Só parou
quando a galeria passou a deslocar-se na horizontal. Rhodan
arrastou-se apressadamente. Naquele instante, praguejando, o arcônida
descia pela estranha galeria. Só foi parar junto aos pés de Rhodan.
Ergueu-se
rapidamente o mais que permitia a altura reduzida da galeria e
examinou o caminho que acabara de percorrer.
— Gostaria
de saber como vamos subir ali — murmurou.
Rhodan
prosseguiu rastejando.
— Por
enquanto, sinto-me satisfeito por estar aqui — disse. — Mais
tarde pensarei na maneira de voltar.
A lanterna
resistira muito bem à queda. Seu potente feixe iluminava as paredes
lisas da galeria. Mais adiante atravessou uma abertura circular e
penetrou num recinto subterrâneo que, segundo tudo indicava, era tão
grande que a lanterna não podia iluminá-lo de uma só vez.
A galeria
era baixa, mas ainda permitia que um homem se deslocasse por ela com
certo conforto. Enquanto iam para diante, a fim de examinar o recinto
escuro, Rhodan passou a mão pela parede da galeria. Constatou,
então, que o revestimento liso era uma massa plástica dura e livre
de emendas, que provavelmente fora aplicada por um processo de
borrifamento.
Assim que
chegaram à extremidade da galeria, a lanterna iluminou um recinto
amplo, cheio de estranhos aparelhos. Uma série de instrumentos em
forma de caixa estava ligada a outros aparelhos por meio de fios e
tubos. No centro do recinto, havia recipientes em forma de ataúde,
nos quais se notava um número maior de fios e tubos. Rhodan começou
a interessar-se pelos ataúdes nos quais terminava a maior parte dos
dutos. Saltou da galeria para o chão do recinto, situado um metro
abaixo, espremeu-se entre uma série de aparelhos e parou junto ao
primeiro ataúde para examiná-lo. Ao que parecia, era feito de
metal.
Rhodan
apalpou a tampa e sentiu-a pulsar lentamente. Um dos tubos que
terminavam nesse ataúde parecia comunicar-lhe uma série de
vibrações. Eram cerca de duas por segundo. Convertido no outro
plano temporal, esse período correspondia a uma freqüência de
aproximadamente trinta e seis mil hertz, que se situava na faixa do
ultra-som.
Rhodan
procurou levantar a tampa, mas não conseguiu. Perry fez o feixe de
luz circular e notou que o recinto não possuía outra porta ou
entrada. A única via de acesso ao local era a galeria onde Atlan
estava agachado com a arma na mão.
O espírito
— ou fantasma — devia estar por perto, a não ser que tivesse
“desaparecido”
pelas paredes.
Mas onde
estava? E, principalmente, o que significava tudo isso?
Ao
formular em sua mente as duas perguntas, Rhodan começou a perceber
que sua cabeça doía. Era uma dor martirizante, como a que se sente
depois de uma noite de bebedeira.
Rhodan
ficou espantado, pois o ar lá embaixo era fresco e puro como na
superfície.
A dor de
cabeça não poderia ter sido causada pelo ar.
Rhodan
recuou até a parede para verificar se a dor diminuía. Depois de
algum tempo, parecia amainar; reduziu-se ainda mais quando se
deslocou até o ângulo formado pela parede lateral e longitudinal.
Notou que
este era o lugar em que a distância entre ele e as seis caixas em
forma de ataúde era maior.
Concluiu
que a força misteriosa provocadora das dores saía dos ataúdes. O
fato de não ter sentido nada, quando pela primeira vez se viu junto
a elas, explicava-se pela diferença das dimensões temporais. Até
mesmo a dor demorava mais para manifestar-se do que em condições
normais.
— Há
alguma coisa dentro desses caixões — disse em tom pensativo,
dirigindo-se a Atlan. — Gostaria de saber o que é.
Pegou o
pequeno transmissor.
— Tompetch,
o senhor ainda está aí?
— Sim
senhor.
— Chame
a nave e peça que Gorlat venha até aqui. Diga-lhe que deve trazer
um psicógrafo.
— Entendido,
Sir — respondeu Tompetch.
Enquanto
os minutos se passavam, Rhodan ficou refletindo sobre se convinha
abrir à força um dos ataúdes, para verificar o que havia em seu
interior. Mas logo abandonou a idéia. Esses ataúdes irradiavam uma
força que provocava dor de cabeça nele; nele, e não no arcônida.
Por isso mesmo, a idéia de que os mesmos continham alguma coisa viva
não era tão absurda. Nesse caso, a abertura forçada do ataúde
poderia causar um dano irreparável ao que estava contido em seu
interior.
Rhodan
resolveu que dali em diante usaria a palavra caixão, e não ataúde.
Quinze
minutos depois, o Capitão Gorlat anunciou sua presença junto à
entrada da galeria. Rhodan pediu-lhe que trouxesse o psicógrafo, e
ordenou a Tompetch que pegasse um dos cabos que pertencia ao
equipamento-padrão do Câmbio, o veículo versátil, e o prendesse e
colocasse no interior da galeria, de tal maneira que Gorlat pudesse
descer pela mesma sem expor o aparelho ultra-sensível aos riscos de
uma série de quedas e escorregadelas.
Dali a
pouco, o Capitão Gorlat surgiu na galeria.
Rhodan
pegou o aparelho, colocou-o no chão e ligou-o. O aparelho
registraria qualquer irradiação de pensamentos articulados que
houvesse nas proximidades. Era bem verdade que não se poderia deixar
de considerar a diferença das dimensões temporais.
Para
formar um pensamento breve o cérebro humano precisa de um lapso de
cerca de um centésimo de segundo. Se os desconhecidos encontrados
nos caixões pensassem na mesma velocidade, isso corresponderia a um
lapso de 720 segundos, ou doze minutos, na dimensão temporal em que
funcionava o psicógrafo.
Mesmo
então só se conseguiria registrar o mais breve dos pensamentos de
que o cérebro humano é capaz. O registro de uma emissão telepática
que porventura existisse por ali consumiria dias, semanas ou até
meses.
De repente
Rhodan se lembrou de que o fantasma se deslocara com bastante
rapidez. Parecia não estar sujeito à outra dimensão temporal.
Poder-se-ia
admitir razoavelmente que a formação de pensamentos se processaria
com a lentidão costumeira?
Havia um
argumento de peso a favor dessa hipótese. A dor sentida por Rhodan
não começara no instante em que penetrou no recinto ou se colocou
pela primeira vez junto aos seus caixões. Só começara bem depois,
uns quinze minutos após o momento em que saltara da galeria para
dentro do recinto. Dali se concluía sem a menor dúvida que a
inteligência desconhecida precisava de um tempo correspondente à
dimensão estranha para perceber e formular seus pensamentos. Ao que
tudo indicava, o fantasma e sua mobilidade eram fenômenos distintos.
Rhodan
olhou para o relógio. Dez minutos já se haviam passado desde o
momento em que ligara o psicógrafo. Atlan, o arcônida, continuava
agachado na saída do corredor, enquanto o Capitão Gorlat se
encontrava de pé, meio abaixado em virtude da pouca altura da
galeria, olhando para o recinto.
Mais cinco
minutos se passaram. O silêncio só era interrompido vez por outra
por um pé que arrastava o chão, por um suspiro mais forte ou um
pigarreio.
Subitamente
o arcônida levantou-se de um salto, fitou a parte dos fundos do
recinto com os olhos semicerrados e murmurou em tom de perplexidade:
— Alguma
coisa não está certa! Rhodan sabia que os arcônidas tinham um
sentido adicional, que lhes abria possibilidade para vários tipos de
percepção. Atlan reconhecia coisas que eram tão pequenas ou tão
distantes que o olho humano não conseguiria enxergá-las; e a mesma
coisa se aplicava, em extensão ainda maior, em sentido figurado.
Rhodan
sentiu uma lufada de ar quente que parecia sair dos seis caixões e,
quase ao mesmo instante, ouviu um crepitar. Viu que as tampas dos
caixões se abaulavam, como se alguém tivesse acendido um fogo sob
as mesmas. A rapidez com que aquilo acontecia, apesar da outra
dimensão temporal, não permitia a menor dúvida de que a situação
era de perigo.
— Vamos
dar o fora! — gritou para Gorlat e o arcônida.
A reação
de ambos foi imediata. Quando Rhodan terminou de desligar o
psicógrafo e se dispunha a entrar na galeria, os dois já se
encontravam bem longe. Rhodan deu mais alguns passos e descobriu a
ponta da corda, que balançava lentamente, o que provava que Gorlat
ou Atlan já estavam subindo por ela.
Quando a
subida se tornou tão íngreme que Rhodan não poderia vencê-la sem
o auxílio da corda, ele prendeu o psicógrafo ao cinto, segurou a
corda e puxou-se para cima com as mãos.
Gorlat já
chegara em cima e ligara o motor do Câmbio. Tompetch encontrava-se
no assento de trás, com o rosto triste de quem não compreende o que
está acontecendo. Naquele instante, Atlan subia ao veículo.
— Vamos
embora! — fungou Rhodan; pegou a borda do veículo e deixou que o
impulso do veiculo que se afastava o puxasse para cima. Gorlat não
precisou de novas ordens para saber o que devia fazer. O veículo
subiu obliquamente pela encosta, distanciando-se vertical e
horizontalmente da caverna.
Gorlat
deixou que o veículo passasse pela encosta e lançou um olhar
indagador para Rhodan.
— Espere!
— ordenou este. Tirou o psicógrafo do cinto e guardou-o na caixa
de ferramentas, saltou do veículo e rastejou até o topo da colina,
que o veículo deixara para trás.
Antes que
chegasse ao alto, o chão começou a tremer a seus pés. O tremor era
de uma lentidão grotesca, como todos os fenômenos desenrolados em
Solitude e neste universo. Era antes uma série de solavancos.
Dali a
alguns segundos, uma coluna de luz verde-pálida surgiu no pé da
colina. Rhodan, que já chegara ao topo, viu-a sair preguiçosamente
do solo e subir lentamente.
Não havia
a menor dúvida: a caverna subterrânea e seus habitantes — se é
que a mesma realmente tinha habitantes — foram destruídos por uma
explosão de proporções consideráveis.
Rhodan
permaneceu por mais de meia hora no topo da colina, e a explosão
ainda não havia chegado ao fim. Era bem verdade que a coluna de fogo
já atingira o ponto máximo, e estava baixando tão lentamente como
subira. Rhodan viu que no lugar em que antes ficava a abertura de um
metro e meio de diâmetro agora se abria uma cratera afunilada com
quinze metros de diâmetro.
Rhodan
levantou-se e voltou ao veículo. Viu olhos indagadores dirigidos
para si.
— Tudo
arrebentado — disse em tom lacônico.
— Sim
senhor — irrompeu Tompetch, que não conseguiu dominar o
nervosismo.
— Foi a
explosão mais esquisita que já vi.
Gorlat
voltou a colocar o veículo em movimento. Tomou a direção da nave
sem que ninguém lhe tivesse ordenado isto; Rhodan estava de acordo.
— O que
foi isso, Sir? — perguntou Tompetch. — Quem provocou a explosão?
Rhodan deu
de ombros.
— Não
sei — respondeu.
— Lá
embaixo devem ter encontrado alguma indicação, Sir — prosseguiu
Tompetch. — O que quero dizer é... ah, agora me lembro. Pouco
antes de o senhor sair do buraco, houve um chamado do...
— Cale a
boca, Mike! — gritou Gorlat. — Você ainda nos deixa loucos com
essa conversa.
Tompetch
calou-se; parecia ofendido. Mas conseguira despertar a atenção de
Rhodan.
— Quem
chamou, tenente?
— O
microcomunicador instalado no veículo, Sir — respondeu Tompetch. —
Estava querendo fazer a ligação, pois pensava que era Bell que
chamava da nave. Mas, nesse instante, o capitão saiu do buraco e
tudo foi tão rápido que nem sei mais o que aconteceu.
Rhodan
inclinou-se para a frente e ligou o microcomunicador. Irradiou a
mensagem usual de “chamado,
favor responder”.
A resposta foi imediata. A voz nervosa de Bell perguntou:
— O que
houve? Por que não deram nenhum sinal de vida?
— Não
houve necessidade — respondeu Rhodan. — Você chamou há pouco?
— Não —
respondeu Bell prontamente. — Fiquei sentado diante dos
instrumentos, prestando a maior atenção. Por quê?
— Depois
explico. Daqui a pouco estaremos de volta.
Desligou e
virou-se para Tompetch:
— O
senhor disse que o microcomunicador chamou. Como foi mesmo?
A pergunta
deixou Tompetch confuso.
— Bem,
foi a mesma coisa de sempre. A luz de aviso acendeu-se.
— Por
muito tempo?
— Sim,
naturalmente. Isto é... não sei dizer exatamente. Como já falei, o
Capitão Gorlat saiu do buraco que nem um louco, e depois foi aquela
confusão.
Alguém
riu. Foi Atlan, o arcônida.
— Procure
lembrar-se — insistiu Rhodan. — No momento em que Gorlat entrou
no carro, a lâmpada ainda estava acesa?
— Não
senhor—respondeu Tompetch. — Estava muito nervoso, mas tenho
certeza de que teria notado a luz-aviso, se estivesse acesa.
Alguém o
interrompeu. Tompetch bateu na testa e disse:
— Mas é
claro! Como sou idiota! Estava pensando: quando Gorlat chegar, poderá
receber o chamado. Sabe, Sir, quando há um capitão por perto, um
tenente não deve responder ao chamado. Quando entrou no carro ia
avisá-lo; na verdade, não entrou propriamente, e sim voou para
dentro do carro. Mas, em primeiro lugar, tinha coisa mais importante
a fazer e, além disso, vi que a lâmpada não estava mais acesa.
Agora me lembro perfeitamente, Sir.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Ainda
bem — suspirou em tom irônico.
— Isso
tem algum significado especial? — perguntou Tompetch imediatamente.
— O que quero perguntar é se existe uma relação entre isso e a
explosão...
— Por
favor, Sir — disse Gorlat, dirigindo-se a Rhodan. — Avise-me
assim que ele o deixar nervoso. Acho que só eu conseguirei reduzi-lo
ao silêncio.
Rhodan
soltou uma risada.
— Deixe
para lá, capitão. Ele nos proporcionou uma pista muito importante.
Quanto à sua pergunta, Tompetch, a resposta é a seguinte: Ainda não
sei.
Dali a
alguns segundos, uma esfera de sessenta metros de altura emergiu da
escuridão; era a K-238. Reginald Bell já recebera ordens de abrir a
comporta de carga. Gorlat fez subir o veículo e deixou-o entrar pela
grande escotilha.
Rhodan
pegou o psicógrafo e pediu aos companheiros que comparecessem quanto
antes à sala de comando.
*
* *
O elemento
mais importante de que dispunha Rhodan eram dois diagramas
funcionais; um provinha do psicógrafo e outro, do registro acoplado
ao microcomunicador do veículo.
O
psicógrafo funcionara durante 15 minutos e registrara um diagrama
que, uma vez efetuada uma redução de 1:72.000 na respectiva
abscissa, constituía prova evidente de que na caverna subterrânea
“alguma
coisa”
pensara.
No fundo,
o psicógrafo era um aparelho primitivo. Registrava os débeis campos
eletromagnéticos que acompanham toda e qualquer atividade
intelectual. Até certo ponto, a intensidade e a freqüência desses
campos davam a medida da inteligência do ser pensante. O psicógrafo
não era capaz de decifrar pensamentos; apenas constatava a presença
da atividade intelectual. Em virtude dessa capacidade, alguns
engraçadinhos o brindaram com o apelido de “radar
intelectual”.
O segundo
elemento oferecido por Rhodan foi o diagrama funcional do
microcomunicador. Esse aparelho registrara um sinal que tivera a
duração de cinco segundos e meio, e que se desdobrara em dois
grupos de hiperondas, reproduzidos no diagrama sob a forma de
ressaltos pontudos. Na outra dimensão temporal a duração do sinal
fora de cerca de setenta e seis microssegundos.
Por maior
que fosse o desdobramento, as duas pontas não apresentavam a menor
articulação. Representavam apenas dois impulsos energéticos que o
receptor captara a um curto intervalo. Concluía-se que a transmissão
não tinha a finalidade de comunicar alguma coisa ao receptor.
Era apenas
um sinal, e Rhodan não tinha a menor dúvida de ser este o sinal que
provocou a explosão subterrânea.
— Primeiro:
no interior da caverna, vivia um ser pensante e inteligente. É de se
supor que procurou comunicar-se comigo por via telepática. Mas, em
virtude da diferença das dimensões temporais, senti a mensagem
telepática apenas sob a forma de uma dor de cabeça.
“Segundo:
no interior da caverna, estava escondido algum explosivo. No momento
em que o ser desconhecido estava entrando em contato comigo, ou
melhor, tentava estabelecer o contato, o explosivo foi detonado por
meio de um impulso vindo de fora. A hipótese mais plausível é a de
que algum desconhecido teve conhecimento do contato e que este não
lhe agradou. Sua reação foi imediata: fez ir pelos ares a caverna
juntamente com a inteligência desconhecida. Provavelmente pretendia
destruir-nos também. Porém, nossa dimensão temporal é muito mais
rápida que a dele, e conseguimos safar-nos em tempo.”
Ficou em
silêncio.
— E o
fantasma? — perguntou Atlan.
— Não
sabemos — confessou Rhodan. — Ao que parece, pertence à
inteligência desconhecida destruída pela explosão. Evidentemente
quis levar-nos para junto dele.
Atlan fez
um gesto afirmativo.
— Há
outro detalhe — acrescentou. — Você teve dor de cabeça? Quando
foi que sentiu-se melhor?
Rhodan
parecia esperar por essa pergunta.
— No
momento em que peguei a corda e comecei a subir — respondeu
prontamente. — Acho que o alcance da capacidade telepática da
inteligência desconhecida é bastante limitado.
O arcônida
respirou profundamente.
— Quer
dizer que só falta descobrir quem
ou o
que é
o fantasma, qual é a ligação entre ele e os fatos que se
verificaram e para onde desapareceu. O certo é que na caverna não
conseguimos encontrá-lo.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Isso e
mais uma coisa — acrescentou. — Por que a caverna tinha uma
entrada?
Atlan
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Por
quê...? Ah, sim. Você acha que um fantasma não precisa de um
caminho aberto. Ele se move através de paredes sólidas com o mesmo
desembaraço com que nós atravessamos o ar. É isso que você quer
dizer?
— Mais
ou menos — confirmou Rhodan. — No interior da caverna, não havia
nenhum aparelho móvel. Tudo estava firmemente pregado ou embutido.
Acontece que o fantasma passou por uma série de escotilhas fechadas.
Para que serve, ou melhor, para que serviu, a galeria?
“É
claro que as hipóteses são numerosas. Poderia ter servido, por
exemplo, à renovação de ar. Mas, para isso, não seria necessário
cavar uma galeria de um metro e meio. Talvez também tivesse servido
para introduzir os aparelhos, que evidentemente no se encontravam lá
a partir de certo momento. Porém para introduzir os aparelhos,
teriam construído uma galeria reta, nunca uma galeria curva.
“Quer
dizer que estas hipóteses não nos satisfazem. Tenho certeza de que
havia um motivo bem forte para que a caverna tivesse um acesso desse
tipo.”
Fez uma
pausa e depois recomeçou sorrindo:
— Posso
formular uma suposição. É claro que, por enquanto, esta não se
apóia em qualquer prova; mas é possível que ainda acabemos
encontrando essa prova. Na minha opinião os habitantes da caverna
eram inteligências nativas, subjugadas por algum desconhecido. Não
sabemos que serviço prestavam ao ser que as oprimia. De qualquer
maneira, procuraram entrar em contato conosco. Talvez tivessem mesmo
o desejo de que nós as libertássemos. Mas o desconhecido ficou
sabendo disso, e sua reação foi rápida e brutal.
Atlan
ouvira-o atentamente. Depois de algum tempo, ponderou:
— Isso é
apenas uma hipótese, não é? Se nos guiarmos estritamente pela
mesma e daqui por diante admitirmos que qualquer fantasma é o
espírito de uma inteligência oprimida de Solitude, poderemos sair
prejudicados. Concorda?
Rhodan
soltou uma risada.
— Não
se preocupe, almirante. Sei perfeitamente qual é o valor de uma
hipótese. Apenas pensei que deve haver um motivo para que o
desconhecido procurasse evitar o contato. E o motivo mais simples
seria este: a inteligência de Solitude sabia alguma coisa que nós
não devemos saber. Por isso, devemos procurar descobrir outro
fantasma e cuidar para que desta vez o desconhecido não possa
interromper nossa palestra.
Atlan não
fez nenhuma objeção.
— É
claro que só poderemos fazer isso se em Solitude houver outros seres
dessa espécie — disse.
Rhodan
lançou-lhe um olhar de desconfiança.
— Ninguém
me convencerá, almirante, de que qualquer raça que tenha uma
existência física, seja ela qual for, seja representada por um
único exemplar.
4
Durante
todo esse tempo, o computador positrônico trabalhava
ininterruptamente.
A uma
indagação intermediária respondeu que só dali a cinco ou seis
horas seriam fornecidos os primeiros resultados parciais.
Rhodan
mandou que os homens descansassem. Não se surpreendeu quando Atlan
não concordou com a sugestão, dizendo que preferia ficar na sala de
comando a ser surpreendido mais uma vez por um pequeno homem em seu
camarote.
Rhodan
sabia que o verdadeiro motivo não era este. Atlan tinha uma idéia e
não queria guardá-la para si por muito tempo.
— Administrador,
você já pensou — disse em tom bem-humorado — que o desconhecido
opressor das pobres inteligências de Solitude talvez não fique
satisfeito com o resultado alcançado? É possível que não acredite
piamente que a explosão nos tenha reduzido a pó, e venha dar uma
olhada. Pode ser que já esteja por perto, preparando seus foguetes.
Rhodan
sorriu.
— A
idéia não deixa de ser brilhante, almirante. Se você não tivesse
lembrado essa possibilidade, eu teria esquecido.
Atlan
piscou os olhos.
— Tomara
que você engasgue com a mentira, bárbaro — resmungou com uma
contrariedade fingida. — Por que não nos preparamos?
— Porque
temos tempo de sobra — respondeu Rhodan.
— Por
que tem tanta certeza disso? Se estiver por perto, poderá atacar a
qualquer momento.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Admitamos
que esteja por perto. A que distância? Mil quilômetros? Pois bem. O
que poderá fazer? Poderá disparar foguetes ou outras armas contra
nós. Admitamos a pior das hipóteses: que tenha um desintegrador,
cujo campo de descristalização se expanda à velocidade da luz.
Qual é a velocidade da luz?
Atlan
levou algum tempo para compreender a finalidade da pergunta. Quando a
entendeu, ficou aborrecido de verdade.
— Como
pude ser tão idiota!? — exclamou, interrogando-se e batendo contra
a testa. — Neste universo o tempo corre setenta e duas mil vezes
mais devagar que no nosso. É claro que essa variação também
atinge a velocidade da luz. Quer dizer que por aqui é pouco superior
a quatro quilômetros por segundo, não é?
— Quatro
vírgula dezessete quilômetros para sermos mais exatos — respondeu
Rhodan. — Quer dizer que se alguém disparar contra nós de mil
quilômetros de distância, de uma nave espacial, por exemplo, a
respectiva energia se deslocará à velocidade da luz, e quatro
minutos se passarão entre o momento do disparo e o do impacto. Isso
será mais que suficiente para que nossos instrumentos façam a
detecção do ataque e a nave se afaste. Ainda acontece que uma nave
que se aproximasse a mil quilômetros seria localizada mesmo que não
disparasse.
Atlan
gemeu.
— Onde
estive com minha inteligência? Não é nada agradável ser
sobrepujado por um bárbaro.
— Existe
coisa muito pior — disse Rhodan com uma risada. — Mas deixemos as
brincadeiras de lado. Até parece que em Solitude poderemos matar
dois coelhos de uma cajadada. Em primeiro lugar, temos chance de
descobrir onde ficou o planeta Peregrino; e, em segundo lugar,
teremos oportunidade de ver os druufs. Acho que não há a menor
dúvida de que foram eles que hoje de noite mataram as inteligências
de Solitude de forma tão cruel.
— Não
há mesmo — concordou o arcônida. — A não ser que se admita que
as inteligências de Solitude se identificam com os druufs. Mas essa
hipótese dificilmente será sustentável depois de tudo que já
sabemos.
— Nesse
caso — completou Rhodan — teríamos de admitir que existe alguém
mais poderoso que os druufs. E só de pensar isso começo a
transpirar de medo.
Atlan fez
um gesto de concordância.
Naquele
instante, o aparelho automático de localização deu o alarma.
Rhodan fez uma rápida leitura e transmitiu o alarma para toda a
nave.
— Oito
unidades desconhecidas acabam de emergir por trás do sol e
aproximam-se de Solitude — disse, dirigindo-se ao arcônida. —
Distância de dez mil quilômetros.
*
* *
Por
enquanto, a K-238 não tinha muita coisa a fazer. Limitou-se a
esperar. O aparelho de localização registrou as trajetórias dos
objetos desconhecidos e concluiu que deviam ser tripulados, ou então
estavam equipados com mecanismos de pilotagem automática muito
sofisticados, pois manobravam ininterruptamente. Não havia nenhum
motivo para acreditar na existência de mecanismos automáticos de
pilotagem, motivo por que a primeira hipótese foi considerada mais
provável.
Uma hora
depois do primeiro alarma, as naves desconhecidas praticamente não
haviam chegado mais perto, isso porque se deslocavam a uma velocidade
não superior a trezentos metros por segundo. Convertida para a
dimensão temporal dos objetos, isso correspondia a uma velocidade de
22 mil quilômetros por segundo, que era extraordinariamente elevada
para uma unidade que se encontra nas imediações de um planeta.
Chegou-se a conclusão de que os desconhecidos estavam com muita
pressa.
Duas horas
se passaram sem que se conseguisse descobrir quais eram as intenções
das naves. O nervosismo começou a espalhar-se pela sala de comando
da K-238.
Dentro de
três horas e meia, quatro das oito naves iniciaram uma manobra de
frenagem a mais de seis mil quilômetros, imobilizando-se algum tempo
depois disso.
As quatro
naves restantes mantiveram a velocidade inicial e, dali a mais duas
horas, desapareceram na sombra de Solitude. Ao que tudo indicava,
pretendiam pousar na face diurna do planeta.
Foi só
então que Rhodan começou a agir. No momento em que não havia mais
dúvida de que as primeiras quatro naves se conservavam na mesma
posição, a K-238 decolou. A intenção do inimigo era formar uma
espécie de cordão de segurança bem acima das camadas mais elevadas
da atmosfera, a fim de garantir a retirada das outras naves.
Enquanto o
girino subia obliquamente, Atlan deu ordem para que o computador
positrônico interrompesse seus cálculos a fim de, com base na rota
registrada pelos instrumentos, apurar o local provável onde
pousariam as quatro naves inimigas. Uma vez que dispunha de todos os
dados necessários, o problema já estava resolvido com pequena
margem de erro, quando a nave saiu da atmosfera de Solitude e
prosseguiu na horizontal. Atlan não fez nenhuma objeção a que o
computador voltasse a dedicar-se à sua tarefa primitiva, isto é,
calcular o momento em que o planeta Peregrino passou perto de
Solitude.
Rhodan
imprimiu à nave uma velocidade de quinze quilômetros por segundo.
Para poder seguir a curvatura da superfície do planeta, viu-se
obrigado a imprimir à nave uma aceleração radial, que a evitaria
derivar para o espaço.
Uma vez
estabilizada a rota, julgou chegado o momento de explicar o que
pretendia fazer.
— Vamos
dar uma olhada nas quatro naves desconhecidas — disse. — Isso não
representará o menor risco, pois face à sua dimensão temporal
muito mais lenta estarão praticamente indefesas diante de nós. O
assunto não tem a menor ligação com a tarefa propriamente dita que
nos trouxe para cá: a localização do planeta Peregrino. Mas acho
que não devemos perder a oportunidade de ver de perto esses seres
desconhecidos, que provavelmente não são outros senão os druufs.
Dali a
pouco, a K-238 sobrevoou o limite das zonas noturna e diurna, e
voltou a mergulhar na luz verde do sol que se destacava contra o
fundo purpúreo do espaço. O dispositivo automático iniciou a
manobra de frenagem antes que fosse atingido o ponto anteriormente
determinado. Desacelerando fortemente, a nave voltou a penetrar na
atmosfera, seguindo uma rota retilínea em direção à superfície
do planeta.
Nas telas,
surgiu uma planície imensa, coberta principalmente de arbustos e
cortada por uma série de largos rios. Rhodan fitou o terreno com
certo desagrado e, dirigindo-se a Atlan, disse:
— Até
parece que estamos numa bandeja. Não estou gostando nem um pouco. Se
descobrir um bom esconderijo, não deixe de avisar, almirante.
Acontece
que nem o almirante, nem o detector de contornos, que funcionava como
uma espécie de sonda de microondas, conseguiu descobrir qualquer
irregularidade do terreno que representasse uma diferença superior a
quinze metros em relação ao nível geral da planície. E a K-238
tinha a altura nada desprezível de sessenta metros. Mesmo na
hipótese mais favorável, quarenta e cinco metros sobressairiam do
esconderijo.
De
repente, este ponto perdeu todo interesse, pois Reginald Bell
anunciou que seus instrumentos não conseguiam localizar as quatro
naves que deveriam pousar nesta área, nem as outras quatro, que
haviam permanecido lá em cima. O espaço adjacente estava vazio,
como se as naves desconhecidas tivessem sido varridas dali.
Rhodan fez
uma ligeira inspeção do mecanismo de localização e constatou que
este continuava a funcionar impecavelmente. Mas não conseguiu
descobrir qualquer explicação para o desaparecimento repentino dos
oito veículos espaciais. Quando disse isso, Atlan sorriu e
respondeu:
— O fato
faz crescer minha autoconfiança, bárbaro. Qual é mesmo a
velocidade da luz neste universo?
— 4,17
quilômetros por segundo — respondeu Rhodan em tom de perplexidade.
— Por quê... Ah, sim! Devemos considerar estes fenômenos.
Bell e
Tompetch fitaram-no com uma expressão de espanto. Até no rosto
sorridente de Gorlat, surgiu uma expressão que parecia ser de
incompreensão.
— É
claro que a velocidade da luz sofre a mesma alteração que todos os
valores ligados ao tempo — explicou Rhodan. — Em Solitude, e de
modo geral em todo este espaço, esta é, conforme já disse, de 4,17
km/seg. Durante o vôo que acabamos de realizar, a K-238 desenvolveu
uma velocidade muito maior. Quer dizer que houve um fenômeno
estranho. Sem recorrer a um meio de transporte de grau superior, como
o hiperespaço, um objeto deslocou-se a uma velocidade maior que a
velocidade-limite permitida pela natureza. O que se conclui dali?
— Para
realizar um exercício intelectual, direi que, quando um objeto
ultrapassa a velocidade da luz sem utilizar um meio de transporte de
ordem superior acarretará uma perda de causalidade — pelo tom da
voz de Bell, deduzia-se que havia decorado o texto, fato que não
deixou de confessar: — Para dizer a verdade, li isto no manual.
Gostaria que alguém me explicasse o que significa.
Piscou
para Rhodan, e este perguntou a si mesmo o que realmente pretendia.
Reginald Bell, que havia adquirido com Perry Rhodan todo o conjunto
do saber arcônida, por meio do processo de aprendizagem hipnótica,
não seria incapaz de dar resposta às perguntas-limite da natureza.
Queria que alguém tivesse oportunidade de salientar-se. Quem seria?
— Posso
explicar, Sir — disse Tompetch, que se encontrava num ponto mais
afastado. — A perda de causalidade manifesta-se da seguinte forma:
se aciono uma chave e posso fazer com que a corrente elétrica se
desloque à velocidade superior à da luz, a lâmpada se acenderá
antes que eu tenha acionado a chave.
Bell
sorriu de maneira que Tompetch não o viu.
— Muito
bem, tenente — disse Rhodan com um sorriso. — Quer dizer que,
embora não estejamos assistindo propriamente a uma inversão no
tempo, defrontamo-nos com um fenômeno que traz as mesmas
conseqüências. A perda de causalidade não pode ser explicada por
meio de um exemplo concreto; ao menos não em todo o conjunto do
fenômeno. Mas pode-se inventar exemplos, como o que o Tenente
Tompetch acaba de citar, ou o de oito naves espaciais que há pouco
ainda estavam ali, mas subitamente desapareceram.
— O
último exemplo é mais elucidativo — disse o arcônida — já que
não é inventado, conforme acabamos de ver.
Bell fez
menção de falar, mas o imortal prosseguiu:
— Para
encerrar o assunto, direi que não sabemos até que ponto eliminamos
a causalidade. Ignoramos se as oito naves estiveram aqui muito antes
de nós e desapareceram ou se virão depois, talvez dentro de algumas
horas ou daqui a vários milênios. São coisas que não sabemos.
Acho que, apesar de tudo, devemos pousar e dar uma olhada. Isso
porque, de qualquer maneira, pretendíamos procurar uma segunda
inteligência do planeta Solitude.
— Nenhuma
objeção, almirante — disse Rhodan com uma risada. — Vamos
pousar.
*
* *
A K-238
estava pousada numa depressão do terreno. Não era a mais profunda
que existia na área, mas foi aquela em que a nave pôde ser
introduzida com maior facilidade. E pouco importava que o topo da
nave se erguesse quarenta e cinco ou cinqüenta metros acima da
planície.
Desta vez,
Reginald Bell e Rhodan deixaram a K-238 num Câmbio para fazer seu
reconhecimento. Atlan, Gorlat e Tompetch permaneceram a bordo.
Rhodan
ainda não se dera o trabalho de equipar seu relógio com um
conversor e um novo mostrador, para que indicasse o tempo de
Solitude. Teve de verificar a posição do sol para constatar que já
estava no fim da tarde, e que poderiam contar no máximo com três
horas de luz do sol. Depois teriam de usar os aparelhos de luz
infravermelha.
No início,
a grande planície apresentou-se com uma monotonia cansativa. Os
arbustos que a cobriam quase sem a menor interrupção nunca se
erguiam a mais de dois metros acima do solo. As árvores eram tão
raras que facilmente poderiam servir de pontos de referência ao
caminhante solitário.
O veículo
cruzou dois rios, que eram de uma largura extraordinária, mas não
introduziram nenhuma variedade no quadro monótono.
Depois de
uma hora e meia de viagem, Rhodan fez meia-volta e dirigiu o veículo
para a K-238. Mas seguiu por outra rota mais curta, a fim de não
perder tempo. Quando seus olhos já estavam tão cansados e começavam
a doer, descobriram uma abertura no solo.
Era uma
abertura pequena, que mal aparecia em meio aos arbustos e à
folhagem.
Rhodan
baixou o veículo e manteve-o suspenso por cima dos arbustos, pois
não encontrou nenhum local adequado para pousar. Bell saltou ao
solo, praguejou por causa dos espinhos que lhe arranharam o rosto e
examinou cuidadosamente a abertura. Constatou que as paredes internas
desta estavam revestidas da mesma massa plástica vitrificada que
cobria o recinto onde haviam descoberto os seres de Solitude.
— Tudo
em ordem! — gritou Bell. — Vamos logo, senão os druufs ainda
acabarão desconfiando.
Bell
esforçou-se o mais que pôde para subir por um galho bem grosso, a
fim de poder alcançar ao menos a borda inferior do veículo. Assim
que conseguiu, lançou um olhar de recriminação para Rhodan e
disse:
— Tomara
que da próxima vez você não se prevaleça da diferença de
graduação e vá pessoalmente.
*
* *
A apenas
oitenta metros da abertura, Rhodan encontrou um local para pousar.
Tratava-se de uma das raras clareiras em meio aos arbustos, que mal
podia abrigar o veículo, desde que esse empurrasse para o lado
alguns dos galhos. Assim que pousou, informou Atlan sobre a
descoberta e pediu-lhe que preparasse o equipamento já combinado, e
que ele e Gorlat atentassem para o momento em que viriam buscá-los.
Reginald
Bell descarregou as armas que se encontravam no Câmbio. Uma vez
feito isso, Rhodan voltou ao girino a fim de trazer os três homens e
os equipamentos.
O Capitão
Gorlat tomara todas as cautelas durante o tempo de sua ausência.
No momento
em que o Câmbio saiu da comporta de carga, os campos defensivos que
isolavam por completo a nave das áreas adjacentes fecharam-se
automaticamente. Só seriam desativados por meio de um código de que
só existiam dois exemplares. Um deles encontrava-se no bolso de
Rhodan, enquanto o outro foi depositado em local seguro, nas
proximidades da K-238.
O Tenente
Tompetch permanecera até o último instante junto aos instrumentos
de localização, e constatara que as oito naves desconhecidas não
voltaram a aparecer.
Quando o
veículo pousou na pequena clareira, Reginald Bell continuava sentado
ao lado das armas descarregadas do mesmo. Até parecia que o curto
momento de solidão bastara para fazê-lo mergulhar num estado de
melancolia provocado pela paisagem desolada.
De início,
os aparelhos foram deixados na área em que o veículo acabara de
pousar. Rhodan não se apressou. Preferiu expor mais uma vez todos os
detalhes de seu plano.
— Nosso
objetivo principal consiste em evitar qualquer interferência dos
druufs enquanto estivermos em contato com as inteligências de
Solitude — disse. — Isso significa que não devemos deixar o
sinal de rádio de duas pontas detonar o explosivo que provavelmente
também está depositado nesta caverna. Por certo conseguiremos
atingir esse objetivo, usando um emissor de interferência. Esse
emissor trabalha em nossa dimensão temporal, o que significa que é
muito mais rápido que o transmissor dos desconhecidos. Foi regulado
de maneira a irradiar o sinal de interferência assim que chegue o
sinal de detonação. Os dois sinais neutralizam-se mutuamente. Para
não correr o menor risco, ainda criaremos um campo defensivo em
torno da entrada da caverna, que impedirá a penetração de qualquer
interferência vinda de fora.
“Além
de tudo, um de nós ficará constantemente junto ao pequeno aparelho
de localização que trouxemos. Se as oito naves desconhecidas
voltarem a aparecer, teremos de ser informados imediatamente.
“Por
fim, dispomos dos mecanismos de que precisamos para estabelecer
contato com as inteligências de Solitude: um psicógrafo, um
reforçador telepático, um armazenador de dados e um aparelho de
condensação, que reduzirá a transmissão telepática que for
captada e armazenada a uma dimensão temporal aceitável.
“Antes
de mais nada conviria dizer: a tarefa que temos diante de nós talvez
exija algumas semanas. Se os contatos com as inteligências de
Solitude se revelarem promissores, o que verificaremos dentro de dois
dias, talvez possamos deixar o aparelho de armazenamento na caverna e
cuidar de outra coisa. Afinal, não é de esperar que, depois de
terem tomado conhecimento de nossa presença, os druufs nos deixem em
paz para todo o sempre.”
Fitou os
companheiros um por um e viu que ninguém queria dizer nada.
— Será
preferível começarmos logo — disse. — Só dispomos de alguns
minutos de luz solar.
Colocaram
o transmissor de interferência e o gerador de campo de bloqueio
junto à entrada da caverna. O transmissor foi colocado cerca de dez
metros do gerador, a fim de que os dois aparelhos não se
influenciassem mutuamente através de efeitos colaterais.
O Tenente
Tompetch já havia assumido seu posto junto ao aparelho de
localização; Reginald Bell, que serviria de elemento de ligação,
também se manteve fora do campo de bloqueio. O Capitão Gorlat
postou-se no interior desse campo, junto à entrada da caverna. A
Rhodan e ao arcônida, caberia entrar em contato com as inteligências
de Solitude.
Muito
curioso, Rhodan penetrou na galeria sem esperar o arcônida e avançou
até o fim, onde encontrou um recinto igualzinho ao que descobrira
perto do lugar onde haviam pousado pela primeira vez.
Atlan
seguiu-o. Rhodan saltou para o chão do recinto, parou diante dos
caixões e, dali a alguns minutos, sentiu a mesma dor de cabeça que
na noite anterior lhe incutira a idéia de que nesse subterrâneo
devia estar escondido um ser pensante.
Ligou o
aparelho de armazenamento com o condensador temporal e colocou-o
junto ao caixão mais próximo. Regulou-o de tal maneira que o
aparelho de reforço telepático recolhia os impulsos expedidos,
reproduzindo o pensamento original por meio do condensador. Inverteu
os pontos de entrada e saída deste último, motivo por que o
aparelho deixou de servir de condensador, passando a desempenhar as
funções de amplificador, que adaptava a velocidade do pensamento à
dimensão temporal das inteligências de Solitude.
Depois de
convencer-se de que os aparelhos funcionavam perfeitamente, colocou
na cabeça o arco metálico de reforço telepático e procurou
formular o pensamento:
— Somos
seus amigos. Queremos ajudar.
Achou mais
fácil pronunciar as palavras. Atlan, que também já havia descido
da galeria e examinava as paredes do recinto, virou-se espantado.
Rhodan
tirou o arco metálico.
— Até
que ele compreenda isso, deverá passar-se pelo menos uma hora.
— Nesse
caso você tem tempo para dar uma olhada nisto — disse Atlan,
fazendo um gesto com a mão. — Venha cá. Acho que encontrei uma
coisa interessante.
Rhodan
espremeu-se entre os fios pendurados e os aparelhos amontoados e,
quando se encontrava ao lado do arcônida, viu uma caixinha, do
tamanho aproximado de um armário de remédios, que estava pendurada
na parede. Um único fio penetrava pela parte lateral da caixinha.
Seguiu o fio e descobriu que saía de um aparelho formado
exclusivamente por duas bobinas. Numa delas, o fio estava enrolado
densamente, enquanto na outra estava bem frouxo.
— Não!
— disse em tom incrédulo e enfático. — A coisa não pode ser
tão simples assim.
— De
qualquer maneira, aposto que a bomba está nesta caixinha — disse
Atlan, tocando o “armário
de remédios”.
Rhodan
voltou a examinar o aparelho formado por duas bobinas. Verificou que
não havia dúvida de se tratar de uma espécie de indutor de faísca,
ou seja, um mecanismo que transforma a corrente alternada de baixa
tensão em corrente de alta tensão; o trecho destinado à faísca
estava incluído no duto secundário. A bobina primária recebia a
corrente de um pequeno gerador, que era colocado em movimento pelo
sinal de rádio de duas pontas.
A
trajetória da faísca ficava no interior do corpo explosivo,
guardado na caixinha presa ao armário. Bastaria interromper qualquer
dos dois dutos de energia para desativar a bomba. Rhodan pegou o fio
que levava do gerador à bobina primária do indutor e arrancou-o.
— Muito
bem — disse. — Isso está liquidado.
No mesmo
instante, a dor de cabeça que até então sentira ininterruptamente
cessou. Sentiu-se perplexo e, por algum tempo, pensou que a ruptura
do fio poderia ter perturbado alguma função vital da inteligência
do planeta Solitude. Mas logo se deu conta de que esse ser
evidentemente teria de irradiar pensamentos assim que captasse os
impulsos transmitidos pelo condensador temporal. A coincidência no
tempo foi puramente casual.
Suspirou
aliviado e, apontando para os seis caixões, disse a Atlan:
— Começo
a compreender.
O arcônida
ergueu as sobrancelhas, num gesto de espanto.
— Como
sabe disso? A dor de cabeça acabou?
— Isso
mesmo.
Atlan
olhou para o relógio.
— Ainda
falta uma hora — murmurou.
— Podemos
aproveitar o tempo para compreender melhor as coisas que existem aqui
embaixo.
O arcônida
virou a cabeça e passou os olhos de um instrumento para outro.
Escolheu um que lhe parecia relativamente pouco complicado.
Aproximou-se e examinou-o atentamente.
Rhodan
ouviu-o resmungar, mas não compreendeu uma palavra do que dizia.
Achou que a idéia de Atlan, de que não deveriam perder tempo, era
perfeitamente razoável. Olhou em torno para descobrir outro aparelho
que pudesse examinar com alguma possibilidade de êxito.
Mal
acabara de escolher um deles, aconteceu uma coisa que frustrou todos
os planos.
Foi tudo
tão rápido que mais tarde nem Rhodan, nem o arcônida saberiam
dizer como haviam percebido a súbita alteração. Numa fração de
segundo, a temperatura no interior do recinto subiu de tal forma que
os dois homens quase não conseguiram respirar. Ao mesmo tempo, um
rugido surdo encheu o recinto. Com o rosto voltado para a parede
lateral, Rhodan notou que o fio que levava para a bobina primária do
indutor, e que fora arrancado poucos segundos antes, caíra ao chão.
Foi este o
fator decisivo, ao menos para ele...
No mundo
estranho, muito mais lento, o fio teria levado algumas horas para
atingir o solo. Não sabia o que havia acontecido, mas intuía que
houvera uma modificação das dimensões temporais.
Com Atlan,
o arcônida, as coisas foram diferentes. Lembrou-se de já ter
sentido uma elevação tão súbita da temperatura como esta. Foi no
momento em que a explosão teve início na outra caverna. Passou
agilmente entre os fios e aparelhos, tendo o cuidado de não
danificar nada, e subiu à galeria.
— Rhodan!
— gritou. — Mexa-se, homem! A bomba está explodindo.
Só então
percebeu o ruído surdo que enchia o recinto e percebeu que este de
forma alguma combinava com o quadro que tinha na lembrança. A calma
de Rhodan, que continuava parado, foi a gota que fez o caldo
entornar. Saltou da boca da galeria, encostou a mão a uma caixa
metálica alta e sentiu-a vibrar. Encostou o ouvido ao metal e
escutou um zumbido grave.
O ruído
vinha dos aparelhos.
Viu que
Rhodan tirara o pequeno rádio e falava apressadamente. Compreendeu
parte da resposta, que vinha da boca do Capitão Gorlat.
— De
repente esquentou muito. Há uma tempestade forte...
Rhodan
acenou com a cabeça e disse:
— Vamos
subir.
Atlan
voltou à galeria e subiu. Rhodan seguiu-o.
— O que
houve? — perguntou o arcônida. — O que significa tudo isso?
Com uma
estranha calma na voz, Rhodan respondeu:
— Ou
alguém nos atirou para a outra dimensão temporal, ou então alguma
coisa fez com que todo o planeta Solitude passasse à nossa dimensão.
É claro que não tenho certeza sobre qual das duas alternativas é a
correta. Lá em cima veremos.
Um véu
parecia cair dos olhos de Atlan.
Naturalmente;
só podia ser isso. A dimensão temporal dos terranos já não era
diferente daquela que regia os aparelhos e a inteligência de
Solitude, nem daquela que guiava os arbustos e outras plantas que
cresciam na planície. Por isso, voltaram a ouvir o zumbido dos
aparelhos e a sentir o vento. Eram coisas que até então se
processavam tão devagar que não conseguiam ouvi-las.
E o calor
surgido de repente? Atlan enxugou o suor da testa e, muito espantado,
contemplou a mão molhada.
“De
onde vinha esse calor?”,
pensou. “O
que é a temperatura? Apenas a medida da velocidade média das
moléculas. É claro que agora as mesmas se movem com maior rapidez
que antes, e assim a temperatura tem de subir abruptamente no momento
em que as duas dimensões temporais se igualam. Que diabo! Quem as
igualou?”
Naquele
momento, uma corda bateu em seu rosto. Sem interromper seu
raciocínio, segurou-a e puxou-se para cima. O Capitão Gorlat, que
se encontrava junto à entrada da galeria, já recuperara a calma. Em
seu rosto, via-se um sorriso amável.
Atlan
afastou-se da entrada da galeria e admirou-se com a maciez do capim.
“É
uma tolice a gente admirar-se com isso”,
pensou no mesmo instante. “É
claro que o capim também não escapa aos efeitos da modificação de
sua dimensão temporal.”
Rhodan
saiu da galeria atrás dele.
— Desligue
o campo de bloqueio! — gritou para Gorlat antes de vir à tona.
Gorlat
obedeceu. O ligeiro tremeluzir, que até então cobria a entrada da
caverna como uma abóbada brilhante, cessou de repente. Por cima do
farfalhar do vento, ouviu-se o estalo dos arbustos e uma voz
inconfundível, que praguejava:
— Que
diabo! Não há quem agüente este calor.
— Venha
cá! — chamou Rhodan. — O campo de bloqueio já foi desligado.
Reginald
Bell saiu de entre os arbustos.
— Antes
que você comece a falar, é bom que saiba que as oito naves voltaram
a aparecer nas telas de Tompetch! — exclamou.
Rhodan
acenou com a cabeça como quem não esperava outra coisa.
— É
evidente — disse. — E agora elas se deslocam com maior rapidez,
não é?
— Isso
mesmo; são muito mais rápidas — respondeu Bell.
— Preste
atenção, Bell — disse Rhodan. — Quero que você e Atlan entrem
no buraco. Você já sabe o que aconteceu. Não precisamos mais do
condensador temporal para entrar em contato com a inteligência de
Solitude. As duas dimensões temporais foram igualadas. Um de vocês
lhe explicará que somos seus amigos e queremos ajudar; naturalmente
procurarão descobrir se sabem alguma coisa sobre a passagem do
planeta Peregrino ou sobre os druufs. Tudo isso deve ser feito com a
maior rapidez. Já não temos a vantagem do tempo em relação aos
druufs.
— O que
pretende fazer? — perguntou Bell.
— Preciso
cuidar da nave — respondeu Rhodan, que já estava de saída. —
Não sabemos o que aconteceu por lá. Gorlat, venha comigo. Atlan,
explique-lhe que não precisa preocupar-se com a bomba.
Desapareceu
entre os arbustos, seguido pelo Capitão Gorlat.
*
* *
Mike
Tompetch estava sentado à frente do pequeno aparelho de localização.
Viu que quatro das oito naves desconhecidas desapareciam, enquanto as
quatro restantes começavam a descer, segundo lhe parecia, exatamente
em direção ao lugar em que se encontrava.
Naquele
instante, os arbustos começaram a estalar perto dele e Rhodan surgiu
à sua frente, seguido de perto por Gorlat. Com um movimento rápido,
Tompetch enxugou o suor da testa e levantou-se de um salto.
Rhodan
explicou em palavras ligeiras o que havia acontecido e disse que, em
sua opinião, os fenômenos eram devidos à igualização das duas
dimensões temporais.
Tompetch
disse que, embora sentisse muito calor, estava passando bem; não
havia motivo para preocupar-se com ele. Avisaria assim que as quatro
naves desconhecidas se aproximassem a menos de cinqüenta
quilômetros.
Rhodan e
Gorlat entraram no veículo. Rhodan foi na direção, levantou o
veículo verticalmente entre os arbustos e dirigiu-o em meio à noite
para a K-238.
— Posso
fazer uma pergunta? — disse Gorlat de repente.
— Fique
à vontade — disse Rhodan. — O que deseja saber?
— A
temperatura subiu de repente — disse Gorlat — assim que se
verificou a igualização das dimensões temporais. Isso é
perfeitamente lógico; evidentemente, em nossa dimensão temporal as
moléculas se movem mais rapidamente que na outra. Mas se a esse
fenômeno se aplicasse o fator de distorção geral, que é de
setenta e dois mil, a esta hora já devíamos estar assando, não é?
Rhodan
sorriu.
— Fico
satisfeito em notar que o senhor me faz uma pergunta que não sei
responder — disse. — O senhor tem toda razão. A temperatura
subiu, mas não na medida que seria de esperar — deu de ombros. —
É de supor que o fator de distorção não atinge todos os fenômenos
com igual intensidade. Não sei se esta resposta lhe serve; acontece
que não tenho outra, ao menos por enquanto.
Gorlat
deu-se por satisfeito e olhou pela janela do veículo, procurando
descobrir a K-238 em meio à escuridão. Notou que a escuridão já
não era marrom, mas negra ou azul-escura. No entanto, é difícil
atribuir qualquer cor à escuridão, e por isso resolveu guardar essa
idéia para si.
O que o
deixou muito mais exaltado foi o fato de que não se via a K-238.
Estava escuro; mas um colosso como a nave devia ser visto mesmo na
escuridão.
Sem dizer
uma palavra, Rhodan virou a direção e fez o veículo descrever uma
curva fechada. O rastreador mostrou uma depressão larga, de dez
metros de profundidade. Era a depressão em que a K-238 havia
pousado. Gorlat lembrou-se de que estivera num lugar em que a
depressão apresentava uma espécie de alargamento, numa extensão de
algumas centenas de metros. Esse alargamento foi projetado com toda
nitidez na tela do rastreador.
Acontece
que a nave não estava lá!
Rhodan
parou o veículo e deixou-o descer lentamente na depressão. Gorlat
dirigiu a luz da lanterna para fora da janela e viu que não havia o
menor sinal no chão. Os suportes hidráulicos, que haviam sustentado
a nave, não deixaram qualquer impressão no solo.
A K-238
desaparecera!
— Chame
Tompetch! — disse Rhodan de sopetão. — Quero que ele nos diga o
que é feito das quatro naves desconhecidas.
Gorlat
obedeceu.
A voz
potente de Tompetch respondeu.
— Desceram
a oitenta quilômetros — disse, respondendo à pergunta de Gorlat.
— Ali pararam e, depois de algum tempo, voltaram a subir. No
momento, encontram-se a duzentos quilômetros e sua velocidade é
tamanha que até chego a supor que não têm a intenção de voltar a
Solitude.
— Não
viu uma quinta nave? — perguntou Rhodan, inclinando-se de lado para
aproximar a boca do microfone que Gorlat segurava na mão.
— Não
senhor — respondeu Tompetch em tom de espanto. — As outras quatro
naves continuam abaixo da linha do horizonte.
— Pois
pegue seu aparelho — pediu Rhodan — e procure localizar a entrada
da caverna. Assim que tiver descoberto o lugar, queime alguns
arbustos, com o desintegrador, para que possamos pousar. Já não
precisamos de qualquer posto avançado. Entendido?
— Sim
senhor — respondeu Tompetch. Rhodan moveu a direção, fez o
veículo subir rapidamente e, voando alto por cima dos arbustos,
levou-o em direção à entrada da caverna. Depois de algum tempo,
viram uma sombra escura lá embaixo; era Tompetch, que caminhava em
meio à vegetação, arrancando ou empurrando para o lado tudo que se
interpunha em seu caminho. O vento soprava mais suavemente que antes,
movendo agora os arbustos.
Tompetch
chegou à entrada da caverna. Fez o que Rhodan havia mandado: pegou o
desintegrador e, dentro de poucos segundos, limpou uma área de cerca
de trinta metros quadrados. Rhodan fez o veículo descer lentamente e
pousou junto à entrada da caverna.
Tompetch
aproximou-se do veículo, como se quisesse formular uma porção de
perguntas.
— A
K-238 desapareceu — disse Rhodan. — Teremos de elaborar outro
plano de batalha. Chame Bell e o arcônida.
5
— Na
verdade, a pergunta “quem
é o responsável pela igualização das dimensões temporais?”
não assume maior importância — disse Rhodan ao concluir seu
relato lacônico. — É de supor que os druufs tenham um meio que
lhes permita transferir para sua dimensão temporal qualquer ser que
se encontre em outra dimensão. No fundo, isso é totalmente
indiferente para nós.
“O fato
é que temos de nos conformar com a idéia de que estamos vivendo na
dimensão temporal de Solitude. Enquanto aqui se passam vinte e
quatro horas, lá fora, em nosso Universo, só se passam 1,2
segundos. Mas não sabemos quais serão os efeitos do deslocamento
temporal, que se verificarão quando sairmos daqui.
“Ainda
acontece que nossa nave desapareceu. A tarefa mais urgente a ser
cumprida consiste em encontrar um meio de sair de Solitude e voltar à
Drusus. O problema de descobrir a localização do planeta Peregrino
ou saber novidades sobre os druufs é secundário, embora seja de
supor que eles se interessarão por nós. Ao que parece, alguns deles
ainda se encontram em Solitude. Sem dúvida, a K-238 não pode ter
saído sozinha; Tompetch não conseguiu localizá-la no espaço.”
“Estão
todos com a cabeça abaixada”, pensou Rhodan, constatando. “Não
estão gostando da situação em que se encontram. Não é de
admirar.”
Mudando de
assunto, perguntou a Reginald Bell:
— Como
estão as coisas lá embaixo? O ser de Solitude já mostrou alguma
reação?
Bell fez
que sim.
— Já.
Captou os primeiros pensamentos emitidos por você e acredita que
somos seus amigos. Depois veio uma massa enorme de pensamentos
estranhos, que não compreendi. Acho que você devia descer.
Atlan
interveio:
— Também
não faço a menor idéia. Rhodan levantou-se.
— Muito
bem; descerei para fazer outra tentativa. Pelo menos três homens
deverão ficar de guarda aqui em cima. Sei perfeitamente que todos
não dormem há bastante tempo, mas apesar disso peço-lhes que
fiquem com os olhos bem abertos. É preferível não dormir agora
para não termos de dormir para sempre, não é?
Rhodan
entrou na caverna. Atlan, o arcônida, seguiu-o.
Sem a
menor hesitação, Rhodan saltou da galeria para o chão do recinto
subterrâneo. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que,
nesse meio tempo, alguém colocara em funcionamento o pequeno gerador
de corrente alternada. Fazia pelo menos trinta rotações por
segundo.
“Se
não tivesse cortado o fio”,
pensou Rhodan, “a
esta hora já teríamos voado pelos ares.”
Ouviu o
arcônida saltar para fora da galeria.
— Foram
vocês que ligaram? — perguntou Rhodan.
Atlan não
sabia do que estava falando. Rhodan apontou para o gerador.
— Ah, o
gerador? Não. Ora, veja só. Nossos amigos, os druufs, não gostam
que façamos uma visita ao nosso companheiro dos seis caixões.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— A esta
hora, já devem ter descoberto que alguma coisa não deu certo com
sua bomba — disse. — É possível que não demorem em aparecer
aqui para verificar o que houve.
— Bem
que eu gostaria que isso acontecesse — disse Atlan em tom zangado.
— Seria um prazer explicar-lhes o que acho desses ladrões de
naves.
Rhodan
sentou-se no chão, perto dos seis caixões, colocou o reforçador
telepático, segurou o arco metálico e colocou-o na cabeça. Depois
fechou os olhos, para concentrar-se, e disse:
— Sou
seu amigo. Diga alguma coisa. No início, não houve nada além da
escuridão impenetrável.
Mas,
subitamente, houve um clarão, que parecia rolar de um lado para
outro, conforme se notava de sua contextura apagada. A mancha
luminosa tinha o formato de um cilindro que tivesse sido aquecido
várias vezes a ponto de derreter em alguns lugares, mas que a essa
hora já endurecera de novo.
Depois
surgiu outra imagem: a imagem de um homem. No início, foi uma imagem
pálida, mas logo se tornou nítida, como se o pensamento fosse
formulado de forma mais enfática. Rhodan não se surpreendeu ao
perceber que o homem era ele mesmo. Procurou perceber o que estava
fazendo. Não conseguiu, mas teve a impressão de que a representação
mental do encontro verificado entre ele e a inteligência de Solitude
era totalmente amistosa.
Compreendeu
o sentido da primeira imagem: também sou seu amigo.
Sentiu-se
satisfeito com o êxito tão rápido, e o ser de Solitude parecia ter
notado a satisfação; uma forte luminosidade passou pela imagem que
Rhodan trazia na mente.
A
luminosidade desapareceu, sendo substituída por outra imagem. Rhodan
viu um grande prado com um número imenso de vacas-marinhas que
rolavam alegremente no chão e, no que parecia, não tinham outra
coisa a fazer senão deixar que o sol lhes esquentasse a barriga.
“É
uma simplificação”,
pensou Rhodan imediatamente. “É
claro que têm mais o que fazer senão rolar pelo capim. A imagem
quer dizer que são ou já foram felizes.”
De
repente, a imagem sofreu uma modificação. No início, um setor da
mesma foi amplificado e logo após um objeto em forma de fuso surgiu
junto a esse setor. Rhodan não viu logo de que se tratava. Mas
quando surgiu uma abertura nesse objeto, e uma série de pontos
luminosos passou a descer por uma rampa, teve a impressão de que
devia ser uma nave espacial. O que o irritou foi a perspectiva falsa.
A imagem reproduzia a vaca-marinha com o mesmo tamanho da nave.
O quadro
deixou-o bastante excitado. Se não estivesse muito enganado, dali a
pouco teria oportunidade de ver alguns druufs a não ser que a
inteligência de Solitude não continuasse a projetar-se com o mesmo
tamanho de uma nave espacial, e os druufs com o tamanho de uma cabeça
de alfinete.
A imagem
sofreu outra modificação. Um dos pontos reluzentes foi alcançado
pela objetiva mental, e ampliado. Rhodan reteve a respiração, mas a
única coisa que viu foi um dos estranhos robôs dos druufs. O que
era reproduzido na imagem possuía a forma de um diamante que tivesse
sido trabalhado por um lapidador embriagado. Era feito de uma série
de superfícies planas, todas elas diferentes umas das outras,
formando os ângulos mais diversos.
Outra
imagem. O exército de robôs precipita-se sobre as vacas-marinhas
que não desconfiam de nada. Nem pensaram em defender-se, mesmo
quando perceberam que estavam sendo atacadas. Rhodan teve a impressão
de notar que, toda vez que os robôs pegavam uma das vacas-marinhas,
enfiavam um objeto com o aspecto de termômetro clínico numa das
aberturas de seu corpo, que poderia corresponder à boca ou ao nariz.
Depois a respectiva vaca-marinha sempre se mantinha bem quieta.
“Provavelmente
ficou inconsciente”,
pensou Rhodan.
Ao que
parecia, a inteligência de Solitude não guardava a menor lembrança
do que aconteceu depois. Essa circunstância foi assinalada por
alguns segundos de escuridão mental. Quando Rhodan teve a impressão
de que o intercâmbio telepático chegara ao fim, percebeu outra
imagem: a do recinto em que se encontrava.
A imagem
não era bem exata. Sobre os seis caixões que se encontravam no
recinto pairava uma vaca-marinha; tinha-se a impressão de que não
pertencia ao quadro, tendo sido sobreposta ao mesmo. Subitamente seu
corpo começou a esfacelar-se. Um dos pedaços caiu no primeiro
caixão, outro no segundo, e assim por diante, até que o corpo,
decomposto em seis partes, estivesse distribuído pelos seis caixões.
Rhodan não
soube o que fazer com a imagem.
Será que
significava que os druufs, ou seus robôs, haviam cortado cada
inteligência de Solitude em seis pedaços, e colocado esses pedaços
em seis caixões diferentes? Em caso afirmativo, por que teriam
procedido dessa forma?
Ao que
parecia, o amplificador transmitiu fielmente a pergunta. Em resposta,
seguiu-se em rápida sucessão o mesmo grupo de imagens. A primeira
mostrava uma vaca-marinha inteira, que se movia como uma cobra,
enquanto a outra reproduzia uma vaca-marinha despedaçada, cujas
partes se mantinham completamente imóveis.
Rhodan
compreendeu. O esfacelamento do corpo impedia as funções orgânicas
da vaca-marinha. Provavelmente só as funções espirituais
prosseguiam normalmente.
Assim que
este pensamento surgiu em sua mente, a sucessão de imagens chegou ao
fim. A inteligência de Solitude percebeu que havia compreendido o
que desejava dizer-lhe. Rhodan ficou tão satisfeito que, para o
espanto de Atlan, disse:
— Tudo
bem!
*
* *
A
“sessão”,
nome que Reginald Bell daria mais tarde ao intercâmbio telepático,
durara mais de três horas. Depois de ter subido pela corda, Rhodan
estava exausto quando saiu da galeria. Mesmo assim, começou a contar
aos companheiros o que conseguira descobrir.
— As
inteligências de Solitude são seres unissexuais e não-humanóides,
dos quais este planeta abriga cerca de um milhão. Não sei nada
sobre o estágio de sua civilização, seu avanço tecnológico e
outras coisas deste tipo.
“De
qualquer maneira, levavam vida feliz, até que, há cerca de três
anos, algumas naves dos druufs surgiram em Solitude. Verdadeiros
exércitos de robôs capturaram os seres nativos do planeta, o que
não foi difícil, já que as inteligências de Solitude viviam em
grandes manadas, e os colocaram nas cavernas que, ao contrário do
que se supunha, tiveram de ser cavadas pelos robôs, pois não
existiam.
“Cada
ser de Solitude foi dividido em seis partes, fato que parece indicar
que a matemática dos druufs funciona na base seis, ou outra base
semelhante. Os seis pedaços de cada ser foram guardados numa
caverna, cada pedaço num caixão diferente. A divisão tinha por fim
imobilizar os prisioneiros e impedir sua fuga das cavernas. É bem
verdade que a divisão não acarretou a morte das capacidades
espirituais. Era precisamente isso que os druufs desejavam.
“É que
as inteligências de Solitude possuem uma estranha faculdade.
Trata-se da faculdade de separar o espírito, ou melhor, a
inteligência e o corpo. Enquanto o prisioneiro permanecia na
caverna, sem poder fazer coisa alguma, poderia enviar a inteligência
para fora e verificar o que acontecia nas imediações e nos lugares
mais afastados de sua prisão.
“Era
exatamente essa faculdade que interessava aos druufs. As
inteligências de Solitude passaram a desempenhar as funções de
aparelhos de localização muito baratos. Ao que tudo indica, os
druufs sabiam que o planeta Solitude estava na periferia de seu plano
temporal e faziam questão de ser informados sobre qualquer ser que
penetrasse nesse plano, vindo da outra dimensão. Os seres de
Solitude reconheceriam imediatamente a presença de qualquer
desconhecido, e esse reconhecimento provocaria em seus corpos uma
reação de surpresa, que era registrada por meios bem primitivos,
transmitida por um hiperemissor e assim levada ao conhecimento dos
druufs. Estes apenas precisavam ficar de olhos nos instrumentos de
registro. Assim que estes mostravam uma reação mais forte, sabiam
que em Solitude alguma coisa não estava em ordem.
“É esta
a situação, descrita em traços ligeiros. É de supor que os druufs
estejam em condições de estabelecer distinção entre vários tipos
de reação de seus prisioneiros. Sem dúvida, perceberão se uma
inteligência de Solitude ficou assustada com uma tempestade, ou se
descobriu um ser estranho, como nós. Mas isso é coisa que diz
respeito aos druufs; nosso amigo, que está lá embaixo, não sabe
nada a este respeito.
“Bem,
acho que é só. Ah, sim! É claro que o corpo dos seres de Solitude
tem de ser mantido vivo. Uma vez que não exerce qualquer atividade
mecânica, seu consumo de alimentos e oxigênio é extremamente I
reduzido. Os aparelhos que vimos na caverna têm por fim evitar que o
prisioneiro morra. Uma série de dutos leva alimento sintético e
oxigênio a cada um dos caixões.
“Há
outro detalhe. Apesar de todos os recursos técnicos, o corpo do
prisioneiro morrerá depois de algum tempo. Os druufs sabiam disso.
Ainda sabiam que só existe uma possibilidade de evitar essa morte.
Os prisioneiros deviam ser libertados a intervalos regulares. Pelo
que entendi, a cada três meses, por alguns dias ou algumas horas.
Nessas oportunidades, as seis partes do corpo eram reunidas e as
inteligências podiam passear fora das cavernas. Naturalmente eram
mantidas sob vigilância, pois os prisioneiros não estão nada
satisfeitos com a vida que levam.
“É esta
a explicação para o formato estranho do acesso das cavernas. Os
seres de Solitude precisam de uma via para sair e entrar na caverna.”
Manteve-se
calado; os ouvintes também permaneceram em silêncio.
— Aliás
— disse Rhodan de repente, como se só agora se lembrasse — é
claro que Atlan e eu abrimos os seis caixões. Não tivemos nenhum
motivo para deixar nosso amigo preso por mais tempo. Ele precisa de
algum tempo para reunir os seis pedaços. Depois aparecerá por aqui.
“Já
lhes disse que não é um ser humanóide. Tompetch, esta observação
dirige-se ao senhor, que é o menos experimentado de nós. Não se
assuste ao ver nosso amigo, e não pense nada que possa ofendê-lo.
Da capacidade de separar a inteligência do corpo decorre, de certa
forma, o dom da telepatia.”
Tompetch
confirmou com um aceno de cabeça.
*
* *
A primeira
coisa que perceberam foi um chiado que saiu da galeria. Rhodan
explicou:
— Trata-se
de um dispositivo muito bem pensado, que suga o ar e o expele na
outra extremidade, sob alta pressão. Com isso, a pressão no
interior da caverna vai aumentando. Como o corpo de nosso amigo
preenche todo o espaço da galeria, a pressão interna empurra-o para
fora. Pelo que diz, o processo é bastante rápido.
Todos os
olhares estavam fitos na saída da galeria. Na borda da mesma, surgiu
uma peça de matéria cinzenta, que ninguém saberia dizer o que era.
Por algum tempo, a peça cinzenta manteve-se imóvel, sobressaindo
apenas alguns centímetros da entrada da galeria. Ouviu-se outro
chiado, e, de repente, o corpo estranho ergueu-se um metro acima da
entrada da galeria.
O chiado
repetiu-se várias vezes. Subitamente a coluna, que já adquirira a
altura respeitável de três metros, caiu para o lado com um ruído
surdo sobre o chão que Tompetch limpara com o desintegrador,
enquanto a pressão mais elevada do interior da caverna se adaptava
imediatamente à pressão ambiente, produzindo um chiado e expelindo
poeira.
Tompetch
arregalou os olhos ao ver aquele objeto cilíndrico e cinzento
deitado no chão. Viu que se movia, rolando e escorregando,
permanecendo em repouso quando uma das extremidades quase chegava a
tocar Rhodan.
Espantou-se
ao ver que Rhodan conseguiu acariciar a coisa cinzenta como quem
acaricia um cão. Sua voz parecia vir de longe:
— É
claro que nossa colaboração apenas está começando. Procuraremos
explicar ao nosso amigo que nos sentiríamos muito gratos se
procurasse localizar os druufs. Conforme sabemos, seu espírito, ou
sua inteligência, conforme queiramos, não está submetido a
qualquer dimensão temporal, sendo capaz de mover-se com a velocidade
que melhor lhe aprouver. Se conseguirmos convencê-lo a ajudar-nos,
teremos o melhor aliado que poderíamos desejar.
Aos olhos
de Tompetch, aquilo era muito estranho. Viu Rhodan colocar o arco do
amplificador telepático sobre a cabeça e conversar por horas a fio
com o cilindro cinzento, sem obter qualquer resposta audível. Apesar
disso, viu pelo rosto de Rhodan que este conseguia bons progressos,
tanto que vez por outra o ouvia dizer:
— Muito
bem, amigo. Conseguimos entender-nos cada vez melhor.
Tompetch
também viu o sol nascer e notou que já não era verde, mas branco.
E o céu não era de cor turquesa, mas de um azul radiante.
Tompetch
assistiu a tudo isso como se não estivesse presente.
Porém
acabou provando que era um oficial da Frota Espacial Terrana.
Chamou-se de idiota, tomou alguns goles de uísque de sua ração de
emergência e passou a sentir-se melhor; pelo menos já não estava
tão confuso como antes.
Durante as
últimas horas da noite e as primeiras horas do dia, não prestara
muita atenção ao instrumento de localização. Vez por outra,
lançava um olhar para a tela, sempre vazia, e isso bastou para que
tivesse certeza de que nenhum perigo os ameaçava ou ameaçaria num
futuro próximo.
Agora,
quando de repente viu a tela verde-escura, salpicada de um número
enorme de pontinhos junto à margem inferior, sentiu-se como alguém
que dormiu enquanto estava de sentinela. Por isso, levou algum tempo
antes que, gaguejando de susto, pudesse anunciar a novidade.
Eram
quarenta pontos no total, e sua disposição na tela provava que já
haviam cercado totalmente o pequeno acampamento montado junto à
entrada da caverna.

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