Autor
WILLIAN
VOLTZ
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Um toque
errado — e uma lua-de-mel
desagradável...
Surgiu
a nova época na história da Humanidade!
Desde
os acontecimentos narrados no penúltimo número, 57 anos são
passados, o calendário na Terra está marcando o ano 2.102.
Muita
coisa aconteceu neste intervalo. Já passou o perigo dos druufs, e a
zona de superposição entre os dois universos há muito se tornou
instável, impossibilitando uma penetração. Com o apoio dos
terranos, o arcônida Atlan conseguiu consolidar sua posição como
imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu bons
frutos, mormente para os terranos, que já ocupam cargos de relevo em
Árcon. Atlan não pode dispensá-los, pois não confia na maioria
dos seus conterrâneos.
O
Império Solar se transformou na maior e mais importante potência
comercial das Galáxias. Há mais de 22 anos que são quase
ininterruptas as correntes imigratórias para mundos que prestam-se à
colonização. Conseqüência disso é a existência de embaixadas e
representações comerciais da Terra em muitos planetas habitados por
inteligências estranhas.
Em
resumo, para muitos homens, o sonho de seus avós e bisavós —
viajar pelas estrelas — tornou-se realidade. Hoje, até viagens de
núpcias podem ser realizadas...
Mas
quando um casal partiu em lua-de-mel, não poderia imaginar o perigo
que os ia envolver a centenas de anos-luz da Terra...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
John
Edgar
Princer
— Vice-presidente
da IFC.
Cora
Princer
— Sua
esposa.
Valmonze
— Um
patriarca dos saltadores.
Clifton
Shaugnessy
— Terrano
de mau caráter.
Major
Woodsworth
— Comandante
da Cape Canaveral.
Schnitz
— Ser-pássaro,
nativo de Alaze.
1
Mark
Denniston soltou um suspiro e deixou-se cair na poltrona muito macia
que se encontrava à frente da mesa de Princer. Denniston era um
homem de aspecto robusto, de pouco mais de quarenta anos, que tinha
um rosto enérgico e mãos que pareciam patas de urso. Mas naquele
instante não dava mostras de sua energia.
— O
senhor não pode exigir uma coisa dessas de mim, chefe! — exclamou
com um gemido. — O senhor sabe que eu seria capaz de ir buscar uma
caixa de limões no inferno. Mas isso não!
Princer
contemplou-o com uma expressão de benevolência. A idéia de que, se
necessário, poderia contar com limões vindos do inferno, parecia
dar-lhe uma disposição pacata. Piscou para Denniston, movimentando
suas sobrancelhas hirsutas.
— Sabe
por que gosto tanto do senhor, Mark? — perguntou.
Ao que
parecia, Denniston não fazia questão de agradar e manteve-se num
silêncio obstinado. Princer prosseguiu:
— O
senhor tem um jeito muito agradável de se opor às minhas ordens
e... depois... cumpri-las.
Denniston
comprimiu as mãos gigantescas uma contra a outra, como se quisesse
esmagar alguma coisa.
— Escute,
chefe — disse, fazendo mais uma tentativa. — Sou comandante de
uma de suas naves cargueiras. Levo verduras e frutas para Vega ou
para qualquer lugar que o senhor queira. Há anos trabalho para a
Intercosmic
Fruit Company.
E agora o senhor quer que eu faça o papel de baby
sitter.
O rosto de
Princer assumiu a expressão de quem havia mastigado alguns grãos de
pimenta.
— Ora,
Mark, o senhor está falando de meu filho John Edgar Princer. Afinal,
o bebê já é vice-presidente de nossa companhia.
Denniston
não deu nenhuma resposta, mas pela expressão de seu rosto notava-se
que não gostava de vice-presidentes, especialmente desse que acabava
de ser mencionado. Lançou um olhar sombrio para Princer.
— O bom
menino — Denniston estremeceu ao ouvir estas palavras — acaba de
casar. Dei uma pequena nave de presente a ele e a sua esposa. Quer
usá-la na viagem de núpcias. Uma vez que nossa família costuma
combinar o útil com o agradável, levará uma carga de
gigante-supermacio, que deve ser entregue em Ferrol, no sistema de
Vega.
O
astronauta começou a demonstrar um pouco de interesse.
— Gigante-supermacio?
O que é isso? — perguntou.
Archibald
Princer, presidente do Conselho Fiscal da IFC, lançou um olhar para
seu interlocutor, revelando não ter uma boa impressão das pessoas
que não sabiam o que vinha a ser o gigante-supermacio.
— É
nossa nova semente de espinafre — explicou em tom compenetrado.
Denniston
enrubesceu.
— Espinafre...?
— repetiu em tom incrédulo. — O senhor quer que eu voe para Vega
com essa supersemente e os recém-casados?
— Modere
sua linguagem, Mark — pediu o velho Princer, com severidade. — Em
nossa firma não se costuma fazer tal tipo de piadas.
Denniston
ficou um tanto perplexo.
— Não
tenho escolha — disse em tom desanimado. — Comunique a seu filho
que decolaremos dentro de alguns dias.
Princer
parecia ter mais uma novidade para o comandante. E realmente tinha.
— Mark,
como sabe, meu filho não foi aceito na Frota Solar. Pelo que dizem
tem um defeito na estrutura óssea e é daltônico. Estas... bem,
estas ninharias bastaram, e meu filho John Edgar foi rejeitado.
Dei-lhe oportunidade para obter numa academia particular o breve de
piloto espacial de segunda classe. Quer dizer que tem o direito de
pilotar a nave-disco que lhe ofereci como presente de casamento.
Nos olhos
de Denniston surgiu uma expressão que parecia ser de esperança.
— Quer
dizer que seu filho pode dispensar minha companhia — disse.
O
presidente da IFC balançou a cabeça.
— Não,
Mark. John Edgar não tem experiência no espaço. Além disso, sua
finada mãe lhe deu uma educação muito branda. O rapaz precisa de
um apoio. Quero que o senhor o acompanhe e cuide para que eu o reveja
são e salvo.
— Quer
dizer que é um novato — respondeu o astronauta.
Princer
levantou as mãos, num gesto negativo.
— Não
pense em tutelar o rapaz. Deixe que cuide das coisas sozinho. Ele não
sabe que o senhor é uma velha raposa-do-espaço. Pensa que é uma
espécie de... bem, uma espécie de mordomo.
— Mordomo!
— disse Denniston, fortemente abalado. — Era só o que faltava!
— Não
lhe diga o que deve fazer. Quero que o rapaz se torne independente.
Mark, prometa-me que só intervirá, quando houver uma necessidade
absoluta.
Denniston
respondeu em tom rígido:
— Serei
um perfeito mordomo.
— A
quarentena já foi suspensa — disse Princer. — Toda a população
da Terra foi vacinada. Terrânia é o único lugar do qual ainda não
pode decolar nenhuma espaçonave. Acho que essa medida de Rhodan é
muito inteligente. Não quer arriscar nada. Se, dentro de uma ou duas
semanas, não surgirem outros casos de doença, também em Terrânia
as coisas voltarão ao normal. De qualquer maneira, poderemos
decolar. Ou melhor, Cora, John Edgar e o senhor poderão decolar.
— Não
se esqueça da gigantesca semente supermacia — disse Denniston em
tom aborrecido.
*
* *
O
espaçoporto particular da Intercosmic Fruit Company ficava a pouco
menos de duzentos quilômetros de Denver, capital do Colorado, um dos
estados-membros dos E.U.A. Era o lugar ideal para o recebimento e a
expedição de mercadorias, principalmente de frutas e verduras.
Gigantescos silos e instalações frigoríficas cercavam a extensa
área.
Mark
Denniston olhou pela janela do escritório do setor de tráfego. Um
grande cargueiro estava sendo descarregado. Os guindastes retiraram
as caixas pelas escotilhas e empilharam-nas no chão. Para Denniston,
aquilo era um espetáculo familiar.
De repente
viu uma coisa que lhe era menos familiar, mas, em compensação,
muito engraçada. Um homem passou pelo portão dos fundos e
atravessou obliqua-mente o campo de pouso. Estava carregado de
embrulhos. Denniston sorriu. O estranho andava como se fosse uma
ursa-da-austrália balançando seu filhote. Era alto e magro; as
roupas esvoaçavam em torno do corpo. Movia-se com a compenetração
infeliz de um flamingo que encolheu uma perna e tem de saltitar com a
outra.
Denniston
soltou uma gargalhada.
— Olhem
— disse, dirigindo-se aos funcionários do escritório. — Quem
será essa ave estranha?
— É
John Edgar Princer — disse com um sorriso um homem que se
encontrava atrás de um ditafone. — É filho do presidente.
A alegria
de Denniston desapareceu mais depressa que uma gota de água no bocal
de um jato. O “animal
de carga”
aproximara-se o bastante para que o comandante pudesse ver-lhe o
rosto. Denniston teve a impressão de que esse rosto bastaria para
encher todas as noites a transmissão de despedida. Um par de enormes
olhos azuis, transbordantes de tristeza, fitava o mundo com uma
expressão de melancolia.
O
comandante Mark Denniston engoliu em seco e saiu do escritório. Na
porta trombou com Princer Jr., cuja visão era obstruída pelos
embrulhos.
— Desculpe!
— gritou uma voz fina para Denniston.
A primeira
tarefa do astronauta consistiu em ajudar John Edgar a recolher o
conteúdo de alguns embrulhos que se haviam arrebentado. Princer
estava de joelhos, e seu corpo executava contorções de que
Denniston nunca o teria julgado capaz, se não as tivesse visto com
seus próprios olhos.
O
comandante rastejou para junto de Princer e colocou alguns objetos
sobre os braços do vice-presidente.
— Bom
dia, sir — disse. — Meu nome é Mark Denniston.
Levantaram-se.
Princer procurou apertar-lhe a mão. Com isso, a carga começou a
balançar perigosamente. Denniston pegou a metade dos embrulhos.
— Por
que não chama alguém que carregue isso para o senhor? — perguntou
em tom de espanto. — É muito pesado para uma pessoa.
Princer
enrubesceu.
— Não
quero incomodar ninguém — disse em tom apressado. — Por favor,
não me chame de sir. Meu nome é Johnny.
— Está
bem, Johnny — disse Denniston, com uma alegria forçada. — O que
pretende fazer agora?
Princer
lançou-lhe um olhar embaraçado. Ao que parecia, não estava
acostumado a que deixassem as decisões por sua conta. Provavelmente
teria preferido enfiar-se numa toca de rato, se houvesse uma do seu
tamanho.
— Vamos
até a Error
— sugeriu.
Apavorado,
Denniston perguntou de si para si o que significava esse estranho
nome. Mas Princer, em cujo rosto surgira um sorriso embaraçado, logo
o esclareceu a este respeito.
— Error
significa erro — disse. — Dei este nome ao jato espacial que
papai me deu. Trata-se de uma alusão ao erro que os médicos da
Frota Solar cometeram ao rejeitar-me por várias vezes.
Para
Denniston, estas palavras representavam as linhas fundamentais de uma
nova filosofia. Conformado, segurou firmemente os embrulhos e seguiu
Princer, que caminhava todo empertigado, movendo sua longa figura com
uma graça toda especial.
Dali a
poucos minutos chegaram ao pequeno jato espacial. Ao primeiro lance
de olhos, Denniston notou que a pequenina espaçonave fora equipada
com tudo quanto era novidade. Representava uma imitação das famosas
naves-disco da Frota Solar, e provavelmente nada ficava devendo às
mesmas. Em relação ao conforto não deixava nada a desejar.
— A
semente do gigante-supermacio já foi colocada a bordo — disse
Princer. — Ainda tenho alguns cigarros que levarei para um amigo do
papai.
Lançou um
olhar indagador para o comandante, mas como este ficasse calado,
prosseguiu apressadamente:
— Papai
também está aqui. Está sentado no escritório para acompanhar
minha decolagem.
Cada vez
que Princer pronunciava a palavra papai, Denniston se encolhia alguns
centímetros. A idéia da decolagem que seria realizada por esse
rapaz deixava-o apavorado. Mas antes que pudesse refletir sobre isso,
uma moça aproximou-se do jato espacial. A mesma correspondia em toda
linha à idéia que Denniston fazia de uma mulher bonita; talvez até
chegasse a ser algo mais.
— Quem
é? — perguntou sem pensar em nada.
Princer
lançou-lhe um olhar triste.
— Minha
esposa — disse em tom nervoso.
“Os
campônios mais bobos sempre colhem as maiores batatas”,
pensou o astronauta.
— Esposa?
— repetiu em voz alta. — Como foi que o senhor conseguiu isso?
Mais uma
vez, Princer enrubesceu. Suas mãos apalpavam a jaqueta, e a língua
passou nervosamente pelos lábios.
— Bem,
eu... eu casei com ela — disse, para explicar o fenômeno.
Naquele
instante, Denniston viu o cachorro. Não o vira antes, porque
dedicara sua atenção exclusivamente à mulher, que conduzia o
animal por uma correia amarela. Aquele cachorro era uma das coisas
mais feias que Denniston já vira, com exceção talvez do vaso que a
tripulação de sua nave lhe entregara solenemente no dia em que fez
quarenta anos. O animal tinha a cor do barro; seu corpo era de um
bassê! A cabeça lembrava a de um sheltie, enquanto o rabo achava-se
tão enroscado que não se poderia ter certeza sobre sua raça ou
origem. Com uma expressão de perplexidade, Denniston fitou o par
“desigual”
que se aproximava.
— Este é
Mark Denniston, Cora — disse Princer, fazendo as apresentações. —
Mark, esta é minha esposa.
Cora
Princer tinha olhos escuros, nos quais se notava um brilho quente.
Denniston pegou a mão que a jovem lhe ofereceu, a fim de
cumprimentá-la. Naquele instante, o bastardo cor de barro rosnou e
procurou morder a perna de Denniston. Este deu um salto para trás. O
cachorro fitou-o atentamente.
— Minha
esposa possui Príncipe, desde antes do casamento — disse Princer,
em tom orgulhoso.
“Esse
Príncipe é uma coisa mais do que repugnante!”,
pensou Denniston.
— O
cachorro ficará aqui — decidiu. — Seria um absurdo se nós o
levássemos. Só teríamos aborrecimentos.
Princer
parecia decepcionado. Sua esposa lançou um olhar zangado para
Denniston. Abaixou-se e acariciou o pêlo do animal.
— Deixe-o
com meu pai — pediu Princer. — Enquanto isso, Cora e eu
guardaremos a bagagem.
Denniston
sentiu-se feliz por afastar-se de Princer, mesmo que fosse apenas por
alguns minutos. Segurou cautelosamente a correia de Príncipe e
arrastou-o. O cachorro resistiu e fez menção de morder o
astronauta, mas Denniston estava preparado.
Quando
entrou no gabinete particular do velho Princer, o presidente
encontrava-se parado junto à janela e olhava para o campo de pouso.
Denniston fez um sinal.
— O que
deseja? — perguntou o presidente, sem virar a cabeça. — Eu o vi
chegar com... bem, com esse animal.
— Príncipe
ficará aqui — disse Denniston. — Seu filho resolveu confiá-lo
ao senhor, chefe.
Amarrou a
correia a uma cadeira. Príncipe rosnou baixinho. De repente as
vidraças tremeram e um rugido penetrou na sala, fazendo-a vibrar.
— O que
é isso? — perguntou Denniston, dirigindo-se à janela.
— É a
Error — disse Princer muito baixo.
Denniston
arregalou os olhos em direção ao jato espacial, que se erguia
lentamente do solo.
— Ele o
enganou, Mark — disse Princer. — A mim também. Quis ir só para
Vega, e conseguiu. A história do cachorro foi um truque. Sabia que o
senhor não o levaria. Nenhum homem que tenha um pouco de juízo leva
um bastardo como este.
— Mas...
— principiou Mark Denniston, em tom de perplexidade.
A Error já
se encontrava fora do alcance de sua vista, mas o presidente
continuava parado junto à janela.
— Como
foi a decolagem dele, Mark? — perguntou em voz baixa.
— Mais
ou menos — respondeu Denniston.
De repente
o presidente parecia animar-se. Virou-se e fitou o astronauta.
— Tenho
outro trabalho para o senhor — anunciou.
— Ah, é?
— disse Denniston, em tom cauteloso. — Qual é?
Princer
não respondeu. Baixou os olhos para o cachorro cor de barro, que
fitava Denniston com uma expressão furiosa. Um sorriso malicioso
surgiu no rosto do presidente. O comandante empalideceu.
— Esta
não, chefe! — disse, muito abalado.
— Sim
senhor! — ordenou Princer. Naquele instante, Mark Denniston
compreendeu que, até o regresso de John Edgar Princer, teria de
andar por aí, com uma criatura feia e malvada, que parecia a
encarnação de Cérbero.
2
O rádio
emitiu um estalo. John Edgar Princer seguira as regras para a
decolagem de uma nave não pertencente à frota.
— Nave-controle
Netuno para nave-disco — disse a voz do oficial de plantão. —
Favor fornecer código e identificação.
Princer
tropeçou sobre as próprias pernas e dessa forma “chegou”
ao rádio mais rapidamente do que esperava. Mexeu nervosamente no
aparelho.
— Nave
particular Error — anunciou. — Decolamos do espaçoporto da IFC
em Denver. Licença de decolagem III/b-41, passe amarelo.
E com um
sorriso para a esposa, concluiu:
— A nave
está sendo pilotada por John Edgar Princer.
O oficial
que se encontrava a bordo da nave-controle Netuno nunca ouvira falar
em Princer, ou então estava de mau humor.
— Está
levando alguma carga? — perguntou em tom frio.
Princer
acenou com a cabeça.
— Sim
senhor. Cento e cinqüenta quilos de gigante-supermacio.
Uma bomba
parecia ter explodido na cabina de rádio da Netuno, a julgar pelos
ruídos que o casal ouviu. Perplexo, Princer fitou o alto-falante.
— Faça
o favor de repetir — disse o operador de rádio que se encontrava
na outra nave.
Princer
fez-lhe este favor.
— Trata-se
de semente de espinafre de um tipo especial. Foi selecionada em
nossos laboratórios. Pelo que diz o chefe da nossa equipe de
biólogos, trata-se de uma mutação da variedade trapajera, do
sistema de Vega, e...
— Isso
basta — interrompeu o oficial apressadamente. — Apenas preciso
saber ainda a finalidade da viagem.
— É
minha viagem de núpcias — disse Princer, quase sussurrando.
Evidentemente,
o oficial da equipe de rádio tinha uma antipatia toda especial pelos
casais em viagem de núpcias, pois disse alguma coisa nada amável.
Após isso forneceu a Princer as coordenadas do setor espacial onde o
vice-presidente da IFC poderia entrar em transição.
— O
local fica bem afastado da órbita de Plutão — explicou Princer a
sua esposa, depois que o rádio silenciou. — Enquanto não
chegarmos lá, poderei mostrar-lhe a nave e sua carga.
Caminhou
meio desajeitado pela cabina e mostrou os aparelhos de localização
e de rádio, as instalações de comando e o sistema de propulsão, o
sistema de renovação de ar e os mapas estelares.
— Você
já deve ter compreendido — disse com a voz chorosa — que
cometeram uma injustiça, quando não fui aceito na Academia Espacial
da Frota Solar. Entendo tanto de astronáutica como qualquer membro
da Frota. E o daltonismo... Ora, isso é uma coisa ridícula. Quanto
ao defeito na estrutura óssea... Bem, uma pequena fratura na perna,
proveniente do jogo de rugby na universidade, não representa um
defeito que possa exercer maior influência num grande talento.
Seu rosto
ficou vermelho como um pimentão ao concluir:
— Naturalmente
não vou afirmar que sou um talento.
Sua esposa
lançou-lhe um olhar que deixaria qualquer homem esfogueado. Mas
Princer dirigiu-lhe apenas um sorriso abobalhado.
— Vou
mostrar-lhe a semente de espinafre — disse.
Desenvolvendo
a atividade de um trabalhador pago por tarefa, atravessou a carga até
encontrar um volume que correspondia aos seus desejos. Abriu a tampa.
— É
isto — disse em tom orgulhoso. — A última novidade da IFC, o
gigante-supermacio.
Cora
Princer olhou para dentro da caixa. Parecia um tanto decepcionada. As
minúsculas bolinhas azuladas não faziam jus ao nome, pois não
pareciam gigantes nem supermacias.
— Assemelham-se
a sementes de papoula — disse.
Princer
suspirou de satisfação; até parecia que era responsável pela
descoberta.
— É
verdade — disse. — Só mesmo por meio de uma análise pode-se
distinguir esta semente da de papoula.
Fechou o
volume e voltou a colocá-lo no lugar. Pôs a mão no ombro da
esposa, num gesto paternal.
— Agora
serão realizados os cálculos da transição, Cora. O pequeno
computador positrônico de bordo cuidará disso para nós. Basta que
eu programe os dados, fornecidos pelo oficial da Netuno.
Sua esposa
parecia um tanto assustada.
— Ouvi
falar que a transição provoca uma dor bastante desagradável —
disse.
Princer
fez um gesto de desprezo.
— É a
chamada dor da desmaterialização. A distância, que nos separa do
setor de Vega, é de vinte e sete anos-luz. Percorreremos essa
distância num único hipersalto, mas você não sentirá quase nada.
Quanto
menor a distância entre os pontos extremos da transição, menos
intensa é a dor.
Colocou um
cartão perfurado no computador de bordo e esperou.
— Falta
pouco para atingirmos a velocidade da luz — explicou.
Observou o
cintilar pulsante do setor de armazenamento de dados e, logo depois,
chegou-lhe o resultado. Levantou-se e foi até o assento do piloto.
— Será
preferível deitar-se — disse, dirigindo-se a Cora. — Logo
passará.
Seus dedos
passaram sobre os indicadores coloridos do dispositivo automático
que realizava a transição. Face ao seu daltonismo, guardara na
memória não a cor, mas a posição das teclas. Mexeu nervosamente
nos respectivos controles. Finalmente comprimiu o botão verde.
A dor da
desmaterialização foi tão intensa que, antes de perder a
consciência, John Edgar Princer compreendeu que acabara de cometer
um imperdoável engano.
*
* *
Princer
teve a impressão de que alguém martelava com precisão mortífera
uma chapa de ferro presa à sua testa. Abriu os olhos e notou uma
profusão de figuras coloridas. Finalmente o quadro tornou-se mais
nítido; viu o teclado automático do aparelho de transição.
— Já
pensava que você nunca mais recuperaria os sentidos — disse Cora,
inclinando-se sobre ele. — O que houve com você?
Princer
lançou-lhe um olhar triste.
— Será
que você recuperou os sentidos antes de mim? — perguntou em tom
queixoso.
Sua esposa
fez que sim. Ajudou-o a levantar-se. O jovem arrastou-se com um
gemido. Ligou as telas e os aparelhos de localização.
— Eu
sabia que você conseguiria — observou Cora, em tom orgulhoso. —
A transição foi realizada na primeira tentativa.
— Acho
que sim — disse Princer, esfregando a testa. Apontou para o botão
que acionara antes do salto.
— Qual é
a cor deste botão? — perguntou em voz baixa.
— Verde
— respondeu Cora, um tanto perplexa. — Por que faz essa pergunta?
Princer
soltou um gemido e caiu no assento de piloto. Sua figura nunca
parecera muito esportiva, mas agora achava-se dobrado sobre si mesmo.
Cora começou a desconfiar de que algo de grave acontecera. Era
inteligente e corajosa, e acreditava que seu marido também o fosse,
embora até então não tivesse dado provas disso.
— O
botão verde — lamentou-se Princer — destina-se a saltos a grande
distância. Provoca um dispêndio energético mais elevado. Troquei-o
com o botão vermelho. Você compreende... sou daltônico. É claro
que decorei a posição das teclas, mas estava muito nervoso...
— O que
significa isso? — perguntou Cora, em tom tranqüilo.
Princer
segurou suas mãos.
— Isso
significa que viemos parar em qualquer lugar da Galáxia, menos nas
proximidades do sistema de Vega.
— Nesse
caso vamos voltar — disse sua esposa.
Princer
balançou a cabeça.
— Acho
que isso não será possível. Se não descobrirmos onde estamos, não
conseguiremos voltar. Qualquer transição será um salto no
desconhecido e poderá afastar-nos ainda mais da Terra.
Na
realidade, sua situação era ainda mais desesperadora. Se não
houvesse por perto nenhuma estrela pela qual Princer pudesse
orientar-se, qualquer tentativa seria inútil. O salto do jato
espacial fora dado praticamente ao acaso e podia tê-los levado a
qualquer ponto, situado no interior de uma esfera, cujo ponto central
era a Terra. Evidentemente um hipersalto tinha seus limites
espaciais, mas esse fato representava um insignificante consolo.
— E
agora? O que vamos fazer? — perguntou Cora e, esforçando-se para
dar um tom firme à voz, prosseguiu: — Não podemos ficar sentados
por aqui e esperar até... até...
Princer
sabia perfeitamente o que sua esposa queria dizer. Seu orgulho
másculo foi despertado. Ergueu-se por meio de movimentos que
pareciam descontrolados. Oferecia um quadro que não poderia ser
menos elegante.
— Faça
o favor de trazer os catálogos estelares, Cora. Estudarei a estrela
mais próxima. Talvez esteja registrada e, nesse caso, poderemos
orientar-nos por ela.
John Edgar
Princer trabalhou durante três horas. Realizou localizações
goniométricas, medições e cálculos. Comparou os resultados com os
dados constantes do catálogo. A estrela mais próxima ficava a dois
anos-luz. Era um anão. Constava do catálogo sob o nome bem-sonante
de Alaze. Princer leu que essa estrela tinha três planetas. O
planeta número dois era habitado e possuía oxigênio.
Esse mundo
era conhecido como o planeta Alaze. Tinha, portanto, o mesmo nome do
seu sol. Para John Edgar Princer, o nome não parecia ter tanta
importância. Muito mais importante era a frase grifada:
É uma
grande base dos saltadores.
Princer
fechou abruptamente o catálogo, e sua esposa estremeceu com o
estalo. Fitou-o.
— Descobriu
onde estamos?
— Descobri
— disse Princer com a voz fina. — Viemos parar num ninho de
marimbondos.
Ele sabia
dos ataques traiçoeiros dos mercadores galácticos. Sabia que
investiam impiedosamente contra qualquer nave terrana, que se
atrevesse a penetrar nas áreas a que se julgavam com direito. Os
saltadores não estariam interessados em saber se a presença da
Error fora causada por um engano. Abririam fogo antes de fazer
perguntas.
— Temos
que dar o fora, Cora — disse Princer.
Realizou o
mais depressa possível outra programação do computador de bordo. A
jovem mulher fitava-o em silêncio.
Mas a
pressa foi em vão.
Os
marimbondos já estavam esvoaçando em torno dele!
*
* *
A primeira
onda de choque atingiu a Error com uma tremenda fúria. A pequena
nave-disco sofreu um forte abalo. Princer sentiu-se arrancado da
poltrona e arremessado pela cabina. Ouviu o grito apavorado de Cora.
O jato espacial tremia. Rastejando, Princer conseguiu chegar ao
assento de piloto. Ligou as telas. Fazendo um grande esforço, voltou
a acomodar-se na poltrona. Ligou os campos de absorção. Os
aparelhos de localização emitiram o sinal de alarma. Havia uma nave
desconhecida nas proximidades. Com a mão trêmula, Princer orientou
as telas para o local indicado pelos instrumentos.
E o que
viu lhe fez o sangue gelar nas veias.
Uma
gigantesca nave cilíndrica destacava-se contra o negrume do espaço.
Parecia que sua iluminação vinha de dentro. Princer pensou que
fossem os campos defensivos. Soltou uma risadinha. O que é que
poderia fazer contra um gigante como este? Percebeu que suas medidas
defensivas seriam inúteis. No entanto, os campos de absorção
neutralizaram razoavelmente a segunda onda de choque. Princer ficou
sentado, sem saber o que fazer. Não se atreveu a olhar para Cora.
— Ligue
o videofone, seu imbecil — disse ela, com uma voz cavernosa.
Apavorado,
Princer fitou o aparelho de rádio. Ao que tudo indicava, os
ocupantes da nave dos saltadores queriam falar com ele, antes de
transformá-lo numa nuvem atômica.
— O que
será que vão fazer conosco, Johnny? — perguntou Cora, em tom
apavorado.
A garganta
de Princer estava tão ressequida que o jovem não conseguiu
pronunciar uma única palavra. Sabia que já podiam vê-lo na nave
dos saltadores. A tela da Error também começou a iluminar-se. Um
rosto grosseiro e largo, com uma barba imponente, apareceu na lâmina.
A visão quase fez o terrano desmaiar. Já ouvira falar muitas vezes
nos patriarcas dos saltadores, mas o aspecto desse mercador
ultrapassava tudo que já imaginara.
O
patriarca fitou-o com uma expressão de curiosidade.
— Onde
está Shaugnessy? — perguntou em tom contrariado.
Princer
fez um ligeiro esforço para sorrir, mas só conseguiu tremer os
lábios. Nunca ouvira tal nome, e não tinha a menor idéia sobre os
motivos por que o salta-dor queria que justamente ele lhe desse
informações a respeito de Shaugnessy.
— Não
lhe avisaram que deveria expedir a mensagem codificada assim que
chegasse aqui? — perguntou o mercador, em tom indignado. — Se
resolveu aceitar o trabalho de Shaugnessy, aja como um homem sensato.
Para que esse jogo de cabra-cega?
Todo
encabulado, Princer fitou a tela. Não conseguia descobrir o sentido
das palavras do saltador. Era evidente que a Error estava sendo
confundida com outra nave. Princer resolveu acompanhar o jogo. Era a
única possibilidade de sobreviver por mais algum tempo.
— Sinto
muito — disse em tom cauteloso. — Shaugnessy está doente.
Pediram que eu viesse. Fiquei um pouco nervoso e esqueci o código.
O saltador
lançou-lhe um olhar de desprezo.
— Ao
menos trouxe a coisa?
— Trouxe
— disse Princer, mentindo valentemente. — Está a bordo.
Que coisa
seria essa a que o saltador acabara de aludir? Seria inútil refletir
sobre isso.
Naquele
momento o patriarca descobriu Cora, que se colocara ao lado de
Princer e pusera a mão sobre o ombro do esposo.
— Quem é
essa mulher? — perguntou em tom violento.
O jovem
encolheu-se na poltrona. A palestra estava sendo travada em
intergaláctico. O filho do presidente da IFC sabia que sua esposa
dominava esta língua.
— É uma
nova colaboradora — disse Princer. — Vai ser treinada...
Rezou para
que não tivesse dito nada de errado.
— Mulheres!
— exclamou o saltador em tom de desprezo. — É preferível que
Aplied não as use. Só pode dar aborrecimentos.
— Deixe
isso por nossa conta — disse Cora, com a voz atrevida.
Princer
lançou-lhe um olhar de súplica. O saltador soltou uma estrondosa
gargalhada. Seu rosto barbudo movimentou-se.
— Parece
que a senhora tem um pouco mais de tutano que essa coisa desengonçada
que está no assento do piloto — dizendo isto com um gesto
aprovador, voltou a dirigir-se a Princer. — Como é seu nome?
— John
Edgar Princer — disse corajosamente. — Como é seu nome?
— Valmonze
— respondeu o saltador.
Princer
soltou um suspiro de alívio. Seu nome não provocara qualquer
desconfiança no patriarca. Era imprescindível que descobrisse o
mais cedo possível com quem estava sendo confundido. Assim que
cometesse o menor engano, Valmonze ordenaria aos seus artilheiros que
destruíssem a Error.
— Basta
de conversa — disse Valmonze. — Vamos recolhê-lo.
— Está
bem — concordou Princer, embora não soubesse o que o saltador
queria dizer com recolher.
Parecia
que Valmonze queria saltar da tela, quando retrucou:
— Está
bem o quê? Desligue logo esse ridículo campo de absorção, para
que possamos introduzi-lo a bordo com o raio de tração.
A tela
escureceu e Princer cumpriu a ordem. Não havia a menor possibilidade
de resistir.
— Daqui
a poucos minutos estaremos a bordo da nave dos saltadores — disse,
dirigindo-se à esposa. — Examinarão nossa carga e verificarão
que não trouxemos nada, além do gigante-supermacio e de alguns
pacotes de cigarros.
— Isso
não os deixará muito felizes — conjeturou Cora. — O que farão
conosco, Johnny?
Ele
colocou o dedo sobre seus lábios. Por que assustar sua esposa?
Depois da descoberta do gigante-supermacio, seriam inapelavelmente
atirados pela comporta da nave dos saltadores.
Naturalmente,
sem traje espacial.
Princer
pensou que finalmente conseguira aquilo pelo que sempre ansiara: uma
aventura no cosmos. Por isso lutara para ser admitido na Frota Solar,
mas fora sempre rejeitado.
Quando a
Error foi introduzida a bordo da nave saltadora Vai I, ele ainda
continuaria a ser considerado como: John Edgar Princer, um novato.
3
Um ligeiro
solavanco revelou que o jato espacial se imobilizara. Princer enxugou
o suor da testa. O fato de ter a Error, um veículo espacial de 35
metros de diâmetro, passado pela comporta da nave dos saltadores,
mostrava as dimensões desse gigante. Provavelmente se encontravam
num dos porões de carga da Vai I, equipado como um hangar.
— Acho
que é preferível abrir a comporta — disse Princer.
Ele o fez
e desceu, seguido por Cora. A Error encontrava-se no interior de um
amplo recinto, muito bem iluminado, que poderia recolher facilmente
mais três jatos espaciais. Em toda parte viam-se mercadorias
empilhadas. Havia alguns saltadores no recinto, mas estes não lhes
deram a menor atenção. Princer já ouvira falar nos costumes
rígidos dos clãs de saltadores. O patriarca era a única pessoa
autorizada a resolver os assuntos mais importantes. Nenhum membro de
seu clã se atreveria a aproximar-se da Error, sem ordens para tal.
Subitamente viram o patriarca Valmonze. Alguns saltadores jovens
encontravam-se em sua companhia. Provavelmente eram seus filhos. A
figura de Valmonze era imponente.
Princer
parou. Deixou pender os braços e ficou à espera. Cora encontrava-se
meio metro atrás dele, e chegou a ouvir sua respiração.
Valmonze
trajava uma capa ampla e preciosa. Calçava sandálias flexíveis
presas por cordões. Trazia a pesada corrente, que assinalava sua
qualidade de membro mais velho do clã, pendurada ao pescoço.
Parou bem
à frente de Princer. Bateu no ombro do terrano. Era um gesto
amistoso, mas o jovem teve a impressão de que o barbudo lhe
fraturara a espinha.
— Bem-vindo
a bordo da Vai I — disse Valmonze.
Seus olhos
brilharam numa expressão astuciosa.
— Bons
negócios, terrano.
Apavorado,
Princer lembrou-se de suas reduzidas possibilidades comerciais.
Talvez conseguisse evitar que o saltador inspecionasse a Error.
Estendeu a mão para Valmonze.
— Bons
negócios — respondeu. Valmonze segurou a mão do jovem,
comprimiu-a e riu que nem um demônio.
— Mostre-me
a carga — pediu. Cora interveio na palestra.
— Por
quê? — perguntou. — Está tudo em ordem. Podemos descarregar.
Valmonze
fitou-a como quem não compreende nada.
— Aplied
não lhe disse que a mercadoria será levada para o planeta Alaze?
Uma vez lá, receberá outra carga, que deverá ser entregue ao
patriarca Zomake, no caminho de volta para a Terra.
Princer
fez um gesto indiferente.
— Naturalmente
sabemos — disse em tom arrogante. — Aplied explicou
minuciosamente. Minha... minha companheira apenas acha que a inspeção
da carga seria um trabalho inútil. Garanto-lhe que está em ordem.
Valmonze
levantou os braços, numa atitude de protesto. Esfregou a barba com
as pontas dos dedos.
— Ninguém
seria capaz de duvidar que a carga está correta, minha senhora —
disse num sorriso. — Aplied nunca nos enganou. Aliás, isso não
lhe adiantaria nada. Mas — fez um gesto convidativo em direção à
comporta aberta da Error — os olhos de um mercador gostam de
deleitar-se com coisas que sirvam para fazer negócios.
Por pouco
Princer não lhe revelou que seus olhos sombrios de saltador teriam
de suportar a visão nada agradável da semente de espinafre. Mas
apenas conseguiu engolir em seco e acompanhar o patriarca até o
interior da Error.
Valmonze
caminhava ruidosamente pelo jato espacial. Seus filhos seguiam-no, em
silêncio, mas com os olhos e os ouvidos bem abertos. Princer
gostaria de cochichar algumas palavras para Cora. Queria dizer que
sentia muito tê-la colocado numa situação como esta. Mas não teve
oportunidade para isso.
Valmonze
estacou. Seus filhos formaram um semicírculo às suas costas.
Pareciam uns verdadeiros ursos, de tão robustos que eram. Essa visão
bastaria para fazer fraquejar um homem mais corajoso que Princer.
— Traga
uma amostra — ordenou o patriarca, em tom de expectativa.
Em
movimentos automáticos, o terrano saiu tateando em direção ao
lugar onde estava guardado o gigante-supermacio. Sentia-se vazio e
ressequido por dentro. Assim que entregasse um pacote de semente ao
patriarca, estaria assinando sua sentença de morte. No entanto, não
tinha outra alternativa.
Suas mãos
trêmulas tiraram uma caixa. Valmonze aguardava com os braços
cruzados sobre o peito. Princer sentia-se incapaz de dizer qualquer
coisa. Viu Cora sentada na poltrona do piloto, muito pálida. Sem
dizer uma palavra, entregou o volume ao saltador.
— O
senhor tem o direito de abri-lo disse Valmonze, em tom cortês.
Princer
sentiu-se como um homem que está deitado sob a guilhotina e é
obrigado a acionar seu mecanismo. Abriu a tampa e colocou a caixa no
chão, à frente de Valmonze.
O
patriarca abaixou-se e, enquanto os olhos do terrano quase saltavam
das órbitas, encheu a mão de gigante-supermacio e deixou a semente
escorrer entre os dedos, em meio a uma estrondosa gargalhada.
— Isto é
mais precioso que ouro! — exclamou. — Este material nos traz bons
negócios, além do poder político.
“Enlouqueceu”,
pensou Princer. “Será
que perdeu o juízo? Umas simples sementes de espinafre...”
— Olhem!
— gritou Valmonze para seus filhos. — Vejam isto!
John Edgar
Princer viu o inacreditável transformar-se em realidade. Os filhos
de Valmonze precipitaram-se sobre o pacote como um bando de lobos. O
gigante-supermacio escorria entre seus dedos, enquanto batiam nos
ombros uns dos outros, entusiasmados. E o remate da cena era dado por
Valmonze em pessoa, um rei a bordo da supernave cilíndrica. Sorria e
não parecia nem um pouco aborrecido.
A cor foi
voltando ao rosto de Cora. Princer apenas conseguiu fitar a cena,
perplexo.
— Formidável
— disse a voz retumbante do saltador. — Aplied é um homem de
confiança. Sabe lá o que poderemos fazer com esta semente de
papoula, meu jovem?!
“Papoula!”,
pensou o terrano. “Então é isso”.
Princer já
sabia o que estava acontecendo. Valmonze acreditava que a semente de
espinafre fosse semente de papoula.
— Ópio
— disse Valmonze. — Poderemos fabricar ópio e outros
entorpecentes. Princer, eu lhe garanto que esta papoula representa um
poder que talvez seja maior que o de uma frota de espaçonaves.
Poderemos ganhar dinheiro com isso, muito dinheiro. Mas, o que é
mais importante, poderemos transformar Perry Rhodan e seu ridículo
império numa inviabilidade política. A indignação das raças
atingidas pelo vício face às drogas terranas cresce a cada dia que
passa. Acusam Rhodan de não fazer nada para impedir o tráfico de
entorpecentes.
Enojado,
Princer baixou os olhos.
“Que
gente é essa?”,
indagou-se mentalmente. “Não
têm o menor escrúpulo em empregar a influência das perigosas
drogas para alcançar seus objetivos.”
Princer
sabia perfeitamente que o administrador fazia tudo que estava ao seu
alcance para desmantelar a organização dos contrabandistas.
Entesou-se
involuntariamente. O acaso fizera com que penetrasse num covil de
criminosos. E agora lhe oferecia a possibilidade de desmascará-los e
transmitir uma informação preciosa a Rhodan.
“Aplied”,
lembrou-se. “Deve
ser um nome muito importante. Preciso obter outras informações
sobre esse homem.”
— Aplied
está preocupado, Valmonze — disse. — Acha que o negócio não é
seguro. Tem medo de que Rhodan utilize seus mutantes.
— Mutantes?
— repetiu Valmonze. — Nunca vi nenhum. Ora, vejam: Vincent Aplied
está com medo. Quem diria!? O que está querendo? Afinal, fica
tranqüilamente na Cidade do Cabo e ganha um bom dinheiro.
Vincent
Aplied! Cidade do Cabo!
Princer
teve de esforçar-se para disfarçar a surpresa. Aplied era um dos
fazendeiros mais conceituados da África do Sul. Princer nunca teria
imaginado que Valmonze, quando em comunicação internaves, se
referia a esse Aplied. Agora tinha certeza. O chefe do grupo de
traficantes era um terrano. Princer não compreendia. Afinal, Aplied
devia conhecer as conseqüências de sua ação criminosa.
“Como
comunicar essa descoberta a Rhodan?”,
perguntou-se.
Por
enquanto não havia a menor possibilidade. Talvez o acaso, que o
salvara, poderia ajudá-lo mais uma vez.
— Assim
que chegarmos ao planeta Alaze, a papoula será redespachada. Nossos
fregueses estão esperando. Terrano, o senhor já viu um viciado
pertencente a uma raça extraterrena? Não é uma visão nada
agradável. A reação destas criaturas diante dos entorpecentes é
muito mais intensa que a dos homens.
Princer
teve de fazer um grande esforço para não precipitar-se sobre o
saltador. Isso estragaria tudo. Pensou nas palavras de Valmonze. O
patriarca acabara de dizer que a papoula seria redespachada
imediatamente. O gigante-supermacio podia ter o aspecto da papoula,
mas não havia dúvida de que seus efeitos não eram os mesmos. Isso
significava que o prazo, que Princer e sua esposa haviam conseguido,
chegaria ao fim assim que pousassem no planeta Alaze. O terrano
abaixou-se e pegou a caixa com semente de espinafre. Recolocou-a no
devido lugar. Valmonze observou-o com um sorriso nos lábios.
— Daqui
a pouco realizaremos uma pequena transição — anunciou o
patriarca. — Se desejar, poderá dispor de dois aposentos a bordo
da Vai I. Naturalmente pode ficar a bordo de sua nave, se preferir.
— Ficaremos
aqui — decidiu Princer. — Não demoraremos a chegar, e por isso
não adianta mudar de lugar.
— Naturalmente
— disse Valmonze. Fez uma ligeira mesura para Cora. Foi um gesto
irônico, pois em sua opinião não havia lugar para mulheres,
durante as negociações dos saltadores.
Saiu da
Error. Seu filhos seguiram-no.
Empertigado
que nem um pastor de aldeia, John Edgar Princer caminhou em direção
a uma poltrona e deixou-se cair. Só agora lembrou-se de outro
perigo.
“O
que aconteceria quando Shaugnessy aparecesse com a verdadeira
papoula?”,
indagou-se em pensamento.
A resposta
era simples. Quer descobrisse a verdade sobre o gigante-supermacio,
quer a chegada de Shaugnessy o esclarecesse sobre a situação, a
reação de Valmonze seria violenta. Princer sabia perfeitamente que
suas vidas continuavam em perigo; apenas haviam conseguido um
adiamento. E, ainda dentro deste adiamento, teriam de encontrar um
meio de enviar uma mensagem de rádio à Terra, a fim de informar
Perry Rhodan sobre as maquinações de Vincent Aplied.
— Foram
embora — disse Cora em meio às suas reflexões. — Nunca
acreditaria que conseguíssemos sobreviver a isso.
Parecia
cansada. Princer sentiu pena dela.
— Tivemos
sorte — disse. — A sorte não se repetirá.
Cora
levantou-se do assento do piloto e foi para junto do marido.
Perplexo, este indagou a si mesmo se seria a presença da esposa que
lhe dava forças para controlar-se.
— Devemos
tentar entrar em contato de rádio com a Terra ou com alguma nave
terrana — disse. — Rhodan precisa saber quem está atrás do
tráfico de entorpecentes.
Cora
apontou para as instalações de rádio da Error.
— Não —
disse Princer. — Valmonze interferiria imediatamente na minha
transmissão. Seu rádio é mais potente que o nosso. E dentro de um
minuto estaria aqui, com uma arma e uma série de perguntas
desagradáveis. Devemos ter certeza de que conseguiremos transmitir
um texto completo.
O
videofone emitiu um zumbido. Princer foi para junto do aparelho e
ligou-o. O rosto barbudo de Valmonze apareceu na tela. Fitou o jovem
por um instante e resmungou:
— Prepare-se
para a transição. Não será muito ruim, pois a distância é
pequena.
— Obrigado
— disse o terrano.
Um único
hipersalto os levaria para dentro da cova do leão.
4
O planeta
Alaze era um mundo de oxigênio, mas à primeira vista Princer teve
uma decepção.
A
atmosfera densa permitia que se respirasse sem traje protetor. Porém
o terrano teve a impressão de que, em comparação com o da Terra, o
ar do planeta era irrespirável. Tinha um cheiro de terra úmida,
semelhante ao das folhas apodrecidas.
A Val I
pousara sem problemas no espaçoporto. Mais duas naves cilíndricas,
a Val IV e VII, repousavam sobre as colunas de apoio. Valmonze
informou que precisavam de reparos.
Princer
encontrava-se na comporta de tripulantes da Val I, juntamente com a
esposa e com o patriarca. Embaixo deles já rolavam os veículos de
carga, todos eles tripulados por saltadores. O jovem não descobriu
nenhum nativo. Provavelmente o espaçoporto era cuidadosamente
isolado pelos saltadores.
Valmonze,
um espírito empreendedor, berrava suas ordens. Vez por outra
virava-se para Princer, com um sorriso no rosto.
— Retiraremos
sua navezinha; a papoula será descarregada imediatamente —
anunciou. — Há tempo esperamos uma oportunidade de cultivarmos
nossa própria papoula.
Entrou no
elevador que levava da comporta para o campo de pouso. O vento
brincava em sua barba e fazia esvoaçar a capa. Princer conseguiu
lançar um olhar para o braço, que era mais grosso que a coxa do
jovem.
— Venha
— pediu Valmonze. — Vamos descer.
O terrano
parecia inseguro no elevador. Apoiava-se com as duas mãos. Valmonze
ajudou Cora. Lançou um olhar de desprezo para Princer. Este sentiu o
olhar e começou a ficar nervoso.
— O que
houve com o senhor? — perguntou Valmonze.
— Sempre
me sinto mal nos elevadores — respondeu em tom desolado.
Valmonze
fitou-o perplexo; até parecia que o via pela primeira vez.
— O
senhor não é um astronauta?
O elevador
começou a movimentar-se. O rosto de Princer mudava do pálido para o
vermelho. Segurava-se desesperadamente na balaustrada. Valmonze cocou
a barba, pensativo. Cora viu-o balançar a cabeça. Finalmente a
plataforma chegou ao solo. Valmonze saltou. O terrano seguiu-o com os
joelhos trêmulos. Alguns saltadores, que se encontravam nas
proximidades, não fizeram o menor esforço para disfarçar o quanto
os divertia a triste figura de Princer.
— Se
estiver em condições, dirija o olhar para a comporta de carga —
disse Valmonze, em tom mordaz.
Princer
parou. O quadro que se lhe ofereceu não contribuiu para que se
sentisse melhor. A Error estava saindo do ventre da Vai I. A comporta
do jato espacial estava aberta. Carros aproximaram-se. Alguns
saltadores tiraram o gigante-supermacio do interior da Error e o
colocaram nos carros.
— Gostaria
de apanhar alguns dos meus pertences — disse Princer. — Vou dar
um pulo até a nave.
Valmonze
limitou-se a acenar com a cabeça. O terrano piscou para Cora e saiu.
Quando
chegou à Error, os saltadores já haviam concluído seu trabalho. O
coração do jovem disparou. Teria ainda chance de expedir uma
mensagem pelo rádio! Andou mais depressa. Um dos carros passou por
ele. Na plataforma de carga estavam empilhados os volumes de semente
de espinafre destinados a Ferrol.
Princer
entrou na comporta da nave e olhou apressadamente em torno. Não
havia ninguém em seu interior. Os pacotes de cigarros continuavam no
mesmo lugar.
Com dois
passos, o jovem colocou-se junto ao aparelho de telecomunicação.
Num instante acionou os controles. O aparelho emitiu um estalido e
começou a zumbir. Princer inclinou-se sobre o microfone.
Mas não
chegou a proferir uma única palavra.
— Por
que está mexendo nisso? — disse a voz de barítono de Valmonze.
Princer
estremeceu. Virou-se apressadamente. Deparou-se com Valmonze, em cujo
rosto havia uma expressão obstinada. Cora encontrava-se no interior
da comporta. Seus olhos denotavam temor.
— Eu me
esqueci de desligar o aparelho — gaguejou Princer. — O senhor me
assustou.
Depois de
sorrir para Valmonze e desligar o telecomunicador, completou:
— Também
queria levar estes cigarros. Pegou os pacotes.
— Deixe-se
de brincadeiras com o rádio. A área está sendo vigiada
ininterruptamente. Quer pôr nossos controles em pânico?
— É
claro que não — asseverou Princer. — Afinal, não aconteceu
nada.
— Está
na hora de irmos à sede — disse Valmonze. — Estou curioso para
saber o que dirão meus amigos, quando virem a semente.
O terrano
não se sentia capaz de compartilhar da curiosidade de Valmonze.
Sabia perfeitamente que a primeira tentativa de obter papoula da
semente de gigante-supermacio representaria um fracasso total.
O filho do
presidente da IFC parou em atitude indecisa, segurando os pacotes de
cigarros como se fossem uma arma.
— O que
está esperando? — perguntou Valmonze, em tom impaciente.
O sorriso
simplório de Princer deixou o patriarca nervoso.
— Não
quero ser indelicado — disse o jovem. — É a primeira vez que
minha companheira e eu estamos neste planeta. O senhor há de
compreender que nos interessamos pelos nativos. A fabricação de
entorpecente não nos pode oferecer qualquer novidade, pois lidamos
muitas vezes com isso. Gostaríamos de andar um pouco por aí.
Percebia-se
perfeitamente o que Valmonze achava de passeios desse tipo. Apesar
disso dirigiu-se a Cora.
— O que
acha?
— As
conversas sobre negócios me causam tédio — disse Cora.
— Bem
que eu gostaria de conhecer os princípios que Aplied usa na seleção
do seu pessoal — resmungou Valmonze. — Shaugnessy sempre teve
suas idéias malucas, mas nunca deixou de participar das reuniões.
Bem, se quiserem, andem um pouco por aí. Há uma aldeia dos nativos
próxima ao campo de pouso. Essas criaturas falam sofrivelmente o
intergaláctico. Talvez consiga fazer com que alguns deles desçam
das árvores.
Por pouco
Princer não pergunta o que os nativos faziam em cima das árvores. O
patriarca deveria supor que Shaugnessy ou Aplied informaram os novos
contrabandistas sobre as condições reinantes no planeta Alaze.
Qualquer pergunta suspeita poderia provocar a desconfiança do
saltador.
O terrano
movimentou as pernas longas e magras, e saiu da Error. Cora e o
patriarca seguiram-no. Valmonze apontou para um edifício situado na
periferia do espaçoporto.
— Siga
nessa direção. Mas não faça nenhuma marcha forçada. Deverá
permanecer ao nosso alcance, para quando precisarmos do senhor.
Princer
fez que sim. Cora apoiou-se em seu braço, e caminharam em direção
ao edifício que lhes fora indicado. Por um instante Valmonze
seguiu-os com os olhos, balançando a cabeça. Depois saiu em
direção... à maior surpresa que já tivera em sua vida!
*
* *
Face às
dimensões das naves dos salta-dores, o espaçoporto do planeta Alaze
era enorme. Ficava no fundo de um vale e estendia-se por uma área de
três quilômetros. Para os mercadores galácticos, a instalação de
um entreposto comercial era apenas uma questão de rentabilidade. Um
espaçoporto dessa extensão era bastante dispendioso, e,
evidentemente, não era construído em todos os seus entrepostos. Só
os mundos que apresentassem condições especiais possuíam
instalações desse tipo.
Os
saltadores encaravam qualquer questão sob o ângulo econômico e
comercial. Praticamente viviam como nômades e geralmente ficavam
mais tempo no interior de suas naves. Por isso precisavam de
espaçoportos em que pudessem pousar a intervalos regulares, a fim de
cuidarem do reparo de suas naves ou de outros assuntos importantes. A
riqueza de cada clã dos saltadores dependia da capacidade do
patriarca.
Há várias
gerações os saltadores detinham o monopólio do comércio em todos
os planetas habitados que podiam ser alcançados com suas naves
cilíndricas. Mas, nos últimos anos, surgira um forte concorrente:
O Império
Solar.
Os
comerciantes e economistas terranos lutavam obstinadamente contra o
poder financeiro dos mercadores galácticos. Por enquanto os
saltadores se haviam guiado por um princípio muito simples.
Agarravam tudo que pudessem conseguir por suas mercadorias. Objetos
adquiridos a preços vis eram “trocados”
por mercadorias valiosas.
Mas essas
condições chegaram ao fim. As naves cargueiras terranas apareceram
pelos planetas e pela primeira vez eram oferecidos às outras
inteligências da Galáxia preços honestos por suas mercadorias.
Antes que os saltadores compreendessem o que estava acontecendo, a
Terra já tinha firmado contratos comerciais com inúmeros planetas.
Daí em
diante, os mercadores das naves, galácticas passaram a recorrer a
qualquer meio, fosse ele qual fosse, para enfraquecer a posição da
Terra.
John Edgar
Princer sabia sobre os saltadores tanto quanto qualquer cidadão da
Terra, interessado no destino de seu povo. Ao que tudo indicava, isso
estava para mudar.
Acompanhado
pela esposa atingira a extremidade do campo de pouso. Cora agarrou
sua mão.
— Johnny,
não demorarão a perceber o que realmente temos a bordo da Error —
disse Cora. — Quando isso acontecer, eles nos levarão de volta.
Princer
olhou para as montanhas, onde se estendiam florestas sombrias.
— Temos
de fugir — disse. — É nossa única possibilidade de
sobrevivência. Talvez os saltadores tenham outros estabelecimentos
neste planeta, e muita coisa a fazer. Depois de algum tempo, talvez
reduzam a vigilância. Quando isso acontecer, teremos uma chance de
expedir nossa mensagem.
Cora olhou
para trás. Teve a impressão de que Johnny não conseguiria enganar
os saltadores.
— Fugir!
— repetiu Cora. — Dê uma olhada, Johnny! Não conhecemos este
planeta. Nem sequer sabemos para onde dirigir nossos passos. Antes
que tenhamos tempo de achar um esconderijo, eles nos encontrarão.
Continuaram
andando. Princer não tinha nenhuma idéia clara sobre a maneira pela
qual poderiam salvar-se. Mas uma coisa era certa: se parassem, dentro
em breve estariam em poder de Valmonze.
Passaram
do pavimento liso do espaço-porto para uma área coberta de
pedregulho cinzento, na qual se viam algumas moitas de capim. Princer
olhou para trás. Ninguém os seguia. A uns cem metros do lugar em
que se encontravam, ficavam as primeiras árvores. Os gigantescos
troncos eram marrom-escuros. A folhagem era tão densa que tinha o
aspecto de uma massa compacta. O terrano esperava que por ali
houvesse um local onde pudessem esconder-se.
— Você
está andando muito depressa — queixou-se Cora.
Dando-se
conta do seu erro, Princer andou mais devagar. Se cansasse Cora
demais, teria de pagar por isso mais tarde. Precisavam controlar suas
forças.
— Pensei
que minha viagem de núpcias fosse mais confortável — disse Cora,
em tom sarcástico.
— A
culpa é exclusivamente minha — disse ele, muito abatido. —
Fiquei em cima do papai, pedindo que me desse o jato espacial. Agora,
papai deve estar preocupado, pois eu lhe prometi que, chegando em
Ferrol, entraria logo em contato com ele. A esta hora já deve
esperar meu chamado.
— Talvez
mande procurar-nos — disse Cora esperançosa.
— Sim;
em Ferrol — confirmou Princer.
— E se
não nos encontrarem lá, onde poderão nos procurar? Não existe a
menor possibilidade de localizar uma pessoa perdida no espaço.
Princer
era um homem estranho. Preocupava-se com os outros, embora ele mesmo
se encontrasse em situação muito mais grave. O fato de que o pai o
procuraria em vão deixava-o muito mais triste que o perigo de ser
capturado pelos saltadores.
Atingiram
as primeiras árvores. O terrano suspirou aliviado. Avançavam com
mais dificuldade, já que a vegetação rasteira e os montes de
folhas secas lhes barravam o caminho. Quando viram aparecer os dois
seres humanos, as aves nos galhos fizeram um pandemônio.
— Será
que por aqui faz muito frio de noite? — perguntou Cora.
À noite!
Princer estremeceu. Nem se lembrara disso. Não sabia quanto tempo
duraria a escuridão nesse mundo. O planeta Alaze possuía um tipo de
rotação estranha. Princer lembrava-se de ter lido alguma coisa a
este respeito no catálogo estelar.
— Não
creio — respondeu. Abaixou-se para afastar alguns galhos.
Naquele
momento, Cora, que se encontrava atrás dele, soltou um grito de
pavor.
Princer
virou-se abruptamente. Cora estava pendurada pela cintura, num laço
que saía da folhagem impenetrável. Princer precipitou-se sobre ela,
mas o corpo de sua esposa foi puxado para cima aos solavancos. O
terrano agarrou-se desesperada-mente às suas pernas, mas as forças
invisíveis eram mais fortes.
Apavorado,
o jovem viu Cora desaparecer em meio à folhagem.
— Cora!
— gritou.
— Vá
embora, Johnny — ouviu sua voz. Mas o terrano nem pensava em fugir.
Entretanto,
quando tentou galgar o tronco, sentiu-se também agarrado e erguido
do chão. Virou-se rapidamente, porém um segundo laço selou seu
destino. Travou uma luta silenciosa e inútil contra as cordas que o
amarravam. Os seres invisíveis puxavam-no lentamente para cima.
*
* *
Amat-Palong
era um ara, um médico galáctico. Era alto e em sua cabeça não
havia um único fio de cabelo.
Amat-Palong
despejou uma substância cinzenta, que se encontrava num tubo de
ensaio, para dentro de um funil. O pó deslizou para o interior de
uma caixa. Amat-Palong colocou o resto do pó sobre uma laminazinha
transparente. A lâmina foi colocada embaixo de um microscópio. Por
alguns instantes, o ara olhou para dentro do microscópio, sem dizer
uma palavra. Retirou a lâmina. Colocou-a na palma da mão e levou-a
à boca. Umedeceu lentamente os lábios e soprou o pó cinzento que
se encontrava sobre a laminazinha.
Amat-Palong
balançou a cabeça. Dirigiu-se à escrivaninha e ligou o aparelho de
intercomunicação.
— Valmonze
está por aí? — perguntou. Sua voz era monótona. Não tinha altos
nem baixos; parecia inumana.
— Está
na cantina — responderam pelo pequeno alto-falante. — Seus filhos
estão com ele.
— Quero
falar apenas com o patriarca — disse Amat-Palong, com suavidade. —
Faça o favor de pedir-lhe que venha imediatamente ao meu
laboratório.
Não
aguardou a confirmação. Desligou. Lançou um olhar pensativo para
suas mãos. Puxou uma cadeira para perto do lugar em que se
encontrava. Ouviu o zumbido do elevador, e dali a pouco Valmonze
entrou no laboratório. Segurava uma garrafa bojuda. Seus olhos
achavam-se avermelhados.
— Estava
comendo — resmungou. — Talvez o senhor não compreenda... Mas,
para mim, isso é uma atividade muito importante, durante a qual não
gosto de ser incomodado.
Sem
impressionar-se com a ira do saltador, Amat-Palong levantou-se.
Valmonze tomou um grande gole da garrafa e arrotou. O médico
lançou-lhe um olhar indiferente.
— Então
— disse Valmonze, em tom áspero. — Qual é o assunto tão
importante que o senhor tem a me dizer?
Amat-Palong
cruzou tranqüilamente os braços diante do peito.
— Guarde
a garrafa, mercador — disse com a voz fria. — Daqui a pouco,
quando começar a dar ordens, o senhor precisará ter os pensamentos
em ordem.
Valmonze
fitou-o com uma expressão de incredulidade. Seus olhos
estreitaram-se. Aproximou-se lentamente do ara.
— Que
modos são estes? — esbravejou. — Não se esqueça de que o
senhor está falando com um patriarca.
Amat-Palong
confirmou com um gesto.
— Sei
disso — respondeu. — Mas por quanto tempo o senhor ainda será
patriarca?
Valmonze
deu um passo para trás. Atirou a garrafa ruidosamente sobre a
escrivaninha. Estava furioso. Mas, ao mesmo tempo, a segurança do
ara o desconcertava.
— Fale,
antes que eu lhe quebre o pescoço pelas ofensas que acaba de
proferir — berrou para Amat-Palong.
O ara não
se abalou. Abaixou-se e abriu um armário. Suas mãos hábeis
retiraram alguns sacos de plástico cheios de um pó branco.
Ergueu-os até o rosto de Valmonze.
— O que
é isto, patriarca?
— Heroína
— fungou Valmonze. Amat-Palong pegou outros sacos, cujo conteúdo
era marrom-escuro.
— Isto é
ópio — disse. — Foi extraído de sementes de papoulas não
amadurecidas. Contém cerca de quinze por cento de morfina e
quantidades menores de outros alcalóides. Até agora, sempre
adquirimos os entorpecentes já preparados na Terra.
O
patriarca fechou violentamente o armário. Segurou o médico pelo
ombro.
— O
senhor sabe perfeitamente que a longo prazo isso se torna muito
perigoso. Fizemos um acordo com Aplied, para ele nos mandar uma
remessa de sementes de papoula, a fim de que possamos ter nossas
próprias plantações. A semente já chegou. O que é que o senhor
ainda deseja?
— Quero
semente de papoula... — disse Amat-Palong, em tom de desprezo. —
O senhor pode ser um bom mercador, mas não entende nada destas
coisas...
Valmonze
lançou-lhe um olhar desconfiado.
— O que
quer dizer com isso?
Com a
maior tranqüilidade, Amat-Palong pegou a caixa com o pó cinzento.
— Aqui
está, patriarca. E isto que o senhor acredita ser semente de
papoula. Dê-se por satisfeito por não a ter redespachado. Dei-me ao
trabalho de moer e examinar alguns grãos.
Valmonze
apoiou pesadamente os dois braços sobre a mesa. Seu hálito chegava
até o rosto do médico.
— Há
algo de errado com a semente? — perguntou.
— Com a
semente em si, não há nada de errado — respondeu Amat-Palong. —
Apenas, se o senhor a semear, colherá legumes.
O
patriarca arrancou a caixa da mão de Amat-Palong. A veia do seu
pescoço estufou. Contemplou a semente moída.
— Quer
dizer que isto não é semente de papoula?
— Tem o
aspecto da semente de papoula — disse o ara. — Na verdade, porém,
é coisa bem diferente.
Valmonze
atirou longe a caixa e soltou uma forte praga. Levantou o punho, num
gesto de ameaça.
— Aplied
enganou-me; que patife... Não teve a menor dúvida em brindar seu
parceiro de negócios com certas expressões, que se aplicariam
perfeitamente a ele mesmo.
— Sem
dúvida acreditava que eu venderia a semente, sem examiná-la! —
berrava o patriarca.
Amat-Palong
manteve-se tranqüilo diante da irrupção do mercador. Quando
Valmonze se acalmou, disse:
— Não
posso imaginar que Aplied use truques tão primários. O senhor
deveria interessar-se por seu elemento de ligação, o tal do
Shaugnessy. Quem sabe se ele não pensou que nos podia enganar?
— Shaugnessy?
— os olhos de Valmonze chamejavam. — Shaugnessy não veio. Aplied
mandou outra pessoa. Seu nome é Princer.
— Será
que isso faz alguma diferença? Pouco importa que o senhor seja
enganado por uma pessoa que se chama Shaugnessy ou Princer.
— O
senhor deveria ver esse terrano — gritou Valmonze, em tom
indignado. — É o maior imbecil que já apareceu neste sistema. Tem
medo de elevadores e não tem a menor idéia do nosso negócio.
Bateu
fortemente no peito do ara.
— Mandarei
buscá-lo. Veremos se mentiu para nós.
Amat-Palong
riu.
— Não
há nada mais fácil que isso. Prepararei uma injeção que fará o
tal do Princer contar qualquer coisa que o senhor queira.
Valmonze
dirigiu-se ao sistema de intercomunicação do ara e ligou-o.
Resmungou seu nome e começou a dar ordens.
— Procurem
o terrano e a mulher que vieram conosco na Val I. Têm de ser
trazidos imediatamente. Aguardo no laboratório.
Satisfeito,
deixou-se cair numa cadeira.
— Pronto
— disse. — Vamos cuidar do Princer.
*
* *
Folhas e
galhos roçaram em seu rosto. Subitamente sentiu chão firme sob os
pés.
Os laços
foram afrouxados. O terrano olhou em torno. Encontrava-se sobre uma
plataforma construída entre os galhos. Era feita de tábuas toscas.
Cora, que se encontrava a um metro de distância, desvencilhava-se da
corda.
Princer
olhou para o alto. Acima de sua cabeça havia uma cabana de folhas,
presa aos galhos mais grossos. Quatro estranhas criaturas estavam
sentadas na entrada da mesma. Seu tamanho era o de um homem normal.
Mas este era o único ponto de semelhança com os terranos. Em suas
cabeças de pássaros brilhava um par de olhos negros e inteligentes,
rodeados por um círculo de penas. Um bico largo e curto dominava o
rosto. Princer notou que seus braços, quando abertos, formavam asas.
Imaginava que naquela atmosfera densa deviam ser perfeitamente
capazes de voar. Os corpos estavam cobertos por penas.
Princer
compreendeu o que Valmonze quis dizer quando lhe sugeriu que tirasse
os nativos de cima das árvores.
— São
nativos — disse a Cora, em tom tranqüilizador. — Não devem ser
perigosos, pois do contrário o saltador nos teria prevenido.
Um dos
pássaros desceu para a plataforma em que se encontravam. A folhagem
densa não permitia que voasse, motivo por que desceu pelas cordas.
— Nós
fazer brincadeira gostosa — disse, cumprimentando Princer num
péssimo intergaláctico. — Puxar gente sem asas do chão.
Enquanto
falava, seu bico batia. A voz parecia rouca e estridente. Princer
tinha idéias bem definidas sobre o senso de humor. E essas idéias
não incluíam o uso de armadilhas. Piscou para Cora.
— Deixe-nos
descer — pediu. — Estamos com pressa.
O
ser-pássaro contemplou-o com uma expressão astuciosa. Sua mão em
garra apontou para os pacotes de cigarros que Princer trazia sob o
braço.
— Isso
ser presente para Schnitz? — perguntou em tom curioso.
O terrano
caminhou em sua direção. A plataforma começou a balançar. Schnitz
parecia não se importar com isso, mas Princer empalideceu. Seu corpo
balançava no ritmo das tábuas. Cora segurou-se num galho.
— Presente?
— repetiu Schnitz, impaciente.
Princer
não se sentia muito disposto a fazer presentes. Enquanto estavam
perdendo tempo, os saltadores talvez já tivessem iniciado a
perseguição.
— Nada
feito, amigo — disse ao nativo. — Não temos presentes. Queremos
seguir nosso caminho.
Schnitz
fitou-o prolongadamente. Grasnou em sua língua incompreensível para
os três companheiros que continuavam sentados na frente da cabana.
Princer assustou-se ao notar que estes também desceram para a
plataforma, que estremeceu sob o peso. O jovem usou a mão livre para
segurar-se numa das cordas.
— Gente
sem asas agora querer dar presente para Schnitz? — perguntou o
nativo, numa ameaça evidente.
— Dê-lhe
um maço — disse Cora. — Talvez com isso ele se torne mais
amistoso. E eu também gostaria de fumar.
Princer
cedeu contra a vontade ao desejo da mulher. Entregou um maço a
Schnitz e abriu um outro para Cora.
Schnitz,
muito nervoso, começou a examinar seu presente. Os companheiros
acompanharam-no com uma tagarelice insuportável.
— Isto
me acalma — disse Cora, com um suspiro de alívio e soltando uma
baforada.
Schnitz
fitou-a com uma expressão de curiosidade. Aspirou a fumaça.
— Não
quer fumar, Johnny? — perguntou Cora.
Princer
lançou um olhar acanhado para a copa da árvore.
— Você
sabe perfeitamente que não fumo — respondeu. — Meu estômago não
suporta.
Schnitz,
que chegara mais perto de Cora, aspirou fortemente a fumaça. O
terrano contemplou a cena com uma expressão de repugnância. Não
compreendia como um ser inteligente podia agir dessa forma.
— Parece
que está gostando — observou Cora.
De repente
Schnitz começou a girar em torno do próprio eixo. Estendeu os
braços, e as asas entesaram-se. Cambaleava de uma extremidade da
plataforma para outra, como se estivesse bêbado. As tábuas rangiam
e estalavam.
— Este
sujeito ainda acabará nos atirando lá embaixo! — exclamou
Princer.
Cambaleante,
Schnitz voltou a aproximar-se de Cora. O terrano preferiu não barrar
seus passos. Para isso teria de soltar a corda. E se o fizesse,
poderia perder o equilíbrio e cair da plataforma. Os outros três
seres-pássaro também tiveram seu interesse despertado para a
fumaça. Seguiram Schnitz e aspiraram gulosamente as emanações do
tabaco.
— Jogue
fora o cigarro! — gritou Princer para a esposa. — Você não vê
que a fumaça os embriaga?
Schnitz e
seus companheiros deixaram de lado toda a cautela e todas as
considerações. Executaram uma dança sobre as tábuas, fazendo com
que o suor porejasse na testa de Princer.
— Pare!
— gritou o terrano. — Pare com isso!
Schnitz
cambaleou em sua direção; parecia feliz.
— Gente
sem asas trazer bom presente — gritou com a voz rouca. — Também
ter desejo?
— Tenho
— disse Princer, falando com dificuldade. — Estamos fugindo dos
saltadores. É importante que encontremos um esconderijo e saiamos
logo daqui. Pode ajudar-nos?
— Ajudamos
— disse prontamente o nativo. — Schnitz mandar amigo ao campo de
pouso. Amigo observar saltadores. Enquanto isso Schnitz fazer
assentos de carregar.
O nativo
conversou com um dos companheiros, que subiu à copa da árvore.
Princer imaginou que o ser-pássaro voaria para o espaçoporto.
— O que
vêm a ser os tais dos assentos de carregar? — perguntou Cora, em
inglês. — Será que os nativos pretendem carregar-nos pela selva?
Princer
imaginava que a intenção de Schnitz não seria muito diferente da
suposição levantada por Cora. E devido a tal idéia, uma sensação
de insegurança invadiu-o. Perguntou a si mesmo se, depois que
cessasse o efeito do cigarro, a disposição amistosa dos
seres-pássaro continuaria.
— Que
tal se, vez por outra, você fumasse um cigarro? — sugeriu a Cora.
— Com isso nossos amigos continuarão bem-humorados...
Mas antes
que concluísse, sua consciência começou a acusá-lo.
— Não,
não é justo que nós os exploremos em nosso benefício —
censurou-se em tom violento. — Nós os envolvemos em algo com que
não têm nada a ver.
— Se
você não quer fazer nada por si mesmo, comece a pensar em mim —
respondeu Cora. — Ou então procure lembrar-se do plano de informar
Perry Rhodan sobre as pessoas envolvidas no contrabando. Mas se, a
cada passo, você ficar refletindo sobre o que é certo ou não é,
nada conseguiremos. Não acha?
Enquanto
Cora falava, Princer enrubesceu. Fitou-a com uma expressão desolada.
Seus dedos começaram a puxar a corda, como se aquilo fosse um
trabalho inadiável. Cora aproximou-se pela plataforma balouçante.
— Sinto
muito, Johnny — disse. — Acho que fiz mal em recriminá-lo.
Concordo com tudo que você fizer — acariciou seu rosto.
— Você
está com a razão — contrapôs Princer em tom áspero. Inclinou-se
para beijá-la, mas o balanço da plataforma fez com que desistisse
imediatamente do seu intento. — Você não precisa fumar todos os
cigarros, pois também fumarei alguns.
Entesou o
corpo e voltou a dirigir-se a Schnitz, que se balançava
tranqüilamente numa corda.
— O que
pretende fazer com os assentos? — perguntou.
— Voar
com gente sem asas — anunciou Schnitz laconicamente. — Faremos
vôo longo, até chegar bom esconderijo.
A simples
idéia de um vôo fez com que o estômago de Princer se revoltasse.
— Somos
muito pesados — objetou. — Nenhum de vocês conseguirá
carregar-nos.
— Em
quatro — disse Schnitz, em tom alegre. — Dois de nós carregarão
um sem asas.
— O que
você acha do plano? — perguntou Princer, dirigindo-se à esposa.
— Os
nativos conhecem esta terra — ponderou Cora. — Sabem
perfeitamente para onde ir. Penso que essa forma é a única segura.
Tenho a impressão de que uma marcha pela floresta torna-se perigosa.
— Está
bem — disse Princer. — Schnitz, vamos voar nos assentos de
carregar.
Schnitz
deu uma ordem a um dos companheiros, e o nativo subiu até ao
“palanque”.
O terrano gostaria de obter outras informações sobre esses
seres-pássaro, mas não queria perder tempo com perguntas.
Tinha a
impressão de que o lugar, onde no momento se encontravam, era um
posto de observação que lhes permitia vigiar os saltadores. A
plataforma não parecia ser a residência dos seres-pássaro.
Cora
acendeu outro cigarro. Schnitz contemplou-a com uma expressão feliz
e farejou gostosamente. Princer sentia uma simpatia inexplicável
pelos nativos. Justamente por isso não estava gostando de recorrer a
este método, isto é, embriagá-los com fumaça.

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