A volta do
amigo de Schnitz fez com que o terrano esquecesse suas preocupações
por alguns minutos.
— Kankantz
buscar material para assentos — disse Schnitz aos terranos. —
Fazer muito depressa.
Kankantz
parecia alegre; soltou um som borbulhante. Piscou amavelmente e as
penas em torno de seus olhos balançavam-se para cima e para baixo.
Mas Princer só viu duas tábuas finas e algumas cordas desfiadas,
que Kankantz trouxera.
— Será
que estes são os assentos? — perguntou bastante abalado.
Schnitz
pegou uma das tábuas e agitou-a energicamente diante do rosto de
Princer. Parecia querer demonstrar a resistência da madeira.
— Você
acredita que este meio de transporte é seguro? — perguntou o
terrano, dirigindo-se à esposa. — Não acredito que com isso
consigamos chegar muito longe.
— Será
que temos outra alternativa, Johnny?
Schnitz,
Kankantz e o outro nativo já haviam começado a fazer entalhes nas
tábuas. Para isso utilizavam facas que, sem a menor dúvida, eram
mercadorias do comércio dos mercadores. Fizeram duas reentrâncias
em cada um dos lados das tábuas. Depois amarraram as cordas,
fazendo-as passar pelos entalhes. Uma vez prontos, os assentos tinham
o aspecto de antigos balanços.
Schnitz
dobrou a faca e a fez desaparecer no montão de penas que cobria seu
corpo. Contemplou sua obra com uma expressão de orgulho. Princer
fitou-o um tanto constrangido.
— Fazer
bom trabalho — disse Schnitz e coçou-se.
Com isso,
o assunto parecia estar liquidado para ele. Sentou calmamente na
frente de Cora e inalou a fumaça do cigarro. Revirava os olhos e
batia com o bico, a fim de demonstrar sua satisfação. Kankantz
sentou-se a seu lado e o outro nativo ajeitou-se num galho,
balançando a cabeça na frente de Cora.
— O que
vamos fazer agora? — perguntou Princer. — Schnitz, não podemos
ficar para sempre nesta plataforma.
Schnitz
ficou visivelmente aborrecido com a perturbação.
— Esperar
Lupatz — limitou-se a dizer.
O terrano
teve sua atenção despertada pelos ruídos vindos da mata. A
folhagem era tão densa que mal conseguia enxergar o que havia lá
embaixo. Mas o pouco que viu bastou para acelerar seu pulso.
A cem
metros da árvore onde se encontravam, três saltadores abriam
caminho pela mata.
Vinham na
direção do esconderijo!
5
O
embaixador dos morgs possuía uma cauda mais grossa que um braço
humano. Por isso não se podia esperar que ele se acomodasse numa
poltrona comum. Foi, então, construído um encosto que se adaptasse
ao feitio do corpo do morg, a fim de proporcionar-lhe o máximo de
conforto.
Mas,
naquele instante, Stanour, o embaixador dos morgs, nem parecia pensar
em fazer uso desse encosto. Muito nervoso, aproximou-se do lugar em
que estava Perry Rhodan. Seus olhos salientes emitiam um brilho
azulado. Possuía seis olhos, distribuídos de maneira uniforme pelo
crânio oval. Geralmente os morgs eram um povo pacato, não se
envolvendo nas lutas cósmicas. Mas, no caso de Stanour, notava-se
muito pouco desse espírito pacato.
— A cada
dia que passa, encontramos um número maior de pessoas viciadas,
administrador — latiu na sua língua estranha. — Pastonar, uma
cidadezinha situada no oeste do país de Troatara, é habitada
exclusivamente por pessoas loucas. O entorpecente vem se
transformando num perigo para nosso povo.
Eduard
Deegan, encarregado de negócios da Terra em Morg, traduziu as
palavras da criatura extraterrena para os presentes. Além de Rhodan,
Deegan e do morg, encontravam-se também no recinto Allan D. Mercant,
chefe da Segurança Solar, e Reginald Bell. Perry deixara
propositadamente de convocar outras pessoas. Queria evitar que a
presença de muitos subordinados desse ao morg a impressão de que
ele, o administrador, não levava a sério as preocupações que o
atormentavam. Stanour conhecia pessoalmente Rhodan e Bell. Além
disso, lhe haviam explicado quem era Mercant. O fato de poder
encontrar-se a sós com esses personagens importantes já o acalmara
um pouco.
— Não é
só do planeta Morg que recebemos estas informações — disse
Rhodan.
Via-se
que, nos últimos meses, Perry trabalhara demais. As experiências
com o mecanismo de propulsão linear e o encontro com os acônidas
deixara seus vestígios. E a carga causada pelas atividades
criminosas dos traficantes de tóxicos afetou ainda mais seu estado
psicológico.
— Ao que
parece, o negócio dos entorpecentes assume proporções cada vez
mais amplas — prosseguiu Rhodan. — Parece que os fornecedores
estão na Terra, enquanto os mercadores galácticos exercem as
funções de distribuidores.
Deegan
traduziu as suspeitas de Rhodan para o morg. Mas aquela criatura,
cujos antepassados viveram nos pântanos, não se mostrou disposta a
assumir uma atitude mais gentil.
— Os
saltadores afirmam que os terranos são os únicos culpados da
propagação do tóxico! — exclamou o morg. — Administrador, o
senhor não deve esquecer-se de que a substância que apareceu em
toda parte é ópio terrano. Pelo que dizem os saltadores, os
políticos terranos querem contaminar várias raças da Galáxia com
o veneno, a fim de incorporá-las ao Império Solar.
Deegan
hesitou em traduzir a acusação. Enquanto este falava, Rhodan
começou a morder os lábios. Mas de resto continuou tranqüilo.
Bell, porém, não conseguiu dominar-se.
— Que
demônios — disse, levantando-se de um salto. — Realizam um
trabalho sistemático para incompatibilizar-nos com os outros povos.
Quem me dera que eu soubesse quem são os canalhas de nossa raça que
colaboram nisso. Teria o maior prazer em despachá-los pessoalmente
para Plutão.
— Meus
agentes trabalham dia e noite — disse Mercant. — Interrogamos
todos os suspeitos. Deve ser um grupo inteiramente novo. As velhas
raposas não têm nada a ver com a negociata. Provavelmente o chefe
vive entre nós sob a máscara do bom burguês. Como poderemos
encontrá-lo? Será que devemos submeter todos os homens a um teste
mental, realizado por telepatas? Tal proceder entraria em choque com
nossos princípios éticos e, além disso, seria praticamente inútil.
Quando concluíssemos o trabalho, os saltadores já teriam alcançado
seu objetivo, ou seja, a maior parte das raças, que têm negócios
com o Império Solar, proibiria nossa entrada em sua área de
influência.
— Já
expliquei isso inúmeras vezes a Stanour, sir — disse Eduard
Deegan, em tom de desânimo. — O senhor nem imagina a miséria que
o ópio causa neste povo. Em comparação com as vítimas morgs, um
terrano viciado parece um raio de sol...
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Diga-lhe
que faremos tudo que estiver ao nosso alcance para descobrir os
criminosos. Estamos dispostos a enviar médicos para Morg, que
mitigarão os males. Não podemos fazer mais que isso.
— Fomos
honestos com os terranos! — exclamou Stanour em tom amargurado,
depois que Deegan traduzira com voz sombria as palavras de Rhodan. —
Estes tempos passaram. Não estamos mais interessados na presença
dos cargueiros terranos em Morg. Mr. Deegan tem sido um excelente
amigo; não tem culpa de nada. Apesar disso vemo-nos obrigados a
fechar o entreposto comercial. Façam o favor de retirar seus homens
num prazo razoável. Nosso governo ainda lhes indicará com exatidão
o tempo para tal retirada. Desde logo posso adiantar que
Quatrox-Zuat, Imperador de Saastal, seguirá nosso exemplo. Também
falo como representante de Sua Majestade. Afinal, Saastal é nosso
planeta gêmeo, e mantemos excelentes relações com essa raça.
Deegan
concluiu fielmente seu trabalho de tradução. Bell fez menção de
investir furiosamente contra o morg, mas o olhar de Rhodan o deteve.
— Cuide
de nosso amigo, até que ele deixe a Terra. Diga-lhe que respeitamos
os desejos de seu governo e romperemos as relações comerciais.
Deegan
esteve a ponto de levantar-se, mas Rhodan ainda não chegara ao fim.
— Um
momento, Deegan. Diga-lhe, também, que um belo dia as naves
cargueiras terranas voltarão a ser bem vistas em Morg e Saastal...
ou então não me chamo Perry Rhodan.
Bell, o
grande amigo do administrador, foi o único que notou a exaltação
que se apoderou de Rhodan.
— Passe
bem, administrador — disse Stanour, e saiu da sala, acompanhado por
Eduard Deegan.
Os três
grandes permaneceram em silêncio por algum tempo. Cada um estava
entregue às suas próprias reflexões. Mercant foi o primeiro que
voltou a falar.
— Estamos
mal — disse em tom de desânimo. — Realmente acreditam que nós é
que espalhamos os entorpecentes.
Rhodan
confirmou com a cabeça. Estava sentado na poltrona. Alto, quase
chegava a ser uma figura lendária no seu uniforme simples e limpo.
Os olhos pareciam ser a única coisa viva naquele rosto anguloso. Só
mesmo um homem, que carregava uma enorme responsabilidade em todos os
minutos de sua vida, poderia ter um rosto como este. A ducha celular
do planeta artificial Peregrino mantivera jovem o corpo de Rhodan,
mas as experiências pelas quais havia passado se acumularam em seu
espírito.
— Isso
foi apenas o começo — disse em tom tranqüilo. — Outros planetas
seguirão o exemplo de Morg e Saastal. É exatamente o que os
saltadores querem. Se conseguirem nosso isolamento econômico, não
teremos a menor chance de manter o Império Solar. Nem os propulsores
lineares e nem os mutantes deverão iludir-nos quanto a isso.
Bell
cerrou os punhos.
— Esse
morg idiota! Não demorará a perceber que seus amigos saltadores são
uns carrascos e...
Sempre que
Bell soltava uma frase mais longa, podia-se ter certeza de que esta
continha algumas pesadas expressões. Mas, naquele momento, sua
indignação era genuína, e ninguém pensou em criticá-lo por isso.
O vice-administrador conhecia perfeitamente as conseqüências que o
tráfico de entorpecentes poderia produzir.
— Quando
isso acontecer, será tarde, tanto para nós como para os morgs e
para as outras raças interessadas — objetou Mercant. — Penso
constantemente no que poderá acontecer se os saltadores conseguirem
pôr as mãos em sementes que lhes permitam plantar suas próprias
papoulas... Seria o fim.
— Este
raciocínio tem um ponto falho — interferiu Bell. — O senhor
realmente acredita que os contrabandistas terranos estariam dispostos
a proporcionar essa possibilidade aos mercadores? Caso eles agissem
assim, perderiam o negócio.
Rhodan
ouvira as palavras dos dois amigos. Parecia pensativo.
— Acho
que não devemos deixar de lado as suspeitas de Allan — disse. —
Não sabemos se, além dos motivos econômicos, o grupo de bandidos
terranos não é movido por motivos políticos.
— Motivos
políticos? — repetiu Bell, em tom exaltado. — Não compreendo.
Um sorriso
frio surgiu no rosto de Rhodan. Saiu de trás da mesa e foi à
janela. Abaixo dele estendia-se Terrânia, a cidade dos superlativos.
Para Rhodan, que era norte-americano, a metrópole terrana tinha um
encanto todo especial. Transformara-se em sua segunda pátria.
— É
possível que na Terra exista algum grupo interessado em derrubar o
atual governo — disse Rhodan. — Como deveria agir um grupo
desses? Se forem inescrupulosos, usarão de todos os meios para
incompatibilizar-nos com os outros.
— Infelizmente
você tem razão — admitiu Bell. — Acho que teremos de nos ocupar
ainda mais intensamente com a organização de contrabandistas.
Rhodan
afastou-se da janela. Fitou Bell e o chefe do Serviço de Segurança.
— É o
que faremos, meus caros. Dentro de quatro horas convocarei uma
conferência. Allan trará seus oficiais. E os elementos de ligação
com nossos entrepostos comerciais estelares também estarão
presentes. Estou pensando em recorrer a alguns mutantes.
A
conferência foi realizada na hora prevista. Eram 18 horas, quando o
administrador abriu os trabalhos.
Os
vespertinos daquele dia publicaram uma entrevista de Archibald
Princer, Presidente da Intercosmic Fruit Company. Princer exigia que
a Frota Solar saísse imediatamente à procura de seu filho John
Edgar que, segundo tudo indicava, se perdera durante a viagem de
núpcias para Vega. Os leitores, que não sorriam ao lerem a
entrevista, tiveram um acesso de riso, quando viram o retrato, também
publicado nos jornais. A foto mostrava um jovem de olhos sonhadores e
orelhas de abano. Era John Edgar.
O jovem
Princer tinha o aspecto de um homem capaz de se perder em sua própria
casa. Ninguém pensaria que era um piloto espacial arrojado que saía
para o cosmos, em viagem de núpcias.
Perry
Rhodan encerrou a conferência pouco depois das 20 horas. Decidira,
juntamente com os presentes, a adoção de várias medidas destinadas
a pôr fim ao contrabando. Naquela mesma noite, Stanour, embaixador
de Morg, decolou do espaço-porto de Terrânia.
A
população da Terra nem desconfiava das dificuldades pelas quais
iria passar. Se alguém perguntasse a qualquer um sobre o
acontecimento mais importante do dia, este talvez responderia com um
sorriso:
— Bem,
um homem jovem desapareceu durante a viagem de núpcias.
Mas não
era só isso.
Naquele
momento, a única chance de o Império Solar impedir o início do
boicote econômico repousava sobre os ombros de John Edgar Princer, o
novato.
6
Os três
mercadores pararam, indecisos. Olharam em torno. Princer observou-os;
prendeu a respiração. Atrás dele, a plataforma começou a balançar
ligeiramente. Lupatz voltara sem o menor ruído. Princer bateu
levemente nas costas de Schnitz e fez um sinal em direção aos
saltadores. O nativo não se mostrou assustado.
— Gente
sem asas esconder mais em cima, na cabana — disse, dirigindo-se a
Princer. — Schnitz fazer grande truque.
Schnitz
lembrava de certa forma um prestidigitador que, a cada momento,
apresenta uma idéia nova, para deixar perplexo seu público. Era bem
verdade que os meios escolhidos por Schnitz eram ainda bem
primitivos. Apesar disso irradiava uma segurança, fazendo com que
Princer conservasse a calma. Esses seres-pássaro eram os
extraterrenos mais otimistas de que Princer ouvira falar.
O terrano
dirigiu-se à esposa.
— Temos
de esconder-nos na cabana. Schnitz quer desviar a atenção dos
saltadores. Você acha que é capaz de subir por esta corda?
Cora fez
que sim. Apagou o cigarro e puxou-se corda acima. Schnitz
contemplou-a com a maior tranqüilidade.
— Agora
homem sem asas também subir — disse, dirigindo-se a Princer.
Aquele
jovem nunca tentara uma escalada desse tipo. Parecia fácil, pois
Cora conseguira sem a menor dificuldade. O terrano estendeu os
braços, agarrou-se à corda e levantou-se. Mas o cipó começou a
movimentar-se, levando Princer para além da plataforma. As folhas e
os galhos roçaram nele. Não se atreveu a olhar para baixo.
A corda
voltou a trazê-lo para cima das tábuas. As garras de Schnitz
seguraram-no pela jaqueta.
— Sem
asas não conseguir — constatou o nativo. — Schnitz ter que
ajudar.
Princer
sentiu-se envergonhado por ter que aceitar a ajuda do ser-pássaro.
Lupatz e o quarto nativo olharam indiferentes, enquanto o terrano se
martirizava para subir.
Schnitz,
segurando-o pela gola, fê-lo subir de um galho a outro. Finalmente
viu-se ao lado de Cora, junto à entrada da cabana. Não se atreveu a
fitá-la diretamente.
— Pode
entrar — disse sua esposa, sorrindo. — Nossa nova casa não é
nada senhorial, mas parece oferecer um máximo de segurança. Talvez
seja preferível tapar o nariz...
Princer
percebeu que a esposa não lhe levava a mal a figura desastrada, que
fizera durante a escalada. Feliz, seguiu-a para o interior da cabana.
Schnitz ficou parado junto à entrada. As paredes eram feitas de
tábuas, capim, folhas e musgo. A luz penetrava pelas frestas.
— Ficar
quieto — disse Schnitz. — Schnitz agora falar com saltadores.
Deixou-se
cair para trás. Cora não conseguiu reprimir um grito. Princer
lançou-lhe um olhar de advertência, pois pelos estalos vindos de
baixo concluía-se que os saltadores já se haviam aproximado da
árvore.
— Olá,
guerrilheiros! — grasnou Schnitz, que se encontrava na plataforma.
Antes que
Princer tivesse tempo de espantar-se com essa expressão, o nativo
prosseguiu.
— Vocês
trazer presente para nós?
— Não,
seu bicho de penas — respondeu a voz profunda de um mercador. —
Não trouxemos nenhum presente para seu bando.
— Então
desaparecer depressa — exigiu Schnitz, com a arrogância de um
general.
— Se sua
habilidade for tão grande quanto seu atrevimento, poderemos confiar
nele, sem o menor receio — cochichou Cora para o marido.
— Preste
atenção, pássaro — gritou o saltador, em tom de ameaça. —
Estamos procurando um homem e uma mulher. São mais magros que nós e
não usam barba. Usam vestes estranhas.
— Bons
amigos de Schnitz — disse o nativo. — Fazer grande presente.
Tomara que voltem logo.
— Em que
direção foram?
— Para
dentro do mato. Por lá — Princer não pôde ver a direção
indicada por Schnitz. — Já faz muito tempo.
O estalo
dos galhos e o farfalhar das folhas provavam que os saltadores
prosseguiam nas buscas. Dali a pouco, a silhueta de um ser-pássaro
apareceu na entrada da cabana. Era Schnitz. Recostou-se calmamente à
parede.
— Obrigado
— disse Princer com um suspiro de alívio. — Muito obrigado,
amigo.
Schnitz
levou a mão-garra ao bico, com um cigarro imaginário. Era um pedido
inequívoco.
— Que
tal se você fumasse um cigarro? — perguntou Cora.
— Vou
tentar.
Schnitz
esperou ansiosamente até que o terrano acendesse um cigarro. Princer
tossia.
— Você
não deve tragar recomendou Cora.
— Sim,
querida — disse Princer, com a voz rouca.
Seus olhos
lacrimejavam. Já umedecera tanto o cigarro que os pedacinhos de
tabaco se desprendiam e grudavam nos lábios. Tudo que fazia dava
errado. Começou a pensar que jamais conseguiria transmitir a notícia
a Rhodan.
— Agora
sair voando — sugeriu Schnitz, libertando Princer de suas sombrias
reflexões. — Lupatz, Kankantz e Tonitutz estar prontos.
Entrou na
cabana e desprendeu a parede dos fundos, dobrando-a para dentro.
Perplexo, Princer viu que os nativos haviam aberto uma espécie de
canal de entrada pela copa da árvore. Kankantz apareceu com os
assentos.
— Ainda
está na hora de mudarmos de opinião — disse o terrano, virando o
rosto e soltando a fumaça.
Cora
balançou a cabeça, em sinal negativo.
De repente
ouviram o ruído característico de uma espaçonave. Olhando pela
clareira aberta pelos nativos, Princer viu-a passar.
Não
deveriam hesitar mais; teriam de fugir logo.
A
espaçonave era de procedência terrana.
Princer
não teve a menor dúvida de que o homem que viria na nave era aquele
que Valmonze já aguardava há muito tempo.
Shaugnessy!
Isso não
significava nada mais nada menos que a sentença de morte para John
Edgar Princer e sua jovem esposa.
*
* *
Toraman
era o filho mais velho de Valmonze. Muitas vezes vira o pai nervoso e
zangado. Mas a disposição de ânimo, em que o patriarca agora se
encontrava, era bem superior às irrupções anteriores. O velho
mercador segurava com ambas as mãos a armação, sobre a qual se
encontrava o videofone. Na tela surgiu o rosto de um terrano, que
também não parecia muito bem-humorado.
— Shaugnessy!
— esbravejou Valmonze. — Exijo explicações imediatas.
— O
senhor só pode estar brincando — afirmou o contrabandista. — É
o senhor que tem de explicar o que está acontecendo por aqui. Não
compareceu ao lugar combinado para introduzir-me na Val I. Quando
finalmente consegui estabelecer contato pelo rádio, o senhor me
contou uma história maluca, a respeito de uma semente de papoula que
não é semente de papoula. Já não compreendo mais nada. E, além
de tudo, o senhor exige explicações!?
Valmonze
reconheceu que desse jeito não conseguiria nada. Shaugnessy sabia
representar muito bem, ou então realmente não sabia o que o
patriarca estava dizendo.
— Pouse
— disse o chefe de clã. — Depois conversaremos.
— Isso
já são falas melhores — disse o homem que aparecia na tela. —
Apenas espero que, quando eu pousar, seu bom humor tenha voltado.
Valmonze
resmungou alguma coisa e desligou. Esbarrou em Toraman, que se
encontrava atrás dele. Seu filho retirou-se imediatamente, em
atitude respeitosa. Os saltadores, que se encontravam presentes,
fitaram tensos o chefe. Somente Amat-Palong, que se mantinha num
ponto mais afastado, exibiu um sorriso irônico.
Mas, para
Valmonze, os acontecimentos chocantes ainda não haviam chegado ao
fim. Os três saltadores, que foram enviados à floresta para trazer
Princer, entraram na sala. Não tiveram necessidade de fornecer
explicações. O patriarca logo notou que não haviam encontrado o
terrano.
— Não
conseguimos alcançá-los patriarca — disse um deles. — Tinham
uma dianteira muito grande.
— Ainda
bem que temos entre nós um sujeito “inteligente”
como você — gritou Valmonze. — Descobrirei os dois terranos, nem
que tenha que incendiar toda a floresta.
Por um
instante, uma expressão de revolta surgiu nos olhos do mais jovem
dos dois saltadores. Mas a tradição acabou levando a melhor. Era
impossível contraditar um patriarca.
O saltador
deu mais uma informação:
— Encontramos
alguns nativos, patriarca. Eles nos disseram que os fugitivos estão
a caminho da grande depressão. Se pegarmos um planador, poderemos
chegar lá antes deles.
Um brilho
colérico surgiu sob as sobrancelhas hirsutas de Valmonze. Como chefe
do clã queria dar todas as ordens, mas ao mesmo tempo esperava que
os membros do clã desenvolvessem uma atuação independente. A
contradição entre essas idéias nem lhe acudiu à mente. Seu poder
era de natureza totalitária, e jamais tal tipo de comando fizera bem
a qualquer criatura pensante.
— O que
estão esperando? — berrou o patriarca fora de si. — Razmon
pilotará o planador. Dirijam-se imediatamente à grande depressão.
— Será
que o senhor realmente é tão criança? — disse uma voz, vinda dos
fundos da saía.
Valmonze
ficou rígido. O silêncio era tamanho que se poderia ouvir o
tiquetaquear de um relógio de pulso. Finalmente os saltadores
fitaram o homem que se atrevera a ofender o patriarca em público.
Depararam-se
com o rosto frio de Amat-Palong, o ara. Era um homem grande mas, ao
contrário dos saltadores, era magro. Estava encostado a uma
prateleira cheia de pastas. Quando Valmonze olhou em sua direção,
um sorriso ligeiro aflorou-lhe nos lábios.
Sem dúvida
alguns dos saltadores sentiram-se alegres com as palavras do médico.
Mas estes esperavam que Valmonze desabasse sobre Amat-Palong com a
força de uma tormenta, sentiram-se decepcionados. O patriarca provou
que sabia dominar seus sentimentos, quando a situação assim
exigisse.
— Sua
crítica só se justifica se o senhor tiver uma idéia melhor, ara —
disse Valmonze, em tom indiferente. — Estamos curiosos para
ouvi-la.
Amat-Palong
empurrou-se com o ombro e afastou-se da prateleira. Lançou um olhar
de tédio para o saltador.
— Coloque
um planador à minha disposição — pediu a Valmonze. — Eu lhe
trarei o tal do Princer.
Se o
saltador já exibiu um sorriso matreiro, foi nesse instante. Se não
cumprisse, a promessa que acabara de fazer, Amat-Palong cairia no
descrédito.
— Também
pretende ir à grande depressão? — perguntou.
— Não —
respondeu Amat-Palong, laconicamente.
Era
evidente que preferia não revelar seu destino.
— Está
bem; dar-lhe-ei um planador — disse Valmonze. — Mas, de qualquer
maneira, Razmon irá também à depressão.
O ara
acenou tranqüilamente com a cabeça e saiu, sem demonstrar a menor
pressa. Com um gesto, Valmonze mandou que os três saltadores, que
reiniciariam as buscas ao lado de Razmon, também se retirassem.
— Shaugnessy
acaba de pousar — disse uma voz saída do intercomunicador. —
Quais são suas ordens, patriarca?
— Estou
no escritório central — disse Valmonze. — Tragam o terrano para
cá.
Dali a
menos de quinze minutos, Clifton Shaugnessy entrou na sala. Era um
homem baixo, de ombros largos. O nariz adunco formava um contraste
desagradável com o rosto. O contrabandista usava uma jaqueta curta,
enfeitada com bordados. Falava quase sem movimentar os lábios, o que
dava um tom cavernoso à sua voz. Uma arma térmica de fabricação
antiga estava pendurada no cinto.
— Perry
Rhodan colocou a Terra sob quarentena — disse a título de
cumprimento. — Por isso não pude chegar na hora marcada. Não
trouxe semente de papoula, nem a mercadoria de sempre. Aplied achou
que seria muito perigoso reiniciar os negócios agora. As
naves-controle estão realizando inspeções extremamente rigorosas.
Nenhuma nave cargueira pode decolar sem permissão. Em Terrânia
ainda prevalece a proibição de pousar e decolar. O motivo é a
doença que grassou por lá. Segundo os boatos, até mesmo Rhodan foi
atacado. Dizem que se contagiou durante uma experiência. Aliás,
essa experiência originou estranhas suposições, que estão dando o
que pensar. Conta-se que Rhodan experimentou com pleno êxito um novo
sistema de propulsão e, na oportunidade, encontrou uma raça que,
segundo se diz, é muito mais poderosa que Árcon, a Terra e os
saltadores reunidos.
— O
senhor me traz boatos — disse Valmonze, em tom zangado. —
Esperamos mercadorias e Aplied o manda para cá com boatos, que não
têm o menor valor para nós.
Shaugnessy
não parecia nervoso. Tinha o aspecto de um homem que não se
preocupa com nada, muito menos com os problemas de um mercador
galáctico.
— O
senhor conhece um certo Princer, que trabalha para Aplied? —
perguntou Valmonze.
— Princer?
— repetiu Shaugnessy, puxando o zíper da jaqueta, como se isso
servisse para reavivar-lhe a memória. — Não. Nunca ouvi esse
nome.
— Pois
ele apareceu por aqui e diz ser seu representante. Trouxe uma remessa
de sementes de papoula, mas quando as examinamos, verificamos que
eram falsas — informou Valmonze.
Shaugnessy
fez um gesto de aprovação.
— Que
sujeito formidável — disse numa objetividade que, para Valmonze,
só poderia parecer incompreensível. — Onde está?
— Fugiu.
Mas nós o pegaremos. Tem uma idéia de quem pode ser esse homem?
Veio acompanhado por uma mulher.
— Talvez
seja uma agente de Rhodan — disse Shaugnessy, que não parecia nem
um pouco nervoso com sua suspeita. — Um belo dia terão que
descobrir nossa pista...
Valmonze
preferiu não explicar ao contrabandista por que, em hipótese
alguma, se poderia permitir que, naquela altura, Rhodan descobrisse
os elementos de ligação do bando de traficantes. Seria inútil
falar em política galáctica a esse bandidozinho. Shaugnessy
transportava ópio, a mando de Aplied, para Valmonze. Aplied levava a
mercadoria a mais seis patriarcas. Além de Shaugnessy, havia mais
oito elementos que faziam a ligação com Aplied, e atendiam a outros
clãs dos saltadores. Isso representava um total de 63 traficantes
que, com o intuito de provocar uma modificação fundamental na
situação econômica da Terra, recebiam os entorpecentes.
Até era
possível que Shaugnessy nem soubesse que os mercadores se
interessavam pelos tóxicos porque esperavam que, com isso,
conseguiriam enfraquecer a posição da Terra. Sob o ponto de vista
comercial, seus lucros com os alcalóides não eram maiores que os
que lhes eram proporcionados por outras mercadorias. Quem fazia o
grande negócio era Vincent Aplied, da Cidade do Cabo.
— Seja
quem for esse Princer — disse Valmonze — precisamos encontrá-lo.
Não poderá sair deste planeta. Mais dia menos dia, nós o
prenderemos.
— Se
realmente for um agente da Segurança Solar, o senhor terá problemas
com ele — ponderou Shaugnessy. — Se for um simples impostor, não
podemos deixar de admirar sua coragem.
Valmonze
fez um gesto de recusa.
O único
sentimento que o terrano Princer provocava em Valmonze era o ódio,
pois o grande patriarca sentiu-se ludibriado.
E quando
se encontrava nesse estado, o patriarca era um homem perigoso. Sua
ira atingiria o jovem de forma implacável.
*
* *
O
vice-presidente da Intercosmic Fruit Company, John Edgar Princer,
apresentava um aspecto lamentável. Se Valmonze tivesse oportunidade
de vê-lo em tal estado, logo abandonaria a idéia de que podia
tratar-se de um agente.
Princer,
que estava sendo carregado sobre a floresta, numa altura estonteante,
achava-se sentado numa tábua de vinte e cinco centímetros de
largura, cujas extremidades encontravam-se presas a cordas que subiam
até Schnitz e Lupatz. Os dois seres-pássaro planavam com as asas
abertas.
O estômago
de Princer não atendia sequer às exigências de um elevador comum.
Por isso o terrano atravessava a pior hora de sua vida. Seu estômago
“murchara”.
A falta de sangue no cérebro turvava-lhe a vista. Talvez fosse bom,
pois os efeitos da visão àquela altura poderiam ser desastrosos
para Princer.
Uns vinte
metros à sua frente, Cora estava sendo carregada por Kankantz e
Tonitutz. Ele congratulou-se por ter deixado que a esposa voasse à
sua frente. Dessa forma, a jovem ficara livre de uma visão nada
agradável, e o vice-presidente da IFC, de explicações confusas. As
asas dos nativos possuíam uma envergadura extraordinária. Quando se
moviam, provocavam um deslocamento de ar, fazendo com que Princer
estremecesse de susto.
Suas mãos
seguravam firmemente as duas cordas. Não se atrevia a fazer o menor
movimento. A tábua fina tremia e balançava. O estado de Princer não
lhe permitia avaliar a velocidade com que se deslocava. A cada metro
que avançava, a distância que o separava dos saltadores aumentava.
Mas nem por isso sentia-se mais feliz.
A qualquer
momento trocaria seu assento arejado por uma cadeira situada no
interior da nave de Valmonze.
Mas logo
disse para si que, pensando dessa maneira, estava sendo egoísta. Não
devia pensar apenas em si mesmo. Sua valente esposa enfrentava iguais
perigos.
“Se
eu fraquejar”,
pensava o terrano, “perderei
a oportunidade de informar Perry Rhodan.”
Por isso
continuou a sofrer. Era uma figura contorcida sentada sobre um
pedacinho de madeira.
Não
saberia dizer quanto tempo durou o estranho vôo. Acreditava não
poder agüentá-lo por mais tempo, mas naquele momento Schnitz e
Lupatz começaram a descer. A aterrissagem foi-lhe apavorante. Um
suor frio cobriu o corpo de Princer. Sombras surgiram à sua frente,
além de círculos coloridos. O terrano respirava com dificuldade. De
repente sentiu um forte solavanco, e rolou pelo chão firme.
— Vôo
terminou — disse — Schnitz, em tom indiferente. — Homem sem
asas poder levantar.
Acontece
que Princer teve de enfrentar o efeito retardado de seus nervos.
Engatinhando, conseguiu avançar um pedaço. A primeira tentativa de
pôr-se de pé foi um lamentável fracasso. Finalmente ergueu-se com
as pernas trêmulas. Sua cabeça zumbia.
Viu-se num
prado que se estendia no meio da floresta. Cora achava-se a uns cem
metros do lugar em que ele se encontrava. Aproximou-se juntamente com
Kankantz e Tonitutz. Princer esforçou-se para dissimular seu estado
desolador. A passos largos caminhou ao encontro da esposa.
— Você
não achou que o vôo foi maravilhoso, Johnny? — perguntou Cora. —
Ele me refrescou.
Princer
enrubesceu até a raiz dos cabelos. Sua atitude máscula
desmanchou-se. Voltou a transformar-se no John Edgar Princer, o
desajeitado, que sempre fora.
— É
verdade, querida — mentiu.
Seu
sorriso desmanchou-se, quando a esposa o abraçou.
— Não
viemos para fazer um piquenique — disse em tom sério. — Você se
lembra de que Valmonze aludiu a várias estações de controle,
quando tentava expedir uma mensagem de bordo da Error?
— Não é
bem assim — retificou Cora. — Apenas disse que a área é mantida
constantemente sob controle.
Princer
levantou o dedo indicador muito fino, numa atitude professoral.
— Conclui-se
que é perfeitamente possível que, no planeta Alaze, existam várias
estações de rádio. Cabe-nos descobrir uma delas.
Voltou-se
para Schnitz e tornou a falar em intergaláctico, que os nativos
dominavam razoavelmente.
— Existem
outras estações de saltadores, além do espaçoporto? —
perguntou. — Sabe onde poderíamos encontrar uma?
O anel de
penas azuis, que cercava os olhos negros de Schnitz, balançava, numa
atitude de quem não compreendia.
— Schnitz
não compreender homem sem asas — disse. — Primeiro quer fugir,
depois volta a procurar saltadores.
Princer
lançou um olhar de súplica para a esposa.
— A
coisa é um tanto complicada, Schnitz. Queremos entrar em contato com
nossos amigos, que estão num outro planeta, para que venham
salvar-nos. Para isso precisamos de certos aparelhos. Os saltadores
têm esses aparelhos. Portanto, precisamos encontrar uma de suas
bases.
Schnitz
bateu o bico, o que era um sinal de que entendera. Será que Princer
se enganara, ou havia realmente um sorriso astucioso no rosto de
pássaro?
— Sem
asas querer fazer palestra a grande distância — constatou o
nativo. — Schnitz saber. Conhecer muitas estações. Muitas ficam
longe, longe demais. Só uma nas proximidades.
Lançou um
olhar ansioso para Cora e fez o movimento típico de um fumante.
Princer aguardou pacientemente que Cora acendesse um cigarro e
soprasse a fumaça para cima dos nativos de Alaze. Schnitz farejou,
pigarreou, fitou Princer com os olhos lacrimejantes e prosseguiu
visivelmente satisfeito.
— Todas
as estações guarnecidas por nativos, que prenderam aparelhos de
saltadores — disse.
Princer
fez um sinal para a esposa. Parecia sentir-se aliviado. Se Schnitz os
levasse até uma das estações de rádio e de controle, apenas
teriam de lidar com os nativos, não com os saltadores.
— Leve-nos
para este lugar, amigo — pediu a Schnitz.
Pela
primeira vez viu uma certa insegurança nas atitudes do ser-pássaro.
Schnitz abriu as asas.
— Não
ser possível — disse um pouco mais alto do que seria necessário.
— Área de outra tribo. Não ser amigos de Schnitz.
Passou a
falar com os companheiros, usando sua língua. O vice-presidente da
IFC compreendeu os gestos de Kankantz, Lupatz e Tonitutz. Os alazes
recusavam terminantemente a idéia de penetrar na área da tribo
estranha.
— Minha
mulher e eu iremos sós — anunciou Princer. — Indiquem o caminho.
— Melhor
não — objetou Schnitz, em tom violento. — Homem sem asas ser
morto naquela área.
— De
qualquer maneira seremos mortos — disse o terrano. — Por isso
queremos agarrar qualquer chance, por menor que seja. Por favor,
Schnitz, ajude-nos mais uma vez. Diga-nos como devemos fazer para
encontrar a estação.
De repente
Schnitz tornou-se sério. Estendeu a mão em garra e apontou para
além do prado.
— Sem
asas caminhar nessa direção. Antes do anoitecer chegará à
estação.
— Está
bem — disse Princer, satisfeito. — Vamos andando.
— Esperar
mais um pouco — falou Schnitz em voz baixa.
Pegou o
pacote de cigarros que Princer lhe dera. Seus olhos negros
cintilaram.
— Schnitz
não aceitar presente de um morto — grasnou.
Sem dizer
uma palavra, o terrano pegou os maços. Cumprimentou os seres-pássaro
com um gesto e segurou a mão da esposa. Atravessaram o prado e
dirigiram-se à mata.
Os nativos
esperaram mais alguns segundos. Depois abriram as asas e levantaram
vôo. Princer ouviu o ruído das asas. Mas quando virou a cabeça, o
prado já estava vazio.
— Foram
embora — disse, dirigindo-se a Cora. — Agora dependemos
exclusivamente de nós. É melhor andarmos depressa, para que
cheguemos à estação antes de escurecer.
O terrano
teve de reconhecer mais depressa do que esperava que seu plano era
inexeqüível, que os temores de seu amigo Schnitz tinham bons
fundamentos. Quando penetraram na floresta, já estavam sendo
esperados. Cerca de trinta nativos saíram de trás das árvores.
Traziam armas parecidas com lanças. O chefe interpôs-se no caminho
de Cora e John. Levantou a lança.
— Trouxemos
presentes para vocês — disse Princer, em tom amável. — Basta
que nos deixem passar. Temos um caminho longo pela frente.
Mais uma
vez John Edgar Princer teve de rever sua idéia, segundo a qual o
Universo era povoado exclusivamente de criaturas pacatas como ele. O
nativo deu ao jovem uma demonstração drástica da idéia que fazia
dos presentes. Brandiu a lança e enfiou-a no chão bem à frente de
Princer.
— Parece
que está furioso — cochichou Cora, apreensiva.
Seu esposo
apertou-lhe a mão. Com uma naturalidade extraordinária tirou a
lança do chão e examinou-a com uma expressão de curiosidade. Sob o
ponto de vista psicológico, achava que este seria o procedimento
correto. Acontece que não era.
Metade dos
nativos precipitaram-se sobre eles e amarraram-nos com cordas. O
terrano, que depois de envolto pelas cordas parecia ainda mais magro,
disse algumas palavras animadoras para a esposa. No seu íntimo
confessou que haviam percorrido o longo trecho em vão.
Haviam
escapado aos saltadores, mas isso apenas para serem presos por um
bando de nativos rudes, que evidentemente não eram menos hostis que
os mercadores galácticos. Tanto Princer como sua esposa foram
carregados para o interior da floresta por quatro seres-pássaro.
Para o
terrano, finalmente se transformara em realidade a aventura cósmica
pela qual tanto ansiara. Mas agora, que sentia o perigo na própria
carne, teve a impressão de que os desejos da juventude eram bastante
tolos.
“Cada
um deve fazer apenas aquilo para que foi feito”,
refletiu, muito desanimado.
Sem dúvida
era verdade. Mas para que fora feito John Edgar Princer, que parecia
ter o azar grudado ao corpo? Se o filho do poderoso Archibald Princer
se tivesse tornado filósofo, talvez encontrasse uma explicação.
Acontece que não passava de um jovem desamparado que se envolvera
numa tremenda confusão.
Quando os
seres-pássaro o deixaram cair, suas reflexões sofreram uma violenta
interrupção. Via-se uma grande área situada entre as árvores. O
chão era batido. Nos galhos, Princer viu inúmeras cabanas, diante
das quais muitos nativos estavam agachados ou de pé e cumprimentavam
os recém-chegados com uma terrível gritaria. Cora e John foram
levados para o centro da área livre e deitados no solo. Os
habitantes da aldeia reuniram-se em torno deles.
— Você
tem uma idéia do que farão conosco, Johnny? — perguntou Cora,
esforçando-se para virar o corpo, a fim de que seu marido pudesse
ver seu rosto.
Princer
tinha uma fantasia bastante desenvolvida, e por isso imaginou uma
porção de coisas que poderiam acontecer nas próximas horas. Mas
nada disso se prestava aos ouvidos de uma mulher, muito menos da
mulher que ele amava. Então, limitou-se a dizer:
— Não
sei.
Um nativo
de uma só perna manquejou em sua direção. Era velho e apoiava-se
num bastão. Falava um intergaláctico impecável.
— De
onde vieram? — perguntou.
— Da
Terra — disse Princer, usando o vocábulo intergaláctico que
designava o terceiro planeta do Sol.
O velho
apoiou-se sobre a perna sã e apontou o bastão para o céu.
Aglomerada atrás dele, a multidão manteve-se num respeitoso
silêncio.
— De lá?
— perguntou.
— Sim —
respondeu Princer. — De lá.
— Trouxeram
o pó branco? — perguntou o nativo.
Pela
primeira vez o terrano notou certa gulodice em suas atitudes.
“O
coitado é um viciado”,
pensou.
Sentiu-se
apavorado. A compaixão por aquela criatura praticamente indefesa
sobrepujou a desconfiança. Devia haver uma possibilidade de ajudar
aquele velho e os outros seres viciados.
— O pó
é prejudicial — gritou para a multidão, embora só o velho
pudesse entendê-lo. — Não o tomem, senão ficarão doentes e
morrerão.
O
ser-pássaro ancião bateu com o bastão em seu peito. De tão velho
que era, a pancada foi fraca. Mas o que mais chocava o
vice-predidente da IFC era a atitude mental daquele velho, e não a
agressão. Aquilo encarnava o mal. E o pior era que o mal fora
causado por um tóxico vindo da Terra. Princer sentiu-se
profundamente envergonhado.
O que
poderia ter levado os saltadores a distribuírem entorpecentes no
planeta Alaze? Os nativos não sabiam nada a respeito da Terra e, por
isso mesmo, não poderiam responsabilizar os terranos. Schnitz o
informara de que certos membros de sua raça trabalhavam nas estações
de controle dos saltadores. Talvez os mercadores recorressem ao ópio
para criar uma dependência, tornando aquelas criaturas submissas às
suas ordens.
— Vocês
trouxeram o pó branco? — voltou a perguntar o ancião.
Princer
ouviu naquela voz um medo terrível de que o não tivesse.
— Não —
disse — não trouxemos o pó.
Pensou que
o nativo fosse precipitar-se sobre ele numa raiva incontida, mas o
velho apenas se agachou e tirou um maço de cigarros do bolso de
Princer. Abriu-o e puxou um. Mordeu-o. Enojado, atirou-o para longe.
— Devíamos
mostrar-lhe como se faz — disse Cora. — A fumaça deve produzir
neles o mesmo efeito que em Schnitz e seus amigos. Talvez dessa forma
poderemos convencê-lo a soltar-nos.
— Não
sou nenhum mágico para desamarrar as cordas — respondeu Princer,
em tom contrariado. — Como posso acender um cigarro no estado em
que me encontro?
— Ao
amanhecer experimentaremos para ver se vocês são amigos ou inimigos
— grasnou o velho. — Até lá ficarão jogados aqui.
Afastou-se,
antes que o terrano tivesse tempo de perguntar que tipo de
experiência tinha em mente.
*
* *
O planeta
Alaze não possuía lua, e a luz das estrelas era quase totalmente
absorvida pela densa atmosfera. A noite que Princer e sua esposa
atravessaram não poderia ser comparada a uma noite terrana. A
escuridão era impenetrável. Parecia que uma camada de tinta preta
cobrira o solo.
Os nativos
haviam-se recolhido às cabanas. Princer conversara durante muito
tempo com a esposa. Depois de algumas horas mergulharam num sono
agitado.
O terrano
não saberia dizer por quanto tempo dormira, sempre atormentado pelos
pesadelos.
Despertou
com a sensação de que havia alguém por perto. Preferiu não
acordar Cora. Amarrados como estavam, não tinham meio de
defender-se.
O que
poderia fazer se algum animal se aproximasse, à procura de uma
presa? Por mais que esforçasse a vista, não conseguiu distinguir
nem mesmo as sombras das árvores mais próximas.
Um galho
seco estalou sob o peso de um corpo. Princer estremeceu com o ruído.
Conteve a respiração e aguçou o ouvido. O silêncio voltou a
reinar. Das árvores descia o zumbido dos insetos noturnos.
Lembrou-se
da infância. Muitas vezes despertara no meio da noite, acreditando
que as criaturas mais estranhas do seu mundo de fantasia se
encontravam no quarto. Enfiava-se embaixo da coberta e voltava a
adormecer, amedrontado. Na manhã seguinte via que nada de mais
acontecera.
A criatura
que vagava pela escuridão aproximou-se lentamente. Desesperado, John
Edgar Princer começou a debater-se nas cordas. Mas os nativos eram
verdadeiros mestres na arte de fazer nós. Quanto mais lutava contra
as cordas que o prendiam, mais profundamente estas o apertavam.
Cansado, desistiu.
Uma lufada
de ar passou pelo seu rosto. No mesmo instante sentiu a lâmina fria
de uma faca encostada ao seu pescoço.
*
* *
Valmonze
pegou um pedaço de giz, desenhou um círculo e fez um ponto no
centro do mesmo. O giz quebrou.
— Isto
aqui — disse o patriarca, apontando para o ponto branco — somos
nós, ou melhor, o espaçoporto. O círculo representa a distância
máxima a que Princer e a mulher se podem encontrar. Em hipótese
alguma podem ter ido mais longe. A caminhada pela floresta é muito
penosa. Quer dizer que no máximo podem estar aqui, em torno da
extremidade exterior do círculo. Razmon não os encontrou na grande
depressão. Amat-Palong ainda não apareceu e não responde aos
nossos chamados pelo rádio. Por isso é de supor que também não
tenha alcançado qualquer resultado.
Soltou uma
risada alegre, e prosseguiu:
— Já é
noite. Ao amanhecer, eu mesmo comandarei uma patrulha. Todos os
planadores disponíveis serão empregados na operação. Quer dizer
que é só uma questão de tempo. Os terranos fatalmente serão
presos.
Shaugnessy,
que se encontrava junto ao quadro-negro, contemplou o desenho de
Valmonze como se fosse um quadro célebre.
— O que
adianta fazer os planadores voarem por cima do mato? — perguntou. —
Os pilotos não poderão enxergar através da folhagem.
— Utilizamos
instrumentos de localização — explicou o mercador. — Estes
aparelhos registram a presença das emanações térmicas do corpo
humano.
— Qualquer
nativo provocará uma reação em seu mecanismo — ponderou
Shaugnessy.
— É
verdade — admitiu Valmonze. — Acontece que o instrumento também
indica o número de unidades térmicas irradiadas pelos corpos. Quer
dizer que só pousaremos, quando tivermos constatado a presença da
quantidade aproximada de calor irradiada por dois corpos.
Naturalmente é possível que em certos lugares haja dois ou três
nativos, mas via de regra os mesmos são bastante sociáveis e vivem
em grandes grupos.
Os
saltadores presentes fizeram um murmúrio de aprovação. A porta
abriu-se e Toraman, o filho mais velho de Valmonze, entrou. Segurava
várias folhas de papel. Inclinou-se ligeiramente à frente do pai.
— Diga,
meu filho — pediu o patriarca. Se não fosse essa permissão,
Toraman nunca se atreveria a falar numa reunião a que seu pai
estivesse presente.
— Da
mesma forma que todos nós — principiou Toraman — fiquei
refletindo sobre quem poderia ser o tal do Princer. E a idéia que me
ocorreu foi a de revistar cuidadosamente sua espaçonave.
— Você
tem razão — interrompeu-o o pai. — Não sei como não tive essa
idéia. O que foi que você descobriu?
Toraman
entregou os documentos ao pai.
— Não
domino a língua dos terranos — disse. — Acontece que Shaugnessy
está aqui. Ele poderá traduzir o que está escrito nestes papéis.
— Ótimo
— disse o patriarca, em tom de elogio.
Passou os
papéis a Shaugnessy e perguntou:
— O que
é que o senhor conclui disso? O contrabandista leu atentamente. À
medida que estudava os escritos, seu sorriso tornava-se mais largo.
Valmonze, que se sentia ansioso para compartilhar daquilo que o
terrano sabia, insistiu:
— Então,
o que é?
Shaugnessy
balançou os papéis.
— Se
estes documentos forem legítimos, não haverá a menor dúvida de
que nosso amigo é totalmente inofensivo.
Levantou a
primeira folha.
— Isto —
continuou, dirigindo-se aos presentes — é uma certidão de
casamento de um certo John Edgar Princer e sua esposa Cora, em
solteira Hatfield. Contraíram matrimônio em Denver, no dia...
deixe-me ver... no dia 25 de julho de 2.102 do calendário terrano.
Estamos em meados de agosto. Por isso é de supor que o casal
fugitivo esteja fazendo sua viagem de núpcias.
Riu tanto
que as lágrimas lhe correram dos olhos. Valmonze, que não conhecia
nenhum senso de humor, lançou-lhe um olhar de recriminação. Quando
parou de gargalhar, Shaugnessy pegou outra folha.
— Isto é
uma licença relativa a uma nave-disco de nome Error — explicou. —
Esta confere ao proprietário, chamado John Edgar Princer, o direito
de decolar do espaçoporto particular da Intercosmic Fruit Company,
em direção ao espaço cósmico. E aqui ainda temos um manifesto de
carga — prosseguiu. — Foi emitido pela IFC e traz o carimbo do
Ministério do Comércio do Império Solar. Consigna duzentos quilos
de gigante-supermacio, cujo ponto de destino é o planeta Ferrol, no
sistema de Vega.
Devolveu
os papéis a Valmonze.
— Quer
dizer que aquilo que o senhor acreditava ser semente de papoula não
passava de um novo tipo de semente de espinafre.
Valmonze
desconfiou de que a alegria do terrano tinha sua origem
principalmente no fato de que ele, o patriarca, se enganara. Muito
contrariado, gritou para Shaugnessy:
— Quando
o senhor se acalmar, poderemos continuar a falar como pessoas
sensatas.
O
contrabandista reprimiu mais um ataque de riso e enxugou os olhos.
— O que
vem a ser espinafre? — perguntou Valmonze.
— É uma
verdura que, segundo dizem todas as mães terranas, é muito
nutritiva — explicou Shaugnessy. — Costumam dá-la às crianças,
até que o espinafre lhes saia pelas orelhas.
Valmonze
disse em tom sombrio:
— Parece
que, para o senhor, isto não passa de uma excelente piada. Mas como
se explica que Princer veio parar aqui, quando seu destino era o
sistema de Vega?
— Provavelmente
quis tornar mais interessante sua viagem de núpcias e, por isso,
resolveu dar mais uma volta — disse Shaugnessy, com um sorriso.
— Deixe-me
em paz com suas brincadeiras idiotas — esbravejou o patriarca. —
Estou farto de ver o senhor divertir-se à minha custa. Há algo de
errado nisso. Para descobrir o que é, precisamos pegar o tal do
Princer. E, por Talamon, nós o traremos para cá.
Shaugnessy
deixou-se cair confortavelmente na poltrona. Não disse nada, mas sua
atitude exprimia o que pensava:
— Acontece
que ele é um terrano. Será que o senhor se esqueceu disso?
*
* *
Uma mão
quente e áspera tapou a boca de Princer e evitou que o terrano
soltasse um grito.
— Sem
asas ficar quieto — cochichou uma voz familiar ao ouvido do
vice-presidente. — Qualquer ruído, e todos os inimigos virão para
cá.
Uma onda
de alivio percorreu Princer.
— Schnitz!
— balbuciou. — Schnitz, seu patife!
As mãos
treinadas no nativo cortaram as cordas. Imediatamente Princer começou
a massagear as juntas, para que o sangue voltasse a circular.
Enquanto isso, Schnitz ocupou-se com Cora, libertando-a tão depressa
como fizera com Princer.
— Schnitz
observar quando sem asas foi preso — contou o ser-pássaro. —
Esperar noite. Agora aqui.
Princer
apertou a mão do nativo, num gesto de gratidão. Schnitz ajudara,
independentemente da influência da fumaça do cigarro. O jovem sabia
que Schnitz arriscara a vida. A tribo inimiga não hesitaria em
matá-lo, se conseguisse pôr as mãos nele.
Os olhos
de Princer procuraram romper o negrume da noite. Como poderiam
deslocar-se nessa escuridão compacta? Perguntou a si mesmo como
Schnitz conseguira encontrá-los. Talvez os olhos dos nativos
estivessem adaptados à escuridão e possuíssem um centro adicional
de percepção.
— Dar
mão para mim — pediu Schnitz, em voz baixa. — Schnitz caminhar
na frente.
Princer
empurrou a esposa para a frente, e esta segurou a mão-garra do
nativo. O terrano caminhou no fim. Moveram-se com uma rapidez
espantosa. Os dois seres humanos não tiveram outra alternativa senão
confiar exclusivamente em Schnitz. Não reconheciam nenhum obstáculo.
Depois de terem cruzado a área livre, passaram a caminhar com maior
dificuldade.
Naquele
instante ouviu-se uma tremenda barulheira na extremidade oposta da
aldeia construída nas árvores. Princer parou, apavorado. Um
verdadeiro exército parecia executar uma música infernal.
Schnitz
deu uma risadinha.
— Isso
ser Kankantz, Lupatz e Tonitutz — disse. — Fazer grande truque.
Tribo inimiga correr direção errada. Assim sem asas ter tempo para
fugir.
As cabanas
construídas nas árvores adquiriram vida. Ouviram-se grasnados e
vozes estridentes. A aldeia estava revolta. Schnitz passou a andar
mais depressa. Já não precisavam preocupar-se com o ruído, pois o
barulho que havia na aldeia sobrepujava tudo. Bem ao longe, os amigos
de Schnitz ficaram com os pescoços doloridos de tanto gritar.
Schnitz
abriu caminho pela floresta com a segurança de um sonâmbulo. Os
uivos dos habitantes da aldeia propagaram-se em outra direção, e,
depois de algum tempo, tornaram-se praticamente inaudíveis.
— Por
favor, Johnny — fungou Cora. — Vamos fazer uma pequena pausa.
— Fazer
boa fumaça? — perguntou Schnitz, em tom esperançoso.
Ninguém
respondeu. Por algum tempo houve um silêncio total. Finalmente o
ser-pássaro voltou a perguntar, desta vez em tom de desânimo:
— Sem
asas fazer boa fumaça para Schnitz?
— Diga a
ele, Johnny — pediu Cora. “Ele
nos abandonará”,
pensou Princer. “Sairá
voando.”
Apesar
disso resolveu falar:
— Não
podemos fazer fumaça. Tiraram-nos os cigarros.
Na
escuridão Princer não pôde ver a reação do nativo. Schnitz
manteve-se calado. Mas não saiu voando. Cora encostou-se ao marido e
ele acariciou seu cabelo. No íntimo, o jovem admirava a conduta
exemplar da esposa.
— Vamos
andando — disse Schnitz depois de alguns minutos. O terrano
percebeu que o nativo se sentia decepcionado.
Um
sentimento de culpa começou a manifestar-se em sua mente. Cora
começara a usar os cigarros, quando ainda não sabia do seu poder
sobre os nativos. Mas, depois disso, passaram a aproveitar-se da
fraqueza dos alazes para alcançar seus objetivos.
— Se
quiser pode voltar para junto de seus amigos — disse Princer.
— Sem
asas ser amigos — disse Schnitz em tom categórico.
Ao
amanhecer chegaram à estação de rádio dos saltadores. Era um
edifício quadrado, construído numa das extremidades de uma
clareira. Ao lado deste havia um pequeno campo de pouso, que poderia
receber um planador. Mas não se via nenhum veículo dos saltadores.
Tudo parecia quieto e abandonado.
Schnitz
parou. Encontravam-se na extremidade oposta da clareira. Cora estava
totalmente exausta.
— Parece
que não há ninguém — disse Princer, com a voz abafada.
— Três
nativos dentro da estação — disse Schnitz. — Sem armas. Homem
sem asas pode dominá-los.
Princer
não tinha tanta certeza. Indeciso, contemplou o edifício. Se por
ali houvesse um transmissor de longo alcance, poderia se comunicar
com a Terra ou com uma nave do Império Solar. Ficou indeciso entre a
confiança e o medo. Durante todo o tempo quisera chegar a este
lugar, e agora, que o atingira, não conseguia tomar a resolução de
empenhar todas as energias na execução de seu plano.
Não
poderiam ficar sempre contando com a sorte. Não tinha a menor dúvida
quanto a isso. Mais dia menos dia, ele e Cora seriam apanhados pelos
saltadores. Se expedisse uma mensagem, os mercadores poriam as mãos
neles, algumas horas depois.
— Vou me
aproximar do edifício — disse depois de algum tempo. — Schnitz,
eu gostaria que você ficasse com minha esposa. Se surgir algum
perigo, fuja com ela. Não tome nenhuma consideração por mim.
— Schnitz
cuidar de mulher sem asas — prometeu o ser-pássaro.
Cora
passou por Schnitz.
— Acho
que também tenho que dizer uma palavra — disse. — Irei com você.
Princer
fitou-a com uma expressão desolada. Não gostava de contradizer
ninguém, ainda menos a uma bela mulher, que além do mais era sua
esposa. Levantou os braços num gesto de súplica.
— Não
adianta explicar — disse Cora apressadamente. — Eu o acompanhei
até aqui e continuarei a acompanhá-lo.
Schnitz
soltou a risadinha que lhe era peculiar.
— Acreditar
ser inútil falar muito, sem asas — disse.
— Também
acredito — disse Princer. — Vamos andando. Obrigado pelo auxílio,
Schnitz.
Por um
instante, o ser-pássaro fitou-o em silêncio.

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