Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O S.O.S.
vem do Universo dos druufs, mas só os terranos conhecem o alfabeto
Morse.
Ao que
parece, a morte de Thora marcou o início de uma época sombria para
a Humanidade.
Perry
Rhodan e alguns dos principais figurões do Império Solar são tidos
como mortos: teriam sido consumidos pelo fogo atômico de Fera
Cinzenta.
O
Marechal-Solar, Freyt, assume a direção do governo provisório; o
Marechal Mercant incumbe-se dos serviços de segurança e o General
Deringhouse tem sob seu cargo a frota espacial...
Porém
o fato de que, provavelmente, Perry Rhodan esteja morto, não foi
revelado ao público, já que o jovem Império ainda não parece
suficientemente consolidado a ponto de absorver, sem profundos abalos
políticos, uma notícia tão catastrófica.
Mas,
por quanto será possível manter em segredo uma notícia tão
importante?
Ou será
que o pedido de socorro, vindo dos subterrâneos de Rolando,
representa uma tênue luz de esperança?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan,
Reginald
Bell
e
Atlan
e Fellmer
Lloyd
— São
chamados de hóspedes pelos druufs, mas recebem o tratamento de
prisioneiros.
Capitão
Marcel
Rous
— Comandante
da base secreta de Hades.
Major
Clyde
Ostal
— Uma
das velhas raposas da Frota Espacial.
General
Deringhouse,
Ras
Tschubai
e Gucky
— Membros
do comando Rolando.
1
O aparelho
tinha o aspecto de um órgão de igreja. Era feito de cilindros
metálicos rigidamente ligados, cuja altura diminuía da esquerda
para a direita. O aparelho estava encostado à parede e sua única
finalidade parecia consistir em confundir os quatro prisioneiros.
Durante
três dias conseguira preencher essa finalidade. Depois disso, os
prisioneiros passaram a dedicar-lhe uma atenção que ia além do
terreno puramente contemplativo. Procuraram desmontá-lo. Conseguiram
fazê-lo em parte. Naquele instante, Perry Rhodan estava ajoelhado à
frente de um dos pequenos tubos e perguntou a si mesmo o que
aconteceria se comprimisse a pequena chave que sobressaía entre a
confusão de fios, bastões de vidro, lâminas de plástico...
Não que
aquela chave representasse alguma alternativa para ele. Mas haviam
feito um trabalho duro para abrir alguns dos tubos, e, a essa altura,
seria ridículo deixar a chave como estava, pelo simples motivo de
que não sabia qual seria o efeito produzido.
Perry
Rhodan virou a cabeça. Atrás dele, Atlan, o arcônida, Reginald
Bell e o mutante Fellmer Lloyd mantiveram-se em atitude de
expectativa, nas monstruosas poltronas de pernas tortas. Ao que
parecia, nenhum deles sentia medo; a curiosidade dominava tudo.
Durante três dias tinham vagado por uma série de recintos
subterrâneos, que os druufs colocaram à disposição dos
prisioneiros. Então deram-se conta de que não havia qualquer saída
que prometesse algum êxito na fuga. Por fim, acabaram voltando para
o “órgão”
que lhes despertava a atenção, pois era a única peça do
equipamento subterrâneo cujas funções não conheciam.
Recorreram
a canivetes, a pequenos parafusos metálicos retirados das poltronas
e a coisas- semelhantes, e conseguiram remover o revestimento de três
tubos. O que surgiu debaixo desse revestimento não permitia qualquer
conclusão segura sobre a finalidade do aparelho. A única coisa que
poderia ser modificada, sem inutilizá-lo, seria a posição da
chave.
Perry
Rhodan encostou o dedo à pequena peça metálica.
— Vamos
começar — disse. — Prendam a respiração, pois não sabemos o
que Vai acontecer.
Rhodan
intensificou a pressão do dedo. Sentiu que a pequena chave começava
a ceder. Por um instante espantou-se porque não estava acontecendo
nada. De repente teve a impressão de que alguém lhe golpeava
fortemente o ombro. O braço caiu, a mão acompanhou o braço e a
pequena chave foi baixada de vez.
Alguém
gritou. O próprio Perry Rhodan teve vontade de gritar. Alguma coisa
comprimia-o inexoravelmente para baixo. Atirou-se para a frente e
procurou apoiar-se com as mãos, mas depois de alguns segundos seus
braços afrouxaram-se. Caiu de bruços. A força da compressão
deixou-o sem fôlego e desenhou uma profusão de anéis coloridos
diante de seus olhos.
A pressão
não diminuía. Expelia o ar dos pulmões de Rhodan, tornando quase
impossível a respiração. Com uma dolorosa clareza, Rhodan percebeu
que teria de fazer alguma coisa se não quisesse desmaiar.
Ao mover a
chave, calculara com tantas possibilidades que levou alguns segundos
para digerir mentalmente o efeito que acabara de produzir.
Com o
aspecto de órgão, aquele aparelho era um gerador antigravitacional,
e, ao mover a chave, Rhodan fizera com que a gravidade artificial,
reinante no interior do recinto, crescesse cinco ou seis vezes.
Isso era
uma decepção; não correspondia a nenhuma das esperanças
entretidas por Perry Rhodan. Mas, naquele momento, as esperanças
eram o que menos importava. O que realmente importava era recolocar a
chave na posição anterior.
Rhodan
sabia que não conseguiria apoiar-se nos braços. O peso que lhe era
conferido pelo campo de gravitação artificial era muito elevado.
Por isso virou de lado, deitou sobre o ombro direito e procurou
levantar o braço esquerdo. Conseguiu. Mas havia outra dificuldade:
desta vez, a chave tinha de ser empurrada de baixo para cima, e esse
movimento era muito mais difícil que o primeiro. Mas também
conseguiu.
Depois de
concluído o trabalho, Rhodan continuou deitado por mais alguns
instantes. Precisava de algum tempo para respirar direito e espantar
a sensação de torpor. Finalmente ergueu-se.
O quadro
surgido era de uma esquisitice hilariante. Sob o peso multiplicado
das pessoas, as poltronas de pernas tortas haviam quebrado.
Inconscientes, Atlan e Lloyd estavam deitados entre os destroços.
Reginald Bell não fora afetado tão intensamente pelo choque
gravitacional. Segurava-se em duas peças de madeira plastificada,
que eram os únicos componentes inteiros de sua poltrona, e lançava
um olhar de espanto e raiva para o aparelho com aspecto de órgão.
— Será
que é só isso? — perguntou em tom contrariado.
— Parece
que sim — respondeu Rhodan.
Reginald
Bell levantou-se. As peças da poltrona caíram ruidosamente ao chão.
— Quer
dizer que nosso trabalho foi em vão — observou bastante
aborrecido. — Ficamos trabalhando nisso um dia inteiro, apenas para
constatar que o aparelho regula um campo de gravitação artificial.
Deu um
pontapé no menor dos tubos.
— Você
acha que isso não vale nada? — perguntou Perry Rhodan.
Reginald
Bell e Perry Rhodan já se conheciam muito bem, para que qualquer um
deles pudesse depreender do tom de voz do outro se o mesmo tinha
alguma novidade ou não.
Bell
lançou-lhe um olhar de perplexidade.
— Por
enquanto não vejo nada — respondeu em tom inseguro. — Quem sabe
se você não me pode dar uma dica?
Rhodan
sorriu. Naquele instante, Atlan, que acabara de recuperar a
consciência, levantou-se entre os destroços de sua poltrona. Ao que
parecia, ouvira as últimas frases do diálogo.
— São
campos gravitacionais variáveis no tempo — disse em tom
indiferente, como se nada tivesse acontecido. — DG é proporcional
a dt. A potência do mecanismo gravitacional é diretamente
proporcional à indução gravomecânica. Isso não significa nada
para o “senhor”?
Reginald
Bell arregalou os olhos e fitou o canto mais afastado da sala.
— Significa,
sim — respondeu depois de algum tempo. — Mas acho que os druufs
não ficarão muito satisfeitos se o equipamento antigravitacional
deles for transformado num aparelho de telegrafia.
Perry
Rhodan colocou-lhe a mão no ombro.
— Resta
saber se eles perceberão alguma coisa — disse.
O desastre
tivera inicio há dez dias, em 23 de outubro de 2.043 do calendário
terrano. Os arcônidas descobriram a base de Fera Cinzenta e
atacaram-na imediatamente. Naquele momento, a frota terrana
encontrava-se num setor afastado, onde aguardava o momento de
lançar-se ao ataque contra Árcon. Perry Rhodan, Atlan, Reginald
Bell e Fellmer Lloyd ainda se encontravam em Fera Cinzenta. A base
não teve a menor chance, face ao ataque maciço das naves inimigas.
Numa questão de horas, as bombas de Árcon transformaram o planeta
num inferno nuclear.
Perry
Rhodan e seus companheiros haviam conseguido fugir para uma ilha, de
onde irradiaram um pedido de socorro pelo minicomunicador. No último
instante, surgira uma nave para retirá-los do planeta. Acontece que
não era uma nave terrana, conforme esperavam, mas um veículo
espacial arcônida. Escaparam por pouco da morte, porém, mais uma
vez, viram-se em situação difícil. Passaram à condição de
prisioneiros dos arcônidas.
A poucos
minutos-luz de Fera Cinzenta, a nave arcônida que os recolhera
transferiu-os para outro veículo, que também se encontrava a
serviço do computador-regente de Árcon e, ao que tudo indicava,
recebera ordens de conduzir os prisioneiros, o mais depressa
possível, a esse planeta. Perry Rhodan notou que o comandante da
segunda nave, um ekhônida chamado de Chollar, não conhecia seu
nome. Concluiu que o computador-regente estava interessado em manter
o maior sigilo possível sobre a prisão de um inimigo tão
importante como ele.
Os
prisioneiros conseguiram dominar os ocupantes da sala de comando da
nave ekhônida num golpe de surpresa. Irradiaram um pedido de socorro
muito bem cifrado. Calcularam que só uma nave terrana o entenderia e
tomaria qualquer providência diante da mensagem.
A nave
chegou dentro de quatro horas; acontece que não era uma nave terrana
ou arcônida, mas sim um veículo espacial dos druufs. Sob o
ponto-de-vista político, as relações entre os terranos e os druufs
eram demais estranhas. Cada um via no outro um aliado em potencial na
luta contra Árcon, mas a desconfiança ainda era mais forte que o
desejo de associar-se. Para os druufs, Perry Rhodan e seus
companheiros eram prisioneiros. Levaram-nos para sua nave e trataram
de sair o quanto antes do setor espacial controlado pelos arcônidas.
Passaram pela área de superposição, que, naquele tempo,
representava o único elo entre seu Universo e o Universo
einsteiniano, e trancafiaram os prisioneiros num subterrâneo de um
planeta gigantesco.
O vôo
durara dois dias. Durante esse tempo, os prisioneiros ficaram a sós
e sem serem observados, salvo por ocasião das visitas do robô dos
druufs que lhes trazia a comida. Em seus camarotes não havia telas
de imagem. Não sabiam nada do que se passava em torno deles. Mas, ao
que tudo indicava, a viagem estava sendo realizada sem problemas.
Finalmente
a nave pousou. Perry Rhodan e seus companheiros já se haviam
acostumado um pouco à gravitação de 1.95G, reinante a bordo da
nave. Era a mesma gravitação do planeta natal dos druufs.
Os
prisioneiros tiveram conhecimento do pouso, quando um druuf entrou no
camarote e, por meio de sua tradutora eletrônica, lhes pediu que
colocassem os trajes trazidos da nave ekhônida e saíssem da nave. O
druuf não forneceu qualquer informação sobre o motivo e a
finalidade desse pedido. Era um “Mike”,
nome que os terranos resolveram dar aos druufs de graduação mais
baixa, e não devia estar autorizado a ministrar quaisquer
esclarecimentos. Talvez ele mesmo não soubesse do que se tratava.
De
qualquer maneira, os prisioneiros fizeram o que lhes foi pedido:
deixaram a nave. O veículo espacial dos druufs estava pousado numa
grande planície de rocha. Enquanto desciam pela escada rolante,
Perry Rhodan e seus companheiros depararam-se com um quadro, talvez
pintado por um surrealista que não se tivesse conduzido com maiores
escrúpulos na escolha das cores.
A planície
parecia estender-se aos confins do infinito. O cinza-marrom da rocha
era a única tonalidade que tinha um correspondente nas cores
conhecidas na Terra. Vez por outra, uma rocha em forma de agulha, ou
monólito, erguia-se na planície e, apesar de seu feitio esbelto,
subia a alturas estonteantes. As pontas finíssimas estendiam-se em
direção a um céu marrom, sob o qual se viam nuvenzinhas de cor
turquesa.
Não se
distinguia a fonte de luz que iluminava aquele céu. Provavelmente o
astro diurno do planeta iria surgir no nascente. À pequena distancia
da nave dos druufs, o chão descia, formando uma bacia de várias
centenas de metros de diâmetro, na qual se via um lago cor de rubi.
Uma brisa ligeira agitava a superfície do lago, e, vez por outra,
pequeninas ondas transbordavam para a planície.
Era um
mundo de fadas, maravilhoso de ser contemplado, mas venenoso como um
cálice de cicuta. As formações de rocha, a grande planície, as
nuvenzinhas, tudo parecia indicar que a atmosfera do planeta era
formada de amoníaco e metano, tal qual acontecia com muitos planetas
gigantescos, mas inúteis, encontrados em quase todos os sistemas.
Ainda na
escada rolante, admiraram-se porque a gravitação do planeta parecia
ser igual à que reinava a bordo da nave, Não sabiam que o campo
gravitacional artificial da nave a envolvia num circulo bastante
amplo. O limite desse círculo ficava vários metros além do pé da
escada.
Mas,
quando ultrapassaram esse limite, perceberam o engano. O punho de um
gigante parecia golpeá-los e mantê-los presos ao solo. No primeiro
momento sentiram-se dominados pelo pânico. Contorceram-se e se
esforçaram para pôr-se de pé o quanto antes, porém apenas
conseguiram esgotar suas próprias forças. Depois de algum tempo,
permaneceram quietos e lembraram-se das regras sobre o comportamento
em condições de gravitação anormal que haviam aprendido.
Descansaram
e obrigaram os pulmões a trabalhar. Depois encolheram lentamente os
joelhos e apoiaram a parte superior do corpo sobre os braços, que
ameaçavam quebrar sob o peso que tinham de suportar. Ergueram-se
centímetro por centímetro. Finalmente puseram-se de pé. Tiveram a
impressão de estarem presos no interior de uma armação que os
comprimia violentamente para baixo.
Mas
conseguiram manter-se de pé. Em torno deles, os druufs enxameavam
sobre as pernas ciclópicas. Estavam acostumados a uma gravitação
mais elevada que os terranos, mas, apesar disso, andavam abaixados e
um tanto desajeitados.
Perry
Rhodan calculou que a gravitação devia ser pouco inferior a 3 G.
Bem mais tarde, ficaram sabendo que o valor normal era 2,600. É uma
carga que o corpo humano suporta por algum tempo, sem sofrer maiores
danos, mas o fará desmoronar caso perdure.
Os druufs
nem pensaram em facilitar a sorte dos prisioneiros. Tangeram-nos para
o monólito mais próximo, e os terranos foram-se arrastando. Se
estes, ao descerem pela escada rolante, ainda refletiram sobre a
maneira de recuperar a liberdade em meio à solidão colorida do
mundo de metano, a essa altura já haviam abandonado tais
pensamentos, face ao tremendo esforço da locomoção, que exigia
todas as energias do organismo.
Perry
Rhodan teve um restinho de raciocínio frio. Sabia que sua situação
seria desesperadora, a não ser que conseguissem descobrir onde
ficava o planeta em que se encontravam. Era bem verdade que ele mesmo
não tinha uma idéia muito clara sobre a maneira de utilizarem essa
informação.
Até então
os conhecimentos humanos sobre o estranho Universo em que viviam os
druufs eram mais que modestos. Os terranos conheciam o sistema de
Siamed, o berço natal dos druufs. Além disso, conheciam dois mundos
distintos, aos quais haviam dado o nome de Solitude e Planeta de
Cristal. No entanto, não sabiam qual era a posição desses mundos
em relação ao sistema de Siamed.
Até mesmo
o conhecimento do habitat dos druufs era bastante lacunoso, face à
pressa e ao segredo com que tiveram de ser realizadas as respectivas
investigações. O sistema de Siamed movia-se em torno de dois sóis,
um dos quais era um gigante vermelho e o outro, uma estrela. A
potência máxima de radiações dessa estrela correspondia a um
comprimento de ondas de cerca de 5 mil angstrõns, motivo por que, ao
olho humano, tinha uma coloração verde-amarelada. O sistema era
formado por sessenta e dois planetas e um número enorme de luas.
Pelos padrões terranos era um sistema monstruoso. Possuía vários
gigantes de metano, como aquele em que a nave dos druufs acabara de
pousar.
Mas esse
dado não bastava para identificar o planeta. A maior parte dos
sistemas possuía planetas de metano, e, certamente, no Universo dos
druufs, aqueles não eram menos numerosos que no espaço
einsteiniano, habitado pelos terranos e pelos arcônidas.
Perry
Rhodan lançou um olhar cansado para o céu.
Viu os
contornos rubros da foice lunar, junto ao monólito em direção ao
qual se arrastavam.
O que
importava não era a existência da lua, mas sua cor. Achava-se
praticamente no zênite, mas era vermelha. Poder-se-ia supor que o
envoltório atmosférico do planeta de metano fosse tão espesso que
provocava nos astros, próximos do zênite, o mesmo efeito que a
atmosfera terrana produz naqueles que se encontram perto da linha do
horizonte. Talvez a vermelhidão daquela lua tivesse a mesma causa
que a do sol terrano no ocaso.
Mas também
era possível que a coloração da lua tivesse sua origem na cor do
sol. Se esse astro fosse vermelho, era quase certo que o gigante de
metano, lugar do pouso dos druufs, pertencesse ao sistema de Siamed.
Era um detalhe importante, pois o socorro só poderia vir desse
sistema. Nele localizava-se a única base que a frota terrana
conseguira instalar na outra dimensão temporal. Era a base de Hades,
situada numa zona crepuscular semelhante a Mercúrio.
Perry
Rhodan estava refletindo sobre a coloração estranha do céu e
procurava responder se a cor marrom poderia ter sua origem na ação
conjunta de dois astros diurnos, um vermelho e um verde. Porém, de
repente se ouviu um grito de espanto de Bell em seu rádio de
capacete.
O pequeno
grupo, flanqueado por dez druufs, acabara de chegar ao pé da rocha
que se erguia para o céu. A surpresa de Reginald Bell fora provocada
por uma abertura do tamanho de um portão, que veio interromper a
parede rochosa e que, conforme Rhodan se lembrava, antes não
estivera lá.
Quer dizer
que no monólito existia a entrada de uma caverna ou de um sistema de
cavernas, que os druufs haviam construído ou encontrado sob a
superfície do planeta. Ao que parecia, achavam que o lugar era
suficientemente seguro para abrigar um grupo de prisioneiros
importantes.
Logo atrás
da abertura, já no interior do monólito, começava uma espécie de
rampa que descia suave. A pedra estava lisa, provavelmente em virtude
da utilização freqüente da rampa. Os quatro prisioneiros tiveram
de fazer um tremendo esforço, a fim de manterem-se de pé, em vez de
ceder à tração da gravidade, deixando-se rolar rampa abaixo.
No momento
em que a entrada da caverna se fechou — Perry Rhodan não conseguiu
descobrir que mecanismo os druufs usavam para isso — uma luz forte
acendeu-se e iluminou a rampa até a sua extremidade inferior. Essa
extremidade ficava num recinto quase circular, de vinte metros de
diâmetro. Daí saíam doze corredores em sentido radial. As paredes
e o corredor estavam fracamente iluminados. Ao que parecia, os druufs
não possuíam o menor senso estético. Em compensação, os
corredores estavam equipados com fitas rolantes, que permitiam uma
locomoção rápida e livrava os prisioneiros do esforço de levantar
as pernas a cada passo dado.
Enquanto
se deslocavam sobre a fita rolante, os prisioneiros não conseguiram
descobrir a finalidade e as funções da caverna. Apenas puderam
notar que havia uma série de salas, cujas portas se abriam na parede
do corredor, e que as instalações subterrâneas eram por demais
extensas.
Quando os
druufs mandaram-nos sair da fita rolante e esperar junto à parede do
corredor, até que três portas disformes se abrissem do lado direito
do mesmo, achavam-se num local distante quatrocentos metros da
entrada do sistema de cavernas. E, à luz difusa das lâmpadas
ocultas, puderam ver que o corredor avançava pelo menos outros
quatrocentos metros para as profundezas da planície rochosa.
Verificaram
que aquilo que Perry Rhodan calculara serem portas, na verdade não
passava de comportas destinadas a evitar que a atmosfera venenosa de
metano penetrasse nas cavernas. Atrás das comportas pelas quais os
druufs levaram seus prisioneiros havia uma série de aposentos. Os
terranos espantaram-se ao notar que os cômodos eram dotados de todas
as vantagens proporcionadas pela civilização dos druufs e não
deixavam nada a desejar em relação à comodidade.
Ao
contrário das paredes do corredor, as dos aposentos eram lisas e
revestidas de materiais de isolamento térmico. O soalho estava
coberto de folhas de plástico grossas e elásticas, do tipo das que
os druufs costumavam usar no lugar dos tapetes. Os móveis eram um
tanto grandes e toscos para as concepções humanas, mas eram
abundantes e variados. Via-se perfeitamente que os seres-toco haviam
feito os maiores esforços com o intuito de preparar alguns aposentos
naquele sistema de cavernas, onde eles próprios pudessem viver
confortavelmente por algumas semanas ou meses, mesmo que se
encontrassem longe da civilização. Ao transmitirem esse conforto
aos humanos, estavam agindo apenas por uma questão de conveniência,
pois já haviam dado provas de não serem muito amáveis para com os
terranos.
Um dos
druufs, equipado com uma tradutora, disse aos terranos que nesses
recintos havia ar respirável, motivo por que poderiam tirar seus
trajes protetores. Quanto ao mais, teriam de esperar ali mesmo, até
que aparecesse alguém para cuidar deles. Não disse quando poderiam
contar com isso.
O conjunto
consistia em três aposentos. Depois de terem tirado os trajes
protetores, que foram levados pelos druufs, examinaram esses
recintos. Os móveis tinham, sido concebidos para os corpos dos
druufs. As poltronas de pés em X eram tão grandes que nelas
caberiam duas pessoas. Em cada uma das estranhas armações,
sustentadas por barras presas ao teto, que serviam de cama aos
seres-toco, caberiam quatro terranos. E a série de pias redondas,
que tomava inteiramente uma das paredes da menor das três salas,
bastaria para satisfazer as necessidades higiênicas de um batalhão.
Qualquer dessas pias poderia ser-vir de banheira a um terrano não
muito robusto.
As
finalidades de várias outras coisas só foram descobertas depois de
algum tempo. Por exemplo, a mesa, que no seu estado normal era apenas
uma placa colocada no chão. Ficaram refletindo por muito tempo sobre
a serventia dessa placa, até que Reginald Bell, para obter uma visão
melhor do objeto, dirigiu-se à cabeceira e, com isso, evidentemente,
acionou algum contato oculto. A placa subiu instantaneamente,
sustentada por quatro pernas retráteis, transformando-se numa mesa.
Os prisioneiros não poderiam usá-la, pois a placa ficava tão alta
que mal conseguiam olhar por cima da mesma. Mas haviam desvendado o
mistério.
Depois de
terem inspecionado às instalações durante uma hora, tiveram uma
idéia exata das instalações da prisão em que se encontravam. E
também tiveram uma idéia bastante nítida do sistema de vigilância
dos druufs. Esse sistema era primitivo, mas muito eficiente. Os
seres-toco haviam carregado seus trajes protetores. Dessa forma, nem
sequer precisavam dar-se ao trabalho de trancar as comportas. Perry
Rhodan fizera uma experiência a este respeito. As comportas
abriram-se sem a menor dificuldade. Apenas acontecia que, para além
da porta exterior, existia uma atmosfera de amoníaco e metano com
uma pressão de 2.500 torrs. Só mesmo um idiota pensaria em fugir
por esse caminho. Os druufs não tinham necessidade de manter guardas
no local.
Portanto,
estava tudo claro, com exceção da finalidade do aparelho com o
aspecto de órgão de igreja, preso a uma parede, no aposento situado
no centro, parecendo zombar de todas as tentativas de explicação.
Mesmo no instante em que, cerca de duas horas após a chegada deles,
a gravitação quase insuportável foi diminuindo, passando ao nível
normal de 1 G, não lhes acudiu a possibilidade de que o “órgão”
pudesse ter algo a ver com isso.
Mas, a
curiosidade dos terranos fora despertada. Então passaram a desmontar
e examinar o “órgão”
com a meticulosidade que costumam desenvolver, quando, se trata de
satisfazer sua curiosidade. Tomaram conhecimento da finalidade do
aparelho e, subitamente, tiveram uma idéia do que poderiam fazer com
ele.
*
* *
A única
criatura, que chegaram a ver durante os três dias de prisão, era um
ser mecânico: um robô dos druufs, monstruoso como os seres que o
haviam criado. Ele lhes fornecia os mantimentos. Ao que parecia, não
sabia falar nem comunicar-se de outra forma. Chegava sempre à mesma
hora, sem anunciar-se, colocava uma bandeja com travessa sobre a
mesa, que se levantava à sua aproximação, e desaparecia. Voltava
regularmente depois de uma hora, para levar os restos de comida. Esse
ritual acontecia três vezes, a cada vinte e quatro horas.
Perry
Rhodan lhe fez algumas perguntas inocentes. O robô não respondeu e
nem sequer reagiu às mesmas.
Dessa
forma, continuavam no escuro sobre o ponto mais importante: Quantos
druufs havia na base subterrânea?
Procuraram
orientar-se por eventuais ruídos, mas tiveram de constatar que os
únicos ruídos eram os causados por eles mesmos. Chegaram à
conclusão de que, possivelmente, não havia mais ninguém no sistema
de cavernas, com exceção deles mesmos e dos robôs. Porém, também
era possível que as paredes e comportas tivessem sido feitas à
prova de som, ou que os druufs se encontrassem tão longe que os
ruídos causados pelos terranos não poderiam chegar aos seus
ouvidos.
Sabiam
perfeitamente que, se houvesse um único druuf vigilante por perto, o
plano não teria a menor chance de êxito. O ser-toco perceberia os
sinais emitidos — isto é, a modificação do campo gravitacional —
e não demoraria em descobrir, sua origem. Perceberia a intenção
dos prisioneiros e tomaria todas as providências, para que a fuga
não pudesse ser levada avante.
Mas se o
sistema de cavernas estivesse vazio, a situação seria diferente.
Mesmo assim, os druufs captariam os sinais, mas estes também seriam
detectados pelas pessoas às quais se destinavam. Restava saber se a
primeira nave, que chegasse ao planeta, seria dos druufs ou dos
terranos.
Por
enquanto só tinham certeza de uma coisa. Não poderiam deixar de dar
os sinais, pois estes representavam sua única possibilidade de
entrar em contato com o mundo exterior.
Então
tomaram suas providências. Seria tanto mais fácil receber os
sinais, quanto maior fosse a modificação temporária do campo de
gravitação artificial ou, em outras palavras, quanto maior fosse a
diferença entre dois níveis sucessivos de gravitação. As
experiências de Perry Rhodan haviam revelado que o campo de
gravitação podia ser reforçado para um máximo de 12 G. O nível
mínimo ficava em cerca de 0,3 G, conforme se concluía pela redução
do peso corporal. Isso significava que, quando começassem a
transmitir, o peso de seu corpo cresceria, numa fração de segundos,
em cerca de quarenta vezes, para depois voltar a um quadragésimo do
valor anterior.
Era claro
que o homem manipulador da chave teria de ser revezado a intervalos
curtíssimos. Caberia a ele a maior parte do trabalho. Depois de duas
ou três modificações do campo gravitacional, o tal homem estaria
totalmente exausto.
Perry
Rhodan foi o primeiro a executar essas funções. Sentou-se no chão
e encostou-se à parede, numa posição em que pudesse alcançar a
chave, sem levantar-se. Reginald Bell ergueu uma barricada de
poltronas junto aos pés de Rhodan, para que a súbita modificação
do campo gravitacional não fizesse escorregar seu corpo parede
abaixo. As poltronas proporcionariam apoio aos pés. Uma vez
concluídos os preparativos, Bell e seus dois companheiros
deitaram-se no chão. Nessa posição, seria mais fácil suportar as
repentinas modificações no nível de gravitação.
Perry
Rhodan estendeu a mão e viu que não havia nenhuma dificuldade em
atingir a chave. Por um minuto fixou a pequena peça de metal
cinzenta. Depois, para que os pulmões estivessem livres, quando
viesse o choque, expeliu o ar e colocou a mão sobre a alavanca.
Reginald Bell, Atlan e Fellmer Lloyd fitaram-no atentamente. Rhodan
fez-lhes um sinal, e os três encostaram a cabeça no chão.
Depois
moveu a chave.
A coisa
foi pior do que imaginara!
Tivera a
intenção de nem deixar que o choque produzisse todos os seus
efeitos. Prevenido, puxaria imediatamente a chave para cima. Mas não
conseguiu. Sob a pressão do peso, aumentado em doze vezes, a mão
escorregou da chave e o braço bateu pesadamente contra a parede.
Perry Rhodan teve de recorrer a toda a força dos músculos para
levantar o braço e colocar um dedo embaixo da alavanca. De repente,
o peso tremendo foi tirado de cima de seu corpo. Mas a modificação,
que levou a gravidade de doze vezes seu valor normal para menos de um
terço desse valor, foi tão repentina que Perry Rhodan sentiu um
súbito mal-estar.
A manobra
consumiu vinte segundos, e não meio segundo, conforme previra no
início.
Perry
Rhodan fez uma pausa para respirar. Encheu os pulmões e voltou a
expelir o ar. Reginald Bell levantou a cabeça e fitou-o. Perry
Rhodan fez um aceno com a cabeça e obrigou-se a sorrir.
Depois
moveu a chave pela segunda vez.
2
O Sargento
Peter Rayleigh tinha certeza absoluta de que sua permanência à
frente dos instrumentos era inútil. Nas últimas cem horas não
havia acontecido nada em Hades, e Rayleigh apostaria que as próximas
cem horas não trariam nenhuma novidade.
Mas não
havia ninguém com quem pudesse apostar. Peter Rayleigh encontrava-se
numa pequena ramificação da gigantesca caverna, que os canhões de
radiações da Califórnia haviam queimado na montanha rochosa, há
três meses, a fim de abrigar a base com seu contingente de homens e
equipamentos, Peter Rayleigh vigiava uma série de instrumentos
altamente sensíveis, cujas escalas se encontravam à sua frente,
sobre uma chapa de plástico.
Vez por
outra, Rayleigh lançava um olhar indolente para os indicadores
luminosos, mas estes permaneciam na escala zero; nem pensavam em sair
dessa posição.
Peter
Rayleigh era um jovem de apenas vinte e dois anos. Fazia um mês que
ele e mais alguns homens de seu regimento foram designados para uma
missão secreta. Nem Rayleigh e nem qualquer dos outros tinham a
menor idéia do que se tratava, e, quando lhes explicaram,
continuaram a não entender. Foram designados para reforçar ou
revezar a guarnição da base. Disseram que Hades se encontrava em
outra dimensão temporal. Peter Rayleigh e seus companheiros já
haviam ouvido falar em dimensões temporais, mas não possuíam os
conhecimentos matemáticos que lhes permitissem compreender o
fenômeno.
Para
passar o tempo, Peter Rayleigh ficou refletindo sobre qual seria a
distância entre a Terra e o ponto em que se encontrava. A indagação
era tão interessante, e o quadro — um prado verde com numerosas
flores, oferecido por sua fantasia — era tão cativante, que por
pouco Rayleigh não notava que, subitamente, um dos indicadores da
escala começou a movimentar-se. Tremeu, deslizou um pouco para a
direita, voltou à posição original e executou outro movimento...
Rayleigh
sobressaltou-se. Viu que o indicador luminoso pertencia a um
gravímetro, ou seja, um instrumento que mede â intensidade de
campos gravitacionais. Era inacreditável que, nas proximidades da
base, a intensidade da gravidade tivesse mudado duas vezes, com um
pequeno intervalo; por isso, Peter Rayleigh pensou por alguns
segundos que seus olhos lhe houvessem pregado uma peça. Manteve-se
imóvel e fitou o aparelho.
Muito
nervoso, procurou rememorar num raciocínio rápido o que deveria
fazer num caso como este. Retiraria do respectivo cilindro os dados
registrados pelo gravímetro, calcularia o desvio em relação ao
valor normal, procuraria descobrir a origem do fenômeno que
provocara a reação do aparelho e, por fim, entraria em contato com
o Capitão Rous, comandante da base.
Rayleigh
ficou recitando esse procedimento, enquanto fitava atentamente a
escala luminosa. O ponteiro havia voltado à posição zero e ali
permanecia. Peter Rayleigh aguardou mais algum tempo — pelos seus
cálculos, mais cinco minutos — lançou um olhar desconfiado para o
mostrador e, com um gemido, reclinou-se na sua poltrona.
Mal acabou
de fazer isso, o ponteiro voltou a reagir. Repetiu tudo que Peter
Rayleigh rememorara da primeira vez: um movimento trêmulo, a volta a
um ponto próximo ao zero, outro movimento, seguido da volta ao ponto
zero.
De
repente, Peter Rayleigh acordou!
Levantou-se
de um salto e, com um passo rápido, colocou-se ao lado da armação
provisória sobre a qual se encontravam enfileiradas as caixas com os
cilindros de medição, que emitiam um brilho fosco. Não teve de
procurar muito tempo para localizar o cilindro correspondente ao
gravímetro. Os dois ângulos agudos, que o estilete traçara em
vermelho sobre a folha de papel deslizante, eram inconfundíveis. Com
os dedos trêmulos, mas hábeis, Rayleigh abriu o visor de plástico,
separou o pedaço de papel, sobre o qual se encontrava a indicação,
cortando-o em cima e embaixo e retirou-o da máquina.
Num gesto
distraído, voltou a fechar o visor, enquanto fitava o papel. Os dois
ângulos ficavam a uma distância aproximada de trinta segundos.
Entre os mesmos, o valor registrado pela máquina e, portanto, a
curva vermelha, descia em proporção exponencial, sem retornar à
posição zero. Por um trecho a curva prosseguia na horizontal, para
depois subir quase verticalmente, formando outro ângulo.
O quadro
era inconfundível. Aqueles dados eram causados pelo fato de alguém
ligar e desligar um aparelho. Os pequenos trechos horizontais
assinalavam o valor estacionário, propriamente dito, do campo
gravitacional que estava sendo ligado e desligado. Esse valor era tão
baixo que o gravímetro mal e mal conseguia registrá-lo. A pessoa
que estava ligando e desligando os campos gravitacionais, fosse ela
quem fosse, devia estar muito longe, ou então seu gerador não valia
nada.
No
momento, Peter Rayleigh não saberia dizer qual das duas
possibilidades era a correta. Para isso, precisaria das indicações
de pelo menos mais um instrumento. Estava em condições de fornecer
indicações apenas sobre a direção da qual provinham os efeitos
gravitacionais, pois a folha de papel registrava a posição da
antena direcional. Peter Rayleigh fez um cálculo mental dos
respectivos ângulos, tentando formar uma imagem, e descobriu que os
impulsos vinham de cima. Portanto, era altamente provável que o
gerador gravitacional não se encontrava em Hades. Era um dado muito
importante. Provava que o registro do aparelho não poderia ter tido
sua origem em alguma interferência, que porventura tivesse sido
produzida no interior da base.
Peter
Rayleigh não precisou refletir muito para chegar a essa conclusão.
Retornou ao seu lugar e fez uma ligação com o Capitão Rous. No
momento exato em que o rosto de Rous surgiu na pequena tela do
intercomunicador, Peter Rayleigh viu o mostrador luminoso do
gravímetro fazer mais um movimento para a direita.
*
* *
O
ordenança parecia bastante perturbado. O Marechal Freyt e o General
Deringhouse foram levantando os olhos do mapa. Freyt parecia tão
absorvido em suas reflexões que nem percebeu o embaraço do jovem
oficial.
— Pois
não — disse em tom distraído.
— Perdão,
Sir — disse o ordenança. — Lá fora está uma... uma moça que
quer falar com o senhor.
Freyt
parecia perplexo.
— Uma
moça? Como é que uma moça pôde entrar no edifício-sede do
governo?
O
ordenança respondeu em tom inseguro:
— Não...
não sei, Sir. Ela tem todos os documentos necessários para entrar
no edifício. Eu... bem...
— Qual é
seu nome?
— Toufry,
Sir. Miss Betty Toufry.
Freyt
soltou uma gargalhada.
— Por
que não disse logo? Mande-a entrar.
O jovem
oficial fez continência e afastou-se. Parecia ainda mais perplexo
que antes. O General Deringhouse levantou os olhos do mapa e sorriu.
Dali a alguns instantes, a “moça”,
que deixara o ordenança tonto de tanto refletir, surgiu na porta.
Era
difícil avaliar a idade de Toufry. Alguém poderia pensar que tinha
seus dezessete ou dezoito anos, se não fossem os olhos, que
contemplavam o mundo com uma expressão sábia demais para essa
idade. Pelos olhos Betty parecia ter ao menos trinta.
Pouca
gente sabia que, na verdade, estava perto dos oitenta anos. O segredo
do misterioso ser coletivo do planeta Peregrino, que conferira uma
imortalidade relativa a Perry Rhodan e alguns dos seus colaboradores
mais chegados, era zelosamente guardado.
Quando
apertou a mão do Marechal Freyt e do General Deringhouse, Betty
Toufry parecia um tanto nervosa. Freyt convidou-a a sentar.
— Deixe-me
adivinhar — principiou em tom amável. — Aconteceu uma coisa
importante. Mas como o assunto não é tão urgente, você julgou
melhor vir devagar, pessoalmente. Então, porque achava-se por perto,
resolveu entrar... Não é isso mesmo?
Betty
sacudiu a cabeça. Um sorriso ligeiro surgiu em seus lábios.
Conhecia o jeito de Freyt. Cada vez que se encontrava com ela, o
general fazia questão de adivinhar seus pensamentos. Era um jogo com
que costumavam entreter-se desde o tempo em que Betty Toufry ainda
era uma criança; naquela época era a telepata mais competente do
Exército de Mutantes do planeta Terra.
— Errou
— respondeu Betty; seu rosto voltou a adquirir uma expressão
séria. — O assunto é muito importante e muito urgente. Vim o mais
rápido possível, a fim de expor o problema com todos os detalhes.
Conrad
Deringhouse estava sentado sobre a gigantesca escrivaninha.
O Marechal
Freyt lançou um olhar atento e insistente para Betty.
— Mister
Ellert deu sinal de vida! — disse Betty em tom exaltado.
Deringhouse
assobiou entre os dentes.
— O que
foi que ele disse? — perguntou.
Betty
parecia embaraçada.
— Pois é
justamente isso. Não entendi praticamente nada. Os impulsos vieram
do mausoléu. Se por acaso não estivesse por perto, não teria
percebido nada. Eram tão débeis que pareciam vir de uma distância
de mil anos-luz, talvez mais.
Os dois
homens mantiveram-se calados.
— Tudo
aconteceu em cinco minutos — prosseguiu Betty apressadamente. — A
única coisa que consegui compreender foi isso: “Venham
logo!”
Acho que não consegui captar sua mensagem sobre o para onde e por
quê.
Deringhouse
e Freyt fitaram-se; pareciam bastante impressionados.
— Não
se preocupe sobre o para onde — disse Deringhouse, querendo
consolar a telepata.
— Você
não está muito bem informada sobre os acontecimentos que se
verificaram pouco antes e pouco depois da morte de Mr. Rhodan, e, por
isso, não sabe onde Ellert se encontra. Em compensação, nós
sabemos perfeitamente. É bem verdade que gostaríamos de obter
alguma informação sobre o por quê. Você teve a impressão de que
Ellert estava com medo de alguma coisa?
Via-se que
Betty se esforçava para lembrar-se.
— Sim e
não — respondeu com um sorriso embaraçado. — Tenho certeza de
que estava com medo, mas este medo não se referia à sua pessoa, mas
a um terceiro...
Deringhouse
levantou a cabeça.
— Ele
disse: “Venham
depressa.”
Não foi isso?
— Sim;
foi a única coisa que consegui compreender.
Deringhouse
estava de pé à sua frente. Virou a cabeça e lançou um olhar
indagador para o Marechal Freyt.
— Não
sabemos o que a frase significa — disse em voz baixa, como se já
conhecesse a decisão de Freyt.
— Justamente
por não sabermos, precisamos cuidar do caso — disse Freyt e
levantou-se. — Betty, se eu lhe desse ordem para interromper suas
férias, teria alguma objeção?
Betty
fitou-o com uma expressão de franqueza.
— Em
absoluto, Marechal Freyt — respondeu.
— Pois
nesse caso, peço-lhe que por enquanto permaneça nas proximidades do
mausoléu — disse Freyt. — Não podemos perder qualquer mensagem
que Ellert queira transmitir. Aliás, onde está esse rato-castor
convencido?
Deringhouse
não sabia.
— Não
sei o que um ser de sua espécie costuma fazer nas férias. Mas tenho
certeza de que conseguiríamos entrar imediatamente em contacto com
ele...
De
repente, Betty soltou uma gargalhada.
— Pois
eu o vi há algumas horas — disse em tom alegre. — Ele me chamou
para que desse uma olhada no seu jardim.
— No seu
jardim! — exclamaram Freyt e Deringhouse a uma voz.
Betty fez
que sim.
— Isso
mesmo. Ele comprou um pedacinho de terra e plantou cenouras.
Por alguns
segundos houve um silêncio estranho no grande gabinete do Marechal
Freyt. Mas, de repente, todos irromperam numa gargalhada.
O acesso
de hilaridade durou bastante tempo. Porém, subitamente, Betty parou
de rir e seu rosto assumiu uma expressão de perplexidade.
— O que
houve? — perguntou Freyt, respirando com dificuldade.
Betty não
respondeu. Enrugou a testa e ficou com os olhos semicerrados.
Evidentemente estava “conversando”
com alguém por uma via que ficaria para sempre fechada à maioria
dos humanos: a via telepática.
Quando
Betty voltou a abrir os olhos e fitou Freyt, parecia prestes a
irromper em outra gargalhada.
— Ele se
queixa porque estamos rindo dele — disse.
— Ele?
Quem?
— Gucky,
o rato-castor.
Freyt
arregalou os olhos.
— Meu
Deus! — disse. — Será que ele conseguiu ouvir a essa distância?
— Pelo
que diz, nossa disposição alegre foi bastante intensa — respondeu
Betty. — Ele pondera que a situação alimentar do Império Solar
seria muito melhor se todos fizessem o que ele está fazendo:
produzir seus próprios alimentos.
Conrad
Deringhouse fez uma careta.
— Durante
a próxima missão insistirá em levar um vagão de cenouras
plantadas por ele — disse.
O rosto do
Marechal Freyt estava sério de novo.
— Eu lhe
avisarei de que deverá revezar-se com a senhora na vigilância do
mausoléu, Betty — disse. — A vigilância deve ser ininterrupta.
Não podemos perder nenhuma das mensagens de Ellert. Daqui a alguns
minutos, Gucky estará falando com você.
Betty
estendeu-lhe a mão.
— Tomarei
cuidado — prometeu. — Se ficar junto à entrada, talvez consiga
compreender melhor as mensagens.
Freyt fez
que sim. Betty despediu-se também de Deringhouse e saiu.
— O que
pretende fazer? — perguntou Deringhouse, depois que a porta se
fechou.
— Vamos
dar uma olhada — respondeu Freyt. — Precisamos saber por que
Ellert está chamando. Você irá com a Califórnia até a área de
Fera Cinzenta e saltará com o transmissor fictício para Hades, que
fica do outro lado da frente de superposição. Você sabe o que
aconteceu com Ellert. Seu corpo humano jaz no mausoléu, imóvel,
aparentemente morto, enquanto seu espírito existe no interior do
corpo de um druuf, em outra dimensão temporal. Não sei como poderá
fazer, a fim de aproximar-se de Ellert. Em hipótese alguma, procure
pousar em Druufon. Leve um excelente telepata para que, de Hades,
possa entrar em contato com Ellert, que se encontra em Druufon. No
mais, faça o que lhe parecer mais acertado. Receio que já lhe tenha
dado conselhos e instruções demais.
Um sorriso
irônico surgiu no rosto de Deringhouse.
— Gostaria
de receber mais alguns — disse. — Com isso minha responsabilidade
diminui.
O Marechal
Freyt parecia não ter ouvido a resposta. Lançou um olhar pensativo
pela janela.
— Tomara
que Cardif não lhe crie problemas — disse Deringhouse.
Freyt fez
um gesto de indiferença.
— Ele e
seus adeptos encontram-se sob observação. Se tentarem qualquer
coisa contra o governo, serão presos. Acho que Cardif é um homem
com o qual não se deve perder tempo.
Deringhouse
fez um gesto afirmativo. Conhecia o Tenente Thomas Cardif por
experiência própria. Era filho de Perry Rhodan e Thora, a arcônida.
Do pai herdara o aspecto exterior, e da mãe, a mentalidade que ela
tivera antes tio casamento: a presunção racista e o profundo
desprezo que votava aos habitantes primitivos do planeta Terra.
Deringhouse constatara que Cardif era um homem competente, que
infelizmente não merecia confiança. Um elemento causador de
problemas.
Poucos
dias atrás, quando a notícia da morte de Perry Rhodan, ocorrida na
ocasião da destruição da base espacial de Fera Cinzenta, foi
oficialmente divulgada na Terra, Cardif compareceu à sede do governo
e declarou que era o único sucessor legítimo do pai.
Foi um
espetáculo!
Era
bastante inteligente para saber que dessa maneira não conseguiria
atingir seu objetivo. Apenas prestara uma declaração que
significava simplesmente: Quero o poder. Declarei guerra a vocês.
Uma vez
que pelo aspecto exterior era parecido com Perry Rhodan, não teve
dificuldades em encontrar adeptos. Afinal, Perry Rhodan era o ídolo
dos terranos, e havia muitas pessoas tão inexperientes em política
que, só por causa da estima que devotavam a Perry Rhodan, também
estavam dispostas a dar ouvido a seu filho, Thomas Cardif.
Cardif e
seus adeptos quiseram realizar uma passeata, mas esta foi proibida
pela polícia. Pretendiam atravessar a cidade com alto-falantes,
cartazes e tudo mais que despertasse a atenção popular para o ato.
A polícia dispersara os participantes e, dali em diante, os
cardifianos,
nome que Freyt lhes deu, iniciaram um trabalho subterrâneo.
— Não —
repetiu o Marechal Freyt em tom enfático. — Cardif não me
preocupa. Existem pessoas que devem ser levadas mais a sério que
ele, ao menos por enquanto.
Enrugou a
testa, olhou para Deringhouse e, fingindo-se de zangado, acrescentou:
— Por
que ainda está parado? Faça o favor de trabalhar.
Um tanto
sem jeito, Deringhouse fez uma continência.
— Pois
não, marechal! — respondeu.
Freyt
estendeu-lhe a mão.
— Faça
os preparativos com rapidez, mas também com cuidado — recomendou.
— Não gostaria de ter de procurar outro general na frota. Antes de
decolar, dê mais uma chegada até aqui.
Deringhouse
confirmou com um gesto. Depois se virou e saiu.
*
* *
Para dar
todos os sinais em que haviam pensado, levaram uma hora e meia. E,
depois dessa hora e meia, estavam tão cansados que não conseguiam
manter-se de pé. Ficaram deitados no chão e respiravam com
dificuldade.
Nesse
momento de esgotamento total, que não estariam em condições de
defender-se nem mesmo de um ataque de uma criança, a porta interna
da comporta abriu-se, mostrando um grupo de cinco druufs armados, que
se encontravam no interior da comporta.
Perry
Rhodan levantou a cabeça. Foi a única coisa que conseguiu fazer.
Viu os druufs, e compreendeu que seu plano falhara.
Uma voz
mecânica e monótona se fez ouvir.
— É de
admirar que, mesmo numa situação tão difícil, os senhores ainda
possuam tamanho arrojo. Não podemos deixar de admirar a pertinácia
dos senhores. Mas hão de compreender que não podemos ficar
inativos, enquanto os senhores põem em polvorosa o Universo, apenas
porque não querem continuar a ser nossos hóspedes.
Aquela voz
foi emitida por uma série de fitas, rodinhas e peças eletrônicas.
Seu tom não poderia exprimir o sarcasmo da última frase. A voz
falava em inglês. Os druufs já dominavam as línguas dos dois povos
com os quais já haviam lidado na dimensão temporal do Universo
einsteiniano: o arcônida e o terrano. A voz falava com uma estranha
lentidão e tranqüilidade. Esse fato não tinha sua origem na
circunstância de não conhecerem perfeitamente o inglês. Antes,
tinha sua origem na dimensão temporal dos druufs, que era duas vezes
inferior à dos prisioneiros. O terrano só gastava cinco segundos
para uma reação que, ao druuf, custaria dez segundos. Para estes
seres, a velocidade da luz era de cento e cinqüenta mil quilômetros
por segundo!
Enquanto
se erguia lentamente, Perry Rhodan lembrou-se disso. Fazia votos de
que seus companheiros também se lembrassem. Até então os druufs
não haviam notado que os terranos eram mais rápidos que eles, e se
estes tinham alguma intenção de usar a vantagem no futuro, seria
preferível continuar a manter segredo em torno dela.
Lentamente,
mas a uma velocidade perfeitamente normal para os druufs, Perry
Rhodan pôs-se de pé.
Sorriu.
— Sinto
muito que lhes tenhamos causado problemas — disse. — É claro que
jamais iríamos dispensar sua hospitalidade. Pelo contrário.
Esperávamos que alguém ouvisse nosso chamado e viesse para cá, a
fim de desfrutar a condição de hóspede dos senhores.
Os três
seres de três metros, que vinham na frente, entraram de vez. Os
outros dois pararam no interior da comporta. Perry Rhodan viu os três
gigantes aproximarem-se dele e perguntou a si mesmo quais seriam suas
intenções. Os druufs eram descendentes de insetos. Os quatro olhos
facetados distribuídos simetricamente pela parte anterior do crânio,
eram a prova evidente dessa descendência, tal qual a boca triangular
em cujo interior as arcadas dentárias brancas emitiam um brilho
traiçoeiro. O corpo tinha o aspecto de um cubo toscamente
trabalhado. Era sustentado por duas enormes pernas, que não fariam
vergonha a um elefante, e, por sua vez, sustentava dois braços
robustos, cujas mãos terminavam numa série de dedos ridiculamente
longos e articulados.
Seria tão
difícil conhecer a disposição de ânimo do druuf, apenas com base
na expressão de seu rosto, como orientar-se numa grande metrópole,
sem dispor de uma planta da cidade e nem de conhecimentos da língua
ali falada. Perry Rhodan recuou dois passos. Mas, diante da voz saída
da pequena tradutora, pendurada no peito do druuf que vinha na
frente, logo se tranqüilizou.
— Não
tenha receio. Não somos amigos da violência. Além disso,
acreditamos que não terão nenhuma objeção às sugestões que
vamos formular.
— Que
sugestões são essas? — perguntou Perry Rhodan, esticando as
palavras para que os seres-toco não desconfiassem de que ele vivia
numa outra dimensão temporal.
— Acreditamos
— respondeu o druuf, usando a tradutora e falando tão devagar
quanto Rhodan — que aqui talvez seja muito apertado para os
senhores. Se cada um dos senhores dispuser de acomodações
separadas, acho que saberão apreciar melhor nossa hospitalidade.
Perry
Rhodan refletiu instantaneamente. Queriam separá-los, e assim evitar
que continuassem a unir forças para a fuga.
— Acho —
respondeu com um sorriso — que não podemos aceitar a oferta, já
que causará muitos incômodos aos senhores. Mas receio que ninguém
se interesse por nossa opinião.
— É
verdade — confirmou a tradutora.
— Dê-me
a mão!
Rhodan
sentiu-se perplexo e obedeceu. Levantou a mão e estendeu-a em
direção ao druuf. Este a segurou com a direita. No mesmo momento,
Rhodan percebeu que a esquerda dele segurou um objeto semelhante a
uma seringa.
— O que
é isso? — perguntou em tom enérgico e falando mais depressa do
que pretendia.
— Queremos
poupar-lhes o incômodo de envergarem esses trajes pesados durante a
mudança. Este preparado é totalmente inofensivo. Apenas reduz suas
funções orgânicas a um mínimo por alguns minutos. Por exemplo,
não terá mais necessidade de respirar. Assim sendo, a atmosfera
venenosa de metano não lhe fará mal.
Perry
Rhodan tentou retirar a mão. Mas seria inútil resistir às forças
tremendas do druuf, mesmo para alguém que não estivesse tão
cansado quanto Perry Rhodan. Sentiu uma picada curta e dolorosa na
palma da mão. Quase no mesmo instante, perdeu os sentidos.
Mas antes
de cair ao chão, uma idéia-relâmpago atravessou seu cérebro.
*
* *
O Capitão
Rous julgou a descoberta de Peter Rayleigh tão importante que ele
mesmo resolveu ocupar-se detidamente com a mesma. Rayleigh
provavelmente nunca teria descoberto o que significava aquele
misterioso campo gravitacional, sujeito a modificações tão
repentinas.
As
indicações do gravímetro repetiram-se a intervalos mais ou menos
regulares pelo prazo de uma hora e meia. Rous observara os movimentos
do indicador luminoso e depois levantara-se para retirar do cilindro
a linha ali traçada.
Durante a
hora e meia o gravímetro reagira ao todo nove vezes. Mareei Rous
tinha diante de si o registro de oito desses movimentos, inclusive um
registro que Peter Rayleigh havia retirado do aparelho. O registro do
primeiro impulso geminado, o tal que fizera Peter Rayleigh acreditar
que os olhos cansados lhe estavam pregando uma peça, ainda estava no
cilindro e tinha sido coberto por várias camadas de papel.
Para
enorme espanto de Rayleigh, o Capitão Rous fez questão de que esse
registro fosse retirado do cilindro. Isso deu uma canseira em
Rayleigh. Depois do último movimento do indicador do gravímetro,
haviam deixado passar quase uma hora; praticamente tinham certeza de
que o gerador gravitacional não estava funcionando mais. Por isso, o
cilindro de registro foi imobilizado, a fim de que Peter Rayleigh o
pudesse girar para trás e separar o primeiro trecho do registro.
Enquanto
trabalhava, ficou refletindo constantemente por que Rous se
interessara tanto por esse registro, já que todos eles eram
iguaiszinhos, salvo as diferenças no intervalo temporal.
Durante
todo o tempo, Marcel Rous falou apenas o estritamente necessário.
Peter Rayleigh ainda não o conhecia muito bem, motivo por que não
percebeu o nervosismo do capitão. Seus dedos tremiam de forma quase
imperceptível. Quando colocou lado a lado os oito pedaços de papel
e acrescentou o nono, que Rayleigh acabara de lhe entregar, os dedos
de Rous tremiam um pouco. Levou alguns minutos estudando a série de
registros. Depois virou-se para Rayleigh, que se encontrava atrás
dele, olhando por cima de seu ombro, e perguntou:
— Está
notando alguma coisa, sargento?
Peter
Rayleigh já previa a pergunta.
— Não —
respondeu, mantendo-se fiel à verdade. — Não notei nada, capitão.
Rous
sacudiu a cabeça.
— Estes
jovens — começou — carregam seu minicomunicador no bolso e logo
pensam que podem esquecer os veneráveis métodos de comunicação
dos antepassados.
A
observação era um tanto ingênua, pois Rous não era muito mais
velho que Rayleigh, mas este não deu pela coisa. Teve uma idéia.
Rous aludira a veneráveis métodos de comunicação. Isso só podia
significar...
— Compare
os intervalos temporais entre os ângulos — disse Rous em meio às
suas reflexões.
— Estava
a ponto de fazer isso, capitão — respondeu Rayleigh. — Nos
primeiros três sinais, o intervalo entre os ângulos é de vinte a
trinta segundos. Nos sinais de números quatro a seis esse intervalo
é de um minuto e meio. E, nos últimos três, volta a ser vinte a
trinta segundos.
O Capitão
Rous confirmou com um gesto; parecia satisfeito.
— Muito
bem. Isso significa curto, curto, curto... longo, longo, longo...
curto, curto, curto. O que vem a ser isso?
— São...
são... — gaguejou Rayleigh em tom exaltado — são sinais Morse.
— Sargento,
você é um rapaz inteligente — disse Rous. — Sim, são sinais
Morse. E esta mensagem é o velho pedido de socorro da navegação
marítima e aérea do planeta Terra: S.O.S.!
Levantou-se.
— Continue
no seu posto, sargento — ordenou a Rayleigh. — A partir deste
momento, a estação está em alarma. Chame-me assim que haja alguma
novidade. Se não estiver presente, chame um dos outros oficiais.
Entendido?
— Sim
senhor.
O capitão
saiu com uma pressa extraordinária e deixou Rayleigh mergulhado em
suas reflexões.
Marcel
Rous ainda não sabia o que significavam esses estranhos sinais
Morse; a única coisa que sabia era que alguém se encontrava em
perigo. Era alguém que conhecia o alfabeto Morse terrano, e, por
isso, muito provavelmente, era também um terrano. Dentro de pouco
tempo saberiam de onde vieram os sinais. Em Hades havia várias
estações observadoras como a que estava sendo guarnecida pelo
sargento Rayleigh. Hades era uma base avançada, situada bem atrás
das linhas inimigas, dispondo de todo o equipamento de segurança.
Bastava que mais um antigravímetro, situado a algumas centenas de
metros do de Rayleigh, tivesse fornecido uma indicação para apurar
o ponto exato de onde tinha vindo o S.O.S.
Marcel
Rous voltou ao seu gabinete pelo caminho mais rápido, pegou o
microfone, anunciou o estado de alarma para toda a base e enviou
alguns técnicos positrônicos para recolher os registros automáticos
de todos os gravímetros. A seguir, elaborou um programa para o
pequeno computador , positrônico da base. Dessa forma bastaria
introduzir os dados fornecidos pelos outros aparelhos nos lugares
adequados, a fim de que os mesmos pudessem ser processados
imediatamente.
Enquanto
fez isso, ficou pensando no desconhecido que expedira a mensagem.
Há alguns
dias estava interrompida, por um tempo indeterminado, a ligação
entre a Terra e a base de Hades, realizada por meio de três naves de
abastecimento. A interrupção fora ordenada por motivos de
segurança. O setor espacial adjacente à área de superposição
estava cheio de naves dos druufs e dos arcônidas. Qualquer
espaçonave terrana que operasse sozinha teria de assumir um grande
risco, para entrar em contato com Hades por meio do transmissor de
matéria. O grosso da frota fora retirado para o sistema de Vega, uma
vez que ninguém sabia qual seriam os caminhos da política terrana
depois da morte de Perry Rhodan. Por isso, as três naves de
abastecimento se haviam retirado para um setor menos perigoso, onde
aguardavam novas instruções.
Marcel
Rous concluiu que, a não ser que algum dos três comandantes tivesse
desobedecido às instruções que lhe haviam sido fornecidas, nenhuma
das naves poderia encontrar-se em situação difícil no Universo dos
druufs. Portanto, o S.O.S. devia provir de alguém que não fosse
tripulante dessas naves. E de alguém que evidentemente não dispunha
dos recursos técnicos usuais, motivo por que teve de recorrer a um
meio de comunicação tão inusitado.
Suas
reflexões foram interrompidas subitamente, quando recebeu os
primeiros dados das medições.
Um cabo da
divisão positrônica trouxe uma pilha de papel especial, na qual
estavam registradas, quase exatamente, as mesmas curvas pontudas
traçadas pelo aparelho do sargento Rayleigh. A intensidade variava
de caso para caso, e variava sensivelmente. Rous ficou satisfeito com
isso, pois a posição do estranho transmissor só poderia ser
determinada por meio da comparação dos níveis de intensidade.
Rous
pôs-se a trabalhar. Introduziu os novos dados no seu programa básico
e deixou que o mesmo passasse pelo computador. Este forneceu duas
coordenadas de ângulo, que, no momento, não significavam coisa
alguma para Rous, e uma indicação de distância. Esta era de um
bilhão e trezentos milhões de quilômetros. O resultado era tão
surpreendente que Rous fez com que a máquina repetisse a operação.
Só se convenceu da exatidão da cifra quando ela foi confirmada.
Acrescentou
as novas séries de dados à medida em que as mesmas lhe chegavam às
mãos. E, dispondo de um maior volume de informações, o computador
pôde oferecer um resultado mais preciso.
Enquanto o
computador positrônico zumbia e dava estalos, ordenou ao cabo, que
se mantinha de pé a seu lado, que consultasse o catálogo, a fim de
verificar o que havia no lugar correspondente às coordenadas
fornecidas pela máquina. O cabo retirou-se com os resultados do
processamento, fornecidos por Rous, e voltou depois de alguns
minutos.
Rous
fitou-o com uma expressão de curiosidade.
— Trata-se
de um dos sessenta e dois planetas deste sistema — disse o cabo.
— Qual
deles? — perguntou Rous.
— O
trigésimo sexto, capitão, se adotarmos o critério da distância
média crescente ao sol. O planeta ainda não tem nome.
— Sabemos
mais alguma coisa a respeito dele?
— É o
maior planeta do sistema — respondeu o cabo. — O diâmetro é
superior a duzentos mil quilômetros. A atmosfera é de metano e
amoníaco. A gravitação na superfície é de 2,6 G. A temperatura
média anual chega a cinco graus centígrados. Vê-se que é um
planeta muito frio. Com certeza é desabitado.
Rous
interrompeu-o com um gesto.
— Não
diga com certeza. Os sinais vieram de lá!
O cabo,
que ainda não tinha conhecimento dos significados dos sinais,
fitou-o com uma expressão de perplexidade, mas Marcel Rous não se
sentiu incomodado com isso.
Refletiu
intensamente.
Como é
que um terrano, que conhece ao menos duas letras do alfabeto Morse,
foi parar num planeta de metano do sistema dos druufs? Sem dúvida
não foi para lá de sua livre e espontânea vontade. Logo, trata-se
de um caso de avaria, ou então o expedidor da mensagem é um
prisioneiro dos druufs. A hipótese da avaria poderia ser excluída
com uma certeza quase absoluta. Desde o tempo em que foi criada a
base de Hades, nenhum terrano teve de expor-se aos riscos de um vôo
direto. Todos foram transportados à base por meio do transmissor de
matéria instalado em alguma nave, que se mantinha à espera junto à
área de superposição.
Então era
um prisioneiro dos druufs. Alguma nave terrana caiu nas mãos dos
seres-toco? Onde é que estes poderiam ter capturado prisioneiros
terranos? Quais os membros da frota terrana que eram dados como
desaparecidos?
Marcel
Rous não podia afirmar se alguém lhe informara ou não sobre o
desaparecimento de um soldado raso. Mas Rous não acreditava que um
soldado fosse capaz de usar um gerador gravitacional na transmissão
de sinais.
Mas havia
quatro pessoas cujo desaparecimento a Humanidade lamentava há dez
dias. Até então se tinha por certo que esses quatro terranos
estavam mortos; teriam perecido sob os efeitos das bombas arcônidas,
lançadas no ataque-surpresa contra Fera Cinzenta. Seria possível
que esses quatro homens tivessem escapado de Fera Cinzenta e caído
nas mãos dos druufs?
O Capitão
Rous fez um exame de consciência. Será que aquilo era apenas um
pensamento inspirado pelo desejo?
Não. Por
enquanto não havia prova objetiva de que Perry Rhodan realmente
estivesse morto.
3
Depois da
segunda transição, que a transportou a uma distância de mais de
seis mil anos-luz, a Califórnia emergiu num setor espacial repleto
de sinais de naves estranhas. Os remanescentes do combustível de
plasma provocaram verdadeiras avalanches de impulsos nas pequenas
câmaras de ionização que registravam a presença de minúsculas
partículas na parte exterior da nave. Os detectores de cristal,
regulados para faixa de ondas características dos mecanismos
propulsores, emitiam seguidos lampejos. Essas cintilações vinham de
distâncias situadas entre dez e cem milhões de quilômetros; por
enquanto as naves de cujos propulsores provinham não representavam
nenhum perigo para o cruzador Califórnia.
Mas isso
poderia mudar. Para uma nave que alcança facilmente uma aceleração
correspondente a 50 mil vezes o valor normal, dez ou mesmo cem
milhões de quilômetros tornam-se uma distância ridícula. E a uma
distância de milhões de quilômetros, a Califórnia já apareceria
como um pontinho de luz no rastreador de matéria da nave inimiga, e,
dali em diante, as chances de escapar, sem ser molestada, eram mais
que reduzidas.
A frota de
bloqueio arcônida, que se encontrava em posição para que nenhuma
nave dos druufs pudesse atravessar a área de superposição e
penetrar no Universo einsteiniano, era formada de trinta mil
unidades. Para os arcônidas, não haveria nenhum problema em
destacar algumas centenas dessas naves, a fim de caçar o cruzador
terrano. A Califórnia era ágil e veloz, porém seu armamento era
bastante escasso.
Conrad
Deringhouse transferiu o comando da nave ao Major Ostal. Clyde Ostal
era um daqueles homens que, na gíria da frota, são designados como
raposas do espaço. Sabia o que estava em jogo naquela missão. Já
acumulara bastante experiência na técnica de combate das naves
arcônidas tripuladas por robôs. A transição, que o levou da Terra
até a área de superposição onde se verificava o encontro de duas
dimensões temporais, era uma verdadeira façanha galatonáutica.
O grupo de
ação de Deringhouse estava pronto para partir. Era composto de três
homens, mas deve-se ressaltar que a palavra homens não pode ser
tomada ao pé da letra. Os três membros do grupo eram o próprio
Deringhouse, o teleportador Ras Tschubai e o rato-castor Gucky, o
mutante mais competente da frota.
Os três
já haviam colocado seus trajes protetores e aguardavam o momento em
que a Califórnia atingisse o ponto em que o transmissor tornasse
possível o salto direto para Hades. A nave estava perfeitamente
equipada para a operação. Três transmissores semelhantes a gaiolas
enchiam quase toda a sala de comando. O Major Ostal e os três
oficiais de elevada patente mal conseguiam mover-se no interior da
mesma. Uma vez que não havia lugar para sentar, Deringhouse e seus
companheiros já se encontravam no interior dos transmissores,
observando pelas gradeadas portas abertas o que se passava na grande
tela panorâmica. O aspecto da imensa frente de superposição era
medonho. Do lugar em que se encontrava a Califórnia, toda a área
era visível. Parecia uma fina nuvem de gases vermelhos
incandescentes; atravessava o firmamento de lado a lado e absorvia o
brilho das estrelas. Tinha o aspecto de um monstro ameaçador,
prestes a devorar o Universo.
A
luminosidade vermelha provinha das aberturas circulares de inúmeros
funis, pelas quais se descarregava a diferença dos níveis
energéticos que prevaleciam no Universo einsteiniano e no dos
druufs. Com isso, era criada uma ponte que permitia a passagem de uma
dimensão à outra. Em virtude do surgimento desses funis de
descarga, a passagem de um Universo para outro se tornou possível. O
salto executado pelo Major Ostal, que levara a nave para as
proximidades da área de superposição, era uma verdadeira façanha;
no entanto, a Califórnia ainda se encontrava a mais de quinze
milhões de quilômetros do funil de descarga mais próximo, e
ninguém iria executar um salto que faria a nave transpor essa
distância e parar em lugar incerto.
Essas
preocupações martirizavam a mente do Major Ostal. Com uma expressão
pensativa, examinou os instrumentos. Sabia que a Califórnia seria
atacada, caso ligasse os mecanismos propulsores por uma única vez
que fosse. Os arcônidas não estavam na área para fazer um
piquenique.
Mantinham
os olhos bem abertos, para que nenhuma nave dos druufs lhes
escapasse, e esses mesmos olhos enxergariam prontamente a
luminosidade dos mecanismos propulsores da Califórnia. Por enquanto,
esta se deslocava livremente, desenvolvendo a reduzida velocidade
remanescente, sempre em sentido paralelo à frente de superposição.
Clyde
Ostal dirigiu-se ao General Deringhouse, que estava sentado
tranqüilamente em seu transmissor.
— Só
temos duas alternativas, Sir — disse. — Podemos acelerar por meio
do propulsor, ou então realizaremos uma transição a pequena
distância que nos levará para junto da frente.
Deringhouse
viu os lampejos que surgiam constantemente nas superfícies de
projeção dos detectores de cristal.
— Uma
alternativa é tão miserável como a outra — respondeu em tom
contrariado. — Se usarmos o propulsor, com o tempo seremos
localizados; em compensação poderemos ver o que se passa em torno
de nós. Se realizarmos uma transição, não seremos localizados.
Entretanto, por outro lado, não sabemos se iremos parar em meio a um
enxame de naves. Na minha opinião poderíamos tirar a sorte, major.
— Gosto
de tomar decisões baseadas nos aspectos lógicos do problema, mas
desta vez tais aspectos parecem estar ausentes — disse.
Deringhouse
levantou-se e saiu do transmissor. Espremeu-se junto a outra jaula e,
praticamente, teve que jogar-se por cima do ombro de Ostal, para ver
as indicações dos detectores. O visor ótico trabalhava pelo
sistema de radar: quanto mais próximos à periferia da superfície
de projeção surgiam os lampejos, maior era a distância da
Califórnia.
Depois de
fitar atentamente a tela por alguns minutos, Deringhouse apontou para
o lugar onde vira o menor número de lampejos.
— Por
aqui o movimento não parece ser muito grande — disse, dirigindo-se
a Ostal. — Se saltarmos para este lugar será melhor.
— A não
ser — ponderou Ostal — que nesta área haja um grupo de naves
arcônidas com os propulsores desligados.
— É
verdade — confirmou Deringhouse. — Mas não podemos deixar de
assumir um risco. E tenho a impressão de que este será o risco
menor.
Clyde
Ostal leu cuidadosamente os dados da tela.
— Esta
área fica a vinte e cinco milhões de quilômetros do lugar em que
nos encontramos— constatou. — Mas fica a apenas oitenta mil
quilômetros da frente de superposição.
— Pois é
justamente o que precisamos — disse Deringhouse em tom animado. —
Vamos! O que estamos esperando?
Clyde
Ostal tomou às pressas os preparativos para a transição. Os dados
foram introduzidos no piloto automático e o mecanismo de
hiperpropulsão foi preparado para entrar em funcionamento. Os homens
dos postos de artilharia receberam ordens de redobrar a vigilância.
Os homens que se encontravam no interior das jaulas gradeadas dos
transmissores instalaram-se o mais confortavelmente que puderam.
A dor
provocada pela transição foi ligeira e perfeitamente suportável. O
quadro surgido na tela sofreu uma modificação repentina. A
luminosidade vermelha tornou-se mais intensa e mais escura, e a boca
de um gigantesco funil de descarga parecia a de um monstro, tentando
devorar a pequena Califórnia. A tremenda figura trêmula e
incandescente parecia precipitar-se sobre o cruzador. As paredes
vermelhas pulsavam, enquanto se processava a compensação
energética. Bem ao longe, a abertura do funil se estreitava,
transformando-se num ponto luminoso. A luz, que fazia brilhar esse
ponto, vinha de outro mundo. O ponto era a fronteira entre dois
universos. Quem o ultrapassasse estaria na dimensão temporal dos
druufs.
Conrad
Deringhouse inclinou-se para a frente, puxou a porta gradeada e
fechou-a. Gucky e Ras Tschubai seguiram seu exemplo. O estalo das
fechaduras era o único som que se ouvia em meio ao silêncio tenso
da sala de comando.
Deringhouse
fechou o capacete do traje protetor, colocou a mão sobre o pequeno
painel de controle, que ficava à direita do assento, e comprimiu o
botão que acionava o sinal do transmissor colocado na outra
extremidade da trajetória de salto, no subterrâneo da base de
Hades. Esse sinal significava que um salto era iminente. Deringhouse
sabia que o transmissor de Hades era vigiado ininterruptamente.
Dentro de alguns segundos devia iluminar-se o sinal de confirmação,
indicando que o operador estava atento e que o aparelho achava-se
pronto para receber o objeto do salto.
Esses
poucos segundos quase bastaram para condenar a operação ao
fracasso.
A voz de
Clyde Ostal e as sereias de alarma soaram ao mesmo tempo. Sobre a
superfície verde da grande tela de observação, viu-se o rastro de
um ponto luminoso que avançava em direção ao centro. Outros pontos
surgiram na extremidade inferior esquerda e também se dirigiram ao
centro. A Califórnia estava cercada por naves arcônidas. Estas já
haviam localizado o cruzador terrano, e dispuseram-se a verificar
qual era o objeto provocador do reflexo em seus aparelhos de
localização. O alcance dos aparelhos inimigos era de um milhão de
quilômetros.
Concluía-se
que a nave arcônida, que primeiro localizou a Califórnia, não
podia encontrar-se a uma distância maior que esta. E isso
significava que a mesma chegaria dentro de alguns segundos.
Clyde
Ostal interrompeu o ruído estridente das sereias de alarma, a fim de
poder comunicar-se com os tripulantes. As ordens foram lacônicas e
precisas. Os postos de artilharia da Califórnia obtiveram a
liberação do fogo, enquanto a tripulação se preparava para outra
transição.
Conrad
Deringhouse encontrava-se no interior de seu transmissor, aguardando
o sinal verde expedido pelo outro aparelho. Estava com a mão pousada
na chave que executaria o transporte, assim que o caminho estivesse
desimpedido. Olhou pelas grades de sua jaula e viu que Ras Tschubai e
Gucky também aguardavam com enorme tensão o momento decisivo.
O que
estaria acontecendo com o sinal? A Califórnia abriu fogo. O campo
antigravitacional absorveu prontamente o choque de aceleração
provocado pelo recuo dos canhões de impulsos. Uma pessoa não
familiarizada com a nave não acreditaria que os canhões haviam
disparado. A única prova do disparo era um pontinho luminoso branco
que subitamente surgiu na tela, contrastando com o negrume do espaço.
Uma das naves arcônidas fora atingida.
— Se o
sinal não chegar dentro de dez segundos, desapareça — gritou
Deringhouse.
Clyde
Ostal confirmou com um gesto, sem olhar para Deringhouse. Tinha os
olhos pregados na tela verde do aparelho de localização, que
constantemente mostrava os reflexos de outras naves arcônidas.
Conrad
Deringhouse contou mentalmente os segundos:
“...
cinco... seis... sete...”
Conrad
Deringhouse tirou a mão de cima da chave.
O sinal
não chegaria antes que a situação da Califórnia se tornasse
crítica. Um único disparo de radiações do inimigo atingiu os
campos defensivos do cruzador terrano e fez com que estes se
iluminassem.
No mesmo
instante, a luz verde acendeu-se!
A mão de
Deringhouse estava apenas a alguns centímetros da chave. Deixou-a
cair para a frente e gritou:
— Já
não estamos aqui!
Depois
moveu a chave, que cedeu com um clique. Naquele instante, a sala de
comando da Califórnia desapareceu para Conrad Deringhouse e os dois
mutantes.
*
* *

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