Autor
CLARK DARLTON
Tradução
MARIA MADALENA WÜRTH TEIXEIRA
Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Onot, o espírito amigo, ignora por quê —
mas auxilia os terranos!
Não foi totalmente por acaso que Perry Rhodan encontrou pela primeira
vez o misterioso desconhecido de outra dimensão temporal. Desse encontro resultou
uma situação quase fatal para ele próprio, para Atlan, o arcônida, e para Fellmer
Lloyd, o mutante. Só mesmo a intervenção inesperada do amigo ainda desconhecido
permitiu-lhes salvarem-se.
Para Perry Rhodan, toda ajuda é preciosa, principalmente agora que
planeja um confronto entre o robô-regente de Árcon e os druufs. As duas poderosas
frotas espaciais inimigas já lutam encarniçadamente na linha de encontro das duas
dimensões temporais...
E Perry Rhodan precisa resguardar o Império Solar do aniquilamento
ou da escravização.
De retorno à base em Fera Cinzenta, Perry Rhodan lembra o ser misterioso
que há muitos decênios já prestara auxílio aos terranos.
O administrador do Império Solar transmite um convite a este ser: acompanhe-me
em meu novo empreendimento Sob as Estrelas de Druufon.
= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.
Reginald Bell — Amigo inseparável de Rhodan.
Gucky — Rato-castor
mutante.
Atlan — O arcônida
imortal.
Tommy — Ser de
Druufon; corpo quadrangular.
Harno — O televisor
vivo; ser em forma de bola.
Onot — Um espírito...
1
Sete planetas contornavam Tatlira, a estrela
número 221, a 1.012 anos-luz da Terra. Fazia mais de sessenta anos que nenhuma nave
terrana visitava aquele sistema. Porém, em sua primeira incursão, ajudaram os nativos
de seu segundo mundo, o planeta Goszul, a sacudir o jugo dos mercadores galácticos.
Impossível saber se, depois de todo esse tempo,
Tatlira conservava todos seus planetas, ou se também ali algum cataclismo cósmico
varrera os habitantes do sistema solar da dimensão temporal vigente.
Sobre a mesa de navegação da super-nave de
guerra Kublai Khan encontravam-se os dados referentes a Tatlira; bem diante dos
controles do pequeno cérebro positrônico encarregado de fazer os cálculos para os
hipersaltos, um homem ocupava o assento.
Vestia o uniforme verde-pálido do Império Solar,
com divisas de coronel. Sobre o peito, um distintivo bordado a ouro identificava-o
como comandante da nave. Esta, com seu diâmetro de quilômetro e meio, era uma das
potentes unidades da classe Império.
O cérebro positrônico zumbia baixinho. Estava
iminente o último salto para o sistema quase esquecido. Dentro de dez minutos...
Então seria verificado o que havia de verdadeiro na velha história.
Não bem uma história, a rigor. Pois a expedição
fora devidamente documentada em som e imagem por um filme rodado em 1.983.
O comandante Marcus Everson guardava nitidamente
na memória o momento em que fora chamado à presença de Perry Rhodan. Com a face
carregada de preocupação, o administrador do Império Solar falara, deprimido:
— Diante de situações difíceis e quase insolúveis,
os amigos são os primeiros lembrados, coronel. A luta contra os druufs exige todos
os nossos recursos e esforços; mesmo assim, o inimigo parece ser superior a nós.
Sei de um sistema solar onde alguém aguarda a oportunidade de nos prestar um favor.
Se bem que isso se deu há sessenta anos atrás...
Sorrindo, o coronel replicou:
— Um bocado de tempo, Sir. Sei lá se nestas
seis décadas alguém teria a paciência de...
— Este amigo teria, caso Harnahan falasse a
verdade! — respondera Rhodan, sorrindo igualmente. — Vou exibir-lhe um filme feito
na época, enquanto retornamos na Stardust-III de Tatlira para a Terra. Com segundas
intenções, evidentemente, coronel. Pois vou encarregá-lo de ir buscar o tal amigo.
— Posso saber de quem se trata, Sir?
Rhodan continuava sorridente. Everson tinha
a impressão de viver novamente toda a cena.
— Um momento!
Com alguns gestos, Rhodan escureceu a pequena
peça que lhe servia de escritório durante a estadia em Mirta VII. Um projetor começou
a zumbir. Uma das paredes serviu de tela.
— As cenas foram tomadas na central de comando
da Stardust, com a presença do sargento Harnahan, de Reginald Bell e eu próprio.
Bell só aparece depois. Pronto?
Marcus Everson confirmou, expectante.
A parede adquiriu vida, trazendo o passado
para o presente.
Perry Rhodan fitava um homem de traços rudes,
porém simpáticos, de pé à sua frente.
— Fale, sargento! O que foi que encontrou no
quarto planeta?
— Numa lua do quarto planeta, Sir — retificou
o sargento. — Uma bola, Sir, com meio metro de diâmetro. Estava ao sopé de um morro,
e me chamou, sim, ela me chamou para perto. Telepaticamente, conforme já falei.
Fiquei sabendo que era um ser vivo, nutrindo-se de energia. Além disso, a bola era
capaz de ver a distâncias ilimitadas, e projetar em sua superfície o que via. Portanto,
a bola poderia servir de receptor de televisão... não se acharia melhor por aí.
— Se ela quiser — comentou Rhodan, cético.
— Mostrou-se amistosa — afirmou Harnahan, convicto.
— Senti isso quando falou comigo, por telepatia, naturalmente. Além disso, ela me
salvou quando fui atacado pela nave dos saltadores. Basta olhar para a tela, Sir.
Lá está o quarto planeta...
A projeção tridimensional mostrou a tela. Um
ponto luminoso atravessou-a lentamente e mergulhou nas profundezas do espaço.
— Sua bola...? — indagou Rhodan. — Qual era
mesmo o alcance telepático dela?
— Duzentos anos-luz. Pelo menos foi o que ela
me disse.
— Curioso. Sempre se considerou ilimitado o
alcance da capacidade telepática. Porém não é o que se tem verificado na prática.
Nem mesmo Marshall pode comunicar-se daqui com a Terra. Imaginem... duzentos anos-luz!
Neste momento, a imagem projetada ficou fixa.
Em escrita arcônida, via-se a explicação: “Transcrição
da mensagem telepática do ser-bola!” O texto dizia:
Acredita agora, Perry Rhodan? Harnahan não mentiu! Ele lhe disse que
estou à sua espera? Mas retorne à Terra primeiro, isso é mais importante. Porém
não me esqueça, Perry Rhodan, apesar de ser imortal. Espero por você. Espero durante
uma pequena eternidade se for preciso.
— Quem é você? — perguntou Rhodan, em voz alta
e clara.
Novamente surgiu um texto escrito.
Vocês homens são curiosos. E a curiosidade é a mola mestra do progresso
de sua civilização. Creio, portanto, que será a curiosidade a causa de sua volta
algum dia. Até lá! Passe bem!
O Coronel Everson suspirou.
O documentário do passado durara mais de uma
hora, e ele já não se lembrava de todos os pormenores. Perry Rhodan preencheu as
lacunas com alguns comentários.
Ele fez questão de repetir só um trecho do
filme.
O sargento Harnahan explicava justamente que
de maneira alguma o ser-bola poderia ser considerado perigoso. Ao que Rhodan respondera,
pensativo:
— Também me parece. E, não representando perigo,
o ser-bola talvez nos possa ser útil algum dia.
E o sargento Harnahan, o único amigo humano
do misterioso ser, explicara:
— Prometeu-nos ajuda quando quer que necessitássemos:
hoje ou só daqui a cem anos. Lembre-se disso, Sir, caso a situação apertar.
Finda a projeção, e restabelecida a iluminação,
Rhodan dissera, pensativo:
— O sargento Harnahan está morto. Já não pode
nos levar até a lua desconhecida do quarto planeta de Tatlira. Você é que irá, Everson,
para achar a bola! Mantenha o pensamento concentrado em Harnahan até o ser se manifestar.
Depois cumpra sua missão. Esclarecimentos adicionais estão à sua disposição. Faça
suas perguntas.
Entre perguntas e respostas, tudo ficou esclarecido.
— Hei de achá-la — prometeu o coronel, por
fim. — Acharei o misterioso amigo de Harnahan, mesmo que tenha de virar todo o sistema
pelo avesso! Pode confiar em mim, Sir!
Rhodan limitou-se a sorrir.
— Claro que confio, coronel...!
* * *
Marcus Everson lançou apenas um breve olhar
à tira de papel ejetada pelo cérebro de navegação, passando-a a um oficial que aguardava
ordens em silêncio.
— Transição em dez minutos, Tenente Gropp!
Encarregue-se da navegação da Kublai Khan. Sabe como proceder.
— Entendido, coronel! Acenando-lhe brevemente,
Everson aprofundou-se nas instruções escritas recebidas de Rhodan.
A lua na qual a bola se abrigara há sessenta
anos tinha o diâmetro aproximado de 80 quilômetros. Sem recursos para calcular com
maior precisão, Harnahan dera uma estimativa.
Porém o quarto planeta de Tatlira possuía cerca
de cinqüenta luas, que contornavam o mundo desabitado, nas órbitas mais desordenadas.
Como é que ele, Everson, ia poder encontrar
justamente a lua apropriada?
Além disso, talvez a bola nem estivesse mais
na mesma lua, já que revelara a Harnahan sua intenção de buscar um mundo mais próximo
do sol, a fim de reabastecer-se de energia.
Possibilidade que dificultava a tarefa a cumprir.
Mas a bola era um telepata ativo e, portanto,
de certa forma, um hipno. Poderia transmitir seus pensamentos até a um não-telepata.
Rhodan mostrara-se certo de que ela se manifestaria assim que percebesse as intenções
de Everson.
Os derradeiros preparativos foram tomados.
A transição decorreu segundo a programação feita. Quando a aguda dor da rematerialização
começou a ceder paulatinamente, o Coronel Marcus Everson dirigiu sua atenção para
as telas.
O sol Tatlira flutuava a poucos minutos-luz
de distância. No primeiro momento foi difícil distinguir os planetas, mas com a
ajuda da seção astronômica da Kublai Khan a dificuldade foi rapidamente superada.
O quarto planeta se encontrava por trás do sol.
— Continuamos à velocidade da luz, Gropp —
decidiu Everson, por fim. — Passe próximo ao planeta dois e rume para o quatro.
Depois darei novas ordens.
Quando a gigantesca nave de guerra singrava
ao longo do planeta Goszul, a central radiofônica captou algumas frases, indício
seguro de que a pequena base terrestre ainda existia. Portanto o sistema ainda não
fora engolfado pela outra dimensão temporal.
Depois o planeta habitado tornou a mergulhar
nas profundezas do espaço. O sol se aproximou, deslizou para o lado da tela e sumiu.
À frente, surgiu uma estrela de luz clara. Crescendo rapidamente, tomou a forma
de um globo de brilho opaco: Tatlira-4, o planeta desabitado.
— Reduzir velocidade! — ordenou Everson.
O Tenente Gropp, agora ocupando o lugar de
piloto, efetuou a manobra. A Kublai Khan diminuiu a marcha.
Tudo correspondia ao relato outrora feito por
Harnahan.
O planeta estava cercado por uma “multidão” de luas; de pequenas a diminutas,
traçavam órbitas irregulares em torno dele. Colisões não provocariam o menor dano
à nave, mas mesmo assim Everson mandou diminuir ainda mais a velocidade. Receava
pulverizar casualmente alguma que servisse de paradeiro para a bola.
Prova evidente de quanto menosprezava o misterioso
e incompreensível ser.
A Kublai Khan atravessou o pequeno cinturão
de asteróides a mil quilômetros por segundo, até avistar uma lua maior.
Sua superfície acidentada e irregular mostrava
extensas cordilheiras e profundos vales; neles jamais penetrava a luz do sol distante,
e nem mesmo seus raios debilmente refletidos pelo planeta. Everson avaliou o diâmetro
em cerca de oitenta quilômetros.
Devia tratar-se da lua mencionada por Harnahan.
Everson determinou uma órbita em torno dela.
Depois começou a concentrar-se.
— Estamos à sua procura, ser de energia! Somos
amigos de Harnahan e Perry Rhodan, lembra? Há sessenta anos, na nossa contagem de
tempo, Harnahan o encontrou nesta lua. Você o socorreu contra os saltadores, e Rhodan
lhe deu energia! Caso ainda esteja aqui, esperando, manifeste-se!
Por diversas vezes Everson repetiu suas tentativas
de concentração, porém não recebia resposta. Conhecedor da missão, o Tenente Gropp
mantinha silenciosa expectativa junto aos controles. Sem tirar os olhos da tela,
perscrutava incessantemente a superfície acidentada da lua que ia passando à sua
frente. Em lugar algum viu uma bola.
Everson continuou a pensar:
—
Caso se encontre neste sistema, e esteja recebendo minha mensagem, manifeste-se!
Corremos sério perigo, e necessitamos de sua ajuda! Recorda ainda seu 20 primeiro
amigo humano, Harnahan? Ele já está morto há bastante tempo, mas trago-lhe uma mensagem
dele...
Foi com um choque que Everson sentiu a pressão
inicialmente leve, e depois mais forte, sobre o cérebro. Parecia que uma mão imaterial
e invisível o pressionava suavemente.
E depois a voz muda e inorgânica lhe disse:
—
Recebi sua mensagem, Everson! Procura-me no lugar errado. Espero-o aqui no primeiro
planeta. A proximidade do sol me forneceu energia. Mas é quente demais para vocês.
Pousem na lua que estão circundando. Estarei lá quando descerem.
Atônito, Everson não conseguiu formular resposta
imediata. No íntimo, nutria a certeza de que as esperanças de Rhodan eram infundadas...
e eis que o incrível sucedia.
— Aterrisse naquela lua, ali na planície! —
ordenou a Gropp, que executou a ordem em silêncio. Não queria perturbar seu superior.
— Como
pretende vir para cá? — pensou Everson, intensamente.
Porém, desta vez, ficou sem resposta.
A gigantesca nave esférica desceu para a superfície
da lua, aterrissando com suavidade no solo relativamente plano da vasta planície,
que se estendia até o horizonte 21 próximo. Do outro lado a visão era barrada por
montes abruptos e escarpadas cordilheiras.
Everson ergueu-se.
— Vou lá para fora — disse, com um olhar indeciso
para o armário embutido onde eram guardadas as armas portáteis. Depois meneou a
cabeça e saiu da central sem dizer mais palavra.
O elevador deixou-o numa das numerosas comportas
de ar, onde enfiou às pressas um traje espacial. Este possuía jatos retro-propulsores,
podendo funcionar como uma espécie de mininave autônoma até no espaço desprovido
de gravidade.
A força gravitacional da pequena lua era mínima.
De pé na borda da escotilha, Everson examinou o chão, uns trinta metros abaixo.
Apesar de ser ainda dia, reinava pouca claridade. O sol estava afastado demais para
fornecer muita luz.
Sorrindo de leve, Everson soltou-se e flutuou
para baixo com a suavidade de uma pluma. Pelo relatório de Harnahan, sabia que este
procedera de maneira idêntica. Poderia dar saltos de até cento e cinqüenta metros
de altura ali, se quisesse. Portanto os jatos do traje espacial eram supérfluos.
Estava debaixo da imensa esfera, que se erguia
acima de sua cabeça como uma gigantesca montanha de aço arcônida. Alguns poucos
saltos deixaram-no a céu descoberto; sem obstáculo atmosférico, as estrelas cintilavam
livremente sobre o mundo morto.
E, no entanto, repentinamente se deu o impossível!
Uma estrela cadente flamejou no horizonte,
aproximando-se com alucinante rapidez. Depois sua velocidade diminuiu perceptivelmente,
e ela descreveu um amplo arco na direção de Everson.
O coronel assustou-se.
“Em primeiro
lugar, em espaço desprovido de ar não pode haver meteoros incandescentes”, pensou
automaticamente. “Além disso, meteoros jamais
voam em curvas. E ele é rápido demais também!”
Porém suas considerações foram abruptamente
interrompidas.
O meteoro em brasa se precipitou para perto,
freou instantaneamente e pousou sobre as pedras da planície, a escassos dez metros
de Everson.
Era a bola!
Não media mais de um metro, e brilhava em tom
negro-azulado à luz das estrelas distantes. Na superfície polida não se viam emendas,
mas a luz refletida parecia pulsar.
Everson não teve muito tempo para pensar no
fenômeno.
— Que
aconteceu a Harnahan? — vibrou a pergunta em seu cérebro.
O coronel tomou consciência da irrealidade
da situação. Encontrava-se numa lua morta e selvagem. Diante dele estava uma bola
que lhe falava. Percebeu repentinamente que Harnahan devia ter tido os nervos em
perfeitas condições. Qualquer outro sofreria provavelmente um acesso de loucura.
— Foi envolvido com sua nave por uma tempestade
cósmica, nos limites da Via Láctea, vinte anos após aquele encontro. Jamais se soube
de detalhes sobre sua morte, pois não houve sobreviventes. Por consenso geral, supõe-se
ter ocorrido falta de energia, o que levou a nave a perder-se no vácuo existente
entre as vias lácteas, totalmente desarvoradas. Nunca mais houve sinal de vida dele.
Sem refletir, Everson falara em voz alta. Com
a vantagem de poder ser ouvido por Gropp na central, deixando-o a par do que ocorria.
Naturalmente Gropp não escutava as respostas da bola.
— Então
Harnahan está morto! Quem sabe eu encontre a nave dele algum dia! Não teria acontecido,
caso eu estivesse atento.
Seguiu-se breve pausa, durante a qual Everson
se pôs a calcular a provável distância do primeiro planeta daquele sistema. Quando
chegou a um resultado aproximado, novos impulsos partiram da bola:
— Quer
dizer que os homens não me esqueceram? Perry Rhodan se lembrou de mim? Ele precisa
de ajuda?
— Sim — disse Everson, absorto. Preocupava-se
com uma questão intrigante. — Como é que você veio para cá? O primeiro planeta fica
a três anos-luz. Você pode saltar pelo hiperespaço como nossas naves?
Sentiu algo semelhante a risadas invadir-lhe
o cérebro.
—
Não salto pelo hiperespaço, Everson; vôo através dele. A diferença é enorme. Mas
agora diga-me por que veio? Porque a Terra precisa de ajuda?
Everson retardou a resposta. Fitava a superfície
da bola, porém não via nada parecido com as afirmações de Harnahan. Não passava
de uma superfície escura, que parecia absorver toda a luz.
Não, agora ela refletia novamente. As pulsações
eram irregulares, como se a bola respirasse.
“Será
que respira luz?”, pensou.
Novamente ecoaram risadas na cabeça de Everson.
—
Você é ainda mais curioso do que Harnahan, Everson. Gostaria de conhecer, algum
dia, um homem que não fosse curioso. Mas, provavelmente, isto me causaria tremenda
decepção. Um homem desprovido de curiosidade, desinteressado da busca à verdade,
e indiferente à razão de ser das coisas... será que tal homem existe mesmo?
Everson despertou de seu estado de transe.
Ignorou a pergunta feita.
— Tenho uma mensagem de Perry Rhodan para lhe
transmitir. Refere-se à promessa feita a Harnahan. Rhodan pede-lhe que vá até ele.
Necessita de sua ajuda, senão o Universo estará perdido. Os druufs atacam.
—
Quem são os druufs?
— Não sabemos propriamente quem são eles, apesar
de já os termos encontrado. Vivem em outra dimensão temporal, que se prepara justamente
para “raptar” a nossa. Existem zonas de
superposição em vários pontos, pelas quais é possível passar de uma dimensão à outra
sem empecilhos, e sem apelar para recursos técnicos. Os druufs valeram-se desta
circunstância, e lançaram enormes frotas de guerra para nosso Universo, que planejam
conquistar. Revidamos, porém o inimigo é superior.
Depois de uma pausa, a bola emitiu o pensamento:
—
Repousei longamente, e ignoro o que tem acontecido. Porém tenho a impressão de saber
quem são os que chama de druufs. Bem, sigo-o a fim de ajudar Rhodan. Onde está ele?
Everson suspirou de alívio.
— Não aqui nesta nave, porém no sétimo planeta
de um sistema solar bem distante, que denominamos Mirta. Como... como conseguirá
entrar na nave conosco?
—
Ora, até que eu poderia fazer o trajeto todo sozinho, mas isso me custaria muita
energia, que levaria tempo para tornar a armazenar. Portanto, viajarei na nave junto
com vocês. A fim de não pô-los em perigo, precisam me tratar como um objeto. Não
me locomovo pelos próprios meios, quando pode ser evitado. Vou contrair-me também,
para ocupar menos espaço. Retorne à nave, que eu o seguirei.
Logo depois se passou algo que até aos olhos
de Everson, mais do que habituado a presenciar cenas estranhas, pareceu milagre.
A bola começou a encolher visivelmente. Tornou-se
menor e mais negra. Por fim reduziu-se ao tamanho de uma bola de tênis, porém continuava
deitada no chão pedregoso. Seria impossível adivinhar onde fora parar a massa anterior,
mas se estivesse concentrada naquele diminuto volume, o objeto devia ter-se tornado
incrivelmente pesado.
Conclusão evidentemente errônea, pois a bola
subiu de repente, como se não tivesse peso algum. Alçando-se vagarosamente, parou
na altura da face de Everson.
— Processo
rotineiro — avisou ela telepaticamente, como de costume. — E meu peso não aumentou. Energia e tempo são
imponderáveis. Que esperamos ainda?
Everson não deu resposta. Deu um passo atrás,
e olhou para cima. Com um pulo oblíquo alcançaria a escotilha de embarque. Caso
falhasse, teria que pular de novo.
Acenou para a bola e tomou impulso.
O cálculo fora quase exato — falhou por pouco.
Antes de chegar à escotilha, tornou a afundar para o chão. Olhou ao redor.
A bola preta se alçava lentamente e emparelhou
com ele. Continuou a ascensão... e Everson a seguiu!
Como se uma mão invisível o puxasse para a
escotilha, depositando-o no umbral. E logo, por efeito do campo gravitacional artificial
da nave, ele readquiriu o peso natural.
A bola já entrara na câmara de pressão. Suspensa
no meio da peça, emitia reflexos escuros, mas de cores cambiantes.
Everson apertou um botão, fechando a escotilha
externa. A câmara foi invadida por ar, até equilibrar a pressão. Só então a escotilha
interna se abriria.
Desembaraçando-se do pesado traje pressurizado,
o coronel falou:
— Daqui à central existe uma série de passagens
e elevadores. Acha que pode seguir-me sem perigo?
—
Segure-me em sua mão, Everson!
O oficial hesitou. Confiava no estranho e inexplicável
ser, certo de que não faria nada que o prejudicasse. Não obstante, intimidava-se
um pouco diante da perspectiva de segurar na mão nua uma porção de energia ou tempo.
Estendeu o braço com certa relutância, e abriu
a mão.
A bola “rolou” no ar e pousou suavemente na palma da mão de Everson. Ele teve
a sensação de tocar algo frio e leve.
— Isso
é tudo — emitiu a bola, divertida.
Everson cerrou os dedos sobre a pequena esfera
e saiu para o corredor. Percorreu as passagens da nave como num sonho, acabando
por atingir a central. O Tenente Gropp suspirou aliviado ao ver entrar o superior.
— Graças aos céus, coronel! Achou a bola?
— Está aqui na minha mão — replicou Everson,
estendendo o braço na direção do tenente.
A bola repousava calmamente no côncavo da mão.
— É esta a bola de Harnahan.
Gropp fitou-a, aturdido.
— Isto... isto é...
— Rhodan
espera! — ecoou o pensamento urgente nos cérebros dos dois homens. — Não devemos tardar mais, já se desperdiçou tempo
em demasia. Não sei se minha ajuda será decisiva, mas quero tentar, pelo menos.
Caindo em si, o Tenente Gropp voltou a ocupar-se
com o cérebro positrônico, a fim de calcular os dados para a transição. Everson
disse à bola:
— Será que é capaz de ajudar? Rhodan conta
firmemente com isso...
— Talvez
eu devesse ter dito que espero que aceitem minha ajuda — veio a resposta meio
misteriosa.
2
Há vários milhares de anos-luz da Terra, existia
uma brecha no Universo. Brecha de bilhões de quilômetros de comprimento e largura,
oscilando entre meio e pouco mais de um ano-luz. Resultara da superposição parcial
das duas dimensões temporais e mantinha-se, surpreendentemente, em total estabilidade.
Bordejava apenas a Via Láctea, progredindo com a velocidade relativamente reduzida
de cento e cinqüenta mil quilômetros por segundo.
Tratava-se de uma chamada zona de descarga
no Universo einsteiniano, e permitia tanto o acesso quanto o retorno do Universo
dos druufs, sem recorrer a artifícios técnicos.
Porém os druufs se mantinham alertas. Diante
da brecha postara-se uma poderosa frota bélica do robô-regente de Árcon, que compreendera
finalmente o perigo que ameaçava seu império. Eram mais de cinqüenta mil naves,
tripuladas em sua maioria por robôs; atacavam ferozmente as unidades invasoras dos
druufs, procurando aniquilá-las. Venciam às vezes, porém também se viam naves-robôs
espalhar-se desarvoradas espaço afora.
Neste embate de dimensões galácticas, era Rhodan
que desempenhava o papel de observador oculto. Tornava-se um terceiro partido, por
enquanto ainda neutro.
Com o grosso de sua frota de batalha terrana,
tomara posição no sistema Mirta, a vinte e dois anos-luz do cenário da gigantesca
batalha. No sétimo planeta, Fera Cinzenta, existia uma base terrana muito bem camuflada.
Era ali que Perry Rhodan recebia as informações enviadas por suas naves de observação.
O quadro ia se completando.
O cruzador ligeiro Líbano comunicou:
— Unidades dos druufs avançam para o nosso
espaço, sendo engajadas em violenta luta com a frota do regente de Árcon. Baixas
de ambas as partes.
Comunicado do girino K-28:
— As dimensões temporais não sofreram maior
aproximação. A diferença se mantém constante. Os druufs se movem com metade de nossa
velocidade.
Bell recebia os comunicados com ar aborrecido.
Junto com Perry Rhodan e alguns oficiais, ocupava a central de comando subterrânea
em Mirta VII. No recinto brilhantemente iluminado, destacavam-se as inúmeras telas
e instrumentos que recobriam as paredes.
Rhodan, pelo contrário, irradiava atividade.
Apertou vivamente um botão abaixo de uma das telas, sobre a qual acabara de acender-se
uma luz vermelha.
O rosto de um oficial apareceu.
Nova mensagem do cruzador ligeiro Líbano.
— Calculadas em dez mil as unidades arcônidas
concentradas num mesmo ponto. Planejam aparentemente avançar para a dimensão dos
druufs. Continuamos em nosso posto de observação, a 1,5 anos-luz da brecha.
— Pronto! — exclamou Bell, com os cabelos ruivos
nervosamente eriçados. — Passaram-nos à frente!
Sorrindo, Rhodan replicou:
— Pouparam-nos parte do trabalho, no máximo.
Não se afobe, Bell, dificilmente conseguirão arrasar o sistema pátrio dos druufs.
Este é grande e poderoso demais para isso. Mas talvez os druufs consigam capturar
e examinar algumas das naves do regente...
— E que proveito espera disso? — quis saber
Bell.
— Um bocado, meu caro. Os druufs constatarão,
por exemplo, que não lutam contra viventes normais, porém contra robôs. Fato que
abre perspectivas inteiramente novas para nós.
A curiosidade de Bell se inflamou. Estava certo
de que iria conhecer agora a solução do segredo que Rhodan deixara entrever, porém
para sua decepção Rhodan disse:
— Acho que os velhos provérbios continuam válidos.
Devia memorizar alguns deles, Bell.
Sem se importar com a fisionomia desiludida
do amigo, atendeu a próxima chamada da central radiofônica, e estabeleceu a comunicação
desejada. Na tela surgiu um rosto conhecido.
— Comunicado da Kublai Khan, Coronel Everson:
Missão no sistema Tatlira cumprida com êxito. Aterrissamos dentro da meia hora necessária
para o vôo regular de aproximação.
— Obrigado — replicou Rhodan, evidenciando
seu alívio. — Aguardamos sua presença na central de comando de Mirta VII.
A tela escureceu. Os homens se entreolharam
em silêncio. Rhodan disse:
— Agora resta verificar se a herança do sargento
Harnahan tem algum valor ou não.
— Eu não esperaria demais — opinou Bell. —
Afinal, trata-se apenas de um espírito. E um espírito do passado, ainda por cima.
Uma “bola” que vive da luz das estrelas! Que que há!?
Rhodan permaneceu sério.
— Eu não falaria assim, Bell. A bola pode estar
escutando, e tentar vingar-se. Com um choque elétrico, quem sabe?
Visivelmente encabulado, nem por isso Bell
reprimiu uma observação zombeteira:
— Prefiro contar com as armas energéticas,
e com os mutantes. Sabe lá o que é que o tal Harnahan andou imaginando naquela ocasião?
— Não ouviu Everson confirmar o êxito da missão?
E dei-lhe a incumbência de trazer a bola...
Bell recolheu-se ao silêncio. Um dos oficiais
levantou a mão.
— Atenção, Sir, uma mensagem! Rhodan calcou
o botão.
Um homem com o distintivo de cientista surgiu
na tela. Integrava o grupo de sábios que desempenhava importante papel naquela gigantesca
briga pelo poder no Universo.
— Sir, submeti ao cérebro positrônico as perguntas
apresentadas. Posso dar-lhe as respostas agora?
Rhodan compreendeu a hesitação do homem. Não
sabia se todos os presentes na central de comando deveriam ser iniciados.
— Fale à vontade — instruiu Rhodan. — Não temos
segredos para com nossos oficiais-dirigentes.
Com um aceno, o cientista começou a ler uma
fita.
— Para melhor compreensão, repetirei as perguntas
feitas originalmente — explicou. — Primeira pergunta: que teria acontecido caso
o regente de Árcon e sua frota não tivessem descoberto a brecha para o Universo
dos druufs? Resposta à primeira pergunta: o regente prosseguiria em suas tentativas
de encontrar a posição galáctica da Terra, a fim de atacar o Império Solar, e submetê-lo
à sua soberania.
“Segunda pergunta: existe possibilidade de
Árcon derrotar os druufs? Resposta à segunda pergunta: as possibilidades são escassas.
Não há base para tal suposição.
“Terceira pergunta: existe possibilidade de
os druufs derrotarem a frota de Árcon? Resposta à terceira pergunta: as possibilidades
são mínimas. Novamente, não há base para a suposição.
“Quarta e última pergunta: o regente emite
incessantes pedidos de socorro a Perry Rhodan. Por que requisita auxílio contra
os druufs, se se acha suficientemente poderoso para vencer o adversário? Resposta
à quarta e última pergunta: a tomada de contato com a Terra visa unicamente determinar
a posição deste planeta. A ajuda contra os druufs não passa de um meio para um fim.
Fator de probabilidade cerca de 98,7964 por cento.”
Fez-se um silêncio expectante na central de
comando.
Por fim, Perry Rhodan disse:
— Obrigado, Henderson. Tenho mais perguntas
para processamento, mas não são urgentes.
A tela escureceu.
Bell remexeu-se, inquieto.
— Quer dizer que o cérebro-robô continua querendo
encontrar-nos! — constatou. Sua voz sem expressão não revelava nada. — Dir-se-ia
que se entrementes ele tivesse percebido que...
— Espera do cérebro positrônico, do maior cérebro
positrônico da Galáxia, algo como percepção? — perguntou Rhodan, admirado. — Engano
seu, Bell. O regente do império dos arcônidas só se guia pela lógica. E justamente
a lógica lhe diz que representamos um perigo. Logo, o perigo precisa ser afastado.
Assim é que ele foi programado há milênios. E mantém tal linha de conduta, pelo
menos enquanto não passar por uma reprogramação.
— Ele não nos garantiu sua amizade?
— Amizade! — Rhodan colocou na voz todo o desprezo
que sentia. — Pode imaginar uma máquina sentindo amizade? O regente conhece apenas
objetivo e finalidade, mas não sentimentos. Precisamos pensar de maneira idêntica,
caso quisermos sobrepujá-lo. Este é o truque!
— Bem, de momento, o regente tem outras preocupações.
Os druufs estão lhe dando tanto trabalho quanto a nós.
— Portanto os druufs vêm a ser inimigos comuns
do regente e da Terra — concluiu acertadamente um dos oficiais presentes.
Com ar matreiro, Rhodan respondeu, sorrindo:
— Conforme já comentei com Reginald Bell, os
velhos provérbios continuam válidos. Refiro-me ao conhecido “onde dois brigam, o terceiro tira proveito”.
Reflita, general! Afirmou que o regente e nós possuímos um inimigo comum nos druufs.
Isto significa que deveríamos aliar-nos a Árcon.
— Apenas aparentemente, é claro! — apressou-se
a assegurar Deringhouse. Sentia certo constrangimento por ter dado ocasião ao surgimento
de um mal-entendido.
Rhodan continuava a sorrir.
— Que acha de nos aliarmos, aparentemente,
é claro, com os druufs contra Árcon?
O profundo silêncio que se seguiu foi quebrado
pelas risadas de Bell. O general parecia chocado, porém não disse palavra. Talvez
por esta mesma razão.
— Com os druufs contra Árcon! — Bell não conseguia
acalmar-se. — Genial, Perry! Verdadeiramente genial! — após uma pausa, ele acrescentou
de repente: — Mas como assim? Que significa isso tudo?
— Muito simples. Teríamos contato com os druufs,
e oportunidade para conhecer na maior calma a terra natal deles. Nossa breve estadia
lá, de caráter meramente acidental, não nos deixou ver grande coisa. Desta vez percorreríamos
Siamed como visitantes oficiais.
Siamed era um sistema de estrela dupla, situado
além da barreira de tempo. No 13o planeta já existia uma base
secreta de Rhodan. Já o berço natal dos druufs media o dobro da Terra e possuía
gravidade duas vezes mais forte.
— E como imagina fazer isso? — perguntou Bell,
a quem evidentemente não agradava nem um pouco aquela idéia de ir procurar os druufs.
— Acha que esses hipopótamos inchados esperam justamente por nós?
— Não exatamente. Mas sem dúvida surgirá alguma
oportunidade de demonstrar-lhes nossas intenções amistosas. Isto os poria intrigados
e curiosos.
Bell mergulhou em profundas cogitações. Rhodan
olhou para os oficiais.
— Podem retornar a suas naves, senhores. O
estado de alarma continua em vigor. Aguardem novas instruções.
Sozinho com Bell, ele disse:
— As próximas horas trarão momentos decisivos.
Ao contrário de você, espero que a bola outrora encontrada por Harnahan nos seja
útil. Desconheço a natureza dela, mas estou certo de que não é nossa inimiga. Ela
própria me afirmou isso. O Coronel Everson deve aterrissar a qualquer momento. Vá
recebê-lo. Eu aguardo aqui, e aviso John Marshall e os demais mutantes na Califórnia.
Gostaria de tê-los presentes por ocasião da chegada de nossa hóspede.
Levantando, Bell encaminhou-se para a porta.
— Hóspede! — exclamou, zangado. — Quem diria!
A decepção será tanto maior depois!
Rhodan viu-o sair, com um sorriso nos lábios.
Com toda a sua inteligência, Bell ainda não
conseguira habituar-se totalmente a raciocinar em termos cósmicos, conforme se fazia
necessário na era das viagens espaciais.
Vitalmente necessário!
* * *
Ao penetrar na sala iluminada, o Coronel Everson
viu-se diante de uma série de fisionomias ansiosas.
À esquerda, sob as telas, sentavam-se Perry
Rhodan e Bell; logo em seguida, John Marshall, Fellmer Lloyd, Wuriu Sengu e Ralf
Marten. Um pouco distante, Atlan estava de pé, com um sorriso ligeiramente desdenhoso
nos lábios. Bem à frente, o rato-castor Gucky acocorava-se nas patas traseiras,
apoiando-se na grossa cauda de castor; suas orelhas estavam empinadas, e não se
via sinal do dente roedor.
Everson tomou posição de sentido.
— Apresento-me de volta da missão, Sir — disse,
dirigindo-se a Rhodan. — Ordens cumpridas.
— Obrigado — falou o administrador do Império
Solar. — Por favor, tome lugar e relate o que aconteceu.
Everson sentou-se com estranha cautela, como
se levasse ovos frescos no bolso. Depois contou laconicamente e em poucas palavras
suas experiências no sistema Tatlira. Quando terminou, Rhodan acenou com a cabeça.
Everson pôs a mão no bolso. Ao estendê-la para
diante, via-se nela uma bolinha negra com mais ou menos seis centímetros de diâmetro.
Ficaria oculta num punho cerrado. A superfície era lisa e inteiriça, e parecia pulsar
levemente.
— Isto — declarou Everson calmamente — é nosso
velho amigo Harno, e tem cinco milhões de anos. É assim que ele deseja ser chamado,
em memória de seu primeiro amigo humano, Harnahan.
Os homens fitavam a bola, espantados.
Rhodan ergueu-se lentamente, encaminhando-se
para Everson. Seus olhos descansaram pensativos e interessados sobre a bola preta.
Estacou diante do coronel.
— Não é a aparência, e sim as ações e intenções
que determinam o valor de um amigo — falou, acentuando significativamente as palavras.
— Harnahan dizia em seu relato que a bola media meio metro de lado a lado. Além
disso, ela falou com ele, e comigo. Ainda é capaz disso?
Não apenas Rhodan, porém todos os presentes
compreenderam a resposta muda que lhes invadiu repentinamente o cérebro:
— Tem
razão, Perry Rhodan! Não é a aparência que determina o valor. Mas se sabe disso,
não precisaria ter-se preocupado com o fato de me ver tão pequena hoje. Bolinhas
não são mais fáceis de transportar do que bolas grandes?
— Perdoe-me — replicou Rhodan, inclinando-se
ligeiramente diante da bola. — Alegro-me por encontrá-lo, Harno. Conhece os motivos...
— Conheço-os
— veio a resposta muda, antes que Rhodan pudesse completar a frase. — Necessita de ajuda contra os druufs, como vocês
os chamam.
A mensagem telepática cessou bruscamente. A
bola se alçou devagarinho das mãos de Everson, e ficou suspensa diante da face de
Bell, que a fitava de olhos esbugalhados.
— Que
é um ventríloquo?
Bell foi alvo de todos os olhares. Com os cabelos
eriçados como cerdas rubras, o lugar-tenente de Rhodan sentia-se imensamente constrangido
por se ver centro das atenções.
Rhodan tirou-o do embaraço.
— Precisa perdoá-lo, Harno, ele se enganou.
Julgou que um de nós estivesse se divertindo com ventriloquia telepática. Ou seja,
ele ainda não acredita plenamente em você. Mas mudará de idéia.
A bola recuou e subiu até as proximidades do
teto. Sua cor mudou de repente, e começou a crescer visivelmente, até alcançar meio
metro. Reluzia agora em tom esbranquiçado.
E depois surgiu na curvatura externa uma imagem
colorida.
Confusa de início, ajustou-se até adquirir
nitidez, como se alguém tivesse regulado a televisão.
Com um grito, Bell apontou para a bola.
— Não...! Não é possível!
Todos viram o quadro, que, no entanto, não
justificava tamanha excitação. Afinal, muita gente tinha em casa, como animais de
estimação, os graciosos possoncais de Vênus. Facilmente domesticáveis, mantinham-se
escrupulosamente limpos, e obedeciam à risca.
Estirado num sofá, o possoncal dormia, com
uma fita vermelha atada ao pescoço. Distinguia-se claramente o nome, gravado a ouro.
— Mas é Wutzi! — exclamou Bell, cheio de assombro.
— Céus! Como é que Wutzi foi parar, em tamanho quase natural, naquela bola lá em
cima? Claro que se trata de Wutzi! Então não vou reconhecer meu quarto em Terrânia?
Ninguém se manifestou. Só aos poucos os presentes
foram tomando consciência da significação do que viam. A bola suspensa no teto mostrava
algo que se encontrava presentemente a 6.562 anos-luz dali.
Harno, o misterioso ser-bola, aceitara o desafio
de Bell e provara sua capacidade.
— E então? — piou alguém, com mal-disfarçado
sarcasmo. — Que diz agora, gorducho?
Era Gucky, o rato-castor. Careteando, exibia
agora seu dente roedor. o que demonstrava excelente disposição. Atitude, aliás,
adotada costumeiramente sempre que via seu amigo do peito Bell em maus lençóis.
Rhodan olhou para cima.
— Está bem, Harno. Creio que agora também meu
amigo Bell reconhece seu valor. Preciso falar com você.
A imagem desapareceu da bola. Porém ela manteve
o mesmo tamanho ao flutuar lentamente para baixo, detendo-se diante de Rhodan. Continuava
alva e opaca como uma das telas na parede.
— Da
mesma forma poderia mostrar-lhes o fim do Universo — veio o já conhecido impulso
de pensamento. — Basta um dos presentes concentrar
o pensamento nisso.
O tema foi bruscamente trocado.
— Sou-lhe
grato por não ter me esquecido, Rhodan. Apesar de poder praticar uma série de proezas
que lhe pareceriam misteriosas, e me fariam parecer onipotente aos seus olhos, também
a mim a natureza fixou limites. Juntos talvez possamos sobrepujá-los. Pelo menos,
os que não são proibidos.
— Proibidos? — perguntou Rhodan, estremecendo
como se uma corrente de ar gelado tivesse soprado pelo recinto. — Proibidos por
quem?
Não se surpreendeu demais com a ausência de
resposta.
De repente, a voz de Atlan se fez ouvir no
silêncio reinante.
— Harno, nós já nos encontramos alguma vez?
— Conheço-o,
almirante dos antigos arcônidas — dizia a voz telepática. — Na última vez que nos vimos, sua farda ainda
era autêntica.
Assombrado, Atlan percorreu com olhos seu vistoso
uniforme de almirante, fielmente copiado por profissionais terranos. Desistiu de
fazer novas perguntas.
Gucky careteou mais uma vez. Parecia estar
se divertindo à grande.
Rhodan foi direto ao assunto.
— Creio que as apresentações estão feitas,
Harno. Sabe por que mandei buscá-lo Necessito de seus conselhos e ajuda para luta
contra os druufs. Conhece-os?
— Sim,
conheço-os, Rhodan. A aparência deles é diversa da de vocês, apesar de o parentesco
ter sido maior há um milhão de anos. Naquela época, a dimensão temporal deles era
independente, e era difícil encontrá-los. Nos últimos milhares de anos, as superposições
vêm representando sério perigo; mas não vai se prolongar por mais muito tempo. No
entanto, ocorrerá ainda uma justaposição de tempo; porém esta não facilitará a invasão
mútua. Algo como encontro de dois imensos enxames de estrelas cujas bordas se roçassem
por um momento, para prosseguir cada qual e seu rumo. Haveria colisões entre alguma
estrelas, mas depois a calma retornaria, e nenhum dos grupos seria afetado pelo
outro. Entendeu a imagem formulada pelo meu pensamento, Rhodan?
— Nossos cientistas imaginaram algo semelhante
— confirmou Rhodan. — Só ignorávamos que o perigo decresce.
— Decresce,
sim, de modo relativo. Por que quer atacar os druufs?
Rhodan hesitou.
— Estão penetrando em nosso Universo, e tentam
valer-se das zonas de superposição para seus próprios fins. Despovoaram, intencionalmente
ou não, mundos inteiros. Ameaçam nossa existência.
— Prometi
a Harnahan ajudá-los se alguma vez necessitassem de auxílio, terrano. Mantenho a
promessa feita. O segundo adversário de vocês é o cérebro-robô de Árcon. A luta
contra ele é mais importante do que bater os druufs. Só quando o cérebro for posto
fora de combate é que os dois poderosos reinos estelares poderão ser unidos.
— Está se adiantando à evolução dos latos —
disse Rhodan, em tom acusador. — Tratemos dos druufs primeiro. É nosso problema
mais premente. Acabou de dar-nos prova de sua capacidade, Harno. Podemos contar
com você para ver o que se passa à distância? Mais não lhe peço.
—
Eu sou Harno, o televisor.
A seguir, o incompreensível ser se manteve
mudo.
Mas Rhodan tinha a inabalável certeza de que
podia confiar em Harno.
— Há meia hora esbocei diante de Bell um plano
que gostaria de executar o mais depressa possível — começou ele, dirigindo-se aos
mutantes.
O Coronel Everson e Atlan manifestaram seu
assentimento; compreendiam que por ora era melhor ignorar Harno.
— Os inimigos de vocês são também nossos inimigos,
portanto somos amigos. Esta frase antiga ainda é válida hoje. O regente de Árcon
é nosso inimigo tradicional; os druufs lutam contra ele. Portanto, vamos aliar-nos
aos druufs.
O Coronel Everson aprontou-se para falar, mas
depois preferiu ficar calado. Atlan sorriu significativamente. Os mutantes olharam
para Rhodan espantados. Nem mesmo John Marshall, dirigente e melhor telepata do
corpo de mutantes, entendeu. Rhodan “blindara”
seus pensamentos.
— Aparentemente apenas, claro — explicou Rhodan,
desistindo de atormentar por mais tempo seu pessoal. — Não faltará oportunidade
para lhes demonstrarmos nossa inimizade. Durante as negociações; com os druufs,
fortalecemos nossa base no sistema deles. O 13o planeta de seu
sol, a qual demos o nome de Hades, fica em posição favorável. Escavamos uma montanha,
onde instalamos, entre outros instrumentos, um transmissor fictício. Via de remessa
para os reforços... Coronel Everson! Encarregue-se de pôr a Drusus, a Kublai Khan
e o cruzador ligeiro espacial Califórnia em condições de decolagem. Receberá instruções
mais detalhadas posteriormente. John Marshall e os mutantes irão comigo. Assim como
Atlan, Bell e...
— ...Gucky! — interrompeu o rato-castor.
— ...e Harno — continuou Rhodan, impassível.
Só depois se voltou para o rato-castor. — Não faz parte dos mutantes, por acaso,
Gucky?
Uma alegre careta mostrou que este não se sentia
ofendido.
— Quase esqueci que sempre costumam me incluir
erroneamente entre os humanos — comentou ele, piscando para Bell.
— Formaremos uma boa turma! Vai ser divertido!
— Eu não me mostraria assim tão otimista —
recomendou Rhodan, gravemente. — O que nos espera não é nenhuma excursão recreativa.
Conforme se diz tão apropriadamente, vamos nos meter na cova do leão.
— E daí? — piou Gucky, com ar de pouco caso,
bamboleando em direção à porta. Pouco se lhe dava o que acontecia, desde que houvesse
novidades.
* * *
O Coronel Sikermann passara novamente o comando
do cruzador leve especial a Mareei Rous, já promovido a capitão; retornou à Drusus,
nomeada nau capitania do empreendimento. A bordo encontravam-se Rhodan, Atlan, Harno
e os mutantes. A Kublai Khan, sob as ordens do Coronel Everson, completava o grupo.
Quando as duas supernaves de guerra, com seus
diâmetros de quilômetro e meio, dispararam sem aparente esforço para o alto, a Califórnia,
de cem metros de largura, parecia uma mera bolinha diante delas.
Muito abaixo, na superfície de Mirta VII a
camuflagem tornou a deslizar sobre a base subterrânea, deixando ver apenas uma área
plana com vegetação rala. Nem o mais desconfiado observador poderia suspeitar que
ela ocultava uma das mais poderosas bases militares dos terranos.
À medida que as naves ganhavam velocidade,
o planeta ia mergulhando nas profundezas do espaço. O salto iminente através do
hiperespaço, cobrindo vinte e dois anos-luz, não poderia ser detectado por sensor
estrutural algum; todas as naves terrestres estavam equipadas atualmente com os
novos neutralizadores de freqüência, que absorviam qualquer abalo tempo-espacial.
Cada qual possuía também instalações de transmissão de matéria, que lhes permitiam
enviar gente e materiais a grandes distâncias, desde que no local de destino houvesse
estação correspondente, devidamente sintonizada.
Sentado diante dos controles da gigantesca
Drusus, Sikermann mantinha contato radiofônico permanente com a Kublai Khan e com
a Califórnia. Rhodan, Bell e Atlan encontravam-se igualmente na central da Drusus,
pois evidentemente as frotas do regente não tardariam a dar por sua presença nas
vizinhanças da zona de descarga.
Junto ao teto, pequenino e insignificante,
flutuava Harno.
Os mutantes tinham se instalado com John Marshall
na cantina menor, e matavam o tempo com xadrez tridimensional. Jogo tremendamente
complexo, se comparado com o xadrez tradicional. Em vez de bidimensional, o tabuleiro
era cúbico. Os 64 quadrados, alinhados oito a oito, multiplicavam-se por oito. Desprovido
de peso por efeito de um radiador antigravitacional, o cubo flutuava no ar. As peças
obedeciam a impulsos teleguiados.
Quem visse pela primeira vez o novo jogo, ficaria
confuso diante da multiplicidade de figuras encerradas no cubo transparente. Do
ponto de vista matemático, a diferença entre o xadrez tradicional e o tridimensional
não consistia simplesmente em multiplicar por oito a dificuldade da partida. Com
a passagem de um plano a outro, as variações iam ao infinito. Unicamente jogadores
excepcionalmente hábeis conseguiam chegar ao fim de uma partida, levando horas,
ou até dias.

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