— E quem
é que não conhece Gucky em toda a Galáxia? — proseou-se o
rato-castor, vaidosamente.
Bell
olhava na direção indicada por Rhodan.
— Bonitinho,
o prédio... É nele que vamos entrar?
— Suponho
que sim — replicou Rhodan.
O veículo
subiu por uma rua inclinada em rampa, seguindo depois por um largo
viaduto, muito acima dos telhados das casas, em direção do prédio
coberto por uma cúpula. Quando ainda se encontravam a cem metros
dele, o portão se abriu para deixá-los entrar.
O carro
parou no meio da vasta arena. As arquibancadas em torno dela estavam
lotadas. Surpreendente ver ainda tantos druufs ociosos na cidade,
enquanto a batalha decisiva rugia em torno do planeta...
Rhodan foi
o último a descer, dando precedência a Bell e Gucky. Não trouxera
aparelho tradutor. Sabia que as máquinas dos druufs eram excelentes.
Com
efeito, os alto-falantes distribuídos pela arena permitiam que todos
os presentes seguissem as conversações.
— Nossos
agradecimentos pelo aviso recebido, Perry Rhodan da Terra —
ouviu-se das colunas circundantes, que suportavam a cúpula do teto.
— Chegou tarde demais, lamentavelmente, mas provou-nos de que lado
está.
Rhodan
procurou em vão localizar o orador. Novamente os governantes druufs
haviam tomado assento nas fileiras mais altas, que circundavam a
arena a cinqüenta metros de altura. Qualquer um deles poderia ser
Tommy-1.
— Vocês
têm alguma sugestão? — perguntou Rhodan, com certa frieza. Não
tinha interesse algum em ajudar os druufs; tudo que queria era o
segredo da propulsão estelar. — Que podemos fazer?
— Chamem
sua frota, e lancem-na contra a frota-robô — replicou Tommy-1. —
Destruam as máquinas invasoras que ameaçam arrasar nosso
departamento científico subterrâneo.
— Onde
está o contingente bélico de vocês?
— Todos
os soldados estão na luta. Os que vê aqui são políticos, oficiais
e cientistas. Nada entendem de guerras.
— Nem
mesmo os oficiais?
— Estes
não! — foi a resposta pouco explícita.
— Achei
Tommy-1 — sinalizou Gucky, telepaticamente. — Quer que o faça
baixar de sua tribuna?
— Bem
lembrado — retorquiu Rhodan. — Talvez isso os impressione.
Gucky não
esperou segunda ordem. Detectara o porta-voz dos druufs, e sabia qual
dos monstros era o autor intelectual das palavras que acabavam de
ouvir. Concentrou-se no colosso instalado lá em cima, junto ao teto,
e envolveu-o na corrente de suas forças telecinéticas. Como se
tivesse perdido o peso repentinamente, o gigantesco druuf de três
metros de altura se ergueu lentamente no ar, passou por cima do
parapeito, e ficou suspenso no meio da arena.
Exclamações
de surpresa partiam dos alto-falantes.
Claro que
os druufs não gritavam, pois comunicavam-se através de
transmissores-receptores orgânicos, que emitiam ondas ultra-sonoras.
Porém os tradutores ligados captavam os impulsos, tornando-os
inteligíveis para ouvidos humanos.
Tommy-1
manteve-se surpreendentemente calmo, apesar de agitar pernas e
braços; meros movimentos reflexos, ditados pelo instinto, talvez.
Certamente não achava explicação para o fato, porém não havia
tempo para isso agora. Pois uma queda significaria a morte certa.
Mas Gucky
não o deixaria cair.
Fez o
druuf perder altura numa elegante curva, e depositou-o com delicadeza
e suavidade bem defronte de Rhodan.
— Assim
dá para conversar melhor — disse Rhodan, em voz alta, esperando
que o tradutor aceitasse o novo estado de coisas. Não foi
desapontado.
— Como
fez isso? — foi a primeira pergunta de Tommy-1. — Tive a
impressão de ser agarrado por uma mão invisível.
— Era a
minha — esclareceu Gucky, apontando orgulhosamente para o próprio
peito.
O druuf
contemplava atônito o rato-castor, como se ele fosse um ser
miraculoso. Seu olhar ia das enormes orelhas de rato ao corpo e à
larga cauda de castor. Observou mais detidamente o reluzente dente
roedor, que evidenciava a esplêndida disposição de Gucky.
— Esse
aí? — balbuciou Tommy-1. — Quem é ele?
— Este é
Gucky — explicou Rhodan, acrescentando: — É conveniente tratá-lo
com a máxima cortesia, senão da próxima vez ele lhe dará um
tombo.
Tommy-1
ainda examinava fascinado o rato-castor. No entanto, lia-se profundo
respeito em seus olhos, entremeado com medo. Gucky leu os pensamentos
do druuf e deu-se por satisfeito.
— Assim
está bem — disse ele, cutucando Bell. — Ele me considera um
pequeno deus.
Falou tão
baixo que o tradutor não lhe captou as palavras.
Rhodan
dirigiu-se ao druuf.
— Que me
dão em troca de nossa ajuda?
— Uma
recompensa? — Tommy-1 parecia sinceramente surpreso. — Julguei
que nossos inimigos também fossem os seus. Por que deveríamos
recompensá-los por combater contra seus inimigos?
— Pois
então tratem de arranjar-se sozinhos com eles!
— Mas
vocês não seriam igualmente beneficiados, caso nós os derrotemos?
Portanto, também poderíamos reclamar recompensa.
Argumento
mais do que lógico, que Rhodan não podia deixar de reconhecer. No
entanto, não era o que interessava no momento.
— Vou
dizer-lhe algo que o fará refletir — disse, com entonação
peculiar. — Eles me ofereceram aliança. Caso eu aceite, vocês
estariam perdidos. Ou julgam poder lutar simultaneamente contra
Árcon, e contra nós?
Tommy-1
parecia consternado. Lançava olhares suplicantes para o alto, como
se esperasse ajuda de seus congêneres. O vozerio cessou de repente.
Tinham desligado o equipamento de tradução.
— Querem
deliberar — informou Gucky, cuja atenção não relaxara um só
instante. — Que belo susto lhes pregou!
— Exatamente
o que eu pretendia — declarou Rhodan.
Bell
estava imóvel. Mirando as extensas fileiras de “monstros”
que o olhavam lá de cima, dava evidente mostra de sentir-se muito
pouco à vontade. Por via das dúvidas, não arredava pé de perto de
Gucky.
Rhodan
ergueu ligeiramente a mão esquerda, e apertou o botão do minúsculo
transmissor.
— Alô,
Sikermann!
— Sim,
Senhor...?
— Tudo
em ordem aí? Como vão as coisas?
— Nada
de especial no que se refere à Drusus. Violentas explosões na
cidade. Parece que se luta ferozmente por lá. Crateras provam que
galerias inteiras ruíram.
Rhodan
agradeceu, e deixou o aparelho ligado. Voltou-se para Gucky:
— A
quantas andam eles?
— Até
onde pude constatar, não conseguem chegar a uma conclusão.
Deliberam sobre o que nos oferecer como recompensa.
— Com o
que começam a aproximar-se do que desejamos — comentou Rhodan,
sorrindo.
Esperaram
ainda por cerca de dez minutos, durante os quais os últimos setores
ainda intatos da central de cálculos deveriam ter igualmente ruído
sob a sanha dos robôs de guerra. Depois o tradutor foi novamente
ligado.
Tommy-1,
que se afastara alguns passos, retornou.
— Caso
não se aliem aos robôs, mas continuem combatendo ao nosso lado
contra eles, que exigem em troca?
Com ar
indiferente, Rhodan respondeu:
— Vocês
possuem um tipo de propulsão para naves espaciais que desconhecemos.
Adotamos o sistema de saltos através do hiperespaço, enquanto vocês
voam acima da velocidade da luz, sem qualquer desmaterialização.
Ponham à nossa disposição os planos de construção deste tipo de
propulsão, e recusaremos a oferta dos robôs.
Tommy-1
conferenciou mais uma vez com os companheiros. Seus quatro olhos não
demonstravam a menor expressão ao dizer, por fim:
— Quando
os robôs tiverem sido derrotados, receberá os planos de construção.
Mais ou
menos o que Rhodan esperara. Só mesmo sendo tremendamente tolos, os
druufs entregariam sem resistência seu maior segredo. Portando seria
preciso aguardar. E talvez Ellert conseguisse apoderar-se dos planos,
enquanto esperavam.
Acenou,
apesar de ter certeza de que o druuf não saberia interpretar o
gesto.
— É uma
proposta justa, Tommy-1... mas tomem cuidado! Caso tentem
iludir-nos...
— Mantemos
nossa promessa assim como vocês mantêm a sua.
Rhodan
sentiu certo constrangimento ao ouvi-la.
— Quando
a vitória for alcançada, receberão os planos da propulsão
estelar. E agora, tratem de agir! — concluiu o druuf.
— Certo?
Minhas naves poderão transitar livremente pela zona de descarga?
— Poderão
passar sem empecilhos. Fixaremos um código, a ser respeitado por
todas as nossas unidades.
— E
quanto à central de cálculos? Caso for destruída?
— Não é
a única de que dispomos, apesar de ser a mais importante.
Rhodan
ocultou sua surpresa. Realmente, subestimara os druufs, segundo tudo
indicava. Se possuíam mesmo outros departamentos de pesquisa como
aquele, suas reservas agressivas não se esgotariam tão cedo. Quem
sabe, talvez contassem até com mais de um Onot...
Suposição
instantaneamente confirmada.
— Quer
que tentemos rechaçar os robôs?
— É
desnecessário — replicou Tommy-1. — Estão perdidos de qualquer
maneira. E depois, as tropas de segurança farão funcionar o
maçarico de gravidade, inventado por... — seguiu-se um nome
impronunciável. — Isso destruirá todo e qualquer adversário que
tenha penetrado em nosso Universo.
— Maçarico
de gravidade? — indagou Rhodan, intrigado.
Não tinha
a menor idéia do que pudesse ser aquilo.
— A
máquina de traduzir não usa termos científicos exatos, porém
recorre a símbolos figurados, quando falta a terminologia
apropriada. O maçarico de gravidade vem a ser uma arma contra a qual
não existe defesa, para quem não a conhece. Não sendo cientista,
estou impossibilitado de revelar-lhe como ela funciona, e por que
funciona. Só sei que altera as leis da gravidade. Queima a
gravitação.
— Precisamos
ficar escutando tamanha besteira? — perguntou Bell, irritado,
supondo que pretendessem fazê-los de bobo. — Afinal, ausência de
gravidade não vem a ser nenhuma desgraça. Cada nave pode gerar seus
próprios campos gravitacionais para compensar a perda.
Voltando-se
para ele, Tommy-1 disse:
— Talvez
eu não tenha me expressado com suficiente clareza. O maçarico de
gravidade anula os campos gravitacionais artificiais, intensificando
simultaneamente a força de gravidade do planeta. Desta forma, nem os
mais possantes propulsores evitarão que ela seja atraída para
baixo, e espatifada no solo. A força de atração de nosso sol duplo
seria multiplicada milhares de vezes. Apenas um isolamento especial
ofereceria proteção, e apenas nossas naves estão equipadas com
ele.
Rhodan
ainda não conseguia ver muito claro, porém começava a perceber que
os druufs haviam dado um passo decisivo na pesquisa dos campos
gravitacionais das estrelas. Aproveitou a ligeira pausa para imaginar
concretamente as conseqüências resultantes, caso Tommy-1 não
estivesse mentindo.
E por que
mentiria?
Nas naves
arcônidas e terranas, os campos de gravidade artificial tinham a
função de manter o interior nas condições habituais; além disso,
evitavam que planetas eventualmente próximos alterassem seu curso.
Quando se aproximavam de um mundo de gravitação extraordinariamente
elevada, a ação dos campos de gravidade se intensificava de forma
automática, compensando a pressão maior. E caso a gravitação
deste planeta fosse multiplicada por centenas ou até milhares de
vezes, a nave seria atraída e destroçada contra o solo. Isto se não
contasse com meios para neutralizar a força adicional. E nenhuma
propulsão comum bastaria para levá-la de volta à amplidão do
espaço.
De posse
de tal arma, os druufs estariam sempre na posição de vencedores.
Estranho não terem feito uso dela até então.
Tommy-1
aceitaria um pedido de explicação a respeito?
— Na
certa o maçarico de gravidade ainda se encontra em estágio
experimental, não é? — perguntou Rhodan, cautelosamente. —
Funciona apenas na própria dimensão temporal?
— Sim,
infelizmente. Por este motivo ainda não foi posto em ação. Pois, a
não ser um ou outro avanço os robôs têm-se mantido em seu
Universo, onde o maçarico de gravidade perde o efeito. É incapaz de
passar de uma dimensão temporal a outra, prova de que existe alguma
relação entre gravitação e tempo.
Mais uma
vez, Rhodan lamentou ser inimigo daquela raça tão inteligente. Pelo
visto, os druufs dispunham de conhecimentos que extravasavam os dos
terranos.
Uma
relação entre gravidade e tempo...?
Apressou-se
em retornar à realidade do momento.
— E por
que recorrem à nossa ajuda, se possuem armas tão potentes?
Também
para esta pergunta o druuf tinha resposta coerente.
— Dentro
do âmbito de nosso Universo, damos conta de qualquer adversário,
desde que não ataque de maneira tão inesperada conforme sucedeu. No
entanto, a origem do mal não se encontra aqui, porém no Universo de
vocês. Sou forçado a confessar que, além da barreira de tempo,
muitos dos nossos recursos bélicos falham.
— Até o
congelador de tempo?
— Que
sabe acerca dele?
Rhodan
percebeu que cometera um erro. Para corrigi-lo, teria que revelar um
de seus segredos.
— Meu
acompanhante... — apontou para Gucky — ...é telepata. Pode ler
pensamentos, e assim colheu algumas informações.
— Telepata?
— indagou o druuf, admirado. — Entre nós, não há ninguém
capaz de ler os pensamentos alheios. Que mais seu amiguinho sabe
fazer?
— Ora, o
que experimentou pessoalmente, há pouco. Não foi trazido da mais
alta fila nas arquibancadas para o meio da arena?
Repentinamente
Gucky avançou para o druuf, gingando o corpo. Com voz estridente e
indignada, gritou:
— Não
acabou de saber que sou telepata? Que história é essa de pensar em
me aprisionar, porque eu talvez lhe seja útil? Está querendo
executar um vôo acrobático pela arena, para estatelar-se no chão
no fim do ato? Olhe aqui, camarada, cuidado com Gucky!
Tommy-1
recuou, constrangido por ver suas intenções reveladas.
— Só
pensei... porque...
Rhodan
aproveitou o incidente para levar a conversa para rumo menos
comprometedor.
— Portanto,
vocês nos propõem que destruamos o inimigo no nosso Universo,
enquanto vocês tratam de derrotá-lo em seu próprio mundo. Entendi
bem?
O druuf
moveu a boca triangular. Pela primeira vez evidenciava-se que lhes
servia para gesticular, assim como os humanos costumavam sacudir a
cabeça ou acenar.
— Exato,
esta é nossa sugestão. Ataquem os robôs em sua terra natal, e
aniquilem seus reforços. É tudo que queremos de vocês.
Pretensão
bastante compreensível por parte de quem possuía arma tão poderosa
como o maçarico de gravidade, e só poderia agir no Universo
relativista com recursos convencionais.
— Está
bem — concordou Rhodan. — Daremos as instruções correspondentes
à nossa frota. Quer providenciar o sinal-código prometido, a fim de
que possamos retornar sem impedimento sempre que for necessário?
Tommy-1
acenou com um dos possantes braços. Por trás de Rhodan, Bell e
Gucky abriu-se uma porta, que deu passagem a um veículo.
— Vai
conduzi-los ao espaçoporto.
Os três
embarcaram em silêncio, e o carro se pôs em movimento
imediatamente. Acelerou ao entrar na via de trânsito mais larga.
À
distância, via-se o espaçoporto fortemente avariado. A Drusus
aguardava ilesa, pousada fora dos limites da cidade.
Com um
suspiro, Rhodan disse:
— Agora
conhecemos a força e a fraqueza deles. Só me perturba saber que são
capazes de derrotar Árcon aqui em Druufon. E o emprego daquela arma
infernal pode representar fator decisivo.
No
silêncio subseqüente, a voz clara de Gucky irrompeu como um raio.
Pois o rato-castor dizia:
— Até
onde pude ler os pensamentos de Tommy-1, os druufs não possuem
nenhum maçarico de gravidade. Tal invenção nem existe...
5
Quando o
carro robotizado parou, deixando Onot descer, todas as luzes tinham
acabado de apagar no corredor subterrâneo. Tudo ficou envolto em
trevas.
O druuf
avançou às apalpadelas, apoiando-se nas paredes, em busca de saída.
Não conhecia muito bem aquela parte do labirinto de cavernas, por
ser domínio de outros cientistas. Porém ele, Onot, era o
físico-chefe de sua raça.
— Que
foi que aconteceu? — murmurou baixinho, esperando que seu
acompanhante invisível respondesse. Já nem sabia o que fazia ali
sem ele.
“A
central de cálculos no subsolo da cidade foi arrasada. Pode achar o
caminho para a superfície?”
— Deve
estar perto, mas é difícil distingui-la, com as luzes apagadas.
“Os
geradores de emergência não tardarão a entrar em ação”,
consolou Ellert, com uma pontinha de ironia. “Às
vezes, é bem mais cômodo não possuir corpo.”
Onot não
respondeu. Avançava com cautela, e suspirou de satisfação ao ver a
luz piscar, e depois permanecer acesa. Agora poderia andar com mais
desembaraço, e achar a saída. Antes de alcançar o elevador, ouviu
passos apressados se aproximando.
Eram dois
druufs, que pararam espantados ao vê-lo.
— Onot!
— exclamou um deles. — Que faz aqui? Que foi que houve lá na
cidade?
— Um
ataque dos estranhos — explicou Onot, preparando-se para um relato
detalhado.
No entanto
calou bruscamente. Como dizer aos dois cientistas que fora ele que
deixara o inimigo entrar na central de cálculos? Que diriam eles?
Como reagiriam? Acreditariam que agira sob pressão?
— Na
cidade, Onot?
Onot caiu
em si. Precisava agir com a máxima cautela, a fim de não ser tomado
por traidor.
— Não,
na central de cálculos. Os estranhos fizeram descer robôs, dos
quais a maior parte foi abatida; apesar disso, alguns deles
conseguiram atingir a central. Tive sorte, e ainda pude encontrar um
carro para fugir a tempo. Que poderia fazer, só e desarmado, contra
os invasores?
— Você
não tem trabalhado em novas armas? — perguntou um dos druufs,
desconfiado. — Todo mundo sabe...
— Faltou-me
tempo... — interrompeu Onot, apressadamente. — Posso me
considerar feliz por ter escapado com vida. A central de cálculos
foi inteiramente destruída.
— Não
sobrou nada?
— Até
onde pude verificar, não. Uma grave perda para nós. Não sei o que
o Conselho fará a respeito.
— Se for
conforme diz — estamos perdidos.
Porém
Onot discordou. Não por vontade própria, mas porque Ellert
ordenava.
— Ora,
possuímos mais centrais, todas elas equipadas com pessoal
competente. Nós derrotaremos o adversário. Mas não me detenham
mais, tenho o que fazer!
— Aqui?
Em nosso setor? — perguntou um dos druufs, admirado.
— Sim,
claro — replicou Onot, afastando-se depressa.
Sabia
agora onde estava, e queria chegar à superfície o mais depressa
possível. Os elevadores funcionavam normalmente. A corrente
antigravitacional empurrou-o para cima, e Onot respirou fundo ao
avistar o luminoso sol gêmeo Siamed.
Em
contraste com as instalações subterrâneas, a superfície de
Druufon mais parecia terra deserta e estéril. Só a capital fazia
exceção. Ao longo do litoral, havia mais algumas cidades. Porém o
sistema nervoso central dos druufs ficava profundamente oculto na
crosta do planeta.
A terra
tremeu de repente, e Onot teria se precipitado ao solo se não
tivesse se amparado à parede mais próxima. Vários druufs
atravessavam assustados a praça deserta; vendo Onot, correram para
ele.
— Que
houve? — perguntaram, demonstrando inteiro desconhecimento do que
ocorria. — Alguma explosão, ou terremoto?
— Ambos
— replicou Onot, laconicamente. O desconhecido ordenara-lhe que se
recusasse a dar informações. — Não há razão para
preocupações...
Acenando-lhes
— isto é, repuxando a boca triangular — seguiu adiante com
marcada displicência, como se estivesse apenas passeando. Os druufs
seguiram-no com olhares perplexos. Bem, se aquele cientista tão
famoso mostrava tamanha calma, o perigo não devia ser grave.
Retornaram a suas ocupações.
“E
agora, trate de cuidar de sua própria segurança!”
soou a ordem muda em seu cérebro. “Seu
laboratório secreto! Não diga a ninguém para onde vai. Nós dois
nos entregaremos a algumas experiências ali.”
— Sujeito
endiabrado! Que é que ignora a meu respeito?
“Nada,
Onot!”
O
físico-chefe pôs-se em movimento, desanimado. Ansiava por descanso
e sono.
No parque
de estacionamento havia diversos dos veículos tele dirigidos.
Embarcou num, e acionou a alavanca energética. Assim que Onot marcou
o rumo no mapa embutido abaixo do painel, o carro disparou.
Depois
recostou-se comodamente no assento estofado.
— Como
sabe de meu laboratório secreto, assombração?
“Conheço
seus pensamentos e recordações, Onot. Sei tudo sobre você. Já não
pode guardar segredos, por mais que tente controlar seus pensamentos.
Somos um só, você e eu. Poderia esconder algo de si mesmo, Onot?”
O sábio
não respondeu. Olhava para a frente, onde, após uma curva,
surgiriam as montanhas. Lá, por baixo da rocha maciça, ficava seu
laboratório. Uma antiga estação experimental abandonada, que
descobrira certo dia, puramente por acaso. Instalara-se nela, e ali
passava dias seguidos, deixando o Conselho supor que saíra em
férias.
Onot tinha
coisa mais interessante a fazer do que viagens de férias.
A estrada
era ruim, porém o fato não tinha importância. O carro flutuava
sobre um colchão de borracha, que absorvia todas as irregularidades
do solo. A velocidade aumentou quando entraram numa reta.
— Que
quer de mim, afinal? — perguntou Onot.
A voz do
desconhecido falou alto e claro:
“Deixe
de perguntas, e dê-se por feliz. Podia ter perecido no inferno em
que se transformou a central de cálculos. E saiba que não
encontrará mais nada nela, caso queira voltar lá algum dia. Só que
não pode. Foi visto ligando o transmissor...”
Onot
assustou-se mortalmente. Se aquilo fosse verdade...
“É
verdade!”,
afirmou Ellert, incisivamente. “Aquele
druuf que encontrou no corredor ficou desconfiado, e curioso por
saber o que fazia em seu departamento. Por sorte desistiu de desligar
novamente o transmissor, pois nem sonhava com o que ia acontecer. Mas
ele também se salvou e, neste exato momento, encontra-se na presença
do Conselho, relatando o que viu. Você, Onot, é agora considerado o
maior traidor de seu país.”
Onot
sentiu o mundo ruir a seu redor.
— Por
que fez isso comigo? Não lhe bastou forçar-me a praticar aquele ato
detestável? É preciso também que todos saibam?
“Sim,
é preciso. E é melhor assim.”
Ellert não
explicou por que seria melhor. Sabia que não existia mais
possibilidade de volta para Onot, e que poderia deixá-lo entregue a
si mesmo durante alguns minutos.
Precisava
urgentemente fazer novo contato com Rhodan.
As
montanhas ficavam ainda a meia hora de distância.
*
* *
Enquanto
se aproximavam da Drusus, Rhodan não pronunciou uma única palavra.
Esforçava-se
por entender a atitude dos druufs. Por um lado, recusavam ajuda em
Druufon, e por outro tentavam aparentar uma superioridade que estavam
longe de possuir. E se o maçarico de gravidade fosse blefe, muitas
outras coisas também poderiam ser. O congelador de tempo, quem sabe?
Ou a
propulsão estelar?
Não, era
pouco provável, pois neste caso Ellert estaria a par. E ele
confirmara a existência da propulsão estelar, e do congelador de
tempo. Ambos eram realidade.
A Drusus
erguia seu gigantesco vulto diante deles. A escotilha já estava
aberta, quando desceram do carro, que retornou imediatamente para a
cidade, depois de descrever uma elegante curva. Sem falar, cada qual
absorto nos próprios pensamentos, deixaram-se levar pelo raio de
tração para o interior da nave.
Só na
central de comando Bell reencontrou a fala.
— Agora
é que eu não entendo mais nada!
Sikermann
ergueu os olhos.
— Que
houve? Escutei tudo, e acho...
— Pode
ter escutado — disse Rhodan. — Mas não ouviu os pensamentos
deles. Coisa que Gucky fez.
Explicaram
tudo a Atlan e Sikermann. Espantado, o arcônida disse:
— Ousados,
esses druufs. Jogam tudo numa só cartada, e sabem blefar. Reconhecem
que estariam perdidos, caso descobríssemos suas fraquezas. Mas estão
conscientes de que podem vencer a parada. Só me intriga saber como é
que o tal de Tommy-1 se arriscou tanto, a despeito de saber que Gucky
é telepata.
— Só
soube depois — explicou Rhodan.
— E
então apressou-se a ir embora. Receando, naturalmente, que
descobríssemos o que pensava. Mas felizmente descobrimos.
— Ninguém
tapeia Gucky! — exclamou o rato-castor, orgulhoso.
Bell
lançou-lhe um olhar, mas nada disse.
— E
agora? — indagou Atlan, ansioso.
Antes que
alguém pudesse lhe responder, os impulsos mentais de Ellert
sobrepujaram tudo. Impuseram-se às suas ondas cerebrais como um
transmissor de sinal mais potente.
— Escapei
do inferno, no corpo de Onot. Estamos a caminho do laboratório
secreto dele. Talvez lá eu consiga gravar numa microfita visual os
detalhes de construção da propulsão estelar. Até agora, não tive
oportunidade de discutir o assunto com Onot. Como está a situação
por aí?
— Tudo
em ordem — falou Rhodan, em voz alta. — Não deseja abandonar,
finalmente, Druufon, e regressar conosco à Terra?
Em seus
cérebros ecoou um riso meio lamentoso.
— Ainda
é cedo, Perry. Preciso continuar aqui até ter a certeza de poder
agir livremente a qualquer momento. O corpo de Onot me é altamente
conveniente. Além disso, jamais conseguiria lhes fornecer a
propulsão estelar se deixasse o corpo de Onot agora.
Atlan
acenou para Rhodan.
Realmente,
Ellert estava com a razão. Ellert poderia retornar à Terra, quando
julgasse conveniente; não existia mais impedimento algum. E no
momento, o mais importante era conseguir os planos de construção da
propulsão estelar.
— Está
bem, Ellert. Decolaremos agora, abandonando Druufon. Os druufs nos
mentiram, afirmando que são capazes de defender-se sozinhos neste
seu mundo, e dispensaram nossa ajuda. Garantem que seus cientistas
desenvolveram armas fabulosas, com as quais poderiam dominar o
universo inteiro. Mas confessaram que não seria fácil conquistar o
nosso. Que sabe a respeito?
— Nada,
por enquanto, mas saberei em breve — replicou Ellert. — Preciso
recolher-me agora, pois as montanhas se aproximam. Torno a falar
quando tivermos chegado, e eu estiver de posse dos planos.
A pressão
deixou seus cérebros.
— Será
que ele vai poder comunicar-se conosco, quando não estivermos mais
na dimensão temporal dos druufs? — perguntou Bell, preocupado.
— Creio
que sim — disse Rhodan. — Isto, no entanto, o obrigaria a deixar
Onot sozinho, enquanto passa pela zona de descarga. Se entendi bem,
Ellert pode deslocar-se livremente através do tempo e do espaço sem
o corpo de Onot. Só que, antes, nunca conseguira passar de uma
dimensão temporal a outra; por isso não reencontrava o caminho para
a Terra, e para o presente.
— Espero
que não se extravie outra vez — comentou Bell, franzindo a testa.
— Pois assim que a “fenda”
entre os dois Universos tornar a fechar-se, o caminho estará
cortado.
— Ele
passará a tempo — afirmou Rhodan, acenando para Sikermann. —
Prepare a Drusus para a decolagem, coronel. Proporcionaremos a nossos
amigos um belo espetáculo de fogos de artifício, a fim de que
tenham pelo menos um motivo para sentirem-se satisfeitos com seus
aliados.
Dois
minutos após, a gigantesca esfera alçou-se no ar, e disparou para o
alto, em direção do luminoso céu da tarde. Cruzou sem problemas
pelo cinturão de barragem, disposto pelos druufs em torno de seu
mundo. Depois acelerou para a velocidade da luz, e desapareceu sem
deixar o menor vestígio, e sem produzir abalos no hiperespaço.
Materializou-se
no mesmo instante por trás de Hades.
*
* *
Lento e
desajeitado, Onot desembarcou do veículo, e encaminhou-se para a
parede rochosa. Jamais vira alguém naquela região, porém não
conseguia desvencilhar-se da sensação de estar sendo observado.
Desconhecendo o que fosse uma consciência pesada, era compreensível
que deixasse de identificar os sintomas correspondentes.
Sob a
pressão de sua mão, uma placa de rocha deslizou para o lado a porta
de entrada camuflada. Degraus conduziam para baixo.
Tateando
no escuro, Onot encontrou o computador e acendeu as luzes.
Imediatamente os degraus começaram a rodar, poupando-lhe o trabalho
de descer pelos próprios pés. Às suas costas, a porta fechou-se
automaticamente.
“Belo
esconderijo”,
louvou Ellert, com uma ponta de zombaria. “Aqui
ninguém poderá achá-lo, principalmente a polícia do Conselho.”
Onot
empalideceu.
— Se for
preciso, juro que você me obrigou a ligar o transmissor.
“Estou
extremamente curioso por saber se alguém acreditaria no tal espírito
invisível”,
replicou Ellert.
Onot não
respondeu, remoendo sua amargura. Era o primeiro a reconhecer que
seus protestos não mereceriam o menor crédito. Logo ele, o eminente
cientista, ocasionar a destruição da central de cálculos? Não
existia desculpa para tal atitude. Realmente não!
— Estou
em suas mãos — confessou ele, deprimido. — Que mais quer?
“Algumas
miudezas aproveitáveis, meu caro. A propulsão mais rápida do que a
luz para espaçonaves, o gerador do campo de congelamento de
tempo...”
— Para
quê? Acha que ainda não traí suficientemente minha raça?
“Não
confunda as coisas, Onot”,
respondeu Ellert. “Já
esqueceu que ajudei a desenvolver o campo de tempo? Sei como é
gerado, porém necessito de instruções detalhadas numa fita
audiovisual, de preferência em micro formato. Da mesma forma, quero
em microfita os planos de construção da propulsão estelar. Só
depois de me fornecer ambas, estará livre de mim. Então poderá
fazer e deixar de fazer o que bem entender.”
— E o
que me resta? — gemeu Onot, na maior consternação. — Você
causou minha perdição.
Ellert
hesitou ligeiramente, e depois afirmou:
“Talvez
não, Onot. Caso não crie dificuldades, e faça tudo que exijo,
provarei facilmente sua inocência perante o Conselho.”
— Como?
“Dizendo
que o forcei. Posso comunicar-me com eles da mesma maneira pela qual
falo com você. Isso os convencerá. Então poderá voltar para a
cidade, se esta ainda existir.”
Onot
suspirou de alívio e readquiriu o ânimo.
— Está
bem, farei tudo que pede. Uma segunda porta vedava a passagem no
corredor. Abriu-se como a primeira, por imposição da mão em
determinado ponto.
Onot se
instalara efetivamente com grande conforto. Seu refúgio habitual
quando queria meditar sobre os mistérios das leis naturais, ou
procurar novos caminhos. Ellert conhecia o laboratório, pois Onot
passara bastante tempo nele durante os últimos meses. E fora ali que
desenvolvera o congelador de tempo.
O olhar de
Ellert — através da visão de Onot — caiu sobre o pequeno modelo
experimental num canto do laboratório. Com a central de cálculos
destruída, aquele era agora o único exemplar existente. Montado
sobre um pedestal, o modelo era pouco maior do que um caixote de
maçãs. Claro que faltava a ligação de força, e o aparelhamento
correspondente.
“Existem
microfitas aqui?”,
indagou.
— Não,
para quê? — replicou Onot.
“Facilitariam
nossa tarefa. Como pretende fornecer-me os planos de construção da
propulsão estelar se não temos microfitas?”
Onot ficou
sem resposta. “Conhece
este tipo de propulsão, não é?”,
certificou-se Ellert.
— Claro
que conheço, apesar de não ser invenção minha. Posso explicar-lhe
detalhadamente...
“Não
é isso que importa. Quero tudo documentado, com desenhos e fórmulas
detalhadas. Nem mesmo assombração pode guardar na memória todos os
dados necessários para fabricar propulsores estelares. Portanto,
precisamos arranjar microfitas. Tem alguma sugestão?”
Onot não
tinha nenhuma, apesar de mostrar-se subitamente muito interessado em
ajudar seu intimidante companheiro. E só fitas não resolveriam o
problema; precisariam igualmente do aparelhamento técnico exigido:
fotografometros, duplicadores, projetores... Nem de longe era tão
simples quanto Ellert imaginava.
“Ora,
daremos um jeito, Onot. Por enquanto, sente-se um pouco, descanse, e
converse à vontade sobre o princípio em que se baseia o vôo linear
mais veloz do que a luz. Talvez já me sirva para alguma coisa...”
Sem opor
resistência, Onot começou a revelar os segredos de seu povo.
*
* *
O cruzador
ligeiro Califórnia era igualmente uma esfera espacial, porém seu
diâmetro não ultrapassava cem metros, e possuía incrível
capacidade de aceleração. A nave alcançava em cinco minutos a
velocidade da luz. Campos antigravitacionais de inimaginável
potência neutralizavam qualquer compressão.
O Capitão
Rous deu as derradeiras ordens para a decolagem, e a Califórnia
disparou do hangar subterrâneo para o negro céu de Hades.
De pé, ao
lado de Atlan, Rhodan presenciou a aproximação de uma formação de
naves do robô regente. Mandou atacá-las imediatamente. Algumas
unidades dos druufs postadas nas proximidades tornaram-se testemunhas
do incidente. Rhodan sabia que se defrontavam apenas com naves-robôs,
cuja destruição acarretaria unicamente perdas materiais.
Quase
simultaneamente com o ataque-surpresa, o regente de Árcon recebia
uma curta e concisa mensagem hiper-radiofônica, dizendo que tudo
corria de acordo com os planos. No entanto, Rhodan se veria obrigado
a destruir mais algumas naves arcônidas, porém providenciaria para
que nenhuma vida humana fosse sacrificada.
Os dez
cruzadores menores do regente reagiram desesperadamente, porém
sucumbiram diante das armas da Califórnia. Os druufs não precisaram
intervir. Retransmitiram a mensagem de Rhodan para Druufon, onde ela
desencadeou surpresa, e ligeiras esperanças. Exatamente o que Rhodan
pretendia que ela fizesse.
A
Califórnia precipitou-se através da zona de descarga, realizou
verdadeiro vôo de patrulha, destruiu mais um observador teleguiado
de Árcon, e retornou ao Universo dos druufs. Avistaram uma
esquadrilha de bloqueio dos seres descendentes de insetos. Patrulhava
a “fenda”
de lado a lado, pouco abaixo da velocidade da luz. Unicamente as
curvas exigidas para manobrar mediam por vezes muitos milhões de
quilômetros.
O Capitão
Rous mandou emitir o sinal-código.
A
Califórnia teve trânsito livre.
Rhodan era
a calma personificada, quando disse a Atlan:
— Era
isto que eu queria saber, almirante. Você irá para Fera Cinzenta,
na Drusus, a fim de trazer reforços. Não nos limitaremos a
estabelecer uma base fortificada em Hades; escavaremos também outros
planetas. Os druufs vão ficar sabendo que força bruta e blefe não
levam a nada. E quando Ellert nos trouxer a propulsão estelar,
atacaremos em conjunto com Árcon. Sente-se mais tranqüilo agora?
— No que
se refere a Árcon, sim. Mas acredita seriamente que os druufs jamais
suspeitem de nossas intenções? Afinal, não podemos nos instalar em
todos os seus planetas, sem que eles percebam. Algum dia acabarão
descobrindo.
— Tenho
minhas dúvidas a este respeito — discordou Rhodan. — Enquanto
lhes faltarem recursos para romper nossas barreiras de absorção, é
totalmente impossível que dêem por nossa presença.
Atlan não
respondeu. Manteve-se calado até a Califórnia desaparecer no hangar
de Hades.
Rhodan
deixou a nave, e foi procurar Potkin.
— Vou
para a superfície agora, tenente. Durante minha ausência, as ordens
dadas por Bell deverão ser acatadas como se fossem dadas por mim!
Certamente posso tomar emprestado um traje espacial em seu estoque,
não?
— Que
pretende fazer, Sir?
— Nada
de mais, Potkin! Uma pequena excursão, apenas...
— Mas
sozinho? Posso destacar alguns homens escolhidos para...
Rhodan
recusou.
— Quem
diz que vou sozinho? Não se preocupe, um bom amigo irá
acompanhar-me.
— Gucky?
— Não —
disse Rhodan, sorrindo, enquanto enfiava a mão direita no bolso da
túnica. — Harno!
*
* *
Onot
largou o estilete com o qual traçava complexas fórmulas e desenhos
numa lâmina plástica. Suspirou.
— Muito
mais difícil do que havia imaginado. Mas talvez você compreenda
pelo menos o princípio básico.
Para um
observador imparcial, a situação apresentava aspecto quase
fantasmagórico. Sentado, em total isolamento, diante de uma mesa no
laboratório, o druuf manuseava toda a sorte de aparelhos e
instrumentos. Quando falava, olhava para cima, como que dirigindo-se
a algum suposto interlocutor. Depois parecia dar ouvidos a uma voz
íntima, e apresentava novas respostas. Como se Onot tivesse
enlouquecido, entregando-se a longos monólogos.
“O
princípio em si é simples”,
disse Ellert. “Mas
não é suficiente para suprir os especificados planos de construção.
Necessitamos de um sistema de microgravação. Talvez isso nos
obrigue a voltar mais uma vez para a central de cálculos.”
— Mas...
“Nada
de preocupações, irei só, deixando você aqui. Caso ainda encontre
algo de pé por lá, incorporo-me em outro druuf, e faço-o trazer o
material para cá. A seguir, ele esquecerá tudo, como se jamais
tivesse acontecido.”
Onot
recostou-se de repente em seu assento.
— Que
foi isso?
Ellert já
o havia percebido anteriormente, mas rejeitou a intromissão. Algum
dos habituais impulsos mentais, tão abundantes em toda a parte...
Porém de repente conseguiu ordenar e identificar o impulso.
Mas era
Perry Rhodan...!
O impulso
era intenso e próximo.
Ellert
isolou Onot, fazendo sua mente adormecer. Agora podia dispor
inteiramente do corpo, e comandar os centros nervosos, sem que o
druuf tomasse consciência do que fazia. Onot agora era Ellert.
Levantou-se,
e saiu pela porta que o levaria à superfície. Já não receava uma
armadilha. A poucos metros dele, banhado pelo sol poente, via-se um
vulto...
Vestia um
traje espacial, com o capacete desatarraxado balançando solto.
Rhodan, sem a menor dúvida...
Junto a
ele, um delgado cilindro metálico, com dez metros de comprimento, e
aproximadamente três de diâmetro. A diminuta escotilha parecia
permitir apenas a passagem de um homem.
Uma
mini-espaçonave!
Ellert-Onot
correu em direção de Rhodan, estendendo-lhe a grotesca manzorra de
druuf.
— Bem-vindo,
Perry... posso chamá-lo de Perry?
Era a
primeira vez que Ellert e Rhodan se reencontravam pessoalmente,
apesar de o mutante não ocupar seu verdadeiro corpo.
— Chamava-me
assim quando era um espírito invisível — disse Rhodan. — Por
que não agora, que ocupa o corpo de um druuf? Não está surpreso
por ver-me aqui?
— Mas
claro!
Os lábios
de Onot se moviam, como se os sons viessem deles. Rhodan não poderia
afirmar se Ellert enviava mensagens telepáticas, ou se pronunciava
realmente palavras.
— Senti
de repente você me chamando. Como foi que me encontrou? Ninguém
sabia que eu estava aqui.
— Harno
me ajudou — replicou Rhodan.
— Harno?
— Logo
ficará familiarizado com Harno, e parece-me que vocês dois têm
muito em comum. Mas primeiro, quero fazer-lhe uma pergunta: pode
finalmente deixar Druufon?
Onot
sacudiu a cabeça.
— Só
depois de obter os planos da propulsão estelar. Não é tão
simples, apesar de eu ter entendido o princípio. Necessito da micro
documentação, para ser utilizada na Terra. Onot vai arranjar as
microfitas.
— Posso
ajudá-lo nisso?
— Não,
pois só nos serve material druuf. Esperemos que não chegue tarde
demais.
— E
quanto ao campo de tempo?
— Refere-se
ao congelador de tempo? Também para ele me faltam os planos exatos,
o que no entanto é menos grave. Primeiro, porque ajudei a inventar o
aparelho; além disso, há um pequeno modelo experimental aí no
laboratório. Vou tentar levá-lo, posteriormente.
— Ora,
não acha mais simples deixá-lo diretamente em minhas mãos?
Onot fez
um gesto que poderia ser interpretado como surpresa. E Rhodan
acreditou perceber na voz de Ellert um tom pesaroso.
— Como
é que não pensei nisso antes? Mas naturalmente! Já que veio para
cá numa espaçonave, é só colocar o modelo a bordo, e você o
leva. Seus cientistas saberão extrair alguma utilidade dele. O resto
eu lhes explico mais tarde. Precisam apenas acautelar-se para não
irem parar inadvertidamente no campo de tempo projetado no decorrer
das experiências. No entanto, não correrão graves riscos se
desligarem logo o aparelho.
Rhodan
concordou.
— Pois
bem. Pode trazer o modelo até aqui, ou é pesado demais?
O druuf
repuxou a boca, e Rhodan adivinhou que Ellert fazia um arremedo
visual de sorriso.
— Pesado?
Ora, você nem imagina que força tem um druuf!
Onot
dirigiu-se para a entrada do laboratório subterrâneo; voltou-se da
porta, e sorriu para Rhodan. Lançou mais um olhar de admiração
para a pequena nave espacial, e desapareceu no vão escuro.
Rhodan
sorria também, um sorriso muito significativo.
Depois
estremeceu repentinamente...
Alguns
pontos surgiam no horizonte, aproximando-se velozmente. Uma
esquadrilha de ágeis caças, em vôo de patrulha. Que fariam ali na
região montanhosa? Mero acaso, talvez...
Por outro
lado, podia não ser...
Num salto,
Rhodan precipitou-se através da apertada escotilha para dentro da
nave. Ela tornou a fechar-se ainda antes dele se instalar no assento.
Quando os três caças druufs alcançaram o local, Rhodan já voava
muito acima deles.
Compreendendo
num relance, eles mudaram de curso. No entanto, por mais velozes que
fossem, jamais poderiam competir com um bote salva-vidas da frota
terrana. Ficaram irremediavelmente para trás.
Rhodan
reduziu a velocidade, permitindo que os adversários se aproximassem.
As montanhas com o laboratório de Onot estavam a boa distância
agora. Diante deles apareceu o oceano.
O ecolote
— aparelho em impecável estado de funcionamento — acusou uma
profundidade de quinhentos metros.
Aproximando-se,
os três caças abriram fogo por todas as bocas. Os incandescentes
raios energéticos deslizavam pelos anteparos protetores do bote
salva-vidas. Pouco depois, porém, a pequena nave começou a
balançar, perdeu velocidade, oscilou, e precipitou-se no oceano.
Mergulhou de frente, depois de uma última tentativa de
estabilizar-se.
Os druufs
observaram atentamente os arredores, porém nenhum sobrevivente
emergiu da agitadas ondas do mar. Satisfeitos, fizeram rugir os
propulsores, e desapareceram na direção da terra firme.
Rhodan
percorrera, entrementes, extenso trecho por baixo da água. Ainda bem
que suas naves espaciais podiam deslocar-se em qualquer meio, com
velocidade diferente, porém. Harno substituía, por ora, os
instrumentos necessários. Sua superfície esférica mostrou os três
druufs, que desistiram da busca e afastaram-se.
Rhodan
sorria de satisfação ao apontar para cima a quilha da nave, e
emergir do oceano como um raio metálico, sumindo segundos após no
Armamento colorido.
Quando
tornou a desembarcar junto da entrada do laboratório de Onot, com
Harno novamente guardado no bolso, o breve incidente já estava quase
esquecido.
Ellert-Onot
ainda não estava de volta, mas não devia demorar.
Despistara
habilmente os druufs. Na certa o haviam tomado por algum espião da
frota-robô, agora devidamente abatido. Pois bem, que continuassem
pensando assim!
“Por
que Ellert tarda tanto...?”,
pensou, indagando-se.
No mesmo
instante, pressentiu a aproximação do mutante. Onot evidentemente
realizava tremendo esforço, pois Ellert estimulava-o constantemente
a não desistir.
Depois
Onot surgiu na abertura da porta. Carregava nos poderosos braços um
bloco metálico, que largou imediatamente no chão.
Rhodan
examinou com ar interessado o bloco, enquanto Ellert dizia:
— Trata-se
do primeiro modelo experimental do congelador de tempo. Mande levá-lo
para a Terra, Perry. Estou certo de que os cientistas terrestres
saberão como levar adiante as experiências, enquanto eu não
regressar.
— Obrigado
— limitou-se a dizer Rhodan. — Acha que nós dois seremos capazes
de colocá-lo a bordo sem ajuda?
— Que
nada, deixa isso comigo!
— disse Ellert, levantando novamente o volume. Com visível
esforço, empurrou-o através da escotilha aberta, ajeitando-o com
mais alguns movimentos. — Vai
ter que encolher-se um pouco durante a viagem de volta, mas como a
nave parece ser bastante veloz, o vôo será curto.
— Sem
dúvida — confirmou Rhodan. Vou decolar, e providenciar a remessa
imediata do modelo à Terra.
— Cuidarei
da propulsão estelar
— prometeu Ellert. — Irei
ainda hoje à central de cálculos debaixo da cidade, a fim de trazer
o material para as micro gravações. Talvez o encontre até na
própria cidade.
— De
todo o coração lhe desejo boa sorte, disse Rhodan, apertando a mão
do druuf. — Em caso de necessidade, se não puder separar-se de seu
amigo Onot, venha para a Terra no corpo dele. Não nos fará
diferença. Dará notícias?
— Claro,
Perry. Quanto ao que disse sobre Onot, vou considerar a
possibilidade. De alguma forma, sinto pena do coitado.
A porta
para o subterrâneo só tornou a abrir-se muito tempo depois de
Rhodan ter sumido com sua mininave nas nuvens multicoloridas.
Onot
lançava duas sombras distintas, sem dar atenção ao fenômeno...
Vagarosamente
tornou a descer para seu refúgio rochoso.
*
* *
A
tempestade que açoitava a zona crepuscular de Hades amainara um
pouco. No horizonte boiava a imagem rubro-verde do sol gêmeo, um
gigante fulgurante e fantasmagórico. A atmosfera rala fazia o céu
parecer escuro, apesar do brilho dos sóis. Simultaneamente, algumas
estrelas maiores cintilavam no Armamento.
Nas
proximidades existia uma extensa cordilheira, que oferecia alguma
proteção contra o temporal. Os cumes mais elevados rebrilhavam em
tons branco-avermelhados. Atmosfera congelada, sem dúvida. Muito
além ficava a gélida face noturna do planeta.
Profundas
fendas e valas rasgavam a superfície rochosa. Não havia qualquer
espécie de vegetação. Nas profundezas dos íngremes vales, onde
jamais chegava um raio de sol, havia poças geladas. Hades era um
mundo onde só se conseguia sobreviver, graças aos artifícios
tecnológicos. Sem traje espacial, a permanência era possível
apenas na faixa crepuscular, e isso por meia hora, no máximo. O ar
era rarefeito, mas respirável por quem não se submetesse a esforços
físicos...
Junto a
uma fenda, algo se moveu repentinamente...
O solo
rochoso abriu-se; dele emergiu uma placa, trazendo dois seres vivos!
Bell e
Gucky usavam trajes espaciais aquecidos, de feitio bem diverso. O
pequeno rato-castor fazia figura bem pitoresca no seu; no entanto,
sentia imenso orgulho por vestir uma confecção sob medida. Bell
contentara-se com um modelo convencional.
A placa
parou, e os dois encetaram a caminhada pelo planeta infernal, com os
rádios dos capacetes ligados.
— Droga
de elevador — resmungou Bell, aborrecido, referindo-se à placa. —
Incômodo e antiquado. Quem me dera um elevador antigravitacional!
— Não
se pode ter tudo — replicou a voz clara de Gucky. — Já me dou
por satisfeito por não ter tido que fazer a escalada a pé.
Olhando em
torno, continuou:
— Puxa,
onde se terá metido Perry? O Tenente Potkin disse que ele também
usou o elevador.
— E este
é o único existente — comentou Bell, olhando interessado o duplo
sol colorido. — Talvez tenha simplesmente ido dar um passeio, e
basta procurá-lo.
— Procurá-lo?
Está bem, vá por aquele lado!
Coisa mais
fácil de dizer do que de fazer.
Havia mil
possibilidades de esconder-se na paisagem dilacerada. Além das
inúmeras fendas no solo, existiam blocos de rocha espalhados por
toda a parte, morros escarpados, vales estreitos e fundos. Realmente,
não se saberia por onde começar a busca.
— Aliás,
ele deveria até ouvir-nos enquanto conversamos — lembrou Bell. —
Pois o traje espacial dele tem capacete idêntico aos nossos.
Mudando de
tom, chamou:
— Alô,
Perry! Por que não responde? Está querendo brincar de esconder?
— Não
deu um pio acerca do que pretendia fazer aqui fora — disse Gucky,
aborrecido. — Geralmente me traz junto...
— Talvez
quisesse se livrar de um chato, para variar — interrompeu Bell,
sarcasticamente.
A reação
de Gucky foi violenta:
— Cale a
boca, ou vai ver uma coisa!
Bell achou
melhor silenciar. Afinal, não sentia a menor vontade de ficar à
mercê do rato-castor naquele planeta inóspito. Seu olhar correu
pela paisagem pouco atraente; depois, por puro acaso, subiu pelos
picos escarpados, detendo-se por fim no céu, que, agora, estava
negro-violeta.
Seria
alguma estrela?
Adivinhando
a pergunta de Bell, Gucky olhou igualmente para cima.
Uma
minúscula estrela cadente riscava o céu, aproximando-se da
superfície. Lenta demais para uma estrela, mas para uma...
— Uma
nave! — exclamou Bell. — Por todas as mulheres de Marte, uma
nave! Não das nossas, certamente...
— Faça-me
o favor de deixar as mulheres fora da conversa! — reclamou Gucky,
energicamente. — Mas tem razão quanto à nave. Não trouxemos
nenhuma deste formato. Muito pequena...
— Parece
com os caças espaciais, mas é menor — observou Bell. — Espero
que não se trate de um druuf.
— Aqueles
hipopótamos jamais caberiam nela — afirmou o rato-castor,
protegendo-se por trás de um bloco de pedra, pois a pequena nave se
aproximava velozmente.
Tudo
indicava que pretendia pousar justamente ao lado da entrada para a
base subterrânea.
— Mexa-se,
homem, senão aquele cara, seja ele quem for, transforma você em
nuvem energética!
Bell
lançou-se ao solo, arrastando-se para o esconderijo, onde estava
Gucky.
— Acha
mesmo? — perguntou, esbaforido.
Gucky
lançou-lhe um olhar de escárnio.
— Bem
que valeria a pena.. — caçoou, espiando por cima da borda da
rocha.
Constatou
horrorizado que a nave já aterrissara.
E depois,
ao sentir os impulsos mentais invadir-lhe o cérebro, começou a rir
como uma criança. Levantou e começou a andar tranqüilamente para
fora do esconderijo.
— Gucky!
— gritou Bell, apavorado. — Abaixe-se, homem! Ficou doido?
— Felizmente
não sou homem — protestou Gucky, evidentemente ofendido com a
comparação.
Balouçando,
aproximou-se da escotilha, nitidamente delineada no lusco-fusco;
postou-se diante dela, em atitude de espera.
— Pode
vir sem susto, medroso — gritou para Bell, esquecendo que fora o
primeiro a procurar cobertura. — É apenas Perry.
Porém
Bell tinha amor à vida. Contemplava, trêmulo, o rato-castor, e a
nave desconhecida, completamente estranha para ele. De onde Rhodan a
teria tirado? Teria sido encontrada em Hades, por acaso?
A
escotilha abriu-se.
Ao
desembarcar, Rhodan deu imediatamente com o rato-castor, que lhe
acenava alegremente.
— Ah...
você! Como veio parar aqui?
— Pelo
elevador — explicou Gucky, singelamente. — Muito mais me
interessa saber como é que você veio para cá...
— Nesta
nave! — replicou Rhodan, saltando ligeiro para o chão pedregoso,
graças à gravidade pouco intensa. — Ótimo estar aqui. Pode
ajudar-me?
— Conte
comigo!
— Trouxe
um caixote na nave. Quer tirá-lo para mim?
— Trabalho
braçal? — Gucky sacudiu-se todo. — Não, tenho uma idéia
melhor.
Voltando-se,
gritou na direção do bloco de rocha:
— Bell!
Estão chamando por você, o homem forte!
Reconhecendo
Rhodan, Bell erguera-se. Estremeceu ao ouvir as palavras de Gucky, e
acercou-se de ambos sem uma palavra.
— Um
caixote? Muito interessante! E o que tem dentro dele?
— Arraste-o
para fora, e saberá — caçoou Gucky.
Rhodan fez
um enérgico gesto com a mão.
— Como
é, não vão ajudar, seus brigões? O volume pesa algumas
toneladas... pelo menos é o que pesaria na Terra. Aqui nossa tarefa
é mais leve.
Tornou a
embarcar, dizendo:
— Que
esperam?
— Tipo
esquisito de aeronave — comentou Bell, aprontando-se para seguir
Rhodan: — Nunca vi igual. Mais parece fruto da imaginação...
Apesar disso, as formas aerodinâmicas são aceitáveis.
Já dentro
da nave, Bell arregalou os olhos ao ver o lustroso bloco de metal.
— É
isso que devemos levar para fora?
— Já
falei que as condições gravitacionais aqui valem um terço —
replicou Rhodan, pacientemente. — Conseguiremos facilmente, mesmo
sem a ajuda de Gucky.
— Aquele
sujeitinho sempre se esquiva do trabalho — disse Bell. — Bem que
poderia resolver o caso usando a telecinese.
— Depois
ele fará isso. Primeiro gostaria de ver o caixote fora da nave.
Realizaram
a tarefa em poucos minutos. Quando o brilhante bloco metálico já
havia sido depositado sobre a rude superfície do planeta, também
Gucky se aproximou. Contemplando-o pensativo, disse:
— Percebo
que blinda seus pensamentos, Perry. Mais um segredo vedado para
nós... Pois bem, seja. Mas diga-nos ao menos o que há neste caixote
metálico!
— Um
modelo do congelador de tempo — disse Rhodan, calmamente. — Fui
buscá-lo no laboratório de Onot.
— E ele
entregou a maravilha? — perguntou Gucky, espantado.
— Bem,
na realidade foi Ellert — explicou Rhodan. — E agora faça o
favor de transportar imediatamente o modelo para a Drusus. Caso esta
não se encontre aqui, leve-o para a central do Capitão Rous. Bell e
eu seguiremos atrás.
Bell
desviou os olhos do modelo.
— Respondeu
a uma pergunta de Gucky — constatou ele, um tanto ofendido. —
Teria a amabilidade de satisfazer igualmente minha curiosidade?
— Como
fala empolado, o gorducho — troçou Gucky, instalando-se sobre o
modelo do congelador de tempo, a fim de estabelecer o contato
corporal necessário à teleportação. — Por que não o deixa
espernear um pouco?
Rhodan
sorriu significativamente.
— Não
seria preferível saber primeiro o que é que ele queria perguntar?
Vamos, Bell, fale!
Bell
inspirou profundamente.
— De
onde tirou aquela nave? Conforme vejo, é um modelo totalmente
desconhecido para mim, e jamais encontrei tipo semelhante. Não foi
em Hades que a encontrou, não é?
— Claro
que não! — disse Rhodan, voltando-se para o rato-castor. — Só
falta você afirmar que nunca em sua vida viu nave tão pequena!
— Não
vi mesmo — confirmou Gucky, parecendo hesitar de repente. — Não
que eu me lembre...
Rhodan
caiu na gargalhada.
— Ora,
vejam! E eu imaginando que cada um de vocês conhecesse de cor e
salteado todos os tipos de nossas naves, sabendo distinguir uma da
outra, e agora passo por esta decepção! Será possível? Sabem o
que é isto aqui? — apontou para o cilindro metálico de dez metros
de comprimento. — É um bote salva-vidas da Drusus. Quase todos
nossos cruzadores maiores dispõem desta espécie de botes, capazes
de alcançar a velocidade da luz, e acomodar uma porção de gente.
Mas nenhum de vocês jamais se viu na necessidade de ter de usar um
bote salva-vidas; portanto, dá para compreender a ignorância dos
dois. Apesar disso...
Gucky
fungou, furioso, fez um gesto vago na direção da pequena nave,
preparou-se para dizer alguma coisa, mas desistiu. Depois
teleportou-se.
O modelo
do congelador de tempo também dissolveu-se no ar.
Bell
suspirou, aliviado.
— Boa
lição deu a este malandro — comentou ele, dando mostras de querer
esquecer o mais depressa possível o penoso incidente. — Claro que
eu conhecia os botes salva-vidas, porém minha memória pregou-me uma
peça...
Bell
recusava-se aceitar a verdade, por achar mais agradável a versão
fantasiosa.
“Achar
uma nave espacial de procedência misteriosa num planeta
desabitado... isso sim é que era aventura!”,
pensou um tanto desapontado.
— Pois
é, de tecnologia o rato-castor não entende mesmo nada! —
concluiu, tentando encobrir seu erro.
Rhodan
sacudiu a cabeça, resolvendo esquecer o caso. Encaminhou-se para a
placa do elevador, e postou-se sobre ela.
— Ande
depressa, caso não queira pernoitar aí. E as noites aqui duram um
bocado de tempo, mais ou menos uma eternidade. Pois, devido à
posição do sol, a noite aqui é constante.
Com alguns
passos, Bell estava ao lado de Rhodan.
Lentamente
a placa desceu para o interior da base. Acima deles, a abertura se
fechou novamente.
Bell
estava calado.
— Pois é
— disse Rhodan, ao tomarem o corredor iluminado na base. —
Parece-me ser a única. De vez em quando é preciso recordar um
pouco.
— Recordar?
— perguntou Bell, intrigado, arrependido por ter ido espionar com
Gucky na superfície. — O que quer dizer?
— Recordar
os conhecimentos, meu caro. A partir desta noite, tempo de Hades,
iniciaremos cursos dos quais participarão obrigatoriamente todos os
oficiais e praças da base. Aproveitamento das horas de lazer,
digamos. E você dará a primeira aula.
— Eu,
dar aula?
Rhodan
acenou.
— Exatamente!
O assunto desta noite: conformação externa dos diversos tipos de
espaçonaves terranas, a começar pelos botes salva-vidas. Creio que
a repetição do assunto será útil para determinadas pessoas. Que
acha?
Bell
sorriu, contrafeito.
— Prometo
nunca mais pensar coisa alguma, a partir de hoje; isto é, caso possa
evitar. Pois bem, hoje à noite. Espero que Gucky também compareça.
— Pode
contar com isso! — prometeu Rhodan, tomando o primeiro corredor
lateral.
Bell
seguiu-o com um olhar preocupado.
Em algum
canto de seu armário, devia existir ainda um manual. Pois
simplesmente de memória...
Suspirou.
Não,
pessoa alguma conseguiria guardar na memória todos aqueles detalhes!
*
* *
*
*
*
Ellert,
o mutante desaparecido, transmitiu a Rhodan valiosos conhecimentos.
Porém
de que valiam para Perry Rhodan todos esses conhecimentos, se Thora,
sua mulher, está prestes a iniciar seu sacrifício?
Em O
Sacrifício de Thora,
título do próximo volume, será narrada uma história de grandeza
humana incomensurável, comovente.

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