quinta-feira, 18 de agosto de 2016

P-077 - Nas Algemas da Eternidade - Clark Darlton [parte 3]

E quem é que não conhece Gucky em toda a Galáxia? — proseou-se o rato-castor, vaidosamente.
Bell olhava na direção indicada por Rhodan.
Bonitinho, o prédio... É nele que vamos entrar?
Suponho que sim — replicou Rhodan.
O veículo subiu por uma rua inclinada em rampa, seguindo depois por um largo viaduto, muito acima dos telhados das casas, em direção do prédio coberto por uma cúpula. Quando ainda se encontravam a cem metros dele, o portão se abriu para deixá-los entrar.
O carro parou no meio da vasta arena. As arquibancadas em torno dela estavam lotadas. Surpreendente ver ainda tantos druufs ociosos na cidade, enquanto a batalha decisiva rugia em torno do planeta...
Rhodan foi o último a descer, dando precedência a Bell e Gucky. Não trouxera aparelho tradutor. Sabia que as máquinas dos druufs eram excelentes.
Com efeito, os alto-falantes distribuídos pela arena permitiam que todos os presentes seguissem as conversações.
Nossos agradecimentos pelo aviso recebido, Perry Rhodan da Terra — ouviu-se das colunas circundantes, que suportavam a cúpula do teto. — Chegou tarde demais, lamentavelmente, mas provou-nos de que lado está.
Rhodan procurou em vão localizar o orador. Novamente os governantes druufs haviam tomado assento nas fileiras mais altas, que circundavam a arena a cinqüenta metros de altura. Qualquer um deles poderia ser Tommy-1.
Vocês têm alguma sugestão? — perguntou Rhodan, com certa frieza. Não tinha interesse algum em ajudar os druufs; tudo que queria era o segredo da propulsão estelar. — Que podemos fazer?
Chamem sua frota, e lancem-na contra a frota-robô — replicou Tommy-1. — Destruam as máquinas invasoras que ameaçam arrasar nosso departamento científico subterrâneo.
Onde está o contingente bélico de vocês?
Todos os soldados estão na luta. Os que vê aqui são políticos, oficiais e cientistas. Nada entendem de guerras.
Nem mesmo os oficiais?
Estes não! — foi a resposta pouco explícita.
Achei Tommy-1 — sinalizou Gucky, telepaticamente. — Quer que o faça baixar de sua tribuna?
Bem lembrado — retorquiu Rhodan. — Talvez isso os impressione.
Gucky não esperou segunda ordem. Detectara o porta-voz dos druufs, e sabia qual dos monstros era o autor intelectual das palavras que acabavam de ouvir. Concentrou-se no colosso instalado lá em cima, junto ao teto, e envolveu-o na corrente de suas forças telecinéticas. Como se tivesse perdido o peso repentinamente, o gigantesco druuf de três metros de altura se ergueu lentamente no ar, passou por cima do parapeito, e ficou suspenso no meio da arena.
Exclamações de surpresa partiam dos alto-falantes.
Claro que os druufs não gritavam, pois comunicavam-se através de transmissores-receptores orgânicos, que emitiam ondas ultra-sonoras. Porém os tradutores ligados captavam os impulsos, tornando-os inteligíveis para ouvidos humanos.
Tommy-1 manteve-se surpreendentemente calmo, apesar de agitar pernas e braços; meros movimentos reflexos, ditados pelo instinto, talvez. Certamente não achava explicação para o fato, porém não havia tempo para isso agora. Pois uma queda significaria a morte certa.
Mas Gucky não o deixaria cair.
Fez o druuf perder altura numa elegante curva, e depositou-o com delicadeza e suavidade bem defronte de Rhodan.
Assim dá para conversar melhor — disse Rhodan, em voz alta, esperando que o tradutor aceitasse o novo estado de coisas. Não foi desapontado.
Como fez isso? — foi a primeira pergunta de Tommy-1. — Tive a impressão de ser agarrado por uma mão invisível.
Era a minha — esclareceu Gucky, apontando orgulhosamente para o próprio peito.
O druuf contemplava atônito o rato-castor, como se ele fosse um ser miraculoso. Seu olhar ia das enormes orelhas de rato ao corpo e à larga cauda de castor. Observou mais detidamente o reluzente dente roedor, que evidenciava a esplêndida disposição de Gucky.
Esse aí? — balbuciou Tommy-1. — Quem é ele?
Este é Gucky — explicou Rhodan, acrescentando: — É conveniente tratá-lo com a máxima cortesia, senão da próxima vez ele lhe dará um tombo.
Tommy-1 ainda examinava fascinado o rato-castor. No entanto, lia-se profundo respeito em seus olhos, entremeado com medo. Gucky leu os pensamentos do druuf e deu-se por satisfeito.
Assim está bem — disse ele, cutucando Bell. — Ele me considera um pequeno deus.
Falou tão baixo que o tradutor não lhe captou as palavras.
Rhodan dirigiu-se ao druuf.
Que me dão em troca de nossa ajuda?
Uma recompensa? — Tommy-1 parecia sinceramente surpreso. — Julguei que nossos inimigos também fossem os seus. Por que deveríamos recompensá-los por combater contra seus inimigos?
Pois então tratem de arranjar-se sozinhos com eles!
Mas vocês não seriam igualmente beneficiados, caso nós os derrotemos? Portanto, também poderíamos reclamar recompensa.
Argumento mais do que lógico, que Rhodan não podia deixar de reconhecer. No entanto, não era o que interessava no momento.
Vou dizer-lhe algo que o fará refletir — disse, com entonação peculiar. — Eles me ofereceram aliança. Caso eu aceite, vocês estariam perdidos. Ou julgam poder lutar simultaneamente contra Árcon, e contra nós?
Tommy-1 parecia consternado. Lançava olhares suplicantes para o alto, como se esperasse ajuda de seus congêneres. O vozerio cessou de repente. Tinham desligado o equipamento de tradução.
Querem deliberar — informou Gucky, cuja atenção não relaxara um só instante. — Que belo susto lhes pregou!
Exatamente o que eu pretendia — declarou Rhodan.
Bell estava imóvel. Mirando as extensas fileiras de “monstros” que o olhavam lá de cima, dava evidente mostra de sentir-se muito pouco à vontade. Por via das dúvidas, não arredava pé de perto de Gucky.
Rhodan ergueu ligeiramente a mão esquerda, e apertou o botão do minúsculo transmissor.
Alô, Sikermann!
Sim, Senhor...?
Tudo em ordem aí? Como vão as coisas?
Nada de especial no que se refere à Drusus. Violentas explosões na cidade. Parece que se luta ferozmente por lá. Crateras provam que galerias inteiras ruíram.
Rhodan agradeceu, e deixou o aparelho ligado. Voltou-se para Gucky:
A quantas andam eles?
Até onde pude constatar, não conseguem chegar a uma conclusão. Deliberam sobre o que nos oferecer como recompensa.
Com o que começam a aproximar-se do que desejamos — comentou Rhodan, sorrindo.
Esperaram ainda por cerca de dez minutos, durante os quais os últimos setores ainda intatos da central de cálculos deveriam ter igualmente ruído sob a sanha dos robôs de guerra. Depois o tradutor foi novamente ligado.
Tommy-1, que se afastara alguns passos, retornou.
Caso não se aliem aos robôs, mas continuem combatendo ao nosso lado contra eles, que exigem em troca?
Com ar indiferente, Rhodan respondeu:
Vocês possuem um tipo de propulsão para naves espaciais que desconhecemos. Adotamos o sistema de saltos através do hiperespaço, enquanto vocês voam acima da velocidade da luz, sem qualquer desmaterialização. Ponham à nossa disposição os planos de construção deste tipo de propulsão, e recusaremos a oferta dos robôs.
Tommy-1 conferenciou mais uma vez com os companheiros. Seus quatro olhos não demonstravam a menor expressão ao dizer, por fim:
Quando os robôs tiverem sido derrotados, receberá os planos de construção.
Mais ou menos o que Rhodan esperara. Só mesmo sendo tremendamente tolos, os druufs entregariam sem resistência seu maior segredo. Portando seria preciso aguardar. E talvez Ellert conseguisse apoderar-se dos planos, enquanto esperavam.
Acenou, apesar de ter certeza de que o druuf não saberia interpretar o gesto.
É uma proposta justa, Tommy-1... mas tomem cuidado! Caso tentem iludir-nos...
Mantemos nossa promessa assim como vocês mantêm a sua.
Rhodan sentiu certo constrangimento ao ouvi-la.
Quando a vitória for alcançada, receberão os planos da propulsão estelar. E agora, tratem de agir! — concluiu o druuf.
Certo? Minhas naves poderão transitar livremente pela zona de descarga?
Poderão passar sem empecilhos. Fixaremos um código, a ser respeitado por todas as nossas unidades.
E quanto à central de cálculos? Caso for destruída?
Não é a única de que dispomos, apesar de ser a mais importante.
Rhodan ocultou sua surpresa. Realmente, subestimara os druufs, segundo tudo indicava. Se possuíam mesmo outros departamentos de pesquisa como aquele, suas reservas agressivas não se esgotariam tão cedo. Quem sabe, talvez contassem até com mais de um Onot...
Suposição instantaneamente confirmada.
Quer que tentemos rechaçar os robôs?
É desnecessário — replicou Tommy-1. — Estão perdidos de qualquer maneira. E depois, as tropas de segurança farão funcionar o maçarico de gravidade, inventado por... — seguiu-se um nome impronunciável. — Isso destruirá todo e qualquer adversário que tenha penetrado em nosso Universo.
Maçarico de gravidade? — indagou Rhodan, intrigado.
Não tinha a menor idéia do que pudesse ser aquilo.
A máquina de traduzir não usa termos científicos exatos, porém recorre a símbolos figurados, quando falta a terminologia apropriada. O maçarico de gravidade vem a ser uma arma contra a qual não existe defesa, para quem não a conhece. Não sendo cientista, estou impossibilitado de revelar-lhe como ela funciona, e por que funciona. Só sei que altera as leis da gravidade. Queima a gravitação.
Precisamos ficar escutando tamanha besteira? — perguntou Bell, irritado, supondo que pretendessem fazê-los de bobo. — Afinal, ausência de gravidade não vem a ser nenhuma desgraça. Cada nave pode gerar seus próprios campos gravitacionais para compensar a perda.
Voltando-se para ele, Tommy-1 disse:
Talvez eu não tenha me expressado com suficiente clareza. O maçarico de gravidade anula os campos gravitacionais artificiais, intensificando simultaneamente a força de gravidade do planeta. Desta forma, nem os mais possantes propulsores evitarão que ela seja atraída para baixo, e espatifada no solo. A força de atração de nosso sol duplo seria multiplicada milhares de vezes. Apenas um isolamento especial ofereceria proteção, e apenas nossas naves estão equipadas com ele.
Rhodan ainda não conseguia ver muito claro, porém começava a perceber que os druufs haviam dado um passo decisivo na pesquisa dos campos gravitacionais das estrelas. Aproveitou a ligeira pausa para imaginar concretamente as conseqüências resultantes, caso Tommy-1 não estivesse mentindo.
E por que mentiria?
Nas naves arcônidas e terranas, os campos de gravidade artificial tinham a função de manter o interior nas condições habituais; além disso, evitavam que planetas eventualmente próximos alterassem seu curso. Quando se aproximavam de um mundo de gravitação extraordinariamente elevada, a ação dos campos de gravidade se intensificava de forma automática, compensando a pressão maior. E caso a gravitação deste planeta fosse multiplicada por centenas ou até milhares de vezes, a nave seria atraída e destroçada contra o solo. Isto se não contasse com meios para neutralizar a força adicional. E nenhuma propulsão comum bastaria para levá-la de volta à amplidão do espaço.
De posse de tal arma, os druufs estariam sempre na posição de vencedores. Estranho não terem feito uso dela até então.
Tommy-1 aceitaria um pedido de explicação a respeito?
Na certa o maçarico de gravidade ainda se encontra em estágio experimental, não é? — perguntou Rhodan, cautelosamente. — Funciona apenas na própria dimensão temporal?
Sim, infelizmente. Por este motivo ainda não foi posto em ação. Pois, a não ser um ou outro avanço os robôs têm-se mantido em seu Universo, onde o maçarico de gravidade perde o efeito. É incapaz de passar de uma dimensão temporal a outra, prova de que existe alguma relação entre gravitação e tempo.
Mais uma vez, Rhodan lamentou ser inimigo daquela raça tão inteligente. Pelo visto, os druufs dispunham de conhecimentos que extravasavam os dos terranos.
Uma relação entre gravidade e tempo...?
Apressou-se em retornar à realidade do momento.
E por que recorrem à nossa ajuda, se possuem armas tão potentes?
Também para esta pergunta o druuf tinha resposta coerente.
Dentro do âmbito de nosso Universo, damos conta de qualquer adversário, desde que não ataque de maneira tão inesperada conforme sucedeu. No entanto, a origem do mal não se encontra aqui, porém no Universo de vocês. Sou forçado a confessar que, além da barreira de tempo, muitos dos nossos recursos bélicos falham.
Até o congelador de tempo?
Que sabe acerca dele?
Rhodan percebeu que cometera um erro. Para corrigi-lo, teria que revelar um de seus segredos.
Meu acompanhante... — apontou para Gucky — ...é telepata. Pode ler pensamentos, e assim colheu algumas informações.
Telepata? — indagou o druuf, admirado. — Entre nós, não há ninguém capaz de ler os pensamentos alheios. Que mais seu amiguinho sabe fazer?
Ora, o que experimentou pessoalmente, há pouco. Não foi trazido da mais alta fila nas arquibancadas para o meio da arena?
Repentinamente Gucky avançou para o druuf, gingando o corpo. Com voz estridente e indignada, gritou:
Não acabou de saber que sou telepata? Que história é essa de pensar em me aprisionar, porque eu talvez lhe seja útil? Está querendo executar um vôo acrobático pela arena, para estatelar-se no chão no fim do ato? Olhe aqui, camarada, cuidado com Gucky!
Tommy-1 recuou, constrangido por ver suas intenções reveladas.
Só pensei... porque...
Rhodan aproveitou o incidente para levar a conversa para rumo menos comprometedor.
Portanto, vocês nos propõem que destruamos o inimigo no nosso Universo, enquanto vocês tratam de derrotá-lo em seu próprio mundo. Entendi bem?
O druuf moveu a boca triangular. Pela primeira vez evidenciava-se que lhes servia para gesticular, assim como os humanos costumavam sacudir a cabeça ou acenar.
Exato, esta é nossa sugestão. Ataquem os robôs em sua terra natal, e aniquilem seus reforços. É tudo que queremos de vocês.
Pretensão bastante compreensível por parte de quem possuía arma tão poderosa como o maçarico de gravidade, e só poderia agir no Universo relativista com recursos convencionais.
Está bem — concordou Rhodan. — Daremos as instruções correspondentes à nossa frota. Quer providenciar o sinal-código prometido, a fim de que possamos retornar sem impedimento sempre que for necessário?
Tommy-1 acenou com um dos possantes braços. Por trás de Rhodan, Bell e Gucky abriu-se uma porta, que deu passagem a um veículo.
Vai conduzi-los ao espaçoporto.
Os três embarcaram em silêncio, e o carro se pôs em movimento imediatamente. Acelerou ao entrar na via de trânsito mais larga.
À distância, via-se o espaçoporto fortemente avariado. A Drusus aguardava ilesa, pousada fora dos limites da cidade.
Com um suspiro, Rhodan disse:
Agora conhecemos a força e a fraqueza deles. Só me perturba saber que são capazes de derrotar Árcon aqui em Druufon. E o emprego daquela arma infernal pode representar fator decisivo.
No silêncio subseqüente, a voz clara de Gucky irrompeu como um raio. Pois o rato-castor dizia:
Até onde pude ler os pensamentos de Tommy-1, os druufs não possuem nenhum maçarico de gravidade. Tal invenção nem existe...


5



Quando o carro robotizado parou, deixando Onot descer, todas as luzes tinham acabado de apagar no corredor subterrâneo. Tudo ficou envolto em trevas.
O druuf avançou às apalpadelas, apoiando-se nas paredes, em busca de saída. Não conhecia muito bem aquela parte do labirinto de cavernas, por ser domínio de outros cientistas. Porém ele, Onot, era o físico-chefe de sua raça.
Que foi que aconteceu? — murmurou baixinho, esperando que seu acompanhante invisível respondesse. Já nem sabia o que fazia ali sem ele.
A central de cálculos no subsolo da cidade foi arrasada. Pode achar o caminho para a superfície?
Deve estar perto, mas é difícil distingui-la, com as luzes apagadas.
Os geradores de emergência não tardarão a entrar em ação”, consolou Ellert, com uma pontinha de ironia. “Às vezes, é bem mais cômodo não possuir corpo.”
Onot não respondeu. Avançava com cautela, e suspirou de satisfação ao ver a luz piscar, e depois permanecer acesa. Agora poderia andar com mais desembaraço, e achar a saída. Antes de alcançar o elevador, ouviu passos apressados se aproximando.
Eram dois druufs, que pararam espantados ao vê-lo.
Onot! — exclamou um deles. — Que faz aqui? Que foi que houve lá na cidade?
Um ataque dos estranhos — explicou Onot, preparando-se para um relato detalhado.
No entanto calou bruscamente. Como dizer aos dois cientistas que fora ele que deixara o inimigo entrar na central de cálculos? Que diriam eles? Como reagiriam? Acreditariam que agira sob pressão?
Na cidade, Onot?
Onot caiu em si. Precisava agir com a máxima cautela, a fim de não ser tomado por traidor.
Não, na central de cálculos. Os estranhos fizeram descer robôs, dos quais a maior parte foi abatida; apesar disso, alguns deles conseguiram atingir a central. Tive sorte, e ainda pude encontrar um carro para fugir a tempo. Que poderia fazer, só e desarmado, contra os invasores?
Você não tem trabalhado em novas armas? — perguntou um dos druufs, desconfiado. — Todo mundo sabe...
Faltou-me tempo... — interrompeu Onot, apressadamente. — Posso me considerar feliz por ter escapado com vida. A central de cálculos foi inteiramente destruída.
Não sobrou nada?
Até onde pude verificar, não. Uma grave perda para nós. Não sei o que o Conselho fará a respeito.
Se for conforme diz — estamos perdidos.
Porém Onot discordou. Não por vontade própria, mas porque Ellert ordenava.
Ora, possuímos mais centrais, todas elas equipadas com pessoal competente. Nós derrotaremos o adversário. Mas não me detenham mais, tenho o que fazer!
Aqui? Em nosso setor? — perguntou um dos druufs, admirado.
Sim, claro — replicou Onot, afastando-se depressa.
Sabia agora onde estava, e queria chegar à superfície o mais depressa possível. Os elevadores funcionavam normalmente. A corrente antigravitacional empurrou-o para cima, e Onot respirou fundo ao avistar o luminoso sol gêmeo Siamed.
Em contraste com as instalações subterrâneas, a superfície de Druufon mais parecia terra deserta e estéril. Só a capital fazia exceção. Ao longo do litoral, havia mais algumas cidades. Porém o sistema nervoso central dos druufs ficava profundamente oculto na crosta do planeta.
A terra tremeu de repente, e Onot teria se precipitado ao solo se não tivesse se amparado à parede mais próxima. Vários druufs atravessavam assustados a praça deserta; vendo Onot, correram para ele.
Que houve? — perguntaram, demonstrando inteiro desconhecimento do que ocorria. — Alguma explosão, ou terremoto?
Ambos — replicou Onot, laconicamente. O desconhecido ordenara-lhe que se recusasse a dar informações. — Não há razão para preocupações...
Acenando-lhes — isto é, repuxando a boca triangular — seguiu adiante com marcada displicência, como se estivesse apenas passeando. Os druufs seguiram-no com olhares perplexos. Bem, se aquele cientista tão famoso mostrava tamanha calma, o perigo não devia ser grave. Retornaram a suas ocupações.
E agora, trate de cuidar de sua própria segurança!” soou a ordem muda em seu cérebro. “Seu laboratório secreto! Não diga a ninguém para onde vai. Nós dois nos entregaremos a algumas experiências ali.”
Sujeito endiabrado! Que é que ignora a meu respeito?
Nada, Onot!
O físico-chefe pôs-se em movimento, desanimado. Ansiava por descanso e sono.
No parque de estacionamento havia diversos dos veículos tele dirigidos. Embarcou num, e acionou a alavanca energética. Assim que Onot marcou o rumo no mapa embutido abaixo do painel, o carro disparou.
Depois recostou-se comodamente no assento estofado.
Como sabe de meu laboratório secreto, assombração?
Conheço seus pensamentos e recordações, Onot. Sei tudo sobre você. Já não pode guardar segredos, por mais que tente controlar seus pensamentos. Somos um só, você e eu. Poderia esconder algo de si mesmo, Onot?
O sábio não respondeu. Olhava para a frente, onde, após uma curva, surgiriam as montanhas. Lá, por baixo da rocha maciça, ficava seu laboratório. Uma antiga estação experimental abandonada, que descobrira certo dia, puramente por acaso. Instalara-se nela, e ali passava dias seguidos, deixando o Conselho supor que saíra em férias.
Onot tinha coisa mais interessante a fazer do que viagens de férias.
A estrada era ruim, porém o fato não tinha importância. O carro flutuava sobre um colchão de borracha, que absorvia todas as irregularidades do solo. A velocidade aumentou quando entraram numa reta.
Que quer de mim, afinal? — perguntou Onot.
A voz do desconhecido falou alto e claro:
Deixe de perguntas, e dê-se por feliz. Podia ter perecido no inferno em que se transformou a central de cálculos. E saiba que não encontrará mais nada nela, caso queira voltar lá algum dia. Só que não pode. Foi visto ligando o transmissor...
Onot assustou-se mortalmente. Se aquilo fosse verdade...
É verdade!”, afirmou Ellert, incisivamente. “Aquele druuf que encontrou no corredor ficou desconfiado, e curioso por saber o que fazia em seu departamento. Por sorte desistiu de desligar novamente o transmissor, pois nem sonhava com o que ia acontecer. Mas ele também se salvou e, neste exato momento, encontra-se na presença do Conselho, relatando o que viu. Você, Onot, é agora considerado o maior traidor de seu país.
Onot sentiu o mundo ruir a seu redor.
Por que fez isso comigo? Não lhe bastou forçar-me a praticar aquele ato detestável? É preciso também que todos saibam?
Sim, é preciso. E é melhor assim.”
Ellert não explicou por que seria melhor. Sabia que não existia mais possibilidade de volta para Onot, e que poderia deixá-lo entregue a si mesmo durante alguns minutos.
Precisava urgentemente fazer novo contato com Rhodan.
As montanhas ficavam ainda a meia hora de distância.

* * *

Enquanto se aproximavam da Drusus, Rhodan não pronunciou uma única palavra.
Esforçava-se por entender a atitude dos druufs. Por um lado, recusavam ajuda em Druufon, e por outro tentavam aparentar uma superioridade que estavam longe de possuir. E se o maçarico de gravidade fosse blefe, muitas outras coisas também poderiam ser. O congelador de tempo, quem sabe?
Ou a propulsão estelar?
Não, era pouco provável, pois neste caso Ellert estaria a par. E ele confirmara a existência da propulsão estelar, e do congelador de tempo. Ambos eram realidade.
A Drusus erguia seu gigantesco vulto diante deles. A escotilha já estava aberta, quando desceram do carro, que retornou imediatamente para a cidade, depois de descrever uma elegante curva. Sem falar, cada qual absorto nos próprios pensamentos, deixaram-se levar pelo raio de tração para o interior da nave.
Só na central de comando Bell reencontrou a fala.
Agora é que eu não entendo mais nada!
Sikermann ergueu os olhos.
Que houve? Escutei tudo, e acho...
Pode ter escutado — disse Rhodan. — Mas não ouviu os pensamentos deles. Coisa que Gucky fez.
Explicaram tudo a Atlan e Sikermann. Espantado, o arcônida disse:
Ousados, esses druufs. Jogam tudo numa só cartada, e sabem blefar. Reconhecem que estariam perdidos, caso descobríssemos suas fraquezas. Mas estão conscientes de que podem vencer a parada. Só me intriga saber como é que o tal de Tommy-1 se arriscou tanto, a despeito de saber que Gucky é telepata.
Só soube depois — explicou Rhodan.
E então apressou-se a ir embora. Receando, naturalmente, que descobríssemos o que pensava. Mas felizmente descobrimos.
Ninguém tapeia Gucky! — exclamou o rato-castor, orgulhoso.
Bell lançou-lhe um olhar, mas nada disse.
E agora? — indagou Atlan, ansioso.
Antes que alguém pudesse lhe responder, os impulsos mentais de Ellert sobrepujaram tudo. Impuseram-se às suas ondas cerebrais como um transmissor de sinal mais potente.
Escapei do inferno, no corpo de Onot. Estamos a caminho do laboratório secreto dele. Talvez lá eu consiga gravar numa microfita visual os detalhes de construção da propulsão estelar. Até agora, não tive oportunidade de discutir o assunto com Onot. Como está a situação por aí?
Tudo em ordem — falou Rhodan, em voz alta. — Não deseja abandonar, finalmente, Druufon, e regressar conosco à Terra?
Em seus cérebros ecoou um riso meio lamentoso.
Ainda é cedo, Perry. Preciso continuar aqui até ter a certeza de poder agir livremente a qualquer momento. O corpo de Onot me é altamente conveniente. Além disso, jamais conseguiria lhes fornecer a propulsão estelar se deixasse o corpo de Onot agora.
Atlan acenou para Rhodan.
Realmente, Ellert estava com a razão. Ellert poderia retornar à Terra, quando julgasse conveniente; não existia mais impedimento algum. E no momento, o mais importante era conseguir os planos de construção da propulsão estelar.
Está bem, Ellert. Decolaremos agora, abandonando Druufon. Os druufs nos mentiram, afirmando que são capazes de defender-se sozinhos neste seu mundo, e dispensaram nossa ajuda. Garantem que seus cientistas desenvolveram armas fabulosas, com as quais poderiam dominar o universo inteiro. Mas confessaram que não seria fácil conquistar o nosso. Que sabe a respeito?
Nada, por enquanto, mas saberei em breve — replicou Ellert. — Preciso recolher-me agora, pois as montanhas se aproximam. Torno a falar quando tivermos chegado, e eu estiver de posse dos planos.
A pressão deixou seus cérebros.
Será que ele vai poder comunicar-se conosco, quando não estivermos mais na dimensão temporal dos druufs? — perguntou Bell, preocupado.
Creio que sim — disse Rhodan. — Isto, no entanto, o obrigaria a deixar Onot sozinho, enquanto passa pela zona de descarga. Se entendi bem, Ellert pode deslocar-se livremente através do tempo e do espaço sem o corpo de Onot. Só que, antes, nunca conseguira passar de uma dimensão temporal a outra; por isso não reencontrava o caminho para a Terra, e para o presente.
Espero que não se extravie outra vez — comentou Bell, franzindo a testa. — Pois assim que a “fenda” entre os dois Universos tornar a fechar-se, o caminho estará cortado.
Ele passará a tempo — afirmou Rhodan, acenando para Sikermann. — Prepare a Drusus para a decolagem, coronel. Proporcionaremos a nossos amigos um belo espetáculo de fogos de artifício, a fim de que tenham pelo menos um motivo para sentirem-se satisfeitos com seus aliados.
Dois minutos após, a gigantesca esfera alçou-se no ar, e disparou para o alto, em direção do luminoso céu da tarde. Cruzou sem problemas pelo cinturão de barragem, disposto pelos druufs em torno de seu mundo. Depois acelerou para a velocidade da luz, e desapareceu sem deixar o menor vestígio, e sem produzir abalos no hiperespaço.
Materializou-se no mesmo instante por trás de Hades.

* * *

Lento e desajeitado, Onot desembarcou do veículo, e encaminhou-se para a parede rochosa. Jamais vira alguém naquela região, porém não conseguia desvencilhar-se da sensação de estar sendo observado. Desconhecendo o que fosse uma consciência pesada, era compreensível que deixasse de identificar os sintomas correspondentes.
Sob a pressão de sua mão, uma placa de rocha deslizou para o lado a porta de entrada camuflada. Degraus conduziam para baixo.
Tateando no escuro, Onot encontrou o computador e acendeu as luzes. Imediatamente os degraus começaram a rodar, poupando-lhe o trabalho de descer pelos próprios pés. Às suas costas, a porta fechou-se automaticamente.
Belo esconderijo”, louvou Ellert, com uma ponta de zombaria. “Aqui ninguém poderá achá-lo, principalmente a polícia do Conselho.
Onot empalideceu.
Se for preciso, juro que você me obrigou a ligar o transmissor.
Estou extremamente curioso por saber se alguém acreditaria no tal espírito invisível”, replicou Ellert.
Onot não respondeu, remoendo sua amargura. Era o primeiro a reconhecer que seus protestos não mereceriam o menor crédito. Logo ele, o eminente cientista, ocasionar a destruição da central de cálculos? Não existia desculpa para tal atitude. Realmente não!
Estou em suas mãos — confessou ele, deprimido. — Que mais quer?
Algumas miudezas aproveitáveis, meu caro. A propulsão mais rápida do que a luz para espaçonaves, o gerador do campo de congelamento de tempo...
Para quê? Acha que ainda não traí suficientemente minha raça?
Não confunda as coisas, Onot”, respondeu Ellert. “Já esqueceu que ajudei a desenvolver o campo de tempo? Sei como é gerado, porém necessito de instruções detalhadas numa fita audiovisual, de preferência em micro formato. Da mesma forma, quero em microfita os planos de construção da propulsão estelar. Só depois de me fornecer ambas, estará livre de mim. Então poderá fazer e deixar de fazer o que bem entender.
E o que me resta? — gemeu Onot, na maior consternação. — Você causou minha perdição.
Ellert hesitou ligeiramente, e depois afirmou:
Talvez não, Onot. Caso não crie dificuldades, e faça tudo que exijo, provarei facilmente sua inocência perante o Conselho.”
Como?
Dizendo que o forcei. Posso comunicar-me com eles da mesma maneira pela qual falo com você. Isso os convencerá. Então poderá voltar para a cidade, se esta ainda existir.”
Onot suspirou de alívio e readquiriu o ânimo.
Está bem, farei tudo que pede. Uma segunda porta vedava a passagem no corredor. Abriu-se como a primeira, por imposição da mão em determinado ponto.
Onot se instalara efetivamente com grande conforto. Seu refúgio habitual quando queria meditar sobre os mistérios das leis naturais, ou procurar novos caminhos. Ellert conhecia o laboratório, pois Onot passara bastante tempo nele durante os últimos meses. E fora ali que desenvolvera o congelador de tempo.
O olhar de Ellert — através da visão de Onot — caiu sobre o pequeno modelo experimental num canto do laboratório. Com a central de cálculos destruída, aquele era agora o único exemplar existente. Montado sobre um pedestal, o modelo era pouco maior do que um caixote de maçãs. Claro que faltava a ligação de força, e o aparelhamento correspondente.
Existem microfitas aqui?”, indagou.
Não, para quê? — replicou Onot.
Facilitariam nossa tarefa. Como pretende fornecer-me os planos de construção da propulsão estelar se não temos microfitas?
Onot ficou sem resposta. “Conhece este tipo de propulsão, não é?”, certificou-se Ellert.
Claro que conheço, apesar de não ser invenção minha. Posso explicar-lhe detalhadamente...
Não é isso que importa. Quero tudo documentado, com desenhos e fórmulas detalhadas. Nem mesmo assombração pode guardar na memória todos os dados necessários para fabricar propulsores estelares. Portanto, precisamos arranjar microfitas. Tem alguma sugestão?
Onot não tinha nenhuma, apesar de mostrar-se subitamente muito interessado em ajudar seu intimidante companheiro. E só fitas não resolveriam o problema; precisariam igualmente do aparelhamento técnico exigido: fotografometros, duplicadores, projetores... Nem de longe era tão simples quanto Ellert imaginava.
Ora, daremos um jeito, Onot. Por enquanto, sente-se um pouco, descanse, e converse à vontade sobre o princípio em que se baseia o vôo linear mais veloz do que a luz. Talvez já me sirva para alguma coisa...”
Sem opor resistência, Onot começou a revelar os segredos de seu povo.

* * *

O cruzador ligeiro Califórnia era igualmente uma esfera espacial, porém seu diâmetro não ultrapassava cem metros, e possuía incrível capacidade de aceleração. A nave alcançava em cinco minutos a velocidade da luz. Campos antigravitacionais de inimaginável potência neutralizavam qualquer compressão.
O Capitão Rous deu as derradeiras ordens para a decolagem, e a Califórnia disparou do hangar subterrâneo para o negro céu de Hades.
De pé, ao lado de Atlan, Rhodan presenciou a aproximação de uma formação de naves do robô regente. Mandou atacá-las imediatamente. Algumas unidades dos druufs postadas nas proximidades tornaram-se testemunhas do incidente. Rhodan sabia que se defrontavam apenas com naves-robôs, cuja destruição acarretaria unicamente perdas materiais.
Quase simultaneamente com o ataque-surpresa, o regente de Árcon recebia uma curta e concisa mensagem hiper-radiofônica, dizendo que tudo corria de acordo com os planos. No entanto, Rhodan se veria obrigado a destruir mais algumas naves arcônidas, porém providenciaria para que nenhuma vida humana fosse sacrificada.
Os dez cruzadores menores do regente reagiram desesperadamente, porém sucumbiram diante das armas da Califórnia. Os druufs não precisaram intervir. Retransmitiram a mensagem de Rhodan para Druufon, onde ela desencadeou surpresa, e ligeiras esperanças. Exatamente o que Rhodan pretendia que ela fizesse.
A Califórnia precipitou-se através da zona de descarga, realizou verdadeiro vôo de patrulha, destruiu mais um observador teleguiado de Árcon, e retornou ao Universo dos druufs. Avistaram uma esquadrilha de bloqueio dos seres descendentes de insetos. Patrulhava a “fenda” de lado a lado, pouco abaixo da velocidade da luz. Unicamente as curvas exigidas para manobrar mediam por vezes muitos milhões de quilômetros.
O Capitão Rous mandou emitir o sinal-código.
A Califórnia teve trânsito livre.
Rhodan era a calma personificada, quando disse a Atlan:
Era isto que eu queria saber, almirante. Você irá para Fera Cinzenta, na Drusus, a fim de trazer reforços. Não nos limitaremos a estabelecer uma base fortificada em Hades; escavaremos também outros planetas. Os druufs vão ficar sabendo que força bruta e blefe não levam a nada. E quando Ellert nos trouxer a propulsão estelar, atacaremos em conjunto com Árcon. Sente-se mais tranqüilo agora?
No que se refere a Árcon, sim. Mas acredita seriamente que os druufs jamais suspeitem de nossas intenções? Afinal, não podemos nos instalar em todos os seus planetas, sem que eles percebam. Algum dia acabarão descobrindo.
Tenho minhas dúvidas a este respeito — discordou Rhodan. — Enquanto lhes faltarem recursos para romper nossas barreiras de absorção, é totalmente impossível que dêem por nossa presença.
Atlan não respondeu. Manteve-se calado até a Califórnia desaparecer no hangar de Hades.
Rhodan deixou a nave, e foi procurar Potkin.
Vou para a superfície agora, tenente. Durante minha ausência, as ordens dadas por Bell deverão ser acatadas como se fossem dadas por mim! Certamente posso tomar emprestado um traje espacial em seu estoque, não?
Que pretende fazer, Sir?
Nada de mais, Potkin! Uma pequena excursão, apenas...
Mas sozinho? Posso destacar alguns homens escolhidos para...
Rhodan recusou.
Quem diz que vou sozinho? Não se preocupe, um bom amigo irá acompanhar-me.
Gucky?
Não — disse Rhodan, sorrindo, enquanto enfiava a mão direita no bolso da túnica. — Harno!

* * *

Onot largou o estilete com o qual traçava complexas fórmulas e desenhos numa lâmina plástica. Suspirou.
Muito mais difícil do que havia imaginado. Mas talvez você compreenda pelo menos o princípio básico.
Para um observador imparcial, a situação apresentava aspecto quase fantasmagórico. Sentado, em total isolamento, diante de uma mesa no laboratório, o druuf manuseava toda a sorte de aparelhos e instrumentos. Quando falava, olhava para cima, como que dirigindo-se a algum suposto interlocutor. Depois parecia dar ouvidos a uma voz íntima, e apresentava novas respostas. Como se Onot tivesse enlouquecido, entregando-se a longos monólogos.
O princípio em si é simples”, disse Ellert. “Mas não é suficiente para suprir os especificados planos de construção. Necessitamos de um sistema de microgravação. Talvez isso nos obrigue a voltar mais uma vez para a central de cálculos.”
Mas...
Nada de preocupações, irei só, deixando você aqui. Caso ainda encontre algo de pé por lá, incorporo-me em outro druuf, e faço-o trazer o material para cá. A seguir, ele esquecerá tudo, como se jamais tivesse acontecido.”
Onot recostou-se de repente em seu assento.
Que foi isso?
Ellert já o havia percebido anteriormente, mas rejeitou a intromissão. Algum dos habituais impulsos mentais, tão abundantes em toda a parte... Porém de repente conseguiu ordenar e identificar o impulso.
Mas era Perry Rhodan...!
O impulso era intenso e próximo.
Ellert isolou Onot, fazendo sua mente adormecer. Agora podia dispor inteiramente do corpo, e comandar os centros nervosos, sem que o druuf tomasse consciência do que fazia. Onot agora era Ellert.
Levantou-se, e saiu pela porta que o levaria à superfície. Já não receava uma armadilha. A poucos metros dele, banhado pelo sol poente, via-se um vulto...
Vestia um traje espacial, com o capacete desatarraxado balançando solto. Rhodan, sem a menor dúvida...
Junto a ele, um delgado cilindro metálico, com dez metros de comprimento, e aproximadamente três de diâmetro. A diminuta escotilha parecia permitir apenas a passagem de um homem.
Uma mini-espaçonave!
Ellert-Onot correu em direção de Rhodan, estendendo-lhe a grotesca manzorra de druuf.
Bem-vindo, Perry... posso chamá-lo de Perry?
Era a primeira vez que Ellert e Rhodan se reencontravam pessoalmente, apesar de o mutante não ocupar seu verdadeiro corpo.
Chamava-me assim quando era um espírito invisível — disse Rhodan. — Por que não agora, que ocupa o corpo de um druuf? Não está surpreso por ver-me aqui?
Mas claro!
Os lábios de Onot se moviam, como se os sons viessem deles. Rhodan não poderia afirmar se Ellert enviava mensagens telepáticas, ou se pronunciava realmente palavras.
Senti de repente você me chamando. Como foi que me encontrou? Ninguém sabia que eu estava aqui.
Harno me ajudou — replicou Rhodan.
Harno?
Logo ficará familiarizado com Harno, e parece-me que vocês dois têm muito em comum. Mas primeiro, quero fazer-lhe uma pergunta: pode finalmente deixar Druufon?
Onot sacudiu a cabeça.
Só depois de obter os planos da propulsão estelar. Não é tão simples, apesar de eu ter entendido o princípio. Necessito da micro documentação, para ser utilizada na Terra. Onot vai arranjar as microfitas.
Posso ajudá-lo nisso?
Não, pois só nos serve material druuf. Esperemos que não chegue tarde demais.
E quanto ao campo de tempo?
Refere-se ao congelador de tempo? Também para ele me faltam os planos exatos, o que no entanto é menos grave. Primeiro, porque ajudei a inventar o aparelho; além disso, há um pequeno modelo experimental aí no laboratório. Vou tentar levá-lo, posteriormente.
Ora, não acha mais simples deixá-lo diretamente em minhas mãos?
Onot fez um gesto que poderia ser interpretado como surpresa. E Rhodan acreditou perceber na voz de Ellert um tom pesaroso.
Como é que não pensei nisso antes? Mas naturalmente! Já que veio para cá numa espaçonave, é só colocar o modelo a bordo, e você o leva. Seus cientistas saberão extrair alguma utilidade dele. O resto eu lhes explico mais tarde. Precisam apenas acautelar-se para não irem parar inadvertidamente no campo de tempo projetado no decorrer das experiências. No entanto, não correrão graves riscos se desligarem logo o aparelho.
Rhodan concordou.
Pois bem. Pode trazer o modelo até aqui, ou é pesado demais?
O druuf repuxou a boca, e Rhodan adivinhou que Ellert fazia um arremedo visual de sorriso.
Pesado? Ora, você nem imagina que força tem um druuf!
Onot dirigiu-se para a entrada do laboratório subterrâneo; voltou-se da porta, e sorriu para Rhodan. Lançou mais um olhar de admiração para a pequena nave espacial, e desapareceu no vão escuro.
Rhodan sorria também, um sorriso muito significativo.
Depois estremeceu repentinamente...
Alguns pontos surgiam no horizonte, aproximando-se velozmente. Uma esquadrilha de ágeis caças, em vôo de patrulha. Que fariam ali na região montanhosa? Mero acaso, talvez...
Por outro lado, podia não ser...
Num salto, Rhodan precipitou-se através da apertada escotilha para dentro da nave. Ela tornou a fechar-se ainda antes dele se instalar no assento. Quando os três caças druufs alcançaram o local, Rhodan já voava muito acima deles.
Compreendendo num relance, eles mudaram de curso. No entanto, por mais velozes que fossem, jamais poderiam competir com um bote salva-vidas da frota terrana. Ficaram irremediavelmente para trás.
Rhodan reduziu a velocidade, permitindo que os adversários se aproximassem. As montanhas com o laboratório de Onot estavam a boa distância agora. Diante deles apareceu o oceano.
O ecolote — aparelho em impecável estado de funcionamento — acusou uma profundidade de quinhentos metros.
Aproximando-se, os três caças abriram fogo por todas as bocas. Os incandescentes raios energéticos deslizavam pelos anteparos protetores do bote salva-vidas. Pouco depois, porém, a pequena nave começou a balançar, perdeu velocidade, oscilou, e precipitou-se no oceano. Mergulhou de frente, depois de uma última tentativa de estabilizar-se.
Os druufs observaram atentamente os arredores, porém nenhum sobrevivente emergiu da agitadas ondas do mar. Satisfeitos, fizeram rugir os propulsores, e desapareceram na direção da terra firme.
Rhodan percorrera, entrementes, extenso trecho por baixo da água. Ainda bem que suas naves espaciais podiam deslocar-se em qualquer meio, com velocidade diferente, porém. Harno substituía, por ora, os instrumentos necessários. Sua superfície esférica mostrou os três druufs, que desistiram da busca e afastaram-se.
Rhodan sorria de satisfação ao apontar para cima a quilha da nave, e emergir do oceano como um raio metálico, sumindo segundos após no Armamento colorido.
Quando tornou a desembarcar junto da entrada do laboratório de Onot, com Harno novamente guardado no bolso, o breve incidente já estava quase esquecido.
Ellert-Onot ainda não estava de volta, mas não devia demorar.
Despistara habilmente os druufs. Na certa o haviam tomado por algum espião da frota-robô, agora devidamente abatido. Pois bem, que continuassem pensando assim!
Por que Ellert tarda tanto...?”, pensou, indagando-se.
No mesmo instante, pressentiu a aproximação do mutante. Onot evidentemente realizava tremendo esforço, pois Ellert estimulava-o constantemente a não desistir.
Depois Onot surgiu na abertura da porta. Carregava nos poderosos braços um bloco metálico, que largou imediatamente no chão.
Rhodan examinou com ar interessado o bloco, enquanto Ellert dizia:
Trata-se do primeiro modelo experimental do congelador de tempo. Mande levá-lo para a Terra, Perry. Estou certo de que os cientistas terrestres saberão como levar adiante as experiências, enquanto eu não regressar.
Obrigado — limitou-se a dizer Rhodan. — Acha que nós dois seremos capazes de colocá-lo a bordo sem ajuda?
Que nada, deixa isso comigo! — disse Ellert, levantando novamente o volume. Com visível esforço, empurrou-o através da escotilha aberta, ajeitando-o com mais alguns movimentos. — Vai ter que encolher-se um pouco durante a viagem de volta, mas como a nave parece ser bastante veloz, o vôo será curto.
Sem dúvida — confirmou Rhodan. Vou decolar, e providenciar a remessa imediata do modelo à Terra.
Cuidarei da propulsão estelar — prometeu Ellert. — Irei ainda hoje à central de cálculos debaixo da cidade, a fim de trazer o material para as micro gravações. Talvez o encontre até na própria cidade.
De todo o coração lhe desejo boa sorte, disse Rhodan, apertando a mão do druuf. — Em caso de necessidade, se não puder separar-se de seu amigo Onot, venha para a Terra no corpo dele. Não nos fará diferença. Dará notícias?
Claro, Perry. Quanto ao que disse sobre Onot, vou considerar a possibilidade. De alguma forma, sinto pena do coitado.
A porta para o subterrâneo só tornou a abrir-se muito tempo depois de Rhodan ter sumido com sua mininave nas nuvens multicoloridas.
Onot lançava duas sombras distintas, sem dar atenção ao fenômeno...
Vagarosamente tornou a descer para seu refúgio rochoso.

* * *

A tempestade que açoitava a zona crepuscular de Hades amainara um pouco. No horizonte boiava a imagem rubro-verde do sol gêmeo, um gigante fulgurante e fantasmagórico. A atmosfera rala fazia o céu parecer escuro, apesar do brilho dos sóis. Simultaneamente, algumas estrelas maiores cintilavam no Armamento.
Nas proximidades existia uma extensa cordilheira, que oferecia alguma proteção contra o temporal. Os cumes mais elevados rebrilhavam em tons branco-avermelhados. Atmosfera congelada, sem dúvida. Muito além ficava a gélida face noturna do planeta.
Profundas fendas e valas rasgavam a superfície rochosa. Não havia qualquer espécie de vegetação. Nas profundezas dos íngremes vales, onde jamais chegava um raio de sol, havia poças geladas. Hades era um mundo onde só se conseguia sobreviver, graças aos artifícios tecnológicos. Sem traje espacial, a permanência era possível apenas na faixa crepuscular, e isso por meia hora, no máximo. O ar era rarefeito, mas respirável por quem não se submetesse a esforços físicos...
Junto a uma fenda, algo se moveu repentinamente...
O solo rochoso abriu-se; dele emergiu uma placa, trazendo dois seres vivos!
Bell e Gucky usavam trajes espaciais aquecidos, de feitio bem diverso. O pequeno rato-castor fazia figura bem pitoresca no seu; no entanto, sentia imenso orgulho por vestir uma confecção sob medida. Bell contentara-se com um modelo convencional.
A placa parou, e os dois encetaram a caminhada pelo planeta infernal, com os rádios dos capacetes ligados.
Droga de elevador — resmungou Bell, aborrecido, referindo-se à placa. — Incômodo e antiquado. Quem me dera um elevador antigravitacional!
Não se pode ter tudo — replicou a voz clara de Gucky. — Já me dou por satisfeito por não ter tido que fazer a escalada a pé.
Olhando em torno, continuou:
Puxa, onde se terá metido Perry? O Tenente Potkin disse que ele também usou o elevador.
E este é o único existente — comentou Bell, olhando interessado o duplo sol colorido. — Talvez tenha simplesmente ido dar um passeio, e basta procurá-lo.
Procurá-lo? Está bem, vá por aquele lado!
Coisa mais fácil de dizer do que de fazer.
Havia mil possibilidades de esconder-se na paisagem dilacerada. Além das inúmeras fendas no solo, existiam blocos de rocha espalhados por toda a parte, morros escarpados, vales estreitos e fundos. Realmente, não se saberia por onde começar a busca.
Aliás, ele deveria até ouvir-nos enquanto conversamos — lembrou Bell. — Pois o traje espacial dele tem capacete idêntico aos nossos.
Mudando de tom, chamou:
Alô, Perry! Por que não responde? Está querendo brincar de esconder?
Não deu um pio acerca do que pretendia fazer aqui fora — disse Gucky, aborrecido. — Geralmente me traz junto...
Talvez quisesse se livrar de um chato, para variar — interrompeu Bell, sarcasticamente.
A reação de Gucky foi violenta:
Cale a boca, ou vai ver uma coisa!
Bell achou melhor silenciar. Afinal, não sentia a menor vontade de ficar à mercê do rato-castor naquele planeta inóspito. Seu olhar correu pela paisagem pouco atraente; depois, por puro acaso, subiu pelos picos escarpados, detendo-se por fim no céu, que, agora, estava negro-violeta.
Seria alguma estrela?
Adivinhando a pergunta de Bell, Gucky olhou igualmente para cima.
Uma minúscula estrela cadente riscava o céu, aproximando-se da superfície. Lenta demais para uma estrela, mas para uma...
Uma nave! — exclamou Bell. — Por todas as mulheres de Marte, uma nave! Não das nossas, certamente...
Faça-me o favor de deixar as mulheres fora da conversa! — reclamou Gucky, energicamente. — Mas tem razão quanto à nave. Não trouxemos nenhuma deste formato. Muito pequena...
Parece com os caças espaciais, mas é menor — observou Bell. — Espero que não se trate de um druuf.
Aqueles hipopótamos jamais caberiam nela — afirmou o rato-castor, protegendo-se por trás de um bloco de pedra, pois a pequena nave se aproximava velozmente.
Tudo indicava que pretendia pousar justamente ao lado da entrada para a base subterrânea.
Mexa-se, homem, senão aquele cara, seja ele quem for, transforma você em nuvem energética!
Bell lançou-se ao solo, arrastando-se para o esconderijo, onde estava Gucky.
Acha mesmo? — perguntou, esbaforido.
Gucky lançou-lhe um olhar de escárnio.
Bem que valeria a pena.. — caçoou, espiando por cima da borda da rocha.
Constatou horrorizado que a nave já aterrissara.
E depois, ao sentir os impulsos mentais invadir-lhe o cérebro, começou a rir como uma criança. Levantou e começou a andar tranqüilamente para fora do esconderijo.
Gucky! — gritou Bell, apavorado. — Abaixe-se, homem! Ficou doido?
Felizmente não sou homem — protestou Gucky, evidentemente ofendido com a comparação.
Balouçando, aproximou-se da escotilha, nitidamente delineada no lusco-fusco; postou-se diante dela, em atitude de espera.
Pode vir sem susto, medroso — gritou para Bell, esquecendo que fora o primeiro a procurar cobertura. — É apenas Perry.
Porém Bell tinha amor à vida. Contemplava, trêmulo, o rato-castor, e a nave desconhecida, completamente estranha para ele. De onde Rhodan a teria tirado? Teria sido encontrada em Hades, por acaso?
A escotilha abriu-se.
Ao desembarcar, Rhodan deu imediatamente com o rato-castor, que lhe acenava alegremente.
Ah... você! Como veio parar aqui?
Pelo elevador — explicou Gucky, singelamente. — Muito mais me interessa saber como é que você veio para cá...
Nesta nave! — replicou Rhodan, saltando ligeiro para o chão pedregoso, graças à gravidade pouco intensa. — Ótimo estar aqui. Pode ajudar-me?
Conte comigo!
Trouxe um caixote na nave. Quer tirá-lo para mim?
Trabalho braçal? — Gucky sacudiu-se todo. — Não, tenho uma idéia melhor.
Voltando-se, gritou na direção do bloco de rocha:
Bell! Estão chamando por você, o homem forte!
Reconhecendo Rhodan, Bell erguera-se. Estremeceu ao ouvir as palavras de Gucky, e acercou-se de ambos sem uma palavra.
Um caixote? Muito interessante! E o que tem dentro dele?
Arraste-o para fora, e saberá — caçoou Gucky.
Rhodan fez um enérgico gesto com a mão.
Como é, não vão ajudar, seus brigões? O volume pesa algumas toneladas... pelo menos é o que pesaria na Terra. Aqui nossa tarefa é mais leve.
Tornou a embarcar, dizendo:
Que esperam?
Tipo esquisito de aeronave — comentou Bell, aprontando-se para seguir Rhodan: — Nunca vi igual. Mais parece fruto da imaginação... Apesar disso, as formas aerodinâmicas são aceitáveis.
Já dentro da nave, Bell arregalou os olhos ao ver o lustroso bloco de metal.
É isso que devemos levar para fora?
Já falei que as condições gravitacionais aqui valem um terço — replicou Rhodan, pacientemente. — Conseguiremos facilmente, mesmo sem a ajuda de Gucky.
Aquele sujeitinho sempre se esquiva do trabalho — disse Bell. — Bem que poderia resolver o caso usando a telecinese.
Depois ele fará isso. Primeiro gostaria de ver o caixote fora da nave.
Realizaram a tarefa em poucos minutos. Quando o brilhante bloco metálico já havia sido depositado sobre a rude superfície do planeta, também Gucky se aproximou. Contemplando-o pensativo, disse:
Percebo que blinda seus pensamentos, Perry. Mais um segredo vedado para nós... Pois bem, seja. Mas diga-nos ao menos o que há neste caixote metálico!
Um modelo do congelador de tempo — disse Rhodan, calmamente. — Fui buscá-lo no laboratório de Onot.
E ele entregou a maravilha? — perguntou Gucky, espantado.
Bem, na realidade foi Ellert — explicou Rhodan. — E agora faça o favor de transportar imediatamente o modelo para a Drusus. Caso esta não se encontre aqui, leve-o para a central do Capitão Rous. Bell e eu seguiremos atrás.
Bell desviou os olhos do modelo.
Respondeu a uma pergunta de Gucky — constatou ele, um tanto ofendido. — Teria a amabilidade de satisfazer igualmente minha curiosidade?
Como fala empolado, o gorducho — troçou Gucky, instalando-se sobre o modelo do congelador de tempo, a fim de estabelecer o contato corporal necessário à teleportação. — Por que não o deixa espernear um pouco?
Rhodan sorriu significativamente.
Não seria preferível saber primeiro o que é que ele queria perguntar? Vamos, Bell, fale!
Bell inspirou profundamente.
De onde tirou aquela nave? Conforme vejo, é um modelo totalmente desconhecido para mim, e jamais encontrei tipo semelhante. Não foi em Hades que a encontrou, não é?
Claro que não! — disse Rhodan, voltando-se para o rato-castor. — Só falta você afirmar que nunca em sua vida viu nave tão pequena!
Não vi mesmo — confirmou Gucky, parecendo hesitar de repente. — Não que eu me lembre...
Rhodan caiu na gargalhada.
Ora, vejam! E eu imaginando que cada um de vocês conhecesse de cor e salteado todos os tipos de nossas naves, sabendo distinguir uma da outra, e agora passo por esta decepção! Será possível? Sabem o que é isto aqui? — apontou para o cilindro metálico de dez metros de comprimento. — É um bote salva-vidas da Drusus. Quase todos nossos cruzadores maiores dispõem desta espécie de botes, capazes de alcançar a velocidade da luz, e acomodar uma porção de gente. Mas nenhum de vocês jamais se viu na necessidade de ter de usar um bote salva-vidas; portanto, dá para compreender a ignorância dos dois. Apesar disso...
Gucky fungou, furioso, fez um gesto vago na direção da pequena nave, preparou-se para dizer alguma coisa, mas desistiu. Depois teleportou-se.
O modelo do congelador de tempo também dissolveu-se no ar.
Bell suspirou, aliviado.
Boa lição deu a este malandro — comentou ele, dando mostras de querer esquecer o mais depressa possível o penoso incidente. — Claro que eu conhecia os botes salva-vidas, porém minha memória pregou-me uma peça...
Bell recusava-se aceitar a verdade, por achar mais agradável a versão fantasiosa.
Achar uma nave espacial de procedência misteriosa num planeta desabitado... isso sim é que era aventura!”, pensou um tanto desapontado.
Pois é, de tecnologia o rato-castor não entende mesmo nada! — concluiu, tentando encobrir seu erro.
Rhodan sacudiu a cabeça, resolvendo esquecer o caso. Encaminhou-se para a placa do elevador, e postou-se sobre ela.
Ande depressa, caso não queira pernoitar aí. E as noites aqui duram um bocado de tempo, mais ou menos uma eternidade. Pois, devido à posição do sol, a noite aqui é constante.
Com alguns passos, Bell estava ao lado de Rhodan.
Lentamente a placa desceu para o interior da base. Acima deles, a abertura se fechou novamente.
Bell estava calado.
Pois é — disse Rhodan, ao tomarem o corredor iluminado na base. — Parece-me ser a única. De vez em quando é preciso recordar um pouco.
Recordar? — perguntou Bell, intrigado, arrependido por ter ido espionar com Gucky na superfície. — O que quer dizer?
Recordar os conhecimentos, meu caro. A partir desta noite, tempo de Hades, iniciaremos cursos dos quais participarão obrigatoriamente todos os oficiais e praças da base. Aproveitamento das horas de lazer, digamos. E você dará a primeira aula.
Eu, dar aula?
Rhodan acenou.
Exatamente! O assunto desta noite: conformação externa dos diversos tipos de espaçonaves terranas, a começar pelos botes salva-vidas. Creio que a repetição do assunto será útil para determinadas pessoas. Que acha?
Bell sorriu, contrafeito.
Prometo nunca mais pensar coisa alguma, a partir de hoje; isto é, caso possa evitar. Pois bem, hoje à noite. Espero que Gucky também compareça.
Pode contar com isso! — prometeu Rhodan, tomando o primeiro corredor lateral.
Bell seguiu-o com um olhar preocupado.
Em algum canto de seu armário, devia existir ainda um manual. Pois simplesmente de memória...
Suspirou.
Não, pessoa alguma conseguiria guardar na memória todos aqueles detalhes!




* * *
* *
*




Ellert, o mutante desaparecido, transmitiu a Rhodan valiosos conhecimentos.
Porém de que valiam para Perry Rhodan todos esses conhecimentos, se Thora, sua mulher, está prestes a iniciar seu sacrifício?
Em O Sacrifício de Thora, título do próximo volume, será narrada uma história de grandeza humana incomensurável, comovente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html