Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Extraviado
no tempo por 70 anos...
— reencontra
o rumo da Terra.
O Robô
Regente mobilizou o tremendo poder ofensivo do reino estelar
arcônida!
Milhares
de espaçonaves de todos os tipos, tripuladas principalmente por
robôs, postaram-se perto da zona de superposição, isto é, na
faixa fronteiriça entre o espaço relativista e o Universo dos
druufs.
A
batalha entre as duas superpotências galácticas pende ora para um
lado, ora para outro. Às vezes, é a frota do regente que consegue
penetrar no Universo estranho; depois são as naves dos druufs que
avançam com êxito para o espaço relativista.
Perry
Rhodan, o administrador do Império Solar, desempenha “papel duplo”
neste conflito de gigantes.
Resta
ver se este jogo duplo beneficiará ou não a Terra. Mas, desde já,
um fato é certo: entre os druufs existe um ser que tomou o partido
de Perry Rhodan — um ser Nas Algemas da Eternidade...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Atlan
— O
arcônida imortal.
Reginald
Bell
— Melhor
amigo e colaborador de Rhodan.
Harno
— O
misterioso ser-bola.
Tommy
1—
Porta-voz
dos druufs.
Gucky
— O
rato-castor mutante.
Onot
— Físico
dos druufs ou...
1
Distante
6.500 anos-luz da Terra, o planeta apresentava semelhanças com
Mercúrio. Principalmente quanto à gravidade, de 0,35G, e à
característica de voltar sempre a mesma face para a estrela-mãe. O
que lhe conferia perenemente um gélido lado noturno, e uma
escaldante face diurna. Só um cinturão crepuscular de 80
quilômetros de largura delimitava o frio absoluto do espaço da zona
tórrida, e era açoitado por tempestades de inaudita violência.
No
entanto, um simples olhar bastava para constatar que ali acabava a
semelhança com Mercúrio: o sol do sistema Siamed era formado por
uma estrela dupla. Em torno da rubra estrela principal, gravitava
outra, verde. E, ao redor do centro gravitacional comum dos dois
sóis, giravam 62 planetas, cada qual com uma infinidade de luas, que
por sua vez também contavam com satélites.
Um destes
planetas era Hades, o que se parecia com Mercúrio.
Por mais
inóspita que fosse sua superfície, e por mais que distasse da
Terra, em Hades havia vida. Secreta e clandestina, no entanto;
abrigada em gigantescas cavernas subterrâneas, escavadas na rocha
por possantes radiadores energéticos. A estação receptora do
transmissor de matéria despejava nelas um incessante fluxo de armas
e material.
No seio do
planeta Hades, estava sendo instalada uma base de Perry Rhodan.
A menos de
uma hora-luz do mundo natal do mais impiedoso dos inimigos... Pois
Hades era o 13o
planeta do sistema estelar gêmeo Siamed, cujo 16o
planeta se chamava Druufon.
Druufon,
sede principal de um povo verdadeiramente estranho, os druufs!
*
* *
Perry
Rhodan fitava impassível a tela que lhe mostrava a superfície
daquele mundo infernal. Ali, na central de controle da base, ouvia-se
o leve zumbido dos geradores, fabricando a energia necessária para o
condicionamento do ambiente. Dentro do recinto, o ar era fresco, sem
ser frio demais. O liso piso metálico vibrava quase
imperceptivelmente. Nas profundezas da rocha, os infatigáveis
microtécnicos trabalhavam em suas oficinas; preparavam um sistema de
camuflagem eletrônica para envolver o planeta numa rede protetora
pentadimensional. Esta impediria a passagem de qualquer abalo na
estrutura espaço-temporal, passível de ser detectada pelos druufs.
Pois também o transmissor de matéria emitia ecos reveladores, agora
interceptados e abafados pela rede defensiva.
— Sei o
que o preocupa, Atlan — começou Rhodan. — Receia que os druufs
se tornem poderosos demais caso não intervenhamos, continuando a
permitir a destruição das naves atacantes de Árcon. Não, não
fale ainda! Deixe-me terminar, Atlan. O robô regente de Árcon,
nosso velho e persistente inimigo, sofre revés sobre revés. Emite
incessantes pedidos de socorro, solicitando ajuda nossa. Até agora
mantivemos as armas ensarilhadas, deixando-o enfrentar sozinho os
druufs. Por motivos estratégicos, almirante! Mais um ou dois meses,
e Árcon estará tão enfraquecido que os druufs simplesmente
inundarão o Império, e com ele, nossa Galáxia.
Recostado
contra a parede, de braços cruzados ao peito, o imortal fitava os
frios olhos cinzentos de Rhodan. Ele, o antigo arcônida de dez mil
anos de idade, descendente da extinta dinastia reinante, ficou
repentinamente amedrontado com a calma de Rhodan.
— Exagera
seu jogo estratégico, bárbaro — disse lenta e incisivamente. —
Admiro os homens e sua capacidade de resolver qualquer situação,
porém receio que subestime os druufs. Algum dia encontrarão meios
para derrubar o regente...
— Com o
que nos facilitariam a tarefa — observou Rhodan, sorrindo
abertamente. — Mas saiba que suas preocupações são
injustificáveis; jamais permitirei que as coisas cheguem a este
ponto. Os druufs nunca sairão de seu Universo, a fim de avançar
para nossa Galáxia. A única via de acesso é a zona de descarga
entre nossa dimensão temporal e a deles, zona que acompanha a Via
Láctea com metade da velocidade da luz. Por quanto tempo ainda...?
No entanto, a frota bélica de Árcon monta guarda diante desta fenda
no Universo, poupando-nos tal tarefa. De onde se conclui, obviamente,
que tanto os druufs quanto os arcônidas nos prestam um favor. Que
mais poderíamos querer?
— Não
deve enfraquecer demasiado o regente — lembrou Atlan. — Os druufs
são nossos piores inimigos.
Rhodan
sabia que Atlan tinha razão. Mas preferiu manter-se na expectativa
ao surgir ocasião de passar de um Universo a outro, sem recorrer a
recursos técnicos, e ver as naves dos druufs e arcônidas se
encarniçarem umas contra as outras diante da zona de descarga.
Despercebidamente postado com sua frota de guerra terrana entre os
dois adversários, presenciava, impassível, o espetáculo da
destruição mútua.
— Em
breve responderemos os apelos do regente — assegurou ele.
Atlan
suspirou, aliviado.
— O
cérebro-robô não nos recusará um acordo honesto caso ajudemos
Árcon a rechaçar os invasores. Unidos ao atual governante de Árcon,
poderemos repelir os druufs.
Rhodan não
deu resposta. Olhava para a porta, por onde acabava de entrar um
homem, trajando o uniforme verde-pálido de tenente da frota espacial
do Império Solar.
— Sir, a
Drusus está pronta para decolar! — comunicou ele.
Rhodan
agradeceu.
— Está
bem, Tenente Potkin. Vou empreender um vôo de observação com Atlan
e alguns mutantes; iremos até Druufon. Aguarde nossa volta para
daqui a algumas horas.
Virando-se
para Atlan, indagou:
— Pronto,
almirante?
Há dez
mil anos, Atlan ocupara o posto de almirante na frota espacial
arcônida, muito antes de alcançar a imortalidade, e repousar por
longo tempo numa cúpula pressurizada no fundo do Atlântico, à
espera de que a Humanidade progredisse o suficiente para estender a
mão às estrelas. Aliara-se a Rhodan ao saber que seu império
galáctico já não era mais governado por arcônidas autênticos, e
sim por um gigantesco cérebro positrônico.
— Pronto!
— confirmou Atlan.
*
* *
A Drusus,
esfera espacial de quilômetro e meio de diâmetro, emergiu do hangar
subterrâneo e lançou-se para o céu negro de Hades. A atmosfera
rala permitia a coexistência da luz do sol gêmeo e das estrelas.
Vendavais de inimaginável violência uivavam sobre a paisagem
escarpada, equilibrando as diferenças de pressão entre as duas
metades contrastantes do planeta.
Diante dos
controles da gigantesca nave, o Coronel Sikermann conduzia-a com mão
firme espaço a fora, rumo ao ponto matematicamente calculado da
transição. Um curto salto os deixaria nas proximidades de Druufon.
O vôo não
seria puramente de observação. O principal objetivo de Rhodan era
tentar mais uma vez obter contato com o amigo desconhecido, que vivia
entre os druufs.
Tratava-se
de um fato curioso. Impulsos telepáticos lhes haviam invadido os
cérebros durante a estadia em Druufon. Não havia dúvida de que
provinham do corpo de um druuf. No entanto, o indivíduo em questão,
físico-chefe de sua raça, nada sabia a respeito. Logo, dois
espíritos residiam em seu corpo!
O
rato-castor Gucky, um dos mais capazes mutantes de Rhodan,
defrontara-se com o druuf, tentando em vão esclarecer o mistério.
Nem mesmo Harno, o ser feito de energia — descoberto pelo sargento
Harnahan há sessenta anos, e agora resgatado por Rhodan — sabia o
que fazer.
— Não
sei quem sou!
— sinalizara o desconhecido ajudante. — Mas
conheço você, Perry Rhodan! Meu espírito está desprovido de
corpo, e vaga pela eternidade desde tempos imemoriais; de mundo para
mundo, de raça para raça, para achar o que perdeu há anos ou há
milênios. Presenciei o início de todos os tempos, e vi os horrores
do momento final. Todos os sóis calcinados e apagados. E com eles
apagou a vida...
— De
onde me conhece? — perguntara Rhodan.
— Não
sei... eu não sei!
E depois
os impulsos mentais cessaram. Resultaram inúteis todos os esforços
enviados para retomá-los. Mas ainda houve um aviso final:
— Abandonem
o sistema dos druufs! Torno a manifestar-me...
Posteriormente,
quando se discutia a possível identidade do misterioso ser, Rhodan
se envolvera em silêncio. Sabia que não havia resposta.
Ocultava
cuidadosamente sua própria opinião, pois seria fantástica demais.
Mais do que isso, chegava a ser rematada loucura!
Sikermann,
comandante da Drusus, comunicou com voz calma:
— Transição
em dez segundos, Sir!
Ninguém
respondeu. Atento, Rhodan fitava a tela, na qual veria o planeta dos
druufs após o hipersalto. Um mundo duas vezes maior que a Terra, de
atmosfera respirável, e gravidade dobrada em relação à terrestre.
Vinte e uma luas contornavam Druufon.
Salto!
E Druufon!
O planeta
estava a menos de um minuto-luz. A Drusus reduziu rapidamente a
velocidade, e entrou em órbita. Os anteparos protetores, ligados,
anulariam qualquer tentativa de ataque por parte dos druufs.
Porém os
druufs tinham outras preocupações no momento. Continuavam a repelir
o incessante avanço das naves do robô regente, já menos intenso,
mas ainda em andamento.
Agora, só
algumas poucas naves robotizadas conseguiam romper o bloqueio e
penetrar na dimensão temporal dos druufs. Quase todas eram
aniquiladas imediatamente.
A Drusus
traçava suas órbitas sem ser percebida. Mesmo que fosse, ninguém
se preocuparia. Os druufs sabiam que não seriam agredidos pela nave
de Rhodan.
Gucky
espreguiçava-se no sofá da central de comando, de costas para a
parede, acocorado sobre as patas traseiras, e com a larga cauda de
castor enrolada nelas. De olhos cerrados, parecia ouvir seu íntimo.
Ninguém o perturbava, pois todos sabiam que tentava obter contato
com o amigo desconhecido.
Junto ao
teto flutuava Harno, o ser encontrado no sistema de Tatlira. Suas
incríveis qualidades representavam sempre novo enigma, porém, até
então, ninguém ousara fazer a menor tentativa para decifrá-las.
Harno, que escolhera tal nome em memória do sargento Harnahan, seu
primeiro amigo humano, afirmava ter cinco milhões de anos, e ser
feito de tempo e energia. Comunicava-se através de telepatia e
servia de “televisor”.
Sua superfície esférica era capaz de mostrar qualquer ponto do
Universo.
Rhodan
sacudiu a dor provocada por toda transição. Seu olhar pensativo
deteve-se sobre Atlan, sentado ao lado de John Marshall. Também ele
contemplava atentamente a tela.
— Harno,
pode ver Onot?
Onot era o
nome do físico-chefe em cujo corpo se abrigava o amigo desconhecido.
A resposta
veio sob a forma de silenciosos impulsos, captada igualmente por
não-telepatas.
— Vejo
Onot, mas ele pensa como Onot.
— Faça-o
aparecer — pediu Rhodan.
Harno, a
bola negra do tamanho de uma maçã, desceu lentamente e foi
aumentando gradativamente, até medir meio metro de diâmetro. E não
foi só a forma que sofreu alteração; a superfície até então
preta e opaca, reluzia agora num branco, igual a uma tela de verdade.
Reflexos
coloridos relampejaram, ordenaram-se e formaram imagens discerníveis.
Reprodução exata do que ocorria naquele instante a um minuto-luz
dali.
Diversos
druufs moviam-se lenta e pesadamente por entre as imensas instalações
técnicas. Geradores e aparelhos dividiam em verdadeiras ruelas o
vasto recinto, abrigado no subsolo.
Os druufs
eram figuras estranhas, o que no entanto conferia certa naturalidade
aos movimentos duas vezes mais vagorosos de sua dimensão temporal.
Mediam três metros de altura, sua cabeça redonda possuía quatro
olhos, e boca triangular. Orelhas, nariz e cabelos não existiam. A
pele coureácea e lisa parecia ser bastante espessa. Comunicavam-se
por meio de transmissores-receptores orgânicos. Com o auxílio de
complexos aparelhos tradutores, a comunicação se tornava possível
entre druufs e terranos.
Os druufs
mostrados por Harno pareciam ocupados em importante tarefa. Obedeciam
às silenciosas instruções de um exemplar particularmente robusto,
de pé sobre um tablado erguido diante do painel de controle.
— Que
fazem? — indagou Rhodan.
Gucky
respondeu:
— Não
entendo muito bem, mas conheço o aparelho que manejam. Trata-se do
gerador que produz o campo de congelamento de tempo. A maior e mais
poderosa arma dos druufs, quando estiver disponível para uso.
— O
congelador de tempo... — murmurou Rhodan, baixinho. — Ainda em
estágio experimental, sem condições de influir sobre a situação
presente. Foi por isso que votei contra sua destruição. Quem sabe
da utilidade que poderia ter para nós no futuro...
Gucky
tornou a concentrar-se, tentando captar os pensamentos daqueles
druufs tão distantes. Harno ajudava, sem que ele percebesse,
catalisando os débeis impulsos dos druufs.
— Estão
entregues a importante experiência. Todos estes druufs são
cientistas, e pouco se interessam pelo que sucede na superfície de
seu planeta. Sua preocupação é outra. São indiferentes a
problemas políticos, apesar de saberem que seu trabalho tem
finalidade bélica. No entanto, representa a única maneira de
satisfazer-lhes a curiosidade científica.
— Conheço
um caso semelhante... — interferiu Atlan, ao fundo. — Não era o
pretexto favorito de seus cientistas atômicos há alguns decênios,
bárbaro?
— Sem
dúvida, almirante! — concedeu Rhodan. — No entanto, pensando
bem, parece-me mais aceitável do ponto-de-vista ético do que
confessar abertamente que trabalham para a guerra; qualquer cientista
se revoltaria se fosse obrigado a dizer que o resultado de suas
pesquisas não tem outra finalidade!
— Como
em Árcon! — confirmou Atlan, dando-se por vencido. — Chego a
crer que você tem razão.
— O
druuf “gordo”
é Onot — informou Gucky. — Posso captar claramente seus
pensamentos. Mas ele pensa só em sua invenção. Portanto,
presentemente não possui a menor identidade com nosso amigo.
— Conforme
eu temia — disse Rhodan. — Confesso que, apesar disso, eu contava
com algum efeito da irradiação sofrida no campo de tempo.
Lamentavelmente, parece não ser o caso.
O Coronel
Sikermann, até então calado, ia dizer qualquer coisa, mas foi
subitamente interrompido pelo brilho de uma lâmpada vermelha.
Estendeu automaticamente a mão para estabelecer contato com a
central radiofônica. A voz do Tenente David Stern, chefe de rádio
da Drusus, disse:
— Mensagem
secreta para Perry Rhodan, Sir. Hiper-rádio e em código.
Sikermann
olhou indeciso para o sistema de alto-falantes e para a luz vermelha,
depois voltou a cabeça para captar o olhar de Rhodan. Não sabia que
atitude tomar.
Rhodan deu
um pulo na poltrona. Sua mão avançou para perto da de Sikermann, e
calcou uma tecla.
— Tenente
Stern! Grave a mensagem em fita. Não tente decifrá-la. Estarei aí
num minuto. Entendido?
— Entendido,
Sir! — veio a resposta.
Gucky
olhou para Rhodan.
— Que
será que eles querem?
O
rato-castor sabia que hiper-rádio só poderia significar Fera
Cinzenta — a base a vinte e dois anos-luz — ou a Terra.
— Puxa,
agora fiquei curioso!
Rhodan não
estava menos curioso, porém não o demonstrou.
— Continuem
observando Onot — disse a Gucky, Harno e Marshall. Dirigindo-se a
Atlan, acrescentou: — Vou ver o que há.
Atlan
permaneceu sentado. Seria difícil deixar de perceber a discreta
sugestão de ficar onde estava. Seu olhar pensativo acompanhou
Rhodan.
“Será
que ele estava esperando essa mensagem?”,
indagou-se mentalmente.
Cerca de
duas semanas antes, Rhodan fizera uma observação relacionada com o
enigmático amigo que vivia no corpo de um druuf. Aquele espírito —
ou o que quer que fosse — inquietava Atlan. Além disso,
interessava-o ardentemente.
Quais
haviam sido mesmo as palavras de Rhodan na ocasião?
“— Creio
saber quem é nosso amigo...”
Atlan
refletira longamente sobre aquilo. A quem poderia estar se referindo
Rhodan? Afinal, nenhum membro do corpo de mutantes andara vagando
durante milênios pela eternidade, e nem um só estava extraviado.
A
inquietude tomou conta de Atlan, impedindo-o de concentrar-se nos
problemas mais urgentes do momento.
Harno
voltou a ser pequenino e negro. Alçou-se lentamente para o teto, na
habitual posição de repouso.
Gucky
continuou alerta, porém parte de suas atenções seguiam Rhodan, que
chegara à central radiofônica e falava com David Stern. Porém,
então, repentinamente, os impulsos mentais de Rhodan se apagaram.
Blindara os pensamentos, adivinhando a indiscreta curiosidade de
Gucky.
Decepcionado,
o rato-castor voltou a sua tarefa. Certamente viria a conhecer, no
devido tempo, o conteúdo da misteriosa mensagem endereçada a
Rhodan.
Cinco
minutos depois, Rhodan retornava à central de comando, mostrando-se
profundamente pensativo. Nos olhos cinzentos brilhava uma luz
estranha. Cruzou com os olhos de Atlan, e desviou intencionalmente os
seus.
Gucky
indagou:
— Qual
foi a mensagem? Era de Fera Cinzenta?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Da
Terra, então?
Rhodan
acenou.
— Algo
errado? — insistiu Gucky, persistentemente.
Em vão
tentava romper a barreira colocada em torno do cérebro de Rhodan.
— Não
perca tempo, Gucky — disse este, por fim. — Você não saberá de
nada, enquanto eu não quiser. A mensagem veio num código que apenas
eu conheço. Além de nosso amigo Mercant, na extremidade oposta do
hiper-rádio, naturalmente. Lá na Terra...
— Mercant!?
— exclamou Gucky, interrogativo.
Allan D.
Mercant era chefe do Serviço Solar de Segurança. As mensagens dele
tinham sempre importantes significações. E Rhodan devia ter suas
razões para não comentá-las.
Rhodan
olhou para a tela, onde ainda figurava Druufon.
— Nenhum
sinal do desconhecido, Gucky?
Foi com
relutância que o rato-castor respondeu:
— Não,
nenhum sinal de nosso amigo-fantasma. Pelo jeito, não quer mais nada
conosco. Senão já teria “falado”...
— Bem,
não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — explicou
Rhodan, batendo no ombro de Sikermann. — Rume para Hades,
comandante! Dali saltaremos para Fera Cinzenta, de onde faremos uma
pequena excursão. Atlan, Gucky e Harno irão comigo.
Atlan
olhou para John Marshall antes de adiantar-se e parar diante de
Rhodan.
— Não
acha que já basta de mistificações? Quando é que vai se dignar a
nos dar a informação?
Rhodan
encarou-o. Um fugaz sorriso iluminou-lhe o rosto magro, desaparecendo
rapidamente.
— Claro
que vocês têm direito a isso, mas não quis aborrecê-los com
suposições. Como estas foram confirmadas pela mensagem de Mercant,
precisamos ir à Terra. Lá aconteceu algo que ninguém mais
esperava.
— O quê?
— quis saber Gucky.
— Atlan
não conhece o caso, portanto não compreenderia, Gucky. Para que ele
possa ter um entendimento dos fatos, teremos que retornar a um
passado muito remoto, isto é, ao tempo em que ele ainda repousava no
fundo do oceano, aguardando uma época mais favorável... Foi então
que isso aconteceu...
— Naquele
tempo também eu ainda não morava na Terra — disse Gucky. — E
não conhecia você.
Rhodan
acenou. Quase esquecera tal detalhe.
— Mais
uma razão para não complicar a situação. Vou fazer-lhes um relato
detalhado, quando voarmos para a Terra. Sikermann, para Hades! Ainda
preciso fazer alguns preparativos lá. Deixarei Bell como meu
substituto.
— Ele
vai ficar bem chateado com isso! — comentou Gucky, maliciosamente.
— Talvez
nem tanto! — replicou Rhodan, secamente, enquanto a Drusus
manobrava para sair da órbita, e tomar o curso de Hades. — Tenho
até certeza de que ele não vai se aborrecer nem um pouquinho,
Gucky! Bell sempre teve pavor de fantasmas. E nós vamos para a Terra
a fim de visitar um fantasma!
Gucky
fitou Rhodan espantado, depois cerrou os olhos como se quisesse
dormir. Sabia que por ora não obteria mais nenhuma informação.
Atlan
continuou calado.
Também
sabia que, no momento, seria inútil insistir com Rhodan.
Porém
adivinhava que o amigo desconhecido em Druufon tinha algo a ver com o
“fantasma”.
*
* *
Instantes
depois, a Drusus cruzou velozmente a zona de descarga. Antes tiveram
de romper a linha de unidades dos druufs em prontidão, sem atentar
para os sinais radiofônicos que os intimavam a dar meia-volta.
Depois atravessaram pelo meio da frota de guerra do regente.
Novamente Rhodan não obedeceu aos chamados, ignorando totalmente as
naves robotizadas. Alguns disparos energéticos resvalaram pelos
anteparos protetores, e a seguir a Drusus entrou em transição. As
estrelas e as naves do robô regente desapareceram.
Apenas as
estrelas tornaram a reaparecer, mas então a Drusus se encontrava a
vinte e dois anos-luz do local dos acontecimentos. O sétimo planeta
do sistema Mirta, também chamado Fera Cinzenta, acolheu-os. Por
poucas horas, no entanto, pois Rhodan não tardou a levantar vôo
novamente.
Desta vez,
rumo à Terra.
E, ainda
enquanto aguardavam o momento de atingir a velocidade da luz, Rhodan
começou a falar, trazendo para o presente um passado de há muito
olvidado...
Gucky e
Atlan escutavam tensos.
Um relato
tão inacreditável, que os dois ouvintes quase esqueciam de renovar
o ar dos pulmões.
E, lá no
teto, flutuava Harno, o estranho ser, composto de tempo e energia. E
Harno escutou igualmente a história narrada por Rhodan.
2
O relato
de Rhodan teve início com a Terceira Potência, que posteriormente
deu origem ao Império Solar. Há cerca de setenta anos, em fevereiro
de 1.972. Perry Rhodan organizava seu Exército de Mutantes. Em toda
a parte do mundo, devido às explosões atômicas efetuadas, as
características hereditárias dos recém-nascidos sofriam
alterações, fazendo nascer pessoas dotadas de capacidades anormais.
Surgiram telepatas, telecinetas, teleportadores, teleóticos,
teleauditivos, videntes e hipnos.
E apareceu
um homem chamado Ernst Ellert.
Ellert era
um mutante cujos poderes ultrapassavam tudo que a imaginação humana
pudesse conceber. Enquanto seu corpo descansava, o espírito podia
sair do organismo em repouso e invadir o território desconhecido do
tempo. Desta forma, foi ao futuro, regressando com a ciência dos
fatos ainda por acontecer. Talvez fosse o que se costuma denominar de
vidente; porém, na realidade, era muito mais do que isso. Rhodan
classificou-o de teletemporário ou teletemporador.
E certo
dia se deu a desgraça.
No
decorrer de uma experiência, Ellert sofreu tremendo choque elétrico,
e morreu instantaneamente.
Morreu,
mas não estava morto!
Seu
espírito — ou sua alma — deixara o corpo e vagava sem rumo pelo
futuro e pelo passado; no entanto o corpo sem alma não apresentava o
menor sinal de decomposição. Apesar da ausência de palpitações
cardíacas, o sangue continuava morno. A temperatura corporal não
sofreu alteração.
Pessoa
alguma sabia explicar o ocorrido. O espírito de Ellert não retornou
ao presente. Não achou mais seu corpo. Tudo que se poderia supor era
que se extraviara na eternidade.
Mas, caso
ainda regressasse algum dia, e não encontrasse mais seu corpo?
Rhodan
encontrara solução para esta possibilidade.
*
* *
Nos
arredores de Terrânia, então ainda chamada Galáxia, os robôs
operários tinham concluído a tarefa constante da programação
recebida. A galeria aprofundava-se a cinqüenta metros na rocha viva
do deserto de Gobi. O revestimento esmaltado das paredes, duro como
aço, garantia para todo o sempre a perfeita impermeabilidade. Nem
uma só gota de água se infiltraria na galeria.
No fundo,
Rhodan mandou escavar um recinto quadrangular provido de aparelhos
produtores de oxigênio, material de informação, instruções, e
reservatório de energia. Um sistema de alarme automático —
aperfeiçoado nos anos subseqüentes — assegurava o aviso imediato,
caso Ellert retomasse posse de seu corpo algum dia.
No meio da
câmara fúnebre, de quatro por quatro metros, havia um leito,
acoplado ao complexo sistema de alarme. Bastava respirar uma vez
dentro da câmara para fazê-lo entrar em funcionamento. Sobre o
leito repousava o corpo de um homem.
Era Ellert
quem jazia sob os instrumentos eletrônicos, com cintas metálicas
presas ao pulso esquerdo e aos dois tornozelos. Um capacete envolvia
a cabeça. Próximo da boca haviam colocado um espelho, ligado a
células de selênio. Um resquício de hálito seria suficiente para
ativar todo o sistema de alarme.
O mausoléu
mandado construir para Ellert por Perry Rhodan não se equiparava ao
de nenhum outro mortal. No entanto — e Rhodan já pressentia isso
na época — Ellert não era mortal na acepção comum do termo.
Sentia vagamente que algum dia, num futuro próximo ou remoto,
tornaria a rever o teletemporário.
Encheram a
galeria com uma massa pastosa imediatamente solidificada. Nada no
mundo poderia perturbar agora o descanso do morto. E, no entanto,
existia um acesso para a câmara fúnebre, conhecido exclusivamente
por Rhodan. E mesmo que Ellert acordasse realmente algum dia, não
levaria mais de meia hora para livrar-se de sua prisão.
Mas o que
encontraria, quando “acordasse”?
Uma terra
estorricada por um sol vermelho, tão perto dele que poderia
precipitar-se no disco de fogo a qualquer instante? Ou um planeta
privado de toda a vida por invasores espaciais?
Absorto em
cogitações, Rhodan presenciara o erguimento do marco em forma de
pirâmide, que os robôs colocavam sobre o mausoléu.
Depois
dera meia-volta, retornando à povoação que seria um dia a mais
poderosa cidade da Terra: Terrânia.
*
* *
Durante
setenta anos, nada aconteceu. Surgiu o Império Solar, e o poder de
Perry Rhodan chegou às raias do incomensurável. No entanto, sob a
cúpula energética de Terrânia, continuava existindo um recinto
onde iam dar os terminais de todos os sistemas de alarme. E uma
minúscula lâmpada no imenso painel jamais se acendera.
Sob a
lâmpada via-se um nome:
Ernst
Ellert.
*
* *
Naquele
dia, 14 de setembro de 2.043, dava plantão na sala de alarme,
conforme era conhecida a central de vigilância, um sargento de nome
Stootz.
Stootz não
conhecia Ellert, evidentemente, mas conhecia suas obrigações. Estas
nada tinham de excitante ou difícil. Resumiam-se em verificar quais
das lâmpadas se acendiam no painel.
Não que o
sargento fosse um leigo, incompetente para qualquer outro serviço.
Pelo contrário! Casualmente era seu dia de plantão, obrigação que
tocava, em rodízio, a todos.
Na
realidade Stootz era um dos mais competentes técnicos em rádio e
eletrônica da seção de telecomunicações. Além de saber que uma
das lâmpadas poderia acender, sabia também por que ela acendia.
Pois, atrás do painel, aparentemente singelo, se escondia um
sofisticado sistema de instalações positrônicas e eletrônicas.
Dali, os fios partiam nas mais diversas direções, terminando em
geral diante de um hiper-receptor. Mesmo que dessem alarme no sistema
solar XY, a milhares de anos-luz, a luzinha correspondente brilharia
diante de seus olhos.
E Stootz
conhecia a série de providências que deveria tomar em semelhante
caso.
Com um
gesto, acionou igualmente a sinalização acústica, a fim de
assegurar que nenhum eventual alarme lhe escapasse à atenção.
Tranqüilizado, abriu um livro e pôs-se a ler.
Em torno
dele, reinava a calma da noite incipiente. Apenas da central de rádio
vinha um ou outro zumbido, produzido pelos hiper-registradores ou
pelo transmissor de imagens. O centro nervoso do Império Solar
jamais dormia. Não podia dormir nunca, caso não quisesse mergulhar
para sempre no sono da morte.
*
* *
A dois
quilômetros da galeria de Ernst Ellert, Allan D. Mercant descansava
em seu confortável lar.
Mercant
conservava a mesma aparência jovem — ou melhor, idosa, mas sadia —
de sete décadas atrás. Junto com os mais chegados colaboradores de
Rhodan, recebera no planeta artificial Peregrino a ducha celular
prolongadora da vida. O cabelo ralo continuava louro, e, em seus
olhos, luzia a perene vivacidade que praticamente o predestinara ao
posto de chefe da defesa no Império Solar.
Na tela de
seu estereotelevisor, evoluía um grupo de bale da ópera russa.
Aconchegado numa poltrona, suficientemente afastada para poupar a
vista, Mercant apreciava o espetáculo. Não gostava de deitar muito
cedo. Só perto de meia-noite seu organismo atingia o estado de
fadiga necessário. E então costumava desligar bruscamente o
aparelho, às vezes até no meio de um programa, e ia dormir.
Eram onze
e meia, agora.
Também na
casa de Mercant existia uma terminal das linhas de alarme — desde
que não esquecesse de ligar a chave adequada em seu escritório,
antes de deixar o serviço no prédio central da administração.
Como sempre, tomara tal providência.
Mercant
bocejou.
— Ah, o
cansaço chegando, afinal! — balbuciou.
Por pouco
lhe passaria despercebido o estridente som da campainha, ecoando pela
casa.
Alarme!
Saltou da
poltrona, esquecendo instantaneamente o cansaço.
Algo devia
ter acontecido, para que o chamassem em plena noite!
Enquanto
se precipitava para seu gabinete, onde estava instalado o
aparelhamento de comunicação, passou em revista, mentalmente, as
possíveis probabilidades...
Algum
problema num recanto perdido da Terra, talvez; se bem que tal
hipótese fosse bastante improvável. Ou um inferno desencadeado em
algum sistema solar, nos confins do Universo. Por outro lado, o
alarme poderia provir do próprio Rhodan — afinal, ele não partira
exatamente para um piquenique ao levantar vôo com metade da frota
bélica do Império... Sim, as possibilidades eram infindas.
Só não
lhe ocorreu a que acontecera agora.
Aproximou-se
rapidamente de um aparelhinho embutido no tampo da escrivaninha e
calcou um botão.
O vidro
fosco iluminou-se imediatamente, mostrando o rosto um tanto perplexo
do sargento Stootz.
— Fala a
central de rádio, sala de alarme, Sir!
— Que
foi? — gritou Mercant, interrompendo as formalidades regulamentares
de introdução. — Por que me acordou?
Todo mundo
sabia que Mercant não se recolhia antes da meia-noite, e o sargento
Stootz não desperdiçou tempo em protestos.
— Alarme,
Sir! Faz dez segundos que uma lâmpada vermelha está acesa...
— Qual
delas, que diabo?
O sargento
inclinou-se ligeiramente — movimento que o videofone mostrava
claramente — a fim de examinar de perto a luzinha vermelha.
— Debaixo
da lâmpada só há um nome, Sir: Ernst Ellert.
Mercant
teve a sensação de sentir uma mão gelada apertar-lhe o ombro.
Conhecia bem o caso do teletemporário desaparecido.
E sabia o
que significava o alarme desencadeado no mausoléu!
Suas
ordens foram imediatas e precisas.
— Acordar
imediatamente o professor Haggard e alguns membros de seção médica!
Haggard deve procurar-me o mais depressa possível. Iremos ao
mausoléu. Depois chame Rhodan pelo hiper-rádio, sistema Mirta ou
Siamed, urgentemente. Passe a ligação para cá assim que for feita.
Preciso irradiar uma mensagem. A seguir... — hesitou, e concluiu: —
É tudo!
Mercant
desligou o videofone, e ficou parado, imóvel e rígido. Da sala,
vinham os derradeiros acordes da segunda sinfonia de Tchaikovsky.
Depois, o
silêncio caiu pesadamente sobre ele.
*
* *
Na central
de comando da Drusus, depois que Rhodan concluiu sua narrativa, o
silêncio falou mais alto. Atento aos controles, Sikermann absteve-se
de qualquer comentário; não tirava os olhos das escalas e
instrumentos de medida. A Drusus aproximava-se, à velocidade da luz,
do ponto de transição.
Encostado
na parede, Atlan fitava Rhodan.
Gucky
preferiu aguardar. Acocorado de olhos fechados sobre o sofá, parecia
dormir. Mas Rhodan sabia que se tratava de puro fingimento. O
rato-castor vibrava de excitação.
Discreto
como sempre, Harno ocupava seu lugar junto ao teto.
Rhodan
percorreu um a um com o olhar.
— Pois
é, é esta a história de Ernst Ellert. E agora brilha a lâmpada
vermelha que anuncia seu retorno. Mercant me avisou sem tardança
pelo hiper-rádio. Não sei se chegaremos a tempo em Terrânia, mas
temos de tentar... Não pode haver dúvida de que o espírito de
Ellert retornou ao corpo depois de setenta anos. Acho que não
preciso mais revelar a ninguém o teor de minha suposição...
Atlan
levantou os olhos.
— Acha
que Ellert e Onot são uma só pessoa, não é? — disse, com voz
sem expressão.
Rhodan
acenou.
— Tudo
indica que sim, em especial, as alusões feitas por nosso amigo
desconhecido. Conhecia-me, sem saber de onde. Dizia-se peregrino da
eternidade, testemunha visual do começo e do fim do mundo. Ellert
podia viajar no tempo... mais uma coincidência. Não, não duvido
mais; por fim achamos Ellert...
— ...ou
ele nos achou! — emendou Gucky. Sua voz clara tinha um acento
peculiar. — Ele deve ter estado à nossa procura.
— É bem
possível — concordou Rhodan, percebendo que Sikermann dava início
à transição.
A primeira
dor das ondas de choque percorreu-lhe o corpo. Depois disso, nada
mais se sentia. E quando tornaram a olhar para a tela, ela mostrava o
sistema solar terrestre.
Aterrissar
era questão de rotina.
Mal
trocaram algumas palavras enquanto a Terra crescia, preenchendo por
completo a tela. Com leve solavanco, a imensa nave tocou o solo.
Tinham
chegado ao destino.
Rhodan
desembarcou com Atlan e Gucky, colocando disfarçadamente Harno no
bolso da túnica.
Mercant
veio-lhes ao encontro. Parecia exausto. O sol acabava de apontar ao
leste, e ele não dormira um único minuto na última noite.
— Bem-vindos
à Terra! — exclamou, estendendo a mão aos homens. Depois
abaixou-se e cumprimentou também Gucky. — Felizmente não chegaram
tarde demais. Por enquanto não aconteceu nada.
Era o que
Rhodan queria saber. Suspirou, aliviado, e embarcou no veículo
providenciado para a viagem até o mausoléu. Este fora
judiciosamente erigido no coração do deserto, a uma segura
distância da expansão imobiliária de Terrânia. Jamais poderia ser
engolfado pelas novas construções.
Enquanto
paredes passavam em disparada à direita e à esquerda, e o veículo
estendia as asas para fora da fuselagem, a fim de subir obliquamente,
Mercant sumariou a situação, em frases curtas e concisas.
— Haggard
aguarda junto ao mausoléu, com toda sua equipe; mas por ora, nada
aconteceu. A luz de alarme continua acesa. Nenhuma alteração na
pirâmide. O concreto protetor parece continuar intato.
Rhodan
acenou. Conferia mais ou menos com o que esperara, sem ter completa
certeza. De qualquer forma, caso suas suposições fossem corretas,
ainda era cedo para Ellert retomar posse do próprio corpo.
A cidade
foi se distanciando. Abaixo do planador, desfilava velozmente a
monótona área desértica. Por fim surgiu no horizonte a esbelta
silhueta do obelisco, nitidamente delineada contra o céu da manhã.
O
mausoléu!
O planador
perdeu altura rapidamente, e pousou a menos de vinte metros da
reluzente pirâmide metálica. Um grupo de homens acorreu; por trás
deles, via-se uma camioneta com a insígnia da Cruz Vermelha.
Também o
professor Haggard pertencera ao grupo beneficiado por Rhodan com a
ducha celular, durante a estadia no planeta Peregrino. Seu vulto
magro adiantou-se, um tanto curvado; fato, no entanto, sem relação
alguma com sua idade real.
Estendeu a
mão a Rhodan, dizendo:
— Nossa
vigília se revelou infrutífera!
Cumprimentou
também Atlan e Gucky, que saiu imediatamente gingando em direção
da pirâmide.
Rhodan
percebeu o ligeiro tom de ceticismo na voz do médico, sentimento
bastante compreensível. Qualquer pessoa normal se sentiria cética
ao escutar a história de Ellert.
— Eu não
esperava outra coisa — replicou, contemplando pensativo a pirâmide.
Atlan e Gucky faziam o mesmo. — No entanto, creia-me, Ellert não
tardará a reaparecer. Talvez já daqui a poucos dias.
Haggard
não se convenceu.
— Sabe
que sou um cientista, Perry. Portanto, desconfiado por natureza. Não
posso crer que um organismo enterrado há setenta anos volte à vida.
— Sabe
tão bem quanto eu que Ellert não morreu realmente. Foi você mesmo
quem o examinou, juntamente com Manoli, naquela ocasião. Porventura
encontrou explicação para o fenômeno?
— Não,
nenhuma... — concordou o médico, com relutância. —
Evidentemente que não! Mas sete décadas é tempo demais...
— Não
para quem viu a eternidade de perto! — disse Rhodan, encerrando a
inútil discussão.
Seu olhar
deteve-se absorto sobre a pirâmide, cujo cume começava a dourar-se
aos primeiros raios do sol.
Sabia como
chegar às profundezas do mausoléu sem danificar a camada de
concreto. Sentiu certo constrangimento diante da perspectiva de
penetrar na câmara fúnebre, mas depois o raciocínio lógico
venceu.
— Esperem
aqui, vocês todos — disse. — Quero apenas Atlan por companhia.
Vislumbrou
de relance a face ansiosa de Gucky, e sacudiu quase
imperceptivelmente a cabeça. Sua mão direita cerrou-se em torno de
Harno dentro do bolso.
Deveria
levá-lo?
Resolveu
que sim.
Avançou
alguns passos, seguido por Atlan, detendo-se diante das altas e lisas
paredes da pirâmide. Com a mão esquerda, alisou o metal frio.
Passou-a de um lado a outro repetidas vezes. Por um momento, parou.
Depois fez mais uma leve pressão e, a cinco metros da base do
monumento, uma placa deslizou no chão do deserto.
Mercant
praguejou baixinho ao presenciar a cena. Nem sequer suspeitava da
existência de uma entrada secreta; muito menos que fosse conhecida
por Rhodan.
Este lhe
acenou amistosamente, como se tivesse adivinhado os pensamentos do
amigo. Depois segurou o braço de Atlan, conduzindo-o para a abertura
surgida no solo rochoso. Uma íngreme e iluminada escada levava ao
fundo.
Rhodan
tivera que revelar seu segredo, fato que, agora, já não lhe
importava. Sabia que em breve a pirâmide teria cumprido sua função.
Tomou a frente, e Atlan seguiu-o, sem hesitar.
Os dois
homens, que algum dia poderiam dominar o Universo, desciam ao
encontro de um morto que não estava morto, e tinha muito a lhes
dizer.
*
* *
Ao
“morrer”,
recebendo em cheio uma descarga de milhares de volts, Ernst Ellert
não perdeu a consciência um só instante. Sentiu tremenda dor,
porém apenas por uma fração de segundo. Depois foi lançado fora
de seu corpo, projetado para a intemporalidade do espaço sem fim.
Tudo a seu redor mergulhou no vazio infinito, sem começo nem fim.
Redemoinhos
coloridos vinham em sua direção e tornavam a afastar-se. A despeito
de não possuir mais ouvidos, escutou estranhas melodias eletrônicas.
Todas estas impressões iam e vinham ritmicamente, como se tivesse
caído no seio de um Universo em pulsação.
Flutuava
no nada absoluto, e uma vez pareceu ver passar ao longe um sol
rodeado de planetas. Vias lácteas giravam lentamente em espiral,
ficando para trás no espaço.
A própria
eternidade parecia encolher.
E depois
mergulhou na corrente do tempo, em velocidade sempre crescente.
Perdera por completo o contato com o elemento que até então julgava
dominar. Desamparado, precipitava-se num infinito que já não podia
ter relação alguma com matéria. O presente ficou para trás,
longe, longe...
Nada podia
deter sua queda para o futuro.
Bruscamente
sucedeu a primeira encarnação. Tão rápida e inesperada que caiu
ao sentir o próprio peso — ou melhor, o peso do ser em cujo corpo
penetrara.
O espírito
lançado ao mais remoto futuro encontrara nova morada, porém o corpo
que o abrigava não era humano. O ente tinha quatro patas, e escassa
inteligência. Ao lado dela, o intelecto de Ellert pôde acomodar-se
facilmente.
Conseguira
até conversar com o ser. Chamava-se Gorx, e informou que também seu
planeta se chamava Gorx, assim como o sol e o Universo. Tudo tinha o
nome de Gorx, porque naquele mundo existia um único Gorx.
Ellert
procurou concentrar-se, e o inacreditável aconteceu: podia abandonar
o corpo de Gorx. Ainda viu o vulto lerdo e peludo engatinhar pelo
chão, em direção de uma caverna rochosa.
Não, não
seria ali que encontraria resposta para suas perguntas.
Concentrou-se
novamente, e disparou para o espaço, que era simultaneamente tempo.
Turbilhonou através da corrente do infinito, mas desta vez de volta,
conforme lhe provavam as vias lácteas que ultrapassava. Quando
parou, estava suspenso no nada.
De que
forma orientar-se agora? Não existiam pontos de referência. Era uma
gota no mar do tempo. Foi então que Ellert compreendeu que jamais
haveria possibilidades de voltar.
Tinha-se
transformado em prisioneiro da eternidade.
E a
questão crucial não era saber onde se encontrava, mas sim quando...
Pergunta aterrorizante, que ninguém podia responder.
E portanto
Ernst Ellert, o prisioneiro da eternidade, percorreu milhões de anos
em busca do presente...
*
* *
O alçapão
tornou a fechar-se, com um baque surdo.
Atlan só
não estremeceu porque previra o ruído. Além disso, não queria dar
a impressão de fraco diante de Rhodan.
Estreita e
apertada, a escada parecia levar a um poço sem fundo. Rhodan
precedia Atlan, a passos decididos.
Deteve-se
diante de uma parede inteiriça, esperando que o amigo o alcançasse.
— A
câmara fúnebre fica aí atrás, almirante.
— Está
melhor guardada do que a maior arca de tesouros do mundo — disse
Atlan, impressionado.
Rhodan
acenou gravemente.
— O
corpo de Ellert é um tesouro, mesmo desprovido de alma. Mas quando
ela regressar...
Deixou a
frase incompleta, e pôs a mão sobre a fechadura embutida no metal.
O calor de seu corpo, e as vibrações individuais do cérebro
ativaram o mecanismo. A porta abriu para um exíguo corredor, em cujo
extremo havia outra porta. Esta abriu-se sem dificuldade.
Rhodan
entrou na câmara fúnebre um passo adiante de Atlan.
Ernst
Ellert achava-se sobre o leito, como se tivesse acabado de adormecer.
O rosto
estava um tanto pálido, mas não exangue. Os cabelos escuros e bem
ordenados davam-lhe boa impressão. Os olhos estavam fechados, os
lábios firmemente cerrados.
Ernst
Ellert não respirava. O espelho diante de sua boca não estava
embaçado.
Rhodan
deteve-se longamente diante do mutante. De pé, a seu lado, Atlan mal
ousava respirar, assombrado com o que via. Haviam sido chamados por
um morto, e o apelo tinha sido atendido, através de mais de seis mil
anos-luz.
Depois
surgiram os primeiros impulsos mentais, débeis e tateantes, sondando
a consciência dos dois homens. Aos poucos, tornaram-se mais fortes.
— Perry
Rhodan, você veio? Esperei-o por muito tempo.
Foi um
verdadeiro choque para Rhodan, pois desta vez ele sabia quem
silenciosamente e por telepatia, lhe falava.
Com voz
rouca e comovida, respondeu:
— É
você, Ernst Ellert! Eu sabia que voltaria algum dia, porém nunca
imaginei que demorasse tanto. Ocupava o corpo de Onot, o físico-chefe
dos druufs, não é?
— Ainda
o ocupo, Rhodan! Só pude libertar metade de meu espírito. Porém um
dia ficarei totalmente liberto. Mas até lá...
— Até
lá...? — perguntou Rhodan, ansioso, sentindo os impulsos fugir.
— Não
posso deixar os druufs sozinhos, pelo menos enquanto existir a
passagem para a nossa dimensão temporal. Quando os dois Universos
tiverem passado um pelo outro, minha tarefa estará concluída.
Rhodan
estremeceu. As palavras tinham sido pronunciadas em voz audível. Às
suas costas!
Voltou-se
abruptamente, e viu Atlan encostado à parede, lívido e abalado.
Apesar disso, sua boca se movia, e disse!
— Sim,
Rhodan, falo através de seu amigo Atlan. Estou livre, conforme já
mencionei, porém ainda não de todo. Entretanto, o suficiente para
apossar-me do corpo de Atlan. O que não o impede de me ouvir.
Rhodan
esforçava-se por compreender a situação.
— Conte-nos
o que aconteceu — pediu.
E Ellert
contou, usando a voz de Atlan:
— Enquanto
vogava na corrente de tempo, inteiramente desorientado, andei sem
descanso de Universo para Universo, de era para era. Conseguia
mover-me com inteira liberdade, porém não encontrei mais o que
chamamos de presente. Estava extraviado, conforme julgava. Até
encontrar certo dia os druufs. O único povo existente no Universo,
na minha opinião.
Após
breve pausa, Ellert prosseguiu:
— Eu
estava enganado. Não havia apenas um tempo, mas diversas dimensões
temporais, coexistindo lado a lado. Numa das dimensões, a nossa, eu
teria sido capaz de orientar-me, e achar o caminho de volta para o
presente. Porém o choque recebido me jogou para fora de nosso tempo;
cruzando o nada, fui parar na dimensão dos druufs. E, de lá, não
havia retorno. Eu estava definitivamente perdido.
Fez-se
prolongado silêncio.
Rhodan
começava a compreender gradualmente o que ocorrera. Ninguém poderia
ter dado descrição tão objetiva dos fatos como Ellert, pois pessoa
alguma no mundo vira ou vivera coisa semelhante.
— E vai
poder retornar definitivamente para junto de nós em breve, retomando
a posse de seu corpo?
— Sim,
Perry! Retornarei, sem a menor dúvida. No entanto, mesmo que pudesse
voltar hoje, eu não o faria. Os druufs representam perigo muito
maior do que imagina. Tenho certa influência sobre eles, pois sob a
forma de Onot pertenço à elite governamental. Se eu não tivesse
agido, eles teriam dominado a Terra há três meses, e com ela nossa
Via Láctea.
— Há
três meses? — indagou Rhodan, procurando lembrar.
— Claro!
Eles saíram de seu Universo por uma brecha repentinamente surgida, e
atacaram o reino de Árcon. Muitos planetas pereceram entre fogo e
fumaça nessa ocasião, e vários perderam alguns continentes...
A voz de
Atlan estacou de repente, e ele olhou admirado para Rhodan. Depois
Ellert continuou a “falar”,
mas voltando à telepatia.
— Agora
lembro de onde conheço Atlan, por cuja boca eu falava. Há três
meses ele ainda era comandante de uma frota de guerra arcônida,
encarregada de colonizar um sistema solar.
Antes de
formular sua resposta, Rhodan lançou rápido olhar a Atlan.
— O
sistema solar, Ellert, era “o
nosso”.
E seu encontro com Atlan não ocorreu há três meses, mas sim há
dez mil anos. Precisou viajar a tão remoto passado a fim de
reencontrar o presente?
Ellert
levou tempo para responder:
— Minha
memória ainda está falha, e perdi por completo a noção do tempo.
Duvido que ainda seja capaz de viajar ao passado ou ao futuro. O que
por si já garante minha volta para junto de vocês, pois não
perderei a Terra de vista. Porém não podemos deixar os druufs
entregues a si mesmos. Só após o fechamento da zona de descarga,
não haverá mais perigo.
Rhodan
lembrou-se de um detalhe importante.
— Como
Onot, você trabalha num projeto interessante. O congelador de tempo,
conforme o chamamos. Que vem a ser isso?
— Como
Onot, eu poderia explicar; mas como Ellert não disponho de
informações suficientes. Caso as consiga, talvez eu possa construir
um aparelho idêntico na Terra.
— Mais
uma pergunta — disse Rhodan. — Os druufs dispõem de um tipo de
propulsão que evita transições bruscas. Sabe dizer-me algo a
respeito?
Mais uma
vez, Ellert valeu-se de Atlan para falar:
— Saberei,
quando recuperar totalmente minha liberdade. Por enquanto, só sei
que os druufs rompem a fronteira do hiperespaço, que existe
igualmente na outra dimensão temporal, sem o menor choque. Assim que
é alcançada a velocidade da luz, entra em ação um compensador
automático, que além de neutralizar o tempo, ainda impede
modificações na massa. Em tempo mínimo, a nave acelera para
milhões de vezes a velocidade da luz. Apesar de voar pelo
hiperespaço, o Universo normal permanece visível. Vantagem
inapreciável para a orientação, dispensando os exaustivos cálculos
atualmente exigidos para todo hipervôo. Além disso, elimina a dor
resultante da rematerialização. Vôo visual! Experiência única!
A despeito
da intensa excitação, Rhodan manteve-se calmo e objetivo.
— Acha
que pode conseguir-nos os planos deste tipo de propulsão?
— Não
voltarei para meu corpo sem os planos. Muito obrigado, aliás, por
tê-lo conservado tão cuidadosamente. Não tive a menor dificuldade
em localizá-lo.
— O que
foi que lhe deu liberdade parcial?
— Creio
que sabe, não...? O campo do congelador de tempo, no qual fui parar
graças à curiosidade de Gucky — Ellert calou por um instante,
depois acrescentou, pensativo: — Curioso, sou capaz de lembrar
nomes e coisas que jamais conheci, por não existirem naquele tempo.
Rhodan
contemplou a face imóvel do mutante. Tão morta e rígida como
antes. Mas um dia tornaria a viver...
— Que me
aconselha? — perguntou.
Ellert
voltou à telepatia. Talvez não quisesse sobrecarregar demais Atlan.
— Continue
a combater os druufs, e providencie a destruição da grande central
de cálculos abaixo da capital, em Druufon. No entanto, sem que
recaiam suspeitas sobre você. Alie-se a Árcon, e deixe os robôs
cuidar da tarefa. Caso Onot pereça nesta operação, não fará
muita diferença. Acho que ele morrerá de qualquer maneira quando eu
o abandonar totalmente.
— E se o
regente não concordar?
Quando
Ellert falou, Rhodan achou os impulsos mentais mais fracos.
— Faça
o que digo! Não resta muito tempo... até a vista, Perry, Atlan.
Preciso voltar para Druufon. Onot desmaiou. Preciso...
Os
impulsos cessaram de repente.
Ellert se
retirara, ou fora forçado a retirar-se.
Porém um
dia...
Rhodan
contemplou mais uma vez a face sem vida, debaixo dos aparelhos
eletrônicos de alarma. Depois virou-se bruscamente, dizendo a Atlan:
— Podemos
ir.
Atlan
seguiu-o calado.
Passaram
pelas duas portas, subiram os estreitos degraus e suspiraram de
alívio ao atingir a superfície. O sol agora alto no céu lhes
pareceu verdadeiro símbolo. Seus raios significavam vida e
esperança.
Por trás
deles, a placa rochosa tornou a ocultar a entrada do poço.
Pardo
junto à pirâmide, Gucky declarou:
— Acompanhei
telepaticamente toda a conversa.
Rhodan
acenou-lhe amistosamente. Mercant veio ao encontro de Rhodan.
— E
então? — indagou, ansioso. Suas qualidades telepáticas eram
fracas demais para permitirem participação nos acontecimentos
ocorridos no interior da câmara fúnebre. — Que aconteceu? Onde
está Ellert?
Rhodan
fitou o cume da pirâmide ao responder:
— Ellert
retornará, quando for chegado o momento. Ele e nós ainda temos uma
tarefa para cumprir. Ele falou conosco, Mercant, porém seu corpo
ainda precisa continuar em repouso. Mande colocar guarda permanente
em torno do mausoléu. Na próxima vez em que a lâmpada vermelha se
acender, será a hora!
Olhando em
torno, avistou Haggard. Cumprimentou-o igualmente.
— Não
tardará muito, doutor, e poderá realizar um exame médico em
Ellert. Exame físico, bem entendido, pois quanto ao estado mental...
Rhodan
silenciou repentinamente.
Depois fez
meia-volta e encaminhou-se sem mais uma palavra para o planador.
Gucky já se encontrava na cabina.
3
Levado por
uma inquietude interior para a qual não achava explicação, Rhodan
voltou no mesmo dia para Mirta VII. Talvez conscientizado pelas
palavras de Ellert, compreendendo agora, claramente, o quanto eram
ameaçadores os druufs. Era mais do que tempo de infligir uma derrota
significativa aos monstros.
Ainda
antes de atingirem a velocidade exigida para a transição, Harno
lhes trouxe uma imagem do sistema Siamed.
Inflada
para o dobro do tamanho de uma bola de futebol, a superfície curva
mostrou primeiro as naves assediantes do regente. Postadas diante da
zona de descarga, tocaiavam as unidades dos druufs que tentavam
passar por ela.
Rhodan
inspirou profundamente ao ver a nuvem cintilante.
Lançou um
olhar interrogador a Atlan.
— Quantas
são? Pode dar uma estimativa?
O imortal
arcônida respondeu:
— Trinta
mil unidades, pelo menos, entre grandes e pequenas. Também há naves
dos saltadores entre elas. Uma frota e tanto!
— Não
obstante, os druufs dariam conta dela, caso não sejam impedidos —
replicou Rhodan. — Acho que atenderemos finalmente os pedidos de
socorro do regente.
Após
refletir um pouco, acrescentou:
— Trinta
mil naves! Com isso, pode-se conquistar um Universo inteiro. Jamais
imaginei que Árcon dispusesse de tamanhas reservas.
Na voz de
Atlan, havia um tom de orgulho, quando respondeu:
— Que
aliado será Árcon, quando o reino for novamente governado por um
imperador, e não por uma máquina!
Harno
trocou de imagem. Surgiu Druufon, circundado por vigilantes
cruzadores cilíndricos; sua missão era proteger o planeta, já
agredido, de futuros ataques. Seria muito difícil romper a poderosa
barreira. Talvez até inteiramente impossível.
Diante de
tão manifesta superioridade, Rhodan imaginou quantas vítimas seriam
feitas numa possível batalha.
Harno
mostrava agora a base subterrânea de Hades. Já haviam sido
instalados doze transmissores-receptores de matéria, com alcance
máximo de dois anos-luz. O que significava que homens e materiais
podiam ser introduzidos no Universo dos druufs, sem ser necessário a
nave transportadora passar pela perigosa zona de descarga.

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