quinta-feira, 11 de abril de 2013

P-068 - A Caça das Dimensões - Kurt Mahr [parte 2]

Só parou quando a galeria passou a deslocar-se na horizontal. Rhodan arrastou-se apressadamente. Naquele instante, praguejando, o arcônida descia pela estranha galeria. Só foi parar junto aos pés de Rhodan.
Ergueu-se rapidamente o mais que permitia a altura reduzida da galeria e examinou o caminho que acabara de percorrer.
Gostaria de saber como vamos subir ali — murmurou.
Rhodan prosseguiu rastejando.
Por enquanto, sinto-me satisfeito por estar aqui — disse. — Mais tarde pensarei na maneira de voltar.
A lanterna resistira muito bem à queda. Seu potente feixe iluminava as paredes lisas da galeria. Mais adiante atravessou uma abertura circular e penetrou num recinto subterrâneo que, segundo tudo indicava, era tão grande que a lanterna não podia iluminá-lo de uma só vez.
A galeria era baixa, mas ainda permitia que um homem se deslocasse por ela com certo conforto. Enquanto iam para diante, a fim de examinar o recinto escuro, Rhodan passou a mão pela parede da galeria. Constatou, então, que o revestimento liso era uma massa plástica dura e livre de emendas, que provavelmente fora aplicada por um processo de borrifamento.
Assim que chegaram à extremidade da galeria, a lanterna iluminou um recinto amplo, cheio de estranhos aparelhos. Uma série de instrumentos em forma de caixa estava ligada a outros aparelhos por meio de fios e tubos. No centro do recinto, havia recipientes em forma de ataúde, nos quais se notava um número maior de fios e tubos. Rhodan começou a interessar-se pelos ataúdes nos quais terminava a maior parte dos dutos. Saltou da galeria para o chão do recinto, situado um metro abaixo, espremeu-se entre uma série de aparelhos e parou junto ao primeiro ataúde para examiná-lo. Ao que parecia, era feito de metal.
Rhodan apalpou a tampa e sentiu-a pulsar lentamente. Um dos tubos que terminavam nesse ataúde parecia comunicar-lhe uma série de vibrações. Eram cerca de duas por segundo. Convertido no outro plano temporal, esse período correspondia a uma freqüência de aproximadamente trinta e seis mil hertz, que se situava na faixa do ultra-som.
Rhodan procurou levantar a tampa, mas não conseguiu. Perry fez o feixe de luz circular e notou que o recinto não possuía outra porta ou entrada. A única via de acesso ao local era a galeria onde Atlan estava agachado com a arma na mão.
O espírito — ou fantasma — devia estar por perto, a não ser que tivesse “desaparecido” pelas paredes.
Mas onde estava? E, principalmente, o que significava tudo isso?
Ao formular em sua mente as duas perguntas, Rhodan começou a perceber que sua cabeça doía. Era uma dor martirizante, como a que se sente depois de uma noite de bebedeira.
Rhodan ficou espantado, pois o ar lá embaixo era fresco e puro como na superfície.
A dor de cabeça não poderia ter sido causada pelo ar.
Rhodan recuou até a parede para verificar se a dor diminuía. Depois de algum tempo, parecia amainar; reduziu-se ainda mais quando se deslocou até o ângulo formado pela parede lateral e longitudinal.
Notou que este era o lugar em que a distância entre ele e as seis caixas em forma de ataúde era maior.
Concluiu que a força misteriosa provocadora das dores saía dos ataúdes. O fato de não ter sentido nada, quando pela primeira vez se viu junto a elas, explicava-se pela diferença das dimensões temporais. Até mesmo a dor demorava mais para manifestar-se do que em condições normais.
Há alguma coisa dentro desses caixões — disse em tom pensativo, dirigindo-se a Atlan. — Gostaria de saber o que é.
Pegou o pequeno transmissor.
Tompetch, o senhor ainda está aí?
Sim senhor.
Chame a nave e peça que Gorlat venha até aqui. Diga-lhe que deve trazer um psicógrafo.
Entendido, Sir — respondeu Tompetch.
Enquanto os minutos se passavam, Rhodan ficou refletindo sobre se convinha abrir à força um dos ataúdes, para verificar o que havia em seu interior. Mas logo abandonou a idéia. Esses ataúdes irradiavam uma força que provocava dor de cabeça nele; nele, e não no arcônida. Por isso mesmo, a idéia de que os mesmos continham alguma coisa viva não era tão absurda. Nesse caso, a abertura forçada do ataúde poderia causar um dano irreparável ao que estava contido em seu interior.
Rhodan resolveu que dali em diante usaria a palavra caixão, e não ataúde.
Quinze minutos depois, o Capitão Gorlat anunciou sua presença junto à entrada da galeria. Rhodan pediu-lhe que trouxesse o psicógrafo, e ordenou a Tompetch que pegasse um dos cabos que pertencia ao equipamento-padrão do Câmbio, o veículo versátil, e o prendesse e colocasse no interior da galeria, de tal maneira que Gorlat pudesse descer pela mesma sem expor o aparelho ultra-sensível aos riscos de uma série de quedas e escorregadelas.
Dali a pouco, o Capitão Gorlat surgiu na galeria.
Rhodan pegou o aparelho, colocou-o no chão e ligou-o. O aparelho registraria qualquer irradiação de pensamentos articulados que houvesse nas proximidades. Era bem verdade que não se poderia deixar de considerar a diferença das dimensões temporais.
Para formar um pensamento breve o cérebro humano precisa de um lapso de cerca de um centésimo de segundo. Se os desconhecidos encontrados nos caixões pensassem na mesma velocidade, isso corresponderia a um lapso de 720 segundos, ou doze minutos, na dimensão temporal em que funcionava o psicógrafo.
Mesmo então só se conseguiria registrar o mais breve dos pensamentos de que o cérebro humano é capaz. O registro de uma emissão telepática que porventura existisse por ali consumiria dias, semanas ou até meses.
De repente Rhodan se lembrou de que o fantasma se deslocara com bastante rapidez. Parecia não estar sujeito à outra dimensão temporal.
Poder-se-ia admitir razoavelmente que a formação de pensamentos se processaria com a lentidão costumeira?
Havia um argumento de peso a favor dessa hipótese. A dor sentida por Rhodan não começara no instante em que penetrou no recinto ou se colocou pela primeira vez junto aos seus caixões. Só começara bem depois, uns quinze minutos após o momento em que saltara da galeria para dentro do recinto. Dali se concluía sem a menor dúvida que a inteligência desconhecida precisava de um tempo correspondente à dimensão estranha para perceber e formular seus pensamentos. Ao que tudo indicava, o fantasma e sua mobilidade eram fenômenos distintos.
Rhodan olhou para o relógio. Dez minutos já se haviam passado desde o momento em que ligara o psicógrafo. Atlan, o arcônida, continuava agachado na saída do corredor, enquanto o Capitão Gorlat se encontrava de pé, meio abaixado em virtude da pouca altura da galeria, olhando para o recinto.
Mais cinco minutos se passaram. O silêncio só era interrompido vez por outra por um pé que arrastava o chão, por um suspiro mais forte ou um pigarreio.
Subitamente o arcônida levantou-se de um salto, fitou a parte dos fundos do recinto com os olhos semicerrados e murmurou em tom de perplexidade:
Alguma coisa não está certa! Rhodan sabia que os arcônidas tinham um sentido adicional, que lhes abria possibilidade para vários tipos de percepção. Atlan reconhecia coisas que eram tão pequenas ou tão distantes que o olho humano não conseguiria enxergá-las; e a mesma coisa se aplicava, em extensão ainda maior, em sentido figurado.
Rhodan sentiu uma lufada de ar quente que parecia sair dos seis caixões e, quase ao mesmo instante, ouviu um crepitar. Viu que as tampas dos caixões se abaulavam, como se alguém tivesse acendido um fogo sob as mesmas. A rapidez com que aquilo acontecia, apesar da outra dimensão temporal, não permitia a menor dúvida de que a situação era de perigo.
Vamos dar o fora! — gritou para Gorlat e o arcônida.
A reação de ambos foi imediata. Quando Rhodan terminou de desligar o psicógrafo e se dispunha a entrar na galeria, os dois já se encontravam bem longe. Rhodan deu mais alguns passos e descobriu a ponta da corda, que balançava lentamente, o que provava que Gorlat ou Atlan já estavam subindo por ela.
Quando a subida se tornou tão íngreme que Rhodan não poderia vencê-la sem o auxílio da corda, ele prendeu o psicógrafo ao cinto, segurou a corda e puxou-se para cima com as mãos.
Gorlat já chegara em cima e ligara o motor do Câmbio. Tompetch encontrava-se no assento de trás, com o rosto triste de quem não compreende o que está acontecendo. Naquele instante, Atlan subia ao veículo.
Vamos embora! — fungou Rhodan; pegou a borda do veículo e deixou que o impulso do veiculo que se afastava o puxasse para cima. Gorlat não precisou de novas ordens para saber o que devia fazer. O veículo subiu obliquamente pela encosta, distanciando-se vertical e horizontalmente da caverna.
Gorlat deixou que o veículo passasse pela encosta e lançou um olhar indagador para Rhodan.
Espere! — ordenou este. Tirou o psicógrafo do cinto e guardou-o na caixa de ferramentas, saltou do veículo e rastejou até o topo da colina, que o veículo deixara para trás.
Antes que chegasse ao alto, o chão começou a tremer a seus pés. O tremor era de uma lentidão grotesca, como todos os fenômenos desenrolados em Solitude e neste universo. Era antes uma série de solavancos.
Dali a alguns segundos, uma coluna de luz verde-pálida surgiu no pé da colina. Rhodan, que já chegara ao topo, viu-a sair preguiçosamente do solo e subir lentamente.
Não havia a menor dúvida: a caverna subterrânea e seus habitantes — se é que a mesma realmente tinha habitantes — foram destruídos por uma explosão de proporções consideráveis.
Rhodan permaneceu por mais de meia hora no topo da colina, e a explosão ainda não havia chegado ao fim. Era bem verdade que a coluna de fogo já atingira o ponto máximo, e estava baixando tão lentamente como subira. Rhodan viu que no lugar em que antes ficava a abertura de um metro e meio de diâmetro agora se abria uma cratera afunilada com quinze metros de diâmetro.
Rhodan levantou-se e voltou ao veículo. Viu olhos indagadores dirigidos para si.
Tudo arrebentado — disse em tom lacônico.
Sim senhor — irrompeu Tompetch, que não conseguiu dominar o nervosismo.
Foi a explosão mais esquisita que já vi.
Gorlat voltou a colocar o veículo em movimento. Tomou a direção da nave sem que ninguém lhe tivesse ordenado isto; Rhodan estava de acordo.
O que foi isso, Sir? — perguntou Tompetch. — Quem provocou a explosão?
Rhodan deu de ombros.
Não sei — respondeu.
Lá embaixo devem ter encontrado alguma indicação, Sir — prosseguiu Tompetch. — O que quero dizer é... ah, agora me lembro. Pouco antes de o senhor sair do buraco, houve um chamado do...
Cale a boca, Mike! — gritou Gorlat. — Você ainda nos deixa loucos com essa conversa.
Tompetch calou-se; parecia ofendido. Mas conseguira despertar a atenção de Rhodan.
Quem chamou, tenente?
O microcomunicador instalado no veículo, Sir — respondeu Tompetch. — Estava querendo fazer a ligação, pois pensava que era Bell que chamava da nave. Mas, nesse instante, o capitão saiu do buraco e tudo foi tão rápido que nem sei mais o que aconteceu.
Rhodan inclinou-se para a frente e ligou o microcomunicador. Irradiou a mensagem usual de “chamado, favor responder”. A resposta foi imediata. A voz nervosa de Bell perguntou:
O que houve? Por que não deram nenhum sinal de vida?
Não houve necessidade — respondeu Rhodan. — Você chamou há pouco?
Não — respondeu Bell prontamente. — Fiquei sentado diante dos instrumentos, prestando a maior atenção. Por quê?
Depois explico. Daqui a pouco estaremos de volta.
Desligou e virou-se para Tompetch:
O senhor disse que o microcomunicador chamou. Como foi mesmo?
A pergunta deixou Tompetch confuso.
Bem, foi a mesma coisa de sempre. A luz de aviso acendeu-se.
Por muito tempo?
Sim, naturalmente. Isto é... não sei dizer exatamente. Como já falei, o Capitão Gorlat saiu do buraco que nem um louco, e depois foi aquela confusão.
Alguém riu. Foi Atlan, o arcônida.
Procure lembrar-se — insistiu Rhodan. — No momento em que Gorlat entrou no carro, a lâmpada ainda estava acesa?
Não senhor—respondeu Tompetch. — Estava muito nervoso, mas tenho certeza de que teria notado a luz-aviso, se estivesse acesa.
Alguém o interrompeu. Tompetch bateu na testa e disse:
Mas é claro! Como sou idiota! Estava pensando: quando Gorlat chegar, poderá receber o chamado. Sabe, Sir, quando há um capitão por perto, um tenente não deve responder ao chamado. Quando entrou no carro ia avisá-lo; na verdade, não entrou propriamente, e sim voou para dentro do carro. Mas, em primeiro lugar, tinha coisa mais importante a fazer e, além disso, vi que a lâmpada não estava mais acesa. Agora me lembro perfeitamente, Sir.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Ainda bem — suspirou em tom irônico.
Isso tem algum significado especial? — perguntou Tompetch imediatamente. — O que quero perguntar é se existe uma relação entre isso e a explosão...
Por favor, Sir — disse Gorlat, dirigindo-se a Rhodan. — Avise-me assim que ele o deixar nervoso. Acho que só eu conseguirei reduzi-lo ao silêncio.
Rhodan soltou uma risada.
Deixe para lá, capitão. Ele nos proporcionou uma pista muito importante. Quanto à sua pergunta, Tompetch, a resposta é a seguinte: Ainda não sei.
Dali a alguns segundos, uma esfera de sessenta metros de altura emergiu da escuridão; era a K-238. Reginald Bell já recebera ordens de abrir a comporta de carga. Gorlat fez subir o veículo e deixou-o entrar pela grande escotilha.
Rhodan pegou o psicógrafo e pediu aos companheiros que comparecessem quanto antes à sala de comando.

* * *

O elemento mais importante de que dispunha Rhodan eram dois diagramas funcionais; um provinha do psicógrafo e outro, do registro acoplado ao microcomunicador do veículo.
O psicógrafo funcionara durante 15 minutos e registrara um diagrama que, uma vez efetuada uma redução de 1:72.000 na respectiva abscissa, constituía prova evidente de que na caverna subterrânea “alguma coisa” pensara.
No fundo, o psicógrafo era um aparelho primitivo. Registrava os débeis campos eletromagnéticos que acompanham toda e qualquer atividade intelectual. Até certo ponto, a intensidade e a freqüência desses campos davam a medida da inteligência do ser pensante. O psicógrafo não era capaz de decifrar pensamentos; apenas constatava a presença da atividade intelectual. Em virtude dessa capacidade, alguns engraçadinhos o brindaram com o apelido de “radar intelectual”.
O segundo elemento oferecido por Rhodan foi o diagrama funcional do microcomunicador. Esse aparelho registrara um sinal que tivera a duração de cinco segundos e meio, e que se desdobrara em dois grupos de hiperondas, reproduzidos no diagrama sob a forma de ressaltos pontudos. Na outra dimensão temporal a duração do sinal fora de cerca de setenta e seis microssegundos.
Por maior que fosse o desdobramento, as duas pontas não apresentavam a menor articulação. Representavam apenas dois impulsos energéticos que o receptor captara a um curto intervalo. Concluía-se que a transmissão não tinha a finalidade de comunicar alguma coisa ao receptor.
Era apenas um sinal, e Rhodan não tinha a menor dúvida de ser este o sinal que provocou a explosão subterrânea.
Primeiro: no interior da caverna, vivia um ser pensante e inteligente. É de se supor que procurou comunicar-se comigo por via telepática. Mas, em virtude da diferença das dimensões temporais, senti a mensagem telepática apenas sob a forma de uma dor de cabeça.
Segundo: no interior da caverna, estava escondido algum explosivo. No momento em que o ser desconhecido estava entrando em contato comigo, ou melhor, tentava estabelecer o contato, o explosivo foi detonado por meio de um impulso vindo de fora. A hipótese mais plausível é a de que algum desconhecido teve conhecimento do contato e que este não lhe agradou. Sua reação foi imediata: fez ir pelos ares a caverna juntamente com a inteligência desconhecida. Provavelmente pretendia destruir-nos também. Porém, nossa dimensão temporal é muito mais rápida que a dele, e conseguimos safar-nos em tempo.”
Ficou em silêncio.
E o fantasma? — perguntou Atlan.
Não sabemos — confessou Rhodan. — Ao que parece, pertence à inteligência desconhecida destruída pela explosão. Evidentemente quis levar-nos para junto dele.
Atlan fez um gesto afirmativo.
Há outro detalhe — acrescentou. — Você teve dor de cabeça? Quando foi que sentiu-se melhor?
Rhodan parecia esperar por essa pergunta.
No momento em que peguei a corda e comecei a subir — respondeu prontamente. — Acho que o alcance da capacidade telepática da inteligência desconhecida é bastante limitado.
O arcônida respirou profundamente.
Quer dizer que só falta descobrir quem ou o que é o fantasma, qual é a ligação entre ele e os fatos que se verificaram e para onde desapareceu. O certo é que na caverna não conseguimos encontrá-lo.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Isso e mais uma coisa — acrescentou. — Por que a caverna tinha uma entrada?
Atlan lançou-lhe um olhar de espanto.
Por quê...? Ah, sim. Você acha que um fantasma não precisa de um caminho aberto. Ele se move através de paredes sólidas com o mesmo desembaraço com que nós atravessamos o ar. É isso que você quer dizer?
Mais ou menos — confirmou Rhodan. — No interior da caverna, não havia nenhum aparelho móvel. Tudo estava firmemente pregado ou embutido. Acontece que o fantasma passou por uma série de escotilhas fechadas. Para que serve, ou melhor, para que serviu, a galeria?
É claro que as hipóteses são numerosas. Poderia ter servido, por exemplo, à renovação de ar. Mas, para isso, não seria necessário cavar uma galeria de um metro e meio. Talvez também tivesse servido para introduzir os aparelhos, que evidentemente no se encontravam lá a partir de certo momento. Porém para introduzir os aparelhos, teriam construído uma galeria reta, nunca uma galeria curva.
Quer dizer que estas hipóteses não nos satisfazem. Tenho certeza de que havia um motivo bem forte para que a caverna tivesse um acesso desse tipo.”
Fez uma pausa e depois recomeçou sorrindo:
Posso formular uma suposição. É claro que, por enquanto, esta não se apóia em qualquer prova; mas é possível que ainda acabemos encontrando essa prova. Na minha opinião os habitantes da caverna eram inteligências nativas, subjugadas por algum desconhecido. Não sabemos que serviço prestavam ao ser que as oprimia. De qualquer maneira, procuraram entrar em contato conosco. Talvez tivessem mesmo o desejo de que nós as libertássemos. Mas o desconhecido ficou sabendo disso, e sua reação foi rápida e brutal.
Atlan ouvira-o atentamente. Depois de algum tempo, ponderou:
Isso é apenas uma hipótese, não é? Se nos guiarmos estritamente pela mesma e daqui por diante admitirmos que qualquer fantasma é o espírito de uma inteligência oprimida de Solitude, poderemos sair prejudicados. Concorda?
Rhodan soltou uma risada.
Não se preocupe, almirante. Sei perfeitamente qual é o valor de uma hipótese. Apenas pensei que deve haver um motivo para que o desconhecido procurasse evitar o contato. E o motivo mais simples seria este: a inteligência de Solitude sabia alguma coisa que nós não devemos saber. Por isso, devemos procurar descobrir outro fantasma e cuidar para que desta vez o desconhecido não possa interromper nossa palestra.
Atlan não fez nenhuma objeção.
É claro que só poderemos fazer isso se em Solitude houver outros seres dessa espécie — disse.
Rhodan lançou-lhe um olhar de desconfiança.
Ninguém me convencerá, almirante, de que qualquer raça que tenha uma existência física, seja ela qual for, seja representada por um único exemplar.
4



Durante todo esse tempo, o computador positrônico trabalhava ininterruptamente.
A uma indagação intermediária respondeu que só dali a cinco ou seis horas seriam fornecidos os primeiros resultados parciais.
Rhodan mandou que os homens descansassem. Não se surpreendeu quando Atlan não concordou com a sugestão, dizendo que preferia ficar na sala de comando a ser surpreendido mais uma vez por um pequeno homem em seu camarote.
Rhodan sabia que o verdadeiro motivo não era este. Atlan tinha uma idéia e não queria guardá-la para si por muito tempo.
Administrador, você já pensou — disse em tom bem-humorado — que o desconhecido opressor das pobres inteligências de Solitude talvez não fique satisfeito com o resultado alcançado? É possível que não acredite piamente que a explosão nos tenha reduzido a pó, e venha dar uma olhada. Pode ser que já esteja por perto, preparando seus foguetes.
Rhodan sorriu.
A idéia não deixa de ser brilhante, almirante. Se você não tivesse lembrado essa possibilidade, eu teria esquecido.
Atlan piscou os olhos.
Tomara que você engasgue com a mentira, bárbaro — resmungou com uma contrariedade fingida. — Por que não nos preparamos?
Porque temos tempo de sobra — respondeu Rhodan.
Por que tem tanta certeza disso? Se estiver por perto, poderá atacar a qualquer momento.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Admitamos que esteja por perto. A que distância? Mil quilômetros? Pois bem. O que poderá fazer? Poderá disparar foguetes ou outras armas contra nós. Admitamos a pior das hipóteses: que tenha um desintegrador, cujo campo de descristalização se expanda à velocidade da luz. Qual é a velocidade da luz?
Atlan levou algum tempo para compreender a finalidade da pergunta. Quando a entendeu, ficou aborrecido de verdade.
Como pude ser tão idiota!? — exclamou, interrogando-se e batendo contra a testa. — Neste universo o tempo corre setenta e duas mil vezes mais devagar que no nosso. É claro que essa variação também atinge a velocidade da luz. Quer dizer que por aqui é pouco superior a quatro quilômetros por segundo, não é?
Quatro vírgula dezessete quilômetros para sermos mais exatos — respondeu Rhodan. — Quer dizer que se alguém disparar contra nós de mil quilômetros de distância, de uma nave espacial, por exemplo, a respectiva energia se deslocará à velocidade da luz, e quatro minutos se passarão entre o momento do disparo e o do impacto. Isso será mais que suficiente para que nossos instrumentos façam a detecção do ataque e a nave se afaste. Ainda acontece que uma nave que se aproximasse a mil quilômetros seria localizada mesmo que não disparasse.
Atlan gemeu.
Onde estive com minha inteligência? Não é nada agradável ser sobrepujado por um bárbaro.
Existe coisa muito pior — disse Rhodan com uma risada. — Mas deixemos as brincadeiras de lado. Até parece que em Solitude poderemos matar dois coelhos de uma cajadada. Em primeiro lugar, temos chance de descobrir onde ficou o planeta Peregrino; e, em segundo lugar, teremos oportunidade de ver os druufs. Acho que não há a menor dúvida de que foram eles que hoje de noite mataram as inteligências de Solitude de forma tão cruel.
Não há mesmo — concordou o arcônida. — A não ser que se admita que as inteligências de Solitude se identificam com os druufs. Mas essa hipótese dificilmente será sustentável depois de tudo que já sabemos.
Nesse caso — completou Rhodan — teríamos de admitir que existe alguém mais poderoso que os druufs. E só de pensar isso começo a transpirar de medo.
Atlan fez um gesto de concordância.
Naquele instante, o aparelho automático de localização deu o alarma. Rhodan fez uma rápida leitura e transmitiu o alarma para toda a nave.
Oito unidades desconhecidas acabam de emergir por trás do sol e aproximam-se de Solitude — disse, dirigindo-se ao arcônida. — Distância de dez mil quilômetros.

* * *

Por enquanto, a K-238 não tinha muita coisa a fazer. Limitou-se a esperar. O aparelho de localização registrou as trajetórias dos objetos desconhecidos e concluiu que deviam ser tripulados, ou então estavam equipados com mecanismos de pilotagem automática muito sofisticados, pois manobravam ininterruptamente. Não havia nenhum motivo para acreditar na existência de mecanismos automáticos de pilotagem, motivo por que a primeira hipótese foi considerada mais provável.
Uma hora depois do primeiro alarma, as naves desconhecidas praticamente não haviam chegado mais perto, isso porque se deslocavam a uma velocidade não superior a trezentos metros por segundo. Convertida para a dimensão temporal dos objetos, isso correspondia a uma velocidade de 22 mil quilômetros por segundo, que era extraordinariamente elevada para uma unidade que se encontra nas imediações de um planeta. Chegou-se a conclusão de que os desconhecidos estavam com muita pressa.
Duas horas se passaram sem que se conseguisse descobrir quais eram as intenções das naves. O nervosismo começou a espalhar-se pela sala de comando da K-238.
Dentro de três horas e meia, quatro das oito naves iniciaram uma manobra de frenagem a mais de seis mil quilômetros, imobilizando-se algum tempo depois disso.
As quatro naves restantes mantiveram a velocidade inicial e, dali a mais duas horas, desapareceram na sombra de Solitude. Ao que tudo indicava, pretendiam pousar na face diurna do planeta.
Foi só então que Rhodan começou a agir. No momento em que não havia mais dúvida de que as primeiras quatro naves se conservavam na mesma posição, a K-238 decolou. A intenção do inimigo era formar uma espécie de cordão de segurança bem acima das camadas mais elevadas da atmosfera, a fim de garantir a retirada das outras naves.
Enquanto o girino subia obliquamente, Atlan deu ordem para que o computador positrônico interrompesse seus cálculos a fim de, com base na rota registrada pelos instrumentos, apurar o local provável onde pousariam as quatro naves inimigas. Uma vez que dispunha de todos os dados necessários, o problema já estava resolvido com pequena margem de erro, quando a nave saiu da atmosfera de Solitude e prosseguiu na horizontal. Atlan não fez nenhuma objeção a que o computador voltasse a dedicar-se à sua tarefa primitiva, isto é, calcular o momento em que o planeta Peregrino passou perto de Solitude.
Rhodan imprimiu à nave uma velocidade de quinze quilômetros por segundo. Para poder seguir a curvatura da superfície do planeta, viu-se obrigado a imprimir à nave uma aceleração radial, que a evitaria derivar para o espaço.
Uma vez estabilizada a rota, julgou chegado o momento de explicar o que pretendia fazer.
Vamos dar uma olhada nas quatro naves desconhecidas — disse. — Isso não representará o menor risco, pois face à sua dimensão temporal muito mais lenta estarão praticamente indefesas diante de nós. O assunto não tem a menor ligação com a tarefa propriamente dita que nos trouxe para cá: a localização do planeta Peregrino. Mas acho que não devemos perder a oportunidade de ver de perto esses seres desconhecidos, que provavelmente não são outros senão os druufs.
Dali a pouco, a K-238 sobrevoou o limite das zonas noturna e diurna, e voltou a mergulhar na luz verde do sol que se destacava contra o fundo purpúreo do espaço. O dispositivo automático iniciou a manobra de frenagem antes que fosse atingido o ponto anteriormente determinado. Desacelerando fortemente, a nave voltou a penetrar na atmosfera, seguindo uma rota retilínea em direção à superfície do planeta.
Nas telas, surgiu uma planície imensa, coberta principalmente de arbustos e cortada por uma série de largos rios. Rhodan fitou o terreno com certo desagrado e, dirigindo-se a Atlan, disse:
Até parece que estamos numa bandeja. Não estou gostando nem um pouco. Se descobrir um bom esconderijo, não deixe de avisar, almirante.
Acontece que nem o almirante, nem o detector de contornos, que funcionava como uma espécie de sonda de microondas, conseguiu descobrir qualquer irregularidade do terreno que representasse uma diferença superior a quinze metros em relação ao nível geral da planície. E a K-238 tinha a altura nada desprezível de sessenta metros. Mesmo na hipótese mais favorável, quarenta e cinco metros sobressairiam do esconderijo.
De repente, este ponto perdeu todo interesse, pois Reginald Bell anunciou que seus instrumentos não conseguiam localizar as quatro naves que deveriam pousar nesta área, nem as outras quatro, que haviam permanecido lá em cima. O espaço adjacente estava vazio, como se as naves desconhecidas tivessem sido varridas dali.
Rhodan fez uma ligeira inspeção do mecanismo de localização e constatou que este continuava a funcionar impecavelmente. Mas não conseguiu descobrir qualquer explicação para o desaparecimento repentino dos oito veículos espaciais. Quando disse isso, Atlan sorriu e respondeu:
O fato faz crescer minha autoconfiança, bárbaro. Qual é mesmo a velocidade da luz neste universo?
4,17 quilômetros por segundo — respondeu Rhodan em tom de perplexidade. — Por quê... Ah, sim! Devemos considerar estes fenômenos.
Bell e Tompetch fitaram-no com uma expressão de espanto. Até no rosto sorridente de Gorlat, surgiu uma expressão que parecia ser de incompreensão.
É claro que a velocidade da luz sofre a mesma alteração que todos os valores ligados ao tempo — explicou Rhodan. — Em Solitude, e de modo geral em todo este espaço, esta é, conforme já disse, de 4,17 km/seg. Durante o vôo que acabamos de realizar, a K-238 desenvolveu uma velocidade muito maior. Quer dizer que houve um fenômeno estranho. Sem recorrer a um meio de transporte de grau superior, como o hiperespaço, um objeto deslocou-se a uma velocidade maior que a velocidade-limite permitida pela natureza. O que se conclui dali?
Para realizar um exercício intelectual, direi que, quando um objeto ultrapassa a velocidade da luz sem utilizar um meio de transporte de ordem superior acarretará uma perda de causalidade — pelo tom da voz de Bell, deduzia-se que havia decorado o texto, fato que não deixou de confessar: — Para dizer a verdade, li isto no manual. Gostaria que alguém me explicasse o que significa.
Piscou para Rhodan, e este perguntou a si mesmo o que realmente pretendia. Reginald Bell, que havia adquirido com Perry Rhodan todo o conjunto do saber arcônida, por meio do processo de aprendizagem hipnótica, não seria incapaz de dar resposta às perguntas-limite da natureza. Queria que alguém tivesse oportunidade de salientar-se. Quem seria?
Posso explicar, Sir — disse Tompetch, que se encontrava num ponto mais afastado. — A perda de causalidade manifesta-se da seguinte forma: se aciono uma chave e posso fazer com que a corrente elétrica se desloque à velocidade superior à da luz, a lâmpada se acenderá antes que eu tenha acionado a chave.
Bell sorriu de maneira que Tompetch não o viu.
Muito bem, tenente — disse Rhodan com um sorriso. — Quer dizer que, embora não estejamos assistindo propriamente a uma inversão no tempo, defrontamo-nos com um fenômeno que traz as mesmas conseqüências. A perda de causalidade não pode ser explicada por meio de um exemplo concreto; ao menos não em todo o conjunto do fenômeno. Mas pode-se inventar exemplos, como o que o Tenente Tompetch acaba de citar, ou o de oito naves espaciais que há pouco ainda estavam ali, mas subitamente desapareceram.
O último exemplo é mais elucidativo — disse o arcônida — já que não é inventado, conforme acabamos de ver.
Bell fez menção de falar, mas o imortal prosseguiu:
Para encerrar o assunto, direi que não sabemos até que ponto eliminamos a causalidade. Ignoramos se as oito naves estiveram aqui muito antes de nós e desapareceram ou se virão depois, talvez dentro de algumas horas ou daqui a vários milênios. São coisas que não sabemos. Acho que, apesar de tudo, devemos pousar e dar uma olhada. Isso porque, de qualquer maneira, pretendíamos procurar uma segunda inteligência do planeta Solitude.
Nenhuma objeção, almirante — disse Rhodan com uma risada. — Vamos pousar.

* * *

A K-238 estava pousada numa depressão do terreno. Não era a mais profunda que existia na área, mas foi aquela em que a nave pôde ser introduzida com maior facilidade. E pouco importava que o topo da nave se erguesse quarenta e cinco ou cinqüenta metros acima da planície.
Desta vez, Reginald Bell e Rhodan deixaram a K-238 num Câmbio para fazer seu reconhecimento. Atlan, Gorlat e Tompetch permaneceram a bordo.
Rhodan ainda não se dera o trabalho de equipar seu relógio com um conversor e um novo mostrador, para que indicasse o tempo de Solitude. Teve de verificar a posição do sol para constatar que já estava no fim da tarde, e que poderiam contar no máximo com três horas de luz do sol. Depois teriam de usar os aparelhos de luz infravermelha.
No início, a grande planície apresentou-se com uma monotonia cansativa. Os arbustos que a cobriam quase sem a menor interrupção nunca se erguiam a mais de dois metros acima do solo. As árvores eram tão raras que facilmente poderiam servir de pontos de referência ao caminhante solitário.
O veículo cruzou dois rios, que eram de uma largura extraordinária, mas não introduziram nenhuma variedade no quadro monótono.
Depois de uma hora e meia de viagem, Rhodan fez meia-volta e dirigiu o veículo para a K-238. Mas seguiu por outra rota mais curta, a fim de não perder tempo. Quando seus olhos já estavam tão cansados e começavam a doer, descobriram uma abertura no solo.
Era uma abertura pequena, que mal aparecia em meio aos arbustos e à folhagem.
Rhodan baixou o veículo e manteve-o suspenso por cima dos arbustos, pois não encontrou nenhum local adequado para pousar. Bell saltou ao solo, praguejou por causa dos espinhos que lhe arranharam o rosto e examinou cuidadosamente a abertura. Constatou que as paredes internas desta estavam revestidas da mesma massa plástica vitrificada que cobria o recinto onde haviam descoberto os seres de Solitude.
Tudo em ordem! — gritou Bell. — Vamos logo, senão os druufs ainda acabarão desconfiando.
Bell esforçou-se o mais que pôde para subir por um galho bem grosso, a fim de poder alcançar ao menos a borda inferior do veículo. Assim que conseguiu, lançou um olhar de recriminação para Rhodan e disse:
Tomara que da próxima vez você não se prevaleça da diferença de graduação e vá pessoalmente.

* * *

A apenas oitenta metros da abertura, Rhodan encontrou um local para pousar. Tratava-se de uma das raras clareiras em meio aos arbustos, que mal podia abrigar o veículo, desde que esse empurrasse para o lado alguns dos galhos. Assim que pousou, informou Atlan sobre a descoberta e pediu-lhe que preparasse o equipamento já combinado, e que ele e Gorlat atentassem para o momento em que viriam buscá-los.
Reginald Bell descarregou as armas que se encontravam no Câmbio. Uma vez feito isso, Rhodan voltou ao girino a fim de trazer os três homens e os equipamentos.
O Capitão Gorlat tomara todas as cautelas durante o tempo de sua ausência.
No momento em que o Câmbio saiu da comporta de carga, os campos defensivos que isolavam por completo a nave das áreas adjacentes fecharam-se automaticamente. Só seriam desativados por meio de um código de que só existiam dois exemplares. Um deles encontrava-se no bolso de Rhodan, enquanto o outro foi depositado em local seguro, nas proximidades da K-238.
O Tenente Tompetch permanecera até o último instante junto aos instrumentos de localização, e constatara que as oito naves desconhecidas não voltaram a aparecer.
Quando o veículo pousou na pequena clareira, Reginald Bell continuava sentado ao lado das armas descarregadas do mesmo. Até parecia que o curto momento de solidão bastara para fazê-lo mergulhar num estado de melancolia provocado pela paisagem desolada.
De início, os aparelhos foram deixados na área em que o veículo acabara de pousar. Rhodan não se apressou. Preferiu expor mais uma vez todos os detalhes de seu plano.
Nosso objetivo principal consiste em evitar qualquer interferência dos druufs enquanto estivermos em contato com as inteligências de Solitude — disse. — Isso significa que não devemos deixar o sinal de rádio de duas pontas detonar o explosivo que provavelmente também está depositado nesta caverna. Por certo conseguiremos atingir esse objetivo, usando um emissor de interferência. Esse emissor trabalha em nossa dimensão temporal, o que significa que é muito mais rápido que o transmissor dos desconhecidos. Foi regulado de maneira a irradiar o sinal de interferência assim que chegue o sinal de detonação. Os dois sinais neutralizam-se mutuamente. Para não correr o menor risco, ainda criaremos um campo defensivo em torno da entrada da caverna, que impedirá a penetração de qualquer interferência vinda de fora.
Além de tudo, um de nós ficará constantemente junto ao pequeno aparelho de localização que trouxemos. Se as oito naves desconhecidas voltarem a aparecer, teremos de ser informados imediatamente.
Por fim, dispomos dos mecanismos de que precisamos para estabelecer contato com as inteligências de Solitude: um psicógrafo, um reforçador telepático, um armazenador de dados e um aparelho de condensação, que reduzirá a transmissão telepática que for captada e armazenada a uma dimensão temporal aceitável.
Antes de mais nada conviria dizer: a tarefa que temos diante de nós talvez exija algumas semanas. Se os contatos com as inteligências de Solitude se revelarem promissores, o que verificaremos dentro de dois dias, talvez possamos deixar o aparelho de armazenamento na caverna e cuidar de outra coisa. Afinal, não é de esperar que, depois de terem tomado conhecimento de nossa presença, os druufs nos deixem em paz para todo o sempre.”
Fitou os companheiros um por um e viu que ninguém queria dizer nada.
Será preferível começarmos logo — disse. — Só dispomos de alguns minutos de luz solar.
Colocaram o transmissor de interferência e o gerador de campo de bloqueio junto à entrada da caverna. O transmissor foi colocado cerca de dez metros do gerador, a fim de que os dois aparelhos não se influenciassem mutuamente através de efeitos colaterais.
O Tenente Tompetch já havia assumido seu posto junto ao aparelho de localização; Reginald Bell, que serviria de elemento de ligação, também se manteve fora do campo de bloqueio. O Capitão Gorlat postou-se no interior desse campo, junto à entrada da caverna. A Rhodan e ao arcônida, caberia entrar em contato com as inteligências de Solitude.
Muito curioso, Rhodan penetrou na galeria sem esperar o arcônida e avançou até o fim, onde encontrou um recinto igualzinho ao que descobrira perto do lugar onde haviam pousado pela primeira vez.
Atlan seguiu-o. Rhodan saltou para o chão do recinto, parou diante dos caixões e, dali a alguns minutos, sentiu a mesma dor de cabeça que na noite anterior lhe incutira a idéia de que nesse subterrâneo devia estar escondido um ser pensante.
Ligou o aparelho de armazenamento com o condensador temporal e colocou-o junto ao caixão mais próximo. Regulou-o de tal maneira que o aparelho de reforço telepático recolhia os impulsos expedidos, reproduzindo o pensamento original por meio do condensador. Inverteu os pontos de entrada e saída deste último, motivo por que o aparelho deixou de servir de condensador, passando a desempenhar as funções de amplificador, que adaptava a velocidade do pensamento à dimensão temporal das inteligências de Solitude.
Depois de convencer-se de que os aparelhos funcionavam perfeitamente, colocou na cabeça o arco metálico de reforço telepático e procurou formular o pensamento:
Somos seus amigos. Queremos ajudar.
Achou mais fácil pronunciar as palavras. Atlan, que também já havia descido da galeria e examinava as paredes do recinto, virou-se espantado.
Rhodan tirou o arco metálico.
Até que ele compreenda isso, deverá passar-se pelo menos uma hora.
Nesse caso você tem tempo para dar uma olhada nisto — disse Atlan, fazendo um gesto com a mão. — Venha cá. Acho que encontrei uma coisa interessante.
Rhodan espremeu-se entre os fios pendurados e os aparelhos amontoados e, quando se encontrava ao lado do arcônida, viu uma caixinha, do tamanho aproximado de um armário de remédios, que estava pendurada na parede. Um único fio penetrava pela parte lateral da caixinha. Seguiu o fio e descobriu que saía de um aparelho formado exclusivamente por duas bobinas. Numa delas, o fio estava enrolado densamente, enquanto na outra estava bem frouxo.
Não! — disse em tom incrédulo e enfático. — A coisa não pode ser tão simples assim.
De qualquer maneira, aposto que a bomba está nesta caixinha — disse Atlan, tocando o “armário de remédios”.
Rhodan voltou a examinar o aparelho formado por duas bobinas. Verificou que não havia dúvida de se tratar de uma espécie de indutor de faísca, ou seja, um mecanismo que transforma a corrente alternada de baixa tensão em corrente de alta tensão; o trecho destinado à faísca estava incluído no duto secundário. A bobina primária recebia a corrente de um pequeno gerador, que era colocado em movimento pelo sinal de rádio de duas pontas.
A trajetória da faísca ficava no interior do corpo explosivo, guardado na caixinha presa ao armário. Bastaria interromper qualquer dos dois dutos de energia para desativar a bomba. Rhodan pegou o fio que levava do gerador à bobina primária do indutor e arrancou-o.
Muito bem — disse. — Isso está liquidado.
No mesmo instante, a dor de cabeça que até então sentira ininterruptamente cessou. Sentiu-se perplexo e, por algum tempo, pensou que a ruptura do fio poderia ter perturbado alguma função vital da inteligência do planeta Solitude. Mas logo se deu conta de que esse ser evidentemente teria de irradiar pensamentos assim que captasse os impulsos transmitidos pelo condensador temporal. A coincidência no tempo foi puramente casual.
Suspirou aliviado e, apontando para os seis caixões, disse a Atlan:
Começo a compreender.
O arcônida ergueu as sobrancelhas, num gesto de espanto.
Como sabe disso? A dor de cabeça acabou?
Isso mesmo.
Atlan olhou para o relógio.
Ainda falta uma hora — murmurou.
Podemos aproveitar o tempo para compreender melhor as coisas que existem aqui embaixo.
O arcônida virou a cabeça e passou os olhos de um instrumento para outro. Escolheu um que lhe parecia relativamente pouco complicado. Aproximou-se e examinou-o atentamente.
Rhodan ouviu-o resmungar, mas não compreendeu uma palavra do que dizia. Achou que a idéia de Atlan, de que não deveriam perder tempo, era perfeitamente razoável. Olhou em torno para descobrir outro aparelho que pudesse examinar com alguma possibilidade de êxito.
Mal acabara de escolher um deles, aconteceu uma coisa que frustrou todos os planos.
Foi tudo tão rápido que mais tarde nem Rhodan, nem o arcônida saberiam dizer como haviam percebido a súbita alteração. Numa fração de segundo, a temperatura no interior do recinto subiu de tal forma que os dois homens quase não conseguiram respirar. Ao mesmo tempo, um rugido surdo encheu o recinto. Com o rosto voltado para a parede lateral, Rhodan notou que o fio que levava para a bobina primária do indutor, e que fora arrancado poucos segundos antes, caíra ao chão.
Foi este o fator decisivo, ao menos para ele...
No mundo estranho, muito mais lento, o fio teria levado algumas horas para atingir o solo. Não sabia o que havia acontecido, mas intuía que houvera uma modificação das dimensões temporais.
Com Atlan, o arcônida, as coisas foram diferentes. Lembrou-se de já ter sentido uma elevação tão súbita da temperatura como esta. Foi no momento em que a explosão teve início na outra caverna. Passou agilmente entre os fios e aparelhos, tendo o cuidado de não danificar nada, e subiu à galeria.
Rhodan! — gritou. — Mexa-se, homem! A bomba está explodindo.
Só então percebeu o ruído surdo que enchia o recinto e percebeu que este de forma alguma combinava com o quadro que tinha na lembrança. A calma de Rhodan, que continuava parado, foi a gota que fez o caldo entornar. Saltou da boca da galeria, encostou a mão a uma caixa metálica alta e sentiu-a vibrar. Encostou o ouvido ao metal e escutou um zumbido grave.
O ruído vinha dos aparelhos.
Viu que Rhodan tirara o pequeno rádio e falava apressadamente. Compreendeu parte da resposta, que vinha da boca do Capitão Gorlat.
De repente esquentou muito. Há uma tempestade forte...
Rhodan acenou com a cabeça e disse:
Vamos subir.
Atlan voltou à galeria e subiu. Rhodan seguiu-o.
O que houve? — perguntou o arcônida. — O que significa tudo isso?
Com uma estranha calma na voz, Rhodan respondeu:
Ou alguém nos atirou para a outra dimensão temporal, ou então alguma coisa fez com que todo o planeta Solitude passasse à nossa dimensão. É claro que não tenho certeza sobre qual das duas alternativas é a correta. Lá em cima veremos.
Um véu parecia cair dos olhos de Atlan.
Naturalmente; só podia ser isso. A dimensão temporal dos terranos já não era diferente daquela que regia os aparelhos e a inteligência de Solitude, nem daquela que guiava os arbustos e outras plantas que cresciam na planície. Por isso, voltaram a ouvir o zumbido dos aparelhos e a sentir o vento. Eram coisas que até então se processavam tão devagar que não conseguiam ouvi-las.
E o calor surgido de repente? Atlan enxugou o suor da testa e, muito espantado, contemplou a mão molhada.
De onde vinha esse calor?”, pensou. “O que é a temperatura? Apenas a medida da velocidade média das moléculas. É claro que agora as mesmas se movem com maior rapidez que antes, e assim a temperatura tem de subir abruptamente no momento em que as duas dimensões temporais se igualam. Que diabo! Quem as igualou?
Naquele momento, uma corda bateu em seu rosto. Sem interromper seu raciocínio, segurou-a e puxou-se para cima. O Capitão Gorlat, que se encontrava junto à entrada da galeria, já recuperara a calma. Em seu rosto, via-se um sorriso amável.
Atlan afastou-se da entrada da galeria e admirou-se com a maciez do capim.
É uma tolice a gente admirar-se com isso”, pensou no mesmo instante. “É claro que o capim também não escapa aos efeitos da modificação de sua dimensão temporal.”
Rhodan saiu da galeria atrás dele.
Desligue o campo de bloqueio! — gritou para Gorlat antes de vir à tona.
Gorlat obedeceu. O ligeiro tremeluzir, que até então cobria a entrada da caverna como uma abóbada brilhante, cessou de repente. Por cima do farfalhar do vento, ouviu-se o estalo dos arbustos e uma voz inconfundível, que praguejava:
Que diabo! Não há quem agüente este calor.
Venha cá! — chamou Rhodan. — O campo de bloqueio já foi desligado.
Reginald Bell saiu de entre os arbustos.
Antes que você comece a falar, é bom que saiba que as oito naves voltaram a aparecer nas telas de Tompetch! — exclamou.
Rhodan acenou com a cabeça como quem não esperava outra coisa.
É evidente — disse. — E agora elas se deslocam com maior rapidez, não é?
Isso mesmo; são muito mais rápidas — respondeu Bell.
Preste atenção, Bell — disse Rhodan. — Quero que você e Atlan entrem no buraco. Você já sabe o que aconteceu. Não precisamos mais do condensador temporal para entrar em contato com a inteligência de Solitude. As duas dimensões temporais foram igualadas. Um de vocês lhe explicará que somos seus amigos e queremos ajudar; naturalmente procurarão descobrir se sabem alguma coisa sobre a passagem do planeta Peregrino ou sobre os druufs. Tudo isso deve ser feito com a maior rapidez. Já não temos a vantagem do tempo em relação aos druufs.
O que pretende fazer? — perguntou Bell.
Preciso cuidar da nave — respondeu Rhodan, que já estava de saída. — Não sabemos o que aconteceu por lá. Gorlat, venha comigo. Atlan, explique-lhe que não precisa preocupar-se com a bomba.
Desapareceu entre os arbustos, seguido pelo Capitão Gorlat.

* * *

Mike Tompetch estava sentado à frente do pequeno aparelho de localização. Viu que quatro das oito naves desconhecidas desapareciam, enquanto as quatro restantes começavam a descer, segundo lhe parecia, exatamente em direção ao lugar em que se encontrava.
Naquele instante, os arbustos começaram a estalar perto dele e Rhodan surgiu à sua frente, seguido de perto por Gorlat. Com um movimento rápido, Tompetch enxugou o suor da testa e levantou-se de um salto.
Rhodan explicou em palavras ligeiras o que havia acontecido e disse que, em sua opinião, os fenômenos eram devidos à igualização das duas dimensões temporais.
Tompetch disse que, embora sentisse muito calor, estava passando bem; não havia motivo para preocupar-se com ele. Avisaria assim que as quatro naves desconhecidas se aproximassem a menos de cinqüenta quilômetros.
Rhodan e Gorlat entraram no veículo. Rhodan foi na direção, levantou o veículo verticalmente entre os arbustos e dirigiu-o em meio à noite para a K-238.
Posso fazer uma pergunta? — disse Gorlat de repente.
Fique à vontade — disse Rhodan. — O que deseja saber?
A temperatura subiu de repente — disse Gorlat — assim que se verificou a igualização das dimensões temporais. Isso é perfeitamente lógico; evidentemente, em nossa dimensão temporal as moléculas se movem mais rapidamente que na outra. Mas se a esse fenômeno se aplicasse o fator de distorção geral, que é de setenta e dois mil, a esta hora já devíamos estar assando, não é?
Rhodan sorriu.
Fico satisfeito em notar que o senhor me faz uma pergunta que não sei responder — disse. — O senhor tem toda razão. A temperatura subiu, mas não na medida que seria de esperar — deu de ombros. — É de supor que o fator de distorção não atinge todos os fenômenos com igual intensidade. Não sei se esta resposta lhe serve; acontece que não tenho outra, ao menos por enquanto.
Gorlat deu-se por satisfeito e olhou pela janela do veículo, procurando descobrir a K-238 em meio à escuridão. Notou que a escuridão já não era marrom, mas negra ou azul-escura. No entanto, é difícil atribuir qualquer cor à escuridão, e por isso resolveu guardar essa idéia para si.
O que o deixou muito mais exaltado foi o fato de que não se via a K-238. Estava escuro; mas um colosso como a nave devia ser visto mesmo na escuridão.
Sem dizer uma palavra, Rhodan virou a direção e fez o veículo descrever uma curva fechada. O rastreador mostrou uma depressão larga, de dez metros de profundidade. Era a depressão em que a K-238 havia pousado. Gorlat lembrou-se de que estivera num lugar em que a depressão apresentava uma espécie de alargamento, numa extensão de algumas centenas de metros. Esse alargamento foi projetado com toda nitidez na tela do rastreador.
Acontece que a nave não estava lá!
Rhodan parou o veículo e deixou-o descer lentamente na depressão. Gorlat dirigiu a luz da lanterna para fora da janela e viu que não havia o menor sinal no chão. Os suportes hidráulicos, que haviam sustentado a nave, não deixaram qualquer impressão no solo.
A K-238 desaparecera!
Chame Tompetch! — disse Rhodan de sopetão. — Quero que ele nos diga o que é feito das quatro naves desconhecidas.
Gorlat obedeceu.
A voz potente de Tompetch respondeu.
Desceram a oitenta quilômetros — disse, respondendo à pergunta de Gorlat. — Ali pararam e, depois de algum tempo, voltaram a subir. No momento, encontram-se a duzentos quilômetros e sua velocidade é tamanha que até chego a supor que não têm a intenção de voltar a Solitude.
Não viu uma quinta nave? — perguntou Rhodan, inclinando-se de lado para aproximar a boca do microfone que Gorlat segurava na mão.
Não senhor — respondeu Tompetch em tom de espanto. — As outras quatro naves continuam abaixo da linha do horizonte.
Pois pegue seu aparelho — pediu Rhodan — e procure localizar a entrada da caverna. Assim que tiver descoberto o lugar, queime alguns arbustos, com o desintegrador, para que possamos pousar. Já não precisamos de qualquer posto avançado. Entendido?
Sim senhor — respondeu Tompetch. Rhodan moveu a direção, fez o veículo subir rapidamente e, voando alto por cima dos arbustos, levou-o em direção à entrada da caverna. Depois de algum tempo, viram uma sombra escura lá embaixo; era Tompetch, que caminhava em meio à vegetação, arrancando ou empurrando para o lado tudo que se interpunha em seu caminho. O vento soprava mais suavemente que antes, movendo agora os arbustos.
Tompetch chegou à entrada da caverna. Fez o que Rhodan havia mandado: pegou o desintegrador e, dentro de poucos segundos, limpou uma área de cerca de trinta metros quadrados. Rhodan fez o veículo descer lentamente e pousou junto à entrada da caverna.
Tompetch aproximou-se do veículo, como se quisesse formular uma porção de perguntas.
A K-238 desapareceu — disse Rhodan. — Teremos de elaborar outro plano de batalha. Chame Bell e o arcônida.
5



Na verdade, a pergunta “quem é o responsável pela igualização das dimensões temporais?” não assume maior importância — disse Rhodan ao concluir seu relato lacônico. — É de supor que os druufs tenham um meio que lhes permita transferir para sua dimensão temporal qualquer ser que se encontre em outra dimensão. No fundo, isso é totalmente indiferente para nós.
O fato é que temos de nos conformar com a idéia de que estamos vivendo na dimensão temporal de Solitude. Enquanto aqui se passam vinte e quatro horas, lá fora, em nosso Universo, só se passam 1,2 segundos. Mas não sabemos quais serão os efeitos do deslocamento temporal, que se verificarão quando sairmos daqui.
Ainda acontece que nossa nave desapareceu. A tarefa mais urgente a ser cumprida consiste em encontrar um meio de sair de Solitude e voltar à Drusus. O problema de descobrir a localização do planeta Peregrino ou saber novidades sobre os druufs é secundário, embora seja de supor que eles se interessarão por nós. Ao que parece, alguns deles ainda se encontram em Solitude. Sem dúvida, a K-238 não pode ter saído sozinha; Tompetch não conseguiu localizá-la no espaço.”
Estão todos com a cabeça abaixada”, pensou Rhodan, constatando. “Não estão gostando da situação em que se encontram. Não é de admirar.”
Mudando de assunto, perguntou a Reginald Bell:
Como estão as coisas lá embaixo? O ser de Solitude já mostrou alguma reação?
Bell fez que sim.
Já. Captou os primeiros pensamentos emitidos por você e acredita que somos seus amigos. Depois veio uma massa enorme de pensamentos estranhos, que não compreendi. Acho que você devia descer.
Atlan interveio:
Também não faço a menor idéia. Rhodan levantou-se.
Muito bem; descerei para fazer outra tentativa. Pelo menos três homens deverão ficar de guarda aqui em cima. Sei perfeitamente que todos não dormem há bastante tempo, mas apesar disso peço-lhes que fiquem com os olhos bem abertos. É preferível não dormir agora para não termos de dormir para sempre, não é?
Rhodan entrou na caverna. Atlan, o arcônida, seguiu-o.
Sem a menor hesitação, Rhodan saltou da galeria para o chão do recinto subterrâneo. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que, nesse meio tempo, alguém colocara em funcionamento o pequeno gerador de corrente alternada. Fazia pelo menos trinta rotações por segundo.
Se não tivesse cortado o fio”, pensou Rhodan, “a esta hora já teríamos voado pelos ares.
Ouviu o arcônida saltar para fora da galeria.
Foram vocês que ligaram? — perguntou Rhodan.
Atlan não sabia do que estava falando. Rhodan apontou para o gerador.
Ah, o gerador? Não. Ora, veja só. Nossos amigos, os druufs, não gostam que façamos uma visita ao nosso companheiro dos seis caixões.
Rhodan confirmou com um gesto.
A esta hora, já devem ter descoberto que alguma coisa não deu certo com sua bomba — disse. — É possível que não demorem em aparecer aqui para verificar o que houve.
Bem que eu gostaria que isso acontecesse — disse Atlan em tom zangado. — Seria um prazer explicar-lhes o que acho desses ladrões de naves.
Rhodan sentou-se no chão, perto dos seis caixões, colocou o reforçador telepático, segurou o arco metálico e colocou-o na cabeça. Depois fechou os olhos, para concentrar-se, e disse:
Sou seu amigo. Diga alguma coisa. No início, não houve nada além da escuridão impenetrável.
Mas, subitamente, houve um clarão, que parecia rolar de um lado para outro, conforme se notava de sua contextura apagada. A mancha luminosa tinha o formato de um cilindro que tivesse sido aquecido várias vezes a ponto de derreter em alguns lugares, mas que a essa hora já endurecera de novo.
Depois surgiu outra imagem: a imagem de um homem. No início, foi uma imagem pálida, mas logo se tornou nítida, como se o pensamento fosse formulado de forma mais enfática. Rhodan não se surpreendeu ao perceber que o homem era ele mesmo. Procurou perceber o que estava fazendo. Não conseguiu, mas teve a impressão de que a representação mental do encontro verificado entre ele e a inteligência de Solitude era totalmente amistosa.
Compreendeu o sentido da primeira imagem: também sou seu amigo.
Sentiu-se satisfeito com o êxito tão rápido, e o ser de Solitude parecia ter notado a satisfação; uma forte luminosidade passou pela imagem que Rhodan trazia na mente.
A luminosidade desapareceu, sendo substituída por outra imagem. Rhodan viu um grande prado com um número imenso de vacas-marinhas que rolavam alegremente no chão e, no que parecia, não tinham outra coisa a fazer senão deixar que o sol lhes esquentasse a barriga.
É uma simplificação”, pensou Rhodan imediatamente. “É claro que têm mais o que fazer senão rolar pelo capim. A imagem quer dizer que são ou já foram felizes.”
De repente, a imagem sofreu uma modificação. No início, um setor da mesma foi amplificado e logo após um objeto em forma de fuso surgiu junto a esse setor. Rhodan não viu logo de que se tratava. Mas quando surgiu uma abertura nesse objeto, e uma série de pontos luminosos passou a descer por uma rampa, teve a impressão de que devia ser uma nave espacial. O que o irritou foi a perspectiva falsa. A imagem reproduzia a vaca-marinha com o mesmo tamanho da nave.
O quadro deixou-o bastante excitado. Se não estivesse muito enganado, dali a pouco teria oportunidade de ver alguns druufs a não ser que a inteligência de Solitude não continuasse a projetar-se com o mesmo tamanho de uma nave espacial, e os druufs com o tamanho de uma cabeça de alfinete.
A imagem sofreu outra modificação. Um dos pontos reluzentes foi alcançado pela objetiva mental, e ampliado. Rhodan reteve a respiração, mas a única coisa que viu foi um dos estranhos robôs dos druufs. O que era reproduzido na imagem possuía a forma de um diamante que tivesse sido trabalhado por um lapidador embriagado. Era feito de uma série de superfícies planas, todas elas diferentes umas das outras, formando os ângulos mais diversos.
Outra imagem. O exército de robôs precipita-se sobre as vacas-marinhas que não desconfiam de nada. Nem pensaram em defender-se, mesmo quando perceberam que estavam sendo atacadas. Rhodan teve a impressão de notar que, toda vez que os robôs pegavam uma das vacas-marinhas, enfiavam um objeto com o aspecto de termômetro clínico numa das aberturas de seu corpo, que poderia corresponder à boca ou ao nariz. Depois a respectiva vaca-marinha sempre se mantinha bem quieta.
Provavelmente ficou inconsciente”, pensou Rhodan.
Ao que parecia, a inteligência de Solitude não guardava a menor lembrança do que aconteceu depois. Essa circunstância foi assinalada por alguns segundos de escuridão mental. Quando Rhodan teve a impressão de que o intercâmbio telepático chegara ao fim, percebeu outra imagem: a do recinto em que se encontrava.
A imagem não era bem exata. Sobre os seis caixões que se encontravam no recinto pairava uma vaca-marinha; tinha-se a impressão de que não pertencia ao quadro, tendo sido sobreposta ao mesmo. Subitamente seu corpo começou a esfacelar-se. Um dos pedaços caiu no primeiro caixão, outro no segundo, e assim por diante, até que o corpo, decomposto em seis partes, estivesse distribuído pelos seis caixões.
Rhodan não soube o que fazer com a imagem.
Será que significava que os druufs, ou seus robôs, haviam cortado cada inteligência de Solitude em seis pedaços, e colocado esses pedaços em seis caixões diferentes? Em caso afirmativo, por que teriam procedido dessa forma?
Ao que parecia, o amplificador transmitiu fielmente a pergunta. Em resposta, seguiu-se em rápida sucessão o mesmo grupo de imagens. A primeira mostrava uma vaca-marinha inteira, que se movia como uma cobra, enquanto a outra reproduzia uma vaca-marinha despedaçada, cujas partes se mantinham completamente imóveis.
Rhodan compreendeu. O esfacelamento do corpo impedia as funções orgânicas da vaca-marinha. Provavelmente só as funções espirituais prosseguiam normalmente.
Assim que este pensamento surgiu em sua mente, a sucessão de imagens chegou ao fim. A inteligência de Solitude percebeu que havia compreendido o que desejava dizer-lhe. Rhodan ficou tão satisfeito que, para o espanto de Atlan, disse:
Tudo bem!

* * *

A “sessão”, nome que Reginald Bell daria mais tarde ao intercâmbio telepático, durara mais de três horas. Depois de ter subido pela corda, Rhodan estava exausto quando saiu da galeria. Mesmo assim, começou a contar aos companheiros o que conseguira descobrir.
As inteligências de Solitude são seres unissexuais e não-humanóides, dos quais este planeta abriga cerca de um milhão. Não sei nada sobre o estágio de sua civilização, seu avanço tecnológico e outras coisas deste tipo.
De qualquer maneira, levavam vida feliz, até que, há cerca de três anos, algumas naves dos druufs surgiram em Solitude. Verdadeiros exércitos de robôs capturaram os seres nativos do planeta, o que não foi difícil, já que as inteligências de Solitude viviam em grandes manadas, e os colocaram nas cavernas que, ao contrário do que se supunha, tiveram de ser cavadas pelos robôs, pois não existiam.
Cada ser de Solitude foi dividido em seis partes, fato que parece indicar que a matemática dos druufs funciona na base seis, ou outra base semelhante. Os seis pedaços de cada ser foram guardados numa caverna, cada pedaço num caixão diferente. A divisão tinha por fim imobilizar os prisioneiros e impedir sua fuga das cavernas. É bem verdade que a divisão não acarretou a morte das capacidades espirituais. Era precisamente isso que os druufs desejavam.
É que as inteligências de Solitude possuem uma estranha faculdade. Trata-se da faculdade de separar o espírito, ou melhor, a inteligência e o corpo. Enquanto o prisioneiro permanecia na caverna, sem poder fazer coisa alguma, poderia enviar a inteligência para fora e verificar o que acontecia nas imediações e nos lugares mais afastados de sua prisão.
Era exatamente essa faculdade que interessava aos druufs. As inteligências de Solitude passaram a desempenhar as funções de aparelhos de localização muito baratos. Ao que tudo indica, os druufs sabiam que o planeta Solitude estava na periferia de seu plano temporal e faziam questão de ser informados sobre qualquer ser que penetrasse nesse plano, vindo da outra dimensão. Os seres de Solitude reconheceriam imediatamente a presença de qualquer desconhecido, e esse reconhecimento provocaria em seus corpos uma reação de surpresa, que era registrada por meios bem primitivos, transmitida por um hiperemissor e assim levada ao conhecimento dos druufs. Estes apenas precisavam ficar de olhos nos instrumentos de registro. Assim que estes mostravam uma reação mais forte, sabiam que em Solitude alguma coisa não estava em ordem.
É esta a situação, descrita em traços ligeiros. É de supor que os druufs estejam em condições de estabelecer distinção entre vários tipos de reação de seus prisioneiros. Sem dúvida, perceberão se uma inteligência de Solitude ficou assustada com uma tempestade, ou se descobriu um ser estranho, como nós. Mas isso é coisa que diz respeito aos druufs; nosso amigo, que está lá embaixo, não sabe nada a este respeito.
Bem, acho que é só. Ah, sim! É claro que o corpo dos seres de Solitude tem de ser mantido vivo. Uma vez que não exerce qualquer atividade mecânica, seu consumo de alimentos e oxigênio é extremamente I reduzido. Os aparelhos que vimos na caverna têm por fim evitar que o prisioneiro morra. Uma série de dutos leva alimento sintético e oxigênio a cada um dos caixões.
Há outro detalhe. Apesar de todos os recursos técnicos, o corpo do prisioneiro morrerá depois de algum tempo. Os druufs sabiam disso. Ainda sabiam que só existe uma possibilidade de evitar essa morte. Os prisioneiros deviam ser libertados a intervalos regulares. Pelo que entendi, a cada três meses, por alguns dias ou algumas horas. Nessas oportunidades, as seis partes do corpo eram reunidas e as inteligências podiam passear fora das cavernas. Naturalmente eram mantidas sob vigilância, pois os prisioneiros não estão nada satisfeitos com a vida que levam.
É esta a explicação para o formato estranho do acesso das cavernas. Os seres de Solitude precisam de uma via para sair e entrar na caverna.”
Manteve-se calado; os ouvintes também permaneceram em silêncio.
Aliás — disse Rhodan de repente, como se só agora se lembrasse — é claro que Atlan e eu abrimos os seis caixões. Não tivemos nenhum motivo para deixar nosso amigo preso por mais tempo. Ele precisa de algum tempo para reunir os seis pedaços. Depois aparecerá por aqui.
Já lhes disse que não é um ser humanóide. Tompetch, esta observação dirige-se ao senhor, que é o menos experimentado de nós. Não se assuste ao ver nosso amigo, e não pense nada que possa ofendê-lo. Da capacidade de separar a inteligência do corpo decorre, de certa forma, o dom da telepatia.”
Tompetch confirmou com um aceno de cabeça.

* * *

A primeira coisa que perceberam foi um chiado que saiu da galeria. Rhodan explicou:
Trata-se de um dispositivo muito bem pensado, que suga o ar e o expele na outra extremidade, sob alta pressão. Com isso, a pressão no interior da caverna vai aumentando. Como o corpo de nosso amigo preenche todo o espaço da galeria, a pressão interna empurra-o para fora. Pelo que diz, o processo é bastante rápido.
Todos os olhares estavam fitos na saída da galeria. Na borda da mesma, surgiu uma peça de matéria cinzenta, que ninguém saberia dizer o que era. Por algum tempo, a peça cinzenta manteve-se imóvel, sobressaindo apenas alguns centímetros da entrada da galeria. Ouviu-se outro chiado, e, de repente, o corpo estranho ergueu-se um metro acima da entrada da galeria.
O chiado repetiu-se várias vezes. Subitamente a coluna, que já adquirira a altura respeitável de três metros, caiu para o lado com um ruído surdo sobre o chão que Tompetch limpara com o desintegrador, enquanto a pressão mais elevada do interior da caverna se adaptava imediatamente à pressão ambiente, produzindo um chiado e expelindo poeira.
Tompetch arregalou os olhos ao ver aquele objeto cilíndrico e cinzento deitado no chão. Viu que se movia, rolando e escorregando, permanecendo em repouso quando uma das extremidades quase chegava a tocar Rhodan.
Espantou-se ao ver que Rhodan conseguiu acariciar a coisa cinzenta como quem acaricia um cão. Sua voz parecia vir de longe:
É claro que nossa colaboração apenas está começando. Procuraremos explicar ao nosso amigo que nos sentiríamos muito gratos se procurasse localizar os druufs. Conforme sabemos, seu espírito, ou sua inteligência, conforme queiramos, não está submetido a qualquer dimensão temporal, sendo capaz de mover-se com a velocidade que melhor lhe aprouver. Se conseguirmos convencê-lo a ajudar-nos, teremos o melhor aliado que poderíamos desejar.
Aos olhos de Tompetch, aquilo era muito estranho. Viu Rhodan colocar o arco do amplificador telepático sobre a cabeça e conversar por horas a fio com o cilindro cinzento, sem obter qualquer resposta audível. Apesar disso, viu pelo rosto de Rhodan que este conseguia bons progressos, tanto que vez por outra o ouvia dizer:
Muito bem, amigo. Conseguimos entender-nos cada vez melhor.
Tompetch também viu o sol nascer e notou que já não era verde, mas branco. E o céu não era de cor turquesa, mas de um azul radiante.
Tompetch assistiu a tudo isso como se não estivesse presente.
Porém acabou provando que era um oficial da Frota Espacial Terrana. Chamou-se de idiota, tomou alguns goles de uísque de sua ração de emergência e passou a sentir-se melhor; pelo menos já não estava tão confuso como antes.
Durante as últimas horas da noite e as primeiras horas do dia, não prestara muita atenção ao instrumento de localização. Vez por outra, lançava um olhar para a tela, sempre vazia, e isso bastou para que tivesse certeza de que nenhum perigo os ameaçava ou ameaçaria num futuro próximo.
Agora, quando de repente viu a tela verde-escura, salpicada de um número enorme de pontinhos junto à margem inferior, sentiu-se como alguém que dormiu enquanto estava de sentinela. Por isso, levou algum tempo antes que, gaguejando de susto, pudesse anunciar a novidade.
Eram quarenta pontos no total, e sua disposição na tela provava que já haviam cercado totalmente o pequeno acampamento montado junto à entrada da caverna.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html