quinta-feira, 18 de agosto de 2016

P-077 - Nas Algemas da Eternidade - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
MARIA M. WÜRTH TEIXEIRA



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN



Extraviado no tempo por 70 anos...
reencontra o rumo da Terra.



O Robô Regente mobilizou o tremendo poder ofensivo do reino estelar arcônida!
Milhares de espaçonaves de todos os tipos, tripuladas principalmente por robôs, postaram-se perto da zona de superposição, isto é, na faixa fronteiriça entre o espaço relativista e o Universo dos druufs.
A batalha entre as duas superpotências galácticas pende ora para um lado, ora para outro. Às vezes, é a frota do regente que consegue penetrar no Universo estranho; depois são as naves dos druufs que avançam com êxito para o espaço relativista.
Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, desempenha “papel duplo” neste conflito de gigantes.
Resta ver se este jogo duplo beneficiará ou não a Terra. Mas, desde já, um fato é certo: entre os druufs existe um ser que tomou o partido de Perry Rhodan — um ser Nas Algemas da Eternidade...




= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

AtlanO arcônida imortal.

Reginald BellMelhor amigo e colaborador de Rhodan.

HarnoO misterioso ser-bola.

Tommy 1Porta-voz dos druufs.

GuckyO rato-castor mutante.

OnotFísico dos druufs ou...


1



Distante 6.500 anos-luz da Terra, o planeta apresentava semelhanças com Mercúrio. Principalmente quanto à gravidade, de 0,35G, e à característica de voltar sempre a mesma face para a estrela-mãe. O que lhe conferia perenemente um gélido lado noturno, e uma escaldante face diurna. Só um cinturão crepuscular de 80 quilômetros de largura delimitava o frio absoluto do espaço da zona tórrida, e era açoitado por tempestades de inaudita violência.
No entanto, um simples olhar bastava para constatar que ali acabava a semelhança com Mercúrio: o sol do sistema Siamed era formado por uma estrela dupla. Em torno da rubra estrela principal, gravitava outra, verde. E, ao redor do centro gravitacional comum dos dois sóis, giravam 62 planetas, cada qual com uma infinidade de luas, que por sua vez também contavam com satélites.
Um destes planetas era Hades, o que se parecia com Mercúrio.
Por mais inóspita que fosse sua superfície, e por mais que distasse da Terra, em Hades havia vida. Secreta e clandestina, no entanto; abrigada em gigantescas cavernas subterrâneas, escavadas na rocha por possantes radiadores energéticos. A estação receptora do transmissor de matéria despejava nelas um incessante fluxo de armas e material.
No seio do planeta Hades, estava sendo instalada uma base de Perry Rhodan.
A menos de uma hora-luz do mundo natal do mais impiedoso dos inimigos... Pois Hades era o 13o planeta do sistema estelar gêmeo Siamed, cujo 16o planeta se chamava Druufon.
Druufon, sede principal de um povo verdadeiramente estranho, os druufs!

* * *

Perry Rhodan fitava impassível a tela que lhe mostrava a superfície daquele mundo infernal. Ali, na central de controle da base, ouvia-se o leve zumbido dos geradores, fabricando a energia necessária para o condicionamento do ambiente. Dentro do recinto, o ar era fresco, sem ser frio demais. O liso piso metálico vibrava quase imperceptivelmente. Nas profundezas da rocha, os infatigáveis microtécnicos trabalhavam em suas oficinas; preparavam um sistema de camuflagem eletrônica para envolver o planeta numa rede protetora pentadimensional. Esta impediria a passagem de qualquer abalo na estrutura espaço-temporal, passível de ser detectada pelos druufs. Pois também o transmissor de matéria emitia ecos reveladores, agora interceptados e abafados pela rede defensiva.
Sei o que o preocupa, Atlan — começou Rhodan. — Receia que os druufs se tornem poderosos demais caso não intervenhamos, continuando a permitir a destruição das naves atacantes de Árcon. Não, não fale ainda! Deixe-me terminar, Atlan. O robô regente de Árcon, nosso velho e persistente inimigo, sofre revés sobre revés. Emite incessantes pedidos de socorro, solicitando ajuda nossa. Até agora mantivemos as armas ensarilhadas, deixando-o enfrentar sozinho os druufs. Por motivos estratégicos, almirante! Mais um ou dois meses, e Árcon estará tão enfraquecido que os druufs simplesmente inundarão o Império, e com ele, nossa Galáxia.
Recostado contra a parede, de braços cruzados ao peito, o imortal fitava os frios olhos cinzentos de Rhodan. Ele, o antigo arcônida de dez mil anos de idade, descendente da extinta dinastia reinante, ficou repentinamente amedrontado com a calma de Rhodan.
Exagera seu jogo estratégico, bárbaro — disse lenta e incisivamente. — Admiro os homens e sua capacidade de resolver qualquer situação, porém receio que subestime os druufs. Algum dia encontrarão meios para derrubar o regente...
Com o que nos facilitariam a tarefa — observou Rhodan, sorrindo abertamente. — Mas saiba que suas preocupações são injustificáveis; jamais permitirei que as coisas cheguem a este ponto. Os druufs nunca sairão de seu Universo, a fim de avançar para nossa Galáxia. A única via de acesso é a zona de descarga entre nossa dimensão temporal e a deles, zona que acompanha a Via Láctea com metade da velocidade da luz. Por quanto tempo ainda...? No entanto, a frota bélica de Árcon monta guarda diante desta fenda no Universo, poupando-nos tal tarefa. De onde se conclui, obviamente, que tanto os druufs quanto os arcônidas nos prestam um favor. Que mais poderíamos querer?
Não deve enfraquecer demasiado o regente — lembrou Atlan. — Os druufs são nossos piores inimigos.
Rhodan sabia que Atlan tinha razão. Mas preferiu manter-se na expectativa ao surgir ocasião de passar de um Universo a outro, sem recorrer a recursos técnicos, e ver as naves dos druufs e arcônidas se encarniçarem umas contra as outras diante da zona de descarga. Despercebidamente postado com sua frota de guerra terrana entre os dois adversários, presenciava, impassível, o espetáculo da destruição mútua.
Em breve responderemos os apelos do regente — assegurou ele.
Atlan suspirou, aliviado.
O cérebro-robô não nos recusará um acordo honesto caso ajudemos Árcon a rechaçar os invasores. Unidos ao atual governante de Árcon, poderemos repelir os druufs.
Rhodan não deu resposta. Olhava para a porta, por onde acabava de entrar um homem, trajando o uniforme verde-pálido de tenente da frota espacial do Império Solar.
Sir, a Drusus está pronta para decolar! — comunicou ele.
Rhodan agradeceu.
Está bem, Tenente Potkin. Vou empreender um vôo de observação com Atlan e alguns mutantes; iremos até Druufon. Aguarde nossa volta para daqui a algumas horas.
Virando-se para Atlan, indagou:
Pronto, almirante?
Há dez mil anos, Atlan ocupara o posto de almirante na frota espacial arcônida, muito antes de alcançar a imortalidade, e repousar por longo tempo numa cúpula pressurizada no fundo do Atlântico, à espera de que a Humanidade progredisse o suficiente para estender a mão às estrelas. Aliara-se a Rhodan ao saber que seu império galáctico já não era mais governado por arcônidas autênticos, e sim por um gigantesco cérebro positrônico.
Pronto! — confirmou Atlan.

* * *

A Drusus, esfera espacial de quilômetro e meio de diâmetro, emergiu do hangar subterrâneo e lançou-se para o céu negro de Hades. A atmosfera rala permitia a coexistência da luz do sol gêmeo e das estrelas. Vendavais de inimaginável violência uivavam sobre a paisagem escarpada, equilibrando as diferenças de pressão entre as duas metades contrastantes do planeta.
Diante dos controles da gigantesca nave, o Coronel Sikermann conduzia-a com mão firme espaço a fora, rumo ao ponto matematicamente calculado da transição. Um curto salto os deixaria nas proximidades de Druufon.
O vôo não seria puramente de observação. O principal objetivo de Rhodan era tentar mais uma vez obter contato com o amigo desconhecido, que vivia entre os druufs.
Tratava-se de um fato curioso. Impulsos telepáticos lhes haviam invadido os cérebros durante a estadia em Druufon. Não havia dúvida de que provinham do corpo de um druuf. No entanto, o indivíduo em questão, físico-chefe de sua raça, nada sabia a respeito. Logo, dois espíritos residiam em seu corpo!
O rato-castor Gucky, um dos mais capazes mutantes de Rhodan, defrontara-se com o druuf, tentando em vão esclarecer o mistério. Nem mesmo Harno, o ser feito de energia — descoberto pelo sargento Harnahan há sessenta anos, e agora resgatado por Rhodan — sabia o que fazer.
Não sei quem sou! — sinalizara o desconhecido ajudante. — Mas conheço você, Perry Rhodan! Meu espírito está desprovido de corpo, e vaga pela eternidade desde tempos imemoriais; de mundo para mundo, de raça para raça, para achar o que perdeu há anos ou há milênios. Presenciei o início de todos os tempos, e vi os horrores do momento final. Todos os sóis calcinados e apagados. E com eles apagou a vida...
De onde me conhece? — perguntara Rhodan.
Não sei... eu não sei!
E depois os impulsos mentais cessaram. Resultaram inúteis todos os esforços enviados para retomá-los. Mas ainda houve um aviso final:
Abandonem o sistema dos druufs! Torno a manifestar-me...
Posteriormente, quando se discutia a possível identidade do misterioso ser, Rhodan se envolvera em silêncio. Sabia que não havia resposta.
Ocultava cuidadosamente sua própria opinião, pois seria fantástica demais. Mais do que isso, chegava a ser rematada loucura!
Sikermann, comandante da Drusus, comunicou com voz calma:
Transição em dez segundos, Sir!
Ninguém respondeu. Atento, Rhodan fitava a tela, na qual veria o planeta dos druufs após o hipersalto. Um mundo duas vezes maior que a Terra, de atmosfera respirável, e gravidade dobrada em relação à terrestre. Vinte e uma luas contornavam Druufon.
Salto!
E Druufon!
O planeta estava a menos de um minuto-luz. A Drusus reduziu rapidamente a velocidade, e entrou em órbita. Os anteparos protetores, ligados, anulariam qualquer tentativa de ataque por parte dos druufs.
Porém os druufs tinham outras preocupações no momento. Continuavam a repelir o incessante avanço das naves do robô regente, já menos intenso, mas ainda em andamento.
Agora, só algumas poucas naves robotizadas conseguiam romper o bloqueio e penetrar na dimensão temporal dos druufs. Quase todas eram aniquiladas imediatamente.
A Drusus traçava suas órbitas sem ser percebida. Mesmo que fosse, ninguém se preocuparia. Os druufs sabiam que não seriam agredidos pela nave de Rhodan.
Gucky espreguiçava-se no sofá da central de comando, de costas para a parede, acocorado sobre as patas traseiras, e com a larga cauda de castor enrolada nelas. De olhos cerrados, parecia ouvir seu íntimo. Ninguém o perturbava, pois todos sabiam que tentava obter contato com o amigo desconhecido.
Junto ao teto flutuava Harno, o ser encontrado no sistema de Tatlira. Suas incríveis qualidades representavam sempre novo enigma, porém, até então, ninguém ousara fazer a menor tentativa para decifrá-las. Harno, que escolhera tal nome em memória do sargento Harnahan, seu primeiro amigo humano, afirmava ter cinco milhões de anos, e ser feito de tempo e energia. Comunicava-se através de telepatia e servia de “televisor”. Sua superfície esférica era capaz de mostrar qualquer ponto do Universo.
Rhodan sacudiu a dor provocada por toda transição. Seu olhar pensativo deteve-se sobre Atlan, sentado ao lado de John Marshall. Também ele contemplava atentamente a tela.
Harno, pode ver Onot?
Onot era o nome do físico-chefe em cujo corpo se abrigava o amigo desconhecido.
A resposta veio sob a forma de silenciosos impulsos, captada igualmente por não-telepatas.
Vejo Onot, mas ele pensa como Onot.
Faça-o aparecer — pediu Rhodan.
Harno, a bola negra do tamanho de uma maçã, desceu lentamente e foi aumentando gradativamente, até medir meio metro de diâmetro. E não foi só a forma que sofreu alteração; a superfície até então preta e opaca, reluzia agora num branco, igual a uma tela de verdade.
Reflexos coloridos relampejaram, ordenaram-se e formaram imagens discerníveis. Reprodução exata do que ocorria naquele instante a um minuto-luz dali.
Diversos druufs moviam-se lenta e pesadamente por entre as imensas instalações técnicas. Geradores e aparelhos dividiam em verdadeiras ruelas o vasto recinto, abrigado no subsolo.
Os druufs eram figuras estranhas, o que no entanto conferia certa naturalidade aos movimentos duas vezes mais vagorosos de sua dimensão temporal. Mediam três metros de altura, sua cabeça redonda possuía quatro olhos, e boca triangular. Orelhas, nariz e cabelos não existiam. A pele coureácea e lisa parecia ser bastante espessa. Comunicavam-se por meio de transmissores-receptores orgânicos. Com o auxílio de complexos aparelhos tradutores, a comunicação se tornava possível entre druufs e terranos.
Os druufs mostrados por Harno pareciam ocupados em importante tarefa. Obedeciam às silenciosas instruções de um exemplar particularmente robusto, de pé sobre um tablado erguido diante do painel de controle.
Que fazem? — indagou Rhodan.
Gucky respondeu:
Não entendo muito bem, mas conheço o aparelho que manejam. Trata-se do gerador que produz o campo de congelamento de tempo. A maior e mais poderosa arma dos druufs, quando estiver disponível para uso.
O congelador de tempo... — murmurou Rhodan, baixinho. — Ainda em estágio experimental, sem condições de influir sobre a situação presente. Foi por isso que votei contra sua destruição. Quem sabe da utilidade que poderia ter para nós no futuro...
Gucky tornou a concentrar-se, tentando captar os pensamentos daqueles druufs tão distantes. Harno ajudava, sem que ele percebesse, catalisando os débeis impulsos dos druufs.
Estão entregues a importante experiência. Todos estes druufs são cientistas, e pouco se interessam pelo que sucede na superfície de seu planeta. Sua preocupação é outra. São indiferentes a problemas políticos, apesar de saberem que seu trabalho tem finalidade bélica. No entanto, representa a única maneira de satisfazer-lhes a curiosidade científica.
Conheço um caso semelhante... — interferiu Atlan, ao fundo. — Não era o pretexto favorito de seus cientistas atômicos há alguns decênios, bárbaro?
Sem dúvida, almirante! — concedeu Rhodan. — No entanto, pensando bem, parece-me mais aceitável do ponto-de-vista ético do que confessar abertamente que trabalham para a guerra; qualquer cientista se revoltaria se fosse obrigado a dizer que o resultado de suas pesquisas não tem outra finalidade!
Como em Árcon! — confirmou Atlan, dando-se por vencido. — Chego a crer que você tem razão.
O druuf “gordo” é Onot — informou Gucky. — Posso captar claramente seus pensamentos. Mas ele pensa só em sua invenção. Portanto, presentemente não possui a menor identidade com nosso amigo.
Conforme eu temia — disse Rhodan. — Confesso que, apesar disso, eu contava com algum efeito da irradiação sofrida no campo de tempo. Lamentavelmente, parece não ser o caso.
O Coronel Sikermann, até então calado, ia dizer qualquer coisa, mas foi subitamente interrompido pelo brilho de uma lâmpada vermelha. Estendeu automaticamente a mão para estabelecer contato com a central radiofônica. A voz do Tenente David Stern, chefe de rádio da Drusus, disse:
Mensagem secreta para Perry Rhodan, Sir. Hiper-rádio e em código.
Sikermann olhou indeciso para o sistema de alto-falantes e para a luz vermelha, depois voltou a cabeça para captar o olhar de Rhodan. Não sabia que atitude tomar.
Rhodan deu um pulo na poltrona. Sua mão avançou para perto da de Sikermann, e calcou uma tecla.
Tenente Stern! Grave a mensagem em fita. Não tente decifrá-la. Estarei aí num minuto. Entendido?
Entendido, Sir! — veio a resposta.
Gucky olhou para Rhodan.
Que será que eles querem?
O rato-castor sabia que hiper-rádio só poderia significar Fera Cinzenta — a base a vinte e dois anos-luz — ou a Terra.
Puxa, agora fiquei curioso!
Rhodan não estava menos curioso, porém não o demonstrou.
Continuem observando Onot — disse a Gucky, Harno e Marshall. Dirigindo-se a Atlan, acrescentou: — Vou ver o que há.
Atlan permaneceu sentado. Seria difícil deixar de perceber a discreta sugestão de ficar onde estava. Seu olhar pensativo acompanhou Rhodan.
Será que ele estava esperando essa mensagem?”, indagou-se mentalmente.
Cerca de duas semanas antes, Rhodan fizera uma observação relacionada com o enigmático amigo que vivia no corpo de um druuf. Aquele espírito — ou o que quer que fosse — inquietava Atlan. Além disso, interessava-o ardentemente.
Quais haviam sido mesmo as palavras de Rhodan na ocasião?
Creio saber quem é nosso amigo...
Atlan refletira longamente sobre aquilo. A quem poderia estar se referindo Rhodan? Afinal, nenhum membro do corpo de mutantes andara vagando durante milênios pela eternidade, e nem um só estava extraviado.
A inquietude tomou conta de Atlan, impedindo-o de concentrar-se nos problemas mais urgentes do momento.
Harno voltou a ser pequenino e negro. Alçou-se lentamente para o teto, na habitual posição de repouso.
Gucky continuou alerta, porém parte de suas atenções seguiam Rhodan, que chegara à central radiofônica e falava com David Stern. Porém, então, repentinamente, os impulsos mentais de Rhodan se apagaram. Blindara os pensamentos, adivinhando a indiscreta curiosidade de Gucky.
Decepcionado, o rato-castor voltou a sua tarefa. Certamente viria a conhecer, no devido tempo, o conteúdo da misteriosa mensagem endereçada a Rhodan.
Cinco minutos depois, Rhodan retornava à central de comando, mostrando-se profundamente pensativo. Nos olhos cinzentos brilhava uma luz estranha. Cruzou com os olhos de Atlan, e desviou intencionalmente os seus.
Gucky indagou:
Qual foi a mensagem? Era de Fera Cinzenta?
Rhodan sacudiu a cabeça.
Da Terra, então?
Rhodan acenou.
Algo errado? — insistiu Gucky, persistentemente.
Em vão tentava romper a barreira colocada em torno do cérebro de Rhodan.
Não perca tempo, Gucky — disse este, por fim. — Você não saberá de nada, enquanto eu não quiser. A mensagem veio num código que apenas eu conheço. Além de nosso amigo Mercant, na extremidade oposta do hiper-rádio, naturalmente. Lá na Terra...
Mercant!? — exclamou Gucky, interrogativo.
Allan D. Mercant era chefe do Serviço Solar de Segurança. As mensagens dele tinham sempre importantes significações. E Rhodan devia ter suas razões para não comentá-las.
Rhodan olhou para a tela, onde ainda figurava Druufon.
Nenhum sinal do desconhecido, Gucky?
Foi com relutância que o rato-castor respondeu:
Não, nenhum sinal de nosso amigo-fantasma. Pelo jeito, não quer mais nada conosco. Senão já teria “falado”...
Bem, não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — explicou Rhodan, batendo no ombro de Sikermann. — Rume para Hades, comandante! Dali saltaremos para Fera Cinzenta, de onde faremos uma pequena excursão. Atlan, Gucky e Harno irão comigo.
Atlan olhou para John Marshall antes de adiantar-se e parar diante de Rhodan.
Não acha que já basta de mistificações? Quando é que vai se dignar a nos dar a informação?
Rhodan encarou-o. Um fugaz sorriso iluminou-lhe o rosto magro, desaparecendo rapidamente.
Claro que vocês têm direito a isso, mas não quis aborrecê-los com suposições. Como estas foram confirmadas pela mensagem de Mercant, precisamos ir à Terra. Lá aconteceu algo que ninguém mais esperava.
O quê? — quis saber Gucky.
Atlan não conhece o caso, portanto não compreenderia, Gucky. Para que ele possa ter um entendimento dos fatos, teremos que retornar a um passado muito remoto, isto é, ao tempo em que ele ainda repousava no fundo do oceano, aguardando uma época mais favorável... Foi então que isso aconteceu...
Naquele tempo também eu ainda não morava na Terra — disse Gucky. — E não conhecia você.
Rhodan acenou. Quase esquecera tal detalhe.
Mais uma razão para não complicar a situação. Vou fazer-lhes um relato detalhado, quando voarmos para a Terra. Sikermann, para Hades! Ainda preciso fazer alguns preparativos lá. Deixarei Bell como meu substituto.
Ele vai ficar bem chateado com isso! — comentou Gucky, maliciosamente.
Talvez nem tanto! — replicou Rhodan, secamente, enquanto a Drusus manobrava para sair da órbita, e tomar o curso de Hades. — Tenho até certeza de que ele não vai se aborrecer nem um pouquinho, Gucky! Bell sempre teve pavor de fantasmas. E nós vamos para a Terra a fim de visitar um fantasma!
Gucky fitou Rhodan espantado, depois cerrou os olhos como se quisesse dormir. Sabia que por ora não obteria mais nenhuma informação.
Atlan continuou calado.
Também sabia que, no momento, seria inútil insistir com Rhodan.
Porém adivinhava que o amigo desconhecido em Druufon tinha algo a ver com o “fantasma”.

* * *

Instantes depois, a Drusus cruzou velozmente a zona de descarga. Antes tiveram de romper a linha de unidades dos druufs em prontidão, sem atentar para os sinais radiofônicos que os intimavam a dar meia-volta. Depois atravessaram pelo meio da frota de guerra do regente. Novamente Rhodan não obedeceu aos chamados, ignorando totalmente as naves robotizadas. Alguns disparos energéticos resvalaram pelos anteparos protetores, e a seguir a Drusus entrou em transição. As estrelas e as naves do robô regente desapareceram.
Apenas as estrelas tornaram a reaparecer, mas então a Drusus se encontrava a vinte e dois anos-luz do local dos acontecimentos. O sétimo planeta do sistema Mirta, também chamado Fera Cinzenta, acolheu-os. Por poucas horas, no entanto, pois Rhodan não tardou a levantar vôo novamente.
Desta vez, rumo à Terra.
E, ainda enquanto aguardavam o momento de atingir a velocidade da luz, Rhodan começou a falar, trazendo para o presente um passado de há muito olvidado...
Gucky e Atlan escutavam tensos.
Um relato tão inacreditável, que os dois ouvintes quase esqueciam de renovar o ar dos pulmões.
E, lá no teto, flutuava Harno, o estranho ser, composto de tempo e energia. E Harno escutou igualmente a história narrada por Rhodan.


2



O relato de Rhodan teve início com a Terceira Potência, que posteriormente deu origem ao Império Solar. Há cerca de setenta anos, em fevereiro de 1.972. Perry Rhodan organizava seu Exército de Mutantes. Em toda a parte do mundo, devido às explosões atômicas efetuadas, as características hereditárias dos recém-nascidos sofriam alterações, fazendo nascer pessoas dotadas de capacidades anormais. Surgiram telepatas, telecinetas, teleportadores, teleóticos, teleauditivos, videntes e hipnos.
E apareceu um homem chamado Ernst Ellert.
Ellert era um mutante cujos poderes ultrapassavam tudo que a imaginação humana pudesse conceber. Enquanto seu corpo descansava, o espírito podia sair do organismo em repouso e invadir o território desconhecido do tempo. Desta forma, foi ao futuro, regressando com a ciência dos fatos ainda por acontecer. Talvez fosse o que se costuma denominar de vidente; porém, na realidade, era muito mais do que isso. Rhodan classificou-o de teletemporário ou teletemporador.
E certo dia se deu a desgraça.
No decorrer de uma experiência, Ellert sofreu tremendo choque elétrico, e morreu instantaneamente.
Morreu, mas não estava morto!
Seu espírito — ou sua alma — deixara o corpo e vagava sem rumo pelo futuro e pelo passado; no entanto o corpo sem alma não apresentava o menor sinal de decomposição. Apesar da ausência de palpitações cardíacas, o sangue continuava morno. A temperatura corporal não sofreu alteração.
Pessoa alguma sabia explicar o ocorrido. O espírito de Ellert não retornou ao presente. Não achou mais seu corpo. Tudo que se poderia supor era que se extraviara na eternidade.
Mas, caso ainda regressasse algum dia, e não encontrasse mais seu corpo?
Rhodan encontrara solução para esta possibilidade.

* * *

Nos arredores de Terrânia, então ainda chamada Galáxia, os robôs operários tinham concluído a tarefa constante da programação recebida. A galeria aprofundava-se a cinqüenta metros na rocha viva do deserto de Gobi. O revestimento esmaltado das paredes, duro como aço, garantia para todo o sempre a perfeita impermeabilidade. Nem uma só gota de água se infiltraria na galeria.
No fundo, Rhodan mandou escavar um recinto quadrangular provido de aparelhos produtores de oxigênio, material de informação, instruções, e reservatório de energia. Um sistema de alarme automático — aperfeiçoado nos anos subseqüentes — assegurava o aviso imediato, caso Ellert retomasse posse de seu corpo algum dia.
No meio da câmara fúnebre, de quatro por quatro metros, havia um leito, acoplado ao complexo sistema de alarme. Bastava respirar uma vez dentro da câmara para fazê-lo entrar em funcionamento. Sobre o leito repousava o corpo de um homem.
Era Ellert quem jazia sob os instrumentos eletrônicos, com cintas metálicas presas ao pulso esquerdo e aos dois tornozelos. Um capacete envolvia a cabeça. Próximo da boca haviam colocado um espelho, ligado a células de selênio. Um resquício de hálito seria suficiente para ativar todo o sistema de alarme.
O mausoléu mandado construir para Ellert por Perry Rhodan não se equiparava ao de nenhum outro mortal. No entanto — e Rhodan já pressentia isso na época — Ellert não era mortal na acepção comum do termo. Sentia vagamente que algum dia, num futuro próximo ou remoto, tornaria a rever o teletemporário.
Encheram a galeria com uma massa pastosa imediatamente solidificada. Nada no mundo poderia perturbar agora o descanso do morto. E, no entanto, existia um acesso para a câmara fúnebre, conhecido exclusivamente por Rhodan. E mesmo que Ellert acordasse realmente algum dia, não levaria mais de meia hora para livrar-se de sua prisão.
Mas o que encontraria, quando “acordasse”?
Uma terra estorricada por um sol vermelho, tão perto dele que poderia precipitar-se no disco de fogo a qualquer instante? Ou um planeta privado de toda a vida por invasores espaciais?
Absorto em cogitações, Rhodan presenciara o erguimento do marco em forma de pirâmide, que os robôs colocavam sobre o mausoléu.
Depois dera meia-volta, retornando à povoação que seria um dia a mais poderosa cidade da Terra: Terrânia.

* * *

Durante setenta anos, nada aconteceu. Surgiu o Império Solar, e o poder de Perry Rhodan chegou às raias do incomensurável. No entanto, sob a cúpula energética de Terrânia, continuava existindo um recinto onde iam dar os terminais de todos os sistemas de alarme. E uma minúscula lâmpada no imenso painel jamais se acendera.
Sob a lâmpada via-se um nome:
Ernst Ellert.

* * *

Naquele dia, 14 de setembro de 2.043, dava plantão na sala de alarme, conforme era conhecida a central de vigilância, um sargento de nome Stootz.
Stootz não conhecia Ellert, evidentemente, mas conhecia suas obrigações. Estas nada tinham de excitante ou difícil. Resumiam-se em verificar quais das lâmpadas se acendiam no painel.
Não que o sargento fosse um leigo, incompetente para qualquer outro serviço. Pelo contrário! Casualmente era seu dia de plantão, obrigação que tocava, em rodízio, a todos.
Na realidade Stootz era um dos mais competentes técnicos em rádio e eletrônica da seção de telecomunicações. Além de saber que uma das lâmpadas poderia acender, sabia também por que ela acendia. Pois, atrás do painel, aparentemente singelo, se escondia um sofisticado sistema de instalações positrônicas e eletrônicas. Dali, os fios partiam nas mais diversas direções, terminando em geral diante de um hiper-receptor. Mesmo que dessem alarme no sistema solar XY, a milhares de anos-luz, a luzinha correspondente brilharia diante de seus olhos.
E Stootz conhecia a série de providências que deveria tomar em semelhante caso.
Com um gesto, acionou igualmente a sinalização acústica, a fim de assegurar que nenhum eventual alarme lhe escapasse à atenção. Tranqüilizado, abriu um livro e pôs-se a ler.
Em torno dele, reinava a calma da noite incipiente. Apenas da central de rádio vinha um ou outro zumbido, produzido pelos hiper-registradores ou pelo transmissor de imagens. O centro nervoso do Império Solar jamais dormia. Não podia dormir nunca, caso não quisesse mergulhar para sempre no sono da morte.

* * *

A dois quilômetros da galeria de Ernst Ellert, Allan D. Mercant descansava em seu confortável lar.
Mercant conservava a mesma aparência jovem — ou melhor, idosa, mas sadia — de sete décadas atrás. Junto com os mais chegados colaboradores de Rhodan, recebera no planeta artificial Peregrino a ducha celular prolongadora da vida. O cabelo ralo continuava louro, e, em seus olhos, luzia a perene vivacidade que praticamente o predestinara ao posto de chefe da defesa no Império Solar.
Na tela de seu estereotelevisor, evoluía um grupo de bale da ópera russa. Aconchegado numa poltrona, suficientemente afastada para poupar a vista, Mercant apreciava o espetáculo. Não gostava de deitar muito cedo. Só perto de meia-noite seu organismo atingia o estado de fadiga necessário. E então costumava desligar bruscamente o aparelho, às vezes até no meio de um programa, e ia dormir.
Eram onze e meia, agora.
Também na casa de Mercant existia uma terminal das linhas de alarme — desde que não esquecesse de ligar a chave adequada em seu escritório, antes de deixar o serviço no prédio central da administração. Como sempre, tomara tal providência.
Mercant bocejou.
Ah, o cansaço chegando, afinal! — balbuciou.
Por pouco lhe passaria despercebido o estridente som da campainha, ecoando pela casa.
Alarme!
Saltou da poltrona, esquecendo instantaneamente o cansaço.
Algo devia ter acontecido, para que o chamassem em plena noite!
Enquanto se precipitava para seu gabinete, onde estava instalado o aparelhamento de comunicação, passou em revista, mentalmente, as possíveis probabilidades...
Algum problema num recanto perdido da Terra, talvez; se bem que tal hipótese fosse bastante improvável. Ou um inferno desencadeado em algum sistema solar, nos confins do Universo. Por outro lado, o alarme poderia provir do próprio Rhodan — afinal, ele não partira exatamente para um piquenique ao levantar vôo com metade da frota bélica do Império... Sim, as possibilidades eram infindas.
Só não lhe ocorreu a que acontecera agora.
Aproximou-se rapidamente de um aparelhinho embutido no tampo da escrivaninha e calcou um botão.
O vidro fosco iluminou-se imediatamente, mostrando o rosto um tanto perplexo do sargento Stootz.
Fala a central de rádio, sala de alarme, Sir!
Que foi? — gritou Mercant, interrompendo as formalidades regulamentares de introdução. — Por que me acordou?
Todo mundo sabia que Mercant não se recolhia antes da meia-noite, e o sargento Stootz não desperdiçou tempo em protestos.
Alarme, Sir! Faz dez segundos que uma lâmpada vermelha está acesa...
Qual delas, que diabo?
O sargento inclinou-se ligeiramente — movimento que o videofone mostrava claramente — a fim de examinar de perto a luzinha vermelha.
Debaixo da lâmpada só há um nome, Sir: Ernst Ellert.
Mercant teve a sensação de sentir uma mão gelada apertar-lhe o ombro. Conhecia bem o caso do teletemporário desaparecido.
E sabia o que significava o alarme desencadeado no mausoléu!
Suas ordens foram imediatas e precisas.
Acordar imediatamente o professor Haggard e alguns membros de seção médica! Haggard deve procurar-me o mais depressa possível. Iremos ao mausoléu. Depois chame Rhodan pelo hiper-rádio, sistema Mirta ou Siamed, urgentemente. Passe a ligação para cá assim que for feita. Preciso irradiar uma mensagem. A seguir... — hesitou, e concluiu: — É tudo!
Mercant desligou o videofone, e ficou parado, imóvel e rígido. Da sala, vinham os derradeiros acordes da segunda sinfonia de Tchaikovsky.
Depois, o silêncio caiu pesadamente sobre ele.

* * *

Na central de comando da Drusus, depois que Rhodan concluiu sua narrativa, o silêncio falou mais alto. Atento aos controles, Sikermann absteve-se de qualquer comentário; não tirava os olhos das escalas e instrumentos de medida. A Drusus aproximava-se, à velocidade da luz, do ponto de transição.
Encostado na parede, Atlan fitava Rhodan.
Gucky preferiu aguardar. Acocorado de olhos fechados sobre o sofá, parecia dormir. Mas Rhodan sabia que se tratava de puro fingimento. O rato-castor vibrava de excitação.
Discreto como sempre, Harno ocupava seu lugar junto ao teto.
Rhodan percorreu um a um com o olhar.
Pois é, é esta a história de Ernst Ellert. E agora brilha a lâmpada vermelha que anuncia seu retorno. Mercant me avisou sem tardança pelo hiper-rádio. Não sei se chegaremos a tempo em Terrânia, mas temos de tentar... Não pode haver dúvida de que o espírito de Ellert retornou ao corpo depois de setenta anos. Acho que não preciso mais revelar a ninguém o teor de minha suposição...
Atlan levantou os olhos.
Acha que Ellert e Onot são uma só pessoa, não é? — disse, com voz sem expressão.
Rhodan acenou.
Tudo indica que sim, em especial, as alusões feitas por nosso amigo desconhecido. Conhecia-me, sem saber de onde. Dizia-se peregrino da eternidade, testemunha visual do começo e do fim do mundo. Ellert podia viajar no tempo... mais uma coincidência. Não, não duvido mais; por fim achamos Ellert...
...ou ele nos achou! — emendou Gucky. Sua voz clara tinha um acento peculiar. — Ele deve ter estado à nossa procura.
É bem possível — concordou Rhodan, percebendo que Sikermann dava início à transição.
A primeira dor das ondas de choque percorreu-lhe o corpo. Depois disso, nada mais se sentia. E quando tornaram a olhar para a tela, ela mostrava o sistema solar terrestre.
Aterrissar era questão de rotina.
Mal trocaram algumas palavras enquanto a Terra crescia, preenchendo por completo a tela. Com leve solavanco, a imensa nave tocou o solo.
Tinham chegado ao destino.
Rhodan desembarcou com Atlan e Gucky, colocando disfarçadamente Harno no bolso da túnica.
Mercant veio-lhes ao encontro. Parecia exausto. O sol acabava de apontar ao leste, e ele não dormira um único minuto na última noite.
Bem-vindos à Terra! — exclamou, estendendo a mão aos homens. Depois abaixou-se e cumprimentou também Gucky. — Felizmente não chegaram tarde demais. Por enquanto não aconteceu nada.
Era o que Rhodan queria saber. Suspirou, aliviado, e embarcou no veículo providenciado para a viagem até o mausoléu. Este fora judiciosamente erigido no coração do deserto, a uma segura distância da expansão imobiliária de Terrânia. Jamais poderia ser engolfado pelas novas construções.
Enquanto paredes passavam em disparada à direita e à esquerda, e o veículo estendia as asas para fora da fuselagem, a fim de subir obliquamente, Mercant sumariou a situação, em frases curtas e concisas.
Haggard aguarda junto ao mausoléu, com toda sua equipe; mas por ora, nada aconteceu. A luz de alarme continua acesa. Nenhuma alteração na pirâmide. O concreto protetor parece continuar intato.
Rhodan acenou. Conferia mais ou menos com o que esperara, sem ter completa certeza. De qualquer forma, caso suas suposições fossem corretas, ainda era cedo para Ellert retomar posse do próprio corpo.
A cidade foi se distanciando. Abaixo do planador, desfilava velozmente a monótona área desértica. Por fim surgiu no horizonte a esbelta silhueta do obelisco, nitidamente delineada contra o céu da manhã.
O mausoléu!
O planador perdeu altura rapidamente, e pousou a menos de vinte metros da reluzente pirâmide metálica. Um grupo de homens acorreu; por trás deles, via-se uma camioneta com a insígnia da Cruz Vermelha.
Também o professor Haggard pertencera ao grupo beneficiado por Rhodan com a ducha celular, durante a estadia no planeta Peregrino. Seu vulto magro adiantou-se, um tanto curvado; fato, no entanto, sem relação alguma com sua idade real.
Estendeu a mão a Rhodan, dizendo:
Nossa vigília se revelou infrutífera!
Cumprimentou também Atlan e Gucky, que saiu imediatamente gingando em direção da pirâmide.
Rhodan percebeu o ligeiro tom de ceticismo na voz do médico, sentimento bastante compreensível. Qualquer pessoa normal se sentiria cética ao escutar a história de Ellert.
Eu não esperava outra coisa — replicou, contemplando pensativo a pirâmide. Atlan e Gucky faziam o mesmo. — No entanto, creia-me, Ellert não tardará a reaparecer. Talvez já daqui a poucos dias.
Haggard não se convenceu.
Sabe que sou um cientista, Perry. Portanto, desconfiado por natureza. Não posso crer que um organismo enterrado há setenta anos volte à vida.
Sabe tão bem quanto eu que Ellert não morreu realmente. Foi você mesmo quem o examinou, juntamente com Manoli, naquela ocasião. Porventura encontrou explicação para o fenômeno?
Não, nenhuma... — concordou o médico, com relutância. — Evidentemente que não! Mas sete décadas é tempo demais...
Não para quem viu a eternidade de perto! — disse Rhodan, encerrando a inútil discussão.
Seu olhar deteve-se absorto sobre a pirâmide, cujo cume começava a dourar-se aos primeiros raios do sol.
Sabia como chegar às profundezas do mausoléu sem danificar a camada de concreto. Sentiu certo constrangimento diante da perspectiva de penetrar na câmara fúnebre, mas depois o raciocínio lógico venceu.
Esperem aqui, vocês todos — disse. — Quero apenas Atlan por companhia.
Vislumbrou de relance a face ansiosa de Gucky, e sacudiu quase imperceptivelmente a cabeça. Sua mão direita cerrou-se em torno de Harno dentro do bolso.
Deveria levá-lo?
Resolveu que sim.
Avançou alguns passos, seguido por Atlan, detendo-se diante das altas e lisas paredes da pirâmide. Com a mão esquerda, alisou o metal frio. Passou-a de um lado a outro repetidas vezes. Por um momento, parou. Depois fez mais uma leve pressão e, a cinco metros da base do monumento, uma placa deslizou no chão do deserto.
Mercant praguejou baixinho ao presenciar a cena. Nem sequer suspeitava da existência de uma entrada secreta; muito menos que fosse conhecida por Rhodan.
Este lhe acenou amistosamente, como se tivesse adivinhado os pensamentos do amigo. Depois segurou o braço de Atlan, conduzindo-o para a abertura surgida no solo rochoso. Uma íngreme e iluminada escada levava ao fundo.
Rhodan tivera que revelar seu segredo, fato que, agora, já não lhe importava. Sabia que em breve a pirâmide teria cumprido sua função. Tomou a frente, e Atlan seguiu-o, sem hesitar.
Os dois homens, que algum dia poderiam dominar o Universo, desciam ao encontro de um morto que não estava morto, e tinha muito a lhes dizer.

* * *

Ao “morrer”, recebendo em cheio uma descarga de milhares de volts, Ernst Ellert não perdeu a consciência um só instante. Sentiu tremenda dor, porém apenas por uma fração de segundo. Depois foi lançado fora de seu corpo, projetado para a intemporalidade do espaço sem fim. Tudo a seu redor mergulhou no vazio infinito, sem começo nem fim.
Redemoinhos coloridos vinham em sua direção e tornavam a afastar-se. A despeito de não possuir mais ouvidos, escutou estranhas melodias eletrônicas. Todas estas impressões iam e vinham ritmicamente, como se tivesse caído no seio de um Universo em pulsação.
Flutuava no nada absoluto, e uma vez pareceu ver passar ao longe um sol rodeado de planetas. Vias lácteas giravam lentamente em espiral, ficando para trás no espaço.
A própria eternidade parecia encolher.
E depois mergulhou na corrente do tempo, em velocidade sempre crescente. Perdera por completo o contato com o elemento que até então julgava dominar. Desamparado, precipitava-se num infinito que já não podia ter relação alguma com matéria. O presente ficou para trás, longe, longe...
Nada podia deter sua queda para o futuro.
Bruscamente sucedeu a primeira encarnação. Tão rápida e inesperada que caiu ao sentir o próprio peso — ou melhor, o peso do ser em cujo corpo penetrara.
O espírito lançado ao mais remoto futuro encontrara nova morada, porém o corpo que o abrigava não era humano. O ente tinha quatro patas, e escassa inteligência. Ao lado dela, o intelecto de Ellert pôde acomodar-se facilmente.
Conseguira até conversar com o ser. Chamava-se Gorx, e informou que também seu planeta se chamava Gorx, assim como o sol e o Universo. Tudo tinha o nome de Gorx, porque naquele mundo existia um único Gorx.
Ellert procurou concentrar-se, e o inacreditável aconteceu: podia abandonar o corpo de Gorx. Ainda viu o vulto lerdo e peludo engatinhar pelo chão, em direção de uma caverna rochosa.
Não, não seria ali que encontraria resposta para suas perguntas.
Concentrou-se novamente, e disparou para o espaço, que era simultaneamente tempo. Turbilhonou através da corrente do infinito, mas desta vez de volta, conforme lhe provavam as vias lácteas que ultrapassava. Quando parou, estava suspenso no nada.
De que forma orientar-se agora? Não existiam pontos de referência. Era uma gota no mar do tempo. Foi então que Ellert compreendeu que jamais haveria possibilidades de voltar.
Tinha-se transformado em prisioneiro da eternidade.
E a questão crucial não era saber onde se encontrava, mas sim quando... Pergunta aterrorizante, que ninguém podia responder.
E portanto Ernst Ellert, o prisioneiro da eternidade, percorreu milhões de anos em busca do presente...

* * *

O alçapão tornou a fechar-se, com um baque surdo.
Atlan só não estremeceu porque previra o ruído. Além disso, não queria dar a impressão de fraco diante de Rhodan.
Estreita e apertada, a escada parecia levar a um poço sem fundo. Rhodan precedia Atlan, a passos decididos.
Deteve-se diante de uma parede inteiriça, esperando que o amigo o alcançasse.
A câmara fúnebre fica aí atrás, almirante.
Está melhor guardada do que a maior arca de tesouros do mundo — disse Atlan, impressionado.
Rhodan acenou gravemente.
O corpo de Ellert é um tesouro, mesmo desprovido de alma. Mas quando ela regressar...
Deixou a frase incompleta, e pôs a mão sobre a fechadura embutida no metal. O calor de seu corpo, e as vibrações individuais do cérebro ativaram o mecanismo. A porta abriu para um exíguo corredor, em cujo extremo havia outra porta. Esta abriu-se sem dificuldade.
Rhodan entrou na câmara fúnebre um passo adiante de Atlan.
Ernst Ellert achava-se sobre o leito, como se tivesse acabado de adormecer.
O rosto estava um tanto pálido, mas não exangue. Os cabelos escuros e bem ordenados davam-lhe boa impressão. Os olhos estavam fechados, os lábios firmemente cerrados.
Ernst Ellert não respirava. O espelho diante de sua boca não estava embaçado.
Rhodan deteve-se longamente diante do mutante. De pé, a seu lado, Atlan mal ousava respirar, assombrado com o que via. Haviam sido chamados por um morto, e o apelo tinha sido atendido, através de mais de seis mil anos-luz.
Depois surgiram os primeiros impulsos mentais, débeis e tateantes, sondando a consciência dos dois homens. Aos poucos, tornaram-se mais fortes.
Perry Rhodan, você veio? Esperei-o por muito tempo.
Foi um verdadeiro choque para Rhodan, pois desta vez ele sabia quem silenciosamente e por telepatia, lhe falava.
Com voz rouca e comovida, respondeu:
É você, Ernst Ellert! Eu sabia que voltaria algum dia, porém nunca imaginei que demorasse tanto. Ocupava o corpo de Onot, o físico-chefe dos druufs, não é?
Ainda o ocupo, Rhodan! Só pude libertar metade de meu espírito. Porém um dia ficarei totalmente liberto. Mas até lá...
Até lá...? — perguntou Rhodan, ansioso, sentindo os impulsos fugir.
Não posso deixar os druufs sozinhos, pelo menos enquanto existir a passagem para a nossa dimensão temporal. Quando os dois Universos tiverem passado um pelo outro, minha tarefa estará concluída.
Rhodan estremeceu. As palavras tinham sido pronunciadas em voz audível. Às suas costas!
Voltou-se abruptamente, e viu Atlan encostado à parede, lívido e abalado. Apesar disso, sua boca se movia, e disse!
Sim, Rhodan, falo através de seu amigo Atlan. Estou livre, conforme já mencionei, porém ainda não de todo. Entretanto, o suficiente para apossar-me do corpo de Atlan. O que não o impede de me ouvir.
Rhodan esforçava-se por compreender a situação.
Conte-nos o que aconteceu — pediu.
E Ellert contou, usando a voz de Atlan:
Enquanto vogava na corrente de tempo, inteiramente desorientado, andei sem descanso de Universo para Universo, de era para era. Conseguia mover-me com inteira liberdade, porém não encontrei mais o que chamamos de presente. Estava extraviado, conforme julgava. Até encontrar certo dia os druufs. O único povo existente no Universo, na minha opinião.
Após breve pausa, Ellert prosseguiu:
Eu estava enganado. Não havia apenas um tempo, mas diversas dimensões temporais, coexistindo lado a lado. Numa das dimensões, a nossa, eu teria sido capaz de orientar-me, e achar o caminho de volta para o presente. Porém o choque recebido me jogou para fora de nosso tempo; cruzando o nada, fui parar na dimensão dos druufs. E, de lá, não havia retorno. Eu estava definitivamente perdido.
Fez-se prolongado silêncio.
Rhodan começava a compreender gradualmente o que ocorrera. Ninguém poderia ter dado descrição tão objetiva dos fatos como Ellert, pois pessoa alguma no mundo vira ou vivera coisa semelhante.
E vai poder retornar definitivamente para junto de nós em breve, retomando a posse de seu corpo?
Sim, Perry! Retornarei, sem a menor dúvida. No entanto, mesmo que pudesse voltar hoje, eu não o faria. Os druufs representam perigo muito maior do que imagina. Tenho certa influência sobre eles, pois sob a forma de Onot pertenço à elite governamental. Se eu não tivesse agido, eles teriam dominado a Terra há três meses, e com ela nossa Via Láctea.
Há três meses? — indagou Rhodan, procurando lembrar.
Claro! Eles saíram de seu Universo por uma brecha repentinamente surgida, e atacaram o reino de Árcon. Muitos planetas pereceram entre fogo e fumaça nessa ocasião, e vários perderam alguns continentes...
A voz de Atlan estacou de repente, e ele olhou admirado para Rhodan. Depois Ellert continuou a “falar”, mas voltando à telepatia.
Agora lembro de onde conheço Atlan, por cuja boca eu falava. Há três meses ele ainda era comandante de uma frota de guerra arcônida, encarregada de colonizar um sistema solar.
Antes de formular sua resposta, Rhodan lançou rápido olhar a Atlan.
O sistema solar, Ellert, era “o nosso”. E seu encontro com Atlan não ocorreu há três meses, mas sim há dez mil anos. Precisou viajar a tão remoto passado a fim de reencontrar o presente?
Ellert levou tempo para responder:
Minha memória ainda está falha, e perdi por completo a noção do tempo. Duvido que ainda seja capaz de viajar ao passado ou ao futuro. O que por si já garante minha volta para junto de vocês, pois não perderei a Terra de vista. Porém não podemos deixar os druufs entregues a si mesmos. Só após o fechamento da zona de descarga, não haverá mais perigo.
Rhodan lembrou-se de um detalhe importante.
Como Onot, você trabalha num projeto interessante. O congelador de tempo, conforme o chamamos. Que vem a ser isso?
Como Onot, eu poderia explicar; mas como Ellert não disponho de informações suficientes. Caso as consiga, talvez eu possa construir um aparelho idêntico na Terra.
Mais uma pergunta — disse Rhodan. — Os druufs dispõem de um tipo de propulsão que evita transições bruscas. Sabe dizer-me algo a respeito?
Mais uma vez, Ellert valeu-se de Atlan para falar:
Saberei, quando recuperar totalmente minha liberdade. Por enquanto, só sei que os druufs rompem a fronteira do hiperespaço, que existe igualmente na outra dimensão temporal, sem o menor choque. Assim que é alcançada a velocidade da luz, entra em ação um compensador automático, que além de neutralizar o tempo, ainda impede modificações na massa. Em tempo mínimo, a nave acelera para milhões de vezes a velocidade da luz. Apesar de voar pelo hiperespaço, o Universo normal permanece visível. Vantagem inapreciável para a orientação, dispensando os exaustivos cálculos atualmente exigidos para todo hipervôo. Além disso, elimina a dor resultante da rematerialização. Vôo visual! Experiência única!
A despeito da intensa excitação, Rhodan manteve-se calmo e objetivo.
Acha que pode conseguir-nos os planos deste tipo de propulsão?
Não voltarei para meu corpo sem os planos. Muito obrigado, aliás, por tê-lo conservado tão cuidadosamente. Não tive a menor dificuldade em localizá-lo.
O que foi que lhe deu liberdade parcial?
Creio que sabe, não...? O campo do congelador de tempo, no qual fui parar graças à curiosidade de Gucky — Ellert calou por um instante, depois acrescentou, pensativo: — Curioso, sou capaz de lembrar nomes e coisas que jamais conheci, por não existirem naquele tempo.
Rhodan contemplou a face imóvel do mutante. Tão morta e rígida como antes. Mas um dia tornaria a viver...
Que me aconselha? — perguntou.
Ellert voltou à telepatia. Talvez não quisesse sobrecarregar demais Atlan.
Continue a combater os druufs, e providencie a destruição da grande central de cálculos abaixo da capital, em Druufon. No entanto, sem que recaiam suspeitas sobre você. Alie-se a Árcon, e deixe os robôs cuidar da tarefa. Caso Onot pereça nesta operação, não fará muita diferença. Acho que ele morrerá de qualquer maneira quando eu o abandonar totalmente.
E se o regente não concordar?
Quando Ellert falou, Rhodan achou os impulsos mentais mais fracos.
Faça o que digo! Não resta muito tempo... até a vista, Perry, Atlan. Preciso voltar para Druufon. Onot desmaiou. Preciso...
Os impulsos cessaram de repente.
Ellert se retirara, ou fora forçado a retirar-se.
Porém um dia...
Rhodan contemplou mais uma vez a face sem vida, debaixo dos aparelhos eletrônicos de alarma. Depois virou-se bruscamente, dizendo a Atlan:
Podemos ir.
Atlan seguiu-o calado.
Passaram pelas duas portas, subiram os estreitos degraus e suspiraram de alívio ao atingir a superfície. O sol agora alto no céu lhes pareceu verdadeiro símbolo. Seus raios significavam vida e esperança.
Por trás deles, a placa rochosa tornou a ocultar a entrada do poço.
Pardo junto à pirâmide, Gucky declarou:
Acompanhei telepaticamente toda a conversa.
Rhodan acenou-lhe amistosamente. Mercant veio ao encontro de Rhodan.
E então? — indagou, ansioso. Suas qualidades telepáticas eram fracas demais para permitirem participação nos acontecimentos ocorridos no interior da câmara fúnebre. — Que aconteceu? Onde está Ellert?
Rhodan fitou o cume da pirâmide ao responder:
Ellert retornará, quando for chegado o momento. Ele e nós ainda temos uma tarefa para cumprir. Ele falou conosco, Mercant, porém seu corpo ainda precisa continuar em repouso. Mande colocar guarda permanente em torno do mausoléu. Na próxima vez em que a lâmpada vermelha se acender, será a hora!
Olhando em torno, avistou Haggard. Cumprimentou-o igualmente.
Não tardará muito, doutor, e poderá realizar um exame médico em Ellert. Exame físico, bem entendido, pois quanto ao estado mental...
Rhodan silenciou repentinamente.
Depois fez meia-volta e encaminhou-se sem mais uma palavra para o planador. Gucky já se encontrava na cabina.


3



Levado por uma inquietude interior para a qual não achava explicação, Rhodan voltou no mesmo dia para Mirta VII. Talvez conscientizado pelas palavras de Ellert, compreendendo agora, claramente, o quanto eram ameaçadores os druufs. Era mais do que tempo de infligir uma derrota significativa aos monstros.
Ainda antes de atingirem a velocidade exigida para a transição, Harno lhes trouxe uma imagem do sistema Siamed.
Inflada para o dobro do tamanho de uma bola de futebol, a superfície curva mostrou primeiro as naves assediantes do regente. Postadas diante da zona de descarga, tocaiavam as unidades dos druufs que tentavam passar por ela.
Rhodan inspirou profundamente ao ver a nuvem cintilante.
Lançou um olhar interrogador a Atlan.
Quantas são? Pode dar uma estimativa?
O imortal arcônida respondeu:
Trinta mil unidades, pelo menos, entre grandes e pequenas. Também há naves dos saltadores entre elas. Uma frota e tanto!
Não obstante, os druufs dariam conta dela, caso não sejam impedidos — replicou Rhodan. — Acho que atenderemos finalmente os pedidos de socorro do regente.
Após refletir um pouco, acrescentou:
Trinta mil naves! Com isso, pode-se conquistar um Universo inteiro. Jamais imaginei que Árcon dispusesse de tamanhas reservas.
Na voz de Atlan, havia um tom de orgulho, quando respondeu:
Que aliado será Árcon, quando o reino for novamente governado por um imperador, e não por uma máquina!
Harno trocou de imagem. Surgiu Druufon, circundado por vigilantes cruzadores cilíndricos; sua missão era proteger o planeta, já agredido, de futuros ataques. Seria muito difícil romper a poderosa barreira. Talvez até inteiramente impossível.
Diante de tão manifesta superioridade, Rhodan imaginou quantas vítimas seriam feitas numa possível batalha.
Harno mostrava agora a base subterrânea de Hades. Já haviam sido instalados doze transmissores-receptores de matéria, com alcance máximo de dois anos-luz. O que significava que homens e materiais podiam ser introduzidos no Universo dos druufs, sem ser necessário a nave transportadora passar pela perigosa zona de descarga.

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