Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Mil anos
são como um dia... para os
terranos
que vivem em outra dimensão!
Cinqüenta
e sete anos se passaram, desde a pretensa destruição da Terra!
Rhodan
tornou-se aliado do robô regente de Árcon, pois uma ameaça de
proporções incalculáveis ocorreu na Via Láctea: os invisíveis...
Perry,
através de uma sofisticada aparelhagem, já está ciente do local do
próximo ataque desse inimigo sem dimensões. Trata-se do segundo
planeta do sol Morag: Tats-Tor.
O
administrador do Império Solar envia uma expedição àquele
estranho mundo. O Tenente Rous, comandante desta expedição, usando
o GCR, invade o universo inimigo... Entretanto um contratempo naquele
planeta sem tempo levou a expedição a tornar-se prisioneira...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Fritz
Steiner
— Físico nuclear.
Ivã
Ragow
— Cientista russo.
Fred
Harras
— Técnico em mecânica avançada.
Josua
— Engenheiro de metalurgia.
Marcel
Rous
— Chefe da expedição.
André
Noir
— Mutante.
1
— Dessa
forma, parece que vencemos o espaço e o tempo. Há cem anos uma
viagem à Lua ainda constituiria uma verdadeira utopia; é um fato do
qual não devemos esquecer-nos. Apenas trinta anos depois disso, em
mil novecentos e setenta e um, o homem chegou à Lua, e assim teve
início o progresso vertiginoso da navegação espacial, que perdurou
até agora, quando nos encontramos no ano de dois mil e quarenta e
um. Graças ao auxílio que recebemos dos arcônidas, os saltos pelo
hiperespaço, que nos levam a estrelas situadas a milhares de
anos-luz da Terra, já não representam o menor problema. Conseguimos
vencer o espaço e, portanto, também o tempo. Ao menos era o que se
acreditava até pouco tempo atrás.
A pessoa
que proferira estas palavras fez uma ligeira pausa, e fitou os seis
homens sentados do lado oposto da mesa comprida. Em seus olhos lia-se
a tensão e a expectativa que antecedem a ação iminente, cujos
detalhes ainda não lhes eram conhecidos. Perry Rhodan sabia que
neles poderia confiar, pois cumpririam as tarefas que lhes fossem
confiadas, mesmo que isso parecesse impossível.
Havia mais
dois homens, que estavam sentados ao lado de Rhodan. À sua direita,
Reginald Bell conseguira enfiar-se numa poltrona muito pequena para
seu corpo, e seus olhos azuis olhavam em torno com uma expressão
amável. Os cabelos ruivos cortados à escovinha continuavam bem
penteados, do que se concluía que estava passando por um dos raros
períodos de paz de espírito, e que excepcionalmente não acontecera
nada que o aborrecesse.
À
esquerda de Rhodan estava sentado Atlan, o imortal. Seus olhos,
desligados do tempo, brilhavam numa expressão profunda e pensativa;
parecia que estava à procura de algo que pudesse dar resposta a
todas as indagações. E, ao que tudo indicava, ainda não o havia
encontrado.
— Infelizmente,
conforme já sabem, estávamos enganados — prosseguiu Rhodan,
inclinando-se ligeiramente para a frente, a fim de fitar os seis
homens. — É verdade que vencemos o espaço e o tempo em nosso
contínuo temporal, mas não nos lembrávamos de que pudessem existir
outros planos. Mais do que isso, esquecemo-nos de que os dois planos
temporais podem encontrar-se. E foi o que aconteceu.
Esperou
até que cessasse a ligeira movimentação que se notou entre os
ouvintes.
— Deparamo-nos
com duas dimensões temporais prestes a colidirem. É claro que um
fenômeno deste tipo não pode deixar de produzir seus efeitos.
Suponhamos que nosso Universo seja um plano, semelhante ao que é
formado pela lâmina espessa da Via Láctea. O plano temporal dos
desconhecidos é semelhante ao nosso, mas encontra-se em posição
inclinada em relação ao nosso e desloca-se lentamente em direção
ao mesmo. Nos lugares em que isso acontece, verifica-se o
desaparecimento de toda vida orgânica; os seres tornam-se
invisíveis. Mundos inteiros foram despovoados dessa forma, e por
isso não é de se admirar que o computador de Árcon tenha
solicitado nosso auxílio e concordado em estabelecer uma sociedade.
Árcon e o Império Solar vêem-se diante de um inimigo comum, que
ameaça despovoar toda a Via Láctea.
Atlan fez
um movimento ligeiro. Ao notar o olhar indagador de Rhodan, disse:
— Pelo
que sei, seus homens descobriram que no plano dos desconhecidos
prevalece uma dimensão temporal diferente da nossa. Em comparação
com nosso plano, o tempo passa muito devagar. Será esta a chave?
— A
chave de quê?
Atlan
sacudiu lentamente a cabeça.
— Não
pergunte por enquanto, Rhodan. Só falarei quando minhas suposições
se confirmarem. Apenas gostaria de dar uma indicação. Sua equipe
científica apurou que no plano dos invisíveis o tempo corre setenta
e duas mil vezes mais devagar que o nosso. Portanto, para eles
passaram-se apenas alguns meses desde que cheguei à Terra.
Rhodan
lançou um olhar perscrutador para Atlan. Fazia mais de dez mil anos
que o imortal se encontrava na Terra. Onde pretendia chegar? Atlan
não esclareceu este ponto. Por enquanto.
Rhodan
voltou a dirigir-se aos seis homens.
— Marcel
Rous e Fellmer Lloyd conseguiram construir um aparelho que nos
permite penetrar no outro plano temporal sem nos privarmos da
dimensão que nos é própria. Em outras palavras: qualquer pessoa
que penetre no mundo dos invisíveis continua a viver como antes, mas
tem de conformar-se com o fato de que a existência de tudo que se
encontra a seu redor se processa num ritmo setenta e duas mil vezes
mais lento.
“O
aparelho foi batizado com o nome de gerador de campo de refração
que funciona como lente. Já construímos o protótipo, instalado
numa gazela cujos geradores foram reforçados a fim de fornecerem a
energia suplementar. Além desse gerador de campo de refração,
possuímos outro dispositivo, que nos permite prever com boa margem
de segurança onde se verificará a próxima interseção dos dois
planos temporais. Pelo que se supõe, acontece uma superposição
irregular das duas zonas temporais. Precisamos nos certificar se
nossa suposição é correta. Quero que os senhores façam essa
verificação.”
Os seis
homens fitaram-se. Em seus olhos Rhodan não viu pavor, mas apenas
uma alegre surpresa. Todos eles arriscariam a vida por Rhodan e pelo
planeta Terra. Nos últimos decênios tiveram muitas oportunidades de
lutar contra inimigos reais e palpáveis a fim de proteger a Terra.
Mas desta vez a muralha do tempo interpunha-se entre eles e o
inimigo. Acontece que essa muralha possuía aberturas...
— A
expedição será dirigida pelo Tenente Rous. É o único que já
teve vários contatos com o inimigo. Da expedição ainda participará
um mutante, André Noir, o hipno que, se necessário, poderá impor
sua vontade aos desconhecidos. Talvez assim se torne possível
trazermos um prisioneiro ao nosso plano temporal. Além deste,
participarão Fritz Steiner, físico, químico e um dos construtores
do gerador ampliado; Ivã Ragow, biólogo, zoólogo e médico; Fred
Harras, um técnico e mecânico altamente qualificado; e finalmente
Josua, nosso meteorólogo e metalúrgico africano. Bem, os senhores
já se conhecem. Partirão amanhã num cruzador pesado, que os
deixará no setor espacial onde fica o sistema solar a que se
destinam. É tudo que lhes posso dizer por agora. Não pretendo
cancelar a folga que terão hoje de noite em Terrânia. Alguma
pergunta?
O Tenente
Marcel Rous, um francês baixo, moreno e vivaz, sacudiu vivamente a
cabeça. Sabia que não haveria perguntas, pois na manhã do dia
seguinte — ainda hoje, mais tarde — lhes diriam tudo que ainda
não sabiam. Os outros cinco homens do grupo também se mantiveram em
silêncio.
Rhodan
parecia satisfeito, como se não esperasse outra coisa.
— Fico-lhes
muito grato. Encontramo-nos amanhã, às dez horas, meia hora antes
da partida. Tenente Rous, peço-lhe que fique mais um pouco. Os
outros podem retirar-se. Se permitirem que lhes dê um conselho,
direi que não devem dormir tarde. Não sei se no outro plano
temporal terão tempo para dormir.
Noir, o
hipno, sorriu enquanto se deslocava em direção à porta. Os outros
quatro não deram mostras de seus sentimentos; apenas se apressaram
para sair. As noites em Terrânia costumavam ser curtas. Queriam
aproveitar a última delas, esperando naturalmente que não fosse a
última de sua vida.
Rhodan
esperou que a porta se fechasse. Depois dirigiu-se a Rous.
— Amanhã
não teremos tempo para discutir todos os detalhes; por isso vi-me
obrigado a pedir que ficasse mais um pouco. O senhor deverá ser
informado sobre tudo que acontecerá amanhã e sobre o que deverá
fazer se a experiência não for bem sucedida, já que é o chefe da
expedição. Infelizmente não podemos afastar a hipótese do
fracasso. Não nos devemos esquecer de que o gerador de campo de
refração ainda se encontra na fase experimental. Foi construído
com base nos dados que possuímos, e só podemos fazer votos de que
em sua construção não tenha ocorrido qualquer engano.
“Segundo
os cálculos do computador positrônico, a próxima interseção
deverá ocorrer no sistema solar de Morag, e isso dentro de uma
semana. Quando isso acontecer, o senhor deverá encontrar-se nas
imediações da área atingida, para acompanhar o ataque. O senhor
sabe qual é o risco: não há como voltar do outro plano temporal, a
não ser que se possa contar com o gerador de campo de refração. Se
for atingido sem ele, estará perdido, pois viverá setenta e duas
mil vezes mais devagar que antes. Vários meses e até anos se
passarão antes que possa fazer qualquer movimento para libertar-se.
Não se esqueça que um segundo de nossa dimensão temporal
corresponde a vinte horas no outro plano.”
Atlan
acenou lentamente com a cabeça, mas não disse nada.
Bell
também se manteve em silêncio. Sentia-se satisfeito em não ter de
participar da expedição. Sempre estava pronto a enfrentar um
inimigo que pudesse ver. Mas quando se tratava de seres invisíveis,
atemporais, vindos de outro nível de existência... bem, nesse caso
preferia estar longe.
— Preste
atenção — prosseguiu Rhodan, fitando Rous. — Neste momento lhe
darei algumas informações que lhe poderão ser de importância
vital...
*
* *
Nos
catálogos estelares, aquela estrela constava com o nome de Morag.
Tratava-se de um sol branco-amarelento, cujo espectro era quase
idêntico ao do nosso astro rei. O segundo planeta desse sol era do
mesmo tamanho da Terra, tinha uma atmosfera de oxigênio
perfeitamente respirável e sua gravitação, um pouco superior à da
Terra. Sua distância do sol Morag era ligeiramente inferior à que
separa o sol de nosso planeta, motivo por que o clima era quente e
seco, embora houvesse muitos oceanos. As áreas litorâneas não
tinham por que queixar-se da falta de chuvas. As gigantescas matas
virgens constituíam prova disso.
O nome do
segundo planeta desse sol era Tats-Tor, e sua colonização fora
iniciada pelos arcônidas há pouco menos de três mil anos. Nele se
encontravam matérias-primas de elevado valor, motivo por que
Tats-Tor se transformara num importante espaçoporto para as naves do
Império. No grande campo de concreto de Akonar, capital de Tats-Tor,
pousavam as naves de muitas raças. As ruas da cidade estavam
repletas das criaturas mais estranhas que a natureza fantasiosa havia
criado no curso dos milênios nos mais diversos mundos da Galáxia.
Os
verdadeiros donos de Tats-Tor eram os novos arcônidas, nome que
haviam dado a si mesmos.
E esse
nome não fora escolhido sem motivo, conforme Marcel Rous não
demoraria a constatar. Pelo aspecto exterior em nada se distinguiam
dos arrogantes arcônidas da “tróica”
de Árcon, onde o maior computador positrônico do Universo governava
um império estelar. Além de orgulhosos, demonstravam uma enorme
presunção em virtude de sua origem e tratavam os membros de outras
raças com uma afrontosa arrogância. Os outros seres conformavam-se
com esse tratamento, porque estavam interessados em adquirir as
preciosas mercadorias encontradas em Tats-Tor.
O cruzador
pesado da classe Terra materializou-se a duas horas-luz de Tats-Tor e
desembarcou uma gazela. Tratava-se de uma pequena nave de
reconhecimento de longo curso, que não possuía o formato esférico;
lembrava um disco achatado que media dezoito metros de espessura, uns
trinta e cinco metros de diâmetro.
Assim que
a gazela se encontrava a distância segura e se deslocava em direção
ao planeta ainda distante, o cruzador da classe Terra voltou a
desmaterializar-se.
Desapareceu
pura e simplesmente, deixando para trás não apenas um espaço
vazio, mas uma sensação de terrível solidão.
Foi ao
menos a sensação que o Tenente Rous teve quando subitamente fitou a
tela negra, interrompida apenas pelas estrelas cintilantes que davam
vida a centenas de planetas.
A hora
tinha chegado. Estavam sós e dependiam exclusivamente das suas
próprias capacidades. Quando se aproximasse o terrível momento,
ninguém poderia auxiliá-los.
E Rhodan
havia dito que tinha cem por cento de certeza de que isso aconteceria
dentro de uma semana do planeta Terra.
Rous
soltou um suspiro e corrigiu a rota pelos meios visuais. Preferiu não
realizar um salto de transição para ganhar tempo. Ganhar tempo para
quê? Para preparar o encontro com os novos arcônidas, cujo caráter,
segundo se dizia, não primava pela gentileza das maneiras.
— Bobagem!
— disse em voz alta. Noir, que estava saindo da sala de rádio,
levantou os olhos.
— O que
é bobagem, Marcel? Será nossa expedição?
— Como
pode dizer uma coisa dessas, Noir? Na minha opinião trata-se de um
empreendimento indispensável, mesmo que esteja ligado a um risco
considerável, isto é, o de “encalharmos”
no tempo. Estava aludindo apenas aos novos arcônidas. Pelo que
dizem, não são muito agradáveis.
— Já
conseguimos lidar com muitos seres difíceis — disse o hipno a
título de consolação. — Se não quiserem ser amáveis, nós os
obrigaremos.
— O
senhor poderá influenciar alguns “exemplares”, mas não todos os
habitantes do planeta — ponderou Rous. — Aguardemos para
descobrir o que os arrogantes acharão do ataque iminente dos
desconhecidos. Pautaremos nosso procedimento de acordo com isso.
— Onde
pretende pousar?
— No
espaçoporto de Akonar, capital do planeta. É lá que reside o
administrador, ao qual teremos de entregar a mensagem de Rhodan. Se
existe alguém que pode dar-nos algum apoio é ele.
Fritz
Steiner entrou na sala de comando. Ouvira as últimas palavras.
Falando no tom exaltado que lhe era peculiar, disse:
— Que
apoio poderia ser este? Se não estiverem dispostos a ajudar, poderão
esperar que o invisível os alcance e “devore”.
Afinal, temos o GCR.
Rous
arregalou os olhos.
— Temos
o quê?
Steiner
soltou uma estrondosa gargalhada.
— O GCR.
São as iniciais de gerador de campo de reflexão.
— O
senhor é muito inteligente — disse Rous em tom sarcástico,
aborrecido por não ter descoberto o sentido daquelas letras. — Tem
certeza de que o aparelho funcionará?
— O
senhor não tem? Pois foi construído com base nos dados fornecidos
pelo senhor. De repente lhe surgiram dúvidas sobre sua eficiência?
— De
forma alguma. Apenas acontece que costumo ser cauteloso, Steiner.
Basta o menor erro para que estejamos perdidos.
— Ninguém
sabe — disse Steiner com uma estranha tranqüilidade — como são
cientificamente as coisas atrás da muralha do tempo. O outro plano
temporal deve oferecer as mesmas condições de vida do nosso. Se
pudermos chegar a eles, o contrário também deverá ser possível.
Será que fui suficientemente claro?
— Um
homem sem esperança é um homem sem futuro — disse Rous. — Sim,
o senhor foi suficientemente claro. Nossas concepções são
idênticas.
Duas horas
depois dessa discussão, pousaram no espaçoporto de Akonar.
Receberam o chamado do controle de vôo, que lhes forneceu as
coordenadas exatas para o pouso. Ao que parecia, a pessoa que os
chamara não estava interessada em saber quem eles eram, tanto que
não perguntara de que planeta vinham. Dali se concluía com absoluta
segurança que em Tats-Tor havia um tráfego espacial intenso e
pacífico.
Rous pediu
que Steiner permanecesse na sala de comando, com o receptor ligado.
Rous e Noir procurariam o administrador, a fim de avisá-lo sobre o
perigo iminente. Um transmissor embutido no anel manteria Steiner ao
par sobre aquilo que fosse falado. Se houvesse algum imprevisto,
poderia intervir.
Uma das
características principais de um porto interestelar consiste no fato
de que ninguém se interessa pelo outro. Rous e Noir traziam sob os
macacões os trajes de combate arcônidas, que haviam recebido vários
aperfeiçoamentos. Se surgisse algum perigo poderiam tornar-se
invisíveis, voar ou envolver-se num campo energético. Antes de mais
nada, porém, o traje possibilitaria uma fuga rápida, caso surgisse
um ataque de surpresa dos seres invisíveis.
Foram à
cidade num veículo robotizado, que os deixou à frente do palácio
do administrador. Para isso não tiveram de fazer outra coisa senão
dizer ao robô de direção o lugar a que pretendiam chegar.
Mas agora
teriam de enfrentar o primeiro controle.
O palácio
do administrador ficava exatamente na área circular, situada entre o
espaçoporto e o bairro comercial. Dentro dessa zona não havia
qualquer controle ou obstáculo. Qualquer indivíduo poderia pousar
sua nave no espaçoporto e andar pela cidade, sem que ninguém
perguntasse qual era seu nome ou planeta de origem. Só teria de
sujeitar-se ao controle quando saísse da área delimitada.
Dois
arcônidas uniformizados, que Rous reconheceu pelo cabelo branco e
pelos olhos albinos avermelhados, encontravam-se junto à barreira de
radiações, que só podia ser atravessada num lugar. Evidentemente
não seria difícil aos dois terranos atravessar essa barreira por
meio de um campo energético, que seus trajes poderiam criar num
instante, mas a finalidade de suas presenças no planeta não era a
de ficar tapeando os arcônidas. Por isso tiraram tranqüilamente do
bolso as finas chapas de metal e as entregaram aos arcônidas.
O maior
deles pegou os elementos de identificação, que tinham validade em
todo o Império, enquanto o outro fitava atentamente os dois
desconhecidos. Ao que parecia, pretendia classificá-los. Talvez
pensasse que eram descendentes dos saltadores.
— São
do planeta Terra? — perguntou o arcônida que estava examinando as
placas, fitando Rous, que se encontrava mais próximo. — Não vejo
os dados relativos à posição. O documento não é válido.
— Poderíamos
ter indicado dados falsos — disse Rous com a maior tranqüilidade.
— Nesse caso escaparíamos às perguntas que desabam sobre nós
sempre que pousamos num mundo subdesenvolvido. Os dados relativos à
posição deixaram de ser inseridos com o consentimento do regente.
Será que isso não basta?
— Qualquer
um pode alegar isso — respondeu o arcônida. — Antes de deixá-los
passar tenho de solicitar informações. O que pretendem fazer em
Tats-Tor?
— Viemos
para prevenir o administrador contra uma invasão que está iminente.
O arcônida
lançou um olhar perplexo para Rous, enquanto o outro recuou um
passo.
— Uma
invasão? Será que o senhor ficou louco?
— Pareço
um louco? — perguntou Rous. — Não pense que fizemos toda esta
viagem para engolir ofensas do senhor. Se acha que deve consultar
antes de nos deixar passar, ande depressa. Não temos tempo a perder.
A
perplexidade do arcônida cedeu lugar à costumeira arrogância.
— Ouça,
terrano; o senhor esperará tanto tempo quanto eu quiser. Sem nossa
permissão não entrará em Akonar. Ei, Rof — disse, dirigindo-se
ao colega — chame a central e televisione os dois passaportes.
Rous e
Noir fitaram-se, sorriram ligeiramente e prepararam-se para uma longa
espera. Infelizmente não havia como evitar isso, mas depois não
teriam mais a menor dificuldade em passar por qualquer controle.
Quando fossem conhecidos, tudo se tornaria mais fácil.
O arcônida
que ficou para trás voltou a dirigir-se a Rous.
— Então
a posição de seu mundo não precisa constar do passaporte? Isso é
muito estranho. Trata-se de uma norma geral: todo viajante espacial
deve portar um documento que consigne o lugar onde pode ser
encontrado o mundo a que pertence. Trata-se de uma precaução cuja
finalidade os senhores hão de compreender. Se houver um crime, será
mais fácil...
— Eu já
lhe disse que a Terra é uma exceção. Nunca ouviu falar nesse
planeta?
— Nunca
— confessou o arcônida. — Quando foi colonizada a Terra? Os
senhores já não têm muita semelhança com os arcônidas.
As últimas
palavras foram ditas com certo desprezo. Rous reprimiu a cólera;
permaneceu calmo. Provavelmente esse guarda nem sabia por que estava
tão convencido de si mesmo.
— Faz
poucos meses que a Terra pertence ao Império — disse ao guarda,
cujo rosto começava a ficar pálido. — Aliás, nem é bem assim,
pois ainda não consentimos em sermos governados por um computador,
se é que está interessado nisso. Mas para evitar contratempos,
consentimos em tornar-nos sócios. Nem sei por que lhe conto isto.
Parece que o senhor não entende nada da alta política.
O arcônida
levou dois minutos para recuperar-se do susto. Lançou um olhar
desconfiado para os dois homens que aguardavam calmamente junto à
barreira.
— Sócios?
O que quer dizer com isso? No Império só existe uma raça
dominante, que é a dos arcônidas. Nunca ouvi falar na Terra.
— Isso
não é de admirar — disse Rous em tom indiferente. — Sem dúvida
também não ouviu falar na outra raça, a qual vai atacar Tats-Tor.
Então, qual é o problema? Será que ainda teremos de esperar muito
tempo?
O arcônida
hesitou por um instante, mas depois deixou livre a passagem.
— Vamos
logo. Acredito que poderão passar. Meu colega já está voltando.
Então, Rof, a central resolveu alguma coisa?
— Ninguém
conhece a posição da Terra. A central acha que devemos deixar
passar os desconhecidos.
Rous pegou
os passaportes e entregou o de Noir.
— É
provável que nos próximos dias tenhamos de passar várias vezes por
esta barreira. Tomara que não seja sempre tão demorado como hoje.
Seja como for, os senhores apenas estão cumprindo seu dever.
Mais
tarde, ao lembrar-se da cena, Rous se admiraria por ter perdido tanto
tempo. Teria sido facílimo impor sua vontade aos dois guardas. Mas,
segundo dizia Rhodan, os novos arcônidas se disporiam de modo
voluntário a cooperar com eles.
Normalmente
não seria fácil falar com o administrador do planeta, mas a central
de comando das barreiras da área fronteiriça já informara o
comando sobre o incidente. Assim que entraram no hall, dois arcônidas
compenetrados que envergavam o uniforme dos guardas palacianos
aproximaram-se de Rous e Noir. Ao que parecia, por aqui ainda se dava
muito valor às tradições.
— São
os terranos? — perguntou um deles.
Rous não
se surpreendeu ao notar que a notícia de sua chegada se havia
espalhado tão depressa. Era quase certo que os novos arcônidas
nunca tinham ouvido o nome de Perry Rhodan, mas a simples idéia de
que o Império pudesse ter um sócio bastaria para aguçar suas
curiosidades.
— Sim;
somos nós.
— O
administrador quer falar com os senhores. Queiram seguir-me.
Apesar do
trato cortês, o funcionário não conseguiu ocultar seu orgulho e
arrogância. Agora, que caminhava à frente de Rous, este teve
vontade de dar-lhe um pontapé, mas lembrou-se em tempo das
diretrizes que lhe haviam sido fornecidas. Não usar de violência,
não ser petulante, conservar sempre a paciência.
Em todos
os lugares se viam empregados que não faziam nada, e lançavam
olhares curiosos para Rous e Noir. O hipno não pôde resistir à
tentação de dar uma pequena prova de sua capacidade, sem que
ninguém o notasse.
Subitamente
dois ou três funcionários fizeram meia-volta e saíram andando a
passos majestosos. Noir dera-lhes ordem de tirarem cinco dias de
férias. Sabia que essa ordem seria cumprida de qualquer maneira,
mesmo que Akonar e o administrador ficassem de pernas para o ar.
Ninguém saberia explicar a atitude tomada por aqueles dois homens;
nem eles mesmos seriam capazes de dizer por que agiam dessa forma.
Um sorriso
ligeiro surgiu no rosto de Rous, quando registrou o incidente. Fazia
votos de que Noir não se sentisse tentado a realizar outras
experiências desse tipo.
Os dois
arcônidas pararam ao chegarem ao fim do corredor.
— O
administrador os espera atrás dessa porta. Peço-lhes que deixem
aqui as armas que porventura portem.
Não
tinham armas.
A porta
abriu-se, deixando livre a entrada.
Rous
esperara encontrar um ambiente bastante luxuoso, mas teve uma
surpresa agradável. A sala, que não era muito grande, lembrava
antes um laboratório eletrônico que uma sala de audiências. As
paredes estavam cobertas de telas e dos respectivos controles. Os
fios se reuniam embaixo do teto e desapareciam atrás das paredes.
Havia dois intercomunicadores pequenos colocados sobre mesas, junto
com os respectivos microfones. Era aqui que confluíam “os
fios”
de todo um planeta. Pelo que acreditava Rous, dali mesmo o
administrador poderia entrar em contato com qualquer ponto de
Tats-Tor.
O arcônida
estava sentado atrás de outra mesa. Próximo, havia duas poltronas.
— Sejam
bem-vindos — disse no mais puro arcônida imperial, acenando
ligeiramente com a cabeça. — Os guardas de fronteira me informaram
sobre sua chegada, mas devo confessar que nunca ouvi falar no planeta
Terra.
— O
senhor é administrador de um pacato planeta colonial — disse Rous,
parando perto de Noir, junto às poltronas. O arcônida não fez
menção de levantar-se. — Se fosse um saltador ou membro da frota
de guerra do Império, sem dúvida já teria ouvido falar a nosso
respeito.
— O que
quer dizer com isso? — o administrador lembrou-se dos seus deveres
de anfitrião e apontou para as poltronas. — Façam o favor de
sentar.
Rous
sentou. Noir também. Seus olhares se cruzaram.
— O que
quero dizer é que já tivemos um conflito violento com Árcon, mas
atualmente a situação está pacificada. Hoje somos sócios do
regente, em pé de igualdade. O administrador do Império Solar, cuja
sede é o planeta Terra, celebrou um acordo com seu regente supremo,
a fim de lutar contra um inimigo poderoso. É por isso que viemos
para cá.
— Por
que vieram justamente para Tats-Tor? O senhor mesmo acaba de dizer
que este planeta é pacato e não tem nada a ver com as guerras
travadas pelo Império.
— É
verdade. Acontece que o homem mais pacato não pode viver em paz se o
mau vizinho não deixa. Ao que parece, os invisíveis são os maus
vizinhos.
— Os
invisíveis? Não sei a respeito de que está falando.
Rous
respirou profundamente e resolveu ser breve. Sabia que, apesar da
cortesia do administrador, seria mais fácil lidar com um inimigo que
com esse arcônida manhoso.
— Nosso
Universo está sendo cortado, cruzado por uma dimensão estranha. Os
conceitos de tempo que prevalecem nessa dimensão são diferentes dos
nossos. Nos pontos em que as duas dimensões se encontram, a matéria
viva e, com ela, toda vida animal desaparece de nosso campo de visão.
Até hoje não conseguimos recuperar um único dos seres
desaparecidos.
— Isso é
muito interessante — interrompeu o arcônida sem a menor comoção.
— Infelizmente
ainda não percebi indício desse fenômeno.
— Isso
não é de admirar — explicou Rous. — O regente preferiu não
alarmar o Império. Ainda acontece que até pouco tempo atrás não
era possível prever um ataque iminente. Quando os desconhecidos
atacavam, não havia nada que se pudesse fazer.
— Por
que veio justamente para Tats-Tor a fim de revelar o segredo do
regente?
— Porque,
segundo nossos cálculos, Tats-Tor será o próximo planeta a ser
atingido pelos invisíveis.
O
administrador lançou um olhar de incredulidade para Rous, mas não
demonstrou qualquer comoção ou sequer um interesse especial.
— Será?
— perguntou, estreitando os olhos. — Quer dizer que veio para nos
prevenir?
— Exatamente.
— Por
quê? O que pretende receber em troca? Para que servirá a
advertência se não há nada que se possa fazer?
As
perguntas deixaram Rous decepcionado.
— Pretendemos
descobrir uma arma para deter os seres da outra dimensão temporal.
Foi este o principal motivo de nossa vinda para Tats-Tor. Queremos
realizar uma experiência com um novo invento.
Mas para
isso precisamos de sua permissão. Acho que o senhor não terá
nenhuma objeção se tentarmos...
— Em
hipótese alguma a experiência poderá ser realizada em Akonar —
disse o administrador. — Não posso permitir que vidas humanas
sejam colocadas em perigo. Façam suas experiências onde quiserem,
menos na capital.
— Não
fazemos questão de realizar a experiência aqui. Antes de mais nada,
teremos de considerar os indícios da aproximação da frente
inimiga. Não sei se teremos possibilidade de salvar seu mundo da
destruição, mas queremos colher algumas experiências. O senhor
compreende?
— Só
compreendo uma coisa — disse o arcônida, reclinando-se na
poltrona. — Os senhores querem aproveitar um perigo que, segundo
dizem, se aproxima de nosso mundo, para colher vantagens.
Provavelmente, têm intenções inconfessáveis. Sinto muito,
senhores terranos, mas gostaria que abandonassem nosso mundo o mais
cedo possível. Digamos antes do pôr do sol. Combinado?
Rous não
fez menção de levantar-se. Subitamente viu-se em seus olhos um
brilho frio, que recomendava cautela. Colocou calmamente ambas as
mãos sobre a mesa. Essa calma não combinava com sua personalidade,
pois todos sabiam que aquele francês moreno era um homem Impulsivo.
— Quer
dizer que não acredita no que acabo de dizer? — perguntou num tom
que quase chegava a ser amável.
— Não
quero que o senhor crie qualquer agitação — disse o arcônida,
esquivando-se à pergunta direta que acabara de ser formulada. —
Nosso mundo nunca foi atacado, e se isso acontecer algum dia,
gozaremos da proteção da frota de guerra do Império. Bastará um
pedido de socorro...
— Desta
vez não — esclareceu Rous em tom tranqüilo. — O senhor sofrerá
uma decepção amarga, pois o regente não luta contra os invisíveis
vindos de outra dimensão temporal. Todos os mundos que já foram
atacados por eles ficaram vazios e abandonados. Até mesmo os insetos
desapareceram. Não existe mais qualquer forma de vida animal.
O arcônida
empalideceu. Os olhos vermelhos pareciam brasas em meio ao rosto
pálido.
— O
senhor está mentindo, terrano! Nosso regente não tem medo de
qualquer inimigo. Ainda descobrirei quais são as verdadeiras
intenções dos senhores.
Rous
levantou-se abruptamente.
— O
senhor pode negar-nos apoio, mas não acredita que possa proibir
nossa permanência em Tats-Tor. Portanto, não se dê ao incômodo de
dizer quando devemos partir. Quanto ao mais, não deixaremos de
avisá-lo assim que surgirem indícios de que a invasão tenha
começado.
O
administrador retribuiu o olhar de Rous com uma expressão fria e
arrogante.
— Dispenso
seu aviso. Se realmente houver um ataque, saberei o que fazer. É
claro que não posso proibir sua permanência na área do
espaçoporto, mas vejo-me obrigado a pedir encarecidamente que não
alarmem a população de Akonar com suas histórias fantasiosas.
Ficaria muito grato se pudessem despedir-se.
Noir
também se levantara. Falando em inglês, perguntou:
— Não
quer que lhe aplique um “tratamento”,
Marcel? Poderia convencê-lo a ceder-nos alguns colaboradores.
— Isso
seria contrário às instruções de Rhodan, André. Se essa gente
arrogante não quiser ajuda, que se arranjem como puderem.
Dirigindo-se
ao administrador, Rous prosseguiu em arcônida:
— Seria
altamente recomendável se quisesse manter sua estação de rádio em
recepção, na faixa normal. Passe bem, arcônida.
Absteve-se
de propósito de citar o titulo do administrador. Este estremeceu.
Isto provava que compreendera a ofensa que Rous quis colocar em suas
palavras. Sem esperar resposta, os dois homens saíram da sala e
voltaram às suas naves.
Ninguém
procurou impedi-los.
*
* *
O russo
Ivã Ragow era um daqueles homens que pensam que todo e qualquer
indivíduo é um tipo pacato. É claro que essa idéia tinha sua
origem no desejo de não ser incomodado e poder viver em paz. Além
disso, tal qualidade parecia corresponder à sua especialidade. Uma
pessoa que, além de lidar constantemente com plantas e animais,
exerce as funções de médico, forçosamente há de acreditar na
convivência pacífica das mais diversas criaturas.
Caminhando
tranqüilamente pelas ruas de tráfego intenso da cidade de Akonar,
Ragow realizava estudos por conta própria. Rous não fizera nenhuma
objeção a que fosse dar umas voltas pela capital. O minúsculo
radiotransmissor praticamente invisível, que os swoons haviam
montado num anel, mantinha-o em contato ininterrupto com a gazela. O
operador de rádio de plantão, que naquele instante era Fred Harras,
mantinha-o constantemente sob controle.
Ragow
desviou-se cuidadosamente de um ser disforme, que caminhava à sua
frente, dentro de sua “atmosfera”
especial, encerrada num traje espacial. Passou à frente do estranho
ser e teve o cuidado de não dar mostras muito evidente de sua
curiosidade. Mas não pôde resistir à tentação de lançar-lhe um
olhar de esguelha. Nunca vira uma coisa dessas, embora tivesse andado
por inúmeros mundos. No capacete transparente, balançava a
“atmosfera”
da estranha criatura, consistente num líquido oleoso cuja composição
Ragow não conhecia. Só agora viu que aquele ser possuía guelras na
parte lateral da cabeça.
Infelizmente
teve de olhar para o lado oposto, a fim de não chamar a atenção.
Só um provinciano costumava olhar insistentemente para qualquer
criatura estranha, mostrando admiração por seu aspecto e achando
que ele mesmo era a criatura mais perfeita deste mundo.
Ragow
manteve-se na principal artéria comercial, que ficava junto ao
espaçoporto. Era ali que os comerciantes e visitantes moravam em
grandes hotéis, cujos letreiros brilhavam à luz do sol. Não
entendeu uma única palavra da confusão de línguas que ouvia em
torno de si; naquele instante lamentava-se de não ser telepata.
Parou
diante de uma das numerosas lojas. O vendedor não era arcônida,
como se poderia supor. Um saltador de barbicha apregoava em voz alta
e insistente as mercadorias que tinha para vender; tratava-se de
souvenirs
de todos os pontos da Galáxia.
Ragow
aproximou-se e examinou os objetos expostos. Felizmente a descrição
fora feita em língua arcônida, de forma que não teve necessidade
de formular perguntas inconvenientes que atraíssem a atenção do
saltador para sua pessoa. Este mantinha-se muito ocupado, fazendo
ofertas tentadoras aos transeuntes.
Havia
mugglis empalhados; tratava-se de seres vindos do terceiro planeta do
sol Thorakl, situado a dois mil anos-luz. Pareciam lagartos e tinham
três caudas. Se a descrição dada pelo saltador era correta, a do
centro servia de antena transmissora. E, pelo que se dizia, este
transmissor orgânico continuava a funcionar, embora o animal
estivesse morto.
Ainda
havia a pedra brilhante e colorida, vinda do planeta Temporalis,
situado no centro da Galáxia. Bastava colocá-la num projetor
recentemente inventado para fazer reviver o passado. A pedra emitia
raios que podiam ser projetados numa tela eletrônica, que reproduzia
os acontecimentos desenrolados há vários milênios. Aquela pedra
recolhera todas as impressões óticas e as armazenara como se fosse
uma câmara automática.
Ragow
refletia sobre se convinha adquirir a pedra, quando viu um pequeno
objeto que ficava na terceira fila.
Quase
ficou sem fôlego.
O que viu
diante de si era uma simples navalha, do tipo que costumava ser usado
há um século atrás. E o bilhete que se encontrava junto à mesma
dizia mais ou menos o seguinte: “Instrumento
de degola do planeta Terra, cuja posição é desconhecida. Os
terranos usam-no para livrar-se das esposas, quando querem arranjar
outra. Seu uso é muito disseminado. Trata-se de precioso documento,
que revela as características de uma estranha cultura.”
Ragow
ficou sem saber se devia rir ou chorar. O exagero enorme da descrição
o fazia duvidar da veracidade das indicações relativas aos outros
objetos, mas nem por isso ficou sabendo como o dono da loja
conseguira uma navalha terrana.
“Deveria
perguntar?”
indagou-se mentalmente.
Quando ia
formular a pergunta, viu dois homens a seu lado. Eram arcônidas. E o
uniforme revelava serem policiais ou soldados.
— O
senhor é um dos terranos que vieram naquela pequena nave achatada? —
perguntou um deles com a arrogância do “grande”
funcionário cônscio do poder que exerce sobre o simples mortal. —
Faça o favor de seguir-nos.
Ragow não
estava disposto a deixar que o levassem sem mais nem menos. Livrou-se
da mão que o segurava.
— Sou
terrano, mas nem por isso o senhor tem o direito de me prender em
plena rua. O que deseja de mim?
— Essa
informação lhe será dada pelo administrador — respondeu o
arcônida. — Quer vir por bem, ou teremos de forçá-lo? Depois da
entrevista poderá voltar à sua nave.
Ragow
lembrou-se de seu traje de combate. Devia tornar-se invisível e
deixar aqueles homens para trás, numa perplexidade total? Ou sairia
voando? Não; com isso apenas atrairia as atenções sobre si, fato
que em nada facilitaria o cumprimento de sua missão. Além disso,
talvez seria interessante descobrir o que o administrador pretendia
deles. Ainda há três dias mostrara-se extremamente reservado diante
de Rous e Noir.
— Irei,
mas só se me deixarem caminhar à vontade — disse depois de algum
tempo, após lançar mais um olhar sobre a ignominiosa navalha
exposta na loja do saltador. Oportunamente cuidaria disso. —
Caminhem à frente; eu os seguirei.
Os dois
fizeram o que Ragow pedira. Provavelmente haviam recebido ordens
terminantes de não recorrer à violência. Ragow deixou que se
afastassem um pouco. A seguir, colocou a mão à frente da boca e
cochichou:
— Ei,
Harras! Ouviu? Tenho de ir ao gabinete do administrador. Avise Rous.
— Já
foi avisado, Ragow. Ele quer que o senhor os acompanhe. Não se
preocupe; cuidaremos do senhor. Se surgir qualquer perigo,
apareceremos para levá-lo.
— Quando
chegar a hora, não percam tempo — pediu Ragow e seguiu os
arcônidas.
Desta vez,
não houve qualquer problema junto ao posto de controle. Em dez
minutos, Ragow viu-se à frente do administrador.
Pelo que
Rous lhe dissera, pensara que fosse diferente: mais orgulhoso e
arrogante. Mas, ao que parecia, por ora o presunçoso funcionário
não tinha tempo para palhaçadas. Em seus olhos vermelhos brilhavam
vários sentimentos, principalmente a insegurança.
— Faça
o favor de sentar-se, terrano — disse com a voz rouca e numa calma
forçada. — Desejava falar com os dois terranos, que me procuraram
há dois dias. Acontece que apenas o senhor foi encontrado. Já está
informado sobre o assunto que os trouxe para cá.
— Para
Tats-Tor?
— Isso
mesmo.
— Estou
informado sobre o ataque iminente dos invisíveis, se é isso que
quer dizer.
— E esse
ataque a que está aludindo se manifesta através do desaparecimento
de todos os seres vivos?
— Exatamente.
O
administrador fitou os olhos de Ragow.
— Tenho
certeza de não se tratar de um ataque de criaturas invisíveis ou
desconhecidas, mas de uma trama diabólica dos terranos, cuja
finalidade ainda não consegui descobrir. Se não fosse assim, seria
impossível prever com tamanha exatidão o tempo em que ocorre o
fenômeno. Isso não lhe parece lógico?
— Não
acho, administrador — disse o russo, sacudindo a cabeça e lançando
um olhar atento para o equipamento técnico da sala. — Por que
iríamos ter todo esse trabalho para assustá-los?
— É o
que eu gostaria de saber — reconheceu o arcônida, que recuperou um
pouco de sua costumeira petulância. — Pelo menos já vejo que
realmente pretendem cumprir suas ameaças.
Ragow já
não compreendia mais nada. Ainda pensava naquela navalha maluca que
vira na loja do saltador, e teve dificuldade em acompanhar o
raciocínio do administrador, que só dizia tolices.
— Que
ameaça? — perguntou em tom tranqüilo.
O
administrador respirou profundamente e disse:
— Há
meia hora desapareceram todos os habitantes de uma cidade de tamanho
médio, a quinhentos quilômetros ao leste da capital. Não ficou
nenhum ser vivo. Pelo que dizem, até os peixes desapareceram dos
rios.
Ragow
parecia despertar de um sonho.
— Está
começando! — exclamou e levantou a mão, para dizer em voz alta em
direção ao anel: — Harras, a frente do tempo começou a avançar.
Avise imediatamente o Tenente Rous, e venham buscar-me. Ou preferem
que voe?
— O que
é isso? — perguntou o administrador, apontando para o anel que
Ragow trazia no dedo.
Acontece
que o russo já estava saturado daquela desconfiança.
— Isto —
disse em tom condescendente — é a arma milagrosa com a qual fiz
desaparecer sua cidade miserável. Se não calar a boca e se insistir
em não nos dar apoio, o senhor será o próximo a ser tragado pela
torrente do tempo. Compreendeu?
O
administrador manteve-se num silêncio obstinado. Fez um gesto de
mão, dando a entender que Ragow tinha permissão para retirar-se.
Mal se viu
a sós, o arcônida chamou alguns dos seus oficiais e deu-lhes
algumas ordens inequívocas.
— Está
acontecendo mais cedo do que esperávamos — constatou Rous um tanto
preocupado, assim que todos estavam reunidos na gazela, onde Ragow
havia apresentado um minucioso relato. — Na minha opinião só pode
ser um precursor da frente propriamente dita, ou seja, de uma espécie
de abaulamento da área de superposição.
— Nesse
caso a frente é assimétrica — constatou Noir. — É o que o
chefe queria saber.
— Por
enquanto nada está provado — advertiu Rous, para evitar conclusões
precipitadas. — Devemos examinar o local dos acontecimentos e
aguardar novos ataques.
— Tenho
minhas dúvidas de que realmente se trate de ataques — disse Ragow
de repente. — Pelo contrário; tenho certeza de que os
desconhecidos invisíveis, que vivem em outra dimensão temporal, nem
sabem o que estão fazendo por aqui. Provavelmente não têm meios de
impedi-lo.
Rous fez
um gesto afirmativo.
— Uma
das nossas tarefas consiste justamente em verificar este ponto.
Sugiro que decolemos imediatamente para darmos uma olhada na cidade
despovoada.
Não se
deram ao trabalho de cumprir qualquer formalidade. A nave de
reconhecimento de Rhodan decolou sem prévio aviso e subiu
rapidamente, desaparecendo dentro de poucos segundos no azul do céu.
Rous, que
pilotava a nave, nem chegou a ver os rostos espantados dos soldados
que marchavam pelo campo de pouso e haviam recebido ordens de deter
os terranos e apreender sua nave. Marcel dirigiu a gazela para o
leste e só desceu quando viu lá embaixo a cidade a que se
destinavam. O medidor de radiações montado na gazela entrou em
funcionamento, marcando num mapa os limites da área de superposição.
Toda e qualquer matéria inorgânica que tivesse permanecido no outro
plano temporal, mesmo por um tempo insignificante, envelhecera vários
milênios. A decomposição radiativa de certos elementos
representava prova inequívoca desse fato. Por isso era fácil
delimitar a zona de influência.
— O
formato é elíptico — disse Fritz Steiner, técnico responsável
por essa parte da operação. — Parece que a área de superposição
só atingiu o planeta de raspão. Da próxima vez será mais extensa.
Pousaram
na periferia da cidade e examinaram-na ligeiramente. Não havia
nenhum ser vivo. Até os insetos, tão abundantes em toda parte,
haviam desaparecido.
Subitamente
Fred Harras, operador de rádio que estava de plantão, gritou:
— O
administrador diz que somos responsáveis pelo fenômeno e colocou
suas forças em estado de prontidão. A polícia de I Akonar recebeu
ordens de prender-nos imediatamente, recorrendo à força caso isso
se torne necessário. A operação de busca já foi iniciada.
Rous fitou
as casas desertas com os olhos semicerrados.
— As
suposições de Rhodan se confirmaram. A decadência e arrogância
dos arcônidas é tamanha que só confiam em suas experiências. Não
dão a menor importância às palavras de outras raças. Pois bem;
colherão suas experiências. Apenas receio que não poderão fazer
muita coisa com elas. Não irão nem sentir que de repente saíram de
nossa dimensão, ingressando numa outra...
Steiner
não demonstrou tanta sensibilidade pelo destino dos arcônidas.
— Devemos
estar preparados — disse em tom de advertência. — Um dos
próximos ataques, por enquanto poderemos usar esta expressão menos
exata, ocorrerá a uns cem quilômetros de Akonar, nesta mesma
direção. Vamos pousar nessa área para aguardar os acontecimentos?
Acho que não adiantará voltar à capital. Isso só nos daria
aborrecimentos.
Rous
soltou um suspiro.
— Nossa
tarefa antes de tudo! Por enquanto não temos meios de ajudar os
habitantes deste mundo.
Fez um
sinal para Steiner e colocou a mão sobre o acelerador.
— Vamos
aguardar no deserto, perto de Akonar. Ainda bem que por lá não
existe mata virgem. Em compensação, se não me engano, há manadas.
Bem que gostaria de comer um bife fresco.
— Concordo,
enquanto esse bife não envelhecer dez mil anos na outra dimensão
temporal — disse Steiner e voltou à sala de máquinas, onde os
complicados instrumentos aguardavam o momento de serem postos a
funcionar.
2
A zona
limítrofe entre a mata e o deserto foi um verdadeiro paraíso
inesperado!
Mais ao
sul começava a selva cada vez mais densa, que se estendia até o
litoral. A oeste, a cerca de cem quilômetros, ficava a cidade de
Akonar. Ao norte via-se a estepe, seguida pelo deserto. A leste, o
panorama era semelhante ao do lado oeste; apenas, ali não havia
nenhuma cidade.
A gazela
descansava sobre os suportes telescópicos, em meio a alguns arbustos
que não constituíam um bom esconderijo, mas sempre proporcionavam
uma sombra agradável quando o calor fosse demais. Um dos seis homens
achava-se constantemente na sala de comando da pequena nave, a fim de
que esta pudesse decolar a qualquer momento. Steiner mantinha toda a
aparelhagem em estado de prontidão. Bastaria apertar um botão, e o
GCR abriria a porta para a outra dimensão temporal. Havia outro
aparelho muito importante, o medidor de radiações, que ficava
constantemente ligado. Qualquer modificação na idade dos objetos
seria prontamente registrada, dando notícia da aproximação de uma
frente temporal.
Armados
dessa forma, os membros da expedição resolveram descansar um pouco.
Harras e Noir saíram para caçar e voltaram com um quadrúpede que
tinha uma semelhança longínqua com um veado. Até mesmo o pacato
Ragow dispôs-se a participar dos preparativos do banquete. Examinou
a carne e constatou que era comestível. O Tenente Rous usou uma arma
de radiações térmicas que, regulada para a potência mínima,
constituía uma fonte de calor. E minutos depois teriam um belo
assado.
Enquanto
aquele aroma delicioso enchia a estepe, Steiner continuava de serviço
na sala de comando da gazela. Os rádios ligados mantinham-no
informado sobre tudo que acontecia em Tats-Tor. O administrador
confirmara a prontidão de todas as forças armadas estacionadas no
planeta, pois tinha certeza absoluta de que os terranos eram os
únicos culpados pelo desaparecimento da população de uma cidade
inteira. Sua lógica era formidável: só os terranos haviam previsto
o fenômeno; logo, deveriam ser responsáveis pela catástrofe.
Como já
se ressaltou, Tats-Tor era um mundo pacífico. O administrador não
dispunha de uma frota espacial, nem de um exército propriamente
dito. Só podia contar com a polícia e as “viaturas”. Entre
estas se contavam alguns caças e bombardeiros leves, que
dificilmente estariam em condições de realizar vôos prolongados
pelo espaço. Se houvesse complicações interestelares, o
administrador poderia solicitar auxílio de Árcon.
De
qualquer maneira, Steiner não podia concluir por qualquer das
numerosas mensagens por ele captadas de que o regente estivesse
informado sobre os acontecimentos que se desenrolavam em Tats-Tor. E
isto vinha a ser o sinal evidente de que o administrador não se
sentia muito seguro.
A ação
contra os terranos, que seria levada a efeito no espaçoporto, ainda
pôde ser suspensa em tempo, mas um caça seguira a gazela e
constatara que esta havia pousado na cidade sem vida. Esse fato
parecia confirmar as suspeitas do administrador.
Voltou a
ordenar à polícia que prendesse os seis terranos.
Steiner
avisou Rous; parecia muito sério.
— O que
vamos fazer? Estamos de pés e mãos amarradas, e nem sequer temos o
direito de defender-nos se formos atacados. Não sei o que Rhodan
espera conseguir com isso.
— Não
quer que obriguemos ninguém a aceitar nosso auxílio — tentou
explicar Rous. — Alias, ele não nos proibiu de agirmos em legítima
defesa. Apenas, quer que tenhamos cuidado para ninguém sair
machucado. E Noir não deve intervir. É só isso.
— Para
mim chega! — exclamou Steiner em tom contrariado. — Será que
devemos atirar confete contra os arcônidas quando eles vierem
prender-nos?
Harras,
que se encontrava perto do fogo, gritou:
— Um
avião está circulando lá em cima. Parece que vai pousar. O que
será?
Rous e
Steiner, que se encontravam junto à escotilha aberta, olharam para o
alto.
Eram três
aviões que em poucos segundos aterrizaram a menos de duzentos metros
do lugar onde se encontravam. Imediatamente após isso mais de duas
dezenas de soldados armados saíram das cabines, entraram em forma e
se puseram em marcha em direção à gazela, com as armas em posição
de tiro.
Steiner
manteve-se impassível.
— Poderiam
ter esperado ao menos até que comêssemos o churrasco!
Rous fitou
os homens que se aproximavam e, dirigindo-se a Harras disse:
— Vamos,
Harras! Para dentro da nave! Dê um jeito para que a gazela não
possa decolar. Nunca se sabe o que poderá acontecer. Basta mover uma
chave.
— Até
parece que ainda não sei disso — disse Harras em tom zangado,
afastando-se do churrasco.
Apenas
Ragow ficou para trás, e contemplou o pedação de carne com uma
certa tristeza. Josua veio do córrego próximo, com uma bolsa
plástica de água fresca. Quando percebeu os arcônidas que se
aproximavam, arregalou os olhos e abriu a boca.
Rous foi
ao seu encontro. Andava sempre desarmado, mas sabia que não estaria
sem proteção. Na sala de controle da gazela, Steiner não estava
dormindo, e sem dúvida não estaria disposto a cumprir rigidamente
as ordens de Rhodan.
O arcônida
que ia à frente dos demais parou. E o pequeno corpo de exército
automaticamente seguiu seu exemplo.
— O
administrador ordenou que o senhor se entregue sem esboçar a menor
defesa — disse em tom presunçoso. Levantou o braço e apontou para
a gazela. — A nave está confiscada.
— Permita-me
ao menos perguntar qual é a finalidade disso?
— Os
senhores atacaram nosso mundo, e supomos que a arma de ataque se
encontre no interior da nave.
— O
senhor poderá procurar até morrer — disse Rous em tom irônico.
No
interior da gazela havia muitos aparelhos complicados, cujo
funcionamento não poderia ser explicado tão depressa. Os arcônidas
poderiam pensar que qualquer deles fosse a arma misteriosa que
causara o desaparecimento dos homens.
— Pretende
resistir? — perguntou o oficial.
— Por
quê? Somos inocentes.
O grupo
prosseguiu em sua marcha e cercou o acampamento. Rous apontou para a
gazela e disse:
— Cumpra
sua obrigação, oficial. Mas quero preveni-lo! Se as suspeitas do
administrador não se confirmarem, farei queixa contra o senhor em
Árcon. Seu mundo está ameaçado por um terrível perigo, e a única
coisa que o senhor resolve fazer é molestar-nos. E olhe que viemos
para ajudar.
— Apenas
estou cumprindo ordens — disse o oficial.
Usou a
desculpa mais idiota e banal de toda história da Humanidade. Não
havia melhor meio de escapar à responsabilidade, e geralmente o
mesmo se tem revelado eficiente.
— Se
alguém tiver de ser responsabilizado, será o administrador —
completou o oficial arcônida.
Sem
dúvida, Rous teria dado uma resposta adequada, se tivesse tempo. Mas
não teve.
Naquele
instante, aconteceram várias coisas estreitamente ligadas.
Steiner
apareceu na escotilha da gazela e gritou:
— Está
havendo novos contatos. Na periferia de Akonar está ocorrendo uma
superposição de grande porte. Mais de dez mil habitantes
desapareceram. E neste mesmo instante, outro ataque está sendo
levado a efeito na face oposta do planeta. As noticias são confusas
e pouco precisas. Mas não é só isto. Uma frente larga avança à
velocidade da rotação do planeta em nossa direção. É ao menos o
que dizem as notícias. Mande esses policiais para o inferno, Rous;
eles só nos fazem perder tempo.
Rous teria
muito prazer em seguir esse conselho, mas ateve-se estritamente às
instruções de Rhodan, por mais que estas lhe causassem
aborrecimento. Além disso, as notícias sobre os estranhos
acontecimentos também estavam sendo captadas pelo destacamento
policial. O oficial ouviu o que o soldado que veio correndo lhe
disse; em seu rosto pálido surgiu uma expressão de expectativa.
Lançou um olhar de perplexidade para Rous.
— Outros
ataques. Já devem saber. Mas ainda estão aqui. Como é possível
uma coisa dessas?
— Quem
sabe se aos poucos não nasce a luz no seu espírito? — esclareceu
Rous. — Que tal pensar com a própria cabeça? Afinal, isto não
seria exigir demais de um policial! Uma pessoa que se encontra à sua
frente não pode estar despovoando um mundo. O senhor não poderá
deixar de reconhecer este fato.
— Tenho
de cumprir as instruções recebidas — o arcônida voltou a
demonstrar a arrogância de sempre. — Revistarei a nave juntamente
com três dos meus homens e mandarei levá-la para Akonar. O senhor
virá comigo.
— Tomara
que ainda haja tempo para isso — disse Rous, aludindo ao perigo que
se aproximava. — As notícias falam de uma frente dos invisíveis
que se desloca em direção ao lugar em que estamos...
— Dos
invisíveis?
— Ah,
então ainda não sabe? Pois o administrador deixou de lhe contar o
mais interessante Os atacantes são invisíveis e vêm de outra
dimensão temporal. Nós, os terranos, procuramos descobrir uma arma
contra eles e, ao chegarmos aqui, solicitamos apoio para nosso
empreendimento. Infelizmente... mas por que estou perdendo meu tempo?
Não adianta falar.
De
qualquer maneira, Rous conseguira despertar a desconfiança na mente
do oficial. Ainda havia a impossibilidade evidente de estar em dois
lugares ao mesmo tempo. Os terranos estavam aqui, enquanto os
atacantes...
Steiner
gritou pela escotilha:
— Fuga
em massa no espaçoporto! Os saltadores estão tomando as naves de
assalto e decolam precipitadamente. Os seres visitantes de Akonar
comprimem-se junto aos balcões das linhas espaciais. É o que está
anunciando a emissora oficial do administrador. Quem sabe se ele não
resolveu outra coisa?
Bem no
oeste, pontos chamejantes subiam ao céu e desapareciam rapidamente
nas profundezas do espaço. Até se podia sentir o medo que devia
assolar os pilotos.
O oficial
de polícia lembrou-se de suas obrigações. Fez sinal para que três
dos seus subordinados se aproximassem e, juntamente com eles, entrou
na gazela. Deixou que Steiner o conduzisse pela nave e lhe explicasse
a finalidade dos aparelhos e instalações. Finalmente voltou para
junto de Rous, que o esperava do lado de fora.
— Diga
ao seu homem que saia. Meus soldados levarão a nave para Akonar.
Rápido!
Rous deu
de ombros e chamou Steiner. Os arcônidas não conseguiriam tirar a
gazela dali e logo desistiriam de seus esforços.
E a frente
invisível continuava a aproximar-se...
Ragow
virou pela última vez o espeto com a carne e desligou o radiador.
— Acredito
— disse com a maior calma deste mundo — que já podemos comê-la.
Seria uma pena deixá-la esfriar.
Pegou uma
enorme faca, cortou um pedaço de carne e pôs-se a mastigar
ruidosamente a porção que lhe coubera. Josua não perdeu tempo:
logo seguiu o exemplo do colega. Os dois fizeram como se não
existissem arcônidas nem seres invisíveis.
Rous e
Steiner olharam-se, sorriram e juntaram-se a Josua e Ragow. Noir e
Harras viram nisso um sinal de que também deviam esquecer-se das
preocupações de cada dia e dedicar-se às facetas mais agradáveis
da vida.
O oficial
dos arcônidas ficou parado como se alguém o tivesse esquecido.
Dali a
algum tempo, um de seus homens pôs a cabeça para fora da escotilha
da gazela.
— A
máquina não funciona — disse.
Os
terranos não se perturbaram. Deliciaram-se com o churrasco. Rous foi
o único a não tirar os olhos dos três aviões que se encontravam a
duzentos metros dali e dos soldados que os rodeavam.
— Tem de
pegar — respondeu o oficial em tom firme.
Acontece
que o motor bloqueado não pegou. Por mais que os três arcônidas se
esforçassem, não havia como pôr o motor em funcionamento.
Rous já
havia engolido o último pedaço de carne. Começou a sentir que não
lhe restava muito tempo. Não sabia com que velocidade se aproximava
a frente de ataque da outra dimensão temporal. Mas pelos seus
cálculos esta devia chegar a qualquer momento ao lugar onde se
encontravam os três aviões. E quando isso acontecesse, não teriam
tempo para mais nada.
Levantou-se
e dirigiu-se ao oficial.
— Acho
que seria preferível cuidar dos seus homens — sugeriu. — Daqui a
alguns minutos, será tarde. Além disso...
Um grito
estridente de pavor interrompeu-o. Virou-se apressadamente e olhou
para os aviões, no momento exato em que um dos soldados se tornava
invisível. Apenas a cabeça continuou a flutuar por mais algum tempo
em determinada direção. Mas, dali a pouco, esta também havia
desaparecido.
Outro
soldado gritou como se estivesse sendo assado no espeto. Também foi
atingido pela frente temporal, que o envolveu.
O pânico
espalhou-se entre os homens.
O oficial
gritou algumas ordens absurdas e correu na direção dos três
aviões, que evidentemente não foram atingidos pelo misterioso
fenômeno. Seus subordinados seguiram-no em grupos desordenados. Rous
ia gritar para que se cuidassem, mas já era tarde. Os homens
correram para a desgraça; desapareceram em dez segundos. O único
sinal deles era a pista deixada na areia.
Rous
virou-se para seus homens:
— Vamos
para a nave. Não podemos perder um segundo!
Os três
soldados que estavam revistando a gazela deixaram-se cair pela escada
abaixo e saíram em carreira desabalada. Não se poderia fazer nada
por eles.
Steiner
foi o primeiro a entrar na gazela. Ligou o hipertransmissor, conforme
fora combinado. A central de Terrânia devia ser informada sobre o
fenômeno, antes que tivesse início a experiência propriamente
dita. Segundos depois, Rous também chegou à sala de comando e
conduziu a energia do reator para o gerador de campo de refração.
Depois que
Josua entrou na gazela, a escotilha fechou-se com um ruído surdo.
Automaticamente o equipamento de ar condicionado entrou em
funcionamento.
Steiner
recebeu a confirmação da estação de Terrânia. Sem preocupar-se
com os acontecimentos que se desenrolavam em torno dele, transmitiu a
mensagem já preparada:
Tenente
Rous, da gazela, chamando a central de Terrânia. Ataque foi
iniciado. Encontramo-nos na área A. Constatações realizadas até
agora: zona de superposição percorre de forma assimétrica os
planos estáticos. A interseção atinge 99%. Procuraremos obter
visão do outro plano temporal mediante gerador de refração.
Chamaremos dentro em breve. Desligo.
Rous
aguardou que o gerador começasse a funcionar, formando a fresta de
luz. Subitamente um círculo luminoso de pelo menos um metro de
diâmetro surgiu no centro da sala. Josua fitou-o como se fosse um
milagre, embora soubesse perfeitamente do que se tratava. Mas Rous
não pôde deixar de confessar que também não se sentia muito à
vontade. A luminosidade provava que naquele instante a frente
temporal chegava ao lugar onde se encontravam.
Steiner
desligou o hipertransmissor e aproximou-se de Rous.
— Está
na hora — disse em tom indiferente, embora em sua voz houvesse um
tremor quase imperceptível. — O que estamos esperando?
Subitamente
Ivã Ragow, que se encontrava num ponto mais afastado, soltou um
grito de pavor.
— Olhem
meu braço! Esses malditos invisíveis estão me agarrando.
Noir agiu
em primeiro lugar.
— Depressa,
Steiner! Ragow tem de passar em primeiro lugar. Dê-me uma mão.
Rous
levantou o braço.
— Será
que vocês ficaram doidos?
— Se não
quisermos perder nossa dimensão temporal, teremos de arriscar! —
berrou Noir sem a menor consideração. — Quer que paremos no outro
plano temporal, perdendo nossa dimensão? Provavelmente nunca mais
conseguiríamos voltar.
Rous
compreendeu onde Noir pretendia chegar.
Mas Ragow
compreendeu mais depressa.
Deu um
salto para a frente, soltou um grito de dor quando o braço perdido
voltou a tornar-se visível e saltou bem para dentro do anel
luminoso.
E
desapareceu de vez.
Rous
sentiu que alguém o agarrava e o empurrava através do anel
luminoso. Enquanto a cabeça passava para outra dimensão temporal,
seus olhos perceberam a modificação. Não que ficasse mais claro ou
mais escuro; a intensidade luminosa permaneceu inalterada. O que se
modificou foi a paisagem. Parecia que ao passar pelo anel luminoso
realizara um salto de teleportação que o levara a um mundo
estranho. Ou seria apenas o mundo de Tats-Tor, situado em outra
dimensão temporal?
Viu Ragow,
que “caíra”
os dois ou três metros que o separavam do solo.
Naquele
instante, o russo procurava levantar-se e olhou em torno com os olhos
espantados, sem compreender o fenômeno que se desenrolava à sua
frente. No entanto, não poderiam esperar outra coisa.
Subitamente
Rous sentiu um empurrão vindo do nada e perdeu o apoio. Felizmente
caiu em pé. Olhou para trás e viu Harras, que pairava numa altura
de três metros, envolto por um círculo que emitia uma luminosidade
pálida.
— Salte!
— pediu.
Harras
saltou e foi parar perto de Rous.
— Santo
Deus, o que será isto?
Rous
esperou até que todos se tivessem reunido. A luminosidade pálida do
anel constituía o único marco que indicava o caminho para a
dimensão temporal da qual tinham vindo. Se o perdessem de vista, não
haveria como voltar.
— Este é
o mundo dos invisíveis, Harras. Por aqui nada se move, com exceção
de nós; nem mesmo o vento. A existência corre setenta e duas mil
vezes mais devagar que a nossa. Somos invisíveis aos olhos dos
habitantes desta dimensão temporal, porque nos movemos com excessiva
rapidez.
— Onde
estão esses habitantes? — perguntou Josua com a voz amedrontada,
mantendo-se ao lado de Steiner.
— Nós
os encontraremos — disse Rous em tom vago, apontando em direção a
uma cadeia de montanhas próxima. — Está vendo o grupo de
policiais arcônidas, Noir? Perderam sua dimensão temporal e sua
existência passou a desenvolver-se na outra. Esses homens não
parecem umas estátuas de pedra?
Olharam em
torno e mantiveram-se calados, embora tivessem muitas perguntas.
Supunham que Rous não demoraria em dar resposta a todas elas, pois
não era a primeira vez que se encontrava na outra dimensão
temporal.
O
horizonte estava encoberto por uma muralha escura, que subia ao céu.
Esta representava o limite do alcance do GCR. Só poderiam avançar
até ela; o que ficava além permaneceria em segredo.
Viram-se
em meio a uma planície fértil, cortada por vales e montanhas. Nos
vales, os rios e regatos corriam para um lugar desconhecido, que
provavelmente ficaria atrás da muralha negra. As árvores
mantinham-se imóveis; nenhum vento as movia.
O ar
estava relativamente quente e abafado. As nuvens que cobriam o céu
revelavam que a chuva não se faria esperar por muito tempo.
Um
estranho tremeluzir do ar levou Harras a formular uma pergunta:
— O
calor não é tanto que pudesse fazer subir o ar quente. E, se sua
teoria fosse exata, caro Rous, a movimentação do ar deveria ser tão
lenta que nem a notaríamos. Pode dar uma explicação?
Rous fitou
o horizonte e percebeu a luminescência. Cerrou os olhos, acenou
lentamente com a cabeça e respondeu:
— Sim;
tenho uma explicação. O senhor encontrará uma explicação para
todos os fenômenos que surgirem aqui, desde que não se esqueça que
por aqui tudo vive e existe num ritmo mais lento. É o que acontece
com as moléculas gasosas da atmosfera. A luminescência que o senhor
está vendo provém da refração da luz, causada pelas moléculas de
ar.
Steiner
gemeu baixinho e desprendeu os olhos da estranha visão. Viu um
cristal límpido e transparente do tamanho de um grão de ervilha,
que se mantinha imóvel no ar, a uns dois metros de altura. O físico
quase chegou a assustar-se. Apontou para o objeto e perguntou
perplexo:
— Qual é
a explicação, Rous? Este objeto cristalino flutua no ar como se não
estivesse submetido à ação da gravidade. A gravitação também é
influenciada com o ritmo mais lento do tempo?
Rous
examinou o cristal; um sorriso de alívio surgiu em seus lábios.
— Meu
caro Steiner, eu já disse que tudo tem sua explicação. É o que
acontece com este cristal, que não é outra coisa senão um pingo de
chuva que cai com uma lentidão infinita. Não se esqueça que sua
queda é setenta e duas mil vezes mais lenta que na Terra. Aliás,
tenho quase a certeza disto. Qual é a conclusão? O pingo de chuva
cai à velocidade aproximada de dez centímetros por hora, se
considerarmos a velocidade da queda que se costuma observar na Terra.
Fitaram a maravilha cristalina que quase não conseguiam compreender.
Ao que parecia, Steiner não estava muito convencido do que acabara
de ouvir. Estendeu a mão em direção ao pingo de chuva e procurou
segurar o mesmo. Não conseguiu. O “cristal”
parecia pregado no ar. Steiner não conseguiu movê-lo um milímetro
que fosse. A inércia da massa crescera na mesma proporção da
alteração do tempo. Para segurar um pingo de chuva, seria
necessário despender setenta e duas mil vezes o volume de energia
que se gastava na Terra. Acontece que Steiner não possuía tamanha
força.

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