Rhodan não
teve a menor dúvida de se tratar de corpos metálicos, mais
precisamente, de robôs, que haviam sido enviados para capturar ou
matar os homens do grupo.
Isso não
era de admirar! Os druufs deviam estar tão interessados em conhecer
o mais implacável de seus inimigos.
Rhodan não
tinha muitos receios em relação ao confronto que se aproximava.
Numa série de lutas, especialmente nas travadas juntamente com
Mareei Rous, no mundo de cristal, constatara-se que as armas dos
robôs dos druufs eram muito inferiores às armas terranas.
As
preocupações de Rhodan eram bem diferentes. Tratava-se de uma coisa
sobre a qual até então ninguém falara: o desaparecimento da K-238
e as conseqüências que resultariam daí. Um colosso metálico como
a K-238 não poderia ter deixado de lançar um reflexo sobre a tela
de Tompetch, por mais rapidamente que se afastasse do local em que
estivera pousada. Mas não aconteceu nada disso: portanto...
Agora,
ninguém mais precisaria quebrar a cabeça para descobrir as
intenções dos druufs, pois estas estavam sendo manifestadas de
forma inequívoca. Então Rhodan combinou com a inteligência de
Solitude para que esta procurasse localizar a nave dos inimigos que,
sem dúvida, teria trazido os robôs. Devia encontrar-se em local
próximo, no máximo a cem quilômetros, pelos cálculos de Rhodan.
O
contingente de robôs inimigos aproximava-se cada vez mais. Assim
mesmo, Rhodan teve tempo para observar que, de repente, o corpo do
ser de Solitude se tornou flácido e sem vida, quando a inteligência
— ou o espírito — se separou do mesmo.
Agora o
estranho ser não estava submetido a qualquer dimensão temporal, e
movia-se aproximadamente à velocidade com que Rhodan e os homens de
seu grupo se haviam movido antes da igualização das dimensões
temporais. Em outras palavras, seus movimentos eram tão rápidos que
um olho submetido à dimensão temporal de Solitude não conseguiria
vê-lo.
Rhodan
levantou-se e fez um sinal para o Tenente Tompetch.
— Pegue
um desintegrador pesado — ordenou. — Vamos ver as linhas inimigas
de cima.
Tompetch
sentiu-se entusiasmado. Teria oportunidade de dar uma prova de seu
valor. Procurou às pressas uma pesada arma automática de
desintegração no montão de armas que se encontrava junto aos
arbustos e entrou no Câmbio. Também armado, Rhodan tomou lugar à
direção.
Ao que
parecia, os outros já sabiam o que fazer. Reginald Bell mandou que o
arcônida e o Capitão Gorlat ocupassem seu lugar entre os arbustos e
avisou-os para que se mantivessem totalmente escondidos.
O corpo
imóvel da inteligência de Solitude também foi arrastado até os
arbustos.
*
* *
Do lado de
fora, o termômetro atingira a marca dos quarenta e cinco graus. Em
comparação com essa temperatura, os trinta e oito graus produzidos
pelo aparelho de condicionamento de ar representavam um verdadeiro
conforto.
Duas
alternativas se ofereciam a Rhodan: voar rente ao solo ou a grande
altitude. Rhodan escolhera a segunda, que lhe ofereceria melhor
visão. Para o veículo versátil com seu propulsor antigravitacional
não havia a menor dificuldade em deslocar-se a dois mil metros do
solo, como se fosse um avião.
Nessa
altura, os enormes robôs dos druufs, que já formavam um círculo de
seiscentos metros em torno do acampamento, transformaram-se em
pontinhos reluzentes. Ao que parecia, não notaram a presença do
veículo, ou então não se interessaram pelo mesmo. De qualquer
maneira, na opinião de Tompetch, seu procedimento era estranhável.
Não havia a menor dúvida de que o alcance de suas armas, que eram
semelhantes aos radiadores térmicos terranos, era suficiente para
atingi-los e, por certo, sabiam que as armas terranas também seriam
capazes de atingi-los lá embaixo.
— O que
acha disso, Tompetch? — perguntou Rhodan de repente, como se
adivinhasse o assunto sobre o qual o tenente estava quebrando a
cabeça.
— É
estranho, Sir — respondeu Tompetch. — São robôs, e já devíamos
saber que um robô nunca deixa de perceber qualquer coisa. Se não
atiram contra nós, isso...
Lá
embaixo surgiu um lampejo, como que para escarnecer das palavras de
Tompetch. Um feixe energético branco-incandescente passou a vinte
metros do veículo, produziu um chiado no ar aquecido e um solavanco
no carro.
Rhodan fez
uma manobra e o disparo seguinte passou pelo menos a duzentos metros
do veículo.
— Isso o
quê? — perguntou, como se nada tivesse acontecido.
— Isso
nos deveria levar a supor — prosseguiu Tompetch — que não nos
querem fazer nada. Talvez estejam realizando apenas uma manobra...
Mas esta opinião já está superada. Afinal, estão atirando.
Viu-se
outro lampejo produzido por um tiro. Sua trajetória passou perto da
carlinga de plástico, fazendo com que o termômetro desse um salto
rápido para além dos quarenta graus. Com um ribombo, o ar aquecido
voltou a ocupar a trajetória do tiro.
Rhodan
desviou-se.
— A
coisa está ficando muito arriscada — disse. — Dê-lhes aquilo
que lhes cabe.
Tompetch
enfiou a arma pesada na abertura existente abaixo da janela da
carlinga. Enquanto Rhodan manobrava o aparelho e uma série de
disparos de radiações passava por eles sem produzir o menor dano,
Tompetch dirigiu a mira automática para um denso grupo de robôs e
apertava o gatilho toda vez que a luz vermelha indicava que
conseguira fazer pontaria sobre um alvo.
A luz
acendeu-se por oito vezes, e oito pontos reluzentes desapareceram de
entre os arbustos. Oito nuvens de poeira metálica subiram ao ar.
— Agora
só restam trinta e dois — disse Tompetch laconicamente.
Os robôs,
que pareciam perceber o perigo que os ameaçava, abrigaram-se entre
os arbustos. Mas não contavam com a perfeição da tecnologia
terrana. A tela de localização continuava a mostrar os pontinhos
reluzentes da mesma forma que antes; a vegetação não representava
qualquer obstáculo. Tompetch acoplou a mira automática ao mecanismo
de localização, e fez o círculo vermelho parar sobre um grupo de
cinco pontinhos.
Dali a
algum tempo, anunciou:
— Ainda
restam vinte e sete, Sir.
Os
disparos inimigos diminuíram. Ao que parecia, os robôs estavam
preocupados em abrigar-se e escapar ao fogo muito bem dirigido de
Tompetch.
Tompetch
transformou mais de metade dos robôs inimigos em nuvens de gás. Os
outros fugiram desabaladamente; até mesmo o robô possui o instinto
de autoconservação, muito embora seja um instinto artificial,
criado pelo construtor no intuito de evitar, na medida do possível,
a perda da construção. Naquela altura, Reginald Bell e seu grupo,
orientados pelas indicações de Rhodan, ajudaram a combatê-los.
Por
estranho que possa parecer, os robôs fugiram em todas as direções,
muito embora, via de regra, esses mecanismos possuíssem um ótimo
senso de orientação, e soubessem melhor que qualquer ser orgânico
que rumo deveriam tomar. Rhodan concluiu que o inimigo não tinha o
menor interesse em revelar a posição de sua nave.
Ao que
tudo indicava, contava com a possibilidade de que o veículo de
Rhodan pudesse descobri-la. O motivo disso poderia consistir no fato
de que a nave dos druufs não estava muito bem escondida, ou então
os robôs sabiam que os terranos não poderiam destacar um homem para
localizar a nave.
Enquanto
refletia sobre essas coisas, Rhodan voltou a pousar seu veículo na
clareira que Tompetch havia queimado em meio aos arbustos. Reginald
Bell recebeu-o numa disposição eufórica. Com o rosto sujo e
coberto de poeira, trazia a arma a tiracolo e, levantando os braços,
gritou:
— Nós
os mandamos para o inferno.
Rhodan
desceu e esteve a ponto de responder. Mas, nesse instante, teve uma
idéia. E essa idéia foi tão nítida que até parecia que já se
encontrava há bastante tempo nos escaninhos da consciência,
aguardando o momento em que sua presença fosse notada.
A bomba!
Por que
não pensara nisso antes? Por que não se lembrara de que os robôs
dos druufs poderiam tirar proveito da nova situação?
Por um
instante, fitou a entrada da galeria. Depois virou-se abruptamente e
gritou para o rosto radiante de Bell:
— Coloquem
o cilindro no carro! Vamos logo! Rápido!
Bell não
sabia o que estava acontecendo, mas suas reações costumavam ser
rápidas. Gorlat e Tompetch também apressaram-se. Os movimentos de
Atlan, o arcônida, eram mais lentos, mas um gesto ríspido de Rhodan
avisou-o de que deveria ser mais ligeiro.
O corpo
cilíndrico da inteligência de Solitude era tão pesado que, mesmo
em cinco, mal conseguiram movê-lo. Rolaram-no até junto ao veículo,
mas só conseguiram colocá-lo na plataforma depois que Rhodan criou
um campo gravitacional bem espalhado, que erguia todos os objetos por
ele atingidos. Depois bastava um homem para mover o cilindro; mas
três homens tiveram de segurar o veículo que, liberado de seu peso,
pretendia esquivar-se à carga.
— Amarrem-no!
— ordenou Rhodan depois que o cilindro fora colocado no lugar.
Tompetch
pegou a corda que ainda pendia na galeria e deu várias voltas em
torno da plataforma de carga e do cilindro, até que se pudesse supor
razoavelmente que, por mais violentos que fossem os movimentos do
veículo, o corpo imóvel da inteligência de Solitude não cairia.
— Entre,
Tompetch! — ordenou Rhodan. — Leve-nos a uma distância de
quinhentos metros, na direção em que ficava a nave, e procure um
lugar onde possa pousar!
Tompetch
obedeceu. Revelando grande perícia, levantou o veículo, que, sob o
peso de várias toneladas do corpo cilíndrico, pendia para trás e,
voando rente aos arbustos, seguiu na direção indicada.
— Nós
vamos a pé! — ordenou Rhodan.
Pegaram o
equipamento e puseram-se a caminho. Até o lugar em que antes
estivera o veículo, a caminhada foi confortável. Mas além desse
lugar a vegetação estava intacta.
Carregando
o pesado gerador de campo de bloqueio no ombro, Rhodan abriu caminho
com o desintegrador, queimando a vegetação numa largura que mal e
mal era suficiente para que os homens não ficassem presos nos
espinhos.
Prosseguiram
aos gemidos. A temperatura havia subido a quarenta e nove graus.
O calor
infernal fez com que se enganassem quanto à extensão do trecho
percorrido. Uma pessoa que acreditava estar caminhando há duas
horas, e que cairia ao dar o passo seguinte, na verdade apenas
deixara atrás de si pouco mais de cem metros.
Rhodan só
parou quando se haviam afastado duzentos metros da caverna. Descansou
cautelosamente o gerador e atirou-se ao solo, na sombra de alguns
arbustos. Fungava e estava com a boca seca. Quis dizer alguma coisa,
mas não conseguiu falar nada.
E nem teve
necessidade! Momentos depois que seu corpo tocou o chão, um forte
solavanco voltou a erguê-lo ligeiramente e, dali a alguns segundos,
o ribombo de uma forte explosão percorreu o ar aquecido. No lugar do
qual haviam vindo, ergueu-se uma coluna de terra marrom, que logo se
desmoronou ruidosamente.
A bomba
acabara de explodir.
Reginald
Bell lançou um olhar espantado e um tanto desconfiado para Rhodan.
— Então
você é o grande rei do feitiço, não é? — disse depois de algum
tempo. — Previu tudo! Como?
Rhodan
enfiara na boca um tablete de alimento concentrado e fez um esforço
para engoli-lo. A sede começou a amainar.
— A
K-238 — começou — desapareceu sem deixar o menor vestígio. Para
onde foi?
Bell deu
de ombros.
— Não
sei.
— Tompetch
nem sequer conseguiu vê-la na tela. Desapareceu sem mais nem menos.
O que se conclui disso?
Bell
arregalou os olhos quando começou a compreender.
— Os
druufs transferiram-nos para sua dimensão temporal e... transferiram
a si mesmos para nossa dimensão. Será que é isso?
— É
mais ou menos isso. A K-238 permaneceu onde estava, ou seja, em nossa
dimensão temporal. Enquanto isso nós fomos transferidos para a
outra dimensão, onde tudo corre muito mais devagar. Ao mesmo tempo,
alguns druufs, ou alguns de seus robôs, foram transferidos para
nossa dimensão. Seus movimentos são setenta e duas mil vezes mais
rápidos que os nossos, e por isso nos são invisíveis. Quando
perceberam que penetramos na caverna, procuraram fazer detonar a
bomba pela maneira usual. Não conseguiram, porque arranquei o fio.
Por isso, puseram-se a caminho para detonar a bomba pessoalmente. A
explosão não poderia causar-lhes nenhum dano, não é mesmo? Foi
como a primeira explosão, da qual conseguimos escapar sem maior
esforço.
Bell
sacudiu a cabeça; parecia espantado.
— Bem,
eles entraram na caverna — começou parecendo entender a ação
inimiga — emendaram o fio e deram um “empurrão” no gerador.
Quando saltou a faísca, a explosão começou a desenvolver-se na
dimensão temporal em que nos encontramos, ou seja, tão devagar que
os druufs ou seus robôs puderam sair tranqüilamente da caverna e
colocar-se em segurança. Mas por que detonaram a bomba? Eles sabiam
que nós não estávamos mais lá, quando chegaram à caverna. Não
poderiam fazer-nos coisa alguma.
Rhodan
acenou com a cabeça. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Atlan
interveio na palestra:
— Não
querem que descubramos para que ponto do Universo está dirigido o
pequeno hipertransmissor. Eles o instalaram na caverna para manter-se
a par das reações da inteligência de Solitude.
Bell pôs
a mão na cabeça.
— Oh!
Como sou idiota! — gemeu. — Naturalmente. Foi isso que aconteceu
também na primeira caverna, não foi?
— A esta
hora acredito que sim — admitiu Rhodan. — Não existe nenhum
segredo relativo aos druufs que as inteligências de Solitude nos
possam revelar, pois os cilindros também não sabem mais nada. Mas o
transmissor poderia fornecer alguma indicação sobre o lugar em que
fica o mundo dos druufs.
Ninguém
perguntou por que não se haviam lembrado de procurar o transmissor,
retirá-lo da caverna e desmontá-lo, a fim de descobrir a direção
para a qual estava regulado. Se o mecanismo do transmissor direcional
eletromagnético é complicado, o do hipertransmissor é muito mais
complicado ainda. Não tiveram tempo de cuidar disso, mesmo quando
começaram a desconfiar de que, na realidade, era o transmissor que
permitia aos druufs fazer detonar a bomba para evitar que fossem
descobertos.
Bell olhou
em torno.
— Não
podemos vê-los — disse em tom desconfiado. — Podem estar aqui,
ali ou acolá — disse, apontando em três direções diferentes. —
Por que não atiram contra nós?
Rhodan
sorriu.
— Provavelmente
a esta hora já desistiram. Já devem ter sentido o espanto causado
pelo fato de não termos sido mortos por seus tiros. É possível que
já soubessem antes que não nos podem fazer coisa alguma, enquanto
permanecem na outra dimensão temporal.
Bell
ergueu os olhos.
— Sabiam?
Sabiam o quê? Por que não nos podem fazer nada?
— Porque
usam armas de radiações, cuja energia se desloca a uma velocidade
maior que a permitida neste universo. Trata-se de uma hipótese de
perda de causalidade; apenas isso. Comprimam o botão, e pode
acontecer qualquer coisa; o fluxo determinado dos acontecimentos não
pode verificar-se. O raio que se propaga à velocidade superior à da
luz não pode fazer-nos qualquer mal.
Reginald
Bell pôs-se a rir. De início, foi uma risada hesitante, como se
ainda não soubesse por que estava rindo, mas logo se transformou
numa estrondosa gargalhada. Gorlat também riu. O rosto de Atlan
contorceu-se e, depois de algum tempo, todos estavam rindo. Riam por
causa dos rostos espantados dos druufs, se é que tinham rostos. Riam
por causa da idéia maluca de que em torno deles corriam seres
ultra-rápidos e invisíveis, que comprimiam ininterruptamente os
botões de suas armas, mas não conseguiam fazer mal a ninguém.
A risada
aliviou-os e tornou mais suportável o ambiente.
Quando as
risadas amainaram, Rhodan retomou o fio de suas considerações:
— Os
druufs que trabalham em Solitude estão divididos em dois grupos. Um
desses grupos transferiu-se para nossa dimensão temporal primitiva,
roubou a K-238 e fez explodir a bomba no interior da caverna.
Provavelmente o outro grupo pousou com uma nave nas proximidades do
lugar em que nos encontramos, e dá apoio ao primeiro. Para isso, por
exemplo, desvia nossa atenção por meio de um ataque desfechado por
quarenta robôs, evitando que examinemos detidamente o
hipertransmissor. O que eu gostaria de saber é o seguinte: por que
os druufs vieram para Solitude?
Os rostos
exprimiam perplexidade.
— As
primeiras naves — prosseguiu — apareceram na noite que se seguiu
ao nosso pouso, ou seja, no máximo dez horas depois do momento em
que chegamos neste planeta. Na dimensão temporal primitiva dos
druufs, dez horas correspondiam a meio segundo. Ninguém é capaz de
reagir num tempo tão curto. Já deviam estar a caminho quando
pousamos, pois foram informados, através do transmissor instalado na
primeira caverna, que havíamos chegado.
“É
claro que, dali em diante, passaram a interessar-se por nós. Não
podem permitir que o inimigo pouse em um dos seus postos avançados.
Transferiram-nos para outra dimensão temporal, enquanto eles mesmos,
ou ao menos parte deles, passou à nossa dimensão. Roubaram nossa
nave, e com isso ficamos isolados. A esta hora, devem acreditar que
não somos muito perigosos. A única coisa que têm que fazer é
cuidar para que descubramos o segredo do hipertransmissor. Assim que
chegarem à conclusão de que este segredo não nos servirá de nada,
já que não temos possibilidade de transmitir qualquer mensagem para
fora deste mundo, provavelmente nos deixarão em paz.
Reginald
Bell mudou de posição.
— Não
deixarão, não. As oito naves vieram por um motivo bem diferente.
Gostaria de saber qual é esse motivo.
— É
claro que você gostaria de saber — disse. — Acontece que ninguém
poderá contar-lhe. Que calor infernal! Será que Tompetch não
poderia...
Até
parecia que Tompetch apenas esperava que seu nome fosse mencionado. O
pequeno receptor que Rhodan trazia no bolso emitiu um sinal. Tirou-o
e fez a ligação. Todos ouviram a voz de Tompetch, quando o tenente
disse em tom exaltado:
— O
cilindro voltou a mover-se, Sir. Provavelmente o espírito voltou.
— Muito
bem. Descarregue-o e venha buscar-nos. Daremos um sinal.
6
O cilindro
— ou melhor, a parte do cilindro que podia destacar-se do corpo —
descobrira uma coisa. Uma nave dos druufs, em forma de fuso,
encontrava-se a oitenta quilômetros dali, no lugar onde terminava a
planície e começavam as montanhas. Uns duzentos robôs estavam
fazendo uma escavação baixa e quadrada e consolidando-lhe as
paredes. Ao que tudo indicava, em cima da escavação seria erguido
um edifício e, pela feitura dos alicerces, concluía-se que o
edifício seria grande e pesado.
Isso
representava outro problema para Rhodan e os homens de seu grupo.
Mas, para sua satisfação, o problema aparentemente não lhes dizia
respeito. Que os robôs dos druufs construíssem casas ou mesmo
cidades, a tripulação da K-238 não teria nada com isso.
Rhodan era
o único que possuía uma hipótese. E comentou-a com Atlan.
— Há um
detalhe de que ninguém se lembrou, almirante — principiou. — Em
virtude de seu encontro com o planeta Peregrino, Solitude afasta-se
de sua órbita e vai deixando seu sol. Ao que tudo indica, a
construção que está sendo levantada pelos robôs deverá abrigar
um mecanismo destinado a colocar o planeta novamente numa órbita
estável.
O arcônida
lançou um olhar em direção às montanhas, como se dali pudesse ver
a construção.
— Se
forem capazes disso, deverão ter uma tecnologia bastante avançada —
murmurou em tom pensativo. — Não é nada fácil mover um planeta.
— É
difícil, mas não é impossível. Aliás, não é bem isso que eu
quero dizer. Se realmente pretendem recolocar Solitude numa órbita
estável, alguns deles devem saber aquilo que procuramos descobrir a
respeito do planeta Peregrino.
Atlan
ergueu as sobrancelhas brancas.
— O
bárbaro raciocina depressa — disse em tom irônico, mas sério. —
É possível que você tenha razão. Se querem mover Solitude, devem
saber quando e por que este foi arrancado de sua órbita. O que é
que o cilindro diz? Sabe alguma coisa a respeito do planeta
Peregrino?
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Peregrino
ficou visível durante três noites, enquanto passava perto de
Solitude, a aproximadamente duzentos mil quilômetros. A esta hora,
já conhecemos com uma boa dose de precisão o momento em que teve
início a influência exercida por esse planeta. Mas a indicação da
distância resultou apenas de uma estimativa. Não temos tempo para
cálculos complicados e demorados. Por isso, talvez seja preferível
capturarmos um dos robôs e levá-lo. A esta hora, o computador
positrônico da K-238 já concluiu seus cálculos. Dessa forma,
teríamos três dados diferentes, que poderiam ser comparados.
Os olhos
avermelhados de Atlan exprimiram o mais puro espanto.
— A
K-238! Você acredita que voltaremos a pôr as mãos nessa nave?
Rhodan
sorriu.
— Precisamos
pôr as mãos nela — respondeu. — De outra forma nunca poderemos
voltar.
*
* *
— Aliás
— disse o Capitão Gorlat em tom de tédio — a rotação do
planeta não corresponde à respectiva dimensão temporal. Quando
pousamos, o tempo de rotação de Solitude era de dezoito horas.
Agora, que vivemos em outra dimensão temporal, esse tempo deveria
ser setenta e duas mil vezes menor, não é? Em outras palavras,
deveria ser inferior a um segundo. Quando discutirmos o tema da
igualização das dimensões temporais, não me deixe esquecer este
detalhe.
Tompetch,
que pilotava o veículo, parecia perplexo.
— Era
isso que o senhor esperava? Um tempo de rotação inferior a um
segundo. Ora essa! Gostaria de ver aonde a força centrífuga já nos
teria atirado se isso tivesse acontecido.
Soltou uma
gostosa gargalhada. Gorlat deu uma palmadinha em seu ombro.
— Não
se exceda, meu caro. Cuide do caminho. Se levantar demais a proa, os
robôs nos verão, e nesse caso nossas férias cairão na água.
Tompetch
fez descer o veículo até que a parte mais baixa roçasse
ruidosamente nas pontas dos galhos.
Gorlat
procurou enxergar através da escuridão. Acreditava que os robôs
trabalhassem de noite e, como nem todos são equipados com olhos
infravermelhos — o que seria muito caro — o local da construção
devia estar iluminado. Sem dúvida podia-se vê-la ao longe, desde
que sua suposição fosse correta.
Não se
entusiasmara muito com a tarefa que lhe fora confiada: capturar vivo
um dos robôs e levá-lo intacto ao acampamento.
Como se
faz para pegar um robô “vivo”?
Ainda mais um robô cuja forma de construção é totalmente
desconhecida, e do qual nem sequer se sabe se possui uma ligação de
emergência.
Nesse
instante, Tompetch disse:
— Ali na
frente há luzes, capitão. Gorlat pôs a mão em cima dos olhos a
fim de protegê-los contra a luz interna do veículo e olhou
atentamente pelo pára-brisa. Tompetch tinha razão. No horizonte,
surgiu uma mancha de luz confusa. Por enquanto era fraca, quase
imperceptível. Tratava-se do local da construção!
Procurou
avaliar a distância. Seriam uns dez ou quinze quilômetros.
Tompetch
reduziu a velocidade. O terreno começou a ficar acidentado.
Percebia-se a proximidade das montanhas. Tompetch encontrou uma
depressão que corria diretamente para o local da construção e por
ela entrou.
— Excelente!
— elogiou Gorlat. — Se isto continuar assim, poderemos chegar bem
perto com o Câmbio.
Agora, que
se achavam fora do alcance dos instrumentos de localização do
inimigo — se é que estes existiam — Tompetch imprimiu maior
velocidade ao veículo. A abóbada luminosa, da qual só viam um
pequeno setor, por se encontrarem numa depressão do terreno,
tornava-se cada vez mais intensa.
Chegaram a
um lugar em que o fundo da depressão começava a subir, e esta se
adaptava ao terreno adjacente. Sem aguardar novas ordens, Tompetch
parou o veículo e fê-lo pousar suavemente.
— Acho
que daqui em diante teremos de ir a pé, capitão — disse.
Desceram
do veículo, pegaram as armas e subiram à borda da depressão. Não
pensavam que estivessem tão perto da construção. Tompetch soltou
um grito de surpresa quando viu a algumas centenas de metros um
mastro, de cuja ponta uma luz branca e ofuscante era derramada sobre
um verdadeiro exército de robôs reluzentes.
— Não
seria nada mau se o senhor também deitasse — disse Gorlat, que já
se encontrava no chão. — Com essa figura hercúlea o senhor pode
ser visto de longe.
Tompetch
atirou-se ao solo. Perplexo, contemplou a escavação que os robôs
de formato estranho já haviam revestido. Um grupo de cerca de cem
máquinas desse tipo juntava, por meio de um guindaste, peças
pré-fabricadas que serviriam de base à construção. A base era
quadrada, tal qual a escavação, e tinha cerca de cinqüenta metros
de lado.
Gorlat
tivera sua atenção despertada para algo situado além da escavação,
mais precisamente, para o corpo fosco de uma gigantesca nave, que se
erguia para o céu com o formato de um grande charuto; era pontuda em
ambas as extremidades. Teve de esforçar-se para reprimir uma idéia
que lhe ia pela cabeça. Que sensação não causaria se em vez de um
robô aprisionado aparecesse no lugar combinado com uma nave inteira.
“Meu
amigo, você é capitão, não chefe de bando de assaltantes”,
pensou.
— Bem —
resmungou Tompetch de repente. — Pelo que vejo, um grupo de robôs
se instalou na borda da escavação, do mesmo lado em que nos
encontramos. Se é que temos alguma chance, só poderá ser por ali.
Gorlat
olhou na direção em que Tompetch apontava. À pequena distância do
mastro de iluminação, na área limítrofe entre a luz e a
escuridão, seis robôs estavam agachados em torno de alguma coisa
estendida no solo, que parecia ser de papel.
“Talvez
seja uma planta da construção”,
pensou Gorlat.
Tompetch
tinha razão. Os seis robôs vistos diante de si eram os únicos de
que poderiam aproximar-se sem serem pressentidos. E apresentavam
outra vantagem em relação à enorme quantidade dos que trabalhavam
na escavação. Um deles era maior que os outros. Provavelmente era
um robô especializado. Se algum dos robôs sabia por quê, como e
quando Solitude foi arrancado da órbita, seria aquele.
— Precisamos
agarrar aquele — resmungou Gorlat. — Vamos!
*
* *
Deitado
atrás de uma moita, Tompetch olhou para o relógio.
Faltavam
cinqüenta segundos até o momento combinado.
Pela
décima vez fez pontaria por cima da arma térmica automática e
chegou à conclusão de que tudo estava em ordem. O primeiro disparo
atingiria a parede oposta da escavação, queimaria o revestimento e
levaria os robôs a procurar o autor do atentado na direção da qual
viera o disparo.
“É
só o que eu tenho a fazer. O que tenho a fazer aqui”,
pensou retificando. “Uma
vez feito o disparo, e desde que sua ação seja bem sucedida, eu
corro para o carro, coloco-o em movimento e saio em ajuda do Capitão
Gorlat, que já terá se apoderado do robô maior.”
Mais
quinze segundos.
Tompetch
fez pontaria pela décima primeira vez. Mas, desta vez, não baixou o
cano da arma. Contou mentalmente de vinte e um a trinta e cinco, já
que não podia olhar mais para o relógio, e apertou o gatilho.
Uma carga
energética chiou pelo ar, atingiu a parede da escavação, derreteu
o revestimento e evaporou-o numa questão de segundos. Num instante,
formou-se um buraco profundo, pelo qual penetrava a terra que,
atingida pelo raio escaldante, também se derretia.
A confusão
entre os robôs no interior da escavação só durou alguns segundos.
Certo número deles prosseguiu no trabalho, enquanto os que se
encontravam mais próximos de Tompetch — cerca de oitenta — se
puseram em movimento e foram subindo pela borda da escavação.
Segundo Tompetch e Gorlat já haviam constatado antes, deslocavam-se
sobre um conjunto de rodas e esteiras, que é o sistema mais
conveniente para um robô de trabalho.
Tompetch
teve a impressão de que estava na hora de abandonar o local. Pegou a
arma e saiu correndo o mais rápido que pôde. Lançou um olhar por
cima do ombro e ficou satisfeito ao constatar que, ao menos por
enquanto, os robôs se deslocavam muito mais devagar que ele. Os
raios energéticos fulgurantes cortavam o ar em todas as direções;
Tompetch percebeu que os robôs ainda não tinham a menor idéia do
lugar onde se encontrava.
Correu um
bom trecho, fungando sob a carga da arma térmica automática e
banhado em suor. Nem mesmo de noite, o calor diminuíra. Finalmente a
depressão surgiu à sua frente. Escorregou para dentro da mesma e,
reunindo as últimas forças, saltou para o veículo. Quando os
primeiros robôs surgiram no início da escavação, já se havia
afastado. Planando rente aos arbustos, dirigiu-se ao lugar de
encontro combinado com Gorlat.
*
* *
Gorlat
soltou um urro de alegria ao ver que quatro robôs do grupo de seis
se afastavam, deixando para trás apenas o maior deles, com um único
companheiro. Provavelmente os quatro que se haviam afastado eram
robôs-feitores, que explicariam aos companheiros o que deveriam
fazer.
Mesmo
entre os robôs existe uma diferença de posições e uma hierarquia.
Ao que parecia, neste ponto os druufs não se distinguiam dos
terranos. Cada inteligência construía o robô à sua imagem.
O objeto
sobre o qual os dois robôs se inclinavam realmente parecia ser uma
planta da construção. Gorlat, que se encontrava a apenas dez metros
do mastro de iluminação, reconheceu algumas linhas e viu um dos
órgãos preênseis do grande robô passar pelas mesmas,
provavelmente no intuito de explicar alguma coisa ao outro.
Gorlat
olhou para o relógio.
Faltavam
cinco segundos!
O tiro
energético foi disparado pontualmente por Tompetch e produziu o
efeito desejado. Dali a alguns segundos, a parte da escavação que
ficava mais perto de Gorlat estava totalmente vazia. Os robôs haviam
saído e procuravam encontrar, na escuridão, o sujeito que se
atrevera a perturbá-los no trabalho.
O robô
maior, que estava inclinado sobre a planta, juntamente com o outro,
menor, não deu o menor sinal de “nervosismo”.
Gorlat teve a impressão de que nem sequer levantou os olhos quando o
tiro foi disparado.
“Ora,
levantar os olhos, esta é boa”,
pensou. “Nem
sequer sei onde ficam seus olhos.”
De
qualquer maneira, continuou inclinado sobre a planta, e um dos seus
braços passou pelas linhas que estavam desenhadas no papel, ou fosse
lá qual fosse o material.
Ainda bem
que mesmo entre os robôs existem generais, que são de opinião que
a tarefa de lutar cabe aos elementos de graduação inferior. Gorlat
não pôde deixar de confessar que teria passado por maus bocados se
o robô maior saísse correndo com os outros.
Avançou
mais um pouco, saiu de baixo dos arbustos e com um tiro do
desintegra-dor pesado transformou o robô menor numa nuvem de vapores
metálicos.
Desta vez,
o robô maior parecia realmente perturbado. Ergueu-se e virou para
Gorlat uma das “faces”.
Gorlat fez
pontaria sobre a parte mais estreita do conjunto de rodas e esteiras.
Uma das esteiras foi destruída, e o robô começou a girar em torno
de seu eixo. Gorlat viu-o levantar um dos instrumentos preênseis —
talvez fosse uma arma — e destruiu-o com outro disparo.
O robô
ficou parado. Mantendo a arma apontada e com os olhos bem atentos,
para não perder qualquer movimento do monstro multifacetado, Gorlat
caminhou em sua direção. Pela primeira vez se deu conta de que a
altura do robô era cerca de quarenta centímetros superior à sua.
Seria ainda mais difícil de colocar na plataforma de carga do que a
inteligência cilíndrica de Solitude.
Gorlat
constatou que os robôs no interior da escavação cuidavam
exclusivamente de seu trabalho. Se é que haviam percebido alguma
coisa do segundo incidente, certamente eram de opinião que os
companheiros que haviam saído em perseguição de Tompetch também
cuidariam desse caso.
Gorlat
parou a dois metros do robô. Viu alguns braços que pendiam imóveis
ao lado do estranho corpo. Cortou-os a tiro. Pelo que via, o robô já
não tinha a menor possibilidade de agarrá-lo.
Contornou-o
e tentou empurrá-lo em direção aos arbustos. Seus esforços
tiveram um êxito apenas parcial. Como a esteira do lado direito
tivesse sido destruída, o robô sofria um desvio para esse lado.
Gorlat endireitou-o um pouco e surpreendeu-se ao perceber que isso
não lhe causava maiores dificuldades. Depois continuou a empurrá-lo.
Dali a dois minutos, chegou ao lugar em que estivera escondido.
Olhou para
trás e ficou apavorado ao ver que os robôs que se encontravam no
interior da escavação estavam desconfiando de alguma coisa.
Interromperam o trabalho e viraram-se para o lugar em que Gorlat e
seu companheiro estiveram escondidos entre os arbustos. Dali a pouco,
uns cinqüenta robôs se puseram em movimento, em direção ao lugar
em que Gorlat se encontrava.
Este
deixou o grande robô imobilizado entregue à sua própria sorte e
atirou-se ao solo. Apontou a arma.
“Enquanto
não souberem estabelecer uma formação mais inteligente”,
pensou, “poderei
defender-me até que Tompetch chegue.”
Mas antes
que tivesse tempo de disparar o primeiro tiro ouviu um leve zumbido
atrás de si; era o veículo dirigido por Tompetch. Este pousou entre
os arbustos e saltou da cabine.
— Vamos
depressa! — cochichou. — Não demorarão em encontrar minha
pista. Onde está a geringonça?
Gorlat
levantou-se de um salto.
— Ali.
Já ativou o campo antigravitacional? O robô é muito pesado para
ser levantado com as mãos.
— Já —
disse Tompetch apressadamente. — Ajude-me a empurrá-lo para junto
do veículo.
Fizeram
força. Quando os primeiros robôs surgiram atrás deles, já haviam
colocado o pesado corpo sobre a plataforma de carga. Gorlat foi
diretamente da plataforma para a cabine, enquanto Tompetch saltou do
lado de fora e se deixou cair no assento do piloto com um suspiro de
alívio.
No mesmo
instante, o veículo subiu verticalmente. Um único disparo de raios
chiou atrás deles, mas passou a mais de dez metros do alvo. Dentro
de alguns segundos, o veículo colocou-se fora do alcance da vista
dos robôs e dos tiros disparados pelos mesmos.
*
* *
Rhodan
examinou o céu. Notou uma mancha um pouco mais clara. Era o primeiro
reflexo do sol nascente.
— Não
acredite que tenham necessidade de seguir sua pista, tenente —
disse. — Não terão a menor dúvida de que só nós poderíamos
ter seqüestrado seu mestre-de-obras. Virão pelo caminho mais
rápido. Até estou admirado de que ainda não estejam aqui.
Tompetch
lançou um olhar desconfiado para o robô imobilizado, que jazia no
solo.
— Provavelmente
estão procurando lá adiante — respondeu. — Ainda não sabem que
transferimos nosso acampamento para cá.
Enquanto
Gorlat e Tompetch executavam sua tarefa, Rhodan, Bell e o arcônida
prosseguiram em sua marcha, em direção à depressão em que
estivera a K-238. Rhodan ficou muito satisfeito com o resultado do
trabalho dos dois oficiais. Perry tinha a mesma opinião de Gorlat: o
robô sabedor daquilo que queriam descobrir, só poderia ser o maior.
Mas, até
então, não havia contado a ninguém o que estava procurando nas
proximidades do antigo local de pouso da K-238.
Dali a uma
hora, nasceu o sol. A temperatura subiu rapidamente de trinta e oito
graus para quarenta e cinco. Os homens procuraram abrigar-se sob os
galhos espinhentos dos arbustos.
A
inteligência cinzenta de Solitude mantinha-se imóvel na poeira. Seu
espírito andava por aí, à procura dos robôs dos druufs. Retornou
meia hora depois do nascer do sol, o que foi notado pelos movimentos
que, de repente, o cilindro cinzento começou a executar. Informou
que um grupo de cem robôs se aproximava, vindo da caverna, e que
vira outros robôs — cinco ao todo — que se moviam muito mais
depressa que os outros.
Eram estes
cinco robôs que preocupavam Rhodan. Um inimigo rápido representava
um empecilho para aquilo que pretendia fazer.
Já
recolhera o emissor de código que fora enterrado junto ao local de
pouso. Era um pequeno instrumento com o formato de uma caixa de
fósforos que possuía um único botão. Uma pressão sobre esse
botão fazia com que a caixinha expedisse o sinal-código que levaria
a K-238 a desativar os campos defensivos e deixar livre o acesso às
comportas.
“Admitamos
que a K-238 realmente volte”, pensou Rhodan. “Nesse caso gastarei
cerca de dez segundos, a partir da emissão do sinal, para entrar na
comporta e fechar a escotilha. E dez segundos sempre são duzentas
horas ou mais de oito dias para os robôs mais rápidos.”
*
* *
O cilindro
asseverou que uma simples subdivisão não afetaria suas faculdades
mentais. Sim, naturalmente era capaz de produzir dois espíritos,
fazendo uso da capacidade de projetar sobre cada espírito o aspecto
de alguma pessoa. Então, poderia perfeitamente dar a esses espíritos
a aparência de Rhodan e do Capitão Gorlat. Não havia o menor
problema.
Rhodan
deu-se por satisfeito. Pegou o desintegrador pesado e fez quatro
covas. Cobriu-as com galhos, deixando apenas uma entrada bem
estreita; os galhos, por sua vez, foram cobertos com terra.
Depois
familiarizou Bell, Atlan e Tompetch com seu plano. Gorlat e a
inteligência de Solitude, que seriam os participantes principais, já
haviam sido informados antes.
— Gostaria
de saber por que você tem tanta certeza de que a K-238 vai voltar —
disse Bell.
Rhodan deu
de ombros.
— É
tudo cálculo, meu caro, apenas cálculo — respondeu Rhodan.
Dali a
alguns minutos, os cem robôs lentos, vindos da caverna, viram três
pessoas num veiculo planador que saía do acampamento situado junto à
depressão do solo.
Já os
robôs rápidos viram cinco pessoas no veiculo que se deslocava com
tamanha lentidão que parecia parado no ar. É que para os robôs
rápidos as figuras imateriais, projetadas sobre o veiculo pela
inteligência do ser de Solitude, eram perfeitamente visíveis.
Os robôs
rápidos não tiveram a menor dúvida de que o inimigo abandonara seu
acampamento, fugindo do exército de robôs lentos. Porém não
ficaram sabendo que os robôs lentos só viram três pessoas no
veículo. Se tivessem sabido, provavelmente nem teriam quebrado a
cabeça sobre isso.
*
* *
Rhodan e
Gorlat mantiveram-se escondidos embaixo do solo, até que o ambiente
estivesse bem limpo.
— Caramba!
Que calor faz aqui embaixo... — disse Rhodan com um gemido.
— Parece
um forno — comentou Gorlat. — Onde eles estão?
— Longe
daqui, espero. Apesar disso, será conveniente não nos mostrar-nos
em campo aberto. Durante o tempo que levamos para pronunciar uma
frase de dez palavras, os robôs rápidos consomem um ano de suas
belas vidas. Poderiam voltar de um instante para outro e
descobrir-nos.
*
* *
Deu certo.
E deu certo porque era um acontecimento previamente estabelecido que,
segundo se verificou posteriormente, quando a teoria das diversas
dimensões temporais foi divulgada, não poderia ocorrer de forma
diferente daquela que Perry Rhodan imaginara.
Subitamente,
a K-238 estava de volta.
Com uma
rapidez de que só era capaz nos momentos de grande perigo, Perry
saltou do buraco onde se escondera e desceu pela encosta que levava
ao fundo da depressão. Dali a um segundo, viu que a luminosidade
produzida pelos campos defensivos cessou.
Perry
Rhodan comprimiu o botão do instrumento que transmitiria o código.
Na parede da nave, surgiu uma abertura, que antes não existira, e os
campos defensivos apagaram-se.
Rhodan
saltou para a abertura, rolou pelo soalho da comporta e voltou a
comprimir o botão. Lá fora os campos defensivos voltaram a isolar a
K-238 do mundo exterior.
Mas a
tarefa de Rhodan ainda não estava concluída. Tirou a arma do cinto
e abriu um buraco de dez centímetros na parede interna da comporta.
Muito
cansado, levantou-se e abriu a escotilha interna depois de ter
fechado a externa. Passando pelo corredor que se seguia à comporta,
dirigiu-se à sala de comando.
Apesar do
cansaço chegou depressa à sala de comando, e com a mesma rapidez
manipulou os controles que, em sua opinião, se tornavam necessários
para que o êxito fosse completo. Ligou os geradores de campo de
refração, e não se espantou ao notar que não os ouvia. É que as
freqüências do som da outra dimensão temporal ficavam além de
todas as faixas perceptíveis a seu ouvido.
Mas viu o
anel que se espalhou lá fora, além dos campos defensivos. Girou
lentamente um botão do painel que parecia mole como borracha, tal
qual o da caixinha do transmissor de código, e depois de algum tempo
conseguiu que o campo de refração circular, criado pelos geradores,
fosse projetado para dentro da sala de comando.
Colocou-se
à frente do anel leitoso, hesitou por um instante, e atravessou-o.
*
* *
No mesmo
instante, ouviu o zumbido agudo dos geradores de campo defensivo. O
som lhe parecia mais belo que o canto de um coro de anjos.
Olhou em
torno e viu que o ambiente continuava inalterado. Achava-se ainda na
sala de comando da K-238. Mas nas telas...
A
experiência fora bem sucedida. Retornara à sua dimensão temporal.
Ao olhar
para a tela, viu que lá fora o Capitão Gorlat estendia a cabeça
para fora do buraco cavado na terra, parecia imóvel. Voltou a girar
o botão do painel e fez com que o campo de deflexão fosse projetado
para um ponto situado fora da nave, apenas a um passo do lugar em que
se encontrava Gorlat.
Recostou-se
na poltrona e pôs-se a esperar.
*
* *
Imaginava
o rosto de Reginald Bell no momento em que este perguntasse:
— Quer
dizer que você sabia que a K-238 voltaria. Até sabia
aproximadamente quando. Será que esse seu conhecimento é um segredo
de Estado? Ou prefere contá-lo a mim?
Então
ele, Rhodan, procuraria explicar-lhe como eram as coisas com os dois
espaços e as duas dimensões temporais. Esperava certas
dificuldades. É que Bell, por mais inteligente que fosse, tinha uma
antipatia congênita contra tudo que não fosse palpável.
Especialmente quando, em virtude da ausência de teorias adequadas, a
coisa impalpável nem pudesse ser compreendida em termos matemáticos.
— Nossa
missão em Solitude — explicaria — foi um movimento pendular
entre dois espaços diferentes, cada um com sua dimensão temporal
própria. Nas primeiras horas que se seguiram ao pouso, tanto nós
como a K-238 fomos um corpo estranho nesse espaço. Participamos dos
acontecimentos que ali se desenrolavam, mas não pertencíamos ao
mesmo. Éramos um quisto de nosso Universo, encravado no espaço
estranho.
“Foi
então que demos o passo decisivo. Levamos a K-238 do primeiro local
de pouso para este em que nos encontramos agora. Naquela
oportunidade, deslocamo-nos a velocidade maior que a luz desenvolve
neste Universo.
“Para um
observador pertencente ao espaço em torno de Solitude com a
respectiva dimensão temporal, as coisas se passaram assim: ele viu
quando decolamos do primeiro local de pouso, mas não pôde ver-nos
descer aqui. É que o pouso era uma decorrência causal da decolagem
antes realizada. E a cadeia da causalidade foi rompida em virtude do
deslocamento a uma velocidade superior à da luz.
“Para
nós, as coisas foram diferentes. Deslocávamo-nos à velocidade
ridícula de quinze mil metros por segundo. Em nosso espaço, isso
corresponde a apenas um vigésimo da velocidade da luz. Decolamos e
dali a pouco pousamos. Houve a seqüência causal.
“A
confusão só surgiu quando as quatro naves dos druufs projetaram um
campo de deflexão sobre a superfície de Solitude. Com isso, fomos
transferidos para a outra dimensão temporal, enquanto
simultaneamente alguns dos seus robôs foram atirados para nossa
dimensão temporal, que é mais rápida. Assim, transformamo-nos em
observadores para os quais a K-238, em virtude do vôo a uma
velocidade superior à da luz, rompeu a cadeia da causalidade. Por
isso, havia decolado no outro lugar, mas ainda não pousara aqui.
Portanto, não estava aqui quando procuramos por ela. Nem poderia
estar.
“Com os
druufs mais rápidos as coisas foram diferentes. Ocuparam nosso
lugar, viram a K-238 parada e roubaram-na.”
Neste
ponto Bell provavelmente indagaria:
— Como
foi mesmo a história da lâmpada que já estava acesa quando o homem
mexeu no interruptor? A perda da causalidade não significa que o
efeito é anterior à causa? Para um observador de Solitude a K-238
não deveria aparecer no lugar atual antes que decolasse do ponto
anterior?
Rhodan,
que já estaria preparado para a pergunta, responderia o seguinte:
— A
inversão de causa e efeito é apenas uma das expressões possíveis
do fenômeno não causai. Existem muitas outras. Um exemplo: uma bala
que se desloca em direção ao centro do alvo, mas em virtude da
interferência de alguma força estranha não o atinge, desaparecendo
pouco antes do alvo e voltando a aparecer atrás dele, age por duas
vezes contrariamente à lei da causalidade. Em primeiro lugar, deixa
de existir o efeito, que é a ruptura do alvo, efeito este que teria
de surgir após a respectiva causa, que é o tiro disparado com a
pontaria correta. Em segundo lugar assistiríamos a um efeito, isto
é, o desaparecimento e o reaparecimento da bala, sem que houvesse
uma causa preexistente.
Após
isso, Bell ficaria resmungando. Diria que é uma comparação idiota.
Todavia... ele, Rhodan, prosseguiria:
— Uma
coisa semelhante aconteceu com a K-238. O efeito que deveria
seguir-se à causa, a decolagem, efeito este que seria representado
pelo pouso, deixou de ocorrer. Ao que tudo indica, devemos incluir
uma proposição na teoria das dimensões temporais diferentes: a
soma de todos os efeitos sempre é igual à soma de todas as causas,
mesmo que a cadeia causal tenha sido rompida. À primeira causa que
não produziu nenhum efeito, teria de seguir-se um efeito sem causa.
E esse efeito foi o pouso da K-238, observado por Gorlat num momento
em que ninguém esperava a nave. Esse efeito não teve causa. Para um
observador do planeta Solitude, a K-238 desapareceu por algum tempo.
“Pois
bem; agora está de volta, e esse fato representa o efeito final de
uma ocorrência não causai, ou melhor, de duas ocorrências. É
possível calcular o tempo em que um efeito sem causa se segue a uma
causa sem efeito. Verifica-se que o excesso da velocidade do objeto
sobre a maior velocidade permissível, que é a da luz, constitui a
medida da falta de causalidade e do fenômeno colateral. Com base nas
velocidades com que a K-238 se deslocou ao ser levada do primeiro ao
segundo local de pouso, pude calcular o momento em que voltaria a
aparecer aqui para o observador que se encontrasse na dimensão
temporal de Solitude. É claro que isso não passou de uma
experiência. Mas, conforme vê, esta foi bem sucedida.”
O que
faria Bell depois disso? Cocaria a cabeça, e, fazendo pouco do
espírito científico, formularia a pergunta que nunca deveria ser
formulada:
— Caramba!
O que aconteceu com a K-238 que foi roubada pelos druufs?
A resposta
a esta pergunta palpável, que girava em torno de coisas materiais,
seria a seguinte:
— Isso
depende do ponto de vista sob o qual se queira encarar o
acontecimento. Para o observador que se encontre no espaço de
Solitude os robôs dos druufs não poderiam ter roubado a K-238, pois
esta acaba de aparecer aqui.
“Mas o
que se verificou no nosso espaço foi que os robôs rápidos dos
druufs retornaram automaticamente e sem qualquer interferência
estranha à sua dimensão temporal, no momento em que a K-238 se
tornou visível no espaço de Solitude. E, quando foram transferidos
para a dimensão temporal mais lenta, a nave desapareceu para eles.
“Seria a
apresentação de um modelo. Quem quisesse fazer a representação
figurada de um fenômeno não palpável teria de contentar-se com o
modelo, e via de regra este só coincide com a realidade em poucos
pontos, enquanto em outros dá origem a concepções errôneas.”
Bell sabia
disso e não prosseguiria nas perguntas. Talvez ainda fizesse uma
observação como esta:
— Parece
que você penetrou profundamente no assunto. Face às suas conclusões
poderíamos supor que você já traz a teoria das duas dimensões
temporais na ponta da língua. É verdade?
Então
responderia:
— Não.
Apenas tenho algumas idéias que poderão facilitar o trabalho dos
matemáticos.
Bell
saberia que essa apreciação era demasiadamente modesta, mas se
daria por satisfeito. Com isso, teria chegado ao fim da pesada tarefa
de explicar a Bell uma coisa impalpável cuja compreensão ele nunca
poderia alcançar por iniciativa própria.
*
* *
Dali a
cinco horas, notou-se pela primeira vez que o Capitão Gorlat se
movia. Mais um tanto de sua cabeça já saíra do buraco.
Nesse meio
tempo, Rhodan não vira nenhum robô rápido ou lento dos druufs nas
proximidades da nave. Segundo sua teoria, os robôs rápidos já não
poderiam existir depois do reaparecimento da K-238. O fato de Rhodan
não ver nenhum não provava a exatidão de sua teoria, mas
proporcionava certo apoio à mesma.
Depois de
oito horas, Perry ficou sabendo como acelerar o retorno de Gorlat
para a dimensão temporal terrana. Esperou até que Gorlat tivesse
saltado de vez para fora do buraco e parecia pairar imóvel no ar.
Pegou uma vara comprida de plástico, saiu da nave e, segurando o
colarinho do uniforme de Gorlat com o gancho, que havia na ponta da
vara, puxou-o através do círculo formado pelo campo de refração.
Teve o cuidado de fazer com que Gorlat não entrasse em contato com o
solo ou com as bordas do campo de refração. Face à velocidade
enorme com que o movimento foi executado na dimensão temporal mais
lenta, qualquer tipo de contato teria produzido sérios ferimentos.
Assim que
acabou de passar pelo círculo, Gorlat caiu no chão e olhou em
torno, perplexo. Levantou-se e disse:
— Obrigado;
estou contente porque este maldito calor acabou.
*
* *
O resto
foi fácil. Uma vez fechado o buraco na escotilha interna da comporta
da K-238, esta seguiu o veículo em que estavam Bell, Atlan, Tompetch
e os dois fantasmas. A seguir, arrastou seus ocupantes, com exceção
dos fantasmas, através do campo de refração, trazendo-os de volta
para a dimensão temporal que lhes era própria.
Os dois
fantasmas voltaram para as respectivas metades da inteligência de
Solitude, e a K-238 voltou a pousar junto à depressão, perto dos
quatro buracos no solo. O ser de Solitude levou algumas horas para
recuperar o formato primitivo de seu corpo. Depois também foi
adaptado à dimensão temporal terrana, por meio do campo de
refração.
Rhodan
ficou refletindo sobre se valeria a pena procurar localizar mais uma
caverna de Solitude, retirar o hipertransmissor e verificar-lhe a
regulagem direcional. Chegou à conclusão de que agora, que a teoria
das duas dimensões temporais já era conhecida e provavelmente os
matemáticos saberiam fazer muita coisa com a mesma, não havia mais
nada que impedisse que as naves terranas passassem à vontade de um
plano temporal a outro. A tarefa mais urgente seria a partir desse
momento encontrar o planeta Peregrino. A posição do mundo dos
druufs poderia ser determinada em outra oportunidade.
Quanto ao
mais, Reginald Bell formulou exatamente as perguntas que Rhodan
esperara. E deu-se por satisfeito e parou de perguntar exatamente no
ponto em que Rhodan esperara que isso acontecesse. Apenas fizera mais
uma observação:
— Acho
que está na hora de aposentar-me. Há setenta e cinco anos ainda me
sentia satisfeito por saber calcular de cabeça quanto eram dezessete
vezes dezoito, e hoje tenho que me martirizar com teorias como a das
duas dimensões temporais. Para mim é demais.
A
inteligência de Solitude não tinha vontade de permanecer em seu
mundo natal. Temia as perseguições dos robôs. De bom grado
concordou com a proposta de Rhodan, que pretendia levá-la à Drusus
e posteriormente à Terra.
Finalmente
a K-238 decolou e iniciou o vôo de regresso, sem preocupar-se com os
robôs inimigos, que se haviam espalhado por toda a área, à procura
do inimigo desaparecido.
No hangar
da K-238, estava guardado o robô aprisionado, condenado à
imobilidade em virtude de sua dimensão temporal mais lenta. Só a
bordo da Drusus lhe seria proporcionada a transferência para a
dimensão temporal terrana, a fim de que os técnicos em eletrônica
pudessem desmontá-lo e investigar o conteúdo de sua memória.
Rhodan
teve a impressão de que não havia por que preocupar-se com o
planeta Solitude. Este era um posto avançado tão importante para os
druufs, que os mesmos não deixariam de fazer tudo para recolocá-lo
numa órbita estável.
Poucas
horas após a decolagem, a K-238 atingiu o ponto do Universo purpúreo
em que o campo de refração projetado pela Drusus formava uma
superfície elíptica e brilhante. A nave atravessou-a e passou
imediatamente a um Universo cujo fundo era de uma agradável
negritude e cujas estrelas emitiam uma luz branca, com exceção de
algumas que brilhavam em outras cores.
Conseguiram
voltar. Restava saber quanto tempo durara a missão segundo o
calendário terrano.
*
* *
Por
ocasião do regresso, o calendário marcava o dia 21 de abril de
2.042. Rhodan teve de dar-se por satisfeito com isso — e realmente
ficou satisfeito — pois se o fator de distorção temporal fosse
aquele que no outro universo fazia com que tudo corresse setenta e
duas mil vezes mais devagar que no Universo normal, a K-238 só teria
regressado depois de milhares de anos.
De
qualquer maneira, o tempo era escasso. O prazo de que dispunha para
visitar o planeta Peregrino terminaria no dia 1o
de maio. Rhodan convocou uma equipe de dez especialistas para
examinar o robô dos druufs. Disse preferir que o resultado lhe fosse
fornecido no mesmo dia.
Isso era
impossível, e ele mesmo sabia disso. A equipe fez o que estava a seu
alcance e o exame foi concluído nas primeiras horas da manhã do dia
23 de abril.
E esse
resultado foi mais elucidativo do que Rhodan esperava. Removeu os
últimos obstáculos que ainda se opunham à localização do planeta
Peregrino. No robô, estavam armazenadas informações não só sobre
a causa da perturbação do campo gravitacional, que atirara Solitude
para fora de sua órbita, mas também sobre a direção que o planeta
Peregrino tomara depois de sua passagem por Solitude. E, mais do que
isso, sabia de uma coisa que deixou Rhodan perplexo e parecia provar
que o ser coletivo de Peregrino não ficara tão indefeso diante da
superposição dos planos temporais como de início se supusera.
Naquele
momento, Peregrino já abandonara o universo dos druufs em outro
ponto. Os druufs não puderam fazer nada para evitar que isso
acontecesse. Procuraram conservar o mundo artificial em seu Universo,
mas evidentemente o poder do ser coletivo de Peregrino fora maior que
o deles.
Depois de
um breve vôo pelo espaço purpúreo, Peregrino voltara a seu
Universo. A trajetória que havia percorrido era conhecida. E essa
trajetória permitiu a Rhodan calcular o ponto em que, a essa hora,
se encontrava o planeta. Esse ponto ficava na órbita primitiva, mas
num local que, em condições normais, o planeta só teria atingido
dali a dezoito mil anos.
O exame do
robô trouxe uma série de outras informações da maior importância.
O produto dos druufs apresentava vestígios inconfundíveis da
tecnologia druufiniana; era de esperar que, dentro em breve, se
saberia em que estágio do desenvolvimento tecnológico se encontrava
o inimigo.
Mas, no
momento, Rhodan não se interessava por essas coisas. Mandou preparar
a Drusus para a decolagem. O ponto da órbita em que Peregrino se
encontrava naquele momento ficava a 9,5 anos-luz da posição atual
da Drusus. Seria fácil vencer esse trecho numa única transição.
A
decolagem foi marcada para o dia 23 de abril de 2.042, às 20 horas,
tempo de bordo. Dali a oito dias, a imortalidade de Perry Rhodan
chegaria ao fim. Mas, a essa hora, talvez já tivesse certeza de que
poderia cumprir o prazo...
*
* *
*
*
*
Rhodan
e sua equipe conseguiram um êxito provisório contra os druufs.
Entretanto ainda não alcançaram o planeta Peregrino.
Em A
Morte Espera no Semi-Espaço, título do próximo livro, vão
desenrolar-se lances de grande emoção.

Nenhum comentário:
Postar um comentário