“A
situação era alarmante e nos deixava sem ânimo e não podíamos
fazer mesmo nada. Engordando cada vez mais, não conseguíamos mais
parar de pé. Para sair de casa, tínhamos de andar de quatro, até
nos convencermos de que não precisávamos mais nos mover. Éramos
alimentados de uma maneira misteriosa e não precisávamos mais
trabalhar para ganhar o pão de cada dia, nem nos era necessário
mais sair de casa. Por isso que as ruas das cidades e aldeias ficaram
vazias, o trânsito desapareceu. E mais, cessou toda atividade de
Azgola, que agora não passa de um planeta morto e ninguém sabe como
isto vai acabar...”
Parou de
falar e respirou profundamente. Falara muito e estava sentindo o
cansaço.
— Como
é, então, que se explica que o senhor está ainda tão ativo? —
perguntou-lhe Ron. — Certamente o senhor está muito mais gordo do
que antes, mas não tem de longe o volume que constatamos em outros
homens de sua raça. De que maneira o senhor se protegeu contra esta
praga do engordamento?
Bladoor
fez um gesto de dúvida.
— Não
sei — disse hesitante. — Naqueles dias, quando começou a
desgraça, estava ocupado com um trabalho muito importante. Estava
sentado dia e noite no meu escritório e não tinha tempo para me
preocupar com o que se passava lá fora. Somente quando, uma certa
manhã, nenhum dos meus funcionários apareceu ao meu toque de
campainha, é que minha atenção se voltou para o problema. Saí do
escritório e fiquei envergonhado com o que vi. Homens disformes,
horrendamente gordos, rolavam pelos corredores do Palácio do
Governo. Com muita dificuldade, consegui reconhecer alguns deles.
Santo Deus, como estavam diferentes! Trouxe um deles comigo para
conversar um pouco e para me contar como tudo acontecera. Contou-me
mais ou menos o que acabei de lhes relatar há pouco. É claro que
fiquei admirado de ter sido poupado da engorda. Não podia achar
explicação para o fato. Acabei aceitando a idéia de que meu
escritório era um local bem resguardado. Por isso continuei ficando
por lá. Não precisei me preocupar com a alimentação, pois
realmente não sentia fome, embora estivesse livre do fastio de que
eram acometidos os demais.
“Fiquei
lá esperando. Notei com o tempo que eu também estava engordando, se
bem que essencialmente de modo mais lento que os outros. Via de minha
janela que a cada hora as ruas se esvaziavam mais. Muitas vezes
fiquei desesperado, mas me botava na cabeça que haveria de chegar
alguém para desvendar o mistério. Continuei esperando e finalmente
os senhores chegaram.”
Ron estava
muito concentrado nos seus pensamentos, mas depois de alguns
instantes, rompeu o silêncio:
— Acho
que a questão decisiva está na seguinte pergunta: em que seu
escritório se diferencia do de outros ministros?
Uma idéia
tomara corpo em sua mente. No princípio a julgava até ridícula,
mas sua mente disciplinada lhe dizia que não se deve deixar de lado
nenhum pensamento. Será que o ar de Azgola estava impregnado de
algum eficiente, mas invisível elemento nutritivo? Ou tudo aquilo
era uma nova invenção, ainda sem explicação? E as duas
espaçonaves observadas no planeta, teriam alguma coisa a ver com
isto? Haveria em Azgola lugares onde a epidemia — se assim a
podemos chamar — não penetrara e onde os homens ainda estavam
normais?
Bladoor
não teve dificuldades em responder a pergunta.
Expôs o
seguinte:
— Primeiramente
sou extremamente sensível ao barulho. Meu poder de concentração
diminui assim que ouço um ruído diferente. Por este motivo, minhas
portas são sempre duplas. Em segundo lugar, amo o ar fresco, mas sou
muito alérgico à poeira. Mandei instalar na minha janela uma tela
de arame, mas de um trançado tão fino, que a poeira não passa.
Fora disso, meu escritório é igual aos outros, exceto talvez nos
móveis, mas isto, talvez, não tenha muita...
Muito
excitado, Ron se levantou.
— Não,
os móveis não têm importância — disse interrompendo Bladoor. —
O senhor tem razão, a porta dupla e a tela de arame de trançado
fino... esta é a diferença. Por meio delas, o senhor conseguiu
deter, pelo menos até um certo ponto, a substância nutritiva.
— Substância
nutritiva? — indagou Bladoor, perplexo.
— Exato,
talvez o senhor não esteja compreendendo. O negócio devia estar
espalhado no ar. Sabe Deus o que seria! Mas pelo fato de os homens o
respirarem, desaparecia toda sensação de fome. Sentiam-se sempre
saciados e engordavam tanto que não podiam mais se mexer.
Bladoor
olhava-o admirado.
— Sim...
sim... — gaguejou ele — estou compreendendo. Mas como foi que a
substância veio parar no ar? Imagine que em Azgola vivem mais de
dois milhões de homens. Que número colossal de toneladas desta
substância alimentícia devia ser pulverizado no ar para deixar dois
milhões constantemente saciados?
Ron
sorriu.
— Existem
métodos de que o senhor talvez ainda não ouviu falar. Se de fato
existe uma tal substância nutritiva, não seria difícil para seu
fabricante injetar na atmosfera do seu planeta uma quantidade
suficiente.
O azgônida
sacudiu a cabeça.
— Não —
continuou ele. — A pergunta é muito mais “por
que”
isto foi feito. Será isto um novo tipo de ataque que precede à
invasão de Azgola? Ou existe outro motivo atrás de tudo isto, que
nós ainda não vemos? Se alguém me pudesse responder a esta
pergunta, ficaria muito...
Foi
interrompido. Contornando a coluna, Lofty vinha correndo na direção
de Ron.
— Não
tenho certeza — disse preocupado — não se pode ver com nitidez,
mas creio que vi movimento numa das ruas.
— Está
bem, Lofty, sairemos daqui o mais depressa possível. Continue de
olhos abertos.
O velho e
experimentado Lofty voltou para seu posto e Ron se dirigiu de novo ao
azgônida.
— O
senhor acha que há uma possibilidade de encontrarmos um barco bom
para o alto-mar?
Bladoor
abriu os braços num sinal de incerteza.
— A
questão não é o barco. A uns vinte quilômetros ao sul daqui, está
o porto de Timpik. Lá encontramos uma imensidade de barcos para o
alto-mar. O que vai ser difícil é encontrar uma tripulação. Não
existe ninguém para trabalhar.
— Acho
que isto, nós mesmos podemos fazer. Estamos em condições de
manobrar um barco médio em pleno oceano, mesmo que seja a vela.
Infelizmente o veículo que temos conosco não é adequado para
maiores distâncias.
— E não
se esqueça de uma coisa muito importante — advertiu Bladoor.
— O quê?
— A
desgraça, ou a epidemia, como o senhor diz, que nos atingiu, pode
atingi-los também. Se a substância nutritiva ainda paira no ar, os
senhores vão respirá-la tão bem quanto eu. Em poucos dias poderão
ficar tão disformes e gordos como todos os meus patrícios que se
esconderam em suas casas.
Ron
concedeu que não pensara nisto e o perigo realmente existia. Tinham
que estar preparados para dentro de poucos dias se apresentarem como
os azgônidas, quase sem movimento. Até lá teriam que lutar para
descobrir de onde vinha a tal substância nutritiva, quem era o
inimigo carrasco que os atacara com tanto ódio.
Ron
dirigiu-se a Lofty. O velho estava sentado nos degraus do pedestal da
coluna, olhando atento para o leste.
— Alguma
novidade? — perguntou-lhe Ron.
— Não —
disse meneando a cabeça. — Tenho, porém, um mau pressentimento.
Há alguma coisa errada lá nos fundos.
Ron também
ficou olhando para a mesma direção que merecia a atenção especial
de Lofty. Um bom número de ruas vinha dar ali no grande parque,
permitindo assim um descortínio mais amplo. Mas tudo estava vazio e
não se via nada de suspeito.
— Queremos
ir embora, Lofty. Vamos.
— É uma
boa idéia, chefe.
Deram a
volta pela coluna. Larry estava na direção e ao seu lado, esgotado
pelos poucos passos e pela entrada no deslizador, Bladoor já estava
refestelado na poltrona. Instintivamente Ron procurou por Meech
Hannigan. Logo depois lembrou-se de que ele estava perdido.
Educadamente, deixou Lofty entrar na frente. O velho, de pequena
estatura, saltou ágil para dentro e sentou-se no banco de trás. Ron
vinha logo a seguir e ia fazer a mesma coisa.
Surgiu,
então, o inesperado.
De
repente, como um trovão, irrompe do ar uma voz possante, que vinha
de todos os lados. Tão de repente que Ron não entendeu as primeiras
palavras. Só depois que o susto passou, foi que compreendeu:
— ...uma
força quinze vezes maior. Aqui fala Garathon, comandante da nave
Garath Quarenta e Três. Rendam-se, terranos, pois estão perdidos.
Ron
percebeu tudo. Uma venda lhe caiu dos olhos, fazendo-o ver todo o
quadro. O interlocutor invisível falava o arcônida. Seu nome era
Garathon e sua nave se chamava Garath XLIII. Sabia, agora, quem eram
os estranhos desconhecidos que queriam matá-los no Palácio do
Governo. Estavam um pouco diferentes desde a última vez que os vira,
mas seu modo de agir era sempre o mesmo.
Portanto,
até em Azgola, lá nos confins do Universo, os saltadores estavam
atrás de todo negócio sujo.
Ron se
lançou no deslizador e a escotilha fechou automaticamente.
— Vamos
embora — ordenou — voando o mais baixo possível.
Larry já
estava esperando esta ordem. Lá fora, o vozeirão tonitruante enchia
todo o parque. Garathon trombeteava que a praça estava cercada pelo
menos com uma força quinze vezes maior do que a terrana e que seus
poderosos canhões haveriam de destruir seu planador, se tentassem
fugir. Ron não duvidava de que o saltador levava a sério o que
anunciava. Mas aqui estava em jogo muita coisa; coisa tão importante
que as ameaças não iriam quebrar a determinação terrana.
Num pulo,
o carro voador levantou no ar. Uma fração de segundo, parece que
ficou parado uns metros sobre o parque, foi quando Larry ligou a
tração horizontal. O aparelho ia cada vez mais rápido. Parece que
Bladoor se assustou com a repentina aproximação de uns prédios
altos. Depois vieram os telhados das casas mais baixas, que pareciam
disparar para trás. Dava a impressão de que Larry queria ir de
encontro aos velhos telhados.
Ron,
olhando para baixo, via duas coisas ao mesmo tempo: o volume achatado
do poderoso desintegrador que os saltadores haviam inteligentemente
colocado no teto de uma casa mais saliente, e o brilho fraco e
esverdeado que emanava da boca da arma.
No mesmo
instante, o deslizador empinou-se todo. Bladoor foi jogado para
frente, batendo com a cabeça no pára-brisa. O gemido lhe morreu na
garganta, pois perdeu os sentidos imediatamente.
— Foi
destruída a propulsão! — gritou Larry. — Não estou agüentando
mais.
Ron tentou
ficar quieto, pelo menos por uns segundos. Frank Bell tinha que ser
colocado a par dos últimos acontecimentos. Frank devia estar com a
Victory, dando voltas em torno do planeta.
— Leve-o
para baixo, o mais lentamente possível — gritou para Larry.
Conseguiu
ligar o pequeno transmissor de pulso. Deu o código de Frank, mas não
teve tempo de esperar até que este se apresentasse. Apressadamente,
fez um curto relato sobre os últimos acontecimentos em Timpik.
Concluiu suas palavras com:
— Chame
a Vondar em seu auxílio, Frank, e tente tudo para nos tirar daqui.
Fale também com Montini. E o mais importante de tudo: temos que sair
daqui depressa, do contrário estamos perdidos. Não há necessidade
de confirmação. Fim.
O
deslizador estava caindo e Larry não podia fazer nada para detê-lo.
O disparo do desintegrador reduzira a pó o conjunto de propulsão. O
fato de o deslizador não ter caído de uma vez só no chão, como
uma pedra, deveu-se à sua forma aerodinâmica. Larry mantinha o
aparelho numa linha reta acima da rua. Parecia que os telhados vinham
de encontro a eles, crescendo em altura dos dois lados. Por poucos
segundos, Ron conseguiu olhar para dentro das janelas das casas.
Depois, virou-se para trás. Não tinha certeza se já estava fora ou
dentro da região cercada pelas forças dos saltadores. A rua estava
vazia, e o desintegrador e os homens que o manejavam já haviam
sumido numa esquina.
— Vamos
descer nesta rua — ordenou Ron.
Larry
tentou controlar o carro voador e por um momento deu a impressão de
que ele obedecia. Mas a situação se alterou de repente. Uma forte
rajada de vento, um trecho de menor pressão de ar...
Larry deu
um grito de alarma, Ron se encolheu todo. E o mundo todo em volta foi
envolvido numa onda de um estrondo profundo e de um ranger de metais.
Ron foi atirado de sua poltrona, batendo com a cabeça em algo muito
duro. Sentiu uma dor agudíssima e depois tudo sumiu nas trevas.
*
* *
A Victory
estava girando em órbita do planeta Azgola, a uma altura de dois mil
e quinhentos quilômetros quando recebeu o grito de socorro de Ron. A
reação de Frank Bell foi fulminante: em segundos Montini,
comandante da Vondar, foi avisado.
Estava nas
mãos deste último tomar uma decisão. Ron Landry não se manifestou
mais. Montini resolveu que a Victory devia ficar aguardando no local
onde estava, até que a Vondar chegasse. Montini preparou sua nave,
que estava a oito horas-luz de Azgola, para uma transição imediata
e venceu em poucos segundos tal distância.
Frank Bell
viu o ponto cintilante da Vondar, quando surgiu do nada a poucos
quilômetros de sua nave. E antes que tivesse tempo de se virar e
dizer alguma coisa aos seus tripulantes, falou o telecomunicador e se
ouviu a voz de Montini.
— Falo
da Vondar. Mande-me os dados sobre sua órbita, Frank. Vamos tentar
descer o mais rápido possível.
Os dados
da órbita estavam no computador da seção de astronáutica. Frank
Bell não teve outro trabalho senão apertar uns botões e fazer com
que o aparelho codificasse os dados e os transmitisse por
hiper-rádio. Poucos segundos depois, quando Montini perguntou na
seção de navegação pelos dados necessários para o resto do vôo,
já estava com o sinal verde.
Sem perder
um segundo, Montini tirou sua espaçonave da órbita. Frank Bell
compreendeu sua missão e seguiu a Vondar, com um intervalo de trinta
quilômetros. Com os envoltórios de proteção ligados, ionizando e
produzindo um brilho fosforescente, na superfície do pequeno
planeta, as duas naves se aproximavam de Azgola. Viram primeiro o
litoral do continente em cujo interior se situava Timpik, a cidade
mais importante.
Por
intermédio de um relatório de Frank Bell, Gerry Montini sabia que
os saltadores dispunham em Azgola de um grande arsenal de armas
teleguiadas. Não cometeu o erro de expor as duas naves em condições
de ficarem encurraladas devido a uma aterrissagem apressada. Voando a
uma altura de dez quilômetros, ainda com uma boa velocidade,
disparou na direção de Timpik, tendo a Victory atrás. Câmaras
automáticas filmavam toda a região. Em poucos segundos as fotos
eram enviadas para o observador eletrônico, programado para um
determinado tipo de pesquisa. Mais de dez mil quadros foram
examinados em meio minuto.
Veio,
então, o resultado da análise:
— Nada
de anormal. Tudo tranqüilo.
Montini
girou sua poltrona e se levantou. Os oficiais no posto de comando
interromperam seus afazeres para olhá-lo.
— Alguma
coisa está cheirando mal por aqui, meus senhores — explicou
Montini, com voz clara. — Os saltadores se retiraram ou se
esconderam de tal maneira, que nem mesmo os observadores eletrônicos
conseguem ver seus rastros. E para esta manobra apressada só cabe
uma explicação: devem ter chegado à convicção de que Ron e sua
gente não vieram sozinhos para cá. Estão nos esperando. Mandem
ocupar os postos de artilharia com reforço duplo e dêem a mesma
ordem para a Victory, explicando-lhes a situação. Tudo depende de
que estejamos preparados para qualquer eventualidade nos próximos
minutos.
Voltou ao
seu lugar, ficando atrás dele as vozes de seus auxiliares, que
transmitiam suas ordens, e as pequenas telas cintilantes do
intercomunicador. Sentou-se na sua poltrona, recostou-se e pôs-se a
observar a grande tela panorâmica. Toda a cidade estava calma sob a
nave. Não se percebia o menor movimento.
A sala de
comando atrás de Gerry voltou à tranqüilidade. As ordens tinham
sido emitidas e as tripulações das duas espaçonaves terranas
estavam de prontidão.
Mas não
aconteceu nada. Passou-se um quarto de hora sem que houvesse sinal de
qualquer movimento em Azgola. O único fato foi que, no fim de um
quarto de hora, Frank Bell chamou, pedindo autorização para
aterrissar. Montini, porém, estava hesitante. Mandou que Frank
esperasse mais quinze minutos. Se até lá nada ocorresse, as duas
naves aterrissariam ao mesmo tempo no espaçoporto de Timpik.
Aumentava,
porém, a cada minuto que passava, a inquietação de Montini. O
quarto de hora não havia passado ainda, depois do chamado de Frank
Bell, quando Gerry deu a autorização. As duas naves avançavam
agora juntas, na direção norte, por sobre a cidade. Já na
periferia, foram diminuindo a altura e deslizando no aeroporto vazio.
O
observador eletrônico ainda não acusava nada das atividades
suspeitas do inimigo. Nenhum sinal dos saltadores. Montini julgou
desnecessário continuar nas severas medidas de alarma. Ligou-se o
piloto automático para fazer a Vondar aterrissar o mais rápido
possível.
Um bom
número de deslizadores já estava preparado para descer em terra.
Montini não queria perder um segundo. Ninguém sabia o que
acontecera com Ron e sua gente. Mas a Victory captara o local de onde
Ron usara o rádio pela última vez, com uma aproximação de mais ou
menos dois quilômetros. Devia ser mais ou menos no centro da cidade
e Montini estava crente de que haveria de descobrir pegadas ou
sinais, se observasse bastante.
A Vondar
pousou logo depois da Victory, mais ou menos no mesmo local onde esta
última aterrissara há poucas horas atrás, quando o inimigo
invisível atacou pela primeira vez. Montini deu ordem expressa para
que os motores de propulsão continuassem ligados o tempo todo,
durante a operação.
E foi esta
sua sorte, pois os instrumentos de observação perceberam a enorme
quantidade de foguetes teleguiados, somente quando já estavam
atravessando a margem sul do espaçoporto. Com um truque todo
especial, o inimigo conseguiu impedir até então a observação.
Colocaram os mísseis um pouco acima dos telhados das casas. Desta
maneira, só podiam ser vistos dentro de uma distância já altamente
crítica. Isto significava que a Victory e a Vondar tinham que
suportar os primeiros teleguiados. Não lhes restava mais
possibilidade de evitá-los e se os campos de proteção agüentassem,
poderiam depois tentar sair de Timpik, antes de chegar a segunda leva
de foguetes.
Montini
compreendeu logo a situação. Com um soco, empurrou para baixo a
alavanca da instalação do telecomunicador e entrou em contato com a
Victory.
— Abriguem-se
— soou sua voz firme. — Procurem um apoio firme.
Seguiu-se
um arrastar de poltronas e o barulho de passadas pesadas. Mas depois
veio o silêncio. Sete dos doze segundos dados pelo observador
eletrônico já haviam passado. Gerry ainda deu uma olhada em volta,
para ver se todos estavam bem protegidos. Depois fincou os pés
firmes contra a base da poltrona, que estava fortemente atarraxada
nas chapas do soalho. Enquanto seu corpo estivesse bem colado no
espaldar, sentia-se seguro. Sem o perceber, prendeu a respiração.
Os
disparos vinham rápidos demais para poderem ser reconhecidos na tela
panorâmica. Um segundo antes da primeira detonação, o observador
eletrônico soltou um silvo agudo. O som ainda estava no espaço,
quando a grande tela se encheu, se iluminou de um branco ofuscante e
um impacto assassino foi sentido por toda nave.
Sua
opinião sobre a estabilidade da poltrona, Montini teve logo que
modificar. Suas pernas foram simplesmente atiradas para o lado. Como
se não houvesse mais lei da gravidade, seu corpo foi levantado do
assento. Viu por um instante como os aparelhos do painel à sua
frente pareciam todos virados para baixo. Depois, o segundo impacto o
jogou ao chão, batendo forte com a cabeça. Por uns segundos, os
estrondos das sucessivas explosões lhe pareciam um suave ruído que
vinha de muito longe, através de um túnel estreito. O zumbido na
cabeça dolorida abafava tudo.
Aos poucos
tornou a ver tudo claro de novo. A forte cintilação esbranquiçada
na tela panorâmica enchia o posto de comando de uma claridade
ofuscante. De joelhos no chão, com as mãos apoiadas em alguma coisa
na frente, Gerry olhava em torno meio estonteado.
Uma nova
explosão atirou a Vondar um pouco para trás. Montini foi projetado
de costas, conseguindo, logo depois, pôr-se de joelhos. Via o clarão
avermelhado lá fora e sabia que a capacidade do envoltório de
proteção estava atingindo seu ponto crítico.
“Se
o bombardeio não terminar...”,
a próxima explosão interrompeu seu pensamento.
Foi
atirado para cima, caindo depois deitado no chão. Estava respirando
com dificuldade e vendo círculos vermelhos diante dos olhos. Um
clarão avermelhado encheu a sala de comando e feixes largos de uma
luz vermelha saíam da tela panorâmica.
Montini
deu um pulo, sem cuidar agora se tinha ou não apoio. Chegou
cambaleante até seu posto. O telecomunicador estava ainda ligado,
mas a tela menor tombara no chão. Quando a levantou, percebeu que
estava escura e apagada. Não havia mais imagem no videofone, para
poder entrar em contato com Frank Bell.
— Vondar
chamando Victory — gritou com voz rouca. — Vondar chamando...
— Aqui
fala da Victory — interrompeu-o uma voz bastante nervosa. — Fala
Frank Bell. Como está a situação com os senhores?
Gerry
Montini suspirou aliviado. Se era este o maior cuidado de Frank Bell,
então a situação da Victory não podia ser tão ruim assim.
— Obrigado.
Ainda conseguiremos levantar vôo. Vocês aí já estão preparados?
— A
qualquer momento — foi a pronta resposta de Frank.
— Então,
vamos embora. Até o próximo bombardeio não levará mais de dois
minutos. Acelere o máximo que puder.
— Entendido,
senhor — respondeu Frank Bell.
Um pequeno
estalo interrompeu a ligação. O primeiro-oficial atrás de Gerry já
dera a ordem de partida.
De um
segundo para o outro aumentou o ronco, até que todo o interior da
nave sofreu uma forte vibração. A tela panorâmica continuava
encoberta, pois o redemoinho de fumaça e poeira das contínuas
explosões embaciava a visão. Gerry Montini aguardava o sinal agudo
de partida, para saber o momento em que a Vondar se levantava.
Via-se a
inquietação em sua fisionomia. Não tinha uma noção exata da
extensão dos danos dos mísseis inimigos. Os motores de propulsão
pareciam funcionar normalmente. Poderia, no entanto, acontecer que
não tivessem mais a mesma força. E a Vondar necessitava de toda sua
potência para enfrentar o próximo ataque!
A cortina
de pó e fumaça foi ficando mais rala e os. contornos das coisas
foram surgindo na tela. Montini viu os barracões no lado sul do
espaçoporto. Momentos depois, apareceram também as linhas gerais da
cidade de Timpik. Do outro lado, estava a majestosa esfera da
Victory, que se movia com a mesma velocidade da Vondar.
Montini
estava mais calmo. A velocidade com que desapareciam as nuvens de
poeira, a superfície do espaçoporto abandonado e os contornos da
cidade no fundo eram satisfatórios. Ao que parecia os conjuntos de
propulsão não sofreram muito com o terrível bombardeio.
Foi então
que viu a nova remessa de teleguiados surgindo sobre os tetos da
cidade. A questão agora era uma só: Quem tinha maior capacidade de
aceleração, as duas espaçonaves ou os foguetes dos saltadores?
Os mísseis
teleguiados possuíam uma velocidade inicial maior. Agora, se a
Vondar e a Victory conseguissem aumentar a velocidade, antes que se
desse o impacto, estaria tudo salvo.
Os homens
no posto de comando aguardavam as ordens de Gerry. Mas o comandante
estava imóvel diante da grande tela. Nada havia para dizer, tinham
que simplesmente esperar. Com uma morosidade enervante,
aproximavam-se os foguetes do adversário. O céu em volta perdeu o
azul leitoso e radiante, passando para tons arroxeados. As estrelas
começavam a surgir e o escuro profundo do Universo expulsava as
últimas cores.
A Vondar
aumentava cada vez mais sua velocidade, a oitenta quilômetros acima
da superfície de Azgola. A seu lado, sempre a majestosa Victory. A
distância entre a leva de foguetes e as duas naves terranas era
ainda de cento e trinta e dois quilômetros. Os foguetes continuavam
vencendo a corrida; tinham maior velocidade. Não estava ainda
decidido quem venceria.
Chegou,
então, o momento em que o computador anunciou que a redução da
distância por segundo estava menor. Os foguetes chegavam cada vez
mais perto. Até agora a razão de aproximação era de duzentos
metros por segundo; passou a ser agora apenas de cento e oitenta.
As mãos
de Montini, verdadeira expressão de seu sistema nervoso, se
comprimiam exageradamente contra as bordas da estante à sua frente.
Esta pequena diferença não significava ainda a salvação. Mesmo
que os foguetes avançassem apenas um metro a mais por segundo,
poderiam ainda atingir seu objetivo.
Pareciam
agora pontinhos minúsculos nas profundezas do espaço. Era uma
verdadeira legião deles, muito mais do que os dois envoltórios de
proteção podiam suportar, mesmo que estivessem intactos.
Cento e
setenta metros por segundo... cento e cinqüenta... O tempo passava
lento demais e a tensão na sala de comando era de rebentar os
nervos.
— A
distância é de sessenta e sete quilômetros — dizia o computador,
o único a não sentir tensão de nervos.
Do
alto-falante saiu um som chiado e longo. Gerry Montini se virou para
trás, sabendo o que acontecera, mesmo antes de a voz mecânica de
cérebro positrônico anunciar:
— Quota
de aproximação negativa!
Voz fria e
desagradável, como se tinha de esperar de um instrumento inanimado.
Mas seu conteúdo tinha muita vida, estava dizendo que as naves
terranas venceram. Os foguetes dos saltadores estavam ficando cada
vez mais para trás. Sua força de propulsão era inferior à da
Vondar e da Victory.
Gerry
permitiu-se alguns segundos para deixar desaparecer a tensão dos
últimos minutos e receber a onda benéfica de uma sensação
infinita de alívio. Voltou depois para sua poltrona, ajeitando-a de
tal maneira que podia ver seus oficiais.
— Conseguimos
— disse tranqüilo. — Programem o computador para uma órbita a
quinze mil quilômetros do solo. Ficaremos lá para reparar nossos
danos e para observar o que se passa em Azgola. Os aparelhos de
medição captaram muitos dados sobre os foguetes inimigos, nos
últimos minutos. Ordenem aos postos de artilharia que permaneçam de
prontidão e estejam preparados para usarem os projéteis
anti-foguetes. Não haveremos de fugir outra vez.
Foi a
primeira vez em sua existência que Meech Hannigan teve que mobilizar
toda sua energia. Até agora, mesmo nos maiores momentos de perigo,
tinha se safado usando apenas a metade das energias de seu corpo
mecânico. Mas aqui, tinha que dar tudo que havia nele. Tinha que se
locomover com a velocidade de um automóvel, se quisesse escapar do
desmoronamento do gigantesco edifício.
Ron Landry
já estava fora de perigo isto sabia ele. Captara o rádio pelo qual
Larry Randall fora solicitado a trazer o carro voador para a parede
da torre e subir à procura dos terranos. Melhor do que ninguém,
sabia também que o edifício perderia a estabilidade com o
desmoronamento de parte da escadaria.
Pulou
escada abaixo, atingindo o saguão no andar térreo, antes que o
trecho da escadaria, onde Ron Landry estava agüentando o fogo
cerrado dos raios térmicos dos desconhecidos, despencasse e desse
assim início à obra de total destruição. Com largas passadas,
depois que alcançou a rua, Meech corria à sombra das paredes das
casas. Ninguém o viu. Larry Randall já estava, a esta altura,
subindo com seu desliza-dor ao longo dos andares da torre. O biorrobô
viu ainda duas cabeças olhando por uma das janelas da torre. Eram
Lofty e Ron. Mas sua maior atenção era para o deslizador.
Meech
nunca fazia nada sem calcular. Nos poucos segundos que se passaram
após sua fuga da torre, desenvolvera em seu interior um vasto
programa à base de computação. Media a situação sumariamente
pelo estado atual de suas informações. Chegou, então, à conclusão
de que os estranhos, fossem quem fossem, deviam ter uma base muito
bem provida em Azgola. Em flagrante contraste com isso, estavam Ron
Landry e seus homens, depois que a Victory partira e se retirara. Os
três terranos estavam entregues a si mesmos e não podiam contar com
outras armas, a não ser as de pequeno porte que traziam consigo e as
que guarneciam o deslizador. Era mais do que certo que passariam por
grandes apuros, até sua espaçonave voltar.
Num caso
deste, era muito interessante que alguém ficasse para trás, alguém
de cuja existência nem Ron, nem o adversário suspeitassem. Meech
não tinha dúvida de que Ron o julgava sepultado sob os escombros da
escadaria da torre. O inimigo que, por sua vez, também perdera
muitos de sua gente neste acidente, não tinha razão para duvidar da
morte de um adversário.
A partir
do momento em que a torre desmoronou, levantando uma gigantesca nuvem
de poeira, Meech Hannigan era uma incógnita na equação em que se
desenrolavam os acontecimentos em Azgola. E não queria de fato ser
outra coisa, quando se esforçava para não ser observado em sua
fuga.
Viu o
deslizador se dirigir ao longo da rua na direção norte. Esperou um
pouco, pois se podia ver pela velocidade reduzida do veículo que Ron
Landry não se decidira ainda qual rumo tomar. Meio minuto depois,
Meech constatou que esta conclusão estava certa. O deslizador virou
à esquerda, numa rua lateral, e começou a acelerar, desaparecendo
depois.
Os robôs
não dependem exclusivamente dos cinco sentidos humanos, se bem que o
termo “sentido”,
aplicado a um robô, deve sofrer uma pequena alteração semântica,
pois não é muito agradável colocar no mesmo plano a maravilhosa
visão humana e a atividade visual de um registrador positrônico,
que examina a imagem produzida por um complicadíssimo jogo de lentes
numa imitação artificial de uma retina hiper-sensível. Não
podemos, então, chamar de sentido humano a um combinado de elementos
ópticos e positrônicos. Mas o fato era que Meech possuía uma peça
cerebral que lhe permitia captar as irradiações de instrumentos
produtores ou consumidores de energia. É claro que lhe seria
totalmente impossível perceber um motor de explosão ou um gerador
elétrico sem que o visse ou ouvisse, ou então os identificasse, por
assim dizer, cheirando através da análise dos seus elementos
residuais. Mas, quanto aos pequenos motores nucleares, como eram
usados nos carros voadores ou demais tipos de deslizadores, o robô
os percebia mesmo à grande distância, com tanta nitidez como se
fossem lâmpadas de mercúrio cintilando em plena escuridão.
Meech
sabia, portanto, que o carro voador tomara a direção sul,
aumentando a velocidade. Mas, por mais veloz que fosse seu vôo,
Meech o seguia, convencido de que, embora demorasse bastante, ele o
encontraria.
Estava
caminhando, apressado, é verdade, mas com muita cautela. Mas, não
obstante a união da pressa com o cuidado, conseguia ainda uma
velocidade em torno de vinte quilômetros por hora. Se o deslizador
de Ron Landry aterrissasse em qualquer ponto da cidade, não ficaria
parado mais do que um quarto de hora.
As
irradiações do motor nuclear estavam cada vez mais fracas. Conforme
os cálculos de Meech, continuaria recebendo as já fracas ondas do
motor somente por uns doze ou quinze minutos, e isto dependendo do
fato de não alterarem a velocidade e o rumo. Depois disso, suas
pistas para segui-lo seriam muito mais difíceis e demoradas. Não
tinha, porém, dúvida de que alcançaria Ron Landry.
Felizmente,
logo depois pôde observar que o carro voador não estava mais se
distanciando tanto dele; pelo contrário, se aproximava cada vez
mais. Talvez isto queria dizer que o veículo tivesse pousado em
algum lugar, pois a velocidade da aproximação correspondia à
caminhada acelerada do biorrobô ao longo das casas da rua totalmente
vazia.
Manteve o
mesmo tempo, até que, no centro do cruzamento de duas ruas, percebeu
de repente que estava captando outras irradiações energéticas
diferentes das que lhe vinham do deslizador de Ron Landry.
Analisou-as rapidamente e chegou à conclusão de que se tratava com
toda certeza de um campo magnético produzido por motores nucleares.
Ainda estavam bem longe dele, distribuídos numa ampla faixa do leste
para o oeste. Sendo que só havia um único deslizador terrano em
Azgola, a situação se tornava mais crítica.
Num
milésimo de segundo, o biorrobô chegou à conclusão de que não
devia avisar Ron. Pelo que percebera, seu chefe estava cercado e, num
caso assim, não poderia ser útil. Deixou de lado a cautela com que
vinha em sua marcha acelerada, e elevou ao máximo a velocidade que
seu corpo permitia: mais ou menos trinta e cinco quilômetros por
hora. Tal velocidade representava um aspecto muito estranho para
alguém que visse o possante biorrobô correndo ao longo das ruas com
saltos gigantescos.
Nesta
corrida desajeitada, ele ouviu a voz de Ron no alto-falante portátil,
quando este pedia socorro à Victory. Foi então que Meech soube que
seus adversários eram os saltadores. Sobre o fato de os saltadores
não se apresentarem em Azgola como eles realmente eram, o biorrobô
não quis perder tempo a respeito.
Pouco
depois, também ficou sabendo que Ron e sua gente haviam caído nas
mãos dos inimigos. Os poderosos disparos do desintegrador ecoaram
nitidamente no seu sensor energético e o estampido com que o
deslizador se chocou contra o solo ou contra uma casa em algum lugar
mais para frente foi tão forte que seria escutado facilmente pelo
ouvido humano. O apurado aparelhamento acústico de Meech reconheceu
também que o carro voador dos terranos não fora derrubado de grande
altura. Os três terranos tinham, pois, probabilidade de estarem
vivos. Os saltadores haveriam de levá-los consigo e Meech tinha que
acompanhá-los.
No
momento, o robô se contentou em se esconder no corredor de uma casa
e aguardar o que os saltadores iriam fazer. Notou como os
deslizadores inimigos levantaram vôo quase simultaneamente, e se
afastaram para os lados do sul. Nesta direção, devia estar perto a
periferia da cidade. Portanto, a base dos saltadores se situaria por
ali, em pleno campo. Meech sabia que logo perderia a pista direta dos
carros voadores. Mas se continuasse caminhando para o sul, haveria
de, mais cedo ou mais tarde, sentir as irradiações de um outro
aparelho, de um gerador ou de um hiper-rádio, que lhe mostraria o
caminho com mais nitidez do que o pequeno motor nuclear de um carro
voador.
Inicialmente,
inspecionou o local do ataque inimigo. Passou pelo Parque Central e
numa das ruas laterais encontrou os destroços do deslizador terrano,
que não estava mais em condições de ser recuperado.
Meech
estava para iniciar a caminhada rumo ao sul, quando surgiram sobre a
cidade as esferas da Vondar é da Victory. Ficou observando suas
manobras e com todos os seus “sentidos”
calculou de que maneira as duas unidades terranas tiveram que lutar
para escapar da destruição no espaço-porto. Guardou na memória
que não podia contar com a ajuda das espaçonaves nas primeiras
horas. Os saltadores de Azgola estavam muito bem armados.
Finalmente
recomeçou a marcha para o sul. Com a lógica fria de um robô,
reconheceu que as possibilidades dos terranos neste planeta não eram
nada encorajadoras.
*
* *
Ron Landry
voltou a si com tremenda dor no corpo inteiro. Queria se erguer, mas
algo o retinha; alguém gargalhava perto dele, deixando-o tão
furioso que esfregou os olhos e abriu as pálpebras que pareciam
pesadas como chumbo. O quadro que vislumbrou era confuso. Só com o
tempo é que os contornos se desenharam com mais nitidez. Sentia
dores horríveis na cabeça. Mas a dor era anestesiada pelo tremendo
ódio contra o homem que zombeteiro estava ali postado, rindo dele.
Tinha uma
leve impressão de já ter visto aquele rosto. Podia, porém, ser
mera ilusão. O saltador, se é que era mesmo um deles, não usava
barba. De rosto balofo e esponjoso, o homem parecia ser vítima de
uma gordura doentia. Estava sentado numa enorme cadeira atrás de uma
mesa pequena, onde havia um reduzido painel de comandos. Ron podia
imaginar para que servia. Também não estava interessado em saber.
Num grande esforço, tentou novamente se levantar.
O
saltador, inclinando-se um pouco para frente, apertou um dos botões.
No mesmo instante, Ron soltou um grito de dor. Parecia que alguém
lhe espetara uma agulha incandescente para dentro do crânio. Tão
violenta foi a dor, que perdeu novamente os sentidos por uns minutos.
Quando
voltou a si pela segunda vez, o saltador ainda estava com a mão
sobre o painel e ameaçadoramente lhe falou:
— Fique
quieto que não lhe acontecerá nada. Tenho que tomar minhas
providências, pois o senhor é um homem violento.
Ron
maldisse sua fraqueza no momento. Não podia nem virar a cabeça.
Conseguiu ver que o recinto na sua frente não ia além de três
metros e dos dois lados, não mais que dois. À direita e à esquerda
do saltador, atrás da pequena mesa, viam-se as carcaças quadradas,
de cor escura, dos dois geradores que estavam acoplados com o painel
de contatos. Viu uma meia dúzia de cabos coloridos que dos geradores
vinham para ele, compreendendo, então, quem lhe aplicara a terrível
estocada no cérebro. Aliás, o recinto não tinha janelas. A
iluminação provinha de uma fila de lâmpadas azuladas pouco abaixo
do teto.
Ron olhou
firme para o saltador.
— Onde
está minha gente?
— Não
interessa — respondeu-lhe secamente o saltador.
Falava
baixo e pausado, observando muito seu prisioneiro. Ron não perdia
estes detalhes.
— O
senhor é Garathon?
— Perfeitamente.
Meu nome já lhe é conhecido?
— Desde...
desde quando que foi mesmo? Quando nos atacou com muita coragem e com
uma supremacia numérica exagerada.
Novamente
a dor terrível em seu crânio. Não notara que o saltador apertara o
botão. O choque veio repentino. Desta vez, porém, o terrano não
perdeu os sentidos. O ódio o manteve consciente.
— Não
quero ouvir mais palavras ofensivas — disse Garathon, com um
sorriso amarelo no rosto. — Para que você saiba, sou primo de
Alboolal. Você se lembra deste nome, não é verdade?
Ron tentou
se lembrar. O nome lhe parecia conhecido. Já tivera que lidar com um
saltador de nome Alboolal, há algum tempo atrás. Devia ser em...
Ghama, o planeta das águas, onde os saltadores retiveram como
prisioneiros os sobreviventes de um acidente com uma espaçonave,
acidente este encenado pelos saltadores. Ron e Larry, no entanto,
estragaram os planos dos saltadores e os trouxeram presos para a
Terra, onde foram condenados pelos tribunais a trabalhos forçados
por vinte anos, para indenizarem o grande mal que praticaram.
Ron estava
compreendendo e ligando os fatos. Garathon estava tentando vingar seu
primo Alboolal e Ron poderia se dar por felicíssimo se algum dia
escapasse desta prisão.
— Ah!
Alboolal... — disse ele. — Sim, estou me lembrando. — Conseguiu
um sorriso zombeteiro e continuou: — Acho que ele agora estará
pensando se vale a pena assaltar espaçonaves terranas.
Sabia que
após estas palavras, receberia o terrível choque da agulha
incandescente. Fechou os olhos e se concentrou no choque,
suportando-o melhor que nas duas vezes anteriores. Quando os abriu, o
semblante do saltador era uma carranca do ódio.
— Este
sorriso sarcástico vai desaparecer de seus olhos, terrano. Haverá
de maldizer o dia em que levaram Alboolal preso.
Acalmou-se
logo depois, de maneira surpreendente, recostando-se novamente na
ampla poltrona.
— Gostaria
de lhe dizer pela terceira vez — começou o saltador lacônico —
que palavras ofensivas não me agradam; que somente o podem
prejudicar e muito, quando ouço coisas que não me agradam. Mas
estou certo de que você não vai mudar.
Ron meneou
a cabeça afirmativamente.
— Pode
ser — disse indiferente. — Mas já que o senhor se sente tão
firme, certamente estará em condições de me informar o que os
saltadores estão tentando de novo em Azgola.
Garathon
se mostrou a princípio indeciso.
— Trata-se
de um negócio muito importante — disse hesitante. — Acho que
você não deve saber mais do que isto.
— Compreendo
— disse Ron. — O negócio é tão bom que o senhor ficou mais
gordo que um sapo-boi.
A mão de
Garathon moveu-se para a frente e Ron viu que o dedo esticado
procurava agora outro botão. Esticou os músculos. Teve a impressão
de que alguma coisa estava dependurada nos dois braços e os puxava
violentamente para baixo. Ron gemia.
Garathon
gargalhava. Ficou de repente sério.
— Aliás,
você tem razão. A estada aqui em Azgola tem seu lado desagradável.
A gente engorda exageradamente. Essa região aqui é mais ou menos
sadia. Não sofremos tanto como os pobres azgônidas que, de tanta
gordura, nem podem mais se mover.
Ron se
esforçava para conter suas palavras.
— Mas
qual é a novidade que está no ar? — perguntou em voz bem firme.
Garathon
ouvia com atenção.
— Novidade
no ar? Não há nenhuma. Já lhe disse que estas coisas não são de
sua conta.
— Covarde!
— gritou ele. Queria pôr fim a esta luta desigual, sem temer as
conseqüências. — Dentro de sua própria cidadela, o senhor ainda
tem medo de nós.
Lentamente
Garathon se inclinou para frente... Mas, bem mais para longe, atrás
das paredes do recinto onde estavam, soou um gongo. O ruído foi
aumentando, enchendo os ouvidos de Ron.
De
repente, queimou-se uma resistência em algum lugar e, de um momento
para o outro, não havia nada mais em torno de Ron, a não ser a
noite, noite negra e benfazeja.
*
* *
Os danos
nas duas espaçonaves não chegaram a ser substanciais. No tocante
aos geradores do envoltório de proteção, bastou um período de
doze horas para se completar a reserva energética.
As duas
centrais de computação das naves terranas estavam, entrementes,
ocupadas em determinar o curso e a origem dos foguetes adversários.
Por ter o inimigo mantido o bombardeio num ângulo muito diminuto, os
dados obtidos não eram suficientes. Assim mesmo, Gerry Montini
descobriu que as duas grandes faixas de mísseis teleguiados partiam
de duas rampas de lançamento bem distintas e que as duas bases se
localizavam no continente, em cujo litoral leste os azgônidas
construíram sua capital, Timpik.
Fora
disso, os setores de observação astronômica das duas naves estavam
em intensa atividade para controlar qualquer novidade na superfície
do planeta. Montini não ignorava que com isto estava se expondo a um
grande risco, pois as espaçonaves dos saltadores deviam andar por
perto e não haveriam de tolerar que alguém atrapalhasse seu jogo
disfarçado. Montini sabia, porém, muito bem que tal operação era
de suma importância, principalmente depois que souberam que os
saltadores é que estavam por detrás dos acontecimentos de Azgola. E
operação de importância não se fazia sem um grande risco.
Este risco
estava diante deles e Montini assumia toda a responsabilidade.
A
minuciosa observação da superfície do planeta concluiu que o
hemisfério norte de Azgola, ocupado em sua maioria pelo continente,
era praticamente desabitado. Talvez a terra fosse tão estéril que
os azgônidas não se interessavam por ela. Outros trechos do
continente apresentavam uma coloração de um verde-amarelado, como
de capim há muito ressecado.
“Se
os azgônidas não se interessaram por esta enorme faixa de terra”,
assim pensava Montini, “certamente
também os saltadores não lhe dariam importância.”
Era uma
conclusão gratuita, temerária mesmo, sem nenhum apoio concreto.
Montini, porém, se arriscou a aceitar a tese, crente de estar com a
razão.
A Victory
recebeu instruções para voltar à órbita de Azgola, enquanto a
Vondar se preparava para se aproximar de novo da superfície do
planeta. Montini dispôs a rota de tal maneira que não tocaria os
lugares mais perigosos da superfície. A Vondar descia quase
perpendicular, de encontro ao continente do hemisfério norte.
Já se
havia preparado um grupo de especialistas para desembarcar.
*
* *
O biorrobô
Meech Hannigan continuava sua marcha acelerada. O terreno era plano e
de boa visibilidade, o que podia ser uma vantagem, como também uma
desvantagem. Dispondo de um formidável sistema óptico, sua visão
atingia muito além dos olhos humanos, incluindo os espertos
salta-dores. Não precisava ter medo de ninguém que por acaso
encontrasse no caminho. Naturalmente, a situação se modificava
quando o terreno era vasculhado por instrumentos de rastreamento.
Rastreadores enxergavam mais longe do que um biorrobô. E aquela
imensa planície não oferecia a Meech muita chance para se esconder.
De
qualquer forma, haveria de notar quando alguém o descobrisse. A
questão era esta: ele seria bastante rápido para desaparecer antes
que os saltadores começassem a desconfiar e a correr atrás dele?
Deixara a
cidade já bem longe. Se olhasse para trás, veria apenas a silhueta
dos edifícios no horizonte.
Um grande
número de estradas partiam da cidade para o sul e Meech as evitava,
pois eram muito mais desprotegidas do que a planície de capim
ressecado. Notava, além disso, que o terreno descia em declive
brando, certamente na direção do mar. Notava-se no ar maior teor de
salinidade, em comparação com as regiões do Norte.
Ainda
outra coisa chamara a atenção de Meech. O interior de seu corpo
mecânico necessitava de um sistema de aeração e de refrigeração.
Era muito simples usar como gás de refrigeração a simples
atmosfera em que o biorrobô se encontrava, se não contivesse
componentes que pudessem atacar a complicada estrutura interna de
Meech. Somente no vácuo do espaço infinito é que o biorrobô
passaria a viver como um conjunto auto-suficiente.
O conjunto
de aeração estava equipado com uma série de filtros que vedavam a
passagem de impurezas e que, em períodos normais, eram limpos
automaticamente. Mas por mais automático que fosse, algumas
impurezas permaneciam no consciente do biorrobô. E, depois de sua
chegada a Azgola, estes filtros necessitavam ainda mais de uma
limpeza. Não seria difícil compreender isto, pois se percebia como
o ar era impuro e como o vento levantava sempre aquela poeira fina. A
questão era agora saber de onde vinha aquela poeira constante. O
capim em que Meech estava caminhando achava-se ressecado, mas não
deixava quase nada do solo descoberto. O mar não podia estar muito
longe, pois havia muita umidade no ar. Isto era facilmente
evidenciado pelos instrumentos de Meech. De onde vinha, portanto, a
poeira?
Meech não
estava a par do problema dos azgônidas, pois não se encontrava
presente quando da conversa de Ron com o supergordo Bladoor. Apesar
disso, seu pensamento agora estava perguntando aos dados acumulados
dentro dele se aquela poeira fora do comum tinha alguma coisa que ver
com a engorda deformante que parecia uma epidemia do planeta. E como
seria, então, se a tal poeira contivesse elementos nutritivos?
Para um
homem normal, este simples pensamento pareceria absurdo. Mas um
biorrobô não conhecia preconceitos. Seu julgamento dependia com
exclusividade dos conceitos acumulados eletropositronicamente,
formando o substrato de sua consciência, ou por assim dizer, sua
pseudo-experiência. Podia assim imaginar que alguém tivesse
aspergido no ar ácidos de lipídio, ou seja, de gordura, em forma de
aerosol, fazendo com que os homens que os respirassem engordassem de
uma hora para a outra. E por que não poderia acontecer uma coisa
desta em Azgola?
A pergunta
não era assim tão simples de responder. Por este motivo, Meech a
deixou provisoriamente de lado, sem contudo desprezá-la, até que
tivesse mais informações.
Uma hora
mais tarde, o negro véu da noite se estendeu sobre o triste planeta.
A escuridão não causava nenhuma sensação diferente no biorrobô.
Seus sentidos funcionavam independentes das trevas e continuou sua
caminhada no rumo sul. Uma hora e meia depois do sol posto, captou os
primeiros sinais de uma estranha fonte de energia.
A origem
das ondas energéticas estava quase em linha reta com a direção
seguida por Meech. Bastou-lhe uma leve correção de um grau e pouco
para o oeste. Daí para frente, toda a sua atenção se convergiu
para seus sensores energéticos, isto é, ativou uma ligação
especial que salientava sobremaneira a reação de um tipo de
dispositivo ligado diretamente com os órgãos correspondentes aos
sentidos.
Pôde
perceber, minutos mais tarde, que pelo menos três fontes energéticas
estavam diante dele. Pareciam dispostas em ordem simétrica, pois
somente de uma delas é que recebia impulsos mais fortes e mais
nítidos, enquanto as outras duas, se bem que perceptíveis, eram
mais fracas.
Não
poderia ser um enigma em Azgola, descobrir o que se passava lá na
frente. Os pobres azgônidas não possuíam aparelhos ou instrumentos
que o biorrobô pudesse auscultar ao longe. Ron Landry fora obrigado
a deixar seu deslizador em Timpik. Que poderia ser então?
Somente os
saltadores!
Sentiu
Meech que o chão a seus pés e o ar em volta se tornavam mais
úmidos. A terra cedia quando ele andava e a grama seca dava lugar a
um trecho quase de brejo. Meech não deu maior importância ao fato,
se bem que seu peso fosse muito superior ao de um homem, podendo pois
afundar no pântano bem mais depressa. A força de seu corpo, porém,
compensava em muito seu próprio peso. Não havia brejo nem atoleiro
de onde Meech não saísse. Continuou na mesma marcha acelerada.
Entretanto,
um pouco depois foi obrigado a diminuir seus passos, pois a
irradiação se tornou tão forte que calculou a distância até a
próxima fonte energética em menos de um quilômetro. É claro que
os saltadores deviam ter tomado providências para que nenhum
estranho penetrasse em sua base.
Meech
desfez a ligação especial e concentrou toda sua atenção no
terreno em volta.
Descobriu
segundos depois um pequeno sensor, aflorando do solo à sua frente.
Uma cúpula diminuta, de meio metro de diâmetro, sobressaía do chão
pantanoso uns dez centímetros. Esta cúpula possuía duas pontas
simétricas, assemelhando-se muito aos bicos recurvados das antigas
cafeteiras. Meech não ignorava sua finalidade. Através destes
bicos, podia penetrar qualquer tipo de irradiação, por exemplo,
raios ultravermelhos. Esta irradiação entrava compacta e era
retransmitida por receptores instalados à direita e à esquerda.
Provavelmente, estas cúpulas e o que estava dentro delas na terra
eram receptores e transmissores ao mesmo tempo. Se alguém passasse
entre dois destes dispositivos, o receptor seria interrompido pela
fração de um segundo. Na Terra, aplicava-se este princípio em
escadas rolantes e em portas automáticas de estabelecimentos
comerciais. Aqui, a interrupção disparava, talvez, uma instalação
de alarma. O mecanismo era simples, mas eficiente. Se a lâmpada de
raios ultravermelhos debaixo da cúpula não possuísse uma
irradiação característica, o biorrobô jamais teria percebido a
aparelhagem ou a teria julgado inofensiva.
Realmente,
Meech precisou de muito tempo para tomar uma decisão. Muito tempo
para o biorrobô era um décimo de segundo. Poderia tentar dar uma
volta em torno do dispositivo, mas os saltadores certamente haviam
minado todo o terreno com uma série de sensores ultravermelhos.
Podia passar por sobre a cúpula... Quem sabe, porém, existia um
dispositivo especial que disparava o alarma quando alguém pisasse na
cúpula? Existiam muitas outras possibilidades e Meech as ponderava
uma por uma, com a lógica fria de um computador. Acabou se decidindo
pela mais simples delas. Curvou bem os joelhos e deu um grande salto
por sobre a cúpula.
*
* *
Garathon,
o chefe da base em Azgola, deixou seu recinto de trabalho e os
aparelhos que lá foram instalados secretamente por meia dúzia de
súditos, que, certamente, não cometeriam a loucura de abrir a boca
sobre o que viam e ouviam. Os demais membros do clã de Garathon nada
sabiam sobre a distração predileta de seu patriarca.
Atravessou
o corredor meio escuro que ligava seus aposentos com o resto da base.
O corredor era subterrâneo, como a maior parte da base e isto por
bons motivos. A única coisa que ia além do nível do solo era uma
cúpula relativamente baixa cujo ápice não atingia cinco metros.
Toda a instalação havia sido uma obra-prima que os arquitetos do
clã criaram em menos de sete dias. É claro que não se podia falar
em conforto, pois o assunto em Azgola era interesse comercial. O
saltador estava sempre pronto a sacrificar tudo — conforto,
prazeres — por um lucro substancioso.
O corredor
era muito úmido e o ar muito quente, obrigando Garathon a suar em
bicas, muito antes de chegar até o salão de reunião, para onde
convocara seus homens de confiança. O patriarca amaldiçoava o
planeta Azgola e a excrescência que empesteava a atmosfera. Mas não
podia se esquecer de que viera para cá por livre vontade — por
causa dos lucros, naturalmente.
Já se
aproximando do salão, o corredor se alargava um pouco. Diante do
grande portal, transformava-se num saguão de onde partiam outros
tantos corredores. Garathon parou por um instante, olhando com
orgulho o emaranhado de corredores e galerias que abriam caminho para
câmaras e depósitos. Ele era o único dono de tudo isto. E quando
saísse daí, seria um dos mais ricos dentre todos os patriarcas.
Empurrou a
porta do salão e entrou. O recinto fora construído para quinze
pessoas. Toda a base contava com quarenta e oito homens. Os bancos e
mesas estavam vazios, com exceção de uma nos fundos. Garathon se
encaminhou para os quatro homens de confiança que lá estavam,
fazendo uma saudação com a mão, sem dizer nada. Suspirando e
suando sob o enorme peso do corpo, sentou-se num banco largo e sem
encosto.
— Conseguimos
prendê-los — disse ele.
À sua
frente estava Garhalor, um homem baixo, aparentemente jovem, não
usando mais a cabeleira pomposa dos saltadores, muito menos a barba,
já quase fora de uso. Na realidade, Garhalor era alguns anos mais
velho do que Garathon, seu chefe, e tinha papel importante nas
grandes reuniões.
— Isto
não é tudo — respondeu ele à frase inicial de Garathon, fazendo
uma expressão de tristeza e preocupação. — Você acha que os
terranos vão abandonar seus homens?
Garrhegan,
sentado ao lado de Garhalor, o mais jovem e o maior de todos,
gargalhava à vontade.
— Eu não
me preocuparia tanto com este assunto — disse o último. — As
duas primeiras naves já tiveram uma boa lição.
Garhalor,
fazendo um gesto de censura:
— A
Terra não tem apenas duas espaçonaves e os terranos são
perseverantes. Não nos darão mais sossego.
Garathon
interrompeu a discussão:
— Garhalor
tem razão. Mas nós precisamos apenas de dez ou onze dias, para
montar as instalações e garantir nosso lucro contínuo. Até lá,
deve esta base, juntamente com os postos avançados em Kanen e em
Galuik, estar em condições de nos proteger contra os terríveis
terranos.
— Por em
falar Galuik — interveio o quarto saltador, Garr, um homem de
estatura média e também de aparência e prestígio médio —
perdemos naquela ação na cidade um bom punhado de homens...

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