quinta-feira, 11 de abril de 2013

P-068 - A Caça das Dimensões - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN




O planeta Peregrino desapareceu — será
que os imortais terão de morrer?







O ano 2.042 representa um marco decisivo na vida dos dois homens mais proeminentes do Império Solar. É este o ano, durante o qual Perry Rhodan e Reginald Bell têm de tomar outra ducha celular, pois do contrário morrerão dentro de poucos dias...
A órbita elíptica do planeta Peregrino foi calculada com toda a precisão. No entanto, algo de estranho aconteceu: o planeta da fonte da vida eterna havia desaparecido...








= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Reginald Bell — Principal colaborador de Rhodan.

Atlan — O arcônida imortal.

Gorlat — Bravo capitão terrano.

Tompetch — Tenente, um tanto inexperiente.

A inteligência do planeta Solitude — Ser cilíndrico e cinzento, de grandes dimensões.

1



O cabo da grossura de um braço humano, que corria por uma fenda no trilho do hangar e terminava num recipiente em forma de tubo, preso à nave esférica, fornecia todas as informações necessárias à K-238. Nas telas da nave, que deveriam estar apagadas, uma vez que as escotilhas da comporta do gigantesco hangar ainda estavam fechadas, via-se um tapete luminoso formado por inúmeros pontos, que cobriam o fundo negro do espaço infinito. Dos receptores saíam os ruídos que enchiam a sala de comando da Drusus, em cujo hangar continuava guardada a K-238.
O zumbido monótono foi cortado por outro som, quando os aparelhos geradores do campo de reflexão entraram em funcionamento. Nas telas da K-238 surgiram vestígios de um corpo nebuloso de formato circular. Parecia que naquele lugar o espaço vazava, deixando penetrar um pouco de vapor vindo de outro Universo. O estranho anel cresceu e tornou-se cada vez mais nítido.
Os cinco homens na pequena sala de comando da K-238 olhavam-no atentamente. Não havia nada em seus rostos ou atitudes que revelasse que aquele estranho anel os atemorizasse. Era da existência desse anel e da força concentrada nele que dependeria, dali em diante e por um tempo indeterminado, a vida do grupo.
Perry Rhodan apoiava a cabeça nas mãos e dedicava sua atenção à pequena tela do receptor de telecomunicação.
Subitamente, sem qualquer aviso prévio, a tela iluminou-se. Com um movimento indiferente da mão direita, estabeleceu o contato e viu a enorme cabeça de Sikermann na tela.
Pronto, chefe — anunciou Sikermann. — O comando pode ser dado.
Há quanto tempo está conosco?”, indagou-se mentalmente Rhodan. “Há dezoito anos. Bem que poderia falar um inglês melhor. Ainda continua com um forte sotaque da Europa Continental.”
É estranho que muitas vezes, nos momentos de maior tensão, a gente pensa em ninharias.
Rhodan respondeu:
Está bem, Sikermann. Decolaremos daqui a doze minutos, exatamente às 20:45, tempo de bordo. Transmita as necessárias instruções. Use a catapulta. Quero ficar com as mãos livres.
Sikermann fez continência. De repente disse:
Sir.
Pois não.
Eu... quero dizer, todos nós lhe desejamos êxito total.
Rhodan acenou com a cabeça. Em seus lábios havia um sorriso.
Obrigado. Se tivermos um pouco de sorte, deveremos conseguir.
A imagem apagou-se. Alguém suspirou, como se naquele instante se desse conta de que, por muito tempo, esta seria a última comunicação mantida pela K-238 com qualquer ser humano que se encontrasse fora de suas paredes de metal plastificado.
Outra pessoa praguejou. Era Reginald Bell.
Rhodan fechou os olhos e pensou, analisando o caminho que haviam percorrido até então:
Será que o que fizemos foi correto? Será que as hipóteses estão certas? Será que há uma base para nossas suposições e para as conclusões arrojadas que Atlan, o arcônida, extrai das suposições?
Os relógios de bordo da K-238 mostravam o dia 17 de janeiro de 2.042 do calendário terrano.
Como foi mesmo que a história começou?
Foi no dia cinco de janeiro, a algumas centenas de anos-luz dali, no planeta Vênus...

* * *

Cruzador Solar System, comandado por Bell, anuncia regresso do setor quatro, órbita vinte e um — disse uma voz áspera e retumbante. — Cautelas usuais. Setores um a sete devem ser evacuados imediatamente. Desligo.
Na periferia do gigantesco campo de pouso, havia uma série de edifícios iguais aos que eram encontrados nas proximidades de qualquer espaçoporto: alojamentos dos homens das equipes de manutenção, depósitos de materiais, um pequeno hospital e um edifício baixo e comprido, que abrigava o escritório do oficial de serviço e de sua equipe. Tudo parecia simples e prático sob o céu quente e encoberto. O espaçoporto no grande continente do hemisfério norte de Vênus estava reservado exclusivamente à frota de guerra terrana. Seus construtores não tiveram necessidade de quebrar a cabeça sobre os gigantescos prédios de recepção, postos aduaneiros e edifícios destinados aos passageiros.
Nas montanhas que ficavam ao norte do espaçoporto, estava oculta a antiga base arcônida, que Perry Rhodan havia descoberto há setenta anos e cujo único construtor, Atlan, o imortal, começava a fazer amizade com o administrador. Uma das peças componentes da base era o gigantesco centro positrônico de computação: o cérebro e o coração incumbidos de todos os cálculos físicos e políticos do Império Solar. E, principalmente, era o único aparelho de sua espécie capaz de calcular a órbita do mundo artificial que a algumas centenas de anos-luz descrevia uma órbita sinuosa em torno de vários centros de gravidade. O cálculo era feito num curto espaço de tempo, usando apenas um pequeno trecho dessa órbita e alguns dados adicionais.
Era a órbita do planeta Peregrino.
Numa pequena sala do edifício de escritórios, surpreendentemente confortável, Perry Rhodan e Atlan, o arcônida, estavam sentados frente a frente. Cada qual estava imerso em seus pensamentos e demonstrava pouca receptividade para o panorama — grandioso na sua solidão — oferecido pelo amplo espaçoporto com os traços retos e negros, representando a selva venusiana que começava em sua periferia.
Bem acima do campo espacial surgiu um ponto luminoso que cresceu rapidamente e começou a descer. Uma forte onda de vento varreu toda a área, e foi seguida pelo ruído trovejante de uma espaçonave que avançava apressadamente pelas camadas densas da atmosfera.
Estão com pressa — disse Atlan. Rhodan levantou-se e foi até a janela, como se dali pudesse ver melhor a bola luminosa, formada pela nave que pousava naquele instante.
Também já adivinhei isso — respondeu em tom distraído.
Administrador, se você lhes tivesse permitido transmitir uma mensagem de hipercomunicação, poderia ter-se poupado dois longos dias de espera — disse Atlan em tom irônico.
Rhodan virou-se e encostou-se ao peitoril da janela.
Só assim seu chefe supremo, almirante, poderia captar a mensagem e, por meio de sua genial capacidade de adição, subtração, potenciação e... de correntes positrônicas, determinar pelo meio mais rápido a posição galáctica da Terra, não é?
O arcônida fez um gesto de desprezo.
A chance seria muito reduzida. Não é fácil captar uma mensagem direcional.
A chance seria reduzida, mas existia. Acontece que não quero dar-lhe nenhuma chance.
Atlan também se levantou.
Certo; você tem razão, bárbaro. Apenas sinto que você está muito nervoso. Qualquer um vê sua exaltação.
Rhodan bateu com o dedo na vidraça.
O que está lá fora irá tranqüilizar-me — disse com um sorriso.
Cerca de quinhentos metros acima do campo espacial, os fenômenos luminosos e o ruído provocado pela Solar System e pela pressão das camadas de ar que preenchiam o vácuo formado por seu deslocamento atingiram o auge. A incandescência das partículas ionizadas cessou no momento em que a nave atingiu a velocidade usual de descida e pousou suavemente sobre a área cinzenta.
Uma coluna de veículos-plataforma, abertos, saiu dos edifícios em que ficavam os depósitos e parecia querer passar velozmente por baixo da nave que estava pousando. No entanto, acabou parando próxima do passadiço que saía da escotilha da nave.
Estão desenvolvendo uma atividade incrível — disse Atlan.
Pelo tom de sua voz percebia-se que realmente estava admirado.
O carro parou junto à entrada principal. Dois homens saltaram. Ambos eram de estatura mediana e ruivos. O mais “robusto” ostentava as insígnias de comandante, enquanto o outro, um tipo corriqueiro, envergava o uniforme de capitão.
Passos ruidosos soaram no corredor. A porta que dava para a pequena sala confortável abriu-se violentamente. Reginald Bell parou no limiar e, em vez de cumprimentar, disse:
Nada, absolutamente nada!
O silêncio que se seguiu a estas palavras foi quase completo.
Atlan, o arcônida, continuava de pé nas proximidades da janela. Parecia alheio e desinteressado. Dedicava sua atenção a Rhodan, cujas reações observava.
Mas não viu em Perry outra coisa senão um ligeiro entesamento dos músculos do queixo, fazendo com que, por alguns segundos, as maçãs do rosto ficassem bastante salientes. Dali a pouco, Rhodan apresentava o aspecto de quem acabava de receber uma notícia insignificante e pouco interessante.
Entre — disse. — O senhor também, capitão. Gostaria de ouvir um relatório detalhado.
Reginald Bell deixou-se cair numa poltrona.
O Capitão Gorlat ficou de pé. Atlan tirou uma garrafa bojuda e alguns copos de um pequeno armário, encheu-os e ofereceu-os a Bell e ao capitão.
Bell esvaziou seu copo de uma só vez. Depois disse:
Não há muita coisa para contar. Quando chegamos ao ponto indicado nos cálculos do computador positrônico, não encontramos nada. Não havia absolutamente nada num raio de mais de seis anos-luz.
É claro que procuramos encontrar uma pista. O planeta solta hidrogênio enquanto percorre o espaço. Acontece que não encontramos uma única molécula de hidrogênio pelo caminho. Ficamos um dia inteiro junto aos instrumentos de localização. Com exceção de um único bólido, mais nada apareceu nas telas. O planeta Peregrino desapareceu.”
Rhodan fitou Gorlat. O capitão compreendeu o olhar.
O mecanismo propulsor está em bom estado, Sir. Não existe a menor possibilidade de ter havido uma falha no salto. Realizamos duas transições experimentais, e sempre atingimos o ponto previsto. O espaço em torno do ponto indicado pelo computador positrônico estava livre de qualquer perturbação. Não havia tempestades magnéticas, colisões de planos temporais, absolutamente nada. A única conclusão que se pode tirar de tudo isso é a que já foi exposta pelo comandante Bell.
Peregrino desapareceu — repetiu Reginald Bell, depois de ter esvaziado mais um copo. — O velho pregou-nos uma peça.
Talvez queira que resolvamos as mesmas charadas de sessenta e seis anos atrás.
Rhodan sacudiu a cabeça. Deu alguns passos, cruzou as mãos nas costas e parou diante de Atlan. Este ainda segurava a garrafa. Rhodan fitou-o e disse com um sorriso:
Dê-me um copo. Estou precisando.

* * *

Peregrino desaparecera. O mundo que, segundo as palavras de seu criador e dono, garantiria a vida eterna a Rhodan, não foi encontrado.
No ano de 1.976, Rhodan fizera a primeira visita a esse mundo e a seu dono — a consciência acumulada de uma raça há muito desaparecida. Essa visita teve uma importância decisiva...
Ele e Reginald Bell, seu companheiro de lutas desde os primeiros dias do vôo histórico à Lua, foram julgados dignos da ducha celular que representaria sessenta e dois anos de vida sem qualquer envelhecimento. Findo esse tempo, o Ser estranho — senhor do planeta Peregrino — ordenou-lhes que deveriam aparecer de novo no planeta, a fim de serem presenteados com mais sessenta e dois anos. Havia uma tolerância de três meses. Em virtude de um retardamento do fluxo temporal que os atingira por ocasião de sua primeira viagem ao planeta Peregrino, só voltaram à Terra no ano de 1.980.
Agora, no ano de 2.042, o prazo havia chegado ao fim. Para sermos mais exatos, o dia 1o de fevereiro de 2.042 e o dia 1o de maio de 2.042 seriam as datas-limite para a ida ao planeta Peregrino. Se ultrapassassem o prazo, as funções corporais diminuiriam imediatamente. Se não houvesse outra ducha celular, o organismo recuperaria em poucos dias a decadência que fora detida durante sessenta e dois anos. Uma semana depois do dia 1o de maio, Perry Rhodan e Reginald Bell seriam anciãos de mais de cem anos de idade, que já se encontrariam com um pé na cova.
Porém o planeta Peregrino havia desaparecido.
Tenho certeza de que o velho nos está tapeando — afirmou Reginald Bell em tom obstinado.
Dormira ininterruptamente durante dez horas, e o descanso lhe restituíra a combatividade e seu enorme otimismo.
Aquilo que ele designava como o velho era o Ser do planeta Peregrino, um verdadeiro monstro de força espiritual. Incorporara todo o saber de uma raça e não estava ligado a qualquer corpo.
Rhodan não era da mesma opinião de Bell.
Afinal, ele nos garantiu a ativação celular — ponderou, sacudindo a cabeça. — Por que iria mentir?
Sei lá! — esbravejou Bell. — De qualquer maneira, não confio nesse sujeito. Nunca confiei.
Encontravam-se agora num recinto subterrâneo da velha base arcônida. A alguns corredores adiante ficava o centro de controle do grande computador positrônico. Mas, mesmo aqui, ouvia-se o zumbido das máquinas que trabalhavam no limite máximo de sua potência.
Não — disse Rhodan em tom decidido. — O desaparecimento do planeta Peregrino deve ter outro motivo, ou melhor, outra causa.
Atlan, que até então se mantivera em silêncio, olhou de esguelha para Rhodan.
Até parece que você suspeita de alguma coisa — disse.
Rhodan deu de ombros.
Por que vamos falar sobre suposições, se daqui a alguns minutos a máquina concluirá o processamento dos dados?
Atlan respondeu com um sorriso:
Apenas estaria interessado em saber se você pensa a mesma coisa que eu, bárbaro.
Mantiveram silêncio sobre seus pensamentos. Mas o computador positrônico expeliu suas idéias francas perfuradas numa placa metálica, conforme correspondia a seu “caráter”.
Peregrino fora vitimado por uma superposição de dois planos temporais. Segundo as indicações da máquina, a probabilidade de que a informação era correta chegava a mais de oitenta e um por cento.
Foi disso que você desconfiou? — perguntou Atlan.
Naturalmente — respondeu Rhodan. — Os druufs “engoliram” Peregrino, tal qual fizeram com Mirsal e outros mundos. Apenas estranho uma coisa.
O que é?
Será que o ser que habita o planeta Peregrino não teve nenhuma possibilidade de defender-se dos druufs? Será que não pôde esboçar a menor defesa ao ser engolido?
Atlan parecia pensativo. Depois de algum tempo, respondeu:
Sei perfeitamente que nas cabeças de vocês anda a idéia de que o dono do planeta Peregrino é um ser quase onipotente. Acontece que você geralmente costuma agir como um homem razoável e, por isso mesmo, já deveria ter compreendido, administrador, que evidentemente essa onipotência não passa de ficção. Todo poder tem seus limites, e não é nada difícil imaginar que os druufs sejam superiores ao ser que Bell designa como o velho.
Rhodan sacudiu energicamente a cabeça.
Quanto a mim, não consigo imaginar uma coisa dessas. Meu caro, você não viu o que nós vimos no planeta Peregrino. Não; para mim existe outro mistério a ser solucionado.
Pois esforce-se para solucioná-lo, bárbaro — disse o arcônida com uma risadinha. — Você não tem muito tempo para adivinhar. Hoje é o dia 6 de janeiro, segundo o calendário terrano.

* * *

O passo seguinte estava perfeitamente traçado.
O computador positrônico calculou o trecho de órbita que o planeta Peregrino deveria ter percorrido desde o momento em que os druufs apareceram pela última vez até o dia 5 de janeiro de 2.042.
Rhodan mandou equipar às pressas uma nave auxiliar do tipo girino com geradores de campo de refração. Eram os únicos aparelhos que permitiam a passagem para o outro plano temporal, abrindo, por assim dizer, uma porta que ligava as duas dimensões do tempo. Depois, Perry pôs-se a caminho com a Drusus, que levava a bordo o girino com esse equipamento, dirigindo-se ao setor em que o planeta Peregrino deveria ter percorrido sua órbita.
O couraçado Drusus já fora equipado durante uma operação anterior com o gerador de campo de refração. Se alguma das naves da frota terrana era capaz de enfrentar o perigo representado pelos druufs essa nave só poderia ser a Drusus.
A tecnologia terrana ligada à criação de campos de refração fora descoberta há mais de um ano, de certa forma por acaso. No curso dos acontecimentos que se desenrolaram no mundo de cristal foi aperfeiçoada. O aperfeiçoamento chegou a tal ponto que agora permitia a passagem para outro plano temporal em qualquer lugar onde a superposição dos dois planos houvesse ocorrido ou estivesse ocorrendo.
Portanto, a tarefa da Drusus consistiria exclusivamente em percorrer a órbita do planeta Peregrino com os campos de refração ativados. Se realmente ocorrera uma superposição dos dois planos, conforme afirmava o computador positrônico, e se o planeta Peregrino fora atingido pela mesma, a nave penetraria no outro plano temporal, utilizando seu campo de refração, assim que atingisse a área de superposição.
E foi o que aconteceu...
A Drusus penetrou num espaço cheio de luminosidade vermelho-escura, observada antes, e que, segundo tudo indicava, não preenchia outra finalidade senão abrigar um sol que emitia uma luminosidade verde-cinza.
Os estranhos fenômenos luminosos não abalaram ninguém, pois já haviam sido observados antes. Os instrumentos da Drusus determinaram a distância entre a nave e o sol verde: quarenta e cinco unidades astronômicas. Rhodan teve todo motivo para desconfiar desse resultado, pois por várias vezes já se constatara que as medidas convencionais do contínuo einsteiniano têm uma validade bastante restrita ou mesmo nula, quando trasladadas para outro plano temporal.
Em hipótese alguma, Rhodan queria expor a Drusus aos riscos de correntes do ajuste temporal, motivo por que, depois de uma ligeira permanência no universo vermelho, retornou através da lente formada pelos campos de refração.
Já se sabia em que ponto se verificara o desaparecimento do planeta Peregrino. Também se sabia que, no plano temporal normal, nada se poderia descobrir sobre o paradeiro do planeta artificial.
O girino K-238, equipado com geradores de campos de refração, foi preparado para a decolagem. Rhodan preferiu não levar a tripulação normal numa operação arriscada como aquela. Em caso de necessidade todas as funções do girino, inclusive as do posto de artilharia, poderiam ser executadas por cinco homens.
Além de Atlan, o arcônida, e de Reginald Bell, escolheu como companheiros de viagem o Capitão Gorlat e o Tenente Tompetch.
Eram estes os cinco homens que no dia 17 de janeiro de 2.042 se encontravam na pequena sala de comando da nave K-238, suspirando, praguejando ou fitando ansiosamente a tela de imagem.
2



A decolagem foi realizada automaticamente, assim que o relógio atingiu a marca das 20 horas e 45 minutos. O cabo que até então mantivera a ligação com o Interior da nave soltou-se. Na tela panorâmica da K-238, surgiu o quadro iluminado, mas insignificante, do grande hangar de naves auxiliares. Na extremidade oposta deste hangar, a escotilha interna da comporta começava a abrir-se.
Depois de alguns segundos, a K-238 entrou em movimento. Sustentada por um campo artificial de gravitação, planou para o interior da comporta e ali permaneceu, enquanto a escotilha interna se fechava e a externa começava a abrir-se.
O anel do campo de refração voltou a aparecer; seu centro coincidiu com o ponto central da tela de proa.
Rhodan viu a escotilha encostar-se à parede da nave; a luz verde, que liberava a decolagem, acendeu-se.
Com um súbito solavanco, a escotilha da comporta deslizou para o lado. O anel do campo de deflexão parecia saltar sobre a nave auxiliar. Mas, num instante tudo desapareceu: o anel, o tapete luminoso formado pelas inúmeras estrelas, a Drusus.
Um vermelho-carregado passou a envolver a pequena nave, e das profundezas de um espaço desconhecido e apavorante brilhava a bola de fogo ofuscante do sol verde.
O salto fora bem sucedido.

* * *

Sabiam que, dali em diante, tinham de contar com uma dimensão temporal diferente. Talvez o termo contar não fosse adequado, pois os fenômenos que se verificavam no mundo purpúreo eram tão variados, estranhos e muitas vezes aparentemente contraditórios, que nem mesmo os matemáticos haviam conseguido obter uma imagem nítida, pela qual os homens pudessem guiar-se.
Uma coisa era certa: a dimensão temporal em que a K-238 se movia naquele momento era diferente da anterior.
Só depois do regresso ao espaço einsteiniano, saberiam se essa diferença significaria um fluxo temporal mais lento ou mais rápido.
Rhodan procurou descobrir em primeiro lugar se o sol verde era na realidade um astro que justificava o nome que apressadamente lhe fora dado. E, em caso afirmativo, se esse sol possuía planetas.
À bordo da K-238, as tarefas haviam sido cuidadosamente distribuídas. Rhodan acumulava as funções de comandante e piloto; Atlan, o arcônida, estava sentado junto ao computador positrônico e calculava o curso da nave ou interpretava os resultados indicados pelos instrumentos de localização; Reginald Bell manipulava esses instrumentos; o Capitão Gorlat ocupava o posto de artilheiro, e o Tenente Tompetch ficava na reserva.
Dentro de trinta minutos, a partir da trasladação para o plano temporal estranho, os instrumentos haviam registrado o espectro do sol verde e forneceram um diagrama, segundo o qual o diferencial de intensidade nas radiações se verificava em função do comprimento das respectivas ondas. Atlan, que foi o primeiro a examinar o diagrama, soltou uma risada de deboche e disse que um espectro como este só poderia servir para enlouquecer um espectroscópio. Dali a pouco, Rhodan confirmou que esse espectro podia corresponder ao de um pedaço de arame enferrujado e incandescente, nunca ao de um sol.
Em vez da curva regular que o diagrama deveria apresentar, viu-se uma linha que corria junto à abcissa, e que, no conjunto, seguia a direção horizontal, apresentando a espaços irregulares ressaltos elevados e pontudos. Um desses ressaltos foi registrado no comprimento de onda de 5.600 angstrom e, ao que tudo indicava, constituía a origem da cor verde do corpo luminoso.
Antes que fosse formulada a conclusão de que não se tratava de um sol, mas de outro fenômeno ainda desconhecido, os instrumentos registraram mais um resultado. O corpo verde irradiava um campo de gravitação.
A distância entre a nave K-238 e o sol verde era pouco superior a dezoito unidades astronômicas. Face ao valor da gravitação medido pelos instrumentos, e considerada a distância já referida, concluiu-se que sua massa era de 9 vezes IO30 quilogramas, ou seja, a metade da do sol terrano.
Só mesmo um sol poderia ter uma massa como esta. E a constatação desse fato pesou mais que o estranho espectro.
Mas o fator decisivo foi uma descoberta que Reginald Bell fez dali a quinze minutos, por meio de uma série de instrumentos ultra-sensíveis. Estes registraram uma interferência no campo de gravitação, que só poderia provir de outro campo, menos intenso. Após alguns instantes, se demonstrou que o segundo campo gravitacional se deslocava em relação ao primeiro. Com base na interferência inicial e em sua alteração ao longo do tempo, calculou-se que o corpo do qual provinha o segundo campo de gravitação devia ter uma massa de cerca de 5 vezes 1024 quilogramas, o que correspondia a 0,83 vezes a massa da Terra.
Ninguém teve a menor dúvida de que os instrumentos de Bell haviam descoberto um planeta, e de que a luminosidade verde correspondia a seu sol.
Rhodan decidiu imediatamente aproximar-se do planeta, até então invisível, e tentar o pouso.

* * *

O mundo desconhecido só surgiu nas telas quando a nave K-238 se havia aproximado cerca de oitocentos mil quilômetros.
Rhodan reduziu a velocidade da nave a um nível que, em condições normais, seria considerado ridículo. Mas, na situação em que se encontravam, toda cautela era pouca.
Observava a estranha imagem do planeta e ouvia distraidamente os resultados das medições anunciados por Bell. Viu grandes massas de nuvens, que se destacavam debilmente em sua cor turquesa contra a superfície do planeta. Na própria superfície, constatou a presença de linhas, que pareciam indicar uma espécie de articulação.
Diâmetro: cerca de onze mil quilômetros. Gravitação superficial 1,12 G; valor normal. Camadas de absorção de nitrogênio, oxigênio e argônio. Composição sessenta, trinta e cinco e quatro por cento, respectivamente. Restante desconhecido.
A atmosfera tem um bom teor de oxigênio, e deve ser perfeitamente respirável”, pensou Rhodan. “Ao menos é uma coisa que à primeira vista significa algo.”
Quando a nave K-238 começou a penetrar nas camadas superiores da atmosfera, os instrumentos de Bell constataram uma rotação do planeta em torno de seu eixo. Efetuava uma rotação completa em dezoito horas e alguns minutos.
De repente, tudo aquilo já não parecia tão estranho assim.
Ao menos no lugar em que a K-238 resolvera pousar, a superfície do planeta era coberta por florestas de aspecto agradável, que se assemelhavam a parques, grandes prados e pequenos rios. Estes corriam todos na mesma direção e, ao que parecia, pretendiam unir-se em algum ponto situado além da linha do horizonte.
Tinha-se a impressão de que a K-238 acabara de descobrir um novo paraíso. Mas havia outro fator que, ao menos nos primeiros minutos, representou uma perturbação sensível dessa impressão. A atmosfera continha traços de ácido sulfídrico. Esses traços constituíam parte da parcela de um por cento que Bell não conseguira identificar durante a manobra de aproximação, e causavam um cheiro nauseabundo.
Uma análise cuidadosa revelou que a quantidade do gás venenoso era suficiente para ativar os órgãos do olfato, mas não representava qualquer perigo, motivo por que não havia a necessidade de utilizar filtros.
Além disso, o mau cheiro provocado pelo ácido sulfídrico é perfeitamente suportável; depois de um tempo de adaptação o olfato humano nem o percebe mais.
Foi exatamente o que aconteceu com Rhodan e seus companheiros. Dali a uma hora, quando haviam dado uma volta a pé pelos arredores da nave auxiliar, nem sentiam mais o cheiro. Assim, voltaram a acreditar que haviam descoberto um mundo paradisíaco.
A proposta original de Reginald Bell, que sugeriu dar ao planeta o nome de Fedorento, não provocou o menor comentário.
Rhodan voltou à nave, depois de ter constatado que nas imediações desta não havia nada que fosse digno de nota. Nesse meio tempo, o computador positrônico concluíra a interpretação dos dados reunidos durante a manobra de aproximação, e chegara à conclusão de que, em nenhum ponto da superfície desse planeta, havia vestígios de vida inteligente. Face a isso Rhodan disse:
Nestas condições, não vale a pena perdermos mais tempo por aqui. Um planeta sem vida não poderá dar-nos qualquer informação sobre o paradeiro do planeta Peregrino.
Não houve nenhuma objeção. A K-238 foi preparada para a decolagem. Enquanto isso, com base no trecho da trajetória conhecida do planeta, o computador procurou calcular se em algum lugar havia outras interferências gravitacionais ou, em outras palavras, se outro mundo gravitava em torno do sol verde.
O resultado foi interessante. A trajetória do mundo verde era instável. A velocidade de seu movimento de translação era elevada demais face ao diâmetro. Dali se concluía que, num tempo previsível, o mundo verde se afastaria de seu astro central e vagaria só pelo espaço purpúreo.
À primeira vista, parecia não haver nada de extraordinário nisso. A qualquer momento, se encontraria no Universo conhecido maior número de órbitas instáveis que de órbitas estáveis. Isso decorria da lei física segundo a qual o estado desorganizado é muito mais provável que o estado organizado.
Uma coisa, porém, era estranha.
Acho que todo mundo está de acordo sobre uma coisa — disse Rhodan. — A instabilidade da órbita deste planeta deve ter surgido há pouco tempo. Se tivesse existido sempre, neste mundo não se teria desenvolvido qualquer vegetação. O surgimento de toda forma de vida, mesmo as mais primitivas, exige um estado ordenado. Segundo meus cálculos, a vida neste planeta só existe há algumas centenas de milhões de anos.
Lançou um olhar indagador em torno; mas, ao que parecia, só Atlan soube interpretar sua observação.
Quer dizer que em sua opinião houve uma influência súbita? — perguntou com um sorriso. — Uma irrupção gravitacional cm algum lugar do espaço cósmico, que produziu uma aceleração do movimento do planeta, ou então...?
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
A coisa deve ter sido muito menos dramática, almirante — disse com uma risada. — Para ser mais claro, acredito que o planeta Peregrino deve ter surgido neste plano temporal próximo ao lugar em que nos encontramos. Se passou bastante perto, pode ter provocado a interferência.
Atlan acenou com a cabeça, como se não esperasse outra resposta.
Você é um homem que não demora em tirar suas conclusões, bárbaro. E agora?
Em vez de responder, Rhodan colocou todos os controles dos propulsores na posição zero. As luzes de controle apagaram-se.
É isto — disse Rhodan. — Ficaremos aqui. Se conseguirmos descobrir quando se verificou a interferência, poderemos calcular a órbita do planeta Peregrino.
Oba! — disse Atlan, erguendo as sobrancelhas. — Isso representa vinte e seis equações com vinte e sete incógnitas. Trata-se de um problema de três corpos, que faria os matemáticos mais geniais arrancarem os cabelos.
Rhodan sorriu e moveu a mão em direção ao painel de controle do computador positrônico.
Pois que arranquem os cabelos!

* * *

Agora, que resolveram ficar, deram um nome a esse mundo. Chamaram-no de Solitude, porque não poderiam imaginar um lugar mais solitário, cheio de lindas plantas, no qual havia apenas seres parecidos com aranhas e besouros.
Ninguém tinha muita coisa a fazer, com exceção do computador positrônico, que realizou as mais variadas combinações dos dados relativos à intensidade integral das radiações do sol verde, à temperatura superficial de Solitude, à sua massa e à velocidade com que percorria sua trajetória, a fim de apurar a órbita originária desse planeta. Se conseguisse descobrir isso, não seria difícil calcular o tempo em que houvera a interferência na órbita. E, dali em diante só restaria um único passo, embora complicado, para determinar a órbita percorrida por Peregrino, desde que a hipótese de Rhodan e Atlan correspondesse aos fatos.
Rhodan não fez a menor objeção quando Bell, Gorlat e Tompetch resolveram dormir e se retiraram para seus camarotes. Atlan permaneceu acordado, mas depois de algum tempo também se retirou. Conforme disse, desejava refletir sobre certas coisas.
Enquanto atrás dele o computador positrônico trabalhava intensamente, Rhodan contemplou a paisagem verde que se estendia além das paredes da nave, e sobre a qual o sol começava a descer. Estudou os formatos estranhos das árvores e concluiu que se pareciam simultaneamente com carvalhos, pinheiros e gigantescos rabos-de-cavalo. Cada uma dessas espécies vegetais parecia ter-lhes conferido algumas das suas características.
Era um mundo maravilhoso para os biólogos galácticos interessados pela botânica.
As plantas não se moviam. Ao que parecia, nenhum vento soprava. Quem tocasse os estranhos talos ou as folhas das árvores teria a impressão de pegar peças de metal duro. Rhodan já se familiarizara com o fenômeno no mundo ao qual Rous dera o nome de Planeta de Cristal.
Mergulhou em reflexões sobre o problema insolúvel dos diversos planos temporais. Subitamente viu uma mancha escura surgida entre duas robustas árvores, a cerca de quatrocentos metros de distância. Tinha certeza de que há pouco não estivera lá.
O fato despertou sua atenção. Num mundo em que o tempo corre setenta e duas mil vezes mais devagar que em outros lugares, não há nada que possa aparecer dentro de poucos minutos, nem mesmo uma mancha escura entre duas árvores.
Quem dera que não houvesse esse verde,” pensou Rhodan. “Parece que essa cor não faz bem aos meus olhos.
Demarcou um pequeno quadrado n tela e modificou a regulagem das lentes da; objetiva, a fim de que o respectivo setor fosse ampliado. À medida que a escala aumentava, Rhodan teve a impressão cada vez mais nítida de que aquilo visto entre as árvores era um ser humano. Não se movia e parecia olhar em direção à nave. Não se reconhecia seu rosto, nem se poderia dizer que tipo de roupa usava.
Um dos quatro deve ter saído sem me avisar”, pensou Rhodan.
Mas como não tivesse certeza absoluta, chamou todos os camarotes. Reginald Bell, que podia permitir-se essa liberdade, não se mostrou nada satisfeito por ter sido incomodado; o Capitão Gorlat anunciou sua presença segundo os regulamentos e Mike Tompetch estava tão sonolento que nem chegou a compreender o que desejavam dele.
Mas no camarote de Atlan ninguém respondeu.
Você não perde por esperar, almirante! — disse Rhodan com um sorriso. — Onde já se viu alguém sair da nave sem permissão do comandante?
Levantou-se e foi até o posto de comando da artilharia.
Seria bem feito para o arcônida se um disparo de desintegrador com boa pontaria derrubasse uma árvore perto dele e lhe metesse um tremendo susto”, pensou Rhodan.
Antes que Rhodan chegasse ao lugar que costumava ser ocupado pelo Capitão Gorlat, a escotilha abriu-se com um ligeiro ruído, mostrando Atlan, o arcônida.
Embora houvesse um sorriso em seu rosto, parecia um tanto perturbado. Rhodan lançou um olhar ligeiro para a tela e viu que o vulto escuro continuava parado entre as árvores.
Então realmente era...!
Receio que preciso de um bom gole, Perry — disse Atlan.
O simples fato de chamar Rhodan pelo primeiro nome provava que estava muito perturbado.
Por quê? — perguntou Rhodan. Atlan sacudiu a cabeça.
Nem me pergunte. Você poderia pensar...
Diga logo!
Atlan arregalou os olhos vermelhos, nos quais se notava uma expressão de perplexidade.
Vi um homenzinho; no meu camarote! — disse em voz baixa e em tom hesitante.
Para seu espanto, a reação de Rhodan foi de tranqüilidade total. Virou-se e apontou para a tela.
Será que foi este? — perguntou e, ao mesmo tempo, soltou um resmungo de surpresa.
O vulto que vira entre as duas árvores desaparecera.
Um bom gole de uísque bem forte não teve outros efeitos sobre o estado psicológico do arcônida senão os que teria produzido num terrano. Atlan contemplou o copo vazio e disse:
É impossível. Por mais que você fale, não acredito. Foi um homenzinho tão pequeno! — suas mãos indicaram uma altura de cerca de vinte e cinco centímetros. — E era inteiramente humanóide. Usava o traje de tripulante de nave terrana. Se além de tudo considerarmos a escotilha fechada...
Como era ele? — perguntou Rhodan. — Conseguiu ver seu rosto?
Atlan deu de ombros.
Não sei. Não consegui vê-lo muito bem. Mas era muito estranho. Era como... ah, sim! Era como uma escultura ainda não concluída.
Sei. Como foi que entrou?
Não sei. Estava de costas para a escotilha, olhando para a tela. Quando virei a cabeça, estava lá. Não fez o menor ruído. Ficou de pé junto à mesa.
O que foi que ele fez?
Nada. Apenas olhou para trás. Movia-se com certa rapidez, ou melhor, com uma rapidez espantosa para um ser do mundo em que nos encontramos.
E depois? Foi embora?
Não se pode dizer que tenha ido — objetou o arcônida. — Mal me recuperei da surpresa e quis formular uma pergunta, ele desapareceu. De um instante para outro, que nem um dos seus teleportadores.
Hum! — fez Rhodan. — Talvez seja um teleportador. Com isso também se explicaria como conseguiu entrar pela escotilha fechada. Mas depois? O que foi que você fez? Veio até aqui?
Atlan fez um gesto afirmativo.
Quer saber de uma coisa? — disse. — É possível que seja um teleportador. Mas será que entre seus mutantes existe um homem que tenha apenas palmo e meio de altura?
Rhodan riu baixinho.
É claro que não. Acontece que Solitude é um mundo estranho. Não precisamos perder a cabeça por causa disso. Talvez exista...
Você está com a razão, bárbaro — disse Atlan com a voz retumbante. Ao que parecia, acabara de recuperar o equilíbrio. — Talvez exista uma explicação natural.
Isso mesmo — confirmou Rhodan e comprimiu o botão de alarma.
No momento em que as sereias começaram a uivar, o arcônida estremeceu. O incidente parecia tê-lo deixado muito nervoso, embora a essa altura procurasse transmitir a expressão de tranqüilidade absoluta.

* * *

O alarma foi observado com a rapidez que geralmente se observa numa nave de guerra. No momento em que as sereias silenciavam, Reginald Bell irrompeu na sala de comando.
Foi seguido de perto pelo Capitão Gorlat. O último a entrar foi o Tenente Tompetch.
Algum dos senhores notou uma coisa extraordinária nesta última hora? — perguntou Rhodan em tom oficial.
Reginald Bell sacudiu a cabeça; parecia contrariado.
E o senhor, capitão?
Não senhor, não notei nada. Estava dormindo.
Tenente...
Não senhor. Também estava dormindo.
Rhodan relatou era rápidas palavras o que ele e Atlan haviam observado.
Não sabemos se por acaso sofremos uma alucinação — concluiu. — Aqui em Solitude pode acontecer muita coisa que não corresponde às nossas idéias. É claro que precisamos ter certeza. Capitão Gorlat, reviste o camarote em que foi visto o homenzinho. Faça um trabalho meticuloso. O senhor sabe o que está em jogo. Bell, você asssumirá o comando da nave. Enquanto isso Atlan e eu daremos uma olhada no lugar em que vi o desconhecido. Tenente Tompetch, você se manterá em contato conosco pelo rádio.
Ao anoitecer, o céu cobriu-se com um estranho marrom que, de início, tinha a aparência de azeitonas sujas, mas aos poucos foi perdendo essa tonalidade e cambiando para o vermelho.
É uma mistura de cores”, penso Rhodan. “O verde do dia e o vermelho púrpura do espaço se misturam, produzindo o marrom. Quando o sol tiver aparecido veremos apenas o vermelho.
Constatou que cometera um erro considerável enquanto observara a estranha figura negra entre as árvores. A distância não fora a que calculara. Em vez de quatrocentos metros, teve de percorrer oitocentos antes de atingir, juntamente com o arcônida, as duas árvores entre as quais se encontrara o estranho.
Atingi o lugar, tenente — disse Rhodan, falando para dentro do pequeno aparelho de rádio. — O senhor nos vê?
Sim senhor — respondeu Tompetch — Por enquanto ainda os vejo muito bem Mas está escurecendo depressa.
Muito bem. Qual é o nosso tamanho?
Diria que são do tamanho de dedo polegar.
Obrigado; isso basta. Mantenha-si em recepção.
Fitou Atlan.
Que pena, almirante! Pensei que se anão se tivesse transformado num gigante. Acontece que, quando o vi, também tinha o tamanho de um polegar.
Procuraram descobrir alguma pista. Quando escureceu a ponto de não enxergarem nada, Rhodan tirou uma lanterna pequena, mas potente, e iluminou o chão.
O capim é muito duro — murmurou o arcônida. — Não poderia ter deixado uma pista igual às que estamos acostumados a ver. O capim não cede nem ao peso de um homem.
Rhodan iluminou o caminho que haviam percorrido. Estava assinalado por ta-los de capim quebrados, como se uma ceifadeira tivesse aberto uma trilha estreita.
Ceder não cede — disse. — Mas quebra. É duro e quebradiço. Se aqui tivesse estado alguém que pesasse mais de cinqüenta gramas, deveríamos descobrir algum sinal.
Atlan ergueu-se com um suspiro.
Acontece que não se vê nada, administrador. Qual é a conclusão que se deve tirar disso?
Rhodan sorriu.
É melhor que você mesmo tire suas conclusões, amigo. Não gosto de abrir a boca antes da hora.
Atlan sacudiu os ombros e espalmou as mãos.
Que conclusão poderíamos tirar? Foi uma alucinação; só isso.
Rhodan esteve a ponto de responder. Pretendia dizer que não acreditava ter sido uma alucinação, que devia haver outra explicação. Mas, nesse momento, sentiu que havia alguma coisa atrás dele. Chegou sentir quase fisicamente que estava sendo observado de dentro da escuridão marrom.
Sua reação foi puramente automática. Agiu instintivamente e seu gesto foi tão rápido que se verificou antes que o susto atingisse o cérebro e paralisasse o raciocínio. O largo feixe de luz atingiu um vulto que parecia flutuar acima do solo a alguns metros do lugar em que se encontrava. Parecia balouçar-se suavemente no vento. Num vento que não existia em Solitude.
Rhodan ficou espantado ao constar que a luz da lâmpada atravessava o vulto Ao menos, parte dela desenhou um círculo num tronco de árvore que ficava atrás do...
O que é isso?
Atlan pôs a mão no cinto e arrancou arma, antes que Rhodan tivesse tempo de fazer um gesto de advertência e gritar:
Não se precipite! Ainda não sabemos o que ele quer.
Enquanto proferia estas palavras, procurou descobrir quem era “ele”, que continuava a balouçar-se num vento imaginário e não se incomodava com a luz ofuscante da lanterna; parecia até que nem a percebia.
Envergava o macacão cinzento que os tripulantes das naves terranas costumam usar em serviço. Acontece que esse macacão, que costumava ser feito de fazenda grosseira e resistente, era transparente. Usava as mesmas botas de cano alto e fecho magnético que Rhodan trazia nos pés. Mas estas não atingiam o chão que se encontrava embaixo deles, enquanto, sob os pés de Rhodan, os talos de capim quebravam-se com leves estalidos. Parecia ter uma cabeleira bastante espessa; mas não havia como reconhecer-lhe o rosto.
Está bem, meu caro — disse Atlan em tom irônico. — O fato é que temos de fazer alguma coisa. Não nos adiantará nada ficar apenas olhando. Ei, quem é você?
O forte grito provocou um eco grotesco, refletido pelos troncos lisos e duros como diamantes. Mas o vulto não reagiu.
Rhodan avançou um passo; o vulto moveu-se, afastando-se igual distância. Não caminhava, mas deslizava por cima do capim. Rhodan deu mais um passo, e o resultado foi o mesmo.
Se eu desse uma volta, talvez pudéssemos pegá-lo — disse Atlan.
Pegá-lo com quê? Ele escaparia entre nossos dedos como uma nuvem de vapores frios.
Que diabo! Temos de fazer alguma coisa!
Sua voz parecia nervosa e irritada. Antes que concluísse a frase, o vulto moveu-se pela terceira vez, sem que ninguém se tivesse aproximado.
Rhodan fez com que o raio de luz seguisse o desconhecido. Passou por uma árvore e saiu para o campo aberto. Manteve o rosto esquisito e grosseiro voltado para trás, como se quisesse ver se alguém o seguia.
Vamos atrás dele! — decidiu Rhodan. — Seria interessante descobrir aonde vai.
Informou Tompetch sobre o incidente e mandou que, dali em diante, usasse o aparelho de localização de luz infravermelha.
Procure não nos perder de vista — concluiu. — Talvez precisemos de auxílio.
Seguiu o vulto juntamente com Atlan. O fato de que alguém vinha atrás dele não parecia incomodar o desconhecido. Não aumentou de velocidade e continuou a deslizar por cima do capim, sem deixar qualquer pista.
Não foi nada fácil segui-lo. O capim era quebradiço, mas assim mesmo dava a impressão de se tratar de um exército enorme de anões que apontava as lanças de aço para os intrusos. Uma única folha que penetrasse por uma emenda mal feita do sapato poderia provocar ferimentos graves.
Pelos cálculos de Rhodan, já se haviam afastado cerca de três quilômetros da nave K-238. O amplo feixe de luz mostrou uma elevação que atravessava o campo de visão em altura uniforme. O desconhecido subiu pela encosta e desapareceu atrás do cume. Atlan e Rhodan continuaram a segui-lo. Quando chegaram ao cume, viram que o ser estranho parará na outra encosta. Aos seus pés, havia uma mancha escura. Talvez ali o capim estivesse queimado.
O desconhecido parecia apenas esperar que a luz da lanterna de Rhodan surgisse no topo da colina e o iluminasse. Quando isso aconteceu, desceu lentamente para dentro da mancha escura, como se quisesse fazer uma demonstração de seu ato. Desapareceu em alguns segundos.
Pegue a arma, almirante! — disse Rhodan sem olhar para o arcônida.
Desceram pela encosta e, quando haviam vencido metade do caminho, viram à luz da lanterna que a mancha escura não era outra coisa que uma abertura que parecia descer verticalmente no solo. Era quase circular e tinha um diâmetro de aproximadamente um metro e meio. Pararam na borda e Rhodan dirigiu a luz para o interior da abertura. Viram que a abertura só descia verticalmente por um metro e meio e, depois disso, seguia para um lado. Não se sabia para onde conduzia.
Vamos descer — sugeriu Atlan.
Rhodan sacudiu a cabeça.
É muito perigoso — disse. — Precisamos pelo menos de um homem que monte guarda aqui em cima.
Chamou Tompetch.
Siga-nos! — ordenou. — Pegue um desintegrador e um aparelho de rádio portátil e venha até aqui. Será fácil reconhecer nossa pista no capim. Para facilitar a orientação, dirigirei a luz da lanterna para cima.
Tompetch confirmou o recebimento da ordem e disse que dentro de trinta minutos, o mais tardar, chegaria ao lugar em que Rhodan se encontrava.
3



O que será isso? — perguntou Atlan depois de um silêncio prolongado. — O que se poderia imaginar atrás de uma formação imaterial que tem a aparência de homem e usa o macacão da Frota Espacial Terrana?
Para dizer a verdade, nem sei o que pensar — respondeu Rhodan. — Faço votos de que lá embaixo encontremos uma explicação — apontou para dentro da galeria.
Depois de algum tempo, acrescentou:
Cabe ponderar que não se trata simplesmente de fenômeno imaterial. Não é uma projeção muito sofisticada. Aquilo possui inteligência; parece ser um verdadeiro espírito.
Um fantasma, não é? — disse Atlan em tom irônico.
Talvez. Resta saber o que devemos entender por fantasma.
A palestra parecia resvalar para o campo da metafísica, em virtude da falta de dados.
Naquele instante, os passos ruidosos do Tenente Tompetch soaram no topo da colina. Aproximou-se, parou à luz da lanterna e fez uma continência impecável.
Tompetch, vamos descer neste buraco. Mantenha a arma preparada para disparar e fique de ouvido encostado no receptor. Não sei o que nos espera lá embaixo — disse Rhodan.
Tompetch agachou-se junto à abertura, enquanto Rhodan descia, segurando-se na borda e soltando as mãos assim que sentiu que seus pés haviam encontrado apoio. Mas o chão da galeria era inclinado e não proporcionava o necessário apoio aos seus pés...
Desceu por um tobogã poeirento, mas surpreendentemente liso, precipitou-se com velocidade cada vez maior para o interior da terra.

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