quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-104 - Os Traficantes de Alaze - William Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAN VOLTZ



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN

Um toque errado — e uma lua-de-mel
desagradável...


Surgiu a nova época na história da Humanidade!
Desde os acontecimentos narrados no penúltimo número, 57 anos são passados, o calendário na Terra está marcando o ano 2.102.
Muita coisa aconteceu neste intervalo. Já passou o perigo dos druufs, e a zona de superposição entre os dois universos há muito se tornou instável, impossibilitando uma penetração. Com o apoio dos terranos, o arcônida Atlan conseguiu consolidar sua posição como imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu bons frutos, mormente para os terranos, que já ocupam cargos de relevo em Árcon. Atlan não pode dispensá-los, pois não confia na maioria dos seus conterrâneos.
O Império Solar se transformou na maior e mais importante potência comercial das Galáxias. Há mais de 22 anos que são quase ininterruptas as correntes imigratórias para mundos que prestam-se à colonização. Conseqüência disso é a existência de embaixadas e representações comerciais da Terra em muitos planetas habitados por inteligências estranhas.
Em resumo, para muitos homens, o sonho de seus avós e bisavós — viajar pelas estrelas — tornou-se realidade. Hoje, até viagens de núpcias podem ser realizadas...
Mas quando um casal partiu em lua-de-mel, não poderia imaginar o perigo que os ia envolver a centenas de anos-luz da Terra...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

John Edgar PrincerVice-presidente da IFC.

Cora PrincerSua esposa.

ValmonzeUm patriarca dos saltadores.

Clifton ShaugnessyTerrano de mau caráter.

Major WoodsworthComandante da Cape Canaveral.

SchnitzSer-pássaro, nativo de Alaze.
1



Mark Denniston soltou um suspiro e deixou-se cair na poltrona muito macia que se encontrava à frente da mesa de Princer. Denniston era um homem de aspecto robusto, de pouco mais de quarenta anos, que tinha um rosto enérgico e mãos que pareciam patas de urso. Mas naquele instante não dava mostras de sua energia.
O senhor não pode exigir uma coisa dessas de mim, chefe! — exclamou com um gemido. — O senhor sabe que eu seria capaz de ir buscar uma caixa de limões no inferno. Mas isso não!
Princer contemplou-o com uma expressão de benevolência. A idéia de que, se necessário, poderia contar com limões vindos do inferno, parecia dar-lhe uma disposição pacata. Piscou para Denniston, movimentando suas sobrancelhas hirsutas.
Sabe por que gosto tanto do senhor, Mark? — perguntou.
Ao que parecia, Denniston não fazia questão de agradar e manteve-se num silêncio obstinado. Princer prosseguiu:
O senhor tem um jeito muito agradável de se opor às minhas ordens e... depois... cumpri-las.
Denniston comprimiu as mãos gigantescas uma contra a outra, como se quisesse esmagar alguma coisa.
Escute, chefe — disse, fazendo mais uma tentativa. — Sou comandante de uma de suas naves cargueiras. Levo verduras e frutas para Vega ou para qualquer lugar que o senhor queira. Há anos trabalho para a Intercosmic Fruit Company. E agora o senhor quer que eu faça o papel de baby sitter.
O rosto de Princer assumiu a expressão de quem havia mastigado alguns grãos de pimenta.
Ora, Mark, o senhor está falando de meu filho John Edgar Princer. Afinal, o bebê já é vice-presidente de nossa companhia.
Denniston não deu nenhuma resposta, mas pela expressão de seu rosto notava-se que não gostava de vice-presidentes, especialmente desse que acabava de ser mencionado. Lançou um olhar sombrio para Princer.
O bom menino — Denniston estremeceu ao ouvir estas palavras — acaba de casar. Dei uma pequena nave de presente a ele e a sua esposa. Quer usá-la na viagem de núpcias. Uma vez que nossa família costuma combinar o útil com o agradável, levará uma carga de gigante-supermacio, que deve ser entregue em Ferrol, no sistema de Vega.
O astronauta começou a demonstrar um pouco de interesse.
Gigante-supermacio? O que é isso? — perguntou.
Archibald Princer, presidente do Conselho Fiscal da IFC, lançou um olhar para seu interlocutor, revelando não ter uma boa impressão das pessoas que não sabiam o que vinha a ser o gigante-supermacio.
É nossa nova semente de espinafre — explicou em tom compenetrado.
Denniston enrubesceu.
Espinafre...? — repetiu em tom incrédulo. — O senhor quer que eu voe para Vega com essa supersemente e os recém-casados?
Modere sua linguagem, Mark — pediu o velho Princer, com severidade. — Em nossa firma não se costuma fazer tal tipo de piadas.
Denniston ficou um tanto perplexo.
Não tenho escolha — disse em tom desanimado. — Comunique a seu filho que decolaremos dentro de alguns dias.
Princer parecia ter mais uma novidade para o comandante. E realmente tinha.
Mark, como sabe, meu filho não foi aceito na Frota Solar. Pelo que dizem tem um defeito na estrutura óssea e é daltônico. Estas... bem, estas ninharias bastaram, e meu filho John Edgar foi rejeitado. Dei-lhe oportunidade para obter numa academia particular o breve de piloto espacial de segunda classe. Quer dizer que tem o direito de pilotar a nave-disco que lhe ofereci como presente de casamento.
Nos olhos de Denniston surgiu uma expressão que parecia ser de esperança.
Quer dizer que seu filho pode dispensar minha companhia — disse.
O presidente da IFC balançou a cabeça.
Não, Mark. John Edgar não tem experiência no espaço. Além disso, sua finada mãe lhe deu uma educação muito branda. O rapaz precisa de um apoio. Quero que o senhor o acompanhe e cuide para que eu o reveja são e salvo.
Quer dizer que é um novato — respondeu o astronauta.
Princer levantou as mãos, num gesto negativo.
Não pense em tutelar o rapaz. Deixe que cuide das coisas sozinho. Ele não sabe que o senhor é uma velha raposa-do-espaço. Pensa que é uma espécie de... bem, uma espécie de mordomo.
Mordomo! — disse Denniston, fortemente abalado. — Era só o que faltava!
Não lhe diga o que deve fazer. Quero que o rapaz se torne independente. Mark, prometa-me que só intervirá, quando houver uma necessidade absoluta.
Denniston respondeu em tom rígido:
Serei um perfeito mordomo.
A quarentena já foi suspensa — disse Princer. — Toda a população da Terra foi vacinada. Terrânia é o único lugar do qual ainda não pode decolar nenhuma espaçonave. Acho que essa medida de Rhodan é muito inteligente. Não quer arriscar nada. Se, dentro de uma ou duas semanas, não surgirem outros casos de doença, também em Terrânia as coisas voltarão ao normal. De qualquer maneira, poderemos decolar. Ou melhor, Cora, John Edgar e o senhor poderão decolar.
Não se esqueça da gigantesca semente supermacia — disse Denniston em tom aborrecido.

* * *

O espaçoporto particular da Intercosmic Fruit Company ficava a pouco menos de duzentos quilômetros de Denver, capital do Colorado, um dos estados-membros dos E.U.A. Era o lugar ideal para o recebimento e a expedição de mercadorias, principalmente de frutas e verduras. Gigantescos silos e instalações frigoríficas cercavam a extensa área.
Mark Denniston olhou pela janela do escritório do setor de tráfego. Um grande cargueiro estava sendo descarregado. Os guindastes retiraram as caixas pelas escotilhas e empilharam-nas no chão. Para Denniston, aquilo era um espetáculo familiar.
De repente viu uma coisa que lhe era menos familiar, mas, em compensação, muito engraçada. Um homem passou pelo portão dos fundos e atravessou obliqua-mente o campo de pouso. Estava carregado de embrulhos. Denniston sorriu. O estranho andava como se fosse uma ursa-da-austrália balançando seu filhote. Era alto e magro; as roupas esvoaçavam em torno do corpo. Movia-se com a compenetração infeliz de um flamingo que encolheu uma perna e tem de saltitar com a outra.
Denniston soltou uma gargalhada.
Olhem — disse, dirigindo-se aos funcionários do escritório. — Quem será essa ave estranha?
É John Edgar Princer — disse com um sorriso um homem que se encontrava atrás de um ditafone. — É filho do presidente.
A alegria de Denniston desapareceu mais depressa que uma gota de água no bocal de um jato. O “animal de carga” aproximara-se o bastante para que o comandante pudesse ver-lhe o rosto. Denniston teve a impressão de que esse rosto bastaria para encher todas as noites a transmissão de despedida. Um par de enormes olhos azuis, transbordantes de tristeza, fitava o mundo com uma expressão de melancolia.
O comandante Mark Denniston engoliu em seco e saiu do escritório. Na porta trombou com Princer Jr., cuja visão era obstruída pelos embrulhos.
Desculpe! — gritou uma voz fina para Denniston.
A primeira tarefa do astronauta consistiu em ajudar John Edgar a recolher o conteúdo de alguns embrulhos que se haviam arrebentado. Princer estava de joelhos, e seu corpo executava contorções de que Denniston nunca o teria julgado capaz, se não as tivesse visto com seus próprios olhos.
O comandante rastejou para junto de Princer e colocou alguns objetos sobre os braços do vice-presidente.
Bom dia, sir — disse. — Meu nome é Mark Denniston.
Levantaram-se. Princer procurou apertar-lhe a mão. Com isso, a carga começou a balançar perigosamente. Denniston pegou a metade dos embrulhos.
Por que não chama alguém que carregue isso para o senhor? — perguntou em tom de espanto. — É muito pesado para uma pessoa.
Princer enrubesceu.
Não quero incomodar ninguém — disse em tom apressado. — Por favor, não me chame de sir. Meu nome é Johnny.
Está bem, Johnny — disse Denniston, com uma alegria forçada. — O que pretende fazer agora?
Princer lançou-lhe um olhar embaraçado. Ao que parecia, não estava acostumado a que deixassem as decisões por sua conta. Provavelmente teria preferido enfiar-se numa toca de rato, se houvesse uma do seu tamanho.
Vamos até a Error — sugeriu.
Apavorado, Denniston perguntou de si para si o que significava esse estranho nome. Mas Princer, em cujo rosto surgira um sorriso embaraçado, logo o esclareceu a este respeito.
Error significa erro — disse. — Dei este nome ao jato espacial que papai me deu. Trata-se de uma alusão ao erro que os médicos da Frota Solar cometeram ao rejeitar-me por várias vezes.
Para Denniston, estas palavras representavam as linhas fundamentais de uma nova filosofia. Conformado, segurou firmemente os embrulhos e seguiu Princer, que caminhava todo empertigado, movendo sua longa figura com uma graça toda especial.
Dali a poucos minutos chegaram ao pequeno jato espacial. Ao primeiro lance de olhos, Denniston notou que a pequenina espaçonave fora equipada com tudo quanto era novidade. Representava uma imitação das famosas naves-disco da Frota Solar, e provavelmente nada ficava devendo às mesmas. Em relação ao conforto não deixava nada a desejar.
A semente do gigante-supermacio já foi colocada a bordo — disse Princer. — Ainda tenho alguns cigarros que levarei para um amigo do papai.
Lançou um olhar indagador para o comandante, mas como este ficasse calado, prosseguiu apressadamente:
Papai também está aqui. Está sentado no escritório para acompanhar minha decolagem.
Cada vez que Princer pronunciava a palavra papai, Denniston se encolhia alguns centímetros. A idéia da decolagem que seria realizada por esse rapaz deixava-o apavorado. Mas antes que pudesse refletir sobre isso, uma moça aproximou-se do jato espacial. A mesma correspondia em toda linha à idéia que Denniston fazia de uma mulher bonita; talvez até chegasse a ser algo mais.
Quem é? — perguntou sem pensar em nada.
Princer lançou-lhe um olhar triste.
Minha esposa — disse em tom nervoso.
Os campônios mais bobos sempre colhem as maiores batatas”, pensou o astronauta.
Esposa? — repetiu em voz alta. — Como foi que o senhor conseguiu isso?
Mais uma vez, Princer enrubesceu. Suas mãos apalpavam a jaqueta, e a língua passou nervosamente pelos lábios.
Bem, eu... eu casei com ela — disse, para explicar o fenômeno.
Naquele instante, Denniston viu o cachorro. Não o vira antes, porque dedicara sua atenção exclusivamente à mulher, que conduzia o animal por uma correia amarela. Aquele cachorro era uma das coisas mais feias que Denniston já vira, com exceção talvez do vaso que a tripulação de sua nave lhe entregara solenemente no dia em que fez quarenta anos. O animal tinha a cor do barro; seu corpo era de um bassê! A cabeça lembrava a de um sheltie, enquanto o rabo achava-se tão enroscado que não se poderia ter certeza sobre sua raça ou origem. Com uma expressão de perplexidade, Denniston fitou o par “desigual” que se aproximava.
Este é Mark Denniston, Cora — disse Princer, fazendo as apresentações. — Mark, esta é minha esposa.
Cora Princer tinha olhos escuros, nos quais se notava um brilho quente. Denniston pegou a mão que a jovem lhe ofereceu, a fim de cumprimentá-la. Naquele instante, o bastardo cor de barro rosnou e procurou morder a perna de Denniston. Este deu um salto para trás. O cachorro fitou-o atentamente.
Minha esposa possui Príncipe, desde antes do casamento — disse Princer, em tom orgulhoso.
Esse Príncipe é uma coisa mais do que repugnante!”, pensou Denniston.
O cachorro ficará aqui — decidiu. — Seria um absurdo se nós o levássemos. Só teríamos aborrecimentos.
Princer parecia decepcionado. Sua esposa lançou um olhar zangado para Denniston. Abaixou-se e acariciou o pêlo do animal.
Deixe-o com meu pai — pediu Princer. — Enquanto isso, Cora e eu guardaremos a bagagem.
Denniston sentiu-se feliz por afastar-se de Princer, mesmo que fosse apenas por alguns minutos. Segurou cautelosamente a correia de Príncipe e arrastou-o. O cachorro resistiu e fez menção de morder o astronauta, mas Denniston estava preparado.
Quando entrou no gabinete particular do velho Princer, o presidente encontrava-se parado junto à janela e olhava para o campo de pouso. Denniston fez um sinal.
O que deseja? — perguntou o presidente, sem virar a cabeça. — Eu o vi chegar com... bem, com esse animal.
Príncipe ficará aqui — disse Denniston. — Seu filho resolveu confiá-lo ao senhor, chefe.
Amarrou a correia a uma cadeira. Príncipe rosnou baixinho. De repente as vidraças tremeram e um rugido penetrou na sala, fazendo-a vibrar.
O que é isso? — perguntou Denniston, dirigindo-se à janela.
É a Error — disse Princer muito baixo.
Denniston arregalou os olhos em direção ao jato espacial, que se erguia lentamente do solo.
Ele o enganou, Mark — disse Princer. — A mim também. Quis ir só para Vega, e conseguiu. A história do cachorro foi um truque. Sabia que o senhor não o levaria. Nenhum homem que tenha um pouco de juízo leva um bastardo como este.
Mas... — principiou Mark Denniston, em tom de perplexidade.
A Error já se encontrava fora do alcance de sua vista, mas o presidente continuava parado junto à janela.
Como foi a decolagem dele, Mark? — perguntou em voz baixa.
Mais ou menos — respondeu Denniston.
De repente o presidente parecia animar-se. Virou-se e fitou o astronauta.
Tenho outro trabalho para o senhor — anunciou.
Ah, é? — disse Denniston, em tom cauteloso. — Qual é?
Princer não respondeu. Baixou os olhos para o cachorro cor de barro, que fitava Denniston com uma expressão furiosa. Um sorriso malicioso surgiu no rosto do presidente. O comandante empalideceu.
Esta não, chefe! — disse, muito abalado.
Sim senhor! — ordenou Princer. Naquele instante, Mark Denniston compreendeu que, até o regresso de John Edgar Princer, teria de andar por aí, com uma criatura feia e malvada, que parecia a encarnação de Cérbero.
2



O rádio emitiu um estalo. John Edgar Princer seguira as regras para a decolagem de uma nave não pertencente à frota.
Nave-controle Netuno para nave-disco — disse a voz do oficial de plantão. — Favor fornecer código e identificação.
Princer tropeçou sobre as próprias pernas e dessa forma “chegou” ao rádio mais rapidamente do que esperava. Mexeu nervosamente no aparelho.
Nave particular Error — anunciou. — Decolamos do espaçoporto da IFC em Denver. Licença de decolagem III/b-41, passe amarelo.
E com um sorriso para a esposa, concluiu:
A nave está sendo pilotada por John Edgar Princer.
O oficial que se encontrava a bordo da nave-controle Netuno nunca ouvira falar em Princer, ou então estava de mau humor.
Está levando alguma carga? — perguntou em tom frio.
Princer acenou com a cabeça.
Sim senhor. Cento e cinqüenta quilos de gigante-supermacio.
Uma bomba parecia ter explodido na cabina de rádio da Netuno, a julgar pelos ruídos que o casal ouviu. Perplexo, Princer fitou o alto-falante.
Faça o favor de repetir — disse o operador de rádio que se encontrava na outra nave.
Princer fez-lhe este favor.
Trata-se de semente de espinafre de um tipo especial. Foi selecionada em nossos laboratórios. Pelo que diz o chefe da nossa equipe de biólogos, trata-se de uma mutação da variedade trapajera, do sistema de Vega, e...
Isso basta — interrompeu o oficial apressadamente. — Apenas preciso saber ainda a finalidade da viagem.
É minha viagem de núpcias — disse Princer, quase sussurrando.
Evidentemente, o oficial da equipe de rádio tinha uma antipatia toda especial pelos casais em viagem de núpcias, pois disse alguma coisa nada amável. Após isso forneceu a Princer as coordenadas do setor espacial onde o vice-presidente da IFC poderia entrar em transição.
O local fica bem afastado da órbita de Plutão — explicou Princer a sua esposa, depois que o rádio silenciou. — Enquanto não chegarmos lá, poderei mostrar-lhe a nave e sua carga.
Caminhou meio desajeitado pela cabina e mostrou os aparelhos de localização e de rádio, as instalações de comando e o sistema de propulsão, o sistema de renovação de ar e os mapas estelares.
Você já deve ter compreendido — disse com a voz chorosa — que cometeram uma injustiça, quando não fui aceito na Academia Espacial da Frota Solar. Entendo tanto de astronáutica como qualquer membro da Frota. E o daltonismo... Ora, isso é uma coisa ridícula. Quanto ao defeito na estrutura óssea... Bem, uma pequena fratura na perna, proveniente do jogo de rugby na universidade, não representa um defeito que possa exercer maior influência num grande talento.
Seu rosto ficou vermelho como um pimentão ao concluir:
Naturalmente não vou afirmar que sou um talento.
Sua esposa lançou-lhe um olhar que deixaria qualquer homem esfogueado. Mas Princer dirigiu-lhe apenas um sorriso abobalhado.
Vou mostrar-lhe a semente de espinafre — disse.
Desenvolvendo a atividade de um trabalhador pago por tarefa, atravessou a carga até encontrar um volume que correspondia aos seus desejos. Abriu a tampa.
É isto — disse em tom orgulhoso. — A última novidade da IFC, o gigante-supermacio.
Cora Princer olhou para dentro da caixa. Parecia um tanto decepcionada. As minúsculas bolinhas azuladas não faziam jus ao nome, pois não pareciam gigantes nem supermacias.
Assemelham-se a sementes de papoula — disse.
Princer suspirou de satisfação; até parecia que era responsável pela descoberta.
É verdade — disse. — Só mesmo por meio de uma análise pode-se distinguir esta semente da de papoula.
Fechou o volume e voltou a colocá-lo no lugar. Pôs a mão no ombro da esposa, num gesto paternal.
Agora serão realizados os cálculos da transição, Cora. O pequeno computador positrônico de bordo cuidará disso para nós. Basta que eu programe os dados, fornecidos pelo oficial da Netuno.
Sua esposa parecia um tanto assustada.
Ouvi falar que a transição provoca uma dor bastante desagradável — disse.
Princer fez um gesto de desprezo.
É a chamada dor da desmaterialização. A distância, que nos separa do setor de Vega, é de vinte e sete anos-luz. Percorreremos essa distância num único hipersalto, mas você não sentirá quase nada.
Quanto menor a distância entre os pontos extremos da transição, menos intensa é a dor.
Colocou um cartão perfurado no computador de bordo e esperou.
Falta pouco para atingirmos a velocidade da luz — explicou.
Observou o cintilar pulsante do setor de armazenamento de dados e, logo depois, chegou-lhe o resultado. Levantou-se e foi até o assento do piloto.
Será preferível deitar-se — disse, dirigindo-se a Cora. — Logo passará.
Seus dedos passaram sobre os indicadores coloridos do dispositivo automático que realizava a transição. Face ao seu daltonismo, guardara na memória não a cor, mas a posição das teclas. Mexeu nervosamente nos respectivos controles. Finalmente comprimiu o botão verde.
A dor da desmaterialização foi tão intensa que, antes de perder a consciência, John Edgar Princer compreendeu que acabara de cometer um imperdoável engano.

* * *

Princer teve a impressão de que alguém martelava com precisão mortífera uma chapa de ferro presa à sua testa. Abriu os olhos e notou uma profusão de figuras coloridas. Finalmente o quadro tornou-se mais nítido; viu o teclado automático do aparelho de transição.
Já pensava que você nunca mais recuperaria os sentidos — disse Cora, inclinando-se sobre ele. — O que houve com você?
Princer lançou-lhe um olhar triste.
Será que você recuperou os sentidos antes de mim? — perguntou em tom queixoso.
Sua esposa fez que sim. Ajudou-o a levantar-se. O jovem arrastou-se com um gemido. Ligou as telas e os aparelhos de localização.
Eu sabia que você conseguiria — observou Cora, em tom orgulhoso. — A transição foi realizada na primeira tentativa.
Acho que sim — disse Princer, esfregando a testa. Apontou para o botão que acionara antes do salto.
Qual é a cor deste botão? — perguntou em voz baixa.
Verde — respondeu Cora, um tanto perplexa. — Por que faz essa pergunta?
Princer soltou um gemido e caiu no assento de piloto. Sua figura nunca parecera muito esportiva, mas agora achava-se dobrado sobre si mesmo. Cora começou a desconfiar de que algo de grave acontecera. Era inteligente e corajosa, e acreditava que seu marido também o fosse, embora até então não tivesse dado provas disso.
O botão verde — lamentou-se Princer — destina-se a saltos a grande distância. Provoca um dispêndio energético mais elevado. Troquei-o com o botão vermelho. Você compreende... sou daltônico. É claro que decorei a posição das teclas, mas estava muito nervoso...
O que significa isso? — perguntou Cora, em tom tranqüilo.
Princer segurou suas mãos.
Isso significa que viemos parar em qualquer lugar da Galáxia, menos nas proximidades do sistema de Vega.
Nesse caso vamos voltar — disse sua esposa.
Princer balançou a cabeça.
Acho que isso não será possível. Se não descobrirmos onde estamos, não conseguiremos voltar. Qualquer transição será um salto no desconhecido e poderá afastar-nos ainda mais da Terra.
Na realidade, sua situação era ainda mais desesperadora. Se não houvesse por perto nenhuma estrela pela qual Princer pudesse orientar-se, qualquer tentativa seria inútil. O salto do jato espacial fora dado praticamente ao acaso e podia tê-los levado a qualquer ponto, situado no interior de uma esfera, cujo ponto central era a Terra. Evidentemente um hipersalto tinha seus limites espaciais, mas esse fato representava um insignificante consolo.
E agora? O que vamos fazer? — perguntou Cora e, esforçando-se para dar um tom firme à voz, prosseguiu: — Não podemos ficar sentados por aqui e esperar até... até...
Princer sabia perfeitamente o que sua esposa queria dizer. Seu orgulho másculo foi despertado. Ergueu-se por meio de movimentos que pareciam descontrolados. Oferecia um quadro que não poderia ser menos elegante.
Faça o favor de trazer os catálogos estelares, Cora. Estudarei a estrela mais próxima. Talvez esteja registrada e, nesse caso, poderemos orientar-nos por ela.
John Edgar Princer trabalhou durante três horas. Realizou localizações goniométricas, medições e cálculos. Comparou os resultados com os dados constantes do catálogo. A estrela mais próxima ficava a dois anos-luz. Era um anão. Constava do catálogo sob o nome bem-sonante de Alaze. Princer leu que essa estrela tinha três planetas. O planeta número dois era habitado e possuía oxigênio.
Esse mundo era conhecido como o planeta Alaze. Tinha, portanto, o mesmo nome do seu sol. Para John Edgar Princer, o nome não parecia ter tanta importância. Muito mais importante era a frase grifada:
É uma grande base dos saltadores.
Princer fechou abruptamente o catálogo, e sua esposa estremeceu com o estalo. Fitou-o.
Descobriu onde estamos?
Descobri — disse Princer com a voz fina. — Viemos parar num ninho de marimbondos.
Ele sabia dos ataques traiçoeiros dos mercadores galácticos. Sabia que investiam impiedosamente contra qualquer nave terrana, que se atrevesse a penetrar nas áreas a que se julgavam com direito. Os saltadores não estariam interessados em saber se a presença da Error fora causada por um engano. Abririam fogo antes de fazer perguntas.
Temos que dar o fora, Cora — disse Princer.
Realizou o mais depressa possível outra programação do computador de bordo. A jovem mulher fitava-o em silêncio.
Mas a pressa foi em vão.
Os marimbondos já estavam esvoaçando em torno dele!

* * *

A primeira onda de choque atingiu a Error com uma tremenda fúria. A pequena nave-disco sofreu um forte abalo. Princer sentiu-se arrancado da poltrona e arremessado pela cabina. Ouviu o grito apavorado de Cora. O jato espacial tremia. Rastejando, Princer conseguiu chegar ao assento de piloto. Ligou as telas. Fazendo um grande esforço, voltou a acomodar-se na poltrona. Ligou os campos de absorção. Os aparelhos de localização emitiram o sinal de alarma. Havia uma nave desconhecida nas proximidades. Com a mão trêmula, Princer orientou as telas para o local indicado pelos instrumentos.
E o que viu lhe fez o sangue gelar nas veias.
Uma gigantesca nave cilíndrica destacava-se contra o negrume do espaço. Parecia que sua iluminação vinha de dentro. Princer pensou que fossem os campos defensivos. Soltou uma risadinha. O que é que poderia fazer contra um gigante como este? Percebeu que suas medidas defensivas seriam inúteis. No entanto, os campos de absorção neutralizaram razoavelmente a segunda onda de choque. Princer ficou sentado, sem saber o que fazer. Não se atreveu a olhar para Cora.
Ligue o videofone, seu imbecil — disse ela, com uma voz cavernosa.
Apavorado, Princer fitou o aparelho de rádio. Ao que tudo indicava, os ocupantes da nave dos saltadores queriam falar com ele, antes de transformá-lo numa nuvem atômica.
O que será que vão fazer conosco, Johnny? — perguntou Cora, em tom apavorado.
A garganta de Princer estava tão ressequida que o jovem não conseguiu pronunciar uma única palavra. Sabia que já podiam vê-lo na nave dos saltadores. A tela da Error também começou a iluminar-se. Um rosto grosseiro e largo, com uma barba imponente, apareceu na lâmina. A visão quase fez o terrano desmaiar. Já ouvira falar muitas vezes nos patriarcas dos saltadores, mas o aspecto desse mercador ultrapassava tudo que já imaginara.
O patriarca fitou-o com uma expressão de curiosidade.
Onde está Shaugnessy? — perguntou em tom contrariado.
Princer fez um ligeiro esforço para sorrir, mas só conseguiu tremer os lábios. Nunca ouvira tal nome, e não tinha a menor idéia sobre os motivos por que o salta-dor queria que justamente ele lhe desse informações a respeito de Shaugnessy.
Não lhe avisaram que deveria expedir a mensagem codificada assim que chegasse aqui? — perguntou o mercador, em tom indignado. — Se resolveu aceitar o trabalho de Shaugnessy, aja como um homem sensato. Para que esse jogo de cabra-cega?
Todo encabulado, Princer fitou a tela. Não conseguia descobrir o sentido das palavras do saltador. Era evidente que a Error estava sendo confundida com outra nave. Princer resolveu acompanhar o jogo. Era a única possibilidade de sobreviver por mais algum tempo.
Sinto muito — disse em tom cauteloso. — Shaugnessy está doente. Pediram que eu viesse. Fiquei um pouco nervoso e esqueci o código.
O saltador lançou-lhe um olhar de desprezo.
Ao menos trouxe a coisa?
Trouxe — disse Princer, mentindo valentemente. — Está a bordo.
Que coisa seria essa a que o saltador acabara de aludir? Seria inútil refletir sobre isso.
Naquele momento o patriarca descobriu Cora, que se colocara ao lado de Princer e pusera a mão sobre o ombro do esposo.
Quem é essa mulher? — perguntou em tom violento.
O jovem encolheu-se na poltrona. A palestra estava sendo travada em intergaláctico. O filho do presidente da IFC sabia que sua esposa dominava esta língua.
É uma nova colaboradora — disse Princer. — Vai ser treinada...
Rezou para que não tivesse dito nada de errado.
Mulheres! — exclamou o saltador em tom de desprezo. — É preferível que Aplied não as use. Só pode dar aborrecimentos.
Deixe isso por nossa conta — disse Cora, com a voz atrevida.
Princer lançou-lhe um olhar de súplica. O saltador soltou uma estrondosa gargalhada. Seu rosto barbudo movimentou-se.
Parece que a senhora tem um pouco mais de tutano que essa coisa desengonçada que está no assento do piloto — dizendo isto com um gesto aprovador, voltou a dirigir-se a Princer. — Como é seu nome?
John Edgar Princer — disse corajosamente. — Como é seu nome?
Valmonze — respondeu o saltador.
Princer soltou um suspiro de alívio. Seu nome não provocara qualquer desconfiança no patriarca. Era imprescindível que descobrisse o mais cedo possível com quem estava sendo confundido. Assim que cometesse o menor engano, Valmonze ordenaria aos seus artilheiros que destruíssem a Error.
Basta de conversa — disse Valmonze. — Vamos recolhê-lo.
Está bem — concordou Princer, embora não soubesse o que o saltador queria dizer com recolher.
Parecia que Valmonze queria saltar da tela, quando retrucou:
Está bem o quê? Desligue logo esse ridículo campo de absorção, para que possamos introduzi-lo a bordo com o raio de tração.
A tela escureceu e Princer cumpriu a ordem. Não havia a menor possibilidade de resistir.
Daqui a poucos minutos estaremos a bordo da nave dos saltadores — disse, dirigindo-se à esposa. — Examinarão nossa carga e verificarão que não trouxemos nada, além do gigante-supermacio e de alguns pacotes de cigarros.
Isso não os deixará muito felizes — conjeturou Cora. — O que farão conosco, Johnny?
Ele colocou o dedo sobre seus lábios. Por que assustar sua esposa? Depois da descoberta do gigante-supermacio, seriam inapelavelmente atirados pela comporta da nave dos saltadores.
Naturalmente, sem traje espacial.
Princer pensou que finalmente conseguira aquilo pelo que sempre ansiara: uma aventura no cosmos. Por isso lutara para ser admitido na Frota Solar, mas fora sempre rejeitado.
Quando a Error foi introduzida a bordo da nave saltadora Vai I, ele ainda continuaria a ser considerado como: John Edgar Princer, um novato.
3



Um ligeiro solavanco revelou que o jato espacial se imobilizara. Princer enxugou o suor da testa. O fato de ter a Error, um veículo espacial de 35 metros de diâmetro, passado pela comporta da nave dos saltadores, mostrava as dimensões desse gigante. Provavelmente se encontravam num dos porões de carga da Vai I, equipado como um hangar.
Acho que é preferível abrir a comporta — disse Princer.
Ele o fez e desceu, seguido por Cora. A Error encontrava-se no interior de um amplo recinto, muito bem iluminado, que poderia recolher facilmente mais três jatos espaciais. Em toda parte viam-se mercadorias empilhadas. Havia alguns saltadores no recinto, mas estes não lhes deram a menor atenção. Princer já ouvira falar nos costumes rígidos dos clãs de saltadores. O patriarca era a única pessoa autorizada a resolver os assuntos mais importantes. Nenhum membro de seu clã se atreveria a aproximar-se da Error, sem ordens para tal. Subitamente viram o patriarca Valmonze. Alguns saltadores jovens encontravam-se em sua companhia. Provavelmente eram seus filhos. A figura de Valmonze era imponente.
Princer parou. Deixou pender os braços e ficou à espera. Cora encontrava-se meio metro atrás dele, e chegou a ouvir sua respiração.
Valmonze trajava uma capa ampla e preciosa. Calçava sandálias flexíveis presas por cordões. Trazia a pesada corrente, que assinalava sua qualidade de membro mais velho do clã, pendurada ao pescoço.
Parou bem à frente de Princer. Bateu no ombro do terrano. Era um gesto amistoso, mas o jovem teve a impressão de que o barbudo lhe fraturara a espinha.
Bem-vindo a bordo da Vai I — disse Valmonze.
Seus olhos brilharam numa expressão astuciosa.
Bons negócios, terrano.
Apavorado, Princer lembrou-se de suas reduzidas possibilidades comerciais. Talvez conseguisse evitar que o saltador inspecionasse a Error. Estendeu a mão para Valmonze.
Bons negócios — respondeu. Valmonze segurou a mão do jovem, comprimiu-a e riu que nem um demônio.
Mostre-me a carga — pediu. Cora interveio na palestra.
Por quê? — perguntou. — Está tudo em ordem. Podemos descarregar.
Valmonze fitou-a como quem não compreende nada.
Aplied não lhe disse que a mercadoria será levada para o planeta Alaze? Uma vez lá, receberá outra carga, que deverá ser entregue ao patriarca Zomake, no caminho de volta para a Terra.
Princer fez um gesto indiferente.
Naturalmente sabemos — disse em tom arrogante. — Aplied explicou minuciosamente. Minha... minha companheira apenas acha que a inspeção da carga seria um trabalho inútil. Garanto-lhe que está em ordem.
Valmonze levantou os braços, numa atitude de protesto. Esfregou a barba com as pontas dos dedos.
Ninguém seria capaz de duvidar que a carga está correta, minha senhora — disse num sorriso. — Aplied nunca nos enganou. Aliás, isso não lhe adiantaria nada. Mas — fez um gesto convidativo em direção à comporta aberta da Error — os olhos de um mercador gostam de deleitar-se com coisas que sirvam para fazer negócios.
Por pouco Princer não lhe revelou que seus olhos sombrios de saltador teriam de suportar a visão nada agradável da semente de espinafre. Mas apenas conseguiu engolir em seco e acompanhar o patriarca até o interior da Error.
Valmonze caminhava ruidosamente pelo jato espacial. Seus filhos seguiam-no, em silêncio, mas com os olhos e os ouvidos bem abertos. Princer gostaria de cochichar algumas palavras para Cora. Queria dizer que sentia muito tê-la colocado numa situação como esta. Mas não teve oportunidade para isso.
Valmonze estacou. Seus filhos formaram um semicírculo às suas costas. Pareciam uns verdadeiros ursos, de tão robustos que eram. Essa visão bastaria para fazer fraquejar um homem mais corajoso que Princer.
Traga uma amostra — ordenou o patriarca, em tom de expectativa.
Em movimentos automáticos, o terrano saiu tateando em direção ao lugar onde estava guardado o gigante-supermacio. Sentia-se vazio e ressequido por dentro. Assim que entregasse um pacote de semente ao patriarca, estaria assinando sua sentença de morte. No entanto, não tinha outra alternativa.
Suas mãos trêmulas tiraram uma caixa. Valmonze aguardava com os braços cruzados sobre o peito. Princer sentia-se incapaz de dizer qualquer coisa. Viu Cora sentada na poltrona do piloto, muito pálida. Sem dizer uma palavra, entregou o volume ao saltador.
O senhor tem o direito de abri-lo disse Valmonze, em tom cortês.
Princer sentiu-se como um homem que está deitado sob a guilhotina e é obrigado a acionar seu mecanismo. Abriu a tampa e colocou a caixa no chão, à frente de Valmonze.
O patriarca abaixou-se e, enquanto os olhos do terrano quase saltavam das órbitas, encheu a mão de gigante-supermacio e deixou a semente escorrer entre os dedos, em meio a uma estrondosa gargalhada.
Isto é mais precioso que ouro! — exclamou. — Este material nos traz bons negócios, além do poder político.
Enlouqueceu”, pensou Princer. “Será que perdeu o juízo? Umas simples sementes de espinafre...
Olhem! — gritou Valmonze para seus filhos. — Vejam isto!
John Edgar Princer viu o inacreditável transformar-se em realidade. Os filhos de Valmonze precipitaram-se sobre o pacote como um bando de lobos. O gigante-supermacio escorria entre seus dedos, enquanto batiam nos ombros uns dos outros, entusiasmados. E o remate da cena era dado por Valmonze em pessoa, um rei a bordo da supernave cilíndrica. Sorria e não parecia nem um pouco aborrecido.
A cor foi voltando ao rosto de Cora. Princer apenas conseguiu fitar a cena, perplexo.
Formidável — disse a voz retumbante do saltador. — Aplied é um homem de confiança. Sabe lá o que poderemos fazer com esta semente de papoula, meu jovem?!
Papoula!”, pensou o terrano. “Então é isso”.
Princer já sabia o que estava acontecendo. Valmonze acreditava que a semente de espinafre fosse semente de papoula.
Ópio — disse Valmonze. — Poderemos fabricar ópio e outros entorpecentes. Princer, eu lhe garanto que esta papoula representa um poder que talvez seja maior que o de uma frota de espaçonaves. Poderemos ganhar dinheiro com isso, muito dinheiro. Mas, o que é mais importante, poderemos transformar Perry Rhodan e seu ridículo império numa inviabilidade política. A indignação das raças atingidas pelo vício face às drogas terranas cresce a cada dia que passa. Acusam Rhodan de não fazer nada para impedir o tráfico de entorpecentes.
Enojado, Princer baixou os olhos.
Que gente é essa?”, indagou-se mentalmente. “Não têm o menor escrúpulo em empregar a influência das perigosas drogas para alcançar seus objetivos.”
Princer sabia perfeitamente que o administrador fazia tudo que estava ao seu alcance para desmantelar a organização dos contrabandistas.
Entesou-se involuntariamente. O acaso fizera com que penetrasse num covil de criminosos. E agora lhe oferecia a possibilidade de desmascará-los e transmitir uma informação preciosa a Rhodan.
Aplied”, lembrou-se. “Deve ser um nome muito importante. Preciso obter outras informações sobre esse homem.”
Aplied está preocupado, Valmonze — disse. — Acha que o negócio não é seguro. Tem medo de que Rhodan utilize seus mutantes.
Mutantes? — repetiu Valmonze. — Nunca vi nenhum. Ora, vejam: Vincent Aplied está com medo. Quem diria!? O que está querendo? Afinal, fica tranqüilamente na Cidade do Cabo e ganha um bom dinheiro.
Vincent Aplied! Cidade do Cabo!
Princer teve de esforçar-se para disfarçar a surpresa. Aplied era um dos fazendeiros mais conceituados da África do Sul. Princer nunca teria imaginado que Valmonze, quando em comunicação internaves, se referia a esse Aplied. Agora tinha certeza. O chefe do grupo de traficantes era um terrano. Princer não compreendia. Afinal, Aplied devia conhecer as conseqüências de sua ação criminosa.
Como comunicar essa descoberta a Rhodan?”, perguntou-se.
Por enquanto não havia a menor possibilidade. Talvez o acaso, que o salvara, poderia ajudá-lo mais uma vez.
Assim que chegarmos ao planeta Alaze, a papoula será redespachada. Nossos fregueses estão esperando. Terrano, o senhor já viu um viciado pertencente a uma raça extraterrena? Não é uma visão nada agradável. A reação destas criaturas diante dos entorpecentes é muito mais intensa que a dos homens.
Princer teve de fazer um grande esforço para não precipitar-se sobre o saltador. Isso estragaria tudo. Pensou nas palavras de Valmonze. O patriarca acabara de dizer que a papoula seria redespachada imediatamente. O gigante-supermacio podia ter o aspecto da papoula, mas não havia dúvida de que seus efeitos não eram os mesmos. Isso significava que o prazo, que Princer e sua esposa haviam conseguido, chegaria ao fim assim que pousassem no planeta Alaze. O terrano abaixou-se e pegou a caixa com semente de espinafre. Recolocou-a no devido lugar. Valmonze observou-o com um sorriso nos lábios.
Daqui a pouco realizaremos uma pequena transição — anunciou o patriarca. — Se desejar, poderá dispor de dois aposentos a bordo da Vai I. Naturalmente pode ficar a bordo de sua nave, se preferir.
Ficaremos aqui — decidiu Princer. — Não demoraremos a chegar, e por isso não adianta mudar de lugar.
Naturalmente — disse Valmonze. Fez uma ligeira mesura para Cora. Foi um gesto irônico, pois em sua opinião não havia lugar para mulheres, durante as negociações dos saltadores.
Saiu da Error. Seu filhos seguiram-no.
Empertigado que nem um pastor de aldeia, John Edgar Princer caminhou em direção a uma poltrona e deixou-se cair. Só agora lembrou-se de outro perigo.
O que aconteceria quando Shaugnessy aparecesse com a verdadeira papoula?”, indagou-se em pensamento.
A resposta era simples. Quer descobrisse a verdade sobre o gigante-supermacio, quer a chegada de Shaugnessy o esclarecesse sobre a situação, a reação de Valmonze seria violenta. Princer sabia perfeitamente que suas vidas continuavam em perigo; apenas haviam conseguido um adiamento. E, ainda dentro deste adiamento, teriam de encontrar um meio de enviar uma mensagem de rádio à Terra, a fim de informar Perry Rhodan sobre as maquinações de Vincent Aplied.
Foram embora — disse Cora em meio às suas reflexões. — Nunca acreditaria que conseguíssemos sobreviver a isso.
Parecia cansada. Princer sentiu pena dela.
Tivemos sorte — disse. — A sorte não se repetirá.
Cora levantou-se do assento do piloto e foi para junto do marido. Perplexo, este indagou a si mesmo se seria a presença da esposa que lhe dava forças para controlar-se.
Devemos tentar entrar em contato de rádio com a Terra ou com alguma nave terrana — disse. — Rhodan precisa saber quem está atrás do tráfico de entorpecentes.
Cora apontou para as instalações de rádio da Error.
Não — disse Princer. — Valmonze interferiria imediatamente na minha transmissão. Seu rádio é mais potente que o nosso. E dentro de um minuto estaria aqui, com uma arma e uma série de perguntas desagradáveis. Devemos ter certeza de que conseguiremos transmitir um texto completo.
O videofone emitiu um zumbido. Princer foi para junto do aparelho e ligou-o. O rosto barbudo de Valmonze apareceu na tela. Fitou o jovem por um instante e resmungou:
Prepare-se para a transição. Não será muito ruim, pois a distância é pequena.
Obrigado — disse o terrano.
Um único hipersalto os levaria para dentro da cova do leão.
4



O planeta Alaze era um mundo de oxigênio, mas à primeira vista Princer teve uma decepção.
A atmosfera densa permitia que se respirasse sem traje protetor. Porém o terrano teve a impressão de que, em comparação com o da Terra, o ar do planeta era irrespirável. Tinha um cheiro de terra úmida, semelhante ao das folhas apodrecidas.
A Val I pousara sem problemas no espaçoporto. Mais duas naves cilíndricas, a Val IV e VII, repousavam sobre as colunas de apoio. Valmonze informou que precisavam de reparos.
Princer encontrava-se na comporta de tripulantes da Val I, juntamente com a esposa e com o patriarca. Embaixo deles já rolavam os veículos de carga, todos eles tripulados por saltadores. O jovem não descobriu nenhum nativo. Provavelmente o espaçoporto era cuidadosamente isolado pelos saltadores.
Valmonze, um espírito empreendedor, berrava suas ordens. Vez por outra virava-se para Princer, com um sorriso no rosto.
Retiraremos sua navezinha; a papoula será descarregada imediatamente — anunciou. — Há tempo esperamos uma oportunidade de cultivarmos nossa própria papoula.
Entrou no elevador que levava da comporta para o campo de pouso. O vento brincava em sua barba e fazia esvoaçar a capa. Princer conseguiu lançar um olhar para o braço, que era mais grosso que a coxa do jovem.
Venha — pediu Valmonze. — Vamos descer.
O terrano parecia inseguro no elevador. Apoiava-se com as duas mãos. Valmonze ajudou Cora. Lançou um olhar de desprezo para Princer. Este sentiu o olhar e começou a ficar nervoso.
O que houve com o senhor? — perguntou Valmonze.
Sempre me sinto mal nos elevadores — respondeu em tom desolado.
Valmonze fitou-o perplexo; até parecia que o via pela primeira vez.
O senhor não é um astronauta?
O elevador começou a movimentar-se. O rosto de Princer mudava do pálido para o vermelho. Segurava-se desesperadamente na balaustrada. Valmonze cocou a barba, pensativo. Cora viu-o balançar a cabeça. Finalmente a plataforma chegou ao solo. Valmonze saltou. O terrano seguiu-o com os joelhos trêmulos. Alguns saltadores, que se encontravam nas proximidades, não fizeram o menor esforço para disfarçar o quanto os divertia a triste figura de Princer.
Se estiver em condições, dirija o olhar para a comporta de carga — disse Valmonze, em tom mordaz.
Princer parou. O quadro que se lhe ofereceu não contribuiu para que se sentisse melhor. A Error estava saindo do ventre da Vai I. A comporta do jato espacial estava aberta. Carros aproximaram-se. Alguns saltadores tiraram o gigante-supermacio do interior da Error e o colocaram nos carros.
Gostaria de apanhar alguns dos meus pertences — disse Princer. — Vou dar um pulo até a nave.
Valmonze limitou-se a acenar com a cabeça. O terrano piscou para Cora e saiu.
Quando chegou à Error, os saltadores já haviam concluído seu trabalho. O coração do jovem disparou. Teria ainda chance de expedir uma mensagem pelo rádio! Andou mais depressa. Um dos carros passou por ele. Na plataforma de carga estavam empilhados os volumes de semente de espinafre destinados a Ferrol.
Princer entrou na comporta da nave e olhou apressadamente em torno. Não havia ninguém em seu interior. Os pacotes de cigarros continuavam no mesmo lugar.
Com dois passos, o jovem colocou-se junto ao aparelho de telecomunicação. Num instante acionou os controles. O aparelho emitiu um estalido e começou a zumbir. Princer inclinou-se sobre o microfone.
Mas não chegou a proferir uma única palavra.
Por que está mexendo nisso? — disse a voz de barítono de Valmonze.
Princer estremeceu. Virou-se apressadamente. Deparou-se com Valmonze, em cujo rosto havia uma expressão obstinada. Cora encontrava-se no interior da comporta. Seus olhos denotavam temor.
Eu me esqueci de desligar o aparelho — gaguejou Princer. — O senhor me assustou.
Depois de sorrir para Valmonze e desligar o telecomunicador, completou:
Também queria levar estes cigarros. Pegou os pacotes.
Deixe-se de brincadeiras com o rádio. A área está sendo vigiada ininterruptamente. Quer pôr nossos controles em pânico?
É claro que não — asseverou Princer. — Afinal, não aconteceu nada.
Está na hora de irmos à sede — disse Valmonze. — Estou curioso para saber o que dirão meus amigos, quando virem a semente.
O terrano não se sentia capaz de compartilhar da curiosidade de Valmonze. Sabia perfeitamente que a primeira tentativa de obter papoula da semente de gigante-supermacio representaria um fracasso total.
O filho do presidente da IFC parou em atitude indecisa, segurando os pacotes de cigarros como se fossem uma arma.
O que está esperando? — perguntou Valmonze, em tom impaciente.
O sorriso simplório de Princer deixou o patriarca nervoso.
Não quero ser indelicado — disse o jovem. — É a primeira vez que minha companheira e eu estamos neste planeta. O senhor há de compreender que nos interessamos pelos nativos. A fabricação de entorpecente não nos pode oferecer qualquer novidade, pois lidamos muitas vezes com isso. Gostaríamos de andar um pouco por aí.
Percebia-se perfeitamente o que Valmonze achava de passeios desse tipo. Apesar disso dirigiu-se a Cora.
O que acha?
As conversas sobre negócios me causam tédio — disse Cora.
Bem que eu gostaria de conhecer os princípios que Aplied usa na seleção do seu pessoal — resmungou Valmonze. — Shaugnessy sempre teve suas idéias malucas, mas nunca deixou de participar das reuniões. Bem, se quiserem, andem um pouco por aí. Há uma aldeia dos nativos próxima ao campo de pouso. Essas criaturas falam sofrivelmente o intergaláctico. Talvez consiga fazer com que alguns deles desçam das árvores.
Por pouco Princer não pergunta o que os nativos faziam em cima das árvores. O patriarca deveria supor que Shaugnessy ou Aplied informaram os novos contrabandistas sobre as condições reinantes no planeta Alaze. Qualquer pergunta suspeita poderia provocar a desconfiança do saltador.
O terrano movimentou as pernas longas e magras, e saiu da Error. Cora e o patriarca seguiram-no. Valmonze apontou para um edifício situado na periferia do espaçoporto.
Siga nessa direção. Mas não faça nenhuma marcha forçada. Deverá permanecer ao nosso alcance, para quando precisarmos do senhor.
Princer fez que sim. Cora apoiou-se em seu braço, e caminharam em direção ao edifício que lhes fora indicado. Por um instante Valmonze seguiu-os com os olhos, balançando a cabeça. Depois saiu em direção... à maior surpresa que já tivera em sua vida!

* * *

Face às dimensões das naves dos salta-dores, o espaçoporto do planeta Alaze era enorme. Ficava no fundo de um vale e estendia-se por uma área de três quilômetros. Para os mercadores galácticos, a instalação de um entreposto comercial era apenas uma questão de rentabilidade. Um espaçoporto dessa extensão era bastante dispendioso, e, evidentemente, não era construído em todos os seus entrepostos. Só os mundos que apresentassem condições especiais possuíam instalações desse tipo.
Os saltadores encaravam qualquer questão sob o ângulo econômico e comercial. Praticamente viviam como nômades e geralmente ficavam mais tempo no interior de suas naves. Por isso precisavam de espaçoportos em que pudessem pousar a intervalos regulares, a fim de cuidarem do reparo de suas naves ou de outros assuntos importantes. A riqueza de cada clã dos saltadores dependia da capacidade do patriarca.
Há várias gerações os saltadores detinham o monopólio do comércio em todos os planetas habitados que podiam ser alcançados com suas naves cilíndricas. Mas, nos últimos anos, surgira um forte concorrente:
O Império Solar.
Os comerciantes e economistas terranos lutavam obstinadamente contra o poder financeiro dos mercadores galácticos. Por enquanto os saltadores se haviam guiado por um princípio muito simples. Agarravam tudo que pudessem conseguir por suas mercadorias. Objetos adquiridos a preços vis eram “trocados” por mercadorias valiosas.
Mas essas condições chegaram ao fim. As naves cargueiras terranas apareceram pelos planetas e pela primeira vez eram oferecidos às outras inteligências da Galáxia preços honestos por suas mercadorias. Antes que os saltadores compreendessem o que estava acontecendo, a Terra já tinha firmado contratos comerciais com inúmeros planetas.
Daí em diante, os mercadores das naves, galácticas passaram a recorrer a qualquer meio, fosse ele qual fosse, para enfraquecer a posição da Terra.
John Edgar Princer sabia sobre os saltadores tanto quanto qualquer cidadão da Terra, interessado no destino de seu povo. Ao que tudo indicava, isso estava para mudar.
Acompanhado pela esposa atingira a extremidade do campo de pouso. Cora agarrou sua mão.
Johnny, não demorarão a perceber o que realmente temos a bordo da Error — disse Cora. — Quando isso acontecer, eles nos levarão de volta.
Princer olhou para as montanhas, onde se estendiam florestas sombrias.
Temos de fugir — disse. — É nossa única possibilidade de sobrevivência. Talvez os saltadores tenham outros estabelecimentos neste planeta, e muita coisa a fazer. Depois de algum tempo, talvez reduzam a vigilância. Quando isso acontecer, teremos uma chance de expedir nossa mensagem.
Cora olhou para trás. Teve a impressão de que Johnny não conseguiria enganar os saltadores.
Fugir! — repetiu Cora. — Dê uma olhada, Johnny! Não conhecemos este planeta. Nem sequer sabemos para onde dirigir nossos passos. Antes que tenhamos tempo de achar um esconderijo, eles nos encontrarão.
Continuaram andando. Princer não tinha nenhuma idéia clara sobre a maneira pela qual poderiam salvar-se. Mas uma coisa era certa: se parassem, dentro em breve estariam em poder de Valmonze.
Passaram do pavimento liso do espaço-porto para uma área coberta de pedregulho cinzento, na qual se viam algumas moitas de capim. Princer olhou para trás. Ninguém os seguia. A uns cem metros do lugar em que se encontravam, ficavam as primeiras árvores. Os gigantescos troncos eram marrom-escuros. A folhagem era tão densa que tinha o aspecto de uma massa compacta. O terrano esperava que por ali houvesse um local onde pudessem esconder-se.
Você está andando muito depressa — queixou-se Cora.
Dando-se conta do seu erro, Princer andou mais devagar. Se cansasse Cora demais, teria de pagar por isso mais tarde. Precisavam controlar suas forças.
Pensei que minha viagem de núpcias fosse mais confortável — disse Cora, em tom sarcástico.
A culpa é exclusivamente minha — disse ele, muito abatido. — Fiquei em cima do papai, pedindo que me desse o jato espacial. Agora, papai deve estar preocupado, pois eu lhe prometi que, chegando em Ferrol, entraria logo em contato com ele. A esta hora já deve esperar meu chamado.
Talvez mande procurar-nos — disse Cora esperançosa.
Sim; em Ferrol — confirmou Princer.
E se não nos encontrarem lá, onde poderão nos procurar? Não existe a menor possibilidade de localizar uma pessoa perdida no espaço.
Princer era um homem estranho. Preocupava-se com os outros, embora ele mesmo se encontrasse em situação muito mais grave. O fato de que o pai o procuraria em vão deixava-o muito mais triste que o perigo de ser capturado pelos saltadores.
Atingiram as primeiras árvores. O terrano suspirou aliviado. Avançavam com mais dificuldade, já que a vegetação rasteira e os montes de folhas secas lhes barravam o caminho. Quando viram aparecer os dois seres humanos, as aves nos galhos fizeram um pandemônio.
Será que por aqui faz muito frio de noite? — perguntou Cora.
À noite! Princer estremeceu. Nem se lembrara disso. Não sabia quanto tempo duraria a escuridão nesse mundo. O planeta Alaze possuía um tipo de rotação estranha. Princer lembrava-se de ter lido alguma coisa a este respeito no catálogo estelar.
Não creio — respondeu. Abaixou-se para afastar alguns galhos.
Naquele momento, Cora, que se encontrava atrás dele, soltou um grito de pavor.
Princer virou-se abruptamente. Cora estava pendurada pela cintura, num laço que saía da folhagem impenetrável. Princer precipitou-se sobre ela, mas o corpo de sua esposa foi puxado para cima aos solavancos. O terrano agarrou-se desesperada-mente às suas pernas, mas as forças invisíveis eram mais fortes.
Apavorado, o jovem viu Cora desaparecer em meio à folhagem.
Cora! — gritou.
Vá embora, Johnny — ouviu sua voz. Mas o terrano nem pensava em fugir.
Entretanto, quando tentou galgar o tronco, sentiu-se também agarrado e erguido do chão. Virou-se rapidamente, porém um segundo laço selou seu destino. Travou uma luta silenciosa e inútil contra as cordas que o amarravam. Os seres invisíveis puxavam-no lentamente para cima.

* * *

Amat-Palong era um ara, um médico galáctico. Era alto e em sua cabeça não havia um único fio de cabelo.
Amat-Palong despejou uma substância cinzenta, que se encontrava num tubo de ensaio, para dentro de um funil. O pó deslizou para o interior de uma caixa. Amat-Palong colocou o resto do pó sobre uma laminazinha transparente. A lâmina foi colocada embaixo de um microscópio. Por alguns instantes, o ara olhou para dentro do microscópio, sem dizer uma palavra. Retirou a lâmina. Colocou-a na palma da mão e levou-a à boca. Umedeceu lentamente os lábios e soprou o pó cinzento que se encontrava sobre a laminazinha.
Amat-Palong balançou a cabeça. Dirigiu-se à escrivaninha e ligou o aparelho de intercomunicação.
Valmonze está por aí? — perguntou. Sua voz era monótona. Não tinha altos nem baixos; parecia inumana.
Está na cantina — responderam pelo pequeno alto-falante. — Seus filhos estão com ele.
Quero falar apenas com o patriarca — disse Amat-Palong, com suavidade. — Faça o favor de pedir-lhe que venha imediatamente ao meu laboratório.
Não aguardou a confirmação. Desligou. Lançou um olhar pensativo para suas mãos. Puxou uma cadeira para perto do lugar em que se encontrava. Ouviu o zumbido do elevador, e dali a pouco Valmonze entrou no laboratório. Segurava uma garrafa bojuda. Seus olhos achavam-se avermelhados.
Estava comendo — resmungou. — Talvez o senhor não compreenda... Mas, para mim, isso é uma atividade muito importante, durante a qual não gosto de ser incomodado.
Sem impressionar-se com a ira do saltador, Amat-Palong levantou-se. Valmonze tomou um grande gole da garrafa e arrotou. O médico lançou-lhe um olhar indiferente.
Então — disse Valmonze, em tom áspero. — Qual é o assunto tão importante que o senhor tem a me dizer?
Amat-Palong cruzou tranqüilamente os braços diante do peito.
Guarde a garrafa, mercador — disse com a voz fria. — Daqui a pouco, quando começar a dar ordens, o senhor precisará ter os pensamentos em ordem.
Valmonze fitou-o com uma expressão de incredulidade. Seus olhos estreitaram-se. Aproximou-se lentamente do ara.
Que modos são estes? — esbravejou. — Não se esqueça de que o senhor está falando com um patriarca.
Amat-Palong confirmou com um gesto.
Sei disso — respondeu. — Mas por quanto tempo o senhor ainda será patriarca?
Valmonze deu um passo para trás. Atirou a garrafa ruidosamente sobre a escrivaninha. Estava furioso. Mas, ao mesmo tempo, a segurança do ara o desconcertava.
Fale, antes que eu lhe quebre o pescoço pelas ofensas que acaba de proferir — berrou para Amat-Palong.
O ara não se abalou. Abaixou-se e abriu um armário. Suas mãos hábeis retiraram alguns sacos de plástico cheios de um pó branco. Ergueu-os até o rosto de Valmonze.
O que é isto, patriarca?
Heroína — fungou Valmonze. Amat-Palong pegou outros sacos, cujo conteúdo era marrom-escuro.
Isto é ópio — disse. — Foi extraído de sementes de papoulas não amadurecidas. Contém cerca de quinze por cento de morfina e quantidades menores de outros alcalóides. Até agora, sempre adquirimos os entorpecentes já preparados na Terra.
O patriarca fechou violentamente o armário. Segurou o médico pelo ombro.
O senhor sabe perfeitamente que a longo prazo isso se torna muito perigoso. Fizemos um acordo com Aplied, para ele nos mandar uma remessa de sementes de papoula, a fim de que possamos ter nossas próprias plantações. A semente já chegou. O que é que o senhor ainda deseja?
Quero semente de papoula... — disse Amat-Palong, em tom de desprezo. — O senhor pode ser um bom mercador, mas não entende nada destas coisas...
Valmonze lançou-lhe um olhar desconfiado.
O que quer dizer com isso?
Com a maior tranqüilidade, Amat-Palong pegou a caixa com o pó cinzento.
Aqui está, patriarca. E isto que o senhor acredita ser semente de papoula. Dê-se por satisfeito por não a ter redespachado. Dei-me ao trabalho de moer e examinar alguns grãos.
Valmonze apoiou pesadamente os dois braços sobre a mesa. Seu hálito chegava até o rosto do médico.
Há algo de errado com a semente? — perguntou.
Com a semente em si, não há nada de errado — respondeu Amat-Palong. — Apenas, se o senhor a semear, colherá legumes.
O patriarca arrancou a caixa da mão de Amat-Palong. A veia do seu pescoço estufou. Contemplou a semente moída.
Quer dizer que isto não é semente de papoula?
Tem o aspecto da semente de papoula — disse o ara. — Na verdade, porém, é coisa bem diferente.
Valmonze atirou longe a caixa e soltou uma forte praga. Levantou o punho, num gesto de ameaça.
Aplied enganou-me; que patife... Não teve a menor dúvida em brindar seu parceiro de negócios com certas expressões, que se aplicariam perfeitamente a ele mesmo.
Sem dúvida acreditava que eu venderia a semente, sem examiná-la! — berrava o patriarca.
Amat-Palong manteve-se tranqüilo diante da irrupção do mercador. Quando Valmonze se acalmou, disse:
Não posso imaginar que Aplied use truques tão primários. O senhor deveria interessar-se por seu elemento de ligação, o tal do Shaugnessy. Quem sabe se ele não pensou que nos podia enganar?
Shaugnessy? — os olhos de Valmonze chamejavam. — Shaugnessy não veio. Aplied mandou outra pessoa. Seu nome é Princer.
Será que isso faz alguma diferença? Pouco importa que o senhor seja enganado por uma pessoa que se chama Shaugnessy ou Princer.
O senhor deveria ver esse terrano — gritou Valmonze, em tom indignado. — É o maior imbecil que já apareceu neste sistema. Tem medo de elevadores e não tem a menor idéia do nosso negócio.
Bateu fortemente no peito do ara.
Mandarei buscá-lo. Veremos se mentiu para nós.
Amat-Palong riu.
Não há nada mais fácil que isso. Prepararei uma injeção que fará o tal do Princer contar qualquer coisa que o senhor queira.
Valmonze dirigiu-se ao sistema de intercomunicação do ara e ligou-o. Resmungou seu nome e começou a dar ordens.
Procurem o terrano e a mulher que vieram conosco na Val I. Têm de ser trazidos imediatamente. Aguardo no laboratório.
Satisfeito, deixou-se cair numa cadeira.
Pronto — disse. — Vamos cuidar do Princer.

* * *

Folhas e galhos roçaram em seu rosto. Subitamente sentiu chão firme sob os pés.
Os laços foram afrouxados. O terrano olhou em torno. Encontrava-se sobre uma plataforma construída entre os galhos. Era feita de tábuas toscas. Cora, que se encontrava a um metro de distância, desvencilhava-se da corda.
Princer olhou para o alto. Acima de sua cabeça havia uma cabana de folhas, presa aos galhos mais grossos. Quatro estranhas criaturas estavam sentadas na entrada da mesma. Seu tamanho era o de um homem normal. Mas este era o único ponto de semelhança com os terranos. Em suas cabeças de pássaros brilhava um par de olhos negros e inteligentes, rodeados por um círculo de penas. Um bico largo e curto dominava o rosto. Princer notou que seus braços, quando abertos, formavam asas. Imaginava que naquela atmosfera densa deviam ser perfeitamente capazes de voar. Os corpos estavam cobertos por penas.
Princer compreendeu o que Valmonze quis dizer quando lhe sugeriu que tirasse os nativos de cima das árvores.
São nativos — disse a Cora, em tom tranqüilizador. — Não devem ser perigosos, pois do contrário o saltador nos teria prevenido.
Um dos pássaros desceu para a plataforma em que se encontravam. A folhagem densa não permitia que voasse, motivo por que desceu pelas cordas.
Nós fazer brincadeira gostosa — disse, cumprimentando Princer num péssimo intergaláctico. — Puxar gente sem asas do chão.
Enquanto falava, seu bico batia. A voz parecia rouca e estridente. Princer tinha idéias bem definidas sobre o senso de humor. E essas idéias não incluíam o uso de armadilhas. Piscou para Cora.
Deixe-nos descer — pediu. — Estamos com pressa.
O ser-pássaro contemplou-o com uma expressão astuciosa. Sua mão em garra apontou para os pacotes de cigarros que Princer trazia sob o braço.
Isso ser presente para Schnitz? — perguntou em tom curioso.
O terrano caminhou em sua direção. A plataforma começou a balançar. Schnitz parecia não se importar com isso, mas Princer empalideceu. Seu corpo balançava no ritmo das tábuas. Cora segurou-se num galho.
Presente? — repetiu Schnitz, impaciente.
Princer não se sentia muito disposto a fazer presentes. Enquanto estavam perdendo tempo, os saltadores talvez já tivessem iniciado a perseguição.
Nada feito, amigo — disse ao nativo. — Não temos presentes. Queremos seguir nosso caminho.
Schnitz fitou-o prolongadamente. Grasnou em sua língua incompreensível para os três companheiros que continuavam sentados na frente da cabana. Princer assustou-se ao notar que estes também desceram para a plataforma, que estremeceu sob o peso. O jovem usou a mão livre para segurar-se numa das cordas.
Gente sem asas agora querer dar presente para Schnitz? — perguntou o nativo, numa ameaça evidente.
Dê-lhe um maço — disse Cora. — Talvez com isso ele se torne mais amistoso. E eu também gostaria de fumar.
Princer cedeu contra a vontade ao desejo da mulher. Entregou um maço a Schnitz e abriu um outro para Cora.
Schnitz, muito nervoso, começou a examinar seu presente. Os companheiros acompanharam-no com uma tagarelice insuportável.
Isto me acalma — disse Cora, com um suspiro de alívio e soltando uma baforada.
Schnitz fitou-a com uma expressão de curiosidade. Aspirou a fumaça.
Não quer fumar, Johnny? — perguntou Cora.
Princer lançou um olhar acanhado para a copa da árvore.
Você sabe perfeitamente que não fumo — respondeu. — Meu estômago não suporta.
Schnitz, que chegara mais perto de Cora, aspirou fortemente a fumaça. O terrano contemplou a cena com uma expressão de repugnância. Não compreendia como um ser inteligente podia agir dessa forma.
Parece que está gostando — observou Cora.
De repente Schnitz começou a girar em torno do próprio eixo. Estendeu os braços, e as asas entesaram-se. Cambaleava de uma extremidade da plataforma para outra, como se estivesse bêbado. As tábuas rangiam e estalavam.
Este sujeito ainda acabará nos atirando lá embaixo! — exclamou Princer.
Cambaleante, Schnitz voltou a aproximar-se de Cora. O terrano preferiu não barrar seus passos. Para isso teria de soltar a corda. E se o fizesse, poderia perder o equilíbrio e cair da plataforma. Os outros três seres-pássaro também tiveram seu interesse despertado para a fumaça. Seguiram Schnitz e aspiraram gulosamente as emanações do tabaco.
Jogue fora o cigarro! — gritou Princer para a esposa. — Você não vê que a fumaça os embriaga?
Schnitz e seus companheiros deixaram de lado toda a cautela e todas as considerações. Executaram uma dança sobre as tábuas, fazendo com que o suor porejasse na testa de Princer.
Pare! — gritou o terrano. — Pare com isso!
Schnitz cambaleou em sua direção; parecia feliz.
Gente sem asas trazer bom presente — gritou com a voz rouca. — Também ter desejo?
Tenho — disse Princer, falando com dificuldade. — Estamos fugindo dos saltadores. É importante que encontremos um esconderijo e saiamos logo daqui. Pode ajudar-nos?
Ajudamos — disse prontamente o nativo. — Schnitz mandar amigo ao campo de pouso. Amigo observar saltadores. Enquanto isso Schnitz fazer assentos de carregar.
O nativo conversou com um dos companheiros, que subiu à copa da árvore. Princer imaginou que o ser-pássaro voaria para o espaçoporto.
O que vêm a ser os tais dos assentos de carregar? — perguntou Cora, em inglês. — Será que os nativos pretendem carregar-nos pela selva?
Princer imaginava que a intenção de Schnitz não seria muito diferente da suposição levantada por Cora. E devido a tal idéia, uma sensação de insegurança invadiu-o. Perguntou a si mesmo se, depois que cessasse o efeito do cigarro, a disposição amistosa dos seres-pássaro continuaria.
Que tal se, vez por outra, você fumasse um cigarro? — sugeriu a Cora. — Com isso nossos amigos continuarão bem-humorados...
Mas antes que concluísse, sua consciência começou a acusá-lo.
Não, não é justo que nós os exploremos em nosso benefício — censurou-se em tom violento. — Nós os envolvemos em algo com que não têm nada a ver.
Se você não quer fazer nada por si mesmo, comece a pensar em mim — respondeu Cora. — Ou então procure lembrar-se do plano de informar Perry Rhodan sobre as pessoas envolvidas no contrabando. Mas se, a cada passo, você ficar refletindo sobre o que é certo ou não é, nada conseguiremos. Não acha?
Enquanto Cora falava, Princer enrubesceu. Fitou-a com uma expressão desolada. Seus dedos começaram a puxar a corda, como se aquilo fosse um trabalho inadiável. Cora aproximou-se pela plataforma balouçante.
Sinto muito, Johnny — disse. — Acho que fiz mal em recriminá-lo. Concordo com tudo que você fizer — acariciou seu rosto.
Você está com a razão — contrapôs Princer em tom áspero. Inclinou-se para beijá-la, mas o balanço da plataforma fez com que desistisse imediatamente do seu intento. — Você não precisa fumar todos os cigarros, pois também fumarei alguns.
Entesou o corpo e voltou a dirigir-se a Schnitz, que se balançava tranqüilamente numa corda.
O que pretende fazer com os assentos? — perguntou.
Voar com gente sem asas — anunciou Schnitz laconicamente. — Faremos vôo longo, até chegar bom esconderijo.
A simples idéia de um vôo fez com que o estômago de Princer se revoltasse.
Somos muito pesados — objetou. — Nenhum de vocês conseguirá carregar-nos.
Em quatro — disse Schnitz, em tom alegre. — Dois de nós carregarão um sem asas.
O que você acha do plano? — perguntou Princer, dirigindo-se à esposa.
Os nativos conhecem esta terra — ponderou Cora. — Sabem perfeitamente para onde ir. Penso que essa forma é a única segura. Tenho a impressão de que uma marcha pela floresta torna-se perigosa.
Está bem — disse Princer. — Schnitz, vamos voar nos assentos de carregar.
Schnitz deu uma ordem a um dos companheiros, e o nativo subiu até ao “palanque”. O terrano gostaria de obter outras informações sobre esses seres-pássaro, mas não queria perder tempo com perguntas.
Tinha a impressão de que o lugar, onde no momento se encontravam, era um posto de observação que lhes permitia vigiar os saltadores. A plataforma não parecia ser a residência dos seres-pássaro.
Cora acendeu outro cigarro. Schnitz contemplou-a com uma expressão feliz e farejou gostosamente. Princer sentia uma simpatia inexplicável pelos nativos. Justamente por isso não estava gostando de recorrer a este método, isto é, embriagá-los com fumaça.

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