domingo, 31 de março de 2013

P-064 - A Prisão do Tempo - Clark Darlton [parte 2]

É uma coisa inconcebível! — disse e desistiu. — Ao menos por aqui não nos molharemos.
Rous olhou para trás. Seus olhos procuraram o anel luminoso. Ao vê-lo, soltou um suspiro de alívio.
Acho que vamos dar um passeio até a “muralha” negra. Talvez ainda consigamos descobrir o que há atrás dela. Cuidado, Ragow! Não tropece no oficial da força policial.
O russo parou e, com uma expressão indefinível no rosto, contemplou o arcônida, que se mantinha imóvel e aparentemente sem vida. Os olhos estavam entreabertos; não se sabia se as pálpebras tendiam a mover-se para cima ou para baixo. De qualquer maneira, umas oito ou dez horas se passariam antes que o movimento se completasse. Um segundo correspondia a vinte horas.
Ragow encostou o dedo na face do arcônida. Meia hora se passaria até que o calor gerado pelo corpo do arcônida atingisse os nervos do dedo do médico.
O rosto transformado em máscara demonstrara nada ter sentido; ainda não houvera tempo para isso.
O arcônida levará umas cinqüenta horas para perceber o que aconteceu com ele”, pensou Rous cheio de pavor. “Agora mantém-se imóvel. Foi arrancado de seu tempo existencial!”
Será que poderíamos vê-lo fazer algum movimento? — perguntou Harras.
Ele não nos vê — disse Rous, fazendo um gesto para Ragow. — Somos rápidos demais para ele. Para tornar-nos visíveis ao seu mundo, teria de nos filmar com uma câmera que tirasse mais de um milhão de fotografias por segundo. Para ele somos mais rápidos do que o projétil de uma arma é aos nossos olhos.
Depois de refletir um pouco, Rous disse:
É simples, Harras. Teríamos de filmar a estátua na base de dezesseis exposições em vinte horas. Se rodássemos o filme à velocidade normal de dezesseis exposições por segundo, veríamos o arcônida tal qual realmente é.
Steiner apontou para a boca entreaberta do oficial.
Isso também se aplica aos efeitos acústicos?
Naturalmente — Rous compreendeu imediatamente o que o físico queria dizer. — As ondas sonoras também refletem um retardamento em relação aos padrões a que estamos acostumados. Se por aqui prevalecem as mesmas leis naturais de nosso ambiente, o som se deslocaria à velocidade de menos de dezessete metros por hora. Isso não ocorre às ondas sonoras produzidas por nós, que estão submetidas a leis distintas.
Nesta dimensão a velocidade do som, para nós, é de cinco milímetros. Talvez isto o ajude a compreender a velocidade enorme com que nos deslocamos.
Vamos romper a barreira do som — disse Harras, o homem pragmático, e pôs-se a andar com movimentos hesitantes.
Seu rosto parecia transformado numa única indagação quando sentiu a resistência do ar, que parecia uma massa viscosa, que cedia com certa dificuldade.
Aproximaram-se lentamente da “parede” negra. Bem no centro da área delimitada pela mesma, brilhava uma fresta luminosa, pálida mas perfeitamente visível, que permitiria o ingresso daqueles homens no reino irreal da outra dimensão temporal. O diâmetro da área circular devia ser de cerca de dois mil e quinhentos metros.
Rous teve tempo de olhar para o céu. As formações de nuvens não haviam sofrido qualquer modificação, e vários dias se passariam antes que os pingos de chuva, que já caíam, atingissem a superfície do pavoroso planeta. Dias terranos, evidentemente. Não seria difícil calcular quanto tempo duraria o dia desta dimensão temporal. Se o planeta fizesse uma rotação completa em torno de seu eixo dentro de vinte e quatro horas terranas, o sol brilharia por cerca de cem anos. Levaria cem anos para percorrer o caminho do nascente ao poente.
O dia teria uma duração de duzentos anos!
Rous sentiu um calafrio ao lembrar-se desse fato. Não era de admirar que um indivíduo levasse vinte horas para pestanejar.
O céu tinha uma coloração avermelhada, ligeiramente entremeada de verde. O sol estava oculto atrás das nuvens e, na posição em que se encontrava, vários anos poderiam passar-se antes de voltar a brilhar.
Subitamente Rous compreendeu.
Antes que pudesse comunicar aos outros o resultado de seus cálculos, estes fizeram outra descoberta. Um riacho muito largo ainda os separava da “muralha” negra, que cortava a paisagem a algumas centenas de metros do lugar em que se encontravam.
Um riacho...?
A superfície da água, tangida pela tormenta que não sentiam, enrijecera em meio ao movimento. Percebia-se perfeitamente qual era a direção do vento. Alguns respingos mantinham-se imóveis no ar, como se fossem cristais reluzentes. Várias horas poderiam passar-se antes que voltassem a unir-se à massa líquida.
Como vamos atravessar isso? — perguntou Harras em tom de decepção. — Até parece a “corrente do tempo” materializada.
Tolice! — respondeu Rous, desviando o pensamento do problema sobre o qual refletira tão intensamente. — Basta seguir-me.
Prosseguiu em sua caminhada como se o riacho nem existisse. Seu pé entrou em contato com a superfície enrijecida da água e encontrou um apoio firme. Antes que os outros compreendessem o que estavam vendo com os próprios olhos, Rous já se encontrava no meio do riacho e continuava a andar como se pisasse numa superfície de pedra.
Não há o menor perigo — gritou para os companheiros. — Pelo menos dez minutos se passarão antes que a água tenha tempo para ceder sob a pressão de meus pés.
Era como se caminhasse sobre gelo, com a única diferença de que a superfície não era lisa. As ondas imobilizadas indicavam a direção do vento que as formara. E essa direção também se revelava em algumas árvores. A julgar pelos galhos retorcidos, a tormenta que movimentava o ar devia ser muito forte. Mas não sentiram nada, pois para eles até mesmo um furacão não desenvolveria velocidade superior a meio milímetro por segundo.
Atingiram a “muralha”.
Rous tateou-a com ambas as mãos e sentiu uma resistência muito forte. A “parede” era negra, mas não era de um negrume absoluto e opaco, conforme esperara; emitia um brilho suave, como se fosse de mármore cristalizado. A escuridão completa só começava poucos centímetros depois da superfície translúcida.
Ao menos parecia que era assim.
A “parede” era lisa; não apresentava a menor fresta que pudesse servir de apoio ao dedo ou ao pé. Levantava-se para o céu. Era bem verdade que a coloração se tornava menos intensa, à medida que subia. No zênite dava passagem aos raios avermelhados do sol, e as nuvens tornaram-se visíveis através dela.
Concluía-se que o GCR criava um campo temporal-energético, que o envolvia como se fosse uma esfera. Rous tinha certeza de que também devia estender-se ao subsolo. Começou a desconfiar que não viam tudo que havia no mundo misterioso da outra dimensão temporal. Mais uma vez surgiu a indagação decisiva:
O que havia atrás da “muralha” negra?
Só havia um meio de descobrir, mas Rous achou-o muito arriscado. Teriam de desligar o GCR enquanto se encontrassem na outra dimensão temporal. Com isso a “muralha” desapareceria.
Mas, ao mesmo tempo, o caminho de volta lhes seria trancado.
Rous virou-se instintivamente e olhou para a planície. Suspirou aliviado ao ver o pálido círculo luminoso que pairava pouco acima da superfície. Por um simples acaso viu junto ao mesmo uma árvore raquítica cujo formato lembrava o de uma forca.
Aqui não podemos prosseguir! — admirou-se Steiner, fazendo uma constatação supérflua. — Ninguém consegue atravessar a barreira — tocou a “muralha” com o dedo. — Que material será este?
Não é nenhum material — disse Rous, apoiado por gestos enfáticos de Noir. — Trata-se pura e simplesmente de energia.
Energia? — espantou-se Josua, inclinando-se para a frente.
Era o metalúrgico da expedição, motivo por que a muralha misteriosa se enquadrava em sua especialidade.
Uma muralha sólida feita de energia? Nunca vi uma coisa dessas!
Já viu, sim — afirmou Noir. — Não se esqueça dos campos defensivos de nossas naves. Um objeto atirado contra os mesmos também não poderá passar.
O africano sacudiu a cabeça; parecia desesperado.
Pois é aí que está a diferença, Noir! Os campos energéticos que conhecemos, ao simples contato, transformam a matéria em energia. Acontece que esta “muralha” pode ser tocada com a mão. Não parece fria ou quente, nem expele raios mortíferos. Além disso, não transforma a matéria em energia.
A abóbada energética neutra de Terrânia também pode ser tocada por qualquer pessoa, sem que a mesma corra o risco de morrer; e nenhuma porção de matéria pode passar por ela — disse Steiner em tom enfático, refutando a argumentação de Josua. — Portanto, é perfeitamente possível que esta “parede” negra seja formada por energia. Mais precisamente, pela energia gerada pelos aparelhos que se encontram no interior da gazela, e que por isso mesmo é regida pelas nossas leis. Deve-se ter em vista esta última circunstância, caso alguém fique curioso para saber como remover o obstáculo.
Está bem — disse Rous com certa malícia. — Acontece que não quero andar por este mundo irreal, quando o caminho de volta estiver trancado. A não ser que alguém fique junto ao GCR e o ligue depois de certo tempo.
Acho que já descobrimos um meio de penetrar no mundo dos desconhecidos — começou Noir em tom objetivo e passou a mão pela parede. — Mas talvez deveríamos encarar a situação sob outro ângulo. É possível que esta “parede” nos proteja dos perigos existentes atrás dela.
Ninguém disse nada. Concluía-se que todos concordavam tacitamente com o que o mutante acabara de afirmar.
Caminharam uns duzentos ou trezentos metros ao longo da “parede”. Depois voltaram a atravessar o rio e seguiram na direção do anel reluzente que os aguardava a mais de mil metros do lugar onde se encontravam.
Subitamente Ragow se pôs a praguejar e colocou a mão no rosto. Recuou um passo e fitou o objeto minúsculo que pairava imóvel à frente de seu nariz. Esbarrara nele.
É um inseto! — disse em tom de incredulidade, sacudindo a cabeça. — Esbarrei numa mosca. E o bicho não quer sair do meu caminho.
Os outros reuniram-se em torno do “objeto” com o qual Ragow acabara de “colidir”. Realmente era uma espécie de mosca. Tinha longos tentáculos e asas brilhantes; além disso, ostentava oito pernas finamente articuladas e um par de olhos enormes.
Subitamente Rous teve a impressão de ter percebido um movimento insignificante naquele mundo de imobilidade total.
Seria o inseto?
Mas isso não era possível! Mesmo que o animalzinho voasse a uma velocidade de cem quilômetros por hora, levaria vinte segundos para percorrer um centímetro. E seria difícil controlar a olho nu um objeto que se deslocasse a essa velocidade.
Mas havia uma coisa no inseto que se movia...
Eram as asas!
Os outros também viram. Num movimento extremamente lento e quase imperceptível, as asas reluzentes do inseto se levantaram; não havia a menor dúvida. Dali a pouco menos de dez segundos, voltaram a descer, para recomeçar tudo depois de meio minuto.
Um minuto para cada batida de asas — disse Harras e calculou febrilmente. — Caramba! Quer dizer que este bicho bate as asas mil vezes por segundo... na outra dimensão, evidentemente. É inacreditável!
Certos insetos terranos fazem muito mais que isso — explicou Ragow com toda calma e viu as asas atingirem a posição mais elevada e voltarem a baixar. Nesses dois ou três minutos, o inseto já havia percorrido alguns centímetros. Portanto, era relativamente veloz; na realidade, percorria uns trinta metros por segundo.
Se por aqui alguém resolver atirar em nós, poderemos desviar-nos tranqüilamente da bala — disse Steiner em tom de satisfação.
Calculou a meia voz e, ao anunciar o resultado, estava radiante de alegria:
Um projétil comum percorreria cerca de um metro por minuto. É incrível. Estamos vivendo no mundo da câmera lenta.
Não acredite — disse Rous com a voz séria — que um projétil que avançasse tão devagar o deixaria incólume, se o atingisse. Se ficar parado, o mesmo penetrará lentamente em seu corpo e o matará.
Que bela perspectiva! — o físico sacudiu o corpo e voltou a dedicar sua atenção ao inseto reluzente, que prosseguia em vôo lento. — Será que a gente poderia matar este bicho?
Rous ergueu as sobrancelhas.
Por que matá-lo? Ele não nos fez nada.
Só perguntei por perguntar — respondeu Steiner. — Apenas gostaria de saber se é possível matar um ser que se encontre nesta dimensão temporal.
Acredito que seria perfeitamente possível — admitiu Rous a contragosto. — Mas faço votos de que nunca tenhamos necessidade de fazer uma coisas dessas. Na situação atual temos uma superioridade de setenta e dois mil para um.
Com isto nossa missão está praticamente cumprida — disse Harras em tom de triunfo. — Apenas pediram que verificássemos como poderemos derrotar o inimigo Invisível.
Bem — disse Rous sem o menor entusiasmo. — É claro que o senhor tem toda razão, Harras. Mas acontece que por enquanto não vimos nenhum desses terríveis Inimigos. Nem sequer sabemos como são, quem são e o que estão tramando. Se encararmos nossa missão sob este aspecto, esta nem de longe foi cumprida. Nem sequer começamos a executá-la.
Prosseguiram em sua caminhada e andaram mais depressa. Josua, que caminhava atrás dos outros, gritou de repente:
Que ruído é este? Parece um rumorejar e vem da frente.
Rous parou, mas os outros prosseguiram.
Um ruído? Não ouço nada.
Sim; é grave e baixo. Até parece um murmúrio. É estranho: ficou mais fraco.
Rous manteve-se imóvel e aguçou o ouvido. Agora também estava ouvindo, mas logo o ruído cessou. Fitou em atitude pensativa os quatro homens que caminhavam a alguma distância do lugar em que se encontrava.
Que ruído seria este?
Uma expressão de espanto surgiu em seu rosto, mas logo foi substituída por um sorriso.
É claro; só pode ser isto. É como disse Harras: rompemos a barreira do som. Atrás de nós surge um vácuo. E quando o ar penetra no mesmo, surge o estranho ruído que acabamos de ouvir.
Rous ficou satisfeito de ter obtido uma explicação e prosseguiu na caminhada. Ao observar a atmosfera, lembrou-se de outro problema sobre o qual refletira várias vezes, mas sempre sem resultado. Talvez seria preferível nem pensar mais sobre isso.
A quinhentos metros do lugar em que se encontravam brilhava o luminoso anel salvador, através do qual poderiam voltar ao mundo a que pertenciam. Por um instante surgiu na mente de Rous a indagação sobre se a permanência em outra dimensão temporal teria algo a ver com um deslocamento no espaço, ou se os dois mundos existiam no mesmo lugar. Era uma idéia louca demais para ter uma base real. Seria mesmo?
Rous esbarrou em Steiner, que parará de repente. Esteve a ponto de perguntá-lo sobre esta idéia, mas logo viu que o rosto do físico havia se transformado numa máscara. Os outros homens também estacaram.
Seguiu seus olhares...
Ficou pálido como cera e teve a impressão de que seu coração parará de funcionar. Por alguns longos segundos seu cérebro recusou-se a aceitar o que os olhos presenciavam...
Teriam de permanecer eternamente na dimensão temporal estranha, porque o caminho de volta deixara de existir!
O anel luminoso desaparecera de repente.
3



Rous venceu o pavor, e a inteligência voltou a funcionar. A abertura luminosa desaparecera — isso era um fato irreversível. Mas sua extinção provocara outras modificações importantíssimas, que talvez poderiam influir em seus destinos.
O céu mudara de cor. Parecia que uma camada de alguma coisa que encobrira a visão do firmamento acabara de ser removida. As nuvens continuavam a ocultar o sol, mas agora via-se claramente que o astro devia ser vermelho. E o céu também era vermelho.
Rous ainda viu outra coisa.
A “muralha” negra havia desaparecido.
Puderam ver o horizonte distante, mas a visão representou uma amarga decepção.
A paisagem situada atrás da parede era praticamente igual à que ficava à frente da mesma. Era bem verdade que viram uma cadeia de montanhas elevadas, que se estendia em direção ao céu chamejante como se quisesse apagá-lo. Grandes vales cortados por rios prateados que pareciam cobertos de sangue estendiam-se até as montanhas distantes. As florestas e as estepes introduziam um elemento de variação no panorama natural daquele mundo estranho.
Mas não viram nenhuma criatura viva.
Ivã Ragow também conseguiu vencer o pavor.
Meu Deus! O que aconteceu? O anel luminoso...
...desapareceu! — completou Steiner com uma calma pouco natural. — Talvez alguém que se encontra do outro lado tenha mexido no aparelho.
Quem poderia ter feito uma coisa dessas? — perguntou Rous. — A frente do tempo passou pela gazela. Se nossos cálculos foram corretos, todo o planeta de Tats-Tor deve ter desaparecido de nosso mundo normal. Ou, ao menos, todos os seres orgânicos que viviam nele. Não vejo nada. Não deveriam estar aqui?
Desta vez Harras demonstrou maior senso lógico.
Entre o lugar em que estávamos acampados e a capital, Akonar, não havia nenhuma povoação. Eram cem quilômetros de estepes e matas. Portanto, teremos de andar ao menos cem quilômetros para encontrar aqueles que foram transferidos para essa dimensão temporal.
Rous tinha outros problemas.
Como poderemos voltar ao nosso plano temporal?
Steiner deu de ombros e fitou Ragow. O russo colocou a mão sobre a arma de radiações de Steiner e falou:
Se formos atacados, poderemos defender-nos. Quanto ao mais, acho que devemos ficar por aqui; não devemos afastar-nos muito, para que vejamos imediatamente quando o anel luminoso voltar. Talvez tenha havido uma interrupção nos suprimento de energia da gazela.
Isso é bastante improvável — comentou Harras, sacudindo a cabeça. — Afinal, o senhor que é botânico não poderia conhecer essas coisas. O aparelho foi desligado. É a única explicação que encontro para o fenômeno.
Existem milhares de explicações — disse Rous, contraditando o técnico. — E nenhuma delas pode ser admitida com cem por cento de certeza. Se não encontrarmos o caminho de volta, nunca descobriremos o que aconteceu. Mas Ragow tem razão. Vamos ficar por perto; ou então, pelo menos um de nós deve ficar.
Será que o senhor está com vontade de passear por aí? — perguntou Steiner. — O que espera conseguir com isso?
Bem; a muralha desapareceu, e isso já representa uma vantagem. Não há mais nada que nos impeça de percorrer este mundo a uma velocidade setenta e duas mil vezes maior que a normal para realizarmos nossas investigações e...
Não se esqueça — interrompeu o físico em tom seco — que nem por isso o senhor conseguirá correr mais depressa. Sempre levará doze segundos para percorrer cem metros. Para vencer um quilômetro precisará de dez minutos. Em outras palavras, marchará à velocidade de seis quilômetros por hora. Não posso negar que essas figuras petrificadas levariam alguns anos para percorrer o mesmo trajeto, mas daí não se pode concluir que o senhor poderá caminhar mais depressa. E há outra coisa que me preocupa. Será que por aqui existe alguma coisa que possamos comer?
Rous deu de ombro.
É este um dos motivos por que se torna necessária uma expedição. É claro que alguém terá de ficar aqui para montar guarda. Quem será? Qualquer um de nós tem qualificações suficientes para estar presente quando chegar a hora da decisão. Devemos deixar a escolha ao acaso, tirando a sorte?
Talvez esta seja a melhor solução, pois ninguém poderá sentir-se ofendido — disse Harras e pôs a mão no bolso para tirar uma moeda de um solar. Pesou-a na mão; parecia pensativo. — Será que algum dia poderemos comprar alguma coisa com isto?
Josua foi o infeliz que teve de ficar só. Rous apontou para a árvore solitária, que tinha o aspecto de uma forca.
Dez metros à direita desta árvore está nossa gazela, isto é, na outra dimensão. Seria preferível ficar junto a esta rocha, pois daqui poderá observar uma coisa e outra. Assim que o anel luminoso volte a aparecer, avise-nos. Acho que seu rádio ainda está funcionando.
Um ligeiro ensaio do transmissor embutido no anel deu resultado positivo.
Pois bem — disse Rous, dando uma palmadinha no ombro do africano. — O senhor não tem nada a recear, pois neste mundo ninguém lhe poderá fazer mal. O senhor é muito mais rápido que qualquer coisa que possa existir por aqui, com uma única exceção... Mas se contássemos com a mesma estaríamos renunciando a todas as esperanças. Passe bem. Logo estaremos de volta.
O africano seguiu-os com os olhos; não parecia muito satisfeito. Enfiou no cinto a arma de radiações que Harras lhe havia deixado. Relutou em confessar a si mesmo que a posse da pistola o tranqüilizava.
Rous e seus acompanhantes aproximaram-se do rio que os separara da “muralha”. Retardaram o passo ao atingirem o lugar onde a “parede” negra se erguera diante deles. Rous estendeu a mão, mas a vista não o enganara. A “muralha” desaparecera. E não deixara o menor vestígio no solo pedregoso.
Não devemos esquecer o risco que assumimos se prosseguirmos além deste ponto — disse Rous e lançou um olhar pensativo para os companheiros. — Admitamos que alguém ligue o GCR quando nos encontrarmos além da parede. Como faremos para voltar ao interior da abóbada? Já pensaram nisso?
Temos de assumir o risco — respondeu Steiner em tom irritado. — Aliás, Josua ficou para trás. Se existe alguém que possa ligar o aparelho, este alguém só poderá ser Rhodan. E ele não terá nenhum problema em encontrar-nos. Não tenho o menor receio de prosseguir na marcha. Afinal, não poderemos ficar eternamente sem comer e beber.
Acho que a água não será muito refrescante — disse Rous, apontando para as ondas enrijecidas que se desenhavam na superfície do rio. — Chego a duvidar de que tenhamos possibilidades de sobreviver neste mundo. Está vendo esse capim? Será que alguém de nós conseguirá arrancá-lo? Não; ninguém conseguirá, pois a resistência que oporá a qualquer movimento será muito intensa. E é o que acontece com tudo que se encontra por aqui. Se não encontrarmos o caminho de volta, morreremos de fome e sede.
Tenho comigo uma boa provisão de tabletes energéticos — disse Ragow de repente, com um sorriso matreiro nos cantos dos olhos. — Acho que não foram afetados pela ruptura da barreira do tempo.
Rous fitou-o por algum tempo e sacudiu a cabeça.
Por que não disse isso antes, Ragow? Poderia ter-me poupado alguns minutos de preocupações.
Tanto maior é a alegria que sente agora — disse o médico, entregando uma caixinha de tabletes a cada companheiro. — Tenham cuidado com isso! Nestas caixinhas existe uma ração de emergência e alguns tabletes de água. Com isto um homem poderá viver uma semana, desde que saiba regrar-se. Pelo menos não morreremos de fome tão depressa. Então, vamos prosseguir?
Prosseguiram.
Dali a pouco a paisagem modificou-se. A planície pedregosa foi substituída por uma estepe coberta de capim. Mesmo assim a marcha não se tornou mais agradável. Com suas arestas rígidas e afiadas, o capim era extremamente perigoso. Tinham que desviar-se de cada moita, para não se ferirem. As hastes de capim pareciam lâminas de aço.
Ficaram satisfeitos quando o mato se tornou cada vez mais baixo, até ceder lugar a uma camada de musgo, que também era dura, mas não incomodava tanto. As solas de plástico das botas até pareciam ter uma leve elasticidade, mas isso talvez não passasse de pura imaginação.
O terreno começou a subir.
Steiner enxugou o suor da testa.
É possível que por aqui o tempo passe mais devagar — disse e parou para lançar um olhar sobre a planície.
Em algum lugar, lá embaixo, Josua estava montando guarda. Até então não chamara.
Mas sei que a gente transpira tão depressa como em qualquer outro lugar em que faça calor — prosseguiu Steiner.
Encontravam-se sobre um pequeno platô. Atrás deles, o terreno descia até a ampla planície, enquanto à sua frente continuava a subir em direção às montanhas. Depois de duas horas de marcha haviam percorrido dez quilômetros, mas estavam tão curiosos para saber o que haviam atrás das montanhas que nem se lembraram da canseira que estavam enfrentando.
Subitamente notaram um movimento.
Surgiu ao oeste, junto à linha do horizonte, onde a camada de nuvens era mais densa. Sem dúvida por ali já estava chovendo há horas, segundo o tempo que prevalecia nesse plano. Os pingos estariam caindo com uma lentidão infinita. Levariam alguns dias para atingir o solo. A simples idéia era enlouquecedora.
O movimento que seus olhos haviam percebido surgira nas nuvens. Parecia um raio de luz que descia rapidamente e em linha sinuosa em direção à superfície, atingindo-a dentro de um ou dois segundos. Mas o fenômeno luminoso não desceu. Ficou parado entre o céu e a terra, como um arco luminoso.
Steiner fitou prolongadamente o fenômeno luminoso e disse:
O que é isso?
Rous empalideceu. Viu confirmadas, suas suposições.
É um relâmpago, Steiner. Um simples relâmpago; apenas seu ritmo é setenta e duas mil vezes mais lento. Talvez fique parado no céu durante dez horas. O senhor viu? Levou nada menos de dois segundos para descer das nuvens ao solo. Dali se conclui que...
Não! — interrompeu o físico e sacudiu a cabeça. — Não é possível. Isso seria... seria...
É apenas uma conclusão lógica extraída dos dados de que dispomos, Steiner. Se nesta dimensão tudo é muito mais lento, porque vivemos setenta e duas mil vezes mais depressa, o mesmo deve acontecer com a luz. Nesta dimensão temporal se desloca a uma velocidade de apenas quatro quilômetros por segundo. Ainda não sabemos quais poderão ser as conseqüências disso, mas o raio que o senhor está vendo prova que deverão existir certas conseqüências!
Na Terra um relâmpago pode permanecer no céu durante um ou dois segundos. Enquanto isso, o raio que viam ao oeste poderia permanecer no céu durante vinte ou quarenta horas, pois ficaria preso pela lei natural das duas dimensões temporais, que todavia possuíam leis comuns!
É que, sob o aspecto relativo, também aqui a velocidade da luz era de 300 mil quilômetros por segundo.
Será que a cor vermelha do sol tem alguma relação com isso? — perguntou Harras, apontando para o sul, onde o céu parecia arder em chamas vivas.
Rous fez um gesto afirmativo.
Foi justamente o sol que me deu essa idéia. Os raios do sol, infinitamente retardados, constituem um exemplo evidente do efeito duplicado. Nem sei como ainda conseguimos ver alguma coisa.
Se ficarmos aqui por algum tempo, estudarei o fenômeno — prometeu Steiner, fitando com os olhos semicerrados o relâmpago, que não havia sofrido qualquer alteração. — Aqui a velocidade da luz é de apenas quatro quilômetros por segundo. O que acontecerá se eu usar meu radiador? Os nêutrons devem ter conservado o tempo que lhes é peculiar?
Rous deu de ombros.
Sei lá — disse.
Prosseguiram na caminhada. Cada qual estava mergulhado em suas reflexões. Um ligeiro contato com Josua revelou que não havia nenhuma novidade. O africano recebeu instruções para avisar assim que o círculo luminoso voltasse a aparecer. Depois deveria passar para a outra dimensão e desligar o GCR por duas horas, a fim de que pudessem voltar sem se depararem com o obstáculo da “parede” negra.
André Noir notou que a temperatura estava subindo.
Acho que está muito quente — disse, olhando na direção do cume da montanha. — Não sei por que temos de esforçar-nos tanto. Já quis perguntar há tempo, mas acredito que deve haver um motivo todo especial para andarmos a pé. Qual é mesmo o motivo, Tenente Rous?
Acho que está aludindo aos trajes arcônidas. Isso já é outro problema. Não se esqueça da velocidade tremenda que representaria um vôo por este mundo. Não tenho certeza, mas acredito que se desenvolvêssemos apenas alguns metros por segundo logo nos tornaríamos incandescentes.
Steiner lançou um olhar mordaz para seu interlocutor, abaixou-se e levantou uma pedra. Ou melhor, tentou levantá-la. Não conseguiu. A inércia da massa da pedrinha aumentava-lhe o peso em setenta e duas mil vezes.
Rous não conseguiu reprimir o riso.
Já sei o que pretende fazer, Steiner, mas posso garantir que não é possível. Essa pedra está submetida a leis, sobre as quais não podemos exercer a menor influência. Já sei que nunca conseguiremos levar um prisioneiro desta dimensão temporal para a nossa, a não ser que realizemos uma operação muito hábil com o GCR. Se quiser experimentar para ver se minha suposição foi correta, use um dos objetos que trouxemos, talvez uma moeda. Atire-a nessa grota. Veremos o que vai acontecer.
Todos se sentiram satisfeitos em poderem fazer uma pausa. A idéia de que talvez pudessem voar era muito estimulante. Mas se Rous tivesse razão, essa idéia não devia ser realizada.
Steiner tirou do bolso uma pesada moeda de platina, lançou-lhe um olhar triste e dirigiu-se à beira do precipício. A rocha descia verticalmente por cerca de cem metros. Lá embaixo havia um prado verde.
Deixe cair a moeda — disse Rous, esforçando-se para não trair a tensão que sentia. — Será suficiente.
Steiner fez que sim.
Noir, Harras e Ragow colocaram-se ao lado de Rous e lançaram um olhar curioso para Steiner, que moveu o braço e atirou a moeda bem longe.
Esta descreveu uma curva bem aberta e caiu na vertical. A queda não durou mais de um segundo.
Depois o objeto sofreu uma estranha modificação. De início parecia que estava sendo iluminado por uma fonte de luz invisível. Emitia um forte brilho prateado. Depois de algum tempo passou para o vermelho e depois voltou ao branco. Uma fina nuvem de vapor marcava a trajetória. Finalmente, antes que chegasse ao solo, desapareceu, devorada pelas “preguiçosas” moléculas daquela atmosfera.
Ouviram-se gritos de espanto.
Rous conteve a respiração e disse com um suspiro de alívio:
Foi exatamente o que eu imaginei. E agora já sei que um disparo de nossos radiadores de impulsos produziria conseqüências catastróficas! Vocês não podem nem imaginar?!
Steiner afastou-se da beira do precipício o acenou lentamente com a cabeça.
Posso imaginar, Rous. Um raio, que se deslocasse na Terra a uma velocidade 72 mil vezes superior à da luz, não só deixaria um rastro na atmosfera, mas afetaria a própria estrutura temporal. Esta poderia estourar e esfacelar-se. E aqui?
Aqui — disse Rous em tom decidido - não arriscaremos a experiência. Não quero causar uma “explosão do tempo”.
Nem se deu conta de que os outros empalideceram. Lançou mais um olhar para a planície e reiniciou a marcha.
Os outros seguiram-no.

* * *

No cume da montanha, o ar estava tão imóvel como na planície. Mas era menos transparente e mais quente. Não se enxergava além de dez metros. As “correrias” foram inúteis, pois não tiveram uma visão ampla. Parecia que o cume achatado da montanha estava envolto em algodão.
Gostaria de saber de onde vem este calor — disse Noir, sacudindo a cabeça. — Será que ninguém pode dar uma explicação razoável.
Eu posso.
Steiner, que proferira estas palavras, abaixou-se e colocou a mão sobre a rocha nua, mas logo a retirou. Seu rosto exprimiu o espanto. Voltou a levantar.
Então? — perguntou Rous, pedindo que desse o resultado da experiência em palavras inteligíveis. — O que é?
O solo está quente — começou Steiner em tom inseguro. — Quase chego a acreditar que há um fogo aceso sob a rocha.
Harras começou a rir. Steiner virou-se furioso.
Não sei o que há de engraçado nisso. Não seria possível que por aqui existisse um vulcão ou coisa semelhante?
Ora, o fogo! — disse Harras com um sorriso. — Gostaria de saber qual seria o aspecto do fogo neste lugar. Uma chama leva algum tempo para arder. O que aconteceria aqui? Veríamos uma chama congelada?
É justamente por isso que emite o mesmo calor — disse Steiner, apontando para o solo. — O calor teve tempo para propagar-se pela rocha; talvez durante milênios.
Rous examinou a encosta do lado oposto.
Não sei, mas é possível que o lugar em que nos encontramos não seja o ponto mais elevado. Suas palavras me deram uma idéia, Steiner. Se isto for um vulcão, talvez estejamos na beira de uma cratera. Isso explicaria o calor.
Harras, que se adiantara um pouco, gritou de repente:
Venham cá, amigos. Vocês ficarão admirados. Tenham cuidado para não escorregar.
Steiner e Rous logo se puseram em movimento, enquanto Ragow e Noir ainda esperavam. Não tinham muita pressa nesse mundo em que o tempo passava devagar.
Rous sentiu que o calor aumentava. Quase chegou a ter a impressão de estar sendo atingido diretamente por uma fonte de calor. Depois viu através da neblina que Harras fazia um sinal para ele.
A cratera propriamente dita fica aqui — gritou o técnico e apontou para uma abertura vermelha e incandescente que havia a seus pés. — Olhe a lava.
Parecia uma massa sólida e incandescente, que não se movia. Mas as ondas enrijecidas provavam que a massa estava subindo e que num tempo imprevisível atingiria a beira da cratera.
Está aí a fonte de calor — disse Steiner. — Minha suposição foi correta; era o que eu queria saber. Quem sabe com que velocidade se processa a irrupção vulcânica a que estamos assistindo?
Uma irrupção vulcânica?! — Rous parecia surpreso.
Steiner apontou para a lava.
O que poderia ser senão isso? A lava já está subindo; tenho certeza absoluta. Chegará à beira da cratera dentro de dois ou três anos, talvez antes. De qualquer maneira não corremos o menor perigo. Quando o fogo líquido começar a correr pelo vale, ainda haverá muito tempo para nos colocarmos em segurança. Mas é bastante duvidoso que a mesma coisa aconteça com os seres que vivem na mesma dimensão temporal do vulcão.
Uma irrupção vulcânica! — disse Ragow em tom de admiração. — E estamos parados, assistindo a tudo. Isto até parece mais espantoso que aquela história das asas do inseto.
Noir pigarreou.
Para dizer a verdade, o calor está demais. Provavelmente não poderemos prosseguir na mesma direção, pois ninguém sabe qual é a largura da cratera. O que vamos fazer? Voltar?
Não vejo outra alternativa — disse Rous.
Se quisermos caminhar em direção à cidade de Akonar, teremos de escolher outro caminho — sugeriu Ragow.
Nunca encontraremos a cidade propriamente dita, porque permaneceu na outra dimensão temporal, ou seja, na nossa. Mas encontraremos seus habitantes. Talvez possamos dar uma lição nesse administrador arrogante — comentou Steiner.
Isso não adiantará nada, pois levará três dias para sentir a bofetada — disse Harras em tom irônico.
Rous constatou que o motivo da visibilidade reduzida eram os vapores que enchiam o ar. Lembrou-se de que estes talvez pudessem ser venenosos.
Vamos voltar — anunciou, pondo-se a caminho. — Não adianta expormo-nos a um perigo desconhecido. Lá na planície o ar é mais puro.
Quando estavam a meio caminho, Ragow subitamente soltou um grito. Levantou o braço e, de lábios trêmulos, apontou para a encosta rochosa que ficava à sua esquerda. No início não viram o que lhe chamara a atenção, pois nada se movia. Mas deveria haver qualquer coisa que se movesse neste mundo louco?
Olhem o animal! — balbuciou Ragow em tom nervoso. — Não estão vendo?
Rous forçou a vista, mas apenas viu blocos de pedra imóveis de vários tamanhos.
Será que Ragow estava aludindo aos mesmos?”, pensou o tenente interrogando-se.
O russo baixou o braço e inclinou a cabeça para escutar melhor. Havia alguma coisa no ar; era um ruído estranho. Parecia um trovejar surdo. Mas o raio, que continuava imóvel no céu, ficava muito longe.
Logo o som não poderia ter percorrido a distância, pois não ultrapassava a velocidade de dezessete metros por segundo. Mas o ruído surdo continuava no ar.
...uuuum... uuuum... Ragow disse:
Está ouvindo, tenente? Escutei no instante em que vi os animais.
Que animais? — perguntou Steiner. — Não vejo nenhum animal.
Estão parados, ou melhor, rastejando à frente dessas cavernas. Nunca vi um ser desse tipo. Serão lagartas?
Lagartas? — perguntou Rous em tom impaciente. — Não vejo nenhuma lagarta. E a distância é muito grande...
Eu disse que são como lagartas — comentou Ragow com a voz tranqüila. — Mas são muito maiores. Vejam aquelas pedras à frente das cavernas!
As cavernas abertas na encosta rochosa pareciam bocas. Degraus irregulares de pedra levavam às mesmas. Eram trilhas estreitas, pisadas por inúmeros pés. E lá embaixo, no início das trilhas, estavam as pedras... quer dizer, as lagartas...
Todos viram. Aqueles objetos que acreditavam serem pedras tinham o mesmo formato. Pareciam esculpidas na rocha. Jaziam imóveis, isolados e em grupos, e não se moviam.
No ar ouvia-se o ruído ininterrupto.
...uuuum... uuuum...
Não há dúvida de que são seres vivos que habitam essas cavernas — disse Ragow e caminhou resolutamente na direção do estranho grupo. — Na dimensão temporal normal nunca vi seres desse tipo. Por isso é altamente provável que se trate de habitantes deste plano temporal. Talvez sejam os grandes desconhecidos!
Rous já se recuperara do espanto. Seguiu o sábio, que se encontrava bem no meio dos seres vivos petrificados e os estudava atentamente. Os outros três homens também se aproximaram.
Realmente pareciam lagartas enormemente aumentadas. As pequenas asas davam provas de que aqueles animais sabiam voar, ou ao menos já haviam sido capazes disso. Nenhuma lagarta tinha menos de metro e meio. Em vez dos pêlos finos, possuíam um casco blindado marrom-escuro, que envolvia todo o corpo. Pouco abaixo da cabeça redonda ficavam duas tenazes finas, que se distinguiam perfeitamente das pernas dispostas ao longo do “tronco”. Segundo tudo indicava, esses ferrões só serviam à locomoção.
...uuuum... uuuum...
Enquanto os homens se aproximavam dos animais, os estranhos sons tornaram-se Sinais breves e agudos. Mas assim que a expedição parou, voltaram às características interiores.
Seria uma distorção sonora?
Ao perceber a indagação que Steiner pretendia formular, Rous fez um gesto afirmativo.
É isso mesmo. Estes animais emitem sons que, em virtude da distensão do tempo, chegam muito lentamente ao nosso ouvido. Se os gravássemos em fita e os reproduzíssemos com a velocidade aumentada em setenta e duas mil vezes, perceberíamos os sons originais.
Ragow acenou com a cabeça.
É verdade, tenente. Os animais se comunicam entre si. Por isso não são animais na verdadeira acepção da palavra, pois possuem certo grau de inteligência. Talvez mais do que desconfiamos.
Quem sabe se não são as inteligências máximas da outra dimensão temporal?
perguntou Rous.
É possível — disse Ragow, abaixando-se para examinar uma das lagartas.
Talvez descubramos um dia.
Rous esteve a ponto de responder, mas nesse instante ouviu o zumbido fino do receptor embutido no anel. Josua estava chamando.
Ligou apressadamente o aparelho.
Pois não, Josua. Aqui fala Rous. O que houve?
A voz do africano parecia insegura.
Não sei se realmente aconteceu alguma coisa, tenente, mas julguei conveniente avisá-lo.
Diga!
Há um objeto no ar, acima de minha cabeça. Parece uma nave, deve ter uns dez metros de comprimento e seu formato é o de um torpedo. Deve ter saído das nuvens. Está descendo lentamente, como se quisesse pousar.
Os outros participantes da expedição aguçaram o ouvido. Rous logo percebeu o ponto que despertara sua atenção e exprimiu-o por meio de palavras.
Consegue ver o movimento da nave, Josua?
Até vejo muito bem, tenente. Acontece que se move muito devagar. Deverá demorar umas duas horas para pousar — se é que vai pousar.
Vamos voltar — prometeu Rous, lançando um olhar triste para as lagartas petrificadas. — O pouso de uma nave torna-se um fato que justifica plenamente a suspensão das investigações que estamos realizando.
Se houver alguma novidade, avisarei — disse Josua.
Dali a alguns segundos, Ragow sacudiu a cabeça; parecia contrariado.
Será que devemos ignorar nosso achado? Talvez possamos levar uma das lagartas...
O senhor sabe perfeitamente que isso é impossível, ao menos nas circunstâncias atuais e sem outros recursos. Para deslocar uma dessas lagartas, o senhor precisaria da mesma energia que seria necessária para conferir a um ser humano que se encontrasse na Terra uma aceleração de setenta quilômetros por segundo. Seria mais fácil atirar um homem às nuvens terrestres, apenas com o auxílio das mãos, que levantar um destes animais a uma altura de um metro. A não ser que tenha muito tempo, Acho que gastaria umas vinte horas por metro.
Ragow parecia desesperado.
Aos poucos começo a compreender a importância do tempo. Apenas receio que, quando compreenda de vez, acabe enlouquecendo.
Rous lançou mais um olhar para as lagartas e prestou atenção ao estranho som de suas vozes, que foi penetrando lentamente em seus ouvidos.
Mais tarde daremos outro olhar nos “uuuns”. Por enquanto vamos...
Daremos um olhar em quem? — perguntou Steiner em tom de surpresa.
Eu os chamo de “uuuns”, porque é assim que soam suas vozes — explicou Rous. — Agora vamos andando, para dar uma olhada na nave desconhecida que pretende pousar nas proximidades de nossa fresta de luz.
Em parte aliviados, em parte contrariados, os participantes da expedição puseram-se em marcha.
Por mais devagar que se arrastassem, ainda alcançariam o futuro...
4



A nave-mãe tinha mais de mil metros de comprimento e circulava em torno do planeta a grande distância. Em seu interior havia uma infinidade de instrumentos de controle, instalações automáticas de alarma e salas inteiras cheias de instrumentos positrônicos. Vultos pouco nítidos moviam-se na semi-escuridão; pareciam ser a única coisa viva existente naquela nave.
O veículo espacial controlava aquele planeta que se deslocava na periferia do plano temporal e penetrara mais de uma vez numa dimensão estranha, para retornar depois de algum tempo. De cada vez, vinha sobrecarregado de organismos estranhos, dos quais os cientistas pretendiam apoderar-se para conseguir a fusão das duas dimensões temporais.
Dessa forma, mais um mundo fora despovoado, sem que seus habitantes pudessem fazer qualquer coisa para acelerar, retardar ou evitar o fenômeno.
Ao retornar, o planeta apresentara uma população nova, cuja inércia temporal propiciava certo grau de adaptação ao outro plano temporal.
Os desconhecidos tiveram uma amarga decepção ao constatar, durante a primeira interseção, que a dimensão normal não era a sua, mas aquela outra, com a qual cruzavam. Deviam adaptar-se à mesma, a não ser que quisessem continuar a viver como degredados. Poderia haver uma existência mais solitária que um exílio no tempo?
As telas de controle iluminaram-se, e os ponteiros deslizavam pelas escalas. Em algum lugar, nas profundezas da nave, os reatores e os aparelhos começaram a zumbir. A vigilância robotizada do planeta estava entrando em funcionamento.
Era claro que os desconhecidos já tinham conhecimento de seu encontro com o outro universo. Todos os seres orgânicos do outro planeta temporal viviam 72 mil vezes mais depressa que eles. Só se tornavam visíveis com o auxílio de aparelhos e instrumentos extremamente complicados. Aquilo lembrava a técnica de uma câmara lenta verdadeiramente inacreditável. Os filmes teriam de passar pelas câmaras a uma velocidade tremenda, para que uma projeção retardada pudesse produzir ao menos algumas sombras fugazes na tela.
Mas sempre que penetravam no outro plano temporal e retornavam do mesmo, os organismos trazidos de lá estavam presos e ficavam sujeitos às leis naturais do plano temporal dos desconhecidos. Talvez com isso se conseguisse realizar uma adaptação das duas dimensões.
As sombras corriam de um lado para outro; não havia como identificá-las.
Aparentemente as telas em nada se distinguiam umas das outras; na verdade, porém, eram diferentes. A primeira tela a partir da esquerda estava relativamente vazia. Nela se viam montanhas distantes, situadas na periferia de uma extensa planície entrecortada por rios e vales. O céu estava nublado; a qualquer momento começaria a chover. Mais ao longe, junto à linha do horizonte, uma trovoada estava rugindo. Os primeiros relâmpagos saíam das nuvens e corriam em direção à superfície.
A segunda tela exibia o mesmo quadro, mas os acontecimentos eram mostrados em ritmo mais lento. Os seres em forma de lagarta continuavam a mover-se devagar, a água dos regatos também parecia correr bem mais devagar. O setor abrangido pela imagem era idêntico ao anterior. Mostrava a planície, as montanhas e os rios.
Só na terceira, a ação da câmara lenta tornava-se nitidamente perceptível. O que havia de fascinante em tudo aquilo era a certeza de que a reprodução não correspondia a um filme, mas a uma imagem captada ao vivo.
A quarta representava um retardamento de cinqüenta por cento.
Na quinta, o relâmpago rastejava em direção à superfície, e a chuva caía tão lentamente que até parecia que os pingos estivessem presos a fios invisíveis, que estivessem sendo soltos aos poucos. As lagartas mal se moviam; pareciam transformadas nos seres mais preguiçosos do Universo.
Na sexta tela, sombras fugazes corriam pela lâmina abaulada. Como a redução fosse de um para seiscentos mil, era fácil imaginar com que velocidade aquelas sombras deveriam correr na realidade.
Só na décima, as sombras moviam-se normalmente e tornaram-se identificáveis. Mas o retardamento era tão pronunciado que a vida normal parecia paralisada. A trovoada e o relâmpago pareciam uma pintura. A chuva parecia presa no ar, e os rios estavam congelados. Apenas as sombras dos seres vindos de outra dimensão moviam-se normalmente, como se não tivessem nada com aquilo.
Alguns rostos indefiníveis inclinaram-se sobre a décima tela...

* * *

Rous teve a impressão de que estava sendo observado.
Não sabia como explicar essa sensação, mas o fato é que estava e teria de conformar-se com a mesma. Evidentemente não passava de uma tolice, pois não havia ninguém que pudesse observá-lo.
Quando Rous manifestou suas suspeitas, Ragow não riu.
Por que não podemos ser observados por alguém? — perguntou. — O pouso da nave, que deverá ocorrer daqui a algum tempo, não constitui indício dessa circunstância? Por enquanto nem sabemos se realmente pretende pousar. Talvez...
Talvez...
Talvez seja apenas um veículo teleguiado, que tem por fim observar-nos. Aí está. Não conhecemos as inteligências desta dimensão temporal, mas as mesmas não devem ser subestimadas. De qualquer maneira, os “uuuns” me infundem certo pavor.
Caminharam pela planície e cruzaram o rio cuja água corria junto à mata espessa. Bem ao longe viram a árvore em forma de forca, e um vulto conhecido, que era Josua.
E a nave pairava a cerca de cem metros de altura.
Rous ligou o transmissor embutido no anel.
O que houve, Josua? A nave não vai pousar?
Parou — respondeu a voz do africano. — Não está descendo mais. Quer dizer que não pretende pousar. Será que fomos vistos?
É impossível! Nós nos movemos muito depressa.
Rous teve uma sensação indefinida enquanto proferia estas palavras. De repente não tinha tanta certeza de que os “uuuns” não podiam vê-lo. Se tivessem apenas uma ligeira idéia da tecnologia — e deviam ter, tanto que sabiam construir naves espaciais — deveriam ser capazes de romper a barreira do tempo.
Dali a pouco encontravam-se ao lado de Josua, bem embaixo da nave imobilizada.
Rous viu que suas suposições se confirmavam.
Trata-se de uma estação de observação — disse, apontando para cima. — Está vendo as objetivas dirigidas para nós? Acredito que se trata de uma estação retransmissora. Estão captando nossa imagem por meio de câmaras de televisão e a transmitem para outro lugar; não sei que lugar poderia ser este. Talvez seja uma de suas cidades ou outra nave.
O senhor acha que nessa nave não há ninguém? — perguntou Steiner em tom de perplexidade. — Será que é dirigida por robôs?
Não tenho certeza absoluta, mas acho que é bastante provável que esta nave seja apenas um veículo auxiliar. Não querem expor-se a qualquer risco, e por isso enviam uma câmara móvel de televisão. Se estivéssemos no lugar deles, dificilmente agiríamos de outra forma.
Steiner estreitou os olhos.
Tenente, queira responder a duas perguntas que vou formular, e não indagarei mais nada.
Pergunte!
Primeiro: Por que instalam suas câmaras numa posição em que podem ser vistas? Segundo: Por que as câmaras dirigidas contra nós são umas oito ou dez? Será que uma única não bastaria?
Rous enrugou a testa enquanto refletia sobre as perguntas que o físico acabara de formular. Sabia que o cientista não formularia qualquer pergunta sem que para isso tivesse um motivo todo especial. E a resposta não era muito simples.
Não sei por que não embutiram as câmaras. Será difícil encontrar uma explicação plausível a este respeito. Mas quanto à segunda pergunta, acredito que conheço a explicação. Recorramos a uma comparação. Se tenho dois ou três gravadores de fita, poderei esticar à vontade a representação de uma peça musical. Se a mesma dura três minutos, será fácil transformá-la num simples impulso de três segundos. É claro que a música se tornaria praticamente irreconhecível, mas isso não vem ao caso. De outro lado, os três minutos poderiam ser convertidos em três horas. Assim cada som duraria alguns minutos.
Formidável! — disse Steiner. — Onde pretende chegar com isso?
Procure transferir esta noção acústica para o terreno da ótica. Os desconhecidos querem ver-nos. O que têm de fazer? Captam nossa imagem com as câmaras, e simultaneamente a transferem de uma para outra. O curso dos acontecimentos sofre um retardamento, e estes desconhecidos, que vivem num ritmo 72 mil vezes mais lento que o nosso, conseguem ver-nos.
Steiner levantou os olhos para a nave dos invisíveis, que pairava exatamente acima deles e disse em tom inseguro:
Conseguem ver-nos, já não estamos em segurança. Se quiserem, poderão matar-nos.
Como?
Se conseguem retardar o curso dos acontecimentos para poderem captá-los, também serão capazes de possuírem projéteis suficientemente rápidos para atingir-nos.
Rous acenou lentamente com a cabeça.

* * *

Não devem continuar a viver.
Por quê?
Porque exercem uma influência nociva sobre o processo de fusão dos dois planos temporais. Se permitirmos que continuem vivos, serão eternos estranhos. Por outro lado, não poderão retornar à sua dimensão temporal.
Como foi que vieram parar na nossa dimensão?
A resposta demorou. Não houve qualquer modificação nas dez telas que reproduziam as imagens em velocidades diferentes. Os seis humanos eram perfeitamente reconhecíveis. Olhavam para cima, como se estivessem procurando alguma coisa. Todos os outros objetos estavam reduzidos à imobilidade. O relâmpago continuava no céu, junto à linha do horizonte. Era uma imagem apavorante de um tempo que subitamente tivera seu fluxo interrompido.
Não sabemos. O fato é que pela segunda vez seres do outro plano temporal vêm para cá, conservando sua dimensão temporal. Para as finalidades que temos em vista isso representa um contratempo. Se quisermos realizar a fusão dos dois planos, todos terão de adotar nosso fluxo temporal.
Acontece que o outro plano é mais forte, maior...
Acontece que não queremos renunciar a nós mesmos.
Surgiu outra pausa.
Finalmente a ordem vinda da sala de comando removeu qualquer idéia de uma solução conciliatória.
A ordem dizia o seguinte:
Matem-nos!

* * *

Ivã Ragow fitou a nave imóvel por algum tempo. Depois disse com a voz entediada:
O que é que eu tenho com isso? Se quiserem pousar, levarão algumas horas, talvez mesmo dias. Até lá estarei de volta.
Rous aguçou o ouvido.
Estará de volta? Como?
Darei uma olhada nas lagartas, ou seja, nos tais dos “uuuns”. Talvez ali encontre a solução.
Não vá só, Ragow. André Noir vai acompanhá-lo. Talvez possa ajudar em alguma coisa.
Noir não ficou muito entusiasmado, mas reconheceu perfeitamente que o cientista não deveria andar só pelas montanhas. E não havia dúvida de que Ragow não se deixaria remover do seu intento.
Os dois homens partiram imediatamente. Combinou-se que qualquer novidade seria comunicada imediatamente pelo rádio.
Rous, Steiner, Harras e Josua ficaram para trás.
Por algum tempo seguiram os companheiros com os olhos. Depois voltaram a dedicar sua atenção à nave desconhecida.
Foi Rous quem percebeu em primeiro lugar.
Está se movendo, Steiner! Em sentido lateral. O movimento é muito lento.
Só dali a cinco minutos o físico fez um gesto de assentimento.
O senhor tem razão, tenente. A nave se desloca para a esquerda. Acredito que desenvolve no máximo o dobro da velocidade do som.
Isso seria um centímetro por segundo. Ora... o que é isso?
Veremos. Bem que gostaria de saber para onde são transmitidas as imagens. Talvez para uma cidade, talvez para uma nave maior.

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