Transmissores
de matéria...?
Na mente
de Rhodan, começou a delinear-se um plano tão arrojado e fantástico
que não levou a idéia adiante.
Mas,
afinal, por que não...?
Por
coincidência, Atlan formulava, no mesmo instante, idéias
semelhantes. Tendo em vista a similitude de caráter daqueles dois
homens, o fato dificilmente poderia ser atribuído a um acaso.
— Também
os druufs conhecem o transmissor de matéria, não é? — perguntou
Atlan, rompendo o silêncio.
Rhodan
levantou rapidamente os olhos, dando com o ar indagador de Atlan. De
seu sofá, o rato-castor pigarreou. Harno deu sua tarefa por
encerrada, “murchou”
e subiu para o teto.
— Possuem
um, pelo menos — confirmou Rhodan, Por quê?
Atlan
sorriu.
— Aposto
que sabe por que pergunto, bárbaro. Viu tão bem quanto eu a frota
bloqueadora dos druufs, e deve ter imaginado uma maneira de chegar à
central de cálculos, sem perder metade de seus efetivos na
tentativa. Há dois modos: tentar novo acordo, a fim de poder
aterrissar, ou atacar abertamente. Fora disso, ainda existe uma
terceira possibilidade!
— Foi
exatamente esta que me ocorreu também — confessou Rhodan,
retribuindo o sorriso. — O acordo com os druufs, nos moldes do
anterior, está fora de cogitação, já que pretendemos entender-nos
com Árcon. Restaria, portanto, o ataque aberto. E como prefiro
contorná-lo, por razões compreensíveis, só nos fica a terceira
possibilidade: os transmissores. Não é isso que pensa?
— Exatamente,
Rhodan! Mas como?
Rhodan
disse simplesmente:
— Ellert-Onot!
Atlan
acenou em silêncio. Depois calaram-se. Apenas ficaram observando o
Coronel Baldur Sikermann iniciar a transição que os levaria a Mirta
VII, também chamado Fera Cinzenta.
*
* *
Ainda na
noite do mesmo dia — tempo terrestre — a Drusus decolou
novamente, vencendo com uma curta transição o trajeto de vinte e
dois anos-luz até a zona de descarga. Distância esta que, meramente
por acaso, pouco se modificara, apesar do contínuo deslocamento da
faixa de superposição ao longo da Via Láctea. Ela seguia com
metade da velocidade da luz; no entanto também o sistema Mirta se
movia, com velocidade e rumo idênticos.
A Drusus
materializou-se bem no meio de uma formação de cruzadores ligeiros
do Império Arcônida. Pela reação um tanto indecisa, Rhodan
percebeu que se encontrava diante de unidades tripuladas por seres
vivos, e não por robôs.
Antes que
os saltadores — indubitavelmente se tratava dos aliados do regente
— pudessem tomar atitude, Rhodan entrou em contato radiofônico com
eles.
Foi com
imensa surpresa que os saltadores constataram estar mais uma vez
diante do endiabrado terrano: e mais surpresos se mostraram, quando
Rhodan manifestou o desejo de falar com o regente.
Asseguraram-lhe
que podia fazer contato com Árcon sob a proteção da poderosa frota
de batalha, sem o risco de ser molestado.
Além
disso, Rhodan sabia que os saltadores podiam ouvir igualmente a
conversação que iria ser travada. E essa circunstância era a
principal razão para sua maneira de agir.
Rhodan,
Atlan, Reginald Bell e Gucky dirigiram-se para a central radiofônica
da Drusus. O receptor do hiper-rádio já estava ligado.
A tela
oval mostrou o conhecido símbolo do cérebro-robô de Árcon: a
imensa semi-esfera metálica pousada sobre um pedestal.
Simultaneamente se ouvia a gravação da frase captada há semanas:
— O
regente de Árcon chama Perry Rhodan, o terrano! Nosso inimigo comum
ataca com forças superiores! Se não nos aliarmos, estaremos
perdidos! Solicito a ajuda de Perry Rhodan! Manifeste-se, Rhodan!
A mensagem
era repetida ininterruptamente, a breves intervalos. Até então
Rhodan não respondera.
— Eu já
teria enjoado disso há muito tempo — comentou Bell, observando com
interesse profissional a semi-esfera.
— Claro,
você não tem temperamento de robô — esclareceu Gucky,
acomodando-se confortavelmente num canto, a fim de observar com
exatidão os acontecimentos. — Felizmente...!
Sem lhe
dar atenção, Rhodan aproximou-se do transmissor.
— Aqui,
Rhodan! Que proposta tem para me apresentar, regente?
Depois
aguardaram.
Não
porque as ondas de rádio necessitassem de algum tempo para percorrer
o incomensurável trajeto. Pelo hiperespaço, alcançavam Árcon
instantaneamente; captadas pelo equipamento local, eram conduzidas ao
regente. O cérebro-robô tinha ampla capacidade para realizar
simultaneamente centenas de conversações daquele tipo. Um dos
canais receptores ficara permanentemente livre para Rhodan.
No
entanto, até mesmo o robô precisava de algum tempo para refletir e
pesar toda a gama de possibilidades. A pergunta de Rhodan devia tê-lo
pegado de surpresa.
Apesar
disso, dali a cinco segundos, a voz mecânica se fez ouvir na central
radiofônica da Drusus.
— É
você, Rhodan! Meus cálculos me diziam que continuava vivo. Conhece
os druufs?
— Sim,
conheço-os. Que sugere?
— Minha
frota está em prontidão. Reforce-a com a totalidade de suas naves,
para um ataque conjunto. Nós destruiremos os druufs.
— Não
estou tão certo disso — declarou Rhodan decididamente, percebendo
que, mais uma vez, o regente tentava matar dois coelhos com uma
cajadada. Aniquilados os druufs, seria a vez da Terra. — Tenho
plano melhor!
— Se for
melhor que o meu, está aprovado.
— Destaque
uma nave de guerra do tipo Titan para atravessar a brecha, e entrar
no Universo dos druufs. A tripulação será formada exclusivamente
por robôs guerreiros. Providencie para que pelo menos uma ou duas
dúzias deles desçam em Druufon, e desencadeiem uma confusão
infernal.
Depois de
curto silêncio, veio a resposta:
— Não
vejo sentido nesta ação, Rhodan...
— Verá,
se continuar a ouvir.
— Então
fale.
Rhodan
expôs ao cérebro-robô todo o plano anteriormente discutido com
Atlan. Tudo foi dito em poucas frases. A idéia era tão óbvia e
lógica que o regente respondeu imediatamente:
— O
plano é bom; concordo com ele. Receberá o que pede.
— Eu
espero.
As naves
dos saltadores os envolviam por todos os lados. Seu número era tão
grande que ocultava as estrelas. Rhodan, Atlan e Bell estavam
novamente na central de comando. Gucky ficou na sala de rádio.
— Estou
curioso por ver o que vai acontecer — disse Atlan, afundando com um
suspiro na poltrona mais próxima. — Por que não funcionaria?
Rhodan não
deu resposta, atento em observar, na tela, as naves dos saltadores.
Havia alguns cruzadores-robôs entre elas. Unidades das mais
perigosas, pois atacavam sem a menor preocupação com a própria
perda. Os tripulantes-robôs limitavam-se a obedecer ordens, e
desconheciam o medo.
Enquanto
esperavam, algumas modificações foram feitas a bordo da Drusus. Um
dos imensos porões de carga foi desocupado; era bastante amplo para
acomodar vários cruzadores ou outra espécie de material.
Passou-se
meia hora.
E depois,
a menos de um segundo-luz da nave, materializou-se um cargueiro.
Vindo do hiperespaço, freou assustadoramente perto da Drusus, dando
a impressão de catástrofe iminente. Deteve-se bem próximo a ela.
Pelo
rádio, Rhodan entrou em contato com o comandante.
— Trago
os robôs de combate pedidos.
— Obrigado.
Direto de Árcon?
— Exato.
Ordens do regente.
— Ótimo;
vou abrir as escotilhas de carga. Pode mandar transferir os robôs. E
quanto à segunda exigência?
— Uma
nave bélica de Árcon está à disposição.
Rhodan
agradeceu e cortou o contato.
O resto
era mera rotina.
As duas
naves foram interligadas com cabos magnéticos. Pela prancha
gravitacional, 500 possantes robôs de combate marcharam da abertura
do cargueiro para o compartimento de carga da Drusus.
Tratava-se
de colossos do modelo mais recente, com quase três metros de altura.
Na altura do peito possuíam uma protuberância rotativa, eriçada de
armas, permitindo-lhes atirar simultaneamente em todas as direções.
Os quatro braços terminavam em radiadores energéticos. Depois de
ativado, cada um daqueles monstros metálicos era um inferno
ambulante, espalhando fogo e destruição. Bastava programar
adequadamente seus cérebros positrônicos.
Uma hora
depois, as escotilhas foram fechadas, e os cabos desamarrados; as
duas naves separaram-se vagarosamente, tomando rumos opostos.
Novamente
Rhodan entrou em contato com Árcon.
— Tudo
pronto, regente. Marque o ataque para amanhã. Tempo: meio-dia, hora
da Terra.
— Tempo
já convertido! Tudo entendido! — após imperceptível pausa, o
regente acrescentou: — Boa sorte, Rhodan da Terra!
— Muito
grato — replicou Rhodan, com certa frieza.
Não havia
razão para supor que o regente expressara tal voto movido por
sentimento. Pura vontade de se fazer de bonzinho...
A Drusus
ganhou velocidade, afastando-se algumas horas-luz da coligação de
saltadores e robôs. Depois Rhodan ligou para Hades.
O Tenente
Stepan Potkin, comandante substituto da base secreta no seio do reino
dos druufs, já estava devidamente instruído. Comunicou que o
transmissor III se encontrava em prontidão.
Rhodan e
Atlan dirigiram-se para o compartimento de carga da Drusus.
Não era
por acaso que ficava vizinho ao transmissor de matéria da nave.
— Bem,
vamos à viagem — disse Atlan, abrindo a porta da sala. Ao mesmo
tempo, disse aos robôs: — os primeiros vinte entram comigo na
cabina. Dentro de exatamente dez segundos segue o segundo grupo. Em
duzentos e cinqüenta segundos, a operação de transferência estará
completada. Então receberão nova programação.
De pé
junto à porta, Rhodan viu Atlan entrar na cabina com os vinte
guerreiros mecânicos. Dois segundos após, todos tinham
desaparecido. Materializariam-se no mesmo instante em Hades, a dois
anos-luz de distância.
Os
próximos vinte, os próximos....
Com a
última leva, também Rhodan deixou a Drusus.
Sikermann
colocou-se em posição de espera. Seria uma dura prova de paciência
para ele próprio, para Bell e Gucky. Especialmente para o
rato-castor, impaciente por natureza.
Em Hades,
tudo decorreu conforme o programado.
Enquanto
os técnicos tratavam de preparar os robôs para a tarefa em
perspectiva, Rhodan e Atlan foram procurar o Capitão Rous,
companheiro de Potkin no comando da base. O hangar de Hades abrigava
o cruzador ligeiro Califórnia.
Marcel
Rous pertencia ao grupo de pioneiros na exploração da dimensão
temporal dos druufs, muito antes do aparecimento da tal zona de
descarga. Mediante um gerador de campo lenticular, tinham conseguido
romper a barreira de tempo, proeza que quase lhes custara uma
sentença de prisão perpétua no cárcere do tempo.
Suspirou
de satisfação ao ver Rhodan e Atlan, vindo-lhes ao encontro de mão
estendida.
— Alegro-me,
Sir...
— Tudo
em ordem — disse Rhodan, em tom tranqüilizador, apertando-lhe a
mão.
Atlan
cumprimentou igualmente Rous, e, a seguir, Rhodan resumiu os
acontecimentos ocorridos na Terra, concluindo:
— Precisamos
agora de um contato telepático com Ellert. Nem sei como seria
possível sem o concurso de Harno.
Enfiando a
mão no bolso, retirou a bolinha negra. Atlan nem percebera que
Rhodan trouxera Harno.
— Pode
achar Onot?
Harno
inflou, transformando-se em tela.
— Vou
tentar — disse o impulso no cérebro dos três homens.
Névoas
coloridas ziguezaguearam pela superfície curva e leitosa, acabando
por condensar-se na imagem de um planeta, que crescia visivelmente.
Druufon!
No
entanto, Harno avançou mais, até o interior do planeta. Todas as
instalações importantes dos druufs localizavam-se nas profundezas
do solo, resguardadas pela sólida rocha de Druufon. Ali pulsava o
coração da poderosa tecnologia que ambicionava sobrepujar até o
tempo.
Onot
aparecia bem em evidência.
O
físico-chefe dos druufs repousava. Estava deitado, de olhos
fechados.
“Portanto”,
refletiu Rhodan, “deve
ser especialmente fácil estabelecer contato com Ellert, se é que
seu espírito não está também dormindo. Será que ele dorme alguma
vez?”
Rhodan não
teve tempo de formular resposta para sua dúvida, pois já sentia o
cauteloso tatear de impulsos estranhos em sua consciência —
prenuncio da aproximação de Ellert.
Também o
Capitão Rous e Atlan entenderam o que Ellert dizia:
— Seu
plano, Rhodan, é muito hábil! Pode ver-me?
— Vemos
Onot, o cientista. Harno encontrou-o.
— Seus
pensamentos são fragmentos apenas. Diga coerentemente o que devo
fazer, para que engano nenhum comprometa o plano. Eu ouço.
Rhodan
disse:
— A
frota do regente de Árcon atacará novamente Druufon; no decorrer da
ação, tentará fazer descer uma nave de guerra cheia de
combatentes-robôs. Operação que visa apenas fazer camuflagem, pois
dificilmente os robôs conseguirão chegar à central de cálculos.
Esta parte será reservada aos robôs distribuídos por nossos doze
transmissores de matéria. Ligaremos os aparelhos pouco depois do
início do ataque arcônida. Seu único encargo será colocar
“casualmente”
a ligação da estação receptora na central de cálculos, em
sintonia com a nossa. Pode fazer isso?
— Devo
poder, pois afinal eu sou Onot
— veio a resposta clara e decidida. — Renovarei
o contato a tempo, Rhodan. O plano não pode falhar. Tudo em ordem,
fora disso?
Rhodan não
tinha mais perguntas a fazer.
— Fora
disso, tudo em ordem, Ellert. Até amanhã...
Não houve
resposta. Talvez os contatos fossem cansativos para Ellert, e ele
evitasse desperdiçar energia desnecessariamente.
Atlan
perguntou de repente:
— E que
papel nós desempenharemos na ação planejada?
— O
Capitão Rous irá conosco, Atlan. Faremos uma visita sem compromisso
aos druufs, bem na hora da confusão. Gostaria que continuassem nos
considerando amigos... Pelo menos até conseguirmos o segredo da
propulsão estelar — Rhodan sorriu, deliciado. — Belo nome, não
acham?
— E o
congelador de tempo?
— Um
presente que não seria de desprezar, caso possamos obtê-lo —
replicou Rhodan, que atribuía pouca importância àquela invenção.
— Menos interessante do que a propulsão estelar, com a qual
gostaria de equipar nossas naves. Em comparação com os hipersaltos,
apresenta uma série de vantagens.
— Quando
partimos? — indagou Rous, excitado.
— Amanhã
— prometeu Rhodan. Porém, logo emendou-se: — Receio ter que
desapontá-lo, meu caro. Parece-me mais conveniente seguir para
Druufon na Drusus. Os druufs já conhecem a nave de guerra, e ela
imporá mais respeito do que a insignificante Califórnia. Não leve
a mal...
— Razões
estratégicas pesam mais — declarou Rous, escondendo a decepção.
Ou talvez
nem sentisse decepção alguma, pois certamente aquele vôo infernal
não constituiria prazer algum.
Rhodan
deu-lhe as derradeiras instruções, a fim de assegurar a perfeita
coordenância de horários, e retornou com Atlan e Harno para junto
do Tenente Potkin, que dirigia a programação dos robôs.
— Iniciarão
sua tarefa destrutiva, assim que pisarem na central de cálculos
subterrânea dos druufs. Cada um destes robôs-combatentes possui a
força de fogo nuclear de um pequeno destróier. Quando imagino os
500 em ação simultânea...
— Melhor
não pensar nisso — aconselhou Rhodan, contemplando as máquinas
enfileiradas. Semelhavam-se a seres pré-históricos e, no entanto,
faziam parte de um futuro recém-iniciado para a Terra.
Harno
desceu, deixando que Rhodan o colocasse no bolso. Parecia sentir-se
bem lá dentro, evidentemente. Rhodan nem sentia seu peso.
— Retornaremos
ainda hoje para a Drusus, permanecendo em contato através do
hiper-rádio. Assim que a frota de Árcon atacar, amanhã cedo,
começa nossa grande partida contra os druufs. Espero que eles não
recusem participar do jogo!
— É
disso que tudo depende — comentou Atlan.
Porém a
opinião de Rhodan era diversa.
— Ora,
não fará diferença. De uma ou de outra maneira, nossos quinhentos
lutadores alcançarão a central de cálculos, arrasando tudo à sua
frente. Porém isso me colocaria na posição de inimigo dos druufs,
o que eu lamentaria imensamente.
Atlan não
respondeu. Acompanhou-o calado até o transmissor que os levaria de
volta para a Drusus.
Continuava
cético, fiel à sua natureza.
*
* *
Ainda lhes
restavam quatro horas até o começo do ataque.
Após
repousante sono, Atlan e Gucky chegaram quase juntos ao camarote de
Rhodan. Bell já estava presente, sonhadoramente reclinado num
assento. Gucky se encaminhou para lá, e, num salto, se instalou ao
lado do amigo. Aconchegou-se a Bell, sem ligar para seu olhar meio
desconfiado.
Rhodan
tomara o desjejum, e sentia-se bem disposto. O plano estava traçado,
e nada podia alterá-lo. Tinham diante de si quatro horas ociosas,
sem maiores preocupações.
Sob o teto
flutuava Harno, o enigmático ser de energia e tempo, reduzido a uma
inofensiva bola.
Atlan
tomou lugar diante de Rhodan.
— Agora
falta pouco, bárbaro.
— Em
determinadas circunstâncias, quatro horas podem representar longo
espaço de tempo...
A Drusus
ainda se mantinha a alguma distância da frota espacial de Árcon. A
menos de um ano-luz de distância, tremeluzia a zona de descarga.
Imóvel em relação à Drusus, à frota e ao sistema solar do
Universo relativista; porém, na realidade, deslocava-se com metade
da velocidade da luz através do Universo. Unicamente graças a este
acaso permanecera estável por tanto tempo. Durante os fugazes
contatos entre os dois Universos, estas zonas de superposição
duravam apenas horas ou dias. Às vezes, até poucos segundos.
— Sinto-me
contente com a pausa — confessou Rhodan. — As derradeiras horas e
dias foram verdadeiramente exaustivos. E não sei se o futuro será
mais tranqüilo.
— Dificilmente
— opinou Atlan. Lançou um olhar a Bell, ocupado em acariciar a
nuca de Gucky. — Até nosso rotundo amigo vai demonstrar inesperada
lepidez em breve.
Bell não
reagiu à provocação.
— Lepidez...?
Que bela palavra, almirante! Mas acho que está enganado. Que tenho
eu a fazer? O trabalho principal caberá aos robôs, e a Ellert —
estacou, como se a menção do nome lhe recordasse algo. — Aliás,
será que ainda teremos novas de Ellert?
— Claro
que sim, mas só alguns minutos antes do ataque, ou no decorrer da
ação. Vai depender da oportunidade que ele tiver.
Rhodan
calou, olhando para o alto, como se quisesse perguntar algo a Harno.
No entanto, nada disse.
— Por
que não pergunta, Rhodan?
O impulso
mental penetrou em todos os cérebros.
Por um
instante, Rhodan revelou certo constrangimento por ver-se descoberto,
mas logo sorriu, sacudindo a cabeça.
— Não
devia ser tão indiscreto, Harno! Sabe muito bem o que queria
perguntar-lhe. E não é de hoje... Responda se quiser!
— Quer
saber se posso fazer mais do que refletir imagens. Claro que posso,
Rhodan, desde que tenha a devida permissão! Há coisas que até a
mim são proibidas.
— Proibidas...
por quem?
Era a
mesma pergunta que Harno já deixara de responder certa vez. Poderia
ou quereria respondê-la algum dia?
— Por
aquele que já encontraram.
Rhodan
ergueu os olhos para o teto.
Desistiu
de novas perguntas, adivinhando que Harno se envolveria em silêncio.
Ao contrário de Bell, mais desinibido.
— Que
quer dizer? Já encontramos tanta gente...
— Não
pode classificá-lo de gente
— corrigiu Harno, silenciosamente, mas em tom enérgico. —
Trata-se
de um ser de inimaginável inteligência, imortal como eu, porém
infinitamente mais sábio e poderoso. Seu lar é o Universo todo, e
nutre-se da luz das estrelas.
— Parece
que vocês dois têm muito em comum — disse Bell, pensativo. —
Também você vive da luz das estrelas. Tira delas energia, e a
capacidade de ser como é. Afinal, o que vem a ser você?
Gucky
observou, constrangido:
— Sua
curiosidade chega a ser inconveniente, gorducho!
Antes que
Bell pudesse replicar, Harno comunicou:
— Já
mencionei uma vez que a curiosidade gera o conhecimento. Portanto,
não levem a mal a curiosidade de Bell. Afinal, minhas respostas não
dependem dele, mas sim do que me permitem ou não falar. Sim, sou
aparentado com ele, com o ser onipotente que por sua vez também
conhece limites. Aquele que não tem limites nem sequer eu conheço.
Jamais alguém o verá de perto.
Rhodan
percebeu que a conversa tomava rumo perigoso.
— Deixemos
isso de lado — disse, categoricamente. — Harno falará quando
julgar oportuno. O que, no entanto, não me impede de querer conhecer
suas capacidades, Harno. O que, além de qualquer recanto do
Universo, pode mostrar-nos?
— Como
se isso não bastasse!
— veio a réplica um tanto irônica. — Que
quer que eu possa?
Aquilo
pegou Rhodan de surpresa, deixando-o quase sem ação.
Recuperando-se, formulou de maneira mais generalizada sua questão:
— Pode
alterar a forma esférica de seu corpo caso necessário? Isto é,
poderia tomar a forma de um cubo, em vez de uma bola?
Nas suas
mentes ecoaram risadas. Realmente, Harno estava rindo! Externamente a
bola não apresentava modificação alguma, mas era indubitável que
ria da pergunta de Rhodan.
— Também
Harnahan queria saber por que eu tinha formato de bola. Disse-lhe
que, conforme todo mundo sabe, a esfera é a mais perfeita das
formas. Claro que posso me transformar num cubo se for necessário!
— Obrigado,
Harno! Vou-me lembrar disso na devida ocasião. E talvez ela se
apresente mais cedo do que esperamos. Uma pergunta adicional, ainda:
pode voar acima da velocidade da luz sob qualquer forma?
— Posso,
sim!
— É
tudo que eu queria saber, Harno.
A sede de
sabedoria de Rhodan estava satisfeita.
Só aos
poucos, os demais foram tomando consciência da imensa significação
contida no que acabavam de ouvir. Seus olhares espantados
prenderam-se ao teto, onde flutuava a pequenina e insignificante
bola.
Apenas
Gucky relevou a tensão numa observação zombeteira.
— Conforme
constataram, não é a forma física que importa, mas sim o que esta
dentro dela. Bell é enorme por fora, enquanto eu sou pequeno. A
conclusão lógica seria...
Em seus
cérebros, Harno ria gostosamente.
*
* *
O
físico-chefe Onot não vinha se sentindo bem há algum tempo.
O
mal-estar começara há três ou quatro meses. Inicialmente, dores de
cabeça. Depois começou a perder a consciência — por instantes,
segundo lhe parecia. No entanto, ao consultar posteriormente o
relógio, constatava que havia passado horas inteiras.
Onot
evitou cuidadosamente cientificar o venerável Conselho dos Sessenta
e Seis de suas observações; além disso, uma voz íntima se opunha
à noção de que alguém tomasse conhecimento de sua doença.
Tratar-se-ia
realmente de doença?
Pois havia
sintomas paralelos que intrigavam Onot.
Muitas
vezes, quando se achava sozinho em seu laboratório, ocupado com as
misteriosas experiências com o tempo, tinha a nítida impressão de
estar sendo observado. Como se não estivesse mais sozinho, com
alguém espiando por cima do ombro. E a presença invisível exercia
incrível influência sobre seu modo de pensar.
De alguma
forma, o fato devia ter relação com suas experiências. Afinal,
analisava o problema tempo, e não seria de admirar se algum dia
topasse com seres ou objetos vindos do passado ou do futuro. Por
outro lado...
Cientista
objetivo, e o melhor de sua raça, aliás, Onot jamais poderia
acreditar em assombrações. Não estava doente. Simplesmente não
podia estar doente!
De maneira
alguma deveria adoecer!
Onot
encontrava-se em seu laboratório. Sabia que lá fora a situação
chegava a um estado crítico. A zona de descarga no Universo, há
tanto tempo prevista por ele, se tornara realidade, assegurando por
longo prazo acesso à outra dimensão temporal. A superposição
progredira, mas ninguém — nem sequer ele próprio — poderia
prever a duração deste estado de coisas.
Ao mesmo
tempo ela trazia um risco. Assim como os druufs podiam sair de seu
Universo, os estranhos da outra dimensão podiam penetrar no reino de
Druufon. E fora exatamente o que acontecera.
Onot
sorriu sarcasticamente. Os invasores não podiam ter escolhido
ocasião mais apropriada. Sua invenção estava pronta e testada. No
devido momento poderia transformá-la numa arma capaz de conquistar
vias lácteas inteiras. Além disso, a frota convencional dos druufs
era suficientemente poderosa para rechaçar qualquer adversário.
Sabia que,
naquele preciso momento, as potentes naves de guerra se organizavam
para atacar a frota de robôs, que bloqueava a entrada da zona de
descarga. Em Druufon haviam sido feitos preparativos para receber
“condignamente”
qualquer unidade, que escapasse aos defensores.
Ao ligar
pela derradeira vez o gerador que ativava o campo do congelador de
tempo, sorria ainda. Nenhum sinal exterior denotou o fluxo de energia
através da complexa aparelhagem; e a radiação distribuída pelo
refletor no teto era invisível. Desta forma, apenas parte do recinto
ficava sob a influência do campo de tempo. Uma seção circular, com
cerca de dez metros de diâmetro.
Onot deu
um passo para a frente, e pôs a mão no bolso do amplo jaleco.
Retirou-a de punho fechado. Abriu-o cautelosamente, certificando-se
de que o pequenino micar, um animal parecido com rato, ainda vivia.
Os micars eram amplamente usados para experiências.
— Nada
vai lhe acontecer — murmurou para o trêmulo bichinho, em tom
conciliador. — De certa forma, você se tornará até imortal, pois
o tempo vai passar milhões de vezes mais devagar para você. Mas só
se eu deixar o campo de tempo ligado tanto assim...
Riu
estrepitosamente, mas ouvidos humanos seriam incapazes de captar
tanto sua gargalhada, quanto as palavras pronunciadas depois:
— E
agora, divirta-se... Descrevendo amplo arco com o braço, lançou o
esperneante micar para dentro do invisível campo de tempo.
Primeiro o
micar voou e depois quedou imóvel no ar, sem executar mais o menor
movimento. Como se tivesse sido pregado no nada, ou imobilizado por
súbito encantamento. Parecia morto, aprisionado no interior de um
bloco de gelo. Ficou suspenso no ar, a menos de cinco metros de Onot.
O
físico-chefe contemplava-o com satisfação, mas sem surpresa
alguma, pois era exatamente este o resultado que esperava.
O micar
vivia agora em outra dimensão temporal, criada artificialmente.
Antes que completasse um movimento respiratório, ou caísse ao solo.
Inteiramente desamparado, encontrava-se à mercê do druuf, invisível
para ele. O mesmo sucederia a qualquer ser vivo atingido pelo campo
de tempo de Onot. Um gerador de dimensões apropriadas poderia
subjugar um mundo inteiro.
Um único
detalhe aguardava solução: como atingir o adversário indefeso sem
cair igualmente sob a influência do campo de tempo? Era este o
problema que Onot ainda precisava resolver.
O
cientista encaminhou-se para o painel de controle. Com alguns gestos,
ativou o indutor de choques entrementes construído. Seria absurdo
penetrar no campo de tempo, evidentemente, pois, no mesmo instante, o
invasor estaria sujeito às condições ambientes. Teria diante de si
um adversário inteiramente normal. O mais certo era tentar matar, ou
pelo menos atordoar, o inimigo paralisado, sem incorrer em risco.
Depois o campo de tempo poderia ser desativado novamente, e o
conquistador tomaria posse do mundo dominado.
Quando a
tela acusou o impacto do indutor de choque, o micar continuava
suspenso no mesmo ponto. Onot deixou-o atuar por dez segundos antes
de tornar a desligá-lo. Trêmulo de excitação, voltou à posição
inicial, e pousou a mão sobre a alavanca que interrompia o campo de
congelamento de tempo.
O micar
precipitou-se no chão, caindo de dois metros de altura, como se uma
mão invisível o tivesse soltado de repente. Onot apressou-se a
recolher o animalzinho, levando-o até bem perto dos olhos. Viu a
pele fremir sob o efeito das pulsações do diminuto coração. O
micar vivia, porém estava inconsciente.
Onot
suspirou de satisfação. A experiência tivera completo êxito.
As ondas
de choque, especialmente neutralizadas, não eram influenciadas pelo
campo de tempo; atravessavam-no em velocidade normal. O que
significava que se poderia alcançar e influenciar qualquer objeto
desejado sem ser forçado a pisar na zona perigosa.
Assim o
problema estava resolvido.
Onot
triunfara.
Agora era
só convencer o Conselho a liberar os recursos necessários para a
construção de um gerador gigante, e sua invenção poderia ser
produzida em larga escala.
Não teria
dificuldade em consegui-los.
Mal acabou
tal reflexão, tornou a sentir a dolorosa pressão no cérebro. Mera
estafa, talvez. Não se preocupou muito no momento; decidiu ir para
sua moradia privada, anexa ao laboratório. Estava tão cansado e
exausto...
“Andei
me excedendo no trabalho”,
pensou.
Vislumbrou
com satisfação a ampla cama. Sem sequer fechar a porta, jogou-se
sobre o leito e fechou os quatro olhos.
Adormeceu
instantaneamente.
*
* *
Todos
estes acontecimentos se deram simultaneamente.
O Conselho
dos Sessenta e Seis deliberava na arena. Desta vez, os representantes
do povo haviam sido admitidos, pois discutia-se a necessidade de um
ataque imediato. Os adversários vindos do outro Universo precisavam
ser rechaçados, e, além disso, aniquilados. A passagem para a
dimensão temporal do outro Universo não podia ficar bloqueada.
A sessão
foi rápida e sem atritos.
As
propostas dos sábios foram unanimemente aprovadas e sancionadas pela
assembléia. Os comandantes de esquadrão receberam ordens de deixar
suas naves em rigorosa prontidão, e decolar dos hangares
subterrâneos ao primeiro sinal.
Druufon
passou a ser uma fortaleza armada até os dentes. Em todos os pontos
do planeta, os canhões até então ocultos emergiam do chão;
apontavam ameaçadoramente para o céu luminoso, no qual o sol gêmeo
rubro-verde desenhava estranhos reflexos. Entraram em ação as
gigantescas instalações destinadas a produzir inimagináveis
quantidades de energia, a ser liberada durante a batalha.
Druufon
preparava-se para aniquilar Árcon.
Por puro
acaso, a frota robô do regente recebia no mesmo momento ordem de
ataque.
Aquilo
poderia significar o fracasso total para Rhodan, mas também a
vitória garantida.
Ninguém
saberia dizer ao certo.
Nem mesmo
Ellert.
4
Precisamente
ao meio-dia, hora da Terra, a imensa nave esférica se pôs em
movimento, e acelerou para a velocidade da luz. Não levava ser
humano algum a bordo, mas apenas robôs guerreiros do último tipo.
Modelos idênticos aguardavam a vez de entrar em ação, nos
transmissores de Hades. A nave era teleguiada, e condenada ao
extermínio a partir do momento da decolagem.
Simultaneamente,
a frota completa do regente avançou para a brecha no Universo, a fim
de executar o ataque simulado a Druufon. Durante a confusão
generalizada provocada por este ataque, esperava-se conseguir o
desembarque do carregamento de robôs no planeta natal dos druufs.
Rhodan
ficou de prontidão com a Drusus na retaguarda da linha de combate. O
sistema radiofônico estava ligado, e sintonizados na freqüência
dos druufs. Portanto, poderiam entrar em contato imediato com eles no
momento oportuno.
Primeiro,
no entanto, era necessário fazer outro contato.
Rhodan
tentara em vão conseguir comunicação telepática com Ellert. Gucky
falhara, por mais que se esforçasse. Harno captara a imagem de Onot,
porém o físico-chefe estava aprofundado numa experiência; esta,
evidentemente requisitava toda sua atenção, impedindo que o
espírito de Ellert encontrasse oportunidade de libertar-se.
Contratempo
quase funesto, pois dentro de uma hora — ou até antes — Ellert
deveria ligar o receptor dos transmissores de matéria na central de
cálculos dos druufs, e pôr-se a salvo em tempo.
Rhodan
olhava ansioso para Harno. Viu nitidamente Onot jogar um pequeno ser
vivo no campo de tempo, matar ou atordoá-lo com outro aparelho,
depois desligar o campo, e recuperar o animalzinho.
A frota de
Árcon precipitou-se através da zona de descarga para o espaço dos
druufs.
Chocou-se
com o poderio bélico dos entes do outro Universo, desencadeando um
conflito sem paralelo nos anais das raças civilizadas.
Única em
sua ferocidade, a batalha espacial jogava milhares de naves umas
contra as outras. Incontáveis armas energéticas cuspiam fogo e
destruição, rompiam anteparos protetores e estraçalhavam
fuselagens de decímetros de espessura. Grandes e pequenas naves
rachavam ao meio, derretiam-se no espaço, ou se vaporizavam em
nuvens radiativas.
Rhodan não
prestou atenção ao espetáculo. O objetivo mais urgente era
comunicar-se com Ellert. Senão tudo estaria perdido.
Onot,
conforme lhe revelava a superfície de Harno, concluíra sua
experiência. Impossível saber se tivera êxito ou não, pois os
impulsos mentais do cientista chegavam fracos e indistintos.
Depois
Onot foi para seu quarto e deitou-se, parecendo pegar no sono
instantaneamente.
“Bem”,
pensou Rhodan, “agora
Ellert vai poder se libertar.”
Sua
suposição foi imediatamente confirmada.
— Perry
Rhodan...? Ouve-me?
— Graças
a Deus! — exclamou Rhodan, aliviado, em voz alta. — Já era mais
do que tempo, Ellert! O que houve?
— Onot
era mais forte do que eu; agora deixou de ser. Subjuguei sua mente, e
apoderei-me do corpo. Harno pode me ver?
— Pode,
sim.
— Muito
bem, então vou agir. Irei até a estação de transmissores e
ligarei o receptor. Quanto tempo terei para pôr-me em segurança? O
corpo de Onot ainda não pode ser destruído, a fim de impedir que
sua mente se perca. Apenas ele é capaz de revelar-nos o segredo da
propulsão estelar.
— Por
que não colhe as informações necessárias no cérebro dele? —
perguntou Rhodan, sem compreender por que Ellert ignorava os dados
técnicos.
— Seria
cansativo demais para mim. Quanto tempo terei, portanto?
— Cinco
minutos exatos, caso ligue o receptor no preciso instante em que o
primeiro robô combatente desça em Druufon. Pois é quando o Tenente
Potkin vai ligar os transmissores em Hades. Não esqueça, Ellert:
cinco minutos!
— São
suficientes! Espero até que os primeiros robôs transportados na
nave pisem o chão de Druufon, depois viro a chave. Quanto a mim, vou
procurar atingir a superfície a tempo; espero estar mais seguro lá!
— A
central de cálculos não possui saída subterrânea?
— Claro.
Acha que é mais garantida?
— Sem
dúvida! Harno o acompanhará constantemente. Não receia que Onot
torne a readquirir a superioridade?
— Não,
agora não vai conseguir mais! Torno a comunicar-me.
Depois
Ellert calou. Bell troçou, aliviado:
— Este
sistema de comunicação telepático-visual, sem interferência de
recursos técnicos, é muito interessante. Jamais dá defeito em
válvulas...
Fitou a
tela da Drusus, que abria caminho através dos esquadrões em luta,
canalizando toda a energia disponível para os anteparos protetores.
Em conseqüência, o cruzador esférico não tardou a adiantar-se às
primeiras naves de Árcon.
— Espero
que não cheguemos antes da aterrissagem dos cinco mil robôs,
também...
— Não
se preocupe — tranqüilizou Rhodan. — O carregamento já deve
estar sobrevoando Druufon. Se tudo der certo...
Nem tudo
deu certo!
*
* *
Se bem que
todas as naves utilizáveis tivessem deixado Druufon, para lançar-se
contra os invasores, os druufs não estavam desprovidos de
alternativas. A defesa terrestre entrou em atividade, assim que
surgiu a imensa nave esférica de Árcon, entrando em órbita em
torno do planeta.
Inicialmente
o bombardeio foi retardado, por suporem que podia tratar-se da nave
de Rhodan. Porém depois o Conselho regente foi notificado, por um
observador, de que esta surgira por trás da frota atacante de Árcon,
ultrapassara o front, e rumava para Druufon.
O Conselho
expediu imediatamente ordem de atacar. Ainda desconheciam as
intenções do cruzador esférico com sua tentativa de aterrissagem.
As salvas
de disparos energéticos ricocheteavam nos anteparos protetores da
esfera, resvalando para os lados. Porém, instantes depois, o fogo se
concentrou em ponto previamente determinado, rompendo a defesa. Os
raios energéticos precipitaram-se adiante, atingindo seu alvo: a
fuselagem desprotegida da nave agressora.
E então
se deu o imprevisto. Da nave começou a cair uma chuva de robôs.
De todas
as aberturas disponíveis, os robôs arcônidas programados saltavam
para profundidade incerta, providos de aparelhos antigravitacionais,
e projetores individuais de campos protetores. Estes não resistiam a
fogo concentrado, mas repeliam eficazmente, com raios energéticos,
isolados e mais fracos.
Conjuntos
motrizes reduziam a velocidade de translação dos robôs,
imediatamente atingidos e atraídos pela elevada gravidade de
Druufon. Porém os conjuntos motrizes tinham uma função adicional:
evitar que seus possuidores descessem em regiões desabitadas, mas
sim em plena capital ou imediações. Se chegassem a descer!
O potente
sistema de defesa de Druufon funcionou esplendidamente.
Robô após
robô era abatido, precipitando-se descontrolado ao solo, onde se
desintegrava numa explosão atômica. Outros caíam no mar e
afundavam. Alguns se descontrolaram. Seus conjuntos motrizes não
obedeciam mais às ordens constantes da programação, e aceleravam
continuamente; em conseqüência, o robô disparava em alucinante
velocidade espaço a fora. Torpedos de caça perseguiam-nos, acabando
com eles.
A nave
esférica, por sua vez, continuava a contornar Druufon, porém,
evidentemente, incapacitada de manobrar. Limitava-se a flutuar,
mantida em equilíbrio pela lei da gravidade e da força centrífuga.
Caças espaciais rapidamente mobilizados não tiveram dificuldade em
alcançá-la e transformá-la em destroços. Durante a ação,
evidenciou-se que não era pilotada sequer por robôs.
No
entanto, alguns dos robôs acabaram conseguindo chegar ao solo
intatos.
Assim que
sentiram chão firme sob os pés, os pesados cinturões armados
entraram automaticamente em ação. Disparavam em todas as direções,
causando pavorosa destruição, até serem silenciados por canhões
energéticos.
Pelo
visto, o ardil inimigo de enfraquecer internamente as defesas de
Druufon tinha fracassado redondamente.
O Conselho
dos Sessenta e Seis suspirou de alívio.
Até que
chegou a notícia fulminante.
*
* *
Mas, dez
segundos antes da notícia fulminante, outro fato aconteceu.
Todas as
estações radiofônicas de Druufon captaram o intenso sinal de
Rhodan. Como era conhecido, ligaram os aparelhos tradutores. Então
se tornou compreensível a mensagem irradiada por Rhodan:
— Aos
druufs! Os robôs planejam atacar a terra pátria de vocês! Atenção!
Nave com cinco mil robôs a caminho! Pretendem destruir a central de
cálculos! Corro a acudir vocês! Permitam-me aterrissar! Rhodan,
Terra.
Era este o
conteúdo textual da mensagem universalmente captada em Druufon, e
imediatamente difundida. Por instantes, o Conselho dos Sessenta e
Seis transformou-se num conselho de desorientados. Porém não havia
muito tempo para refletir.
Pois mal
haviam digerido o aviso de Rhodan, perguntando-se intrigados por que
teria vindo um pouco tarde demais, o interior de seu planeta se
transformou em vulcão.
O solo da
cidade começou a tremer.
*
* *
Onot
acordou.
Esfregou
os quatro olhos e ergueu-se.
“Ora,
por que peguei no sono? Ah, tinha acabado de realizar a
experiência... Comprovei ser realmente possível...”,
pensou, recordando-se. “Essas
dores de cabeça, novamente... Talvez sejam elas as causadoras de meu
cansaço. Logo agora, que eu precisava agir, a fim de comunicar ao
Conselho o êxito da minha experiência.”
Precisava
mesmo...?
Repentinamente
aquilo já não lhe parecia tão urgente. Havia coisa muito mais
importante. Lá na estação do transmissor...
Ergueu-se
a custo, vacilando sobre as pernas informes.
O carro
elétrico conduziu-o ao destino, percorrendo corredores brilhantes e
bem iluminados. O transmissor de matéria, excelente modelo
experimental, ficava no seio da seção científica; esta, por sua
vez, vinha a ser ponto central de todo o serviço de cálculos.
Onot
desembarcou tranqüilamente do veículo, e tomou seu caminho.
Detestava andar a pé, porém ali não lhe restava outra escolha. A
estação ficava afastada do corredor principal, e só podia ser
alcançada através de passagens secundárias.
Alucinantes
dores de cabeça impediam-no de pensar claramente.
Afinal, o
que queria na estação?
Não
sabia, e desistiu de aprofundar o assunto. Por que, afinal? Alguma
coisa...
Cruzou com
outro druuf, que perguntou silenciosamente:
— Já
soube, Onot? Os estranhos tornaram a atacar. Já seria tempo de
fazê-los provar sua nova arma.
— Nova
arma...? Ah, sim, o congelador de tempo! Sim, sim, você tem razão!
Mas preciso ir... não disponho de tempo agora...
O druuf
contemplou surpreso Onot.
— Não
dispõe de tempo? Afinal, que faz aqui em meu departamento?
— Preciso...
Onot
estacou.
“Sim,
de que preciso mesmo?”,
pensou martirizado. “Se
pudesse lembrar!”
— Você
precisa de quê?
— O
transmissor de matéria... Funciona?
— Claro
que funciona, basta ligá-lo! Que quer com ele? Não é hora de andar
fazendo experiências. Só não sei se está sendo usado no momento.
O ataque dos robôs...
— Os
robôs atacam? Já aterrissaram?
O druuf
fitou Onot com espanto ainda maior.
— Ora,
de onde tirou tal idéia? Robô nenhum aterrissou! As naves é que
estão atacando, só isso. Mas são tripuladas por robôs.
De alguma
forma, Onot sentiu imenso alívio, sem saber por quê.
Só
precisava ligar o transmissor depois da aterrissagem dos robôs, e
então lhe restariam cinco minutos para pôr-se a salvo.
— Foi o
que eu disse — replicou Onot, continuando a andar.
O druuf
lançou-lhe um olhar admirado, depois revirou os olhos, e prosseguiu
também em seu caminho.
Onot
alcançou a estação, e certificou-se de que o receptor se
encontrava em ordem. Poderia ligá-lo naquele mesmo instante, porém
corria o risco de aparecer alguém para tornar a desligá-lo. De
maneira alguma isso poderia acontecer. E como faltavam ainda cinco
minutos para a chegada dos robôs, era melhor não perder o aparelho
de vista.
Onot
estremeceu.
Robôs...?
Que sabia
ele de robôs?
Teria
enlouquecido subitamente? Que estava fazendo ali, afinal? Será que
não tinha ocupação suficiente em seu setor...?
Sentiu a
intensa pressão no cérebro; logo em seguida, teve a sensação de
que alguém empurrava sua consciência para o lado. Sim, exatamente
isso. Mas ainda não foi tudo. Pela primeira vez, escutou a voz.
Dizia-lhe
mudamente:
“Não
há mais outro jeito, Onot! Precisa saber finalmente quem sou, e que
já moro dentro de você há muitos meses, coabitando com seu
espírito. Sou mais forte do que você, e, daqui por diante, terá de
obedecer-me. Em caso contrário, abandono você, levando sua vida
comigo.”
Onot
sentiu-se invadido por um terror mortal. Não acreditava em fatos
sobrenaturais, mas aquela voz muda e insistente não era ilusão dos
sentidos. Era tão real quanto ele próprio.
— O
quê... onde está você?
“Dentro
de você, Onot. Sou um intelecto como você, mas perdi meu corpo. No
decorrer de minha incessante peregrinação através do tempo,
encontrei-o. Ajudei-o a construir o congelador de tempo. Não lhe
parece razão suficiente para me ser grato?”
— Ainda
não consigo compreender...
“Chame-me
Ellert, Onot. Compreenderá algum dia. Se não compreender, morrerá,
quando eu o abandonar. Porém agora não temos mais um segundo a
perder. Ligue o transmissor dentro de exatamente um minuto!”
— A
estação receptora? — Onot reagia com todas as forças à
influência estranha. — Não o farei enquanto não me disser por
que quer me forçar a isso.
“Pois
vou forçá-lo, não tenha dúvida. Tenho poder sobre seu corpo, seus
nervos, seus músculos. Posso mandar seu coração parar, Onot! Ainda
lhe restam trinta segundos!”
As
indicações de tempo obedeciam, evidentemente, aos padrões dos
druufs.
Onot
sentiu a mão direita levantar-se e tocar a chave que permitiria a
entrada de energia. Ordenou ao cérebro que mandasse a mão descer.
Ela se
crispou em torno da chave.
“É
inútil, Onot”,
veio o impulso um tanto zombeteiro de Ellert. “Além
disso, é mais conveniente que me obedeça, pois dentro de cinco
minutos isto aqui vai virar um inferno. Precisa colocar-se em
segurança, caso queira sobreviver. Eu, Onot, poderei salvar-me, pois
não necessito de seu corpo para continuar existindo.”
A mão
hesitou ligeiramente, e virou a chave.
Logo
depois, se fez sentir a vibração que denotava o funcionamento do
receptor.
“E
agora, pernas para que te quero, Onot! Deixe de bobeira! Há um carro
esperando no corredor principal. Em cinco minutos ele pode nos deixar
bem longe daqui.”
Onot
desandou a correr, sem ter recuperado o controle sobre si mesmo. Bem
que gostaria de saber que relação havia entre o transmissor e os
robôs, porém preocupava-se muito mais com o problema do inimigo
invisível que se apoderara dele.
Poderia
ver-se livre dele algum dia?
Jogou-se
para dentro do carro com todo o peso do corpo. As cabinas corriam
sobre trilhos eletrônicos, interligando as estações e centrais
subterrâneas. Atingiam velocidade de mais de mil quilômetros
horários.
Acionou a
alavanca motora, levando-a ao ponto máximo. Depois recostou-se, e
fechou os olhos.
Ellert
isolou o cérebro de Onot, e entrou em contato com Rhodan.
— Transmissor
ligado!
— Pelo
menos cinqüenta dos robôs aterrissados ainda funcionando —
respondeu Rhodan, imediatamente. — Vão pensar que conseguiram
chegar aos subterrâneos, quando os fogos de artifício começarem a
estourar por lá. Acabei de irradiar meu aviso aos druufs, e vou
pousar. Mantenha-se em contato, Ellert!
Onot
encontrava-se a oitenta quilômetros da central de cálculos, quando
o chão começou a tremer debaixo da cidade. Pouco sentiu os
tremores, pois já se encontrava na superfície no momento em que as
ondas de choque atingiram o ponto em que se encontrava.
*
* *
O Capitão
Rous e o Tenente Potkin esperavam ansiosos junto aos transmissores.
Devidamente sintonizados, os doze aparelhos seriam ativados por um
único botão, todos ao mesmo tempo.
A tela
tremeluzia inquieta. Reproduzia a freqüência elétrica do sol gêmeo
Siamed. Conferia com a de Rhodan. A ordem poderia vir a qualquer
instante.
Os robôs
aguardavam no interior das cabinas, mais de quarenta em cada uma.
Haviam sido programados. Sua ação destrutiva começaria exatamente
no instante em que desembarcassem das cabinas na central de cálculos
dos druufs. Liberariam todo seu potencial de energia, até eles
próprios serem consumidos pelo fogaréu produzido.
Rous
mordeu os lábios
— Raios,
que demora!
Potkin
manteve-se aparentemente sereno, de acordo com seu hábito.
— Nada
podemos fazer a respeito. Rhodan deve saber por que aguarda. O golpe
contra Druufon consta de uma série de acasos, artificialmente
arquitetados. Nossa atuação é um deles, e não devemos entrar em
cena nem cedo, nem tarde demais.
— Sim,
sim, já sei! — replicou Rous, irritado.
Estava a
ponto de perder a paciência; porém não realizava aquela empreitada
sozinho, e não lhe competia tomar decisões. Não fora em vão que
lhe haviam dado por companheiro o sereno Potkin.
A tela
modificou-se de repente. Via-se agora um rosto.
— Rous!
Potkin! Tudo pronto?
— Chegou
a hora? — gritou Rous, levando a mão à chave do transmissor.
— Contato
dentro de dez segundos, exatamente! — replicou Rhodan, com a maior
calma.
Potkin
lançou um olhar de advertência a Rous.
Cinco
segundos ainda... quatro... três... dois... um... agora!
O Capitão
Rous ativou os transmissores, e quando olhou para as cabinas, estas
já se encontravam vazias.
Despachara
dali um inferno concentrado!
Voltando
novamente o olhar para a tela, não viu mais o rosto de Rhodan.
Rhodan
sabia muito bem que risco enfrentava ao preparar-se para pousar no
espaçoporto de Druufon.
Os restos
destroçados dos robôs guerreiros jaziam por todo canto. O concreto
apresentava inúmeros buracos. Não havia mais nenhuma nave. A frota
inteira se encontrava engajada na luta contra os agressores, tentando
repelir e destruí-los.
A Drusus
pousou.
Em algum
ponto da cidade, houve uma detonação, e a onda de choque varreu o
espaçoporto. À luz do meio-dia, brilhou um relâmpago mortiço. Uma
escura nuvem de fumaça subiu vagarosamente no ar; o vento carregou-a
para longe da cidade.
Bell
hesitava:
— Deus
nos acuda se esses caras desconfiarem de alguma coisa!
— Quando
descobrirem, estaremos longe demais — replicou Rhodan,
displicentemente. No entanto, não se sentia tão seguro quanto fazia
crer. Os druufs poderiam ter suspeitado. Seu aviso chegara com dez
segundos de atraso. — Por que lhes passaria pela cabeça que
estamos jogando falso?
Gucky
aproximou-se, bamboleando.
— Ao
contrário, estão muito satisfeitos com nossa chegada — anunciou.
Certamente andara vigiando telepaticamente os governantes druufs, e
devia saber o que dizia. — Neste momento, eles quebram a cabeça,
tentando saber de que jeito alguns dos robôs desembarcados
conseguiram penetrar na central de cálculos. Foram informados de que
houve luta lá.
Harno
desceu do teto e transformou-se em tela.
— Dêem
uma olhada à central dos druufs.
Seguiram o
conselho, e tiveram ocasião de presenciar as cenas desenroladas nas
profundezas do solo.
Os robôs
iam saindo da cabina, iniciando imediatamente sua obra de destruição.
Alguns deles já deviam ter começado antes, pois incessantes ondas
de choque rugiam pelos corredores, provocando enormes fendas nas
paredes. Detonações faziam ruir geradores, e alas inteiras de
máquinas. Para sorte dos druufs, a central de cálculos era quase
toda automática, exigindo pouco pessoal. Portanto, a destruição se
concentrava nas instalações técnicas.
Porém
aquilo era mais do que suficiente.
— Obrigado,
Harno, já vimos bastante. Quer dizer que o plano deu certo. Os
druufs foram privados de sua central científica, e muito
merecidamente, já que aplicam seus conhecimentos quase
exclusivamente para fins bélicos. Foi um golpe magistral,
enfraquecemos sensivelmente seu sistema de defesa. Resta saber até
quando...
Atlan, até
então mudo, expressou seu ponto-de-vista:
— Espero
que nossa intervenção tenha chegado a tempo de salvar a frota de
Árcon do aniquilamento total. Pois chegará o dia em que
necessitaremos desesperadamente dela!
Sem
encará-lo, Rhodan respondeu.
— Penso
como você, Atlan. Porém não havia outra maneira de conter os
druufs, e enfraquecer o regente. A não ser que nós próprios
quiséssemos cuidar de ambas as tarefas. E sabe tão bem quanto eu
quais teriam sido as conseqüências nesta hipótese.
Atlan
acenou.
Harno
tornara a subir para o teto, e aguardava.
— Irei
com Bell e Gucky — disse Rhodan. — Isso nos possibilitará uma
rápida fuga teleportada, em caso de emergência.
— Posso
transportar ambos de uma vez — afirmou o rato-castor, com
justificada autoconfiança. Não seria a primeira vez que levava duas
pessoas num salto teleportado. — Claro que com um é mais fácil,
mas com dois também dá. Apesar de Bell contar por pessoa e meia,
com o peso que tem...
— Perdi
dois quilos nas últimas semanas — protestou Bell, muito suscetível
neste ponto. — Facilitará sua tarefa.
— Pô —
caçoou Gucky. — Como se dois quilos fizessem diferença em você!
E com toda a certeza, perdeu-os no lugar errado.
Bell bateu
na barriga.
— Aqui,
meu velho!
— Ainda
bem — disse Gucky. — Eu temia que fosse aqui...
E apontou
para a cabeça de Bell.
Antes que
Bell pudesse agarrá-lo, Gucky fugiu com um pulo.
Rhodan
interrompeu o alegre bate-boca.
— Desceremos
da Drusus normalmente, por uma das escotilhas, e sem levar arma
alguma. Sikermann, faça contato radiofônico com os druufs! Avise-me
quando tiver o tal de Tommy-1 na linha.
Tommy-1
era a sigla do aparelho tradutor para o habitual porta-voz dos
druufs. Estes seres tinham nomes difíceis de serem pronunciados. Até
a máquina demorava para reproduzi-los.
Sikermann
pôs mãos à obra, ajudado pelo Tenente Stern, o radioperador chefe.
Em menos de dois minutos, veio o aviso:
— Contato,
Sir! Pode falar...
Rhodan
disse no microfone do tradutor, acoplado ao transmissor radiofônico:
— Aqui
Rhodan! Pousamos com nossa nave principal, e gostaríamos de
parlamentar com vocês, a despeito de nos terem tratado de maneira
tão indigna. A arrogância do agressor ultrapassa os limites.
Necessitamos da ajuda de vocês tanto quanto necessitam da nossa.
— Eles
fizeram descer robôs, alguns dos quais conseguiram se introduzir em
nossa central subterrânea. Vocês podem liquidá-los? Temos as mãos
mais do que ocupadas com a defesa antiaérea e a batalha espacial.
“Só
nos faltava isso!”,
pensou Rhodan. Hesitando, disse:
— Não
dispõem de tropas terrestres para cuidar dos invasores? Temos três
naves, apenas, e teríamos que solicitar reforços primeiro. E isto
demoraria demais.
Houve uma
pausa. Concentrado, Gucky tentava sondar Tommy-1.
— Estão
confabulando — avisou ele.
— Venham
para cá — transmitiu por fim o aparelho tradutor. — Talvez
possamos chegar a um entendimento.
— Comparecerei
com dois assessores — concordou Rhodan, mandando Sikermann desligar
o rádio. Depois voltou-se para Bell: — Está na hora, amigo.
Vamos?
Levaram
apenas os braceletes de múltipla utilidade; continham, entre outras
coisas, um bom transmissor-receptor de rádio. Por meio dele poderiam
comunicar-se com a Drusus a qualquer instante. Falhando o aparelho,
ainda lhes restariam Gucky e Harno.
Harno...?
Rhodan
olhou para o teto.
— Melhor
vir também, Harno. Talvez possa nos ajudar, estando por perto.
Obedientemente
a bola preta desceu e pousou na mão de Rhodan, que a colocou no
bolso do uniforme. Guarida segura e confortável. Rhodan ainda não
sabia muito bem de que forma o estranho ser lhes poderia ser útil em
caso de necessidade.
Em
determinado trecho do curto trajeto até a cidade, foram atacados por
um mini-caça arcônida. O torpedo de menos de vinte metros de
comprimento devia ter rompido o cerco espacial; com a indiferença
pela ameaça de um robô articulado, precipitava-se agora sobre o que
lhe parecera um inimigo. Felizmente foi atingido pelo raio de um
canhão energético. Por instantes, a nuvem incandescente flutuou
sobre a cidade, acabando desfeita pelo vento.
— Desta
nos safamos! — exclamou Bell, aliviado, apressando o passo. — Bem
que gostaria de saber por que não nos mandam um carro.
Nem bem
acabara de expressar o insólito desejo, surgiu um veículo na orla
do espaçoporto. De forma alongada, parecia teleguiado. Parou diante
deles, e a porta abriu-se automaticamente, convidando-os a entrar.
Rhodan
embarcou, seguido por Bell. Gucky escorregou por último para o amplo
assento.
— Os
druufs têm mesmo traseiros tão largos? — admirou-se o
rato-castor, que quase desaparecia no enorme banco estofado. — Para
Bell, o banco está na medida certa, mas para meu corpo delicado...
— Ora,
pare com isso! — indignou-se Bell. — Sou gordo, mas tenho uma
massa cerebral que funciona muito bem...
Novamente
Rhodan teve que intervir, advertindo:
— Eu
prestaria mais atenção ao caminho, a fim de saber voltar. Senão
nem mesmo o mais belo dos cérebros não lhes adiantaria nada. Lá
adiante está a arena do Conselho, onde já tentaram me fazer entrar
numa fria uma vez. Certamente reconhecerão Gucky.

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