite
dava passagem aos raios avermelhados do sol, e as nuvens tornaram-se
visíveis através dela.
Concluía-se
que o GCR criava um campo temporal-energético, que o envolvia como
se fosse uma esfera. Rous tinha certeza de que também devia
estender-se ao subsolo. Começou a desconfiar que não viam tudo que
havia no mundo misterioso da outra dimensão temporal. Mais uma vez
surgiu a indagação decisiva:
O que
havia atrás da “muralha”
negra?
Só havia
um meio de descobrir, mas Rous achou-o muito arriscado. Teriam de
desligar o GCR enquanto se encontrassem na outra dimensão temporal.
Com isso a “muralha” desapareceria.
Mas, ao
mesmo tempo, o caminho de volta lhes seria trancado.
Rous
virou-se instintivamente e olhou para a planície. Suspirou aliviado
ao ver o pálido círculo luminoso que pairava pouco acima da
superfície. Por um simples acaso viu junto ao mesmo uma árvore
raquítica cujo formato lembrava o de uma forca.
— Aqui
não podemos prosseguir! — admirou-se Steiner, fazendo uma
constatação supérflua. — Ninguém consegue atravessar a barreira
— tocou a “muralha”
com o dedo. — Que material será este?
— Não é
nenhum material — disse Rous, apoiado por gestos enfáticos de
Noir. — Trata-se pura e simplesmente de energia.
— Energia?
— espantou-se Josua, inclinando-se para a frente.
Era o
metalúrgico da expedição, motivo por que a muralha misteriosa se
enquadrava em sua especialidade.
— Uma
muralha sólida feita de energia? Nunca vi uma coisa dessas!
— Já
viu, sim — afirmou Noir. — Não se esqueça dos campos defensivos
de nossas naves. Um objeto atirado contra os mesmos também não
poderá passar.
O africano
sacudiu a cabeça; parecia desesperado.
— Pois é
aí que está a diferença, Noir! Os campos energéticos que
conhecemos, ao simples contato, transformam a matéria em energia.
Acontece que esta “muralha”
pode ser tocada com a mão. Não parece fria ou quente, nem expele
raios mortíferos. Além disso, não transforma a matéria em
energia.
— A
abóbada energética neutra de Terrânia também pode ser tocada por
qualquer pessoa, sem que a mesma corra o risco de morrer; e nenhuma
porção de matéria pode passar por ela — disse Steiner em tom
enfático, refutando a argumentação de Josua. — Portanto, é
perfeitamente possível que esta “parede”
negra seja formada por energia. Mais precisamente, pela energia
gerada pelos aparelhos que se encontram no interior da gazela, e que
por isso mesmo é regida pelas nossas leis. Deve-se ter em vista esta
última circunstância, caso alguém fique curioso para saber como
remover o obstáculo.
— Está
bem — disse Rous com certa malícia. — Acontece que não quero
andar por este mundo irreal, quando o caminho de volta estiver
trancado. A não ser que alguém fique junto ao GCR e o ligue depois
de certo tempo.
— Acho
que já descobrimos um meio de penetrar no mundo dos desconhecidos —
começou Noir em tom objetivo e passou a mão pela parede. — Mas
talvez deveríamos encarar a situação sob outro ângulo. É
possível que esta “parede”
nos proteja dos perigos existentes atrás dela.
Ninguém
disse nada. Concluía-se que todos concordavam tacitamente com o que
o mutante acabara de afirmar.
Caminharam
uns duzentos ou trezentos metros ao longo da “parede”.
Depois voltaram a atravessar o rio e seguiram na direção do anel
reluzente que os aguardava a mais de mil metros do lugar onde se
encontravam.
Subitamente
Ragow se pôs a praguejar e colocou a mão no rosto. Recuou um passo
e fitou o objeto minúsculo que pairava imóvel à frente de seu
nariz. Esbarrara nele.
— É um
inseto! — disse em tom de incredulidade, sacudindo a cabeça. —
Esbarrei numa mosca. E o bicho não quer sair do meu caminho.
Os outros
reuniram-se em torno do “objeto”
com o qual Ragow acabara de “colidir”.
Realmente era uma espécie de mosca. Tinha longos tentáculos e asas
brilhantes; além disso, ostentava oito pernas finamente articuladas
e um par de olhos enormes.
Subitamente
Rous teve a impressão de ter percebido um movimento insignificante
naquele mundo de imobilidade total.
Seria o
inseto?
Mas isso
não era possível! Mesmo que o animalzinho voasse a uma velocidade
de cem quilômetros por hora, levaria vinte segundos para percorrer
um centímetro. E seria difícil controlar a olho nu um objeto que se
deslocasse a essa velocidade.
Mas havia
uma coisa no inseto que se movia...
Eram as
asas!
Os outros
também viram. Num movimento extremamente lento e quase
imperceptível, as asas reluzentes do inseto se levantaram; não
havia a menor dúvida. Dali a pouco menos de dez segundos, voltaram a
descer, para recomeçar tudo depois de meio minuto.
— Um
minuto para cada batida de asas — disse Harras e calculou
febrilmente. — Caramba! Quer dizer que este bicho bate as asas mil
vezes por segundo... na outra dimensão, evidentemente. É
inacreditável!
— Certos
insetos terranos fazem muito mais que isso — explicou Ragow com
toda calma e viu as asas atingirem a posição mais elevada e
voltarem a baixar. Nesses dois ou três minutos, o inseto já havia
percorrido alguns centímetros. Portanto, era relativamente veloz; na
realidade, percorria uns trinta metros por segundo.
— Se por
aqui alguém resolver atirar em nós, poderemos desviar-nos
tranqüilamente da bala — disse Steiner em tom de satisfação.
Calculou a
meia voz e, ao anunciar o resultado, estava radiante de alegria:
— Um
projétil comum percorreria cerca de um metro por minuto. É
incrível. Estamos vivendo no mundo da câmera lenta.
— Não
acredite — disse Rous com a voz séria — que um projétil que
avançasse tão devagar o deixaria incólume, se o atingisse. Se
ficar parado, o mesmo penetrará lentamente em seu corpo e o matará.
— Que
bela perspectiva! — o físico sacudiu o corpo e voltou a dedicar
sua atenção ao inseto reluzente, que prosseguia em vôo lento. —
Será que a gente poderia matar este bicho?
Rous
ergueu as sobrancelhas.
— Por
que matá-lo? Ele não nos fez nada.
— Só
perguntei por perguntar — respondeu Steiner. — Apenas gostaria de
saber se é possível matar um ser que se encontre nesta dimensão
temporal.
— Acredito
que seria perfeitamente possível — admitiu Rous a contragosto. —
Mas faço votos de que nunca tenhamos necessidade de fazer uma coisas
dessas. Na situação atual temos uma superioridade de setenta e dois
mil para um.
— Com
isto nossa missão está praticamente cumprida — disse Harras em
tom de triunfo. — Apenas pediram que verificássemos como poderemos
derrotar o inimigo Invisível.
— Bem —
disse Rous sem o menor entusiasmo. — É claro que o senhor tem toda
razão, Harras. Mas acontece que por enquanto não vimos nenhum
desses terríveis Inimigos. Nem sequer sabemos como são, quem são e
o que estão tramando. Se encararmos nossa missão sob este aspecto,
esta nem de longe foi cumprida. Nem sequer começamos a executá-la.
Prosseguiram
em sua caminhada e andaram mais depressa. Josua, que caminhava atrás
dos outros, gritou de repente:
— Que
ruído é este? Parece um rumorejar e vem da frente.
Rous
parou, mas os outros prosseguiram.
— Um
ruído? Não ouço nada.
— Sim; é
grave e baixo. Até parece um murmúrio. É estranho: ficou mais
fraco.
Rous
manteve-se imóvel e aguçou o ouvido. Agora também estava ouvindo,
mas logo o ruído cessou. Fitou em atitude pensativa os quatro homens
que caminhavam a alguma distância do lugar em que se encontrava.
Que ruído
seria este?
Uma
expressão de espanto surgiu em seu rosto, mas logo foi substituída
por um sorriso.
— É
claro; só pode ser isto. É como disse Harras: rompemos a barreira
do som. Atrás de nós surge um vácuo. E quando o ar penetra no
mesmo, surge o estranho ruído que acabamos de ouvir.
Rous ficou
satisfeito de ter obtido uma explicação e prosseguiu na caminhada.
Ao observar a atmosfera, lembrou-se de outro problema sobre o qual
refletira várias vezes, mas sempre sem resultado. Talvez seria
preferível nem pensar mais sobre isso.
A
quinhentos metros do lugar em que se encontravam brilhava o luminoso
anel salvador, através do qual poderiam voltar ao mundo a que
pertenciam. Por um instante surgiu na mente de Rous a indagação
sobre se a permanência em outra dimensão temporal teria algo a ver
com um deslocamento no espaço, ou se os dois mundos existiam no
mesmo lugar. Era uma idéia louca demais para ter uma base real.
Seria mesmo?
Rous
esbarrou em Steiner, que parará de repente. Esteve a ponto de
perguntá-lo sobre esta idéia, mas logo viu que o rosto do físico
havia se transformado numa máscara. Os outros homens também
estacaram.
Seguiu
seus olhares...
Ficou
pálido como cera e teve a impressão de que seu coração parará de
funcionar. Por alguns longos segundos seu cérebro recusou-se a
aceitar o que os olhos presenciavam...
Teriam de
permanecer eternamente na dimensão temporal estranha, porque o
caminho de volta deixara de existir!
O anel
luminoso desaparecera de repente.
3
Rous
venceu o pavor, e a inteligência voltou a funcionar. A abertura
luminosa desaparecera — isso era um fato irreversível. Mas sua
extinção provocara outras modificações importantíssimas, que
talvez poderiam influir em seus destinos.
O céu
mudara de cor. Parecia que uma camada de alguma coisa que encobrira a
visão do firmamento acabara de ser removida. As nuvens continuavam a
ocultar o sol, mas agora via-se claramente que o astro devia ser
vermelho. E o céu também era vermelho.
Rous ainda
viu outra coisa.
A
“muralha”
negra havia desaparecido.
Puderam
ver o horizonte distante, mas a visão representou uma amarga
decepção.
A paisagem
situada atrás da parede era praticamente igual à que ficava à
frente da mesma. Era bem verdade que viram uma cadeia de montanhas
elevadas, que se estendia em direção ao céu chamejante como se
quisesse apagá-lo. Grandes vales cortados por rios prateados que
pareciam cobertos de sangue estendiam-se até as montanhas distantes.
As florestas e as estepes introduziam um elemento de variação no
panorama natural daquele mundo estranho.
Mas não
viram nenhuma criatura viva.
Ivã Ragow
também conseguiu vencer o pavor.
— Meu
Deus! O que aconteceu? O anel luminoso...
— ...desapareceu!
— completou Steiner com uma calma pouco natural. — Talvez alguém
que se encontra do outro lado tenha mexido no aparelho.
— Quem
poderia ter feito uma coisa dessas? — perguntou Rous. — A frente
do tempo passou pela gazela. Se nossos cálculos foram corretos, todo
o planeta de Tats-Tor deve ter desaparecido de nosso mundo normal.
Ou, ao menos, todos os seres orgânicos que viviam nele. Não vejo
nada. Não deveriam estar aqui?
Desta vez
Harras demonstrou maior senso lógico.
— Entre
o lugar em que estávamos acampados e a capital, Akonar, não havia
nenhuma povoação. Eram cem quilômetros de estepes e matas.
Portanto, teremos de andar ao menos cem quilômetros para encontrar
aqueles que foram transferidos para essa dimensão temporal.
Rous tinha
outros problemas.
— Como
poderemos voltar ao nosso plano temporal?
Steiner
deu de ombros e fitou Ragow. O russo colocou a mão sobre a arma de
radiações de Steiner e falou:
— Se
formos atacados, poderemos defender-nos. Quanto ao mais, acho que
devemos ficar por aqui; não devemos afastar-nos muito, para que
vejamos imediatamente quando o anel luminoso voltar. Talvez tenha
havido uma interrupção nos suprimento de energia da gazela.
— Isso é
bastante improvável — comentou Harras, sacudindo a cabeça. —
Afinal, o senhor que é botânico não poderia conhecer essas coisas.
O aparelho foi desligado. É a única explicação que encontro para
o fenômeno.
— Existem
milhares de explicações — disse Rous, contraditando o técnico. —
E nenhuma delas pode ser admitida com cem por cento de certeza. Se
não encontrarmos o caminho de volta, nunca descobriremos o que
aconteceu. Mas Ragow tem razão. Vamos ficar por perto; ou então,
pelo menos um de nós deve ficar.
— Será
que o senhor está com vontade de passear por aí? — perguntou
Steiner. — O que espera conseguir com isso?
— Bem; a
muralha desapareceu, e isso já representa uma vantagem. Não há
mais nada que nos impeça de percorrer este mundo a uma velocidade
setenta e duas mil vezes maior que a normal para realizarmos nossas
investigações e...
— Não
se esqueça — interrompeu o físico em tom seco — que nem por
isso o senhor conseguirá correr mais depressa. Sempre levará doze
segundos para percorrer cem metros. Para vencer um quilômetro
precisará de dez minutos. Em outras palavras, marchará à
velocidade de seis quilômetros por hora. Não posso negar que essas
figuras petrificadas levariam alguns anos para percorrer o mesmo
trajeto, mas daí não se pode concluir que o senhor poderá caminhar
mais depressa. E há outra coisa que me preocupa. Será que por aqui
existe alguma coisa que possamos comer?
Rous deu
de ombro.
— É
este um dos motivos por que se torna necessária uma expedição. É
claro que alguém terá de ficar aqui para montar guarda. Quem será?
Qualquer um de nós tem qualificações suficientes para estar
presente quando chegar a hora da decisão. Devemos deixar a escolha
ao acaso, tirando a sorte?
— Talvez
esta seja a melhor solução, pois ninguém poderá sentir-se
ofendido — disse Harras e pôs a mão no bolso para tirar uma moeda
de um solar. Pesou-a na mão; parecia pensativo. — Será que algum
dia poderemos comprar alguma coisa com isto?
Josua foi
o infeliz que teve de ficar só. Rous apontou para a árvore
solitária, que tinha o aspecto de uma forca.
— Dez
metros à direita desta árvore está nossa gazela, isto é, na outra
dimensão. Seria preferível ficar junto a esta rocha, pois daqui
poderá observar uma coisa e outra. Assim que o anel luminoso volte a
aparecer, avise-nos. Acho que seu rádio ainda está funcionando.
Um ligeiro
ensaio do transmissor embutido no anel deu resultado positivo.
— Pois
bem — disse Rous, dando uma palmadinha no ombro do africano. — O
senhor não tem nada a recear, pois neste mundo ninguém lhe poderá
fazer mal. O senhor é muito mais rápido que qualquer coisa que
possa existir por aqui, com uma única exceção... Mas se
contássemos com a mesma estaríamos renunciando a todas as
esperanças. Passe bem. Logo estaremos de volta.
O africano
seguiu-os com os olhos; não parecia muito satisfeito. Enfiou no
cinto a arma de radiações que Harras lhe havia deixado. Relutou em
confessar a si mesmo que a posse da pistola o tranqüilizava.
Rous e
seus acompanhantes aproximaram-se do rio que os separara da
“muralha”.
Retardaram o passo ao atingirem o lugar onde a “parede”
negra se erguera diante deles. Rous estendeu a mão, mas a vista não
o enganara. A “muralha”
desaparecera. E não deixara o menor vestígio no solo pedregoso.
— Não
devemos esquecer o risco que assumimos se prosseguirmos além deste
ponto — disse Rous e lançou um olhar pensativo para os
companheiros. — Admitamos que alguém ligue o GCR quando nos
encontrarmos além da parede. Como faremos para voltar ao interior da
abóbada? Já pensaram nisso?
— Temos
de assumir o risco — respondeu Steiner em tom irritado. — Aliás,
Josua ficou para trás. Se existe alguém que possa ligar o aparelho,
este alguém só poderá ser Rhodan. E ele não terá nenhum problema
em encontrar-nos. Não tenho o menor receio de prosseguir na marcha.
Afinal, não poderemos ficar eternamente sem comer e beber.
— Acho
que a água não será muito refrescante — disse Rous, apontando
para as ondas enrijecidas que se desenhavam na superfície do rio. —
Chego a duvidar de que tenhamos possibilidades de sobreviver neste
mundo. Está vendo esse capim? Será que alguém de nós conseguirá
arrancá-lo? Não; ninguém conseguirá, pois a resistência que
oporá a qualquer movimento será muito intensa. E é o que acontece
com tudo que se encontra por aqui. Se não encontrarmos o caminho de
volta, morreremos de fome e sede.
— Tenho
comigo uma boa provisão de tabletes energéticos — disse Ragow de
repente, com um sorriso matreiro nos cantos dos olhos. — Acho que
não foram afetados pela ruptura da barreira do tempo.
Rous
fitou-o por algum tempo e sacudiu a cabeça.
— Por
que não disse isso antes, Ragow? Poderia ter-me poupado alguns
minutos de preocupações.
— Tanto
maior é a alegria que sente agora — disse o médico, entregando
uma caixinha de tabletes a cada companheiro. — Tenham cuidado com
isso! Nestas caixinhas existe uma ração de emergência e alguns
tabletes de água. Com isto um homem poderá viver uma semana, desde
que saiba regrar-se. Pelo menos não morreremos de fome tão
depressa. Então, vamos prosseguir?
Prosseguiram.
Dali a
pouco a paisagem modificou-se. A planície pedregosa foi substituída
por uma estepe coberta de capim. Mesmo assim a marcha não se tornou
mais agradável. Com suas arestas rígidas e afiadas, o capim era
extremamente perigoso. Tinham que desviar-se de cada moita, para não
se ferirem. As hastes de capim pareciam lâminas de aço.
Ficaram
satisfeitos quando o mato se tornou cada vez mais baixo, até ceder
lugar a uma camada de musgo, que também era dura, mas não
incomodava tanto. As solas de plástico das botas até pareciam ter
uma leve elasticidade, mas isso talvez não passasse de pura
imaginação.
O terreno
começou a subir.
Steiner
enxugou o suor da testa.
— É
possível que por aqui o tempo passe mais devagar — disse e parou
para lançar um olhar sobre a planície.
Em algum
lugar, lá embaixo, Josua estava montando guarda. Até então não
chamara.
— Mas
sei que a gente transpira tão depressa como em qualquer outro lugar
em que faça calor — prosseguiu Steiner.
Encontravam-se
sobre um pequeno platô. Atrás deles, o terreno descia até a ampla
planície, enquanto à sua frente continuava a subir em direção às
montanhas. Depois de duas horas de marcha haviam percorrido dez
quilômetros, mas estavam tão curiosos para saber o que haviam atrás
das montanhas que nem se lembraram da canseira que estavam
enfrentando.
Subitamente
notaram um movimento.
Surgiu ao
oeste, junto à linha do horizonte, onde a camada de nuvens era mais
densa. Sem dúvida por ali já estava chovendo há horas, segundo o
tempo que prevalecia nesse plano. Os pingos estariam caindo com uma
lentidão infinita. Levariam alguns dias para atingir o solo. A
simples idéia era enlouquecedora.
O
movimento que seus olhos haviam percebido surgira nas nuvens. Parecia
um raio de luz que descia rapidamente e em linha sinuosa em direção
à superfície, atingindo-a dentro de um ou dois segundos. Mas o
fenômeno luminoso não desceu. Ficou parado entre o céu e a terra,
como um arco luminoso.
Steiner
fitou prolongadamente o fenômeno luminoso e disse:
— O que
é isso?
Rous
empalideceu. Viu confirmadas, suas suposições.
— É um
relâmpago, Steiner. Um simples relâmpago; apenas seu ritmo é
setenta e duas mil vezes mais lento. Talvez fique parado no céu
durante dez horas. O senhor viu? Levou nada menos de dois segundos
para descer das nuvens ao solo. Dali se conclui que...
— Não!
— interrompeu o físico e sacudiu a cabeça. — Não é possível.
Isso seria... seria...
— É
apenas uma conclusão lógica extraída dos dados de que dispomos,
Steiner. Se nesta dimensão tudo é muito mais lento, porque vivemos
setenta e duas mil vezes mais depressa, o mesmo deve acontecer com a
luz. Nesta dimensão temporal se desloca a uma velocidade de apenas
quatro quilômetros por segundo. Ainda não sabemos quais poderão
ser as conseqüências disso, mas o raio que o senhor está vendo
prova que deverão existir certas conseqüências!
Na Terra
um relâmpago pode permanecer no céu durante um ou dois segundos.
Enquanto isso, o raio que viam ao oeste poderia permanecer no céu
durante vinte ou quarenta horas, pois ficaria preso pela lei natural
das duas dimensões temporais, que todavia possuíam leis comuns!
É que,
sob o aspecto relativo, também aqui a velocidade da luz era de 300
mil quilômetros por segundo.
— Será
que a cor vermelha do sol tem alguma relação com isso? —
perguntou Harras, apontando para o sul, onde o céu parecia arder em
chamas vivas.
Rous fez
um gesto afirmativo.
— Foi
justamente o sol que me deu essa idéia. Os raios do sol,
infinitamente retardados, constituem um exemplo evidente do efeito
duplicado. Nem sei como ainda conseguimos ver alguma coisa.
— Se
ficarmos aqui por algum tempo, estudarei o fenômeno — prometeu
Steiner, fitando com os olhos semicerrados o relâmpago, que não
havia sofrido qualquer alteração. — Aqui a velocidade da luz é
de apenas quatro quilômetros por segundo. O que acontecerá se eu
usar meu radiador? Os nêutrons devem ter conservado o tempo que lhes
é peculiar?
Rous deu
de ombros.
— Sei lá
— disse.
Prosseguiram
na caminhada. Cada qual estava mergulhado em suas reflexões. Um
ligeiro contato com Josua revelou que não havia nenhuma novidade. O
africano recebeu instruções para avisar assim que o círculo
luminoso voltasse a aparecer. Depois deveria passar para a outra
dimensão e desligar o GCR por duas horas, a fim de que pudessem
voltar sem se depararem com o obstáculo da “parede”
negra.
André
Noir notou que a temperatura estava subindo.
— Acho
que está muito quente — disse, olhando na direção do cume da
montanha. — Não sei por que temos de esforçar-nos tanto. Já quis
perguntar há tempo, mas acredito que deve haver um motivo todo
especial para andarmos a pé. Qual é mesmo o motivo, Tenente Rous?
— Acho
que está aludindo aos trajes arcônidas. Isso já é outro problema.
Não se esqueça da velocidade tremenda que representaria um vôo por
este mundo. Não tenho certeza, mas acredito que se desenvolvêssemos
apenas alguns metros por segundo logo nos tornaríamos
incandescentes.
Steiner
lançou um olhar mordaz para seu interlocutor, abaixou-se e levantou
uma pedra. Ou melhor, tentou levantá-la. Não conseguiu. A inércia
da massa da pedrinha aumentava-lhe o peso em setenta e duas mil
vezes.
Rous não
conseguiu reprimir o riso.
— Já
sei o que pretende fazer, Steiner, mas posso garantir que não é
possível. Essa pedra está submetida a leis, sobre as quais não
podemos exercer a menor influência. Já sei que nunca conseguiremos
levar um prisioneiro desta dimensão temporal para a nossa, a não
ser que realizemos uma operação muito hábil com o GCR. Se quiser
experimentar para ver se minha suposição foi correta, use um dos
objetos que trouxemos, talvez uma moeda. Atire-a nessa grota. Veremos
o que vai acontecer.
Todos se
sentiram satisfeitos em poderem fazer uma pausa. A idéia de que
talvez pudessem voar era muito estimulante. Mas se Rous tivesse
razão, essa idéia não devia ser realizada.
Steiner
tirou do bolso uma pesada moeda de platina, lançou-lhe um olhar
triste e dirigiu-se à beira do precipício. A rocha descia
verticalmente por cerca de cem metros. Lá embaixo havia um prado
verde.
— Deixe
cair a moeda — disse Rous, esforçando-se para não trair a tensão
que sentia. — Será suficiente.
Steiner
fez que sim.
Noir,
Harras e Ragow colocaram-se ao lado de Rous e lançaram um olhar
curioso para Steiner, que moveu o braço e atirou a moeda bem longe.
Esta
descreveu uma curva bem aberta e caiu na vertical. A queda não durou
mais de um segundo.
Depois o
objeto sofreu uma estranha modificação. De início parecia que
estava sendo iluminado por uma fonte de luz invisível. Emitia um
forte brilho prateado. Depois de algum tempo passou para o vermelho e
depois voltou ao branco. Uma fina nuvem de vapor marcava a
trajetória. Finalmente, antes que chegasse ao solo, desapareceu,
devorada pelas “preguiçosas”
moléculas daquela atmosfera.
Ouviram-se
gritos de espanto.
Rous
conteve a respiração e disse com um suspiro de alívio:
— Foi
exatamente o que eu imaginei. E agora já sei que um disparo de
nossos radiadores de impulsos produziria conseqüências
catastróficas! Vocês não podem nem imaginar?!
Steiner
afastou-se da beira do precipício o acenou lentamente com a cabeça.
— Posso
imaginar, Rous. Um raio, que se deslocasse na Terra a uma velocidade
72 mil vezes superior à da luz, não só deixaria um rastro na
atmosfera, mas afetaria a própria estrutura temporal. Esta poderia
estourar e esfacelar-se. E aqui?
— Aqui —
disse Rous em tom decidido - não arriscaremos a experiência. Não
quero causar uma “explosão
do tempo”.
Nem se deu
conta de que os outros empalideceram. Lançou mais um olhar para a
planície e reiniciou a marcha.
Os outros
seguiram-no.
*
* *
No cume da
montanha, o ar estava tão imóvel como na planície. Mas era menos
transparente e mais quente. Não se enxergava além de dez metros. As
“correrias”
foram inúteis, pois não tiveram uma visão ampla. Parecia que o
cume achatado da montanha estava envolto em algodão.
— Gostaria
de saber de onde vem este calor — disse Noir, sacudindo a cabeça.
— Será que ninguém pode dar uma explicação razoável.
— Eu
posso.
Steiner,
que proferira estas palavras, abaixou-se e colocou a mão sobre a
rocha nua, mas logo a retirou. Seu rosto exprimiu o espanto. Voltou a
levantar.
— Então?
— perguntou Rous, pedindo que desse o resultado da experiência em
palavras inteligíveis. — O que é?
— O solo
está quente — começou Steiner em tom inseguro. — Quase chego a
acreditar que há um fogo aceso sob a rocha.
Harras
começou a rir. Steiner virou-se furioso.
— Não
sei o que há de engraçado nisso. Não seria possível que por aqui
existisse um vulcão ou coisa semelhante?
— Ora, o
fogo! — disse Harras com um sorriso. — Gostaria de saber qual
seria o aspecto do fogo neste lugar. Uma chama leva algum tempo para
arder. O que aconteceria aqui? Veríamos uma chama congelada?
— É
justamente por isso que emite o mesmo calor — disse Steiner,
apontando para o solo. — O calor teve tempo para propagar-se pela
rocha; talvez durante milênios.
Rous
examinou a encosta do lado oposto.
— Não
sei, mas é possível que o lugar em que nos encontramos não seja o
ponto mais elevado. Suas palavras me deram uma idéia, Steiner. Se
isto for um vulcão, talvez estejamos na beira de uma cratera. Isso
explicaria o calor.
Harras,
que se adiantara um pouco, gritou de repente:
— Venham
cá, amigos. Vocês ficarão admirados. Tenham cuidado para não
escorregar.
Steiner e
Rous logo se puseram em movimento, enquanto Ragow e Noir ainda
esperavam. Não tinham muita pressa nesse mundo em que o tempo
passava devagar.
Rous
sentiu que o calor aumentava. Quase chegou a ter a impressão de
estar sendo atingido diretamente por uma fonte de calor. Depois viu
através da neblina que Harras fazia um sinal para ele.
— A
cratera propriamente dita fica aqui — gritou o técnico e apontou
para uma abertura vermelha e incandescente que havia a seus pés. —
Olhe a lava.
Parecia
uma massa sólida e incandescente, que não se movia. Mas as ondas
enrijecidas provavam que a massa estava subindo e que num tempo
imprevisível atingiria a beira da cratera.
— Está
aí a fonte de calor — disse Steiner. — Minha suposição foi
correta; era o que eu queria saber. Quem sabe com que velocidade se
processa a irrupção vulcânica a que estamos assistindo?
— Uma
irrupção vulcânica?! — Rous parecia surpreso.
Steiner
apontou para a lava.
— O que
poderia ser senão isso? A lava já está subindo; tenho certeza
absoluta. Chegará à beira da cratera dentro de dois ou três anos,
talvez antes. De qualquer maneira não corremos o menor perigo.
Quando o fogo líquido começar a correr pelo vale, ainda haverá
muito tempo para nos colocarmos em segurança. Mas é bastante
duvidoso que a mesma coisa aconteça com os seres que vivem na mesma
dimensão temporal do vulcão.
— Uma
irrupção vulcânica! — disse Ragow em tom de admiração. — E
estamos parados, assistindo a tudo. Isto até parece mais espantoso
que aquela história das asas do inseto.
Noir
pigarreou.
— Para
dizer a verdade, o calor está demais. Provavelmente não poderemos
prosseguir na mesma direção, pois ninguém sabe qual é a largura
da cratera. O que vamos fazer? Voltar?
— Não
vejo outra alternativa — disse Rous.
— Se
quisermos caminhar em direção à cidade de Akonar, teremos de
escolher outro caminho — sugeriu Ragow.
— Nunca
encontraremos a cidade propriamente dita, porque permaneceu na outra
dimensão temporal, ou seja, na nossa. Mas encontraremos seus
habitantes. Talvez possamos dar uma lição nesse administrador
arrogante — comentou Steiner.
— Isso
não adiantará nada, pois levará três dias para sentir a bofetada
— disse Harras em tom irônico.
Rous
constatou que o motivo da visibilidade reduzida eram os vapores que
enchiam o ar. Lembrou-se de que estes talvez pudessem ser venenosos.
— Vamos
voltar — anunciou, pondo-se a caminho. — Não adianta expormo-nos
a um perigo desconhecido. Lá na planície o ar é mais puro.
Quando
estavam a meio caminho, Ragow subitamente soltou um grito. Levantou o
braço e, de lábios trêmulos, apontou para a encosta rochosa que
ficava à sua esquerda. No início não viram o que lhe chamara a
atenção, pois nada se movia. Mas deveria haver qualquer coisa que
se movesse neste mundo louco?
— Olhem
o animal! — balbuciou Ragow em tom nervoso. — Não estão vendo?
Rous
forçou a vista, mas apenas viu blocos de pedra imóveis de vários
tamanhos.
“Será
que Ragow estava aludindo aos mesmos?”,
pensou o tenente interrogando-se.
O russo
baixou o braço e inclinou a cabeça para escutar melhor. Havia
alguma coisa no ar; era um ruído estranho. Parecia um trovejar
surdo. Mas o raio, que continuava imóvel no céu, ficava muito
longe.
Logo o som
não poderia ter percorrido a distância, pois não ultrapassava a
velocidade de dezessete metros por segundo. Mas o ruído surdo
continuava no ar.
— ...uuuum...
uuuum... Ragow disse:
— Está
ouvindo, tenente? Escutei no instante em que vi os animais.
— Que
animais? — perguntou Steiner. — Não vejo nenhum animal.
— Estão
parados, ou melhor, rastejando à frente dessas cavernas. Nunca vi um
ser desse tipo. Serão lagartas?
— Lagartas?
— perguntou Rous em tom impaciente. — Não vejo nenhuma lagarta.
E a distância é muito grande...
— Eu
disse que são como lagartas — comentou Ragow com a voz tranqüila.
— Mas são muito maiores. Vejam aquelas pedras à frente das
cavernas!
As
cavernas abertas na encosta rochosa pareciam bocas. Degraus
irregulares de pedra levavam às mesmas. Eram trilhas estreitas,
pisadas por inúmeros pés. E lá embaixo, no início das trilhas,
estavam as pedras... quer dizer, as lagartas...
Todos
viram. Aqueles objetos que acreditavam serem pedras tinham o mesmo
formato. Pareciam esculpidas na rocha. Jaziam imóveis, isolados e em
grupos, e não se moviam.
No ar
ouvia-se o ruído ininterrupto.
— ...uuuum...
uuuum...
— Não
há dúvida de que são seres vivos que habitam essas cavernas —
disse Ragow e caminhou resolutamente na direção do estranho grupo.
— Na dimensão temporal normal nunca vi seres desse tipo. Por isso
é altamente provável que se trate de habitantes deste plano
temporal. Talvez sejam os grandes desconhecidos!
Rous já
se recuperara do espanto. Seguiu o sábio, que se encontrava bem no
meio dos seres vivos petrificados e os estudava atentamente. Os
outros três homens também se aproximaram.
Realmente
pareciam lagartas enormemente aumentadas. As pequenas asas davam
provas de que aqueles animais sabiam voar, ou ao menos já haviam
sido capazes disso. Nenhuma lagarta tinha menos de metro e meio. Em
vez dos pêlos finos, possuíam um casco blindado marrom-escuro, que
envolvia todo o corpo. Pouco abaixo da cabeça redonda ficavam duas
tenazes finas, que se distinguiam perfeitamente das pernas dispostas
ao longo do “tronco”.
Segundo tudo indicava, esses ferrões só serviam à locomoção.
— ...uuuum...
uuuum...
Enquanto
os homens se aproximavam dos animais, os estranhos sons tornaram-se
Sinais breves e agudos. Mas assim que a expedição parou, voltaram
às características interiores.
Seria uma
distorção sonora?
Ao
perceber a indagação que Steiner pretendia formular, Rous fez um
gesto afirmativo.
— É
isso mesmo. Estes animais emitem sons que, em virtude da distensão
do tempo, chegam muito lentamente ao nosso ouvido. Se os gravássemos
em fita e os reproduzíssemos com a velocidade aumentada em setenta e
duas mil vezes, perceberíamos os sons originais.
Ragow
acenou com a cabeça.
— É
verdade, tenente. Os animais se comunicam entre si. Por isso não são
animais na verdadeira acepção da palavra, pois possuem certo grau
de inteligência. Talvez mais do que desconfiamos.
— Quem
sabe se não são as inteligências máximas da outra dimensão
temporal?
— perguntou
Rous.
— É
possível — disse Ragow, abaixando-se para examinar uma das
lagartas.
— Talvez
descubramos um dia.
Rous
esteve a ponto de responder, mas nesse instante ouviu o zumbido fino
do receptor embutido no anel. Josua estava chamando.
Ligou
apressadamente o aparelho.
— Pois
não, Josua. Aqui fala Rous. O que houve?
A voz do
africano parecia insegura.
— Não
sei se realmente aconteceu alguma coisa, tenente, mas julguei
conveniente avisá-lo.
— Diga!
— Há um
objeto no ar, acima de minha cabeça. Parece uma nave, deve ter uns
dez metros de comprimento e seu formato é o de um torpedo. Deve ter
saído das nuvens. Está descendo lentamente, como se quisesse
pousar.
Os outros
participantes da expedição aguçaram o ouvido. Rous logo percebeu o
ponto que despertara sua atenção e exprimiu-o por meio de palavras.
— Consegue
ver o movimento da nave, Josua?
— Até
vejo muito bem, tenente. Acontece que se move muito devagar. Deverá
demorar umas duas horas para pousar — se é que vai pousar.
— Vamos
voltar — prometeu Rous, lançando um olhar triste para as lagartas
petrificadas. — O pouso de uma nave torna-se um fato que justifica
plenamente a suspensão das investigações que estamos realizando.
— Se
houver alguma novidade, avisarei — disse Josua.
Dali a
alguns segundos, Ragow sacudiu a cabeça; parecia contrariado.
— Será
que devemos ignorar nosso achado? Talvez possamos levar uma das
lagartas...
— O
senhor sabe perfeitamente que isso é impossível, ao menos nas
circunstâncias atuais e sem outros recursos. Para deslocar uma
dessas lagartas, o senhor precisaria da mesma energia que seria
necessária para conferir a um ser humano que se encontrasse na Terra
uma aceleração de setenta quilômetros por segundo. Seria mais
fácil atirar um homem às nuvens terrestres, apenas com o auxílio
das mãos, que levantar um destes animais a uma altura de um metro. A
não ser que tenha muito tempo, Acho que gastaria umas vinte horas
por metro.
Ragow
parecia desesperado.
— Aos
poucos começo a compreender a importância do tempo. Apenas receio
que, quando compreenda de vez, acabe enlouquecendo.
Rous
lançou mais um olhar para as lagartas e prestou atenção ao
estranho som de suas vozes, que foi penetrando lentamente em seus
ouvidos.
— Mais
tarde daremos outro olhar nos “uuuns”. Por enquanto vamos...
— Daremos
um olhar em quem? — perguntou Steiner em tom de surpresa.
— Eu os
chamo de “uuuns”, porque é assim que soam suas vozes —
explicou Rous. — Agora vamos andando, para dar uma olhada na nave
desconhecida que pretende pousar nas proximidades de nossa fresta de
luz.
Em parte
aliviados, em parte contrariados, os participantes da expedição
puseram-se em marcha.
Por mais
devagar que se arrastassem, ainda alcançariam o futuro...
4
A nave-mãe
tinha mais de mil metros de comprimento e circulava em torno do
planeta a grande distância. Em seu interior havia uma infinidade de
instrumentos de controle, instalações automáticas de alarma e
salas inteiras cheias de instrumentos positrônicos. Vultos pouco
nítidos moviam-se na semi-escuridão; pareciam ser a única coisa
viva existente naquela nave.
O veículo
espacial controlava aquele planeta que se deslocava na periferia do
plano temporal e penetrara mais de uma vez numa dimensão estranha,
para retornar depois de algum tempo. De cada vez, vinha
sobrecarregado de organismos estranhos, dos quais os cientistas
pretendiam apoderar-se para conseguir a fusão das duas dimensões
temporais.
Dessa
forma, mais um mundo fora despovoado, sem que seus habitantes
pudessem fazer qualquer coisa para acelerar, retardar ou evitar o
fenômeno.
Ao
retornar, o planeta apresentara uma população nova, cuja inércia
temporal propiciava certo grau de adaptação ao outro plano
temporal.
Os
desconhecidos tiveram uma amarga decepção ao constatar, durante a
primeira interseção, que a dimensão normal não era a sua, mas
aquela outra, com a qual cruzavam. Deviam adaptar-se à mesma, a não
ser que quisessem continuar a viver como degredados. Poderia haver
uma existência mais solitária que um exílio no tempo?
As telas
de controle iluminaram-se, e os ponteiros deslizavam pelas escalas.
Em algum lugar, nas profundezas da nave, os reatores e os aparelhos
começaram a zumbir. A vigilância robotizada do planeta estava
entrando em funcionamento.
Era claro
que os desconhecidos já tinham conhecimento de seu encontro com o
outro universo. Todos os seres orgânicos do outro planeta temporal
viviam 72 mil vezes mais depressa que eles. Só se tornavam visíveis
com o auxílio de aparelhos e instrumentos extremamente complicados.
Aquilo lembrava a técnica de uma câmara lenta verdadeiramente
inacreditável. Os filmes teriam de passar pelas câmaras a uma
velocidade tremenda, para que uma projeção retardada pudesse
produzir ao menos algumas sombras fugazes na tela.
Mas sempre
que penetravam no outro plano temporal e retornavam do mesmo, os
organismos trazidos de lá estavam presos e ficavam sujeitos às leis
naturais do plano temporal dos desconhecidos. Talvez com isso se
conseguisse realizar uma adaptação das duas dimensões.
As sombras
corriam de um lado para outro; não havia como identificá-las.
Aparentemente
as telas em nada se distinguiam umas das outras; na verdade, porém,
eram diferentes. A primeira tela a partir da esquerda estava
relativamente vazia. Nela se viam montanhas distantes, situadas na
periferia de uma extensa planície entrecortada por rios e vales. O
céu estava nublado; a qualquer momento começaria a chover. Mais ao
longe, junto à linha do horizonte, uma trovoada estava rugindo. Os
primeiros relâmpagos saíam das nuvens e corriam em direção à
superfície.
A segunda
tela exibia o mesmo quadro, mas os acontecimentos eram mostrados em
ritmo mais lento. Os seres em forma de lagarta continuavam a mover-se
devagar, a água dos regatos também parecia correr bem mais devagar.
O setor abrangido pela imagem era idêntico ao anterior. Mostrava a
planície, as montanhas e os rios.
Só na
terceira, a ação da câmara lenta tornava-se nitidamente
perceptível. O que havia de fascinante em tudo aquilo era a certeza
de que a reprodução não correspondia a um filme, mas a uma imagem
captada ao vivo.
A quarta
representava um retardamento de cinqüenta por cento.
Na quinta,
o relâmpago rastejava em direção à superfície, e a chuva caía
tão lentamente que até parecia que os pingos estivessem presos a
fios invisíveis, que estivessem sendo soltos aos poucos. As lagartas
mal se moviam; pareciam transformadas nos seres mais preguiçosos do
Universo.
Na sexta
tela, sombras fugazes corriam pela lâmina abaulada. Como a redução
fosse de um para seiscentos mil, era fácil imaginar com que
velocidade aquelas sombras deveriam correr na realidade.
Só na
décima, as sombras moviam-se normalmente e tornaram-se
identificáveis. Mas o retardamento era tão pronunciado que a vida
normal parecia paralisada. A trovoada e o relâmpago pareciam uma
pintura. A chuva parecia presa no ar, e os rios estavam congelados.
Apenas as sombras dos seres vindos de outra dimensão moviam-se
normalmente, como se não tivessem nada com aquilo.
Alguns
rostos indefiníveis inclinaram-se sobre a décima tela...
*
* *
Rous teve
a impressão de que estava sendo observado.
Não sabia
como explicar essa sensação, mas o fato é que estava e teria de
conformar-se com a mesma. Evidentemente não passava de uma tolice,
pois não havia ninguém que pudesse observá-lo.
Quando
Rous manifestou suas suspeitas, Ragow não riu.
— Por
que não podemos ser observados por alguém? — perguntou. — O
pouso da nave, que deverá ocorrer daqui a algum tempo, não
constitui indício dessa circunstância? Por enquanto nem sabemos se
realmente pretende pousar. Talvez...
— Talvez...
— Talvez
seja apenas um veículo teleguiado, que tem por fim observar-nos. Aí
está. Não conhecemos as inteligências desta dimensão temporal,
mas as mesmas não devem ser subestimadas. De qualquer maneira, os
“uuuns”
me infundem certo pavor.
Caminharam
pela planície e cruzaram o rio cuja água corria junto à mata
espessa. Bem ao longe viram a árvore em forma de forca, e um vulto
conhecido, que era Josua.
E a nave
pairava a cerca de cem metros de altura.
Rous ligou
o transmissor embutido no anel.
— O que
houve, Josua? A nave não vai pousar?
— Parou
— respondeu a voz do africano. — Não está descendo mais. Quer
dizer que não pretende pousar. Será que fomos vistos?
— É
impossível! Nós nos movemos muito depressa.
Rous teve
uma sensação indefinida enquanto proferia estas palavras. De
repente não tinha tanta certeza de que os “uuuns”
não podiam vê-lo. Se tivessem apenas uma ligeira idéia da
tecnologia — e deviam ter, tanto que sabiam construir naves
espaciais — deveriam ser capazes de romper a barreira do tempo.
Dali a
pouco encontravam-se ao lado de Josua, bem embaixo da nave
imobilizada.
Rous viu
que suas suposições se confirmavam.
— Trata-se
de uma estação de observação — disse, apontando para cima. —
Está vendo as objetivas dirigidas para nós? Acredito que se trata
de uma estação retransmissora. Estão captando nossa imagem por
meio de câmaras de televisão e a transmitem para outro lugar; não
sei que lugar poderia ser este. Talvez seja uma de suas cidades ou
outra nave.
— O
senhor acha que nessa nave não há ninguém? — perguntou Steiner
em tom de perplexidade. — Será que é dirigida por robôs?
— Não
tenho certeza absoluta, mas acho que é bastante provável que esta
nave seja apenas um veículo auxiliar. Não querem expor-se a
qualquer risco, e por isso enviam uma câmara móvel de televisão.
Se estivéssemos no lugar deles, dificilmente agiríamos de outra
forma.
Steiner
estreitou os olhos.
— Tenente,
queira responder a duas perguntas que vou formular, e não indagarei
mais nada.
— Pergunte!
— Primeiro:
Por que instalam suas câmaras numa posição em que podem ser
vistas? Segundo: Por que as câmaras dirigidas contra nós são umas
oito ou dez? Será que uma única não bastaria?
Rous
enrugou a testa enquanto refletia sobre as perguntas que o físico
acabara de formular. Sabia que o cientista não formularia qualquer
pergunta sem que para isso tivesse um motivo todo especial. E a
resposta não era muito simples.
— Não
sei por que não embutiram as câmaras. Será difícil encontrar uma
explicação plausível a este respeito. Mas quanto à segunda
pergunta, acredito que conheço a explicação. Recorramos a uma
comparação. Se tenho dois ou três gravadores de fita, poderei
esticar à vontade a representação de uma peça musical. Se a mesma
dura três minutos, será fácil transformá-la num simples impulso
de três segundos. É claro que a música se tornaria praticamente
irreconhecível, mas isso não vem ao caso. De outro lado, os três
minutos poderiam ser convertidos em três horas. Assim cada som
duraria alguns minutos.
— Formidável!
— disse Steiner. — Onde pretende chegar com isso?
— Procure
transferir esta noção acústica para o terreno da ótica. Os
desconhecidos querem ver-nos. O que têm de fazer? Captam nossa
imagem com as câmaras, e simultaneamente a transferem de uma para
outra. O curso dos acontecimentos sofre um retardamento, e estes
desconhecidos, que vivem num ritmo 72 mil vezes mais lento que o
nosso, conseguem ver-nos.
Steiner
levantou os olhos para a nave dos invisíveis, que pairava exatamente
acima deles e disse em tom inseguro:
— Conseguem
ver-nos, já não estamos em segurança. Se quiserem, poderão
matar-nos.
— Como?
— Se
conseguem retardar o curso dos acontecimentos para poderem captá-los,
também serão capazes de possuírem projéteis suficientemente
rápidos para atingir-nos.
Rous
acenou lentamente com a cabeça.
*
* *
— Não
devem continuar a viver.
— Por
quê?
— Porque
exercem uma influência nociva sobre o processo de fusão dos dois
planos temporais. Se permitirmos que continuem vivos, serão eternos
estranhos. Por outro lado, não poderão retornar à sua dimensão
temporal.
— Como
foi que vieram parar na nossa dimensão?
A resposta
demorou. Não houve qualquer modificação nas dez telas que
reproduziam as imagens em velocidades diferentes. Os seis humanos
eram perfeitamente reconhecíveis. Olhavam para cima, como se
estivessem procurando alguma coisa. Todos os outros objetos estavam
reduzidos à imobilidade. O relâmpago continuava no céu, junto à
linha do horizonte. Era uma imagem apavorante de um tempo que
subitamente tivera seu fluxo interrompido.
— Não
sabemos. O fato é que pela segunda vez seres do outro plano temporal
vêm para cá, conservando sua dimensão temporal. Para as
finalidades que temos em vista isso representa um contratempo. Se
quisermos realizar a fusão dos dois planos, todos terão de adotar
nosso fluxo temporal.
— Acontece
que o outro plano é mais forte, maior...
— Acontece
que não queremos renunciar a nós mesmos.
Surgiu
outra pausa.
Finalmente
a ordem vinda da sala de comando removeu qualquer idéia de uma
solução conciliatória.
A ordem
dizia o seguinte:
— Matem-nos!
*
* *
Ivã Ragow
fitou a nave imóvel por algum tempo. Depois disse com a voz
entediada:
— O que
é que eu tenho com isso? Se quiserem pousar, levarão algumas horas,
talvez mesmo dias. Até lá estarei de volta.
Rous
aguçou o ouvido.
— Estará
de volta? Como?
— Darei
uma olhada nas lagartas, ou seja, nos tais dos “uuuns”.
Talvez ali encontre a solução.
— Não
vá só, Ragow. André Noir vai acompanhá-lo. Talvez possa ajudar em
alguma coisa.
Noir não
ficou muito entusiasmado, mas reconheceu perfeitamente que o
cientista não deveria andar só pelas montanhas. E não havia dúvida
de que Ragow não se deixaria remover do seu intento.
Os dois
homens partiram imediatamente. Combinou-se que qualquer novidade
seria comunicada imediatamente pelo rádio.
Rous,
Steiner, Harras e Josua ficaram para trás.
Por algum
tempo seguiram os companheiros com os olhos. Depois voltaram a
dedicar sua atenção à nave desconhecida.
Foi Rous
quem percebeu em primeiro lugar.
— Está
se movendo, Steiner! Em sentido lateral. O movimento é muito lento.
Só dali a
cinco minutos o físico fez um gesto de assentimento.
— O
senhor tem razão, tenente. A nave se desloca para a esquerda.
Acredito que desenvolve no máximo o dobro da velocidade do som.
— Isso
seria um centímetro por segundo. Ora... o que é isso?
— Veremos.
Bem que gostaria de saber para onde são transmitidas as imagens.
Talvez para uma cidade, talvez para uma nave maior.

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