terça-feira, 2 de abril de 2013

P-065 - Um Sopro de Eternidade - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e
GANDALF01



Revisão
ARLINDO_SAN


Desta vez foi Gucky quem foi abraçado —
e quase foi viver no futuro.


Cinqüenta e sete anos se passaram, desde a pretensa destruição da Terra!
Rhodan tornou-se aliado do robô regente de Árcon, pois uma ameaça da proporções incalculáveis ocorreu na Via Láctea: os invisíveis...
Perry, através de uma sofisticada aparelhagem, já está ciente do local do próximo ataque desse inimigo sem dimensões. Trata se do segundo planeta do sol Morag: Tats-Tor.
O administrador do Império Solar envia uma expedição àquele estranho mundo. O Tenente Rous, comandante desta expedição, usando o GCR, invade o universo inimigo... Entretanto um contratempo naquele planeta sem tempo levou a expedição a tornar-se prisioneira do mundo de cristal.
E sete meses se passaram...
Perry não tem outra alternativa: teriam de penetrar pela janela do tempo, o mais rápido possível, pois a missão de Rous poderá perder-se, ou melhor, ficar na Eternidade...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellAmigo e representante de Perry Rhodan.

ErbQue recebeu um bom conselho de Gustavo VI.

Tenente Marcel RousChefe da expedição do tempo desaparecida.

GuckyO rato-castor que vê um “fantasma”.

Ras TschubaiUm dos teleportadores do Exército de Mutantes.

KruukhUm servo obediente.


1



A 7.132 anos-luz, Tats-Tor, segundo planeta do sistema, gravitava em torno do sol de Morag, Este mundo fora colonizado há cinco milênios por arcônidas, que passaram a viver da exportação de valiosas matérias-primas e do comércio com os povos do Império Arcônida.
Mas a misteriosa frente temporal passou por Tats-Tor e causou o desaparecimento de toda vida orgânica, deixando para trás um mundo vazio, onde não havia mais nada que vivesse, muito embora as cidades estivessem intatas. Mas os homens, que por ali costumavam respirar, amar e lutar, não haviam deixado de existir. Encontravam-se em algum lugar, num plano temporal diferente.
Perry Rhodan teve seus motivos para pousar em Tats-Tor, pois foi daí que a expedição do tempo por ele planejada e chefiada pelo Tenente Marcel Rous partiu para desaparecer no nada.
Isso aconteceu em janeiro, há mais de sete meses.
No mês de janeiro do ano 2.041, mais precisamente.
E hoje, no dia 16 de julho, Perry Rhodan voltava pela terceira vez ao planeta Tats-Tor. Quando o mundo despovoado surgiu nas telas da nave Drusus, os pensamentos de Rhodan recuaram no tempo. Lembrou-se das primeiras duas visitas ao planeta, que não trouxeram nenhum resultado, nenhuma esperança para os desaparecidos...
Isto aconteceu no dia 13 de janeiro de 2.041.
Fazia dez dias que não havia o menor sinal da expedição do tempo. O Tenente Rous e seus cinco companheiros haviam atravessado a lente energética criada pelo gerador de campo de refração, penetrando no plano temporal estranho, no momento exato em que a área de superposição passava por Tats-Tor, tornando invisível tudo que tivesse vida.
Acontece que Marcel Rous não voltou conforme se previra.
Rhodan pousou em Tats-Tor com o supercouraçado Drusus, um veículo espacial esférico de um quilômetro e meio de comprimento, e depois de algumas buscas encontrou a gazela, em cujo interior fora instalado o gerador de campo de refração.
Esse aparelho genial permitia que um indivíduo penetrasse no outro plano temporal, no momento em que se verificasse a superposição, sem perder a própria dimensão temporal.
Em outras palavras: as condições existentes no outro plano existencial, que diferiam enormemente das condições normais, não exerciam a menor influência sobre um homem que nele penetrasse através da lente energética criada pelo gerador de campo de refração.
Um plano temporal estranho cruzava o Universo normal. Em todos os lugares em que ocorria uma interseção direta, a vida orgânica desaparecia por completo. Era um perigo mais temível que qualquer outro que tivesse existido, pois este estendia-se por toda a Via Láctea.
Rhodan e Reginald Bell, acompanhados por alguns mutantes, caminharam com uma sensação indefinida em direção à gazela solitária, abandonada em pleno deserto. Eram os únicos seres vivos que se encontravam naquele mundo; até os insetos e os vermes haviam deixado de existir. A frente do tempo arrastara tudo, deixando para trás apenas a matéria inorgânica e as plantas. Isso provava que existiam certas diferenças entre a fauna e a flora, e que as mesmas não deixavam de ser consideradas pelo plano temporal diferente do nosso.
Reginald Bell pigarreou discretamente e procurou disfarçar o nervosismo. Não queria que os outros percebessem que estava com medo.
Já faz dias que... bem, que desapareceram — disse com a voz embaraçada. — Se conseguiram penetrar no outro plano temporal pela fresta luminosa, por que não conseguem voltar?
Rhodan lançou-lhe um ligeiro olhar, enquanto prosseguia tranquilamente em sua caminhada.
Viemos para cá justamente com a finalidade de encontrar a resposta a essa pergunta, Bell. Tenho a Impressão de que as respostas possíveis se contam pelas centenas. Dependerá de nós encontrar a única resposta correta. Ali está a gazela!
Apontou para a nave de longo curso, formada por um disco de trinta metros de altura. Ainda se encontravam a duzentos metros da mesma.
Na sala de comando, estão os controles do gerador de campo de refração. Logo veremos o que lhes aconteceu. — completou.
O que poderia ter acontecido? — perguntou Bell com a voz insegura.
Sem olhá-lo, Rhodan respondeu:
Acho que não existe nada que não possa entrar em pane...
Durante o restante da caminhada Bell manteve um silêncio obstinado.
A escotilha externa estava aberta, motivo por que não tiveram a menor dificuldade em penetrar na pequena nave especial. Lá adiante, a menos de um quilômetro de distância, via-se o vulto ameaçador da Drusus. Se surgisse o menor sinal de perigo, a artilharia do gigante espacial seria acionada.
Mas nada aconteceu quando Perry Rhodan e seus companheiros entraram na comporta de ar e avançaram até a sala de comando da gazela.
E não demorou que obtivessem uma resposta inequívoca e nada satisfatória à pergunta que acabara de ser formulada.
Os pingos de metal endurecidos que viram no chão liso da sala de comando diziam bastante. Mas Rhodan não era um homem que se contentasse com pouca coisa. Tentou pessoalmente colocar o aparelho em funcionamento, mas não demorou em reconhecer que suas tentativas seriam inúteis.
O gerador de campo de retração da gazela estava totalmente inutilizado. As bobinas estavam queimadas e os fios derretidos. Era praticamente impossível fazer os reparos no local.
Pelo menos já sabemos o que aconteceu — disse Bell.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Isto não servirá de consolo para os membros da expedição desaparecida. Como poderemos tirá-los da prisão do tempo?
Vamos construir outro gerador — sugeriu um dos mutantes.
Isso mesmo — disse Rhodan com um aceno de cabeça. — É a única possibilidade, Mas para isso teremos de regressar à Terra. O Centro de Pesquisas de Terrânia é o único lugar em que o projeto poderá ser levado avante. Tomara que o Tenente Rous e seus homens não desanimem.
Bell lançou um olhar pensativo para as telas apagadas da gazela e disse:
Faço votos de que não percam muito tempo...
Rhodan sacudiu a cabeça.
Quem não deve perder tempo somos nós — disse e saiu imediatamente da pequena nave.
Sabia que aqui não poderiam fazer mais nada, e sua permanência representaria a perda de preciosas horas ou dias.
E foi assim que, dali a algumas semanas, Perry Rhodan voltou a pousar com a Drusus no planeta Tats-Tor. Desta vez, trazia um gerador de campo de refração de grande potência

* * *

Levaram um dia para montar o aparelho no deserto, ao lado da gazela. Os técnicos vindos da Terra estavam plenamente convencidos de que o engenho por eles criado não deixaria de funcionar. Rhodan e Bell faziam votos de que tivessem razão.
Os mesmos votos eram formulados por Gucky, que desta vez também pôde vir. O rato-castor caminhava atrás dos dois homens. Seu “rosto” estava muito sério e trazia as orelhas em pé. Apoiava-se na cauda larga. Nos olhos castanhos brilhava algo como uma dúvida. Mas, de resto, aquele animal extremamente inteligente não revelava seus sentimentos.
A rigor Gucky não era um animal. Era membro do Exército de Mutantes e dispunha de pelo menos três capacidades parapsicológicas; ainda não se tinha certeza se nele existiam capacidades latentes do mesmo tipo. De qualquer maneira, era telepata, telecineta e teleportador, falava perfeitamente várias línguas e possuiu uma inteligência que faria inveja a muitos homens.
Gucky caminhava ereto; nessa posição media pouco menos de um metro. Era uma mistura de rato e castor, mas seu comportamento era inteiramente humano, embora geralmente preferisse não usar qualquer vestimenta. Parecia que os pêlos cor de ferrugem lhe bastavam.
Rhodan parou junto aos técnicos, que haviam montado o aparelho bem ao lado da gazela. Os projetores apontavam na mesma direção para a qual antes se dirigiam os do aparelho inutilizado. Se não surgisse um imprevisto, o círculo luminoso que permitiria o ingresso no outro plano temporal deveria surgir assim que se ligasse o aparelho.
Já terminaram? — perguntou Rhodan ao engenheiro-chefe, apontando para o complicado aparelho. — Quando poderemos iniciar a experiência?
Assim que os condutores tenham sido ligados aos geradores da Drusus. O gerador de campo de refração precisa de um elevado volume de energia para criar o campo temporal.
Rhodan acenou com a cabeça e virou-se.
Irei pessoalmente. Gucky e os mutantes irão comigo. Bell ficara aqui e assumirá o comando se alguma coisa não der certo.
Se alguma coisa não der certo? — perguntou Gucky com sua voz aguda e chiante. — E depois?
É um risco que teremos de assumir — disse Rhodan em tom tranqüilo. — Foi o que fez o Tenente Rous... e está desaparecido. Acontece que já conhecemos a explicação do fato. Sem o gerador, o regresso do outro plano temporal está fechado. E este aparelho não falhará; nossos técnicos cuidarão disso. Poderemos regressar quando quisermos.
Voltou a dirigir-se aos homens da equipe científica.
Quanto tempo demorará?
Uma hora — respondeu um deles.

* * *

O sol Morag só caminhara um pequeno pedaço; ainda ia alto no céu. O deserto do planeta Tats-Tor, vermelho e sem vida, jazia sob seus raios escaldantes. Era um verdadeiro documento que atestava a ausência da vida no planeta atingido pela frente do tempo.
Rhodan ajeitou o radiador de impulsos que trazia no cinto e lançou mais um olhar para os companheiros. A seu lado, Gucky tremia de impaciência, mas Rhodan sentiu o medo que o desconhecido infundia no coração de seu pequeno amigo. Por mais valente que fosse o pequeno rato-castor, o plano temporal estranho era uma coisa que não compreendia muito bem, e por isso tinha medo.
Ficaremos lado a lado — disse Rhodan, colocando a mão sobre o ombro de Gucky. — Assim que passarmos pela fresta de luz, você deverá colocar-se em recepção telepática, para que possamos encontrar o quanto antes o Tenente Rous. John Marshall cuidará dos aparelhos de rádio. E eu cuidarei para que não sejamos surpreendidos por um eventual inimigo. Já sabemos que lá todos os acontecimentos se desenrolam num ritmo temporal setenta e duas mil vezes mais lento. Por isso não teremos de recear qualquer inimigo.
Fez um sinal para a equipe técnica.
Pronto, senhores.
Bell mantinha-se um tanto afastado e esforçou-se para aparentar indiferença. Em seu interior rugia a tempestade dos sentimentos mais diversos. Naturalmente sentia-se satisfeito por não ter de participar da experiência. Não temia um inimigo que pudesse enfrentar corpo a corpo, mas a penetração numa esfera de vida estranha e desconhecida era um ato de audácia que exigia mais que a simples coragem.
Apesar disso, gostaria de participar. A aventura exercia um encanto muito forte sobre ele.
Mas de outro lado...
Não conseguiu prosseguir em seus pensamentos contraditórios. Gucky, que era telepata, virou-se abruptamente e disse:
Você não sabe o que quer, gorducho — acontece que Bell não era gordo, apenas um tanto baixote.
Mas o rato-castor gostava de exagerar, desde que isso aborrecesse seu amigo do peito.
Às vezes, fica satisfeito porque outros terão de tirar a prosa do outro plano temporal, mas depois fica aborrecido por não poder estar presente enquanto nós estivermos queimando as cucas. Se você ficar bem bonzinho, eu lhe trarei um relógio de lá. Anda setenta e duas mil vezes mais devagar, motivo por que poderá controlar muito bem suas horas de folga.
Antes que Bell soubesse o que responder, o engenheiro-chefe ligou o suprimento de energia. Com um zumbido grave, foram surgindo os campos magnéticos, que serviriam para abrir uma fresta na barreira do tempo, Essa fresta se revelaria por um débil arco luminoso, que seria como a janela para entrarem na outra dimensão.
Mas nada disso aconteceu. Todas as peças da maquinaria firmemente ancorada ao solo começaram a vibrar, o zumbido tornou-se mais forte, mas não se via o menor sinal do arco luminoso.
O engenheiro lançou um olhar de espanto para os ponteiros trêmulos dos medidores e sacudiu a cabeça. Rhodan aproximou-se e, falando alto para superar o zumbido, perguntou:
O que houve? O campo magnético não está sendo levantado?
Está sendo levantado, sim — confirmou o engenheiro em tom de perplexidade, sem tirar os olhos dos ponteiros. — Não vejo o menor defeito. Tudo funciona segundo os planos. A esta hora a fresta luminosa já deveria ter aparecido. Não compreendo...
Naquele momento, há pouco mais de seis meses, ninguém compreendeu. De início a decepção foi arrasadora. Procuraram um defeito no gerador de campo luminoso, até que uma cabeça inteligente de Terrânia tivesse a idéia de procurá-lo em outro lugar.
Mais precisamente nas condições reinantes em Tats-Tor.
Fora um golpe duro para Rhodan, que já não poderia ter a menor dúvida de que a expedição do tempo comandada pelo Tenente Rous estava perdida para sempre.

* * *

Três meses depois do dia em que se desenrolaram estes acontecimentos, um homem chamado Erb — chefe da equipe física da divisão eletrônica — entrou no gabinete de Perry, situado muito acima das ruas de Terrânia.
Rhodan acabara de manter uma palestra com o administrador de Vênus e estava desligando o videofone. A tela apagou-se. Sem demonstrar maior interesse, pediu ao físico que se acomodasse do outro lado de sua mesa. Pensava se tratar de um relatório de rotina.
O que posso fazer pelo senhor? — disse, iniciando a palestra, embora seus pensamentos estivessem longe dali.
Os colonos de Vênus haviam solicitado maior autonomia administrativa, e não via nenhum motivo para deixar de conceder. Ainda acontecia...
Acho — disse Erb — que já descobri por que o gerador de campo de refração deixou de funcionar em Tats-Tor.
Rhodan estremeceu ligeiramente e esqueceu-se do planeta Vênus. Inclinou-se para a frente e fitou o tísico.
Tats-Tor! A expedição desaparecida! Já não tinha a menor esperança de poder fazer alguma coisa por Rous. Não desperte um falso otimismo em minha mente, Erb — fez um gesto de desprezo. — Tolice. Não ligue ao que estou dizendo, Erb. Diga o que descobriu. Qualquer detalhe é importante, desde que possa ser útil aos nossos homens.
O físico, uma criatura extremamente simpática, de cabelos grisalhos, respondeu com um sorriso embaraçado. Em seus olhos lia-se certa perplexidade, mas Rhodan conhecia seus homens. Erb era um de seus colaboradores mais competentes no terreno da física eletrônica.
Na verdade, quem encontrou a resposta não fui eu, mas Gustavo VI.
Gustavo VI? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
Isso mesmo. Foi o nome que demos ao computador positrônico de nossa seção. É claro que não tem a capacidade dos computadores instalados nas grandes naves, muito menos a do grande computador de Vênus, mas já nos prestou bons serviços. Resolvi introduzir em Gustavo VI todas as informações sobre o outro plano temporal que chegaram a meu conhecimento. Devo confessar que às vezes trabalhei na base de simples suposições. Depois de várias indagações as respostas começaram a adquirir forma. E alguns ensaios provaram que são corretas. É praticamente impossível que tenha havido um engano.
Rhodan esquecera todos os outros problemas que o preocupavam na qualidade de administrador do Império Solar. Depois de três meses de calma relativa voltara a defrontar-se com o fantasma — o fantasma do outro plano temporal que cruzava o Universo conhecido, trazendo a desgraça a todos os lugares em que os dois planos se cortavam.
Prossiga, Erb. Quais foram as respostas que o computador lhe deu?
O físico já não estava sorrindo. Seu rosto adquirira uma estranha dureza e rigidez. Os olhos fitavam Rhodan sem o menor sinal de embaraço.
De início indaguei se o gerador de campo de refração por nós construído funcionava perfeitamente, já que em Tats-Tor falhara de forma tão lamentável. Da resposta do computador depreende-se sem a menor sombra de dúvida que não cometemos qualquer erro e que o aparelho funciona perfeitamente. Face a isso, naquele dia também deveria ter trabalhado. Acontece que não funcionou! Portanto, devia haver algum erro.
Rhodan acenou com a cabeça, mas não interrompeu o físico, embora este fizesse uma pausa. Depois de alguns segundos, Erb prosseguiu:
Resolvi procurar o erro em outro lugar, e para isso recorri a Gustavo. Fornecida com um teor de probabilidade de noventa e sete por cento, a resposta diz que não existe qualquer erro.
Não houve nenhum erro? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — Explique-se melhor.
Bem, na verdade existe um erro, mas este é de natureza puramente teórica. O erro que cometemos foi o de supormos que, depois da superposição das duas dimensões temporais, as condições são idênticas às que se verificam enquanto o processo de superposição está em curso.
Rhodan fitou Erb. Seus olhos tremiam ligeiramente.
Faça o favor de repetir!
Erb repetiu. Depois manteve-se num silencio cheio de expectativa. Será que Rhodan chegaria à mesma conclusão que lhe foi fornecida dias atrás? Se fosse assim, a perfeição lógica do raciocínio estaria comprovada.
Rhodan falou devagar:
Quer dizer que teremos de construir um gerador de campo de refração que atenda à variação das condições? Seria um gerador que continue eficaz mesmo depois que a frente do tempo passar por um mundo...
Erb fez um gesto afirmativo.
Perfeitamente; o problema é este. Gustavo VI calculou que a transferência para o outro plano temporal só se torna possível durante a superposição, ou logo após a mesma. Mas se um tempo excessivamente longo tiver passado depois do processo de superposição, o gerador que possuímos não conseguirá penetrar no outro plano temporal. E ainda: é impossível penetrar no outro plano antes que tenha ocorrido a superposição.
Compreendo — disse Rhodan, acenando lentamente com a cabeça e levantando os olhos. — Acredita que seria possível construirmos um aparelho desse tipo?
Sim senhor; acredito. Basta introduzir certas modificações nos campos magnéticos superpostos, que produzem o campo temporal. Na essência, a coisa é muito simples; mas, se o senhor me pedisse que lhe explicasse, teria de entregar os pontos. Acho que compreende o que quero dizer...
Compreendo muito bem! — disse Rhodan com um sorriso, reclinando-se na poltrona. Quanto tempo levará para construir o novo gerador? Ou acredita que poderíamos usar o aparelho que já possuímos?
Acho que usar o mesmo GCR não seria conveniente. As modificações parecem fáceis, mas de fato não o são. Uma modificação do aparelho seria muito mais difícil que a construção de outro. Permita que lhe faça um pedido?
Está bem, Erb. O senhor poderá exercer quaisquer poderes e dispor dos recursos financeiros que se tornarem necessários. E não se esqueça que o que está em jogo não é apenas a vida de seis homens que penetraram em outro plano temporal, mas também a descoberta de uma arma capaz de enfrentar o terrível inimigo. As interseções dos dois planos existenciais estão ocorrendo nos pontos mais diversos do Universo. Já imaginou o que aconteceria se por algum acaso a Terra fosse atingida por uma dessas zonas?
Erb empalideceu, mas logo se levantou e disse em tom resoluto:
O senhor pode confiar em mim. Amanhã poderei apresentar-lhe os planos. A construção demorará alguns meses, mas o projeto será coroado de êxito.
Alguns meses? — repetiu Rhodan. — Isso é muito demorado.
O físico não contestou essa afirmativa, mas deu os motivos por que a construção não poderia ser mais rápida. Naquele instante, Rhodan teve a idéia que decidiria o destino da Via Láctea.
Preste atenção, Erb. Quero fazer mais uma pergunta: o tamanho do gerador de campo de refração exerce alguma influência sobre a segurança de seu funcionamento? Em outras palavras: Não há dúvida de que um gerador maior criará uma fresta mais ampla no plano luminoso; acho que sobre este ponto estamos de acordo. O que quero saber é o seguinte: Esse fator afetará o trabalho do aparelho, ou o senhor pode garantir a segurança do funcionamento, mesmo que o gerador seja maior?
O tamanho do gerador é indiferente.
Excelente! Nesse caso faça com que a abertura circular na barreira do tempo tenha diâmetro superior a cem metros.
Erb fitou Rhodan com uma expressão de pasmo.
Cem metros? Isso seria uma coisa enorme. Até agora as frestas luminosas nunca mediram mais que alguns metros...
É possível sob o ponto de vista tecnológico ou não é?
Não há dúvida. Todos os componentes teriam de ser reforçados. Apenas receio que o peso do aparelho seria tamanho que o transporte para Tats-Tor e sua montagem naquele planeta...
Um instante! — interrompeu Rhodan com um sorriso. — É bom que não haja qualquer mal-entendido. O novo gerador não será retirado da nave. Quero que seja colocado na Drusus e lá permaneça para sempre. Será um equipamento constante da nave, que poderá ser usado a qualquer hora e transportado a qualquer lugar. É possível nessas condições?
Erb começou a compreender quais eram as intenções de Rhodan. Fez um gesto afirmativo.
É possível, e mesmo assim não levarei mais que dois ou três meses. O senhor terá um gerador capaz de criar uma fresta de luz diante da Drusus, que lhe permitirá a qualquer momento enviar um cruzador ao outro plano existencial.
É exatamente o que pretendo fazer — disse Rhodan com a maior calma.

* * *

Rhodan continuava a fitar o planeta que ocupava o centro da tela. Seus pensamentos voltaram ao presente. Aquilo que tinha diante de si era Tats-Tor, um mundo despovoado pelos desconhecidos vindos de outro tempo. Se havia uma ligação entre tempo e espaço, a expedição do Tenente Rous ainda devia estar lá.
No coração da gigantesca Drusus, jazia o bloco enorme do novo gerador de campo de refração. Os respectivos controles haviam sido instalados na cúpula de observação. Dali se poderia olhar exatamente para dentro da janela luminosa de duzentos metros de diâmetro. Lá embaixo, no hangar, o cruzador leve Sambo estava preparado para ser retirado da nave. Seu diâmetro era de cem metros. Portanto, haveria uma distância de segurança de cem metros entre o envoltório da nave e os limites da fresta luminosa.
Erb e a equipe de pesquisas de Terrânia garantiam que o novo gerador seria capaz de romper a barreira para o outro plano temporal.
A Drusus continuou a desacelerar e dali a uma hora pousou junto à gazela que ainda se encontrava em Tats-Tor. Os suportes telescópicos penetraram profundamente no solo arenoso, até atingirem a rocha. Apesar disso, os campos antigravitacionais teriam de continuar ligados, pois, do contrário o peso imenso romperia a rocha e faria a nave penetrar na crosta do planeta.
Rhodan saiu da sala de comando e dirigiu-se à cúpula de observação. Bell, Baldur Sikermann, imediato da Drusus, e Erb já o aguardavam. Gucky mantinha-se quieto no seu canto; até parecia que nem estava presente. John Marshall, comandante do Exército de Mutantes, interrompeu a palestra que vinha mantendo com Sikermann e lançou um olhar de expectativa para Rhodan.
Chegou a hora — disse Rhodan com a voz embaraçada.
Esperava este momento por meses e removera todas as dúvidas sobre o êxito do empreendimento, mas agora, poucos minutos antes da decolagem, os receios surgiram em sua mente.
O que se pretendia fazer não era realizar um avanço no espaço, que já não infundia pavor à Humanidade. Desta vez, tratava-se de uma incursão pelo tempo. E Rhodan não pôde deixar de confessar que, mesmo para ele, o tempo continuava a ser um fator desconhecido.
Além de ser um fator desconhecido, era um fator perigoso.
O Primeiro-Tenente Sikermann ficou em posição de sentido.
A Sambo está pronta para decolar — anunciou — Toda a tripulação está à bordo, inclusive Atlan e Crest.
Também os mutantes de que podemos dispor — acrescentou Marshall — exceto eu e Gucky.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Bell assumirá o comando da Drusus e manterá todos os receptores constantemente em recepção. Mesmo os de hiper-rádio. Não acredito que seja possível estabelecer comunicação através da barreira do tempo, mas não podemos deixar de considerar qualquer chance de manter contato. Há outro detalhe.
Rhodan dirigiu-se a Bell e fitou-lhe os olhos.
Ninguém sabe quanto tempo se passará no plano normal enquanto a Sambo permanecer na dimensão estranha. Por isso é indispensável que a Drusus nos espere neste lugar, mesmo que a incursão dure semanas ou até meses. Entendido, Bell?
Entendido, Perry — respondeu Bell com uma voz extraordinariamente macia. — Esperaremos, aconteça o que acontecer. E o gerador de campo de refração permanecerá ligado.
Aliás — disse Erb em tom objetivo — trata-se antes de um gerador de campo de curvatura, pois o campo luminoso é fortemente curvado. De outra forma a penetração no outro plano temporal não será possível, a não ser no momento em que o mesmo entra em contato com o nosso. É uma pequena diferença, mas não deixa de ser importante, motivo por que temos de mencioná-la.
Rhodan fitou Erb; um sorriso surgiu em seus lábios.
Já que o senhor costuma ser tão meticuloso, não deveríamos ter o menor receio em confiar nossa vida ao seu aparelho, Mr. Erb.
Não é isso que me preocupa — respondeu o físico com a voz tranqüila. — O senhor pode confiar plenamente no novo gerador de campo de curvatura. O que me preocupa são as relações entre nosso Universo e o outro plano temporal. Até aqui o tempo era considerado a única constante existente no Universo. E hoje sabemos que nem mesmo o tempo é constante.
Concordo plenamente com o senhor. — disse Rhodan com a voz muito séria. — Todos sabemos que não podemos perder tempo. Mas é um risco que devemos assumir, a não ser que queiramos ser varridos um belo dia pelo outro plano temporal.
Olhou para o relógio.
Acho que poderemos dar início à experiência em cinco minutos.
Fitou a superfície sem vida do planeta. À sua direita encontrava-se a gazela abandonada, que trouxera o Tenente Rous há mais de sete meses. Os projetores do gerador de campo de curvatura estavam dirigidos para um ponto situado à esquerda e à frente da nave de reconhecimento. Este ponto poderia ser visto também de bordo da Sambo, que aguardava um seu hangar, pronta para decolar. As escotilhas já estavam abertas, motivo por que a Sambo poderia abandonar a qualquer momento o ventre gigantesco da Drusus.
Vamos embora — disse Perry.
Bell e Erb olharam-se. Estenderam a mão para Rhodan.
Boa sorte, Perry — disse Bell com a voz abafada. — Confie em nós.
O senhor voltará — disse Erb e passou a dedicar a sua atenção aos controles do aparelho do qual dependia o destino de todos.
Obrigado — respondeu Rhodan e fez um gesto para Sikermann, Marshall e Gucky.
Depois saiu a passo firme da sala de observação e dirigiu-se ao corredor. Marshall seguiu-o. Sikermann saiu por último.
Gucky escorregou devagar do sofá para o chão, caminhou lentamente em direção a Bell e segurou-lhe a mão.
Tomara que não demore demais até que nos reencontremos — disse com a voz comovida, ao mesmo tempo que fazia um gesto para Erb. — Não sei se no outro plano temporal as cenouras são tão gostosas como a bordo da Drusus. Mas garanto que as cenouras não são a única coisa que me fará ansiar pelo regresso à Drusus. Você também está incluído entre essas coisas.
Por estranho que possa parecer, Bell permaneceu sério e pacato.
Cuide bem do chefe, Gucky — pediu e bateu suavemente no ombro de seu amigo peludo. — Fique sempre perto dele e proteja-o. Acho que nunca senti tanto ao vê-lo partir como desta vez. Não se deve acreditar em pressentimentos, mas...
Não se deve mesmo! — concordou o rato-castor e estendeu a mão para Erb. — Tomara que essa sua caixa de curvatura realmente funcione!
Gucky tratava todo mundo por você, fosse qual fosse o nome ou a graduação. E ninguém levava isso a mal, já que o rato-castor gozava de certos privilégios.
Vai dar certo — disse Erb, colocando a mão sobre os controles do gerador de campo de curvatura. — Está na hora de subir a bordo da Sambo. O campo será ligado exatamente dentro de dois minutos.
Chegarei antes de Rhodan — asseverou Gucky, concentrou-se e saltou.
Ou melhor, tornou-se invisível de um instante para outro, e no mesmo momento materializou-se no hangar, dando tremendo susto num jovem cadete que se dirigia à comporta.
Rhodan e Sikermann entraram juntos no hangar, seguidos de perto por Marshall.
O hangar era um recinto gigantesco, pois afinal abrigava vários cruzadores esféricos de cem metros de diâmetro. Aliás, o lugar por onde dali a poucos minutos o cruzador partiria não era propriamente uma comporta. As paredes deslizaram, criando a abertura. Um pedaço do envoltório da nave havia desaparecido. Lá fora, o deserto escaldante do planeta morto estendia-se diante deles.
Logo depois, outro mundo passaria a existir naquele deserto, um mundo invisível, oculto pela barreira do tempo. Era um mundo em que toda vida corria num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento. Era praticamente só isso que se sabia.
Sem dizer uma palavra, Rhodan entrou na Sambo e sentou-se na poltrona do co-piloto. Na tela, bem à sua frente, via-se o deserto de Tats-Tor. O centro da tela mostrava o céu. Era ali que deveria surgir a redonda janela luminosa, por onde penetrariam na outra dimensão...
Sikermann sentou-se ao lado de Rhodan. Suas mãos grossas seguraram firmemente os controles. Seu rosto não exprimia nada, mas Rhodan sentiu os pensamentos exaltados de seu piloto.
Gucky não foi aos recintos destinados aos mutantes. Preferiu passear pela sala de comando, onde se acomodou sobre um leito, encostando-se à parede. Seus olhos inteligentes observavam tudo que Rhodan e Sikermann faziam. Seus nervos e sentidos estavam em estado de alerta, e sua concentração fora regulada para o grau de alarma. A qualquer momento poderia utilizar suas incríveis capacidades parapsicológicas, caso isso se tornasse necessário.
O som estridente do primeiro sinal de decolagem encheu todos os compartimentos da Sambo. As escotilhas fecharam-se automaticamente, isolando o interior da nave do mundo exterior, O vácuo do espaço cósmico não representaria qualquer perigo; mas o tempo...?
O segundo sinal soou.
Rhodan olhou para as mãos musculosas de Sikermann, que aguardava o comando de partida. Depois disso lançou os olhos para a tela de imanem. Tudo estava como antes. A gazela jazia no deserto, quieta e abandonada. O céu estava límpido; não havia nuvens.
Com a mão direita, Rhodan ligou o telecomunicador e o radiorreceptor, que o manteria em contato com a sala de comando da Drusus. Os homens que se encontravam a bordo da Sambo também o ouviriam. Se houvesse algum imprevisto, ninguém ficaria na incerteza.
Bell! Estamos prontos para decolar. Como estão as coisas por aí?
O rosto de Bell surgiu na tela.
Faltam sessenta segundos, Perry! Espere até que veja o círculo luminoso.
Naturalmente. O que está pensando neste instante?
Bell fez uma careta.
Nem queira saber!
O que poderá acontecer, se não voltarmos depressa? — adivinhou Rhodan. — Enquanto Erb conseguir manter ligado o gerador de campo de curvatura, poderemos voltar assim que quisermos. E logo que encontrarmos Rous...
Quanto tempo demorará?
Rhodan não respondeu. Quando olhou para o relógio, Bell disse:
Faltam dez segundos. Veremos se esse negócio funciona.
Funcionará! — disse Erb, que se mantinha mais afastado.
Rhodan não o via.
Os dez segundos passaram-se com uma lentidão infinita.
Erb está ligando o aparelho — anunciou Bell.
Rhodan tirou os olhos da pequena tela e voltou a fitar a grande. O céu que se estendia por cima do deserto continuava límpido, mas em vários lugares surgia um brilho pálido. Parecia uma miragem surgida do nada, uma ilusão projetada no ar. Embora o fenômeno surgisse em lugares diferentes, o conjunto formava um círculo.
E era um círculo que tinha pouco mais de duzentos metros de diâmetro.
O terceiro sinal de decolagem soou no interior da Sambo.
Rhodan não deixou que nada desviasse sua atenção.
O círculo luminoso tornava-se cada vez mais nítido; seus contornos iam se definindo. Dali a vinte segundos, não apresentava mais a menor falha. Era perfeitamente visível e emitia um forte brilho, destacando-se contra o céu límpido. Mas, na parte abrangida pelo círculo, o céu estava modificado.
Só agora Rhodan percebeu que, no interior da janela luminosa, o céu era avermelhado. Nuvens imóveis cobriam este céu avermelhado — nuvens que antes não estavam lá.
Eram as nuvens do outro plano temporal.
Pronto! — disse Rhodan e fez um sinal para Sikermann. — Decole com a aceleração máxima para a atmosfera. Dentro de dez segundos.
Os atos de Sikermann foram automáticos. Cada pessoa que se encontrava a bordo da Sambo sabia o que devia fazer.
A extremidade inferior do fenômeno luminoso pairava vinte metros acima do deserto de Tats-Tor. Ninguém poderia atingi-lo sem uma máquina voadora.
Dez segundos depois de Rhodan ter dado a ordem de comando, a Sambo saiu do ventre da Drusus, precipitando-se na atmosfera do planeta Tats-Tor. Passando rente ao solo arenoso, a nave foi ganhando velocidade e se dirigia para o campo de curvatura luminoso, que separava os dois universos.
Bell e Erb viram a Sambo penetrar na janela luminosa, e desaparecer imediatamente.
No mesmo instante, cessaram-se todos os sinais emitidos pelo cruzador ligeiro. O rosto de Rhodan desapareceu da tela, como se tivesse sido apagado por um punho invisível. Neste mundo, Perry Rhodan, o Exército de Mutantes e a Sambo já não existiam.
E no outro inundo?
Bell fitou a tela vazia com os olhos semicerrados.
A longa espera teve inicio,..
2



Continuavam a viver no platô mais elevado, que ficava junto às cavernas dos “uuuns”. Na última semana, o sol caminhara de forma quase imperceptível, mas o relâmpago que se mantinha no céu, congelado pela lentidão do tempo, já havia desaparecido. Durante quarenta horas mantivera-se inalterado entre as nuvens e o solo.
O Tenente Rous e os cinco homens que se encontravam em sua companhia esperavam impacientes que lá na planície voltasse a aparecer a pequena janela luminosa, que permitiria seu regresso ao Universo normal. Mas esperaram em vão.
O encontro da K-7 e de sua tripulação, desaparecida há meses, representava um raio de esperança. Mas o fato de que poucos minutos se haviam passado para o comandante da nave auxiliar, enquanto Rous vivera cerca de três meses no Universo normal, não era muito animador.
A esfera de sessenta metros de altura mantinha-se no platô, à sombra das rochas. Lá em cima, sobre o cume da montanha, ainda se via a nuvem de fumaça que era o prenúncio de irrupção vulcânica. Mas pelos seus cálculos essa irrupção só se verificaria dali a alguns anos.
Além deles não havia nenhuma vida naquele planeta, ao qual Rous dera o nome de mundo de cristal. Ou melhor, não havia nenhuma vida perceptível, já que aqui tudo se movia setenta e duas mil vezes mais devagar. Tudo estava submetido às leis do outro plano temporal. Tudo!
Só mediante a criação de campos antigravitacionais e o deslocamento a uma velocidade superior à da luz — que aqui era de cerca de quatro quilômetros por segundo — os seres e objetos podiam ser trazidos ao plano temporal dos homens. Pois era somente a manutenção de sua dimensão temporal que os distinguia face à ausência de vida.
O físico Fritz Steiner e o biólogo Ivã Ragow se mantinham em ponto mais afastado do platô. André Noir, o hipno, estava próximo deles. Entre os terranos, um estranho ser estava agachado no solo e executava movimentos absolutamente normais. Era um dos “uuuns” trazidos para o plano temporal dos homens, para fins de estudo. Noir conseguira estabelecer uma espécie de comunicação com esse ser. Criava-lhe uma imagem mental, e dava a entender o que desejava saber.
A palestra era praticamente unilateral, mas foi suficiente para proporcionar uma surpresa.
Fred Harras lidava com o hipertransmissor da K-7, que também fora trazido ao seu plano temporal. Expedia incessantemente o texto de socorro, na esperança absurda de que alguém pudesse ouvi-lo.
Josua, o meteorólogo, assumira seu posto junto ao lugar em que devia estar a gazela, isto é, na outra dimensão. Foi ali que haviam penetrado na dimensão estranha, e se um dia surgisse uma possibilidade de voltar, a mesma deveria tornar-se visível naquele lugar. A pequena janela luminosa desaparecera há oito dias. Há oito dias terranos, evidentemente. Se os cálculos fossem corretos, um dia durava nada menos de duzentos anos nesse mundo do “tempo parado”.
Acabo de perguntar por que seus companheiros nos atacaram — disse Noir, com uma expressão pensativa no rosto. — Se interpretei corretamente os sinais que emitiu em resposta à minha pergunta, quer negar tudo. Diz que não tem nada a ver com o ataque.
Está mentindo! — exclamou Steiner, examinando atentamente a estranha criatura que se mantinha entre eles.
O ser devia ter um metro e meio de altura e seu aspecto lembrava o de uma gigantesca lagarta dotada de tocos de asas reluzentes. Logo abaixo da cabeça de inseto, havia duas presas. Os outros membros podiam ser designados como pés.
É claro que tem receio de ser responsabilizado pelo ataque — completou Steiner.
Talvez esteja dizendo a verdade — disse Ragow, olhando para além do “uuum”. — Os juízos apressados já deram origem a muitas injustiças.
Acontece que neste mundo não existem outros seres inteligentes — disse Steiner, insistindo em sua tese.
Se Noir não tivesse intervindo na discussão, teria surgido outro debate acalorado entre os dois cientistas.
Por favor, cavalheiros! Tanto seria prejudicial emitirmos um juízo apressado como negarmos a gravidade da situação. É bem verdade que não encontramos nenhum ser inteligente no mundo de cristal, com exceção das grandes lagartas. Mas daí não se pode concluir que realmente não existam outras inteligências. Para falar com franqueza, acho um tanto estranha a idéia de que justamente estes animais nos tenham atacado, ainda mais com o auxílio de dispositivos de retardamento controlado, que nos tornaram visíveis aos seus olhos. Seja como for, uma coisa é certa: não estamos em segurança neste lugar, embora tudo se mova setenta e duas mil vezes mais devagar que na Terra.
O Tenente Rous atravessou o platô, caminhando em sua direção. Mostrava-se preocupado.
Já montamos o hiper-receptor — disse, lançando um olhar desconfiado para o “uuum”. — Por enquanto Harras não obteve qualquer resposta às suas mensagens. Por isso podemos ter certeza que só nós estamos no plano temporal estranho.
Será que os “uuuns” não estão captando nossa mensagem? — perguntou Steiner.
Rous deu de ombros.
Pensei que o senhor já soubesse. O prisioneiro não lhe deu nenhuma resposta a essa indagação? É perfeitamente possível que os aparelhos de rádio por eles usados sejam totalmente diferentes.
Este sujeito é estúpido! — disse Steiner em tom indignado. — Afirma que o ataque veio de outro lado.
Noir ergueu-se lentamente.
Quer saber de uma coisa, tenente? — disse, cruzando os braços sobre o peito. — Tenho a mesma impressão de Ragow; acho que a pista que estamos seguindo é falsa. Os “uuuns”, que é o nome que lhes damos, não são os verdadeiros donos desse mundo.
Rous ergueu as sobrancelhas. Steiner resmungou em tom de surpresa, enquanto Ragow fazia um gesto de assentimento.
As verdadeiras inteligências deste plano temporal são diferentes — prosseguiu Noir. — Não tenho certeza, mas acontece que esta lagarta compreende o que lhe quero dizer. Suas reações permitem a conclusão bastante segura de que está tão espantada quanto nós em virtude do ataque. Receio que estejamos perdendo nosso tempo, tenente. É como se algum astronauta que pousasse na Terra quisesse interrogar os cães ou as vacas sobre a situação política de nosso planeta. — disse Rous, lançando um olhar mais atento para a lagarta. — O Senhor quer dizer que a ameaça vem de outro lado.
Exatamente. Para os desconhecidos o tempo passa mais devagar, mas não deixa de passar. Tenho certeza de que já prepararam outro ataque contra nós. Não se esqueça que aquilo que para eles representa um segundo para nós corresponde a vinte horas.
Quer dizer que desde quando nos encontramos aqui apenas se passaram uns dez segundos — disse Rous em tom pensativo. — Se considerarmos que já houve um ataque, teremos de concluir que a reação das inteligências deste mundo é extremamente rápida. É possível que nosso fator de conversão não seja cem por cento exato, mas não existe a menor dúvida de que representa uma aproximação bastante razoável. Quer dizer que temos de contar com a possibilidade de que o novo ataque não demorará. O que podemos fazer para proteger-nos contra esta investida?
Somos mais rápidos que eles — disse Steiner. — Poderemos desviar-nos.
Neste plano temporal, a velocidade relativa do som é de meio centímetro por segundo — ponderou Rous. — Já sabemos que o campo energético defensivo permite que, no interior desta atmosfera, atinjamos a velocidade da luz. E essa velocidade sempre chega a quatro quilômetros por segundo. Nestas condições, a monobra de desvio não constitui nenhum prazer. Um belo dia conseguirão atingir-nos.
Antes que alguém pudesse responder, o minúsculo receptor que Rous trazia no pulso emitiu um zumbido. Era o aparelho por meio do qual os homens se mantinham em contato.
Rous comprimiu um botão e falou para dentro do minúsculo microfone:
Quem é?
Josua! — disse o africano, que se encontrava a uns cem quilômetros dali. — A janela luminosa voltou. Mas...
Rous teve a impressão de que levara um choque. Por um instante tudo começou a girar diante dos seus olhos.
O quê? — perguntou em tom de espanto. — A janela voltou?
Sim; mas é maior. Tem uns duzentos metros de diâmetro.
Rous fitou Steiner, Ragow e Noir.
Vamos. Depressa! Para a K-7. Colocaremos os trajes arcônidas arcônidas. Iremos imediatamente para onde está Josua.
Voltando a falar para dentro do microfone, disse:
Iremos já, Josua. Mantenha-nos informados. Permanecerei em recepção.
Os pensamentos em Rous precipitaram-se. Seria impossível decolar com a nave auxiliar, pois esta não fora trazida de volta ao plano temporal normal. Sua massa imensa estava submetida às leis naturais desse plano temporal, e se tornava praticamente imóvel.
Não teriam outra alternativa senão levar os tripulantes, um por um, com os trajes arcônidas, em direção à janela luminosa. E, para garantir o funcionamento do gerador de campo de refração...
Subitamente as idéias de Rous estacaram.
O que foi que Josua disse? Duzentos metros?
Só agora Rous começou a compreender que uma coisa tremenda devia ter acontecido. O que abrira o caminho de volta não era o velho gerador, mas outro, completamente novo. A janela pela qual tinham vindo era muito menor.
Perplexo e cheio de esperanças absurdas, foi atrás de Steiner, Ragow e Noir, que já corriam em direção à K-7. Nem viu que a lagarta-gigante o seguia agilmente.
Toda sua atenção estava voltada para a voz de Josua. A voz saída do pequeno alto-falante do aparelho que Rous trazia no pulso já não era tão forte, mas continuava perfeitamente compreensível.
É inacreditável! Uma nave esférica; só pode ter sido uma nave esférica. Passou em alta velocidade pela janela luminosa. Está desacelerando fortemente. A altitude é de uns trezentos metros! — admirava-se Rous.
Uma nave esférica! Só poderia ser Rhodan?”, pensou o tenente e sentiu-se dominado pela alegria. “Estamos salvos! Rhodan não nos abandonou.”
Correu o mais depressa que pôde em direção à rocha sob a qual Harras havia instalado sua estação de rádio. O pequeno aparelho já havia captado a voz de Josua. Quando Rous chegou, Já estava a par.
Passe à faixa normal! — gritou Rous. — Chame Rhodan e ligue à recepção.
Enquanto isso, Steiner e Ragow alcançaram a K-7 e alarmaram a tripulação, que não desconfiava de nada.
Dali a alguns segundos, tudo pareceu estar de pernas para o ar...
Noir logo voltou a andar a passo lento. Sabia que agora os segundos já não contavam. Por que apressar-se, se os outros estavam cuidando de tudo? Sem apressar-se, foi para junto das jaulas em que estavam presos os “uuuns”. Eram ao todo cinco exemplares, que não se encontravam em sua dimensão temporal originária, e já viviam tão rápido como os terranos.
Uuum”? — murmurou interrogativamente o mutante.
Subitamente Noir teve certeza de que essas lagartas não eram os verdadeiros donos da dimensão estranha. Era o que indicava sua reação diante dos fatos. Nenhum ser inteligente que dominasse um universo adotaria o procedimento dos “uuuns”. Só mesmo criaturas subalternas agiriam assim.
Seriam ou servos ou escravos; em hipótese alguma eram senhores.
Rous saltou para junto de Harras quando o receptor começou a funcionar. O zumbido monótono do alto-falante foi interrompido. No mesmo instante, os homens que se encontravam no platô ouviram a voz forte e distorcida que naquele momento parecia uma verdadeira tábua de salvação.
Aqui fala o cruzador ligeiro Sambo, comandado por Perry Rhodan. Recebemos sua mensagem. Transmita um raio vetor. Permaneçam em contato.
Harras soltou um grito de júbilo, abraçou o Tenente Rous e bateu em suas costas.
Uma semana de espera angustiosa e ininterrupta havia chegado ao fim. Dali a pouco deixariam de ser prisioneiros do tempo e voltariam ao seu Universo.
Rous dirigiu-se a Steiner, que viera correndo da K-7.
E agora, tenente? — perguntou o físico. — Vamos colocar os trajes, ou esperaremos até que sejamos encontrados? Talvez seria conveniente anunciar nossa posição ou transmitir sinais goniométricos.
Harras já está cuidando disso — disse Rous para tranqüilizá-lo. — Recolha os prisioneiros “uuuns” juntamente com Noir e Ragow. Vamos levá-los. Nossos telepatas conseguirão extrair de sua mente o segredo que cerca os atacantes. A K-7 será deixada para trás. Assim que Rhodan chegar, não poderemos perder tempo!
Steiner pôs-se a rir. Rous sentiu que apenas se tratava de uma reação provocada pela sensação de alívio e alimentada pela tensão inacreditável da última semana. Durante sete dias haviam sido prisioneiros do tempo.
Não poderemos perder tempo! — repetiu Steiner entre risadas; não conseguia controlar-se. — Qual é o tempo a que se refere?
Um sorriso discreto surgiu no rosto de Rous; preferiu não responder à pergunta do físico.
Na verdade, não saberia o que responder.
* * *

No momento em que a Sambo atravessou a janela que dava para o outro plano temporal, Rhodan perdeu o contato com a Drusus. O rosto de Bell desapareceu das telas como se nunca tivesse estado lá. Os sinais de rádio cessaram. O céu modificou-se. ficou vermelho, com uma ligeira tonalidade violeta.
Imediatamente Rhodan ouviu palavras distorcidas ditas em inglês. Com um movimento rápido, corrigiu a sintonização e ouviu o pedido de socorro da expedição desaparecida.
Suspirou aliviado.
O Tenente Rous e seus homens estão vivos!, conjeturou surpreso.
Respondeu rapidamente, a fim de estabelecer contato. Assim que o receptor indicou a direção do raio vetor, a Sambo voltou a acelerar.
Nesses segundos de tensão, o rato-castor Gucky mantinha-se sentado no sofá e procurava captar pensamentos estranhos. Para ele, a distância não fazia a menor diferença. Por isso não era de admirar que dali a pouco sua voz aguda anunciasse:
O Tenente Rous está passando relativamente bem. Os membros da expedição estão em perfeitas condições. E os homens da K-7 não dão sinal de terem sofrido qualquer dano. Além disso...
Rhodan, que ouvira meio distraído, estremeceu por dentro. Interrompeu Gucky em tom áspero.
O que foi que você disse? Os homens da K-7? O que quer dizer com isso? Faz mais de um ano que a K-7 desapareceu.
Gucky empertigou-se. Perdeu um pouco de sua atitude indolente.
O Tenente Rous encontrou a K-7. A tripulação foi trazida de volta da outra dimensão temporal por meio de um método especial, descoberto por Ragow ou por Steiner. Pelo que deduzo dos pensamentos dessa gente, para a K-7 passaram-se exatamente dois minutos, embora há sete meses o primeiro encontro com os invisíveis já datasse de mais de quatro meses.
Receio disse Sikermann sem muito entusiasmo — que não seremos capazes de estabelecer leis universais sobre as relações entre os diversos tempos. É bem possível que até conosco se verifiquem certas distorções da dimensão temporal.
Não enfeie o diabo mais do que ele é — pediu Rhodan. — Siga o raio vetor e procure pousar perto do Tenente Rous. Gucky, continue a investigar os pensamentos dos desaparecidos, para que não tenhamos de perder tempo em explicações quando pousarmos. Acho que não poderemos perder um segundo, pois do contrário Bell poderá morrer de ansiedade.
Compreenderam o que queria dizer, e também compreenderam que estava falando muito sério. Se dois minutos equivaliam a três meses, o que não se diria se tivessem de passar alguns meses nessa dimensão? Sabiam que não existia qualquer padrão por meio do qual pudessem ser determinadas as distorções, pois a experiência lhes ensinara que esta variava bastante.
Paciência...
Rhodan lançou os olhos para a planície imobilizada. Viu os rios reluzentes e cristalinos e as ondas imobilizadas em meio ao movimento. Parecia que lá no horizonte estava chovendo, mas algumas horas ou até dias se passariam até que os pingos de chuva atingissem o solo. Num cálculo ligeiro, avaliou em dez centímetros por hora a velocidade da queda.
O Tenente Sikermann disse em meio ao silêncio:
Os instrumentos registram uma solicitação bastante intensa dos campos energéticos. O que será?
Rhodan lançou um ligeiro olhar para as escalas. As respectivas posições foram gravadas em sua memória quase fotográfica, e foi assim que dali a poucos segundos pôde responder.
É a resistência do ar, Sikermann. Por aqui tudo obedece às leis do respectivo plano temporal, inclusive a atmosfera. Em termos relativos, estamos cortando o ar a uma velocidade correspondente a dez mil vezes a do som. Se não fossem os campos defensivos, a nave já teria entrado em combustão. De qualquer maneira convém desacelerar, tenente. Daqui a pouco deveremos chegar.
Os sinais goniométricos tornaram-se mais intensos. Dali a alguns segundos, Rhodan viu a K-7 imóvel sobre o platô. Minúsculas figuras corriam de um lado para outro. Eram os membros da expedição desaparecida, e os tripulantes da nave auxiliar, que desaparecera há tempos em Mirsal.
Um minuto depois, o Tenente Rous e Rhodan estavam frente a frente.
Sinto-me feliz por tê-lo encontrado, tenente. Não podemos perder tempo. Daqui a pouco o senhor poderá contar o que aconteceu. Gucky e o telepata Marshall já me forneceram os detalhes mais importantes. Estou informado. Mande transferir a tripulação da K-7 para a Sambo. Que prisioneiros são estes? Parecem lagartas.
Nós os chamamos de “uuuns”, porque seus gritos, modificados pela dilatação do tempo, tinham esse som. De início pensávamos que fossem as inteligências do outro plano temporal, mas posteriormente Noir desenvolveu outra teoria. Acha que são os servos ou escravos dos verdadeiros donos deste mundo.
Quer dizer que os “uuuns” não são os verdadeiros donos desse mundo — disse Rhodan com um ligeiro sorriso. — Faço votos de que um dia possamos travar conhecimento com os verdadeiros.
Nem desconfiava de que este dia estava muito próximo.
Devemos esperar a qualquer momento um novo ataque desses seres — disse Rous em tom insistente. — Os inimigos já tiveram tempo para preparar-se. Há poucos dias nós os rechaçamos e destruímos sua nave de observação.
Nave de observação? — perguntou Rhodan.
Perfeitamente; aos seus olhos somos invisíveis — explicou Rous em tom apressado. — Nossos movimentos são tão rápidos que se tornam imperceptíveis. Por isso pegaram uma pequena nave auxiliar e nela montaram dez câmaras que captavam nossa imagem. A mesma era gravada em filmes ou fitas de vídeo e retardados. Na décima câmara eles nos viam tal qual realmente somos. Estudando os destroços, chegamos a esta conclusão.
Poderíamos fazer o contrário, se bem que isso seria bem mais difícil — disse Rhodan com um sorriso.
O rosto de Perry voltou a tornar-se sério.
Acha que poderão usar novamente o aparelho de retardamento para atacar-nos?
Não tenho a menor dúvida. — Rous acenou com a cabeça, mas subitamente ficou calado, pois junto às jaulas dos “uuuns” houve um tumulto. Alguém gritou algumas palavras, mas Rous e Rhodan não conseguiram entendê-las.
Tome todas as providências para que possamos decolar dentro de dez minutos — disse Rhodan. — Não quero perder mais tempo.
Rous afastou-se e Rhodan passou a dedicar sua atenção às jaulas, que também seriam levadas para a Sambo.
Gucky não deixou de aproveitar o tempo de que dispunha na dimensão estranha, mesmo que não tivesse recebido ordens específicas para agir.
O rato-castor logo que descobriu as lagartas gigantes e estabeleceu o contato telepático. Não conseguiu transmitir seus pensamentos e desejos aos “uuuns”, mas pôde ler perfeitamente o que aqueles seres pensavam.
E seus pensamentos eram bastante elucidativos.
Gucky agachou-se na frente da jaula. Permaneceu concentrado até que chegassem os homens que levariam as jaulas para a Sambo.
Não os prendam — disse Gucky em tom indignado, saltitando nervosamente de um lado para outro. — São inofensivos. Os donos da outra dimensão abusaram deles, Não são as criaturas que vocês pensam.
Houve certo espanto. Ragow aproximou-se e, durante alguns minutos, conversou aos cochichos com Gucky. O que este lhe disse confirmou suas suposições. As lagartas não passavam de servos dos invisíveis.
Gucky sentiu-se tranqüilizado quando Ragow lhe garantiu que as lagartas teriam um tratamento adequado e decente.
Mais de cinco minutos faltavam até a decolagem da Sambo, e Gucky resolveu aproveitá-los. Teleportou-se para uma rocha não muito distante e examinou as cavernas.
Em todos os lugares encontrou as lagartas imóveis, que ao contrário das prisioneiras permaneciam em sua dimensão temporal, e não executavam o menor movimento. Aliás, elas se mexiam, mas seus movimentos eram setenta e duas mil vezes mais lentos que os de Gucky. Vistas a olho nu eram imóveis como o granito. E também tinham a dureza do granito, pois a força da inércia, aumentada setenta e duas mil vezes, tornava sua pele totalmente insensível.
Havia outra coisa submetida às leis naturais dos dois planos existenciais que se cortavam neste ponto.

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