quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-104 - Os Traficantes de Alaze - William Voltz [Parte 2]

A volta do amigo de Schnitz fez com que o terrano esquecesse suas preocupações por alguns minutos.
Kankantz buscar material para assentos — disse Schnitz aos terranos. — Fazer muito depressa.
Kankantz parecia alegre; soltou um som borbulhante. Piscou amavelmente e as penas em torno de seus olhos balançavam-se para cima e para baixo. Mas Princer só viu duas tábuas finas e algumas cordas desfiadas, que Kankantz trouxera.
Será que estes são os assentos? — perguntou bastante abalado.
Schnitz pegou uma das tábuas e agitou-a energicamente diante do rosto de Princer. Parecia querer demonstrar a resistência da madeira.
Você acredita que este meio de transporte é seguro? — perguntou o terrano, dirigindo-se à esposa. — Não acredito que com isso consigamos chegar muito longe.
Será que temos outra alternativa, Johnny?
Schnitz, Kankantz e o outro nativo já haviam começado a fazer entalhes nas tábuas. Para isso utilizavam facas que, sem a menor dúvida, eram mercadorias do comércio dos mercadores. Fizeram duas reentrâncias em cada um dos lados das tábuas. Depois amarraram as cordas, fazendo-as passar pelos entalhes. Uma vez prontos, os assentos tinham o aspecto de antigos balanços.
Schnitz dobrou a faca e a fez desaparecer no montão de penas que cobria seu corpo. Contemplou sua obra com uma expressão de orgulho. Princer fitou-o um tanto constrangido.
Fazer bom trabalho — disse Schnitz e coçou-se.
Com isso, o assunto parecia estar liquidado para ele. Sentou calmamente na frente de Cora e inalou a fumaça do cigarro. Revirava os olhos e batia com o bico, a fim de demonstrar sua satisfação. Kankantz sentou-se a seu lado e o outro nativo ajeitou-se num galho, balançando a cabeça na frente de Cora.
O que vamos fazer agora? — perguntou Princer. — Schnitz, não podemos ficar para sempre nesta plataforma.
Schnitz ficou visivelmente aborrecido com a perturbação.
Esperar Lupatz — limitou-se a dizer.
O terrano teve sua atenção despertada pelos ruídos vindos da mata. A folhagem era tão densa que mal conseguia enxergar o que havia lá embaixo. Mas o pouco que viu bastou para acelerar seu pulso.
A cem metros da árvore onde se encontravam, três saltadores abriam caminho pela mata.
Vinham na direção do esconderijo!
5



O embaixador dos morgs possuía uma cauda mais grossa que um braço humano. Por isso não se podia esperar que ele se acomodasse numa poltrona comum. Foi, então, construído um encosto que se adaptasse ao feitio do corpo do morg, a fim de proporcionar-lhe o máximo de conforto.
Mas, naquele instante, Stanour, o embaixador dos morgs, nem parecia pensar em fazer uso desse encosto. Muito nervoso, aproximou-se do lugar em que estava Perry Rhodan. Seus olhos salientes emitiam um brilho azulado. Possuía seis olhos, distribuídos de maneira uniforme pelo crânio oval. Geralmente os morgs eram um povo pacato, não se envolvendo nas lutas cósmicas. Mas, no caso de Stanour, notava-se muito pouco desse espírito pacato.
A cada dia que passa, encontramos um número maior de pessoas viciadas, administrador — latiu na sua língua estranha. — Pastonar, uma cidadezinha situada no oeste do país de Troatara, é habitada exclusivamente por pessoas loucas. O entorpecente vem se transformando num perigo para nosso povo.
Eduard Deegan, encarregado de negócios da Terra em Morg, traduziu as palavras da criatura extraterrena para os presentes. Além de Rhodan, Deegan e do morg, encontravam-se também no recinto Allan D. Mercant, chefe da Segurança Solar, e Reginald Bell. Perry deixara propositadamente de convocar outras pessoas. Queria evitar que a presença de muitos subordinados desse ao morg a impressão de que ele, o administrador, não levava a sério as preocupações que o atormentavam. Stanour conhecia pessoalmente Rhodan e Bell. Além disso, lhe haviam explicado quem era Mercant. O fato de poder encontrar-se a sós com esses personagens importantes já o acalmara um pouco.
Não é só do planeta Morg que recebemos estas informações — disse Rhodan.
Via-se que, nos últimos meses, Perry trabalhara demais. As experiências com o mecanismo de propulsão linear e o encontro com os acônidas deixara seus vestígios. E a carga causada pelas atividades criminosas dos traficantes de tóxicos afetou ainda mais seu estado psicológico.
Ao que parece, o negócio dos entorpecentes assume proporções cada vez mais amplas — prosseguiu Rhodan. — Parece que os fornecedores estão na Terra, enquanto os mercadores galácticos exercem as funções de distribuidores.
Deegan traduziu as suspeitas de Rhodan para o morg. Mas aquela criatura, cujos antepassados viveram nos pântanos, não se mostrou disposta a assumir uma atitude mais gentil.
Os saltadores afirmam que os terranos são os únicos culpados da propagação do tóxico! — exclamou o morg. — Administrador, o senhor não deve esquecer-se de que a substância que apareceu em toda parte é ópio terrano. Pelo que dizem os saltadores, os políticos terranos querem contaminar várias raças da Galáxia com o veneno, a fim de incorporá-las ao Império Solar.
Deegan hesitou em traduzir a acusação. Enquanto este falava, Rhodan começou a morder os lábios. Mas de resto continuou tranqüilo. Bell, porém, não conseguiu dominar-se.
Que demônios — disse, levantando-se de um salto. — Realizam um trabalho sistemático para incompatibilizar-nos com os outros povos. Quem me dera que eu soubesse quem são os canalhas de nossa raça que colaboram nisso. Teria o maior prazer em despachá-los pessoalmente para Plutão.
Meus agentes trabalham dia e noite — disse Mercant. — Interrogamos todos os suspeitos. Deve ser um grupo inteiramente novo. As velhas raposas não têm nada a ver com a negociata. Provavelmente o chefe vive entre nós sob a máscara do bom burguês. Como poderemos encontrá-lo? Será que devemos submeter todos os homens a um teste mental, realizado por telepatas? Tal proceder entraria em choque com nossos princípios éticos e, além disso, seria praticamente inútil. Quando concluíssemos o trabalho, os saltadores já teriam alcançado seu objetivo, ou seja, a maior parte das raças, que têm negócios com o Império Solar, proibiria nossa entrada em sua área de influência.
Já expliquei isso inúmeras vezes a Stanour, sir — disse Eduard Deegan, em tom de desânimo. — O senhor nem imagina a miséria que o ópio causa neste povo. Em comparação com as vítimas morgs, um terrano viciado parece um raio de sol...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
Diga-lhe que faremos tudo que estiver ao nosso alcance para descobrir os criminosos. Estamos dispostos a enviar médicos para Morg, que mitigarão os males. Não podemos fazer mais que isso.
Fomos honestos com os terranos! — exclamou Stanour em tom amargurado, depois que Deegan traduzira com voz sombria as palavras de Rhodan. — Estes tempos passaram. Não estamos mais interessados na presença dos cargueiros terranos em Morg. Mr. Deegan tem sido um excelente amigo; não tem culpa de nada. Apesar disso vemo-nos obrigados a fechar o entreposto comercial. Façam o favor de retirar seus homens num prazo razoável. Nosso governo ainda lhes indicará com exatidão o tempo para tal retirada. Desde logo posso adiantar que Quatrox-Zuat, Imperador de Saastal, seguirá nosso exemplo. Também falo como representante de Sua Majestade. Afinal, Saastal é nosso planeta gêmeo, e mantemos excelentes relações com essa raça.
Deegan concluiu fielmente seu trabalho de tradução. Bell fez menção de investir furiosamente contra o morg, mas o olhar de Rhodan o deteve.
Cuide de nosso amigo, até que ele deixe a Terra. Diga-lhe que respeitamos os desejos de seu governo e romperemos as relações comerciais.
Deegan esteve a ponto de levantar-se, mas Rhodan ainda não chegara ao fim.
Um momento, Deegan. Diga-lhe, também, que um belo dia as naves cargueiras terranas voltarão a ser bem vistas em Morg e Saastal... ou então não me chamo Perry Rhodan.
Bell, o grande amigo do administrador, foi o único que notou a exaltação que se apoderou de Rhodan.
Passe bem, administrador — disse Stanour, e saiu da sala, acompanhado por Eduard Deegan.
Os três grandes permaneceram em silêncio por algum tempo. Cada um estava entregue às suas próprias reflexões. Mercant foi o primeiro que voltou a falar.
Estamos mal — disse em tom de desânimo. — Realmente acreditam que nós é que espalhamos os entorpecentes.
Rhodan confirmou com a cabeça. Estava sentado na poltrona. Alto, quase chegava a ser uma figura lendária no seu uniforme simples e limpo. Os olhos pareciam ser a única coisa viva naquele rosto anguloso. Só mesmo um homem, que carregava uma enorme responsabilidade em todos os minutos de sua vida, poderia ter um rosto como este. A ducha celular do planeta artificial Peregrino mantivera jovem o corpo de Rhodan, mas as experiências pelas quais havia passado se acumularam em seu espírito.
Isso foi apenas o começo — disse em tom tranqüilo. — Outros planetas seguirão o exemplo de Morg e Saastal. É exatamente o que os saltadores querem. Se conseguirem nosso isolamento econômico, não teremos a menor chance de manter o Império Solar. Nem os propulsores lineares e nem os mutantes deverão iludir-nos quanto a isso.
Bell cerrou os punhos.
Esse morg idiota! Não demorará a perceber que seus amigos saltadores são uns carrascos e...
Sempre que Bell soltava uma frase mais longa, podia-se ter certeza de que esta continha algumas pesadas expressões. Mas, naquele momento, sua indignação era genuína, e ninguém pensou em criticá-lo por isso. O vice-administrador conhecia perfeitamente as conseqüências que o tráfico de entorpecentes poderia produzir.
Quando isso acontecer, será tarde, tanto para nós como para os morgs e para as outras raças interessadas — objetou Mercant. — Penso constantemente no que poderá acontecer se os saltadores conseguirem pôr as mãos em sementes que lhes permitam plantar suas próprias papoulas... Seria o fim.
Este raciocínio tem um ponto falho — interferiu Bell. — O senhor realmente acredita que os contrabandistas terranos estariam dispostos a proporcionar essa possibilidade aos mercadores? Caso eles agissem assim, perderiam o negócio.
Rhodan ouvira as palavras dos dois amigos. Parecia pensativo.
Acho que não devemos deixar de lado as suspeitas de Allan — disse. — Não sabemos se, além dos motivos econômicos, o grupo de bandidos terranos não é movido por motivos políticos.
Motivos políticos? — repetiu Bell, em tom exaltado. — Não compreendo.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Rhodan. Saiu de trás da mesa e foi à janela. Abaixo dele estendia-se Terrânia, a cidade dos superlativos. Para Rhodan, que era norte-americano, a metrópole terrana tinha um encanto todo especial. Transformara-se em sua segunda pátria.
É possível que na Terra exista algum grupo interessado em derrubar o atual governo — disse Rhodan. — Como deveria agir um grupo desses? Se forem inescrupulosos, usarão de todos os meios para incompatibilizar-nos com os outros.
Infelizmente você tem razão — admitiu Bell. — Acho que teremos de nos ocupar ainda mais intensamente com a organização de contrabandistas.
Rhodan afastou-se da janela. Fitou Bell e o chefe do Serviço de Segurança.
É o que faremos, meus caros. Dentro de quatro horas convocarei uma conferência. Allan trará seus oficiais. E os elementos de ligação com nossos entrepostos comerciais estelares também estarão presentes. Estou pensando em recorrer a alguns mutantes.
A conferência foi realizada na hora prevista. Eram 18 horas, quando o administrador abriu os trabalhos.
Os vespertinos daquele dia publicaram uma entrevista de Archibald Princer, Presidente da Intercosmic Fruit Company. Princer exigia que a Frota Solar saísse imediatamente à procura de seu filho John Edgar que, segundo tudo indicava, se perdera durante a viagem de núpcias para Vega. Os leitores, que não sorriam ao lerem a entrevista, tiveram um acesso de riso, quando viram o retrato, também publicado nos jornais. A foto mostrava um jovem de olhos sonhadores e orelhas de abano. Era John Edgar.
O jovem Princer tinha o aspecto de um homem capaz de se perder em sua própria casa. Ninguém pensaria que era um piloto espacial arrojado que saía para o cosmos, em viagem de núpcias.
Perry Rhodan encerrou a conferência pouco depois das 20 horas. Decidira, juntamente com os presentes, a adoção de várias medidas destinadas a pôr fim ao contrabando. Naquela mesma noite, Stanour, embaixador de Morg, decolou do espaço-porto de Terrânia.
A população da Terra nem desconfiava das dificuldades pelas quais iria passar. Se alguém perguntasse a qualquer um sobre o acontecimento mais importante do dia, este talvez responderia com um sorriso:
Bem, um homem jovem desapareceu durante a viagem de núpcias.
Mas não era só isso.
Naquele momento, a única chance de o Império Solar impedir o início do boicote econômico repousava sobre os ombros de John Edgar Princer, o novato.
6



Os três mercadores pararam, indecisos. Olharam em torno. Princer observou-os; prendeu a respiração. Atrás dele, a plataforma começou a balançar ligeiramente. Lupatz voltara sem o menor ruído. Princer bateu levemente nas costas de Schnitz e fez um sinal em direção aos saltadores. O nativo não se mostrou assustado.
Gente sem asas esconder mais em cima, na cabana — disse, dirigindo-se a Princer. — Schnitz fazer grande truque.
Schnitz lembrava de certa forma um prestidigitador que, a cada momento, apresenta uma idéia nova, para deixar perplexo seu público. Era bem verdade que os meios escolhidos por Schnitz eram ainda bem primitivos. Apesar disso irradiava uma segurança, fazendo com que Princer conservasse a calma. Esses seres-pássaro eram os extraterrenos mais otimistas de que Princer ouvira falar.
O terrano dirigiu-se à esposa.
Temos de esconder-nos na cabana. Schnitz quer desviar a atenção dos saltadores. Você acha que é capaz de subir por esta corda?
Cora fez que sim. Apagou o cigarro e puxou-se corda acima. Schnitz contemplou-a com a maior tranqüilidade.
Agora homem sem asas também subir — disse, dirigindo-se a Princer.
Aquele jovem nunca tentara uma escalada desse tipo. Parecia fácil, pois Cora conseguira sem a menor dificuldade. O terrano estendeu os braços, agarrou-se à corda e levantou-se. Mas o cipó começou a movimentar-se, levando Princer para além da plataforma. As folhas e os galhos roçaram nele. Não se atreveu a olhar para baixo.
A corda voltou a trazê-lo para cima das tábuas. As garras de Schnitz seguraram-no pela jaqueta.
Sem asas não conseguir — constatou o nativo. — Schnitz ter que ajudar.
Princer sentiu-se envergonhado por ter que aceitar a ajuda do ser-pássaro. Lupatz e o quarto nativo olharam indiferentes, enquanto o terrano se martirizava para subir.
Schnitz, segurando-o pela gola, fê-lo subir de um galho a outro. Finalmente viu-se ao lado de Cora, junto à entrada da cabana. Não se atreveu a fitá-la diretamente.
Pode entrar — disse sua esposa, sorrindo. — Nossa nova casa não é nada senhorial, mas parece oferecer um máximo de segurança. Talvez seja preferível tapar o nariz...
Princer percebeu que a esposa não lhe levava a mal a figura desastrada, que fizera durante a escalada. Feliz, seguiu-a para o interior da cabana. Schnitz ficou parado junto à entrada. As paredes eram feitas de tábuas, capim, folhas e musgo. A luz penetrava pelas frestas.
Ficar quieto — disse Schnitz. — Schnitz agora falar com saltadores.
Deixou-se cair para trás. Cora não conseguiu reprimir um grito. Princer lançou-lhe um olhar de advertência, pois pelos estalos vindos de baixo concluía-se que os saltadores já se haviam aproximado da árvore.
Olá, guerrilheiros! — grasnou Schnitz, que se encontrava na plataforma.
Antes que Princer tivesse tempo de espantar-se com essa expressão, o nativo prosseguiu.
Vocês trazer presente para nós?
Não, seu bicho de penas — respondeu a voz profunda de um mercador. — Não trouxemos nenhum presente para seu bando.
Então desaparecer depressa — exigiu Schnitz, com a arrogância de um general.
Se sua habilidade for tão grande quanto seu atrevimento, poderemos confiar nele, sem o menor receio — cochichou Cora para o marido.
Preste atenção, pássaro — gritou o saltador, em tom de ameaça. — Estamos procurando um homem e uma mulher. São mais magros que nós e não usam barba. Usam vestes estranhas.
Bons amigos de Schnitz — disse o nativo. — Fazer grande presente. Tomara que voltem logo.
Em que direção foram?
Para dentro do mato. Por lá — Princer não pôde ver a direção indicada por Schnitz. — Já faz muito tempo.
O estalo dos galhos e o farfalhar das folhas provavam que os saltadores prosseguiam nas buscas. Dali a pouco, a silhueta de um ser-pássaro apareceu na entrada da cabana. Era Schnitz. Recostou-se calmamente à parede.
Obrigado — disse Princer com um suspiro de alívio. — Muito obrigado, amigo.
Schnitz levou a mão-garra ao bico, com um cigarro imaginário. Era um pedido inequívoco.
Que tal se você fumasse um cigarro? — perguntou Cora.
Vou tentar.
Schnitz esperou ansiosamente até que o terrano acendesse um cigarro. Princer tossia.
Você não deve tragar recomendou Cora.
Sim, querida — disse Princer, com a voz rouca.
Seus olhos lacrimejavam. Já umedecera tanto o cigarro que os pedacinhos de tabaco se desprendiam e grudavam nos lábios. Tudo que fazia dava errado. Começou a pensar que jamais conseguiria transmitir a notícia a Rhodan.
Agora sair voando — sugeriu Schnitz, libertando Princer de suas sombrias reflexões. — Lupatz, Kankantz e Tonitutz estar prontos.
Entrou na cabana e desprendeu a parede dos fundos, dobrando-a para dentro. Perplexo, Princer viu que os nativos haviam aberto uma espécie de canal de entrada pela copa da árvore. Kankantz apareceu com os assentos.
Ainda está na hora de mudarmos de opinião — disse o terrano, virando o rosto e soltando a fumaça.
Cora balançou a cabeça, em sinal negativo.
De repente ouviram o ruído característico de uma espaçonave. Olhando pela clareira aberta pelos nativos, Princer viu-a passar.
Não deveriam hesitar mais; teriam de fugir logo.
A espaçonave era de procedência terrana.
Princer não teve a menor dúvida de que o homem que viria na nave era aquele que Valmonze já aguardava há muito tempo.
Shaugnessy!
Isso não significava nada mais nada menos que a sentença de morte para John Edgar Princer e sua jovem esposa.

* * *

Toraman era o filho mais velho de Valmonze. Muitas vezes vira o pai nervoso e zangado. Mas a disposição de ânimo, em que o patriarca agora se encontrava, era bem superior às irrupções anteriores. O velho mercador segurava com ambas as mãos a armação, sobre a qual se encontrava o videofone. Na tela surgiu o rosto de um terrano, que também não parecia muito bem-humorado.
Shaugnessy! — esbravejou Valmonze. — Exijo explicações imediatas.
O senhor só pode estar brincando — afirmou o contrabandista. — É o senhor que tem de explicar o que está acontecendo por aqui. Não compareceu ao lugar combinado para introduzir-me na Val I. Quando finalmente consegui estabelecer contato pelo rádio, o senhor me contou uma história maluca, a respeito de uma semente de papoula que não é semente de papoula. Já não compreendo mais nada. E, além de tudo, o senhor exige explicações!?
Valmonze reconheceu que desse jeito não conseguiria nada. Shaugnessy sabia representar muito bem, ou então realmente não sabia o que o patriarca estava dizendo.
Pouse — disse o chefe de clã. — Depois conversaremos.
Isso já são falas melhores — disse o homem que aparecia na tela. — Apenas espero que, quando eu pousar, seu bom humor tenha voltado.
Valmonze resmungou alguma coisa e desligou. Esbarrou em Toraman, que se encontrava atrás dele. Seu filho retirou-se imediatamente, em atitude respeitosa. Os saltadores, que se encontravam presentes, fitaram tensos o chefe. Somente Amat-Palong, que se mantinha num ponto mais afastado, exibiu um sorriso irônico.
Mas, para Valmonze, os acontecimentos chocantes ainda não haviam chegado ao fim. Os três saltadores, que foram enviados à floresta para trazer Princer, entraram na sala. Não tiveram necessidade de fornecer explicações. O patriarca logo notou que não haviam encontrado o terrano.
Não conseguimos alcançá-los patriarca — disse um deles. — Tinham uma dianteira muito grande.
Ainda bem que temos entre nós um sujeito “inteligente” como você — gritou Valmonze. — Descobrirei os dois terranos, nem que tenha que incendiar toda a floresta.
Por um instante, uma expressão de revolta surgiu nos olhos do mais jovem dos dois saltadores. Mas a tradição acabou levando a melhor. Era impossível contraditar um patriarca.
O saltador deu mais uma informação:
Encontramos alguns nativos, patriarca. Eles nos disseram que os fugitivos estão a caminho da grande depressão. Se pegarmos um planador, poderemos chegar lá antes deles.
Um brilho colérico surgiu sob as sobrancelhas hirsutas de Valmonze. Como chefe do clã queria dar todas as ordens, mas ao mesmo tempo esperava que os membros do clã desenvolvessem uma atuação independente. A contradição entre essas idéias nem lhe acudiu à mente. Seu poder era de natureza totalitária, e jamais tal tipo de comando fizera bem a qualquer criatura pensante.
O que estão esperando? — berrou o patriarca fora de si. — Razmon pilotará o planador. Dirijam-se imediatamente à grande depressão.
Será que o senhor realmente é tão criança? — disse uma voz, vinda dos fundos da saía.
Valmonze ficou rígido. O silêncio era tamanho que se poderia ouvir o tiquetaquear de um relógio de pulso. Finalmente os saltadores fitaram o homem que se atrevera a ofender o patriarca em público.
Depararam-se com o rosto frio de Amat-Palong, o ara. Era um homem grande mas, ao contrário dos saltadores, era magro. Estava encostado a uma prateleira cheia de pastas. Quando Valmonze olhou em sua direção, um sorriso ligeiro aflorou-lhe nos lábios.
Sem dúvida alguns dos saltadores sentiram-se alegres com as palavras do médico. Mas estes esperavam que Valmonze desabasse sobre Amat-Palong com a força de uma tormenta, sentiram-se decepcionados. O patriarca provou que sabia dominar seus sentimentos, quando a situação assim exigisse.
Sua crítica só se justifica se o senhor tiver uma idéia melhor, ara — disse Valmonze, em tom indiferente. — Estamos curiosos para ouvi-la.
Amat-Palong empurrou-se com o ombro e afastou-se da prateleira. Lançou um olhar de tédio para o saltador.
Coloque um planador à minha disposição — pediu a Valmonze. — Eu lhe trarei o tal do Princer.
Se o saltador já exibiu um sorriso matreiro, foi nesse instante. Se não cumprisse, a promessa que acabara de fazer, Amat-Palong cairia no descrédito.
Também pretende ir à grande depressão? — perguntou.
Não — respondeu Amat-Palong, laconicamente.
Era evidente que preferia não revelar seu destino.
Está bem; dar-lhe-ei um planador — disse Valmonze. — Mas, de qualquer maneira, Razmon irá também à depressão.
O ara acenou tranqüilamente com a cabeça e saiu, sem demonstrar a menor pressa. Com um gesto, Valmonze mandou que os três saltadores, que reiniciariam as buscas ao lado de Razmon, também se retirassem.
Shaugnessy acaba de pousar — disse uma voz saída do intercomunicador. — Quais são suas ordens, patriarca?
Estou no escritório central — disse Valmonze. — Tragam o terrano para cá.
Dali a menos de quinze minutos, Clifton Shaugnessy entrou na sala. Era um homem baixo, de ombros largos. O nariz adunco formava um contraste desagradável com o rosto. O contrabandista usava uma jaqueta curta, enfeitada com bordados. Falava quase sem movimentar os lábios, o que dava um tom cavernoso à sua voz. Uma arma térmica de fabricação antiga estava pendurada no cinto.
Perry Rhodan colocou a Terra sob quarentena — disse a título de cumprimento. — Por isso não pude chegar na hora marcada. Não trouxe semente de papoula, nem a mercadoria de sempre. Aplied achou que seria muito perigoso reiniciar os negócios agora. As naves-controle estão realizando inspeções extremamente rigorosas. Nenhuma nave cargueira pode decolar sem permissão. Em Terrânia ainda prevalece a proibição de pousar e decolar. O motivo é a doença que grassou por lá. Segundo os boatos, até mesmo Rhodan foi atacado. Dizem que se contagiou durante uma experiência. Aliás, essa experiência originou estranhas suposições, que estão dando o que pensar. Conta-se que Rhodan experimentou com pleno êxito um novo sistema de propulsão e, na oportunidade, encontrou uma raça que, segundo se diz, é muito mais poderosa que Árcon, a Terra e os saltadores reunidos.
O senhor me traz boatos — disse Valmonze, em tom zangado. — Esperamos mercadorias e Aplied o manda para cá com boatos, que não têm o menor valor para nós.
Shaugnessy não parecia nervoso. Tinha o aspecto de um homem que não se preocupa com nada, muito menos com os problemas de um mercador galáctico.
O senhor conhece um certo Princer, que trabalha para Aplied? — perguntou Valmonze.
Princer? — repetiu Shaugnessy, puxando o zíper da jaqueta, como se isso servisse para reavivar-lhe a memória. — Não. Nunca ouvi esse nome.
Pois ele apareceu por aqui e diz ser seu representante. Trouxe uma remessa de sementes de papoula, mas quando as examinamos, verificamos que eram falsas — informou Valmonze.
Shaugnessy fez um gesto de aprovação.
Que sujeito formidável — disse numa objetividade que, para Valmonze, só poderia parecer incompreensível. — Onde está?
Fugiu. Mas nós o pegaremos. Tem uma idéia de quem pode ser esse homem? Veio acompanhado por uma mulher.
Talvez seja uma agente de Rhodan — disse Shaugnessy, que não parecia nem um pouco nervoso com sua suspeita. — Um belo dia terão que descobrir nossa pista...
Valmonze preferiu não explicar ao contrabandista por que, em hipótese alguma, se poderia permitir que, naquela altura, Rhodan descobrisse os elementos de ligação do bando de traficantes. Seria inútil falar em política galáctica a esse bandidozinho. Shaugnessy transportava ópio, a mando de Aplied, para Valmonze. Aplied levava a mercadoria a mais seis patriarcas. Além de Shaugnessy, havia mais oito elementos que faziam a ligação com Aplied, e atendiam a outros clãs dos saltadores. Isso representava um total de 63 traficantes que, com o intuito de provocar uma modificação fundamental na situação econômica da Terra, recebiam os entorpecentes.
Até era possível que Shaugnessy nem soubesse que os mercadores se interessavam pelos tóxicos porque esperavam que, com isso, conseguiriam enfraquecer a posição da Terra. Sob o ponto de vista comercial, seus lucros com os alcalóides não eram maiores que os que lhes eram proporcionados por outras mercadorias. Quem fazia o grande negócio era Vincent Aplied, da Cidade do Cabo.
Seja quem for esse Princer — disse Valmonze — precisamos encontrá-lo. Não poderá sair deste planeta. Mais dia menos dia, nós o prenderemos.
Se realmente for um agente da Segurança Solar, o senhor terá problemas com ele — ponderou Shaugnessy. — Se for um simples impostor, não podemos deixar de admirar sua coragem.
Valmonze fez um gesto de recusa.
O único sentimento que o terrano Princer provocava em Valmonze era o ódio, pois o grande patriarca sentiu-se ludibriado.
E quando se encontrava nesse estado, o patriarca era um homem perigoso. Sua ira atingiria o jovem de forma implacável.

* * *

O vice-presidente da Intercosmic Fruit Company, John Edgar Princer, apresentava um aspecto lamentável. Se Valmonze tivesse oportunidade de vê-lo em tal estado, logo abandonaria a idéia de que podia tratar-se de um agente.
Princer, que estava sendo carregado sobre a floresta, numa altura estonteante, achava-se sentado numa tábua de vinte e cinco centímetros de largura, cujas extremidades encontravam-se presas a cordas que subiam até Schnitz e Lupatz. Os dois seres-pássaro planavam com as asas abertas.
O estômago de Princer não atendia sequer às exigências de um elevador comum. Por isso o terrano atravessava a pior hora de sua vida. Seu estômago “murchara”. A falta de sangue no cérebro turvava-lhe a vista. Talvez fosse bom, pois os efeitos da visão àquela altura poderiam ser desastrosos para Princer.
Uns vinte metros à sua frente, Cora estava sendo carregada por Kankantz e Tonitutz. Ele congratulou-se por ter deixado que a esposa voasse à sua frente. Dessa forma, a jovem ficara livre de uma visão nada agradável, e o vice-presidente da IFC, de explicações confusas. As asas dos nativos possuíam uma envergadura extraordinária. Quando se moviam, provocavam um deslocamento de ar, fazendo com que Princer estremecesse de susto.
Suas mãos seguravam firmemente as duas cordas. Não se atrevia a fazer o menor movimento. A tábua fina tremia e balançava. O estado de Princer não lhe permitia avaliar a velocidade com que se deslocava. A cada metro que avançava, a distância que o separava dos saltadores aumentava. Mas nem por isso sentia-se mais feliz.
A qualquer momento trocaria seu assento arejado por uma cadeira situada no interior da nave de Valmonze.
Mas logo disse para si que, pensando dessa maneira, estava sendo egoísta. Não devia pensar apenas em si mesmo. Sua valente esposa enfrentava iguais perigos.
Se eu fraquejar”, pensava o terrano, “perderei a oportunidade de informar Perry Rhodan.
Por isso continuou a sofrer. Era uma figura contorcida sentada sobre um pedacinho de madeira.
Não saberia dizer quanto tempo durou o estranho vôo. Acreditava não poder agüentá-lo por mais tempo, mas naquele momento Schnitz e Lupatz começaram a descer. A aterrissagem foi-lhe apavorante. Um suor frio cobriu o corpo de Princer. Sombras surgiram à sua frente, além de círculos coloridos. O terrano respirava com dificuldade. De repente sentiu um forte solavanco, e rolou pelo chão firme.
Vôo terminou — disse — Schnitz, em tom indiferente. — Homem sem asas poder levantar.
Acontece que Princer teve de enfrentar o efeito retardado de seus nervos. Engatinhando, conseguiu avançar um pedaço. A primeira tentativa de pôr-se de pé foi um lamentável fracasso. Finalmente ergueu-se com as pernas trêmulas. Sua cabeça zumbia.
Viu-se num prado que se estendia no meio da floresta. Cora achava-se a uns cem metros do lugar em que ele se encontrava. Aproximou-se juntamente com Kankantz e Tonitutz. Princer esforçou-se para dissimular seu estado desolador. A passos largos caminhou ao encontro da esposa.
Você não achou que o vôo foi maravilhoso, Johnny? — perguntou Cora. — Ele me refrescou.
Princer enrubesceu até a raiz dos cabelos. Sua atitude máscula desmanchou-se. Voltou a transformar-se no John Edgar Princer, o desajeitado, que sempre fora.
É verdade, querida — mentiu.
Seu sorriso desmanchou-se, quando a esposa o abraçou.
Não viemos para fazer um piquenique — disse em tom sério. — Você se lembra de que Valmonze aludiu a várias estações de controle, quando tentava expedir uma mensagem de bordo da Error?
Não é bem assim — retificou Cora. — Apenas disse que a área é mantida constantemente sob controle.
Princer levantou o dedo indicador muito fino, numa atitude professoral.
Conclui-se que é perfeitamente possível que, no planeta Alaze, existam várias estações de rádio. Cabe-nos descobrir uma delas.
Voltou-se para Schnitz e tornou a falar em intergaláctico, que os nativos dominavam razoavelmente.
Existem outras estações de saltadores, além do espaçoporto? — perguntou. — Sabe onde poderíamos encontrar uma?
O anel de penas azuis, que cercava os olhos negros de Schnitz, balançava, numa atitude de quem não compreendia.
Schnitz não compreender homem sem asas — disse. — Primeiro quer fugir, depois volta a procurar saltadores.
Princer lançou um olhar de súplica para a esposa.
A coisa é um tanto complicada, Schnitz. Queremos entrar em contato com nossos amigos, que estão num outro planeta, para que venham salvar-nos. Para isso precisamos de certos aparelhos. Os saltadores têm esses aparelhos. Portanto, precisamos encontrar uma de suas bases.
Schnitz bateu o bico, o que era um sinal de que entendera. Será que Princer se enganara, ou havia realmente um sorriso astucioso no rosto de pássaro?
Sem asas querer fazer palestra a grande distância — constatou o nativo. — Schnitz saber. Conhecer muitas estações. Muitas ficam longe, longe demais. Só uma nas proximidades.
Lançou um olhar ansioso para Cora e fez o movimento típico de um fumante. Princer aguardou pacientemente que Cora acendesse um cigarro e soprasse a fumaça para cima dos nativos de Alaze. Schnitz farejou, pigarreou, fitou Princer com os olhos lacrimejantes e prosseguiu visivelmente satisfeito.
Todas as estações guarnecidas por nativos, que prenderam aparelhos de saltadores — disse.
Princer fez um sinal para a esposa. Parecia sentir-se aliviado. Se Schnitz os levasse até uma das estações de rádio e de controle, apenas teriam de lidar com os nativos, não com os saltadores.
Leve-nos para este lugar, amigo — pediu a Schnitz.
Pela primeira vez viu uma certa insegurança nas atitudes do ser-pássaro. Schnitz abriu as asas.
Não ser possível — disse um pouco mais alto do que seria necessário. — Área de outra tribo. Não ser amigos de Schnitz.
Passou a falar com os companheiros, usando sua língua. O vice-presidente da IFC compreendeu os gestos de Kankantz, Lupatz e Tonitutz. Os alazes recusavam terminantemente a idéia de penetrar na área da tribo estranha.
Minha mulher e eu iremos sós — anunciou Princer. — Indiquem o caminho.
Melhor não — objetou Schnitz, em tom violento. — Homem sem asas ser morto naquela área.
De qualquer maneira seremos mortos — disse o terrano. — Por isso queremos agarrar qualquer chance, por menor que seja. Por favor, Schnitz, ajude-nos mais uma vez. Diga-nos como devemos fazer para encontrar a estação.
De repente Schnitz tornou-se sério. Estendeu a mão em garra e apontou para além do prado.
Sem asas caminhar nessa direção. Antes do anoitecer chegará à estação.
Está bem — disse Princer, satisfeito. — Vamos andando.
Esperar mais um pouco — falou Schnitz em voz baixa.
Pegou o pacote de cigarros que Princer lhe dera. Seus olhos negros cintilaram.
Schnitz não aceitar presente de um morto — grasnou.
Sem dizer uma palavra, o terrano pegou os maços. Cumprimentou os seres-pássaro com um gesto e segurou a mão da esposa. Atravessaram o prado e dirigiram-se à mata.
Os nativos esperaram mais alguns segundos. Depois abriram as asas e levantaram vôo. Princer ouviu o ruído das asas. Mas quando virou a cabeça, o prado já estava vazio.
Foram embora — disse, dirigindo-se a Cora. — Agora dependemos exclusivamente de nós. É melhor andarmos depressa, para que cheguemos à estação antes de escurecer.
O terrano teve de reconhecer mais depressa do que esperava que seu plano era inexeqüível, que os temores de seu amigo Schnitz tinham bons fundamentos. Quando penetraram na floresta, já estavam sendo esperados. Cerca de trinta nativos saíram de trás das árvores. Traziam armas parecidas com lanças. O chefe interpôs-se no caminho de Cora e John. Levantou a lança.
Trouxemos presentes para vocês — disse Princer, em tom amável. — Basta que nos deixem passar. Temos um caminho longo pela frente.
Mais uma vez John Edgar Princer teve de rever sua idéia, segundo a qual o Universo era povoado exclusivamente de criaturas pacatas como ele. O nativo deu ao jovem uma demonstração drástica da idéia que fazia dos presentes. Brandiu a lança e enfiou-a no chão bem à frente de Princer.
Parece que está furioso — cochichou Cora, apreensiva.
Seu esposo apertou-lhe a mão. Com uma naturalidade extraordinária tirou a lança do chão e examinou-a com uma expressão de curiosidade. Sob o ponto de vista psicológico, achava que este seria o procedimento correto. Acontece que não era.
Metade dos nativos precipitaram-se sobre eles e amarraram-nos com cordas. O terrano, que depois de envolto pelas cordas parecia ainda mais magro, disse algumas palavras animadoras para a esposa. No seu íntimo confessou que haviam percorrido o longo trecho em vão.
Haviam escapado aos saltadores, mas isso apenas para serem presos por um bando de nativos rudes, que evidentemente não eram menos hostis que os mercadores galácticos. Tanto Princer como sua esposa foram carregados para o interior da floresta por quatro seres-pássaro.
Para o terrano, finalmente se transformara em realidade a aventura cósmica pela qual tanto ansiara. Mas agora, que sentia o perigo na própria carne, teve a impressão de que os desejos da juventude eram bastante tolos.
Cada um deve fazer apenas aquilo para que foi feito”, refletiu, muito desanimado.
Sem dúvida era verdade. Mas para que fora feito John Edgar Princer, que parecia ter o azar grudado ao corpo? Se o filho do poderoso Archibald Princer se tivesse tornado filósofo, talvez encontrasse uma explicação. Acontece que não passava de um jovem desamparado que se envolvera numa tremenda confusão.
Quando os seres-pássaro o deixaram cair, suas reflexões sofreram uma violenta interrupção. Via-se uma grande área situada entre as árvores. O chão era batido. Nos galhos, Princer viu inúmeras cabanas, diante das quais muitos nativos estavam agachados ou de pé e cumprimentavam os recém-chegados com uma terrível gritaria. Cora e John foram levados para o centro da área livre e deitados no solo. Os habitantes da aldeia reuniram-se em torno deles.
Você tem uma idéia do que farão conosco, Johnny? — perguntou Cora, esforçando-se para virar o corpo, a fim de que seu marido pudesse ver seu rosto.
Princer tinha uma fantasia bastante desenvolvida, e por isso imaginou uma porção de coisas que poderiam acontecer nas próximas horas. Mas nada disso se prestava aos ouvidos de uma mulher, muito menos da mulher que ele amava. Então, limitou-se a dizer:
Não sei.
Um nativo de uma só perna manquejou em sua direção. Era velho e apoiava-se num bastão. Falava um intergaláctico impecável.
De onde vieram? — perguntou.
Da Terra — disse Princer, usando o vocábulo intergaláctico que designava o terceiro planeta do Sol.
O velho apoiou-se sobre a perna sã e apontou o bastão para o céu. Aglomerada atrás dele, a multidão manteve-se num respeitoso silêncio.
De lá? — perguntou.
Sim — respondeu Princer. — De lá.
Trouxeram o pó branco? — perguntou o nativo.
Pela primeira vez o terrano notou certa gulodice em suas atitudes.
O coitado é um viciado”, pensou.
Sentiu-se apavorado. A compaixão por aquela criatura praticamente indefesa sobrepujou a desconfiança. Devia haver uma possibilidade de ajudar aquele velho e os outros seres viciados.
O pó é prejudicial — gritou para a multidão, embora só o velho pudesse entendê-lo. — Não o tomem, senão ficarão doentes e morrerão.
O ser-pássaro ancião bateu com o bastão em seu peito. De tão velho que era, a pancada foi fraca. Mas o que mais chocava o vice-predidente da IFC era a atitude mental daquele velho, e não a agressão. Aquilo encarnava o mal. E o pior era que o mal fora causado por um tóxico vindo da Terra. Princer sentiu-se profundamente envergonhado.
O que poderia ter levado os saltadores a distribuírem entorpecentes no planeta Alaze? Os nativos não sabiam nada a respeito da Terra e, por isso mesmo, não poderiam responsabilizar os terranos. Schnitz o informara de que certos membros de sua raça trabalhavam nas estações de controle dos saltadores. Talvez os mercadores recorressem ao ópio para criar uma dependência, tornando aquelas criaturas submissas às suas ordens.
Vocês trouxeram o pó branco? — voltou a perguntar o ancião.
Princer ouviu naquela voz um medo terrível de que o não tivesse.
Não — disse — não trouxemos o pó.
Pensou que o nativo fosse precipitar-se sobre ele numa raiva incontida, mas o velho apenas se agachou e tirou um maço de cigarros do bolso de Princer. Abriu-o e puxou um. Mordeu-o. Enojado, atirou-o para longe.
Devíamos mostrar-lhe como se faz — disse Cora. — A fumaça deve produzir neles o mesmo efeito que em Schnitz e seus amigos. Talvez dessa forma poderemos convencê-lo a soltar-nos.
Não sou nenhum mágico para desamarrar as cordas — respondeu Princer, em tom contrariado. — Como posso acender um cigarro no estado em que me encontro?
Ao amanhecer experimentaremos para ver se vocês são amigos ou inimigos — grasnou o velho. — Até lá ficarão jogados aqui.
Afastou-se, antes que o terrano tivesse tempo de perguntar que tipo de experiência tinha em mente.

* * *

O planeta Alaze não possuía lua, e a luz das estrelas era quase totalmente absorvida pela densa atmosfera. A noite que Princer e sua esposa atravessaram não poderia ser comparada a uma noite terrana. A escuridão era impenetrável. Parecia que uma camada de tinta preta cobrira o solo.
Os nativos haviam-se recolhido às cabanas. Princer conversara durante muito tempo com a esposa. Depois de algumas horas mergulharam num sono agitado.
O terrano não saberia dizer por quanto tempo dormira, sempre atormentado pelos pesadelos.
Despertou com a sensação de que havia alguém por perto. Preferiu não acordar Cora. Amarrados como estavam, não tinham meio de defender-se.
O que poderia fazer se algum animal se aproximasse, à procura de uma presa? Por mais que esforçasse a vista, não conseguiu distinguir nem mesmo as sombras das árvores mais próximas.
Um galho seco estalou sob o peso de um corpo. Princer estremeceu com o ruído. Conteve a respiração e aguçou o ouvido. O silêncio voltou a reinar. Das árvores descia o zumbido dos insetos noturnos.
Lembrou-se da infância. Muitas vezes despertara no meio da noite, acreditando que as criaturas mais estranhas do seu mundo de fantasia se encontravam no quarto. Enfiava-se embaixo da coberta e voltava a adormecer, amedrontado. Na manhã seguinte via que nada de mais acontecera.
A criatura que vagava pela escuridão aproximou-se lentamente. Desesperado, John Edgar Princer começou a debater-se nas cordas. Mas os nativos eram verdadeiros mestres na arte de fazer nós. Quanto mais lutava contra as cordas que o prendiam, mais profundamente estas o apertavam. Cansado, desistiu.
Uma lufada de ar passou pelo seu rosto. No mesmo instante sentiu a lâmina fria de uma faca encostada ao seu pescoço.

* * *

Valmonze pegou um pedaço de giz, desenhou um círculo e fez um ponto no centro do mesmo. O giz quebrou.
Isto aqui — disse o patriarca, apontando para o ponto branco — somos nós, ou melhor, o espaçoporto. O círculo representa a distância máxima a que Princer e a mulher se podem encontrar. Em hipótese alguma podem ter ido mais longe. A caminhada pela floresta é muito penosa. Quer dizer que no máximo podem estar aqui, em torno da extremidade exterior do círculo. Razmon não os encontrou na grande depressão. Amat-Palong ainda não apareceu e não responde aos nossos chamados pelo rádio. Por isso é de supor que também não tenha alcançado qualquer resultado.
Soltou uma risada alegre, e prosseguiu:
Já é noite. Ao amanhecer, eu mesmo comandarei uma patrulha. Todos os planadores disponíveis serão empregados na operação. Quer dizer que é só uma questão de tempo. Os terranos fatalmente serão presos.
Shaugnessy, que se encontrava junto ao quadro-negro, contemplou o desenho de Valmonze como se fosse um quadro célebre.
O que adianta fazer os planadores voarem por cima do mato? — perguntou. — Os pilotos não poderão enxergar através da folhagem.
Utilizamos instrumentos de localização — explicou o mercador. — Estes aparelhos registram a presença das emanações térmicas do corpo humano.
Qualquer nativo provocará uma reação em seu mecanismo — ponderou Shaugnessy.
É verdade — admitiu Valmonze. — Acontece que o instrumento também indica o número de unidades térmicas irradiadas pelos corpos. Quer dizer que só pousaremos, quando tivermos constatado a presença da quantidade aproximada de calor irradiada por dois corpos. Naturalmente é possível que em certos lugares haja dois ou três nativos, mas via de regra os mesmos são bastante sociáveis e vivem em grandes grupos.
Os saltadores presentes fizeram um murmúrio de aprovação. A porta abriu-se e Toraman, o filho mais velho de Valmonze, entrou. Segurava várias folhas de papel. Inclinou-se ligeiramente à frente do pai.
Diga, meu filho — pediu o patriarca. Se não fosse essa permissão, Toraman nunca se atreveria a falar numa reunião a que seu pai estivesse presente.
Da mesma forma que todos nós — principiou Toraman — fiquei refletindo sobre quem poderia ser o tal do Princer. E a idéia que me ocorreu foi a de revistar cuidadosamente sua espaçonave.
Você tem razão — interrompeu-o o pai. — Não sei como não tive essa idéia. O que foi que você descobriu?
Toraman entregou os documentos ao pai.
Não domino a língua dos terranos — disse. — Acontece que Shaugnessy está aqui. Ele poderá traduzir o que está escrito nestes papéis.
Ótimo — disse o patriarca, em tom de elogio.
Passou os papéis a Shaugnessy e perguntou:
O que é que o senhor conclui disso? O contrabandista leu atentamente. À medida que estudava os escritos, seu sorriso tornava-se mais largo. Valmonze, que se sentia ansioso para compartilhar daquilo que o terrano sabia, insistiu:
Então, o que é?
Shaugnessy balançou os papéis.
Se estes documentos forem legítimos, não haverá a menor dúvida de que nosso amigo é totalmente inofensivo.
Levantou a primeira folha.
Isto — continuou, dirigindo-se aos presentes — é uma certidão de casamento de um certo John Edgar Princer e sua esposa Cora, em solteira Hatfield. Contraíram matrimônio em Denver, no dia... deixe-me ver... no dia 25 de julho de 2.102 do calendário terrano. Estamos em meados de agosto. Por isso é de supor que o casal fugitivo esteja fazendo sua viagem de núpcias.
Riu tanto que as lágrimas lhe correram dos olhos. Valmonze, que não conhecia nenhum senso de humor, lançou-lhe um olhar de recriminação. Quando parou de gargalhar, Shaugnessy pegou outra folha.
Isto é uma licença relativa a uma nave-disco de nome Error — explicou. — Esta confere ao proprietário, chamado John Edgar Princer, o direito de decolar do espaçoporto particular da Intercosmic Fruit Company, em direção ao espaço cósmico. E aqui ainda temos um manifesto de carga — prosseguiu. — Foi emitido pela IFC e traz o carimbo do Ministério do Comércio do Império Solar. Consigna duzentos quilos de gigante-supermacio, cujo ponto de destino é o planeta Ferrol, no sistema de Vega.
Devolveu os papéis a Valmonze.
Quer dizer que aquilo que o senhor acreditava ser semente de papoula não passava de um novo tipo de semente de espinafre.
Valmonze desconfiou de que a alegria do terrano tinha sua origem principalmente no fato de que ele, o patriarca, se enganara. Muito contrariado, gritou para Shaugnessy:
Quando o senhor se acalmar, poderemos continuar a falar como pessoas sensatas.
O contrabandista reprimiu mais um ataque de riso e enxugou os olhos.
O que vem a ser espinafre? — perguntou Valmonze.
É uma verdura que, segundo dizem todas as mães terranas, é muito nutritiva — explicou Shaugnessy. — Costumam dá-la às crianças, até que o espinafre lhes saia pelas orelhas.
Valmonze disse em tom sombrio:
Parece que, para o senhor, isto não passa de uma excelente piada. Mas como se explica que Princer veio parar aqui, quando seu destino era o sistema de Vega?
Provavelmente quis tornar mais interessante sua viagem de núpcias e, por isso, resolveu dar mais uma volta — disse Shaugnessy, com um sorriso.
Deixe-me em paz com suas brincadeiras idiotas — esbravejou o patriarca. — Estou farto de ver o senhor divertir-se à minha custa. Há algo de errado nisso. Para descobrir o que é, precisamos pegar o tal do Princer. E, por Talamon, nós o traremos para cá.
Shaugnessy deixou-se cair confortavelmente na poltrona. Não disse nada, mas sua atitude exprimia o que pensava:
Acontece que ele é um terrano. Será que o senhor se esqueceu disso?

* * *

Uma mão quente e áspera tapou a boca de Princer e evitou que o terrano soltasse um grito.
Sem asas ficar quieto — cochichou uma voz familiar ao ouvido do vice-presidente. — Qualquer ruído, e todos os inimigos virão para cá.
Uma onda de alivio percorreu Princer.
Schnitz! — balbuciou. — Schnitz, seu patife!
As mãos treinadas no nativo cortaram as cordas. Imediatamente Princer começou a massagear as juntas, para que o sangue voltasse a circular. Enquanto isso, Schnitz ocupou-se com Cora, libertando-a tão depressa como fizera com Princer.
Schnitz observar quando sem asas foi preso — contou o ser-pássaro. — Esperar noite. Agora aqui.
Princer apertou a mão do nativo, num gesto de gratidão. Schnitz ajudara, independentemente da influência da fumaça do cigarro. O jovem sabia que Schnitz arriscara a vida. A tribo inimiga não hesitaria em matá-lo, se conseguisse pôr as mãos nele.
Os olhos de Princer procuraram romper o negrume da noite. Como poderiam deslocar-se nessa escuridão compacta? Perguntou a si mesmo como Schnitz conseguira encontrá-los. Talvez os olhos dos nativos estivessem adaptados à escuridão e possuíssem um centro adicional de percepção.
Dar mão para mim — pediu Schnitz, em voz baixa. — Schnitz caminhar na frente.
Princer empurrou a esposa para a frente, e esta segurou a mão-garra do nativo. O terrano caminhou no fim. Moveram-se com uma rapidez espantosa. Os dois seres humanos não tiveram outra alternativa senão confiar exclusivamente em Schnitz. Não reconheciam nenhum obstáculo. Depois de terem cruzado a área livre, passaram a caminhar com maior dificuldade.
Naquele instante ouviu-se uma tremenda barulheira na extremidade oposta da aldeia construída nas árvores. Princer parou, apavorado. Um verdadeiro exército parecia executar uma música infernal.
Schnitz deu uma risadinha.
Isso ser Kankantz, Lupatz e Tonitutz — disse. — Fazer grande truque. Tribo inimiga correr direção errada. Assim sem asas ter tempo para fugir.
As cabanas construídas nas árvores adquiriram vida. Ouviram-se grasnados e vozes estridentes. A aldeia estava revolta. Schnitz passou a andar mais depressa. Já não precisavam preocupar-se com o ruído, pois o barulho que havia na aldeia sobrepujava tudo. Bem ao longe, os amigos de Schnitz ficaram com os pescoços doloridos de tanto gritar.
Schnitz abriu caminho pela floresta com a segurança de um sonâmbulo. Os uivos dos habitantes da aldeia propagaram-se em outra direção, e, depois de algum tempo, tornaram-se praticamente inaudíveis.
Por favor, Johnny — fungou Cora. — Vamos fazer uma pequena pausa.
Fazer boa fumaça? — perguntou Schnitz, em tom esperançoso.
Ninguém respondeu. Por algum tempo houve um silêncio total. Finalmente o ser-pássaro voltou a perguntar, desta vez em tom de desânimo:
Sem asas fazer boa fumaça para Schnitz?
Diga a ele, Johnny — pediu Cora. “Ele nos abandonará”, pensou Princer. “Sairá voando.”
Apesar disso resolveu falar:
Não podemos fazer fumaça. Tiraram-nos os cigarros.
Na escuridão Princer não pôde ver a reação do nativo. Schnitz manteve-se calado. Mas não saiu voando. Cora encostou-se ao marido e ele acariciou seu cabelo. No íntimo, o jovem admirava a conduta exemplar da esposa.
Vamos andando — disse Schnitz depois de alguns minutos. O terrano percebeu que o nativo se sentia decepcionado.
Um sentimento de culpa começou a manifestar-se em sua mente. Cora começara a usar os cigarros, quando ainda não sabia do seu poder sobre os nativos. Mas, depois disso, passaram a aproveitar-se da fraqueza dos alazes para alcançar seus objetivos.
Se quiser pode voltar para junto de seus amigos — disse Princer.
Sem asas ser amigos — disse Schnitz em tom categórico.
Ao amanhecer chegaram à estação de rádio dos saltadores. Era um edifício quadrado, construído numa das extremidades de uma clareira. Ao lado deste havia um pequeno campo de pouso, que poderia receber um planador. Mas não se via nenhum veículo dos saltadores. Tudo parecia quieto e abandonado.
Schnitz parou. Encontravam-se na extremidade oposta da clareira. Cora estava totalmente exausta.
Parece que não há ninguém — disse Princer, com a voz abafada.
Três nativos dentro da estação — disse Schnitz. — Sem armas. Homem sem asas pode dominá-los.
Princer não tinha tanta certeza. Indeciso, contemplou o edifício. Se por ali houvesse um transmissor de longo alcance, poderia se comunicar com a Terra ou com uma nave do Império Solar. Ficou indeciso entre a confiança e o medo. Durante todo o tempo quisera chegar a este lugar, e agora, que o atingira, não conseguia tomar a resolução de empenhar todas as energias na execução de seu plano.
Não poderiam ficar sempre contando com a sorte. Não tinha a menor dúvida quanto a isso. Mais dia menos dia, ele e Cora seriam apanhados pelos saltadores. Se expedisse uma mensagem, os mercadores poriam as mãos neles, algumas horas depois.
Vou me aproximar do edifício — disse depois de algum tempo. — Schnitz, eu gostaria que você ficasse com minha esposa. Se surgir algum perigo, fuja com ela. Não tome nenhuma consideração por mim.
Schnitz cuidar de mulher sem asas — prometeu o ser-pássaro.
Cora passou por Schnitz.
Acho que também tenho que dizer uma palavra — disse. — Irei com você.
Princer fitou-a com uma expressão desolada. Não gostava de contradizer ninguém, ainda menos a uma bela mulher, que além do mais era sua esposa. Levantou os braços num gesto de súplica.
Não adianta explicar — disse Cora apressadamente. — Eu o acompanhei até aqui e continuarei a acompanhá-lo.
Schnitz soltou a risadinha que lhe era peculiar.
Acreditar ser inútil falar muito, sem asas — disse.
Também acredito — disse Princer. — Vamos andando. Obrigado pelo auxílio, Schnitz.
Por um instante, o ser-pássaro fitou-o em silêncio.

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