Autor
KURT
MAHR
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Vive-se
perigosamente em Azgola —
o planeta
dos vagabundos.
A
desastrosa época de Thomas Cardif chegou felizmente ao fim. Desde os
acontecimentos descritos no último volume, passaram-se cerca de nove
meses, tempo da Terra.
Este
período foi inteligentemente aproveitado por Perry Rhodan, liberado
da renovação periódica das duchas celulares no planeta Peregrino,
devido ao ativador celular programado especialmente para ele. Não há
mais motivos de preocupação, pois a situação no sistema solar, no
Império Arcônida e nos demais sistemas conhecidos da Via Láctea é
de plena calma.
As
circunstâncias se alteram, porém, bruscamente quando um cargueiro
terrano voa para o sistema de Azgo e aterrissa em Azgola, o segundo
planeta deste mundo longínquo.
O que
se desenrola então em Azgola dá a impressão de que o ilegítimo
possuidor de um ativador celular está mesmo lançando um povo todo
na desgraça.
Ou será
uma grande potência desconhecida que está tentando um insidioso
plano de conquista?
Descobrir
quem está atrás dos bastidores, puxando os fios da trama, é tarefa
dos agentes da Divisão III, que desta vez estão acompanhados do
Sargento Robô.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Meech
Hannigan
— Sargento
biorrobô que usa raios psíquicos para não matar ninguém.
Ron
Landry,
Larry
Randall
e Lofty
Patterson
— Agentes
da Divisão III.
Chuck
Waller
— Capitão
de uma nave mercante. Fez uma descoberta assustadora.
Bladoor
— Ministro
de Estado do planeta Azgola.
Garathon
— Chefe
e patriarca de um subclã dos saltadores.
Como que
não crendo no que via, Chuck Waller achou o quadro por demais
esquisito.
A luz de
um sol estranho batia incandescente no vasto descampado e soprava um
vento brando tocando a poeira para frente. Para trás, na linha do
horizonte, descortinavam-se os contornos de uma construção baixa e
alongada. Mas mesmo lá, não se notava nenhum movimento.
Um
silêncio desagradável pesava no local, onde em si devia reinar
intensa atividade. Chuck desceu a estreita escada e, assim que tocou
o chão, parou e olhou em volta. Atrás e acima dele, projetava-se o
bojo da esfera de seu cargueiro. O corpo de sua velha e querida
Gillaine estava carcomido pela poeira cósmica e pelos gases
venenosos de estranhos planetas. A camada externa não tinha mais o
brilho de antes, mas ele e sua gente sabiam que podiam confiar no
velho cargueiro comercial tão bem como em qualquer outro do seu
tipo.
A Gillaine
acabava de percorrer setecentos e trinta mil anos-luz, da Terra até
Azgo, em doze dias, tempo de bordo. Era um feito digno de menção.
Esperava fazer bons negócios em Azgola, o segundo planeta do
sistema. Azgola estava nos confins do Império Arcônida, muito
afastado das grandes rotas comerciais e mesmo desprezado pelo
comércio da Galáxia. Mas, às vezes, fazia-se bom negócio em
locais assim.
Neste
momento, porém, Chuck estava crente de que havia dado com os burros
n’água. Ouvira muitas coisas sobre os azgônidas. Estes eram
descendentes de um velho ramo dos arcônidas, magros como um palito e
de cabeça completamente careca. No correr dos milênios esqueceram
toda a sua aptidão técnica e haviam regredido à civilização dos
tempos da máquina a vapor.
Não
ouvira, porém, que a raça tivesse acabado. Puxou para frente a
viseira do capacete espacial, de modo que com um pequeno movimento da
mão a pudesse fechar. A análise do ar demonstrara que a atmosfera
de Azgola era respirável, mas aquele silêncio macabro deixou Chuck
desconfiado. Queria estar preparado para qualquer eventualidade.
Deu
instrução ao posto de comando para que enviasse ali para baixo uma
das pequenas viaturas que formavam o equipamento da Gillaine. Hank
Cilley, o primeiro-oficial, perguntou curioso:
— Então,
onde estão os carecas magricelas? Será que estão todos dormindo?
— Não
tenho a menor idéia, Hank. Mas tenho a impressão que logo
saberemos.
— Olhe
uma coisa, acho que você não devia sair sozinho. Quem sabe o que...
— Ah!
Deixa de historia — interrompeu-o Chuck. — Talvez abandonaram
este espaçoporto. Vou até as casas da cidade, dar uma olhada nas
coisas. Estou de volta num instante.
— Está
bem! — respondeu Hank.
Acima de
sua cabeça abrira-se o vão central da escotilha de carga e, trazido
por um guindaste, desceu um carro voador, espécie de deslizador,
aberto, com quatro lugares. Chuck viu quando as garras do guindaste
se abriram e o veículo tocou o chão. Embarcou, tirou a arma da
cintura e a colocou no assento a seu lado. Partiu rumo à cidade.
Depois de
dois minutos, já atravessara um campo de capim ralo e ressecado.
Capim na pista de um espaçoporto! Tentou calcular quanto tempo teria
levado para que os gases químicos e nucleares dos jatos gigantescos
tivessem devastado o chão daquela maneira. Já deviam ter passado
muitos anos desde que a última espaçonave ali pousara.
Descortinavam-se
no horizonte as construções baixas. Chuck se aproximava rápido.
Grossa camada de poeira tapava as vidraças. Em vão procurava um
sinal de vida, nada se movia. Passou pelas primeiras casas e parou um
pouco adiante. Não teve coragem de desligar o motor, pois não sabia
o que o esperava.
Desceu, de
arma na mão. Aproximou-se de uma das vidraças empoeiradas, tentando
ver alguma coisa dentro. O aposento estava completamente vazio;
nenhum tipo de móvel. Caminhou mais um pouco, ouvindo apenas o
ranger das botas no chão duro e sentindo o calor insuportável
daquele sol amarelo. Talvez parte deste calor fosse conseqüência do
seu sistema nervoso.
Por trás
de uma outra janela, o panorama já era outro. Uma mesa de escritório
e algumas cadeiras formavam aparentemente um conjunto razoável. As
cadeiras tinham o espaldar muito alto e estreito, como realmente os
azgônidas costumavam usar. Havia ainda pilhas de papel sobre a mesa,
se bem que papel e móveis estavam cobertos de poeira. A mesma poeira
cobria o assoalho e não se via uma só pegada.
No
silêncio de chumbo, rangeu estridulante uma porta. Chuck virou-se
rápido, sentindo o coração bater descompassado. Instintivamente,
já estava com a mão na arma e o dedo no gatilho. Mais um rangido
forte da porta; seguiu-se depois mais uma pancada surda e tudo voltou
ao silêncio. Chuck se encaminhou na direção do ruído.
Quando seu
raio de visão ficou mais amplo, viu que a porta começou a bater de
novo. Era a porta da frente. Viu-a balançar lentamente de um lado
para o outro. Abriu de todo e bateu com um som oco no portal da casa.
Talvez nos fundos não houvesse ninguém. Chuck, que se agachara,
levantou-se novamente e começou a rir. Reparou que o vento mudava
constantemente de direção no estreito corredor entre as casas,
pegando as portas e atirando-as contra o batente, produzindo sempre o
mesmo barulho que já ouvira. Chegou até a porta e examinou a
fechadura. Havia um trinco com pressão de mola, não muito diferente
dos da Terra. A poeira penetrara de tal modo que o trinco não
entrava mais na fechadura. Talvez esta porta estivesse batendo ao
vento já há muito tempo, anos e anos.
Empurrou a
viseira para trás e enxugou o suor do rosto. Sentia-se melhor de
viseira aberta. Estava agora convencido de que os azgônidas haviam
abandonado o aeroporto. Talvez nenhuma espaçonave de fora descia
mais ali e eles mesmos não possuíam nenhum tipo de aviação. Ou
mesmo, quem sabe, o tráfego aéreo se realizava agora em outra parte
do planeta? Ou uma coisa ou outra. Chuck puxou a porta e entrou na
casa. Se olhasse melhor, poderia chegar a alguma conclusão quanto ao
motivo desta solidão e abandono.
Atrás da
porta, se abria um corredor meio escuro, cujo soalho rangia ainda
mais alto que as batidas da porta. Parou um instante e gritou bem
alto:
— Alô!
O máximo
que conseguiu foi levantar um pouquinho de poeira em algum lugar.
Continuou
seu caminho, como se quisesse provar a si mesmo que não tinha mais
medo de nada e foi batendo estridentemente todas as portas que
encontrava. Um barulho novo enchia aquela solidão que talvez
perdurava há muito tempo.
Chegou ao
fim do corredor e abriu a última porta que encontrou. Estava parado
no meio do aposento. A porta ficou entreaberta, prejudicando-lhe um
pouco a visão. Viu um pedaço de uma escrivaninha e uma espécie de
cadeira. A tampa da mesa não tinha nada em cima, a não ser poeira.
Mas nesta poeira havia sinais, como se alguém tivesse passado a mão
por cima. Um outro rastro estava bem visível no soalho. Vinha da
esquerda, passando pela mesa e saindo pela direita. A porta ocultava
a sua continuação. Empurrou-a, de arma na mão, e se inclinou para
frente. Foi quando viu.
Estava
deitado no chão. Era gordo e pesado demais para poder se movimentar.
Chuck viu que o possante corpanzil se mexia um pouco lentamente,
portanto estava vivo. As pegadas eram dele.
Chuck não
era mais que mero capitão de uma nave de carga. Não estava
preparado para suportar com calma situações inesperadas. Quando viu
a coisa horrenda no chão, gritou de susto e saiu correndo pelo
corredor, passou disparado pelas casas baixas e pulou para dentro de
seu carro voador. Um segundo mais e já estava a caminho de volta.
Seu deslizador fez uma curva fechada e tomou o rumo da Gillaine. Pelo
transmissor de pulso, gritou nervoso para Hank Cilley que preparasse
a espaçonave para partida imediata.
*
* *
Pelo
espaço saturado de estrelas, cruzavam as vibrações do hiper-rádio.
Mensagens codificadas iam de Árcon para a Terra e da Terra para
Árcon. Tratava-se de uma notícia muito singular que um posto
avançado do Império Arcônida havia captado, mutilada e de conteúdo
difícil de se acreditar.
A mensagem
provinha de uma nave cargueira terrana de nome Gillaine que voava nos
confins do espaço conhecido. Gonozal VIII, o imperador de Árcon, em
situação normal não teria dado maior importância à mensagem.
Tinha intimamente grande vontade de considerar aquilo como uma
simples brincadeira, para, talvez mais tarde, quando lhe sobrasse
tempo e dinheiro, mandar uma nave-patrulha para ver o que havia de
verdade no comunicado. Mas, situações especiais exigem providências
especiais. Gonozal VIII sabia que o Império Solar andava à procura
de um inimigo, cujos rastros eram facilmente reconhecidos pelo fato
de acontecerem coisas muito estranhas nos lugares por onde passava. E
neste quadro, o telegrama da Gillaine tinha razão de ser.
O
Imperador Gonozal se comunicou com a Terra. Pelo agradecimento
sincero que recebeu por sua comunicação, era evidente que o caso
parecia ser de alguma gravidade para os terranos.
*
* *
O Major
Ron Landry recebeu a fita magnética através de um mensageiro.
Estranhou de fato que seu chefe Nike Quinto se correspondesse com ele
desta forma. Mas já no início da fita, Quinto lhe explicava que
tinha uma audiência importante no Palácio do Governo e que a
urgência do assunto a que se referia a fita justificava este
estranho meio de comunicação.
O resto da
fita estava em código cifrado, para proteger seu conteúdo de
ouvidos estranhos. Ron teve que usar seu aparelho de decodificação
para entender a mensagem de seu chefe.
O que Nike
Quinto disse o esclareceu em um relato sucinto sobre a série de
hiper-rádios entre Árcon e a Terra. O apelo da Gillaine foi
mencionado sem comentário. E Nike Quinto não deu a entender o que
pensava sobre o assunto. Concluiu com as palavras:
— Sobre
Azgola e seus habitantes não há nada de importante para
acrescentar. Procure um livro especializado sobre o assunto e vai
saber de tudo. Para isto não vai precisar de nenhum aprendizado
hipnótico. Meu Deus, nunca tivemos um planeta mais atrasado do que
este. Não vá me perguntar como pôde acontecer uma coisa desta sem
que as raças da Via Láctea o tenham sabido. Conforme os
assentamentos dos arcônidas, faz onze anos que uma espaçonave
esteve pela última vez em Azgola, naturalmente uma nave arcônida.
Em Árcon não existem registros de aterrissagens de naves dos
saltadores ou de outras raças. Sempre houve muito silêncio em torno
de Azgola.
“Você
sabe como o negócio pode acabar. Os sacerdotes de Baalol já
operaram muitos milagres no passado, desde plantas miraculosas e
muito cheirosas até rãs encantadas. Não está, pois, excluído que
atrás dos acontecimentos de Azgola estejam de novo os homens de
Baalol. Temos que descobrir isto.
“Pegue
sua gente e siga para lá. Não perca mais nem um minuto. Uma nave
especial já está preparada para você no espaçoporto de Terrânia
e todos os preparativos já foram tomados.”
Ron estava
querendo desligar o gravador, julgando que a mensagem de Nike Quinto
já terminara. Mas antes de desligar o aparelho de decodificação,
ouviu de novo a voz do chefe:
— Faça
um bom trabalho, major — gritou ele no seu vozeirão. — Se você
me fizer passar vergonha, minha pressão sangüínea vai me matar.
Sorrindo,
Ron desligou. Não havia nenhuma mensagem de Nike Quinto que não
fizesse alusão à sua pressão alta.
*
* *
Larry
Randall parou o carro voador e virou a cabeça para trás.
— Não
pode ser este o aparelho que vou dirigir!
Ron Landry
inclinou-se para frente, a fim de ver melhor através do pára-brisa.
— Isto é
um cargueiro! — disse para Larry. — Alguém lhe disse que
viajaríamos num cargueiro?
Meech
Hannigan, biorrobô, e Lofty Patterson não disseram nada. O quinto
homem no carro era o Tenente Pauling, um jovem oficial designado
diretamente por Nike Quinto, que levaria Ron Landry e sua gente para
a espaçonave, já preparada à espera deles. Podia-se perceber que a
situação não era muito agradável para o jovem tenente.
— Sinto
muito — interveio o tenente meio sem jeito — mas é esta a nave
que, conforme as instruções do Coronel Quinto, foi preparada para a
expedição.
— Mas
isto é um cargueiro — protestou Larry Randall. — Queremos chegar
ao nosso objetivo o mais depressa e não ficar vendendo banana aí
pelo caminho.
O Tenente
Pauling calou-se, mais acanhado ainda.
— Vamos
dar uma olhada lá dentro — propôs Ron. — Às vezes as
aparências enganam.
A escada
já estava baixada. Era uma coisa antiga de degraus fixos, onde a
gente tinha mesmo que usar os pés para se locomover. A nave era
esférica, com um diâmetro que não ia além de cento e cinqüenta
metros — sem dúvida um aparelho de construção particular e um
dos menos modernos.
O Tenente
Pauling foi o primeiro a saltar do deslizador. Postou-se ao lado da
escada e fez a continência.
— Recebi
ordens de aguardá-los aqui embaixo — explicou ele.
Ron
retribuiu a saudação e subiram os quatro sem se virarem para trás.
Quando Pauling não o podia mais ouvir, Ron perguntou:
— Qual é
sua impressão, Meech?
— Umas
tantas coisas interessantes — respondeu Meech com sua voz de
barítono, calma e compassada. — O conjunto de propulsão da nave
deve ser, pelo menos, tão possante como o de um supercouraçado.
Rente à carcaça externa, existem ainda outras fontes de energia e
talvez postos de artilharia pesada, se meus instrumentos não me
enganam...
Foi
interrompido. Ron já havia entrado pela pequena abertura da
escotilha de passageiros. No mesmo instante, soou o alto-falante,
cortando ao meio a frase do bio-robô:
— Nike
Quinto para o Major Landry. Dirija-se imediatamente para o posto de
comando.
Ron
virou-se, e sorrindo olhou para Larry Randall que o seguia.
— “O
homem da pressão alta”
inventou uma outra surpresa.
Já do
outro lado da escotilha interna, chegaram à conclusão de que,
olhando a nave por fora, se enganaram redondamente. O corredor de
acesso à galeria principal brilhava de limpeza. Uma rápida esteira
transportadora o percorria de um extremo ao outro. Em espaços
regulares, viam-se nas paredes tomadas embutidas do intercomunicador,
que garantia uma comunicação perfeita e instantânea com toda a
espaçonave. As portas nos corredores possuíam a moderníssima
fechadura “Henderson”
e alguns metros para a frente um letreiro avermelhado indicava:
“Posto
de Artilharia Pesada I, Convés E, Armas de Guerra.”
Ron Landry
pulou para a esteira transportadora.
— Puxa!
Desta vez, o velho não poupou nada, hein? — disse meio confuso.
*
* *
Até o
posto de comando não encontraram ninguém. Mas o posto de comando
mesmo estava cheio de gente. Quando Ron abriu a porta, todos se
afastaram para o lado e o cumprimentaram. Ron agradeceu sorrindo,
enquanto olhava um por um, procurando encontrar alguém conhecido.
Um dos
homens avançou dois passos.
Portava os
galões de capitão, era jovem e Ron não o conhecia.
— Frank
Bell, senhor — apresentou-se ele. — Até poucos segundos,
comandante desta nave. Estamos prontos para partir.
— Um
momento, por favor — disse Ron confuso. — Comandante até há
poucos segundos? Quem é o comandante agora?
— O
senhor — disse Frank sorrindo.
Ron Landry
ainda continuou confuso por um instante. Depois compreendeu que Nike
Quinto não podia agir de outra maneira. Era ele, Ron, quem comandava
a ação dos agentes e não podia ser subordinado a outrem.
— Onde
está o chefe? — perguntou Ron.
— Não
está a bordo, senhor. A voz que ouviu há pouco veio de uma fita
magnética.
— O
senhor tem outras informações para mim?
— Não
diretamente, senhor. Há uma outra fita que tenho de lhe entregar.
Nela, talvez, o senhor encontrará o que procura.
Ron
recebeu a fita e a colocou no gravador. A mensagem não estava em
código e Ron não se opôs que os oficiais reunidos no posto de
comando ouvissem o que Nike Quinto tinha a lhe dizer. A comunicação
foi curta e dizia o seguinte:
— Aí
está a espaçonave especial que lhe prometi, major. Está camuflada
de cargueiro, possui, porém, todas as características de um
couraçado. Sua tripulação é constituída de vinte e três
oficiais e cento e trinta tripulantes. A nave e sua tripulação lhe
está subordinada. No espaçoporto de Terrânia, julga-se a nave pelo
que ela aparenta externamente: um simples cargueiro. Não temos
nenhum motivo para anunciar aos quatro ventos que se trata de
camuflagem, embora não creio que o nosso inimigo, se é que existe
de fato um, poderia obter alguma informação exatamente do pessoal
do nosso maior espaçoporto.
“Queremos
agir, porém, com toda cautela. Por este motivo é que você está
recebendo um supercouraçado. Seu nome é Vondar, seu comandante é o
Major Gerry Montini, que você já conhece. Montini tem instruções
de, em caso de necessidade, seguir suas instruções. Até lá, ele
permanece longe de você como também do inimigo.
“Acho
que não esquecemos nada. Parta imediatamente, mas não se esqueça
de se despedir do homem lá fora que o trouxe para cá.”
Ron tinha
que rir. Nike Quinto não era homem para esquecer nada. Estava
pensando até no Tenente Pauling. Sem ser pedido, Larry Randall se
encarregou de se despedir do Tenente Pauling.
— Uma
coisa não sei ainda — disse se dirigindo bem-humorado a Frank
Bell. —
Qual será
o nome verdadeiro dessa maravilha?
— Creio
que o nome já é em si um presságio. Chama-se Victory.
O
espaçoporto de Timpik correspondia cem por cento à descrição que
a Gillaine havia feito: vazio, em parte coberto de capim, com um
vento constante a soprar.
Ron Landry
teve a mesma impressão que Chuck Waller. Examinou o capim que
crescia em trechos avulsos, espalhados a esmo, na superfície do
antigo campo de pouso. Tentava calcular o período de tempo desde o
qual o campo não era mais usado.
Chegou
primeiro à conclusão de que o suposto capim era na realidade uma
espécie desconhecida de musgo. E já que os musgos crescem mais
rapidamente que os capins, a avaliação de tempo de Ron Landry foi
menor que a de Chuck Waller. Conforme Ron, este musgo poderia ter
germinado há poucas semanas, enquanto Chuck sugeria meses e mesmo
anos.
Ron não
se deteve no espaçoporto mais tempo do que era necessário. Sabia
que as condições físicas e os dados do planeta Azgola não teriam
se modificado essencialmente com relação aos dados dos catálogos
dos arcônidas. A gravitação, o diâmetro, o tempo de rotação, o
ano planetário e a inclinação axial eram os mesmos de sempre. Até
a composição da atmosfera não se havia alterado ainda. O fato de o
ar estar saturado de poeira fina não chamou a atenção de Ron.
Poeira era um fenômeno que podia aparecer e desaparecer num minuto,
dependendo da direção do vento.
Recomendou
a Frank Bell que mantivesse a nave em condições de partir a
qualquer momento e que conservasse a tripulação na maior calma
possível. Somente se houvesse perigo iminente para a nave, é que se
devia usar o rádio para pedir instruções. Ron desembarcou com seus
três companheiros levando consigo um carro voador, para fazer uma
visita à cidade de Timpik.
Timpik era
a maior cidade dos azgônidas. Há vinte anos, sua população era de
duzentos e cinqüenta mil habitantes. Ron pensava se realmente iria
descobrir o que havia em Timpik, se é que de fato havia alguma
coisa. Não perdeu tempo; ele mesmo pegou a direção do deslizador e
foi a toda velocidade para a cidade, localizada na parte sul do
espaçoporto.
Até o
momento não tinha uma idéia do que esta missão significava para
ele. Isto lhe era muito estranho. Desde suas últimas aventuras,
estava muito consciente de possuir um sexto sentido para perigos e
coisas desagradáveis. Nos mais diferentes pontos do espaço
infinito, para onde o levava sua função na Divisão III do Fundo
Social Intercósmico de Desenvolvimento, logo após sua aterrissagem
sentia indícios palpáveis daquilo que o esperava.
Mas aqui
não era assim. Tudo estava tão estranhamente calmo, nele e em volta
dele, que sentia-se tentado a acreditar que dentro de duas horas
estaria sentado na Victory, no caminho tranqüilo de volta para casa.
Mas este
sentimento era enganador, como haveria logo de constatar...
*
* *
Estavam
voando sobre uma avenida larga e sem revestimento, que entrava
diretamente na cidade. No horizonte surgiam as primeiras casas e não
viram ainda nenhum ser vivo, nem mesmo qualquer meio de condução.
Já na periferia da cidade, diminuiu a altura do vôo e fez com que o
carro voador deslizasse por entre as casas antigas. Aproximavam-se de
um cruzamento. Quando deixaram a linha das casas para trás e
entraram no espaço livre do cruzamento, avistaram algo...
Estava no
meio da rua. Era tão disforme, esponjoso, inchado e horrendo, tal
qual Chuck Waller o descrevera. Mas não era assim tão asqueroso
como fazia crer o relatório de Waller, caso se considerasse que
afinal de contas não seria outra coisa do que um homem gordo,
tremendamente doente.
Ron baixou
o deslizador e o estacionou junto do cruzamento. Quando abriu a porta
do veículo, aconteceu-lhe a mesma coisa que se dera com Chuck há
uns dias atrás. O silêncio que pesava sobre a cidade, o silêncio
de morte, o deixou desconcertado. Disse a Larry que permanecesse no
carro, na direção, e se aproximou com Lofty e Meech do ser
inanimado na rua.
Só depois
de chegar a uns dois passos, foi que notou que o supergordo não
estava sem vida. Milímetro por milímetro, puxava o joelho direito
contra o ventre. Os braços, ele os tinha levado para frente, a fim
de apoiar o corpanzil. E porque os músculos sem força não
agüentavam o peso do corpo, apoiava também a cabeça no chão para
soltar um pouco os braços. Curioso, Ron olhava como ele conseguia
contrair o joelho até o estômago. Quando chegava a este ponto, dava
um impulso com o pé esquerdo para trás, devagar e firme. E como o
corpo era quase redondo, com o impulso rolava para frente, dando uma
cambalhota, parando ofegante dois metros para diante, mais perto do
meio-fio. Depois começava a agitar as mãos, tentando virar de novo
de bruços. Ron compreendeu a técnica que usava para se locomover. O
coitado não queria outra coisa senão atravessar a rua. Com seu
corpo arredondado, não tinha outra opção do que dar uma cambalhota
depois da outra.
A situação
era cômica. Ron sentia vontade de rir, mas começou a olhar melhor,
o gorducho. Completamente careca, com as roupas em péssimo estado,
dava também a impressão de estar mal alimentado. A ausência de
cabelo, porém, era uma das características dos azgônidas. O homem
que rolava ali para atravessar a rua era um azgônida. Um
representante da raça que nos velhos tempos era conhecida pela
altura e magreza do seu corpo!
Acontecera,
pois, alguma coisa no decorrer dos séculos e milênios. Algo que
transformou homens altos e esbeltos em blocos de gordura.
Ron
abaixou-se perto do gordo antes que este conseguisse rolar de novo. O
azgônida notou sua presença. Seus olhos estavam quase encobertos
por densas camadas de gordura.
— Bom
dia, meu amigo — cumprimentou-o, amigavelmente, na língua
arcônida. — Se o senhor quiser, nós o ajudamos a chegar até o
outro lado.
É muito
difícil de se ler na fisionomia de uma pessoa de outra raça, e mais
difícil ainda se os traços fisionômicos do estrangeiro estiverem
ocultos sob camadas de gordura e seus músculos não tiverem mais
elasticidade. Mas uma coisa Ron podia depreender: o homem prostrado
ali no chão estava muito surpreso. E Ron podia imaginar o porquê:
simplesmente por estar vendo seres humanos que não eram tão gordos
como ele.
O azgônida
queria levantar a cabeça, mas a tentativa foi em vão. Conseguiu
apenas levantar a mão, fazendo um curto e fraco aceno, interpretado
por Ron como um “sim”.
Fez um sinal para Lofty e para o robô. Este último pegou o gorducho
pelos pés, Ron e Lofty o agarraram por baixo dos braços. Mas mesmo
assim não foi fácil erguê-lo do chão e transportá-lo para o
outro lado da rua. Colocaram-no na calçada. Lofty e Ron estavam com
seus rostos banhados de suor. É claro que Meech não sentia nenhum
cansaço do grande esforço.
Ron tinha
uma série de perguntas engatilhadas nos lábios, mas chegou à
conclusão de que o homem à sua frente não era o indicado para lhe
dar alguma informação.
— Se o
senhor agora, meu amigo, nos quiser fazer uma gentileza, diga-nos
onde podemos achar o Palácio do Governo.
O azgônida
levantou o braço e fez um movimento.
— Segundo...
cruzamento...! — soou a voz abafada pela gordura. — Sempre
reto... até praça grande, à esquerda torre e...
Parou aí
a explicação. A mão tombou sem força no chão e o gorducho fechou
os olhos, parecendo ter perdido os sentidos com o esforço feito.
— É
suficiente isto — disse Ron. — Deve haver alguma inscrição no
edifício público. Os azgônidas usam os caracteres arcônidas.
Voltaram
para o carro voador.
*
* *
A
indicação estava exata. A segunda rua à esquerda era uma ampla
avenida. As casas eram mais altas do que em outros pontos e a largura
das faixas de rodagem chegava a trinta metros, verdadeira raridade em
Azgola, onde eram usadas carruagens e automóveis muito velhos. Dois
quilômetros mais para baixo, na direção sul, começava a grande
praça de que falara o gordo e, à esquerda desta, havia um único
edifício que merecia o nome de torre. Pararam o deslizador em
frente.
Aos pés
da torre havia uma grande escadaria com solene balaustrada enfeitada
com figuras de animais.
Ron
manteve o velho esquema: Larry Randall ficou no carro voador, de
motor ligado. Ron, acompanhado de Lofty e de Meech, subiu a escadaria
e entrou no edifício.
O grande
portal no topo da escada não ofereceu maior dificuldade. Estalou e
rangeu quando Ron fez força com os ombros, mas acabou descortinando
um amplo saguão, meio na penumbra. Lá fora, a luz do sol formava um
contraste tão grande com a semi-escuridão interior, que Ron teve
que esperar alguns segundos para acostumar os olhos à pouca
claridade. Meech e Lofty o seguiam com passos cautelosos.
Ron
fez-lhes um sinal para que parassem. Ouvia o eco de seus passos nos
fundos do edifício. Depois de parados, veio o silêncio, silêncio
absoluto.
Ron
continuou andando nas pontas dos pés, parando de novo no centro do
saguão. Em três pontos diferentes da parede do grande recinto,
subiam escadas atapetadas, escadas amplas em caracol. No chão,
diante dele, a camada de poeira era tão grossa como no corrimão das
escadas e nos tapetes, aparentemente caros. À esquerda do portal de
entrada, havia uma espécie de cabina de vidro. Quem sabe ali ficava
antigamente um porteiro ou pessoa para dar informações? Agora, tudo
vazio e empoeirado.
Ron
inclinou a cabeça para trás, levou as mãos em concha na boca e
gritou. Foi propriamente um berro, que não tinha outra intenção a
não ser produzir um som bem forte, que subiu para os andares
superiores da torre e voltou num eco assombroso.
Fora
disso, não houve nada. Nenhuma porta bateu, nem se ouviram passos. A
torre estava vazia e morta, como toda a cidade. Talvez, como todo o
planeta!
Ron
virou-se para trás.
— Não
há jeito, mesmo. Temos que revirar tudo. Em algum lugar, eles devem
ter ficado. Meech, você sente alguma coisa suspeita?
— Não,
senhor, nada. Tudo está bem calmo.
— É, é
a impressão que eu tenho também.
— Então?
Ron
enveredou por uma das escadas cm caracol. Pôde ver ainda de fora que
a torre tinha, pelo menos, trinta andares. No tempo da máquina a
vapor, não havia ainda elevadores. Pelo menos não nos edifícios de
mais de seis andares.
Em cima,
no primeiro andar, a escada acabava num corredor largo, que no topo
da escada unia os dois lances. Lembrou-se de que, fora desta escada,
havia mais duas. A construção interna da torre parecia bem
complicada. Já no primeiro piso, Ron não sabia onde procurar as
saídas das outras duas escadas.
Virou-se
para Meech, que era excelente matemático:
— Onde
vão sair as outras duas escadas?
— Mais
ou menos ali e ali — disse, apontando os dois pontos à direita e
na frente. — Naturalmente, não neste corredor, senhor.
— Quer
dizer que há então andares intermediários, não é?
— Muito
provavelmente, senhor. Procurou, então, calcular o número de portas
existentes nas paredes dos dois corredores.
— Existem
aqui cinqüenta aposentos e, no outro lado, mais um tanto. Ao todo
cem. Suponhamos que nas demais escadas o fato se repita e nos outros
andares a coisa seja a mesma. Isto dá para cada escada mais cem
aposentos. Portanto, trezentos por andar. Com trinta andares, teremos
nove mil quartos. Quanto tempo gastaremos para percorrer todos,
Lofty?
O velho
colonizador coçou a barba.
— Eu
diria dois dias — respondeu depois de pequena pausa. — Mas, que
negócio é este!? Deverá existir aqui telefone ou qualquer outro
tipo de comunicação.
— Podemos
procurá-los — disse Ron. — Mas mesmo que consigamos fazê-los
funcionar, se os azgônidas forem todos como o gorducho lá da rua,
ninguém responderá. Não conseguirão nem pegar num fone.
Lofty
concordou de fisionomia triste e olhou em volta.
— Proporia
que antes de tudo procurássemos por rastros — foi a sugestão de
Meech. — É mais fácil encontrarmos alguém num andar onde haja
rastros, do que nos outros onde a camada de poeira esteja intacta.
Ron olhou
para ele admirado.
— Com
todos os diabos da Lua... você tem razão, Meech!
Com novo
ânimo, ia subindo para o próximo andar, mas parou no primeiro
degrau, quando se deu o inesperado.
Do alto da
torre veio um grito, fino, fraco, mas nitidamente perceptível. Ron
espantou-se. Depois deu um pulo para o lado, inclinou-se sobre o
corrimão, procurando enxergar alguma coisa na interminável
escadaria. Bem no alto, no lusco-fusco, brilhava uma mancha clara de
um rosto... e uma voz gritou:
— Venham
cá para cima, depressa!
*
* *
Larry
Randall continuava olhando reto para a rua batida de sol
incandescente, sem mexer a cabeça, até que os olhos começaram a
arder. Encostou-se no assento do motorista e tentou descansar a
vista, olhando para o teto escuro do deslizador.
O calor
era insuportável e Larry estava exausto. Tinha visto o azgônida de
longe e não acreditava em perigo, se os azgônidas fossem todos tão
gordos como aquele. Não podiam nem se levantar. E, além disso, por
que motivo haveriam de atacar? Ninguém lhes fizera mal.
Mais
tranqüilizado, Larry se refestelou mais ainda na poltrona, esticou
as pernas, deixando que o calor e o cansaço o envolvessem.
De repente
uma grande sombra percorreu a rua.
Larry
levou um susto. E tentou vê-la de novo. Mas já não havia o menor
sinal de sombra. Esticou a cabeça para fora da janela lateral e
olhou para cima. O céu, de um azul leitoso, continuava o mesmo.
Porém ele tinha plena certeza do movimento de uma sombra.
Não quis
perder mais tempo com o assunto, isto é, se a sombra significava ou
não algum perigo. Olhou em volta e percebeu que seu deslizador, em
caso de um ataque, achava-se em posição muito desfavorável. Estava
completamente exposto em três lados, sendo que só o flanco esquerdo
estava coberto pela construção bombástica do patamar da escadaria.
Larry
ergueu o carro voador e foi voando lentamente sobre a calçada. No
flanco norte da torre, entre a torre e o próximo edifício, havia
uma entrada estreita e ensombreada. Não tinha mais de quatro metros
de amplitude. Atrás se levantava uma parede que chegava até o
quinto andar da torre.
Com muita
cautela, manobrou o veículo para dentro daquele poço, com a proa
para a frente, não se esquecendo de olhar constantemente para cima e
para a rua embaixo. Até que pousou exatamente como planejara, sem
nenhum incidente. Ficou na incerteza se devia ou não avisar Ron do
ocorrido. Seu transmissor de pulso o punha em contato não apenas com
a Victory, mas também com ele. Bastar-lhe-iam duas palavras e Ron
voltaria.
Mas,
afinal de contas, a sombra poderia ter sido mera ilusão e por isso
resolveu nada dizer. Se fosse mesmo coisa séria, daria conhecimento
imediato a Ron. Seria o suficiente para sua segurança.
Recostou-se
de novo na poltrona, evitando, desta vez, pegar no sono.
*
* *
Às quinze
horas e treze minutos, hora de bordo, a Victory registrou um rádio
de hiperondas. Para Frank Bell e sua gente, isto foi uma grande
sensação. Considerando que os azgônidas ainda viviam na época da
máquina a vapor, não iriam conhecer nenhum hiper-rádio, nem mesmo
o rádio comum eletromagnético. Se o impulso vinha de Azgola, era um
sinal evidente de que havia aqui outra gente.
O impulso
não tivera a duração nem de um microssegundo. Para a antena
esférica, não teria sido suficiente nem para deixar um sinal
qualquer para orientação. Frank resolveu esperar. Avisaria Ron
somente quando o caso se repetisse. Por enquanto não havia motivo de
alarma.
Com
incrível rapidez, Ron contou o número de andares até onde surgira
o rosto. Foram dezesseis e queria confirmar, quando a mancha branca
desapareceu.
Mas estava
crente de que o estranho tinha deixado rastros que lhe indicassem o
caminho. Em poucas palavras explicou a Lofty e a Meech o que vira e
começou a subida. Em pouco tempo o biorrobô passou à frente dele.
Com sua força que não conhecia cansaço, ia ele degrau por degrau,
sempre olhando para frente. Ron não tinha nada contra o fato de o
biorrobô ir à sua frente.
Quem sabe
até fosse melhor que um biorrobô de pensamento rápido caminhasse à
frente dele, principalmente em caso de se tratar de uma armadilha?
Ron passou a ir mais devagar ainda, a fim de não deixar o velho
Lofty muito para trás.
Quando
Meech lhes fez um sinal do décimo andar, estavam ainda no sétimo,
iniciando o oitavo.
De repente
o chão começou a tremer e, segundos depois, reboou o terrível
trovão de uma forte explosão pela cidade.
*
* *
Chegaram
sem ninguém saber como. Caíram simplesmente de cima, não se sabe
de onde.
A
princípio, Larry julgou tratar-se de grandes aves que saltavam do
alto da torre para iniciarem o vôo. Não voavam, porém, caíam
simplesmente. E não vinham do terraço da torre, mas do telhado do
edifício vizinho, que não tinha nem a metade da altura da torre.
Precipitaram-se em queda vertical, até quase o nível da rua,
brecando de repente. Aí foi que Larry notou o tipo de sua
construção. Eram dois carros voadores, maiores do que o seu, porém,
com uma estranha carroceria. Através das janelas laterais, viu de
relance cabeças humanas.
Inclinou-se
para frente e, com um soco numa alavanca, deixou as bocas-de-fogo em
estado de o defender. Conscientizou-se, então, de que fora um erro
grave não ter informado Ron sobre a sombra suspeita. A sombra devia
ser um dos dois carros voadores ou os dois juntos.
Os dois
flutuadores ou deslizadores lançaram-se na direção da escadaria. O
primeiro deles, na sua aterrissagem, ainda subiu dois ou três
degraus. O outro parou sobre a rua, um metro acima do chão. Larry
percebeu o que pretendiam. Ali, diante da escadaria, estivera seu
carro, há menos de dois minutos. Viram-no quando chegaram e
combinaram pegá-lo lá embaixo, certos de sua boa presa. Quando os
dois deslizadores vieram lentamente sobre a rua, para atirarem no
esconderijo onde estava seu aparelho, Larry já tinha saído. Estava
vendo agora os canos das armas do inimigo e compreendeu do que se
tratava.
Antes que
o inimigo pudesse fazer o primeiro disparo, os raios térmicos de
Larry varreram o espaço num jato energético de grande intensidade.
O impacto foi tão violento nas laterais do deslizador que o elevou,
atirando-o de encontro às casas. Larry fez um segundo disparo,
atingindo desta vez o deslizador inimigo pela frente, fazendo-o girar
doidamente como num carrossel, e indo parar no meio da praça.
Concentrou,
então, sua atenção no segundo aparelho.
De cada
lado tinha uma porta aberta, e dez ou doze homens de ombros largos e
esbeltos estavam de pé na escadaria, com as armas apontadas para o
aparelho de Larry, mas aparentemente indecisos.
Larry
sabia que estava encurralado numa perigosa armadilha. A abertura para
cima era por demais estreita e não podia manobrar o deslizador. As
armas só podiam ser manejadas do banco de trás. Mesmo se passasse
para o banco traseiro, ainda lá continuaria numa situação difícil,
se um dos dez homens atirasse melhor do que ele. Não tinha tempo a
perder. Com a mão direita segurou o desintegrador pesado que estava
a seu lado, entre os dois assentos da frente. Com a mão esquerda
empurrou a porta. Quando ela se abriu, deixou-se cair para a esquerda
e rolou para fora do carro.
Estava,
agora, protegido pela parede da torre. Durante algum tempo, esperou
em vão que alguém atirasse no seu deslizador. Se o fizessem com
armas térmicas, seu esconderijo ficaria muito quente. Tinha que sair
dali. Se começasse a atirar antes de abandonar o esconderijo,
poderia mantê-los bloqueados.
Entre a
porta lateral esquerda do carro voador e o paredão da torre, o
espaço não chegava a um metro. Larry foi empurrando o
desintegrador. O cano metálico da arma bateu em alguma coisa,
produzindo um som mais forte. Esticou-se no chão e ficou imóvel.
Mas nada se mexeu.
Somente
quando ele, com todo o cuidado, quis empurrar para frente o cano,
passando pelo canto do paredão, ouviu um leve zumbido. Sabia do que
se tratava. Saiu rapidamente de trás do paredão e viu como o carro
voador, parado junto às escadarias, se projetou com toda velocidade
através da praça. Enquanto ganhava altura em vôo oblíquo, Larry
conseguiu ver que dentro do aparelho só havia um homem.
Desistiu,
pois, de atirar nele, contentando-se com o fato de o inimigo ter
fugido.
Do outro
lado da praça, o aparelho seriamente atingido não conseguia se
equilibrar, mas saiu voando assim mesmo e tomou o rumo sul.
Larry se
levantou. Fora o piloto que fugira com o primeiro aparelho, não se
via mais sinal dos dez restantes. Larry se manteve escondido bem
rente ao paredão da escadaria. Ergueu o braço para pôr em
funcionamento o pequeno transmissor de pulso. Ouviu então, pela
primeira vez, o ronco vibrante que provavelmente já enchia o ar há
mais tempo. Ficou realmente impressionado. O ronco vinha da direção
norte. E no Norte é que estava o espaçoporto. Que estaria
acontecendo com a Victory?
Do
receptor, veio a voz de Ron Landry:
— Que
está acontecendo aí fora?
— Estamos
sendo atacados por estranhos em dois carros voadores. E algo acontece
também no espaçoporto.
— Ouvi o
barulho. Mas com você aí, como vai a situação?
— Os
dois deslizadores inimigos já se foram, mas, pelo menos, dez ou onze
homens desceram antes e desapareceram por aí.
— Você
vai agüentar aí sozinho?
— Se os
inimigos não vierem de novo, não será difícil.
De repente
lembrou-se de algo importante. Os inimigos entraram na cidade com
muita determinação. Sabiam onde procurar seus adversários. Um
outro destacamento devia ter atacado simultaneamente a nave terrana
Victory. O golpe foi muito bem preparado. Os azgônidas sabiam com
exatidão que Ron e seus homens se achavam no Palácio do Governo.
Então...!
— Ron —
gritou ele, como um desesperado — eles devem estar escondidos na
torre, preste atenção.
*
* *
O primeiro
tiro veio de surpresa. Frank Bell estava ainda com uma caneca de café
na mão. De súbito o chão lhe sumiu de sob seus pés e ele caiu
para frente. Reboou no ar um horrendo trovão e a grande nave
balançou. De um dos painéis desprendeu-se um instrumento batendo
com muito estrépito no chão.
Depois,
reinou o silêncio e Frank se levantou. Em torno dele, no chão,
estavam deitados dois oficiais que o olhavam atônitos. Uma voz fria
e mecânica falava nos alto-falantes:
— Disparo
contra o convés norte F foi amortecido sem danos pelo envoltório de
proteção. Solicitação do envoltório: cinco por cento. O disparo
inimigo foi um foguete teledirigido de raios térmicos. Fim.
Frank se
virou e com dois passos chegou até a poltrona do piloto.
— A
postos, meus senhores! — ordenou ele.
Atrás
dele, acendeu-se a luz vermelha do intercomunicador. Frank ouviu a
voz do oficial de radiotelegrafia:
— Não
temos idéia de quem é o inimigo, Frank. O primeiro foguete veio e
alguns outros estão a caminho.
— Quantos?
— Contamos
vinte e seis, Frank. A cada momento podem surgir mais. Você ouviu a
mensagem do robô? Que pretende fazer?
Frank não
teve que pensar muito. Uma única explosão já solicitara cinco por
cento da resistência do envoltório. Vinte e seis foguetes estavam a
caminho e eram dirigidos.
O inimigo
podia pará-los até que todos se reunissem, para explodi-los de uma
só vez contra a Victory. Vinte e seis vezes cinco dá cento e trinta
por cento. O envoltório seria destruído e isto significaria o fim
da Victory.
— Precisamos
de uma orientação de Ron Landry — disse Frank, desligando.
Queria se
pôr em contato com Ron, mas mal havia ligado o transmissor de pulso,
explodiu o segundo petardo. O envoltório de proteção suportou com
facilidade, absorvendo a maior parte da força da explosão e do
impulso do petardo. O restante irrompeu em ondas de trepidação por
toda a nave. A Victory balançou como se fosse um pequeno aparelho,
enquanto o material das paredes externas e internas rangia e
estalava. Quando o barulho diminuía por alguns segundos, vinha a voz
metálica do robô, dando sempre os últimos resultados.
Desanimado
e furioso, Frank Bell parecia não ter forças para reagir e por
algum tempo se entregou ao destino da espaçonave, estremecendo e
balançando de um canto para o outro. Procurou compreender o que
estava acontecendo, quem era o inimigo e por que motivo atacava assim
tão violentamente a nave terrana. Até que finalmente ouviu a voz de
seu radiotelegrafista. Tentou ficar de pé, apoiando-se com os
braços, e olhou para a poltrona do piloto.
Viu na
pequena tela o rosto desfigurado do seu telegrafista, não
conseguindo ouvir tudo que estava gritando. Mas algumas palavras já
lhe foram suficientes:
— ...um
pacote de vinte e dois, quase que amarrados uns aos outros...
Frank
rolou de lado. Um foguete explodiu, levantando o piso do posto de
comando e jogando-o de encontro à série de instrumentos
positrônicos de direção, na parede. Por um momento, não sabia o
que fazer. Depois percebeu que fora jogado exatamente na direção
certa. Sob um dos pontos da sala de comando havia um nicho,
verdadeiro abrigo. Os homens que ali operavam estavam sentados diante
da mesa de controle, como se fosse esta uma mesa de escritório.
Frank se meteu neste nicho, curvando-se todo, mas quando se encaixou
bem lá dentro, sentia-se tão bem protegido nas costas, nos ombros e
nas pernas, que nenhum estremeção o afetaria.
Sem perder
tempo, ligou imediatamente o transmissor de pulso e exclamou:
— Victory
para o chefe! Victory para o chefe! Estamos sob forte bombardeio.
*
* *
Ron viu-os
chegando. Botara a cabeça um pouco para fora do parapeito da escada
e, ainda antes de retirá-la, flamejou embaixo um feixe de raios
energéticos incandescentes, passando rente ao seu rosto. O jato
destruidor foi parar no teto da escadaria. Alguma coisa enorme se
despencou de lá e num ruído cavernoso foi de encontro ao andar
térreo. Era um bloco gigantesco de alvenaria.
Pôde ver
com nitidez um dos inimigos, alto e gordo, quase tão gordo como o
azgônida que encontraram no cruzamento das ruas. Estava tentando
subir pela escada, o que lhe era naturalmente muito difícil. De
qualquer maneira era cem vezes mais ágil que o gorduchão lá da
rua, que transportaram para a calçada oposta.
O chefe
não estava acreditando se tratar de azgônidas. Se o planeta inteiro
estava sendo vítima da praga daquela “engorda”
estúpida, por que os lá de baixo estavam escapando desta regra?
Não, deviam ser estrangeiros.
Estrangeiros
de onde?
Ron
esqueceu o homem que os esperava lá em cima. Os de baixo eram mais
importantes.
Mandou que
Lofty o esperasse aos pés do décimo primeiro andar. A balaustrada
lhe dava excelente cobertura. Com a arma na mão, dominava dali
plenamente a escada até a curva do décimo andar, que lhe cortava a
visão.
Ele mesmo,
Ron, começou a descer. Sobre Meech, não tinha nenhuma preocupação.
O robô tinha o mais lógico de todos os cérebros. Sabia tomar suas
decisões. Olhou demoradamente para cima, mas de Meech não havia
nenhum sinal.
Um dos
adversários estava entre o terceiro e o quarto andar. Com aquele
peso todo, não teria ido muito além, até que Ron cortasse sua
subida. Confiando nisto, Ron desceu as escadas, pulando de três em
três degraus, bem rente à parede externa, pelo menos enquanto a
distância fosse grande.
Fora das
batidas ocas de suas botas, a grande escadaria mantinha o silêncio
sepulcral.
No sétimo,
parou. Comprimiu-se atrás da pilastra de sustentação da pesada
balaustrada e ficou na escuta. Abaixo dele, era uma babel de ruídos,
respirar ofegante e conversa mais alta. Deu-lhe a impressão de que
os inimigos não chegavam a um acordo sobre o que deviam fazer
primeiro. E esta incerteza deles vinha lhe dar uma chance. Se caísse
de repente em cima deles, certamente haveria de deixar fora de
combate um bom número, antes de se recuperarem da surpresa.
Deviam
tê-lo ouvido quando desceu as escadas aos pulos. Tinha que se mover,
agora, sem nenhum ruído. Isto os convenceria de que estava ainda
dois ou três andares acima deles, esperando por eles. Desta vez,
manteve-se no centro da escada. A parede externa não era mais tão
segura, pois, lá de baixo podia ser vista. Com a arma firme na mão,
descia degrau por degrau. O vozerio e a respiração ofegante
aumentavam: não podiam estar mais longe do que andar e meio. É pena
que não entendesse a linguagem deles. Talvez pudesse chegar a uma
conclusão sobre quem eram.
Já tinha
deixado atrás de si a metade da escada entre o sétimo e sexto
andar, quando ouviu um ruído. Rolou instintivamente para o lado,
batendo com o ombro na parede externa. Abaixo dele, no nível do
sexto andar, estava um dos estranhos. Levantou-se atrás do
balaústre, com a pesada arma virada para Ron. Este deu um grito e
tombou ruidosamente pela escada.
*
* *
Meech
compreendeu a nova situação e tirou dela todas as conseqüências
possíveis em menos de um milésimo de segundo. Havia captado a
conversa entre Ron e Larry, pelo seu aparelho de pulso. Observou o
tiro que passou rente à cabeça de Ron, fazendo suas deduções
quanto à arma utilizada. Devia ser um fuzil de raios térmicos,
pesado, automático, do tipo que um terrano bem desenvolvido mal pode
segurar.
O biorrobô
observou um dos estranhos; era disformemente gordo e muito pesadão.
Assim como parecia ser, não teria nenhuma chance diante de um
terrano. Mesmo a vantagem numérica não lhe adiantaria muito.
Meech
chegou à conclusão de que o inimigo estava consciente de sua
inferioridade. Agora, se apesar de saber disso, continuava no seu
ataque, é porque estava confiante em algum truque.
Meech não
conseguia atinar qual seria esse truque. Para isso tinha que conhecer
as intenções dos estranhos. Mas ele podia fazer uma coisa, a fim de
impedir a concretização do truque.
E
imediatamente se pôs a caminho. Do sopé da escada, penetrou no lado
direito do corredor. Foi abrindo uma porta atrás da outra e
inspecionando todos os aposentos em volta. Não ficou surpreendido ao
ver que alguns deles não estavam tão vazios, como o pesado silêncio
fazia crer ali na torre. Em móveis baixos, imitando um sofá ou
mesmo diretamente no chão, estavam ali deitados os corpos disformes,
inchados, dos azgônidas. Não deram ao biorrobô a menor atenção.
Antes que conseguissem virar a cabeça para vê-lo, ele já havia
saído do ambiente, fechando a porta.
A
objetividade de sua mente lógica recusava-se a pensar na presença
dos azgônidas. Não queria saber por que ali estavam e por que não
se manifestavam ou ainda por que não iam para casa ou faziam outra
coisa. Sua única programação era preocupar-se com o estranho
inimigo.
Atrás da
vigésima quinta porta encontrou o que procurava. O recinto estava
vazio, isto é, havia apenas a poeira no chão e uma estreita
escadinha lá nos fundos que conduzia tanto para cima como para
baixo. Sem hesitar, desceu pela escadinha, que terminava também num
aposento vazio e pequeno. Quando abriu a porta, achou-se diante de um
corredor que ainda não tinha visto. Percebeu logo que se encontrava
num dos andares intermediários, ligado com o andar térreo pelas
duas escadas principais.
Tomou a
esquerda e, poucos segundos após, estava no patamar da escada
principal. Rapidamente, mas sem fazer o menor ruído, iniciou a
descida.
*
* *
Ron não
voltou a si. Parede, degraus da escada e balaustrada giravam diante
de seus olhos enquanto caía. Por uma fração de segundo, passou-lhe
pela mente o grande e gordo desconhecido. Mais do que depressa
empurrou para frente a mão com a arma e atirou.
Um grito
furioso foi a resposta. A queda de Ron chegou ao fim. Atingiu o
último degrau da escada. Queria levantar-se, mas a visão das
enormes botas, que surgiam a poucos centímetros dele, o congelou no
lugar onde estava.
Olhava
hipnotizado para elas, sem poder ver o lugar onde as pernas
gigantescas emergiam das botas do estranho. Nem mesmo o conseguia
ver, apesar de ele estar ali a seu lado, deitado de bruços. Sabia,
porém, que ainda estava com a arma na mão e que podia atirar a
qualquer instante. Ron retesou os músculos, como se com isso pudesse
resistir a algum disparo.
Reparou,
então, que a bota dobrava lentamente para trás e a parte superior
da sola se levantava do chão. Ouviu um profundo gemido e as botas
caíram de novo, produzindo um baque surdo. Ron virou-se rápido para
o lado. Por um momento acreditou que o estranho se lançava contra
ele, mas como nada aconteceu, levantou-se e viu o inimigo disforme
esparramado no chão de olhos fechados.
Ron
compreendeu que o tiro disparado por acaso durante a queda o atingira
e o deixara inconsciente.
Respirou
aliviado e acabou de se levantar.
No mesmo
instante, ouviu o sinal no rádio de pulso. Ligou-o e a voz de Frank
Bell se fez escutar, tendo como fundo constante uma sucessão de
explosões.
— ...sob
pesado bombardeio. Não conseguimos mais agüentar, senhor. Um grande
número de foguetes converge para a nave. Se explodirem todos ao
mesmo tempo, estamos perdidos.
A situação
estava mais do que clara e Ron não perdeu tempo em tomar sua
resolução.
— Levante
vôo imediatamente, Frank, compreendeu?
— Compreendi.
Fim — respondeu Frank.
Ron
desligou o pequeno aparelho e olhou para cima. Por cinco ou seis
segundos perdera o contato com o ambiente onde estava. Deu uns passos
para o lado e olhou escada abaixo, para o quinto andar. Antes de
ouvir o forte resfolegar dos “gorduchos”,
viu a sombra que se projetava nos degraus.
Jogou-se
para frente, para se proteger. A sombra se movia lenta para a
esquerda. Segundos depois, surgiu o vulto volumoso que a produzia.
Apoiando-se nos grossos braços, a enorme figura olhou escada acima.
Ron engatilhou a arma. Não tinha intenção de matar o estranho,
queria deixá-lo subir e fazer com que caísse vivo em suas mãos.
Mas o
gorducho colocou o cano da arma pesada na quina do degrau, fez
pontaria para o alto da escada e atirou. O tiro passou longe de Ron,
mas produziu na parede atrás dele um rombo profundo. O material da
construção começou a ferver, escorrendo logo uma massa branca que
pingava no chão chiando. Densa nuvem de fumaça se elevou,
escondendo a cena. Ron tossiu.
Isto deu
ao inimigo um novo alvo. Através da nuvem esbranquiçada, Ron viu
indistintamente como ele puxou mais para a direita o cano da arma.
Não tinha outra opção, pulou para o lado para ter melhor visão e
apertou o gatilho de sua pequena pistola. Um raio fino e branco
atingiu o gorducho, levantou-o e o jogou para trás.
Mas a
vitória de Ron durou muito pouco, pois logo percebeu que caíra numa
cilada. Simultaneamente, quatro feixes de raios da espessura de um
braço o mantiveram imóvel, num círculo de fogo. Um calor bárbaro
o acometeu. Embora os raios não o atingissem diretamente, o teto
começou a fundir, desprendendo uma massa incandescente sobre ele.
Ergueu os braços para proteger a cabeça. Meio tonto, cambaleou para
o lado, onde a balaustrada lhe servia de abrigo, principalmente
devido à terrível fumaça de seus disparos.
Passaram,
então, para outra tática. Duas de suas armas desfechavam raios
rente ao parapeito da balaustrada, enquanto as outras duas faziam
derreter a própria balaustrada no fim da escada. O coitado percebeu
que assim lhe tolhiam toda saída. Os estranhos precisavam apenas
esperar que os gases venenosos da cal o deixassem inconsciente.
O calor
sufocante fazia-o suar por todos os poros, banhando-lhe e
queimando-lhe os olhos. Os pulmões lhe doíam ao respirar. Não ia
agüentar muito tempo, se Meech ou Lofty não lhe viessem em
socorro...
*
* *
Meech não
contara em encontrar um adversário nesta escada. Mas quando o viu,
sua reação foi muito mais rápida que a dos estranhos. Levantou o
braço e de um de seus dedos jorrou um feixe de ondas invisíveis de
um vasto campo de choque. O gorducho deu um grito lancinante e caiu.
Não se moveu mais. Ficaria ali inerte, pelo menos por duas horas.
Tiveram o
mesmo pensamento que ele. Pretendiam prendê-lo num cerco perfeito.
Sua única desvantagem era-lhes o peso descomunal. Provavelmente
havia ali com o gorducho abatido pelos choques um outro adversário
subindo a escada. Meech guardou isso na memória e propôs segui-lo,
assim que acabasse de socorrer Ron e Lofty.
Ouvia os
estampidos e a trepidação dos tiros, na outra escadaria. Com uma
agilidade que ninguém suporia num pesado corpo metálico, desceu as
escadas pulando vários degraus, até chegar ao térreo, exatamente
no momento em que Ron Landry suportava um fogo cruzado de quatro
armas simultâneas. Compreendeu logo a situação, mas o ponto onde
estava era totalmente desfavorável para atirar. Teria que voltar um
pouco atrás, se quisesse intervir com sucesso. Frio, com uma calma
robotizada, subiu de volta uns degraus.
No caminho
para o quinto andar, Meech viu que o trecho da escada, onde se
concentrava o fogo cruzado, não haveria de agüentar mais tempo.
Alguns degraus mais e o biorrobô tinha o grupo dos estranhos bem à
frente dele. Não notaram sua presença e continuaram com a descarga
das pesadas armas dirigidas para cima, a fim de destruir o trecho da
escada.
Meech
atirou na hora, atingindo em cheio o primeiro adversário com os
raios paralisantes. Os outros três notaram algo de estranho e
viraram para trás. Na sua pesada morosidade, não eram adversários
para o ágil biorrobô. Antes de completarem a meia-volta, com as
armas pesadas na mão, já estavam inconscientes.
Por alguns
instantes, as figuras volumosas dos três inimigos se mantiveram de
pé, como que pensativas, de olhos arregalados. Depois se desmontaram
completamente. Uma automática pesada caiu aos pés de Meech. Como se
fosse um brinquedo de criança, ele a levantou.
— Ron! —
gritou para cima.
Ron se
apresentou, mas o que sua garganta sufocada disse, Meech não
entendeu.
— Corra
para cima, senhor, depressa! O trecho da escada onde está vai
desmonorar. Eu subo por outra escada.
Tinha que
se desviar para o lado. A última coluna da balaustrada tombou para
frente, arrastando um grande bloco de pedra do piso da escada. A
argamassa começou a estalar e a rebentar. Mais uns segundos e...
— Corra,
senhor! — gritou o biorrobô.
*
* *
Como que
através de um tubo muito comprido e fino, Ron ouviu a advertência
do biorrobô. Estava sentado no meio do degrau, com o cotovelo
direito apoiado no chão. Reparou então que ninguém mais atirava.
— Que
aconteceu? — balbuciou.
Levantou-se
com dificuldade. As articulações lhe doíam e a respiração lhe
era difícil. Queria responder a Meech, mas de sua garganta não saía
som direito.
Meech
disse-lhe para subir. Por quê? Notou de repente que o chão a seus
pés tremia. Recuou e viu a última coluna da balaustrada se
desprender e cair, abrindo uma grande fissura no chão. Compreendeu,
então, o que se passava. O prolongado fogo cruzado dissolvera a
argamassa. O chão onde estava podia se diluir a qualquer momento em
fina poeira e desabar por completo.
Começou a
correr. A cada passada, sentia como se alguém lhe estivesse metendo
uma agulha incandescente na sola do pé. Deu um pulo pequeno, quase
sem força, sobre o piso em brasa, que se estendia oblíquo na
extremidade esquerda do lance de escada. Sem olhar para trás,
continuou escada acima. Olhou para o alto e teve a impressão de que
seria impossível subir mais do que um ou dois andares.
Mas, acima
dele, estava Lofty Patterson, gesticulando e dizendo alguma coisa.
Não entendeu nada. Viu apenas como ao lado de Lofty surgia o oval
branco de um rosto estranho, que já vira antes daquela total
confusão.
Neste
momento, desmoronou atrás dele o trecho da escada. Ron ficou parado,
de respiração presa, como que petrificado. A massa bruta rolava num
estrondo infernal, caindo nos andares de baixo. A parede não
agüentou o impacto e começou a trincar, cedendo uma boa parte. Por
alguns minutos, a possante escadaria se encheu de um barulho
ensurdecedor. Lá embaixo, no saguão de entrada da grande torre,
avolumava-se o monte de argamassa e pedra esfumegante. No meio
daquele entulho todo, jaziam os estranhos que, pelas próprias mãos,
provocaram a própria desgraça. Abaixo do ponto onde estava Ron, a
soberba escadaria se escancarava num poço de ruínas.
Onde
estava Meech?
Por um
instante Ron temeu pela sorte do biorrobô. Estava em qualquer lugar
lá embaixo, quando lhe gritou que fugisse. Parecia impossível a Ron
que ele tivesse tido tempo de descer até o térreo e subir por uma
outra escada. Talvez estivesse sepultado com os inimigos no entulho
da escada destruída. E cinco toneladas de reboco e pedra contra o
peito, mesmo de um ser como Meech, não era brincadeira.
Ia ligar
seu transmissor de pulso para chamar Meech e tirar todas as dúvidas.
Mas a escada começou a tremer sob seus pés. Uma pedra
desprendeu-se. Ron compreendeu, então, que o restante da escadaria
perdera a estabilidade. Se continuasse mais tempo parado ali,
despencaria contra o chão do andar térreo, como os estranhos,
talvez também como Meech.
Continuou
subindo, amparando-se nos balaustres. Ao olhar para cima, continuou
vendo Lofty e o desconhecido ainda no parapeito da escada, de pé,
acenando para ele. Não sabia o que queriam.
Atrás
dele, despencou mais um trecho da escada, aumentando o já volumoso
entulho. Caso não se apressasse, seria também levado pelo
desmoronamento progressivo. Procurou tirar de seu cansado organismo o
resto de força que ainda havia nele. Isto o ajudou um pouco. Somente
quando já estava entre o sétimo e o oitavo, foi que desmoronou o
trecho entre o sexto e o sétimo. Continuou desesperado escada acima,
vendo as trincas nas paredes, demonstrando em que situação estaria
todo o edifício da torre em poucos minutos. Tudo viria abaixo.
Foi então
que percebeu o que pretendiam Lofty e o desconhecido. Não havia mais
nenhuma possibilidade de escaparem da catástrofe. O caminho para
baixo estava cortado. Quem poderia dizer como era a situação nas
outras escadarias? Tudo para eles dependia de uma sorte muito grande,
sorte tão duvidosa que dava medo de pensar.
Ron parou
de novo, embora soubesse que o tempo perdido lhe podia custar a vida.
Mas sua vida já estava mesmo perdida, se não encontrasse Larry.
Apertou o botão do pequeno aparelho e ligou o código de Larry. Foi
um verdadeiro alívio quando ouviu a voz do colega.
— Pegue
o deslizador, Larry — disse ofegante. — Suba vertical na rua
atrás da torre. Em algum lugar, entre o décimo e vigésimo andar,
você vai nos ver em alguma janela. Aproxime-se o mais que puder para
nos apanhar. Entendido?
— Entendido
— respondeu.
Ron
continuou correndo para cima, com a regularidade de uma máquina.
*
* *
Larry
estava tentando entrar na torre, quando ouviu o ribombar dos disparos
energéticos. Encontrava-se nos primeiros degraus da escadaria,
quando lhe acudiu à mente que fora imprudência abandonar o posto lá
fora na rua. Viu quando a Victory desapareceu no céu como um
pontinho luminoso e sabia agora que, pelo menos por um tempo
indeterminado, só podiam contar com os próprios recursos.
Tinha que
voltar para a rua, por mais que a impaciência o impelisse a tentar
fazer coisa diferente. Lá fora reinava calma. Não podia fazer outra
coisa do que se proteger e aguardar os acontecimentos.
Cessou de
repente, lá dos lados do norte, o ribombar contínuo dos foguetes
teleguiados. O inimigo reconheceu que a espaçonave dos terranos
escapulira e interrompeu o pesado bombardeio.
Nesta hora
chegou o pedido de socorro de Ron Landry. Larry Randall não tinha a
menor idéia do que se tratava. Entrou no carro voador e num instante
o tirou do esconderijo e, de acordo com as instruções de Ron, foi
para a frente da rua da torre e começou a subir, olhando sempre pelo
vidro do pára-brisa, para ver em que janela estariam Ron, Lofty e o
biorrobô.
Passaram-se
alguns minutos, sem que nada acontecesse. Larry flutuava de um lado
para o outro, entre o décimo e o vigésimo andar. Até que afinal,
deslizando bem junto da parede, percebeu um relevo diferente na
regularidade monótona da construção. A irregularidade era ã
cabeça de Ron. Viu também um braço que se agitava de um lado para
o outro, fazendo-lhe sinais.
Aproximou-se
mais e segundos após pairava no nível da janela, com o lado de
bombordo exatamente comprimido contra a parede. A porta corrediça se
abriu. Alguém se esquecera de abrir totalmente a janela e o carro
voador estraçalhou um pedaço da mesma. Larry viu três homens atrás
da janela. Os dois primeiros eram Ron e Lofty, o terceiro lhe era
desconhecido. Cabeça completamente calva e muito corpulento. Talvez
fosse um azgônida. De Meech Hannigan, não se via sinal.
Ron ajudou
o azgônida a passar pela janela, dando-lhe depois um empurrão. Numa
cambalhota desajeitada, acompanhada de um grito assustador, o
homenzarrão entrou no carro voador. Depois veio Lofty e Ron, em
último lugar, que acabou fechando a portinhola.
— Vamos
embora — gritou ele.
Larry
afastou o carro da parede do edifício e perguntou:
— Onde
está Meech?
— Perdido
— foi a resposta de Ron.
Larry se
assustou. Com o desaparecimento de Meech, a situação piorava muito
para eles. Além disso, já estava começando a gostar do biorrobô.
Não fez outras perguntas. E já que Ron não lhe deu qualquer
instrução quanto ao caminho a tomar, voou na direção da grande
praça, em frente à qual ficava a torre.
— Lá...!
— gritou Ron de repente.
Larry
virou-se para trás e viu seu colega apontando para a torre. Uma
fenda gigantesca percorria toda a fachada do edifício. E todos viram
como ela se ampliava a olhos vistos. Repararam atônitos que um
grande bloco do paredão externo se desprendia da construção. E
antes mesmo que este bloco estatelasse no chão da rua, a parede toda
se vergou para frente, caindo segundos após como uma catadupa
gigantesca, num estrondo de dar medo, na rua deserta. Uma nuvem de
poeira se levantou, ocultando o local da destruição.
Ron
desviou os olhos da cena dantesca e enxugou o suor da testa.
— Por
pouco não caímos juntos com ela — constatou.
O gorducho
careca, neste meio tempo, conseguira sentar-se na poltrona ao lado de
Larry.
— O
senhor conhece um lugar seguro na cidade ou fora dela? —
perguntou-lhe Ron em arcônida.
Com muito
sacrifício o homem se virou para ele.
— Que
tipo de segurança o senhor quer?
— O
senhor sabe que há um mundo de gente atrás de nós. Gostaria
primeiro de ter algumas informações suas, antes de me encontrar de
novo com eles.
— Não
conheço esta gente, não. Nunca os vi antes e não são azgônidas.
Não sei também o que pretendem aqui.
Larry
ficou algum tempo estudando melhor o homem a seu lado. No momento, a
direção do deslizador não exigia tanto cuidado. O que dava muito
na vista no azgônida é que devia estar já há muitas semanas sem
se lavar. Tinha, porém, o porte de um homem consciente de sua
importância. Sua roupa — um misto esquisito de calça, camisa e
algo parecido com um manto — dava a impressão de coisa cara,
apesar de parecer que a mantinha no corpo há mais de um mês.
— Pois
bem — disse Ron recomeçando a conversa — sejam quem for os
desconhecidos, procuramos um lugar onde possamos conversar livremente
pelo menos uma hora.
Por uns
segundos, o azgônida manteve silêncio.
— Dirijamo-nos
para o Parque Central — disse finalmente. — Lá no meio do
parque, teremos uma visão livre para todos os lados.
Ron acenou
concordando.
— O
senhor é um homem inteligente, dê suas instruções ao piloto que
está aí a seu lado.
*
* *
O Parque
Central era a obra-prima de um arquiteto que presenciara o apogeu
cultural da sua raça. No momento ainda mantinha aquele ar de
suntuosidade, com a imensa coluna no centro e as antigas casas
pequenas, de fachada estreita, em seu derredor. Mais tarde, modernos
palácios comerciais ocupariam seus lugares, ressaltando mais ainda
sua majestade.
Assim que
o carro aterrissou, Ron abriu a escotilha e saltou. Como que pedindo
socorro, o azgônida virou-se para Larry.
— Ser-lhes-ia
grato — disse respirando com dificuldade — se me deixarem aqui
sentado. Acreditem-me que todo movimento me é um esforço tremendo.
Larry
olhou para ele, sorrindo:
— Acho
que ninguém tem nada contra. Podemos conversar através da escotilha
aberta.
Ron
continuava caminhando na direção da coluna, admirando toda a praça.
Ao voltar, estava pensativo, cocando a cabeça.
— Uma
coisa está bem clara — disse em voz baixa para Larry. — Assim
que virmos o primeiro deslizador por aí, temos de sumir. Esta coluna
é um ponto de referência tão bom, que poderão nos acertar, mesmo
com um velho morteiro.
Larry
concordou com a opinião do chefe:
— Acho
que ele nos pode dizer em poucas palavras o que está se passando
aqui.
Lofty
Patterson entrou na conversa:
— É um
lugar formidável — disse bem alto — se tivermos inimigos que
venham caminhando por terra. Fora disso, acho muito perigoso.
Tinha,
portando, as mesmas preocupações que Ron.
— Quer
saber de uma coisa? A política é uma coisa que não me interessa
muito. Enquanto o senhor discute com o azgônida, vou dar uma olhada
por aí. Ficamos, assim, um pouco mais seguros.
Ron
concordou e voltaram para a viatura, ele e Larry. Sentaram-se perto
da escotilha aberta, a fim de conversarem melhor com o gorducho, e
Ron foi logo ao assunto.
— Alguma
coisa muito estranha deve ter acontecido em Azgola no correr dos
últimos anos, meses, semanas, não sabemos exatamente. Será que o
senhor nos pode explicar?
Sacudiu a
cabeça pensativo.
— Não,
explicar, não. Posso apenas lhes descrever os fatos como os
presenciei ou me foram narrados. Deixem-me relatá-los.
“Meu
nome é Bladoor, no governo de Sua Majestade eu era ministro para
questões de trabalho e bem-estar social. Digo-lhes isto somente para
esclarecer o meu livre acesso às fontes de informação.
“Há
mais ou menos nove semanas, semanas de oito dias, observou-se que uma
espaçonave desconhecida se aproximava de nosso planeta. Era
relativamente pequena. A nave aterrissou no continente transoceânico,
que chamamos de Doorhadas. Lá não existe propriamente nenhum
povoado, muito menos um espaçoporto. A nave desceu numa planície de
capim ralo, sem pedir autorização.
“Quando
a notícia da aterrissagem do aparelho desconhecido chegou a Timpik,
a nave já havia sumido, como soubemos mais tarde.
“Dias
depois, chegou outra, e desta vez um gigante espacial, que aterrissou
no mesmo local. Os membros da tripulação desembarcaram na mesma
quantidade como da primeira vez. A espaçonave ficou simplesmente por
lá e supomos também que, depois de algum tempo, desapareceria
também.”
— O
senhor supôs, simplesmente? — perguntou Ron admirado. — O senhor
não tem certeza a respeito?
— Não,
não posso ter certeza. Acho que o senhor não vai entender isto. Mas
coloque-se na nossa situação. O transporte pelo oceano ainda é
feito por barcos a vela. Vivemos no tempo da máquina a vapor, mas o
combustível, que, entre os senhores, parece se chamar carvão, não
existe aqui.
Um barco
tocado a vapor não se pode sobrecarregar com muita lenha para sua
alimentação, daí o emprego das velas. Assim, para se atravessar o
oceano em sua largura, que é o que interessa, gastamos em média
entre quatro a cinco semanas. Recebemos a notícia da aterrissagem do
primeiro aparelho quatro semanas e meia depois do dia em que
realmente chegou. A nave permaneceu dois dias em Doorhadas e cinco
dias após termos recebido a comunicação da aterrissagem,
recebemos, também, a da sua saída. Mas isto, três semanas mais
tarde. Depois da chegada e saída da segunda grande nave, esperamos
outras notícias sobre outras aterrissagens, mas não houve nada
mais.
“Entretanto
aconteceu algo muito diferente. Perdemos de repente todo apetite ou
toda fome e por fim a saciedade chegou a verdadeiro fastio. E nós
não apenas nos sentíamos cheios, estávamos realmente cheios. Nosso
peso aumentou sensivelmente e isto para todos os azgônidas, sem
exceção. Engordávamos de três a seis quilos por dia. E o pior é
que não sabíamos de onde provinha isto.

Nenhum comentário:
Postar um comentário