quarta-feira, 31 de agosto de 2016

P-104 - Os Traficantes de Alaze - William Voltz [Parte 3]

Schnitz também ir — anunciou. — Talvez poder fazer grande truque.
Ao que parecia o nativo tinha uma autoconfiança e uma fé nos seus truques, considerando-os verdadeiramente admiráveis. Schnitz demonstrava sempre uma estranha e profunda alegria. Ao que parecia, tinha uma filosofia de vida que fazia com que compreendesse e suportasse todas as coisas, com um sorriso matreiro.
Princer sentiu-se ligado a este ser. Era uma ligação que nunca sentira para com seus amigos terranos.
Confirmou com um gesto e foi caminhando em direção ao edifício. Schnitz e Cora seguiram-no. Ninguém parecia interessar-se pela presença do trio. A estação não possuía janelas. Havia apenas uma fresta de luz e uma porta, que estava fechada. Aproximaram-se. Princer parou.
Está tudo quieto — disse bem baixo. — Será que não há ninguém por aqui? Talvez tenham evacuado a estação e levado todos os aparelhos.
Nós olhar — sugeriu Schnitz.
Princer aproximou-se da porta. Seu coração bateu mais depressa. Era possível que houvesse apenas uma fina parede de plástico que o separava da morte. Apesar disso, sua mão não tremeu nem um pouco, quando pegou a maçaneta.
Girou o botão e abriu rapidamente a porta, que girou para dentro. Ouviu-se um ruído. Não aconteceu nada. O edifício estava dividido em duas salas. O terrano viu imediatamente uma delas. Não havia ninguém por lá. A luz que penetrava pela fresta permitia que Princer reconhecesse todos os objetos. A sala estava repleta de instrumentos de controle e de localização. Provavelmente os aparelhos de rádio se encontravam na sala contígua.
Princer entrou resolutamente. Cora e Schnitz mantiveram-se silenciosamente atrás dele.
Parece que não há ninguém, nem mesmo os nativos — disse o vice-presidente, em tom de alívio.
Deu um passo para a frente. Naquele instante, um homem saiu da sala contígua. Era alto e magro. Em sua cabeça não havia um único cabelo. Seu rosto estava marcado por uma expressão fria.
Sem dizer uma palavra, fitou os intrusos. Princer não conseguiu fazer qualquer movimento.
O desconhecido tirou lentamente uma arma, que se encontrava sob a jaqueta, e com um sorriso frio apontou-a para o peito de Princer.
Um dia, até mesmo o homem mais esperto tem de reconhecer que existe alguém mais esperto que ele — disse.
Nesse momento, o homem mais esperto era Amat-Palong, o ara.
7



As medidas tomadas por Perry Rhodan e seu estado-maior revelaram-se inúteis e impopulares. Toda nave cargueira, que saía da Terra, era cuidadosamente examinada e controlada. No entanto, não se conseguiu prender nenhum criminoso. Ao que parecia, os contrabandistas desconfiaram de alguma coisa e suspenderam seus fornecimentos.
Os controles faziam com que as grandes organizações comerciais da Terra perdessem tempo e capital. Mais uma vez via-se que o egoísmo de certas pessoas é maior que sua inteligência. O Ministério do Comércio Solar recebeu telefonemas indignados. Os comandantes de naves cargueiras proferiam ameaças contra os funcionários incumbidos do controle. Como até então o povo nunca tivesse ouvido falar no bando de traficantes, o perigo foi minimizado. Rhodan foi acusado de ver as coisas muito pretas e de ter uma consideração excessiva por seus amigos extraterrenos.
Mais uma vez a maior parte da imprensa diária criticou os atos do administrador. Supunha-se que, por trás das ordens de Rhodan, houvesse certas maquinações econômicas. Vez por outra, os artigos de fundo forneciam explicações fantasiosas, mas nunca apresentavam uma proposta melhor.
A situação era esta, embora as medidas só tivessem entrado em vigor há um dia. A opinião pública representava um fato que não poderia deixar de ser considerado por Rhodan. É bem verdade que, segundo um velho ditado, a opinião das massas nem sempre é correta. Mas, nem por isso, a posição destas deixa de representar um elemento de pressão política.
Reginald Bell apareceu diante de Rhodan, trazendo um enorme maço de jornais. Com a fisionomia sombria, atirou-o na mesa do chefe.
Não demorará, e voltarão a gritar “crucifique-o” — conjeturou em tom amargo. — Eles vêem em você uma espécie de freio econômico.
Rhodan nem olhou para os jornais. Como sempre acontecia nessas oportunidades, irradiava calma e segurança.
Allan já me contou — disse. — Resta saber quem tem mais resistência: as medidas adotadas por nós ou eles — apontou para os jornais. — Com o tempo, as empresas se acostumarão aos controles rígidos.
Nenhum homem livre gosta de ser controlado — observou Bell.
Rhodan sorriu.
Você diz isso logo a mim, gordo? Assim que tivermos qualquer indicação que nos leve ao grupo de contrabandistas, as medidas serão revogadas e tudo voltará a ser como antes.
Pois sim — disse o homem baixo. — Até lá os contrabandistas ficarão bem quietos, e nós não lhes descobriremos a pista.
Não se esqueça de que inúmeros agentes estão trabalhando no caso, e estes não desprezarão nenhuma pista. Ninguém consegue enganar-nos para sempre — disse Rhodan em tom enfático.
Antes que Bell tivesse tempo para responder, o ar tremeluziu à sua frente, e uma mistura de rato e castor, de dimensões exageradas, fez sua aparição. Era Gucky. Suas mãos pequeninas seguravam um número do Terrania Observer. Parecia indignado.
Tenente Guck — disse Rhodan, em tom de recriminação. — Isto é um recinto privado, no qual não se deve penetrar sem ser chamado.
Não penetrei, Perry — disse Gucky, indignado. — Eu me teleportei. E que assunto privado pode ser tratado neste recinto, quando — fez uma pausa de efeito e dirigiu um olhar para Bell — quando este indivíduo está presente?
O oposto de privado é público — explicou Bell. — Pouco importa que eu lhe torça o pescoço em particular ou em público. O resultado será o mesmo: ficaremos livres de você.
O dente roedor de Gucky subiu num gesto de indignação. Agitou o jornal na frente dos amigos.
Sua insensibilidade quase chega a ser tanta quanto a destes escribas — observou, ofendido. — Este artigo de fundo é o cúmulo. Ouçam: Existe uma possibilidade de que os amigos de Rhodan sejam atingidos por suas medidas com a mesma intensidade das empresas comerciais. Um retardamento de todas as remessas trará uma falta de cenouras, que Rhodan dificilmente poderia justificar perante seus amigos extraterrenos.
Gucky arrastou os pés para junto da escrivaninha de Rhodan, embora seus dons extraordinários lhe permitissem deslocar-se muito mais depressa. Mas naquele instante estava interessado em parecer fraco e desamparado.
Isso não passa de uma ironia tola — disse Rhodan. — Um grande espírito não se importa com essas coisas.
Gucky começou a esbravejar.
Ainda não tinha notado que me encontro num ilustre círculo de corifeus econômicos. As palavras relativas às cenouras representam uma alusão aos meus amigos de Marte.
Representam, antes, uma alusão à minha pessoa — explicou Rhodan. — Para mim, isso não é nenhuma tragédia. Afinal, o repórter tem direito de escrever o que lhe pareça mais acertado. A opinião dele é diferente da minha. A publicação do artigo não é motivo para ficarmos nervosos. Cada um de nós expôs seus pontos de vista.
Naquele momento, o rato-castor mostrou as cartas.
Está na hora de fazer alguma coisa contra esse bando de traficantes. São os únicos culpados. Uma vez que as férias-de-verão de qualquer maneira estão atrasadas, sugiro que um mutante capaz como eu...
Basta — interrompeu Rhodan. — Um mutante capaz como você fará exatamente aquilo que lhe for ordenado. Nem penso em utilizá-lo num trabalho que praticamente obrigaria a maltratar gente inocente com suas faculdades.
O rato-castor, uma criatura de um metro de altura, apoiou-se sobre a cauda e, muito satisfeito, passou as mãos pelo uniforme espacial.
Você sabe perfeitamente que no fim Não terá outra alternativa, Perry — piou. — Enquanto vigoram os controles, os contrabandistas ficam quietos. Têm tempo para procurar novos meios, que lhes permitam neutralizar as medidas adotadas por você. Os funcionários não podem desmontar as espaçonaves por ocasião do controle. É verdade que têm instrumentos que os ajudam nas buscas, mas os bandidos não são idiotas. Encontrarão esconderijos onde não possam ser localizados.
Rhodan sabia que os argumentos do mutante não deixavam de ter seus fundamentos. A sugestão de Gucky não se inspirara unicamente na sede de aventura, mas também na preocupação que sentia por seus amigos, os humanos.
Mas, se o administrador fosse obrigado a lançar mão de mutantes, estes seriam humanóides, como Fellmer Lloyd ou André Noir. Seu trabalho seria mais discreto que o de Gucky.
Compreendo perfeitamente que você se sinta martirizado pelo tédio — disse Rhodan, dirigindo-se ao rato-castor. — Acontece que há muito trabalho para você.
Um sorriso triste surgiu no rosto de Gucky.
Sei que são serviços de rotina, mas... — lamentou-se e procurou mudar de assunto. — Estes registros, que estão sendo realizados por psicólogos meio malucos, provocam um vazio dentro de mim. Eles não querem compreender que existe certa diferença entre meu método de teleportação e o de Ras Tschubai. No momento estamos experimentando com...
Tenente Guck — interrompeu Rhodan.
O rato-castor estremeceu, como se tivesse sido golpeado fisicamente. Quando Rhodan o chamava de Tenente Guck, era recomendável abster-se de novas brincadeiras.
Está bem, Perry — disse em tom de desânimo. — Vou me recolher ao laboratório. Mas é bom que saiba de uma coisa — levantou a voz. — Se um dia eu conseguir agarrar esse escriba do Observer, eu o farei girar embaixo do teto como se fosse um pião.
Assim que acabou de proferir a ameaça, o rato-castor desapareceu.
Voltou a mostrar-se violento — disse Bell, com um sorriso.
Acontece que não deixa de ter sua razão — observou Rhodan, em tom pensativo. — É impossível revistar todo cargueiro de tal forma que se possa afirmar com toda segurança que não existe qualquer quantidade de entorpecente a bordo. Isso demoraria vários dias. Sabemos perfeitamente que um controle desse tipo é impraticável.
Quer dizer que nosso controles são inúteis — disse Bell.
Podemos dizer que preenchem uma finalidade psicológica. No momento, os criminosos se vêem impedidos de fazer novos fornecimentos aos saltadores. Antes que abandonem as cautelas e comecem a usar outros truques, algum tempo se passará. Devemos dar nosso golpe enquanto durar a pausa.
Para isso precisamos de um ponto de apoio.
Perfeitamente — concordou Rhodan. — Bem que gostaria que já o tivéssemos.
8



Em todos os tempos, uma arma de fogo representou um argumento que não podia ser desprezado em qualquer discussão. No momento em que o desconhecido apontou o radiador térmico em sua direção, John Edgar Princer compreendeu que todos os trunfos estavam nas mãos do inimigo. O homem armado interpunha-se entre ele e os aparelhos de rádio que ficavam na sala contígua.
O senhor fará tudo que eu lhe ordenar — disse Amat-Palong, em tom penetrante. — Depende exclusivamente do senhor, se eu mato ou não o senhor e sua companheira.
Princer “acordou”.
O que deseja de mim? — perguntou.
Perto daqui existe um lugar livre entre as árvores. Preferi pousar meu planador nesse lugar, para que não fosse visto pelo senhor. Não estou interessado no nativo; pode dar o fora. Valmonze ficará surpreso ao ver-me aparecer com os fugitivos, mas sua autoconfiança receberá um pequeno golpe.
Falava no tom monótono de quem lê um relatório. O jovem vice-presidente nunca encontrara um homem tão insensível e... tão perigoso.
Temos de fazer o que ele mandar — disse Princer.
O terrano estava totalmente abatido. Temia por Cora. E este medo avolumou-se até transformar-se numa sensação insuportável.
Amat-Palong fez um sinal com a arma.
Vamos andando — disse com a voz suave.
Uma sombra passou por Princer, em direção ao ara. Foi tudo tão rápido que o terrano não teve tempo de esboçar qualquer reação. O ser-pássaro precipitou-se sobre o inimigo como se fosse uma flecha.
Schnitz! — gritou Princer.
Amat-Palong saltou para o lado e disparou. Schnitz foi atirado para trás. Cambaleou e caiu. Imediatamente o ara voltou a dirigir a arma para o terrano, que só estava interessado pelo nativo.
Aproximou-se do ser-pássaro juntamente com Cora. Schnitz ainda estava vivo. O anel de penas azuis que cercava seus olhos tremia. Princer passou a mão pela cabeça de Schnitz.
Schnitz tentar grande truque — balbuciou o nativo, fazendo um grande esforço.
Sim — disse Princer com a voz áspera. — Foi um truque formidável, amigo.
Um sorriso parecia esboçar-se em torno do bico largo. Ou seria apenas uma contorção produzida pela dor? Uma mão em garra segurou a jaqueta de Princer.
Sem asas... fazer... fumaça? — perguntou a voz débil de Schnitz.
Sim — respondeu. — Está sentindo o cheiro?
O nativo não teve forças para responder. O terrano viu que começava a farejar. Finalmente acenou com a cabeça. Satisfeito, deixou-se cair para trás.
Schnitz! — gritou o terrano em tom de desespero.
O ser-pássaro não respondeu.
Estava morto.
Neste instante houve uma modificação em John Edgar Princer. Já não era o jovem desajeitado, que provocava risos. Quem se ergueu foi um terrano sério e controlado. Ficou ereto ao lado do cadáver do nativo. Fitou Amat-Palong.
O senhor o assassinou — disse com a voz ressentida.
Instintivamente, o médico galáctico recuou um passo. Alguma coisa em Princer parecia servir-lhe de advertência.
Não faça tolices — gritou em tom estridente.
O terrano sacudiu a cabeça.
Não o assassinei — disse Amat-Palong. — Ele me atacou. Além disso, é apenas um nativo.
De repente deu-se conta de que se defendia perante um prisioneiro. Aborrecido, fez um sinal com a arma e ordenou:
Vamos andando, Princer.
Sem dizer uma palavra, o terrano segurou a mão de Cora, e foram andando. Amat-Palong seguiu-os numa distância segura. Quando saíram do edifício, disse:
Vá na direção daquela árvore grande que fica junto ao campo de pouso.
Princer obedeceu sem a menor objeção.
Mais rápido! — ordenou o ara.
O vice-presidente apressou o passo e arrastou Cora.
Oh, Johnny, o que vamos fazer agora? — perguntou em inglês.
Nada de conversa — advertiu o inimigo. — Silêncio.
Fique quieta, querida — disse Princer, em tom suave.
Chegaram e penetraram na floresta. Vez por outra o homem, que caminhava atrás deles, dava uma ordem sobre a direção que deviam tomar.
Dez minutos depois, Princer viu o espaço livre entre as árvores. O planador ao qual o desconhecido se referira estava pronto para decolar.
O terrano resolveu agir no momento em que penetrassem na comporta da pequena nave. Sabia que, durante essa ação, provavelmente seria morto. Mas, perante si mesmo, perante a Humanidade, perante Schnitz e principalmente perante Cora, tinha a obrigação de não se conformar com o destino sem resistência.
Porém não chegou a fazer aquilo que pretendia, pois não chegaram ao planador.
Ao atingirem a clareira, Princer ouviu, de repente, um farfalhar de galhos. Seguiu-se um grito abafado, e o feixe de fogo de um radiador perdeu-se nas folhagens.
Princer virou-se abruptamente. Três nativos haviam saltado de uma árvore! Amat-Palong estava agora deitado no chão. Kankantz, Lupatz e Tonitutz inclinaram-se sobre ele. Achavam-se prestes a matar o homem. Sem dúvida já haviam encontrado o corpo de Schnitz.
Para trás — gritou Princer. — Não o matem.
Procurou fazer com que os nativos furiosos recuassem. Quando conseguiu acalmá-los, já era tarde. Bastou um ligeiro olhar ao assassino de Schnitz, para convencê-lo de que tivera o mesmo destino do nativo. Princer afastou Cora do local.
Kankantz seguiu-os. Seu aspecto deixou o terrano abalado. Seus olhos escuros exprimiam uma inconfundível tristeza.
Agora caminhos de sem asas e amigos de Schnitz se separar — disse Kankantz, em tom amargo. — Sem asas só trazer tristeza.
Seria inútil discutir com o nativo. Devido ao assassinato, o ser-pássaro estava coberto de razão.
Está bem, Kankantz — disse Princer. — Vá em paz.
O alaze virou-se e foi para junto de Tonitutz e Lupatz, que o esperavam. Os três seres-pássaro galgaram os galhos e desapareceram.
Cora lançou um olhar para o cadáver.
O que será feito dele? — perguntou.
Os saltadores o encontrarão — disse Princer, embora não tivesse muita certeza.
Colocou o braço em torno do ombro de Cora.
Precisamos voltar à estação de rádio. Agora não há ninguém por lá. Isso nos oferece uma oportunidade de expedir uma mensagem.
Quando voltaram a entrar no edifício, o cadáver de Schnitz já havia desaparecido.
Vieram buscar o amigo — conjeturou Princer. — Bem que eu gostaria de sepultá-lo. Seria o mínimo que poderíamos fazer por ele.
Dirigiram-se à outra sala. Procuraram localizar um telecomunicador, ou ao menos aquilo que representasse a versão saltadora de um aparelho desse tipo.
Temos de contar com a possibilidade de que os saltadores localizem o ponto de partida de nossa mensagem — disse o terrano, dirigindo-se à esposa. — Dentro de uma hora estarão aqui. Acho que apesar disso devemos tentar.
Cora acenou com a cabeça, sem dizer uma palavra. Princer puxou uma cadeira e sentou-se à frente do aparelho. Contemplou as mãos, como se o êxito de sua ação dependesse das mesmas. Passou os olhos pelos controles. Antes de tocá-los, teria de compreender suas finalidades. Cada minuto de experiências representaria um tempo perdido.
Acho que já estou em condições de manipular o telecomunicador — disse Princer, dirigindo-se à esposa. — Esta chave serve para ligar a tela. Vejo pela posição.
Passou os dedos lentamente pelas diversas teclas.
Está bem — disse em tom resoluto. — Vou tentar.
Num gesto rápido girou vários botões.
O aparelho emitiu um leve zumbido. Luzes de controle acenderam-se. O telecomunicador começou a irradiar energia. E a energia poderia ser localizada.
Tudo dependia de que o vice-presidente da IFC conseguisse entrar em contato com os terranos, antes que os saltadores aparecessem.

* * *

O Major James Woodsworth era de opinião que um destino cruel o condenara a ficar estacionado constantemente longe de todos os centros dos acontecimentos cósmicos. Sempre que havia alguma coisa, Woodsworth se encontrava longe. Sentia inveja de seus colegas, pois ele, Woodsworth, tinha de conquistar seus louros em teoria, já que na prática dificilmente surgia-lhe oportunidade para isso. Era um homem temperamental, que não gostava de um sossego prolongado.
Naquele momento, o major encontrava-se na sala de comando do cruzador pesado Cape Canaveral. Woodsworth era um homem de estatura média, cabelos curtos, rosto inexpressivo e uma cova no queixo.
O que acha de nossa tarefa? — perguntou, dirigindo-se a Jens Poulson, que exercia as funções de piloto.
Na verdade, Poulson não fazia quase nada. Limitava-se a verificar vez ou outra os controles, pois a nave deslocava-se em queda livre, e o dispositivo automático era perfeitamente capaz de mantê-la numa trajetória constante.
Poulson bocejou. Isso bastava para exprimir sua opinião. Mas Woodsworth era seu superior, e por isso respondeu:
Para dizer a verdade, não acho nada, sir.
Woodsworth olhou para o relógio e confirmou com um aceno de cabeça.
A próxima transição está programada para daqui a duas horas. Depois disso “rastejaremos” pelo espaço a uma distância de seis anos-luz, à procura de fantasmas.
O General Deringhouse recebe ordens do chefe, sir — disse Poulson. — Se os dois acham que é importante realizar vôos de patrulhamento, devem ter seus motivos para isso.
A única coisa que o senhor tem de fazer é prestar atenção para localizar eventuais naves desconhecidas — disse Woodsworth, fazendo uma tentativa de imitar a voz do General Deringhouse. — Jens, o senhor acha que nossa tarefa tem algo a ver com aquela raça misteriosa a respeito da qual correm tantos boatos?
Não sei, sir.
Os outros homens da sala de comando levantaram instintivamente a cabeça, ao ouvir falar numa raça desconhecida. Mas o major não aludiu mais à mesma. Passou ao seu assunto predileto.
Jens — disse — já chegamos a um ponto em que os homens da frota não querem trabalhar mais sob minhas ordens. Acham que represento uma garantia segura de que comigo passarão uma espécie de férias prolongadas. E qual homem, que tem sangue nas veias, gostaria de uma coisa dessas?
Como ninguém respondesse, Woodsworth interpretou o silêncio como sendo uma manifestação de concordância. Atravessou a sala de comando com passos rápidos e curtos.
Sir! — gritou Oliver Durban, chefe da equipe de rádio.
Woodsworth virou-se abruptamente. Durban reclinara-se em sua poltrona e fitava os instrumentos com uma expressão de incredulidade. Mas, no momento em que o major se precipitou para seu lado, o operador de rádio pareceu adquirir vida. Moveu vários controles. A tela do aparelho de telecomunicação iluminou-se. Jens Poulson saiu de seu lugar e dirigiu-se apressadamente para junto de Durban.
O que é isso? — perguntou Woodsworth, apontando para a luz vermelha.
Naturalmente sabia o significado, mas gostava que seus tripulantes lhe explicassem qualquer tipo de variação, para deleitar-se por mais tempo com isso, conforme dizia.
É uma mensagem vinda pelo telecomunicador, sir — explicou Durban.
Vem da Terra? — perguntou o major.
Não, não creio.
Percebeu-se que Woodsworth teve vontade de abraçar seu operador de rádio. Por ser tal atitude impossível, contentou-se em dar um tapinha no ombro de Durban.
O chefe da equipe de rádio fez a regulagem da tela. Um rosto confuso adquiriu contornos nítidos. No mesmo instante, o dispositivo sonoro do hiper-rádio emitiu um estalo. Ouviu-se uma voz.
...Avisem imediatamente Perry Rhodan. Atenção. Repito a mensagem. Qualquer pessoa que me ouça, deverá avisar imediatamente Perry Rhodan...
Se continuar assim, metade da Galáxia acabará por ouvi-lo — disse Durban, em tom contrariado.
Woodsworth fez um gesto para que se calasse.
Aqui fala John Edgar Princer da Intercosmic Fruit Company. Eu e minha esposa encontramo-nos no planeta Alaze, uma base dos saltadores. O centro do tráfico de entorpecentes fica neste planeta.
Quem dirige o negócio na Terra é Vincent Aplied, residente na Cidade do Cabo. Se alguma estação terrana me ouvir, peço à mesma que avise imediatamente Perry Rhodan. Atenção. Repito...
Isso está me deixando doido — gritou Woodsworth, em tom entusiasmado. — Durban, entre imediatamente em contato com Terrânia e faça com que Rhodan compareça junto ao aparelho.
O chefe? — perguntou o operador de rádio.
Será que terei de matá-lo para que o senhor cumpra minhas ordens? — perguntou Woodsworth num berro nada lógico. — Será que, por não acontecer nada de anormal em nosso setor, o operador de rádio continua dormindo?
Sir, peço licença para ponderar que o planeta Alaze fica a mais de mil anos-luz daqui. Não pertence ao nosso setor.
Enquanto falava manipulara alguns controles, o que o salvou da cólera de Woodsworth.
Procure descobrir onde está o tal do Princer. Iremos buscá-lo — anunciou o major.
Durban, que nada tinha a objetar a essa manifestação de entusiasmo, com exceção de alguns detalhes relativos à técnica de rádio, teve sua voz abafada pelos gritos de alegria que ressoaram na sala de comando.
O cruzador pesado Cape Canaveral parecia estremecer sob os brados dos tripulantes.
A lenda das viagens monótonas de James Woodsworth chegou ao fim — exclamou o major. — Uma nova época está começando para meus homens e para mim.
Durban, que pretendia ponderar delicadamente que acontecera apenas o recebimento de uma mensagem de telecomunicação, e que talvez nada mais ocorreria, limitou-se a balançar a cabeça.
Estabeleceu-se contato com a central de rádio da Frota Solar em Terrânia. O rosto de um jovem oficial apareceu na tela. Via-se perfeitamente que não estava muito satisfeito com a perturbação inesperada.
Aqui fala o Major Woodsworth — disse o comandante, inclinando-se sobre o ombro de Durban. — Ligue-me imediatamente com o administrador.
Para isso, o senhor terá de fornecer um motivo muito importante — respondeu o operador de rádio de Terrânia. — Se estiver sentindo algumas pontadas no apêndice, faça o favor de dirigir-se...
Não estou sentindo pontada nenhuma — gritou Woodsworth, em tom indignado. — Mas se não me ligar imediatamente com o administrador, o senhor não demorará a sentir alguma coisa...
O oficial de rádio era tão frio quanto melancólico. Não se abalou. Repetiu:
Faça o favor de indicar um motivo, major.
Woodsworth percebeu que teria de modificar sua tática.
Encontramos o bando de traficantes de entorpecentes — disse.
Naturalmente isso era um exagero mas, na exaltação que sentia, Woodsworth não formulava suas idéias com muita precisão.
Por que não disse logo? — observou o oficial de rádio. — Tentarei imediatamente. Só não posso prometer que conseguirei entrar em contato com o chefe em pessoa. O senhor também se daria por satisfeito com Bell... bem, com seu representante, Mr. Bell, ou com o Marechal Solar Freyt?
Woodsworth perdeu a paciência.
Eu lhe imploro, meu jovem. Coloque em contato com alguém que tenha poderes para decidir alguma coisa, pois do contrário acabarei enlouquecendo.
Mais depressa do que esperava, o rosto marcante de Rhodan fitou-o da tela.
Encontrou os contrabandistas, major? Se não estou enganado, o senhor comanda o cruzador pesado Cape Canaveral, uma das naves de patrulhamento que devem registrar a aproximação de naves desconhecidas.
Sim senhor — confirmou Woodsworth.
Sentiu-se espantado ao notar que Rhodan se lembrara imediatamente da tarefa que fora confiada ao cruzador pesado por ele comandado. Relatou ao administrador, em palavras lacônicas, a mensagem que haviam captado.
Rhodan tomou imediatamente uma decisão.
Seria um absurdo se aparecêssemos com um enorme comando da frota junto ao planeta Alaze — disse. — Com isso poderíamos provocar um conflito de grandes proporções com os mercadores galácticos, e, no momento, isto seria uma das coisas que menos nos convém. Quero que o senhor salve o tal do Princer. Sem dúvida, ele ainda poderá ajudar-nos.
Sir! — exclamou Woodsworth em tom entusiasmado. — O senhor pode confiar na minha tripulação e em mim. Tiraremos Princer de lá!
Um sorriso surgiu no rosto de Rhodan.
Devagar, major. Uma ação precipitada não seria nada recomendável. Aproxime-se com a Cape Canaveral o mais que puder do planeta e faça sair do hangar um destróier com três tripulantes. Só mesmo uma ação-relâmpago dessa nave versátil poderá salvar Princer. Enquanto isso vamos nos ocupar detidamente com Mr. Vincent Aplied. Se as informações forem corretas e não nos encontrarmos diante de uma brincadeira de mau gosto, dentro em breve superaremos algumas preocupações.
Faremos tudo que estiver ao nosso alcance, sir — prometeu Woodsworth.
Rhodan fez um gesto amável.
Há mais um detalhe — disse. — Se a tentativa falhar, não inicie outra. Em hipótese alguma deverá pousar com a Cape Canaveral. Isso faria os saltadores ferverem de raiva. Não quero nenhuma demonstração de força militar. Limite-se a uma ação com um destróier.
Sim senhor — disse Woodsworth. — Obrigado, sir.
Rhodan fitou-o com uma expressão de espanto.
Obrigado por quê, major?
Pela tarefa que me confiou, sir. Tenho que apagar minha má fama.
Nenhum comandante da Frota Solar tem má fama — respondeu Rhodan, em tom sério.
A imagem do administrador desfez-se.
O oficial de rádio voltou a aparecer e pôs fim à palestra.
Poulson! — gritou Woodsworth. — Por que está parado por aqui? Acelere imediatamente até à velocidade da luz. Felton, veja as coordenadas da transição. Daremos um salto que nos aproxime a dois anos-luz do planeta Alaze.
Sir, os tripulantes não estão acostumados a que se exija tanto deles — disse Durban, com um sorriso irônico.
Woodsworth fitou-o por um instante. A cova do seu queixo avivou-se.
Pois eu lhes ensinarei — gritou.
Trinta minutos depois, a Cape Canaveral entrou em transição. O hiperespaço engoliu-a, para libertá-la mais adiante. Encontravam-se a menos de dois anos-luz do planeta Alaze.
9



Valmonze sabia que sua ordem de estabelecer o bloqueio às comunicações de rádio chegara tarde. A mensagem do terrano havia sido irradiada pelo menos seis vezes. Naquela altura, o patriarca só podia fazer votos de que esta não fora captada por nenhuma nave terrana.
Seria inútil ficar refletindo sobre isso. Se Princer tivesse conseguido estabelecer contato, o receptor seria suficientemente inteligente para não revelar sua posição por meio de uma resposta. Valmonze era uma raposa e sabia como ninguém conjeturar os acontecimentos cosmopolíticos. Por isso tinha certeza de que Rhodan jamais ordenaria qualquer medida que acarretasse um ataque direto contra o planeta Alaze.
O que faria o administrador para salvar os dois terranos?
Quanto mais refletia sobre isso, mas se fortalecia na convicção de que Rhodan tentaria obter a salvação dos dois por via diplomática. Valmonze imaginou uma espécie de tratado comercial. Libertaria Princer e a esposa, em troca de alguns contrabandistas. Realmente, a negociação era a única possibilidade de que Rhodan dispunha. O terrano sabia calcular muito bem. Portanto, não se arriscaria a transformar essa situação num motivo de guerra com os saltadores.
Tudo isso pressupunha que a mensagem de Princer já havia sido captada por alguém.
Valmonze encontrava-se na central de rádio do edifício principal, situada junto ao campo de pouso espacial. Todos os planadores estavam avisados. Dentro de alguns minutos, estes começariam a chegar à estação e prenderiam Princer e sua companheira. Depois disso as buscas seriam encerradas.
Shaugnessy entrou. Sua postura já não era tão relaxada. O contrabandista parecia preocupado.
Tomei a liberdade de acompanhar suas instruções — disse. — Se esse sujeito conseguiu fazer chegar sua mensagem a um destino, o contrabando está no fim. Os agentes de Rhodan prenderão Aplied. E este falará, porque terá de fazer tudo para salvar a pele, e terminará seus dias no desterro.
Valmonze fitou-o com uma expressão irônica.
Ainda bem que o senhor está em segurança em nossa companhia.
Shaugnessy fitou-o muito assustado.
Será que pretende mandar-me de volta? Toda a Frota Solar estaria à minha espera...
Há uma coisa que eu não compreendo — disse o patriarca, sem dar atenção à pergunta de Shaugnessy. — Princer devia saber que, ao expedir a mensagem, revelaria sua posição. Estava ciente de que não poderia escapar-nos. Apesar disso não teve a menor dúvida em penetrar na estação.
O senhor raciocina como um saltador — disse Shaugnessy. — Um terrano não pensa assim. Antes de tudo, aquele jovem pensou em prestar um serviço a seu povo. Sua própria segurança viria em segundo lugar. Se teve sorte, sua coragem salvará a Terra da ruína econômica. E qual será o preço, Valmonze? Provavelmente esse preço consistirá em duas vidas humanas. O senhor sabe fazer cálculos, patriarca? Sabe perfeitamente quantos homens existem. Quase todos agiriam como Princer. É por isso, saltador, que nada conseguirá deter nossa raça. Um mercador galáctico pensa em primeiro lugar em seu clã, e só depois disso em sua raça. O senhor está vendo o resultado. Aposto...
Cale-se! — ordenou Valmonze, contrariado. — Não estou interessado em ouvir suas observações. Aliás, por que o senhor concordou em colaborar conosco, já que tem tanta certeza de que no fim sua raça será vitoriosa?
Sou um homem mau — disse Shaugnessy, em tom triste. — Não posso evitar isso.
O senhor é um idiota — afirmou Valmonze. — O medo deixou-o perturbado.
O patriarca dedicou sua atenção aos instrumentos. O contrabandista ficou de pé atrás dele, sem dizer uma palavra. Seu rosto não revelava a menor emoção.
Valmonze ligou um aparelho de comunicação. Esperou um instante e perguntou:
Razmon, ainda falta muito?
Daqui a pouco estaremos lá, patriarca. Prepare-se para receber os prisioneiros.
Valmonze soltou uma estrondosa gargalhada e cocou a barba. Ao que parecia, o saltador não levava muito a sério o perigo de uma intervenção terrana.
Recupere-se, Shaugnessy. Pare de matutar. Ajeitaremos as coisas.
Shaugnessy fitou-o. Sem abrir demais a boca, disse:
Saio definitivamente de sua canoa, Valmonze.
O saltador mostrou-se indiferente. Shaugnessy deu-lhe um empurrão e recuou um passo.
Tirou a velha arma térmica do cinto.
O senhor não compreendeu, patriarca — enfatizou em tom tranqüilo. — Alguma coisa mudou.
Valmonze virou-se devagar e fitou o radiador. Finalmente levantou os olhos e encarou, perplexo, Clifton Shaugnessy.
O que espera conseguir com isso? — perguntou. — Pretende matar-me?
Deixe Princer em paz — exigiu o contrabandista.
Valmonze poderia ter muitos defeitos, mas não era covarde. Não deu atenção à arma que o ameaçava. Cruzou os braços sobre o peito e encostou-se aos instrumentos. Representava muito bem a figura de um homem poderoso que estava acostumado a que todos obedecessem às suas ordens.
O senhor superestima isso — disse, apontando com a cabeça para o radiador. — Razmon está a caminho da estação de rádio, com todos os planadores disponíveis. Princer e sua companheira serão presos.
Dê ordem para que Razmon volte — exigiu Clifton.
Não — respondeu Valmonze.
Voltou a estabelecer a ligação com os planadores. Shaugnessy, que permanecia imóvel, ouviu-o dizer:
Razmon, aqui fala o patriarca. Shaugnessy ameaça-me com uma arma. Exige que eu o chame de volta. Ordeno-lhe que prenda Princer, e não se importe com o que aconteça por aqui.
Patriarca! — gritou Razmon, perplexo.
Se vocês quiserem rever o velho, soltem os terranos — gritou Shaugnessy, em tom nervoso. — Volte, Razmon.
Valmonze perdeu a paciência. Sem dar a menor atenção à arma térmica, atirou-se sobre Shaugnessy!

* * *

John Edgar Princer efetuou uma última regulagem.
Não acredito que adiante alguma coisa — disse, dirigindo-se à esposa. — Mas liguei um raio vetor automático, pelo qual nossos amigos poderão orientar-se, se aparecerem por aqui.
Um brilho de esperança surgiu nos olhos de Cora.
Você acredita que seremos salvos?
Eles tentarão — respondeu, e ainda acrescentou: — Tenho certeza de que captaram nossa mensagem. A Frota fará tudo para tirar-nos daqui.
Um sorriso aflorou aos lábios de Cora. Notara a modificação que se processara com seu marido. Ele perdera a insegurança. Seus atos eram seguros e bem planejados. Não duvidava mais da sua capacidade.
Bem — disse Princer. — Vamos sair e esperar nossos amigos.
Ou os saltadores — objetou Cora.
Dali a alguns minutos viram que ela tinha razão. As sombras de vários planadores apareceram sobre o pequeno campo de pouso.
São os saltadores — constatou Princer, em tom de desânimo. — Foram mais rápidos.
As navezinhas começaram a circular sobre o campo de pouso, como se os tripulantes estivessem indecisos sobre os passos que deveriam seguir. Princer sabia que qualquer tentativa de fuga seria inútil. Provavelmente já o haviam descoberto.

* * *

O Major Woodsworth e mais dois tripulantes estavam sentados na cabine de piloto do destróier, que fora retirado do hangar da Cape Canaveral. Seus dois auxiliares eram Buster Felton e Adam Spahn.
Assim que penetraram na atmosfera do planeta Alaze, captaram o raio vetor.
Isso significa que bloquearam todas as comunicações de rádio para fora — disse Felton.
Evidentemente, para fora significava para o espaço.
Spahn, que observava os aparelhos de localização, disse sem o menor entusiasmo:
Por lá há uma quantidade enorme de naves estranhas. Pela intensidade do eco conclui-se que são veículos pequenos.
Conversou em voz baixa com Felton, enquanto Woodsworth colocava o pequeno destróier numa órbita de aterrissagem.
Os sinais goniométricos vêm da mesma direção em que Spahn descobriu as naves dos saltadores, sir — disse Felton, depois de algum tempo. — Seria suicídio pousarmos lá. Mesmo que sejamos mais rápidos que os saltadores, eles têm a vantagem do número. Além disso, conhecem a área melhor que nós. Antes de tocarmos o solo, eles nos transformariam num montão de cinzas e poeira. Isso não serviria nem a Princer nem a nós.
Woodsworth olhou em torno.
Desde quando o senhor se tornou tão loquaz, Felton? Ao menos devemos tentar. O fato de Princer ter expedido a mensagem prova que ainda não se encontra em poder dos saltadores.
Isso pode ter mudado — ponderou Spahn.
O major não se abalou. Fez descer a navezinha em direção à superfície do planeta. Os saltadores já deviam ter localizado o pequeno destróier, a não ser que estivessem dormindo ou se mantivessem ocupados com outra coisa.
Woodsworth esperava ver a qualquer momento na tela a silhueta cilíndrica de uma nave dos saltadores, que abriria fogo contra eles. Mas tudo parecia correr conforme o plano. O major manteve-se bastante realista para não subestimar o perigo. Assim que pousassem em meio às naves dos saltadores, localizadas por Spahn, terminaria a segurança relativa em que ainda se encontravam os terranos.
Woodsworth era o único conhecedor do plano, pois este era exclusivamente de sua autoria. Teve bons motivos para hesitar em informar seus objetivos táticos aos subalternos...
Ninguém gosta de voar para a morte com os olhos abertos!

* * *

Para qualquer homem que sempre esteve acostumado a seguir ordens, quer seja ele um terrano, quer seja um saltador, torna-se difícil agir por iniciativa própria.
No momento em que o piloto Razmon ouviu pelo alto-falante o choque dos dois corpos, sua perplexidade atingiu o auge. Sabia que a vida do patriarca estava em perigo. Uma luta entre Valmonze e Shaugnessy parecia ter irrompido no interior do edifício principal do espaçoporto. Como o terrano possuísse uma arma e Valmonze estivesse desarmado, Razmon podia imaginar perfeitamente o resultado da luta.
O patriarca dera ordem para que Princer fosse preso, acontecesse o que acontecesse. Razmon sentiu-se atormentado por sentimentos conflitantes. Cinco planadores sobrevoavam o pequeno campo de pouso, situado no meio da mata. Na extremidade da pista viam-se dois pequenos pontos. Eram Princer e sua esposa.
Razmon chegou à conclusão de que só havia um meio de harmonizar os desejos conflitantes que lhe enchiam a mente: teria de tomar duas providências ao mesmo tempo. Tornava-se necessário salvar o patriarca; além disso, o terrano e sua companheira teriam de ser presos. Isso significava que o grupo de planadores seria obrigado a dividir-se.
Razmon entrou em contato com os outros planadores. Mandou que três pilotos voltassem imediatamente ao espaçoporto para ajudar Valmonze. Ele e a tripulação de outro planador pousariam e pegariam Princer, a fim de aplicar-lhe o castigo merecido.
Os dois planadores desceram vertiginosamente para o campo de pouso.
Razmon — gritou alguém, em tom exaltado. — Uma nave estranha.
O piloto olhou para os instrumentos. A tela só mostrava um pontinho.
Razmon praguejou.
Agora, que nós nos dividimos” pensou, “os terranos aparecem para salvar o companheiro.
Tentou desesperadamente entrar em contato com Valmonze, mas nada conseguiu.
O ponto que aparecia na tela cresceu. Com a voz nervosa ordenou aos tripulantes dos planadores que preparassem os canhões de radiações. Os campos defensivos foram ativados.
Certa vez um velho saltador dissera a Razmon:
Os terranos sempre vêm, quando menos os esperamos. Só fazem aquilo que nos parece impossível. É este o segredo do seu êxito.
Razmon não sabia se a teoria era correta, mas não demoraria em descobrir.

* * *

A história da evolução da Humanidade não menciona o nome Clifton Shaugnessy. E é bem possível que, se não fosse sua intervenção, essa história nem poderia ter sido escrita. Shaugnessy era um dos muitos desconhecidos de cujos atos não se sabia nada, ou que logo são esquecidos.
Nunca saberemos se Shaugnessy teve a intenção de atirar contra Valmonze, ou se apenas quis intimidá-lo.
Provavelmente, o contrabandista foi muito lento.
Caiu para trás, sob o impacto do corpo de Valmonze. A arma que tinha na mão foi atirada para longe. Shaugnessy levantou os braços, tentando defender-se do ataque. O patriarca repetiu o salto na direção do pequeno terrano. Este soltou um grito e rolou para o lado. Valmonze novamente atirou-se sobre seu corpo. E outra vez, num movimento rápido, o contrabandista rolou para o lado. Viu sua arma, mas não pôde pegá-la. A raiva fizera com que os olhos de Valmonze se estreitassem. Denotativamente estava cego de ódio. Seus punhos desceram sobre Shaugnessy, mas não o encontraram. Na verdade, a luta resumia-se a uma fuga contínua do terrano. Por ser a sala não muito espaçosa, os braços de Valmonze logo iriam alcançá-lo.
Shaugnessy regateou e chegou à porta. Saiu apressadamente. Valmonze soltou um berro e correu atrás dele. Shaugnessy conhecia o edifício. Ganhou o comprido corredor que se estendia à sua frente. No fim dessa galeria havia um elevador que poderia levá-lo ao pavimento inferior.
Valmonze seguiu-o, fungando. Shaugnessy não olhou para trás. Ao atingir o elevador, soltou um suspiro de alívio. Por enquanto estava praticamente salvo.
Mas o alívio transformou-se repentinamente na idéia amarga de que a fuga chegara ao fim. O elevador abriu-se e dois saltadores surgiram.
Segurem-no! — gritou a voz estridente do patriarca.
Shaugnessy não tinha a menor chance. Estava perdido. Virou-se lentamente e fitou o rosto de Valmonze, afetado pelo triunfo.
A História não nos conta nada sobre Clifton Shaugnessy. O silêncio espalha-se sobre o fim desse homem, cuja vida marginal adquiriu um sentido, devido a este ato de bravura.

* * *

Buster Felton era por natureza um homem inofensivo, sem a menor ambição guerreira. Mas quando viu que as duas naves dos saltadores se preparavam para o combate, suas feições tornaram-se rudes. Preparou os canhões de proa do destróier.
É o comitê de recepção, sir — gritou Spahn, dirigindo-se a Woodsworth. — Eles se dividiram. Tomara que os outros três não estejam à espreita em algum lugar, para atacar-nos de surpresa.
Logo descobriremos, desde que o senhor fique de olho nos instrumentos — lembrou o major. — Atenção, vou pousar.
Sir! — gritou Felton. Woodsworth imaginava o motivo das preocupações do homem. No ar poderiam ter condições de enfrentar os saltadores, mas no solo estariam perdidos.
Não se preocupe — disse. — Nós lhes prepararemos um belo espetáculo.
James Woodsworth, que era um oficial com pouca experiência de combate e dependia exclusivamente de seus conhecimentos teóricos, provou ser um ótimo combatente.
Fez baixar a nave.
Os saltadores farejaram uma imensa vantagem e aproximaram-se rapidamente. Os campos defensivos do destróier oscilaram sob a carga do bombardeio violento. Os saltadores pairaram que nem abutres furiosos sobre a pequena nave terrana. Subitamente Woodsworth puxou o comando. O destróier subiu com uma velocidade incrível.
Felton, que quase fora arrancado do assento, abriu fogo contra as naves dos saltadores, que subitamente surgiram à sua frente. Gritou ininterruptamente para Spahn. Berrava palavras insensatas, mas ao que parecia estas não incomodavam nem a Spahn, nem ao major. Os campos energéticos dos saltadores não estavam em condições de resistir ao bombardeio cerrado. A nave terrana, aparentemente tão insignificante, transformara-se numa fortaleza que cuspia fogo.
Bastante danificados, os planadores foram descendo e desapareceram em meio às copas das árvores.
Agora só a rapidez poderá salvar-nos — disse Woodsworth e fez a nave descer sobre o campo de pouso.
Felton abriu a comporta. O major abandonou o lugar à frente dos comandos.
Ao chegar à comporta, viu um homem e uma mulher que atravessavam o campo de pouso. O homem era alto, magro e desajeitado. A mulher parecia muito cansada, mas ainda era bastante atraente para deixar nervoso um homem do temperamento de Woodsworth.
O par desigual chegou à comporta. Naquele instante, o homem disse algumas palavras de que Woodsworth jamais se esqueceria.
Meu nome é John Edgar Prince. Esta é minha esposa — sorriu. — Não o esperávamos tão cedo, major.
Felton soltou um gemido e, juntamente com Woodsworth, puxou os dois fugitivos para dentro da nave.
Rápido! — gritou Spahn. — Daqui a pouco receberemos visita.
Woodsworth deixou que Felton cuidasse das duas pessoas, que acabavam de ser salvas, e correu para o assento do piloto. Não estava disposto a aguardar a chegada de outras naves dos saltadores. Realizou uma decolagem de emergência. E John Edgar Prince desequilibrou-se, caiu e quebrou o nariz.
10



A prisão de Vincent Aplied acarretou uma pequena queda da Bolsa, que se recuperou dois dias depois. Aplied foi submetido a um rigoroso interrogatório e contou tudo que os agentes queriam saber. A esse interrogatório seguiu-se uma onda de prisões. Alguns criminosos conseguiram fugir, mas nem por isso a ação deixou de ser considerada excelente. Toda a imprensa mundial teceu elogios ao governo e festejou Rhodan como um homem ativo e ponderado.
Antes que Prince chegasse à Terra, seus atos já se haviam tornado conhecidos. No dia em que deveria chegar, milhares de pessoas correram ao espaço para festejar o jovem. As emissoras de televisão enviaram grande número de repórteres.
Perry Rhodan, que geralmente não gostava desse tipo de movimento, concordara a contragosto, por insistência de amigos, e concedera as autorizações que se tornavam necessárias.
Sentou-se ao lado de Bell e do Marechal Solar Freyt na tribuna construída especialmente para esse fim.
Não faça cara feia — pediu Bell. — É perfeitamente possível que neste momento haja câmara dirigida para nós.
Rhodan lançou-lhe um olhar recriminador.
Então é por isso que você está exibindo esse sorriso ridículo. Já fiquei dando tratos à bola para descobrir por que estava rindo.
Escute aí — gritou Bell, indignado. — Isto é uma solenidade oficial, e ninguém me impedirá de comportar-me da forma que julgo ser do agrado de meus numerosos amigos, espalhados pelo mundo.
Nem mesmo a presença de espírito de Rhodan soube formular qualquer objeção a estas palavras. Fitou a massa dos espectadores.
Daqui a alguns minutos, John Edgar Princer estará diante dos senhores — disse a voz saída do alto-falante.
Freyt levantou a cabeça. Só costumava dizer o necessário.
A Cape Canaveral — disse. — Está chegando.
O sorriso de Bell congelou-se numa máscara, que daria o que pensar a qualquer um dos seus inúmeros amigos.
Para Bell, a tal máscara representava um aspecto bem fotogênico...

* * *

A velocidade com que o destróier saiu do sistema impediu Valmonze de desferir seu golpe. Muito contrariado, não teve outra alternativa senão deixar que os fugitivos se fossem.
A Cape Canaveral voltou a recolher a pequena nave em seu hangar. Depois de duas transições chegou ao Sistema Solar.
Princer sentia dor no nariz quebrado e, mais do que isso, a perda do jato espacial deixava-o muito triste. A Error representava um patrimônio valioso, e a idéia de que se encontrava nas mãos dos saltadores não era nada agradável. Mas, como o vice-presidente não sentisse vontade de realizar outras viagens espaciais, conformou-se com a perda. O que importava era que sua vida estava salva.
Depois da segunda transição o Major Woodsworth compareceu ao camarote de Princer. Disse que lamentava o acidente.
Como vai o senhor? — perguntou.
Muito bem — mentiu o jovem.
Sabia que Woodsworth percebera a verdade, mas não se importou com isso.
Daqui a pouco o senhor se sentirá ainda melhor, se eu lhe disser que lhe prepararam uma recepção formidável — disse Woodsworth, com um sorriso.
Princer olhou para a esposa, que se acomodara numa confortável poltrona. Ela levantou os olhos com uma expressão indagadora.
O senhor poderia fazer o favor de explicar melhor, major?
Pois não. Nas proximidades do espaçoporto o senhor será recebido por uma grande multidão, por Perry Rhodan, por várias personalidades e pelo pessoal da televisão.
Princer apalpou cuidadosamente o nariz. Woodsworth não conseguia ocultar o quanto se divertia com aquilo que esperava o jovem.
Como poderei escapar disso? — perguntou.
Não pode — observou Woodsworth, em tom indiferente. — Saberei impedir que isso aconteça. O senhor é a melhor propaganda para meu cruzador. Os cadetes terão vontade de ser enviados à nave de James Woodsworth.
Não compreendo — disse Princer. Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Woodsworth.
Prepare-se, meu jovem — disse. — Embeleze seu exterior, para conquistar a massa.
O vice-presidente da IFC olhou para seu corpo. As roupas haviam sofrido bastante com as aventuras no planeta Alaze. E com Cora, as coisas não eram diferentes.
Woodsworth seguira aqueles olhares com uma expressão compassiva.
Mandarei trazer roupas para o senhor e sua esposa — prometeu.
Fez meia-volta, mas Princer segurou-o pela manga do casaco.
Fico-lhe muito grato, major. O senhor arriscou sua vida para salvar-nos.
Quer saber de uma coisa, Princer? — disse Woodsworth. — Em comparação com aquilo que o valente casal fez pela Terra, a ação Cape Canaveral representa um empreendimento bem modesto.
Assim que acabou de proferir estas palavras, saiu do camarote.
Gostaria de esconder-me num canto — confessou Princer. — Tomara que a recepção não demore muito.
Esticou o corpo.
Estou ansioso para tomar um banho e dormir numa cama de verdade.
Nem desconfiava de que um velho conhecido lhe estragaria o prazer...

* * *

Quando John Edgar Princer e sua esposa saíram da comporta da Cape Canaveral e desceram pelo elevador, o Hino do Império Solar fez-se ouvir. Os expectadores que se encontravam na tribuna levantaram-se e descobriram a cabeça.
Princer estremeceu e parou. Os acordes da música cessaram. Alguém pigarreou às suas costas.
Vá andando, Princer — cochichou a voz do Major Woodsworth. — Vá diretamente para a tribuna.
Bell voltara a sentar-se e cutucou Rhodan.
Sempre imaginei que esse Princer fosse diferente.
Estavam sentados sobre uma plataforma, à frente da tribuna. No momento em que o jovem, sua esposa e o Major Woodsworth subiram pela escada, Perry Rhodan, Bell e o Marechal Solar Freyt levantaram-se.
A primeira coisa que viram foi o rosto de Princer. Um esparadrapo muito largo cobria seu nariz. Acima deste, havia um par de olhos azuis muito claros, que fitaram Rhodan com uma expressão de infinita tristeza. Princer subiu os últimos degraus, tropeçou e enrubesceu até as enormes orelhas. Rhodan saiu do lugar e foi ao encontro de Princer. Falando muito baixo, para que nenhum microfone pudesse transmitir sua voz, disse:
Quero agradecer-lhe em caráter não-oficial e dizer-lhe que o senhor é um sujeito formidável.
Da resposta de Princer concluía-se que ele não estava tão confuso como poderia dar a perceber:
Quero retribuir o elogio em caráter não-oficial — cochichou ao administrador.
Apertaram-se as mãos e sorriram um para o outro. A televisão transmitiu a imagem ampliada. Na cidade de Denver, Archibald Princer quase chegou a entrar no aparelho!
Com um gesto suave, Rhodan colocou o jovem diante dos microfones. Aplausos estrondosos soaram na tribuna. Princer engoliu em seco, apalpou a ferida e procurou descobrir uma pose adequada à ocasião.
O discurso do administrador foi breve.
Cumprimentamos este jovem, e também cumprimentamos sua bela esposa. Ambos prestaram um serviço relevante à Terra. Ficamos-lhes muito gratos por isso. Venha. Todo o Império quer ouvi-lo.
Princer lançou um olhar tão apavorado para os microfones que até parecia que Valmonze se encontrava à sua frente. Rhodan sorriu com uma expressão animadora, e o jovem deu um passo à frente.
No planeta Alaze — principiou — encontrei um nativo. Seu nome era Schnitz. Está morto. Ele merece nosso respeito e nossos agradecimentos. Se não fosse a sua ajuda e a de seus amigos, não conseguiria enviar a mensagem. Ainda quero mencionar o Major James Woodsworth, que os senhores vêem aqui a meu lado. Ele e seus subordinados arriscaram a vida para libertar-nos.
Princer acenou com a cabeça, e um sorriso espalhou-se por seu rosto sonhador.
Ainda devemos agradecer por tudo isso a esta mulher brava e bela, que se chama Cora Princer.
Virou-se e voltou a apertar a mão de Perry Rhodan. Bell e Freyt cumprimentaram-no em silêncio.
Princer segurou o braço da esposa e desceu a escada.
Os médicos da Frota Solar sempre o rejeitaram — disse Rhodan, em tom de espanto. — Deveríamos esforçar-nos para arranjar um lugar para ele.
Não acredito que ele agora aceite a oferta — respondeu Bell, em tom pensativo.
Quanto mais refletia, mais Rhodan acreditava no que Bell acabara de dizer.

* * *

Com um suspiro, John Edgar Princer deixou-se cair na cama senhorial.
Finalmente temos paz — disse em tom agradecido.
Contemplou a esposa, que estava separando as roupas enviadas pela direção do hotel.
Você já pensou sobre o lugar de nossa viagem de núpcias? — perguntou.
O que não quero é ir para o espaço — disse Cora, em tom resoluto.
Não — disse Princer. — Escolheremos um lugar tranqüilo.
Alguém bateu à porta. Aborrecido, levantou-se do leito conjugal.
Entre! — gritou.
Era o boy do hotel, que contemplou Princer como se fosse um animal estranho.
Enviaram algo para os senhores — balbuciou o rapaz.
Flores — conjeturou Cora. — Devem ser flores.
O rapaz negou com a cabeça. Princer fez um sinal para que fosse buscar o objeto que lhe fora entregue. Dali a pouco voltaram a bater à porta.
Uma fresta estreita abriu-se e uma criatura cor de barro entrou no quarto, latindo alucinadamente.
Isto veio com recomendações de um certo Mr. Denniston, de Denver — disse o boy, já no corredor.
Príncipe! — gritou Cora, em tom alegre.
O cachorro saltou para cima dela. Abanava a cauda que nem um louco. Finalmente afastou-se da dona e começou a farejar. Avistou Princer e parou de abanar o rabo.
Parece que Príncipe não o conhece mais — disse Cora, com a voz insegura.
Princer lançou um olhar amoroso para a esposa. Achava que já estava na hora de abraçá-la. Aproximou-se.
Príncipe pôs-se a rosnar furiosamente. Estava entre o casal. Princer parou, indeciso.
Escute aí, meu velho — disse o jovem, em tom amável. — Esta é minha esposa, compreende? Você não me poderá impedir de beijá-la.
O animal rosnou furiosamente. Seus olhos verdes chamejaram ameaçadores para John Edgar.
Depois disso, Princer foi recuando devagar...




* * *
* *
*



Os negócios com os outros povos da Galáxia foram restabelecidos e vários envolvidos no tráfico de entorpecentes, deportados.
Em A Frota-Fantasma, título do próximo volume, os terranos voltam a ser ameaçados pelos temíveis acônidas.

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