Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e
GANDALF01
Revisão
ARLINDO_SAN
Desta vez
foi Gucky quem foi abraçado —
e quase
foi viver no futuro.
Cinqüenta
e sete anos se passaram, desde a pretensa destruição da Terra!
Rhodan
tornou-se aliado do robô regente de Árcon, pois uma ameaça da
proporções incalculáveis ocorreu na Via Láctea: os invisíveis...
Perry,
através de uma sofisticada aparelhagem, já está ciente do local do
próximo ataque desse inimigo sem dimensões. Trata se do segundo
planeta do sol Morag: Tats-Tor.
O
administrador do Império Solar envia uma expedição àquele
estranho mundo. O Tenente Rous, comandante desta expedição, usando
o GCR, invade o universo inimigo... Entretanto um contratempo naquele
planeta sem tempo levou a expedição a tornar-se prisioneira do
mundo de cristal.
E sete
meses se passaram...
Perry
não tem outra alternativa: teriam de penetrar pela janela do tempo,
o mais rápido possível, pois a missão de Rous poderá perder-se,
ou melhor, ficar na Eternidade...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— Amigo
e representante de Perry Rhodan.
Erb
— Que
recebeu um bom conselho de Gustavo VI.
Tenente
Marcel
Rous
— Chefe
da expedição do tempo desaparecida.
Gucky
— O
rato-castor que vê um “fantasma”.
Ras
Tschubai
— Um
dos teleportadores do Exército de Mutantes.
Kruukh
— Um
servo obediente.
1
A 7.132
anos-luz, Tats-Tor, segundo planeta do sistema, gravitava em torno do
sol de Morag, Este mundo fora colonizado há cinco milênios por
arcônidas, que passaram a viver da exportação de valiosas
matérias-primas e do comércio com os povos do Império Arcônida.
Mas a
misteriosa frente temporal passou por Tats-Tor e causou o
desaparecimento de toda vida orgânica, deixando para trás um mundo
vazio, onde não havia mais nada que vivesse, muito embora as cidades
estivessem intatas. Mas os homens, que por ali costumavam respirar,
amar e lutar, não haviam deixado de existir. Encontravam-se em algum
lugar, num plano temporal diferente.
Perry
Rhodan teve seus motivos para pousar em Tats-Tor, pois foi daí que a
expedição do tempo por ele planejada e chefiada pelo Tenente Marcel
Rous partiu para desaparecer no nada.
Isso
aconteceu em janeiro, há mais de sete meses.
No mês de
janeiro do ano 2.041, mais precisamente.
E hoje, no
dia 16 de julho, Perry Rhodan voltava pela terceira vez ao planeta
Tats-Tor. Quando o mundo despovoado surgiu nas telas da nave Drusus,
os pensamentos de Rhodan recuaram no tempo. Lembrou-se das primeiras
duas visitas ao planeta, que não trouxeram nenhum resultado, nenhuma
esperança para os desaparecidos...
Isto
aconteceu no dia 13 de janeiro de 2.041.
Fazia dez
dias que não havia o menor sinal da expedição do tempo. O Tenente
Rous e seus cinco companheiros haviam atravessado a lente energética
criada pelo gerador de campo de refração, penetrando no plano
temporal estranho, no momento exato em que a área de superposição
passava por Tats-Tor, tornando invisível tudo que tivesse vida.
Acontece
que Marcel Rous não voltou conforme se previra.
Rhodan
pousou em Tats-Tor com o supercouraçado Drusus, um veículo espacial
esférico de um quilômetro e meio de comprimento, e depois de
algumas buscas encontrou a gazela, em cujo interior fora instalado o
gerador de campo de refração.
Esse
aparelho genial permitia que um indivíduo penetrasse no outro plano
temporal, no momento em que se verificasse a superposição, sem
perder a própria dimensão temporal.
Em outras
palavras: as condições existentes no outro plano existencial, que
diferiam enormemente das condições normais, não exerciam a menor
influência sobre um homem que nele penetrasse através da lente
energética criada pelo gerador de campo de refração.
Um plano
temporal estranho cruzava o Universo normal. Em todos os lugares em
que ocorria uma interseção direta, a vida orgânica desaparecia por
completo. Era um perigo mais temível que qualquer outro que tivesse
existido, pois este estendia-se por toda a Via Láctea.
Rhodan e
Reginald Bell, acompanhados por alguns mutantes, caminharam com uma
sensação indefinida em direção à gazela solitária, abandonada
em pleno deserto. Eram os únicos seres vivos que se encontravam
naquele mundo; até os insetos e os vermes haviam deixado de existir.
A frente do tempo arrastara tudo, deixando para trás apenas a
matéria inorgânica e as plantas. Isso provava que existiam certas
diferenças entre a fauna e a flora, e que as mesmas não deixavam de
ser consideradas pelo plano temporal diferente do nosso.
Reginald
Bell pigarreou discretamente e procurou disfarçar o nervosismo. Não
queria que os outros percebessem que estava com medo.
— Já
faz dias que... bem, que desapareceram — disse com a voz
embaraçada. — Se conseguiram penetrar no outro plano temporal pela
fresta luminosa, por que não conseguem voltar?
Rhodan
lançou-lhe um ligeiro olhar, enquanto prosseguia tranquilamente em
sua caminhada.
— Viemos
para cá justamente com a finalidade de encontrar a resposta a essa
pergunta, Bell. Tenho a Impressão de que as respostas possíveis se
contam pelas centenas. Dependerá de nós encontrar a única resposta
correta. Ali está a gazela!
Apontou
para a nave de longo curso, formada por um disco de trinta metros de
altura. Ainda se encontravam a duzentos metros da mesma.
— Na
sala de comando, estão os controles do gerador de campo de refração.
Logo veremos o que lhes aconteceu. — completou.
— O que
poderia ter acontecido? — perguntou Bell com a voz insegura.
Sem
olhá-lo, Rhodan respondeu:
— Acho
que não existe nada que não possa entrar em pane...
Durante o
restante da caminhada Bell manteve um silêncio obstinado.
A
escotilha externa estava aberta, motivo por que não tiveram a menor
dificuldade em penetrar na pequena nave especial. Lá adiante, a
menos de um quilômetro de distância, via-se o vulto ameaçador da
Drusus. Se surgisse o menor sinal de perigo, a artilharia do gigante
espacial seria acionada.
Mas nada
aconteceu quando Perry Rhodan e seus companheiros entraram na
comporta de ar e avançaram até a sala de comando da gazela.
E não
demorou que obtivessem uma resposta inequívoca e nada satisfatória
à pergunta que acabara de ser formulada.
Os pingos
de metal endurecidos que viram no chão liso da sala de comando
diziam bastante. Mas Rhodan não era um homem que se contentasse com
pouca coisa. Tentou pessoalmente colocar o aparelho em funcionamento,
mas não demorou em reconhecer que suas tentativas seriam inúteis.
O gerador
de campo de retração da gazela estava totalmente inutilizado. As
bobinas estavam queimadas e os fios derretidos. Era praticamente
impossível fazer os reparos no local.
— Pelo
menos já sabemos o que aconteceu — disse Bell.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Isto
não servirá de consolo para os membros da expedição desaparecida.
Como poderemos tirá-los da prisão do tempo?
— Vamos
construir outro gerador — sugeriu um dos mutantes.
— Isso
mesmo — disse Rhodan com um aceno de cabeça. — É a única
possibilidade, Mas para isso teremos de regressar à Terra. O Centro
de Pesquisas de Terrânia é o único lugar em que o projeto poderá
ser levado avante. Tomara que o Tenente Rous e seus homens não
desanimem.
Bell
lançou um olhar pensativo para as telas apagadas da gazela e disse:
— Faço
votos de que não percam muito tempo...
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Quem
não deve perder tempo somos nós — disse e saiu imediatamente da
pequena nave.
Sabia que
aqui não poderiam fazer mais nada, e sua permanência representaria
a perda de preciosas horas ou dias.
E foi
assim que, dali a algumas semanas, Perry Rhodan voltou a pousar com a
Drusus no planeta Tats-Tor. Desta vez, trazia um gerador de campo de
refração de grande potência
*
* *
Levaram um
dia para montar o aparelho no deserto, ao lado da gazela. Os técnicos
vindos da Terra estavam plenamente convencidos de que o engenho por
eles criado não deixaria de funcionar. Rhodan e Bell faziam votos de
que tivessem razão.
Os mesmos
votos eram formulados por Gucky, que desta vez também pôde vir. O
rato-castor caminhava atrás dos dois homens. Seu “rosto”
estava muito sério e trazia as orelhas em pé. Apoiava-se na cauda
larga. Nos olhos castanhos brilhava algo como uma dúvida. Mas, de
resto, aquele animal extremamente inteligente não revelava seus
sentimentos.
A rigor
Gucky não era um animal. Era membro do Exército de Mutantes e
dispunha de pelo menos três capacidades parapsicológicas; ainda não
se tinha certeza se nele existiam capacidades latentes do mesmo tipo.
De qualquer maneira, era telepata, telecineta e teleportador, falava
perfeitamente várias línguas e possuiu uma inteligência que faria
inveja a muitos homens.
Gucky
caminhava ereto; nessa posição media pouco menos de um metro. Era
uma mistura de rato e castor, mas seu comportamento era inteiramente
humano, embora geralmente preferisse não usar qualquer vestimenta.
Parecia que os pêlos cor de ferrugem lhe bastavam.
Rhodan
parou junto aos técnicos, que haviam montado o aparelho bem ao lado
da gazela. Os projetores apontavam na mesma direção para a qual
antes se dirigiam os do aparelho inutilizado. Se não surgisse um
imprevisto, o círculo luminoso que permitiria o ingresso no outro
plano temporal deveria surgir assim que se ligasse o aparelho.
— Já
terminaram? — perguntou Rhodan ao engenheiro-chefe, apontando para
o complicado aparelho. — Quando poderemos iniciar a experiência?
— Assim
que os condutores tenham sido ligados aos geradores da Drusus. O
gerador de campo de refração precisa de um elevado volume de
energia para criar o campo temporal.
Rhodan
acenou com a cabeça e virou-se.
— Irei
pessoalmente. Gucky e os mutantes irão comigo. Bell ficara aqui e
assumirá o comando se alguma coisa não der certo.
— Se
alguma coisa não der certo? — perguntou Gucky com sua voz aguda e
chiante. — E depois?
— É um
risco que teremos de assumir — disse Rhodan em tom tranqüilo. —
Foi o que fez o Tenente Rous... e está desaparecido. Acontece que já
conhecemos a explicação do fato. Sem o gerador, o regresso do outro
plano temporal está fechado. E este aparelho não falhará; nossos
técnicos cuidarão disso. Poderemos regressar quando quisermos.
Voltou a
dirigir-se aos homens da equipe científica.
— Quanto
tempo demorará?
— Uma
hora — respondeu um deles.
*
* *
O sol
Morag só caminhara um pequeno pedaço; ainda ia alto no céu. O
deserto do planeta Tats-Tor, vermelho e sem vida, jazia sob seus
raios escaldantes. Era um verdadeiro documento que atestava a
ausência da vida no planeta atingido pela frente do tempo.
Rhodan
ajeitou o radiador de impulsos que trazia no cinto e lançou mais um
olhar para os companheiros. A seu lado, Gucky tremia de impaciência,
mas Rhodan sentiu o medo que o desconhecido infundia no coração de
seu pequeno amigo. Por mais valente que fosse o pequeno rato-castor,
o plano temporal estranho era uma coisa que não compreendia muito
bem, e por isso tinha medo.
— Ficaremos
lado a lado — disse Rhodan, colocando a mão sobre o ombro de
Gucky. — Assim que passarmos pela fresta de luz, você deverá
colocar-se em recepção telepática, para que possamos encontrar o
quanto antes o Tenente Rous. John Marshall cuidará dos aparelhos de
rádio. E eu cuidarei para que não sejamos surpreendidos por um
eventual inimigo. Já sabemos que lá todos os acontecimentos se
desenrolam num ritmo temporal setenta e duas mil vezes mais lento.
Por isso não teremos de recear qualquer inimigo.
Fez um
sinal para a equipe técnica.
— Pronto,
senhores.
Bell
mantinha-se um tanto afastado e esforçou-se para aparentar
indiferença. Em seu interior rugia a tempestade dos sentimentos mais
diversos. Naturalmente sentia-se satisfeito por não ter de
participar da experiência. Não temia um inimigo que pudesse
enfrentar corpo a corpo, mas a penetração numa esfera de vida
estranha e desconhecida era um ato de audácia que exigia mais que a
simples coragem.
Apesar
disso, gostaria de participar. A aventura exercia um encanto muito
forte sobre ele.
Mas de
outro lado...
Não
conseguiu prosseguir em seus pensamentos contraditórios. Gucky, que
era telepata, virou-se abruptamente e disse:
— Você
não sabe o que quer, gorducho — acontece que Bell não era gordo,
apenas um tanto baixote.
Mas o
rato-castor gostava de exagerar, desde que isso aborrecesse seu amigo
do peito.
— Às
vezes, fica satisfeito porque outros terão de tirar a prosa do outro
plano temporal, mas depois fica aborrecido por não poder estar
presente enquanto nós estivermos queimando as cucas. Se você ficar
bem bonzinho, eu lhe trarei um relógio de lá. Anda setenta e duas
mil vezes mais devagar, motivo por que poderá controlar muito bem
suas horas de folga.
Antes que
Bell soubesse o que responder, o engenheiro-chefe ligou o suprimento
de energia. Com um zumbido grave, foram surgindo os campos
magnéticos, que serviriam para abrir uma fresta na barreira do
tempo, Essa fresta se revelaria por um débil arco luminoso, que
seria como a janela para entrarem na outra dimensão.
Mas nada
disso aconteceu. Todas as peças da maquinaria firmemente ancorada ao
solo começaram a vibrar, o zumbido tornou-se mais forte, mas não se
via o menor sinal do arco luminoso.
O
engenheiro lançou um olhar de espanto para os ponteiros trêmulos
dos medidores e sacudiu a cabeça. Rhodan aproximou-se e, falando
alto para superar o zumbido, perguntou:
— O que
houve? O campo magnético não está sendo levantado?
— Está
sendo levantado, sim — confirmou o engenheiro em tom de
perplexidade, sem tirar os olhos dos ponteiros. — Não vejo o menor
defeito. Tudo funciona segundo os planos. A esta hora a fresta
luminosa já deveria ter aparecido. Não compreendo...
Naquele
momento, há pouco mais de seis meses, ninguém compreendeu. De
início a decepção foi arrasadora. Procuraram um defeito no gerador
de campo luminoso, até que uma cabeça inteligente de Terrânia
tivesse a idéia de procurá-lo em outro lugar.
Mais
precisamente nas condições reinantes em Tats-Tor.
Fora um
golpe duro para Rhodan, que já não poderia ter a menor dúvida de
que a expedição do tempo comandada pelo Tenente Rous estava perdida
para sempre.
*
* *
Três
meses depois do dia em que se desenrolaram estes acontecimentos, um
homem chamado Erb — chefe da equipe física da divisão eletrônica
— entrou no gabinete de Perry, situado muito acima das ruas de
Terrânia.
Rhodan
acabara de manter uma palestra com o administrador de Vênus e estava
desligando o videofone. A tela apagou-se. Sem demonstrar maior
interesse, pediu ao físico que se acomodasse do outro lado de sua
mesa. Pensava se tratar de um relatório de rotina.
— O que
posso fazer pelo senhor? — disse, iniciando a palestra, embora seus
pensamentos estivessem longe dali.
Os colonos
de Vênus haviam solicitado maior autonomia administrativa, e não
via nenhum motivo para deixar de conceder. Ainda acontecia...
— Acho —
disse Erb — que já descobri por que o gerador de campo de refração
deixou de funcionar em Tats-Tor.
Rhodan
estremeceu ligeiramente e esqueceu-se do planeta Vênus. Inclinou-se
para a frente e fitou o tísico.
— Tats-Tor!
A expedição desaparecida! Já não tinha a menor esperança de
poder fazer alguma coisa por Rous. Não desperte um falso otimismo em
minha mente, Erb — fez um gesto de desprezo. — Tolice. Não ligue
ao que estou dizendo, Erb. Diga o que descobriu. Qualquer detalhe é
importante, desde que possa ser útil aos nossos homens.
O físico,
uma criatura extremamente simpática, de cabelos grisalhos, respondeu
com um sorriso embaraçado. Em seus olhos lia-se certa perplexidade,
mas Rhodan conhecia seus homens. Erb era um de seus colaboradores
mais competentes no terreno da física eletrônica.
— Na
verdade, quem encontrou a resposta não fui eu, mas Gustavo VI.
— Gustavo
VI? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
— Isso
mesmo. Foi o nome que demos ao computador positrônico de nossa
seção. É claro que não tem a capacidade dos computadores
instalados nas grandes naves, muito menos a do grande computador de
Vênus, mas já nos prestou bons serviços. Resolvi introduzir em
Gustavo VI todas as informações sobre o outro plano temporal que
chegaram a meu conhecimento. Devo confessar que às vezes trabalhei
na base de simples suposições. Depois de várias indagações as
respostas começaram a adquirir forma. E alguns ensaios provaram que
são corretas. É praticamente impossível que tenha havido um
engano.
Rhodan
esquecera todos os outros problemas que o preocupavam na qualidade de
administrador do Império Solar. Depois de três meses de calma
relativa voltara a defrontar-se com o fantasma — o fantasma do
outro plano temporal que cruzava o Universo conhecido, trazendo a
desgraça a todos os lugares em que os dois planos se cortavam.
— Prossiga,
Erb. Quais foram as respostas que o computador lhe deu?
O físico
já não estava sorrindo. Seu rosto adquirira uma estranha dureza e
rigidez. Os olhos fitavam Rhodan sem o menor sinal de embaraço.
— De
início indaguei se o gerador de campo de refração por nós
construído funcionava perfeitamente, já que em Tats-Tor falhara de
forma tão lamentável. Da resposta do computador depreende-se sem a
menor sombra de dúvida que não cometemos qualquer erro e que o
aparelho funciona perfeitamente. Face a isso, naquele dia também
deveria ter trabalhado. Acontece que não funcionou! Portanto, devia
haver algum erro.
Rhodan
acenou com a cabeça, mas não interrompeu o físico, embora este
fizesse uma pausa. Depois de alguns segundos, Erb prosseguiu:
— Resolvi
procurar o erro em outro lugar, e para isso recorri a Gustavo.
Fornecida com um teor de probabilidade de noventa e sete por cento, a
resposta diz que não existe qualquer erro.
— Não
houve nenhum erro? — perguntou Rhodan em tom de espanto. —
Explique-se melhor.
— Bem,
na verdade existe um erro, mas este é de natureza puramente teórica.
O erro que cometemos foi o de supormos que, depois da superposição
das duas dimensões temporais, as condições são idênticas às que
se verificam enquanto o processo de superposição está em curso.
Rhodan
fitou Erb. Seus olhos tremiam ligeiramente.
— Faça
o favor de repetir!
Erb
repetiu. Depois manteve-se num silencio cheio de expectativa. Será
que Rhodan chegaria à mesma conclusão que lhe foi fornecida dias
atrás? Se fosse assim, a perfeição lógica do raciocínio estaria
comprovada.
Rhodan
falou devagar:
— Quer
dizer que teremos de construir um gerador de campo de refração que
atenda à variação das condições? Seria um gerador que continue
eficaz mesmo depois que a frente do tempo passar por um mundo...
Erb fez um
gesto afirmativo.
— Perfeitamente;
o problema é este. Gustavo VI calculou que a transferência para o
outro plano temporal só se torna possível durante a superposição,
ou logo após a mesma. Mas se um tempo excessivamente longo tiver
passado depois do processo de superposição, o gerador que possuímos
não conseguirá penetrar no outro plano temporal. E ainda: é
impossível penetrar no outro plano antes que tenha ocorrido a
superposição.
— Compreendo
— disse Rhodan, acenando lentamente com a cabeça e levantando os
olhos. — Acredita que seria possível construirmos um aparelho
desse tipo?
— Sim
senhor; acredito. Basta introduzir certas modificações nos campos
magnéticos superpostos, que produzem o campo temporal. Na essência,
a coisa é muito simples; mas, se o senhor me pedisse que lhe
explicasse, teria de entregar os pontos. Acho que compreende o que
quero dizer...
— Compreendo
muito bem! — disse Rhodan com um sorriso, reclinando-se na
poltrona. Quanto tempo levará para construir o novo gerador? Ou
acredita que poderíamos usar o aparelho que já possuímos?
— Acho
que usar o mesmo GCR não seria conveniente. As modificações
parecem fáceis, mas de fato não o são. Uma modificação do
aparelho seria muito mais difícil que a construção de outro.
Permita que lhe faça um pedido?
— Está
bem, Erb. O senhor poderá exercer quaisquer poderes e dispor dos
recursos financeiros que se tornarem necessários. E não se esqueça
que o que está em jogo não é apenas a vida de seis homens que
penetraram em outro plano temporal, mas também a descoberta de uma
arma capaz de enfrentar o terrível inimigo. As interseções dos
dois planos existenciais estão ocorrendo nos pontos mais diversos do
Universo. Já imaginou o que aconteceria se por algum acaso a Terra
fosse atingida por uma dessas zonas?
Erb
empalideceu, mas logo se levantou e disse em tom resoluto:
— O
senhor pode confiar em mim. Amanhã poderei apresentar-lhe os planos.
A construção demorará alguns meses, mas o projeto será coroado de
êxito.
— Alguns
meses? — repetiu Rhodan. — Isso é muito demorado.
O físico
não contestou essa afirmativa, mas deu os motivos por que a
construção não poderia ser mais rápida. Naquele instante, Rhodan
teve a idéia que decidiria o destino da Via Láctea.
— Preste
atenção, Erb. Quero fazer mais uma pergunta: o tamanho do gerador
de campo de refração exerce alguma influência sobre a segurança
de seu funcionamento? Em outras palavras: Não há dúvida de que um
gerador maior criará uma fresta mais ampla no plano luminoso; acho
que sobre este ponto estamos de acordo. O que quero saber é o
seguinte: Esse fator afetará o trabalho do aparelho, ou o senhor
pode garantir a segurança do funcionamento, mesmo que o gerador seja
maior?
— O
tamanho do gerador é indiferente.
— Excelente!
Nesse caso faça com que a abertura circular na barreira do tempo
tenha diâmetro superior a cem metros.
Erb fitou
Rhodan com uma expressão de pasmo.
— Cem
metros? Isso seria uma coisa enorme. Até agora as frestas luminosas
nunca mediram mais que alguns metros...
— É
possível sob o ponto de vista tecnológico ou não é?
— Não
há dúvida. Todos os componentes teriam de ser reforçados. Apenas
receio que o peso do aparelho seria tamanho que o transporte para
Tats-Tor e sua montagem naquele planeta...
— Um
instante! — interrompeu Rhodan com um sorriso. — É bom que não
haja qualquer mal-entendido. O novo gerador não será retirado da
nave. Quero que seja colocado na Drusus e lá permaneça para sempre.
Será um equipamento constante da nave, que poderá ser usado a
qualquer hora e transportado a qualquer lugar. É possível nessas
condições?
Erb
começou a compreender quais eram as intenções de Rhodan. Fez um
gesto afirmativo.
— É
possível, e mesmo assim não levarei mais que dois ou três meses. O
senhor terá um gerador capaz de criar uma fresta de luz diante da
Drusus, que lhe permitirá a qualquer momento enviar um cruzador ao
outro plano existencial.
— É
exatamente o que pretendo fazer — disse Rhodan com a maior calma.
*
* *
Rhodan
continuava a fitar o planeta que ocupava o centro da tela. Seus
pensamentos voltaram ao presente. Aquilo que tinha diante de si era
Tats-Tor, um mundo despovoado pelos desconhecidos vindos de outro
tempo. Se havia uma ligação entre tempo e espaço, a expedição do
Tenente Rous ainda devia estar lá.
No coração
da gigantesca Drusus, jazia o bloco enorme do novo gerador de campo
de refração. Os respectivos controles haviam sido instalados na
cúpula de observação. Dali se poderia olhar exatamente para dentro
da janela luminosa de duzentos metros de diâmetro. Lá embaixo, no
hangar, o cruzador leve Sambo estava preparado para ser retirado da
nave. Seu diâmetro era de cem metros. Portanto, haveria uma
distância de segurança de cem metros entre o envoltório da nave e
os limites da fresta luminosa.
Erb e a
equipe de pesquisas de Terrânia garantiam que o novo gerador seria
capaz de romper a barreira para o outro plano temporal.
A Drusus
continuou a desacelerar e dali a uma hora pousou junto à gazela que
ainda se encontrava em Tats-Tor. Os suportes telescópicos penetraram
profundamente no solo arenoso, até atingirem a rocha. Apesar disso,
os campos antigravitacionais teriam de continuar ligados, pois, do
contrário o peso imenso romperia a rocha e faria a nave penetrar na
crosta do planeta.
Rhodan
saiu da sala de comando e dirigiu-se à cúpula de observação.
Bell, Baldur Sikermann, imediato da Drusus, e Erb já o aguardavam.
Gucky mantinha-se quieto no seu canto; até parecia que nem estava
presente. John Marshall, comandante do Exército de Mutantes,
interrompeu a palestra que vinha mantendo com Sikermann e lançou um
olhar de expectativa para Rhodan.
— Chegou
a hora — disse Rhodan com a voz embaraçada.
Esperava
este momento por meses e removera todas as dúvidas sobre o êxito do
empreendimento, mas agora, poucos minutos antes da decolagem, os
receios surgiram em sua mente.
O que se
pretendia fazer não era realizar um avanço no espaço, que já não
infundia pavor à Humanidade. Desta vez, tratava-se de uma incursão
pelo tempo. E Rhodan não pôde deixar de confessar que, mesmo para
ele, o tempo continuava a ser um fator desconhecido.
Além de
ser um fator desconhecido, era um fator perigoso.
O
Primeiro-Tenente Sikermann ficou em posição de sentido.
— A
Sambo está pronta para decolar — anunciou — Toda a tripulação
está à bordo, inclusive Atlan e Crest.
— Também
os mutantes de que podemos dispor — acrescentou Marshall — exceto
eu e Gucky.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Bell
assumirá o comando da Drusus e manterá todos os receptores
constantemente em recepção. Mesmo os de hiper-rádio. Não acredito
que seja possível estabelecer comunicação através da barreira do
tempo, mas não podemos deixar de considerar qualquer chance de
manter contato. Há outro detalhe.
Rhodan
dirigiu-se a Bell e fitou-lhe os olhos.
— Ninguém
sabe quanto tempo se passará no plano normal enquanto a Sambo
permanecer na dimensão estranha. Por isso é indispensável que a
Drusus nos espere neste lugar, mesmo que a incursão dure semanas ou
até meses. Entendido, Bell?
— Entendido,
Perry — respondeu Bell com uma voz extraordinariamente macia. —
Esperaremos, aconteça o que acontecer. E o gerador de campo de
refração permanecerá ligado.
— Aliás
— disse Erb em tom objetivo — trata-se antes de um gerador de
campo de curvatura, pois o campo luminoso é fortemente curvado. De
outra forma a penetração no outro plano temporal não será
possível, a não ser no momento em que o mesmo entra em contato com
o nosso. É uma pequena diferença, mas não deixa de ser importante,
motivo por que temos de mencioná-la.
Rhodan
fitou Erb; um sorriso surgiu em seus lábios.
— Já
que o senhor costuma ser tão meticuloso, não deveríamos ter o
menor receio em confiar nossa vida ao seu aparelho, Mr. Erb.
— Não é
isso que me preocupa — respondeu o físico com a voz tranqüila. —
O senhor pode confiar plenamente no novo gerador de campo de
curvatura. O que me preocupa são as relações entre nosso Universo
e o outro plano temporal. Até aqui o tempo era considerado a única
constante existente no Universo. E hoje sabemos que nem mesmo o tempo
é constante.
— Concordo
plenamente com o senhor. — disse Rhodan com a voz muito séria. —
Todos sabemos que não podemos perder tempo. Mas é um risco que
devemos assumir, a não ser que queiramos ser varridos um belo dia
pelo outro plano temporal.
Olhou para
o relógio.
— Acho
que poderemos dar início à experiência em cinco minutos.
Fitou a
superfície sem vida do planeta. À sua direita encontrava-se a
gazela abandonada, que trouxera o Tenente Rous há mais de sete
meses. Os projetores do gerador de campo de curvatura estavam
dirigidos para um ponto situado à esquerda e à frente da nave de
reconhecimento. Este ponto poderia ser visto também de bordo da
Sambo, que aguardava um seu hangar, pronta para decolar. As
escotilhas já estavam abertas, motivo por que a Sambo poderia
abandonar a qualquer momento o ventre gigantesco da Drusus.
— Vamos
embora — disse Perry.
Bell e Erb
olharam-se. Estenderam a mão para Rhodan.
— Boa
sorte, Perry — disse Bell com a voz abafada. — Confie em nós.
— O
senhor voltará — disse Erb e passou a dedicar a sua atenção aos
controles do aparelho do qual dependia o destino de todos.
— Obrigado
— respondeu Rhodan e fez um gesto para Sikermann, Marshall e Gucky.
Depois
saiu a passo firme da sala de observação e dirigiu-se ao corredor.
Marshall seguiu-o. Sikermann saiu por último.
Gucky
escorregou devagar do sofá para o chão, caminhou lentamente em
direção a Bell e segurou-lhe a mão.
— Tomara
que não demore demais até que nos reencontremos — disse com a voz
comovida, ao mesmo tempo que fazia um gesto para Erb. — Não sei se
no outro plano temporal as cenouras são tão gostosas como a bordo
da Drusus. Mas garanto que as cenouras não são a única coisa que
me fará ansiar pelo regresso à Drusus. Você também está incluído
entre essas coisas.
Por
estranho que possa parecer, Bell permaneceu sério e pacato.
— Cuide
bem do chefe, Gucky — pediu e bateu suavemente no ombro de seu
amigo peludo. — Fique sempre perto dele e proteja-o. Acho que nunca
senti tanto ao vê-lo partir como desta vez. Não se deve acreditar
em pressentimentos, mas...
— Não
se deve mesmo! — concordou o rato-castor e estendeu a mão para
Erb. — Tomara que essa sua caixa de curvatura realmente funcione!
Gucky
tratava todo mundo por você, fosse qual fosse o nome ou a graduação.
E ninguém levava isso a mal, já que o rato-castor gozava de certos
privilégios.
— Vai
dar certo — disse Erb, colocando a mão sobre os controles do
gerador de campo de curvatura. — Está na hora de subir a bordo da
Sambo. O campo será ligado exatamente dentro de dois minutos.
— Chegarei
antes de Rhodan — asseverou Gucky, concentrou-se e saltou.
Ou melhor,
tornou-se invisível de um instante para outro, e no mesmo momento
materializou-se no hangar, dando tremendo susto num jovem cadete que
se dirigia à comporta.
Rhodan e
Sikermann entraram juntos no hangar, seguidos de perto por Marshall.
O hangar
era um recinto gigantesco, pois afinal abrigava vários cruzadores
esféricos de cem metros de diâmetro. Aliás, o lugar por onde dali
a poucos minutos o cruzador partiria não era propriamente uma
comporta. As paredes deslizaram, criando a abertura. Um pedaço do
envoltório da nave havia desaparecido. Lá fora, o deserto
escaldante do planeta morto estendia-se diante deles.
Logo
depois, outro mundo passaria a existir naquele deserto, um mundo
invisível, oculto pela barreira do tempo. Era um mundo em que toda
vida corria num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento. Era
praticamente só isso que se sabia.
Sem dizer
uma palavra, Rhodan entrou na Sambo e sentou-se na poltrona do
co-piloto. Na tela, bem à sua frente, via-se o deserto de Tats-Tor.
O centro da tela mostrava o céu. Era ali que deveria surgir a
redonda janela luminosa, por onde penetrariam na outra dimensão...
Sikermann
sentou-se ao lado de Rhodan. Suas mãos grossas seguraram firmemente
os controles. Seu rosto não exprimia nada, mas Rhodan sentiu os
pensamentos exaltados de seu piloto.
Gucky não
foi aos recintos destinados aos mutantes. Preferiu passear pela sala
de comando, onde se acomodou sobre um leito, encostando-se à parede.
Seus olhos inteligentes observavam tudo que Rhodan e Sikermann
faziam. Seus nervos e sentidos estavam em estado de alerta, e sua
concentração fora regulada para o grau de alarma. A qualquer
momento poderia utilizar suas incríveis capacidades
parapsicológicas, caso isso se tornasse necessário.
O som
estridente do primeiro sinal de decolagem encheu todos os
compartimentos da Sambo. As escotilhas fecharam-se automaticamente,
isolando o interior da nave do mundo exterior, O vácuo do espaço
cósmico não representaria qualquer perigo; mas o tempo...?
O segundo
sinal soou.
Rhodan
olhou para as mãos musculosas de Sikermann, que aguardava o comando
de partida. Depois disso lançou os olhos para a tela de imanem. Tudo
estava como antes. A gazela jazia no deserto, quieta e abandonada. O
céu estava límpido; não havia nuvens.
Com a mão
direita, Rhodan ligou o telecomunicador e o radiorreceptor, que o
manteria em contato com a sala de comando da Drusus. Os homens que se
encontravam a bordo da Sambo também o ouviriam. Se houvesse algum
imprevisto, ninguém ficaria na incerteza.
— Bell!
Estamos prontos para decolar. Como estão as coisas por aí?
O rosto de
Bell surgiu na tela.
— Faltam
sessenta segundos, Perry! Espere até que veja o círculo luminoso.
— Naturalmente.
O que está pensando neste instante?
Bell fez
uma careta.
— Nem
queira saber!
— O que
poderá acontecer, se não voltarmos depressa? — adivinhou Rhodan.
— Enquanto Erb conseguir manter ligado o gerador de campo de
curvatura, poderemos voltar assim que quisermos. E logo que
encontrarmos Rous...
— Quanto
tempo demorará?
Rhodan não
respondeu. Quando olhou para o relógio, Bell disse:
— Faltam
dez segundos. Veremos se esse negócio funciona.
— Funcionará!
— disse Erb, que se mantinha mais afastado.
Rhodan não
o via.
Os dez
segundos passaram-se com uma lentidão infinita.
— Erb
está ligando o aparelho — anunciou Bell.
Rhodan
tirou os olhos da pequena tela e voltou a fitar a grande. O céu que
se estendia por cima do deserto continuava límpido, mas em vários
lugares surgia um brilho pálido. Parecia uma miragem surgida do
nada, uma ilusão projetada no ar. Embora o fenômeno surgisse em
lugares diferentes, o conjunto formava um círculo.
E era um
círculo que tinha pouco mais de duzentos metros de diâmetro.
O terceiro
sinal de decolagem soou no interior da Sambo.
Rhodan não
deixou que nada desviasse sua atenção.
O círculo
luminoso tornava-se cada vez mais nítido; seus contornos iam se
definindo. Dali a vinte segundos, não apresentava mais a menor
falha. Era perfeitamente visível e emitia um forte brilho,
destacando-se contra o céu límpido. Mas, na parte abrangida pelo
círculo, o céu estava modificado.
Só agora
Rhodan percebeu que, no interior da janela luminosa, o céu era
avermelhado. Nuvens imóveis cobriam este céu avermelhado — nuvens
que antes não estavam lá.
Eram as
nuvens do outro plano temporal.
— Pronto!
— disse Rhodan e fez um sinal para Sikermann. — Decole com a
aceleração máxima para a atmosfera. Dentro de dez segundos.
Os atos de
Sikermann foram automáticos. Cada pessoa que se encontrava a bordo
da Sambo sabia o que devia fazer.
A
extremidade inferior do fenômeno luminoso pairava vinte metros acima
do deserto de Tats-Tor. Ninguém poderia atingi-lo sem uma máquina
voadora.
Dez
segundos depois de Rhodan ter dado a ordem de comando, a Sambo saiu
do ventre da Drusus, precipitando-se na atmosfera do planeta
Tats-Tor. Passando rente ao solo arenoso, a nave foi ganhando
velocidade e se dirigia para o campo de curvatura luminoso, que
separava os dois universos.
Bell e Erb
viram a Sambo penetrar na janela luminosa, e desaparecer
imediatamente.
No mesmo
instante, cessaram-se todos os sinais emitidos pelo cruzador ligeiro.
O rosto de Rhodan desapareceu da tela, como se tivesse sido apagado
por um punho invisível. Neste mundo, Perry Rhodan, o Exército de
Mutantes e a Sambo já não existiam.
E no outro
inundo?
Bell fitou
a tela vazia com os olhos semicerrados.
A longa
espera teve inicio,..
2
Continuavam
a viver no platô mais elevado, que ficava junto às cavernas dos
“uuuns”.
Na última semana, o sol caminhara de forma quase imperceptível, mas
o relâmpago que se mantinha no céu, congelado pela lentidão do
tempo, já havia desaparecido. Durante quarenta horas mantivera-se
inalterado entre as nuvens e o solo.
O Tenente
Rous e os cinco homens que se encontravam em sua companhia esperavam
impacientes que lá na planície voltasse a aparecer a pequena janela
luminosa, que permitiria seu regresso ao Universo normal. Mas
esperaram em vão.
O encontro
da K-7 e de sua tripulação, desaparecida há meses, representava um
raio de esperança. Mas o fato de que poucos minutos se haviam
passado para o comandante da nave auxiliar, enquanto Rous vivera
cerca de três meses no Universo normal, não era muito animador.
A esfera
de sessenta metros de altura mantinha-se no platô, à sombra das
rochas. Lá em cima, sobre o cume da montanha, ainda se via a nuvem
de fumaça que era o prenúncio de irrupção vulcânica. Mas pelos
seus cálculos essa irrupção só se verificaria dali a alguns anos.
Além
deles não havia nenhuma vida naquele planeta, ao qual Rous dera o
nome de mundo de cristal. Ou melhor, não havia nenhuma vida
perceptível, já que aqui tudo se movia setenta e duas mil vezes
mais devagar. Tudo estava submetido às leis do outro plano temporal.
Tudo!
Só
mediante a criação de campos antigravitacionais e o deslocamento a
uma velocidade superior à da luz — que aqui era de cerca de quatro
quilômetros por segundo — os seres e objetos podiam ser trazidos
ao plano temporal dos homens. Pois era somente a manutenção de sua
dimensão temporal que os distinguia face à ausência de vida.
O físico
Fritz Steiner e o biólogo Ivã Ragow se mantinham em ponto mais
afastado do platô. André Noir, o hipno, estava próximo deles.
Entre os terranos, um estranho ser estava agachado no solo e
executava movimentos absolutamente normais. Era um dos “uuuns”
trazidos para o plano temporal dos homens, para fins de estudo. Noir
conseguira estabelecer uma espécie de comunicação com esse ser.
Criava-lhe uma imagem mental, e dava a entender o que desejava saber.
A palestra
era praticamente unilateral, mas foi suficiente para proporcionar uma
surpresa.
Fred
Harras lidava com o hipertransmissor da K-7, que também fora trazido
ao seu plano temporal. Expedia incessantemente o texto de socorro, na
esperança absurda de que alguém pudesse ouvi-lo.
Josua, o
meteorólogo, assumira seu posto junto ao lugar em que devia estar a
gazela, isto é, na outra dimensão. Foi ali que haviam penetrado na
dimensão estranha, e se um dia surgisse uma possibilidade de voltar,
a mesma deveria tornar-se visível naquele lugar. A pequena janela
luminosa desaparecera há oito dias. Há oito dias terranos,
evidentemente. Se os cálculos fossem corretos, um dia durava nada
menos de duzentos anos nesse mundo do “tempo
parado”.
— Acabo
de perguntar por que seus companheiros nos atacaram — disse Noir,
com uma expressão pensativa no rosto. — Se interpretei
corretamente os sinais que emitiu em resposta à minha pergunta, quer
negar tudo. Diz que não tem nada a ver com o ataque.
— Está
mentindo! — exclamou Steiner, examinando atentamente a estranha
criatura que se mantinha entre eles.
O ser
devia ter um metro e meio de altura e seu aspecto lembrava o de uma
gigantesca lagarta dotada de tocos de asas reluzentes. Logo abaixo da
cabeça de inseto, havia duas presas. Os outros membros podiam ser
designados como pés.
— É
claro que tem receio de ser responsabilizado pelo ataque —
completou Steiner.
— Talvez
esteja dizendo a verdade — disse Ragow, olhando para além do
“uuum”. — Os juízos apressados já deram origem a muitas
injustiças.
— Acontece
que neste mundo não existem outros seres inteligentes — disse
Steiner, insistindo em sua tese.
Se Noir
não tivesse intervindo na discussão, teria surgido outro debate
acalorado entre os dois cientistas.
— Por
favor, cavalheiros! Tanto seria prejudicial emitirmos um juízo
apressado como negarmos a gravidade da situação. É bem verdade que
não encontramos nenhum ser inteligente no mundo de cristal, com
exceção das grandes lagartas. Mas daí não se pode concluir que
realmente não existam outras inteligências. Para falar com
franqueza, acho um tanto estranha a idéia de que justamente estes
animais nos tenham atacado, ainda mais com o auxílio de dispositivos
de retardamento controlado, que nos tornaram visíveis aos seus
olhos. Seja como for, uma coisa é certa: não estamos em segurança
neste lugar, embora tudo se mova setenta e duas mil vezes mais
devagar que na Terra.
O Tenente
Rous atravessou o platô, caminhando em sua direção. Mostrava-se
preocupado.
Já
montamos o hiper-receptor — disse, lançando um olhar desconfiado
para o “uuum”. — Por enquanto Harras não obteve qualquer
resposta às suas mensagens. Por isso podemos ter certeza que só nós
estamos no plano temporal estranho.
— Será
que os “uuuns” não estão captando nossa mensagem? — perguntou
Steiner.
Rous deu
de ombros.
— Pensei
que o senhor já soubesse. O prisioneiro não lhe deu nenhuma
resposta a essa indagação? É perfeitamente possível que os
aparelhos de rádio por eles usados sejam totalmente diferentes.
— Este
sujeito é estúpido! — disse Steiner em tom indignado. — Afirma
que o ataque veio de outro lado.
Noir
ergueu-se lentamente.
— Quer
saber de uma coisa, tenente? — disse, cruzando os braços sobre o
peito. — Tenho a mesma impressão de Ragow; acho que a pista que
estamos seguindo é falsa. Os “uuuns”, que é o nome que lhes
damos, não são os verdadeiros donos desse mundo.
Rous
ergueu as sobrancelhas. Steiner resmungou em tom de surpresa,
enquanto Ragow fazia um gesto de assentimento.
— As
verdadeiras inteligências deste plano temporal são diferentes —
prosseguiu Noir. — Não tenho certeza, mas acontece que esta
lagarta compreende o que lhe quero dizer. Suas reações permitem a
conclusão bastante segura de que está tão espantada quanto nós em
virtude do ataque. Receio que estejamos perdendo nosso tempo,
tenente. É como se algum astronauta que pousasse na Terra quisesse
interrogar os cães ou as vacas sobre a situação política de nosso
planeta. — disse Rous, lançando um olhar mais atento para a
lagarta. — O Senhor quer dizer que a ameaça vem de outro
lado.
— Exatamente.
Para os desconhecidos o tempo passa mais devagar, mas não deixa de
passar. Tenho certeza de que já prepararam outro ataque contra nós.
Não se esqueça que aquilo que para eles representa um segundo para
nós corresponde a vinte horas.
— Quer
dizer que desde quando nos encontramos aqui apenas se passaram uns
dez segundos — disse Rous em tom pensativo. — Se considerarmos
que já houve um ataque, teremos de concluir que a reação das
inteligências deste mundo é extremamente rápida. É possível que
nosso fator de conversão não seja cem por cento exato, mas não
existe a menor dúvida de que representa uma aproximação bastante
razoável. Quer dizer que temos de contar com a possibilidade de que
o novo ataque não demorará. O que podemos fazer para proteger-nos
contra esta investida?
— Somos
mais rápidos que eles — disse Steiner. — Poderemos desviar-nos.
— Neste
plano temporal, a velocidade relativa do som é de meio centímetro
por segundo — ponderou Rous. — Já sabemos que o campo energético
defensivo permite que, no interior desta atmosfera, atinjamos a
velocidade da luz. E essa velocidade sempre chega a quatro
quilômetros por segundo. Nestas condições, a monobra de desvio não
constitui nenhum prazer. Um belo dia conseguirão atingir-nos.
Antes que
alguém pudesse responder, o minúsculo receptor que Rous trazia no
pulso emitiu um zumbido. Era o aparelho por meio do qual os homens se
mantinham em contato.
Rous
comprimiu um botão e falou para dentro do minúsculo microfone:
— Quem
é?
— Josua!
— disse o africano, que se encontrava a uns cem quilômetros dali.
— A janela luminosa voltou. Mas...
Rous teve
a impressão de que levara um choque. Por um instante tudo começou a
girar diante dos seus olhos.
— O quê?
— perguntou em tom de espanto. — A janela voltou?
— Sim;
mas é maior. Tem uns duzentos metros de diâmetro.
Rous fitou
Steiner, Ragow e Noir.
— Vamos.
Depressa! Para a K-7. Colocaremos os trajes arcônidas arcônidas.
Iremos imediatamente para onde está Josua.
Voltando a
falar para dentro do microfone, disse:
— Iremos
já, Josua. Mantenha-nos informados. Permanecerei em recepção.
Os
pensamentos em Rous precipitaram-se. Seria impossível decolar com a
nave auxiliar, pois esta não fora trazida de volta ao plano temporal
normal. Sua massa imensa estava submetida às leis naturais desse
plano temporal, e se tornava praticamente imóvel.
Não
teriam outra alternativa senão levar os tripulantes, um por um, com
os trajes arcônidas, em direção à janela luminosa. E, para
garantir o funcionamento do gerador de campo de refração...
Subitamente
as idéias de Rous estacaram.
— O que
foi que Josua disse? Duzentos metros?
Só agora
Rous começou a compreender que uma coisa tremenda devia ter
acontecido. O que abrira o caminho de volta não era o velho gerador,
mas outro, completamente novo. A janela pela qual tinham vindo era
muito menor.
Perplexo e
cheio de esperanças absurdas, foi atrás de Steiner, Ragow e Noir,
que já corriam em direção à K-7. Nem viu que a lagarta-gigante o
seguia agilmente.
Toda sua
atenção estava voltada para a voz de Josua. A voz saída do pequeno
alto-falante do aparelho que Rous trazia no pulso já não era tão
forte, mas continuava perfeitamente compreensível.
— É
inacreditável! Uma nave esférica; só pode ter sido uma nave
esférica. Passou em alta velocidade pela janela luminosa. Está
desacelerando fortemente. A altitude é de uns trezentos metros! —
admirava-se Rous.
“Uma
nave esférica! Só poderia ser Rhodan?”,
pensou o tenente e sentiu-se dominado pela alegria. “Estamos
salvos! Rhodan não nos abandonou.”
Correu o
mais depressa que pôde em direção à rocha sob a qual Harras havia
instalado sua estação de rádio. O pequeno aparelho já havia
captado a voz de Josua. Quando Rous chegou, Já estava a par.
— Passe
à faixa normal! — gritou Rous. — Chame Rhodan e ligue à
recepção.
Enquanto
isso, Steiner e Ragow alcançaram a K-7 e alarmaram a tripulação,
que não desconfiava de nada.
Dali a
alguns segundos, tudo pareceu estar de pernas para o ar...
Noir logo
voltou a andar a passo lento. Sabia que agora os segundos já não
contavam. Por que apressar-se, se os outros estavam cuidando de tudo?
Sem apressar-se, foi para junto das jaulas em que estavam presos os
“uuuns”.
Eram ao todo cinco exemplares, que não se encontravam em sua
dimensão temporal originária, e já viviam tão rápido como os
terranos.
— “Uuum”?
— murmurou interrogativamente o mutante.
Subitamente
Noir teve certeza de que essas lagartas não eram os verdadeiros
donos da dimensão estranha. Era o que indicava sua reação diante
dos fatos. Nenhum ser inteligente que dominasse um universo adotaria
o procedimento dos “uuuns”.
Só mesmo criaturas subalternas agiriam assim.
Seriam ou
servos ou escravos; em hipótese alguma eram senhores.
Rous
saltou para junto de Harras quando o receptor começou a funcionar. O
zumbido monótono do alto-falante foi interrompido. No mesmo
instante, os homens que se encontravam no platô ouviram a voz forte
e distorcida que naquele momento parecia uma verdadeira tábua de
salvação.
— Aqui
fala o cruzador ligeiro Sambo, comandado por Perry Rhodan. Recebemos
sua mensagem. Transmita um raio vetor. Permaneçam em contato.
Harras
soltou um grito de júbilo, abraçou o Tenente Rous e bateu em suas
costas.
Uma semana
de espera angustiosa e ininterrupta havia chegado ao fim. Dali a
pouco
deixariam
de
ser
prisioneiros
do
tempo e voltariam ao seu Universo.
Rous
dirigiu-se a Steiner, que viera correndo da K-7.
— E
agora, tenente? — perguntou o físico. — Vamos colocar os trajes,
ou esperaremos até que sejamos encontrados? Talvez seria conveniente
anunciar
nossa posição ou transmitir sinais goniométricos.
— Harras
já
está
cuidando
disso
—
disse Rous para tranqüilizá-lo. — Recolha os
prisioneiros
“uuuns” juntamente
com
Noir e Ragow. Vamos levá-los. Nossos telepatas conseguirão extrair
de sua mente o segredo que cerca os atacantes. A K-7 será deixada
para trás. Assim que Rhodan chegar, não poderemos perder tempo!
Steiner
pôs-se a rir. Rous sentiu que apenas se tratava de uma reação
provocada pela sensação de alívio e alimentada pela tensão
inacreditável da última semana. Durante sete dias haviam sido
prisioneiros do tempo.
— Não
poderemos perder tempo! — repetiu Steiner entre risadas; não
conseguia controlar-se. — Qual é o tempo a que se refere?
Um sorriso
discreto surgiu no rosto de Rous; preferiu não responder à pergunta
do físico.
Na
verdade, não saberia o que responder.
*
*
*
No momento
em que a Sambo atravessou a janela que dava para o outro plano
temporal, Rhodan perdeu o contato com a Drusus. O rosto de Bell
desapareceu das telas como se nunca tivesse estado lá. Os sinais de
rádio cessaram. O céu modificou-se. ficou vermelho, com uma ligeira
tonalidade violeta.
Imediatamente
Rhodan ouviu palavras distorcidas ditas em inglês. Com um movimento
rápido, corrigiu a sintonização e ouviu o pedido de socorro da
expedição desaparecida.
Suspirou
aliviado.
“O
Tenente Rous e seus homens estão vivos!”,
conjeturou surpreso.
Respondeu
rapidamente, a fim de estabelecer contato. Assim que o receptor
indicou a direção do raio vetor, a Sambo voltou a acelerar.
Nesses
segundos de tensão, o rato-castor Gucky mantinha-se sentado no sofá
e procurava captar pensamentos estranhos. Para ele, a distância não
fazia a menor diferença. Por isso não era de admirar que dali a
pouco sua voz aguda anunciasse:
— O
Tenente Rous está passando relativamente bem. Os membros da
expedição estão em perfeitas condições. E os homens da K-7 não
dão sinal de terem sofrido qualquer dano. Além disso...
Rhodan,
que ouvira meio distraído, estremeceu por dentro. Interrompeu Gucky
em tom áspero.
— O
que foi que você disse? Os homens da K-7? O que quer dizer com isso?
Faz mais de um ano que a K-7 desapareceu.
Gucky
empertigou-se. Perdeu um pouco de sua atitude indolente.
— O
Tenente Rous encontrou a K-7. A tripulação foi trazida de volta da
outra dimensão temporal por meio de um método especial,
descoberto
por
Ragow
ou
por
Steiner. Pelo que deduzo dos pensamentos dessa gente, para a K-7
passaram-se exatamente dois minutos, embora há sete meses o primeiro
encontro com os invisíveis já datasse de mais de quatro meses.
— Receio
—
disse
Sikermann
sem
muito entusiasmo — que não seremos capazes de estabelecer leis
universais sobre as relações entre os diversos tempos. É bem
possível que até conosco se verifiquem certas distorções da
dimensão temporal.
— Não
enfeie o diabo mais do que ele é — pediu Rhodan. — Siga o raio
vetor e procure pousar perto do Tenente Rous. Gucky, continue a
investigar os pensamentos dos desaparecidos, para que não tenhamos
de perder tempo em explicações quando pousarmos. Acho que não
poderemos perder um segundo, pois do contrário Bell poderá morrer
de ansiedade.
Compreenderam
o que queria dizer, e também compreenderam que estava falando muito
sério. Se dois minutos equivaliam a três meses, o que não se diria
se tivessem de passar alguns meses nessa dimensão? Sabiam que não
existia qualquer padrão por meio do qual pudessem ser determinadas
as distorções, pois a experiência lhes ensinara que esta variava
bastante.
Paciência...
Rhodan
lançou os olhos para a planície imobilizada. Viu os rios reluzentes
e cristalinos e as ondas imobilizadas em meio ao movimento. Parecia
que lá no horizonte estava chovendo, mas algumas horas ou até dias
se passariam até que os pingos de chuva atingissem o solo. Num
cálculo ligeiro, avaliou em dez centímetros por hora a velocidade
da queda.
O Tenente
Sikermann disse em meio ao silêncio:
— Os
instrumentos registram uma solicitação bastante intensa dos campos
energéticos. O que será?
Rhodan
lançou um ligeiro olhar para as escalas. As respectivas posições
foram gravadas em sua memória quase fotográfica, e foi assim que
dali a poucos segundos pôde responder.
— É
a
resistência do
ar,
Sikermann. Por aqui tudo obedece às leis do respectivo plano
temporal, inclusive a atmosfera. Em termos relativos, estamos
cortando o ar a uma velocidade correspondente a dez mil vezes a do
som. Se não fossem os campos defensivos, a nave já teria entrado em
combustão. De qualquer maneira convém desacelerar, tenente. Daqui a
pouco deveremos chegar.
Os sinais
goniométricos tornaram-se mais intensos. Dali a alguns segundos,
Rhodan viu a K-7 imóvel sobre o platô. Minúsculas figuras corriam
de um lado para outro. Eram os membros da expedição desaparecida, e
os tripulantes da nave auxiliar, que desaparecera há tempos em
Mirsal.
Um minuto
depois, o Tenente Rous e Rhodan estavam frente a frente.
— Sinto-me
feliz por tê-lo encontrado, tenente. Não podemos perder tempo.
Daqui a pouco o senhor poderá contar o que aconteceu. Gucky e o
telepata Marshall já me forneceram os detalhes mais importantes.
Estou informado. Mande transferir a tripulação da K-7 para a Sambo.
Que prisioneiros são estes? Parecem lagartas.
— Nós
os chamamos de “uuuns”,
porque seus gritos, modificados pela dilatação do tempo, tinham
esse som. De início pensávamos que fossem as inteligências do
outro
plano
temporal,
mas
posteriormente
Noir desenvolveu outra teoria. Acha que são os servos ou escravos
dos verdadeiros donos deste mundo.
— Quer
dizer que os “uuuns”
não são os verdadeiros donos desse mundo — disse Rhodan com um
ligeiro sorriso. — Faço votos de que um dia possamos travar
conhecimento com os verdadeiros.
Nem
desconfiava de que este dia estava muito próximo.
— Devemos
esperar
a
qualquer
momento
um novo ataque desses seres — disse Rous em tom insistente. — Os
inimigos já tiveram tempo para preparar-se. Há poucos dias nós os
rechaçamos e destruímos sua nave de observação.
— Nave
de observação? — perguntou Rhodan.
— Perfeitamente;
aos seus olhos somos invisíveis — explicou Rous em tom apressado.
— Nossos movimentos são tão rápidos que se tornam
imperceptíveis. Por isso pegaram uma pequena nave auxiliar e nela
montaram dez câmaras que captavam nossa imagem. A mesma era gravada
em filmes ou fitas de vídeo e retardados. Na décima câmara eles
nos viam tal qual realmente somos. Estudando os destroços, chegamos
a esta conclusão.
— Poderíamos
fazer o contrário, se bem que isso seria bem mais difícil — disse
Rhodan com um sorriso.
O rosto de
Perry voltou a tornar-se sério.
— Acha
que poderão usar novamente o aparelho de retardamento para
atacar-nos?
— Não
tenho a menor dúvida. — Rous acenou com a cabeça, mas subitamente
ficou
calado,
pois
junto
às
jaulas
dos
“uuuns”
houve um tumulto. Alguém gritou algumas palavras, mas Rous e Rhodan
não conseguiram entendê-las.
— Tome
todas
as
providências
para
que possamos decolar dentro de dez minutos — disse Rhodan. — Não
quero perder mais tempo.
Rous
afastou-se e Rhodan passou a dedicar sua atenção às jaulas, que
também seriam levadas para a Sambo.
Gucky não
deixou de aproveitar o tempo de que dispunha na dimensão estranha,
mesmo que não tivesse recebido ordens específicas para agir.
O
rato-castor logo que descobriu as lagartas gigantes e estabeleceu o
contato telepático. Não conseguiu transmitir seus pensamentos e
desejos aos “uuuns”,
mas pôde ler perfeitamente o que aqueles seres pensavam.
E seus
pensamentos eram bastante elucidativos.
Gucky
agachou-se na frente da jaula. Permaneceu concentrado até que
chegassem os homens que levariam as jaulas para a Sambo.
— Não
os prendam — disse Gucky em tom indignado, saltitando nervosamente
de um lado para outro. — São inofensivos. Os donos da outra
dimensão abusaram deles, Não são as criaturas que vocês pensam.
Houve
certo espanto. Ragow aproximou-se e, durante alguns minutos,
conversou aos cochichos com Gucky. O que este lhe disse confirmou
suas suposições. As lagartas não passavam de servos dos
invisíveis.
Gucky
sentiu-se tranqüilizado quando Ragow lhe garantiu que as lagartas
teriam um tratamento adequado e decente.
Mais de
cinco minutos faltavam até a decolagem da Sambo, e Gucky resolveu
aproveitá-los. Teleportou-se para uma rocha não muito distante e
examinou as cavernas.
Em todos
os lugares encontrou as lagartas imóveis, que ao contrário das
prisioneiras permaneciam em sua dimensão temporal, e não executavam
o menor movimento. Aliás, elas se mexiam, mas seus movimentos eram
setenta e duas mil vezes mais lentos que os de Gucky. Vistas a olho
nu eram imóveis como o granito. E também tinham a dureza do
granito, pois a força da inércia, aumentada setenta e duas mil
vezes, tornava sua pele totalmente insensível.
Havia
outra coisa submetida às leis naturais dos dois planos existenciais
que se cortavam neste ponto.

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