Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O
planeta Peregrino desapareceu — será
que
os imortais terão de morrer?
O ano
2.042 representa um marco decisivo na vida dos dois homens mais
proeminentes do Império Solar. É este o ano, durante o qual Perry
Rhodan e Reginald Bell têm de tomar outra ducha celular, pois do
contrário morrerão dentro de poucos dias...
A
órbita elíptica do planeta Peregrino foi calculada com toda a
precisão. No entanto, algo de estranho aconteceu: o planeta da fonte
da vida eterna havia desaparecido...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
Reginald
Bell
— Principal colaborador de Rhodan.
Atlan
— O arcônida imortal.
Gorlat
— Bravo capitão terrano.
Tompetch
— Tenente, um tanto inexperiente.
A
inteligência do planeta Solitude —
Ser cilíndrico e cinzento, de grandes dimensões.
1
O cabo da
grossura de um braço humano, que corria por uma fenda no trilho do
hangar e terminava num recipiente em forma de tubo, preso à nave
esférica, fornecia todas as informações necessárias à K-238. Nas
telas da nave, que deveriam estar apagadas, uma vez que as escotilhas
da comporta do gigantesco hangar ainda estavam fechadas, via-se um
tapete luminoso formado por inúmeros pontos, que cobriam o fundo
negro do espaço infinito. Dos receptores saíam os ruídos que
enchiam a sala de comando da Drusus, em cujo hangar continuava
guardada a K-238.
O zumbido
monótono foi cortado por outro som, quando os aparelhos geradores do
campo de reflexão entraram em funcionamento. Nas telas da K-238
surgiram vestígios de um corpo nebuloso de formato circular. Parecia
que naquele lugar o espaço vazava, deixando penetrar um pouco de
vapor vindo de outro Universo. O estranho anel cresceu e tornou-se
cada vez mais nítido.
Os cinco
homens na pequena sala de comando da K-238 olhavam-no atentamente.
Não havia nada em seus rostos ou atitudes que revelasse que aquele
estranho anel os atemorizasse. Era da existência desse anel e da
força concentrada nele que dependeria, dali em diante e por um tempo
indeterminado, a vida do grupo.
Perry
Rhodan apoiava a cabeça nas mãos e dedicava sua atenção à
pequena tela do receptor de telecomunicação.
Subitamente,
sem qualquer aviso prévio, a tela iluminou-se. Com um movimento
indiferente da mão direita, estabeleceu o contato e viu a enorme
cabeça de Sikermann na tela.
— Pronto,
chefe — anunciou Sikermann. — O comando pode ser dado.
“Há
quanto tempo está conosco?”,
indagou-se mentalmente Rhodan. “Há
dezoito anos. Bem que poderia falar um inglês melhor. Ainda continua
com um forte sotaque da Europa Continental.”
É
estranho que muitas vezes, nos momentos de maior tensão, a gente
pensa em ninharias.
Rhodan
respondeu:
— Está
bem, Sikermann. Decolaremos daqui a doze minutos, exatamente às
20:45, tempo de bordo. Transmita as necessárias instruções. Use a
catapulta. Quero ficar com as mãos livres.
Sikermann
fez continência. De repente disse:
— Sir.
— Pois
não.
— Eu...
quero dizer, todos nós lhe desejamos êxito total.
Rhodan
acenou com a cabeça. Em seus lábios havia um sorriso.
— Obrigado.
Se tivermos um pouco de sorte, deveremos conseguir.
A imagem
apagou-se. Alguém suspirou, como se naquele instante se desse conta
de que, por muito tempo, esta seria a última comunicação mantida
pela K-238 com qualquer ser humano que se encontrasse fora de suas
paredes de metal plastificado.
Outra
pessoa praguejou. Era Reginald Bell.
Rhodan
fechou os olhos e pensou, analisando o caminho que haviam percorrido
até então:
“Será
que o que fizemos foi correto? Será que as hipóteses estão certas?
Será que há uma base para nossas suposições e para as conclusões
arrojadas que Atlan, o arcônida, extrai das suposições?”
Os
relógios de bordo da K-238 mostravam o dia 17 de janeiro de 2.042 do
calendário terrano.
Como foi
mesmo que a história começou?
Foi no dia
cinco de janeiro, a algumas centenas de anos-luz dali, no planeta
Vênus...
*
* *
— Cruzador
Solar System, comandado por Bell, anuncia regresso do setor quatro,
órbita vinte e um — disse uma voz áspera e retumbante. —
Cautelas usuais. Setores um a sete devem ser evacuados imediatamente.
Desligo.
Na
periferia do gigantesco campo de pouso, havia uma série de edifícios
iguais aos que eram encontrados nas proximidades de qualquer
espaçoporto: alojamentos dos homens das equipes de manutenção,
depósitos de materiais, um pequeno hospital e um edifício baixo e
comprido, que abrigava o escritório do oficial de serviço e de sua
equipe. Tudo parecia simples e prático sob o céu quente e
encoberto. O espaçoporto no grande continente do hemisfério norte
de Vênus estava reservado exclusivamente à frota de guerra terrana.
Seus construtores não tiveram necessidade de quebrar a cabeça sobre
os gigantescos prédios de recepção, postos aduaneiros e edifícios
destinados aos passageiros.
Nas
montanhas que ficavam ao norte do espaçoporto, estava oculta a
antiga base arcônida, que Perry Rhodan havia descoberto há setenta
anos e cujo único construtor, Atlan, o imortal, começava a fazer
amizade com o administrador. Uma das peças componentes da base era o
gigantesco centro positrônico de computação: o cérebro e o
coração incumbidos de todos os cálculos físicos e políticos do
Império Solar. E, principalmente, era o único aparelho de sua
espécie capaz de calcular a órbita do mundo artificial que a
algumas centenas de anos-luz descrevia uma órbita sinuosa em torno
de vários centros de gravidade. O cálculo era feito num curto
espaço de tempo, usando apenas um pequeno trecho dessa órbita e
alguns dados adicionais.
Era a
órbita do planeta Peregrino.
Numa
pequena sala do edifício de escritórios, surpreendentemente
confortável, Perry Rhodan e Atlan, o arcônida, estavam sentados
frente a frente. Cada qual estava imerso em seus pensamentos e
demonstrava pouca receptividade para o panorama — grandioso na sua
solidão — oferecido pelo amplo espaçoporto com os traços retos e
negros, representando a selva venusiana que começava em sua
periferia.
Bem acima
do campo espacial surgiu um ponto luminoso que cresceu rapidamente e
começou a descer. Uma forte onda de vento varreu toda a área, e foi
seguida pelo ruído trovejante de uma espaçonave que avançava
apressadamente pelas camadas densas da atmosfera.
— Estão
com pressa — disse Atlan. Rhodan levantou-se e foi até a janela,
como se dali pudesse ver melhor a bola luminosa, formada pela nave
que pousava naquele instante.
— Também
já adivinhei isso — respondeu em tom distraído.
— Administrador,
se você lhes tivesse permitido transmitir uma mensagem de
hipercomunicação, poderia ter-se poupado dois longos dias de espera
— disse Atlan em tom irônico.
Rhodan
virou-se e encostou-se ao peitoril da janela.
— Só
assim seu chefe supremo, almirante, poderia captar a mensagem e, por
meio de sua genial capacidade de adição, subtração, potenciação
e... de correntes positrônicas, determinar pelo meio mais rápido a
posição galáctica da Terra, não é?
O arcônida
fez um gesto de desprezo.
— A
chance seria muito reduzida. Não é fácil captar uma mensagem
direcional.
— A
chance seria reduzida, mas existia. Acontece que não quero dar-lhe
nenhuma chance.
Atlan
também se levantou.
— Certo;
você tem razão, bárbaro. Apenas sinto que você está muito
nervoso. Qualquer um vê sua exaltação.
Rhodan
bateu com o dedo na vidraça.
— O que
está lá fora irá tranqüilizar-me — disse com um sorriso.
Cerca de
quinhentos metros acima do campo espacial, os fenômenos luminosos e
o ruído provocado pela Solar System e pela pressão das camadas de
ar que preenchiam o vácuo formado por seu deslocamento atingiram o
auge. A incandescência das partículas ionizadas cessou no momento
em que a nave atingiu a velocidade usual de descida e pousou
suavemente sobre a área cinzenta.
Uma coluna
de veículos-plataforma, abertos, saiu dos edifícios em que ficavam
os depósitos e parecia querer passar velozmente por baixo da nave
que estava pousando. No entanto, acabou parando próxima do passadiço
que saía da escotilha da nave.
— Estão
desenvolvendo uma atividade incrível — disse Atlan.
Pelo tom
de sua voz percebia-se que realmente estava admirado.
O carro
parou junto à entrada principal. Dois homens saltaram. Ambos eram de
estatura mediana e ruivos. O mais “robusto”
ostentava as insígnias de comandante, enquanto o outro, um tipo
corriqueiro, envergava o uniforme de capitão.
Passos
ruidosos soaram no corredor. A porta que dava para a pequena sala
confortável abriu-se violentamente. Reginald Bell parou no limiar e,
em vez de cumprimentar, disse:
— Nada,
absolutamente nada!
O silêncio
que se seguiu a estas palavras foi quase completo.
Atlan, o
arcônida, continuava de pé nas proximidades da janela. Parecia
alheio e desinteressado. Dedicava sua atenção a Rhodan, cujas
reações observava.
Mas não
viu em Perry outra coisa senão um ligeiro entesamento dos músculos
do queixo, fazendo com que, por alguns segundos, as maçãs do rosto
ficassem bastante salientes. Dali a pouco, Rhodan apresentava o
aspecto de quem acabava de receber uma notícia insignificante e
pouco interessante.
— Entre
— disse. — O senhor também, capitão. Gostaria de ouvir um
relatório detalhado.
Reginald
Bell deixou-se cair numa poltrona.
O Capitão
Gorlat ficou de pé. Atlan tirou uma garrafa bojuda e alguns copos de
um pequeno armário, encheu-os e ofereceu-os a Bell e ao capitão.
Bell
esvaziou seu copo de uma só vez. Depois disse:
— Não
há muita coisa para contar. Quando chegamos ao ponto indicado nos
cálculos do computador positrônico, não encontramos nada. Não
havia absolutamente nada num raio de mais de seis anos-luz.
“É
claro que procuramos encontrar uma pista. O planeta solta hidrogênio
enquanto percorre o espaço. Acontece que não encontramos uma única
molécula de hidrogênio pelo caminho. Ficamos um dia inteiro junto
aos instrumentos de localização. Com exceção de um único bólido,
mais nada apareceu nas telas. O planeta Peregrino desapareceu.”
Rhodan
fitou Gorlat. O capitão compreendeu o olhar.
— O
mecanismo propulsor está em bom estado, Sir. Não existe a menor
possibilidade de ter havido uma falha no salto. Realizamos duas
transições experimentais, e sempre atingimos o ponto previsto. O
espaço em torno do ponto indicado pelo computador positrônico
estava livre de qualquer perturbação. Não havia tempestades
magnéticas, colisões de planos temporais, absolutamente nada. A
única conclusão que se pode tirar de tudo isso é a que já foi
exposta pelo comandante Bell.
— Peregrino
desapareceu — repetiu Reginald Bell, depois de ter esvaziado mais
um copo. — O velho pregou-nos uma peça.
Talvez
queira que resolvamos as mesmas charadas de sessenta e seis anos
atrás.
Rhodan
sacudiu a cabeça. Deu alguns passos, cruzou as mãos nas costas e
parou diante de Atlan. Este ainda segurava a garrafa. Rhodan fitou-o
e disse com um sorriso:
— Dê-me
um copo. Estou precisando.
*
* *
Peregrino
desaparecera. O mundo que, segundo as palavras de seu criador e dono,
garantiria a vida eterna a Rhodan, não foi encontrado.
No ano de
1.976, Rhodan fizera a primeira visita a esse mundo e a seu dono —
a consciência acumulada de uma raça há muito desaparecida. Essa
visita teve uma importância decisiva...
Ele e
Reginald Bell, seu companheiro de lutas desde os primeiros dias do
vôo histórico à Lua, foram julgados dignos da ducha celular que
representaria sessenta e dois anos de vida sem qualquer
envelhecimento. Findo esse tempo, o Ser estranho — senhor do
planeta Peregrino — ordenou-lhes que deveriam aparecer de novo no
planeta, a fim de serem presenteados com mais sessenta e dois anos.
Havia uma tolerância de três meses. Em virtude de um retardamento
do fluxo temporal que os atingira por ocasião de sua primeira viagem
ao planeta Peregrino, só voltaram à Terra no ano de 1.980.
Agora, no
ano de 2.042, o prazo havia chegado ao fim. Para sermos mais exatos,
o dia 1o
de fevereiro de 2.042 e o dia 1o
de maio de 2.042 seriam as datas-limite para a ida ao planeta
Peregrino. Se ultrapassassem o prazo, as funções corporais
diminuiriam imediatamente. Se não houvesse outra ducha celular, o
organismo recuperaria em poucos dias a decadência que fora detida
durante sessenta e dois anos. Uma semana depois do dia 1o
de maio, Perry Rhodan e Reginald Bell seriam anciãos de mais de cem
anos de idade, que já se encontrariam com um pé na cova.
Porém o
planeta Peregrino havia desaparecido.
— Tenho
certeza de que o velho nos está tapeando — afirmou Reginald Bell
em tom obstinado.
Dormira
ininterruptamente durante dez horas, e o descanso lhe restituíra a
combatividade e seu enorme otimismo.
Aquilo que
ele designava como o velho era o Ser do planeta Peregrino, um
verdadeiro monstro de força espiritual. Incorporara todo o saber de
uma raça e não estava ligado a qualquer corpo.
Rhodan não
era da mesma opinião de Bell.
— Afinal,
ele nos garantiu a ativação celular — ponderou, sacudindo a
cabeça. — Por que iria mentir?
— Sei
lá! — esbravejou Bell. — De qualquer maneira, não confio nesse
sujeito. Nunca confiei.
Encontravam-se
agora num recinto subterrâneo da velha base arcônida. A alguns
corredores adiante ficava o centro de controle do grande computador
positrônico. Mas, mesmo aqui, ouvia-se o zumbido das máquinas que
trabalhavam no limite máximo de sua potência.
— Não —
disse Rhodan em tom decidido. — O desaparecimento do planeta
Peregrino deve ter outro motivo, ou melhor, outra causa.
Atlan, que
até então se mantivera em silêncio, olhou de esguelha para Rhodan.
— Até
parece que você suspeita de alguma coisa — disse.
Rhodan deu
de ombros.
— Por
que vamos falar sobre suposições, se daqui a alguns minutos a
máquina concluirá o processamento dos dados?
Atlan
respondeu com um sorriso:
— Apenas
estaria interessado em saber se você pensa a mesma coisa que eu,
bárbaro.
Mantiveram
silêncio sobre seus pensamentos. Mas o computador positrônico
expeliu suas idéias francas perfuradas numa placa metálica,
conforme correspondia a seu “caráter”.
Peregrino
fora vitimado por uma superposição de dois planos temporais.
Segundo as indicações da máquina, a probabilidade de que a
informação era correta chegava a mais de oitenta e um por cento.
— Foi
disso que você desconfiou? — perguntou Atlan.
— Naturalmente
— respondeu Rhodan. — Os druufs “engoliram”
Peregrino, tal qual fizeram com Mirsal e outros mundos. Apenas
estranho uma coisa.
— O que
é?
— Será
que o ser que habita o planeta Peregrino não teve nenhuma
possibilidade de defender-se dos druufs? Será que não pôde esboçar
a menor defesa ao ser engolido?
Atlan
parecia pensativo. Depois de algum tempo, respondeu:
— Sei
perfeitamente que nas cabeças de vocês anda a idéia de que o dono
do planeta Peregrino é um ser quase onipotente. Acontece que você
geralmente costuma agir como um homem razoável e, por isso mesmo, já
deveria ter compreendido, administrador, que evidentemente essa
onipotência não passa de ficção. Todo poder tem seus limites, e
não é nada difícil imaginar que os druufs sejam superiores ao ser
que Bell designa como o velho.
Rhodan
sacudiu energicamente a cabeça.
— Quanto
a mim, não consigo imaginar uma coisa dessas. Meu caro, você não
viu o que nós vimos no planeta Peregrino. Não; para mim existe
outro mistério a ser solucionado.
— Pois
esforce-se para solucioná-lo, bárbaro — disse o arcônida com uma
risadinha. — Você não tem muito tempo para adivinhar. Hoje é o
dia 6 de janeiro, segundo o calendário terrano.
*
* *
O passo
seguinte estava perfeitamente traçado.
O
computador positrônico calculou o trecho de órbita que o planeta
Peregrino deveria ter percorrido desde o momento em que os druufs
apareceram pela última vez até o dia 5 de janeiro de 2.042.
Rhodan
mandou equipar às pressas uma nave auxiliar do tipo girino com
geradores de campo de refração. Eram os únicos aparelhos que
permitiam a passagem para o outro plano temporal, abrindo, por assim
dizer, uma porta que ligava as duas dimensões do tempo. Depois,
Perry pôs-se a caminho com a Drusus, que levava a bordo o girino com
esse equipamento, dirigindo-se ao setor em que o planeta Peregrino
deveria ter percorrido sua órbita.
O
couraçado Drusus já fora equipado durante uma operação anterior
com o gerador de campo de refração. Se alguma das naves da frota
terrana era capaz de enfrentar o perigo representado pelos druufs
essa nave só poderia ser a Drusus.
A
tecnologia terrana ligada à criação de campos de refração fora
descoberta há mais de um ano, de certa forma por acaso. No curso dos
acontecimentos que se desenrolaram no mundo de cristal foi
aperfeiçoada. O aperfeiçoamento chegou a tal ponto que agora
permitia a passagem para outro plano temporal em qualquer lugar onde
a superposição dos dois planos houvesse ocorrido ou estivesse
ocorrendo.
Portanto,
a tarefa da Drusus consistiria exclusivamente em percorrer a órbita
do planeta Peregrino com os campos de refração ativados. Se
realmente ocorrera uma superposição dos dois planos, conforme
afirmava o computador positrônico, e se o planeta Peregrino fora
atingido pela mesma, a nave penetraria no outro plano temporal,
utilizando seu campo de refração, assim que atingisse a área de
superposição.
E foi o
que aconteceu...
A Drusus
penetrou num espaço cheio de luminosidade vermelho-escura, observada
antes, e que, segundo tudo indicava, não preenchia outra finalidade
senão abrigar um sol que emitia uma luminosidade verde-cinza.
Os
estranhos fenômenos luminosos não abalaram ninguém, pois já
haviam sido observados antes. Os instrumentos da Drusus determinaram
a distância entre a nave e o sol verde: quarenta e cinco unidades
astronômicas. Rhodan teve todo motivo para desconfiar desse
resultado, pois por várias vezes já se constatara que as medidas
convencionais do contínuo einsteiniano têm uma validade bastante
restrita ou mesmo nula, quando trasladadas para outro plano temporal.
Em
hipótese alguma, Rhodan queria expor a Drusus aos riscos de
correntes do ajuste temporal, motivo por que, depois de uma ligeira
permanência no universo vermelho, retornou através da lente formada
pelos campos de refração.
Já se
sabia em que ponto se verificara o desaparecimento do planeta
Peregrino. Também se sabia que, no plano temporal normal, nada se
poderia descobrir sobre o paradeiro do planeta artificial.
O girino
K-238, equipado com geradores de campos de refração, foi preparado
para a decolagem. Rhodan preferiu não levar a tripulação normal
numa operação arriscada como aquela. Em caso de necessidade todas
as funções do girino, inclusive as do posto de artilharia, poderiam
ser executadas por cinco homens.
Além de
Atlan, o arcônida, e de Reginald Bell, escolheu como companheiros de
viagem o Capitão Gorlat e o Tenente Tompetch.
Eram estes
os cinco homens que no dia 17 de janeiro de 2.042 se encontravam na
pequena sala de comando da nave K-238, suspirando, praguejando ou
fitando ansiosamente a tela de imagem.
2
A
decolagem foi realizada automaticamente, assim que o relógio atingiu
a marca das 20 horas e 45 minutos. O cabo que até então mantivera a
ligação com o Interior da nave soltou-se. Na tela panorâmica da
K-238, surgiu o quadro iluminado, mas insignificante, do grande
hangar de naves auxiliares. Na extremidade oposta deste hangar, a
escotilha interna da comporta começava a abrir-se.
Depois de
alguns segundos, a K-238 entrou em movimento. Sustentada por um campo
artificial de gravitação, planou para o interior da comporta e ali
permaneceu, enquanto a escotilha interna se fechava e a externa
começava a abrir-se.
O anel do
campo de refração voltou a aparecer; seu centro coincidiu com o
ponto central da tela de proa.
Rhodan viu
a escotilha encostar-se à parede da nave; a luz verde, que liberava
a decolagem, acendeu-se.
Com um
súbito solavanco, a escotilha da comporta deslizou para o lado. O
anel do campo de deflexão parecia saltar sobre a nave auxiliar. Mas,
num instante tudo desapareceu: o anel, o tapete luminoso formado
pelas inúmeras estrelas, a Drusus.
Um
vermelho-carregado passou a envolver a pequena nave, e das
profundezas de um espaço desconhecido e apavorante brilhava a bola
de fogo ofuscante do sol verde.
O salto
fora bem sucedido.
*
* *
Sabiam
que, dali em diante, tinham de contar com uma dimensão temporal
diferente. Talvez o termo contar não fosse adequado, pois os
fenômenos que se verificavam no mundo purpúreo eram tão variados,
estranhos e muitas vezes aparentemente contraditórios, que nem mesmo
os matemáticos haviam conseguido obter uma imagem nítida, pela qual
os homens pudessem guiar-se.
Uma coisa
era certa: a dimensão temporal em que a K-238 se movia naquele
momento era diferente da anterior.
Só depois
do regresso ao espaço einsteiniano, saberiam se essa diferença
significaria um fluxo temporal mais lento ou mais rápido.
Rhodan
procurou descobrir em primeiro lugar se o sol verde era na realidade
um astro que justificava o nome que apressadamente lhe fora dado. E,
em caso afirmativo, se esse sol possuía planetas.
À bordo
da K-238, as tarefas haviam sido cuidadosamente distribuídas. Rhodan
acumulava as funções de comandante e piloto; Atlan, o arcônida,
estava sentado junto ao computador positrônico e calculava o curso
da nave ou interpretava os resultados indicados pelos instrumentos de
localização; Reginald Bell manipulava esses instrumentos; o Capitão
Gorlat ocupava o posto de artilheiro, e o Tenente Tompetch ficava na
reserva.
Dentro de
trinta minutos, a partir da trasladação para o plano temporal
estranho, os instrumentos haviam registrado o espectro do sol verde e
forneceram um diagrama, segundo o qual o diferencial de intensidade
nas radiações se verificava em função do comprimento das
respectivas ondas. Atlan, que foi o primeiro a examinar o diagrama,
soltou uma risada de deboche e disse que um espectro como este só
poderia servir para enlouquecer um espectroscópio. Dali a pouco,
Rhodan confirmou que esse espectro podia corresponder ao de um pedaço
de arame enferrujado e incandescente, nunca ao de um sol.
Em vez da
curva regular que o diagrama deveria apresentar, viu-se uma linha que
corria junto à abcissa, e que, no conjunto, seguia a direção
horizontal, apresentando a espaços irregulares ressaltos elevados e
pontudos. Um desses ressaltos foi registrado no comprimento de onda
de 5.600 angstrom e, ao que tudo indicava, constituía a origem da
cor verde do corpo luminoso.
Antes que
fosse formulada a conclusão de que não se tratava de um sol, mas de
outro fenômeno ainda desconhecido, os instrumentos registraram mais
um resultado. O corpo verde irradiava um campo de gravitação.
A
distância entre a nave K-238 e o sol verde era pouco superior a
dezoito unidades astronômicas. Face ao valor da gravitação medido
pelos instrumentos, e considerada a distância já referida,
concluiu-se que sua massa era de 9 vezes IO30 quilogramas, ou seja, a
metade da do sol terrano.
Só mesmo
um sol poderia ter uma massa como esta. E a constatação desse fato
pesou mais que o estranho espectro.
Mas o
fator decisivo foi uma descoberta que Reginald Bell fez dali a quinze
minutos, por meio de uma série de instrumentos ultra-sensíveis.
Estes registraram uma interferência no campo de gravitação, que só
poderia provir de outro campo, menos intenso. Após alguns instantes,
se demonstrou que o segundo campo gravitacional se deslocava em
relação ao primeiro. Com base na interferência inicial e em sua
alteração ao longo do tempo, calculou-se que o corpo do qual
provinha o segundo campo de gravitação devia ter uma massa de cerca
de 5 vezes 1024
quilogramas, o que correspondia a 0,83 vezes a massa da Terra.
Ninguém
teve a menor dúvida de que os instrumentos de Bell haviam descoberto
um planeta, e de que a luminosidade verde correspondia a seu sol.
Rhodan
decidiu imediatamente aproximar-se do planeta, até então invisível,
e tentar o pouso.
*
* *
O mundo
desconhecido só surgiu nas telas quando a nave K-238 se havia
aproximado cerca de oitocentos mil quilômetros.
Rhodan
reduziu a velocidade da nave a um nível que, em condições normais,
seria considerado ridículo. Mas, na situação em que se
encontravam, toda cautela era pouca.
Observava
a estranha imagem do planeta e ouvia distraidamente os resultados das
medições anunciados por Bell. Viu grandes massas de nuvens, que se
destacavam debilmente em sua cor turquesa contra a superfície do
planeta. Na própria superfície, constatou a presença de linhas,
que pareciam indicar uma espécie de articulação.
— Diâmetro:
cerca de onze mil quilômetros. Gravitação superficial 1,12 G;
valor normal. Camadas de absorção de nitrogênio, oxigênio e
argônio. Composição sessenta, trinta e cinco e quatro por cento,
respectivamente. Restante desconhecido.
“A
atmosfera tem um bom teor de oxigênio, e deve ser perfeitamente
respirável”,
pensou Rhodan. “Ao
menos é uma coisa que à primeira vista significa algo.”
Quando a
nave K-238 começou a penetrar nas camadas superiores da atmosfera,
os instrumentos de Bell constataram uma rotação do planeta em torno
de seu eixo. Efetuava uma rotação completa em dezoito horas e
alguns minutos.
De
repente, tudo aquilo já não parecia tão estranho assim.
Ao menos
no lugar em que a K-238 resolvera pousar, a superfície do planeta
era coberta por florestas de aspecto agradável, que se assemelhavam
a parques, grandes prados e pequenos rios. Estes corriam todos na
mesma direção e, ao que parecia, pretendiam unir-se em algum ponto
situado além da linha do horizonte.
Tinha-se a
impressão de que a K-238 acabara de descobrir um novo paraíso. Mas
havia outro fator que, ao menos nos primeiros minutos, representou
uma perturbação sensível dessa impressão. A atmosfera continha
traços de ácido sulfídrico. Esses traços constituíam parte da
parcela de um por cento que Bell não conseguira identificar durante
a manobra de aproximação, e causavam um cheiro nauseabundo.
Uma
análise cuidadosa revelou que a quantidade do gás venenoso era
suficiente para ativar os órgãos do olfato, mas não representava
qualquer perigo, motivo por que não havia a necessidade de utilizar
filtros.
Além
disso, o mau cheiro provocado pelo ácido sulfídrico é
perfeitamente suportável; depois de um tempo de adaptação o olfato
humano nem o percebe mais.
Foi
exatamente o que aconteceu com Rhodan e seus companheiros. Dali a uma
hora, quando haviam dado uma volta a pé pelos arredores da nave
auxiliar, nem sentiam mais o cheiro. Assim, voltaram a acreditar que
haviam descoberto um mundo paradisíaco.
A proposta
original de Reginald Bell, que sugeriu dar ao planeta o nome de
Fedorento, não provocou o menor comentário.
Rhodan
voltou à nave, depois de ter constatado que nas imediações desta
não havia nada que fosse digno de nota. Nesse meio tempo, o
computador positrônico concluíra a interpretação dos dados
reunidos durante a manobra de aproximação, e chegara à conclusão
de que, em nenhum ponto da superfície desse planeta, havia vestígios
de vida inteligente. Face a isso Rhodan disse:
— Nestas
condições, não vale a pena perdermos mais tempo por aqui. Um
planeta sem vida não poderá dar-nos qualquer informação sobre o
paradeiro do planeta Peregrino.
Não houve
nenhuma objeção. A K-238 foi preparada para a decolagem. Enquanto
isso, com base no trecho da trajetória conhecida do planeta, o
computador procurou calcular se em algum lugar havia outras
interferências gravitacionais ou, em outras palavras, se outro mundo
gravitava em torno do sol verde.
O
resultado foi interessante. A trajetória do mundo verde era
instável. A velocidade de seu movimento de translação era elevada
demais face ao diâmetro. Dali se concluía que, num tempo
previsível, o mundo verde se afastaria de seu astro central e
vagaria só pelo espaço purpúreo.
À
primeira vista, parecia não haver nada de extraordinário nisso. A
qualquer momento, se encontraria no Universo conhecido maior número
de órbitas instáveis que de órbitas estáveis. Isso decorria da
lei física segundo a qual o estado desorganizado é muito mais
provável que o estado organizado.
Uma coisa,
porém, era estranha.
— Acho
que todo mundo está de acordo sobre uma coisa — disse Rhodan. —
A instabilidade da órbita deste planeta deve ter surgido há pouco
tempo. Se tivesse existido sempre, neste mundo não se teria
desenvolvido qualquer vegetação. O surgimento de toda forma de
vida, mesmo as mais primitivas, exige um estado ordenado. Segundo
meus cálculos, a vida neste planeta só existe há algumas centenas
de milhões de anos.
Lançou um
olhar indagador em torno; mas, ao que parecia, só Atlan soube
interpretar sua observação.
— Quer
dizer que em sua opinião houve uma influência súbita? —
perguntou com um sorriso. — Uma irrupção gravitacional cm algum
lugar do espaço cósmico, que produziu uma aceleração do movimento
do planeta, ou então...?
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— A
coisa deve ter sido muito menos dramática, almirante — disse com
uma risada. — Para ser mais claro, acredito que o planeta Peregrino
deve ter surgido neste plano temporal próximo ao lugar em que nos
encontramos. Se passou bastante perto, pode ter provocado a
interferência.
Atlan
acenou com a cabeça, como se não esperasse outra resposta.
— Você
é um homem que não demora em tirar suas conclusões, bárbaro. E
agora?
Em vez de
responder, Rhodan colocou todos os controles dos propulsores na
posição zero. As luzes de controle apagaram-se.
— É
isto — disse Rhodan. — Ficaremos aqui. Se conseguirmos descobrir
quando se verificou a interferência, poderemos calcular a órbita do
planeta Peregrino.
— Oba! —
disse Atlan, erguendo as sobrancelhas. — Isso representa vinte e
seis equações com vinte e sete incógnitas. Trata-se de um problema
de três corpos, que faria os matemáticos mais geniais arrancarem os
cabelos.
Rhodan
sorriu e moveu a mão em direção ao painel de controle do
computador positrônico.
— Pois
que arranquem os cabelos!
*
* *
Agora, que
resolveram ficar, deram um nome a esse mundo. Chamaram-no de
Solitude, porque não poderiam imaginar um lugar mais solitário,
cheio de lindas plantas, no qual havia apenas seres parecidos com
aranhas e besouros.
Ninguém
tinha muita coisa a fazer, com exceção do computador positrônico,
que realizou as mais variadas combinações dos dados relativos à
intensidade integral das radiações do sol verde, à temperatura
superficial de Solitude, à sua massa e à velocidade com que
percorria sua trajetória, a fim de apurar a órbita originária
desse planeta. Se conseguisse descobrir isso, não seria difícil
calcular o tempo em que houvera a interferência na órbita. E, dali
em diante só restaria um único passo, embora complicado, para
determinar a órbita percorrida por Peregrino, desde que a hipótese
de Rhodan e Atlan correspondesse aos fatos.
Rhodan não
fez a menor objeção quando Bell, Gorlat e Tompetch resolveram
dormir e se retiraram para seus camarotes. Atlan permaneceu acordado,
mas depois de algum tempo também se retirou. Conforme disse,
desejava refletir sobre certas coisas.
Enquanto
atrás dele o computador positrônico trabalhava intensamente, Rhodan
contemplou a paisagem verde que se estendia além das paredes da
nave, e sobre a qual o sol começava a descer. Estudou os formatos
estranhos das árvores e concluiu que se pareciam simultaneamente com
carvalhos, pinheiros e gigantescos rabos-de-cavalo. Cada uma dessas
espécies vegetais parecia ter-lhes conferido algumas das suas
características.
Era um
mundo maravilhoso para os biólogos galácticos interessados pela
botânica.
As plantas
não se moviam. Ao que parecia, nenhum vento soprava. Quem tocasse os
estranhos talos ou as folhas das árvores teria a impressão de pegar
peças de metal duro. Rhodan já se familiarizara com o fenômeno no
mundo ao qual Rous dera o nome de Planeta de Cristal.
Mergulhou
em reflexões sobre o problema insolúvel dos diversos planos
temporais. Subitamente viu uma mancha escura surgida entre duas
robustas árvores, a cerca de quatrocentos metros de distância.
Tinha certeza de que há pouco não estivera lá.
O fato
despertou sua atenção. Num mundo em que o tempo corre setenta e
duas mil vezes mais devagar que em outros lugares, não há nada que
possa aparecer dentro de poucos minutos, nem mesmo uma mancha escura
entre duas árvores.
“Quem
dera que não houvesse esse verde,”
pensou Rhodan. “Parece
que essa cor não faz bem aos meus olhos.”
Demarcou
um pequeno quadrado n tela e modificou a regulagem das lentes da;
objetiva, a fim de que o respectivo setor fosse ampliado. À medida
que a escala aumentava, Rhodan teve a impressão cada vez mais nítida
de que aquilo visto entre as árvores era um ser humano. Não se
movia e parecia olhar em direção à nave. Não se reconhecia seu
rosto, nem se poderia dizer que tipo de roupa usava.
“Um
dos quatro deve ter saído sem me avisar”,
pensou Rhodan.
Mas como
não tivesse certeza absoluta, chamou todos os camarotes. Reginald
Bell, que podia permitir-se essa liberdade, não se mostrou nada
satisfeito por ter sido incomodado; o Capitão Gorlat anunciou sua
presença segundo os regulamentos e Mike Tompetch estava tão
sonolento que nem chegou a compreender o que desejavam dele.
Mas no
camarote de Atlan ninguém respondeu.
— Você
não perde por esperar, almirante! — disse Rhodan com um sorriso. —
Onde já se viu alguém sair da nave sem permissão do comandante?
Levantou-se
e foi até o posto de comando da artilharia.
“Seria
bem feito para o arcônida se um disparo de desintegrador com boa
pontaria derrubasse uma árvore perto dele e lhe metesse um tremendo
susto”,
pensou Rhodan.
Antes que
Rhodan chegasse ao lugar que costumava ser ocupado pelo Capitão
Gorlat, a escotilha abriu-se com um ligeiro ruído, mostrando Atlan,
o arcônida.
Embora
houvesse um sorriso em seu rosto, parecia um tanto perturbado. Rhodan
lançou um olhar ligeiro para a tela e viu que o vulto escuro
continuava parado entre as árvores.
Então
realmente era...!
— Receio
que preciso de um bom gole, Perry — disse Atlan.
O simples
fato de chamar Rhodan pelo primeiro nome provava que estava muito
perturbado.
— Por
quê? — perguntou Rhodan. Atlan sacudiu a cabeça.
— Nem me
pergunte. Você poderia pensar...
— Diga
logo!
Atlan
arregalou os olhos vermelhos, nos quais se notava uma expressão de
perplexidade.
— Vi um
homenzinho; no meu camarote! — disse em voz baixa e em tom
hesitante.
Para seu
espanto, a reação de Rhodan foi de tranqüilidade total. Virou-se e
apontou para a tela.
— Será
que foi este? — perguntou e, ao mesmo tempo, soltou um resmungo de
surpresa.
O vulto
que vira entre as duas árvores desaparecera.
Um bom
gole de uísque bem forte não teve outros efeitos sobre o estado
psicológico do arcônida senão os que teria produzido num terrano.
Atlan contemplou o copo vazio e disse:
— É
impossível. Por mais que você fale, não acredito. Foi um
homenzinho tão pequeno! — suas mãos indicaram uma altura de cerca
de vinte e cinco centímetros. — E era inteiramente humanóide.
Usava o traje de tripulante de nave terrana. Se além de tudo
considerarmos a escotilha fechada...
— Como
era ele? — perguntou Rhodan. — Conseguiu ver seu rosto?
Atlan deu
de ombros.
— Não
sei. Não consegui vê-lo muito bem. Mas era muito estranho. Era
como... ah, sim! Era como uma escultura ainda não concluída.
— Sei.
Como foi que entrou?
— Não
sei. Estava de costas para a escotilha, olhando para a tela. Quando
virei a cabeça, estava lá. Não fez o menor ruído. Ficou de pé
junto à mesa.
— O que
foi que ele fez?
— Nada.
Apenas olhou para trás. Movia-se com certa rapidez, ou melhor, com
uma rapidez espantosa para um ser do mundo em que nos encontramos.
— E
depois? Foi embora?
— Não
se pode dizer que tenha ido — objetou o arcônida. — Mal me
recuperei da surpresa e quis formular uma pergunta, ele desapareceu.
De um instante para outro, que nem um dos seus teleportadores.
— Hum! —
fez Rhodan. — Talvez seja um teleportador. Com isso também se
explicaria como conseguiu entrar pela escotilha fechada. Mas depois?
O que foi que você fez? Veio até aqui?
Atlan fez
um gesto afirmativo.
— Quer
saber de uma coisa? — disse. — É possível que seja um
teleportador. Mas será que entre seus mutantes existe um homem que
tenha apenas palmo e meio de altura?
Rhodan riu
baixinho.
— É
claro que não. Acontece que Solitude é um mundo estranho. Não
precisamos perder a cabeça por causa disso. Talvez exista...
— Você
está com a razão, bárbaro — disse Atlan com a voz retumbante. Ao
que parecia, acabara de recuperar o equilíbrio. — Talvez exista
uma explicação natural.
— Isso
mesmo — confirmou Rhodan e comprimiu o botão de alarma.
No momento
em que as sereias começaram a uivar, o arcônida estremeceu. O
incidente parecia tê-lo deixado muito nervoso, embora a essa altura
procurasse transmitir a expressão de tranqüilidade absoluta.
*
* *
O alarma
foi observado com a rapidez que geralmente se observa numa nave de
guerra. No momento em que as sereias silenciavam, Reginald Bell
irrompeu na sala de comando.
Foi
seguido de perto pelo Capitão Gorlat. O último a entrar foi o
Tenente Tompetch.
— Algum
dos senhores notou uma coisa extraordinária nesta última hora? —
perguntou Rhodan em tom oficial.
Reginald
Bell sacudiu a cabeça; parecia contrariado.
— E o
senhor, capitão?
— Não
senhor, não notei nada. Estava dormindo.
— Tenente...
— Não
senhor. Também estava dormindo.
Rhodan
relatou era rápidas palavras o que ele e Atlan haviam observado.
— Não
sabemos se por acaso sofremos uma alucinação — concluiu. — Aqui
em Solitude pode acontecer muita coisa que não corresponde às
nossas idéias. É claro que precisamos ter certeza. Capitão Gorlat,
reviste o camarote em que foi visto o homenzinho. Faça um trabalho
meticuloso. O senhor sabe o que está em jogo. Bell, você asssumirá
o comando da nave. Enquanto isso Atlan e eu daremos uma olhada no
lugar em que vi o desconhecido. Tenente Tompetch, você se manterá
em contato conosco pelo rádio.
Ao
anoitecer, o céu cobriu-se com um estranho marrom que, de início,
tinha a aparência de azeitonas sujas, mas aos poucos foi perdendo
essa tonalidade e cambiando para o vermelho.
“É
uma mistura de cores”,
penso Rhodan. “O
verde do dia e o vermelho púrpura do espaço se misturam, produzindo
o marrom. Quando o sol tiver aparecido veremos apenas o vermelho.”
Constatou
que cometera um erro considerável enquanto observara a estranha
figura negra entre as árvores. A distância não fora a que
calculara. Em vez de quatrocentos metros, teve de percorrer
oitocentos antes de atingir, juntamente com o arcônida, as duas
árvores entre as quais se encontrara o estranho.
— Atingi
o lugar, tenente — disse Rhodan, falando para dentro do pequeno
aparelho de rádio. — O senhor nos vê?
— Sim
senhor — respondeu Tompetch — Por enquanto ainda os vejo muito
bem Mas está escurecendo depressa.
— Muito
bem. Qual é o nosso tamanho?
— Diria
que são do tamanho de dedo polegar.
— Obrigado;
isso basta. Mantenha-si em recepção.
Fitou
Atlan.
— Que
pena, almirante! Pensei que se anão se tivesse transformado num
gigante. Acontece que, quando o vi, também tinha o tamanho de um
polegar.
Procuraram
descobrir alguma pista. Quando escureceu a ponto de não enxergarem
nada, Rhodan tirou uma lanterna pequena, mas potente, e iluminou o
chão.
— O
capim é muito duro — murmurou o arcônida. — Não poderia ter
deixado uma pista igual às que estamos acostumados a ver. O capim
não cede nem ao peso de um homem.
Rhodan
iluminou o caminho que haviam percorrido. Estava assinalado por
ta-los de capim quebrados, como se uma ceifadeira tivesse aberto uma
trilha estreita.
— Ceder
não cede — disse. — Mas quebra. É duro e quebradiço. Se aqui
tivesse estado alguém que pesasse mais de cinqüenta gramas,
deveríamos descobrir algum sinal.
Atlan
ergueu-se com um suspiro.
— Acontece
que não se vê nada, administrador. Qual é a conclusão que se deve
tirar disso?
Rhodan
sorriu.
— É
melhor que você mesmo tire suas conclusões, amigo. Não gosto de
abrir a boca antes da hora.
Atlan
sacudiu os ombros e espalmou as mãos.
— Que
conclusão poderíamos tirar? Foi uma alucinação; só isso.
Rhodan
esteve a ponto de responder. Pretendia dizer que não acreditava ter
sido uma alucinação, que devia haver outra explicação. Mas, nesse
momento, sentiu que havia alguma coisa atrás dele. Chegou sentir
quase fisicamente que estava sendo observado de dentro da escuridão
marrom.
Sua reação
foi puramente automática. Agiu instintivamente e seu gesto foi tão
rápido que se verificou antes que o susto atingisse o cérebro e
paralisasse o raciocínio. O largo feixe de luz atingiu um vulto que
parecia flutuar acima do solo a alguns metros do lugar em que se
encontrava. Parecia balouçar-se suavemente no vento. Num vento que
não existia em Solitude.
Rhodan
ficou espantado ao constar que a luz da lâmpada atravessava o vulto
Ao menos, parte dela desenhou um círculo num tronco de árvore que
ficava atrás do...
— O que
é isso?
Atlan pôs
a mão no cinto e arrancou arma, antes que Rhodan tivesse tempo de
fazer um gesto de advertência e gritar:
— Não
se precipite! Ainda não sabemos o que ele quer.
Enquanto
proferia estas palavras, procurou descobrir quem era “ele”,
que continuava a balouçar-se num vento imaginário e não se
incomodava com a luz ofuscante da lanterna; parecia até que nem a
percebia.
Envergava
o macacão cinzento que os tripulantes das naves terranas costumam
usar em serviço. Acontece que esse macacão, que costumava ser feito
de fazenda grosseira e resistente, era transparente. Usava as mesmas
botas de cano alto e fecho magnético que Rhodan trazia nos pés. Mas
estas não atingiam o chão que se encontrava embaixo deles,
enquanto, sob os pés de Rhodan, os talos de capim quebravam-se com
leves estalidos. Parecia ter uma cabeleira bastante espessa; mas não
havia como reconhecer-lhe o rosto.
— Está
bem, meu caro — disse Atlan em tom irônico. — O fato é que
temos de fazer alguma coisa. Não nos adiantará nada ficar apenas
olhando. Ei, quem é você?
O forte
grito provocou um eco grotesco, refletido pelos troncos lisos e duros
como diamantes. Mas o vulto não reagiu.
Rhodan
avançou um passo; o vulto moveu-se, afastando-se igual distância.
Não caminhava, mas deslizava por cima do capim. Rhodan deu mais um
passo, e o resultado foi o mesmo.
— Se eu
desse uma volta, talvez pudéssemos pegá-lo — disse Atlan.
— Pegá-lo
com quê? Ele escaparia entre nossos dedos como uma nuvem de vapores
frios.
— Que
diabo! Temos de fazer alguma coisa!
Sua voz
parecia nervosa e irritada. Antes que concluísse a frase, o vulto
moveu-se pela terceira vez, sem que ninguém se tivesse aproximado.
Rhodan fez
com que o raio de luz seguisse o desconhecido. Passou por uma árvore
e saiu para o campo aberto. Manteve o rosto esquisito e grosseiro
voltado para trás, como se quisesse ver se alguém o seguia.
— Vamos
atrás dele! — decidiu Rhodan. — Seria interessante descobrir
aonde vai.
Informou
Tompetch sobre o incidente e mandou que, dali em diante, usasse o
aparelho de localização de luz infravermelha.
— Procure
não nos perder de vista — concluiu. — Talvez precisemos de
auxílio.
Seguiu o
vulto juntamente com Atlan. O fato de que alguém vinha atrás dele
não parecia incomodar o desconhecido. Não aumentou de velocidade e
continuou a deslizar por cima do capim, sem deixar qualquer pista.
Não foi
nada fácil segui-lo. O capim era quebradiço, mas assim mesmo dava a
impressão de se tratar de um exército enorme de anões que apontava
as lanças de aço para os intrusos. Uma única folha que penetrasse
por uma emenda mal feita do sapato poderia provocar ferimentos
graves.
Pelos
cálculos de Rhodan, já se haviam afastado cerca de três
quilômetros da nave K-238. O amplo feixe de luz mostrou uma elevação
que atravessava o campo de visão em altura uniforme. O desconhecido
subiu pela encosta e desapareceu atrás do cume. Atlan e Rhodan
continuaram a segui-lo. Quando chegaram ao cume, viram que o ser
estranho parará na outra encosta. Aos seus pés, havia uma mancha
escura. Talvez ali o capim estivesse queimado.
O
desconhecido parecia apenas esperar que a luz da lanterna de Rhodan
surgisse no topo da colina e o iluminasse. Quando isso aconteceu,
desceu lentamente para dentro da mancha escura, como se quisesse
fazer uma demonstração de seu ato. Desapareceu em alguns segundos.
— Pegue
a arma, almirante! — disse Rhodan sem olhar para o arcônida.
Desceram
pela encosta e, quando haviam vencido metade do caminho, viram à luz
da lanterna que a mancha escura não era outra coisa que uma abertura
que parecia descer verticalmente no solo. Era quase circular e tinha
um diâmetro de aproximadamente um metro e meio. Pararam na borda e
Rhodan dirigiu a luz para o interior da abertura. Viram que a
abertura só descia verticalmente por um metro e meio e, depois
disso, seguia para um lado. Não se sabia para onde conduzia.
— Vamos
descer — sugeriu Atlan.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— É
muito perigoso — disse. — Precisamos pelo menos de um homem que
monte guarda aqui em cima.
Chamou
Tompetch.
— Siga-nos!
— ordenou. — Pegue um desintegrador e um aparelho de rádio
portátil e venha até aqui. Será fácil reconhecer nossa pista no
capim. Para facilitar a orientação, dirigirei a luz da lanterna
para cima.
Tompetch
confirmou o recebimento da ordem e disse que dentro de trinta
minutos, o mais tardar, chegaria ao lugar em que Rhodan se
encontrava.
3
— O que
será isso? — perguntou Atlan depois de um silêncio prolongado. —
O que se poderia imaginar atrás de uma formação imaterial que tem
a aparência de homem e usa o macacão da Frota Espacial Terrana?
— Para
dizer a verdade, nem sei o que pensar — respondeu Rhodan. — Faço
votos de que lá embaixo encontremos uma explicação — apontou
para dentro da galeria.
Depois de
algum tempo, acrescentou:
— Cabe
ponderar que não se trata simplesmente de fenômeno imaterial. Não
é uma projeção muito sofisticada. Aquilo possui inteligência;
parece ser um verdadeiro espírito.
— Um
fantasma, não é? — disse Atlan em tom irônico.
— Talvez.
Resta saber o que devemos entender por fantasma.
A palestra
parecia resvalar para o campo da metafísica, em virtude da falta de
dados.
Naquele
instante, os passos ruidosos do Tenente Tompetch soaram no topo da
colina. Aproximou-se, parou à luz da lanterna e fez uma continência
impecável.
— Tompetch,
vamos descer neste buraco. Mantenha a arma preparada para disparar e
fique de ouvido encostado no receptor. Não sei o que nos espera lá
embaixo — disse Rhodan.
Tompetch
agachou-se junto à abertura, enquanto Rhodan descia, segurando-se na
borda e soltando as mãos assim que sentiu que seus pés haviam
encontrado apoio. Mas o chão da galeria era inclinado e não
proporcionava o necessário apoio aos seus pés...
Desceu por
um tobogã poeirento, mas surpreendentemente liso, precipitou-se com
velocidade cada vez maior para o interior da terra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário