quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr [Parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Vive-se perigosamente em Azgola —
o planeta dos vagabundos.


A desastrosa época de Thomas Cardif chegou felizmente ao fim. Desde os acontecimentos descritos no último volume, passaram-se cerca de nove meses, tempo da Terra.
Este período foi inteligentemente aproveitado por Perry Rhodan, liberado da renovação periódica das duchas celulares no planeta Peregrino, devido ao ativador celular programado especialmente para ele. Não há mais motivos de preocupação, pois a situação no sistema solar, no Império Arcônida e nos demais sistemas conhecidos da Via Láctea é de plena calma.
As circunstâncias se alteram, porém, bruscamente quando um cargueiro terrano voa para o sistema de Azgo e aterrissa em Azgola, o segundo planeta deste mundo longínquo.
O que se desenrola então em Azgola dá a impressão de que o ilegítimo possuidor de um ativador celular está mesmo lançando um povo todo na desgraça.
Ou será uma grande potência desconhecida que está tentando um insidioso plano de conquista?
Descobrir quem está atrás dos bastidores, puxando os fios da trama, é tarefa dos agentes da Divisão III, que desta vez estão acompanhados do Sargento Robô.




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Meech HanniganSargento biorrobô que usa raios psíquicos para não matar ninguém.

Ron Landry, Larry Randall e Lofty PattersonAgentes da Divisão III.

Chuck WallerCapitão de uma nave mercante. Fez uma descoberta assustadora.

BladoorMinistro de Estado do planeta Azgola.

GarathonChefe e patriarca de um subclã dos saltadores.

Como que não crendo no que via, Chuck Waller achou o quadro por demais esquisito.
A luz de um sol estranho batia incandescente no vasto descampado e soprava um vento brando tocando a poeira para frente. Para trás, na linha do horizonte, descortinavam-se os contornos de uma construção baixa e alongada. Mas mesmo lá, não se notava nenhum movimento.
Um silêncio desagradável pesava no local, onde em si devia reinar intensa atividade. Chuck desceu a estreita escada e, assim que tocou o chão, parou e olhou em volta. Atrás e acima dele, projetava-se o bojo da esfera de seu cargueiro. O corpo de sua velha e querida Gillaine estava carcomido pela poeira cósmica e pelos gases venenosos de estranhos planetas. A camada externa não tinha mais o brilho de antes, mas ele e sua gente sabiam que podiam confiar no velho cargueiro comercial tão bem como em qualquer outro do seu tipo.
A Gillaine acabava de percorrer setecentos e trinta mil anos-luz, da Terra até Azgo, em doze dias, tempo de bordo. Era um feito digno de menção. Esperava fazer bons negócios em Azgola, o segundo planeta do sistema. Azgola estava nos confins do Império Arcônida, muito afastado das grandes rotas comerciais e mesmo desprezado pelo comércio da Galáxia. Mas, às vezes, fazia-se bom negócio em locais assim.
Neste momento, porém, Chuck estava crente de que havia dado com os burros n’água. Ouvira muitas coisas sobre os azgônidas. Estes eram descendentes de um velho ramo dos arcônidas, magros como um palito e de cabeça completamente careca. No correr dos milênios esqueceram toda a sua aptidão técnica e haviam regredido à civilização dos tempos da máquina a vapor.
Não ouvira, porém, que a raça tivesse acabado. Puxou para frente a viseira do capacete espacial, de modo que com um pequeno movimento da mão a pudesse fechar. A análise do ar demonstrara que a atmosfera de Azgola era respirável, mas aquele silêncio macabro deixou Chuck desconfiado. Queria estar preparado para qualquer eventualidade.
Deu instrução ao posto de comando para que enviasse ali para baixo uma das pequenas viaturas que formavam o equipamento da Gillaine. Hank Cilley, o primeiro-oficial, perguntou curioso:
Então, onde estão os carecas magricelas? Será que estão todos dormindo?
Não tenho a menor idéia, Hank. Mas tenho a impressão que logo saberemos.
Olhe uma coisa, acho que você não devia sair sozinho. Quem sabe o que...
Ah! Deixa de historia — interrompeu-o Chuck. — Talvez abandonaram este espaçoporto. Vou até as casas da cidade, dar uma olhada nas coisas. Estou de volta num instante.
Está bem! — respondeu Hank.
Acima de sua cabeça abrira-se o vão central da escotilha de carga e, trazido por um guindaste, desceu um carro voador, espécie de deslizador, aberto, com quatro lugares. Chuck viu quando as garras do guindaste se abriram e o veículo tocou o chão. Embarcou, tirou a arma da cintura e a colocou no assento a seu lado. Partiu rumo à cidade.
Depois de dois minutos, já atravessara um campo de capim ralo e ressecado. Capim na pista de um espaçoporto! Tentou calcular quanto tempo teria levado para que os gases químicos e nucleares dos jatos gigantescos tivessem devastado o chão daquela maneira. Já deviam ter passado muitos anos desde que a última espaçonave ali pousara.
Descortinavam-se no horizonte as construções baixas. Chuck se aproximava rápido. Grossa camada de poeira tapava as vidraças. Em vão procurava um sinal de vida, nada se movia. Passou pelas primeiras casas e parou um pouco adiante. Não teve coragem de desligar o motor, pois não sabia o que o esperava.
Desceu, de arma na mão. Aproximou-se de uma das vidraças empoeiradas, tentando ver alguma coisa dentro. O aposento estava completamente vazio; nenhum tipo de móvel. Caminhou mais um pouco, ouvindo apenas o ranger das botas no chão duro e sentindo o calor insuportável daquele sol amarelo. Talvez parte deste calor fosse conseqüência do seu sistema nervoso.
Por trás de uma outra janela, o panorama já era outro. Uma mesa de escritório e algumas cadeiras formavam aparentemente um conjunto razoável. As cadeiras tinham o espaldar muito alto e estreito, como realmente os azgônidas costumavam usar. Havia ainda pilhas de papel sobre a mesa, se bem que papel e móveis estavam cobertos de poeira. A mesma poeira cobria o assoalho e não se via uma só pegada.
No silêncio de chumbo, rangeu estridulante uma porta. Chuck virou-se rápido, sentindo o coração bater descompassado. Instintivamente, já estava com a mão na arma e o dedo no gatilho. Mais um rangido forte da porta; seguiu-se depois mais uma pancada surda e tudo voltou ao silêncio. Chuck se encaminhou na direção do ruído.
Quando seu raio de visão ficou mais amplo, viu que a porta começou a bater de novo. Era a porta da frente. Viu-a balançar lentamente de um lado para o outro. Abriu de todo e bateu com um som oco no portal da casa. Talvez nos fundos não houvesse ninguém. Chuck, que se agachara, levantou-se novamente e começou a rir. Reparou que o vento mudava constantemente de direção no estreito corredor entre as casas, pegando as portas e atirando-as contra o batente, produzindo sempre o mesmo barulho que já ouvira. Chegou até a porta e examinou a fechadura. Havia um trinco com pressão de mola, não muito diferente dos da Terra. A poeira penetrara de tal modo que o trinco não entrava mais na fechadura. Talvez esta porta estivesse batendo ao vento já há muito tempo, anos e anos.
Empurrou a viseira para trás e enxugou o suor do rosto. Sentia-se melhor de viseira aberta. Estava agora convencido de que os azgônidas haviam abandonado o aeroporto. Talvez nenhuma espaçonave de fora descia mais ali e eles mesmos não possuíam nenhum tipo de aviação. Ou mesmo, quem sabe, o tráfego aéreo se realizava agora em outra parte do planeta? Ou uma coisa ou outra. Chuck puxou a porta e entrou na casa. Se olhasse melhor, poderia chegar a alguma conclusão quanto ao motivo desta solidão e abandono.
Atrás da porta, se abria um corredor meio escuro, cujo soalho rangia ainda mais alto que as batidas da porta. Parou um instante e gritou bem alto:
Alô!
O máximo que conseguiu foi levantar um pouquinho de poeira em algum lugar.
Continuou seu caminho, como se quisesse provar a si mesmo que não tinha mais medo de nada e foi batendo estridentemente todas as portas que encontrava. Um barulho novo enchia aquela solidão que talvez perdurava há muito tempo.
Chegou ao fim do corredor e abriu a última porta que encontrou. Estava parado no meio do aposento. A porta ficou entreaberta, prejudicando-lhe um pouco a visão. Viu um pedaço de uma escrivaninha e uma espécie de cadeira. A tampa da mesa não tinha nada em cima, a não ser poeira. Mas nesta poeira havia sinais, como se alguém tivesse passado a mão por cima. Um outro rastro estava bem visível no soalho. Vinha da esquerda, passando pela mesa e saindo pela direita. A porta ocultava a sua continuação. Empurrou-a, de arma na mão, e se inclinou para frente. Foi quando viu.
Estava deitado no chão. Era gordo e pesado demais para poder se movimentar. Chuck viu que o possante corpanzil se mexia um pouco lentamente, portanto estava vivo. As pegadas eram dele.
Chuck não era mais que mero capitão de uma nave de carga. Não estava preparado para suportar com calma situações inesperadas. Quando viu a coisa horrenda no chão, gritou de susto e saiu correndo pelo corredor, passou disparado pelas casas baixas e pulou para dentro de seu carro voador. Um segundo mais e já estava a caminho de volta. Seu deslizador fez uma curva fechada e tomou o rumo da Gillaine. Pelo transmissor de pulso, gritou nervoso para Hank Cilley que preparasse a espaçonave para partida imediata.

* * *

Pelo espaço saturado de estrelas, cruzavam as vibrações do hiper-rádio. Mensagens codificadas iam de Árcon para a Terra e da Terra para Árcon. Tratava-se de uma notícia muito singular que um posto avançado do Império Arcônida havia captado, mutilada e de conteúdo difícil de se acreditar.
A mensagem provinha de uma nave cargueira terrana de nome Gillaine que voava nos confins do espaço conhecido. Gonozal VIII, o imperador de Árcon, em situação normal não teria dado maior importância à mensagem. Tinha intimamente grande vontade de considerar aquilo como uma simples brincadeira, para, talvez mais tarde, quando lhe sobrasse tempo e dinheiro, mandar uma nave-patrulha para ver o que havia de verdade no comunicado. Mas, situações especiais exigem providências especiais. Gonozal VIII sabia que o Império Solar andava à procura de um inimigo, cujos rastros eram facilmente reconhecidos pelo fato de acontecerem coisas muito estranhas nos lugares por onde passava. E neste quadro, o telegrama da Gillaine tinha razão de ser.
O Imperador Gonozal se comunicou com a Terra. Pelo agradecimento sincero que recebeu por sua comunicação, era evidente que o caso parecia ser de alguma gravidade para os terranos.

* * *

O Major Ron Landry recebeu a fita magnética através de um mensageiro. Estranhou de fato que seu chefe Nike Quinto se correspondesse com ele desta forma. Mas já no início da fita, Quinto lhe explicava que tinha uma audiência importante no Palácio do Governo e que a urgência do assunto a que se referia a fita justificava este estranho meio de comunicação.
O resto da fita estava em código cifrado, para proteger seu conteúdo de ouvidos estranhos. Ron teve que usar seu aparelho de decodificação para entender a mensagem de seu chefe.
O que Nike Quinto disse o esclareceu em um relato sucinto sobre a série de hiper-rádios entre Árcon e a Terra. O apelo da Gillaine foi mencionado sem comentário. E Nike Quinto não deu a entender o que pensava sobre o assunto. Concluiu com as palavras:
Sobre Azgola e seus habitantes não há nada de importante para acrescentar. Procure um livro especializado sobre o assunto e vai saber de tudo. Para isto não vai precisar de nenhum aprendizado hipnótico. Meu Deus, nunca tivemos um planeta mais atrasado do que este. Não vá me perguntar como pôde acontecer uma coisa desta sem que as raças da Via Láctea o tenham sabido. Conforme os assentamentos dos arcônidas, faz onze anos que uma espaçonave esteve pela última vez em Azgola, naturalmente uma nave arcônida. Em Árcon não existem registros de aterrissagens de naves dos saltadores ou de outras raças. Sempre houve muito silêncio em torno de Azgola.
Você sabe como o negócio pode acabar. Os sacerdotes de Baalol já operaram muitos milagres no passado, desde plantas miraculosas e muito cheirosas até rãs encantadas. Não está, pois, excluído que atrás dos acontecimentos de Azgola estejam de novo os homens de Baalol. Temos que descobrir isto.
Pegue sua gente e siga para lá. Não perca mais nem um minuto. Uma nave especial já está preparada para você no espaçoporto de Terrânia e todos os preparativos já foram tomados.”
Ron estava querendo desligar o gravador, julgando que a mensagem de Nike Quinto já terminara. Mas antes de desligar o aparelho de decodificação, ouviu de novo a voz do chefe:
Faça um bom trabalho, major — gritou ele no seu vozeirão. — Se você me fizer passar vergonha, minha pressão sangüínea vai me matar.
Sorrindo, Ron desligou. Não havia nenhuma mensagem de Nike Quinto que não fizesse alusão à sua pressão alta.

* * *

Larry Randall parou o carro voador e virou a cabeça para trás.
Não pode ser este o aparelho que vou dirigir!
Ron Landry inclinou-se para frente, a fim de ver melhor através do pára-brisa.
Isto é um cargueiro! — disse para Larry. — Alguém lhe disse que viajaríamos num cargueiro?
Meech Hannigan, biorrobô, e Lofty Patterson não disseram nada. O quinto homem no carro era o Tenente Pauling, um jovem oficial designado diretamente por Nike Quinto, que levaria Ron Landry e sua gente para a espaçonave, já preparada à espera deles. Podia-se perceber que a situação não era muito agradável para o jovem tenente.
Sinto muito — interveio o tenente meio sem jeito — mas é esta a nave que, conforme as instruções do Coronel Quinto, foi preparada para a expedição.
Mas isto é um cargueiro — protestou Larry Randall. — Queremos chegar ao nosso objetivo o mais depressa e não ficar vendendo banana aí pelo caminho.
O Tenente Pauling calou-se, mais acanhado ainda.
Vamos dar uma olhada lá dentro — propôs Ron. — Às vezes as aparências enganam.
A escada já estava baixada. Era uma coisa antiga de degraus fixos, onde a gente tinha mesmo que usar os pés para se locomover. A nave era esférica, com um diâmetro que não ia além de cento e cinqüenta metros — sem dúvida um aparelho de construção particular e um dos menos modernos.
O Tenente Pauling foi o primeiro a saltar do deslizador. Postou-se ao lado da escada e fez a continência.
Recebi ordens de aguardá-los aqui embaixo — explicou ele.
Ron retribuiu a saudação e subiram os quatro sem se virarem para trás. Quando Pauling não o podia mais ouvir, Ron perguntou:
Qual é sua impressão, Meech?
Umas tantas coisas interessantes — respondeu Meech com sua voz de barítono, calma e compassada. — O conjunto de propulsão da nave deve ser, pelo menos, tão possante como o de um supercouraçado. Rente à carcaça externa, existem ainda outras fontes de energia e talvez postos de artilharia pesada, se meus instrumentos não me enganam...
Foi interrompido. Ron já havia entrado pela pequena abertura da escotilha de passageiros. No mesmo instante, soou o alto-falante, cortando ao meio a frase do bio-robô:
Nike Quinto para o Major Landry. Dirija-se imediatamente para o posto de comando.
Ron virou-se, e sorrindo olhou para Larry Randall que o seguia.
— “O homem da pressão alta” inventou uma outra surpresa.
Já do outro lado da escotilha interna, chegaram à conclusão de que, olhando a nave por fora, se enganaram redondamente. O corredor de acesso à galeria principal brilhava de limpeza. Uma rápida esteira transportadora o percorria de um extremo ao outro. Em espaços regulares, viam-se nas paredes tomadas embutidas do intercomunicador, que garantia uma comunicação perfeita e instantânea com toda a espaçonave. As portas nos corredores possuíam a moderníssima fechadura “Henderson” e alguns metros para a frente um letreiro avermelhado indicava: “Posto de Artilharia Pesada I, Convés E, Armas de Guerra.
Ron Landry pulou para a esteira transportadora.
Puxa! Desta vez, o velho não poupou nada, hein? — disse meio confuso.

* * *

Até o posto de comando não encontraram ninguém. Mas o posto de comando mesmo estava cheio de gente. Quando Ron abriu a porta, todos se afastaram para o lado e o cumprimentaram. Ron agradeceu sorrindo, enquanto olhava um por um, procurando encontrar alguém conhecido.
Um dos homens avançou dois passos.
Portava os galões de capitão, era jovem e Ron não o conhecia.
Frank Bell, senhor — apresentou-se ele. — Até poucos segundos, comandante desta nave. Estamos prontos para partir.
Um momento, por favor — disse Ron confuso. — Comandante até há poucos segundos? Quem é o comandante agora?
O senhor — disse Frank sorrindo.
Ron Landry ainda continuou confuso por um instante. Depois compreendeu que Nike Quinto não podia agir de outra maneira. Era ele, Ron, quem comandava a ação dos agentes e não podia ser subordinado a outrem.
Onde está o chefe? — perguntou Ron.
Não está a bordo, senhor. A voz que ouviu há pouco veio de uma fita magnética.
O senhor tem outras informações para mim?
Não diretamente, senhor. Há uma outra fita que tenho de lhe entregar. Nela, talvez, o senhor encontrará o que procura.
Ron recebeu a fita e a colocou no gravador. A mensagem não estava em código e Ron não se opôs que os oficiais reunidos no posto de comando ouvissem o que Nike Quinto tinha a lhe dizer. A comunicação foi curta e dizia o seguinte:
Aí está a espaçonave especial que lhe prometi, major. Está camuflada de cargueiro, possui, porém, todas as características de um couraçado. Sua tripulação é constituída de vinte e três oficiais e cento e trinta tripulantes. A nave e sua tripulação lhe está subordinada. No espaçoporto de Terrânia, julga-se a nave pelo que ela aparenta externamente: um simples cargueiro. Não temos nenhum motivo para anunciar aos quatro ventos que se trata de camuflagem, embora não creio que o nosso inimigo, se é que existe de fato um, poderia obter alguma informação exatamente do pessoal do nosso maior espaçoporto.
Queremos agir, porém, com toda cautela. Por este motivo é que você está recebendo um supercouraçado. Seu nome é Vondar, seu comandante é o Major Gerry Montini, que você já conhece. Montini tem instruções de, em caso de necessidade, seguir suas instruções. Até lá, ele permanece longe de você como também do inimigo.
Acho que não esquecemos nada. Parta imediatamente, mas não se esqueça de se despedir do homem lá fora que o trouxe para cá.”
Ron tinha que rir. Nike Quinto não era homem para esquecer nada. Estava pensando até no Tenente Pauling. Sem ser pedido, Larry Randall se encarregou de se despedir do Tenente Pauling.
Uma coisa não sei ainda — disse se dirigindo bem-humorado a Frank Bell. —
Qual será o nome verdadeiro dessa maravilha?
Creio que o nome já é em si um presságio. Chama-se Victory.

O espaçoporto de Timpik correspondia cem por cento à descrição que a Gillaine havia feito: vazio, em parte coberto de capim, com um vento constante a soprar.
Ron Landry teve a mesma impressão que Chuck Waller. Examinou o capim que crescia em trechos avulsos, espalhados a esmo, na superfície do antigo campo de pouso. Tentava calcular o período de tempo desde o qual o campo não era mais usado.
Chegou primeiro à conclusão de que o suposto capim era na realidade uma espécie desconhecida de musgo. E já que os musgos crescem mais rapidamente que os capins, a avaliação de tempo de Ron Landry foi menor que a de Chuck Waller. Conforme Ron, este musgo poderia ter germinado há poucas semanas, enquanto Chuck sugeria meses e mesmo anos.
Ron não se deteve no espaçoporto mais tempo do que era necessário. Sabia que as condições físicas e os dados do planeta Azgola não teriam se modificado essencialmente com relação aos dados dos catálogos dos arcônidas. A gravitação, o diâmetro, o tempo de rotação, o ano planetário e a inclinação axial eram os mesmos de sempre. Até a composição da atmosfera não se havia alterado ainda. O fato de o ar estar saturado de poeira fina não chamou a atenção de Ron. Poeira era um fenômeno que podia aparecer e desaparecer num minuto, dependendo da direção do vento.
Recomendou a Frank Bell que mantivesse a nave em condições de partir a qualquer momento e que conservasse a tripulação na maior calma possível. Somente se houvesse perigo iminente para a nave, é que se devia usar o rádio para pedir instruções. Ron desembarcou com seus três companheiros levando consigo um carro voador, para fazer uma visita à cidade de Timpik.
Timpik era a maior cidade dos azgônidas. Há vinte anos, sua população era de duzentos e cinqüenta mil habitantes. Ron pensava se realmente iria descobrir o que havia em Timpik, se é que de fato havia alguma coisa. Não perdeu tempo; ele mesmo pegou a direção do deslizador e foi a toda velocidade para a cidade, localizada na parte sul do espaçoporto.
Até o momento não tinha uma idéia do que esta missão significava para ele. Isto lhe era muito estranho. Desde suas últimas aventuras, estava muito consciente de possuir um sexto sentido para perigos e coisas desagradáveis. Nos mais diferentes pontos do espaço infinito, para onde o levava sua função na Divisão III do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, logo após sua aterrissagem sentia indícios palpáveis daquilo que o esperava.
Mas aqui não era assim. Tudo estava tão estranhamente calmo, nele e em volta dele, que sentia-se tentado a acreditar que dentro de duas horas estaria sentado na Victory, no caminho tranqüilo de volta para casa.
Mas este sentimento era enganador, como haveria logo de constatar...

* * *

Estavam voando sobre uma avenida larga e sem revestimento, que entrava diretamente na cidade. No horizonte surgiam as primeiras casas e não viram ainda nenhum ser vivo, nem mesmo qualquer meio de condução. Já na periferia da cidade, diminuiu a altura do vôo e fez com que o carro voador deslizasse por entre as casas antigas. Aproximavam-se de um cruzamento. Quando deixaram a linha das casas para trás e entraram no espaço livre do cruzamento, avistaram algo...
Estava no meio da rua. Era tão disforme, esponjoso, inchado e horrendo, tal qual Chuck Waller o descrevera. Mas não era assim tão asqueroso como fazia crer o relatório de Waller, caso se considerasse que afinal de contas não seria outra coisa do que um homem gordo, tremendamente doente.
Ron baixou o deslizador e o estacionou junto do cruzamento. Quando abriu a porta do veículo, aconteceu-lhe a mesma coisa que se dera com Chuck há uns dias atrás. O silêncio que pesava sobre a cidade, o silêncio de morte, o deixou desconcertado. Disse a Larry que permanecesse no carro, na direção, e se aproximou com Lofty e Meech do ser inanimado na rua.
Só depois de chegar a uns dois passos, foi que notou que o supergordo não estava sem vida. Milímetro por milímetro, puxava o joelho direito contra o ventre. Os braços, ele os tinha levado para frente, a fim de apoiar o corpanzil. E porque os músculos sem força não agüentavam o peso do corpo, apoiava também a cabeça no chão para soltar um pouco os braços. Curioso, Ron olhava como ele conseguia contrair o joelho até o estômago. Quando chegava a este ponto, dava um impulso com o pé esquerdo para trás, devagar e firme. E como o corpo era quase redondo, com o impulso rolava para frente, dando uma cambalhota, parando ofegante dois metros para diante, mais perto do meio-fio. Depois começava a agitar as mãos, tentando virar de novo de bruços. Ron compreendeu a técnica que usava para se locomover. O coitado não queria outra coisa senão atravessar a rua. Com seu corpo arredondado, não tinha outra opção do que dar uma cambalhota depois da outra.
A situação era cômica. Ron sentia vontade de rir, mas começou a olhar melhor, o gorducho. Completamente careca, com as roupas em péssimo estado, dava também a impressão de estar mal alimentado. A ausência de cabelo, porém, era uma das características dos azgônidas. O homem que rolava ali para atravessar a rua era um azgônida. Um representante da raça que nos velhos tempos era conhecida pela altura e magreza do seu corpo!
Acontecera, pois, alguma coisa no decorrer dos séculos e milênios. Algo que transformou homens altos e esbeltos em blocos de gordura.
Ron abaixou-se perto do gordo antes que este conseguisse rolar de novo. O azgônida notou sua presença. Seus olhos estavam quase encobertos por densas camadas de gordura.
Bom dia, meu amigo — cumprimentou-o, amigavelmente, na língua arcônida. — Se o senhor quiser, nós o ajudamos a chegar até o outro lado.
É muito difícil de se ler na fisionomia de uma pessoa de outra raça, e mais difícil ainda se os traços fisionômicos do estrangeiro estiverem ocultos sob camadas de gordura e seus músculos não tiverem mais elasticidade. Mas uma coisa Ron podia depreender: o homem prostrado ali no chão estava muito surpreso. E Ron podia imaginar o porquê: simplesmente por estar vendo seres humanos que não eram tão gordos como ele.
O azgônida queria levantar a cabeça, mas a tentativa foi em vão. Conseguiu apenas levantar a mão, fazendo um curto e fraco aceno, interpretado por Ron como um “sim”. Fez um sinal para Lofty e para o robô. Este último pegou o gorducho pelos pés, Ron e Lofty o agarraram por baixo dos braços. Mas mesmo assim não foi fácil erguê-lo do chão e transportá-lo para o outro lado da rua. Colocaram-no na calçada. Lofty e Ron estavam com seus rostos banhados de suor. É claro que Meech não sentia nenhum cansaço do grande esforço.
Ron tinha uma série de perguntas engatilhadas nos lábios, mas chegou à conclusão de que o homem à sua frente não era o indicado para lhe dar alguma informação.
Se o senhor agora, meu amigo, nos quiser fazer uma gentileza, diga-nos onde podemos achar o Palácio do Governo.
O azgônida levantou o braço e fez um movimento.
Segundo... cruzamento...! — soou a voz abafada pela gordura. — Sempre reto... até praça grande, à esquerda torre e...
Parou aí a explicação. A mão tombou sem força no chão e o gorducho fechou os olhos, parecendo ter perdido os sentidos com o esforço feito.
É suficiente isto — disse Ron. — Deve haver alguma inscrição no edifício público. Os azgônidas usam os caracteres arcônidas.
Voltaram para o carro voador.

* * *

A indicação estava exata. A segunda rua à esquerda era uma ampla avenida. As casas eram mais altas do que em outros pontos e a largura das faixas de rodagem chegava a trinta metros, verdadeira raridade em Azgola, onde eram usadas carruagens e automóveis muito velhos. Dois quilômetros mais para baixo, na direção sul, começava a grande praça de que falara o gordo e, à esquerda desta, havia um único edifício que merecia o nome de torre. Pararam o deslizador em frente.
Aos pés da torre havia uma grande escadaria com solene balaustrada enfeitada com figuras de animais.
Ron manteve o velho esquema: Larry Randall ficou no carro voador, de motor ligado. Ron, acompanhado de Lofty e de Meech, subiu a escadaria e entrou no edifício.
O grande portal no topo da escada não ofereceu maior dificuldade. Estalou e rangeu quando Ron fez força com os ombros, mas acabou descortinando um amplo saguão, meio na penumbra. Lá fora, a luz do sol formava um contraste tão grande com a semi-escuridão interior, que Ron teve que esperar alguns segundos para acostumar os olhos à pouca claridade. Meech e Lofty o seguiam com passos cautelosos.
Ron fez-lhes um sinal para que parassem. Ouvia o eco de seus passos nos fundos do edifício. Depois de parados, veio o silêncio, silêncio absoluto.
Ron continuou andando nas pontas dos pés, parando de novo no centro do saguão. Em três pontos diferentes da parede do grande recinto, subiam escadas atapetadas, escadas amplas em caracol. No chão, diante dele, a camada de poeira era tão grossa como no corrimão das escadas e nos tapetes, aparentemente caros. À esquerda do portal de entrada, havia uma espécie de cabina de vidro. Quem sabe ali ficava antigamente um porteiro ou pessoa para dar informações? Agora, tudo vazio e empoeirado.
Ron inclinou a cabeça para trás, levou as mãos em concha na boca e gritou. Foi propriamente um berro, que não tinha outra intenção a não ser produzir um som bem forte, que subiu para os andares superiores da torre e voltou num eco assombroso.
Fora disso, não houve nada. Nenhuma porta bateu, nem se ouviram passos. A torre estava vazia e morta, como toda a cidade. Talvez, como todo o planeta!
Ron virou-se para trás.
Não há jeito, mesmo. Temos que revirar tudo. Em algum lugar, eles devem ter ficado. Meech, você sente alguma coisa suspeita?
Não, senhor, nada. Tudo está bem calmo.
É, é a impressão que eu tenho também.
Então?
Ron enveredou por uma das escadas cm caracol. Pôde ver ainda de fora que a torre tinha, pelo menos, trinta andares. No tempo da máquina a vapor, não havia ainda elevadores. Pelo menos não nos edifícios de mais de seis andares.
Em cima, no primeiro andar, a escada acabava num corredor largo, que no topo da escada unia os dois lances. Lembrou-se de que, fora desta escada, havia mais duas. A construção interna da torre parecia bem complicada. Já no primeiro piso, Ron não sabia onde procurar as saídas das outras duas escadas.
Virou-se para Meech, que era excelente matemático:
Onde vão sair as outras duas escadas?
Mais ou menos ali e ali — disse, apontando os dois pontos à direita e na frente. — Naturalmente, não neste corredor, senhor.
Quer dizer que há então andares intermediários, não é?
Muito provavelmente, senhor. Procurou, então, calcular o número de portas existentes nas paredes dos dois corredores.
Existem aqui cinqüenta aposentos e, no outro lado, mais um tanto. Ao todo cem. Suponhamos que nas demais escadas o fato se repita e nos outros andares a coisa seja a mesma. Isto dá para cada escada mais cem aposentos. Portanto, trezentos por andar. Com trinta andares, teremos nove mil quartos. Quanto tempo gastaremos para percorrer todos, Lofty?
O velho colonizador coçou a barba.
Eu diria dois dias — respondeu depois de pequena pausa. — Mas, que negócio é este!? Deverá existir aqui telefone ou qualquer outro tipo de comunicação.
Podemos procurá-los — disse Ron. — Mas mesmo que consigamos fazê-los funcionar, se os azgônidas forem todos como o gorducho lá da rua, ninguém responderá. Não conseguirão nem pegar num fone.
Lofty concordou de fisionomia triste e olhou em volta.
Proporia que antes de tudo procurássemos por rastros — foi a sugestão de Meech. — É mais fácil encontrarmos alguém num andar onde haja rastros, do que nos outros onde a camada de poeira esteja intacta.
Ron olhou para ele admirado.
Com todos os diabos da Lua... você tem razão, Meech!
Com novo ânimo, ia subindo para o próximo andar, mas parou no primeiro degrau, quando se deu o inesperado.
Do alto da torre veio um grito, fino, fraco, mas nitidamente perceptível. Ron espantou-se. Depois deu um pulo para o lado, inclinou-se sobre o corrimão, procurando enxergar alguma coisa na interminável escadaria. Bem no alto, no lusco-fusco, brilhava uma mancha clara de um rosto... e uma voz gritou:
Venham cá para cima, depressa!

* * *

Larry Randall continuava olhando reto para a rua batida de sol incandescente, sem mexer a cabeça, até que os olhos começaram a arder. Encostou-se no assento do motorista e tentou descansar a vista, olhando para o teto escuro do deslizador.
O calor era insuportável e Larry estava exausto. Tinha visto o azgônida de longe e não acreditava em perigo, se os azgônidas fossem todos tão gordos como aquele. Não podiam nem se levantar. E, além disso, por que motivo haveriam de atacar? Ninguém lhes fizera mal.
Mais tranqüilizado, Larry se refestelou mais ainda na poltrona, esticou as pernas, deixando que o calor e o cansaço o envolvessem.
De repente uma grande sombra percorreu a rua.
Larry levou um susto. E tentou vê-la de novo. Mas já não havia o menor sinal de sombra. Esticou a cabeça para fora da janela lateral e olhou para cima. O céu, de um azul leitoso, continuava o mesmo. Porém ele tinha plena certeza do movimento de uma sombra.
Não quis perder mais tempo com o assunto, isto é, se a sombra significava ou não algum perigo. Olhou em volta e percebeu que seu deslizador, em caso de um ataque, achava-se em posição muito desfavorável. Estava completamente exposto em três lados, sendo que só o flanco esquerdo estava coberto pela construção bombástica do patamar da escadaria.
Larry ergueu o carro voador e foi voando lentamente sobre a calçada. No flanco norte da torre, entre a torre e o próximo edifício, havia uma entrada estreita e ensombreada. Não tinha mais de quatro metros de amplitude. Atrás se levantava uma parede que chegava até o quinto andar da torre.
Com muita cautela, manobrou o veículo para dentro daquele poço, com a proa para a frente, não se esquecendo de olhar constantemente para cima e para a rua embaixo. Até que pousou exatamente como planejara, sem nenhum incidente. Ficou na incerteza se devia ou não avisar Ron do ocorrido. Seu transmissor de pulso o punha em contato não apenas com a Victory, mas também com ele. Bastar-lhe-iam duas palavras e Ron voltaria.
Mas, afinal de contas, a sombra poderia ter sido mera ilusão e por isso resolveu nada dizer. Se fosse mesmo coisa séria, daria conhecimento imediato a Ron. Seria o suficiente para sua segurança.
Recostou-se de novo na poltrona, evitando, desta vez, pegar no sono.

* * *

Às quinze horas e treze minutos, hora de bordo, a Victory registrou um rádio de hiperondas. Para Frank Bell e sua gente, isto foi uma grande sensação. Considerando que os azgônidas ainda viviam na época da máquina a vapor, não iriam conhecer nenhum hiper-rádio, nem mesmo o rádio comum eletromagnético. Se o impulso vinha de Azgola, era um sinal evidente de que havia aqui outra gente.
O impulso não tivera a duração nem de um microssegundo. Para a antena esférica, não teria sido suficiente nem para deixar um sinal qualquer para orientação. Frank resolveu esperar. Avisaria Ron somente quando o caso se repetisse. Por enquanto não havia motivo de alarma.

Com incrível rapidez, Ron contou o número de andares até onde surgira o rosto. Foram dezesseis e queria confirmar, quando a mancha branca desapareceu.
Mas estava crente de que o estranho tinha deixado rastros que lhe indicassem o caminho. Em poucas palavras explicou a Lofty e a Meech o que vira e começou a subida. Em pouco tempo o biorrobô passou à frente dele. Com sua força que não conhecia cansaço, ia ele degrau por degrau, sempre olhando para frente. Ron não tinha nada contra o fato de o biorrobô ir à sua frente.
Quem sabe até fosse melhor que um biorrobô de pensamento rápido caminhasse à frente dele, principalmente em caso de se tratar de uma armadilha? Ron passou a ir mais devagar ainda, a fim de não deixar o velho Lofty muito para trás.
Quando Meech lhes fez um sinal do décimo andar, estavam ainda no sétimo, iniciando o oitavo.
De repente o chão começou a tremer e, segundos depois, reboou o terrível trovão de uma forte explosão pela cidade.

* * *

Chegaram sem ninguém saber como. Caíram simplesmente de cima, não se sabe de onde.
A princípio, Larry julgou tratar-se de grandes aves que saltavam do alto da torre para iniciarem o vôo. Não voavam, porém, caíam simplesmente. E não vinham do terraço da torre, mas do telhado do edifício vizinho, que não tinha nem a metade da altura da torre. Precipitaram-se em queda vertical, até quase o nível da rua, brecando de repente. Aí foi que Larry notou o tipo de sua construção. Eram dois carros voadores, maiores do que o seu, porém, com uma estranha carroceria. Através das janelas laterais, viu de relance cabeças humanas.
Inclinou-se para frente e, com um soco numa alavanca, deixou as bocas-de-fogo em estado de o defender. Conscientizou-se, então, de que fora um erro grave não ter informado Ron sobre a sombra suspeita. A sombra devia ser um dos dois carros voadores ou os dois juntos.
Os dois flutuadores ou deslizadores lançaram-se na direção da escadaria. O primeiro deles, na sua aterrissagem, ainda subiu dois ou três degraus. O outro parou sobre a rua, um metro acima do chão. Larry percebeu o que pretendiam. Ali, diante da escadaria, estivera seu carro, há menos de dois minutos. Viram-no quando chegaram e combinaram pegá-lo lá embaixo, certos de sua boa presa. Quando os dois deslizadores vieram lentamente sobre a rua, para atirarem no esconderijo onde estava seu aparelho, Larry já tinha saído. Estava vendo agora os canos das armas do inimigo e compreendeu do que se tratava.
Antes que o inimigo pudesse fazer o primeiro disparo, os raios térmicos de Larry varreram o espaço num jato energético de grande intensidade. O impacto foi tão violento nas laterais do deslizador que o elevou, atirando-o de encontro às casas. Larry fez um segundo disparo, atingindo desta vez o deslizador inimigo pela frente, fazendo-o girar doidamente como num carrossel, e indo parar no meio da praça.
Concentrou, então, sua atenção no segundo aparelho.
De cada lado tinha uma porta aberta, e dez ou doze homens de ombros largos e esbeltos estavam de pé na escadaria, com as armas apontadas para o aparelho de Larry, mas aparentemente indecisos.
Larry sabia que estava encurralado numa perigosa armadilha. A abertura para cima era por demais estreita e não podia manobrar o deslizador. As armas só podiam ser manejadas do banco de trás. Mesmo se passasse para o banco traseiro, ainda lá continuaria numa situação difícil, se um dos dez homens atirasse melhor do que ele. Não tinha tempo a perder. Com a mão direita segurou o desintegrador pesado que estava a seu lado, entre os dois assentos da frente. Com a mão esquerda empurrou a porta. Quando ela se abriu, deixou-se cair para a esquerda e rolou para fora do carro.
Estava, agora, protegido pela parede da torre. Durante algum tempo, esperou em vão que alguém atirasse no seu deslizador. Se o fizessem com armas térmicas, seu esconderijo ficaria muito quente. Tinha que sair dali. Se começasse a atirar antes de abandonar o esconderijo, poderia mantê-los bloqueados.
Entre a porta lateral esquerda do carro voador e o paredão da torre, o espaço não chegava a um metro. Larry foi empurrando o desintegrador. O cano metálico da arma bateu em alguma coisa, produzindo um som mais forte. Esticou-se no chão e ficou imóvel. Mas nada se mexeu.
Somente quando ele, com todo o cuidado, quis empurrar para frente o cano, passando pelo canto do paredão, ouviu um leve zumbido. Sabia do que se tratava. Saiu rapidamente de trás do paredão e viu como o carro voador, parado junto às escadarias, se projetou com toda velocidade através da praça. Enquanto ganhava altura em vôo oblíquo, Larry conseguiu ver que dentro do aparelho só havia um homem.
Desistiu, pois, de atirar nele, contentando-se com o fato de o inimigo ter fugido.
Do outro lado da praça, o aparelho seriamente atingido não conseguia se equilibrar, mas saiu voando assim mesmo e tomou o rumo sul.
Larry se levantou. Fora o piloto que fugira com o primeiro aparelho, não se via mais sinal dos dez restantes. Larry se manteve escondido bem rente ao paredão da escadaria. Ergueu o braço para pôr em funcionamento o pequeno transmissor de pulso. Ouviu então, pela primeira vez, o ronco vibrante que provavelmente já enchia o ar há mais tempo. Ficou realmente impressionado. O ronco vinha da direção norte. E no Norte é que estava o espaçoporto. Que estaria acontecendo com a Victory?
Do receptor, veio a voz de Ron Landry:
Que está acontecendo aí fora?
Estamos sendo atacados por estranhos em dois carros voadores. E algo acontece também no espaçoporto.
Ouvi o barulho. Mas com você aí, como vai a situação?
Os dois deslizadores inimigos já se foram, mas, pelo menos, dez ou onze homens desceram antes e desapareceram por aí.
Você vai agüentar aí sozinho?
Se os inimigos não vierem de novo, não será difícil.
De repente lembrou-se de algo importante. Os inimigos entraram na cidade com muita determinação. Sabiam onde procurar seus adversários. Um outro destacamento devia ter atacado simultaneamente a nave terrana Victory. O golpe foi muito bem preparado. Os azgônidas sabiam com exatidão que Ron e seus homens se achavam no Palácio do Governo. Então...!
Ron — gritou ele, como um desesperado — eles devem estar escondidos na torre, preste atenção.

* * *

O primeiro tiro veio de surpresa. Frank Bell estava ainda com uma caneca de café na mão. De súbito o chão lhe sumiu de sob seus pés e ele caiu para frente. Reboou no ar um horrendo trovão e a grande nave balançou. De um dos painéis desprendeu-se um instrumento batendo com muito estrépito no chão.
Depois, reinou o silêncio e Frank se levantou. Em torno dele, no chão, estavam deitados dois oficiais que o olhavam atônitos. Uma voz fria e mecânica falava nos alto-falantes:
Disparo contra o convés norte F foi amortecido sem danos pelo envoltório de proteção. Solicitação do envoltório: cinco por cento. O disparo inimigo foi um foguete teledirigido de raios térmicos. Fim.
Frank se virou e com dois passos chegou até a poltrona do piloto.
A postos, meus senhores! — ordenou ele.
Atrás dele, acendeu-se a luz vermelha do intercomunicador. Frank ouviu a voz do oficial de radiotelegrafia:
Não temos idéia de quem é o inimigo, Frank. O primeiro foguete veio e alguns outros estão a caminho.
Quantos?
Contamos vinte e seis, Frank. A cada momento podem surgir mais. Você ouviu a mensagem do robô? Que pretende fazer?
Frank não teve que pensar muito. Uma única explosão já solicitara cinco por cento da resistência do envoltório. Vinte e seis foguetes estavam a caminho e eram dirigidos.
O inimigo podia pará-los até que todos se reunissem, para explodi-los de uma só vez contra a Victory. Vinte e seis vezes cinco dá cento e trinta por cento. O envoltório seria destruído e isto significaria o fim da Victory.
Precisamos de uma orientação de Ron Landry — disse Frank, desligando.
Queria se pôr em contato com Ron, mas mal havia ligado o transmissor de pulso, explodiu o segundo petardo. O envoltório de proteção suportou com facilidade, absorvendo a maior parte da força da explosão e do impulso do petardo. O restante irrompeu em ondas de trepidação por toda a nave. A Victory balançou como se fosse um pequeno aparelho, enquanto o material das paredes externas e internas rangia e estalava. Quando o barulho diminuía por alguns segundos, vinha a voz metálica do robô, dando sempre os últimos resultados.
Desanimado e furioso, Frank Bell parecia não ter forças para reagir e por algum tempo se entregou ao destino da espaçonave, estremecendo e balançando de um canto para o outro. Procurou compreender o que estava acontecendo, quem era o inimigo e por que motivo atacava assim tão violentamente a nave terrana. Até que finalmente ouviu a voz de seu radiotelegrafista. Tentou ficar de pé, apoiando-se com os braços, e olhou para a poltrona do piloto.
Viu na pequena tela o rosto desfigurado do seu telegrafista, não conseguindo ouvir tudo que estava gritando. Mas algumas palavras já lhe foram suficientes:
...um pacote de vinte e dois, quase que amarrados uns aos outros...
Frank rolou de lado. Um foguete explodiu, levantando o piso do posto de comando e jogando-o de encontro à série de instrumentos positrônicos de direção, na parede. Por um momento, não sabia o que fazer. Depois percebeu que fora jogado exatamente na direção certa. Sob um dos pontos da sala de comando havia um nicho, verdadeiro abrigo. Os homens que ali operavam estavam sentados diante da mesa de controle, como se fosse esta uma mesa de escritório. Frank se meteu neste nicho, curvando-se todo, mas quando se encaixou bem lá dentro, sentia-se tão bem protegido nas costas, nos ombros e nas pernas, que nenhum estremeção o afetaria.
Sem perder tempo, ligou imediatamente o transmissor de pulso e exclamou:
Victory para o chefe! Victory para o chefe! Estamos sob forte bombardeio.

* * *

Ron viu-os chegando. Botara a cabeça um pouco para fora do parapeito da escada e, ainda antes de retirá-la, flamejou embaixo um feixe de raios energéticos incandescentes, passando rente ao seu rosto. O jato destruidor foi parar no teto da escadaria. Alguma coisa enorme se despencou de lá e num ruído cavernoso foi de encontro ao andar térreo. Era um bloco gigantesco de alvenaria.
Pôde ver com nitidez um dos inimigos, alto e gordo, quase tão gordo como o azgônida que encontraram no cruzamento das ruas. Estava tentando subir pela escada, o que lhe era naturalmente muito difícil. De qualquer maneira era cem vezes mais ágil que o gorduchão lá da rua, que transportaram para a calçada oposta.
O chefe não estava acreditando se tratar de azgônidas. Se o planeta inteiro estava sendo vítima da praga daquela “engorda” estúpida, por que os lá de baixo estavam escapando desta regra? Não, deviam ser estrangeiros.
Estrangeiros de onde?
Ron esqueceu o homem que os esperava lá em cima. Os de baixo eram mais importantes.
Mandou que Lofty o esperasse aos pés do décimo primeiro andar. A balaustrada lhe dava excelente cobertura. Com a arma na mão, dominava dali plenamente a escada até a curva do décimo andar, que lhe cortava a visão.
Ele mesmo, Ron, começou a descer. Sobre Meech, não tinha nenhuma preocupação. O robô tinha o mais lógico de todos os cérebros. Sabia tomar suas decisões. Olhou demoradamente para cima, mas de Meech não havia nenhum sinal.
Um dos adversários estava entre o terceiro e o quarto andar. Com aquele peso todo, não teria ido muito além, até que Ron cortasse sua subida. Confiando nisto, Ron desceu as escadas, pulando de três em três degraus, bem rente à parede externa, pelo menos enquanto a distância fosse grande.
Fora das batidas ocas de suas botas, a grande escadaria mantinha o silêncio sepulcral.
No sétimo, parou. Comprimiu-se atrás da pilastra de sustentação da pesada balaustrada e ficou na escuta. Abaixo dele, era uma babel de ruídos, respirar ofegante e conversa mais alta. Deu-lhe a impressão de que os inimigos não chegavam a um acordo sobre o que deviam fazer primeiro. E esta incerteza deles vinha lhe dar uma chance. Se caísse de repente em cima deles, certamente haveria de deixar fora de combate um bom número, antes de se recuperarem da surpresa.
Deviam tê-lo ouvido quando desceu as escadas aos pulos. Tinha que se mover, agora, sem nenhum ruído. Isto os convenceria de que estava ainda dois ou três andares acima deles, esperando por eles. Desta vez, manteve-se no centro da escada. A parede externa não era mais tão segura, pois, lá de baixo podia ser vista. Com a arma firme na mão, descia degrau por degrau. O vozerio e a respiração ofegante aumentavam: não podiam estar mais longe do que andar e meio. É pena que não entendesse a linguagem deles. Talvez pudesse chegar a uma conclusão sobre quem eram.
Já tinha deixado atrás de si a metade da escada entre o sétimo e sexto andar, quando ouviu um ruído. Rolou instintivamente para o lado, batendo com o ombro na parede externa. Abaixo dele, no nível do sexto andar, estava um dos estranhos. Levantou-se atrás do balaústre, com a pesada arma virada para Ron. Este deu um grito e tombou ruidosamente pela escada.

* * *

Meech compreendeu a nova situação e tirou dela todas as conseqüências possíveis em menos de um milésimo de segundo. Havia captado a conversa entre Ron e Larry, pelo seu aparelho de pulso. Observou o tiro que passou rente à cabeça de Ron, fazendo suas deduções quanto à arma utilizada. Devia ser um fuzil de raios térmicos, pesado, automático, do tipo que um terrano bem desenvolvido mal pode segurar.
O biorrobô observou um dos estranhos; era disformemente gordo e muito pesadão. Assim como parecia ser, não teria nenhuma chance diante de um terrano. Mesmo a vantagem numérica não lhe adiantaria muito.
Meech chegou à conclusão de que o inimigo estava consciente de sua inferioridade. Agora, se apesar de saber disso, continuava no seu ataque, é porque estava confiante em algum truque.
Meech não conseguia atinar qual seria esse truque. Para isso tinha que conhecer as intenções dos estranhos. Mas ele podia fazer uma coisa, a fim de impedir a concretização do truque.
E imediatamente se pôs a caminho. Do sopé da escada, penetrou no lado direito do corredor. Foi abrindo uma porta atrás da outra e inspecionando todos os aposentos em volta. Não ficou surpreendido ao ver que alguns deles não estavam tão vazios, como o pesado silêncio fazia crer ali na torre. Em móveis baixos, imitando um sofá ou mesmo diretamente no chão, estavam ali deitados os corpos disformes, inchados, dos azgônidas. Não deram ao biorrobô a menor atenção. Antes que conseguissem virar a cabeça para vê-lo, ele já havia saído do ambiente, fechando a porta.
A objetividade de sua mente lógica recusava-se a pensar na presença dos azgônidas. Não queria saber por que ali estavam e por que não se manifestavam ou ainda por que não iam para casa ou faziam outra coisa. Sua única programação era preocupar-se com o estranho inimigo.
Atrás da vigésima quinta porta encontrou o que procurava. O recinto estava vazio, isto é, havia apenas a poeira no chão e uma estreita escadinha lá nos fundos que conduzia tanto para cima como para baixo. Sem hesitar, desceu pela escadinha, que terminava também num aposento vazio e pequeno. Quando abriu a porta, achou-se diante de um corredor que ainda não tinha visto. Percebeu logo que se encontrava num dos andares intermediários, ligado com o andar térreo pelas duas escadas principais.
Tomou a esquerda e, poucos segundos após, estava no patamar da escada principal. Rapidamente, mas sem fazer o menor ruído, iniciou a descida.

* * *

Ron não voltou a si. Parede, degraus da escada e balaustrada giravam diante de seus olhos enquanto caía. Por uma fração de segundo, passou-lhe pela mente o grande e gordo desconhecido. Mais do que depressa empurrou para frente a mão com a arma e atirou.
Um grito furioso foi a resposta. A queda de Ron chegou ao fim. Atingiu o último degrau da escada. Queria levantar-se, mas a visão das enormes botas, que surgiam a poucos centímetros dele, o congelou no lugar onde estava.
Olhava hipnotizado para elas, sem poder ver o lugar onde as pernas gigantescas emergiam das botas do estranho. Nem mesmo o conseguia ver, apesar de ele estar ali a seu lado, deitado de bruços. Sabia, porém, que ainda estava com a arma na mão e que podia atirar a qualquer instante. Ron retesou os músculos, como se com isso pudesse resistir a algum disparo.
Reparou, então, que a bota dobrava lentamente para trás e a parte superior da sola se levantava do chão. Ouviu um profundo gemido e as botas caíram de novo, produzindo um baque surdo. Ron virou-se rápido para o lado. Por um momento acreditou que o estranho se lançava contra ele, mas como nada aconteceu, levantou-se e viu o inimigo disforme esparramado no chão de olhos fechados.
Ron compreendeu que o tiro disparado por acaso durante a queda o atingira e o deixara inconsciente.
Respirou aliviado e acabou de se levantar.
No mesmo instante, ouviu o sinal no rádio de pulso. Ligou-o e a voz de Frank Bell se fez escutar, tendo como fundo constante uma sucessão de explosões.
...sob pesado bombardeio. Não conseguimos mais agüentar, senhor. Um grande número de foguetes converge para a nave. Se explodirem todos ao mesmo tempo, estamos perdidos.
A situação estava mais do que clara e Ron não perdeu tempo em tomar sua resolução.
Levante vôo imediatamente, Frank, compreendeu?
Compreendi. Fim — respondeu Frank.
Ron desligou o pequeno aparelho e olhou para cima. Por cinco ou seis segundos perdera o contato com o ambiente onde estava. Deu uns passos para o lado e olhou escada abaixo, para o quinto andar. Antes de ouvir o forte resfolegar dos “gorduchos”, viu a sombra que se projetava nos degraus.
Jogou-se para frente, para se proteger. A sombra se movia lenta para a esquerda. Segundos depois, surgiu o vulto volumoso que a produzia. Apoiando-se nos grossos braços, a enorme figura olhou escada acima. Ron engatilhou a arma. Não tinha intenção de matar o estranho, queria deixá-lo subir e fazer com que caísse vivo em suas mãos.
Mas o gorducho colocou o cano da arma pesada na quina do degrau, fez pontaria para o alto da escada e atirou. O tiro passou longe de Ron, mas produziu na parede atrás dele um rombo profundo. O material da construção começou a ferver, escorrendo logo uma massa branca que pingava no chão chiando. Densa nuvem de fumaça se elevou, escondendo a cena. Ron tossiu.
Isto deu ao inimigo um novo alvo. Através da nuvem esbranquiçada, Ron viu indistintamente como ele puxou mais para a direita o cano da arma. Não tinha outra opção, pulou para o lado para ter melhor visão e apertou o gatilho de sua pequena pistola. Um raio fino e branco atingiu o gorducho, levantou-o e o jogou para trás.
Mas a vitória de Ron durou muito pouco, pois logo percebeu que caíra numa cilada. Simultaneamente, quatro feixes de raios da espessura de um braço o mantiveram imóvel, num círculo de fogo. Um calor bárbaro o acometeu. Embora os raios não o atingissem diretamente, o teto começou a fundir, desprendendo uma massa incandescente sobre ele. Ergueu os braços para proteger a cabeça. Meio tonto, cambaleou para o lado, onde a balaustrada lhe servia de abrigo, principalmente devido à terrível fumaça de seus disparos.
Passaram, então, para outra tática. Duas de suas armas desfechavam raios rente ao parapeito da balaustrada, enquanto as outras duas faziam derreter a própria balaustrada no fim da escada. O coitado percebeu que assim lhe tolhiam toda saída. Os estranhos precisavam apenas esperar que os gases venenosos da cal o deixassem inconsciente.
O calor sufocante fazia-o suar por todos os poros, banhando-lhe e queimando-lhe os olhos. Os pulmões lhe doíam ao respirar. Não ia agüentar muito tempo, se Meech ou Lofty não lhe viessem em socorro...

* * *

Meech não contara em encontrar um adversário nesta escada. Mas quando o viu, sua reação foi muito mais rápida que a dos estranhos. Levantou o braço e de um de seus dedos jorrou um feixe de ondas invisíveis de um vasto campo de choque. O gorducho deu um grito lancinante e caiu. Não se moveu mais. Ficaria ali inerte, pelo menos por duas horas.
Tiveram o mesmo pensamento que ele. Pretendiam prendê-lo num cerco perfeito. Sua única desvantagem era-lhes o peso descomunal. Provavelmente havia ali com o gorducho abatido pelos choques um outro adversário subindo a escada. Meech guardou isso na memória e propôs segui-lo, assim que acabasse de socorrer Ron e Lofty.
Ouvia os estampidos e a trepidação dos tiros, na outra escadaria. Com uma agilidade que ninguém suporia num pesado corpo metálico, desceu as escadas pulando vários degraus, até chegar ao térreo, exatamente no momento em que Ron Landry suportava um fogo cruzado de quatro armas simultâneas. Compreendeu logo a situação, mas o ponto onde estava era totalmente desfavorável para atirar. Teria que voltar um pouco atrás, se quisesse intervir com sucesso. Frio, com uma calma robotizada, subiu de volta uns degraus.
No caminho para o quinto andar, Meech viu que o trecho da escada, onde se concentrava o fogo cruzado, não haveria de agüentar mais tempo. Alguns degraus mais e o biorrobô tinha o grupo dos estranhos bem à frente dele. Não notaram sua presença e continuaram com a descarga das pesadas armas dirigidas para cima, a fim de destruir o trecho da escada.
Meech atirou na hora, atingindo em cheio o primeiro adversário com os raios paralisantes. Os outros três notaram algo de estranho e viraram para trás. Na sua pesada morosidade, não eram adversários para o ágil biorrobô. Antes de completarem a meia-volta, com as armas pesadas na mão, já estavam inconscientes.
Por alguns instantes, as figuras volumosas dos três inimigos se mantiveram de pé, como que pensativas, de olhos arregalados. Depois se desmontaram completamente. Uma automática pesada caiu aos pés de Meech. Como se fosse um brinquedo de criança, ele a levantou.
Ron! — gritou para cima.
Ron se apresentou, mas o que sua garganta sufocada disse, Meech não entendeu.
Corra para cima, senhor, depressa! O trecho da escada onde está vai desmonorar. Eu subo por outra escada.
Tinha que se desviar para o lado. A última coluna da balaustrada tombou para frente, arrastando um grande bloco de pedra do piso da escada. A argamassa começou a estalar e a rebentar. Mais uns segundos e...
Corra, senhor! — gritou o biorrobô.

* * *

Como que através de um tubo muito comprido e fino, Ron ouviu a advertência do biorrobô. Estava sentado no meio do degrau, com o cotovelo direito apoiado no chão. Reparou então que ninguém mais atirava.
Que aconteceu? — balbuciou.
Levantou-se com dificuldade. As articulações lhe doíam e a respiração lhe era difícil. Queria responder a Meech, mas de sua garganta não saía som direito.
Meech disse-lhe para subir. Por quê? Notou de repente que o chão a seus pés tremia. Recuou e viu a última coluna da balaustrada se desprender e cair, abrindo uma grande fissura no chão. Compreendeu, então, o que se passava. O prolongado fogo cruzado dissolvera a argamassa. O chão onde estava podia se diluir a qualquer momento em fina poeira e desabar por completo.
Começou a correr. A cada passada, sentia como se alguém lhe estivesse metendo uma agulha incandescente na sola do pé. Deu um pulo pequeno, quase sem força, sobre o piso em brasa, que se estendia oblíquo na extremidade esquerda do lance de escada. Sem olhar para trás, continuou escada acima. Olhou para o alto e teve a impressão de que seria impossível subir mais do que um ou dois andares.
Mas, acima dele, estava Lofty Patterson, gesticulando e dizendo alguma coisa. Não entendeu nada. Viu apenas como ao lado de Lofty surgia o oval branco de um rosto estranho, que já vira antes daquela total confusão.
Neste momento, desmoronou atrás dele o trecho da escada. Ron ficou parado, de respiração presa, como que petrificado. A massa bruta rolava num estrondo infernal, caindo nos andares de baixo. A parede não agüentou o impacto e começou a trincar, cedendo uma boa parte. Por alguns minutos, a possante escadaria se encheu de um barulho ensurdecedor. Lá embaixo, no saguão de entrada da grande torre, avolumava-se o monte de argamassa e pedra esfumegante. No meio daquele entulho todo, jaziam os estranhos que, pelas próprias mãos, provocaram a própria desgraça. Abaixo do ponto onde estava Ron, a soberba escadaria se escancarava num poço de ruínas.
Onde estava Meech?
Por um instante Ron temeu pela sorte do biorrobô. Estava em qualquer lugar lá embaixo, quando lhe gritou que fugisse. Parecia impossível a Ron que ele tivesse tido tempo de descer até o térreo e subir por uma outra escada. Talvez estivesse sepultado com os inimigos no entulho da escada destruída. E cinco toneladas de reboco e pedra contra o peito, mesmo de um ser como Meech, não era brincadeira.
Ia ligar seu transmissor de pulso para chamar Meech e tirar todas as dúvidas. Mas a escada começou a tremer sob seus pés. Uma pedra desprendeu-se. Ron compreendeu, então, que o restante da escadaria perdera a estabilidade. Se continuasse mais tempo parado ali, despencaria contra o chão do andar térreo, como os estranhos, talvez também como Meech.
Continuou subindo, amparando-se nos balaustres. Ao olhar para cima, continuou vendo Lofty e o desconhecido ainda no parapeito da escada, de pé, acenando para ele. Não sabia o que queriam.
Atrás dele, despencou mais um trecho da escada, aumentando o já volumoso entulho. Caso não se apressasse, seria também levado pelo desmoronamento progressivo. Procurou tirar de seu cansado organismo o resto de força que ainda havia nele. Isto o ajudou um pouco. Somente quando já estava entre o sétimo e o oitavo, foi que desmoronou o trecho entre o sexto e o sétimo. Continuou desesperado escada acima, vendo as trincas nas paredes, demonstrando em que situação estaria todo o edifício da torre em poucos minutos. Tudo viria abaixo.
Foi então que percebeu o que pretendiam Lofty e o desconhecido. Não havia mais nenhuma possibilidade de escaparem da catástrofe. O caminho para baixo estava cortado. Quem poderia dizer como era a situação nas outras escadarias? Tudo para eles dependia de uma sorte muito grande, sorte tão duvidosa que dava medo de pensar.
Ron parou de novo, embora soubesse que o tempo perdido lhe podia custar a vida. Mas sua vida já estava mesmo perdida, se não encontrasse Larry. Apertou o botão do pequeno aparelho e ligou o código de Larry. Foi um verdadeiro alívio quando ouviu a voz do colega.
Pegue o deslizador, Larry — disse ofegante. — Suba vertical na rua atrás da torre. Em algum lugar, entre o décimo e vigésimo andar, você vai nos ver em alguma janela. Aproxime-se o mais que puder para nos apanhar. Entendido?
Entendido — respondeu.
Ron continuou correndo para cima, com a regularidade de uma máquina.

* * *

Larry estava tentando entrar na torre, quando ouviu o ribombar dos disparos energéticos. Encontrava-se nos primeiros degraus da escadaria, quando lhe acudiu à mente que fora imprudência abandonar o posto lá fora na rua. Viu quando a Victory desapareceu no céu como um pontinho luminoso e sabia agora que, pelo menos por um tempo indeterminado, só podiam contar com os próprios recursos.
Tinha que voltar para a rua, por mais que a impaciência o impelisse a tentar fazer coisa diferente. Lá fora reinava calma. Não podia fazer outra coisa do que se proteger e aguardar os acontecimentos.
Cessou de repente, lá dos lados do norte, o ribombar contínuo dos foguetes teleguiados. O inimigo reconheceu que a espaçonave dos terranos escapulira e interrompeu o pesado bombardeio.
Nesta hora chegou o pedido de socorro de Ron Landry. Larry Randall não tinha a menor idéia do que se tratava. Entrou no carro voador e num instante o tirou do esconderijo e, de acordo com as instruções de Ron, foi para a frente da rua da torre e começou a subir, olhando sempre pelo vidro do pára-brisa, para ver em que janela estariam Ron, Lofty e o biorrobô.
Passaram-se alguns minutos, sem que nada acontecesse. Larry flutuava de um lado para o outro, entre o décimo e o vigésimo andar. Até que afinal, deslizando bem junto da parede, percebeu um relevo diferente na regularidade monótona da construção. A irregularidade era ã cabeça de Ron. Viu também um braço que se agitava de um lado para o outro, fazendo-lhe sinais.
Aproximou-se mais e segundos após pairava no nível da janela, com o lado de bombordo exatamente comprimido contra a parede. A porta corrediça se abriu. Alguém se esquecera de abrir totalmente a janela e o carro voador estraçalhou um pedaço da mesma. Larry viu três homens atrás da janela. Os dois primeiros eram Ron e Lofty, o terceiro lhe era desconhecido. Cabeça completamente calva e muito corpulento. Talvez fosse um azgônida. De Meech Hannigan, não se via sinal.
Ron ajudou o azgônida a passar pela janela, dando-lhe depois um empurrão. Numa cambalhota desajeitada, acompanhada de um grito assustador, o homenzarrão entrou no carro voador. Depois veio Lofty e Ron, em último lugar, que acabou fechando a portinhola.
Vamos embora — gritou ele.
Larry afastou o carro da parede do edifício e perguntou:
Onde está Meech?
Perdido — foi a resposta de Ron.
Larry se assustou. Com o desaparecimento de Meech, a situação piorava muito para eles. Além disso, já estava começando a gostar do biorrobô. Não fez outras perguntas. E já que Ron não lhe deu qualquer instrução quanto ao caminho a tomar, voou na direção da grande praça, em frente à qual ficava a torre.
Lá...! — gritou Ron de repente.
Larry virou-se para trás e viu seu colega apontando para a torre. Uma fenda gigantesca percorria toda a fachada do edifício. E todos viram como ela se ampliava a olhos vistos. Repararam atônitos que um grande bloco do paredão externo se desprendia da construção. E antes mesmo que este bloco estatelasse no chão da rua, a parede toda se vergou para frente, caindo segundos após como uma catadupa gigantesca, num estrondo de dar medo, na rua deserta. Uma nuvem de poeira se levantou, ocultando o local da destruição.
Ron desviou os olhos da cena dantesca e enxugou o suor da testa.
Por pouco não caímos juntos com ela — constatou.

O gorducho careca, neste meio tempo, conseguira sentar-se na poltrona ao lado de Larry.
O senhor conhece um lugar seguro na cidade ou fora dela? — perguntou-lhe Ron em arcônida.
Com muito sacrifício o homem se virou para ele.
Que tipo de segurança o senhor quer?
O senhor sabe que há um mundo de gente atrás de nós. Gostaria primeiro de ter algumas informações suas, antes de me encontrar de novo com eles.
Não conheço esta gente, não. Nunca os vi antes e não são azgônidas. Não sei também o que pretendem aqui.
Larry ficou algum tempo estudando melhor o homem a seu lado. No momento, a direção do deslizador não exigia tanto cuidado. O que dava muito na vista no azgônida é que devia estar já há muitas semanas sem se lavar. Tinha, porém, o porte de um homem consciente de sua importância. Sua roupa — um misto esquisito de calça, camisa e algo parecido com um manto — dava a impressão de coisa cara, apesar de parecer que a mantinha no corpo há mais de um mês.
Pois bem — disse Ron recomeçando a conversa — sejam quem for os desconhecidos, procuramos um lugar onde possamos conversar livremente pelo menos uma hora.
Por uns segundos, o azgônida manteve silêncio.
Dirijamo-nos para o Parque Central — disse finalmente. — Lá no meio do parque, teremos uma visão livre para todos os lados.
Ron acenou concordando.
O senhor é um homem inteligente, dê suas instruções ao piloto que está aí a seu lado.

* * *

O Parque Central era a obra-prima de um arquiteto que presenciara o apogeu cultural da sua raça. No momento ainda mantinha aquele ar de suntuosidade, com a imensa coluna no centro e as antigas casas pequenas, de fachada estreita, em seu derredor. Mais tarde, modernos palácios comerciais ocupariam seus lugares, ressaltando mais ainda sua majestade.
Assim que o carro aterrissou, Ron abriu a escotilha e saltou. Como que pedindo socorro, o azgônida virou-se para Larry.
Ser-lhes-ia grato — disse respirando com dificuldade — se me deixarem aqui sentado. Acreditem-me que todo movimento me é um esforço tremendo.
Larry olhou para ele, sorrindo:
Acho que ninguém tem nada contra. Podemos conversar através da escotilha aberta.
Ron continuava caminhando na direção da coluna, admirando toda a praça. Ao voltar, estava pensativo, cocando a cabeça.
Uma coisa está bem clara — disse em voz baixa para Larry. — Assim que virmos o primeiro deslizador por aí, temos de sumir. Esta coluna é um ponto de referência tão bom, que poderão nos acertar, mesmo com um velho morteiro.
Larry concordou com a opinião do chefe:
Acho que ele nos pode dizer em poucas palavras o que está se passando aqui.
Lofty Patterson entrou na conversa:
É um lugar formidável — disse bem alto — se tivermos inimigos que venham caminhando por terra. Fora disso, acho muito perigoso.
Tinha, portando, as mesmas preocupações que Ron.
Quer saber de uma coisa? A política é uma coisa que não me interessa muito. Enquanto o senhor discute com o azgônida, vou dar uma olhada por aí. Ficamos, assim, um pouco mais seguros.
Ron concordou e voltaram para a viatura, ele e Larry. Sentaram-se perto da escotilha aberta, a fim de conversarem melhor com o gorducho, e Ron foi logo ao assunto.
Alguma coisa muito estranha deve ter acontecido em Azgola no correr dos últimos anos, meses, semanas, não sabemos exatamente. Será que o senhor nos pode explicar?
Sacudiu a cabeça pensativo.
Não, explicar, não. Posso apenas lhes descrever os fatos como os presenciei ou me foram narrados. Deixem-me relatá-los.
Meu nome é Bladoor, no governo de Sua Majestade eu era ministro para questões de trabalho e bem-estar social. Digo-lhes isto somente para esclarecer o meu livre acesso às fontes de informação.
Há mais ou menos nove semanas, semanas de oito dias, observou-se que uma espaçonave desconhecida se aproximava de nosso planeta. Era relativamente pequena. A nave aterrissou no continente transoceânico, que chamamos de Doorhadas. Lá não existe propriamente nenhum povoado, muito menos um espaçoporto. A nave desceu numa planície de capim ralo, sem pedir autorização.
Quando a notícia da aterrissagem do aparelho desconhecido chegou a Timpik, a nave já havia sumido, como soubemos mais tarde.
Dias depois, chegou outra, e desta vez um gigante espacial, que aterrissou no mesmo local. Os membros da tripulação desembarcaram na mesma quantidade como da primeira vez. A espaçonave ficou simplesmente por lá e supomos também que, depois de algum tempo, desapareceria também.”
O senhor supôs, simplesmente? — perguntou Ron admirado. — O senhor não tem certeza a respeito?
Não, não posso ter certeza. Acho que o senhor não vai entender isto. Mas coloque-se na nossa situação. O transporte pelo oceano ainda é feito por barcos a vela. Vivemos no tempo da máquina a vapor, mas o combustível, que, entre os senhores, parece se chamar carvão, não existe aqui.
Um barco tocado a vapor não se pode sobrecarregar com muita lenha para sua alimentação, daí o emprego das velas. Assim, para se atravessar o oceano em sua largura, que é o que interessa, gastamos em média entre quatro a cinco semanas. Recebemos a notícia da aterrissagem do primeiro aparelho quatro semanas e meia depois do dia em que realmente chegou. A nave permaneceu dois dias em Doorhadas e cinco dias após termos recebido a comunicação da aterrissagem, recebemos, também, a da sua saída. Mas isto, três semanas mais tarde. Depois da chegada e saída da segunda grande nave, esperamos outras notícias sobre outras aterrissagens, mas não houve nada mais.
Entretanto aconteceu algo muito diferente. Perdemos de repente todo apetite ou toda fome e por fim a saciedade chegou a verdadeiro fastio. E nós não apenas nos sentíamos cheios, estávamos realmente cheios. Nosso peso aumentou sensivelmente e isto para todos os azgônidas, sem exceção. Engordávamos de três a seis quilos por dia. E o pior é que não sabíamos de onde provinha isto.

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