quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr [Parte 3]

Sim, e os terranos perderam só um. Já sei disso — atalhou Garathon furioso.
Eles querem de qualquer maneira mais reforço. Sozinhos não vão mais agüentar.
Garathon decidiu sem muita hesitação:
Mande-lhes cinco homens, deve ser suficiente.
Garr anotou tudo num pedaço de papel que sacou do bolso, coisinhas mínimas que qualquer criança guardaria de cabeça.
Fora disso — perguntou autoritário Garathon — como estão as colheitadeiras?
Esta pergunta se dirigia ao quinto saltador, sentado um pouco afastado da mesa, como se não pertencesse ao grupo, o que em parte era verdade. Chamava-se Lag-Garmoth. Já o nome indicava pertencer ele a um outro clã ou subclã. Garathon o tomara emprestado, pois Lag-Garmoth era bioquímico e no clã de Garathon não havia ninguém com esta profissão, aliás necessária em Azgola. Conforme os antigos rituais do clã, Lag-Garmoth estava obrigado a manter absoluto segredo, em troca do que receberia um bom lucro. Não obstante tudo isto, Lag-Garmoth e Garathon não se suportavam. Tinham a mesma idade e mais ou menos a mesma inteligência.
Bem — respondeu secamente o bioquímico. — Estarei pronto na data combinada.
Não pode ser mais cedo?
Não.
Pela primeira vez olhou diretamente para Garathon, que pareceu ler nos seus olhos enérgicos uma ameaça: “Não queira perguntar por quê!” Engoliu a pergunta e disfarçou com outro assunto:
Alguma idéia nova sobre a origem do fenômeno?
São fungos de um musgo — respondeu Lag-Garmoth — que deve existir em Azgola em grande quantidade. Tais fungos contêm excelentes elementos nutritivos que chegam ao interior do organismo pelas vias respiratórias. Eles são, se pudermos falar assim, um alimento já digerido, não havendo mais necessidade do trabalho estomacal. A substância nutritiva é imediatamente...
Está bem, está bem — interrompeu-o Garathon. — Estou pensando em outra coisa. Este musgo tem alguma semelhança com os demais musgos encontrados em Azgola? Como você sabe, já fizemos mais vezes esta pergunta.
Lag-Garmoth gesticulou longamente com a mão direita, antes de responder:
Francamente, ainda não sei. Não achamos ainda nenhuma espécie de musgo que se assemelhe a este negócio esquisito. Isto, porém, não quer dizer que não exista.
Certo. Agora, haverá alguma possibilidade de os primeiros fungos terem entrado aqui através do espaço?
Não. Fungos de musgo são formações relativamente bem desenvolvidas. Não podem suportar as condições do espaço.
Suponhamos que o musgo não seja realmente uma planta nativa do planeta — continuou Garathon insistente — e a favor desta hipótese, o maior argumento é o fato de que os azgônidas até pouco tempo eram magros e fracos. De onde e como teria este musgo chegado a Azgola?
De onde? Não tenho a menor idéia. Como? Lembre-se da história que ouvimos a respeito de seres...
Isto é bobagem! — gritou Garathon. — Não existe na Galáxia nenhuma raça desconhecida viajando pelo espaço.
Mais uma vez, Lag-Garmoth começou a gesticular com a mão direita.
Então não sei mais nada — respondeu ele. — Mas eu também tenho uma pergunta para fazer — levantou a cabeça e olhou em volta. — Acho que já tornei bem claro que a construção das colheitadeiras, que apanham automaticamente os fungos dos musgos, os comprimem e os deixam prontos para o transporte, exige todas as nossas reservas de energia. Pedi, por este motivo, que fosse reduzido ao máximo todo consumo particular de energia. Há pouco tempo, duas máquinas importantes falharam. Surgiu uma série de enguiços repentinos por falta de energia. Gasta-se pelo menos quatro horas para se colocar de novo a máquina em funcionamento. Se conseguir recuperar este atraso e esta perda, o merecimento é exclusivamente meu e de minha gente, e de mais ninguém. Gostaria de saber quem está causando este transtorno.
Garathon teve a coragem de levantar a cabeça e olhar em volta. Sabia perfeitamente como era grande o consumo de energia de seus instrumentos de tortura.
Será um de nós aqui? — perguntou com aparente naturalidade.
Um depois do outro, todos fizeram um gesto negativo.
Não é nenhum saltador — disse Garathon peremptório. — Vou mandar investigar o assunto.
Levantou-se.
O que vai acontecer com os prisioneiros? — perguntou Lag-Garmoth indiferente.
Por um triz que Garathon não perdeu o autodomínio. Só depois de um instante de hesitação foi que lhe chegou ao consciente que a ligação das duas perguntas não tinha significado especial. A pergunta indiscreta referente ao consumo clandestino de energia e a pergunta a respeito dos prisioneiros podiam ter saído dos lábios de Lag-Garmoth por acaso, uma depois da outra, sem segundas intenções.
Por que...? — disse Garathon indeciso, depois de se ter refeito do susto. — Vamos levá-los conosco quando deixarmos Azgola, para que não possam nos prejudicar.
Depois destas palavras, Lag-Garmoth não se manifestou mais, parecendo estar satisfeito. Garathon deixou o recinto. Estava irritado a aborrecido por ter perdido o autodomínio. Parecia até nervoso. O ar, a umidade e a misteriosa substância nutritiva o deixavam maluco.

Despertou num mar de dores. Queria gritar, mas seus pulmões não tinham ar para tanto e as cordas vocais não funcionavam mais.
Seu primeiro pensamento foi para Garathon, cujo nome congregava todo ódio do mundo. Conseguiu abrir os olhos, examinando espantado o ambiente em volta.
Não fizeram muita cerimônia para lhe arranjar um abrigo. O cubículo era quadrado, sendo que a única mobília não passava de uma lâmpada antiquada no meio do teto. Ron Landry estava deitado de costas. Se virasse de lado para a direita, daria com o material liso da parede bem na frente dos olhos.
Na parede oposta em ângulo reto, existia uma porta ou ao menos os contornos de uma porta. Mas não viu o menor sinal de um dispositivo que permitisse abri-la. É claro que isto não estaria, nem podia estar, nas intenções dos saltadores. Uma porta que não se pudesse abrir por dentro, reduzia de qualquer maneira o trabalho de ficar vigiando os prisioneiros.
Tentou levantar-se e uma onda de dor lancinante o envolveu todo quando firmou os pés no chão. Cerrou os olhos, apoiou-se na parede e ficou esperando. A dor foi passando, afastou-se da parede e conseguiu ficar de pé. Sentia uma leve tontura e as linhas retas das quinas das paredes lhe davam a impressão de serem sinuosas. Mas foi tudo. Com força de vontade se podia agüentar.
Ron não queria mais fazer experiências. Sabia que eram inúteis e perigosas e não devia desperdiçar energia, mas poupá-la. Sentou-se de novo no chão, encostando-se na parede.
Eu devia estar com fome agora”, pensava ele.
Procurou se lembrar há quanto tempo não punha nada na boca. Não o conseguiu. Para isso tinha que saber por quanto tempo estivera inconsciente. Não tinha mais relógio consigo, aliás nenhum dos instrumentos de medição que costumava carregar. Percebera isto já durante a conversa dolorosa com Garathon. Os saltadores lhe haviam tirado tudo, em primeiro lugar, naturalmente, a arma.
No tocante à fome, era mesmo esquisito. Não apenas pelo fato de não senti-la. Tinha mesmo a sensação de ter saído naquele instante de um lauto banquete, onde havia comido demais. O mistério de Azgola: alguma coisa pairava no ar, deixando os homens saciados e gordos. Algum elemento estranho que o corpo absorvia com avidez. E os saltadores pretendiam utilizá-lo como um negócio, a fim de um lucro fabuloso.
Seria de fato um negócio esplêndido quando descobrissem o fenômeno. No espaço imenso da Galáxia, havia muitos mundos cuja população passava fome, porque o solo era infértil ou por não dominarem os métodos de fabricar alimentos sintéticos ou simplesmente porque a população era excessiva. Se os saltadores conseguissem introduzir no mercado um produto alimentício que saciasse a fome pela simples respiração, ficariam milionários da noite para o dia.
Apesar de seu estado físico, Ron compreendia os truques, a astúcia e a clandestinidade com que agiam os saltadores em Azgola. Já haviam feito péssimas experiências com os terranos, especialmente os do clã de Garathon, de onde descendia também Alboolal. Não queriam ser perturbados no seu “trabalho” em Azgola e ninguém devia saber que eles estavam por ali. Os azgônidas não eram capazes de prejudicá-los, nem traí-los, pois não tinham meios para isto. E quanto a suas espaçonaves, cujos motores podiam ser rastreados de longe, os saltadores as haviam enviado de volta para o espaço distante, onde ninguém as procuraria.
Compreendia também que a missão que recebera de Nike Quinto já estava cumprida — se a tomasse ao pé da letra. Sacerdotes de Baalol não existiam em Azgola. A aventura vivida por Chuck Waller não tinha nada que ver com um dos misteriosos ativadores celulares que alguns adeptos de Baalol traziam consigo.
As duas espaçonaves de que falara Bladoor deviam ter alguma coisa com os singulares acontecimentos de Azgola. Ron tentou fazer um quadro geral de tudo que se passara no planeta. De onde teriam vindo as duas naves, a grande e a pequena, por que não se via nenhuma tripulação? Que vieram fazer em Azgola estas duas naves?
É claro que existiam naves robotizadas, isto é, tripuladas somente por robôs. A maior parte da frota arcônida era assim. Os azgônidas mesmos não dominavam a Cosmonáutica, em compensação chegaram a desenvolver um grande sentido para distinguir os diversos tipos de espaçonaves e saber a que parte da Galáxia pertenciam.
Naves como estas jamais foram vistas antes em Azgola. E mais ainda, conforme as descrições de Bladoor, Ron começou a duvidar de que elas existissem mesmo em outra parte. Falar numa raça desconhecida, vagando em naves pelo espaço? Era uma coisa inimaginável. Mas mesmo assim, Ron julgava que esta suposição absurda devia entrar no âmbito das hipóteses.
Por algum tempo, deu vazão a esta fascinante idéia. Depois, concentrou sua atenção em problemas mais concretos, mais evidentes. Tinha que achar uma saída. Seu pensamento voltou-se novamente para Garathon e foi neste momento que pela primeira vez achou estranho o fato de que Garathon já o conhecia e sabia que ele estava implicado na prisão de seu primo Alboolal. Estranho mesmo, pois a identidade dos homens que trabalhavam para Nike Quinto, na Divisão III, era mantida sob severo sigilo. Ninguém sabia exatamente quais eram as atribuições da Divisão III, muito menos quais os homens que dela faziam parte. É verdade que às vezes não se podia evitar que os homens de Nike Quinto fossem conhecidos por pessoas estranhas durante o desenrolar de uma missão, onde não podiam esconder totalmente suas funções. Mas, com toda certeza, Garathon não esteve naquela época em Ghama.
Como se explicaria isto?
A resposta era simples. Garathon os submetera a uma espécie de lavagem cerebral, ou a todos os três ou a ele, Ron, somente. Isto devia ter sido feito durante o período em que estavam inconscientes. Havia uma série de informações mais importantes e mais secretas que estavam impregnadas no cérebro de Ron, Larry e de Lofty, de tal maneira que não existia na Galáxia nenhum método de inquirição ou de lavagem cerebral que pudesse atingi-las. Mas, quanto ao conteúdo comum do consciente, qualquer meio eficaz bem aplicado podia desvendá-lo. E o nome e a atividade de um homem são coisas que pertencem ao conteúdo comum do consciente.
Conseqüência de tudo isto: seu ódio contra Garathon chegou ao clímax. Por insignificantes que fossem as informações arrancadas de seu consciente, um homem de boa inteligência, de posse de um bom computador, podia deduzir muita coisa sobre a existência, os métodos e a atividade da Divisão III e do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento.
Garathon representava, pois, perigo para a Terra. E Ron compreendeu que tinha que tomar alguma iniciativa. Não podia ficar ali deitado, esperando pela ação do inimigo. Tinha que agir.
É muito difícil empreender algo de concreto quando se está num cubículo vazio, com a única porta totalmente travada. Podia gritar e esmurrar a porta, até que viesse um guarda, que certamente estaria por ali. Mas o guarda seria cauteloso e não lhe daria chance de escapar. Além do mais, os saltadores não eram gente de cair facilmente numa cilada.
Ron começou a remoer as coisas e fatos das últimas horas. Tinha que arranjar um ponto de apoio.
Fomos atacados na cidade. Perdemos os sentidos. Os saltadores nos apanharam, Garathon nos aplicou a lavagem cerebral. Eu fiquei depois um bom tempo inconsciente e acabei despertando no recinto de trabalho de Garathon, com os terríveis suplícios elétricos. Falei com Garathon e fui por ele inquirido...”, meditava.
Seus pensamentos estavam hesitantes e procuravam voltar a um ponto onde não havia muita clareza. Que ponto era este? Voltou mentalmente todo o caminho percorrido. A queda, o aprisionamento, o transporte, o inquérito, o voltar a si.
O inquérito! Ah! O inquérito.
Não sabia ou não se lembrava de que tipos de aparelhos Garathon usou para arrancar informações, informações estas que jamais daria conscientemente. Mas, pelo que se conhecia de Garathon, não havia dúvida de que ele fizera tudo para descobrir o que desejava. Equivalia, então, a dizer que esgotara a capacidade tanto dos aparelhos como de seu prisioneiro. Talvez tivesse mesmo superestimado a capacidade mental de seu prisioneiro. Sabia de muitos casos em que a lavagem cerebral levara à loucura.
Isto lhe vinha servir agora de pretexto, abrindo-lhe um novo caminho. Nunca representara um papel deste tipo e precisava de alguns minutos para se preparar. Ponderou tudo que ia fazer e a seqüência das ações. Calculou também todas as hipóteses no tratamento com o possível guarda, as reações dele às suas encenações. Não chegou, porém, a um plano definido. Se continuasse assim, iria confiar na inspiração do momento. Não havia nenhum plano que continuasse depois do ponto em que o guarda abrisse a porta e olhasse para dentro...
Ron começou a esmurrar a porta e a gritar, tendo o cuidado de emitir sons agudos e diferentes. De vez em quando gargalhava doidamente. Esbravejava, pulava, jogava-se no chão, corria batendo com os ombros contra a porta, cuspindo e virando os olhos. No estado de fraqueza em que se achava, não foi para estranhar que começasse a espumar.
Recuou de novo para dar mais um safanão na porta. Neste momento ela se abriu. Por uma fração de segundo, parou para olhar, continuando logo depois. Deixou-se cair de costas e começou a dizer coisas desconexas, enquanto os olhos começaram a lacrimejar de tanto esforço que fazia para virá-los.
Na realidade, estava exultante de contentamento. Sabia que vencera. Quem estava junto da porta, examinando-o com olhos mortos, não era um guarda comum, mas sim um robô dos saltadores.

* * *

Meech tinha a impressão de que tudo estava em ordem. Pareceu-lhe que ninguém notara que ele havia penetrado na base, passando pela série de sensores ultravermelhos. Esperara alguns minutos, embora cada minuto lhe parecesse uma eternidade, para depois continuar caminhando.
Agora, era uma cúpula que se erguia à sua frente, muito maior que a do sinal de alarma que pulara facilmente. A irradiação dos três conjuntos, que já sentira de longe, vinha agora de debaixo da terra, num ângulo oblíquo. Portanto, a base mesmo era subterrânea em quase toda sua extensão.
A questão era a seguinte: como penetrar nela? Se os saltadores haviam defendido tão bem os terrenos adjacentes à base, era evidente que a segurança lá dentro seria redobrada. Os últimos passos seriam, pois, mais difíceis que todos os outros. Mesmo assim, o biorrobô terrano foi se aproximando sem hesitação.
Examinou o material. Era aço polímero e ferro. Podia-se fabricar uma cúpula desta no prazo de poucas horas. Meech notou que os saltadores tiveram de fazer sua base às pressas.
Andou uns dez metros em volta da cúpula e descobriu um par de ranhuras, ocupando um pedaço retangular da superfície da mesma. Estas ranhuras eram estreitas e de pouca fundura, talvez alguns milésimos de milímetro. A vista humana certamente não as teria percebido.
Deve ser uma escotilha ou comporta. E talvez haja outras”, pensou Meech. “Os saltadores possuem carros voadores. Não vi nenhum deles ao ar livre. Devem estar no interior da cúpula. Mas por esta escotilha aqui não podem passar.
Meech sabia que estava na dependência de um deslizador se quisesse pôr fora de perigo Ron Landry e sua gente.
Não poderiam sair correndo por aí. Necessitavam de um veículo rápido...”, concluiu.
Continuou a marcha, achando depois de meio minuto a grande abertura, tão bem fechada como a primeira. As ranhuras atingiam grande parte da curvatura da abóbada. Tão grande era a abertura que até poderiam passar por ela dois deslizadores ao mesmo tempo. O biorrobô estava parado, calmo, examinando o âmbito das ranhuras. Não viu nada que pudesse indicar o mecanismo para abri-la.
Como é que se abre isto?
Esticou o braço e apalpou as bordas das ranhuras. Mal tocara o frio metal plastificado, quando sentiu a rápida sucessão de impulsos. Eram sinais diferentes, mas Meech os compreendeu. Sua programação incluía uma série de linguagens — linguagens de robô. Ouviu claramente:

1F(T) 990,991,200
990 CALLSUP

Sentiu que o ser atrás do material de metal plástico obedecia à ordem, registrando a pressão de seus dedos, correspondente ao módulo 990 e se preparando para executar a operação respectiva. CALLSUP queria dizer alarma. Dentro de poucos segundos, toda a base saberia que algum estranho tentara abrir uma das comportas.
Meech teve uma reação instantânea e teve a grande sorte de que os saltadores não haviam conseguido tempo de instalar nos robôs de comportas os dispositivos mais modernos de sua base. Sua positrônica trabalhava muito mais lentamente do que a de Meech Hannigan, sargento da Frota Espacial Terrana e membro do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, atualmente em missão especial.
Nove bilionésimos de segundo foi o que gastou o robô da entrada da base para executar a instrução 990, enquanto Meech levou apenas meio bilionésimo de segundo para lhe transmitir o EXEM.
Estas quatro letras fizeram o robô dos saltadores parar totalmente. Compreendeu a linguagem positrônica. EXEM significava: alguma coisa está errada, não podemos continuar a programação. Percebia-se que o robô da base era muito inferior a Meech. Não possuía a faculdade de distinguir se uma série de impulsos vinha de seu próprio mecanismo ou procedia de fora.
De qualquer maneira, o robô dos saltadores não executou a instrução 990. Recomeçou a programação. Neste meio tempo, Meech já retirara a mão da comporta e o robô decidiu que a situação, no momento’, correspondia à instrução 991. Com este número, estava anotado em sua programação: 991 KEEPALERT. E ele obedeceu: ficou parado, esperando que algo acontecesse.
E aconteceu mesmo, uma fração de segundo depois. Meech entendeu do que se tratava. Na grande área da comporta, haveria um determinado ponto que um iniciado no segredo teria de tocar, se quisesse abri-la. Este lugar tinha que ser encontrado e Meech agiu muito sistematicamente. Sabia que tinha de fazer com que o robô acreditasse haver um estranho lá fora. Sua grande sorte era que podia eliminar qualquer reação hostil, não correndo, pois, nenhum perigo, contanto que agisse rápido e nada acontecesse de desfavorável.
O ponto de que tudo dependia devia ser pelo menos tão grande que um iniciado no assunto pudesse abrir a comporta, sem procurar muito e sem incorrer no perigo de tocar num ponto errado, provocando assim o alarma. Devia ser pelo menos tão grande como a mão avantajada dos saltadores. Devia, além disso, estar ao fácil alcance, isto é, pelo menos dois metros e meio acima do solo.
Assim orientado, Meech continuou sua procura sistemática. Para seus conceitos de tempo, demoraria muito até que conseguisse tocar um ponto da entrada que não causasse suspeita ao robô de vigilância. Ouviu, como atrás da chapa de metal plastificado, a positrônica executava seus cálculos:

1F(T) 990, 991,200
200 ABERTO

Meech deu um passo atrás. Sem o menor ruído, levantou-se o lado inferior da comporta. Toda a parede metálica recuou um palmo para dentro da abóboda e subiu, surgindo no fundo um aposento fracamente iluminado.
Meech entrou. A princípio nada tinha a temer, pois o robô de vigilância o estava reconhecendo como colega de confiança e não usaria o alarma. Atrás dele não havia sinal de perigo. Podia concentrar toda a atenção naquilo que se passava à sua frente.
O recinto em que se encontrava agora despertou seu interesse. Atrás da chapa dupla da comporta, até a parede oposta, estava uma fila de planadores motorizados, do tipo dos deslizadores terranos, e mais para o fundo viam-se os girinos ou naves auxiliares. Guardou bem na memória a colocação destes últimos. Necessitaria deles para pôr a salvo Ron Landry e seus colegas.
Estava convencido de que saberia manejar os aparelhos. A direção era baseada em computação positrônica, portanto, nos mesmos princípios que regiam sua atividade. Ele e os aparelhos voadores saberiam, então, se entender.
Começou estudando o interior da comporta. Como esperava, ali dentro havia uma marca bem visível do ponto que tinha de ser tocado para movimentação da abertura.
Deve haver também”, deduziu ele, “no interior dos aparelhos voadores um dispositivo adicional para o mesmo efeito, pois ninguém, depois de sair num daqueles aparelhos, ia poder esticar a mão pela janela e tocar no referido ponto para fechar a comporta.”
Já sabia o bastante para se defender neste recinto. Sua próxima etapa era descobrir onde os saltadores haviam abrigado os prisioneiros. Atravessou o recinto dos aparelhos voadores e achou na parede fronteiriça uma série de portas. A primeira em que se deteve, abriu automaticamente, quando estava a dois passos dela. Ficou um pouco de lado e viu atrás da porta um aposento quadrado em cujas paredes havia três clarabóias.
Poços de elevadores antigravitacionais”, registrou Meech. “Entrada para as partes subterrâneas da base.”
Depois de pequena hesitação, entrou num dos elevadores e desceu até o fundo. Enquanto ia para baixo, captou um impulso que muito o alegrou. A última pergunta sobre que rumo tomar, se e quando conseguisse libertar Ron e sua gente, já estava praticamente respondida.
O caminho já estava traçado.

Os saltadores não tinham a menor preocupação com a parte estética de seus robôs. Eram um conjunto pesado, mas de grande mobilidade, de metal plastificado e de vidro inquebrável. Imitando seus criadores, moviam-se com duas pernas, mas, fora disso, não tinham nenhuma semelhança com o ser humano.
Mas não era isto que interessava no momento a Ron Landry. Sabia que o robô dos saltadores estava agora estudando seu comportamento para naturalmente tomar uma decisão. Não havia dúvida de que era um simples vigia e não possuía noções de medicina e saúde e, além disso, ainda havia o fato de que um homem tem sempre a faculdade de disfarçar suas intenções. Sendo assim, tornava-se quase impossível programar um robô para perceber os pensamentos ocultos. Um robô não poderia compreender que um homem poderia simular uma doença, sem tê-la realmente.
Aconteceu o que Ron esperava. O robô veio até ele e o levantou do chão. Ron parou, então, de estrebuchar, como se estivesse surpreendido com alguma coisa. No íntimo, ele não queria que o robô o viesse acalmar com suas pesadas mãos. Teria que poupar seu corpo para ter forças para outras atividades. Deixou a cabeça cair de lado, virou os olhos e murmurou palavras desconexas.
O robô de vigilância o levou por um corredor e Ron teve uns segundos para estudar por fora a porta de sua cela. Mais para a frente surgia uma série de portas iguais. Ron teve a impressão de que Bladoor, Lofty e Larry estavam atrás delas e memorizou bem o local. No fim do corredor havia um quarto quadrado, com uma série de instrumentos, entre os quais uma padiola. O robô descarregou sua carga nela e Ron se levantou imediatamente, sabendo que seu vigia seria mais rápido do que ele. Realmente, o robô deu meia-volta, esticou os braços, comprimindo-o de volta à padiola.
Calma! Fique deitado aí! — rosnou ele, em arcônida.
Tinha que obedecer. Observou que o robô se mantinha calado a seu lado, olhando para o outro lado do quarto, onde continuava o corredor. Emitiu um sinal que Ron não pôde escutar, mas que foi captado por outro robô, pois logo se ouviram as passadas pesadas ao longo do corredor. Segundos depois, um outro robô entrava no aposento. Ron olhou-o rapidamente, sem deixar perceber que ele, como um homem normal, ainda estava em condições de receber impressões de fora e aproveitá-las. O segundo autômato era de construção mais complicada que o primeiro, provavelmente um tipo superior. Olhou para o prisioneiro, virou-o cuidadosamente de costas e se afastou logo que Ron começou a se estrebuchar.
Assim que o segundo robô deixou o quarto, Ron se acalmou, e respirou já mais aliviado. Até a técnica de um ser mecanizado mais complicado também falhara. O próximo a vir cuidar dele seria certamente um saltador em carne e osso. Era o que Ron esperava agora.
Demorou bastante até que se ouvisse barulho no corredor. Estava agora deitado de bruços, com a cabeça virada para um lado, observando a entrada do quarto com os olhos semicerrados. Não deixava de emitir sons e grunhidos esquisitos, como se costuma ouvir de pessoas dementes.
Primeiro entrou o robô. O saltador que veio atrás dele era Garathon. De um momento para o outro, reacendeu-se em Ron o velho ódio, que com o grande esforço de bancar o louco havia quase desaparecido.
Pulou para fora da padiola, gritou desesperado, correndo furioso na direção da parede e batendo com a cabeça nela. O choque o fez cair para trás, rolando no chão, onde continuou gemendo. Ouviu como Garathon emitiu uma ordem, em voz quase alta. O robô de vigilância o apanhou de novo, recolocou-o na padiola. Ron fechara os olhos.
No pequeno quarto soou a voz volumosa de Garathon.
Que palhaçada é esta que o senhor está fazendo? Para que toda esta simulação de loucura? O que o senhor quer é aproveitar um momento de descuido para sair correndo por aí. Não é isso?
Ron não reagiu. É claro que Garathon queria enganá-lo. Tudo agora dependia de quem tivesse maior fôlego.
Mas não vai conseguir escapar, não. Em poucos segundos, vamos saber como estão as coisas.
Ouviu em seguida passos pesados no corredor. Alguma coisas fria, metálica, tocava em seu braço e um outro objeto do mesmo metal envolvia sua cabeça.
Pronto! — ordenou Garathon.
Uma denotação ruidosa e cintilante se abateu no cérebro de Ron. A dor cruciante se espalhou por seu corpo, curvou-se todo, gritando não mais para enganar os outros. Caiu da padiola e começou a rolar no chão.
Quando a dor serenou, sentia-se tão debilitado, que não conseguia mais se levantar.
Mas prosseguiu seu jogo. Palavras soltas, sons desconexos saíam de seus lábios. Com muito sacrifício, ergueu o braço direito e fingiu arrancar os cabelos. De tão ocupado na sua dramatização, não viu que se havia levantado três vezes e fora novamente recolocado na padiola.
Ouviu-se então o vozeirão de Garathon:
O senhor sabe que não vai mais suportar um outro choque igual a este. Morrerá infalivelmente. Portanto, levante-se e confesse que tudo não passou de encenação. Do contrário...
O robô já estava com a mão na alavanca.
Uma corrente de pensamentos percorreu-lhe a mente martirizada. Podia abrir os olhos e confessar abertamente que sua loucura não passava de simulação. Mas de qualquer maneira, Garathon o mataria.
Podia continuar seu jogo. Porém Garathon não se preocuparia com um louco e acabaria tirando-lhe a vida. Não haveria, pois, nenhuma diferença.
Virou de lado e começou a gemer. De sua boca saía, junto com a espuma, muito palavrão. Não estava vendo o que estava acima dele. Ao abrir os olhos, percebeu as pernas grossas de Garathon, que pareciam imóveis. Os segundos passavam lentos, insuportavelmente lentos. Ron não via o robô, nem a alavanca que ele ainda segurava. Sabia apenas que Garathon tinha razão. No estado em que se achava, não suportaria mais um daqueles choques. Seria o último.
Mais um segundo... apenas um...
As pernas de Garathon se mexeram. Virou-se para trás. Ron afrouxou todos os músculos para suportar o choque.
Ouviu, então, o vozeirão do saltador:
Terminado. Tire a mão daí. Ele não nos mentiu.
Ron não esperava por uma vitória desta. Teria gargalhado, se seu corpo tivesse força para isto. Continuou quieto, murmurando palavras sem sentido.
Os minutos foram passando sem acontecer nada de novo e Ron notava que as forças lhe voltavam. Tentou com um galeio bem forte, acompanhado de um grito histérico, se levantar da padiola e chegou mesmo a iniciar o movimento, mas o robô o empurrou de volta.
Abriu os olhos rapidamente e viu como Garathon, do outro lado da padiola, mexia num instrumento. Ron antes não tivera tempo de examinar melhor aqueles aparelhos. Aproveitou, agora, o ensejo e num instante percebeu onde estava. Em volta dele estavam os psicogeradores, transformadores e demais dispositivos indispensáveis para a lavagem cerebral.
Foi, talvez, aqui que Garathon me arrancou certos segredos profissionais, antes que recuperasse os sentidos”, conjecturou.
O aparelho que Garathon estava manejando ali no canto era um pré-tensor. A função do pré-tensor era elevar de tal maneira o potencial do cérebro, que a vítima da lavagem cerebral não podia mais se opor, quebrando assim a “resistência”, como diziam os psicólogos.
Será que Garathon tenciona fazer mais um ‘inquérito’?”, interrogou-se. “Deve saber que não se pode inquirir um débil mental...
Instantes depois, Ron acabou mudando de opinião. Um pré-tensor poderia servir também para debilitar o potencial geral do cérebro. Com este efeito, iniciava-se em geral todo tratamento de cura de um débil mental. Garathon queria, pois, transformá-lo num homem normal. Esta era a única explicação.
E Ron não estava disposto a aceitar os “bons serviços” do saltador. Portanto, agora era o momento de agir.
Garathon estava a seu alcance, de costas, depois de ter confiado aos dois robôs o doente mental. Ambos ouviram dos próprios lábios do chefe a confirmação da doença mental de Ron. O cuidado deles era somente impedir que o doente se levantasse e se ferisse com as quedas ou cabeçadas nas paredes.
A pouco mais de meio metro dele, estava a pistola de Garathon pendurada no cinturão. Observou que Garathon a deixara solta no coldre. Um simples puxão na coronha e a arma estaria em suas mãos.
Contraiu os joelhos. Não parou um segundo de gemer e dizer coisas desconexas e, quando abria os olhos, mantinha-os virados.
Foi então que deu o pulo. Bateu de encontro às costas de Garathon. Viu com o canto dos olhos que os dois robôs viraram-se para frente. Apanhou no mesmo instante pela coronha a arma de raios energéticos e afastou-se do saltador, voltando a cair na dura padiola. Com o cano da arma apontado para o robô mais especializado, apertou o gatilho.
Quando o tiro inesperado de Ron o convenceu de que Garathon não tinha razão em considerar o prisioneiro como débil mental, o robô estava para se precipitar sobre ele e prendê-lo. Mas até um sofisticado robô precisa ao menos de um segundo para mudar sua programação e agir. E tal tempo foi a salvação de Ron. O primeiro disparo atingiu o robô no peito e o desfez, caindo metal fundido por todo canto. Uma onda de calor insuportável varreu o recinto.
O segundo robô ainda não se movera. E Ron o destruiu antes que conseguisse passar da programação atual para outra. Só depois é que se preocupou com Garathon.
O saltador, desarmado e apavorado, se escondeu atrás do pré-tensor, e quando Ron se aproximou dele, ergueu os braços para proteger o rosto e gritou a todo pulmão:
Não, não! Não me mate.
O suor escorria da face de Ron. O calor irradiado pelos destroços metálicos dos dois robôs era descomunal.
Saia para o corredor! — ordenou ao saltador.
Trêmulo, abaixou as mãos e olhou em que direção estava apontando a arma de Ron. Saiu de trás do aparelho e submisso ganhou o corredor onde se situavam as celas dos outros prisioneiros. Ron o seguia na distância segura de três metros.
O intrépido terrano não ignorava a gravidade da situação. Para recuperar a liberdade, tivera que abater dois robôs. O barulho provocado fora certamente ouvido em outros lugares. Em poucos segundos alguém deveria vir para saber do ocorrido. Não sabia se a vida de Garathon valia tanto para os saltadores restantes, para prever se iam preferir vê-lo morto ou permitir a fuga dos terranos. Deixou este pensamento de lado, dizendo para Garathon:
Abra as portas das celas onde estão presos os terranos.
Perplexo, o saltador não sabia o que fazer:
O senhor... o senhor não... não pode exigir isto — disse gaguejando.
Ron deu um passo à frente e lhe cutucou com o cano da arma.
Garathon abaixou a cabeça e abriu a primeira porta, ficando parado em frente a ela. Não devia ter feito isto, pois Lofty Patterson já há muito tempo talvez esperasse por tal oportunidade. Certamente não ouvira as poucas palavras trocadas entre Ron e o chefe dos saltadores, ou não as entendera. Possuído de todo o ódio que se acumulara nele, precipitou-se para fora, e como um bólide se chocou contra Garathon. Este, assustado, começou a berrar de mãos levantadas. Mas Lofty já o tinha agarrado e não o largou mais, sem se incomodar com sua altura descomunal. No ímpeto de cólera, o atacou a socos e pontapés. O saltador estava muito assustado para se defender. Simplesmente abaixou os braços e continuou apanhando, mal tentando escapar de alguns golpes.
Neste momento, Ron pôde ver, com a melhor luz do corredor, a verdadeira fisionomia de Garathon. Prepotente, enquanto seu adversário estava amarrado, mas, no fundo, um grande covarde.
Pare, Lofty! — ordenou Ron, sentindo nojo no que via. — Você está apenas sujando suas mãos neste covarde.
Lofty se desprendeu do homenzarrão.
Senhor!... — exclamou Lofty surpreso. — Como foi que...
Não temos tempo agora, Lofty — disse, interrompendo o velho. Depois, olhando para o saltador: — Vamos, solte os outros dois.
Sem titubear mais, abriu a próxima porta, não ficando mais parado à sua frente. Mas Larry Randall não era homem de se deixar levar por ímpetos de cólera. Estava parado, encostado na parede de fundo de sua cela, e não se moveu. Ron se aproximou da porta, sem perder de vista o chefe dos saltadores.
Venha, Larry — disse sorrindo. — Ainda temos alguma coisa a fazer.
Larry Randall correspondeu ao sorriso e caminhou lentamente para o corredor. Levou um susto ao ver o valente saltador, agora trêmulo e pálido.
É este o homem — perguntou ele — que nos...?
Ron acenou com a cabeça.
É ele mesmo.
Garathon se comprimiu contra a parede e seu rosto ainda ficou mais pálido. Larry o fitou por alguns segundos e depois perguntou:
Onde está Bladoor?
Ron apontou para o saltador:
Ele nos vai dizer. Vamos, Garathon! Garathon deu mais uns passos para frente, deixou passar uma porta, sem que Ron nada dissesse e abriu a seguinte. Parece que do azgônida ele nada receava. Olhou para dentro da cela e seu semblante acusou uma expressão de espanto. Ron o puxou para o lado e olhou o que havia no pequeno cubículo.
Bladoor estava deitado de costas. Nas últimas horas, seu corpo estufara mais ainda.
Ron não precisava de médico para lhe dizer que Bladoor já estava morto.
A queda com o carro voador, o aprisionamento pelos saltadores, o terrível inquérito — suas forças não resistiram a tudo isto. Morreu porque ninguém cuidou dele.
Ron virou para o lado, olhou friamente no rosto do saltador e lhe disse:
O senhor é responsável por isto, o senhor o assassinou.
Garathon deu um passo atrás e suplicante levantou as mãos. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não lhe saiu nenhum som da garganta. Horror e medo tolhiam-lhe a palavra.
De repente, ouviram uma voz estranha:
Quem foi que matou alguém aqui?
Ron olhou para trás. Larry, à sua direita, lhe impedia um pouco a visão. Mas, para Ron, era suficiente o que estava vendo. Cinco saltadores surgiram no corredor que vinha da sala onde foi feita a inquirição.
Como fomos doidos”, pensava Ron triste. “Eu sabia que eles iam ouvir o nosso barulho.”
Não lhes restava agora a menor chance.

O incrível biorrobô, sargento da Frota Espacial, descobriu logo que a base tinha uma tripulação muito menor do que se podia supor. Isto facilitava sua missão. Sem que nada o impedisse, afastou-se da parte mais profunda da base, onde terminavam os poços dos elevadores e penetrou num corredor vazio e mal iluminado, caminhando para o centro da cúpula.
Havia uma verdadeira confusão de corredores, portas, pequenos cubículos, cruzamentos e pequenos saguões. Quase um labirinto. Sempre que percebia a aproximação de um saltador, escondia-se num corredor lateral. E como seus cálculos positrônicos eram infalíveis, jamais iria de encontro aos inimigos.
Não que ele tivesse de se preocupar com isso. Tinha melhores armamentos do que qualquer ser humano ou robô, disso não havia dúvida. Mas Meech não queria chamar a atenção de ninguém, antes de descobrir onde os saltadores esconderam seus prisioneiros.
Começou a sondar alguns lugares que tinham saída para os corredores subterrâneos. Primeiro, não sabia para que serviam aqueles aparelhos todos que ali se reuniam e estavam em constante atividade. Mas lembrou-se depois da teoria, com a qual tentara horas atrás explicar a repentina engorda da raça azgônida. E teve uma idéia luminosa: “Os saltadores chegaram à mesma teoria, mas, como verdadeiros comerciantes, queriam explorá-la comercialmente. Seria realmente o maior negócio do Universo.”
Meech guardou tudo de memória e continuou sua exploração. Talvez meia hora depois de chegar à base, ouviu, bem longe, vozes mais altas, até mesmo gritos. A excelente acústica, que lhe substituía o sentido da audição, reconheceu, entre estas vozes, uma que lhe era muito familiar.
Continuou caminhando.
Passou por uma sala, um pouco mais ampla, onde viu uma padiola e muitos instrumentos psicotécnicos. O corredor continuava depois desta sala. Meech estava indeciso. A não mais do que dez metros do bifurcamento do corredor, encontravam-se cinco saltadores de costas para ele, mantendo um áspero diálogo com um grupo de homens. Meech se pôs em posição de combate. Tinha chegado sua hora.

* * *

Mate-os, Lag-Garmoth! — gritava Garathon com voz histérica. — São os prisioneiros que fugiram das celas.
Entrementes, Ron se virará para o novo adversário. Fazia um esforço enorme para aparentar calma. E sua voz estava mesmo tranqüila quando falou:
Seja o senhor quem for, Lag-Garmoth, não ouça o que diz este homem. Sei que estamos irremediavelmente presos em suas mãos, mas não tão presos assim que eu não possa dar a este covarde aqui o que ele merece, antes que o senhor me mate.
Ouviu Garathon protestar atrás dele, enquanto Lag-Garmoth sorria, sem tocar na arma.
Não tenha receio, terrano — respondeu ele. — Eu me oriento de acordo com meus planos. — Ficou mais sério e depois continuou: — Quem foi assassinado?
Um azgônida — disse Ron sem titubear. — Sua gente o prendeu juntamente conosco e não cuidou dele, embora todos soubessem de seu estado físico. Prenderam-no aqui e o deixaram morrer.
Lag-Garmoth franziu a testa e se dirigiu para Garathon:
Um azgônida?
Da maneira como interrogou, se podia perceber que não estava a par do acontecido, muito menos o aprovava.
Garathon pareceu recuperar alguma coisa da coragem que só surgia quando estava bem protegido.
Sim, um azgônida — afirmou cheio de ódio. — Estava com esta gente, por isto tivemos de prendê-lo.
Lag-Garmoth ficou impassível.
Estava estabelecido que, sob nenhuma hipótese, entraríamos em conflito com esta gente. Você sabe disso melhor do que eu. Poderíamos trabalhar em Azgola, se eles se tornassem nossos amigos e ficassem em suas casas, preguiçosos e pesados. E você tem a coragem de prender um deles, trazê-lo para cá e deixá-lo morrer?
As últimas palavras foram ditas num tom bem mais ameaçador. Garathon se empertigou todo, voltando quase ao porte orgulhoso de costume.
Quem é que manda nesta base? — perguntou irritado. — Você ou eu?
Você — concordou Lag-Garmoth. — Mas fique sabendo que eu não sou seu subordinado. Não pertenço ao seu subclã. Você assinou um contrato comigo e estou vendo que não vai cumpri-lo.
Garathon desgarrou-se da parede, veio até o meio do corredor e, postando-se de pernas abertas e mãos nos quadris, disse arrogante, em tom de ordem:
Você vai agora conduzir estes terranos de volta para as celas e depois vamos falar sobre o contrato. Está claro?
Via-se no rosto de Lag-Garmoth que ele já estava com as palavras certas na ponta da língua. Empertigou-se e estava para responder ao atrevido Garathon. Mas não chegou a isto. Atrás dele, no corredor, disse alguém com voz calma, mas firme:
Seja qual for, meus senhores, o assunto da discussão, joguem no chão primeiro suas armas, antes de prosseguirem.
Meech! — gritou Ron.
Por um segundo, reinou silêncio total no recinto, quando se ouviu o grito de Ron. Lag-Garmoth se virou rápido, mas Meech foi mais ligeiro que ele. Não se ouviu nenhuma detonação quando usou a arma. Foi um disparo de raios psíquicos, pois evitar o derramamento de sangue ainda pertencia aos princípios fundamentais da consciência de um biorrobô terrano.
Com um gemido fraco, Lag-Garmoth rolou no chão. Com ele, tombou também um de seus quatro companheiros. Os demais obedeceram e deixaram cair as armas.
Meech não saiu do lugar em que estava. Mas sua voz denotava urgência, quando falou:
Senhor, temos pouco tempo. Somos obrigados a sair daqui o mais rápido possível.
Ron olhou para seus dois colegas.
Estão ouvindo? Vamos embora!
Ninguém mais tarde soube explicar o que aconteceu naquele instante. A obrigação de não deixar fugir os prisioneiros e também de não permitir que Lag-Garmoth levasse o assunto do azgônida morto na cela ao conhecimento dos demais patriarcas dos saltadores — esses dois deveres fizeram com que Garathon chegasse a um gesto maluco.
O fato é que, de repente, pulou nas costas de Ron Landry. Este, embora de menor estatura e pego de surpresa, num grito assustador conseguiu erguer o braço com a arma. Mas Garathon já estava esperando isto e, muito ágil, arrancou a arma de Ron. Porém Ron também sabia o que devia fazer. Pegou o braço direito do saltador e o ergueu no ar. Estaria perdido se Garathon tivesse mais força que ele.
Meech não interveio. Um tiro disparado por ele podia atingir tanto Garathon como Ron.
O saltador fazia uma força monstruosa, enquanto que Ron, em razão do físico superavantajado de Garathon, ia cedendo. Garathon estava vencendo. Por um segundo, que lhe foi uma eternidade, Ron olhou de frente para o cano escuro da arma.
Foi quando alguém, com um berro alucinante, saltou do lado direito. Ron viu num relance o cabelo escuro de Lofty Patterson e sua barba em desalinho. Garathon soltou um grito de dor. Recebera um tremendo soco na barriga e, neste exato momento, seu dedo indicador apertara o gatilho, talvez sem querer. O disparo, de um clarão ofuscante, atingiu seu próprio rosto.
Lofty pulou para o lado e se encostou na parede, não acreditando no que via: o saltador morto no chão.
Não foi esta minha intenção... — balbuciou o velho horrorizado.
Ron bateu-lhe de leve no ombro:
Você não tem culpa, foi ele quem se matou. Vamos embora.
Lofty se afastou da parede. Os três saltadores, que estavam entre Ron e Meech, abriram ala de boa vontade. O biorrobô ficou alerta enquanto Larry Randall, que vinha por último, se agachou para pegar a arma da mão de Garathon. Ron e Lofty armaram-se com as pistolas de raios dos dois saltadores inconscientes.
Quanto mais depressa andarmos, tanto melhor — disse Meech.
Ninguém mais lhes veio barrar o caminho e, em poucos minutos, Meech os conduziu para o depósito de aparelhos voadores. Ocuparam o aparelho que o biorrobô lhes indicou. O próprio Meech tomou a direção. Levou dois segundos e meio para achar o ponto exato em que a comporta se abria. O aparelho levantou vôo e subiu calmo na noite do planeta.
Meech não deu uma palavra, a não ser depois que a base dos saltadores já estava muito longe. Só então começou a narrar tudo que acontecera com ele. Não escondeu nada, dando uma descrição pormenorizada dos aparelhos que vira e observara nos recintos subterrâneos da base dos mercadores galácticos. Ninguém mais tinha dúvida dos objetivos dos saltadores. Bem antes dos terranos, eles já tinham desvendado o mistério de Azgola. Se eles sabiam ou não em que consistia a misteriosa substância nutritiva que aparentemente enchia o ar como um tipo de aerossol — o fato é que estavam explorando a nova riqueza do planeta, procurando fazer dela o maior ramo de comércio de um universo cada vez mais carente de alimentos.
Meech voava para o oeste, seguindo sempre o litoral, pois o impulso sentido quando descia pelo elevador antigravitacional da base dos saltadores lhe indicava que uma das espaçonaves terranas se preparava para aterrissar a oeste.
A Vondar já estava prestes a decolar, quando a nave auxiliar foi sentida primeiro no rastreador e depois vista diretamente na tela panorâmica. Meech não se esqueceu de, antes de mais nada, se apresentar. Gerry Montini estava esperando, embora seu maior desejo fosse deixar este planeta insidioso o mais depressa possível.
Quando os quatro terranos foram recebidos a bordo, Montini quis transferir o comando para Ron Landry, que naturalmente não aceitou.
Estou exausto, a única coisa que me interessa é uma cama para descansar e, naturalmente, o que o senhor tem ainda a resolver aqui em Azgola.
Isto é muito fácil — respondeu Montini. — Sabíamos que havia algo misterioso aqui em Azgola. Já das observações de Chuck Waller se podia prever isto. Não pudemos aterrissar no continente principal, pois os saltadores nos afastaram com um fogo cerrado de teleguiados, logo na primeira tentativa. Este continente parecia livre de bases inimigas, por isto viemos para cá e desembarcamos alguns especialistas para observação.
Ron estava ouvindo com muita atenção.
E então?
Gerry Montini passou a mão pelo cabelo.
Encontraram realmente algo muito singular. Quase todo o continente parece estar recoberto pela mesma espécie de musgo. Esta planta segrega constantemente fungos que se compõem principalmente de... santo Deus! Não me lembro direito do nome. De qualquer maneira, são grandemente nutritivos. Uma grama de fungo de musgo tem mais valor alimentício do que uma refeição lauta com serviço, sopa, três pratos e duas sobremesas. O pior é que as partículas dos fungos são tão diminutas que podem ser facilmente respiradas. Espalham-se pelo corpo e o alimentam. As pessoas que encontramos lá fora engordavam, na média, dois quilos e meio em cinco horas.
Ron concordou.
Havia um biólogo na expedição?
Naturalmente.
Qual é a opinião dele? Por que se nota somente agora o efeito deste musgo? Por que razão os azgônidas já não estão gordos assim há séculos atrás? Por que começaram só agora?
Gerry cocou o queixo.
É, o negócio é complicado. Ele examinou algumas espécies nativas de musgo, que se encontram ainda em alguns trechos do continente e ficou muito preocupado.
Por quê?
Ele disse que as diferenças são notórias. O musgo que nos está dando trabalho não combina de maneira alguma com a história do desenvolvimento de Azgola.
E daí?
Deve ter sido trazido clandestinamente de outro mundo...

* * *

Vinte e quatro horas mais tarde, a Terra estava informada de tudo. Inclusive sobre o fato de que os azgônidas estavam condenados à morte se não fossem evacuados a tempo.
Azgola tinha uma população de dois milhões de habitantes. Sua evacuação não constituiria nenhum problema maior para a Frota Espacial Terrana. A operação foi iniciada imediatamente.
No seu apartamento em Terrânia, Ron Landry estava de pé na balança, controlando seu peso. Durante sua estada em Azgola, engordara trinta libras, ou seja, quase quatorze quilos. Teria sido muito pior se a base dos saltadores, onde permanecera a maior parte do tempo, não estivesse no meio daquele terreno pantanoso onde a grande umidade do ar prendia os fungos, retendo-os no solo. Além disso, os saltadores instalaram fora do pântano instrumentos para coletar os fungos e conduzi-los às máquinas de beneficiamento.
Quatorze quilos! Terei muito trabalho para fazer desaparecer esta gordura toda.

* * *

Poucas horas depois, já estava em andamento a retirada dos habitantes de Azgola. Os saltadores não intervieram, sentindo-se mesmo felizes pelo fato de a poderosa Frota Terrana os deixar em paz.
Em meio à grande atividade que reinava em Azgola, com a evacuação de toda a população, ninguém percebeu que naves terranas e arcônidas estavam lado a lado percorrendo a Galáxia para descobrirem onde se localizavam as duas espaçonaves que introduziram o grande mal em Azgola.
Só podia ser uma raça desconhecida e muito inteligente, residindo em algum ponto remoto do espaço infinito. Esta era a grande sensação do momento, abalando a opinião geral em todos os cantos do Universo, onde penetravam as notícias sobre o grande mistério de Azgola.




* * *
* *
*





Somente através de uma operação bem planejada e com um bom apoio técnico da Frota Espacial Terrana, puderam os habitantes de Azgola ser preservados de uma morte lenta causada por super alimentação, embora de fato nada comessem.
No entanto, todos os mundos com camadas de oxigênio permanecerão expostos aos mesmos fenômenos ocorridos em Azgola, enquanto não se descobrir os responsáveis pela semeadura do assim chamado “musgo de fungo”...
Em SEMENTES DA DESGRAÇA, título do próximo volume, o fantasma da morte por superalimentação volta a agitar a Galáxia.

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