— Schnitz
também ir — anunciou. — Talvez poder fazer grande truque.
Ao que
parecia o nativo tinha uma autoconfiança e uma fé nos seus truques,
considerando-os verdadeiramente admiráveis. Schnitz demonstrava
sempre uma estranha e profunda alegria. Ao que parecia, tinha uma
filosofia de vida que fazia com que compreendesse e suportasse todas
as coisas, com um sorriso matreiro.
Princer
sentiu-se ligado a este ser. Era uma ligação que nunca sentira para
com seus amigos terranos.
Confirmou
com um gesto e foi caminhando em direção ao edifício. Schnitz e
Cora seguiram-no. Ninguém parecia interessar-se pela presença do
trio. A estação não possuía janelas. Havia apenas uma fresta de
luz e uma porta, que estava fechada. Aproximaram-se. Princer parou.
— Está
tudo quieto — disse bem baixo. — Será que não há ninguém por
aqui? Talvez tenham evacuado a estação e levado todos os aparelhos.
— Nós
olhar — sugeriu Schnitz.
Princer
aproximou-se da porta. Seu coração bateu mais depressa. Era
possível que houvesse apenas uma fina parede de plástico que o
separava da morte. Apesar disso, sua mão não tremeu nem um pouco,
quando pegou a maçaneta.
Girou o
botão e abriu rapidamente a porta, que girou para dentro. Ouviu-se
um ruído. Não aconteceu nada. O edifício estava dividido em duas
salas. O terrano viu imediatamente uma delas. Não havia ninguém por
lá. A luz que penetrava pela fresta permitia que Princer
reconhecesse todos os objetos. A sala estava repleta de instrumentos
de controle e de localização. Provavelmente os aparelhos de rádio
se encontravam na sala contígua.
Princer
entrou resolutamente. Cora e Schnitz mantiveram-se silenciosamente
atrás dele.
— Parece
que não há ninguém, nem mesmo os nativos — disse o
vice-presidente, em tom de alívio.
Deu um
passo para a frente. Naquele instante, um homem saiu da sala
contígua. Era alto e magro. Em sua cabeça não havia um único
cabelo. Seu rosto estava marcado por uma expressão fria.
Sem dizer
uma palavra, fitou os intrusos. Princer não conseguiu fazer qualquer
movimento.
O
desconhecido tirou lentamente uma arma, que se encontrava sob a
jaqueta, e com um sorriso frio apontou-a para o peito de Princer.
— Um
dia, até mesmo o homem mais esperto tem de reconhecer que existe
alguém mais esperto que ele — disse.
Nesse
momento, o homem mais esperto era Amat-Palong, o ara.
7
As medidas
tomadas por Perry Rhodan e seu estado-maior revelaram-se inúteis e
impopulares. Toda nave cargueira, que saía da Terra, era
cuidadosamente examinada e controlada. No entanto, não se conseguiu
prender nenhum criminoso. Ao que parecia, os contrabandistas
desconfiaram de alguma coisa e suspenderam seus fornecimentos.
Os
controles faziam com que as grandes organizações comerciais da
Terra perdessem tempo e capital. Mais uma vez via-se que o egoísmo
de certas pessoas é maior que sua inteligência. O Ministério do
Comércio Solar recebeu telefonemas indignados. Os comandantes de
naves cargueiras proferiam ameaças contra os funcionários
incumbidos do controle. Como até então o povo nunca tivesse ouvido
falar no bando de traficantes, o perigo foi minimizado. Rhodan foi
acusado de ver as coisas muito pretas e de ter uma consideração
excessiva por seus amigos extraterrenos.
Mais uma
vez a maior parte da imprensa diária criticou os atos do
administrador. Supunha-se que, por trás das ordens de Rhodan,
houvesse certas maquinações econômicas. Vez por outra, os artigos
de fundo forneciam explicações fantasiosas, mas nunca apresentavam
uma proposta melhor.
A situação
era esta, embora as medidas só tivessem entrado em vigor há um dia.
A opinião pública representava um fato que não poderia deixar de
ser considerado por Rhodan. É bem verdade que, segundo um velho
ditado, a opinião das massas nem sempre é correta. Mas, nem por
isso, a posição destas deixa de representar um elemento de pressão
política.
Reginald
Bell apareceu diante de Rhodan, trazendo um enorme maço de jornais.
Com a fisionomia sombria, atirou-o na mesa do chefe.
— Não
demorará, e voltarão a gritar “crucifique-o”
— conjeturou em tom amargo. — Eles vêem em você uma espécie de
freio econômico.
Rhodan nem
olhou para os jornais. Como sempre acontecia nessas oportunidades,
irradiava calma e segurança.
— Allan
já me contou — disse. — Resta saber quem tem mais resistência:
as medidas adotadas por nós ou eles — apontou para os jornais. —
Com o tempo, as empresas se acostumarão aos controles rígidos.
— Nenhum
homem livre gosta de ser controlado — observou Bell.
Rhodan
sorriu.
— Você
diz isso logo a mim, gordo? Assim que tivermos qualquer indicação
que nos leve ao grupo de contrabandistas, as medidas serão revogadas
e tudo voltará a ser como antes.
— Pois
sim — disse o homem baixo. — Até lá os contrabandistas ficarão
bem quietos, e nós não lhes descobriremos a pista.
— Não
se esqueça de que inúmeros agentes estão trabalhando no caso, e
estes não desprezarão nenhuma pista. Ninguém consegue enganar-nos
para sempre — disse Rhodan em tom enfático.
Antes que
Bell tivesse tempo para responder, o ar tremeluziu à sua frente, e
uma mistura de rato e castor, de dimensões exageradas, fez sua
aparição. Era Gucky. Suas mãos pequeninas seguravam um número do
Terrania
Observer.
Parecia indignado.
— Tenente
Guck — disse Rhodan, em tom de recriminação. — Isto é um
recinto privado, no qual não se deve penetrar sem ser chamado.
— Não
penetrei, Perry — disse Gucky, indignado. — Eu me teleportei. E
que assunto privado pode ser tratado neste recinto, quando — fez
uma pausa de efeito e dirigiu um olhar para Bell — quando este
indivíduo está presente?
— O
oposto de privado é público — explicou Bell. — Pouco importa
que eu lhe torça o pescoço em particular ou em público. O
resultado será o mesmo: ficaremos livres de você.
O dente
roedor de Gucky subiu num gesto de indignação. Agitou o jornal na
frente dos amigos.
— Sua
insensibilidade quase chega a ser tanta quanto a destes escribas —
observou, ofendido. — Este artigo de fundo é o cúmulo. Ouçam:
Existe
uma possibilidade de que os amigos de Rhodan sejam atingidos por suas
medidas com a mesma intensidade das empresas comerciais. Um
retardamento de todas as remessas trará uma falta de cenouras, que
Rhodan dificilmente poderia justificar perante seus amigos
extraterrenos.
Gucky
arrastou os pés para junto da escrivaninha de Rhodan, embora seus
dons extraordinários lhe permitissem deslocar-se muito mais
depressa. Mas naquele instante estava interessado em parecer fraco e
desamparado.
— Isso
não passa de uma ironia tola — disse Rhodan. — Um grande
espírito não se importa com essas coisas.
Gucky
começou a esbravejar.
— Ainda
não tinha notado que me encontro num ilustre círculo de corifeus
econômicos. As palavras relativas às cenouras representam uma
alusão aos meus amigos de Marte.
— Representam,
antes, uma alusão à minha pessoa — explicou Rhodan. — Para mim,
isso não é nenhuma tragédia. Afinal, o repórter tem direito de
escrever o que lhe pareça mais acertado. A opinião dele é
diferente da minha. A publicação do artigo não é motivo para
ficarmos nervosos. Cada um de nós expôs seus pontos de vista.
Naquele
momento, o rato-castor mostrou as cartas.
— Está
na hora de fazer alguma coisa contra esse bando de traficantes. São
os únicos culpados. Uma vez que as férias-de-verão de qualquer
maneira estão atrasadas, sugiro que um mutante capaz como eu...
— Basta
— interrompeu Rhodan. — Um mutante capaz como você fará
exatamente aquilo que lhe for ordenado. Nem penso em utilizá-lo num
trabalho que praticamente obrigaria a maltratar gente inocente com
suas faculdades.
O
rato-castor, uma criatura de um metro de altura, apoiou-se sobre a
cauda e, muito satisfeito, passou as mãos pelo uniforme espacial.
— Você
sabe perfeitamente que no fim Não terá outra alternativa, Perry —
piou. — Enquanto vigoram os controles, os contrabandistas ficam
quietos. Têm tempo para procurar novos meios, que lhes permitam
neutralizar as medidas adotadas por você. Os funcionários não
podem desmontar as espaçonaves por ocasião do controle. É verdade
que têm instrumentos que os ajudam nas buscas, mas os bandidos não
são idiotas. Encontrarão esconderijos onde não possam ser
localizados.
Rhodan
sabia que os argumentos do mutante não deixavam de ter seus
fundamentos. A sugestão de Gucky não se inspirara unicamente na
sede de aventura, mas também na preocupação que sentia por seus
amigos, os humanos.
Mas, se o
administrador fosse obrigado a lançar mão de mutantes, estes seriam
humanóides, como Fellmer Lloyd ou André Noir. Seu trabalho seria
mais discreto que o de Gucky.
— Compreendo
perfeitamente que você se sinta martirizado pelo tédio — disse
Rhodan, dirigindo-se ao rato-castor. — Acontece que há muito
trabalho para você.
Um sorriso
triste surgiu no rosto de Gucky.
— Sei
que são serviços de rotina, mas... — lamentou-se e procurou mudar
de assunto. — Estes registros, que estão sendo realizados por
psicólogos meio malucos, provocam um vazio dentro de mim. Eles não
querem compreender que existe certa diferença entre meu método de
teleportação e o de Ras Tschubai. No momento estamos experimentando
com...
— Tenente
Guck — interrompeu Rhodan.
O
rato-castor estremeceu, como se tivesse sido golpeado fisicamente.
Quando Rhodan o chamava de Tenente Guck, era recomendável abster-se
de novas brincadeiras.
— Está
bem, Perry — disse em tom de desânimo. — Vou me recolher ao
laboratório. Mas é bom que saiba de uma coisa — levantou a voz. —
Se um dia eu conseguir agarrar esse escriba do Observer,
eu o farei girar embaixo do teto como se fosse um pião.
Assim que
acabou de proferir a ameaça, o rato-castor desapareceu.
— Voltou
a mostrar-se violento — disse Bell, com um sorriso.
— Acontece
que não deixa de ter sua razão — observou Rhodan, em tom
pensativo. — É impossível revistar todo cargueiro de tal forma
que se possa afirmar com toda segurança que não existe qualquer
quantidade de entorpecente a bordo. Isso demoraria vários dias.
Sabemos perfeitamente que um controle desse tipo é impraticável.
— Quer
dizer que nosso controles são inúteis — disse Bell.
— Podemos
dizer que preenchem uma finalidade psicológica. No momento, os
criminosos se vêem impedidos de fazer novos fornecimentos aos
saltadores. Antes que abandonem as cautelas e comecem a usar outros
truques, algum tempo se passará. Devemos dar nosso golpe enquanto
durar a pausa.
— Para
isso precisamos de um ponto de apoio.
— Perfeitamente
— concordou Rhodan. — Bem que gostaria que já o tivéssemos.
8
Em todos
os tempos, uma arma de fogo representou um argumento que não podia
ser desprezado em qualquer discussão. No momento em que o
desconhecido apontou o radiador térmico em sua direção, John Edgar
Princer compreendeu que todos os trunfos estavam nas mãos do
inimigo. O homem armado interpunha-se entre ele e os aparelhos de
rádio que ficavam na sala contígua.
— O
senhor fará tudo que eu lhe ordenar — disse Amat-Palong, em tom
penetrante. — Depende exclusivamente do senhor, se eu mato ou não
o senhor e sua companheira.
Princer
“acordou”.
— O que
deseja de mim? — perguntou.
— Perto
daqui existe um lugar livre entre as árvores. Preferi pousar meu
planador nesse lugar, para que não fosse visto pelo senhor. Não
estou interessado no nativo; pode dar o fora. Valmonze ficará
surpreso ao ver-me aparecer com os fugitivos, mas sua autoconfiança
receberá um pequeno golpe.
Falava no
tom monótono de quem lê um relatório. O jovem vice-presidente
nunca encontrara um homem tão insensível e... tão perigoso.
— Temos
de fazer o que ele mandar — disse Princer.
O terrano
estava totalmente abatido. Temia por Cora. E este medo avolumou-se
até transformar-se numa sensação insuportável.
Amat-Palong
fez um sinal com a arma.
— Vamos
andando — disse com a voz suave.
Uma sombra
passou por Princer, em direção ao ara. Foi tudo tão rápido que o
terrano não teve tempo de esboçar qualquer reação. O ser-pássaro
precipitou-se sobre o inimigo como se fosse uma flecha.
— Schnitz!
— gritou Princer.
Amat-Palong
saltou para o lado e disparou. Schnitz foi atirado para trás.
Cambaleou e caiu. Imediatamente o ara voltou a dirigir a arma para o
terrano, que só estava interessado pelo nativo.
Aproximou-se
do ser-pássaro juntamente com Cora. Schnitz ainda estava vivo. O
anel de penas azuis que cercava seus olhos tremia. Princer passou a
mão pela cabeça de Schnitz.
— Schnitz
tentar grande truque — balbuciou o nativo, fazendo um grande
esforço.
— Sim —
disse Princer com a voz áspera. — Foi um truque formidável,
amigo.
Um sorriso
parecia esboçar-se em torno do bico largo. Ou seria apenas uma
contorção produzida pela dor? Uma mão em garra segurou a jaqueta
de Princer.
— Sem
asas... fazer... fumaça? — perguntou a voz débil de Schnitz.
— Sim —
respondeu. — Está sentindo o cheiro?
O nativo
não teve forças para responder. O terrano viu que começava a
farejar. Finalmente acenou com a cabeça. Satisfeito, deixou-se cair
para trás.
— Schnitz!
— gritou o terrano em tom de desespero.
O
ser-pássaro não respondeu.
Estava
morto.
Neste
instante houve uma modificação em John Edgar Princer. Já não era
o jovem desajeitado, que provocava risos. Quem se ergueu foi um
terrano sério e controlado. Ficou ereto ao lado do cadáver do
nativo. Fitou Amat-Palong.
— O
senhor o assassinou — disse com a voz ressentida.
Instintivamente,
o médico galáctico recuou um passo. Alguma coisa em Princer parecia
servir-lhe de advertência.
— Não
faça tolices — gritou em tom estridente.
O terrano
sacudiu a cabeça.
— Não o
assassinei — disse Amat-Palong. — Ele me atacou. Além disso, é
apenas um nativo.
De repente
deu-se conta de que se defendia perante um prisioneiro. Aborrecido,
fez um sinal com a arma e ordenou:
— Vamos
andando, Princer.
Sem dizer
uma palavra, o terrano segurou a mão de Cora, e foram andando.
Amat-Palong seguiu-os numa distância segura. Quando saíram do
edifício, disse:
— Vá na
direção daquela árvore grande que fica junto ao campo de pouso.
Princer
obedeceu sem a menor objeção.
— Mais
rápido! — ordenou o ara.
O
vice-presidente apressou o passo e arrastou Cora.
— Oh,
Johnny, o que vamos fazer agora? — perguntou em inglês.
— Nada
de conversa — advertiu o inimigo. — Silêncio.
— Fique
quieta, querida — disse Princer, em tom suave.
Chegaram e
penetraram na floresta. Vez por outra o homem, que caminhava atrás
deles, dava uma ordem sobre a direção que deviam tomar.
Dez
minutos depois, Princer viu o espaço livre entre as árvores. O
planador ao qual o desconhecido se referira estava pronto para
decolar.
O terrano
resolveu agir no momento em que penetrassem na comporta da pequena
nave. Sabia que, durante essa ação, provavelmente seria morto. Mas,
perante si mesmo, perante a Humanidade, perante Schnitz e
principalmente perante Cora, tinha a obrigação de não se conformar
com o destino sem resistência.
Porém não
chegou a fazer aquilo que pretendia, pois não chegaram ao planador.
Ao
atingirem a clareira, Princer ouviu, de repente, um farfalhar de
galhos. Seguiu-se um grito abafado, e o feixe de fogo de um radiador
perdeu-se nas folhagens.
Princer
virou-se abruptamente. Três nativos haviam saltado de uma árvore!
Amat-Palong estava agora deitado no chão. Kankantz, Lupatz e
Tonitutz inclinaram-se sobre ele. Achavam-se prestes a matar o homem.
Sem dúvida já haviam encontrado o corpo de Schnitz.
— Para
trás — gritou Princer. — Não o matem.
Procurou
fazer com que os nativos furiosos recuassem. Quando conseguiu
acalmá-los, já era tarde. Bastou um ligeiro olhar ao assassino de
Schnitz, para convencê-lo de que tivera o mesmo destino do nativo.
Princer afastou Cora do local.
Kankantz
seguiu-os. Seu aspecto deixou o terrano abalado. Seus olhos escuros
exprimiam uma inconfundível tristeza.
— Agora
caminhos de sem asas e amigos de Schnitz se separar — disse
Kankantz, em tom amargo. — Sem asas só trazer tristeza.
Seria
inútil discutir com o nativo. Devido ao assassinato, o ser-pássaro
estava coberto de razão.
— Está
bem, Kankantz — disse Princer. — Vá em paz.
O alaze
virou-se e foi para junto de Tonitutz e Lupatz, que o esperavam. Os
três seres-pássaro galgaram os galhos e desapareceram.
Cora
lançou um olhar para o cadáver.
— O que
será feito dele? — perguntou.
— Os
saltadores o encontrarão — disse Princer, embora não tivesse
muita certeza.
Colocou o
braço em torno do ombro de Cora.
— Precisamos
voltar à estação de rádio. Agora não há ninguém por lá. Isso
nos oferece uma oportunidade de expedir uma mensagem.
Quando
voltaram a entrar no edifício, o cadáver de Schnitz já havia
desaparecido.
— Vieram
buscar o amigo — conjeturou Princer. — Bem que eu gostaria de
sepultá-lo. Seria o mínimo que poderíamos fazer por ele.
Dirigiram-se
à outra sala. Procuraram localizar um telecomunicador, ou ao menos
aquilo que representasse a versão saltadora de um aparelho desse
tipo.
— Temos
de contar com a possibilidade de que os saltadores localizem o ponto
de partida de nossa mensagem — disse o terrano, dirigindo-se à
esposa. — Dentro de uma hora estarão aqui. Acho que apesar disso
devemos tentar.
Cora
acenou com a cabeça, sem dizer uma palavra. Princer puxou uma
cadeira e sentou-se à frente do aparelho. Contemplou as mãos, como
se o êxito de sua ação dependesse das mesmas. Passou os olhos
pelos controles. Antes de tocá-los, teria de compreender suas
finalidades. Cada minuto de experiências representaria um tempo
perdido.
— Acho
que já estou em condições de manipular o telecomunicador — disse
Princer, dirigindo-se à esposa. — Esta chave serve para ligar a
tela. Vejo pela posição.
Passou os
dedos lentamente pelas diversas teclas.
— Está
bem — disse em tom resoluto. — Vou tentar.
Num gesto
rápido girou vários botões.
O aparelho
emitiu um leve zumbido. Luzes de controle acenderam-se. O
telecomunicador começou a irradiar energia. E a energia poderia ser
localizada.
Tudo
dependia de que o vice-presidente da IFC conseguisse entrar em
contato com os terranos, antes que os saltadores aparecessem.
*
* *
O Major
James Woodsworth era de opinião que um destino cruel o condenara a
ficar estacionado constantemente longe de todos os centros dos
acontecimentos cósmicos. Sempre que havia alguma coisa, Woodsworth
se encontrava longe. Sentia inveja de seus colegas, pois ele,
Woodsworth, tinha de conquistar seus louros em teoria, já que na
prática dificilmente surgia-lhe oportunidade para isso. Era um homem
temperamental, que não gostava de um sossego prolongado.
Naquele
momento, o major encontrava-se na sala de comando do cruzador pesado
Cape Canaveral. Woodsworth era um homem de estatura média, cabelos
curtos, rosto inexpressivo e uma cova no queixo.
— O que
acha de nossa tarefa? — perguntou, dirigindo-se a Jens Poulson, que
exercia as funções de piloto.
Na
verdade, Poulson não fazia quase nada. Limitava-se a verificar vez
ou outra os controles, pois a nave deslocava-se em queda livre, e o
dispositivo automático era perfeitamente capaz de mantê-la numa
trajetória constante.
Poulson
bocejou. Isso bastava para exprimir sua opinião. Mas Woodsworth era
seu superior, e por isso respondeu:
— Para
dizer a verdade, não acho nada, sir.
Woodsworth
olhou para o relógio e confirmou com um aceno de cabeça.
— A
próxima transição está programada para daqui a duas horas. Depois
disso “rastejaremos”
pelo espaço a uma distância de seis anos-luz, à procura de
fantasmas.
— O
General Deringhouse recebe ordens do chefe, sir — disse Poulson. —
Se os dois acham que é importante realizar vôos de patrulhamento,
devem ter seus motivos para isso.
— A
única coisa que o senhor tem de fazer é prestar atenção para
localizar eventuais naves desconhecidas — disse Woodsworth, fazendo
uma tentativa de imitar a voz do General Deringhouse. — Jens, o
senhor acha que nossa tarefa tem algo a ver com aquela raça
misteriosa a respeito da qual correm tantos boatos?
— Não
sei, sir.
Os outros
homens da sala de comando levantaram instintivamente a cabeça, ao
ouvir falar numa raça desconhecida. Mas o major não aludiu mais à
mesma. Passou ao seu assunto predileto.
— Jens —
disse — já chegamos a um ponto em que os homens da frota não
querem trabalhar mais sob minhas ordens. Acham que represento uma
garantia segura de que comigo passarão uma espécie de férias
prolongadas. E qual homem, que tem sangue nas veias, gostaria de uma
coisa dessas?
Como
ninguém respondesse, Woodsworth interpretou o silêncio como sendo
uma manifestação de concordância. Atravessou a sala de comando com
passos rápidos e curtos.
— Sir! —
gritou Oliver Durban, chefe da equipe de rádio.
Woodsworth
virou-se abruptamente. Durban reclinara-se em sua poltrona e fitava
os instrumentos com uma expressão de incredulidade. Mas, no momento
em que o major se precipitou para seu lado, o operador de rádio
pareceu adquirir vida. Moveu vários controles. A tela do aparelho de
telecomunicação iluminou-se. Jens Poulson saiu de seu lugar e
dirigiu-se apressadamente para junto de Durban.
— O que
é isso? — perguntou Woodsworth, apontando para a luz vermelha.
Naturalmente
sabia o significado, mas gostava que seus tripulantes lhe explicassem
qualquer tipo de variação, para deleitar-se por mais tempo com
isso, conforme dizia.
— É uma
mensagem vinda pelo telecomunicador, sir — explicou Durban.
— Vem da
Terra? — perguntou o major.
— Não,
não creio.
Percebeu-se
que Woodsworth teve vontade de abraçar seu operador de rádio. Por
ser tal atitude impossível, contentou-se em dar um tapinha no ombro
de Durban.
O chefe da
equipe de rádio fez a regulagem da tela. Um rosto confuso adquiriu
contornos nítidos. No mesmo instante, o dispositivo sonoro do
hiper-rádio emitiu um estalo. Ouviu-se uma voz.
— ...Avisem
imediatamente Perry Rhodan. Atenção. Repito a mensagem. Qualquer
pessoa que me ouça, deverá avisar imediatamente Perry Rhodan...
— Se
continuar assim, metade da Galáxia acabará por ouvi-lo — disse
Durban, em tom contrariado.
Woodsworth
fez um gesto para que se calasse.
— Aqui
fala John Edgar Princer da Intercosmic Fruit Company. Eu e minha
esposa encontramo-nos no planeta Alaze, uma base dos saltadores. O
centro do tráfico de entorpecentes fica neste planeta.
Quem
dirige o negócio na Terra é Vincent Aplied, residente na Cidade do
Cabo. Se alguma estação terrana me ouvir, peço à mesma que avise
imediatamente Perry Rhodan. Atenção. Repito...
— Isso
está me deixando doido — gritou Woodsworth, em tom entusiasmado. —
Durban, entre imediatamente em contato com Terrânia e faça com que
Rhodan compareça junto ao aparelho.
— O
chefe? — perguntou o operador de rádio.
— Será
que terei de matá-lo para que o senhor cumpra minhas ordens? —
perguntou Woodsworth num berro nada lógico. — Será que, por não
acontecer nada de anormal em nosso setor, o operador de rádio
continua dormindo?
— Sir,
peço licença para ponderar que o planeta Alaze fica a mais de mil
anos-luz daqui. Não pertence ao nosso setor.
Enquanto
falava manipulara alguns controles, o que o salvou da cólera de
Woodsworth.
— Procure
descobrir onde está o tal do Princer. Iremos buscá-lo — anunciou
o major.
Durban,
que nada tinha a objetar a essa manifestação de entusiasmo, com
exceção de alguns detalhes relativos à técnica de rádio, teve
sua voz abafada pelos gritos de alegria que ressoaram na sala de
comando.
O cruzador
pesado Cape Canaveral parecia estremecer sob os brados dos
tripulantes.
— A
lenda das viagens monótonas de James Woodsworth chegou ao fim —
exclamou o major. — Uma nova época está começando para meus
homens e para mim.
Durban,
que pretendia ponderar delicadamente que acontecera apenas o
recebimento de uma mensagem de telecomunicação, e que talvez nada
mais ocorreria, limitou-se a balançar a cabeça.
Estabeleceu-se
contato com a central de rádio da Frota Solar em Terrânia. O rosto
de um jovem oficial apareceu na tela. Via-se perfeitamente que não
estava muito satisfeito com a perturbação inesperada.
— Aqui
fala o Major Woodsworth — disse o comandante, inclinando-se sobre o
ombro de Durban. — Ligue-me imediatamente com o administrador.
— Para
isso, o senhor terá de fornecer um motivo muito importante —
respondeu o operador de rádio de Terrânia. — Se estiver sentindo
algumas pontadas no apêndice, faça o favor de dirigir-se...
— Não
estou sentindo pontada nenhuma — gritou Woodsworth, em tom
indignado. — Mas se não me ligar imediatamente com o
administrador, o senhor não demorará a sentir alguma coisa...
O oficial
de rádio era tão frio quanto melancólico. Não se abalou. Repetiu:
— Faça
o favor de indicar um motivo, major.
Woodsworth
percebeu que teria de modificar sua tática.
— Encontramos
o bando de traficantes de entorpecentes — disse.
Naturalmente
isso era um exagero mas, na exaltação que sentia, Woodsworth não
formulava suas idéias com muita precisão.
— Por
que não disse logo? — observou o oficial de rádio. — Tentarei
imediatamente. Só não posso prometer que conseguirei entrar em
contato com o chefe em pessoa. O senhor também se daria por
satisfeito com Bell... bem, com seu representante, Mr. Bell, ou com o
Marechal Solar Freyt?
Woodsworth
perdeu a paciência.
— Eu lhe
imploro, meu jovem. Coloque em contato com alguém que tenha poderes
para decidir alguma coisa, pois do contrário acabarei enlouquecendo.
Mais
depressa do que esperava, o rosto marcante de Rhodan fitou-o da tela.
— Encontrou
os contrabandistas, major? Se não estou enganado, o senhor comanda o
cruzador pesado Cape Canaveral, uma das naves de patrulhamento que
devem registrar a aproximação de naves desconhecidas.
— Sim
senhor — confirmou Woodsworth.
Sentiu-se
espantado ao notar que Rhodan se lembrara imediatamente da tarefa que
fora confiada ao cruzador pesado por ele comandado. Relatou ao
administrador, em palavras lacônicas, a mensagem que haviam captado.
Rhodan
tomou imediatamente uma decisão.
— Seria
um absurdo se aparecêssemos com um enorme comando da frota junto ao
planeta Alaze — disse. — Com isso poderíamos provocar um
conflito de grandes proporções com os mercadores galácticos, e, no
momento, isto seria uma das coisas que menos nos convém. Quero que o
senhor salve o tal do Princer. Sem dúvida, ele ainda poderá
ajudar-nos.
— Sir! —
exclamou Woodsworth em tom entusiasmado. — O senhor pode confiar na
minha tripulação e em mim. Tiraremos Princer de lá!
Um sorriso
surgiu no rosto de Rhodan.
— Devagar,
major. Uma ação precipitada não seria nada recomendável.
Aproxime-se com a Cape Canaveral o mais que puder do planeta e faça
sair do hangar um destróier com três tripulantes. Só mesmo uma
ação-relâmpago dessa nave versátil poderá salvar Princer.
Enquanto isso vamos nos ocupar detidamente com Mr. Vincent Aplied. Se
as informações forem corretas e não nos encontrarmos diante de uma
brincadeira de mau gosto, dentro em breve superaremos algumas
preocupações.
— Faremos
tudo que estiver ao nosso alcance, sir — prometeu Woodsworth.
Rhodan fez
um gesto amável.
— Há
mais um detalhe — disse. — Se a tentativa falhar, não inicie
outra. Em hipótese alguma deverá pousar com a Cape Canaveral. Isso
faria os saltadores ferverem de raiva. Não quero nenhuma
demonstração de força militar. Limite-se a uma ação com um
destróier.
— Sim
senhor — disse Woodsworth. — Obrigado, sir.
Rhodan
fitou-o com uma expressão de espanto.
— Obrigado
por quê, major?
— Pela
tarefa que me confiou, sir. Tenho que apagar minha má fama.
— Nenhum
comandante da Frota Solar tem má fama — respondeu Rhodan, em tom
sério.
A imagem
do administrador desfez-se.
O oficial
de rádio voltou a aparecer e pôs fim à palestra.
— Poulson!
— gritou Woodsworth. — Por que está parado por aqui? Acelere
imediatamente até à velocidade da luz. Felton, veja as coordenadas
da transição. Daremos um salto que nos aproxime a dois anos-luz do
planeta Alaze.
— Sir,
os tripulantes não estão acostumados a que se exija tanto deles —
disse Durban, com um sorriso irônico.
Woodsworth
fitou-o por um instante. A cova do seu queixo avivou-se.
— Pois
eu lhes ensinarei — gritou.
Trinta
minutos depois, a Cape Canaveral entrou em transição. O hiperespaço
engoliu-a, para libertá-la mais adiante. Encontravam-se a menos de
dois anos-luz do planeta Alaze.
9
Valmonze
sabia que sua ordem de estabelecer o bloqueio às comunicações de
rádio chegara tarde. A mensagem do terrano havia sido irradiada pelo
menos seis vezes. Naquela altura, o patriarca só podia fazer votos
de que esta não fora captada por nenhuma nave terrana.
Seria
inútil ficar refletindo sobre isso. Se Princer tivesse conseguido
estabelecer contato, o receptor seria suficientemente inteligente
para não revelar sua posição por meio de uma resposta. Valmonze
era uma raposa e sabia como ninguém conjeturar os acontecimentos
cosmopolíticos. Por isso tinha certeza de que Rhodan jamais
ordenaria qualquer medida que acarretasse um ataque direto contra o
planeta Alaze.
O que
faria o administrador para salvar os dois terranos?
Quanto
mais refletia sobre isso, mas se fortalecia na convicção de que
Rhodan tentaria obter a salvação dos dois por via diplomática.
Valmonze imaginou uma espécie de tratado comercial. Libertaria
Princer e a esposa, em troca de alguns contrabandistas. Realmente, a
negociação era a única possibilidade de que Rhodan dispunha. O
terrano sabia calcular muito bem. Portanto, não se arriscaria a
transformar essa situação num motivo de guerra com os saltadores.
Tudo isso
pressupunha que a mensagem de Princer já havia sido captada por
alguém.
Valmonze
encontrava-se na central de rádio do edifício principal, situada
junto ao campo de pouso espacial. Todos os planadores estavam
avisados. Dentro de alguns minutos, estes começariam a chegar à
estação e prenderiam Princer e sua companheira. Depois disso as
buscas seriam encerradas.
Shaugnessy
entrou. Sua postura já não era tão relaxada. O contrabandista
parecia preocupado.
— Tomei
a liberdade de acompanhar suas instruções — disse. — Se esse
sujeito conseguiu fazer chegar sua mensagem a um destino, o
contrabando está no fim. Os agentes de Rhodan prenderão Aplied. E
este falará, porque terá de fazer tudo para salvar a pele, e
terminará seus dias no desterro.
Valmonze
fitou-o com uma expressão irônica.
— Ainda
bem que o senhor está em segurança em nossa companhia.
Shaugnessy
fitou-o muito assustado.
— Será
que pretende mandar-me de volta? Toda a Frota Solar estaria à minha
espera...
— Há
uma coisa que eu não compreendo — disse o patriarca, sem dar
atenção à pergunta de Shaugnessy. — Princer devia saber que, ao
expedir a mensagem, revelaria sua posição. Estava ciente de que não
poderia escapar-nos. Apesar disso não teve a menor dúvida em
penetrar na estação.
— O
senhor raciocina como um saltador — disse Shaugnessy. — Um
terrano não pensa assim. Antes de tudo, aquele jovem pensou em
prestar um serviço a seu povo. Sua própria segurança viria em
segundo lugar. Se teve sorte, sua coragem salvará a Terra da ruína
econômica. E qual será o preço, Valmonze? Provavelmente esse preço
consistirá em duas vidas humanas. O senhor sabe fazer cálculos,
patriarca? Sabe perfeitamente quantos homens existem. Quase todos
agiriam como Princer. É por isso, saltador, que nada conseguirá
deter nossa raça. Um mercador galáctico pensa em primeiro lugar em
seu clã, e só depois disso em sua raça. O senhor está vendo o
resultado. Aposto...
— Cale-se!
— ordenou Valmonze, contrariado. — Não estou interessado em
ouvir suas observações. Aliás, por que o senhor concordou em
colaborar conosco, já que tem tanta certeza de que no fim sua raça
será vitoriosa?
— Sou um
homem mau — disse Shaugnessy, em tom triste. — Não posso evitar
isso.
— O
senhor é um idiota — afirmou Valmonze. — O medo deixou-o
perturbado.
O
patriarca dedicou sua atenção aos instrumentos. O contrabandista
ficou de pé atrás dele, sem dizer uma palavra. Seu rosto não
revelava a menor emoção.
Valmonze
ligou um aparelho de comunicação. Esperou um instante e perguntou:
— Razmon,
ainda falta muito?
— Daqui
a pouco estaremos lá, patriarca. Prepare-se para receber os
prisioneiros.
Valmonze
soltou uma estrondosa gargalhada e cocou a barba. Ao que parecia, o
saltador não levava muito a sério o perigo de uma intervenção
terrana.
— Recupere-se,
Shaugnessy. Pare de matutar. Ajeitaremos as coisas.
Shaugnessy
fitou-o. Sem abrir demais a boca, disse:
— Saio
definitivamente de sua canoa, Valmonze.
O saltador
mostrou-se indiferente. Shaugnessy deu-lhe um empurrão e recuou um
passo.
Tirou a
velha arma térmica do cinto.
— O
senhor não compreendeu, patriarca — enfatizou em tom tranqüilo. —
Alguma coisa mudou.
Valmonze
virou-se devagar e fitou o radiador. Finalmente levantou os olhos e
encarou, perplexo, Clifton Shaugnessy.
— O que
espera conseguir com isso? — perguntou. — Pretende matar-me?
— Deixe
Princer em paz — exigiu o contrabandista.
Valmonze
poderia ter muitos defeitos, mas não era covarde. Não deu atenção
à arma que o ameaçava. Cruzou os braços sobre o peito e
encostou-se aos instrumentos. Representava muito bem a figura de um
homem poderoso que estava acostumado a que todos obedecessem às suas
ordens.
— O
senhor superestima isso — disse, apontando com a cabeça para o
radiador. — Razmon está a caminho da estação de rádio, com
todos os planadores disponíveis. Princer e sua companheira serão
presos.
— Dê
ordem para que Razmon volte — exigiu Clifton.
— Não —
respondeu Valmonze.
Voltou a
estabelecer a ligação com os planadores. Shaugnessy, que permanecia
imóvel, ouviu-o dizer:
— Razmon,
aqui fala o patriarca. Shaugnessy ameaça-me com uma arma. Exige que
eu o chame de volta. Ordeno-lhe que prenda Princer, e não se importe
com o que aconteça por aqui.
— Patriarca!
— gritou Razmon, perplexo.
— Se
vocês quiserem rever o velho, soltem os terranos — gritou
Shaugnessy, em tom nervoso. — Volte, Razmon.
Valmonze
perdeu a paciência. Sem dar a menor atenção à arma térmica,
atirou-se sobre Shaugnessy!
*
* *
John Edgar
Princer efetuou uma última regulagem.
— Não
acredito que adiante alguma coisa — disse, dirigindo-se à esposa.
— Mas liguei um raio vetor automático, pelo qual nossos amigos
poderão orientar-se, se aparecerem por aqui.
Um brilho
de esperança surgiu nos olhos de Cora.
— Você
acredita que seremos salvos?
— Eles
tentarão — respondeu, e ainda acrescentou: — Tenho certeza de
que captaram nossa mensagem. A Frota fará tudo para tirar-nos daqui.
Um sorriso
aflorou aos lábios de Cora. Notara a modificação que se processara
com seu marido. Ele perdera a insegurança. Seus atos eram seguros e
bem planejados. Não duvidava mais da sua capacidade.
— Bem —
disse Princer. — Vamos sair e esperar nossos amigos.
— Ou os
saltadores — objetou Cora.
Dali a
alguns minutos viram que ela tinha razão. As sombras de vários
planadores apareceram sobre o pequeno campo de pouso.
— São
os saltadores — constatou Princer, em tom de desânimo. — Foram
mais rápidos.
As
navezinhas começaram a circular sobre o campo de pouso, como se os
tripulantes estivessem indecisos sobre os passos que deveriam seguir.
Princer sabia que qualquer tentativa de fuga seria inútil.
Provavelmente já o haviam descoberto.
*
* *
O Major
Woodsworth e mais dois tripulantes estavam sentados na cabine de
piloto do destróier, que fora retirado do hangar da Cape Canaveral.
Seus dois auxiliares eram Buster Felton e Adam Spahn.
Assim que
penetraram na atmosfera do planeta Alaze, captaram o raio vetor.
— Isso
significa que bloquearam todas as comunicações de rádio para fora
— disse Felton.
Evidentemente,
para fora significava para o espaço.
Spahn, que
observava os aparelhos de localização, disse sem o menor
entusiasmo:
— Por lá
há uma quantidade enorme de naves estranhas. Pela intensidade do eco
conclui-se que são veículos pequenos.
Conversou
em voz baixa com Felton, enquanto Woodsworth colocava o pequeno
destróier numa órbita de aterrissagem.
— Os
sinais goniométricos vêm da mesma direção em que Spahn descobriu
as naves dos saltadores, sir — disse Felton, depois de algum tempo.
— Seria suicídio pousarmos lá. Mesmo que sejamos mais rápidos
que os saltadores, eles têm a vantagem do número. Além disso,
conhecem a área melhor que nós. Antes de tocarmos o solo, eles nos
transformariam num montão de cinzas e poeira. Isso não serviria nem
a Princer nem a nós.
Woodsworth
olhou em torno.
— Desde
quando o senhor se tornou tão loquaz, Felton? Ao menos devemos
tentar. O fato de Princer ter expedido a mensagem prova que ainda não
se encontra em poder dos saltadores.
— Isso
pode ter mudado — ponderou Spahn.
O major
não se abalou. Fez descer a navezinha em direção à superfície do
planeta. Os saltadores já deviam ter localizado o pequeno destróier,
a não ser que estivessem dormindo ou se mantivessem ocupados com
outra coisa.
Woodsworth
esperava ver a qualquer momento na tela a silhueta cilíndrica de uma
nave dos saltadores, que abriria fogo contra eles. Mas tudo parecia
correr conforme o plano. O major manteve-se bastante realista para
não subestimar o perigo. Assim que pousassem em meio às naves dos
saltadores, localizadas por Spahn, terminaria a segurança relativa
em que ainda se encontravam os terranos.
Woodsworth
era o único conhecedor do plano, pois este era exclusivamente de sua
autoria. Teve bons motivos para hesitar em informar seus objetivos
táticos aos subalternos...
Ninguém
gosta de voar para a morte com os olhos abertos!
*
* *
Para
qualquer homem que sempre esteve acostumado a seguir ordens, quer
seja ele um terrano, quer seja um saltador, torna-se difícil agir
por iniciativa própria.
No momento
em que o piloto Razmon ouviu pelo alto-falante o choque dos dois
corpos, sua perplexidade atingiu o auge. Sabia que a vida do
patriarca estava em perigo. Uma luta entre Valmonze e Shaugnessy
parecia ter irrompido no interior do edifício principal do
espaçoporto. Como o terrano possuísse uma arma e Valmonze estivesse
desarmado, Razmon podia imaginar perfeitamente o resultado da luta.
O
patriarca dera ordem para que Princer fosse preso, acontecesse o que
acontecesse. Razmon sentiu-se atormentado por sentimentos
conflitantes. Cinco planadores sobrevoavam o pequeno campo de pouso,
situado no meio da mata. Na extremidade da pista viam-se dois
pequenos pontos. Eram Princer e sua esposa.
Razmon
chegou à conclusão de que só havia um meio de harmonizar os
desejos conflitantes que lhe enchiam a mente: teria de tomar duas
providências ao mesmo tempo. Tornava-se necessário salvar o
patriarca; além disso, o terrano e sua companheira teriam de ser
presos. Isso significava que o grupo de planadores seria obrigado a
dividir-se.
Razmon
entrou em contato com os outros planadores. Mandou que três pilotos
voltassem imediatamente ao espaçoporto para ajudar Valmonze. Ele e a
tripulação de outro planador pousariam e pegariam Princer, a fim de
aplicar-lhe o castigo merecido.
Os dois
planadores desceram vertiginosamente para o campo de pouso.
— Razmon
— gritou alguém, em tom exaltado. — Uma nave estranha.
O piloto
olhou para os instrumentos. A tela só mostrava um pontinho.
Razmon
praguejou.
“Agora,
que nós nos dividimos”
pensou, “os
terranos aparecem para salvar o companheiro.”
Tentou
desesperadamente entrar em contato com Valmonze, mas nada conseguiu.
O ponto
que aparecia na tela cresceu. Com a voz nervosa ordenou aos
tripulantes dos planadores que preparassem os canhões de radiações.
Os campos defensivos foram ativados.
Certa vez
um velho saltador dissera a Razmon:
— Os
terranos sempre vêm, quando menos os esperamos. Só fazem aquilo que
nos parece impossível. É este o segredo do seu êxito.
Razmon não
sabia se a teoria era correta, mas não demoraria em descobrir.
*
* *
A história
da evolução da Humanidade não menciona o nome Clifton Shaugnessy.
E é bem possível que, se não fosse sua intervenção, essa
história nem poderia ter sido escrita. Shaugnessy era um dos muitos
desconhecidos de cujos atos não se sabia nada, ou que logo são
esquecidos.
Nunca
saberemos se Shaugnessy teve a intenção de atirar contra Valmonze,
ou se apenas quis intimidá-lo.
Provavelmente,
o contrabandista foi muito lento.
Caiu para
trás, sob o impacto do corpo de Valmonze. A arma que tinha na mão
foi atirada para longe. Shaugnessy levantou os braços, tentando
defender-se do ataque. O patriarca repetiu o salto na direção do
pequeno terrano. Este soltou um grito e rolou para o lado. Valmonze
novamente atirou-se sobre seu corpo. E outra vez, num movimento
rápido, o contrabandista rolou para o lado. Viu sua arma, mas não
pôde pegá-la. A raiva fizera com que os olhos de Valmonze se
estreitassem. Denotativamente estava cego de ódio. Seus punhos
desceram sobre Shaugnessy, mas não o encontraram. Na verdade, a luta
resumia-se a uma fuga contínua do terrano. Por ser a sala não muito
espaçosa, os braços de Valmonze logo iriam alcançá-lo.
Shaugnessy
regateou e chegou à porta. Saiu apressadamente. Valmonze soltou um
berro e correu atrás dele. Shaugnessy conhecia o edifício. Ganhou o
comprido corredor que se estendia à sua frente. No fim dessa galeria
havia um elevador que poderia levá-lo ao pavimento inferior.
Valmonze
seguiu-o, fungando. Shaugnessy não olhou para trás. Ao atingir o
elevador, soltou um suspiro de alívio. Por enquanto estava
praticamente salvo.
Mas o
alívio transformou-se repentinamente na idéia amarga de que a fuga
chegara ao fim. O elevador abriu-se e dois saltadores surgiram.
— Segurem-no!
— gritou a voz estridente do patriarca.
Shaugnessy
não tinha a menor chance. Estava perdido. Virou-se lentamente e
fitou o rosto de Valmonze, afetado pelo triunfo.
A História
não nos conta nada sobre Clifton Shaugnessy. O silêncio espalha-se
sobre o fim desse homem, cuja vida marginal adquiriu um sentido,
devido a este ato de bravura.
*
* *
Buster
Felton era por natureza um homem inofensivo, sem a menor ambição
guerreira. Mas quando viu que as duas naves dos saltadores se
preparavam para o combate, suas feições tornaram-se rudes. Preparou
os canhões de proa do destróier.
— É o
comitê de recepção, sir — gritou Spahn, dirigindo-se a
Woodsworth. — Eles se dividiram. Tomara que os outros três não
estejam à espreita em algum lugar, para atacar-nos de surpresa.
— Logo
descobriremos, desde que o senhor fique de olho nos instrumentos —
lembrou o major. — Atenção, vou pousar.
— Sir! —
gritou Felton. Woodsworth imaginava o motivo das preocupações do
homem. No ar poderiam ter condições de enfrentar os saltadores, mas
no solo estariam perdidos.
— Não
se preocupe — disse. — Nós lhes prepararemos um belo espetáculo.
James
Woodsworth, que era um oficial com pouca experiência de combate e
dependia exclusivamente de seus conhecimentos teóricos, provou ser
um ótimo combatente.
Fez baixar
a nave.
Os
saltadores farejaram uma imensa vantagem e aproximaram-se
rapidamente. Os campos defensivos do destróier oscilaram sob a carga
do bombardeio violento. Os saltadores pairaram que nem abutres
furiosos sobre a pequena nave terrana. Subitamente Woodsworth puxou o
comando. O destróier subiu com uma velocidade incrível.
Felton,
que quase fora arrancado do assento, abriu fogo contra as naves dos
saltadores, que subitamente surgiram à sua frente. Gritou
ininterruptamente para Spahn. Berrava palavras insensatas, mas ao que
parecia estas não incomodavam nem a Spahn, nem ao major. Os campos
energéticos dos saltadores não estavam em condições de resistir
ao bombardeio cerrado. A nave terrana, aparentemente tão
insignificante, transformara-se numa fortaleza que cuspia fogo.
Bastante
danificados, os planadores foram descendo e desapareceram em meio às
copas das árvores.
— Agora
só a rapidez poderá salvar-nos — disse Woodsworth e fez a nave
descer sobre o campo de pouso.
Felton
abriu a comporta. O major abandonou o lugar à frente dos comandos.
Ao chegar
à comporta, viu um homem e uma mulher que atravessavam o campo de
pouso. O homem era alto, magro e desajeitado. A mulher parecia muito
cansada, mas ainda era bastante atraente para deixar nervoso um homem
do temperamento de Woodsworth.
O par
desigual chegou à comporta. Naquele instante, o homem disse algumas
palavras de que Woodsworth jamais se esqueceria.
— Meu
nome é John Edgar Prince. Esta é minha esposa — sorriu. — Não
o esperávamos tão cedo, major.
Felton
soltou um gemido e, juntamente com Woodsworth, puxou os dois
fugitivos para dentro da nave.
— Rápido!
— gritou Spahn. — Daqui a pouco receberemos visita.
Woodsworth
deixou que Felton cuidasse das duas pessoas, que acabavam de ser
salvas, e correu para o assento do piloto. Não estava disposto a
aguardar a chegada de outras naves dos saltadores. Realizou uma
decolagem de emergência. E John Edgar Prince desequilibrou-se, caiu
e quebrou o nariz.
10
A prisão
de Vincent Aplied acarretou uma pequena queda da Bolsa, que se
recuperou dois dias depois. Aplied foi submetido a um rigoroso
interrogatório e contou tudo que os agentes queriam saber. A esse
interrogatório seguiu-se uma onda de prisões. Alguns criminosos
conseguiram fugir, mas nem por isso a ação deixou de ser
considerada excelente. Toda a imprensa mundial teceu elogios ao
governo e festejou Rhodan como um homem ativo e ponderado.
Antes que
Prince chegasse à Terra, seus atos já se haviam tornado conhecidos.
No dia em que deveria chegar, milhares de pessoas correram ao espaço
para festejar o jovem. As emissoras de televisão enviaram grande
número de repórteres.
Perry
Rhodan, que geralmente não gostava desse tipo de movimento,
concordara a contragosto, por insistência de amigos, e concedera as
autorizações que se tornavam necessárias.
Sentou-se
ao lado de Bell e do Marechal Solar Freyt na tribuna construída
especialmente para esse fim.
— Não
faça cara feia — pediu Bell. — É perfeitamente possível que
neste momento haja câmara dirigida para nós.
Rhodan
lançou-lhe um olhar recriminador.
— Então
é por isso que você está exibindo esse sorriso ridículo. Já
fiquei dando tratos à bola para descobrir por que estava rindo.
— Escute
aí — gritou Bell, indignado. — Isto é uma solenidade oficial, e
ninguém me impedirá de comportar-me da forma que julgo ser do
agrado de meus numerosos amigos, espalhados pelo mundo.
Nem mesmo
a presença de espírito de Rhodan soube formular qualquer objeção
a estas palavras. Fitou a massa dos espectadores.
— Daqui
a alguns minutos, John Edgar Princer estará diante dos senhores —
disse a voz saída do alto-falante.
Freyt
levantou a cabeça. Só costumava dizer o necessário.
— A Cape
Canaveral — disse. — Está chegando.
O sorriso
de Bell congelou-se numa máscara, que daria o que pensar a qualquer
um dos seus inúmeros amigos.
Para Bell,
a tal máscara representava um aspecto bem fotogênico...
*
* *
A
velocidade com que o destróier saiu do sistema impediu Valmonze de
desferir seu golpe. Muito contrariado, não teve outra alternativa
senão deixar que os fugitivos se fossem.
A Cape
Canaveral voltou a recolher a pequena nave em seu hangar. Depois de
duas transições chegou ao Sistema Solar.
Princer
sentia dor no nariz quebrado e, mais do que isso, a perda do jato
espacial deixava-o muito triste. A Error representava um patrimônio
valioso, e a idéia de que se encontrava nas mãos dos saltadores não
era nada agradável. Mas, como o vice-presidente não sentisse
vontade de realizar outras viagens espaciais, conformou-se com a
perda. O que importava era que sua vida estava salva.
Depois da
segunda transição o Major Woodsworth compareceu ao camarote de
Princer. Disse que lamentava o acidente.
— Como
vai o senhor? — perguntou.
— Muito
bem — mentiu o jovem.
Sabia que
Woodsworth percebera a verdade, mas não se importou com isso.
— Daqui
a pouco o senhor se sentirá ainda melhor, se eu lhe disser que lhe
prepararam uma recepção formidável — disse Woodsworth, com um
sorriso.
Princer
olhou para a esposa, que se acomodara numa confortável poltrona. Ela
levantou os olhos com uma expressão indagadora.
— O
senhor poderia fazer o favor de explicar melhor, major?
— Pois
não. Nas proximidades do espaçoporto o senhor será recebido por
uma grande multidão, por Perry Rhodan, por várias personalidades e
pelo pessoal da televisão.
Princer
apalpou cuidadosamente o nariz. Woodsworth não conseguia ocultar o
quanto se divertia com aquilo que esperava o jovem.
— Como
poderei escapar disso? — perguntou.
— Não
pode — observou Woodsworth, em tom indiferente. — Saberei impedir
que isso aconteça. O senhor é a melhor propaganda para meu
cruzador. Os cadetes terão vontade de ser enviados à nave de James
Woodsworth.
— Não
compreendo — disse Princer. Um sorriso matreiro surgiu no rosto de
Woodsworth.
— Prepare-se,
meu jovem — disse. — Embeleze seu exterior, para conquistar a
massa.
O
vice-presidente da IFC olhou para seu corpo. As roupas haviam sofrido
bastante com as aventuras no planeta Alaze. E com Cora, as coisas não
eram diferentes.
Woodsworth
seguira aqueles olhares com uma expressão compassiva.
— Mandarei
trazer roupas para o senhor e sua esposa — prometeu.
Fez
meia-volta, mas Princer segurou-o pela manga do casaco.
— Fico-lhe
muito grato, major. O senhor arriscou sua vida para salvar-nos.
— Quer
saber de uma coisa, Princer? — disse Woodsworth. — Em comparação
com aquilo que o valente casal fez pela Terra, a ação Cape
Canaveral representa um empreendimento bem modesto.
Assim que
acabou de proferir estas palavras, saiu do camarote.
— Gostaria
de esconder-me num canto — confessou Princer. — Tomara que a
recepção não demore muito.
Esticou o
corpo.
— Estou
ansioso para tomar um banho e dormir numa cama de verdade.
Nem
desconfiava de que um velho conhecido lhe estragaria o prazer...
*
* *
Quando
John Edgar Princer e sua esposa saíram da comporta da Cape Canaveral
e desceram pelo elevador, o Hino do Império Solar fez-se ouvir. Os
expectadores que se encontravam na tribuna levantaram-se e
descobriram a cabeça.
Princer
estremeceu e parou. Os acordes da música cessaram. Alguém pigarreou
às suas costas.
— Vá
andando, Princer — cochichou a voz do Major Woodsworth. — Vá
diretamente para a tribuna.
Bell
voltara a sentar-se e cutucou Rhodan.
— Sempre
imaginei que esse Princer fosse diferente.
Estavam
sentados sobre uma plataforma, à frente da tribuna. No momento em
que o jovem, sua esposa e o Major Woodsworth subiram pela escada,
Perry Rhodan, Bell e o Marechal Solar Freyt levantaram-se.
A primeira
coisa que viram foi o rosto de Princer. Um esparadrapo muito largo
cobria seu nariz. Acima deste, havia um par de olhos azuis muito
claros, que fitaram Rhodan com uma expressão de infinita tristeza.
Princer subiu os últimos degraus, tropeçou e enrubesceu até as
enormes orelhas. Rhodan saiu do lugar e foi ao encontro de Princer.
Falando muito baixo, para que nenhum microfone pudesse transmitir sua
voz, disse:
— Quero
agradecer-lhe em caráter não-oficial e dizer-lhe que o senhor é um
sujeito formidável.
Da
resposta de Princer concluía-se que ele não estava tão confuso
como poderia dar a perceber:
— Quero
retribuir o elogio em caráter não-oficial — cochichou ao
administrador.
Apertaram-se
as mãos e sorriram um para o outro. A televisão transmitiu a imagem
ampliada. Na cidade de Denver, Archibald Princer quase chegou a
entrar no aparelho!
Com um
gesto suave, Rhodan colocou o jovem diante dos microfones. Aplausos
estrondosos soaram na tribuna. Princer engoliu em seco, apalpou a
ferida e procurou descobrir uma pose adequada à ocasião.
O discurso
do administrador foi breve.
— Cumprimentamos
este jovem, e também cumprimentamos sua bela esposa. Ambos prestaram
um serviço relevante à Terra. Ficamos-lhes muito gratos por isso.
Venha. Todo o Império quer ouvi-lo.
Princer
lançou um olhar tão apavorado para os microfones que até parecia
que Valmonze se encontrava à sua frente. Rhodan sorriu com uma
expressão animadora, e o jovem deu um passo à frente.
— No
planeta Alaze — principiou — encontrei um nativo. Seu nome era
Schnitz. Está morto. Ele merece nosso respeito e nossos
agradecimentos. Se não fosse a sua ajuda e a de seus amigos, não
conseguiria enviar a mensagem. Ainda quero mencionar o Major James
Woodsworth, que os senhores vêem aqui a meu lado. Ele e seus
subordinados arriscaram a vida para libertar-nos.
Princer
acenou com a cabeça, e um sorriso espalhou-se por seu rosto
sonhador.
— Ainda
devemos agradecer por tudo isso a esta mulher brava e bela, que se
chama Cora Princer.
Virou-se e
voltou a apertar a mão de Perry Rhodan. Bell e Freyt
cumprimentaram-no em silêncio.
Princer
segurou o braço da esposa e desceu a escada.
— Os
médicos da Frota Solar sempre o rejeitaram — disse Rhodan, em tom
de espanto. — Deveríamos esforçar-nos para arranjar um lugar para
ele.
— Não
acredito que ele agora aceite a oferta — respondeu Bell, em tom
pensativo.
Quanto
mais refletia, mais Rhodan acreditava no que Bell acabara de dizer.
*
* *
Com um
suspiro, John Edgar Princer deixou-se cair na cama senhorial.
— Finalmente
temos paz — disse em tom agradecido.
— Contemplou
a esposa, que estava separando as roupas enviadas pela direção do
hotel.
— Você
já pensou sobre o lugar de nossa viagem de núpcias? — perguntou.
— O que
não quero é ir para o espaço — disse Cora, em tom resoluto.
— Não —
disse Princer. — Escolheremos um lugar tranqüilo.
Alguém
bateu à porta. Aborrecido, levantou-se do leito conjugal.
— Entre!
— gritou.
Era o boy
do hotel, que contemplou Princer como se fosse um animal estranho.
— Enviaram
algo para os senhores — balbuciou o rapaz.
— Flores
— conjeturou Cora. — Devem ser flores.
O rapaz
negou com a cabeça. Princer fez um sinal para que fosse buscar o
objeto que lhe fora entregue. Dali a pouco voltaram a bater à porta.
Uma fresta
estreita abriu-se e uma criatura cor de barro entrou no quarto,
latindo alucinadamente.
— Isto
veio com recomendações de um certo Mr. Denniston, de Denver —
disse o boy, já no corredor.
— Príncipe!
— gritou Cora, em tom alegre.
O cachorro
saltou para cima dela. Abanava a cauda que nem um louco. Finalmente
afastou-se da dona e começou a farejar. Avistou Princer e parou de
abanar o rabo.
— Parece
que Príncipe não o conhece mais — disse Cora, com a voz insegura.
Princer
lançou um olhar amoroso para a esposa. Achava que já estava na hora
de abraçá-la. Aproximou-se.
Príncipe
pôs-se a rosnar furiosamente. Estava entre o casal. Princer parou,
indeciso.
— Escute
aí, meu velho — disse o jovem, em tom amável. — Esta é minha
esposa, compreende? Você não me poderá impedir de beijá-la.
O animal
rosnou furiosamente. Seus olhos verdes chamejaram ameaçadores para
John Edgar.
Depois
disso, Princer foi recuando devagar...
*
* *
*
*
*
Os
negócios com os outros povos da Galáxia foram restabelecidos e
vários envolvidos no tráfico de entorpecentes, deportados.
Em A
Frota-Fantasma,
título do próximo volume, os terranos voltam a ser ameaçados pelos
temíveis acônidas.

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