Por outro lado, a maioria dos mutantes era
telepata. Mesmo jogando contra parceiros de mente bloqueada, o adversário acabava
achando jeito de dar uma espiada nos pensamentos do rival, adivinhando-lhe as intenções.
No entanto, tal espionagem mental em nada facilitava o jogo, nem influía no resultado
final. A estrutura era complexa demais para beneficiar-se de dicas tão insignificantes.
Depois de acompanhar a partida por algum tempo,
Gucky bocejou, lutando contra a sonolência que o invadia. Ainda faltava meia hora
para as naves alcançarem a velocidade necessária à transição.
Saiu da cantina e andou um pouco pelo corredor.
Depois teleportou-se com um curto salto para uma parte afastada da nave, onde achou
uma cabina desocupada. Pulou para o leito, planejando tirar um cochilozinho naquele
recanto sossegado.
Enrodilhou-se e fechou os olhos.
No entanto, caso quisesse realmente dormir,
precisava bloquear a mente contra os pensamentos da tripulação. Seu cérebro zumbia
como uma colméia. Sua consciência captava todo e qualquer impulso mental de cada
ser inteligente a bordo e... Gucky era dotado de generosidade suficiente para incluir
os homens entre os seres inteligentes.
“O pensamento
desse pessoal atrapalha meu sono”, pensou.
Era uma mistura infernal. Mas, como cada “transmissor” possuía “freqüência” individual, bastava sintonizar
de maneira adequada o “receptor”. Desta
forma, era fácil isolar com clareza e nitidez cada impulso. Mais ou menos como num
aparelho de rádio.
Gucky viu que, afinal, não estava tão cansado
quanto supunha. Começou a achar graça na seleção dos diversos impulsos mentais.
— ...se, pelo menos, eu não tivesse tratado
Betty tão...
Gucky gemeu, desalentado. Poxa, será que os
homens só sabiam pensar em mulheres? Ainda mais ali, a seis mil anos-luz da Terra!
Como se não existisse outro assunto...
Mudou a “freqüência”, e continuou a escutar.
— ...maravilhosas, as mulheres de Terrânia...
Era o rotundo cozinheiro da Drusus! Devia estar
pairando com algum de seus ajudantes. E falavam de quê?
Suspirando, Gucky continuou na escuta.
— ...quero se mico de circo se a tal bola nos
vai servir para alguma coisa!
Gucky não gemeu nem suspirou. Endireitou-se
no leito como se algo o tivesse mordido.
Era Bell! O rato-castor captara casualmente
o “comprimento de onda” do lugar-tenente
de Rhodan. E, como de hábito, Bell pensava em Harno, de cuja capacidade não parecia
muito convencido.
“Injustamente,
aliás”, refletiu Gucky. “Harno não provou
justamente àquele ruivo suas qualidades? E de maneira bastante conclusiva...”
Rindo, Gucky recordou a expressão apalermada
de Bell ao ver refletido na superfície abaulada de Harno justamente Wutzi, seu possoncal
domesticado.
E continuava duvidando!
Gucky perdeu a vontade de rir. Recostando-se
na parede, concentrou o pensamento:
— Harno, pode me entender? Dê um sinal, caso
estiver me ouvindo. Harno! Sou eu, Gucky!
Sem contar com resposta imediata, surpreendeu-se
ao sentir os fortes impulsos mentais:
—
Sim, Gucky, ouço e vejo você. Por que fecha os olhos para falar comigo?
O rato-castor olhou em torno, sobres-saltado.
Não havia ninguém na cabina além dele próprio. Nem sinal da bola.
— Para
mim, é mais fácil fazer contatos telepáticos com os olhos fechados. Talvez não possa
compreender isso, Harno, pois não possui olhos. Aliás, como é que enxerga sem olhos?
Harno riu. O incrível ser era realmente capaz
de rir, se bem que as risadas fossem apenas uma impressão na consciência do interlocutor.
— Existem
numerosos seres que enxergam sem olhos, falam sem boca, e escutam sem ouvidos. O
Universo está repleto de maravilhas, basta saber descobri-las. Gosto de você, Gucky!
Onde fica sua pátria?
Gucky se engasgou, encabulado. Depois falou
em voz alta e comovida:
— Quer ser meu amigo?
—
Com prazer, Gucky. Mas já não somos amigos?
— Pode vir para onde estou?
—
Lamentavelmente não posso teleportar-me. Matéria sólida representa obstáculo para
mim; não posso atravessá-la sem causar destruição. Mas você pode vir me buscar.
— É pra já! — replicou Gucky, satisfeito por
constatar as limitações de Harno. Concentrou-se e saltou.
Ficou meio chateado por ninguém se assustar
quando rematerializou-se na cabina de comando. Bell levantou o olhar e riu.
— Bem que você poderia vir a pé uma vez, como
qualquer pessoa normal.
Gucky sorriu maliciosamente.
— Em primeiro lugar, não sou gente; em segundo,
não se meta na minha vida, mico de circo!
Bell deixou cair o queixo, ficando com um ar
cômico.
— Que... foi... que... disse? — gaguejou, com
evidente perturbação.
Sem lhe conceder a menor atenção, Gucky voltou-se
para o teto, onde a pequena bola continuava flutuando, em total imobilidade.
— Não tenho razão, Harno? Concorda comigo que
de ora em diante o gorducho só deve ser chamado de mico de circo? Foi ele mesmo
que quis...
Bell perdeu a compostura.
— Esse bicho é um espião mental! Não se pode
mais nem pensar em paz...
Desviando o olhar da tela, Rhodan captou de
relance o olhar divertido de Atlan, e levantou ameaçadoramente o indicador.
— Atenção, pessoal! Transição dentro de vinte
minutos... Não sabem senão brigar?
Gucky apontou para Bell.
— Foi ele que começou! Por que formula mentalmente
coisas tão tolas? Essas coisas a gente não diz nem para si mesmo...
— Com voz melosa, continuou: — Vamos indo,
Harno?
O rato-castor estendeu a pata, e a bola desceu
suavemente do teto, pousando na “mãozinha”
aberta.
— Espero que a desmaterialização não o afete
— disse Gucky.
— Estou
verdadeiramente curioso por verificar — falou a voz telepática, ouvida por todos
os presentes. — Salte!
— Até logo mais! — disse Gucky, concentrando-se.
— Até logo, mico de circo! — depois teleportou.
A última imagem visível do rato-castor foi
um brilhante e sorridente dente incisivo.
O hipersalto decorreu perfeito e sem complicações.
Quando o Universo e as estrelas reapareceram,
os rastreadores estruturais entraram em ação automaticamente. Valendo-se do hiper-rádio,
funcionavam à velocidade da luz.
Os avisos de posição começaram a chegar.
— Esquadrilha numerosa 25° à nossa direita.
Rumam em sentido oposto, obliquamente. Não há perigo de colisão. Zona de descarga
a 0,2 anos-luz de distância. Naves isoladas à frente, em rumos diversos. Devem aparecer
nas telas agora.
Sikermann hesitou, até receber sinal de Rhodan.
Entendendo imediatamente, o comandante ligou
o telecomunicador.
— Aviso à tripulação! Postos de combate, atenção!
À Kublai Khan e à Califórnia: prontidão para combate!
Vieram as confirmações. Em questão de segundos,
as três naves se transformaram em fortalezas inexpugnáveis, cujo poder de fogo seria
capaz de arrasar sistemas solares.
Harno ocupava novamente seu lugar junto ao
teto. Estivera em companhia de Gucky por vinte minutos, e ninguém sabia o que haviam
conversado. Bell sentiu um friozinho na boca do estômago ao pensar nisso, porém
logo afastou deliberadamente a lembrança incômoda. Afinal, tudo não passara de brincadeira...
A grande tela panorâmica mostrava agora alguns
pontinhos, arrastando-se lentamente pela superfície curva. Deviam ser as naves do
regente de Árcon, bloqueando a entrada para a outra dimensão temporal.
Nada indicava luta iminente entre os dois adversários.
Tudo parecia calmo e tranqüilo. Evidentemente, a tentativa de invasão dos druufs
tinha sido repelida.
Rhodan disse a Atlan:
— Tudo seria bem diferente se Árcon estivesse
sendo governado por arcônidas autênticos, e não por um traiçoeiro cérebro-robô.
Unidos a Árcon, afastaríamos rapidamente a ameaça dos druufs. O grotesco da situação
é que nós, os terranos, nos vemos forçados a lutar contra e a favor de ambas as
partes! O terceiro poder, por assim dizer...
Atlan concordou.
— Do ponto de vista do Império, os druufs são
o maior perigo. Se eu fosse imperador de Árcon, aliar-me-ia aos terranos para aniquilar
os druufs.
— O cérebro-robô chegou a conclusão idêntica,
só que não cumprirá o acordo quando o perigo for afastado. Não hesitaria em jogar
suas frotas contra a Terra, assim que descobrisse nossa posição.
Atlan assentiu, acenando com a cabeça.
— Enquanto o Império for governado por uma
máquina, os arcônidas não poderão inteirar-se da localização do setor da Via Láctea
no qual se encontra a Terra. Por mais digna de confiança que seja, uma máquina jamais
altera seu modo de pensar, justamente por ser digna de confiança. Quer governar,
e não conhece amizade. Apenas o objetivo a atingir. Julgo, portanto, que agimos
acertadamente.
Voltando-se, Rhodan fitou Atlan.
— Analisa a situação sob o ponto de vista terrano,
almirante...?
Atlan confirmou.
— Que mais poderia fazer, bárbaro? Como Crest,
sou praticamente terrano. Situação que só pode mudar quando a ordem for restabelecida
em Árcon, com um arcônida autêntico no poder. Até lá, porém...
A frase ficou incompleta, mas todos compreenderam
o que Atlan queria dizer. Sikermann falou:
— Três naves à frente. Aproximam-se de nós,
com metade da velocidade da luz. Devo alterar o curso?
— Pode identificá-las?
A resposta veio da central radiofônica:
— Duas naves arcônidas atacam uma nave menor
dos druufs. Vão destruí-la.
A decisão de Rhodan foi instantânea — Aproxime-se
mais, Sikermann!
A tela mostrou maiores detalhes. Não havia
dúvida de que as duas naves do regente eram tripuladas exclusivamente por robôs.
O tipo lhes era familiar por encontros anteriores: torpedos de arconite, em forma
de fuso, com duzentos metros de comprimento, de funcionamento inteiramente automático.
A nave dos druufs era menor, com o habitual
formato cilíndrico, de proa e popa arredondadas. Disparava incessantemente contra
o inimigo mais forte, cujos anteparos energéticos desviavam a radiação recebida.
— A nave dos druufs tem pouca chance — observou
Atlan.
— Excelente! — fez-se ouvir a voz de Rhodan.
Viu a nave dos druufs mudar de rumo e lançar-se em direção da zona de descarga.
Os robôs perseguiram-na. Iniciava-se a feroz caçada.
— Mantenha-se o mais perto possível, Sikermann.
Voavam a pouca distância das três naves.
Era de supor que os comandantes das naves fusiformes
tomassem os três cruzadores esféricos de Rhodan por unidades arcônidas. Atitude
facilmente compreensível, visto que as unidades terranas haviam sido construídas
segundo os modelos de Árcon.
Um fulminante jato energético emergiu da proa
de um cruzador-robô, rompendo o anteparo da nave dos druufs. Devia ter aproveitado,
puramente por acaso, o breve instante em que os aparelhamentos do adversário reabasteciam
o armamento. Chamas ergueram-se da popa da nave dos druufs.
No entanto, os seres da outra dimensão temporal
não entregaram os pontos tão depressa. Retribuindo o fogo, continuaram a precipitar-se
velozmente para a brecha salvadora. Fugindo do universo relativista, tentavam retornar
ao próprio mundo.
Rhodan não perdeu tempo.
— Sikermann
— ordenou. — Avise a Kublai Khan! Abrir fogo imediatamente contra a nave-robô da esquerda! Nós atacaremos
a da direita. Com cautela... Nada de destruí-la de vez. Tem que ser aos poucos.
Ainda não quero revelar aos druufs a excelência de nossas armas.
Em menos de dez segundos, os dois cruzadores
espaciais abriram fogo. Fizeram uso apenas da artilharia mais leve, mas mesmo os
raios mortíferos desta foram suficientes para romper os anteparos energéticos das
duas naves-robôs. Ao mesmo tempo, rasgavam enormes rombos nos cascos.
A voz calma e objetiva da central de rastreamento
anunciou:
— Novas unidades-robôs em aproximação. Estamos
sendo atacados por um esquadrão.
Rhodan tomou uma decisão-relâmpago:
— Ordem para Everson e Sikermann: Destruir
as duas naves-robôs! Imediatamente!
A nave dos druufs avariada não aumentara a
velocidade. Continuava a precipitar-se para a zona de descarga, sem mudar de curso.
Restava-lhes vencer menos de uma hora-luz. No entanto, voando com metade da velocidade
da luz, ainda estavam distantes da salvação. Porém o comandante da nave dos druufs
parecia ter percebido que ganhara um aliado. Cessou o fogo.
O desfecho foi rápido!
O fogo destruidor da Drusus e da Kublai Khan
abateu-se sobre as naves oblongas de Árcon. A reação atômica instantaneamente desencadeada
transformou a matéria em sóis radiativos, que se afastaram em velocidade inalterada.
Depois fundiram-se num só, e a nuvem incandescente se expandiu gradualmente. Aos
poucos decresceu, ficou mais rala e sumiu. Rhodan declarou, friamente:
— Estou curioso por saber se os druufs conhecem
algo como gratidão. Seja como for, já é bastante significativo que o sujeito aí
na frente ainda não nos tenha alvejado. Aproxime-se, Sikermann!
Com toda a cautela e prontos para disparar,
avançaram lentamente para perto da nave salva. Alguns quilômetros apenas as separavam.
Pouco restava da popa da nave dos druufs; no entanto, havia ainda alguns jatos,
ou o que quer que fosse, funcionando. A nave não se transformara propriamente num
destroço, e tinha condições para chegar à sua base pelos próprios meios.
Novamente informações da central de rastreamento:
— Nave do regente se aproximando. Distância...
Rhodan acenou.
— Parece que vamos ter oportunidade de salvar
mais uma vez o druuf avariado. Ótimo, “nó
duplo segura duas vezes melhor”!
A espera foi breve. Menos de uma hora. Sete
unidades menores emergiram de repente, do vazio lateral, e atacaram sem o menor
aviso. Pela tática, depreendia-se que não eram pilotadas exclusivamente por robôs.
Ao menos o comandante devia ser arcônida ou saltador, o que era mais provável.
— Pelo visto, já suspeitaram que não somos
arcônidas — opinou Bell. — Talvez tenham captado mensagens radiofônicas das naves-robôs
abatidas.
Rhodan não respondeu. Preocupava-se em iniciar
o contra-ataque.
O druuf alterou ligeiramente o curso, dando
a nítida impressão de que viria em auxílio do salvador desconhecido; porém logo
retomou o rumo inicial, buscando célere a própria segurança.
A luta foi breve.
Seis dos agressores incendiaram-se por trás
dos anteparos energéticos rompidos. Apenas o sétimo recebeu um tiro de raspão, e
desviou. Rhodan poupara intencionalmente a nave na qual se encontrava um homem.
O que lhe proporcionava ainda uma “vantagem”
adicional: o regente seria informado acerca do novo aliado dos druufs.
Uma hora após, romperam junto com o druuf o
cerco dos arcônidas e mergulharam sem empecilhos no Universo estranho. Por trás
deles, a brecha tremeluzia, ocultando as estrelas.
Outras surgiram no lugar delas.
As estrelas dos druufs!
3
No Universo dos druufs, o compasso temporal
era diferente do terrano. A adaptação reduzira gradualmente a diferença. Enquanto
a princípio toda a vida neste Universo decorria 72 mil vezes mais devagar, atualmente
a relação era apenas de um para dois. Em outras palavras: um druuf vivia e andava
com a metade da rapidez despendida por entes do Universo relativista.
No meio da tela frontal cintilava uma estranha
estrela dupla. Sua luz era avermelhada, com ocasionais reflexos verdes. Era o sistema
natal dos druufs, conforme Rhodan sabia.
Antes de procurar entrar em contato com os
donos desse Universo, Rhodan pôs em execução seu plano original. A base secreta
em Siamed-13 — o planeta Hades — necessitava de reforços.
O diâmetro de Hades correspondia à metade do
terrestre, sua gravidade era de apenas 0,35G, e voltava sempre a mesma face à estrela-mãe.
Devido à libração excepcionalmente elevada, a largura da faixa crepuscular media
80 quilômetros. Enquanto a temperatura chegava a 168 graus na face iluminada, reinava
frio insuportável no lado perpetuamente mergulhado nas trevas.
Apenas na zona crepuscular a vida se tornava
possível por períodos mais prolongados. A compensação das massas contrastantes de
ar ocasionava tempestades de inaudita violência. Mais uma razão para instalar a
base debaixo do solo.
A caverna na Cordilheira da Esperança — nome
escolhido por Rhodan — era uma bandeira terrana no seio do reino dos druufs.
O Tenente Stepan Potkin fez-se anunciar na
central da Drusus.
— Mandou chamar-me, Sir?
— Chegou a hora, tenente — informou Rhodan.
— Seu pessoal está pronto?
— Tudo preparado para a decolagem, Sir!
— Bem — corrigiu Rhodan. — Não se trata de
uma decolagem na acepção usual da palavra. Vocês serão transferidos para Hades por
meio dos transmissores fictícios. A estação na Cordilheira da Esperança foi notificada,
e já se encontra sintonizada em recepção. Da Kublai Khan e da Califórnia está sendo
remetido o material. Você e seus homens irão por último. Desejo-lhe boa sorte, tenente.
Pela primeira vez Potkin também sorriu.
— Acha que vamos precisar dela, Sir!?
— Com toda a probabilidade, Tenente Potkin.
Sem sorte, não seríamos o que somos hoje. Apenas poder e conhecimentos não nos levariam
tão longe.
O Tenente Potkin perfilou-se, fez continência
e saiu.
Atlan seguiu-o com olhar pensativo.
— Homem valente! — elogiou. — Não é qualquer
um que pisa num transmissor fictício, sem piscar olho, sabendo que vai ser “desarticulado” em átomos. Dizem que já houve
casos com resultados bem surpreendentes na extremidade oposta... Quando imagino
que posso entrar na cabina como Atlan, e sair mais além como Bell...
— Você é insubstituível, Atlan — disse Rhodan,
acentuando peculiarmente as palavras. — Mas quando imagino a possibilidade de ter
dois Bells ao meu lado... a idéia é verdadeiramente sedutora.
Atlan ficou perplexo. Por trás dele, Bell comentou,
satisfeito:
— Taí, viram?
— Não se preocupe, porém — continuou Rhodan.
— Acidentes desta espécie podem ter ocorrido no início; hoje são praticamente impossíveis.
Não vou dizer que tenham acontecido transformações totais de identidade, porém mutilações
sim. No entanto, jamais soube de fato concreto sobre isso. Quando achamos os transmissores
no sistema Vega, já funcionavam com perfeição.
— Ainda bem! — exclamou Atlan, numa débil tentativa
de curar a vaidade ferida. — Quando imagino viver o resto da vida sob a forma de
Bell...
— Transmissor pronto para funcionar! — anunciou
a voz indiferente no intercomunicador.
Rhodan deu novas instruções.
— Enviar continuamente a seguinte mensagem
radiofônica, não codificada, e em idioma arcônida:
“Aos druufs! Pedimos oportunidade para parlamentar!
O adversário de vocês é também o nosso! Podíamos unir-nos para derrotá-lo. Caso
possam me compreender, respondam no mesmo comprimento de onda.”
Quando a tela escureceu, e o grande jogo começou,
Rhodan sentiu-se assaltado pela dúvida. Não que duvidasse do êxito de seu plano,
no qual acreditava firmemente. Mas, se os druufs fossem mais desconfiados do que
imaginava? Bem que poderiam atraí-lo a uma bem arquitetada cilada. Mesmo o caso
da nave salva podia deixar de produzir o efeito esperado.
“Que
farei então?”, indagou-se mentalmente.
Decidiu relegar esta pergunta ao momento em
que se tornasse necessária. No entanto, podia-se tentar obter mais esclarecimentos
desde já.
Enquanto o transmissor de matéria trabalhava
a plena capacidade, lotando a caverna com armas, gêneros e gente, Rhodan determinou
vigilância radiofônica em torno da nave avariada, mas ainda capaz de manobrar. Mensagem
alguma partiria dela sem ser interceptada pela central de rádio da Drusus.
E mais um fator trabalhava a favor de Rhodan.
A própria natureza!
O ritmo de vida dos druufs correspondia à metade
do terrano. E suas naves eram duas vezes mais vagarosas enquanto se mantinham abaixo
da velocidade da luz. Também as ondas de rádio levavam o dobro do tempo.
Porém o rádio da Drusus comunicava-se com Hades
à velocidade normal da luz. Portanto, a mensagem de Rhodan chegaria primeiro à pátria
dos druufs.
Bem, talvez isso não representasse vantagem,
afinal. Dependia do que o comandante da nave atacada, e depois salva por Rhodan,
contasse aos seus superiores.
Saberiam em breve.
O intercomunicador zumbiu.
Rhodan atendeu. Era o radioperador.
— Sir, a nave dos druufs chama! Em arcônida!
Rhodan não se surpreendeu.
— Eles aprendem depressa — constatou. — Que
é que querem?
— Agradeceram, Sir — continuou o operador.
Sua voz revelava surpresa e incredulidade. — Agradeceram segundo o figurino, assegurando
o envio de um relatório elogioso aos seus superiores. Seguiu-se uma mensagem mais
longa, num código desconhecido. Provavelmente o relatório anunciado.
— Obrigado — disse Rhodan, desligando. Fitando
Atlan e Bell, perguntou: — Então, que acham disso?
Atlan foi cauteloso na resposta.
— Pode tratar-se de um truque, para conquistar
nossa confiança. Eles pressupõem, naturalmente, que os sigamos. Talvez sejam bastante
espertos para adivinhar nosso jogo...
— Duvido — replicou Rhodan. — Nenhum ser inteligente
pode ser tão desconfiado. Prestamos-lhes um favor...
— E daí? — Atlan continuava cético. — Podiam,
pelo menos, demonstrar certa cautela, e estudar-nos de perto, antes de cair nessa
de que agimos desinteressadamente.
— Quem foi que falou em desinteresse? — perguntou
Rhodan, admirado. — Em minha mensagem aos druufs, acentuo que os inimigos deles
são também nossos inimigos. De onde se conclui, obviamente, que agimos por necessidade,
e não por amizade. Argumento que os convencerá.
— Hum, é possível... — concordou Atlan, o eterno
suspeitoso.
Bell, até então calado, opinou:
— Nessa eles caem!
Rhodan lhe acenou, sem dar resposta. Olhava
pensativo para a tela. A nave voava próximo à Drusus. Apesar de faltar metade da
popa, os estragos não pareciam ser graves.
Mais atrás vinha a possante Kublai Khan, e,
diante dela, a Califórnia. Externamente, não se percebia o menor sinal de atividade;
porém lá dentro os transmissores funcionavam sem parar, transportando armamento
e mercadorias de vital importância para Hades.
— A propósito, que nome daremos a Siamed-16,
a pátria dos druufs? — perguntou Bell, de repente. — Afinal, batizamos Siamed-13,
não foi? Que tal Terra-Dois? Afinal, ali tudo tem o dobro do tamanho habitual em
nosso mundo. O diâmetro, a gravidade, e até os habitantes, os druufs...
— Mas também é só isso que o planeta apresenta
em comum com a nossa Terra. Apesar de o conhecermos só subterraneamente, a superfície
não deve ser mais bela. A breve visita, devida à superposição de área com um transmissor
estranho, me bastou. Se soubesse ao menos quem foi que nos socorreu na ocasião...
Rhodan entregou-se às recordações. Relembrou
em resumo o episódio. Haviam penetrado na cabina energética do transmissor em Hades,
com a intenção de retornar para a Drusus, e haviam ido parar na central de calculação
subterrânea dos druufs, em Siamed-16. Um desconhecido entrara em contato telepático
com eles, orientando-os na fuga. Ninguém sabia de quem se tratava.
Algum prisioneiro dos druufs? Mas quem? Um
telepata?
— Bem, deixem pra lá — falou Bell, emburrado,
vendo sua sugestão rejeitada.
Rhodan despertou como de um sonho.
— Ora, simplifiquemos... Podia chamar-se simplesmente
Druufon.
— Druufon? — repetiu Bell, entusiasmando-se
logo. — Mas claro, sua sugestão é bem melhor do que a minha — confessou generosamente.
— Batizemo-lo de Druufon.
— Nada a opor — comentou Atlan, indiferente
a nomes de batismo. Afinal, nos catálogos a designação oficial continuaria sendo
Siamed-16. — Se lhes parece mais simples...
A estrela dupla se aproximara, permitindo diferenciar
a olho nu os dois sóis. A rubra estrela-mãe era contornada por outra menor, de cor
verde. Em órbitas regulares, 62 planetas se esforçavam para equilibrar a complexa
atração gravitacional. Muitos deles, a rigor a totalidade dos planetas, possuíam
luas, que por sua vez tinham satélites menores. Um sistema gigantesco, até então
oculto por trás da muralha invisível de tempo.
— Mais algumas horas — disse Atlan, aproximando-se
de Rhodan, e fitando a tela — e saberemos se nosso plano deu certo.
— Talvez venhamos a saber antes — disse Bell,
expressando suas esperanças. Semi-estirado em sua confortável poltrona, espreguiçou-se.
— Por mim, eu iria dormir um pouco.
Sob o teto, a bola Harno alterou lentamente
o volume.
Cresceu e flutuou para baixo.
—
Posso mostrar-lhes Druufon, se quiserem.
Rhodan voltou-se bruscamente, com a surpresa
estampada na face.
— Quase esqueci de você, Harno — confessou,
respondendo desta forma à fala telepática do novo aliado. — Pode mostrar-nos o mundo
dos druufs? Claro, eu gostaria bastante de saber como é.
—
Então olhem para mim. Vou mostrar-lhes Druufon...
* * *
Nas cavernas da Cordilheira da Esperança, o
transmissor de matéria parecia transbordar.
Remessas incessantes chegavam das três naves
de Rhodan; a tripulação da base cuidava do descarregamento e arrumação. A chegada
do Tenente Potkin, acompanhado por cem homens e 500 swoons, foi saudada com enorme
alarido.
Claro que a comoção não era causada pelos homens,
e sim pelos swoons. Os diminutos seres, de estatura inferior a meio metro, e parecidos
com pepinos, vinham a ser os mais capazes microtécnicos do Universo. Trabalhavam
para o Império Arcônida, porém Rhodan conseguira conquistar a amizade de grande
número deles, levando-os para a Terra.
O grupo de swoons do Tenente Potkin recebera
o encargo de inventar e construir, com a máxima urgência, um neutralizador das vibrações
inevitavelmente resultantes da operação dos transmissores de matéria. De modo algum
a base de Hades podia ser detectada ou descoberta pelos druufs.
Quase no mesmo momento em que as derradeiras
remessas chegavam a Hades, e os transmissores eram desligados, apagou-se também
a imagem na face do televisor vivo Harno.
Rhodan recostou-se para trás, e esperou que
Harno tornasse a murchar, até ficar do tamanho de uma maçã. Atlan, Sikermann e Bell
voltaram aos respectivos lugares.
— Fantástico! — disse Rhodan, sem esclarecer
se falava da capacidade de Harno, ou das cenas que acabara de ver. — Verdadeiramente
fantástico!
Bell concordou:
— Druufon se parece mais com a Terra do que
eu supunha. Até a vegetação apresenta paralelos. As cidades dos druufs são formações
maciças de metal e concreto. E tão “maciços”
como suas moradias são também os druufs. Preciso reconhecer que ergueram uma impressionante
civilização.
— O que nos seria totalmente indiferente, desde
que nos deixassem em paz! — observou Atlan, amargamente. — E quando imagino que
estamos às voltas com os mesmos druufs outrora implicados na destruição da Atlântida...
justamente porque para eles se passaram apenas alguns meses, enquanto no nosso Universo
a Terra viu passar dez mil anos... Vocês têm razão... é realmente fantástico!
— Mas que são dez mil anos...? — começou Rhodan,
mas foi interrompido pelo zumbido do intercomunicador.
Era o radioperador.
— Ligação dos druufs — anunciou, excitado.
— Captamos uma mensagem dirigida a nós. No entanto, não procede da nave avariada,
e sim do planeta dos druufs.
Rhodan pôs-se de pé num salto.
— Continua ligado?
Na tela via-se agora o sistema Siamed. Num
dos cantos, o sol duplo vermelho-esverdeado exibia seu vivo colorido. Redondo, imenso,
e recebendo em cheio a luz refletida por suas 21 luas, Druufon assemelhava-se a
uma Terra ampliada. Apenas os contornos dos mares e continentes apresentavam traçado
diverso.
O planeta ainda ficava a cinco segundos-luz.
— Ligação mantida — replicou o operador.
— Espere! — gritou Rhodan. — Vou falar com
eles pessoalmente.
O radioperador de plantão se chamava David
Stern.
Apontou para a tela, onde se viam apenas padrões
coloridos em movimentos vagarosos, enrolando-se em esquisitas espirais.
— Lamento, porém não consigo captar imagem
alguma; talvez as freqüências sejam diferentes demais.
— A causa deve ser mais a diferença de tempo
— replicou Rhodan. — O raciocínio lógico conduz qualquer raça inteligente a conclusões
idênticas, e todas usam métodos semelhantes para alcançar objetivos de igual caráter.
Só me admira podermos receber normalmente a língua deles...
David Stern sorriu de leve ao explicar:
— Intercalamos um regulador, Sir. Comprime
para a metade as emissões oriundas de Siamed-16; e, em operações inversas, dobra
a duração de nossas falas para lá.
Rhodan expressou palavras de louvor.
— Vamos lá, então! Estou curioso por saber
o que eles têm a dizer.
Stern regulou o aparelho, e logo os alto-falantes
diziam alta e nitidamente:
— ...repetimos. Aos desconhecidos do outro
Universo. Recebemos sua mensagem, assim como o relatório de nosso comandante que
salvaram da morte certa. Estamos interessados em parlamentar. Apresentem suas condições.
Fim.
Rhodan acenou para Stern.
— Câmbio. Vou tentar. Depois falou ao microfone:
— Aos druufs, é assim que chamamos vocês! Mensagem
recebida. Desejamos permissão para pousar em seu planeta, e garantia de poder decolar
quando quisermos. Gostaríamos de escolta protetora para a aterrissagem. Fim.
A resposta veio em vinte segundos.
— Concedido. Enviaremos uma esquadrilha ao
encontro de vocês. Fim.
Daí por diante, o rádio ficou mudo. David Stern
olhou interrogativamente para Rhodan. Este acenou.
— Continue na escuta, tenente. Porém não creio
que tornem a se manifestar, pelo menos em nosso benefício. Entre si, devem usar
um idioma desconhecido para nós. E ainda não sei como funcionarão nossas máquinas
tradutoras.
Depois retornou à central de comando, onde
informou Sikermann, Atlan e Bell.
A espera durou menos de meia hora. Neste intervalo,
as naves reduziram drasticamente a velocidade, passando a avançar apenas poucos
quilômetros por segundo. A nave druufiniana avariada desaparecera de vista há bastante
tempo, e já devia ter aterrissado.
Por fim, surgiu ao longe a esquadrilha anunciada,
formada por uma centena das unidades cilíndricas. Vinham em formação cerrada, e
envolveram as três naves terranas. Em velocidade uniforme a frota desceu para o
planeta Druufon e preparou-se para a aterrissagem.
Revelava-se agora bastante proveitosa a visão
do planeta que Harno lhes proporcionara. Além disso, as capacidades peculiares do
ser-bola permitiam-lhe agora bisbilhotar pelo interior das naves que os escoltavam.
Constataram que não eram pilotadas, como de costume, por povos subjugados, e muito
menos por robôs, mas exclusivamente por druufs. Prova concludente de que se aproximavam
do centro nervoso principal dos druufs. Ali os escravos não eram admitidos. E, pelo
visto, não confiavam nem nos robôs.
— A maneira deles pensar rege-se pela lógica
— disse Rhodan. Ainda se passariam dez minutos até o pouso. — Perceberam claramente
que além da brecha da zona de descarga uma grande potência os tocaia. E precisam
afastar esta potência caso desejem penetrar em nosso Universo. Nossa oferta chegou
no instante adequado, mais do que bem-vinda.
Atlan continuava cético.
— Não lhe dei aviso algum até agora — falou
com gravidade. — Claro que suas considerações táticas são corretas, e concordo plenamente
com a fingida aliança com os druufs; será uma boa lição para o cérebro-robô de Árcon.
Mas não se esqueça de uma coisa, Rhodan: se o cérebro-robô sofrer uma derrota decisiva
nas mãos dos druufs, também o Império Solar estará perdido. Os druufs se espalharão
por toda a Galáxia, e seremos subjugados.
Impressionado, Rhodan respondeu:
— As coisas não chegarão a tal ponto, Atlan.
No momento propício estaremos prontos para mudar de bandeira. Não que seja uma atitude
muito honrosa, mas é a única solução racional. E então, unidos ao regente derrotado,
bateremos os druufs. Vamos deixá-los tão enfraquecidos que nunca mais se lembrarão
de nos enfrentar.
— De fato, desta forma poderia dar certo —
concordou Atlan. No entanto, ainda não parecia totalmente convencido. — Pode deixar
que me encarrego de lhe refrescar a memória quando o momento chegar, a fim de que
não os deixemos fugir.
Rhodan envolveu-se em silêncio. Observava a
superfície do enorme planeta, que se aproximava lentamente.
Algumas das naves da escolta já aterrissavam.
— Vá buscar os telepatas, Bell. Tenho uma idéia.
Da porta, Bell comentou:
— Sendo telepatas, já poderiam estar aqui.
Se eu pudesse ler pensamentos...
— ...ninguém estaria a salvo de sua xereteação!
— concluiu Rhodan por ele. — Ninguém poderia mais sonhar sem que você se intrometesse!
Que nada, não quero saber de gente curiosa telepateando por aí, e...
As palavras lhe ficaram presas na garganta.
O ar tremeluziu no meio do recinto, e Gucky
materializou-se. O dente roedor exposto traduzia um sorriso.
— Desculpem, mas captei, por puro acaso, o
pensamento...
— Por acaso! — ironizou Bell, lançando olhares
significativos para Rhodan. — Só mesmo rindo! Já vi que por aqui existe gente muito
mais curiosa do que eu. Muito bem, vou buscar Marshall. Ele, pelo menos...
Abriu a porta, e chocou-se com John Marshall,
que se afastou com um sorriso amável, e entrou na central. Bell deu meia-volta.
— Gucky me avisou — disse Marshall.
Bell gemeu.
— Grudados como queijo e marmelada, esses dois!
— queixou-se. — Vê lá se uma pessoa normal pode concorrer com eles! — Voltando-se
para Rhodan, concluiu: — Ordem executada, sem mover um dedo, Sir.
Rhodan ia dizer alguma coisa, mas calou-se
de repente.
Seu cérebro foi invadido por impulsos estranhos,
de tamanha força e intensidade que tudo o mais se apagava. Um olhar aos circunstantes
provou-lhe que todos ouviam igualmente a mensagem.
—
Está me ouvindo, Perry Rhodan? Sou eu, o amigo que te socorreu na semana passada.
Pense em mim, para que eu saiba que está me captando!
Em benefício dos demais presentes, Rhodan respondeu
em voz alta:
— Ouço, amigo. Quem é você, e onde está?
—
Talvez nos encontremos em Druufon. Não é assim que chamam este mundo? Quem sou...?
Nem eu sei, Perry Rhodan. Porém tenho a impressão de que já nos conhecemos há muito
tempo. Aviso-lhe, volte antes que seja tarde demais! Não desça em Druufon!
— Aconselha-me a não pousar em Druufon... e
ao mesmo tempo manifesta esperança de nos encontrarmos lá. Que significa esta contradição?
—
Porque sei que não vai seguir meu conselho!
— Como faço para encontrá-lo?
—
Conta com a colaboração de telepatas capazes, Perry Rhodan. Eles que me detectem,
pois qualquer outra indicação de local deixaria você confuso.
Rhodan ergueu os olhos para o teto, onde flutuava
Harno. O ser-bola não precisou captar mensagem alguma a fim de compreender o que
Rhodan queria. Desceu e aumentou de volume, até transformar sua superfície em tela.
Imagens fugazes correram por ela, acabando
por estabilizar-se. Surgiu um quadro nítido. Evidentemente uma central técnica,
repleta de aparelhagem desconhecida e instrumentos irreconhecíveis.
Diante de um enorme painel de controle via-se
um druuf.
Era dele que partiam as mensagens amistosas
para Rhodan.
—
Claro que sou um druuf! Que mais poderia ser? Sou druuf desde que posso me lembrar.
Podem ver-me?!
Rhodan compreendeu que o momento não se prestava
a mistificações. Estas só serviriam para irritar o prestativo amigo.
— Um de nós é capaz de trazer-nos sua imagem
até aqui, permitindo-nos vê-lo. Por que um druuf nos demonstra amizade?
—
Não sei!
Aquilo já nem era mais estranho; chegava a
ser absurdo!
— Não sabe? — indagou Rhodan, intrigado. —
Mas você deve ter alguma razão para nos oferecer ajuda!
—
É porque preciso, mas não sei por que me vejo obrigado a fazê-lo.
Gucky disse de repente:
— Ele é o físico-chefe dos druufs! Imensas
responsabilidades pesam sobre ele, e a soma de seus conhecimentos é verdadeiramente
espantosa. É o maior gênio vivo dos druufs. Porém ignora de onde nos conhece. É
o mais sábio dos druufs, mas não se conhece a si próprio.
Rhodan fitou severamente o rato-castor.
— E de onde é que você sabe disso?
— Meu amigo Harno me contou, com o pedido de
passar adiante a informação. Assim economiza energia.
— Vocês se comunicam sem que percebamos os
impulsos? — indagou Rhodan, cujo poder telepático era limitado. — Como?
— Geralmente, não-telepatas nem sentem os impulsos
telepáticos; para que percebam alguma coisa, o emitente precisa irradiar ao mesmo
tempo um pouco de sugestão.
Após demorada reflexão, Rhodan exigiu:
— Procurem saber mais sobre o amigo desconhecido.
Onde está ele?
— Na central subterrânea dos druufs. Dá para
reconhecer aproximadamente a direção em que fica... e agora o contato foi interrompido!
Gucky parecia assustado.
Os demais também haviam notado a interrupção.
Os impulsos cessaram bruscamente, e não se
repetiram.
Na superfície de Harno, a imagem desaparecera,
dando lugar a profundo negrume. Encolhendo, ele tornou a alçar-se para o teto, retornando
à habitual imobilidade. No entanto, seu contato com Gucky parecia continuar, pois
o rato-castor disse vagarosamente, como que repetindo o que o ser-bola lhe ditava:
— O ajudante desconhecido é druuf, sem a menor
dúvida. Rebusca a memória, em procura de algo que não consegue encontrar. Fato inexplicável,
por ora. Precisamos aguardar o próximo contato, e até lá não podemos tomar qualquer
iniciativa a respeito.
Gucky calou-se.
Rhodan olhava absorto para a tela panorâmica.
Mostrava agora, claramente, o espaçoporto de
Druufon, rodeado de gigantescas construções. Em torno do campo estacionavam centenas
das esbeltas naves de guerra cilíndricas.
No centro, uma extensa área estava sendo desimpedida.
Rhodan ordenou a Sikermann:
— Determine a aterrissagem da Kublai Khan e
da Califórnia. Pousamos de maneira a flanquear o cruzador, a fim de garantir sua
integridade com nossas armas, em caso de necessidade.
Aguardou que Sikermann desse as instruções
necessárias, e depois disse, dirigindo-se aos demais:
— Mas duvido que seja necessário. Jamais os
druufs precisaram tão desesperadamente de um aliado quanto hoje.
— Esperemos que sim! — Atlan não abdicava de
seu ceticismo.
Depois observaram calados a capital dos druufs,
estendida abaixo deles como um mapa aberto.
Uma cidade na qual a vida decorria em ritmo
duas vezes mais lento do que o da Terra.
4
O enorme espaçoporto parecia abandonado.
Os druufs aguardavam, evidentemente, a reação
dos desconhecidos. Não deram sinal de vida, nem tentaram novo contato radiofônico.
Entretanto, o laboratório físico da Drusus
trabalhava febrilmente, enviando para a central os dados obtidos. Rhodan recebeu
as mensagens, e resumiu:
— A atmosfera é respirável, mais ou menos semelhante
à terrestre. Portanto, podemos desembarcar sem trajes protetores, nem aparelhos
respiratórios. O dia dura exatamente 48,6 horas: o dobro de um dia terrano. Acho
que não precisamos preocupar-nos com o compasso de tempo dos druufs. A diferença
agora é pequena, e mal vão perceber que caminhamos duas vezes mais depressa do que
eles. Nossa estatura é menor, e mais delicada. Além disso, é provável que tenham
consciência da diferença, pois já realizaram freqüentes incursões em nosso Universo.
— Mas como é que vai ser? — perguntou Bell,
impaciente. — Vamos esperar aqui até criar mofo?
— Calma, eles acabarão aparecendo — afirmou
Rhodan, procurando tranqüilizá-lo. — Afinal, são eles que precisam de aliados; pelo
menos, é o que supõem.
— As máquinas tradutoras estão preparadas?
— indagou Atlan. — Não temos a menor idéia...
— Vão funcionar — assegurou Rhodan, confiante.
— Por outro lado, nem sabemos ainda se os druufs falam, o que, no entanto, não implica
na inutilidade das máquinas. Acho que só devemos preocupar-nos com isso no momento
apropriado.
Sikermann, que estivera observando o espaçoporto,
avisou:
— Um druuf vem vindo. Está desacompanhado.
O olhar de Rhodan se voltou para a tela. Pela
segunda vez oferecia-se oportunidade de contemplar de perto um druuf, e na maior
calma.
O ser media no mínimo três metros de altura.
O corpo era quadrangular e pesado. Não havia cabelos, mas reconhecia-se claramente
a cor da pele coureácea; variava entre marrom e negro, talvez devido à estranha
luz crepuscular da tarde. O corpo maciço repousava sobre duas informes pernas em
formato de coluna. A cabeça redonda media meio metro de lado a lado. O mais surpreendente
eram os quatro olhos. Dois ficavam sob a testa, e dois na região correspondente
às têmporas dos humanos. Arranjo que ampliava grandemente seu campo de visão, apesar
de não lhes permitir olhar diretamente para trás.
Não possuíam orelhas nem nariz, mas havia boca,
em formato de triângulo eqüilátero. Da extremidade dos braços roliços pendiam dedos
delicados, estranhamente desproporcionais à massa corporal.
A passos lentos e comedidos, o druuf se aproximou
das três naves. Não trazia arma nem instrumento de espécie alguma.
— Um parlamentar — supôs Rhodan. — Vamos dar
a entender que o vimos. Bell, vá à escotilha de desembarque B-4 e desça a escada.
— Mas é uma escotilha de carga...
— E acha que aquele “monstro” passa pelas escadas previstas para gente?
— Será que vai entrar de livre e espontânea
vontade na nave...?
— Claro, basta convidá-lo!
Bell pôs-se a caminho, visivelmente desalentado.
Rhodan determinou as providências necessárias, e mandou cessar nas outras naves
qualquer movimento que pudesse despertar as suspeitas dos druufs.
Dez minutos depois o monstruoso ser pisava
na central de comando da Drusus, escoltado por Bell.
Não se poderia classificar de exíguas as portas,
passagens e dependências da nave bélica, mas mesmo assim o druuf era obrigado a
andar curvado, a fim de não bater com a cabeça no teto. Rhodan ofereceu-lhe um sofá.
O emissário tomou lugar com extremo cuidado, preocupado em não causar dano algum.
Teve lugar suficiente para sentar.
Bell constatou, visivelmente contrafeito:
— Ele me entendeu logo, mas não pronunciou
palavra. Bem que gostaria de saber para que lhe serve essa boca triangular.
— Para ingerir alimento, certamente — replicou
Rhodan. — Eles se comunicam por meio de freqüência ultra-elevada, gerada por transmissores
embutidos no próprio corpo, conforme Harno acaba de me explicar. Possuem igualmente
um receptor, de sintonia adequada. Eles vêm a ser, portanto, uma espécie de estação
radiofônica orgânica, porém seu alcance é reduzido. Não são telepatas, pois não
captam pensamentos, pelo menos, até o presente não tivemos prova disso.
— Entendem o que falamos? — perguntou Bell,
preocupado.
— Só através de nossas máquinas tradutoras,
às quais temos que acrescentar ainda um acessório. Já vamos ver se funciona.
Atlan ligou a máquina, de utilidade já comprovada
em outros pontos do Universo, e aguardou que se acendesse a luz indicadora. Quando
a viu pronta para funcionar, acenou para Rhodan.
A tensão chegara ao auge, quando Rhodan disse:
— Bem-vindo à nossa nave, druuf. É com satisfação
que o recebemos. Pode ouvir e compreender-nos?
A boca triangular não se moveu quando o alto-falante
emitiu clara e nitidamente a resposta. Artificialmente produzida pela máquina, a
voz tinha tom metálico.
— Aceitamos o nome de druufs que nos deram.
Como se chamam vocês?
— Pode chamar-nos de terranos, druuf. Após
curta pausa, o visitante foi direto ao assunto:
— Dois Universos diversos se tocam, ocorrência
rara. O choque de duas raças estranhas só pode resultar em luta. Defrontamo-nos
com duas raças de temperamento bastante aguerrido. Uma avança presentemente para
nosso Universo, e precisa ser derrotada, caso quisermos sobreviver. Possuem naves
tripuladas por robôs.
— E a outra? — perguntou Rhodan, ansioso, vendo
o druuf calar.
— Faz pouco tempo que encontramos a outra.
Penetrou em nosso Universo valendo-se de recursos técnicos. Raptaram prisioneiros
e escravos...
— Prisioneiros? — Rhodan fingiu espanto. —
Como é que vocês tinham prisioneiros, se esta raça foi a primeira a tomar contato
com vocês?
Houve uma pausa, durante a qual o druuf parecia
refletir. Depois disse:
— Nossos cientistas chegaram à conclusão de
que seres orgânicos de outra dimensão temporal podem se adaptar à nossa. Não sou
cientista, e não posso explicar o processo.
— Quem é você? — perguntou Rhodan, incisivamente.
— Eu sou... — do alto-falante saiu um ruído
indefinido, meio arrastado — ...e, portanto, político.
Rhodan inclinou-se para a frente, e mexeu na
máquina de traduzir. Por experiência anterior, sabia que existiam conceitos intraduzíveis.
O serviço de colonização elaborara uma tabela comparativa para eles. O enquadramento
se efetuava automaticamente.
— Repita a frase, por favor.
O druuf entendia depressa. Compreendeu logo
o que Rhodan queria; ou, pelo menos, adivinhou o objetivo do pedido feito.
— Eu sou Tommy, e, portanto, político.
Rhodan recostou-se na poltrona, examinando
o druuf com maior atenção.
Segundo a tabela, “Tommy” significava alto dignitário e dirigente. Portanto, pertencia
à classe governante.
— Vou chamá-lo de Tommy-1. Eu sou Rhodan.
O druuf mal tomou conhecimento disso, e falou:
— Vocês nos oferecem ajuda? O comandante de
nossa nave informou que destruíram oito naves inimigas. Por que fizeram isso?
— A fim de ajudar vocês, e prejudicar nossos
inimigos. Estamos em guerra com eles há decênios.
— Quer dizer que também precisam de aliados?
— Tanto quanto vocês! Novamente o druuf tirou
tempo para pensar.
Rhodan aproveitou a pausa para enviar uma mensagem
mental a Harno:
— Pode ler os pensamentos do druuf?
A resposta veio imediata e perceptível:
—
Sim, posso. Os pensamentos dele conferem com o que diz. É isso que queria saber?
Rhodan podia ter consultado igualmente Gucky
ou John Marshall, seus dois telepatas, porém isso lhe custaria esforço maior. E
não queria desviar desnecessariamente a atenção do druuf.
Acenou em direção ao teto, onde Harno conservava
discretamente sua posição.
Finalmente o druuf Tommy-1 disse:
— O Conselho dos Sessenta e Seis resolveu falar
francamente com você. Tencionamos adaptar o outro Universo ao nosso. Nenhuma das
partes sofrerá dano físico com o processo, e o resultado é indiferente. Sem pontos
de referência, tanto faz o tempo passar depressa ou devagar.
— Sem dúvida — concordou Rhodan, com aparente
displicência. — Mas então por que desejam esta unificação?
O druuf refletiu novamente. As pausas eram
longas. Não que o “monstro” necessitasse
de prazo mais dilatado para pensar; apenas, o tempo passava mais devagar para ele.
— Queremos conquistar o reino dos nossos agressores
— explicou, por fim. — São seus inimigos, também. Você quer ajudar-nos a destruí-los.
Logo, fazemos um favor a vocês.
— Realmente — disse Rhodan pensativo. — E depois,
o que aconteceria?
— Que quer dizer?
— Muito simples: depois de derrotar em conjunto
o inimigo, vocês prosseguiriam a guerra? Contra nós? Expressei-me com suficiente
clareza?
— Não, não faremos tal coisa! — afirmou o druuf,
convicto.
—
Desta vez, ele mente! — avisou
Harno.
Rhodan já sabia. Eles pretendiam conquistar
o reino arcônida, e depois subjugar todas as raças inteligentes da Galáxia. E alcançariam
seu objetivo, caso não fossem tomadas a tempo medidas para deter o avanço.
Evidentemente, Rhodan não viera para Druufon
com o objetivo de oferecer aliança aos druufs, e muito menos para lutar ao lado
deles.
A finalidade era, em primeiro lugar, pousar
livre e desembaraçadamente no planeta a fim de localizar o amigo desconhecido. E
se pudesse abalar internamente o reino dos druufs, muitos sacrifícios seriam poupados.
— Talvez eu esteja disposto a lutar contra
os arcônidas ao lado de vocês — replicou Rhodan. — Porém antes de firmar o acordo,
gostaríamos de conhecer melhor sua raça. Espero que compreendam isso.
— Nós compreendemos. Sentimos igual necessidade.
Vocês nos falarão de seu planeta, a fim de esclarecer-nos. De acordo?
— Falaremos, sim; em troca, queremos inteira
liberdade de movimentos. Aceitam nossa sugestão?
O druuf levantou-se com cuidado; ficou de pé,
curvado.
— Vou conferenciar com os outros Tommys a respeito.
Até lá, preciso exigir que não deixem suas naves. Volto quando a decisão for tomada.
Rhodan fez sinal para Bell, e manteve silêncio
até ambos se retirarem da central. Depois perguntou:
— Que pensava ele, Harno? Fale através de Gucky,
para que todos possam ouvir a resposta em linguagem falada.
Gucky concentrou-se por um momento, e disse:
— Eles nem pensam em nos conceder a liberdade
de movimentos exigida, mas ainda não sabem como nos convencer a lutar ao lado deles
contra Árcon. Por isso pediram tempo para pensar.
— Foi o que imaginei! — disse Rhodan. — Neste
caso, é melhor aproveitar bem o tempo que nos resta. Aqui no espaçoporto estaremos
seguros. Seremos apenas vigiados. Só que eles não sabem que temos Gucky!
— E Harno!
Ao erguer os olhos para o teto, Rhodan já sorria
novamente.
— Mas claro! E Harno!
* * *
Nas três horas seguintes não houve sinal do
retorno de Tommy-1 com o resultado da decisão dos Sessenta e Seis. Rhodan decidiu-se,
então, pela ação.
Gucky ocultou seu dente roedor, traduzindo
simbolicamente sua opinião de que a situação se tornava séria. Pelo menos para ele.
Ninguém seria capaz de adivinhar que atitude Harno tomaria em caso de perigo.
Porém Gucky precisava de Harno, sem o qual
nunca conseguiria localizar o alvo proposto — faltariam os impulsos mentais orientadores.
O rato-castor estendeu a pata direita. Vagarosamente
Harno desceu do teto, pousando na palma aberta. Os dedos de Gucky se cerraram em
torno da bola do tamanho de uma noz.
Rhodan desejou-lhes boa sorte.
— Não se esqueçam de nos dar notícias de vez
em quando. Marshall e Lloyd, postados em locais diversos da nave, vão tentar estabelecer
o paradeiro de vocês. Tentem encontrar nosso amigo!
Só por um segundo viu-se brilhar o dente de
Gucky, depois ele se desmaterializou. Junto com ele sumiu Harno.
Gucky não saltou ao acaso.
Adivinhou que na superfície da cidade veria
apenas a paisagem permitida a estranhos. As instalações importantes dos druufs,
assim como seus segredos, se encontravam escondidos sob o solo. Da mesma forma,
o amigo desconhecido que precisava encontrar. Teleportou-se para o centro da cidade,
e foi dar numa praça retangular, contornada por prédios maciços.
O movimento era escasso.
Lentos e pesados, alguns druufs percorriam
as ruas quase desertas; nem prestaram atenção no diminuto rato-castor, que apressadamente
meteu-se num recanto sombreado.
Não se via veículo de espécie alguma. As paredes
a pique abaulavam-se para fora à medida que subiam. Lá no alto havia outra via de
trânsito.
“Reservada
aos automóveis, provavelmente”, pensou Gucky. “Esta aqui embaixo é só para pedestres.”
Seu diálogo com Harno baseava-se exclusivamente
na telepatia, porém era como se conversassem de viva voz.
— Bela cidade, Harno. Estou curioso por saber
onde fica o próximo bar.
Harno transmitiu uma risada a Gucky.
—
Temos outras preocupações, amiguinho. Lá vem um druuf!
Gucky olhou na direção indicada e sobressaltou-se.
A menos de vinte metros de distância, um gigantesco druuf se aproximava a passadas
largas e majestosas... e vinha direto para onde estavam.
— Damos o fora caso a coisa aperte, Harno.
Mas gostaria de ver que impressão lhe causo. Isso facilitará nossa tarefa.
— Para mim é indiferente — replicou Harno.
— Posso pôr-me a salvo a qualquer instante.
— Eu também — disse Gucky, preparando-se para
uma fuga imediata. Tinha plena certeza de poder escapulir sem maiores esforços a
um druuf correndo atrás dele; se é que aqueles colossos eram capazes de correr.
O druuf aproximou-se e estacou ao dar com Gucky.
Seus quatro olhos detiveram-se no estranho ser tão inocentemente recostado contra
a parede, observando-o.
Jamais vira um animal daquela espécie!
Seria mesmo um animal?
Os druufs tinham subjugado uma série de outros
povos. Havia no reino uma infinita variedade de seres, e ninguém poderia conhecer
todos eles. O extraordinário era dar com um representante da classe escrava circulando
livremente na capital.
— Cuidado!
— sinalizou Harno. — Ele pretende pegá-lo!
Gucky reagiu de acordo com a situação.
Preferiria, naturalmente, apelar para suas
faculdades telecinéticas, e fazer o druuf voar pelo ar, mas aquilo chamaria demais
a atenção. O mais conveniente era desaparecer. O druuf se julgaria vítima de uma
ilusão de ótica, e esqueceria o incidente.
Concentrou-se, e teleportou para o outro lado
da rua.
Durante dez segundos, o druuf ficou com os
olhos cravados no lugar onde acabara de ver o estranho ser; depois seu cérebro se
dispôs a analisar o caso. De maneira estritamente lógica, claro!
Sim, devia ter sido uma ilusão... não havia
outra explicação. Pessoa alguma seria capaz de dissolver-se no ar.
Sacudindo a cabeçorra, prosseguiu seu caminho.
De onde estava, Gucky via tudo claramente.
— Não passam de seres semi-inteligentes — observou
baixinho, mas Harno compreendeu assim mesmo. — Se fossem mais espertos...
— Jamais
se deve subestimar o adversário — acautelou Harno. — Captou o pensamento dele?
— Não! Em que pensava?
—
Pensava nas três naves estranhas pousadas no espaçoporto. Por uma fração de segundo,
julgou que você podia ter vindo de uma delas. Como vê, precisamos ser cautelosos.
Já escurecia, porém nenhuma luz foi acesa.
Tudo parecia indicar que os druufs se recolhiam muito cedo.
— E nosso amigo? — perguntou Gucky. — Pode
vê-lo?
— Este
local é inseguro demais, Gucky. Temos que achar algum canto onde não corramos risco
de sermos descobertos.
— Que tal as instalações subterrâneas? — sugeriu
Gucky, fitando o chão.
Harno não deu resposta. Cresceu de repente,
pairando sobre o revestimento de pedra lisa da rua, à altura de Gucky. A superfície
negra se tornou leitosa. Transformara-se novamente em tela de televisão.
—
Não percebo nenhum impulso do desconhecido.
Gucky também não percebia. Ainda recostado
na parede, fitou a bola em silêncio.
À sua frente estendia-se a amplidão da praça
deserta. Não se via mais um único druuf. Lá fora, na planície, o sol devia estar
se aproximando da linha do horizonte.
Harno mostrava laboratórios imaculadamente
limpos, e imensas instalações técnicas, tudo efusivamente iluminado. Os corredores
e ruas cobertos com tetos abobadados eram infindáveis. Luz em toda a parte, lançando
sombras negras. Enquanto os druufs da superfície se entregavam ao sono, a atividade
começava debaixo da terra.
Ou talvez druuf algum se mantivesse na superfície
durante a noite...
Bruscamente a tela de Harno escureceu. Gucky
estremeceu.
O impulso foi fugaz, porém muito nítido:
— Abandonem
Druufon ou estarão perdidos! Os druufs pretendem atraiçoá-los! Farei novo contato,
se puder...
Antes que Gucky pudesse esboçar qualquer tentativa
de contato, Harno disse:
—
Localizei-o, e sei onde encontrá-lo. Vou mostrar a direção...
Em dez segundos Gucky teleportou-se. Harno
se reduzira novamente ao tamanho primitivo, e foi assim que rematerializou.
* * *
A luz poente do sol gêmeo coloria pitorescamente
a pista espelhada do espaçoporto e os edifícios vizinhos, muitos deles em forma
de colméia ou cúpula. Torres espiraladas lançavam sombras estranhas sobre as três
naves terranas, como se pretendessem agredi-las. De traçado amplo, vias curvas de
trânsito cruzavam a cidade, interligando os subúrbios.
A Drusus constituía ótimo posto de observação,
visto que as câmaras fotográficas ficavam a quilômetro e meio do solo. Nada ali
sobrepujava a Drusus em altura.
Marshall concentrou-se, tentando entrar em
contato com Gucky. Sacudiu a cabeça.
— Ainda há pouco eles se achavam na superfície,
e encontraram um druuf. Depois Gucky saltou, rematerializando-se poucos metros adiante.
Houve ainda um terceiro salto, mas desde então não há pista.
— Mas é impossível! — objetou Rhodan. — Gucky
tem que estar pensando! Todo ser vivo pensa ininterruptamente! Os impulsos deviam
chegar até aqui, e atingir seu cérebro.
— No entanto, ele não registra nada — desculpou-se
Marshall. — Não sei como explicar, mas Gucky emudeceu.
— Mesmo supondo que Gucky esteja morto, ao
menos Harno nos daria algum sinal.
— Harno é capaz de pensar sem que seu corpo
transmita impulsos — lembrou Marshall. — Porém não deixaria de manifestar-se, caso
houvesse razão para preocupações. Portanto, só pode tratar-se de uma espécie de
barreira, impermeável a impulsos telepáticos.
— Sim, uma barreira — concordou Rhodan. — Bem
possível... Resta saber se foi erigida artificialmente, ou se é de origem natural.
Se pelo menos o amigo desconhecido desse sinal! Talvez pudesse nos dar a resposta
do enigma.
Sikermann entrou na central. Repousara durante
algumas horas, e retornava a seu posto. Ocupando seu assento, perguntou:
— Nunca sente necessidade de dormir, Sir?
Rhodan ignorou a pergunta.
— Gucky não responde mais. Encontra-se em missão
na cidade.
Sikermann mostrou-se preocupado. Estava a par
do caso, naturalmente, porém julgava que o rato-castor já estivesse de volta.
— Podem tê-lo agarrado.
— Agarrar um teleportador, Sikermann? Mais
do que improvável...
Bell observou:
— Não devíamos subestimar os druufs, Perry.
Sabe lá que espécie de artifícios têm à mão. Afinal, já lutavam com os arcônidas
há dez mil anos.
— Dois meses, segundo a contagem de tempo deles!
Não podem ter aprendido tanto assim neste curto prazo!
— Mas antes disso já sabiam um bocado de coisas!
— Bell silenciou por um instante, depois exclamou, com determinação: — Gostaria
de ir à cidade, para verificar o que aconteceu!
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Vá esquecendo essa idéia, velho!
— Mas se Gucky...
— Mesmo se Gucky...! De modo algum os druufs
podem vir a saber que possuímos mutantes. Gucky saberá se safar sozinho, caso se
tenha metido num aperto. Tudo que podemos fazer é esperar!
Voltando-se para Marshall, continuou: — Fique
atento para qualquer impulso telepático! Eles vão ter que se manifestar, mais cedo
ou mais tarde. Ou pelo menos nosso amigo desconhecido, o misterioso druuf.
* * *
De início, Gucky julgou ter errado o pulo.
Materializou-se num imenso recinto, com Harno
firmemente seguro na mão. Além do teto abobadado, só se via uma perturbadora quantidade
de máquinas e aparelhagem técnica. Pesados blocos de metal e geradores sussurrantes
encobriam as paredes, além de bancadas de trabalho e painéis de controle. Estreitas
passagens entremeavam aquela confusão.
No ar pairava estranha vibração.
Depois Gucky avistou o druuf.
De pé diante de um imenso painel de instrumentos,
o colosso contemplava “cantarolando” a
dança dos ponteiros nas escalas. Mais além, uma série de telas brilhava opacamente.
Luzes de cores diversas acendiam e apagavam em rápida sucessão.
“É ele!”,
pensou Gucky, e soltou Harno.
A bola flutuou vagarosamente para o teto. Postou-se
junto a um reluzente conduto que ia do painel de controle para o fundo da sala.
— Estou
captando os impulsos dele — avisou Harno. — Nada indica que é nosso amigo.
Gucky foi obrigado a dar-lhe razão.
O druuf junto ao painel ocupava-se com um problema
científico totalmente incompreensível para Gucky. Algo relacionado com tempo. Aquele
druuf vinha a ser um pesquisador, e procurava entender a natureza do tempo.
Gucky vira o amigo desconhecido uma única vez.
Mas quem seria capaz de diferenciar um daqueles seres de outro? Talvez se tratasse
dele, talvez não...
No entanto, o laboratório lhe pareceu familiar.
Mas não poderia haver centenas do mesmo tipo?
Tomando coragem, acercou-se do druuf pelas
costas.
Como se faria entender? Ele próprio captava
e compreendia os pensamentos do “monstro”,
porém estes não eram telepatas. A conversa — se é que ia haver conversa — acabaria
sendo unilateral.
De que jeito podia fazer-se ouvir por um druuf
desprovido de orelhas?
Gucky pigarreou e disse:
— Olá, encouraçado! A gente não se conhece?
O druuf não reagiu. Continuou a manipular seus
instrumentos, e a examinar atentamente as escalas. Pouco depois, porém, virando
um pouco a cabeça, deu com o visitante. Com inesperada agilidade, surpreendente
naquele corpanzil, virou-se para o rato-castor de olhos arregalados.
— Por
todos os Sessenta e Seis! — disse clara e nitidamente um impulso mental a Gucky.
— Mas o que vem a ser isso?
Gucky respondeu, concentrando-se ao máximo:
— Somos aqueles a quem deu aviso! Entende-me?
A resposta provou conclusivamente que não havia
a menor identidade com o ajudante desconhecido — este, pelo menos, era bom telepata.
— ...nunca vi coisa igual! Será que tem relação
com minhas experiências, ou trata-se de um acaso?
Gucky certificou-se de que aquele druuf não
era telepata.
Bamboleou para trás alguns passos, e preparou-se
para sumir num salto teleportado.
— Desça daí, Harno! Nós nos enganamos!
— Impossível!
Detectei os impulsos mentais de nosso amigo lá da superfície. Só pode se tratar
deste aqui!
Gucky ficou desorientado. Aproveitou o intervalo
para enviar notícias a Marshall na Drusus. Não recebendo resposta, ficou perplexo.
Mas Marshall devia ter escutado! Por que se mantinha tão passivo?
— Venha, Harno!
—
Espere um pouco!
O druuf pensava sem parar, mas não fazia sentido
para Gucky. Não havia a menor relação com o que pensara o desconhecido ajudante.
Apesar de possuírem corpos semelhantes, os dois não eram idênticos.
Mas depois a face do “monstro” começou a repuxar-se, como se sentisse dor. Os “delicados” dedos se contraíram nervosamente,
fechando e abrindo de novo. Voltou-se lentamente. Erguendo com dificuldade os possantes
braços, apertou uma chave para baixo.
Tudo se passava em ritmo de câmara lenta, como
se o druuf agisse em sonhos, ou fosse forçado a agir contra sua vontade. Resistia,
mas acabou sendo dominado pela ordem de seu inconsciente.
O sussurro das máquinas cessou abruptamente.
Ao mesmo tempo, Gucky captou as palavras de
alívio de Marshall:
— Aí
está você, Gucky! Que foi que aconteceu? Não conseguíamos detectar nem ouvi-lo!
— Não perturbe agora! — replicou o rato-castor,
apressadamente. — Tudo em ordem!
Os impulsos de Marshall cessaram imediatamente.
Tinha compreendido.
Mas também Gucky compreendera.
O desligamento das máquinas restabelecera o
contato com a Drusus, permitindo a passagem das mensagens telepáticas. Mas como
estas não haviam sofrido interrupção entre Harno e ele próprio, podia-se deduzir
que o recinto subterrâneo era isolado do mundo exterior por uma espécie de campo
energético. Nenhum impulso telepático passava através dele.
Mas ainda não era tudo.
Um nítido impulso mental penetrou no cérebro
de Gucky e não procedia de Harno, que permanecia ainda imóvel sob o teto.
—
Vocês me acharam! Empreitada arrojada! Não sei como conseguiram, mas vocês correm
sério perigo! Não posso ajudá-los no presente momento! Este druuf aqui não tardará
a me “enxotar” de novo...
Gucky fitou o druuf, que parecia estar petrificado
no meio do movimento. Estava rígido, com uma das mãos ainda pousada sobre a chave
que acabara de mover.
— Você não é o druuf? Quem é então?
Sem que o monstro executasse o menor movimento,
partiu dele o pensamento:
—
Sou e não sou! Estou no corpo dele, e ele ignora. No entanto, a mente dele continua
sendo mais forte quando tento agir contra sua vontade.
— Quem é você? — repetiu Gucky, insistindo
na pergunta não respondida anteriormente. — Por que quer ajudar-nos?
Desta vez, o druuf levou alguns segundos para
responder:
—
Não sei quem sou. Só sei que vivo neste corpo. Sem ele, eu seria um espírito simplesmente,
uma sombra, um fantasma. Tem sido assim desde tempos imemoriais!
— E... antes disso?

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