domingo, 31 de março de 2013

P-064 - A Prisão do Tempo - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Mil anos são como um dia... para os
terranos que vivem em outra dimensão!




Cinqüenta e sete anos se passaram, desde a pretensa destruição da Terra!
Rhodan tornou-se aliado do robô regente de Árcon, pois uma ameaça de proporções incalculáveis ocorreu na Via Láctea: os invisíveis...
Perry, através de uma sofisticada aparelhagem, já está ciente do local do próximo ataque desse inimigo sem dimensões. Trata-se do segundo planeta do sol Morag: Tats-Tor.
O administrador do Império Solar envia uma expedição àquele estranho mundo. O Tenente Rous, comandante desta expedição, usando o GCR, invade o universo inimigo... Entretanto um contratempo naquele planeta sem tempo levou a expedição a tornar-se prisioneira...




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Fritz Steiner — Físico nuclear.

Ivã Ragow — Cientista russo.

Fred Harras — Técnico em mecânica avançada.

Josua — Engenheiro de metalurgia.

Marcel Rous — Chefe da expedição.

André Noir — Mutante.
1



Dessa forma, parece que vencemos o espaço e o tempo. Há cem anos uma viagem à Lua ainda constituiria uma verdadeira utopia; é um fato do qual não devemos esquecer-nos. Apenas trinta anos depois disso, em mil novecentos e setenta e um, o homem chegou à Lua, e assim teve início o progresso vertiginoso da navegação espacial, que perdurou até agora, quando nos encontramos no ano de dois mil e quarenta e um. Graças ao auxílio que recebemos dos arcônidas, os saltos pelo hiperespaço, que nos levam a estrelas situadas a milhares de anos-luz da Terra, já não representam o menor problema. Conseguimos vencer o espaço e, portanto, também o tempo. Ao menos era o que se acreditava até pouco tempo atrás.
A pessoa que proferira estas palavras fez uma ligeira pausa, e fitou os seis homens sentados do lado oposto da mesa comprida. Em seus olhos lia-se a tensão e a expectativa que antecedem a ação iminente, cujos detalhes ainda não lhes eram conhecidos. Perry Rhodan sabia que neles poderia confiar, pois cumpririam as tarefas que lhes fossem confiadas, mesmo que isso parecesse impossível.
Havia mais dois homens, que estavam sentados ao lado de Rhodan. À sua direita, Reginald Bell conseguira enfiar-se numa poltrona muito pequena para seu corpo, e seus olhos azuis olhavam em torno com uma expressão amável. Os cabelos ruivos cortados à escovinha continuavam bem penteados, do que se concluía que estava passando por um dos raros períodos de paz de espírito, e que excepcionalmente não acontecera nada que o aborrecesse.
À esquerda de Rhodan estava sentado Atlan, o imortal. Seus olhos, desligados do tempo, brilhavam numa expressão profunda e pensativa; parecia que estava à procura de algo que pudesse dar resposta a todas as indagações. E, ao que tudo indicava, ainda não o havia encontrado.
Infelizmente, conforme já sabem, estávamos enganados — prosseguiu Rhodan, inclinando-se ligeiramente para a frente, a fim de fitar os seis homens. — É verdade que vencemos o espaço e o tempo em nosso contínuo temporal, mas não nos lembrávamos de que pudessem existir outros planos. Mais do que isso, esquecemo-nos de que os dois planos temporais podem encontrar-se. E foi o que aconteceu.
Esperou até que cessasse a ligeira movimentação que se notou entre os ouvintes.
Deparamo-nos com duas dimensões temporais prestes a colidirem. É claro que um fenômeno deste tipo não pode deixar de produzir seus efeitos. Suponhamos que nosso Universo seja um plano, semelhante ao que é formado pela lâmina espessa da Via Láctea. O plano temporal dos desconhecidos é semelhante ao nosso, mas encontra-se em posição inclinada em relação ao nosso e desloca-se lentamente em direção ao mesmo. Nos lugares em que isso acontece, verifica-se o desaparecimento de toda vida orgânica; os seres tornam-se invisíveis. Mundos inteiros foram despovoados dessa forma, e por isso não é de se admirar que o computador de Árcon tenha solicitado nosso auxílio e concordado em estabelecer uma sociedade. Árcon e o Império Solar vêem-se diante de um inimigo comum, que ameaça despovoar toda a Via Láctea.
Atlan fez um movimento ligeiro. Ao notar o olhar indagador de Rhodan, disse:
Pelo que sei, seus homens descobriram que no plano dos desconhecidos prevalece uma dimensão temporal diferente da nossa. Em comparação com nosso plano, o tempo passa muito devagar. Será esta a chave?
A chave de quê?
Atlan sacudiu lentamente a cabeça.
Não pergunte por enquanto, Rhodan. Só falarei quando minhas suposições se confirmarem. Apenas gostaria de dar uma indicação. Sua equipe científica apurou que no plano dos invisíveis o tempo corre setenta e duas mil vezes mais devagar que o nosso. Portanto, para eles passaram-se apenas alguns meses desde que cheguei à Terra.
Rhodan lançou um olhar perscrutador para Atlan. Fazia mais de dez mil anos que o imortal se encontrava na Terra. Onde pretendia chegar? Atlan não esclareceu este ponto. Por enquanto.
Rhodan voltou a dirigir-se aos seis homens.
Marcel Rous e Fellmer Lloyd conseguiram construir um aparelho que nos permite penetrar no outro plano temporal sem nos privarmos da dimensão que nos é própria. Em outras palavras: qualquer pessoa que penetre no mundo dos invisíveis continua a viver como antes, mas tem de conformar-se com o fato de que a existência de tudo que se encontra a seu redor se processa num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento.
O aparelho foi batizado com o nome de gerador de campo de refração que funciona como lente. Já construímos o protótipo, instalado numa gazela cujos geradores foram reforçados a fim de fornecerem a energia suplementar. Além desse gerador de campo de refração, possuímos outro dispositivo, que nos permite prever com boa margem de segurança onde se verificará a próxima interseção dos dois planos temporais. Pelo que se supõe, acontece uma superposição irregular das duas zonas temporais. Precisamos nos certificar se nossa suposição é correta. Quero que os senhores façam essa verificação.”
Os seis homens fitaram-se. Em seus olhos Rhodan não viu pavor, mas apenas uma alegre surpresa. Todos eles arriscariam a vida por Rhodan e pelo planeta Terra. Nos últimos decênios tiveram muitas oportunidades de lutar contra inimigos reais e palpáveis a fim de proteger a Terra. Mas desta vez a muralha do tempo interpunha-se entre eles e o inimigo. Acontece que essa muralha possuía aberturas...
A expedição será dirigida pelo Tenente Rous. É o único que já teve vários contatos com o inimigo. Da expedição ainda participará um mutante, André Noir, o hipno que, se necessário, poderá impor sua vontade aos desconhecidos. Talvez assim se torne possível trazermos um prisioneiro ao nosso plano temporal. Além deste, participarão Fritz Steiner, físico, químico e um dos construtores do gerador ampliado; Ivã Ragow, biólogo, zoólogo e médico; Fred Harras, um técnico e mecânico altamente qualificado; e finalmente Josua, nosso meteorólogo e metalúrgico africano. Bem, os senhores já se conhecem. Partirão amanhã num cruzador pesado, que os deixará no setor espacial onde fica o sistema solar a que se destinam. É tudo que lhes posso dizer por agora. Não pretendo cancelar a folga que terão hoje de noite em Terrânia. Alguma pergunta?
O Tenente Marcel Rous, um francês baixo, moreno e vivaz, sacudiu vivamente a cabeça. Sabia que não haveria perguntas, pois na manhã do dia seguinte — ainda hoje, mais tarde — lhes diriam tudo que ainda não sabiam. Os outros cinco homens do grupo também se mantiveram em silêncio.
Rhodan parecia satisfeito, como se não esperasse outra coisa.
Fico-lhes muito grato. Encontramo-nos amanhã, às dez horas, meia hora antes da partida. Tenente Rous, peço-lhe que fique mais um pouco. Os outros podem retirar-se. Se permitirem que lhes dê um conselho, direi que não devem dormir tarde. Não sei se no outro plano temporal terão tempo para dormir.
Noir, o hipno, sorriu enquanto se deslocava em direção à porta. Os outros quatro não deram mostras de seus sentimentos; apenas se apressaram para sair. As noites em Terrânia costumavam ser curtas. Queriam aproveitar a última delas, esperando naturalmente que não fosse a última de sua vida.
Rhodan esperou que a porta se fechasse. Depois dirigiu-se a Rous.
Amanhã não teremos tempo para discutir todos os detalhes; por isso vi-me obrigado a pedir que ficasse mais um pouco. O senhor deverá ser informado sobre tudo que acontecerá amanhã e sobre o que deverá fazer se a experiência não for bem sucedida, já que é o chefe da expedição. Infelizmente não podemos afastar a hipótese do fracasso. Não nos devemos esquecer de que o gerador de campo de refração ainda se encontra na fase experimental. Foi construído com base nos dados que possuímos, e só podemos fazer votos de que em sua construção não tenha ocorrido qualquer engano.
Segundo os cálculos do computador positrônico, a próxima interseção deverá ocorrer no sistema solar de Morag, e isso dentro de uma semana. Quando isso acontecer, o senhor deverá encontrar-se nas imediações da área atingida, para acompanhar o ataque. O senhor sabe qual é o risco: não há como voltar do outro plano temporal, a não ser que se possa contar com o gerador de campo de refração. Se for atingido sem ele, estará perdido, pois viverá setenta e duas mil vezes mais devagar que antes. Vários meses e até anos se passarão antes que possa fazer qualquer movimento para libertar-se. Não se esqueça que um segundo de nossa dimensão temporal corresponde a vinte horas no outro plano.”
Atlan acenou lentamente com a cabeça, mas não disse nada.
Bell também se manteve em silêncio. Sentia-se satisfeito em não ter de participar da expedição. Sempre estava pronto a enfrentar um inimigo que pudesse ver. Mas quando se tratava de seres invisíveis, atemporais, vindos de outro nível de existência... bem, nesse caso preferia estar longe.
Preste atenção — prosseguiu Rhodan, fitando Rous. — Neste momento lhe darei algumas informações que lhe poderão ser de importância vital...

* * *

Nos catálogos estelares, aquela estrela constava com o nome de Morag. Tratava-se de um sol branco-amarelento, cujo espectro era quase idêntico ao do nosso astro rei. O segundo planeta desse sol era do mesmo tamanho da Terra, tinha uma atmosfera de oxigênio perfeitamente respirável e sua gravitação, um pouco superior à da Terra. Sua distância do sol Morag era ligeiramente inferior à que separa o sol de nosso planeta, motivo por que o clima era quente e seco, embora houvesse muitos oceanos. As áreas litorâneas não tinham por que queixar-se da falta de chuvas. As gigantescas matas virgens constituíam prova disso.
O nome do segundo planeta desse sol era Tats-Tor, e sua colonização fora iniciada pelos arcônidas há pouco menos de três mil anos. Nele se encontravam matérias-primas de elevado valor, motivo por que Tats-Tor se transformara num importante espaçoporto para as naves do Império. No grande campo de concreto de Akonar, capital de Tats-Tor, pousavam as naves de muitas raças. As ruas da cidade estavam repletas das criaturas mais estranhas que a natureza fantasiosa havia criado no curso dos milênios nos mais diversos mundos da Galáxia.
Os verdadeiros donos de Tats-Tor eram os novos arcônidas, nome que haviam dado a si mesmos.
E esse nome não fora escolhido sem motivo, conforme Marcel Rous não demoraria a constatar. Pelo aspecto exterior em nada se distinguiam dos arrogantes arcônidas da “tróica” de Árcon, onde o maior computador positrônico do Universo governava um império estelar. Além de orgulhosos, demonstravam uma enorme presunção em virtude de sua origem e tratavam os membros de outras raças com uma afrontosa arrogância. Os outros seres conformavam-se com esse tratamento, porque estavam interessados em adquirir as preciosas mercadorias encontradas em Tats-Tor.
O cruzador pesado da classe Terra materializou-se a duas horas-luz de Tats-Tor e desembarcou uma gazela. Tratava-se de uma pequena nave de reconhecimento de longo curso, que não possuía o formato esférico; lembrava um disco achatado que media dezoito metros de espessura, uns trinta e cinco metros de diâmetro.
Assim que a gazela se encontrava a distância segura e se deslocava em direção ao planeta ainda distante, o cruzador da classe Terra voltou a desmaterializar-se.
Desapareceu pura e simplesmente, deixando para trás não apenas um espaço vazio, mas uma sensação de terrível solidão.
Foi ao menos a sensação que o Tenente Rous teve quando subitamente fitou a tela negra, interrompida apenas pelas estrelas cintilantes que davam vida a centenas de planetas.
A hora tinha chegado. Estavam sós e dependiam exclusivamente das suas próprias capacidades. Quando se aproximasse o terrível momento, ninguém poderia auxiliá-los.
E Rhodan havia dito que tinha cem por cento de certeza de que isso aconteceria dentro de uma semana do planeta Terra.
Rous soltou um suspiro e corrigiu a rota pelos meios visuais. Preferiu não realizar um salto de transição para ganhar tempo. Ganhar tempo para quê? Para preparar o encontro com os novos arcônidas, cujo caráter, segundo se dizia, não primava pela gentileza das maneiras.
Bobagem! — disse em voz alta. Noir, que estava saindo da sala de rádio, levantou os olhos.
O que é bobagem, Marcel? Será nossa expedição?
Como pode dizer uma coisa dessas, Noir? Na minha opinião trata-se de um empreendimento indispensável, mesmo que esteja ligado a um risco considerável, isto é, o de “encalharmos” no tempo. Estava aludindo apenas aos novos arcônidas. Pelo que dizem, não são muito agradáveis.
Já conseguimos lidar com muitos seres difíceis — disse o hipno a título de consolação. — Se não quiserem ser amáveis, nós os obrigaremos.
O senhor poderá influenciar alguns “exemplares”, mas não todos os habitantes do planeta — ponderou Rous. — Aguardemos para descobrir o que os arrogantes acharão do ataque iminente dos desconhecidos. Pautaremos nosso procedimento de acordo com isso.
Onde pretende pousar?
No espaçoporto de Akonar, capital do planeta. É lá que reside o administrador, ao qual teremos de entregar a mensagem de Rhodan. Se existe alguém que pode dar-nos algum apoio é ele.
Fritz Steiner entrou na sala de comando. Ouvira as últimas palavras. Falando no tom exaltado que lhe era peculiar, disse:
Que apoio poderia ser este? Se não estiverem dispostos a ajudar, poderão esperar que o invisível os alcance e “devore”. Afinal, temos o GCR.
Rous arregalou os olhos.
Temos o quê?
Steiner soltou uma estrondosa gargalhada.
O GCR. São as iniciais de gerador de campo de reflexão.
O senhor é muito inteligente — disse Rous em tom sarcástico, aborrecido por não ter descoberto o sentido daquelas letras. — Tem certeza de que o aparelho funcionará?
O senhor não tem? Pois foi construído com base nos dados fornecidos pelo senhor. De repente lhe surgiram dúvidas sobre sua eficiência?
De forma alguma. Apenas acontece que costumo ser cauteloso, Steiner. Basta o menor erro para que estejamos perdidos.
Ninguém sabe — disse Steiner com uma estranha tranqüilidade — como são cientificamente as coisas atrás da muralha do tempo. O outro plano temporal deve oferecer as mesmas condições de vida do nosso. Se pudermos chegar a eles, o contrário também deverá ser possível. Será que fui suficientemente claro?
Um homem sem esperança é um homem sem futuro — disse Rous. — Sim, o senhor foi suficientemente claro. Nossas concepções são idênticas.
Duas horas depois dessa discussão, pousaram no espaçoporto de Akonar. Receberam o chamado do controle de vôo, que lhes forneceu as coordenadas exatas para o pouso. Ao que parecia, a pessoa que os chamara não estava interessada em saber quem eles eram, tanto que não perguntara de que planeta vinham. Dali se concluía com absoluta segurança que em Tats-Tor havia um tráfego espacial intenso e pacífico.
Rous pediu que Steiner permanecesse na sala de comando, com o receptor ligado. Rous e Noir procurariam o administrador, a fim de avisá-lo sobre o perigo iminente. Um transmissor embutido no anel manteria Steiner ao par sobre aquilo que fosse falado. Se houvesse algum imprevisto, poderia intervir.
Uma das características principais de um porto interestelar consiste no fato de que ninguém se interessa pelo outro. Rous e Noir traziam sob os macacões os trajes de combate arcônidas, que haviam recebido vários aperfeiçoamentos. Se surgisse algum perigo poderiam tornar-se invisíveis, voar ou envolver-se num campo energético. Antes de mais nada, porém, o traje possibilitaria uma fuga rápida, caso surgisse um ataque de surpresa dos seres invisíveis.
Foram à cidade num veículo robotizado, que os deixou à frente do palácio do administrador. Para isso não tiveram de fazer outra coisa senão dizer ao robô de direção o lugar a que pretendiam chegar.
Mas agora teriam de enfrentar o primeiro controle.
O palácio do administrador ficava exatamente na área circular, situada entre o espaçoporto e o bairro comercial. Dentro dessa zona não havia qualquer controle ou obstáculo. Qualquer indivíduo poderia pousar sua nave no espaçoporto e andar pela cidade, sem que ninguém perguntasse qual era seu nome ou planeta de origem. Só teria de sujeitar-se ao controle quando saísse da área delimitada.
Dois arcônidas uniformizados, que Rous reconheceu pelo cabelo branco e pelos olhos albinos avermelhados, encontravam-se junto à barreira de radiações, que só podia ser atravessada num lugar. Evidentemente não seria difícil aos dois terranos atravessar essa barreira por meio de um campo energético, que seus trajes poderiam criar num instante, mas a finalidade de suas presenças no planeta não era a de ficar tapeando os arcônidas. Por isso tiraram tranqüilamente do bolso as finas chapas de metal e as entregaram aos arcônidas.
O maior deles pegou os elementos de identificação, que tinham validade em todo o Império, enquanto o outro fitava atentamente os dois desconhecidos. Ao que parecia, pretendia classificá-los. Talvez pensasse que eram descendentes dos saltadores.
São do planeta Terra? — perguntou o arcônida que estava examinando as placas, fitando Rous, que se encontrava mais próximo. — Não vejo os dados relativos à posição. O documento não é válido.
Poderíamos ter indicado dados falsos — disse Rous com a maior tranqüilidade. — Nesse caso escaparíamos às perguntas que desabam sobre nós sempre que pousamos num mundo subdesenvolvido. Os dados relativos à posição deixaram de ser inseridos com o consentimento do regente. Será que isso não basta?
Qualquer um pode alegar isso — respondeu o arcônida. — Antes de deixá-los passar tenho de solicitar informações. O que pretendem fazer em Tats-Tor?
Viemos para prevenir o administrador contra uma invasão que está iminente.
O arcônida lançou um olhar perplexo para Rous, enquanto o outro recuou um passo.
Uma invasão? Será que o senhor ficou louco?
Pareço um louco? — perguntou Rous. — Não pense que fizemos toda esta viagem para engolir ofensas do senhor. Se acha que deve consultar antes de nos deixar passar, ande depressa. Não temos tempo a perder.
A perplexidade do arcônida cedeu lugar à costumeira arrogância.
Ouça, terrano; o senhor esperará tanto tempo quanto eu quiser. Sem nossa permissão não entrará em Akonar. Ei, Rof — disse, dirigindo-se ao colega — chame a central e televisione os dois passaportes.
Rous e Noir fitaram-se, sorriram ligeiramente e prepararam-se para uma longa espera. Infelizmente não havia como evitar isso, mas depois não teriam mais a menor dificuldade em passar por qualquer controle. Quando fossem conhecidos, tudo se tornaria mais fácil.
O arcônida que ficou para trás voltou a dirigir-se a Rous.
Então a posição de seu mundo não precisa constar do passaporte? Isso é muito estranho. Trata-se de uma norma geral: todo viajante espacial deve portar um documento que consigne o lugar onde pode ser encontrado o mundo a que pertence. Trata-se de uma precaução cuja finalidade os senhores hão de compreender. Se houver um crime, será mais fácil...
Eu já lhe disse que a Terra é uma exceção. Nunca ouviu falar nesse planeta?
Nunca — confessou o arcônida. — Quando foi colonizada a Terra? Os senhores já não têm muita semelhança com os arcônidas.
As últimas palavras foram ditas com certo desprezo. Rous reprimiu a cólera; permaneceu calmo. Provavelmente esse guarda nem sabia por que estava tão convencido de si mesmo.
Faz poucos meses que a Terra pertence ao Império — disse ao guarda, cujo rosto começava a ficar pálido. — Aliás, nem é bem assim, pois ainda não consentimos em sermos governados por um computador, se é que está interessado nisso. Mas para evitar contratempos, consentimos em tornar-nos sócios. Nem sei por que lhe conto isto. Parece que o senhor não entende nada da alta política.
O arcônida levou dois minutos para recuperar-se do susto. Lançou um olhar desconfiado para os dois homens que aguardavam calmamente junto à barreira.
Sócios? O que quer dizer com isso? No Império só existe uma raça dominante, que é a dos arcônidas. Nunca ouvi falar na Terra.
Isso não é de admirar — disse Rous em tom indiferente. — Sem dúvida também não ouviu falar na outra raça, a qual vai atacar Tats-Tor. Então, qual é o problema? Será que ainda teremos de esperar muito tempo?
O arcônida hesitou por um instante, mas depois deixou livre a passagem.
Vamos logo. Acredito que poderão passar. Meu colega já está voltando. Então, Rof, a central resolveu alguma coisa?
Ninguém conhece a posição da Terra. A central acha que devemos deixar passar os desconhecidos.
Rous pegou os passaportes e entregou o de Noir.
É provável que nos próximos dias tenhamos de passar várias vezes por esta barreira. Tomara que não seja sempre tão demorado como hoje. Seja como for, os senhores apenas estão cumprindo seu dever.
Mais tarde, ao lembrar-se da cena, Rous se admiraria por ter perdido tanto tempo. Teria sido facílimo impor sua vontade aos dois guardas. Mas, segundo dizia Rhodan, os novos arcônidas se disporiam de modo voluntário a cooperar com eles.
Normalmente não seria fácil falar com o administrador do planeta, mas a central de comando das barreiras da área fronteiriça já informara o comando sobre o incidente. Assim que entraram no hall, dois arcônidas compenetrados que envergavam o uniforme dos guardas palacianos aproximaram-se de Rous e Noir. Ao que parecia, por aqui ainda se dava muito valor às tradições.
São os terranos? — perguntou um deles.
Rous não se surpreendeu ao notar que a notícia de sua chegada se havia espalhado tão depressa. Era quase certo que os novos arcônidas nunca tinham ouvido o nome de Perry Rhodan, mas a simples idéia de que o Império pudesse ter um sócio bastaria para aguçar suas curiosidades.
Sim; somos nós.
O administrador quer falar com os senhores. Queiram seguir-me.
Apesar do trato cortês, o funcionário não conseguiu ocultar seu orgulho e arrogância. Agora, que caminhava à frente de Rous, este teve vontade de dar-lhe um pontapé, mas lembrou-se em tempo das diretrizes que lhe haviam sido fornecidas. Não usar de violência, não ser petulante, conservar sempre a paciência.
Em todos os lugares se viam empregados que não faziam nada, e lançavam olhares curiosos para Rous e Noir. O hipno não pôde resistir à tentação de dar uma pequena prova de sua capacidade, sem que ninguém o notasse.
Subitamente dois ou três funcionários fizeram meia-volta e saíram andando a passos majestosos. Noir dera-lhes ordem de tirarem cinco dias de férias. Sabia que essa ordem seria cumprida de qualquer maneira, mesmo que Akonar e o administrador ficassem de pernas para o ar. Ninguém saberia explicar a atitude tomada por aqueles dois homens; nem eles mesmos seriam capazes de dizer por que agiam dessa forma.
Um sorriso ligeiro surgiu no rosto de Rous, quando registrou o incidente. Fazia votos de que Noir não se sentisse tentado a realizar outras experiências desse tipo.
Os dois arcônidas pararam ao chegarem ao fim do corredor.
O administrador os espera atrás dessa porta. Peço-lhes que deixem aqui as armas que porventura portem.
Não tinham armas.
A porta abriu-se, deixando livre a entrada.
Rous esperara encontrar um ambiente bastante luxuoso, mas teve uma surpresa agradável. A sala, que não era muito grande, lembrava antes um laboratório eletrônico que uma sala de audiências. As paredes estavam cobertas de telas e dos respectivos controles. Os fios se reuniam embaixo do teto e desapareciam atrás das paredes. Havia dois intercomunicadores pequenos colocados sobre mesas, junto com os respectivos microfones. Era aqui que confluíam “os fios” de todo um planeta. Pelo que acreditava Rous, dali mesmo o administrador poderia entrar em contato com qualquer ponto de Tats-Tor.
O arcônida estava sentado atrás de outra mesa. Próximo, havia duas poltronas.
Sejam bem-vindos — disse no mais puro arcônida imperial, acenando ligeiramente com a cabeça. — Os guardas de fronteira me informaram sobre sua chegada, mas devo confessar que nunca ouvi falar no planeta Terra.
O senhor é administrador de um pacato planeta colonial — disse Rous, parando perto de Noir, junto às poltronas. O arcônida não fez menção de levantar-se. — Se fosse um saltador ou membro da frota de guerra do Império, sem dúvida já teria ouvido falar a nosso respeito.
O que quer dizer com isso? — o administrador lembrou-se dos seus deveres de anfitrião e apontou para as poltronas. — Façam o favor de sentar.
Rous sentou. Noir também. Seus olhares se cruzaram.
O que quero dizer é que já tivemos um conflito violento com Árcon, mas atualmente a situação está pacificada. Hoje somos sócios do regente, em pé de igualdade. O administrador do Império Solar, cuja sede é o planeta Terra, celebrou um acordo com seu regente supremo, a fim de lutar contra um inimigo poderoso. É por isso que viemos para cá.
Por que vieram justamente para Tats-Tor? O senhor mesmo acaba de dizer que este planeta é pacato e não tem nada a ver com as guerras travadas pelo Império.
É verdade. Acontece que o homem mais pacato não pode viver em paz se o mau vizinho não deixa. Ao que parece, os invisíveis são os maus vizinhos.
Os invisíveis? Não sei a respeito de que está falando.
Rous respirou profundamente e resolveu ser breve. Sabia que, apesar da cortesia do administrador, seria mais fácil lidar com um inimigo que com esse arcônida manhoso.
Nosso Universo está sendo cortado, cruzado por uma dimensão estranha. Os conceitos de tempo que prevalecem nessa dimensão são diferentes dos nossos. Nos pontos em que as duas dimensões se encontram, a matéria viva e, com ela, toda vida animal desaparece de nosso campo de visão. Até hoje não conseguimos recuperar um único dos seres desaparecidos.
Isso é muito interessante — interrompeu o arcônida sem a menor comoção.
Infelizmente ainda não percebi indício desse fenômeno.
Isso não é de admirar — explicou Rous. — O regente preferiu não alarmar o Império. Ainda acontece que até pouco tempo atrás não era possível prever um ataque iminente. Quando os desconhecidos atacavam, não havia nada que se pudesse fazer.
Por que veio justamente para Tats-Tor a fim de revelar o segredo do regente?
Porque, segundo nossos cálculos, Tats-Tor será o próximo planeta a ser atingido pelos invisíveis.
O administrador lançou um olhar de incredulidade para Rous, mas não demonstrou qualquer comoção ou sequer um interesse especial.
Será? — perguntou, estreitando os olhos. — Quer dizer que veio para nos prevenir?
Exatamente.
Por quê? O que pretende receber em troca? Para que servirá a advertência se não há nada que se possa fazer?
As perguntas deixaram Rous decepcionado.
Pretendemos descobrir uma arma para deter os seres da outra dimensão temporal. Foi este o principal motivo de nossa vinda para Tats-Tor. Queremos realizar uma experiência com um novo invento.
Mas para isso precisamos de sua permissão. Acho que o senhor não terá nenhuma objeção se tentarmos...
Em hipótese alguma a experiência poderá ser realizada em Akonar — disse o administrador. — Não posso permitir que vidas humanas sejam colocadas em perigo. Façam suas experiências onde quiserem, menos na capital.
Não fazemos questão de realizar a experiência aqui. Antes de mais nada, teremos de considerar os indícios da aproximação da frente inimiga. Não sei se teremos possibilidade de salvar seu mundo da destruição, mas queremos colher algumas experiências. O senhor compreende?
Só compreendo uma coisa — disse o arcônida, reclinando-se na poltrona. — Os senhores querem aproveitar um perigo que, segundo dizem, se aproxima de nosso mundo, para colher vantagens. Provavelmente, têm intenções inconfessáveis. Sinto muito, senhores terranos, mas gostaria que abandonassem nosso mundo o mais cedo possível. Digamos antes do pôr do sol. Combinado?
Rous não fez menção de levantar-se. Subitamente viu-se em seus olhos um brilho frio, que recomendava cautela. Colocou calmamente ambas as mãos sobre a mesa. Essa calma não combinava com sua personalidade, pois todos sabiam que aquele francês moreno era um homem Impulsivo.
Quer dizer que não acredita no que acabo de dizer? — perguntou num tom que quase chegava a ser amável.
Não quero que o senhor crie qualquer agitação — disse o arcônida, esquivando-se à pergunta direta que acabara de ser formulada. — Nosso mundo nunca foi atacado, e se isso acontecer algum dia, gozaremos da proteção da frota de guerra do Império. Bastará um pedido de socorro...
Desta vez não — esclareceu Rous em tom tranqüilo. — O senhor sofrerá uma decepção amarga, pois o regente não luta contra os invisíveis vindos de outra dimensão temporal. Todos os mundos que já foram atacados por eles ficaram vazios e abandonados. Até mesmo os insetos desapareceram. Não existe mais qualquer forma de vida animal.
O arcônida empalideceu. Os olhos vermelhos pareciam brasas em meio ao rosto pálido.
O senhor está mentindo, terrano! Nosso regente não tem medo de qualquer inimigo. Ainda descobrirei quais são as verdadeiras intenções dos senhores.
Rous levantou-se abruptamente.
O senhor pode negar-nos apoio, mas não acredita que possa proibir nossa permanência em Tats-Tor. Portanto, não se dê ao incômodo de dizer quando devemos partir. Quanto ao mais, não deixaremos de avisá-lo assim que surgirem indícios de que a invasão tenha começado.
O administrador retribuiu o olhar de Rous com uma expressão fria e arrogante.
Dispenso seu aviso. Se realmente houver um ataque, saberei o que fazer. É claro que não posso proibir sua permanência na área do espaçoporto, mas vejo-me obrigado a pedir encarecidamente que não alarmem a população de Akonar com suas histórias fantasiosas. Ficaria muito grato se pudessem despedir-se.
Noir também se levantara. Falando em inglês, perguntou:
Não quer que lhe aplique um “tratamento”, Marcel? Poderia convencê-lo a ceder-nos alguns colaboradores.
Isso seria contrário às instruções de Rhodan, André. Se essa gente arrogante não quiser ajuda, que se arranjem como puderem.
Dirigindo-se ao administrador, Rous prosseguiu em arcônida:
Seria altamente recomendável se quisesse manter sua estação de rádio em recepção, na faixa normal. Passe bem, arcônida.
Absteve-se de propósito de citar o titulo do administrador. Este estremeceu. Isto provava que compreendera a ofensa que Rous quis colocar em suas palavras. Sem esperar resposta, os dois homens saíram da sala e voltaram às suas naves.
Ninguém procurou impedi-los.

* * *

O russo Ivã Ragow era um daqueles homens que pensam que todo e qualquer indivíduo é um tipo pacato. É claro que essa idéia tinha sua origem no desejo de não ser incomodado e poder viver em paz. Além disso, tal qualidade parecia corresponder à sua especialidade. Uma pessoa que, além de lidar constantemente com plantas e animais, exerce as funções de médico, forçosamente há de acreditar na convivência pacífica das mais diversas criaturas.
Caminhando tranqüilamente pelas ruas de tráfego intenso da cidade de Akonar, Ragow realizava estudos por conta própria. Rous não fizera nenhuma objeção a que fosse dar umas voltas pela capital. O minúsculo radiotransmissor praticamente invisível, que os swoons haviam montado num anel, mantinha-o em contato ininterrupto com a gazela. O operador de rádio de plantão, que naquele instante era Fred Harras, mantinha-o constantemente sob controle.
Ragow desviou-se cuidadosamente de um ser disforme, que caminhava à sua frente, dentro de sua “atmosfera” especial, encerrada num traje espacial. Passou à frente do estranho ser e teve o cuidado de não dar mostras muito evidente de sua curiosidade. Mas não pôde resistir à tentação de lançar-lhe um olhar de esguelha. Nunca vira uma coisa dessas, embora tivesse andado por inúmeros mundos. No capacete transparente, balançava a “atmosfera” da estranha criatura, consistente num líquido oleoso cuja composição Ragow não conhecia. Só agora viu que aquele ser possuía guelras na parte lateral da cabeça.
Infelizmente teve de olhar para o lado oposto, a fim de não chamar a atenção. Só um provinciano costumava olhar insistentemente para qualquer criatura estranha, mostrando admiração por seu aspecto e achando que ele mesmo era a criatura mais perfeita deste mundo.
Ragow manteve-se na principal artéria comercial, que ficava junto ao espaçoporto. Era ali que os comerciantes e visitantes moravam em grandes hotéis, cujos letreiros brilhavam à luz do sol. Não entendeu uma única palavra da confusão de línguas que ouvia em torno de si; naquele instante lamentava-se de não ser telepata.
Parou diante de uma das numerosas lojas. O vendedor não era arcônida, como se poderia supor. Um saltador de barbicha apregoava em voz alta e insistente as mercadorias que tinha para vender; tratava-se de souvenirs de todos os pontos da Galáxia.
Ragow aproximou-se e examinou os objetos expostos. Felizmente a descrição fora feita em língua arcônida, de forma que não teve necessidade de formular perguntas inconvenientes que atraíssem a atenção do saltador para sua pessoa. Este mantinha-se muito ocupado, fazendo ofertas tentadoras aos transeuntes.
Havia mugglis empalhados; tratava-se de seres vindos do terceiro planeta do sol Thorakl, situado a dois mil anos-luz. Pareciam lagartos e tinham três caudas. Se a descrição dada pelo saltador era correta, a do centro servia de antena transmissora. E, pelo que se dizia, este transmissor orgânico continuava a funcionar, embora o animal estivesse morto.
Ainda havia a pedra brilhante e colorida, vinda do planeta Temporalis, situado no centro da Galáxia. Bastava colocá-la num projetor recentemente inventado para fazer reviver o passado. A pedra emitia raios que podiam ser projetados numa tela eletrônica, que reproduzia os acontecimentos desenrolados há vários milênios. Aquela pedra recolhera todas as impressões óticas e as armazenara como se fosse uma câmara automática.
Ragow refletia sobre se convinha adquirir a pedra, quando viu um pequeno objeto que ficava na terceira fila.
Quase ficou sem fôlego.
O que viu diante de si era uma simples navalha, do tipo que costumava ser usado há um século atrás. E o bilhete que se encontrava junto à mesma dizia mais ou menos o seguinte: “Instrumento de degola do planeta Terra, cuja posição é desconhecida. Os terranos usam-no para livrar-se das esposas, quando querem arranjar outra. Seu uso é muito disseminado. Trata-se de precioso documento, que revela as características de uma estranha cultura.”
Ragow ficou sem saber se devia rir ou chorar. O exagero enorme da descrição o fazia duvidar da veracidade das indicações relativas aos outros objetos, mas nem por isso ficou sabendo como o dono da loja conseguira uma navalha terrana.
Deveria perguntar?” indagou-se mentalmente.
Quando ia formular a pergunta, viu dois homens a seu lado. Eram arcônidas. E o uniforme revelava serem policiais ou soldados.
O senhor é um dos terranos que vieram naquela pequena nave achatada? — perguntou um deles com a arrogância do “grande” funcionário cônscio do poder que exerce sobre o simples mortal. — Faça o favor de seguir-nos.
Ragow não estava disposto a deixar que o levassem sem mais nem menos. Livrou-se da mão que o segurava.
Sou terrano, mas nem por isso o senhor tem o direito de me prender em plena rua. O que deseja de mim?
Essa informação lhe será dada pelo administrador — respondeu o arcônida. — Quer vir por bem, ou teremos de forçá-lo? Depois da entrevista poderá voltar à sua nave.
Ragow lembrou-se de seu traje de combate. Devia tornar-se invisível e deixar aqueles homens para trás, numa perplexidade total? Ou sairia voando? Não; com isso apenas atrairia as atenções sobre si, fato que em nada facilitaria o cumprimento de sua missão. Além disso, talvez seria interessante descobrir o que o administrador pretendia deles. Ainda há três dias mostrara-se extremamente reservado diante de Rous e Noir.
Irei, mas só se me deixarem caminhar à vontade — disse depois de algum tempo, após lançar mais um olhar sobre a ignominiosa navalha exposta na loja do saltador. Oportunamente cuidaria disso. — Caminhem à frente; eu os seguirei.
Os dois fizeram o que Ragow pedira. Provavelmente haviam recebido ordens terminantes de não recorrer à violência. Ragow deixou que se afastassem um pouco. A seguir, colocou a mão à frente da boca e cochichou:
Ei, Harras! Ouviu? Tenho de ir ao gabinete do administrador. Avise Rous.
Já foi avisado, Ragow. Ele quer que o senhor os acompanhe. Não se preocupe; cuidaremos do senhor. Se surgir qualquer perigo, apareceremos para levá-lo.
Quando chegar a hora, não percam tempo — pediu Ragow e seguiu os arcônidas.
Desta vez, não houve qualquer problema junto ao posto de controle. Em dez minutos, Ragow viu-se à frente do administrador.
Pelo que Rous lhe dissera, pensara que fosse diferente: mais orgulhoso e arrogante. Mas, ao que parecia, por ora o presunçoso funcionário não tinha tempo para palhaçadas. Em seus olhos vermelhos brilhavam vários sentimentos, principalmente a insegurança.
Faça o favor de sentar-se, terrano — disse com a voz rouca e numa calma forçada. — Desejava falar com os dois terranos, que me procuraram há dois dias. Acontece que apenas o senhor foi encontrado. Já está informado sobre o assunto que os trouxe para cá.
Para Tats-Tor?
Isso mesmo.
Estou informado sobre o ataque iminente dos invisíveis, se é isso que quer dizer.
E esse ataque a que está aludindo se manifesta através do desaparecimento de todos os seres vivos?
Exatamente.
O administrador fitou os olhos de Ragow.
Tenho certeza de não se tratar de um ataque de criaturas invisíveis ou desconhecidas, mas de uma trama diabólica dos terranos, cuja finalidade ainda não consegui descobrir. Se não fosse assim, seria impossível prever com tamanha exatidão o tempo em que ocorre o fenômeno. Isso não lhe parece lógico?
Não acho, administrador — disse o russo, sacudindo a cabeça e lançando um olhar atento para o equipamento técnico da sala. — Por que iríamos ter todo esse trabalho para assustá-los?
É o que eu gostaria de saber — reconheceu o arcônida, que recuperou um pouco de sua costumeira petulância. — Pelo menos já vejo que realmente pretendem cumprir suas ameaças.
Ragow já não compreendia mais nada. Ainda pensava naquela navalha maluca que vira na loja do saltador, e teve dificuldade em acompanhar o raciocínio do administrador, que só dizia tolices.
Que ameaça? — perguntou em tom tranqüilo.
O administrador respirou profundamente e disse:
Há meia hora desapareceram todos os habitantes de uma cidade de tamanho médio, a quinhentos quilômetros ao leste da capital. Não ficou nenhum ser vivo. Pelo que dizem, até os peixes desapareceram dos rios.
Ragow parecia despertar de um sonho.
Está começando! — exclamou e levantou a mão, para dizer em voz alta em direção ao anel: — Harras, a frente do tempo começou a avançar. Avise imediatamente o Tenente Rous, e venham buscar-me. Ou preferem que voe?
O que é isso? — perguntou o administrador, apontando para o anel que Ragow trazia no dedo.
Acontece que o russo já estava saturado daquela desconfiança.
Isto — disse em tom condescendente — é a arma milagrosa com a qual fiz desaparecer sua cidade miserável. Se não calar a boca e se insistir em não nos dar apoio, o senhor será o próximo a ser tragado pela torrente do tempo. Compreendeu?
O administrador manteve-se num silêncio obstinado. Fez um gesto de mão, dando a entender que Ragow tinha permissão para retirar-se.
Mal se viu a sós, o arcônida chamou alguns dos seus oficiais e deu-lhes algumas ordens inequívocas.
Está acontecendo mais cedo do que esperávamos — constatou Rous um tanto preocupado, assim que todos estavam reunidos na gazela, onde Ragow havia apresentado um minucioso relato. — Na minha opinião só pode ser um precursor da frente propriamente dita, ou seja, de uma espécie de abaulamento da área de superposição.
Nesse caso a frente é assimétrica — constatou Noir. — É o que o chefe queria saber.
Por enquanto nada está provado — advertiu Rous, para evitar conclusões precipitadas. — Devemos examinar o local dos acontecimentos e aguardar novos ataques.
Tenho minhas dúvidas de que realmente se trate de ataques — disse Ragow de repente. — Pelo contrário; tenho certeza de que os desconhecidos invisíveis, que vivem em outra dimensão temporal, nem sabem o que estão fazendo por aqui. Provavelmente não têm meios de impedi-lo.
Rous fez um gesto afirmativo.
Uma das nossas tarefas consiste justamente em verificar este ponto. Sugiro que decolemos imediatamente para darmos uma olhada na cidade despovoada.
Não se deram ao trabalho de cumprir qualquer formalidade. A nave de reconhecimento de Rhodan decolou sem prévio aviso e subiu rapidamente, desaparecendo dentro de poucos segundos no azul do céu.
Rous, que pilotava a nave, nem chegou a ver os rostos espantados dos soldados que marchavam pelo campo de pouso e haviam recebido ordens de deter os terranos e apreender sua nave. Marcel dirigiu a gazela para o leste e só desceu quando viu lá embaixo a cidade a que se destinavam. O medidor de radiações montado na gazela entrou em funcionamento, marcando num mapa os limites da área de superposição. Toda e qualquer matéria inorgânica que tivesse permanecido no outro plano temporal, mesmo por um tempo insignificante, envelhecera vários milênios. A decomposição radiativa de certos elementos representava prova inequívoca desse fato. Por isso era fácil delimitar a zona de influência.
O formato é elíptico — disse Fritz Steiner, técnico responsável por essa parte da operação. — Parece que a área de superposição só atingiu o planeta de raspão. Da próxima vez será mais extensa.
Pousaram na periferia da cidade e examinaram-na ligeiramente. Não havia nenhum ser vivo. Até os insetos, tão abundantes em toda parte, haviam desaparecido.
Subitamente Fred Harras, operador de rádio que estava de plantão, gritou:
O administrador diz que somos responsáveis pelo fenômeno e colocou suas forças em estado de prontidão. A polícia de I Akonar recebeu ordens de prender-nos imediatamente, recorrendo à força caso isso se torne necessário. A operação de busca já foi iniciada.
Rous fitou as casas desertas com os olhos semicerrados.
As suposições de Rhodan se confirmaram. A decadência e arrogância dos arcônidas é tamanha que só confiam em suas experiências. Não dão a menor importância às palavras de outras raças. Pois bem; colherão suas experiências. Apenas receio que não poderão fazer muita coisa com elas. Não irão nem sentir que de repente saíram de nossa dimensão, ingressando numa outra...
Steiner não demonstrou tanta sensibilidade pelo destino dos arcônidas.
Devemos estar preparados — disse em tom de advertência. — Um dos próximos ataques, por enquanto poderemos usar esta expressão menos exata, ocorrerá a uns cem quilômetros de Akonar, nesta mesma direção. Vamos pousar nessa área para aguardar os acontecimentos? Acho que não adiantará voltar à capital. Isso só nos daria aborrecimentos.
Rous soltou um suspiro.
Nossa tarefa antes de tudo! Por enquanto não temos meios de ajudar os habitantes deste mundo.
Fez um sinal para Steiner e colocou a mão sobre o acelerador.
Vamos aguardar no deserto, perto de Akonar. Ainda bem que por lá não existe mata virgem. Em compensação, se não me engano, há manadas. Bem que gostaria de comer um bife fresco.
Concordo, enquanto esse bife não envelhecer dez mil anos na outra dimensão temporal — disse Steiner e voltou à sala de máquinas, onde os complicados instrumentos aguardavam o momento de serem postos a funcionar.
2



A zona limítrofe entre a mata e o deserto foi um verdadeiro paraíso inesperado!
Mais ao sul começava a selva cada vez mais densa, que se estendia até o litoral. A oeste, a cerca de cem quilômetros, ficava a cidade de Akonar. Ao norte via-se a estepe, seguida pelo deserto. A leste, o panorama era semelhante ao do lado oeste; apenas, ali não havia nenhuma cidade.
A gazela descansava sobre os suportes telescópicos, em meio a alguns arbustos que não constituíam um bom esconderijo, mas sempre proporcionavam uma sombra agradável quando o calor fosse demais. Um dos seis homens achava-se constantemente na sala de comando da pequena nave, a fim de que esta pudesse decolar a qualquer momento. Steiner mantinha toda a aparelhagem em estado de prontidão. Bastaria apertar um botão, e o GCR abriria a porta para a outra dimensão temporal. Havia outro aparelho muito importante, o medidor de radiações, que ficava constantemente ligado. Qualquer modificação na idade dos objetos seria prontamente registrada, dando notícia da aproximação de uma frente temporal.
Armados dessa forma, os membros da expedição resolveram descansar um pouco. Harras e Noir saíram para caçar e voltaram com um quadrúpede que tinha uma semelhança longínqua com um veado. Até mesmo o pacato Ragow dispôs-se a participar dos preparativos do banquete. Examinou a carne e constatou que era comestível. O Tenente Rous usou uma arma de radiações térmicas que, regulada para a potência mínima, constituía uma fonte de calor. E minutos depois teriam um belo assado.
Enquanto aquele aroma delicioso enchia a estepe, Steiner continuava de serviço na sala de comando da gazela. Os rádios ligados mantinham-no informado sobre tudo que acontecia em Tats-Tor. O administrador confirmara a prontidão de todas as forças armadas estacionadas no planeta, pois tinha certeza absoluta de que os terranos eram os únicos culpados pelo desaparecimento da população de uma cidade inteira. Sua lógica era formidável: só os terranos haviam previsto o fenômeno; logo, deveriam ser responsáveis pela catástrofe.
Como já se ressaltou, Tats-Tor era um mundo pacífico. O administrador não dispunha de uma frota espacial, nem de um exército propriamente dito. Só podia contar com a polícia e as “viaturas”. Entre estas se contavam alguns caças e bombardeiros leves, que dificilmente estariam em condições de realizar vôos prolongados pelo espaço. Se houvesse complicações interestelares, o administrador poderia solicitar auxílio de Árcon.
De qualquer maneira, Steiner não podia concluir por qualquer das numerosas mensagens por ele captadas de que o regente estivesse informado sobre os acontecimentos que se desenrolavam em Tats-Tor. E isto vinha a ser o sinal evidente de que o administrador não se sentia muito seguro.
A ação contra os terranos, que seria levada a efeito no espaçoporto, ainda pôde ser suspensa em tempo, mas um caça seguira a gazela e constatara que esta havia pousado na cidade sem vida. Esse fato parecia confirmar as suspeitas do administrador.
Voltou a ordenar à polícia que prendesse os seis terranos.
Steiner avisou Rous; parecia muito sério.
O que vamos fazer? Estamos de pés e mãos amarradas, e nem sequer temos o direito de defender-nos se formos atacados. Não sei o que Rhodan espera conseguir com isso.
Não quer que obriguemos ninguém a aceitar nosso auxílio — tentou explicar Rous. — Alias, ele não nos proibiu de agirmos em legítima defesa. Apenas, quer que tenhamos cuidado para ninguém sair machucado. E Noir não deve intervir. É só isso.
Para mim chega! — exclamou Steiner em tom contrariado. — Será que devemos atirar confete contra os arcônidas quando eles vierem prender-nos?
Harras, que se encontrava perto do fogo, gritou:
Um avião está circulando lá em cima. Parece que vai pousar. O que será?
Rous e Steiner, que se encontravam junto à escotilha aberta, olharam para o alto.
Eram três aviões que em poucos segundos aterrizaram a menos de duzentos metros do lugar onde se encontravam. Imediatamente após isso mais de duas dezenas de soldados armados saíram das cabines, entraram em forma e se puseram em marcha em direção à gazela, com as armas em posição de tiro.
Steiner manteve-se impassível.
Poderiam ter esperado ao menos até que comêssemos o churrasco!
Rous fitou os homens que se aproximavam e, dirigindo-se a Harras disse:
Vamos, Harras! Para dentro da nave! Dê um jeito para que a gazela não possa decolar. Nunca se sabe o que poderá acontecer. Basta mover uma chave.
Até parece que ainda não sei disso — disse Harras em tom zangado, afastando-se do churrasco.
Apenas Ragow ficou para trás, e contemplou o pedação de carne com uma certa tristeza. Josua veio do córrego próximo, com uma bolsa plástica de água fresca. Quando percebeu os arcônidas que se aproximavam, arregalou os olhos e abriu a boca.
Rous foi ao seu encontro. Andava sempre desarmado, mas sabia que não estaria sem proteção. Na sala de controle da gazela, Steiner não estava dormindo, e sem dúvida não estaria disposto a cumprir rigidamente as ordens de Rhodan.
O arcônida que ia à frente dos demais parou. E o pequeno corpo de exército automaticamente seguiu seu exemplo.
O administrador ordenou que o senhor se entregue sem esboçar a menor defesa — disse em tom presunçoso. Levantou o braço e apontou para a gazela. — A nave está confiscada.
Permita-me ao menos perguntar qual é a finalidade disso?
Os senhores atacaram nosso mundo, e supomos que a arma de ataque se encontre no interior da nave.
O senhor poderá procurar até morrer — disse Rous em tom irônico.
No interior da gazela havia muitos aparelhos complicados, cujo funcionamento não poderia ser explicado tão depressa. Os arcônidas poderiam pensar que qualquer deles fosse a arma misteriosa que causara o desaparecimento dos homens.
Pretende resistir? — perguntou o oficial.
Por quê? Somos inocentes.
O grupo prosseguiu em sua marcha e cercou o acampamento. Rous apontou para a gazela e disse:
Cumpra sua obrigação, oficial. Mas quero preveni-lo! Se as suspeitas do administrador não se confirmarem, farei queixa contra o senhor em Árcon. Seu mundo está ameaçado por um terrível perigo, e a única coisa que o senhor resolve fazer é molestar-nos. E olhe que viemos para ajudar.
Apenas estou cumprindo ordens — disse o oficial.
Usou a desculpa mais idiota e banal de toda história da Humanidade. Não havia melhor meio de escapar à responsabilidade, e geralmente o mesmo se tem revelado eficiente.
Se alguém tiver de ser responsabilizado, será o administrador — completou o oficial arcônida.
Sem dúvida, Rous teria dado uma resposta adequada, se tivesse tempo. Mas não teve.
Naquele instante, aconteceram várias coisas estreitamente ligadas.
Steiner apareceu na escotilha da gazela e gritou:
Está havendo novos contatos. Na periferia de Akonar está ocorrendo uma superposição de grande porte. Mais de dez mil habitantes desapareceram. E neste mesmo instante, outro ataque está sendo levado a efeito na face oposta do planeta. As noticias são confusas e pouco precisas. Mas não é só isto. Uma frente larga avança à velocidade da rotação do planeta em nossa direção. É ao menos o que dizem as notícias. Mande esses policiais para o inferno, Rous; eles só nos fazem perder tempo.
Rous teria muito prazer em seguir esse conselho, mas ateve-se estritamente às instruções de Rhodan, por mais que estas lhe causassem aborrecimento. Além disso, as notícias sobre os estranhos acontecimentos também estavam sendo captadas pelo destacamento policial. O oficial ouviu o que o soldado que veio correndo lhe disse; em seu rosto pálido surgiu uma expressão de expectativa. Lançou um olhar de perplexidade para Rous.
Outros ataques. Já devem saber. Mas ainda estão aqui. Como é possível uma coisa dessas?
Quem sabe se aos poucos não nasce a luz no seu espírito? — esclareceu Rous. — Que tal pensar com a própria cabeça? Afinal, isto não seria exigir demais de um policial! Uma pessoa que se encontra à sua frente não pode estar despovoando um mundo. O senhor não poderá deixar de reconhecer este fato.
Tenho de cumprir as instruções recebidas — o arcônida voltou a demonstrar a arrogância de sempre. — Revistarei a nave juntamente com três dos meus homens e mandarei levá-la para Akonar. O senhor virá comigo.
Tomara que ainda haja tempo para isso — disse Rous, aludindo ao perigo que se aproximava. — As notícias falam de uma frente dos invisíveis que se desloca em direção ao lugar em que estamos...
Dos invisíveis?
Ah, então ainda não sabe? Pois o administrador deixou de lhe contar o mais interessante Os atacantes são invisíveis e vêm de outra dimensão temporal. Nós, os terranos, procuramos descobrir uma arma contra eles e, ao chegarmos aqui, solicitamos apoio para nosso empreendimento. Infelizmente... mas por que estou perdendo meu tempo? Não adianta falar.
De qualquer maneira, Rous conseguira despertar a desconfiança na mente do oficial. Ainda havia a impossibilidade evidente de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Os terranos estavam aqui, enquanto os atacantes...
Steiner gritou pela escotilha:
Fuga em massa no espaçoporto! Os saltadores estão tomando as naves de assalto e decolam precipitadamente. Os seres visitantes de Akonar comprimem-se junto aos balcões das linhas espaciais. É o que está anunciando a emissora oficial do administrador. Quem sabe se ele não resolveu outra coisa?
Bem no oeste, pontos chamejantes subiam ao céu e desapareciam rapidamente nas profundezas do espaço. Até se podia sentir o medo que devia assolar os pilotos.
O oficial de polícia lembrou-se de suas obrigações. Fez sinal para que três dos seus subordinados se aproximassem e, juntamente com eles, entrou na gazela. Deixou que Steiner o conduzisse pela nave e lhe explicasse a finalidade dos aparelhos e instalações. Finalmente voltou para junto de Rous, que o esperava do lado de fora.
Diga ao seu homem que saia. Meus soldados levarão a nave para Akonar. Rápido!
Rous deu de ombros e chamou Steiner. Os arcônidas não conseguiriam tirar a gazela dali e logo desistiriam de seus esforços.
E a frente invisível continuava a aproximar-se...
Ragow virou pela última vez o espeto com a carne e desligou o radiador.
Acredito — disse com a maior calma deste mundo — que já podemos comê-la. Seria uma pena deixá-la esfriar.
Pegou uma enorme faca, cortou um pedaço de carne e pôs-se a mastigar ruidosamente a porção que lhe coubera. Josua não perdeu tempo: logo seguiu o exemplo do colega. Os dois fizeram como se não existissem arcônidas nem seres invisíveis.
Rous e Steiner olharam-se, sorriram e juntaram-se a Josua e Ragow. Noir e Harras viram nisso um sinal de que também deviam esquecer-se das preocupações de cada dia e dedicar-se às facetas mais agradáveis da vida.
O oficial dos arcônidas ficou parado como se alguém o tivesse esquecido.
Dali a algum tempo, um de seus homens pôs a cabeça para fora da escotilha da gazela.
A máquina não funciona — disse.
Os terranos não se perturbaram. Deliciaram-se com o churrasco. Rous foi o único a não tirar os olhos dos três aviões que se encontravam a duzentos metros dali e dos soldados que os rodeavam.
Tem de pegar — respondeu o oficial em tom firme.
Acontece que o motor bloqueado não pegou. Por mais que os três arcônidas se esforçassem, não havia como pôr o motor em funcionamento.
Rous já havia engolido o último pedaço de carne. Começou a sentir que não lhe restava muito tempo. Não sabia com que velocidade se aproximava a frente de ataque da outra dimensão temporal. Mas pelos seus cálculos esta devia chegar a qualquer momento ao lugar onde se encontravam os três aviões. E quando isso acontecesse, não teriam tempo para mais nada.
Levantou-se e dirigiu-se ao oficial.
Acho que seria preferível cuidar dos seus homens — sugeriu. — Daqui a alguns minutos, será tarde. Além disso...
Um grito estridente de pavor interrompeu-o. Virou-se apressadamente e olhou para os aviões, no momento exato em que um dos soldados se tornava invisível. Apenas a cabeça continuou a flutuar por mais algum tempo em determinada direção. Mas, dali a pouco, esta também havia desaparecido.
Outro soldado gritou como se estivesse sendo assado no espeto. Também foi atingido pela frente temporal, que o envolveu.
O pânico espalhou-se entre os homens.
O oficial gritou algumas ordens absurdas e correu na direção dos três aviões, que evidentemente não foram atingidos pelo misterioso fenômeno. Seus subordinados seguiram-no em grupos desordenados. Rous ia gritar para que se cuidassem, mas já era tarde. Os homens correram para a desgraça; desapareceram em dez segundos. O único sinal deles era a pista deixada na areia.
Rous virou-se para seus homens:
Vamos para a nave. Não podemos perder um segundo!
Os três soldados que estavam revistando a gazela deixaram-se cair pela escada abaixo e saíram em carreira desabalada. Não se poderia fazer nada por eles.
Steiner foi o primeiro a entrar na gazela. Ligou o hipertransmissor, conforme fora combinado. A central de Terrânia devia ser informada sobre o fenômeno, antes que tivesse início a experiência propriamente dita. Segundos depois, Rous também chegou à sala de comando e conduziu a energia do reator para o gerador de campo de refração.
Depois que Josua entrou na gazela, a escotilha fechou-se com um ruído surdo. Automaticamente o equipamento de ar condicionado entrou em funcionamento.
Steiner recebeu a confirmação da estação de Terrânia. Sem preocupar-se com os acontecimentos que se desenrolavam em torno dele, transmitiu a mensagem já preparada:

Tenente Rous, da gazela, chamando a central de Terrânia. Ataque foi iniciado. Encontramo-nos na área A. Constatações realizadas até agora: zona de superposição percorre de forma assimétrica os planos estáticos. A interseção atinge 99%. Procuraremos obter visão do outro plano temporal mediante gerador de refração. Chamaremos dentro em breve. Desligo.

Rous aguardou que o gerador começasse a funcionar, formando a fresta de luz. Subitamente um círculo luminoso de pelo menos um metro de diâmetro surgiu no centro da sala. Josua fitou-o como se fosse um milagre, embora soubesse perfeitamente do que se tratava. Mas Rous não pôde deixar de confessar que também não se sentia muito à vontade. A luminosidade provava que naquele instante a frente temporal chegava ao lugar onde se encontravam.
Steiner desligou o hipertransmissor e aproximou-se de Rous.
Está na hora — disse em tom indiferente, embora em sua voz houvesse um tremor quase imperceptível. — O que estamos esperando?
Subitamente Ivã Ragow, que se encontrava num ponto mais afastado, soltou um grito de pavor.
Olhem meu braço! Esses malditos invisíveis estão me agarrando.
Noir agiu em primeiro lugar.
Depressa, Steiner! Ragow tem de passar em primeiro lugar. Dê-me uma mão.
Rous levantou o braço.
Será que vocês ficaram doidos?
Se não quisermos perder nossa dimensão temporal, teremos de arriscar! — berrou Noir sem a menor consideração. — Quer que paremos no outro plano temporal, perdendo nossa dimensão? Provavelmente nunca mais conseguiríamos voltar.
Rous compreendeu onde Noir pretendia chegar.
Mas Ragow compreendeu mais depressa.
Deu um salto para a frente, soltou um grito de dor quando o braço perdido voltou a tornar-se visível e saltou bem para dentro do anel luminoso.
E desapareceu de vez.
Rous sentiu que alguém o agarrava e o empurrava através do anel luminoso. Enquanto a cabeça passava para outra dimensão temporal, seus olhos perceberam a modificação. Não que ficasse mais claro ou mais escuro; a intensidade luminosa permaneceu inalterada. O que se modificou foi a paisagem. Parecia que ao passar pelo anel luminoso realizara um salto de teleportação que o levara a um mundo estranho. Ou seria apenas o mundo de Tats-Tor, situado em outra dimensão temporal?
Viu Ragow, que “caíra” os dois ou três metros que o separavam do solo.
Naquele instante, o russo procurava levantar-se e olhou em torno com os olhos espantados, sem compreender o fenômeno que se desenrolava à sua frente. No entanto, não poderiam esperar outra coisa.
Subitamente Rous sentiu um empurrão vindo do nada e perdeu o apoio. Felizmente caiu em pé. Olhou para trás e viu Harras, que pairava numa altura de três metros, envolto por um círculo que emitia uma luminosidade pálida.
Salte! — pediu.
Harras saltou e foi parar perto de Rous.
Santo Deus, o que será isto?
Rous esperou até que todos se tivessem reunido. A luminosidade pálida do anel constituía o único marco que indicava o caminho para a dimensão temporal da qual tinham vindo. Se o perdessem de vista, não haveria como voltar.
Este é o mundo dos invisíveis, Harras. Por aqui nada se move, com exceção de nós; nem mesmo o vento. A existência corre setenta e duas mil vezes mais devagar que a nossa. Somos invisíveis aos olhos dos habitantes desta dimensão temporal, porque nos movemos com excessiva rapidez.
Onde estão esses habitantes? — perguntou Josua com a voz amedrontada, mantendo-se ao lado de Steiner.
Nós os encontraremos — disse Rous em tom vago, apontando em direção a uma cadeia de montanhas próxima. — Está vendo o grupo de policiais arcônidas, Noir? Perderam sua dimensão temporal e sua existência passou a desenvolver-se na outra. Esses homens não parecem umas estátuas de pedra?
Olharam em torno e mantiveram-se calados, embora tivessem muitas perguntas. Supunham que Rous não demoraria em dar resposta a todas elas, pois não era a primeira vez que se encontrava na outra dimensão temporal.
O horizonte estava encoberto por uma muralha escura, que subia ao céu. Esta representava o limite do alcance do GCR. Só poderiam avançar até ela; o que ficava além permaneceria em segredo.
Viram-se em meio a uma planície fértil, cortada por vales e montanhas. Nos vales, os rios e regatos corriam para um lugar desconhecido, que provavelmente ficaria atrás da muralha negra. As árvores mantinham-se imóveis; nenhum vento as movia.
O ar estava relativamente quente e abafado. As nuvens que cobriam o céu revelavam que a chuva não se faria esperar por muito tempo.
Um estranho tremeluzir do ar levou Harras a formular uma pergunta:
O calor não é tanto que pudesse fazer subir o ar quente. E, se sua teoria fosse exata, caro Rous, a movimentação do ar deveria ser tão lenta que nem a notaríamos. Pode dar uma explicação?
Rous fitou o horizonte e percebeu a luminescência. Cerrou os olhos, acenou lentamente com a cabeça e respondeu:
Sim; tenho uma explicação. O senhor encontrará uma explicação para todos os fenômenos que surgirem aqui, desde que não se esqueça que por aqui tudo vive e existe num ritmo mais lento. É o que acontece com as moléculas gasosas da atmosfera. A luminescência que o senhor está vendo provém da refração da luz, causada pelas moléculas de ar.
Steiner gemeu baixinho e desprendeu os olhos da estranha visão. Viu um cristal límpido e transparente do tamanho de um grão de ervilha, que se mantinha imóvel no ar, a uns dois metros de altura. O físico quase chegou a assustar-se. Apontou para o objeto e perguntou perplexo:
Qual é a explicação, Rous? Este objeto cristalino flutua no ar como se não estivesse submetido à ação da gravidade. A gravitação também é influenciada com o ritmo mais lento do tempo?
Rous examinou o cristal; um sorriso de alívio surgiu em seus lábios.
Meu caro Steiner, eu já disse que tudo tem sua explicação. É o que acontece com este cristal, que não é outra coisa senão um pingo de chuva que cai com uma lentidão infinita. Não se esqueça que sua queda é setenta e duas mil vezes mais lenta que na Terra. Aliás, tenho quase a certeza disto. Qual é a conclusão? O pingo de chuva cai à velocidade aproximada de dez centímetros por hora, se considerarmos a velocidade da queda que se costuma observar na Terra. Fitaram a maravilha cristalina que quase não conseguiam compreender. Ao que parecia, Steiner não estava muito convencido do que acabara de ouvir. Estendeu a mão em direção ao pingo de chuva e procurou segurar o mesmo. Não conseguiu. O “cristal” parecia pregado no ar. Steiner não conseguiu movê-lo um milímetro que fosse. A inércia da massa crescera na mesma proporção da alteração do tempo. Para segurar um pingo de chuva, seria necessário despender setenta e duas mil vezes o volume de energia que se gastava na Terra. Acontece que Steiner não possuía tamanha força.

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