quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr [Parte 2]

A situação era alarmante e nos deixava sem ânimo e não podíamos fazer mesmo nada. Engordando cada vez mais, não conseguíamos mais parar de pé. Para sair de casa, tínhamos de andar de quatro, até nos convencermos de que não precisávamos mais nos mover. Éramos alimentados de uma maneira misteriosa e não precisávamos mais trabalhar para ganhar o pão de cada dia, nem nos era necessário mais sair de casa. Por isso que as ruas das cidades e aldeias ficaram vazias, o trânsito desapareceu. E mais, cessou toda atividade de Azgola, que agora não passa de um planeta morto e ninguém sabe como isto vai acabar...”
Parou de falar e respirou profundamente. Falara muito e estava sentindo o cansaço.
Como é, então, que se explica que o senhor está ainda tão ativo? — perguntou-lhe Ron. — Certamente o senhor está muito mais gordo do que antes, mas não tem de longe o volume que constatamos em outros homens de sua raça. De que maneira o senhor se protegeu contra esta praga do engordamento?
Bladoor fez um gesto de dúvida.
Não sei — disse hesitante. — Naqueles dias, quando começou a desgraça, estava ocupado com um trabalho muito importante. Estava sentado dia e noite no meu escritório e não tinha tempo para me preocupar com o que se passava lá fora. Somente quando, uma certa manhã, nenhum dos meus funcionários apareceu ao meu toque de campainha, é que minha atenção se voltou para o problema. Saí do escritório e fiquei envergonhado com o que vi. Homens disformes, horrendamente gordos, rolavam pelos corredores do Palácio do Governo. Com muita dificuldade, consegui reconhecer alguns deles. Santo Deus, como estavam diferentes! Trouxe um deles comigo para conversar um pouco e para me contar como tudo acontecera. Contou-me mais ou menos o que acabei de lhes relatar há pouco. É claro que fiquei admirado de ter sido poupado da engorda. Não podia achar explicação para o fato. Acabei aceitando a idéia de que meu escritório era um local bem resguardado. Por isso continuei ficando por lá. Não precisei me preocupar com a alimentação, pois realmente não sentia fome, embora estivesse livre do fastio de que eram acometidos os demais.
Fiquei lá esperando. Notei com o tempo que eu também estava engordando, se bem que essencialmente de modo mais lento que os outros. Via de minha janela que a cada hora as ruas se esvaziavam mais. Muitas vezes fiquei desesperado, mas me botava na cabeça que haveria de chegar alguém para desvendar o mistério. Continuei esperando e finalmente os senhores chegaram.”
Ron estava muito concentrado nos seus pensamentos, mas depois de alguns instantes, rompeu o silêncio:
Acho que a questão decisiva está na seguinte pergunta: em que seu escritório se diferencia do de outros ministros?
Uma idéia tomara corpo em sua mente. No princípio a julgava até ridícula, mas sua mente disciplinada lhe dizia que não se deve deixar de lado nenhum pensamento. Será que o ar de Azgola estava impregnado de algum eficiente, mas invisível elemento nutritivo? Ou tudo aquilo era uma nova invenção, ainda sem explicação? E as duas espaçonaves observadas no planeta, teriam alguma coisa a ver com isto? Haveria em Azgola lugares onde a epidemia — se assim a podemos chamar — não penetrara e onde os homens ainda estavam normais?
Bladoor não teve dificuldades em responder a pergunta.
Expôs o seguinte:
Primeiramente sou extremamente sensível ao barulho. Meu poder de concentração diminui assim que ouço um ruído diferente. Por este motivo, minhas portas são sempre duplas. Em segundo lugar, amo o ar fresco, mas sou muito alérgico à poeira. Mandei instalar na minha janela uma tela de arame, mas de um trançado tão fino, que a poeira não passa. Fora disso, meu escritório é igual aos outros, exceto talvez nos móveis, mas isto, talvez, não tenha muita...
Muito excitado, Ron se levantou.
Não, os móveis não têm importância — disse interrompendo Bladoor. — O senhor tem razão, a porta dupla e a tela de arame de trançado fino... esta é a diferença. Por meio delas, o senhor conseguiu deter, pelo menos até um certo ponto, a substância nutritiva.
Substância nutritiva? — indagou Bladoor, perplexo.
Exato, talvez o senhor não esteja compreendendo. O negócio devia estar espalhado no ar. Sabe Deus o que seria! Mas pelo fato de os homens o respirarem, desaparecia toda sensação de fome. Sentiam-se sempre saciados e engordavam tanto que não podiam mais se mexer.
Bladoor olhava-o admirado.
Sim... sim... — gaguejou ele — estou compreendendo. Mas como foi que a substância veio parar no ar? Imagine que em Azgola vivem mais de dois milhões de homens. Que número colossal de toneladas desta substância alimentícia devia ser pulverizado no ar para deixar dois milhões constantemente saciados?
Ron sorriu.
Existem métodos de que o senhor talvez ainda não ouviu falar. Se de fato existe uma tal substância nutritiva, não seria difícil para seu fabricante injetar na atmosfera do seu planeta uma quantidade suficiente.
O azgônida sacudiu a cabeça.
Não — continuou ele. — A pergunta é muito mais “por que” isto foi feito. Será isto um novo tipo de ataque que precede à invasão de Azgola? Ou existe outro motivo atrás de tudo isto, que nós ainda não vemos? Se alguém me pudesse responder a esta pergunta, ficaria muito...
Foi interrompido. Contornando a coluna, Lofty vinha correndo na direção de Ron.
Não tenho certeza — disse preocupado — não se pode ver com nitidez, mas creio que vi movimento numa das ruas.
Está bem, Lofty, sairemos daqui o mais depressa possível. Continue de olhos abertos.
O velho e experimentado Lofty voltou para seu posto e Ron se dirigiu de novo ao azgônida.
O senhor acha que há uma possibilidade de encontrarmos um barco bom para o alto-mar?
Bladoor abriu os braços num sinal de incerteza.
A questão não é o barco. A uns vinte quilômetros ao sul daqui, está o porto de Timpik. Lá encontramos uma imensidade de barcos para o alto-mar. O que vai ser difícil é encontrar uma tripulação. Não existe ninguém para trabalhar.
Acho que isto, nós mesmos podemos fazer. Estamos em condições de manobrar um barco médio em pleno oceano, mesmo que seja a vela. Infelizmente o veículo que temos conosco não é adequado para maiores distâncias.
E não se esqueça de uma coisa muito importante — advertiu Bladoor.
O quê?
A desgraça, ou a epidemia, como o senhor diz, que nos atingiu, pode atingi-los também. Se a substância nutritiva ainda paira no ar, os senhores vão respirá-la tão bem quanto eu. Em poucos dias poderão ficar tão disformes e gordos como todos os meus patrícios que se esconderam em suas casas.
Ron concedeu que não pensara nisto e o perigo realmente existia. Tinham que estar preparados para dentro de poucos dias se apresentarem como os azgônidas, quase sem movimento. Até lá teriam que lutar para descobrir de onde vinha a tal substância nutritiva, quem era o inimigo carrasco que os atacara com tanto ódio.
Ron dirigiu-se a Lofty. O velho estava sentado nos degraus do pedestal da coluna, olhando atento para o leste.
Alguma novidade? — perguntou-lhe Ron.
Não — disse meneando a cabeça. — Tenho, porém, um mau pressentimento. Há alguma coisa errada lá nos fundos.
Ron também ficou olhando para a mesma direção que merecia a atenção especial de Lofty. Um bom número de ruas vinha dar ali no grande parque, permitindo assim um descortínio mais amplo. Mas tudo estava vazio e não se via nada de suspeito.
Queremos ir embora, Lofty. Vamos.
É uma boa idéia, chefe.
Deram a volta pela coluna. Larry estava na direção e ao seu lado, esgotado pelos poucos passos e pela entrada no deslizador, Bladoor já estava refestelado na poltrona. Instintivamente Ron procurou por Meech Hannigan. Logo depois lembrou-se de que ele estava perdido. Educadamente, deixou Lofty entrar na frente. O velho, de pequena estatura, saltou ágil para dentro e sentou-se no banco de trás. Ron vinha logo a seguir e ia fazer a mesma coisa.
Surgiu, então, o inesperado.
De repente, como um trovão, irrompe do ar uma voz possante, que vinha de todos os lados. Tão de repente que Ron não entendeu as primeiras palavras. Só depois que o susto passou, foi que compreendeu:
...uma força quinze vezes maior. Aqui fala Garathon, comandante da nave Garath Quarenta e Três. Rendam-se, terranos, pois estão perdidos.
Ron percebeu tudo. Uma venda lhe caiu dos olhos, fazendo-o ver todo o quadro. O interlocutor invisível falava o arcônida. Seu nome era Garathon e sua nave se chamava Garath XLIII. Sabia, agora, quem eram os estranhos desconhecidos que queriam matá-los no Palácio do Governo. Estavam um pouco diferentes desde a última vez que os vira, mas seu modo de agir era sempre o mesmo.
Portanto, até em Azgola, lá nos confins do Universo, os saltadores estavam atrás de todo negócio sujo.

Ron se lançou no deslizador e a escotilha fechou automaticamente.
Vamos embora — ordenou — voando o mais baixo possível.
Larry já estava esperando esta ordem. Lá fora, o vozeirão tonitruante enchia todo o parque. Garathon trombeteava que a praça estava cercada pelo menos com uma força quinze vezes maior do que a terrana e que seus poderosos canhões haveriam de destruir seu planador, se tentassem fugir. Ron não duvidava de que o saltador levava a sério o que anunciava. Mas aqui estava em jogo muita coisa; coisa tão importante que as ameaças não iriam quebrar a determinação terrana.
Num pulo, o carro voador levantou no ar. Uma fração de segundo, parece que ficou parado uns metros sobre o parque, foi quando Larry ligou a tração horizontal. O aparelho ia cada vez mais rápido. Parece que Bladoor se assustou com a repentina aproximação de uns prédios altos. Depois vieram os telhados das casas mais baixas, que pareciam disparar para trás. Dava a impressão de que Larry queria ir de encontro aos velhos telhados.
Ron, olhando para baixo, via duas coisas ao mesmo tempo: o volume achatado do poderoso desintegrador que os saltadores haviam inteligentemente colocado no teto de uma casa mais saliente, e o brilho fraco e esverdeado que emanava da boca da arma.
No mesmo instante, o deslizador empinou-se todo. Bladoor foi jogado para frente, batendo com a cabeça no pára-brisa. O gemido lhe morreu na garganta, pois perdeu os sentidos imediatamente.
Foi destruída a propulsão! — gritou Larry. — Não estou agüentando mais.
Ron tentou ficar quieto, pelo menos por uns segundos. Frank Bell tinha que ser colocado a par dos últimos acontecimentos. Frank devia estar com a Victory, dando voltas em torno do planeta.
Leve-o para baixo, o mais lentamente possível — gritou para Larry.
Conseguiu ligar o pequeno transmissor de pulso. Deu o código de Frank, mas não teve tempo de esperar até que este se apresentasse. Apressadamente, fez um curto relato sobre os últimos acontecimentos em Timpik. Concluiu suas palavras com:
Chame a Vondar em seu auxílio, Frank, e tente tudo para nos tirar daqui. Fale também com Montini. E o mais importante de tudo: temos que sair daqui depressa, do contrário estamos perdidos. Não há necessidade de confirmação. Fim.
O deslizador estava caindo e Larry não podia fazer nada para detê-lo. O disparo do desintegrador reduzira a pó o conjunto de propulsão. O fato de o deslizador não ter caído de uma vez só no chão, como uma pedra, deveu-se à sua forma aerodinâmica. Larry mantinha o aparelho numa linha reta acima da rua. Parecia que os telhados vinham de encontro a eles, crescendo em altura dos dois lados. Por poucos segundos, Ron conseguiu olhar para dentro das janelas das casas. Depois, virou-se para trás. Não tinha certeza se já estava fora ou dentro da região cercada pelas forças dos saltadores. A rua estava vazia, e o desintegrador e os homens que o manejavam já haviam sumido numa esquina.
Vamos descer nesta rua — ordenou Ron.
Larry tentou controlar o carro voador e por um momento deu a impressão de que ele obedecia. Mas a situação se alterou de repente. Uma forte rajada de vento, um trecho de menor pressão de ar...
Larry deu um grito de alarma, Ron se encolheu todo. E o mundo todo em volta foi envolvido numa onda de um estrondo profundo e de um ranger de metais. Ron foi atirado de sua poltrona, batendo com a cabeça em algo muito duro. Sentiu uma dor agudíssima e depois tudo sumiu nas trevas.

* * *

A Victory estava girando em órbita do planeta Azgola, a uma altura de dois mil e quinhentos quilômetros quando recebeu o grito de socorro de Ron. A reação de Frank Bell foi fulminante: em segundos Montini, comandante da Vondar, foi avisado.
Estava nas mãos deste último tomar uma decisão. Ron Landry não se manifestou mais. Montini resolveu que a Victory devia ficar aguardando no local onde estava, até que a Vondar chegasse. Montini preparou sua nave, que estava a oito horas-luz de Azgola, para uma transição imediata e venceu em poucos segundos tal distância.
Frank Bell viu o ponto cintilante da Vondar, quando surgiu do nada a poucos quilômetros de sua nave. E antes que tivesse tempo de se virar e dizer alguma coisa aos seus tripulantes, falou o telecomunicador e se ouviu a voz de Montini.
Falo da Vondar. Mande-me os dados sobre sua órbita, Frank. Vamos tentar descer o mais rápido possível.
Os dados da órbita estavam no computador da seção de astronáutica. Frank Bell não teve outro trabalho senão apertar uns botões e fazer com que o aparelho codificasse os dados e os transmitisse por hiper-rádio. Poucos segundos depois, quando Montini perguntou na seção de navegação pelos dados necessários para o resto do vôo, já estava com o sinal verde.
Sem perder um segundo, Montini tirou sua espaçonave da órbita. Frank Bell compreendeu sua missão e seguiu a Vondar, com um intervalo de trinta quilômetros. Com os envoltórios de proteção ligados, ionizando e produzindo um brilho fosforescente, na superfície do pequeno planeta, as duas naves se aproximavam de Azgola. Viram primeiro o litoral do continente em cujo interior se situava Timpik, a cidade mais importante.
Por intermédio de um relatório de Frank Bell, Gerry Montini sabia que os saltadores dispunham em Azgola de um grande arsenal de armas teleguiadas. Não cometeu o erro de expor as duas naves em condições de ficarem encurraladas devido a uma aterrissagem apressada. Voando a uma altura de dez quilômetros, ainda com uma boa velocidade, disparou na direção de Timpik, tendo a Victory atrás. Câmaras automáticas filmavam toda a região. Em poucos segundos as fotos eram enviadas para o observador eletrônico, programado para um determinado tipo de pesquisa. Mais de dez mil quadros foram examinados em meio minuto.
Veio, então, o resultado da análise:
Nada de anormal. Tudo tranqüilo.
Montini girou sua poltrona e se levantou. Os oficiais no posto de comando interromperam seus afazeres para olhá-lo.
Alguma coisa está cheirando mal por aqui, meus senhores — explicou Montini, com voz clara. — Os saltadores se retiraram ou se esconderam de tal maneira, que nem mesmo os observadores eletrônicos conseguem ver seus rastros. E para esta manobra apressada só cabe uma explicação: devem ter chegado à convicção de que Ron e sua gente não vieram sozinhos para cá. Estão nos esperando. Mandem ocupar os postos de artilharia com reforço duplo e dêem a mesma ordem para a Victory, explicando-lhes a situação. Tudo depende de que estejamos preparados para qualquer eventualidade nos próximos minutos.
Voltou ao seu lugar, ficando atrás dele as vozes de seus auxiliares, que transmitiam suas ordens, e as pequenas telas cintilantes do intercomunicador. Sentou-se na sua poltrona, recostou-se e pôs-se a observar a grande tela panorâmica. Toda a cidade estava calma sob a nave. Não se percebia o menor movimento.
A sala de comando atrás de Gerry voltou à tranqüilidade. As ordens tinham sido emitidas e as tripulações das duas espaçonaves terranas estavam de prontidão.
Mas não aconteceu nada. Passou-se um quarto de hora sem que houvesse sinal de qualquer movimento em Azgola. O único fato foi que, no fim de um quarto de hora, Frank Bell chamou, pedindo autorização para aterrissar. Montini, porém, estava hesitante. Mandou que Frank esperasse mais quinze minutos. Se até lá nada ocorresse, as duas naves aterrissariam ao mesmo tempo no espaçoporto de Timpik.
Aumentava, porém, a cada minuto que passava, a inquietação de Montini. O quarto de hora não havia passado ainda, depois do chamado de Frank Bell, quando Gerry deu a autorização. As duas naves avançavam agora juntas, na direção norte, por sobre a cidade. Já na periferia, foram diminuindo a altura e deslizando no aeroporto vazio.
O observador eletrônico ainda não acusava nada das atividades suspeitas do inimigo. Nenhum sinal dos saltadores. Montini julgou desnecessário continuar nas severas medidas de alarma. Ligou-se o piloto automático para fazer a Vondar aterrissar o mais rápido possível.
Um bom número de deslizadores já estava preparado para descer em terra. Montini não queria perder um segundo. Ninguém sabia o que acontecera com Ron e sua gente. Mas a Victory captara o local de onde Ron usara o rádio pela última vez, com uma aproximação de mais ou menos dois quilômetros. Devia ser mais ou menos no centro da cidade e Montini estava crente de que haveria de descobrir pegadas ou sinais, se observasse bastante.
A Vondar pousou logo depois da Victory, mais ou menos no mesmo local onde esta última aterrissara há poucas horas atrás, quando o inimigo invisível atacou pela primeira vez. Montini deu ordem expressa para que os motores de propulsão continuassem ligados o tempo todo, durante a operação.
E foi esta sua sorte, pois os instrumentos de observação perceberam a enorme quantidade de foguetes teleguiados, somente quando já estavam atravessando a margem sul do espaçoporto. Com um truque todo especial, o inimigo conseguiu impedir até então a observação. Colocaram os mísseis um pouco acima dos telhados das casas. Desta maneira, só podiam ser vistos dentro de uma distância já altamente crítica. Isto significava que a Victory e a Vondar tinham que suportar os primeiros teleguiados. Não lhes restava mais possibilidade de evitá-los e se os campos de proteção agüentassem, poderiam depois tentar sair de Timpik, antes de chegar a segunda leva de foguetes.
Montini compreendeu logo a situação. Com um soco, empurrou para baixo a alavanca da instalação do telecomunicador e entrou em contato com a Victory.
Abriguem-se — soou sua voz firme. — Procurem um apoio firme.
Seguiu-se um arrastar de poltronas e o barulho de passadas pesadas. Mas depois veio o silêncio. Sete dos doze segundos dados pelo observador eletrônico já haviam passado. Gerry ainda deu uma olhada em volta, para ver se todos estavam bem protegidos. Depois fincou os pés firmes contra a base da poltrona, que estava fortemente atarraxada nas chapas do soalho. Enquanto seu corpo estivesse bem colado no espaldar, sentia-se seguro. Sem o perceber, prendeu a respiração.
Os disparos vinham rápidos demais para poderem ser reconhecidos na tela panorâmica. Um segundo antes da primeira detonação, o observador eletrônico soltou um silvo agudo. O som ainda estava no espaço, quando a grande tela se encheu, se iluminou de um branco ofuscante e um impacto assassino foi sentido por toda nave.
Sua opinião sobre a estabilidade da poltrona, Montini teve logo que modificar. Suas pernas foram simplesmente atiradas para o lado. Como se não houvesse mais lei da gravidade, seu corpo foi levantado do assento. Viu por um instante como os aparelhos do painel à sua frente pareciam todos virados para baixo. Depois, o segundo impacto o jogou ao chão, batendo forte com a cabeça. Por uns segundos, os estrondos das sucessivas explosões lhe pareciam um suave ruído que vinha de muito longe, através de um túnel estreito. O zumbido na cabeça dolorida abafava tudo.
Aos poucos tornou a ver tudo claro de novo. A forte cintilação esbranquiçada na tela panorâmica enchia o posto de comando de uma claridade ofuscante. De joelhos no chão, com as mãos apoiadas em alguma coisa na frente, Gerry olhava em torno meio estonteado.
Uma nova explosão atirou a Vondar um pouco para trás. Montini foi projetado de costas, conseguindo, logo depois, pôr-se de joelhos. Via o clarão avermelhado lá fora e sabia que a capacidade do envoltório de proteção estava atingindo seu ponto crítico.
Se o bombardeio não terminar...”, a próxima explosão interrompeu seu pensamento.
Foi atirado para cima, caindo depois deitado no chão. Estava respirando com dificuldade e vendo círculos vermelhos diante dos olhos. Um clarão avermelhado encheu a sala de comando e feixes largos de uma luz vermelha saíam da tela panorâmica.
Montini deu um pulo, sem cuidar agora se tinha ou não apoio. Chegou cambaleante até seu posto. O telecomunicador estava ainda ligado, mas a tela menor tombara no chão. Quando a levantou, percebeu que estava escura e apagada. Não havia mais imagem no videofone, para poder entrar em contato com Frank Bell.
Vondar chamando Victory — gritou com voz rouca. — Vondar chamando...
Aqui fala da Victory — interrompeu-o uma voz bastante nervosa. — Fala Frank Bell. Como está a situação com os senhores?
Gerry Montini suspirou aliviado. Se era este o maior cuidado de Frank Bell, então a situação da Victory não podia ser tão ruim assim.
Obrigado. Ainda conseguiremos levantar vôo. Vocês aí já estão preparados?
A qualquer momento — foi a pronta resposta de Frank.
Então, vamos embora. Até o próximo bombardeio não levará mais de dois minutos. Acelere o máximo que puder.
Entendido, senhor — respondeu Frank Bell.
Um pequeno estalo interrompeu a ligação. O primeiro-oficial atrás de Gerry já dera a ordem de partida.
De um segundo para o outro aumentou o ronco, até que todo o interior da nave sofreu uma forte vibração. A tela panorâmica continuava encoberta, pois o redemoinho de fumaça e poeira das contínuas explosões embaciava a visão. Gerry Montini aguardava o sinal agudo de partida, para saber o momento em que a Vondar se levantava.
Via-se a inquietação em sua fisionomia. Não tinha uma noção exata da extensão dos danos dos mísseis inimigos. Os motores de propulsão pareciam funcionar normalmente. Poderia, no entanto, acontecer que não tivessem mais a mesma força. E a Vondar necessitava de toda sua potência para enfrentar o próximo ataque!
A cortina de pó e fumaça foi ficando mais rala e os. contornos das coisas foram surgindo na tela. Montini viu os barracões no lado sul do espaçoporto. Momentos depois, apareceram também as linhas gerais da cidade de Timpik. Do outro lado, estava a majestosa esfera da Victory, que se movia com a mesma velocidade da Vondar.
Montini estava mais calmo. A velocidade com que desapareciam as nuvens de poeira, a superfície do espaçoporto abandonado e os contornos da cidade no fundo eram satisfatórios. Ao que parecia os conjuntos de propulsão não sofreram muito com o terrível bombardeio.
Foi então que viu a nova remessa de teleguiados surgindo sobre os tetos da cidade. A questão agora era uma só: Quem tinha maior capacidade de aceleração, as duas espaçonaves ou os foguetes dos saltadores?
Os mísseis teleguiados possuíam uma velocidade inicial maior. Agora, se a Vondar e a Victory conseguissem aumentar a velocidade, antes que se desse o impacto, estaria tudo salvo.
Os homens no posto de comando aguardavam as ordens de Gerry. Mas o comandante estava imóvel diante da grande tela. Nada havia para dizer, tinham que simplesmente esperar. Com uma morosidade enervante, aproximavam-se os foguetes do adversário. O céu em volta perdeu o azul leitoso e radiante, passando para tons arroxeados. As estrelas começavam a surgir e o escuro profundo do Universo expulsava as últimas cores.
A Vondar aumentava cada vez mais sua velocidade, a oitenta quilômetros acima da superfície de Azgola. A seu lado, sempre a majestosa Victory. A distância entre a leva de foguetes e as duas naves terranas era ainda de cento e trinta e dois quilômetros. Os foguetes continuavam vencendo a corrida; tinham maior velocidade. Não estava ainda decidido quem venceria.
Chegou, então, o momento em que o computador anunciou que a redução da distância por segundo estava menor. Os foguetes chegavam cada vez mais perto. Até agora a razão de aproximação era de duzentos metros por segundo; passou a ser agora apenas de cento e oitenta.
As mãos de Montini, verdadeira expressão de seu sistema nervoso, se comprimiam exageradamente contra as bordas da estante à sua frente. Esta pequena diferença não significava ainda a salvação. Mesmo que os foguetes avançassem apenas um metro a mais por segundo, poderiam ainda atingir seu objetivo.
Pareciam agora pontinhos minúsculos nas profundezas do espaço. Era uma verdadeira legião deles, muito mais do que os dois envoltórios de proteção podiam suportar, mesmo que estivessem intactos.
Cento e setenta metros por segundo... cento e cinqüenta... O tempo passava lento demais e a tensão na sala de comando era de rebentar os nervos.
A distância é de sessenta e sete quilômetros — dizia o computador, o único a não sentir tensão de nervos.
Do alto-falante saiu um som chiado e longo. Gerry Montini se virou para trás, sabendo o que acontecera, mesmo antes de a voz mecânica de cérebro positrônico anunciar:
Quota de aproximação negativa!
Voz fria e desagradável, como se tinha de esperar de um instrumento inanimado. Mas seu conteúdo tinha muita vida, estava dizendo que as naves terranas venceram. Os foguetes dos saltadores estavam ficando cada vez mais para trás. Sua força de propulsão era inferior à da Vondar e da Victory.
Gerry permitiu-se alguns segundos para deixar desaparecer a tensão dos últimos minutos e receber a onda benéfica de uma sensação infinita de alívio. Voltou depois para sua poltrona, ajeitando-a de tal maneira que podia ver seus oficiais.
Conseguimos — disse tranqüilo. — Programem o computador para uma órbita a quinze mil quilômetros do solo. Ficaremos lá para reparar nossos danos e para observar o que se passa em Azgola. Os aparelhos de medição captaram muitos dados sobre os foguetes inimigos, nos últimos minutos. Ordenem aos postos de artilharia que permaneçam de prontidão e estejam preparados para usarem os projéteis anti-foguetes. Não haveremos de fugir outra vez.

Foi a primeira vez em sua existência que Meech Hannigan teve que mobilizar toda sua energia. Até agora, mesmo nos maiores momentos de perigo, tinha se safado usando apenas a metade das energias de seu corpo mecânico. Mas aqui, tinha que dar tudo que havia nele. Tinha que se locomover com a velocidade de um automóvel, se quisesse escapar do desmoronamento do gigantesco edifício.
Ron Landry já estava fora de perigo isto sabia ele. Captara o rádio pelo qual Larry Randall fora solicitado a trazer o carro voador para a parede da torre e subir à procura dos terranos. Melhor do que ninguém, sabia também que o edifício perderia a estabilidade com o desmoronamento de parte da escadaria.
Pulou escada abaixo, atingindo o saguão no andar térreo, antes que o trecho da escadaria, onde Ron Landry estava agüentando o fogo cerrado dos raios térmicos dos desconhecidos, despencasse e desse assim início à obra de total destruição. Com largas passadas, depois que alcançou a rua, Meech corria à sombra das paredes das casas. Ninguém o viu. Larry Randall já estava, a esta altura, subindo com seu desliza-dor ao longo dos andares da torre. O biorrobô viu ainda duas cabeças olhando por uma das janelas da torre. Eram Lofty e Ron. Mas sua maior atenção era para o deslizador.
Meech nunca fazia nada sem calcular. Nos poucos segundos que se passaram após sua fuga da torre, desenvolvera em seu interior um vasto programa à base de computação. Media a situação sumariamente pelo estado atual de suas informações. Chegou, então, à conclusão de que os estranhos, fossem quem fossem, deviam ter uma base muito bem provida em Azgola. Em flagrante contraste com isso, estavam Ron Landry e seus homens, depois que a Victory partira e se retirara. Os três terranos estavam entregues a si mesmos e não podiam contar com outras armas, a não ser as de pequeno porte que traziam consigo e as que guarneciam o deslizador. Era mais do que certo que passariam por grandes apuros, até sua espaçonave voltar.
Num caso deste, era muito interessante que alguém ficasse para trás, alguém de cuja existência nem Ron, nem o adversário suspeitassem. Meech não tinha dúvida de que Ron o julgava sepultado sob os escombros da escadaria da torre. O inimigo que, por sua vez, também perdera muitos de sua gente neste acidente, não tinha razão para duvidar da morte de um adversário.
A partir do momento em que a torre desmoronou, levantando uma gigantesca nuvem de poeira, Meech Hannigan era uma incógnita na equação em que se desenrolavam os acontecimentos em Azgola. E não queria de fato ser outra coisa, quando se esforçava para não ser observado em sua fuga.
Viu o deslizador se dirigir ao longo da rua na direção norte. Esperou um pouco, pois se podia ver pela velocidade reduzida do veículo que Ron Landry não se decidira ainda qual rumo tomar. Meio minuto depois, Meech constatou que esta conclusão estava certa. O deslizador virou à esquerda, numa rua lateral, e começou a acelerar, desaparecendo depois.
Os robôs não dependem exclusivamente dos cinco sentidos humanos, se bem que o termo “sentido”, aplicado a um robô, deve sofrer uma pequena alteração semântica, pois não é muito agradável colocar no mesmo plano a maravilhosa visão humana e a atividade visual de um registrador positrônico, que examina a imagem produzida por um complicadíssimo jogo de lentes numa imitação artificial de uma retina hiper-sensível. Não podemos, então, chamar de sentido humano a um combinado de elementos ópticos e positrônicos. Mas o fato era que Meech possuía uma peça cerebral que lhe permitia captar as irradiações de instrumentos produtores ou consumidores de energia. É claro que lhe seria totalmente impossível perceber um motor de explosão ou um gerador elétrico sem que o visse ou ouvisse, ou então os identificasse, por assim dizer, cheirando através da análise dos seus elementos residuais. Mas, quanto aos pequenos motores nucleares, como eram usados nos carros voadores ou demais tipos de deslizadores, o robô os percebia mesmo à grande distância, com tanta nitidez como se fossem lâmpadas de mercúrio cintilando em plena escuridão.
Meech sabia, portanto, que o carro voador tomara a direção sul, aumentando a velocidade. Mas, por mais veloz que fosse seu vôo, Meech o seguia, convencido de que, embora demorasse bastante, ele o encontraria.
Estava caminhando, apressado, é verdade, mas com muita cautela. Mas, não obstante a união da pressa com o cuidado, conseguia ainda uma velocidade em torno de vinte quilômetros por hora. Se o deslizador de Ron Landry aterrissasse em qualquer ponto da cidade, não ficaria parado mais do que um quarto de hora.
As irradiações do motor nuclear estavam cada vez mais fracas. Conforme os cálculos de Meech, continuaria recebendo as já fracas ondas do motor somente por uns doze ou quinze minutos, e isto dependendo do fato de não alterarem a velocidade e o rumo. Depois disso, suas pistas para segui-lo seriam muito mais difíceis e demoradas. Não tinha, porém, dúvida de que alcançaria Ron Landry.
Felizmente, logo depois pôde observar que o carro voador não estava mais se distanciando tanto dele; pelo contrário, se aproximava cada vez mais. Talvez isto queria dizer que o veículo tivesse pousado em algum lugar, pois a velocidade da aproximação correspondia à caminhada acelerada do biorrobô ao longo das casas da rua totalmente vazia.
Manteve o mesmo tempo, até que, no centro do cruzamento de duas ruas, percebeu de repente que estava captando outras irradiações energéticas diferentes das que lhe vinham do deslizador de Ron Landry. Analisou-as rapidamente e chegou à conclusão de que se tratava com toda certeza de um campo magnético produzido por motores nucleares. Ainda estavam bem longe dele, distribuídos numa ampla faixa do leste para o oeste. Sendo que só havia um único deslizador terrano em Azgola, a situação se tornava mais crítica.
Num milésimo de segundo, o biorrobô chegou à conclusão de que não devia avisar Ron. Pelo que percebera, seu chefe estava cercado e, num caso assim, não poderia ser útil. Deixou de lado a cautela com que vinha em sua marcha acelerada, e elevou ao máximo a velocidade que seu corpo permitia: mais ou menos trinta e cinco quilômetros por hora. Tal velocidade representava um aspecto muito estranho para alguém que visse o possante biorrobô correndo ao longo das ruas com saltos gigantescos.
Nesta corrida desajeitada, ele ouviu a voz de Ron no alto-falante portátil, quando este pedia socorro à Victory. Foi então que Meech soube que seus adversários eram os saltadores. Sobre o fato de os saltadores não se apresentarem em Azgola como eles realmente eram, o biorrobô não quis perder tempo a respeito.
Pouco depois, também ficou sabendo que Ron e sua gente haviam caído nas mãos dos inimigos. Os poderosos disparos do desintegrador ecoaram nitidamente no seu sensor energético e o estampido com que o deslizador se chocou contra o solo ou contra uma casa em algum lugar mais para frente foi tão forte que seria escutado facilmente pelo ouvido humano. O apurado aparelhamento acústico de Meech reconheceu também que o carro voador dos terranos não fora derrubado de grande altura. Os três terranos tinham, pois, probabilidade de estarem vivos. Os saltadores haveriam de levá-los consigo e Meech tinha que acompanhá-los.
No momento, o robô se contentou em se esconder no corredor de uma casa e aguardar o que os saltadores iriam fazer. Notou como os deslizadores inimigos levantaram vôo quase simultaneamente, e se afastaram para os lados do sul. Nesta direção, devia estar perto a periferia da cidade. Portanto, a base dos saltadores se situaria por ali, em pleno campo. Meech sabia que logo perderia a pista direta dos carros voadores. Mas se continuasse caminhando para o sul, haveria de, mais cedo ou mais tarde, sentir as irradiações de um outro aparelho, de um gerador ou de um hiper-rádio, que lhe mostraria o caminho com mais nitidez do que o pequeno motor nuclear de um carro voador.
Inicialmente, inspecionou o local do ataque inimigo. Passou pelo Parque Central e numa das ruas laterais encontrou os destroços do deslizador terrano, que não estava mais em condições de ser recuperado.
Meech estava para iniciar a caminhada rumo ao sul, quando surgiram sobre a cidade as esferas da Vondar é da Victory. Ficou observando suas manobras e com todos os seus “sentidos” calculou de que maneira as duas unidades terranas tiveram que lutar para escapar da destruição no espaço-porto. Guardou na memória que não podia contar com a ajuda das espaçonaves nas primeiras horas. Os saltadores de Azgola estavam muito bem armados.
Finalmente recomeçou a marcha para o sul. Com a lógica fria de um robô, reconheceu que as possibilidades dos terranos neste planeta não eram nada encorajadoras.

* * *

Ron Landry voltou a si com tremenda dor no corpo inteiro. Queria se erguer, mas algo o retinha; alguém gargalhava perto dele, deixando-o tão furioso que esfregou os olhos e abriu as pálpebras que pareciam pesadas como chumbo. O quadro que vislumbrou era confuso. Só com o tempo é que os contornos se desenharam com mais nitidez. Sentia dores horríveis na cabeça. Mas a dor era anestesiada pelo tremendo ódio contra o homem que zombeteiro estava ali postado, rindo dele.
Tinha uma leve impressão de já ter visto aquele rosto. Podia, porém, ser mera ilusão. O saltador, se é que era mesmo um deles, não usava barba. De rosto balofo e esponjoso, o homem parecia ser vítima de uma gordura doentia. Estava sentado numa enorme cadeira atrás de uma mesa pequena, onde havia um reduzido painel de comandos. Ron podia imaginar para que servia. Também não estava interessado em saber. Num grande esforço, tentou novamente se levantar.
O saltador, inclinando-se um pouco para frente, apertou um dos botões. No mesmo instante, Ron soltou um grito de dor. Parecia que alguém lhe espetara uma agulha incandescente para dentro do crânio. Tão violenta foi a dor, que perdeu novamente os sentidos por uns minutos.
Quando voltou a si pela segunda vez, o saltador ainda estava com a mão sobre o painel e ameaçadoramente lhe falou:
Fique quieto que não lhe acontecerá nada. Tenho que tomar minhas providências, pois o senhor é um homem violento.
Ron maldisse sua fraqueza no momento. Não podia nem virar a cabeça. Conseguiu ver que o recinto na sua frente não ia além de três metros e dos dois lados, não mais que dois. À direita e à esquerda do saltador, atrás da pequena mesa, viam-se as carcaças quadradas, de cor escura, dos dois geradores que estavam acoplados com o painel de contatos. Viu uma meia dúzia de cabos coloridos que dos geradores vinham para ele, compreendendo, então, quem lhe aplicara a terrível estocada no cérebro. Aliás, o recinto não tinha janelas. A iluminação provinha de uma fila de lâmpadas azuladas pouco abaixo do teto.
Ron olhou firme para o saltador.
Onde está minha gente?
Não interessa — respondeu-lhe secamente o saltador.
Falava baixo e pausado, observando muito seu prisioneiro. Ron não perdia estes detalhes.
O senhor é Garathon?
Perfeitamente. Meu nome já lhe é conhecido?
Desde... desde quando que foi mesmo? Quando nos atacou com muita coragem e com uma supremacia numérica exagerada.
Novamente a dor terrível em seu crânio. Não notara que o saltador apertara o botão. O choque veio repentino. Desta vez, porém, o terrano não perdeu os sentidos. O ódio o manteve consciente.
Não quero ouvir mais palavras ofensivas — disse Garathon, com um sorriso amarelo no rosto. — Para que você saiba, sou primo de Alboolal. Você se lembra deste nome, não é verdade?
Ron tentou se lembrar. O nome lhe parecia conhecido. Já tivera que lidar com um saltador de nome Alboolal, há algum tempo atrás. Devia ser em... Ghama, o planeta das águas, onde os saltadores retiveram como prisioneiros os sobreviventes de um acidente com uma espaçonave, acidente este encenado pelos saltadores. Ron e Larry, no entanto, estragaram os planos dos saltadores e os trouxeram presos para a Terra, onde foram condenados pelos tribunais a trabalhos forçados por vinte anos, para indenizarem o grande mal que praticaram.
Ron estava compreendendo e ligando os fatos. Garathon estava tentando vingar seu primo Alboolal e Ron poderia se dar por felicíssimo se algum dia escapasse desta prisão.
Ah! Alboolal... — disse ele. — Sim, estou me lembrando. — Conseguiu um sorriso zombeteiro e continuou: — Acho que ele agora estará pensando se vale a pena assaltar espaçonaves terranas.
Sabia que após estas palavras, receberia o terrível choque da agulha incandescente. Fechou os olhos e se concentrou no choque, suportando-o melhor que nas duas vezes anteriores. Quando os abriu, o semblante do saltador era uma carranca do ódio.
Este sorriso sarcástico vai desaparecer de seus olhos, terrano. Haverá de maldizer o dia em que levaram Alboolal preso.
Acalmou-se logo depois, de maneira surpreendente, recostando-se novamente na ampla poltrona.
Gostaria de lhe dizer pela terceira vez — começou o saltador lacônico — que palavras ofensivas não me agradam; que somente o podem prejudicar e muito, quando ouço coisas que não me agradam. Mas estou certo de que você não vai mudar.
Ron meneou a cabeça afirmativamente.
Pode ser — disse indiferente. — Mas já que o senhor se sente tão firme, certamente estará em condições de me informar o que os saltadores estão tentando de novo em Azgola.
Garathon se mostrou a princípio indeciso.
Trata-se de um negócio muito importante — disse hesitante. — Acho que você não deve saber mais do que isto.
Compreendo — disse Ron. — O negócio é tão bom que o senhor ficou mais gordo que um sapo-boi.
A mão de Garathon moveu-se para a frente e Ron viu que o dedo esticado procurava agora outro botão. Esticou os músculos. Teve a impressão de que alguma coisa estava dependurada nos dois braços e os puxava violentamente para baixo. Ron gemia.
Garathon gargalhava. Ficou de repente sério.
Aliás, você tem razão. A estada aqui em Azgola tem seu lado desagradável. A gente engorda exageradamente. Essa região aqui é mais ou menos sadia. Não sofremos tanto como os pobres azgônidas que, de tanta gordura, nem podem mais se mover.
Ron se esforçava para conter suas palavras.
Mas qual é a novidade que está no ar? — perguntou em voz bem firme.
Garathon ouvia com atenção.
Novidade no ar? Não há nenhuma. Já lhe disse que estas coisas não são de sua conta.
Covarde! — gritou ele. Queria pôr fim a esta luta desigual, sem temer as conseqüências. — Dentro de sua própria cidadela, o senhor ainda tem medo de nós.
Lentamente Garathon se inclinou para frente... Mas, bem mais para longe, atrás das paredes do recinto onde estavam, soou um gongo. O ruído foi aumentando, enchendo os ouvidos de Ron.
De repente, queimou-se uma resistência em algum lugar e, de um momento para o outro, não havia nada mais em torno de Ron, a não ser a noite, noite negra e benfazeja.

* * *

Os danos nas duas espaçonaves não chegaram a ser substanciais. No tocante aos geradores do envoltório de proteção, bastou um período de doze horas para se completar a reserva energética.
As duas centrais de computação das naves terranas estavam, entrementes, ocupadas em determinar o curso e a origem dos foguetes adversários. Por ter o inimigo mantido o bombardeio num ângulo muito diminuto, os dados obtidos não eram suficientes. Assim mesmo, Gerry Montini descobriu que as duas grandes faixas de mísseis teleguiados partiam de duas rampas de lançamento bem distintas e que as duas bases se localizavam no continente, em cujo litoral leste os azgônidas construíram sua capital, Timpik.
Fora disso, os setores de observação astronômica das duas naves estavam em intensa atividade para controlar qualquer novidade na superfície do planeta. Montini não ignorava que com isto estava se expondo a um grande risco, pois as espaçonaves dos saltadores deviam andar por perto e não haveriam de tolerar que alguém atrapalhasse seu jogo disfarçado. Montini sabia, porém, muito bem que tal operação era de suma importância, principalmente depois que souberam que os saltadores é que estavam por detrás dos acontecimentos de Azgola. E operação de importância não se fazia sem um grande risco.
Este risco estava diante deles e Montini assumia toda a responsabilidade.
A minuciosa observação da superfície do planeta concluiu que o hemisfério norte de Azgola, ocupado em sua maioria pelo continente, era praticamente desabitado. Talvez a terra fosse tão estéril que os azgônidas não se interessavam por ela. Outros trechos do continente apresentavam uma coloração de um verde-amarelado, como de capim há muito ressecado.
Se os azgônidas não se interessaram por esta enorme faixa de terra”, assim pensava Montini, “certamente também os saltadores não lhe dariam importância.”
Era uma conclusão gratuita, temerária mesmo, sem nenhum apoio concreto. Montini, porém, se arriscou a aceitar a tese, crente de estar com a razão.
A Victory recebeu instruções para voltar à órbita de Azgola, enquanto a Vondar se preparava para se aproximar de novo da superfície do planeta. Montini dispôs a rota de tal maneira que não tocaria os lugares mais perigosos da superfície. A Vondar descia quase perpendicular, de encontro ao continente do hemisfério norte.
Já se havia preparado um grupo de especialistas para desembarcar.

* * *

O biorrobô Meech Hannigan continuava sua marcha acelerada. O terreno era plano e de boa visibilidade, o que podia ser uma vantagem, como também uma desvantagem. Dispondo de um formidável sistema óptico, sua visão atingia muito além dos olhos humanos, incluindo os espertos salta-dores. Não precisava ter medo de ninguém que por acaso encontrasse no caminho. Naturalmente, a situação se modificava quando o terreno era vasculhado por instrumentos de rastreamento. Rastreadores enxergavam mais longe do que um biorrobô. E aquela imensa planície não oferecia a Meech muita chance para se esconder.
De qualquer forma, haveria de notar quando alguém o descobrisse. A questão era esta: ele seria bastante rápido para desaparecer antes que os saltadores começassem a desconfiar e a correr atrás dele?
Deixara a cidade já bem longe. Se olhasse para trás, veria apenas a silhueta dos edifícios no horizonte.
Um grande número de estradas partiam da cidade para o sul e Meech as evitava, pois eram muito mais desprotegidas do que a planície de capim ressecado. Notava, além disso, que o terreno descia em declive brando, certamente na direção do mar. Notava-se no ar maior teor de salinidade, em comparação com as regiões do Norte.
Ainda outra coisa chamara a atenção de Meech. O interior de seu corpo mecânico necessitava de um sistema de aeração e de refrigeração. Era muito simples usar como gás de refrigeração a simples atmosfera em que o biorrobô se encontrava, se não contivesse componentes que pudessem atacar a complicada estrutura interna de Meech. Somente no vácuo do espaço infinito é que o biorrobô passaria a viver como um conjunto auto-suficiente.
O conjunto de aeração estava equipado com uma série de filtros que vedavam a passagem de impurezas e que, em períodos normais, eram limpos automaticamente. Mas por mais automático que fosse, algumas impurezas permaneciam no consciente do biorrobô. E, depois de sua chegada a Azgola, estes filtros necessitavam ainda mais de uma limpeza. Não seria difícil compreender isto, pois se percebia como o ar era impuro e como o vento levantava sempre aquela poeira fina. A questão era agora saber de onde vinha aquela poeira constante. O capim em que Meech estava caminhando achava-se ressecado, mas não deixava quase nada do solo descoberto. O mar não podia estar muito longe, pois havia muita umidade no ar. Isto era facilmente evidenciado pelos instrumentos de Meech. De onde vinha, portanto, a poeira?
Meech não estava a par do problema dos azgônidas, pois não se encontrava presente quando da conversa de Ron com o supergordo Bladoor. Apesar disso, seu pensamento agora estava perguntando aos dados acumulados dentro dele se aquela poeira fora do comum tinha alguma coisa que ver com a engorda deformante que parecia uma epidemia do planeta. E como seria, então, se a tal poeira contivesse elementos nutritivos?
Para um homem normal, este simples pensamento pareceria absurdo. Mas um biorrobô não conhecia preconceitos. Seu julgamento dependia com exclusividade dos conceitos acumulados eletropositronicamente, formando o substrato de sua consciência, ou por assim dizer, sua pseudo-experiência. Podia assim imaginar que alguém tivesse aspergido no ar ácidos de lipídio, ou seja, de gordura, em forma de aerosol, fazendo com que os homens que os respirassem engordassem de uma hora para a outra. E por que não poderia acontecer uma coisa desta em Azgola?
A pergunta não era assim tão simples de responder. Por este motivo, Meech a deixou provisoriamente de lado, sem contudo desprezá-la, até que tivesse mais informações.
Uma hora mais tarde, o negro véu da noite se estendeu sobre o triste planeta. A escuridão não causava nenhuma sensação diferente no biorrobô. Seus sentidos funcionavam independentes das trevas e continuou sua caminhada no rumo sul. Uma hora e meia depois do sol posto, captou os primeiros sinais de uma estranha fonte de energia.
A origem das ondas energéticas estava quase em linha reta com a direção seguida por Meech. Bastou-lhe uma leve correção de um grau e pouco para o oeste. Daí para frente, toda a sua atenção se convergiu para seus sensores energéticos, isto é, ativou uma ligação especial que salientava sobremaneira a reação de um tipo de dispositivo ligado diretamente com os órgãos correspondentes aos sentidos.
Pôde perceber, minutos mais tarde, que pelo menos três fontes energéticas estavam diante dele. Pareciam dispostas em ordem simétrica, pois somente de uma delas é que recebia impulsos mais fortes e mais nítidos, enquanto as outras duas, se bem que perceptíveis, eram mais fracas.
Não poderia ser um enigma em Azgola, descobrir o que se passava lá na frente. Os pobres azgônidas não possuíam aparelhos ou instrumentos que o biorrobô pudesse auscultar ao longe. Ron Landry fora obrigado a deixar seu deslizador em Timpik. Que poderia ser então?
Somente os saltadores!
Sentiu Meech que o chão a seus pés e o ar em volta se tornavam mais úmidos. A terra cedia quando ele andava e a grama seca dava lugar a um trecho quase de brejo. Meech não deu maior importância ao fato, se bem que seu peso fosse muito superior ao de um homem, podendo pois afundar no pântano bem mais depressa. A força de seu corpo, porém, compensava em muito seu próprio peso. Não havia brejo nem atoleiro de onde Meech não saísse. Continuou na mesma marcha acelerada.
Entretanto, um pouco depois foi obrigado a diminuir seus passos, pois a irradiação se tornou tão forte que calculou a distância até a próxima fonte energética em menos de um quilômetro. É claro que os saltadores deviam ter tomado providências para que nenhum estranho penetrasse em sua base.
Meech desfez a ligação especial e concentrou toda sua atenção no terreno em volta.
Descobriu segundos depois um pequeno sensor, aflorando do solo à sua frente. Uma cúpula diminuta, de meio metro de diâmetro, sobressaía do chão pantanoso uns dez centímetros. Esta cúpula possuía duas pontas simétricas, assemelhando-se muito aos bicos recurvados das antigas cafeteiras. Meech não ignorava sua finalidade. Através destes bicos, podia penetrar qualquer tipo de irradiação, por exemplo, raios ultravermelhos. Esta irradiação entrava compacta e era retransmitida por receptores instalados à direita e à esquerda. Provavelmente, estas cúpulas e o que estava dentro delas na terra eram receptores e transmissores ao mesmo tempo. Se alguém passasse entre dois destes dispositivos, o receptor seria interrompido pela fração de um segundo. Na Terra, aplicava-se este princípio em escadas rolantes e em portas automáticas de estabelecimentos comerciais. Aqui, a interrupção disparava, talvez, uma instalação de alarma. O mecanismo era simples, mas eficiente. Se a lâmpada de raios ultravermelhos debaixo da cúpula não possuísse uma irradiação característica, o biorrobô jamais teria percebido a aparelhagem ou a teria julgado inofensiva.
Realmente, Meech precisou de muito tempo para tomar uma decisão. Muito tempo para o biorrobô era um décimo de segundo. Poderia tentar dar uma volta em torno do dispositivo, mas os saltadores certamente haviam minado todo o terreno com uma série de sensores ultravermelhos. Podia passar por sobre a cúpula... Quem sabe, porém, existia um dispositivo especial que disparava o alarma quando alguém pisasse na cúpula? Existiam muitas outras possibilidades e Meech as ponderava uma por uma, com a lógica fria de um computador. Acabou se decidindo pela mais simples delas. Curvou bem os joelhos e deu um grande salto por sobre a cúpula.

* * *

Garathon, o chefe da base em Azgola, deixou seu recinto de trabalho e os aparelhos que lá foram instalados secretamente por meia dúzia de súditos, que, certamente, não cometeriam a loucura de abrir a boca sobre o que viam e ouviam. Os demais membros do clã de Garathon nada sabiam sobre a distração predileta de seu patriarca.
Atravessou o corredor meio escuro que ligava seus aposentos com o resto da base. O corredor era subterrâneo, como a maior parte da base e isto por bons motivos. A única coisa que ia além do nível do solo era uma cúpula relativamente baixa cujo ápice não atingia cinco metros. Toda a instalação havia sido uma obra-prima que os arquitetos do clã criaram em menos de sete dias. É claro que não se podia falar em conforto, pois o assunto em Azgola era interesse comercial. O saltador estava sempre pronto a sacrificar tudo — conforto, prazeres — por um lucro substancioso.
O corredor era muito úmido e o ar muito quente, obrigando Garathon a suar em bicas, muito antes de chegar até o salão de reunião, para onde convocara seus homens de confiança. O patriarca amaldiçoava o planeta Azgola e a excrescência que empesteava a atmosfera. Mas não podia se esquecer de que viera para cá por livre vontade — por causa dos lucros, naturalmente.
Já se aproximando do salão, o corredor se alargava um pouco. Diante do grande portal, transformava-se num saguão de onde partiam outros tantos corredores. Garathon parou por um instante, olhando com orgulho o emaranhado de corredores e galerias que abriam caminho para câmaras e depósitos. Ele era o único dono de tudo isto. E quando saísse daí, seria um dos mais ricos dentre todos os patriarcas.
Empurrou a porta do salão e entrou. O recinto fora construído para quinze pessoas. Toda a base contava com quarenta e oito homens. Os bancos e mesas estavam vazios, com exceção de uma nos fundos. Garathon se encaminhou para os quatro homens de confiança que lá estavam, fazendo uma saudação com a mão, sem dizer nada. Suspirando e suando sob o enorme peso do corpo, sentou-se num banco largo e sem encosto.
Conseguimos prendê-los — disse ele.
À sua frente estava Garhalor, um homem baixo, aparentemente jovem, não usando mais a cabeleira pomposa dos saltadores, muito menos a barba, já quase fora de uso. Na realidade, Garhalor era alguns anos mais velho do que Garathon, seu chefe, e tinha papel importante nas grandes reuniões.
Isto não é tudo — respondeu ele à frase inicial de Garathon, fazendo uma expressão de tristeza e preocupação. — Você acha que os terranos vão abandonar seus homens?
Garrhegan, sentado ao lado de Garhalor, o mais jovem e o maior de todos, gargalhava à vontade.
Eu não me preocuparia tanto com este assunto — disse o último. — As duas primeiras naves já tiveram uma boa lição.
Garhalor, fazendo um gesto de censura:
A Terra não tem apenas duas espaçonaves e os terranos são perseverantes. Não nos darão mais sossego.
Garathon interrompeu a discussão:
Garhalor tem razão. Mas nós precisamos apenas de dez ou onze dias, para montar as instalações e garantir nosso lucro contínuo. Até lá, deve esta base, juntamente com os postos avançados em Kanen e em Galuik, estar em condições de nos proteger contra os terríveis terranos.
Por em falar Galuik — interveio o quarto saltador, Garr, um homem de estatura média e também de aparência e prestígio médio — perdemos naquela ação na cidade um bom punhado de homens...

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