quarta-feira, 21 de novembro de 2012

P-028 - Cilada Cósmica - K. H. Scheer




























De modo a facilitar e organizar a leitura  dividi os livros em 3 partes:


parte 1
parte 2
parte 3

P-028 - Cilada Cósmica - K. H. Scheer [parte 3]


Nas telas de visão global do girino, viu-se uma estrela que parecia ter explodido nas imediações. O fenômeno luminoso ofuscante devia se desenrolar no máximo a meio milhão de quilômetros de distância, isto é, a menos de dois segundos-luz.
Os turbilhões horríveis, puramente energéticos, que se formavam nas proximidades de uma nave que volta a penetrar no espaço, não podiam ser vistos, apenas sentidos. Um objeto não protegido, por maior que fosse, estaria irremediavelmente perdido se penetrasse no campo circular atingido pelas influências desencadeadas por uma nave de grandes proporções que sai da transição.
E a nave que tinham diante deles era de grandes proporções. Nas telas de localização ótica, Tiff percebeu um objeto gigantesco, de formato cilíndrico, cuja proa e popa apresentava um arredondamento semi-esférico.
Considerando o tempo que um raio de luz gasta para vencer o percurso, a nave desconhecida devia ter se rematerializado há cerca de dois segundos.
A ampliação ótica trouxe a imagem do objeto estranho para mais perto; via-se perfeitamente o revestimento exterior da mesma.
Chamas começaram a sair da popa da nave. Tratava-se de feixes energéticos de cor violeta, que emitiam uma estranha fosforescência, provando que a nave funcionava com base num mecanismo propulsor de impulsos construído segundo o modelo arcônida, que era capaz de um elevado empenho.
Tifflor levou poucos segundos para digerir essas impressões. Depois foi atingido pelas vibrações extremamente duras do envoltório da nave, transformando-se num montão lamentoso de carne e sangue.
Sua inteligência se revoltou. Surgiram aquelas estranhas vibrações do hiperespaço, que se situam, em parte, na mesma freqüência das emitidas pelo cérebro humano. Tiff gritou para dar vazão à sua angústia. Todos gritavam com as dores de cabeça que surgiam a intervalos regulares. Os segundos se transformavam numa eternidade.
O ruído ensurdecedor e as sacudidelas continuaram. Embaixo da sala de comando, os reatores das usinas de força começaram a uivar. Se não conseguissem manter em nível adequado o suprimento de energia dos campos de defesa, que constituíam a única proteção, ao menos a parte mais débil e menos resistente da nave seria destruída: o elemento humano.
— Santo Deus! — cochichou Tifflor, martirizado. — Isso não! Oh, isso não!

6



Os sensores estruturais dos postos de observação das unidades pesadas não se queimaram, mas foram forçados até o limite máximo de sua capacidade.
Perry Rhodan não aguardou qualquer aviso do hiperespaço. As experiências desagradáveis colhidas em numerosos vôos permitiam-lhe compreender o gracejo de mau gosto que alguém se havia permitido.
Os efeitos da manobra de penetração no espaço não foram sentidos pelas unidades do grupo comandado por Rhodan. Só os sensores estruturais sofreram certos danos.
As três naves estavam bem espalhadas nas proximidades da órbita de Urano. A distância entre elas e a Good Hope-IX era de cerca de três bilhões de quilômetros. Era uma distância muito curta para a transição e muito longa para um vôo a uma velocidade próxima à da luz.
Perry Rhodan, que só a contragosto admitira a possibilidade de um ataque de surpresa através de uma transição de adaptação, via-se na contingência de encarar a mais desfavorável de todas as hipóteses sob a forma de realidade consumada.
Não deu atenção ao praguejar de seu representante. Reginald Bell estava fora de si. Ao ouvir o rugido dos sensores estruturais, deu-se conta de que havia acontecido exatamente aquilo que, ao contrário de Rhodan, previra com a força da evidência.
O inimigo desconhecido preferira não correr o risco de num vôo normal caçar o girino, que quase atingia a velocidade da luz. Uma manobra desse tipo seria loucura rematada, pois todo mundo tinha certeza de que uma batalha espacial travada junto à barreira da luz era extremamente difícil, ou melhor, quase impraticável.
— Ai está! — gritou, superando o rugido dos sensores. — Aproximaram-se num salto ligeiro. Se também dermos um salto nas proximidades, a Good Hope-IX se esfacelará. Não agüentará tanta coisa! Não agüentaria sequer um único cruzador que penetrasse no espaço nas suas proximidades.
Rhodan já compreendera aquilo que Bell acabava de exprimir em voz alta.
Seus dedos tocaram o hipercomunicador. Os cruzadores pesados Terra e Solar System se encontravam numa distância de três minutos-luz, no mesmo plano espacial, nas posições verde e vermelha.
— Rhodan para MacClears e Nyssen. Instruções: Sigam-me em vôo normal e visual. Mantenham o curso exatamente na direção da Good Hope-IX. Saltarei sozinho com a Stardust-III. Aguarde minhas ordens antes de iniciar a transição de curta distância. Em nenhuma hipótese mergulhem ao mesmo tempo. Sairei do hiperespaço a dois minutos-luz da Good Hope-IX. Não há dúvida de que agüentará isso. Fiquem atentos à situação. Fim.
Bell se espantou. Era uma situação improvisada, típica de Rhodan. Os êxitos deste foram devidos unicamente às decisões instantâneas, que esgotavam os limites do possível até a última gota.
Realmente, a Good Hope-IX não correria nenhum perigo se o supercouraçado saltasse do espaço superior para o universo normal a uma distância de dois minutos-luz. Afinal, dois minutos-luz representavam uma distância de cerca de trinta e seis milhões de quilômetros.
Rhodan também poderia ter optado por uma distância de meio minuto-luz. Isso ainda ficaria no âmbito daquilo que a Good Hope-IX era capaz de suportar.
Mas ainda neste ponto Rhodan calculara rapidamente e, num raciocínio instantâneo, pesara todas as circunstâncias. Devia-se contar com certa margem de erro. Nenhum ser pensante do universo e nenhum aparelho automático, por mais aperfeiçoado que fosse, poderia calcular um salto tão complicado com a precisão de um quilômetro. Isso resultaria, quando menos, da inevitável tolerância que tinha de ser admitida nos propulsores e nos campos estruturais. Rhodan tinha de se fixar na distância de dois minutos-luz. Não tinha outra alternativa. Se realizasse um vôo normal, à velocidade da luz, chegaria tarde ao local do ataque. E o fato de que se tratava de um ataque era tão certo como a existência de icebergs na Groenlândia.
Os tripulantes do supergigante de oitocentos metros de diâmetro se puseram a trabalhar. Os dados aproximados, já disponíveis, foram convertidos com uma rapidez espantosa em valores precisos. O imenso cérebro positrônico do couraçado da classe Império deu mostras de sua capacidade.
Apesar disso, demorou cerca de seis minutos até que os dados finais pudessem ser introduzidos no dispositivo automático do hipersalto. Só então a Stardust-III estava preparada para entrar em ação.
— O comandante para todos os tripulantes — soou a voz retumbante vinda dos alto-falantes. — A transição será realizada dentro de vinte e quatro segundos. Esforcem-se para que a recuperação do choque transacional seja imediata. Ninguém deve atirar sem minha autorização. Assumirei o comando pessoalmente. Para a sala de máquinas: preparar a injeção de massa de apoio. Devemos ser um pouco mais rápidos que as outras naves. Atenção. Saltar!
Logo se sentiu o solavanco duro da transição, que rompia as moléculas. A última palavra de Rhodan, ao se apagar, ficou presa em alguma coisa que os hiperfísicos arcônidas costumavam chamar de forma estrutural despadronizada. Só quem dispusesse do saber arcônida poderia transformar esse conceito em dados matemáticos. Os homens da Terceira Potência tinham esse saber.
A imensa Stardust-III, reduzida a um fenômeno luminoso tremeluzente, desapareceu da estrutura espaço-temporal. Os cruzadores pesados preferiram não registrar o salto nos sensores estruturais. O impulso de deslocamento de um gigante desses abalaria um grande setor do espaço.

* * *

Dos robôs arcônidas costumava-se dizer que seus cérebros mecânicos eram supersensíveis. Ao que parecia, a opinião não era verdadeira: foram justamente esses robôs os primeiros a se recuperarem do choque.
Quando homens como Conrad Deringhouse e o sargento Rous, ainda semiconsciente, estavam pendurados nos cintos de segurança, os tripulantes mecânicos já haviam começado a trabalhar. A outra nave já se encontrava muito próxima. Os instrumentos de bordo revelaram que a distância não ultrapassava um segundo-luz. Eram cerca de trezentos mil quilômetros, mas para os cosmonautas de Rhodan isso não passava de uma insignificância.
Uma arma de impulsos vencia essa distância em 1,23485 segundos. Portanto, não representava uma verdadeira distância, mas uma aproximação muito perigosa, que praticamente não deixava margem para qualquer manobra.
E, o que era pior, a nave estranha desenvolvia praticamente a mesma velocidade. Naturalmente emergira no hiperespaço a uma velocidade que se aproximava da da luz.
O rugido surdo provocado pelos disparos de uma das torres arrancou o major Deringhouse de sua dolorosa apatia. Quando conseguiu enxergar, percebeu, na torre César, que os impactos eram terríveis.
O forte recuo da peça fez com que a Good Hope-IX girasse em sentido contrário ao dos disparos. O giroscópio logo corrigiu o desvio, mas de qualquer maneira se tornou necessário corrigir o desvio de uma fração de um milésimo de grau através de um movimento giratório das torres.
Foi por isso que Deringhouse não pôde comprimir imediatamente os botões que acionavam as armas. O cérebro positrônico ainda não emitira o sinal vermelho.
Com os olhos tensos procurou descobrir os efeitos do impacto. A nave desconhecida, que o amplificador fazia aparecer com o tamanho de uma mão humana, mostrou uma reação extremamente violenta.
Nos campos energéticos surgiu uma incandescência apavorante. Não havia dúvida de que a violência do impacto fizera girar a popa, muito embora o raio térmico propriamente dito evidentemente não conseguira romper os campos energéticos.
Mas os sinais do impacto eram tão desastrosos que Deringhouse soltou uma longa exclamação.
Seus olhos se estreitaram. A pontaria automática deu sinal de fogo. Todas as lâmpadas vermelhas se acenderam.
O comandante poderia ter tocado todos os botões de uma só vez, usando os dez dedos. Não era necessário dizer a um piloto da classe de Deringhouse o que sobraria, nesse caso, da nave desconhecida.
Tifflor soltou um grito de decepção quando viu que o major só tocou um dos botões. E nem sequer escolheu o do pesadíssimo radiador de impulsos da calota polar inferior.
Só disparou um dos canhõezinhos situados na saliência da zona equatorial da nave. O barulho foi infernal, mas o efeito forçosamente seria nulo.
Esse canhão era usado quando se queria perguntar gentilmente quem era a outra pessoa.
Apesar do berreiro desesperado dos cadetes, o major Deringhouse conseguiu exibir um sorriso que lhe cobria todo o rosto. Até parecia que não tinha diante de si uma gigantesca nave, de dimensões verdadeiramente impressionantes.
Um raio energético ofuscante, da grossura de um dedo, correu em direção à Good Hope-IX. Face à velocidade que desenvolvia, sua percepção ótica só se tornou possível no último instante.
Os homens encolheram as cabeças. Um gemido surdo foi ouvido nos alto-falantes de capacete.
O que se seguiu foi um verdadeiro fim de mundo. Uma incandescência solar encheu os campos protetores. Verdadeiras tempestades energéticas afetaram a estrutura desses campos. O impacto foi tamanho que os dispositivos de absorção de pressão foram forçados ao máximo de sua capacidade.
Mais uma vez o envoltório esférico da nave se transformou num sino retumbante, que vibrava intensamente. Só depois de alguns segundos, que pareceram uma eternidade, a vibração diminuiu. A incandescência do campo hipergravitacional se apagou.
— As intenções deles são as melhores possíveis — gemeu Rous para dentro do microfone de capacete. — Se essa gente disparar uma salva, nós já éramos.
— Atire, atire logo! — gritou alguém fora de si. Num movimento instantâneo Tiff virou a cabeça. Humpry Hifield, que gostava de bancar o homem forte e superior, estava pendurado no cinto de segurança, sacudido de convulsões.
A Good Hope-IX estava transformada num verdadeiro inferno. E Tifflor estava firmemente convencido de que bastaria Deringhouse disparar em salvas para liquidar o desconhecido.
Por que, santo Deus, por que o major se limitava a brincar com o ridículo canhão da zona equatorial da nave? Qualquer um notaria o absurdo. Afinal, aquele estranho dera a entender de forma inconfundível que suas intenções não eram nada amistosas.
Quando o segundo impacto atingiu os campos protetores da Good Hope-IX, a situação se tornou ainda mais perigosa. E o agravamento veio quando os telegrafistas informaram que os ocupantes da outra nave não davam a menor atenção às mensagens não codificadas que lhes eram dirigidas.
Quando os efeitos do impacto cessaram, o rosto do major Deringhouse apresentava certa palidez. Deu um aceno de cabeça em direção a Rous. Foi tudo. Dali se concluía que os dois homens haviam combinado tudo antes do início da batalha. Se não fosse assim, o sargento não teria concebido a idéia louca de confundir a Good Hope-IX, que afinal tinha um tamanho bem regular, com um simples caça tripulado por um homem.
Ligou os controles manuais. Apenas o dispositivo de absorção de pressão continuou sob controle mecanizado. Até chegou a cuidar pessoalmente dos propulsores e iniciou alguma coisa que chamou de manobra desviacionista.
Se Tiff soubesse que Perry Rhodan em pessoa se encontrava num ponto bem próximo, com uma potente força de combate, talvez poderia compreender a ação turbulenta de Rous. O sargento quis ganhar tempo.
Deringhouse não atirava de verdade; tudo indicava que não tinha interesse em destruir a nave desconhecida. Não se mata uma pessoa da qual se espera obter algum esclarecimento.
A voz de Deringhouse superou o uivo dos reatores, que trabalhavam com um desempenho absurdo.
— Mantenham os cintos atados. É possível que vez ou outra os campos de absorção sejam atravessados. Ninguém deve soltar os cintos.
As estrelas que apareciam na tela transformaram-se em figuras rodopiantes. O curso tomado por Rous não poderia ser calculada por qualquer dispositivo automático, por melhor que fosse. Isso só podia ser feito por um ser pensante, dotado de vida orgânica.
Os feixes de incandescência passavam junto à Good Hope-IX, que dançava de um lado para outro. Só mesmo por acaso poderia ocorrer um impacto.
Tifflor se limitou a observar o rosto tenso de Rous. Resolveu dizer oportunamente ao sargento que, em comparação às suas peripécias, a manobra de aproximação à Lua por ele realizada não passava de uma brincadeira inocente.
Ficou mergulhado nessas reflexões que se afastavam totalmente da situação em que se encontravam. Subitamente o ranger agudo atravessou a nave. Um solavanco apavorante passou pela Good Hope-IX. O trovejar dos propulsores continuou, mas a eles se uniu uma tremenda pressão, que lembrava os tempos primitivos da cosmonáutica.
A pressão subiu rapidamente para 3, 6 e 8 g. Nesse instante a direção manual foi substituída automaticamente pelos controles de segurança.
O cérebro positrônico desligou todos os propulsores. A energia liberada foi transferida para o mecanismo de absorção de pressão. A pressão martirizante diminuiu e logo cessou.
Com um gemido, Deringhouse se ergueu da poltrona. Alguns dos cadetes haviam desmaiado.
Quando os olhos injetados de sangue de Tiff voltaram ao normal, ele apenas conseguiu gemer. A nave desconhecida encontrava-se bem próxima à Good Hope-IX, a essa hora reduzida à impotência.
— Um raio de sucção; que porcaria — soou uma voz nos alto-falantes de capacete. — Conseguiram nos pegar. Rous, dê a potência máxima aos propulsores. Temos de sair do campo de sucção, senão estamos liquidados.
O sargento manipulou desesperadamente as chaves, mas o mecanismo automático já não reagia. A bordo da nave desconhecida devia haver gente muito inteligente. Ao que parecia, sabiam perfeitamente que os controles de segurança se concentravam exclusivamente na estabilidade do campo de neutralização de pressão. Bastava que mantivessem o raio de sucção pouco abaixo do limite máximo para que as máquinas não pudessem ser ligadas.
Uma luminosidade ofuscante passou pelas telas quando os campos protetores das suas naves entraram em contato. Na Good Hope-IX as chaves automáticas de segurança se desligaram, o que provava cabalmente que a nave maior possuía máquinas mais potentes.
No último instante Deringhouse tirou os dedos de cima dos botões de acionamento das armas. Se disparasse a essa hora, o girino estaria liquidado.
A manobra de aproximação do estranho foi executada com uma perícia impressionante. Pilotos muito experientes deviam se encontrar junto aos painéis de controle. O longo corpo da outra nave logo cobriu as telas de estibordo. A bordo da pequena nave esférica quase todo mundo gritava.
Deringhouse correu para a sala de telegrafia. A Good Hope-IX continuava presa ao potente raio de sucção do desconhecido. Nem se poderia pensar numa fuga, a não ser que na outra nave houvesse algum descuido.
— O inimigo está pondo sua nave em movimento — berrou alguém pelo rádio de capacete. — Carrega-nos consigo. A aceleração é muito elevada. Cuidado!
Tiff viu que Deringhouse falava apressadamente para dentro do microfone do grande telecomunicador. Os feixes luminosos da antena direcional estavam em posição paralela. Era o sinal violeta, que indicava que apenas a Terra poderia ser atingida pela transmissão.
A pressão crescente voltou a ser sentida. A aceleração devia ser ligeiramente superior a 500 km/s2. Não havia como pôr as máquinas da Good Hope-IX a funcionar. Rous manipulava as chaves que nem um louco. Era impossível enganar a regulagem positrônica de catástrofe. Estava programada para proteger antes de tudo a vida dos que se encontrassem a bordo da nave. Todo watt que os reatores de energia conseguiram produzir foi destinado aos campos de absorção. Por isso os agregados auxiliares dos propulsores não recebiam a energia necessária ao seu funcionamento.
Deringhouse mal conseguiu se deixar cair num assento que logo se colocou na horizontal antes que a pressão chegasse a um nível perigoso.
Tifflor respirava com dificuldade. Viu bem ao longe o rosto de Rous, que se transformara numa careta. Eram as deformações típicas da musculatura.
Segundo os cálculos de Tiff, a pressão devia atingir 10 g acima do limite de tolerância quando o zumbido ensurdecedor soou nos controles do sensor estrutural. Uma nave enorme devia ter emergido do hiperespaço.
Os rastreadores, que continuavam a funcionar, mostraram a enorme esfera reluzente de um couraçado da classe Império. A Stardust-III havia chegado.
Tiff ouviu o riso entrecortado do comandante. De um instante para outro o cadete compreendeu o jogo de Conrad Deringhouse. Seu grande trunfo era a Stardust-III. Restava saber se Perry Rhodan chegara em tempo.
O veículo espacial do desconhecido entrou numa aceleração tresloucada, o que se tornava fácil em virtude da velocidade já adquirida.
A pressão subiu para 11 g. Logo se sentiu a pressão mortificante da desmaterialização, que Tifflor esperara no subconsciente.
Era claro... a enorme nave injetara novas quantidades de massa de apoio e, juntamente com a Good Hope-IX presa a ela, resolvera executar a manobra de transição.
Os traços do rosto de Rous se desvaneceram. Só restou uma nebulosa pálida sem contornos fixos. Ouviu o chiado e o sussurro suave da transição.
Tudo indicava que uma coisa inesperada e surpreendente acabara de acontecer.

7



Perry Rhodan, que costumava ser chamado de reator instantâneo pelos psicólogos da Força Espacial dos Estados Unidos, compreendeu numa fração de segundo.
Quando a Stardust-III reentrou no universo normal, a nave estranha foi captada imediatamente pelos raios dos rastreadores automáticos e projetada nas telas.
Rhodan levou cerca de um segundo para vencer o choque da rematerialização. Só depois disso se encontrava verdadeiramente presente.
O dispositivo positrônico de medição indicou a distância entre as duas naves: 1,9356 minutos-luz. O salto fora realizado com muita precisão; apenas, gastara-se um minuto a mais para sair do hiperespaço.
O rugido medonho dos gigantescos propulsores irrompeu em meio às reflexões de Rhodan. O engenheiro-chefe, Manuel Garand, agira com muita rapidez e precisão ao cumprir as instruções que lhe haviam sido ministradas antes do salto.
O supercouraçado entrou em movimento. Em poucos segundos atingiu o limite máximo de deslocamento à velocidade inferior à da luz.
A tripulação acordou. A sala de interpretação chamou.
— A nave estranha encontra-se em viagem preparatória do salto. A ocorrência de uma transição é bastante provável.
Perry Rhodan ouviu o primeiro-oficial praguejar em altas vozes. Reginald Bell sabia que os cálculos demorados fizeram com que chegassem pouco depois da hora.
— A Good Hope-IX deve se encontrar num campo de sucção de enorme potência — completou a interpretação. — Não é aconselhável disparar contra a nave.
Rhodan já sabia disso. Agindo rapidamente, sem perder tempo com palavras desnecessárias, experimentou a última possibilidade.
As torres escamoteadas do gigante silenciaram. Em compensação nos pavilhões de reatores eram realizadas regulagens extremamente rápidas. O uivo dos transformadores se misturou ao ruído dos condutores de força. Quase no mesmo instante o radiador de tração começou a trabalhar com uma potência que absorveu o suprimento de energia de quase todas as unidades geradoras da Stardust-III. Um raio gravitacional de vinte metros de diâmetro, que se propagava à velocidade da luz, saiu do projetor. Esse campo energético, altamente concentrado, era capaz de arrancar um astro de pequenas dimensões de sua órbita. A nave desconhecida não teria a menor chance, nem mesmo levando a massa da Good Hope-IX no reboque energético.
A bordo do couraçado as discussões acaloradas cessaram. Notava-se perfeitamente a luminosidade pálida do raio de tração. Era um pouco mais veloz que a Stardust-III, que já desenvolvia uma boa velocidade.
Assim mesmo o tempo gasto no percurso foi longo demais. Rhodan foi o primeiro a reconhecer que não devia se entregar a ilusões.
Antes que o alvo fosse atingido os sensores estruturais emitiram um ruído. O desconhecido desapareceu em meio a um turbilhonante fenômeno luminoso.
A mão de Rhodan bateu na chave de energia. O projetor de tração se apagou.
— Silêncio a bordo — irrompeu a voz de Rhodan dos alto-falantes. Veio num tom frio e metálico, que fez até Bell se calar. — Vejo perfeitamente que chegamos tarde. A Good Hope-IX foi capturada por uma nave muito maior. O que é de admirar é que o desconhecido tenha conseguido levar para a transição a nave amarrada fora de sua célula. Estão utilizando a técnica arcônida. Central de observação: fiquem de prontidão absoluta. O sensor estrutural deve ser regulado para a precisão máxima. Apurem de qualquer maneira em que ponto a nave desconhecida atinge o hiperespaço. O salto não deve ser muito longo. Acho que se trata apenas de uma transição de emergência, realizada sem um objetivo definido, tão-somente para possibilitar a fuga rápida. Por enquanto basta verificar a posição aproximada em que ocorreu o mergulho.
As instruções logo foram confirmadas. Dali a um instante os cruzadores pesados Terra e Solar System receberam ordens para, dentro de meia hora de tempo padrão, avançar até a órbita de Plutão.
O major Nyssen e o capitão MacClears confirmaram o recebimento da ordem.
— Ainda não desistiu? — perguntou uma voz sonora.
Rhodan virou a cabeça. Crest, o arcônida, estava de pé a seu lado.
— Nem penso nisso. Se conseguirmos fixar o ponto de mergulho, poderemos realizar um cálculo aproximado da posição da nave. Uma pergunta: o formato da nave lhe permitiu qualquer conclusão sobre quem seja o inimigo com que nos defrontamos?
Crest sacudiu a cabeça comprida.
— Não; não consegui chegar a qualquer conclusão. Muitas raças de cosmonautas da galáxia constroem suas naves nesse estilo. Precisaria de maiores detalhes.
Desapontado, Rhodan se virou para o painel de controle. Dali a pouco os sensores estruturais emitiram um leve ruído.
— A rematerialização acaba de ser levada a efeito — anunciou o posto de observação. — A distância é grande. Torna-se muito difícil calcular a posição.
— Já conheço as fontes de erro; muito obrigado — interrompeu Rhodan. — Apurem os valores aproximados. Juntamente com a equipe matemática cuidarei da obtenção de outros dados. Crest, peço seu auxílio.
Dali a vinte minutos os dois cruzadores pesados chegaram ao mesmo tempo. Aproximaram-se a alta velocidade e realizaram uma manobra de adaptação muito bem executada.

* * *

Rhodan estava em meio aos seus mutantes. Todos tinham comparecido. Os telepatas forçavam os sentidos para captar as vibrações intensíssimas que há pouco ainda repercutiam dolorosamente em seus cérebros.
— Então? — perguntou Rhodan.
Seu rosto, que se tornara mais estreito, parecia inexpressivo.
Marshall era o porta-voz do exército especializado. Ergueu os ombros.
— Chefe, se Tifflor pode ser localizado a uma distância de dois anos-luz, no momento deve se encontrar bem mais longe. Não estamos captando mais nada.
— Será que a proximidade dos tripulantes os incomoda? Se for assim, poderei destacar um destróier para levá-los a algumas horas-luz espaço afora.
— As emanações dessa gente não nos perturbam. Estamos acostumados a elas. É bem possível que o cadete Tifflor tenha perdido qualquer forma de expressividade. Não conseguimos estabelecer contato.
Rhodan caminhou lentamente em direção à escotilha. As três naves se encontravam em plena manobra de frenagem. Ainda faltava determinar a posição de mergulho do estranho fugitivo com a maior precisão possível. Era uma tarefa tremenda. Rhodan não se iludia a este respeito.
Os mutantes olharam-no em silêncio. O plano de Rhodan fora executado segundo seus desejos; apenas o desconhecido procedera com uma rapidez e exatidão muito maior do que seria desejável na situação. Desde o início sabia-se que não poderiam ter chegado ao local mais cedo. Afinal, não era possível seguir nos calcanhares da nave-chamariz.
Apesar de tudo, Rhodan estava satisfeito no íntimo. Adquirira a certeza de que no âmbito da Terceira Potência devia operar uma organização de espionagem de primeira ordem. Haviam descoberto a missão aparentemente tão importante do cadete Tifflor.
Mas, por enquanto, Rhodan nem pensava em liquidar o agente. Antes de mais nada tornava-se necessário descobrir quem demonstrava tamanho interesse pelo planeta Terra. Só depois disso poderia tirar suas conclusões sobre o equipamento técnico e a linha de conduta. Por enquanto ainda estava tateando no escuro.
Rhodan parou diante do grande elevador antigravitacional do eixo central; parecia pensativo. Alguns homens fizeram continência. O chefe olhou através deles como se nem existissem.
Rhodan se lembrou de que sua melhor arma havia sido colocada em ação. Seu nome era Julian Tifflor. O emissor embutido no organismo de Tiff funcionaria ininterruptamente. Se fosse possível se aproximar dele a menos de dois anos-luz, não haveria mais qualquer problema em realizar a localização por meio do goniômetro.
Seria inútil para o inimigo se esconder nas montanhas ou nos hangares subterrâneos de mundos estranhos. Ali estaria ao abrigo de uma localização realizada por meios técnicos, mas não da que se valesse de recursos puramente espirituais.
Portanto, só faltava engatilhar a arma secreta chamada Tifflor. O detonador ilusório ainda teria de ser criado sob a forma de cálculos razoavelmente precisos.
Rhodan se consolou com a idéia de que afinal poderia se dar ao luxo de uma tolerância de dois anos-luz. Era muito grande.
Antes de subir à sala de comando, realizou uma inspeção na sala de comando das máquinas da nave.
A equipe técnica dirigida pelo Dr. Manuel Garand realizara um trabalho excelente. As complexas instalações da grande estação de controle não ofereciam o menor segredo para eles.
O rosto bochechudo de Garand se iluminou quando viu o chefe.
— Deseja alguma coisa? — perguntou no tom alegre de uma criança que acaba de ganhar um lindo presente.
Rhodan recuperou o riso. Garand era uma dessas criaturas aparentemente inofensivas, que em caso de emergência sabiam falar com uma jovialidade toda especial. Se o engenheiro-chefe Garand estava radiante, o ar devia estar muito carregado.
— Não tenho nenhum desejo — disse Rhodan em tom enfático. — De qualquer maneira, mantenha as máquinas em estado de prontidão. Daqui a pouco precisaremos delas. Seria uma vergonha se não conseguíssemos agarrar o sujeito.
— No que depender de nós, não haverá nenhum problema — exultou o gorducho. — Aliás, andei pensando sobre o campo de tração. Gostaria de examinar os dados?
O sorriso de Rhodan era genuíno.
— Pois então — disse, esticando as palavras. — Sabia que por aqui devia haver alguma coisa.
Enquanto Rhodan caminhava em direção ao cérebro positrônico, a Stardust-III atingiu a imobilidade. Parou a uns duzentos e oitenta milhões de quilômetros da órbita de Plutão. O Sol, tão familiar, estava reduzido a um pequeno disco, muito pálido. Ninguém acreditaria que seria capaz de transformar um planeta como Mercúrio num inferno de fogo.
Na sala de comando, Bell regulou os controles para a marcha em ponto morto. Resmungando, se ergueu do assento.
— Gostaria de saber como vai terminar isso — murmurou. — É o diabo. Preferia ter esse sujeito diante de um canhão. Assim seria muito mais fácil formular perguntas. Seria mesmo?
O robô ao qual foram dirigidas essas palavras não lhe deu a menor atenção. Bell se lembrou de que não adiantava xingar. Por isso caminhou em direção ao autômato que fornecia bebidas; parecia bastante contrariado.
No entanto, tinha a impressão de que, apesar dos contratempos, Rhodan ainda acabaria por atingir o objetivo.

8



Conheciam perfeitamente a dor cruciante da rematerialização. Por isso não podiam deixar de perceber imediatamente que a transição havia chegado ao fim.
A grave perturbação dos sentidos e as luzes vermelhas que dançavam diante de seus olhos revelavam que o salto fora muito longo. Efeitos desse tipo só costumavam surgir quando se percorria num salto uma distância superior a duzentos anos-luz.
Deringhouse se esforçou para sair da poltrona reclinada. Os outros homens que se encontravam na sala de comando foram recuperando os sentidos. Os cadetes, que ainda não estavam habituados a esse tipo de provação, levaram mais alguns minutos.
Tifflor viu que o comandante saiu cambaleante da sala de telegrafia. Nos capacetes fechados, a respiração de Deringhouse era ouvida sob a forma de assobios agudos. Ao que tudo indicava precisava reunir todas as forças para vencer o cansaço.
Rous também já recuperara os sentidos. O primeiro movimento pesado da mão de Tiff foi dirigido para o cilindro metálico guardado no bolso do uniforme. Enquanto o traje espacial continuasse fechado, não poderia atingir a chave da carga destrutiva embutida no mesmo.
Sentiu-se dominado pelo pânico. Ninguém precisaria lhe contar o que os desconhecidos haviam feito com a Good Hope-IX. Era bem verdade que Tifflor não saberia dizer se estavam interessados na nave ou na mensagem secreta que trazia consigo; de qualquer maneira, isso já não importava muito.
Face às instruções que lhe haviam sido ministradas, julgou que havia chegado o momento de destruir o cilindro juntamente com as microfitas guardadas nele.
As telas voltaram a se iluminar. Tiff lançou um rápido olhar sobre as telas frontais. A pequena distância da nave que, ao que tudo indicava, ainda se deslocava à velocidade da luz, brilhava uma estrela geminada perfeitamente visível.
O sol maior, de cor alaranjada, parecia bem mais próximo que seu companheiro azul.
Por um momento Tiff se esforçou para vasculhar a memória em busca do nome de estrelas desse tipo. Havia muitas, motivo por que desistiu. O que importava realmente era cumprir as instruções recebidas.
Dali a mais um instante conseguiu se colocar de pé. Foi nesse momento que os desconhecidos abriram a grande comporta de carga situada pouco acima da saliência equatorial que abrigava as máquinas.
As luzes de controle da sala de comando se acenderam. Poucos segundos depois mudaram para o verde.
O sargento Rous praguejava horrivelmente. A uma boa distância ouviu-se o ruído característico dos radiadores de impulsos térmicos. Tiff se virou, apavorado. Qual seria o idiota que era capaz de utilizar nos recintos apertados da Good Hope-IX uma arma energética cujos feixes superaquecidos teriam que gerar temperaturas elevadíssimas?
— Utilizem os desintegradores — gritou o comandante pelo rádio. — Que diabo, suspendam imediatamente o fogo térmico. Será que querem transformar a nave numa nuvem de gases?
A resposta veio sob a forma de um uivo das sereias de alarma das instalações de condicionamento de ar. Em vários setores da nave a temperatura devia ter chegado a níveis insuportáveis.
Tifflor não se preocupou com os acontecimentos. Dificilmente a pequena tripulação da Good Hope-IX teria uma chance.
Com um movimento ágil pegou a arma que Eberhardt lhe atirou. Era um desintegrador pesado, cujo efeito consistia na dissociação da matéria estável.
Nos capacetes surgiu tamanho inferno de ruídos que os homens se viram obrigados a regular o volume quase para zero. Todo mundo berrava. A toda hora soavam gritos de dor, que faziam com que Deringhouse temesse o pior. E o estampido abafado de armas estranhas não poderia deixar de ser ouvido.
— Esconda-se na sala 0, rápido — gritou o comandante para o cadete. — Ande logo!
Tiff se arriscou a abrir o capacete no interior da sala de comando hermeticamente fechada. O rumor das armas se tornou ainda mais forte. Aproximou-se. Várias das telas que retratavam outras salas haviam deixado de funcionar. Poucos segundos depois, o suprimento de energia foi interrompido. Os tubos luminosos se apagaram, as telas não mais refletiram qualquer imagem.
— Ocuparam a sala de comando das máquinas — disse o sargento Rous com a voz débil. — Devem ter uma resistência extraordinária. Penetraram na nave quando nós ainda estávamos quase inconscientes. Se não fosse assim, isso não teria acontecido. Palavra de honra!
Talvez Rous tivesse razão, mas isso não interessava mais. Quando o ruído chegou perto da escotilha fechada da sala de comando e uma mancha de incandescência branca surgiu na chapa resistente de aço arcônida, Tiff tirou o traje espacial de cima do corpo. Teve vontade de gritar de raiva quando o fecho magnético que ficava na altura do pescoço emperrou, recusando-se obstinadamente a obedecer aos dedos trêmulos.
A sala de telegrafia estava vazia. Quem fosse capaz de carregar uma arma estava abrigado atrás de objetos pesados.
O fecho se abriu no momento em que a escotilha começou a derreter. O rosto desprotegido de Tiff foi atingido por uma rufada dolorosa de ar quente. Depois a escotilha caiu para dentro com um forte ruído.
Lá fora tudo era luz ofuscante. No momento em que Tiff abriu o uniforme, a sala de comando se transformou num espaço cortado por relâmpagos. Atiravam com armas desconhecidas para dentro do amplo recinto. De repente Deringhouse compreendeu por que ouvira os gritos no rádio de capacete.
O cadete Eberhardt foi o primeiro que caiu ao chão. Foi seguido por Rous, Martin e Hifield. Deringhouse disparou em direção ao corredor antes que fosse atingido por um dos relâmpagos.
Logo depois, caiu duro como um pau e soltou um gemido.
Julian Tifflor só se lembrou de sua missão. Não tocou em nenhuma arma, nem perdeu tempo em se abrigar.
No momento em que os vultos gigantescos penetraram na sala e de repente uma luz forte se acendeu, estava tranqüilamente de pé em meio à sala de telegrafia perfeitamente visível, cuja parede blindada e transparente repelira os impactos energéticos.
Fascinado, contemplou o cilindro metálico que se desfazia num fogo branco e frio. Colocara-o de forma perfeitamente visível em cima de um dos aparelhos de telegrafia.
Tifflor, o homem eternamente deprimido, que sempre duvidava de si mesmo, já não sabia o que era ter nervos.
Com um sorriso irônico contemplou os invasores que se aproximavam. Não havia dúvida de que tinha diante de si inteligências semelhantes à do homem. Quando o primeiro chegou perto dele, ainda estava sorrindo.
O estranho, que tinha quase dois metros de altura e um corpo extremamente pesado, deteve-se em meio ao salto. Usava um traje leve de modelo arcônida. Mas não era arcônida.
A primeira coisa que Tiff notou foi a barba vermelha e aparada, os grandes olhos ameaçadores, plantados em meio a um rosto largo, e os cabelos longos, também vermelhos como fogo. Era um verdadeiro gigante que se plantara diante daquele homem aparentemente fraco do planeta Terra.
Outros vultos do mesmo tamanho foram surgindo. Os gritos haviam cessado. Lançaram olhares ameaçadores para Julian Tifflor, cujo sorriso tranqüilo parecia ser mais eficaz que qualquer gesto de defesa.
Tiff se elevou acima de si mesmo. Com uma amabilidade extrema e sem demonstrar o menor nervosismo disse, falando em intercosmo:
— Olá. Permita que na qualidade de representante do comandante, que está impedido por doença, lhe dê as boas-vindas a bordo da nave espacial terrana Good Hope-IX. Sua entrada foi um tanto agitada. Mas a champanha não deve demorar. Será que faz questão de tomar a legítima champanha francesa? Perdão. Provavelmente o senhor nem sabe qual é o velho povo que se especializou na produção dessa bebida divina. Faça o favor de sentar.
Um dos barbas-vermelhas levantou a mão. Parecia uma pata. O indivíduo que devia estar no comando soltou um som que parecia um rosnado.
Voltou a passar os olhos de um lado para outro, entre Tiff e a mancha de queimadura produzida no aparelho de rádio. Do cilindro não sobrara nem mesmo a cinza.
Por pouco Tiff não acaba desmaiando. O barba-vermelha cruzou as mãos sobre a barriga, inclinou o corpo bem para trás e soltou uma gargalhada tão retumbante que os órgãos auditivos de Tifflor quase entraram em pane.
Tiff se lembrou da velha sereia de alarma contra fogo que, quando menino, encontrara num montão de lixo. Juntamente com um amigo colocara-a em condições de funcionar.
A essa hora quase chegou a compreender por que, por ocasião do primeiro ensaio, seu pai sofrera um ataque de fúria nada agradável. Ele, Tiff, encontrava-se numa situação muito semelhante.
Se ainda conservava algum nervosismo em sua alma, essa gargalhada acabou por tranqüilizá-lo. Os outros sujeitos, de aspecto tão temível, fizeram coro com o berreiro do chefe. Parecia ser um povo que possuía o dom do riso irreprimível.
Quem sabe se não era um sinal de raiva? Tiff empalideceu ligeiramente. As reações de uma inteligência desconhecida podiam ser o extremo oposto do que se supunha. Ao menos era o que haviam lhe ensinado na Academia Espacial.
O barbudo de rosto enrugado levou vários minutos para se acalmar. Tiff cometeu outro erro ao dizer em tom cortês:
— De qualquer maneira fico satisfeito em notar que os senhores não são monstros de olhos salientes e com ventosas nos pés.
O berreiro que se seguiu sacudiu a Good Hope-IX. Julian Tifflor resolveu que não mais provocaria o riso daqueles indivíduos que, segundo tudo indicava, reagiam facilmente às palavras que lhes eram dirigidas.
— Vamos levá-lo — gemeu o barba-vermelha depois de algum tempo. — É formidável, excelente. Amigo, como é que o senhor fala a língua comercial da grande ilha?
— Está aludindo à Via Láctea? — indagou Tiff em tom hesitante. Lançou um olhar bastante preocupado para os companheiros, que continuavam inconscientes.
— Logo acordarão — explicou o desconhecido em tom jovial. — Não somos piratas, mas comerciantes pacíficos. Meu nome é Orlgans. Sou comandante e proprietário independente da nave comercial Orla XI. Amamos e respeitamos as raças inteligentes da grande ilha. Nunca nos intrometemos nas suas divergências internas, a não ser que alguém se atreva de atacar nosso monopólio comercial. Peço que me desculpe pelo tratamento um tanto rude. Mas ninguém saiu machucado. No entanto, seu comandante terráqueo tentou atacar minha nave. Escapei no último instante.
Tiff não se admirava mais e não temia mais nada. Embora só tivesse vinte anos, era um homem dotado de um raciocínio límpido. E isso não era de admirar, pois era um dos alunos superselecionados de uma escola superior, que são mandados para o caminho da vida depois de lhes terem sido aplicados os métodos de ensino de uma raça antiqüíssima.
Tiff não fez nada. Apenas sentiu-se muito desconfiado, com o que foram afastados os complexos de inferioridade que costumavam atormentá-lo. Teve a impressão de que o grande jogo era travado em torno da Terra, em torno de seu mundo natal, de sua Humanidade, de seu grande ideal. Nada, absolutamente nada justificaria melhor um engajamento de todas as suas forças que a preocupação pelos numerosos seres humanos que se encontravam no planeta Terra. Nunca o cadete Tifflor sentira tão intensamente que toda criatura pensante nascida na Terra é simplesmente um ser humano, seja qual for a cor de sua pele ou suas crenças.
Essa compreensão transformou o jovem num tático, que refletia com a maior frieza. Orlgans era um elemento perigoso. Sua jovialidade era uma máscara, e sua gargalhada berrante talvez não passasse de uma característica da espécie a que pertencia.
Tiff desistiu de seu sorriso de cortesia. Lá na central, outros barbudos carregavam os companheiros inconscientes como se fossem bonecos.
— Muito obrigado pelo tratamento relativamente humano — disse. — Mas de qualquer maneira o senhor chegou com um atraso de dez segundos. Foi o tempo de que precisei para destruir o cilindro. Deve estar informado a respeito disso, não está?
Era claro que Orlgans estava informado. Por um instante seu rosto largo esboçou uma expressão sombria.
— É um ótimo negociador — disse com um olhar perscrutador. — Fala com franqueza quando conhece seus pontos fortes. Nunca usa de franqueza quando supõe ter um lado fraco. É assim que os seres inteligentes conseguem fundar impérios. Sim, estou informado. Por que motivo teria atacado sua navezinha se não por isso?
Tifflor esteve prestes a dizer que teria sido fácil destruir a nave comercial Orla XI com uma única salva. Mas preferiu não fazê-lo.
— O que pretende fazer? — perguntou laconicamente. — Onde estamos?
— Isso não é da sua conta. Aliás, aceite meus cumprimentos. O senhor fala um excelente intercosmo.
— Nossos couraçados são mais excelentes que meu intercosmo — retrucou Tiff.
O rosto de Orlgans assumiu uma expressão rígida. Com uma frieza enorme disse:
— A bordo de minha nave existe um terráqueo cujo nome é Jean Pierre Mouselet. Ele nos contou que só por um acaso seu miserável mundo primitivo conseguiu adquirir um couraçado. E é um único; procure compreender. O senhor é, ou foi, portador de uma mensagem cujo conteúdo diz respeito à minha área de interesses. Um projeto de intercâmbio cósmico a longo prazo faz com que pessoas como eu se esqueçam de rir. Como já disse, somos gente pacífica. Mas nem por isso desistimos do direito de defender nossos velhos privilégios. Há muito tempo o Grande Império nos conferiu plenos poderes para exercer o comércio sem quaisquer restrições. Ainda temos muito a conversar, ser humano chamado Julian Tifflor.
— Conhece meu nome?
— Acreditava que não conhecesse? O senhor se julgava muito inteligente, não é mesmo?
Mais uma vez a gargalhada retumbante se fez ouvir. Tiff sentiu-se humilhado. Não tinha a menor idéia do plano global de Rhodan. Antes, acreditava realmente que fora portador de notícias da maior importância. Por isso acreditou que as declarações de Orlgans não eram destituídas de base. Num homem como Deringhouse, as mesmas apenas teriam provocado sorrisos. Era claro que as pretensas notícias secretas eram fictícias.
Tiff foi levado dali de maneira um pouco violenta, mas assim mesmo gentil. Enquanto isso Orlgans sorriu e disse:
— Nossas espécies são aparentadas, Tifflor. Bem que devíamos viver em paz. Não há nenhum motivo que impeça isso. É bem provável que o senhor nem suspeite da existência de nosso povo. Nós, os saltadores, somos mais poderosos que o próprio império. Vivo negociando com inteligências completamente estranhas. Não sei por que isso não seria possível com a sua. É bom que saiba que meus antepassados foram arcônidas iguais ao mestre dos senhores, que chamam de Crest.
Tiff estremeceu por dentro. Aquele estranho sabia muito; sabia demais! Quem era Jean Pierre Mouselet? Sem dúvida era francês.
Tifflor nunca ouvira esse nome. Mas disse a si mesmo que as informações detalhadas de que Orlgans dispunha só podiam provir de um ser humano. E devia ser um ser humano bastante intelectualizado, que dispunha de grande cabedal de conhecimentos científicos. Não havia outra explicação para os conhecimentos de Orlgans.
De passagem, Tiff notou que os tripulantes, ainda inconscientes, foram levados ao grande salão da nave auxiliar. Todos os postos de importância estavam ocupados por criaturas que tinham o mesmo aspecto de Orlgans.
Ao chegar à grande comporta de carga, situada acima da saliência equatorial, teve de envergar um traje espacial. A menos de vinte metros dali via-se o abaulamento do casco da nave estranha. Havia nele uma abertura negra. Quando viu as criaturas gigantescas flutuarem em direção à mesma, percebeu que se encontravam em queda livre. O sol geminado que havia visto devia estar tão longe que por enquanto não havia necessidade de realizar uma manobra de frenagem.
Tiff foi puxado num cabo. Quando penetrou na comporta da outra nave, teve a impressão de que praticamente era um homem morto.
Esses saltadores — nome que o próprio Orlgans acabara de dar a essas criaturas — eram mais que perigosos. Não havia a menor dúvida de que se sentiam ameaçados pela Terceira Potência dirigida por Perry Rhodan. Receavam que a mesma viesse colocar em risco seu monopólio comercial, que, ao que tudo indicava, até então era exercido sem restrições. Provavelmente só se zangavam quando alguém se atrevia a violar seus direitos sagrados.
Perry Rhodan devia ter feito precisamente isso, sem que o soubesse. Tiff apostaria sua cabeça como Rhodan não tinha a menor idéia da existência dos saltadores.
Durante a compensação de pressão Orlgans bateu paternalmente no ombro de Tiff.
— É claro que nosso ar é respirável para o senhor — disse em tom condescendente. — Tem mais alguma piada em seu arsenal?
— Piadas? — espantou-se Tiff muito assustado.
Teria feito alguma piada? Isso mesmo parecia representar outra piada para os saltadores. Mais uma vez irromperam numa sonora gargalhada.

9



Não havia a menor dúvida de que aquela criatura esbelta, de cabelos negros e olhos irrequietos, cujos dedos brincavam nervosamente, era um ser humano. Os barbudos deviam ter o triplo do peso daquele homem de cerca de cinqüenta anos, cujo rosto se contorcia em tiques. Ao que tudo indicava estava próximo ao esgotamento nervoso.
— Jean Pierre Mouselet, antigo diretor comercial de um conglomerado industrial europeu — foi assim que se apresentou aquele homem emagrecido. Tifflor se limitou a lançar-lhe um olhar frio como gelo.
— Não tem mesmo nenhum cigarro? — implorou Mouselet, aproximando-se mais um pouco.
— Não sou fumante — respondeu Tiff laconicamente. — Sinto muito. Se tivesse cigarros, não os daria a um traidor do planeta Terra. É bom que saiba logo como são as coisas.
Mouselet, que era uma verdadeira ruína humana, não conseguiu reunir forças para dizer um palavrão, nem sequer para lançar um olhar venenoso. Em seus olhos inconstantes voltou a brilhar aquele desespero que provocou em Tifflor uma paixão indefinida.
— Está bem, queira desculpar — apressou-se Mouselet a dizer. — Eu... sou um fumante inveterado, sabe? O último maço que eu tinha acabou há...
— Vamos ao assunto — interrompeu-o o cadete em tom tranqüilo. — Suponho que o tal do Orlgans o tenha enviado para soltar minha língua. É bom que saiba que não há nada a soltar. Não fui informado sobre o conteúdo dos documentos por mim destruídos. Ou será que acredita que decorei todos os detalhes do gigantesco plano?
O olhar de Mouselet se tornou penetrante.
— Por que não? Rhodan dispõe de métodos que lhe permitem armazenar um volume gigantesco de saber no cérebro de um homem. É possível que nem mesmo o senhor saiba que é portador de informações hipnóticas facilmente decifráveis. Talvez os registros em fita sejam simulados. Fale, meu jovem. Os saltadores também sabem transformar um homem num louco palrador. Se isso lhe acontecer, o senhor será um mentecapto para o resto da vida. O que lhe deram para levar à base de Vega?
— De certo eles lhe darão uns cigarros se o senhor conseguir arrancar alguma informação de mim, não é? — escarneceu Tiff apesar da palidez que se desenhava em seu rosto. Começava a desconfiar de que um perigo tremendo surgia diante dele.
Mouselet soltou uma terrível praga. Levantou-se de um golpe e passou a caminhar pela pequena cabina. Do lado de fora, havia duas sentinelas dos saltadores.
— Antes de dizer qualquer coisa quero saber como é que o senhor foi se ligar a esses sujeitos — acrescentou Tiff apressadamente.
Mouselet ergueu os ombros num gesto de resignação.
— Por que não? Sou um dos colaboradores do supermutante que costumamos chamar de Supercrânio. Foi por isso que me interessei bastante pela chamada Terceira Potência. Todos os documentos secretos ficaram à minha disposição. Por isso é bom que não tente enganar esses mercadores. Sabem perfeitamente de que forma Rhodan adquiriu seu saber e suas naves. Orlgans teria subjugado toda a Terra, se isso não contrariasse suas tradições.
— O senhor é muito auto-suficiente! — disse Tiff em tom de desprezo.
Mais uma vez esteve prestes a dizer que lhe teria sido fácil destruir a grande nave.
— É bom que não se iluda quanto a essa gente — disse Mouselet em tom exaltado. — Já cheguei a acreditar que são amáveis e inofensivos. Quando Rhodan saiu em perseguição do Supercrânio, este, desesperado, enviou para o espaço uma mensagem de socorro não codificada. Orlgans se encontrava nas proximidades. Acudiu ao chamado e me salvou. É claro que tive que lhe dar meu saber em troca da salvação. Um saltador nunca faz nada de graça. Tem certeza de que não tem cigarro? Dê uma olhada.
— Tire a mão do meu bolso — chiou Tiff, furioso. — Se eu fosse o senhor, meteria uma bala bem ordinária na minha cabeça. O senhor é um patife. Traiu a Humanidade. Não pode haver crime maior que este.
— Essa Humanidade me expulsou e me condenou — disse Mouselet com o rosto pálido. — Não lhe devo mais nada.
— De certo o senhor cometeu algum crime. Ninguém é condenado por nada. O que o senhor sofreu foi bem feito. Não conte com a minha compreensão. Sempre deve ter sido um patife dissimulado. O Supercrânio foi outro. E conseguimos liquidá-lo.
Mouselet conseguiu se controlar. Respirando com dificuldade e molhando os lábios com a ponta da língua, parou diante do cadete.
— O senhor será interrogado — disse em tom indiferente. — Nem desconfia do poderio que tem diante de si. Os negociantes galácticos dominam a Via Láctea. Estão divididos em castas e em famílias. Nenhum saltador aceita ordens dos outros. A liberdade de ação é uma tradição de dez mil anos. Desconfiam um do outro e se espionam mutuamente, mas ai do estranho que se atreve a tocar no seu monopólio. Seria bom que visse como as inúmeras castas e famílias sabem se unir num abrir e fechar de olhos quando isso acontece. Há tempos imemoriais chamam-se a si mesmos de saltadores, porque saltam de um planeta a outro para comprar e vender suas mercadorias. Sua frota comercial é calculada em mais de trezentas mil naves pesadas e superpesadas. Cada linhagem familiar tem um patriarca que a comanda em caso de necessidade. Os comandantes e proprietários independentes das naves submetem-se ao mesmo. O grande império comercial mantém uma frota de combate, que é sustentada com uma parte bem definida dos lucros que cada comandante tem de entregar. Possuem muitos planetas, que transformaram em gigantescas bases e estaleiros. Em parte, sua tecnologia é superior à do Grande Império dirigido por Árcon. São descendentes dos arcônidas, mas, graças à influência exercida pelos habitantes dos outros mundos, inúmeras variedades se desenvolveram no curso dos milênios. Mas todos eles são saltadores, e como tais são independentes, orgulhosos e fortes. Seu poder econômico é superior ao do império e, quando necessário, sabem ser unidos. Sabe o que significa isso? Os negociantes nunca se intrometem em guerras ou coisa que o valha. Fornecem suas mercadorias a todas as facções em luta, e nenhuma das facções gosta de ficar mal com eles. Se alguém deseja negociar no ambiente cósmico, tem de se habilitar com uma concessão outorgada por eles. E lá vem essa figura ridícula do Perry Rhodan com a idéia maluca de instalar entrepostos comerciais no sistema Vega.
Mouselet soltou uma risada estridente. Mal conseguiu se acalmar. Tiff assumiu uma postura rígida. Aos poucos estava compreendendo com quem se defrontava. O tal do Orlgans era só uma rodinha numa engrenagem enorme e antiqüíssima. Quanto ao mais, Tiff só teve uma idéia: informar o chefe pela forma mais rápida.
— O senhor há de concordar comigo em que seu silêncio é inútil. A ganância inata a essa espécie de mercadores faz com que vejam em qualquer planeta recém-descoberto uma zona de comércio inteiramente privada. Nenhum deles pensa em chamar em seu auxílio outras naves pertencentes à mesma linhagem familiar, quanto mais naves pertencentes a outras linhagens. Foi este o motivo por que Orlgans penetrou sozinho no sistema solar. Tem uma rede de agentes muito eficiente. Não demorou em saber que o senhor foi despachado pelo espaço para servir de mensageiro confidencial. Aliás, nem era de esperar que fizessem outra coisa, depois que Orlgans apresou uma nave espacial e dois destróieres da Terceira Potência para fins de estudo.
Tiff se levantou de um salto, como se tivesse sido picado por um marimbondo.
— O quê?
— Ah, ainda não sabe disso? — espantou-se Mouselet. — Pois está na hora de saber. Rhodan enganou o senhor. Contando sua Good Hope-IX, as naves desaparecidas já são quatro. Isso devia dar que pensar a Rhodan, não é mesmo?
Tiff voltou a afundar lentamente na cadeira de formato esquisito. Aos poucos começou a compreender por que o chefe o mandara ao espaço como mensageiro confidencial em circunstâncias tão misteriosas.
Tiff chegou bem próximo à verdade, mas nem de leve desconfiou de que havia sido transformado num chamariz cósmico dotado de qualidades todas especiais. Mas tudo indicava que Rhodan sabia que um perigo vindo do espaço ameaçava a Terra. Tiff também compreendeu por que Deringhouse não atirou de verdade, e por que a Stardust-III chegou tão depressa. Reprimiu um sorriso de triunfo.
No videofone de parede, que era quase idêntico ao aparelho dessa espécie existente a bordo da Good Hope-IX, uma luz amarela se acendeu. Mouselet estremeceu. Virou-se com uma expressão de pavor no rosto.
— Seu mestre e senhor está chamando — disse Tiff em tom irônico. — É claro que estamos sendo vigiados, não é? Pois bem, Orlgans, já que está ouvindo o que digo, é bom que saiba que sua chamada potência mercantil não me impressiona nem um pouco. A história da Terra já nos mostra muitos atravessadores e aproveitadores de guerra, que trocam um beijo fraternal com qualquer dos partidos em luta e nunca se intrometem enquanto não se trata do dinheiro. Vocês não são melhores que eles, apenas demonstram maior habilidade. Estão lucrando com a ruína do grande império dos arcônidas. Mantêm a neutralidade até que farejem um perigo. Então vocês se transformam numas feras que se unem para defender seus interesses, para liquidar um penetra indesejável. O traidor que está à minha frente chamou a atenção de vocês sobre a Terra. Tenha cuidado, Orlgans, pois ainda poderemos lhe mostrar os dentes.
Alguém fungou no alto-falante do videofone. Logo após a voz de Orlgans irrompeu no recinto.
— Meu amigo, suas palavras são grandes, mas seu poder é pequeno. Transformaremos a Terra numa base de nosso império comercial, mas antes disso procurarei aproveitar meu privilégio de descobridor. Quero que você me diga quais são os planos cósmicos da Terceira Potência. E ainda quero saber o que esse rapazinho chamado Perry Rhodan encontrou no mundo lendário da vida eterna. Pelas notícias que chegaram aos meus ouvidos soube que ele o descobriu contra todas as leis da probabilidade.
Tiff lançou um olhar de agressiva ironia para o receptor. Suas palavras revelavam uma maturidade extraordinária numa pessoa de vinte anos.
— Daí deveria concluir que se encontra diante de um ser de inteligência superior, que merece o respeito de outros indivíduos que também se consideram inteligentes. Sua exigência representa uma imposição resultante da exploração bárbara de uma superioridade de forças.
Mouselet lançou um olhar de pavor para o cadete. Depois de um instante de silêncio, um riso retumbante soou do alto-falante de parede. O capitão dos saltadores era dotado de um senso de humor muito estranho.
— Muito bem, muito bem — disse Orlgans. — O senhor acaba de me apresentar a melhor prova de que esse Rhodan escolheu um homem muito competente para desempenhar a tarefa especial. Meu amigo, nas próximas horas estarei ocupado com a manobra de entrada em órbita que planejamos. Esperarei por aqui até que a situação se esclareça um pouco. Se necessário chamarei a frota de minha dinastia. Mouselet já lhe explicou que os impostos que pagamos habilitam todo comandante independente a recorrer, a qualquer instante, ao auxílio de nossa frota de combate, independentemente do pagamento das despesas? Meu caro, basta uma mensagem telegráfica para que quinhentas naves de guerra de grande porte surjam do hiperespaço. Reflita sobre o que vai dizer. Ainda tem tempo.
Orlgans desligou. O estalido do aparelho provou que realmente o fez.
— Não faça a minha desgraça — implorou Mouselet, tremendo como uma vara verde. — Fale, senão seremos ambos eliminados. Confie em mim. Sou um ser humano.
— Pois na minha opinião o senhor nunca foi um ser humano na verdadeira acepção da palavra — advertiu-o Tifflor com um gesto de repulsa. — Sem dúvida apenas dava a impressão de ser um quando seu raciocínio consciente despertou.
A porta da cabina se abriu e dois gigantes barbudos entraram. Tiff soubera que todos os membros da numerosa tripulação pertenciam à linhagem de Orlgans. Tudo indicava que o comandante e proprietário da nave ocupava uma posição hierárquica muito elevada.
Tiff compreendera perfeitamente que se encontrava diante de uma grande potência galácticas. Essa gente não dominava apenas um sistema solar com alguns planetas mais ou menos habitáveis. Seu domínio estendia-se por toda a galáxia, que iam adaptando discretamente aos seus desejos e interesses, à maneira das companhias de comércio que desenvolviam atividades guerreiras.
Isso já acontecera na Terra, mas não em proporções tão grandes.
Tiff começou a compreender que os chamados saltadores representavam o perigo mais sério que a Terceira Potência, ainda tão jovem, já tivera diante de si.
Não se tratava de DI nem de tópsidas, criaturas que Perry Rhodan conseguiu derrotar com uma relativa facilidade. Uma grande potência surgira no cenário cósmico.
O que Tiff não compreendia era o motivo do silêncio de Perry Rhodan sobre essa série de ocorrências. Se é que algumas naves haviam desaparecido, os órgãos governamentais já deviam ter conhecimento do fato.
— Venha conosco — disse um dos barbudos, sorrindo. — Não, não é você. É o rapazinho.
Tiff se levantou sem dizer uma palavra. Jean Pierre Mouselet ficou para trás; estava reduzido a um montículo de desgraça. Falhara. Face a isso, se tornara bastante duvidoso que Orlgans, um calculista frio, ainda visse qualquer utilidade nele. Em caso negativo, a vida de Mouselet não valeria um centavo.
Tiff imaginava como esses seres que riam tão ruidosamente sabiam ser frios e implacáveis. Consideravam Perry Rhodan um fator de perturbação.
Provavelmente o relato enfeitado de Mouselet não permitira que se dessem conta do fato de que Rhodan não representava apenas um fator de perturbação, mas também de perigo. De um modo geral pareciam subestimar o gênero humano. Não contavam com sua inteligência, sua capacidade de agir e sua pertinácia.

X



Fazia quatro horas, tempo de bordo, que Tiff fora levado de volta para a Good Hope-IX. Fizeram-no com a finalidade de induzi-lo a travar palestras com os amigos, das quais pudessem extrair alguma informação. Evidentemente os cadetes já haviam percebido que os receptores de videofone funcionavam ininterruptamente. Com isso tornava-se possível saber o que se passava em praticamente todos os recintos da nave.
— Isso é muito primitivo! — chiou Mildred Orson, expelindo um olhar chamejante de desprezo, quando Tifflor reapareceu.
A manobra de entrada em órbita, anunciada por Orlgans, fora concluída há uma hora. A nave Orla XI circulava em queda livre em torno de um grande planeta, cuja posição era totalmente desconhecida do homem. As numerosas sentinelas se limitaram a informá-lo de que esse sol geminado tinha quatro planetas que descreviam órbitas bastante esquisitas.
Algumas telas de observação ótica exterior continuaram a funcionar. Dessa forma o astro pôde ser visto perfeitamente. Mas tudo isso apenas se revestia de um interesse secundário para os tripulantes da Good Hope-IX.
Bastava que o major Deringhouse, o sargento Rous e os cadetes da Academia Espacial se encontrassem a bordo para que o tempo durante o qual Tiff esteve ausente fosse gasto em fabricar planos.
Quando Tiff entrou na grande sala dos tripulantes, os ânimos estavam muito tensos. As palestras vazias e indiferentes eram tão estranhas que não poderiam deixar de ser alarmantes.
Pediram-lhe que contasse o que havia acontecido com ele. Enquanto isso, lançavam olhares de esguelha para as telas apagadas. Tifflor compreendeu que um grupo especial dos mercadores ouvia cada palavra que se dizia por ali.
Apresentou seu relato com a mesma indiferença, até que surgiu a oportunidade. Humpry Hifield era o homem indicado para encenar um barulho a valer. Era de espantar a raiva obstinada com que se envolvia numa briga com um dos membros da tripulação. Aquilo já não era um boxe decente, mas não deixou de preencher sua finalidade.
Dentro de poucos segundos os canos compridos dos radiadores de impulsos térmicos surgiram na escotilha. Logo foram seguidos pelos vultos enormes das sentinelas. Quando viram que não se tratava de um motim, a finalidade da medida havia sido atingida.
Aos berros instigavam os lutadores. Em virtude disso a sobrancelha esquerda de Hump se arrebentou sob um soco direto de seu contendor musculoso.
Tiff se sentiu arrastado para trás de um grupo que também berrava. Deringhouse se limitou a acenar ligeiramente com a cabeça. Seus olhos pareciam comandar. Face a isso a reação de Tifflor foi instantânea, quando Mildred Orson, que chorava profusamente, se atirou nos seus braços e se lamentou da falta de juízo dos homens.
— Tenha cuidado, perigo de escuta — cochichou apressadamente em meio aos seus lamentos. — Felicitas e eu praticamente não somos vigiadas. Andamos livremente pela nave. Consegui roubar uma micro bomba no depósito de combate da comporta número três. Tome! Esconda-a antes que Hump fique esticado no chão.
Tiff empalideceu. Não sabia a quem dedicar sua atenção, se à moça necessitada de auxílio ou à micro bomba atômica. Finalmente se decidiu pela bomba atômica.
Deringhouse observava-os discretamente. Rous empenhou toda a largura de seu corpo para evitar que os dois jovens pudessem ser captados pelo receptor de videofone.
A pequena bomba em forma de ovo, cujo tamanho não ultrapassava o do verdadeiro produto de uma galinha terrena, passou para o bolso da calça de Tiff.
Imediatamente o sargento Rous se pôs a berrar.
— Que intimidade é essa, cadete Tifflor? — gritou furiosamente, piscando os olhos. — Senhorita Orson, dirija-se imediatamente ao seu camarote. Vejo-me forçado a denunciar a ofensa à moral de bordo. Separem-se.
Milly fungou enquanto se desprendia dos braços de Tiff, o que este notou com grande tristeza. Nunca antes ela estivera tão próxima dele. Enquanto isso o sargento Rous cochichou apressadamente:
— Tenha cuidado, Tiff. É uma bomba térmica cujos efeitos duram quinze minutos. Ela apenas libera calor, que em média chega a cento e cinqüenta mil graus centígrados no interior da esfera de gases. O detonador leva exatamente uma hora para desencadear a explosão. Por ocasião do próximo interrogatório esconda-a em algum lugar na outra nave, anotando a hora exata. Depois trate de voltar. Procure algum pretexto, fale, por exemplo, num prazo de reflexão num ambiente costumeiro. Entendido? Mais alguma pergunta?
O procedimento era típico dos homens audazes do comando de caça espacial. Rous e Deringhouse tiveram uma idéia maluca. Naturalmente os cadetes e mesmo as moças cooperaram com o maior entusiasmo. O comandante não poderia desejar colaboradores mais eficazes.
Tiff logo se sentiu contagiado. Sabia perfeitamente por que Hump encenara aquele barulho. Não havia como negar: teve um desempenho excelente na luta de boxe que degenerou em pancadaria. Era o homem indicado para isso.
— Tudo entendido — disse Tiff. — Daqui a pouco terei de voltar para lá. Descobrirei um meio. O que vai acontecer quando a carga detonar.
— No mesmo instante o barulho come cará por aqui. Há vinte e três sentinelas a bordo. As moças contaram. Conseguiremos nos livrar delas. Primeiro devemos ocupar a sala de comando; o resto virá por si. Dê uma boa olhada nos radiadores de impulsos térmicos de canos longos dessa gente. Trabalham com fluxos de impulsos térmicos da grossura de um fio de cabelo. Fora do ponto de impacto a geração de calor é muito reduzida. Ao que parece estão protegidos contra efeitos colaterais. São armas muito eficientes. Daremos um jeito de nos apoderar delas. O plano é este. Basta. Hump tem de interromper a função.
Tudo isso foi obra de poucos segundos. Não havia o menor risco de que as mensagens cochichadas fossem ouvidas em meio ao barulho.
Fizeram um sinal quase imperceptível para Hifield. Mais um soco, e ele caiu ao chão sem se levantar.
As sentinelas exultavam. O espetáculo parecia corresponder ao seu gosto. Dentro de poucos minutos o silêncio foi restabelecido na sala da tripulação. Com um sorriso os homens foram prevenidos de que, por ocasião da próxima batalha, deviam avisar a tempo, para que os saltadores pudessem aproveitar o espetáculo.
Deringhouse olhou o gigante barbudo com um sorriso contrafeito.
— Queiram cuidar de Hifield — pediu às moças. Milly e Felicitas Kergonen ajudaram o cadete que gemia terrivelmente a pôr-se de pé. Seu adversário passou a língua pelos lábios arrebentados.
— Uma vez que tudo correu bem, e considerada a situação em que nos encontramos, dispenso a punição desta vez — disse Deringhouse em tom solene. Só o tom de sua voz revelava alguma coisa. Todo mundo sabia que a micro bomba arcônida se encontrava no bolso de Tiff.
Se ela detonasse no interior da nave dos mercadores, a mesma ficaria reduzida a uma nuvem incandescente.
Tiff sentiu o suor porejar em sua testa. Obrigou-se a participar da conversa que se arrastava penosamente. Poucos minutos depois, ouviu-se o som da campainha da cozinha automática. Dava-se todo o conforto possível aos prisioneiros; apenas a liberdade lhes era negada.
Deringhouse estava firmemente decidido a mudar essa situação quanto antes. Pensou desesperadamente na força poderosa comandada por Perry Rhodan, que ainda devia estar parada no espaço nas proximidades de Plutão. De qualquer maneira, Deringhouse ainda acreditava que mesmo nessa situação o chefe encontraria um caminho.
Tiff apresentou um relato silencioso sobre a verdadeira natureza dos saltadores. Assim se passou o tempo de espera.
Exatamente uma hora depois da refeição, a escotilha se abriu. Tiff seria conduzido a bordo da Orla XI para ser submetido a novo interrogatório.
Caminhou tranqüilamente, mantendo um perfeito autocontrole. Por algum tempo os olhos de sua mente continuaram a ver um rosto de moça muito pálido. Entre as duas comportas de ar havia sido montado um campo energético de compensação de pressão. Tiff pôde flutuar de um lado para outro sem recorrer ao traje espacial. O rumorejar das máquinas provava que não havia a menor intenção de permitir que a veloz Good Hope-IX se libertasse do domínio da nave maior.
Não havia a menor dúvida de que Orlgans era um ótimo negociante, se é que esse nome podia ser aplicado a um mercador galáctico.
Sua tática e sua psicologia também eram formidáveis. Um homem da idade de Tifflor, que não tivesse a mesma força de vontade deste, logo teria sucumbido às numerosas perspectivas tentadoras que o saltador lhe oferecia.
Muitas vezes o fato de realmente não saber nada dos pretensos planos econômicos da Terceira Potência veio em auxílio de Tiff. Aos poucos chegou mesmo a desconfiar de que Perry Rhodan apenas o utilizara como chamariz, para capturar alguns dos desconhecidos.
Tudo indicava que o interesse de Orlgans nem se dirigia ao planejamento ilusório, pois sua lógica potente logo lhe permitira reconhecer que um homem como Tiff nunca seria capaz de guardar o mesmo na memória. Na melhor das hipóteses, se lembraria das linhas gerais, mas nunca dos detalhes, que eram o que realmente importava.
Por isso o comandante dos saltadores absteve-se de perguntas a esse respeito. Em compensação, insistia sempre e sempre na idéia do mundo da vida eterna. Isso representava um sério perigo para Tifflor, já que Orlgans não quis se convencer de que também sobre este assunto o cadete não sabia absolutamente nada.
Levou duas horas para, em atitude benevolente, conduzir Tiff através da nave. Julian não se impressionou com o armamento. Nem se comparavam com as armas que se encontravam a bordo da Good Hope-IX. Em compensação, os propulsores da Orla XI eram potentes e modernos. Havia outras coisas que deviam representar o produto da criatividade dos cientistas da raça dos saltadores.
Orlgans explicou de forma quase casual que se tratava apenas de uma nave de comércio armada, e que o armamento da mesma era suficiente para permitir a visita a mundos primitivos.
Quando o caso fosse mais sério, dispunha da frota especializada, para cuja convocação tinha competência.
Tiff foi empurrado brutalmente para dentro do último compartimento. Quando entrou no mesmo, o comandante se esqueceu da cortesia e do cuidado paternal até então demonstrados. Voltou a chamar Tiff de senhor, muito embora nas últimas horas lhe tivesse dado o tratamento de você. Julian viu diante de si um par de olhos frios e impiedosos.
— Essa máquina é um dissolvente mental — explicou Orlgans em tom ameaçador. — O interrogatório realizado por meio dela destrói o cérebro de qualquer ser, mas em compensação extrai todos os dados armazenados no mesmo. Precisamos da máquina para lidar com gente de comportamento menos recomendável, cujo saber se torna importante para nós. Dou-lhe mais três horas da sua contagem de tempo. Se depois disso não quiser falar, colocaremos o capacete em cima de sua cabeça. Pode se retirar, meu jovem amigo.
De uma hora para outra, Orlgans foi todo cordialidade. Quase chegou a carregar o cadete cambaleante e arrasado.
Também fez questão de levá-lo pessoalmente à cabina que já conhecia. Ficava na parte dianteira da grande nave, perto da sala de comando. Antes que Orlgans se retirasse, Tiff resolveu fazer uma jogada arriscada. Em tom suplicante gaguejou:
— O senhor permite que eu reflita na minha nave? Por favor, não me deixe num ambiente estranho. Aqui não me sinto muito...
— Naturalmente, naturalmente — interrompeu-o Orlgans numa jovialidade exultante. — Um momento, meu caro, vou chamar seus acompanhantes.
Tiff começou a suar quando o gigante barbudo saiu e, uma vez no corredor, pôs-se a chamar as sentinelas aos berros.
Tiff pôs a mão no bolso. Desistira de esconder a micro bomba em outro lugar. Se fosse revistado, seria encontrada de qualquer maneira. Mas não fora submetido a outra revista. Puxou o pino de segurança, comprimiu o botão do detonador de tempo até ouvi-lo engatar com um estalo e fez o ovo mortífero rolar para baixo da cama. Deu um baque surdo quando bateu contra a parede.
Mal conseguiu se levantar antes que as sentinelas entrassem.
— O senhor está muito pálido — disse Orlgans em tom de piedade. — Daqui a três horas voltaremos a nos encontrar, meu jovem amigo.
Essas palavras foram um pretexto suficiente para que Tiff lançasse um olhar discreto para seu relógio de precisão. Eram exatamente 17:58 h, tempo de bordo da Good Hope-IX. Exatamente às 18:58 h ouviriam o estouro, ou mais precisamente, cinco segundos antes, pois foi quando acionou o detonador.
Em atitude apática, deixou que o levassem de volta. Ao regressar à sala dos tripulantes, caiu numa cadeira giratória. Estava muito pálido. Deringhouse lançou-lhe um olhar ansioso.
Acenou a cabeça de forma quase imperceptível e acrescentou:
— Seguraram-me exatamente até as 17:58 h. Orlgans me deu três horas para refletir.
O rosto de Rous se descontraiu. Os homens trocaram olhares. Deringhouse começou a fazer seus cálculos. Cinco minutos antes do momento crítico, Humpry Hifield devia encenar a briga seguinte.
Os planos de Deringhouse foram elaborados com o maior cuidado. Ninguém desconfiaria se atribuísse a nova pancadaria ao espírito de revanche do cadete derrotado. Depois disso teriam que fazer com que as quatro sentinelas entrassem na sala. Não havia outras sentinelas postadas diante da sala dos tripulantes. Os outros saltadores estavam espalhados pela nave. O plano não poderia deixar de ser bem sucedido.
Deringhouse caminhou tranqüilamente pela grande sala e parou diante de uma das telas.
— Lá fora o tempo está formidável, não é? — disse, esticando as palavras. As estrelas cintilavam friamente. Não responderam.

* * *

Eram exatamente 18:35 h quando Hump começou a se enfurecer. Seu velho adversário irritara-o até a medula com suas observações irônicas. A pancadaria começou com a precisão de um segundo. Dentro de cinco minutos a bomba explodiria. No mesmo instante as sentinelas seriam atacadas.
Cerca de trinta segundos depois do início da gritaria, as sentinelas surgiram na escotilha. Mais uma vez o espetáculo parecia diverti-los. Não perceberam que doze homens robustos se colocaram atrás deles! Era um comando bem escolhido. Nem mesmo aqueles quatro gigantes conseguiriam enfrentá-lo.
Os olhos de Deringhouse se fixaram na arma de impulsos térmicos dos saltadores. Enquanto isso, Hump lutava encarniçadamente, distribuindo pancadas de verdade.
Tiff também estava pronto para saltar. Tinha os olhos presos ao relógio eletrônico de precisão. Era muito exato.
Dois minutos antes do instante zero, Rous foi se aproximando lentamente. Hump desferiu um golpe mortífero. Os saltadores exultaram.
— Atenção, você irá no meu grupo — Tiff entendeu o cochicho do sargento. — Ocuparemos a sala de comando.
Rous logo desapareceu. Atrás dos saltadores os homens do comando dobraram os joelhos. Tudo estava bem calculado. Assim que as quatro sentinelas tivessem sido postas fora de combate e as armas trocassem de mão, uma esfera de incandescência atômica surgiria no interior da nave vizinha. Com isso, a Orla XI praticamente teria sido destruída. Pelo menos as sentinelas que se encontravam na nave esférica não poderiam contar com qualquer auxílio vindo de lá. Por outro lado, os condutores de eletricidade logo se volatilizariam, com o que o potente campo de amarração se dissolveria.
Faltavam trinta segundos para o momento zero. O berreiro dos homens que assistiam à luta tornou-se histérico. Ao menos podiam dar vazão ao seu nervosismo.
Quando faltavam quinze segundos para o momento zero, os doze homens do comando saltaram para a frente. Quatro homens investiram contra cada uma das sentinelas. Objetos metálicos retirados da cozinha robotizada, que ficava num compartimento contíguo, desceram sobre os crânios. Num instante os gigantes barbudos caíram ao chão, quase sem emitir o menor ruído.
Deringhouse correu para a frente, seguido de Rous e Tiff. Quando chegou o momento, já tinham as armas nas mãos.
Tudo correu segundo o plano. O berreiro continuou, mas os grupos foram saindo pela escotilha aberta.
Uma sentinela apareceu mais adiante. Deringhouse atirou enquanto corria. Um grito se misturou ao chiado agudo da arma. O gigante caiu ao chão.
— Dividam-se — gritou Deringhouse. — Rous, vá à sala de comando.
Corriam em direção à escada de emergência quando o som uivante começou. Não era o ruído que Tiff esperava. As paredes da Good Hope-IX começaram a vibrar. Eram 18:59 h.
— O que houve com a bomba? — gritou Rous fora de si. Seu rosto se contorceu. — Com os mil demônios, por que essa geringonça não estoura?
Tiff teve vontade de gritar. Mais adiante, Deringhouse caiu sob os efeitos de um disparo energético. Atrás dele surgiram vultos barbudos, que disparavam loucamente para todos os lados.
— Para trás — disse Deringhouse, falando com dificuldade. — Pelo amor de Deus, para trás.
Carregaram-no para a sala da tripulação, não muito distante. Alguma coisa não havia dado certo. Poucos segundos depois, as vibrações da nave tornaram-se ainda mais fortes. Pouco depois todos começaram a sentir os primeiros deslocamentos em seus organismos. Antes de compreenderem que o inimigo envolvera a Good Hope-IX num potente campo de vibrações, sem demonstrar a menor consideração pelas sentinelas dos saltadores que se encontravam a bordo, os homens começaram a gemer angustiados.
Cada célula de seu corpo parecia executar uma dança louca sob o efeito dos impulsos cada vez mais fortes.
Hump Hifield foi o primeiro que largou a arma que acabara de se apoderar. Tiff, Rous e Martin seguiram seu exemplo.
Quando o som uivante atingiu os níveis mais elevados da escala auditiva, os homens se contorceram, martirizados. O destino das sentinelas foi idêntico. Mas ao menos os homens da tripulação da Good Hope-IX não atiravam mais.
— Traição — gemeu Rous antes de desmaiar. — Com os mil demônios, o que aconteceu com essa bomba?
Tiff teria chorado se ainda pudesse fazê-lo. Teve a impressão de que sua cabeça iria arrebentar; logo perdeu a consciência. Fora tudo em vão. Alguma coisa não saíra segundo as previsões.

* * *

Desta vez Orlgans estava armado. De pernas abertas, parou diante do major Deringhouse, que tinha uma ferida feia na parte superior da coxa, e lançou-lhe um olhar gelado. Fora uma penetração direta, mas o canal aberto na carne apresentava queimaduras graves.
Deringhouse achou que não valia a pena bancar o herói. Todo mundo sabia que sofria dores cruciantes. Por isso gemeu. Se isso lhe desse um ligeiro alívio por um segundo, já teria ganho muita coisa.
Os outros homens da tripulação estavam de pé, encostados às paredes da sala. Mais de trinta armas mortíferas estavam apontadas para eles.
Quando recuperaram a consciência, Orlgans já se encontrava no recinto.
— Quem tramou isso? — voltou a perguntar o comandante. — Foi o senhor?
Deringhouse deu um sorriso forçado. Finalmente deu uma risada convulsiva.
— Só podia ser eu — gemeu. — Afinal, sou o comandante da nave.
Orlgans se aproximou do leito de Deringhouse. A raiva fria não o privou do autocontrole. O ferido deu um grito.
— Seu patife! — gritou Milly Orson.
Orlgans não lhe deu atenção. Foi caminhando pesadamente na direção de Tifflor.
Julian sentiu o hálito quente do gigante. Orlgans fervia por dentro. Ao que parecia sabia perfeitamente que só por pouco escapara à destruição. Mas como chegou a saber?
A explicação foi de uma simplicidade enorme.
— Foi você, seu hipócrita dos infernos, que fez rolar a bomba para baixo do leito, não é? Por certo não se lembrou de que somos gente muito limpa. Os camarotes de minha nave são limpos pelos robôs depois de cada utilização. Nessa oportunidade os leitos são embutidos na parede. Que pena, não é, Julian Tifflor? Um dos meus homens desarmou a bomba com um dedo. Também é uma pena, não é?
Tiff soltou uma risada de desespero. Então foi isso. Viu a sombra gigantesca caminhar em sua direção. A pancada terrível da pata de Orlgans o fez cair ao chão sem um gemido. Não chegou a ver a revolta que quase irrompeu.
Quando recuperou a consciência, estava deitado num leito do hospital de bordo, ao lado de Deringhouse. A ferida do comandante fora tratada. Mais atrás, as moças estavam trabalhando. Não se via nenhuma sentinela.
Deringhouse estava acordado. Fitou os olhos de Tiff.
— Calma, rapaz, está tudo OK. Escapamos mais uma vez.
— Não... não foi minha culpa — gaguejou Tiff e seus olhos ficaram úmidos. — Não contava com isso.
— Esses sujeitos poderiam ter feito a limpeza cinco minutos mais tarde — disse Deringhouse, soltando uma gargalhada entrecortada. — OK, não diga mais nada. O plano foi excelente. Sempre temos de contar com algum imprevisto. Durma. Você sofreu um abalo cerebral. Oh, grande Netuno, que pata tem esse sujeito!
— E agora? — cochichou Tiff antes que seus olhos se fechassem de novo.
— Ora, isso se arranjará de alguma forma — disse Deringhouse, esticando as palavras. — Não me diga que acredita que o chefe se aposentou na Stardust-III. Tudo OK. Descanse. Isto é uma ordem, cadete Tifflor.
Tiff viu anéis vermelhos dançarem diante de seus olhos. Deles se destacaram os contornos do imenso supercouraçado. Na verdade, se o mesmo aparecesse por aqui, os saltadores já não teriam motivo para rir. Mesmo que Tifflor não acreditasse em mais nada, isso ele sabia.
De qualquer maneira, por enquanto sua atuação terminara. O resto dependia do chefe.



* * *
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O cadete Julian Tifflor, formando da Academia Espacial da Terceira Potência, foi escolhido por Perry Rhodan para desempenhar o papel de chamariz cósmico.
O cadete caiu na armadilha em que lhe puseram. Mas Perry Rhodan, que na Stardust-III pretende tirá-lo prontamente da armadilha, defronta-se com dificuldades, pois de repente tem diante de si A Frota dos Saltadores.
A Frota dos Saltadores é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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