— Não
sei se houve um antes — dizia a resposta. — Sempre vivi em corpos estranhos. Inteligências sempre diversas, quando eu
tinha sorte. Às vezes meu espírito residia no cérebro de seres menos inteligentes,
que eu aprendia a dominar logo. Porém não era interessante.
— Mas você tem que saber por que nos oferece
apoio contra os druufs!
—
Não, não sei! Mas conheço Perry Rhodan!
Era o primeiro indício direto!
— De onde, e há quanto tempo o conhece?
Nova hesitação. A resposta veio muito lentamente:
—
Não sei... ah, se eu soubesse!
Gucky sentiu os impulsos enfraquecerem, sobrepujados
por outros mais fortes, que só podiam partir do druuf autêntico.
— Não poderia apossar-se de outro corpo?
A resposta ficou sem relação com a pergunta.
—
Vocês precisam desaparecer! Não consigo dominar o druuf por mais tempo. Aguardem
novo comunicado. Ponham-se a salvo! Este druuf aqui é o físico-chefe deles, posição
que conquistou graças a meus conhecimentos. Se eu o abandonar, ele fica tão ignorante
como no dia de seu nascimento; ou então morre. Passem bem...
Imediatamente o druuf recomeçou a se mover.
O tempo não devia ter passado para ele, pois retomou o fio dos pensamentos no ponto
antes interrompido pelo amigo desconhecido.
— ...é, só pode ser acaso! Mesmo que eu crie
artificialmente planos de tempo, e os sobreponha depois, nenhum ser poderia materializar-se
aqui, vindo do passado ou do futuro. Vou agarrá-lo...
Harno desceu apressadamente do teto, e aconchegou-se
entre os “dedinhos” de Gucky, que se aprontou
para a fuga.
Antes que o druuf chegasse perto, o rato-castor
desmaterializou-se com Harno.
Para trás ficou apenas um druuf desconcertado,
de olhos presos num recanto do teto onde nada mais havia para ver.
5
— A maior parte de seus nomes e ocupações são
impronunciáveis — continuou a expor John Marshall.
Passara a noite toda sondando as mentes dos
druufs que circulavam pela cidade. Sem saber quem eram, nem onde se encontravam,
colhia seus impulsos mentais, que enfeixava como as peças de um quebra-cabeça. Obteve
assim uma série de informações bastante úteis, que permitiam traçar um panorama
geral.
— Temos uma tabela comparativa com nomes genéricos
para isso; já me apareceu um “Tommy”.
“Oscar” significa oficial ou cientista;
e o druuf comum é classificado como “Mike”.
Com estes três grupos esgota-se a estrutura social da civilização deles.
Rhodan escutava atentamente. A luz do dia banhava
novamente o espaçoporto e a cidade. A noite decorrera tranqüila e sem acidentes.
De volta, Gucky e Harno relataram suas experiências.
Não esclareceram o mistério que envolvia o desconhecido, mas levaram Rhodan a profundas
cogitações quando se retirou mais tarde para sua cabina. A barreira mental erigida
em torno de seu cérebro não pôde ser atravessada nem pelo bisbilhoteiro Gucky.
— Os druufs conquistaram todos os mundos deste
Universo, e são senhores absolutos em sua dimensão temporal. Portanto, não é de
admirar que seus Tommys tenham decidido subjugar também nossa Galáxia. Suas armas
são de natureza essencialmente destrutiva, mas até onde pude constatar, os arcônidas
e nós possuímos armamento melhor, se bem que em quantidade insuficiente.
Rhodan acenou.
— Tem certeza disso, Marshall?
— Sim! Sondei um alto oficial, preocupado com
a ofensiva iminente contra Árcon. Pertence ao Conselho dos Sessenta e Seis, portanto
deve estar bem informado. Tencionam aliar-se a nós, caso possamos comprovar a posse
de uma frota poderosa. Em caso contrário, seremos aprisionados para que possam apoderar-se
de nossas três naves.
“Enquanto refletia sobre a luta por vir, o
oficial passava em revista, mentalmente, as armas disponíveis. Eles não possuem
nem a bomba gravitacional, nem a bomba arcônida. Seus canhões energéticos são mais
fracos do que os nossos. Se os atacássemos com toda a nossa frota reunida, talvez
fosse possível...”
Marshall estacou de repente, fitando Rhodan.
— E então...?
— Talvez eu tenha me mostrado excessivamente
confiante, Sir, pois por outro lado há aspectos que recomendam cautela. Os druufs
têm armas que desconhecemos. O oficial pensou nelas apenas superficialmente, e não
deu para saber maiores detalhes. Seja como for, eles são capazes de transferir um
planeta inteiro para uma dimensão temporal onde o tempo fica parado. Qualquer tentativa
de reação por parte dos habitantes deste planeta seria inócua. Passar-se-iam milhares
de anos antes que conseguissem disparar um canhão.
Rhodan escutava atentamente.
— Mas isso seria espantoso, Marshall! Mal posso
crer que disponham de tais recursos. Fazer uso do tempo...
— Não pude determinar claramente se a arma
era experimental, ou se já existe efetivamente. De qualquer forma, a hipótese é
alucinante.
— Nosso amigo, o ajudante desconhecido, hospeda-se
na pele de um pesquisador do tempo — lembrou Gucky, que repousava sobre um leito
na central, ainda meio zonzo.
Rhodan olhou para cima.
— Existe alguma relação, Harno?
— O amigo e Oscar-1 são uma mesma pessoa.
— Idéia maluca — comentou Bell, que dormira
um bom sono depois do regresso de Gucky, e parecia bem disposto. — Primeiro o cara
nos ajuda, e depois inventa uma arma que pode acabar conosco a qualquer momento.
Isso cheira a esquizofrenia no mais alto grau!
— Será? — indagou Rhodan, ceticamente. — Harno,
que faz nosso amigo no momento?
Porém a resposta, dada por Gucky, foi decepcionante:
— Provavelmente tornou a ligar seu campo de
tempo artificial, a fim de prosseguir em suas experiências, pois pensamento algum
chega até aqui. Harno também não consegue trazer a imagem dele.
Rhodan aprontou-se para dizer qualquer coisa,
mas Sikermann, de volta a seu posto, avisou:
— O druuf está voltando, Sir!
A tela mostrava nitidamente a cena: o mesmo
druuf do dia anterior vinha na direção das naves, a passos lentos e ritmados. Mas
também podia tratar-se de outro, pois era impossível diferenciar aqueles “monstros”. Só a máquina tradutora lhes daria
a certeza.
Mais uma vez Bell foi destacado para receber
o emissário, e conduzi-lo à central. O tradutor estava ligado. A conferência podia
ter início imediato.
— Alegramo-nos com sua volta, Tommy-1 — começou
Rhodan, abrindo a palestra cujo conteúdo todos já adivinhavam. — Que resolveu o
Conselho dos Sessenta e Seis?
O druuf acomodou-se no amplo sofá. Seus quatro
olhos examinavam, atentos, os presentes, e depois correram perscrutadoramente a
multiplicidade de controles da central. Olhou por muito tempo para a tela panorâmica,
onde se viam os arredores do espaçoporto. Depois falou:
— Resolvemos aceitar sua oferta. Unidos, infligiremos
uma derrota arrasadora ao inimigo. Quando a guerra acabar, faremos novo acordo,
apropriado às circunstâncias. Até lá, faremos troca de experiências. Se estiverem
dispostos a aceitar, o comandante de vocês pode ir comigo até o Conselho dos Sessenta
e Seis, a fim de assinar o tratado.
— Não basta enviar um representante? — perguntou
Rhodan.
— Não, só o próprio comandante pode cuidar
das negociações. Portanto, é o senhor que deve ir!
Aquilo podia ser um truque, uma cilada! Uma
vez de posse da figura principal, eles poderiam estabelecer as condições que bem
entendessem. E contavam certamente com meios para transformar qualquer acordo em
ligação indissolúvel para o parceiro. A natureza destes meios permanecia secreta,
por enquanto.
Harno transmitiu o mudo aviso:
—
Você vai ser aprisionado, Rhodan! E eles nomearão novo comandante, submisso às ordens
deles. Chantagem...
Rhodan ergueu-se.
— Muito bem — disse ao druuf. — Não percamos
mais tempo; vou comparecer logo diante do Conselho. Estou pronto a cumprir as condições
apresentadas. Necessitamos de um aliado poderoso, caso contrário não conseguiremos
derrotar o inimigo.
O druuf levantou-se com cuidado.
— Vamos, então.
—
Vai mesmo com ele? — perguntou
Harno, mudamente.
Rhodan desligou a máquina tradutora, e colocou
debaixo do braço o pequeno aparelho de metal prateado.
— Claro que vou com ele, Harno. Gucky, não
me perca de vista um só segundo! E vá buscar-me assim que eu der ordem. Entendeu?
— Vou pular nas panças desses monstrengos de
couro até que sua última refeição...
— Marshall permanecerá em vigília com você
— interrompeu Rhodan, seguindo o druuf que já ia saindo. — Bell! Substitua-me no
comando das três naves enquanto eu estiver ausente.
Todos os olhares o seguiram quando desapareceu
na curva do corredor em companhia do druuf.
* * *
Não que Rhodan esperasse algum proveito da
entrevista com o Conselho, mas concordara em acompanhar o druuf unicamente com a
intenção de tentar novo contato com seu estranho amigo. Além disso, estava curioso
por ver a reação dos governantes druufs diante de suas propostas.
Quando deixaram o espaçoporto e desceram os
largos degraus para a rua de contorno, Rhodan ressentiu-se com a gravidade quase
dobrada do planeta. Suportara-a melhor nos minutos iniciais. Uma onda de aborrecimento
o invadiu por ter esquecido de vestir seu traje especial, que permitiria neutralizar
a diferença.
Numa via próxima do espaçoporto, um veículo
os aguardava. Tinha forma de torpedo, e uma única porta. O druuf apertou um botão
oculto, e ela abriu, revelando um amplo assento, suficiente para acomodar lado a
lado pelo menos três druufs.
Sentiu-se infinitamente pequeno e desamparado
ao escorregar para o banco, que mal e mal cedeu ao peso de seu corpo. O estofamento
estava habituado a suportar cargas bem maiores.
O druuf embarcou e fechou a porta. Nova pressão
num botão do painel, e o veículo se pôs em movimento. Era teleguiado, controlado
certamente por alguma central técnica no coração da cidade.
Tudo correspondia à descrição feita por Gucky.
As ruas vazias, sem movimento. Muito raramente Rhodan avistava algum druuf, avançando
a passos lerdos e pesados ao lado das paredes a pique, buscando algum rumo ignorado.
O carro disparou em velocidade relativamente elevada pelas ruas desertas; depois
subiu por um plano inclinado.
Do alto, Rhodan contemplou o imenso complexo
formado pelo espaçoporto. Centenas de naves estacionavam na orla, prontas para decolar.
Pequenos tratores transportavam armas, munições e equipamento. Em algum ponto, à
luz crepuscular do sol gêmeo, marchava uma coluna de druufs. Os movimentos lerdos
e arrastados causavam impressão irreal e fantástica, como que projetados em câmara
lenta.
A cidade se distanciava cada vez mais, e o
carro alcançou a via superior. Ali o trânsito era mais intenso, mas não chegava
a atrapalhar. O telecontrole automático funcionava com perfeição.
O veículo disparou velozmente em direção de
um prédio em formato de cúpula, situado aproximadamente no centro da cidade. Um
desvio da rua principal conduzia direto para lá. Sem que se visse druuf algum, um
largo portão se abriu, e o carro entrou. Imediatamente o portão voltou à posição
inicial.
A luz do dia não penetrava ali dentro. Porém,
a cúpula inteira emitia radiante luminosidade.
—
Alô, Gucky, Marshall! Que tal o contato? — emitiu Rhodan.
Caso tivesse ido parar, como Gucky anteriormente,
dentro de um campo defensivo, a situação se tornaria crítica. Como é que Gucky o
encontraria neste caso?
Porém a resposta foi imediata:
—
Contato ótimo! Aguardamos a ordem!
—
Desnecessária por enquanto!
— replicou Rhodan, voltando novamente a atenção para o que se passava a sua volta.
O carro deteve-se no meio da arena circular,
com cerca de cem metros de diâmetro. Um muro de três metros de altura cercava-a.
Rhodan sentiu-se tal e qual um antigo gladiador romano, lutando pela vida no circo.
As descomunais arquibancadas reforçavam essa impressão. Erguiam-se até o teto, a
cinqüenta metros do chão.
Com um gesto, o druuf mandou-o sair do veículo.
Rhodan ligou a máquina tradutora e indagou:
— Que significa isso? Julguei que seria apresentado
ao Conselho, a fim de discutir o acordo.
— Espere aqui até que o Conselho compareça.
Encontra-se no grande salão do Conselho.
“Outras
terras, outras maneiras...”, pensou Rhodan, resignado, desembarcando.
O druuf voltou a ocupar seu lugar, e o carro
se afastou. Rhodan viu-se só e abandonado no meio da arena, como um lutador já vencido.
—
Já posso ir? — perguntou Gucky,
que acompanhava tudo mentalmente. — Podíamos
organizar um belo espetáculo circense, obrigando esses caras a executar alguns saltos-mortais!
—
Não há ninguém por aqui para executar saltos-mortais — respondeu Rhodan. — Fique onde está e aguarde meu chamado!
A luz forte incomodava Rhodan. Ofuscado e irritado,
olhou para cima, constatando que uma porta se abria junto ao teto, perto da última
fila de arquibancadas. Deixou passar, um após outro, uma fila de compenetrados e
vagarosos druufs, que se postaram em torno da arena. Evidentemente o povo era às
vezes admitido às reuniões, mas hoje a sessão seria exclusivamente para o Conselho
interno dos Sessenta e Seis. Os dirigentes druufinianos tomaram lugar na fila mais
elevada. Ficavam pelo menos a setenta metros de Rhodan; semicego com a intensidade
das luzes, este os via como que envoltos em sombras protetoras.
Os olhos dos chefes druufs pousaram contemplativamente
sobre o minúsculo terrano que ousava vir apresentar-lhes sugestões. Forçado a ficar
de pé no meio daquela arena, e tendo que olhar para cima, Rhodan sentiu-se completamente
desamparado.
Diante do sistema de comunicação sem fio dos
druufs, a distância era irrelevante. Além disso, os “Tommys” possuíam equipamento próprio de tradução, que foi ligado com
o de Rhodan. Desta forma, a conversação não se tornava difícil.
— Você é o terrano que comanda as três naves
estranhas? — foi a primeira pergunta emitida pelo alto-falante dos tradutores. —
Veio pedir-nos ajuda contra seu inimigo?
Intimamente, Rhodan achou graça naquela maneira
atrevida de formular a questão, e bem que gostaria de pôr as coisas nos devidos
lugares. Porém precisava controlar-se. Por enquanto, de certo modo, os druufs ainda
eram mais poderosos do que os terranos. E mais poderosos do que as frotas de Árcon,
talvez...
— Unidos poderíamos derrotá-lo — respondeu.
— De que armas você dispõe?
A pergunta devia ter vindo de outro druuf,
apesar de ser difícil perceber entonação diferente através da voz mecânica do tradutor.
— Eu poderia fazer-vos a mesma pergunta.
Por alguns segundos reinou silêncio. Em vão
Rhodan tentou nova comunicação com o amigo desconhecido durante o intervalo. Não
obteve resposta.
— Você está em nosso poder, terrano!
Mais primitivo era impossível... No íntimo,
Rhodan esperara maneira de agir bem mais inteligente.
Por que os druufs deixavam cair a máscara tão
depressa?
Faltar-lhes-ia tempo?
Rhodan percebeu repentinamente que não poderia
haver outra explicação para aquela maneira pouco diplomática de levar as conversações.
Para os druufs, o tempo urgia. Cada segundo contava.
Algo devia ter acontecido!
Mas o quê?
— Enganam-se, druufs! Não estou no poder de
vocês! Indagaram acerca de nossas armas. Pois bem, vou exibir uma delas imediatamente.
Sabem tornar a matéria invisível?
— Não podemos nos desviar do assunto agora!
— gritou um dos druufs. — Vamos aprisioná-lo e assim forçar seus homens a nos entregar
as naves. Depois travaremos conhecimento com suas armas. Talvez se ache entre elas
a “porta” para outra dimensão temporal.
Bruscamente Rhodan percebeu o que eles queriam:
o gerador de campo de refração. Deviam suspeitar que os terranos o possuíam. Mas
teriam realmente certeza? Bem que gostariam de apossar-se do segredo da janela de
tempo!
—
Perry Rhodan! É tarde demais!
O impulso mental dominou claramente a mente
de Rhodan, excluindo totalmente o som das palavras ditas pela máquina tradutora.
E pouco importava naquele instante o que os druufs tinham a dizer. O contato com
o ajudante desconhecido fora restabelecido.
—
Preciso falar com você! —
emitiu Rhodan, intensamente.
—
Ponha-se a salvo junto com suas naves, caso ainda possa! As naves-robôs de Árcon
atacam! Irromperam em quantidades inimagináveis através da grande brecha, e avançam
para Druufon. Dentro de uma hora será desencadeada a mais gigantesca batalha espacial,
e as naves dos druufs já estão levantando vôo...
O impulso enfraqueceu aos poucos.
—
Posso levar você comigo, Oscar-1?
Novos impulsos, vacilantes e débeis:
—
Chame-me de Onot, Perry! Esse é meu nome espiritual! Procure-me quando regressar!
Depois a comunicação cessou definitivamente.
O verdadeiro druuf devia ter reconquistado o domínio de sua mente. Rhodan sabia
que seria inútil esperar novas mensagens.
As derradeiras e inúteis palavras dos druufs
ecoaram em seus ouvidos. Nem sabia o que tinham dito, porém constatou o efeito da
fala.
Em torno dele abriram-se portas até então ocultas
nas paredes da arena. Pelo menos vinte musculosos druufs avançaram em sua direção,
levando nas mãos instrumentos de aparência ameaçadora. Pareciam armas e algemas
de aço.
“Então
é assim que esses ‘monstros’ tratam seus aliados?”, pensou Perry.
Agarrou nervosamente a máquina tradutora.
—
Gucky!
O primeiro “monstro” estava apenas a dez passos quando Gucky materializou-se. O
reluzente dente roedor denotava-lhe a evidente intenção: dar uma lição de mestre
aos druufs.
Porém Rhodan estragou a brincadeira. Não podiam
desperdiçar um único segundo!
— Fora daqui, Gucky! Imediatamente!
Os sessenta e seis governantes da assustadora
raça e os vinte carrascos postados na arena haviam visto o inexplicável aparecimento
do pequenino ser. Mas antes que pudessem compreender o fato, viram o prisioneiro
desaparecer diante de seus olhos.
Os possantes holofotes iluminavam um ponto
vazio na arena.
6
As forças invasoras de Árcon deviam ter surpreendido
os druufs, pondo-os em pânico. Nem se preocuparam mais com as três naves de Rhodan.
Precipitando-se para seus cruzadores cilíndricos, lançavam-se para o colorido céu
de Druufon.
Rhodan fez soar o alarme, e deu ordens para
decolar.
Refletindo melhor, enviou a Califórnia, sob
o comando do Capitão Marcel Rous, para a provável zona de batalha. O cruzador ligeiro
dispunha de incrível capacidade de aceleração quando se tratava de operar abaixo
da velocidade da luz. Serviria de estação de relê, assegurando comunicação visual
permanente com a Drusus.
Dez segundos depois, a Califórnia desaparecia
no céu, e nova tela entrou em funcionamento na central da Drusus. Rhodan suspirou,
aliviado.
— Também poderia ter requisitado os serviços
de Harno, porém isso o distrairia. Quero que ele tente mais uma vez comunicar-se
com Onot. É assim que se chama o físico-chefe dos druufs. Curioso, o nome dele é
pronunciável.
Fato insignificante na aparência, mas que poderia
assumir eventualmente grande importância.
Gucky acomodou-se no sofá e fechou os olhos.
Sua tarefa era “fazer ligação” com os
druufs do Conselho.
— Eles planejam rechaçar a frota de Árcon e
aniquilá-la, pois jamais terão oportunidade igual. O cérebro-robô deve ter enlouquecido,
para arriscar metade de sua frota. Isto feito, será nossa vez!
Rhodan comentou, sombriamente:
— Admiro-me por nos deixarem à vontade. Afinal,
devem supor que imitemos a Califórnia.
— Não entendi bem, mas parece que pretendem
segurar-nos. Onot já se encontra em ação. Um campo de tempo, ou coisa parecida...
— falou Gucky.
Rhodan encarou Sikermann.
— Decole, coronel! A Kublai Khan também! E
rápido!
Gucky abriu languidamente os olhos, dizendo:
— Logo vi que isso o interessaria! Aquele seu
esquizofrênico amigo fantasma tem muitas caras! Primeiro nos ajuda, depois quer
nos pregar no lugar. Até parece que se trata de uma mulher...
Ninguém deu atenção à sábia observação do rato-castor,
nem mesmo Rhodan.
Enquanto Sikermann distribuía instruções, Atlan
fitava a tela panorâmica, com a fisionomia contraída. Parecia esperar que lá fora
tudo passasse a se mover em ritmo milhões de vezes mais acelerado, o que significaria
que o campo de tempo de Onot entrara em funcionamento. Cada segundo dos druufs valeria
então anos para eles. O tempo de inspirar uma vez, e o Universo teria envelhecido
milhares de anos. E neste intervalo os druufs poderiam fazer deles o que bem entendessem.
Tranqüilamente, sem medo de serem perturbados...
Porém Rhodan se antecipara, pois compreendera
tudo depressa demais!
As duas naves se elevaram, ganhando altura
rapidamente. Abaixo deles, na orla do espaçoporto, as frotas defensivas dos druufs
continuavam a decolar.
Rhodan percorreu com o olhar a cidade. Sabia
que não seria a última vez que a via.
Depois voltou-se para a tela que mostrava as
imagens da Califórnia.
O cruzador ligeiro se mantinha nos limites
do setor no qual a batalha seria provavelmente travada. Uma nuvem de cintilantes
pontos prateados irrompia pela brecha, emergindo gradualmente da transição. Rhodan
logo desistiu da tentativa de contá-los.
O cérebro-robô atacava com milhares de naves.
As unidades de Druufon avançavam contra elas.
O planeta se reduzira a uma bola do tamanho
de um punho quando a vanguarda da ofensiva arcônida cobriu de bombas atômicas o
mundo principal dos druufs. Refulgentes raios energéticos traçavam riscos de fogo
através das ruas da cidade, fundindo a superfície até expor as cavernas subterrâneas.
Porém as reservas ainda disponíveis dos druufs
revidaram.
Travou-se um feroz combate, cujo desenlace
Rhodan não chegou a ver, pois a distância era grande demais agora. Mas não havia
dúvida de que os druufs repeliam as naves-robôs de Árcon.
Atlan tornou a recomendar:
— Vejo-me na obrigação de alertá-lo mais uma
vez, Rhodan! Caso Árcon sofra sério revés nas mãos dos druufs, a Terra correrá grave
perigo. Não podemos presenciar impassivelmente a inundação de nosso Universo por
estes “monstros”.
Rhodan sorriu.
— Você deixa-se influir pelo passado, se não
me engano. Não consegue esquecer que os druufs deram um trabalhão aos arcônidas
há dez mil anos passados. Não, não me julgue mal. Não estou-lhe lançando acusações
de tolo ou vingativo. Mas certamente os druufs lhe trazem amargas recordações. Entraremos
em contato com o cérebro-robô a tempo de pôr um fim ao avanço dos druufs. Por outro
lado, um pequeno revés não fará mal algum ao regente. E é exatamente o que ele vai
sofrer agora, meu amigo.
Atlan desistiu de dar resposta. Apesar de seu
coração pertencer aos terranos, também continuava a bater por Árcon.
Por uma vez a Drusus e a Kublai Khan viram-se
entre o fogo de dois grupos combatentes. Apenas os super-reforçados anteparos energéticos
impediram que ambas se transformassem em fogo e fumaça. Esquivaram-se assim que
lhes foi possível, deixando para trás os ferrenhos litigantes.
— Que curso devo tomar, Sir? — perguntou Sikermann,
quando estavam a muitos minutos-luz de Druufon. — Mirta?
— Ora, que idéia! — protestou Rhodan. — Ainda
temos algumas coisinhas a resolver por aqui antes de ir embora. Rume para Hades.
— Siamed-13? — certificou-se Sikermann, sem
revelar sua surpresa. — Não chamaríamos a atenção, aterrissando lá?
— Quem foi que falou em aterrissar? Quero apenas
vistoriar a nova base, levando alguns homens. Quanto ao senhor, regresse para Fera
Cinzenta com o Coronel Everson, e aguarde o desenrolar dos acontecimentos.
Atlan levantou os olhos.
— Vamos para Hades por meio do transmissor?
Rhodan confirmou. Fitava atentamente a tela
na qual surgiam as imagens retransmitidas pelo Capitão Rous.
As duas frotas de guerra tinham se encontrado,
travando uma luta encarniçada. O desfecho era previsível, pois das profundezas do
sistema gêmeo emergiam sempre novas esquadrilhas de reforço. As naves do regente-robô
foram rapidamente cercadas e bombardeadas com uma tempestade de raios energéticos.
— Pavoroso! — comentou Bell, até então calado.
— De fato, é pavoroso, mas não havia maneira
de evitar este conflito. Tinha que acontecer algum dia. E sempre é melhor ver os
druufs destruir naves robotizadas não tripuladas do que as nossas. Além disso, eles
sairão enfraquecidos desta luta, o que virá a representar inapreciável vantagem
para nós.
A Drusus acelerou, seguida pela Kublai Khan.
Desviaram-se das esquadrilhas dos druufs atacantes, até não haver mais possibilidade
de fuga. As esbeltas naves dos “monstros”
se aproximavam de todos os lados. Que diferença entre o produto e seus criadores!
Rhodan ia mandar abrir fogo, quando David Stern
comunicou da central radiofônica:
— Sir, uma mensagem dos druufs!
— Pode dizer!
O Tenente Stern leu:
Ao comandante dos terranos! Vocês não respeitaram o acordo! Retornem
imediatamente ao nosso planeta, ou serão destruídos! Tommy-1.
Rhodan sorria friamente ao dizer:
— Stern, ligue-me com os druufs. Tenho algo
a lhes dizer.
A ligação não tardou a ser feita. Rhodan falou
ao microfone:
— A Tommy-1! Aqui fala Rhodan, comandante dos
terranos. Se alguém desrespeitou o acordo, foram vocês! Permitam-nos retirada livre,
ou vamos aliar-nos ao adversário de vocês. Sabemos um bocado de coisas sobre vocês...
inclusive o projeto desenvolvido por Onot! Campos de tempo não representam mais
segredo para nós.
Esperaram em vão por resposta.
Porém as unidades dos druufs, desimpedindo
o caminho e espalhando-se em todas as direções, sumiram em questão de segundos.
— Nossa! — exclamou Bell, impressionado. —
Que susto lhes pregou!
— Sim, mas o que foi que os assustou? — indagou
Rhodan, pensativo.
* * *
A estação transmissora de matéria em Hades
declarou-se em prontidão.
Rhodan fez sinal para Atlan, Bell, Marshall,
Lloyd e Marten.
— Está na hora. Sengu permanecerá na Drusus.
Gucky e Harno seguirão por conta própria; eles dispensam o transmissor fictício.
Sikermann, siga seu curso assim que o transmissor for desligado e tivermos alcançado
Hades sãos e salvos.
— Entendido, Sir! — replicou Sikermann.
Apesar de adivinhar que Rhodan não planejava
só uma simples vistoria à base, absteve-se de perguntas.
Os seis homens entraram pouco depois na cabina
energética do transmissor. Estes aparelhos tinham sido aperfeiçoados através de
dezenas de anos de trabalho desde as seis décadas decorridas de seu descobrimento
no sistema Vega; sobretudo a capacidade fora grandemente ampliada. Atualmente um
transmissor levava cargas que originalmente exigiriam dez destes aparelhos.
A despeito dos elevados índices de segurança,
pisar na cabina energética ainda causava um certo mal-estar. Afinal, o trajeto até
a estação receptora seria feito, por assim dizer, sem fio. Toda matéria era transformada
em hiperimpulsos imateriais, e desta forma transportada através da quinta dimensão.
Não é do agrado de qualquer um deixar-se decompor
em impulsos.
Quando a grade foi fechada, e a lâmpada verde
brilhou, Bell disse:
— Chego a sentir náuseas quando penso no que
está sendo feito conosco neste momento.
Sorrindo displicentemente, Rhodan explicou
de modo irônico:
— Qual, não há razão para preocupar-se! Não
acontece coisa alguma! Basta apertar este botão... assim... — acompanhou a palavra
com o gesto, e recolheu lentamente a mão — ...e tudo já passou. Este botão já não
é o mesmo que apertei. Um segundo atrás, ele ficava a meia hora-luz daqui.
A lâmpada verde brilhava ainda, mas sabiam
que se tratava agora da luz da estação receptora.
Sem que o percebessem, tinham sido transferidos
a uma distância de aproximadamente meio bilhão de quilômetros. E em tempo zero.
* * *
A Drusus e a Kublai Khan já se encontravam
em vôo de regresso para Fera Cinzenta. A cabina energética da Drusus estava vazia.
* * *
Rhodan colocou a mão sobre determinado ponto
da grade, e a porta abriu sozinha. O Tenente Stepan Potkin veio ao encontro de Rhodan,
marcialmente perfilado.
— Bem-vindo a Hades, Sir! Apesar de estar aqui
há pouco tempo, posso garantir-lhe que se trata de um mundo verdadeiramente “infernal”. Espero que não pretenda passar
suas férias nele.
A fisionomia de Rhodan permaneceu séria.
— Não é hora de pensar em férias, tenente.
O sistema dos druufs está sendo cenário de uma tremenda batalha espacial. Árcon
resolveu atacar os druufs em sua terra natal.
— Desculpe, Sir, eu não sabia...! — disse Potkin,
consternado.
— Pois é por isso que estou lhe dizendo — replicou
Rhodan. — Tem contato com a Califórnia?
— Acaba de pedir permissão para aterrissar.
Dei ordens de preparar a comporta de ar subterrânea.
— Muito bem, tenente — olhou em torno, com
ar interrogativo. — Aliás, Gucky já chegou?
Potkin não conseguiu disfarçar o riso.
— Sim, chegou, Sir! Mas parece ter errado surpreendentemente
os cálculos para o salto; não desceu na central de comando da base, conforme era
de esperar, e sim no depósito de gêneros, bem no meio das verduras frescas congeladas.
— Comilão! — a expressão escapou involuntariamente
da boca de Bell, que logo olhou em torno, receoso.
Gucky detestava ser chamado de comilão. A vingança
se manifestava, em geral, sob a forma de um involuntário giro aéreo, sustentado
pela força telecinética do rato-castor.
Porém Gucky manifestou disposição pacífica.
Limitou-se a materializar-se por trás de Bell, e espetar-lhe um dedo nas costas.
— Melhor calar o bico, invejoso. Para mostrar
que não sou mesquinho, tome uma pra você!
E enfiou uma cenoura semi-roída na mão do atônito
Bell.
Harno aproximou-se flutuando, e aumentou rapidamente
de volume. Sua superfície passava a ser mais uma vez uma tela branca e leitosa.
—
Chegou nova esquadrilha do regente-robô para entrar na luta.
Rhodan contentou-se com um breve olhar à cena
mostrada por Harno, e comentou calmamente:
— O regente ainda constatará bastante cedo
que subestimou o adversário. Quase incorremos no mesmo erro. Pois bem, que perca
também estas naves. Creio que depois estará disposto a negociar.
Mordiscando obedientemente sua cenoura, Bell
disse, mastigando:
— E não sem tempo! Os druufs começam a dar-me
arrepios!
Rhodan voltou-se para ele, dizendo:
— Você, Gucky e Harno irão comigo. Faremos
uma segunda incursão a Druufon, a bordo da Califórnia. Quero tentar resgatar Onot.
Bell abriu a boca e fechou-a sem comentário
algum.
Gucky, pelo contrário, piou:
— Oba, formidável!
E mais não tinha a dizer sobre o assunto.
* * *
A Califórnia pousou menos de uma hora depois.
Neste tempo, Rhodan procedera a uma rápida
vistoria da caverna agora ampliada, escavada por raios energéticos na rocha da Cordilheira
da Esperança. Ali debaixo da superfície, o ambiente hostil do planeta era menos
evidente. Havia instalações para fornecer luz e calor. Sensores postados na superfície
transmitiam à central da base um quadro exato do que ocorria lá em cima.
Mas por enquanto nada estava acontecendo.
Rhodan reduziu a tripulação do cruzador ligeiro
ao mínimo indispensável, a fim de arriscar o menor número de vidas possível. Sabia
que aquela segunda viagem a Druufon equivaleria a um vôo para o inferno.
Bell dava evidente demonstração de não se sentir
nada à vontade.
Gucky, ao contrário, assobiava estridentemente,
e fora de tom, algumas melodias aprendidas ao acaso em Terrânia. Insistiu tanto
que Bell perdeu a paciência e lhe passou uma descompostura. Para espanto de Rhodan,
o rato-castor dispensou a habitual reação vingativa.
Finalmente o momento chegou.
O Capitão Marcel Rous comunicou que a Califórnia
estava pronta para decolar.
Dez minutos após, a esfera espacial emergia
de uma abertura camuflada no chão, lançando-se em alucinante aceleração na direção
do céu crepuscular de Hades.
Harno desempenhava papel de tela universal,
alertando-os ainda, com a devida antecedência, contra as naves das facções em luta.
A incrível taxa de aceleração da Califórnia permitia-lhes escapar sempre de novo
aos agressores, esquivando-se de escaramuças.
Druufon se aproximava rapidamente. E com isso
crescia também o perigo de serem descobertos.
— Consegue localizar Onot? — indagou Rhodan.
Gucky lamentou sua incapacidade. Encolheu-se
no assento, de olhos fechados. Até então tentara em vão fazer contato com o amigo
desconhecido. Nem sequer o verdadeiro físico-chefe conseguira encontrar. Provavelmente
estaria de novo entregue a suas experiências, e devia ter ligado o bloqueador de
impulsos telepáticos.
Ainda bem que Gucky sabia que este aparelho
não impedia saltos telecinéticos.
Rhodan foi intransigente:
— Só quando estivermos suficientemente perto
você poderá saltar.
Gucky abriu os olhos, interessado, e deu com
a expressão interrogativa de Rhodan. Bell contemplava-o de lado, meio receoso. Percebia-se
que por nada no mundo queria estar na pele de Gucky.
— Vou tentar — replicou o rato-castor, em voz
estranhamente baixa. Não denotava o menor sinal do costumeiro entusiasmo. Seu gosto
por aventuras parecia ter sumido de repente. — Saltar é o que é de menos, pois posso
pôr-me a salvo a qualquer instante. Mas caso vocês sejam forçados a fugir de repente...!
Que será de mim então?
Levantando-se, Rhodan foi alisar carinhosamente
o pêlo de Gucky, assegurando:
— De maneira nenhuma ultrapassaremos o limite
de segurança, enquanto você não voltar a bordo. Pode confiar em nós!
Gucky escorregou do sofá.
— Pois bem! Quando devo ir?
Rhodan sorriu e recuou um passo.
— Dentro de cinco minutos, mais ou menos, caso
não consiga contato com Onot, até lá.
A esperança não se concretizou. Onot continuava
mudo.
Como se jamais tivesse existido...
Três... quatro minutos decorreram. Nem Harno
conseguia ajudar. Até parecia bruxaria. Como se Onot tivesse desaparecido de repente.
Por mais de uma vez Harno captou a imagem do laboratório do físico-chefe, mas do
druuf não “via” o menor sinal.
— O melhor mesmo é você ir até lá — decidiu
Rhodan.
Gucky acenou, olhou para o relógio e concentrou-se
para o salto.
Depois desapareceu.
7
Porém reapareceu imediatamente. Pelo menos
na superfície leitosa e arredondada de Harno. O contato telepático entre o ser-bola
e o rato-castor não se rompera, de modo que a detecção se fez sem dificuldade. E
enquanto este contato não fosse interrompido, não havia perigo de se perder Gucky
de vista.
Gucky sabia que estava sendo observado. Sabia
por meio de Harno, com o qual se mantinha em contato.
Aterrissou direto no laboratório já conhecido.
Painéis de controle e aparelhagem técnica jaziam abandonados na estação experimental
subterrânea. Nem sinal de Onot. E localizá-lo no meio dos milhares de excitados
impulsos mentais era querer um milagre, já que o verdadeiro Onot nem pensava em
Gucky.
—
Não procure entender o funcionamento do congelador de tempo — veio o aviso mudo, porém eloqüente, de Harno.
Sem se mover do lugar, Gucky fitou com profunda
atenção a refulgente caixa de metal sobre a mesa, junto ao painel de controle principal.
Recoberta de botões de vidro e alavancas coloridas; as luzes das escalas estavam
apagadas. Diversos condutos levavam a geradores e outros aparelhos.
“Congelador
de tempo?”, pensou Gucky, admirado.
Harno explicou:
—
A invenção na qual Onot trabalha. Não consegue localizá-lo?
Gucky fez que não, e deu alguns passos na direção
da mesa.
Congelador de tempo?
Então era esta a mais poderosa arma dos druufs,
aguardando a vez de ser usada? Com ela poderiam reduzir mundos inteiros à imobilidade,
e até conquistar o Universo. Bastaria desligar o tempo do adversário para fazer
dele um mundo indefeso, exposto ao bel-prazer dos druufs.
— Que invenção diabólica! — balbuciou o rato-castor.
Mais ainda! Uma arma inimaginavelmente eficaz,
contra a qual jamais haveria defesa.
— Devo destruí-lo, Harno?
Fez-se uma pausa, que Harno aproveitou para
consultar Rhodan. Depois comunicou a Gucky:
— Onot ainda não concluiu as experiências.
Quem sabe se poderá prosseguir nelas quando o espírito de nosso amigo o deixar?
Não é conveniente destruir a invenção, pois não se trata apenas de uma arma; é também
um meio para decifrar o fenômeno tempo. Talvez necessitemos da invenção de Onot
algum dia, para nossos próprios fins.
Gucky respondeu que agiria de acordo. Pouco
versado em tecnologia, era incapaz de entender o funcionamento do congelador de
tempo. Ficando de pé, com a caixa de controle à altura da face, contemplou atentamente
as inúmeras alavancas e chaves.
“Será
que posso fazer uma tentativa?”, pensou.
Harno “escutara”.
— Eu seria cauteloso, amiguinho!
— Ora, deixe-me brincar um pouco, Harno!
Gucky virou com a pata a alavanca mais próxima,
e algumas lâmpadas se acenderam. Um leve sussurro invadiu o recinto, agora cheio
de vibrações. A caixa recebia agora corrente elétrica.
Só então
Gucky se lembrou de verificar onde iam dar os fios e condutos ligados à caixa. Alguns
deles terminavam num objeto redondo, parecido com um holofote, preso ao teto. A
superfície interna do enorme bocal parecia ser feita de inúmeros pedacinhos de metal
prateado.
Decididamente, o rato-castor mexeu em mais
algumas alavancas.
Foi então atingido por forte impulso mental,
que se intensificava a cada segundo.
Alguém se aproximava do laboratório, da direção
oposta à de Gucky. Porém entre ele e a porta achava-se a área atingida pelo holofote;
perfeitamente circular, e grande bastante para iluminar quem quer que entrasse.
Seria Onot, de volta ao seu laboratório?
Fosse quem fosse, Gucky estava firmemente decidido
a verificar com os próprios olhos a eficácia do campo de tempo que fizera funcionar.
A porta foi aberta.
Um druuf penetrou no recinto. Seria Onot?
O druuf não avistou de imediato o rato-castor.
Fechando a porta atrás de si, estacou por um instante no limiar do pretenso círculo
de tempo.
Gucky procurou sondar-lhe a mente. Sua suposição
foi confirmada.
Era de fato Onot! Porém não pensava em Rhodan
e na ajuda que poderia lhe dar; toda sua preocupação era levar a raça dos druufs
a uma retumbante e decisiva vitória sobre o inimigo. Seu invento estava testado
e aprovado. Bastava criar os necessários ampliadores e meios de transporte para
empregá-lo na prática. E por enquanto, aquele era o único aparelho existente. Se
fosse avariado, levaria anos para fabricar um substituto.
—
Pode ouvir-me, Onot? — emitiu
Gucky com toda a força.
Devia haver um jeito de comunicar-se com a
mente do amigo metido no corpo de Onot. Ou os impulsos cerebrais do druuf se impunham
a ponto de impedir o contato?
Era bem provável, pois não houve resposta.
Gucky suspendeu a respiração ao ver Onot movimentar-se
novamente. Vinha diretamente em sua direção. Mais alguns passos, e seria descoberto.
Por via das dúvidas, ficou pronto para teleportar
repentinamente.
Onot avistou-o precisamente no instante em
que pisava no círculo indistintamente delineado do campo de congelamento. O efeito
não foi imediato... funcionou um segundo após, quando o druuf chegou ao centro de
projeção e recebeu em cheio a radiação.
Onot teve apenas tempo de arregalar os olhos
antes de imobilizar-se.
Lembrava neste momento os seres outrora encontrados
pelo Tenente Rous no planeta de cristal. Porém nele o ritmo de vida era apenas 72
mil vezes mais lento. O observador atento poderia verificar que as estátuas aparentemente
rígidas se moviam com infinita lentidão.
O caso presente era totalmente diverso.
Parado no lugar, Gucky observava o druuf. Não
se sentia tentado a ir parar pessoalmente sob a influência do campo de congelamento
de tempo. Se bem que isso lhe permitisse uma pequena troca de cortesias com o druuf...
Mas certamente passariam mil anos antes que chegassem a apertar-se as mãos.
Nada se movia. As pálpebras do druuf — verdadeiros
tampos de couro — estavam imóveis sobre os olhos mortiços. E o “monstro” também parecia ter deixado de respirar.
Braços e pernas imobilizados em pleno movimento lembravam uma estátua inacabada.
— Funciona! — emitiu Gucky, triunfalmente,
como se ele próprio tivesse sido o inventor da maravilha tecnológica. — Mas se eu
quisesse atacar o druuf agora, mergulharia igualmente num sono de Bela Adormecida.
De que adianta, então?
— Já constatamos que a criação de campos de
tempo ainda se encontra no estágio experimental — observou Harno. — Desligue-o,
e tente trazer Onot para cá, Gucky acenou, pois sabia que Rhodan o observava na
face de Harno.
— Sim... apesar de eu ter certeza de que...
Exatamente neste segundo aconteceu!
* * *
Os impulsos de Gucky emudeceram tão bruscamente
no cérebro de Rhodan que ele se assustou. De modo algum, o campo de tempo podia
ser acusado pelo fato, pois a imagem de Harno provava que Gucky não saíra do lugar.
Também o druuf continuava imóvel e rígido.
Gucky, num gesto evidentemente mecânico e automático,
inclinou-se para a frente e empurrou a alavanca da caixa de controle de volta à
posição inicial. Depois voltou-se e encarou o druuf.
Onot completou o movimento iniciado e “caminhou” em direção a Gucky.
— Fuja!
— aconselhou Rhodan, alarmado. — Como pôde
cometer a leviandade de libertá-lo? Traga-o para cá, caso ainda seja possível!
Porém novamente Gucky não deu resposta. Todos
viram que o rato-castor aguardava o druuf.
E repentinamente impulsos mentais estranhos
atingiram o cérebro de Rhodan:
—
Fiquei livre quando Oscar-1 foi atingido pelo campo de tempo, permitindo-me dominá-lo.
Mas seu espírito não tardará a reconquistar a superioridade. Dentro do círculo de
retardamento de tempo, consegui abandonar até o corpo dele, e entrar no de Gucky.
Foi sob a forma dele que desliguei o campo de tempo, pois agora sei o que pretendia!
Talvez agora eu possa reencontrar meu corpo original, caso ainda exista!
Gucky mexeu-se novamente, e recuou um pouco.
Seus pensamentos voltaram imediatamente. E sua primeira reação, uma pergunta, provava
concludentemente que o “espírito” falara
a verdade.
— Quem foi que desligou o campo de tempo?
O próprio Onot respondeu:
—
Fui eu! E agora ponham-se em segurança, pois as naves robotizadas atacam nosso mundo.
Precisam dar-me tempo, pois descobri algo. Graças a você, Gucky! Indicou-me o caminho,
apesar de eu ainda não me recordar claramente de quem sou, e porque conheço você,
Perry Rhodan...
—
Começo a adivinhar — replicou
Rhodan. — Mas seria fantástico demais!
Os impulsos de Onot cessaram abruptamente.
O autêntico druuf avançou mais uns passos para
Gucky. Os braços informes se estenderam na direção do rato-castor.
Este nem esperou segunda ordem.
Teleportou-se de volta à Califórnia.
* * *
Através uma barragem de fogo, a nave disparou
à velocidade da luz, deixando para trás os espantados druufs e as esquadrilhas atacantes
do regente-robô.
Dentro de pouco, Druufon não passava mais de
uma pequena estrela.
Rhodan olhou para a tela.
— Receio que não seja a última vez que vemos
Druufon. Nossa tarefa está apenas começando.
Instruiu o Capitão Rous:
— Volte para Hades. Demoraremos lá algum tempo,
e depois seguimos para Mirta VII. Gostaria de presenciar daqui o desenrolar da batalha.
— E Onot? Que faremos com ele? — perguntou
Bell.
Rhodan respondeu, indeciso:
— Viu-o dizer que fez uma descoberta, não foi?
Talvez saiba agora, graças a Gucky, como dominar a mente do corpo em que se hospeda.
Ainda não sei por que ele preferiu não vir conosco. Por consideração, talvez, pois
neste caso teria que apossar-se do corpo de algum terrano.
Bell observou, pensativo:
— Dizem que possuo boa memória, Perry. Se isto
é exato, permita-me retornar a uma observação que fez há pouco.
— Ah, é? — fez Rhodan, sorrindo maliciosamente.
— Ora, não me venha com evasivas — reclamou
Bell. — Você deu a entender que adivinhava a verdadeira identidade do tal de Onot.
Rhodan bloqueou instantaneamente os pensamentos,
antes que Gucky ou Harno tivessem oportunidade de tomar conhecimento do enigma,
que, afinal, talvez não fosse segredo algum. Sempre sorridente, replicou, ocultando
o verdadeiro modo de pensar:
— Ah, isso...! Esqueça, Bell. É uma hipótese
maluca, sem relação alguma com o momento presente. Deixemos o passado em paz até
que se transforme em presente.
Bell sacudiu a cabeça.
— Fala através de charadas, grande mestre!
Quem é que pode entender?
— Você, quem sabe...! — disse Rhodan, rindo.
— Só que lhe falta imaginação para tirar determinadas conclusões, meu caro. E é
o que não me falta!
Voltou-se para a tela.
O Capitão Rous desviou-se habilmente de um
pequeno grupo de druufs, e realizou uma curta transição, que os levou até a proximidade
de Hades. Até então, o 13o planeta do sistema tinha escapado à
atenção dos druufs. Ninguém suspeitava que Rhodan construíra nele uma base que bem
poderia vir a ser algum dia o ponto de partida de uma invasão em massa.
A Califórnia entrou em contato radiofônico
com Hades, recebendo a informação de que tudo estava preparado para o pouso.
Rhodan não protestou quando Gucky teleportou-se
para o planeta já próximo com Harno.
O Capitão Rous veio arrancá-lo do devaneio.
— Fera Cinzenta no hiper-rádio, Sir. Um comunicado.
— Passe para cá.
Rous estendeu a Rhodan a tira de plástico com
a mensagem gravada. Rhodan leu em voz alta:
Tenente Stern, Drusus, para Perry Rhodan! O cérebro-robô em Árcon emite
incessantes pedidos de socorro. Segundo as ordens recebidas, não respondemos. Árcon
parece encontrar-se em sérias dificuldades. Aguardamos instruções a respeito. Fim.
Rhodan colocou a tira vagarosamente sobre a
mesa de comando.
Viu que Bell quase estourava de curiosidade.
— Hum! — fez, significativamente. Bell remexia-se
inquieto no sofá.
— Que hum, coisa nenhuma! Que tal sair com
uma resposta? Acho que é mais do que tempo.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Deixemos o regente curtir sua preocupação
por mais catorze dias. Penso em ficar em Hades durante este tempo. Até lá, muita
coisa se esclarecerá; em parte, pelo menos. A batalha entre Árcon e Druufon pode
durar dias, ou até semanas. Nós, meu caro Bell, temos tempo, pois ele trabalha a
nosso favor.
Bell perguntou, pensativo:
— Tempo? Afinal, Perry, o que vem a ser tempo?
Rhodan sorriu ironicamente.
— Algum dia perguntaremos a Onot... acho que
ele vai poder nos revelar.
Após novo olhar às telas, acrescentou sonhadoramente:
— Talvez...
* * *
* *
*
Harno, conforme o ser-bola do sistema Tatlira queria ser chamado, em
memória de seu primeiro amigo terrano, tornou-se íntimo de Perry Rhodan e Gucky.
A renovada amizade entre Harno e os terranos já produziu os primeiros
frutos...
Em Nas Algemas da Eternidade, próximo volume da série Perry Rhodan,
Harno desempenha importante papel!

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