terça-feira, 2 de abril de 2013

P-065 - Um Sopro de Eternidade - Clark Darlton [parte 3]

Aqui fala Ras Tschubai.
A resposta veio dentro de poucos segundos. Quem falou foi o próprio Rhodan.
Aqui é a Sambo. O que houve?
Encontro-me na sala de máquinas da nave inimiga. Vejo robôs, mas nenhum ser orgânico. Segurarei a câmara de tal maneira que o senhor veja tudo.
Espere dez segundos — ordenou Rhodan. — Ligarei os aparelhos de registro de imagem, para que possamos documentar tudo. Nossos técnicos precisarão de algum tempo para estudar as máquinas.
Ras esperou os dez segundos e ligou a câmara. Ficava embaixo do minúsculo aparelho que trazia no pulso, e que não era maior que um relógio de pulso. Movia lentamente o braço de um lado para outro.
Enquanto isso fazia ligeiros comentários.
Estes robôs têm um formato diferente. Até parece que seus inventores recorreram a uma construção diferente para cada finalidade. As esferas são oficiais, pois parece que são muito versáteis. E, naquela ocasião, estavam armadas. Não tenho certeza se isso acontece com os robôs que estão aqui. Não sei ainda como são os verdadeiros criadores dessa tecnologia, Não existe a menor indicação. É possível que Gucky tenha mais sorte.
Não temos qualquer contato com Gucky. Não responde às nossas mensagens. E não houve qualquer mensagem telepática.
Ras não respondeu. Levantou-se um pouco para dirigir a pequena câmara a todos os cantos da sala. Provocou um ligeiro ruído, que foi superado inteiramente pelo zumbido das máquinas.
Será que foi mesmo?
O robô de trabalho que se encontrava mais próximo parou em meio ao movimento. Um dos braços foi descendo lentamente. Depois rolou em direção ao esconderijo do africano.
Notaram minha presença — cochichou Ras em tom assustado. — Tenho de iniciar a destruição...
Espere mais um pouco! — ordenou Rhodan em tom enfático. — Salte para outra sala e volte mais tarde à sala de máquinas. Precisamos de mais algumas fotografias. Deixe o aparelho ligado; pouco importa que haja uma localização goniométrica.
Ras não teve tempo de responder. O robô havia rolado para junto dele e mantinha estendidos quatro braços, como se quisesse agarrar um inimigo invisível.
Realmente agarrou... mas agarrou o vazio...
Ras materializou-se dois pavimentos mais em cima, num pavilhão metálico cujo teto tinha um estranho formato de abóbada. Consistia num estranho material leitoso, no qual confusas faixas coloridas corriam de um lado para outro. Enquanto Ras estava olhando, as faixas foram adquirindo contornos definidos.
Transformaram-se num quadro nítido No mesmo instante, Ras sentiu uma suave pressão no cérebro e cedeu à mesma. Não era telepata, mas de repente pareceu ser capaz de ler pensamentos, pois em sua consciência surgiu uma voz perceptível, que disse:
O que você viu, forasteiro, foi a realidade.
Naquele instante, Rhodan perguntou:
O que houve, Ras? Onde está o senhor? A imagem captada é muito apagada. Desligue a câmera.
Ras cochichou:
Alguém falou comigo. No meu cérebro. Por via telepática. O que devo fazer?
Rhodan não respondeu imediatamente. Depois de algum tempo, ordenou:
Tenha cuidado. Pode ser urna armadilha. Não o incomodarei mais, para não distrair sua atenção. Continue a transmitir.
A transmissão não desviava a atenção de Ras.
A voz voltou a soar em sua consciência e repetiu a mesma frase. No teto o quadro começou a tornar-se mais nítido. Um planeta girava em torno de seu eixo e corria em torno de um sol branco-amarelado. Ras teve a impressão de encontrar-se a algumas horas-luz daquele mundo, assistindo a uma reprodução concentrada no tempo.
A imagem projetada no teto tornou-se maior e mais nítida. O espectador parecia precipitar-se em direção ao planeta, que girava em torno de seu eixo, aproximadamente uma vez por segundo. Levava uns cinco ou seis minutos para completar uma volta em torno do sol.
O planeta foi crescendo. Ras distinguiu continentes e mares.
Aquelas formas lhe eram familiares.
Subitamente o africano estremeceu ao perceber a verdade.
O planeta que via diante de si era a Terra!
Ras Tschubai ficou rígido de pavor. Os estranhos seres conheciam a Terra. Sabiam de onde vinha Rhodan.
A Terra girava setenta e duas mil vezes mais depressa que sua velocidade normal. Ras Tschubai viu-a sob esse ângulo de visão. No plano temporal, transformara-se num desses seres.
Subitamente notou uma coisa.
De início pensou que fosse engano. Mas depois percebeu que enxergara bem. Os olhos viam perfeitamente os continentes — a África e a América, e, entre os dois, o Atlântico.
E no meio do Atlântico um pequeno continente que já deixara de existir na Terra.
Atlântida!
A voz estranha voltou a soar em seu cérebro.
O que você está vendo, forasteiro, é a realidade. Há um tempo que vocês designam como a fração de um ano.
Ras fitou atentamente o planeta que girava vertiginosamente e a Atlântida, que se tornava visível pela fração de um segundo.
Cada segundo era um dia.
E cada dia representava duzentos movimentos de translação em torno do sol...
Ras sentiu-se tonto.
Quando, em sua dimensão temporal, os seres teriam tirado essas fotografias? Há dez mil anos, quando os dois planos se cruzaram pela primeira vez?”, indagou-se mentalmente.
De repente, percebeu qual seria o destino da expedição, se não acontecesse um milagre. Se permanecessem por uma semana naquele plano temporal, mais de mil anos se passariam em seu Universo. O Império Solar, o Império dos Arcônidas e Perry Rhodan já teriam desaparecido.
Tudo desaparecido e esquecido.
Num gesto de desespero, Ras Tschubai levantou a arma energética e destruiu o quadro da Terra que girava vertiginosamente. O quadro apagou-se.
Dez ou vinte portas abriram-se no salão circular. Gigantescas figuras quadrangulares entraram. Se Gucky as visse, elas lhe pareceriam familiares. Suas antenas dirigiram-se para Ras, e um brilho azulado surgiu em torno das esferas douradas...
Mas Ras foi mais rápido.
Antes que as ondas de choque paralisantes pudessem atingi-lo, teleportou-se para a sala de máquinas. Parou no centro da mesma e abriu fogo contra os quadros de comando, as fileiras de instrumentos e os robôs de trabalho.
Pingos de metal caíam ao solo. Os isolamentos se queimavam, e raios fulgurantes corriam de um bloco a outro. Ras ouviu uma detonação. Perdeu o equilíbrio e teria caído se não estivesse encostado a um gerador.
A nave inclinou-se para a frente e correu em direção à superfície do planeta.
Não perca tempo! — gritou Rhodan. — Está caindo.
Ras acenou com a cabeça; seu rosto parecia zangado.
Já sei — respondeu.
Lançou mais um olhar para o caos e concentrou-se para efetuar o salto.
Ainda viu uma porta oval abrir-se nos fundos. Dois ou três dos colossos angulares penetraram na sala. Ainda chegou a sentir a primeira onda de choque das armas que portavam, mas a mesma veio tarde. Não conseguiu romper a concentração de sua mente.
Saltou.
A nave preta correu vertiginosamente em direção ao solo pedregoso. Sua proa pontuda penetrou profundamente na montanha. Dentro de poucos segundos foi despedaçada por uma enorme explosão.
Ras Tschubai materializou-se ao lado de Rhodan, na sala de comando da Sambo.
Esteve a ponto de suspirar aliviado, mas antes disso viu o rosto de Rhodan.
Missão cumprida — anunciou em tom objetivo e tentou ler nos rostos de Crest ou de Sikermann o que havia acontecido.
Rhodan fez um gesto afirmativo e disse:
A nave para a qual Gucky saltou está sendo desviada da rota. Aumentou a velocidade e voa em direção a um ponto situado fora do sistema. Gucky não responde às nossas mensagens — lançou um olhar para Ras. — Tem uma idéia do que poderia ter acontecido?
Ras logo se lembrou dos robôs com suas ondas de choque paralisantes. Talvez o rato-castor tivesse sido surpreendido pelos mesmos. Isso não era do seu feitio, mas era perfeitamente possível que tivesse subestimado o perigo e confiado demais em suas extraordinárias faculdades.
Eles têm robôs de combate que usam armas que não conhecemos. Emitem ondas de choque cuja causa é desconhecida. Talvez...
Isso é altamente provável! — interrompeu Rhodan, que já imaginava o que Ras iria dizer. — Pegaram Gucky.
Dirigiu-se a Sikermann.
Siga a nave. Precisamos saber para onde levarão Gucky.
Ras venceu suas dúvidas e perguntou:
Quer que tente...?
Não! — disse Rhodan em tom resoluto. — Se Gucky estiver morto, o senhor chegará tarde. Se estiver vivo, saberá o que fazer. Permaneceremos perto dele, para que possa saltar assim que seja capaz. Além disso, talvez encontremos a pista dos verdadeiros inimigos.
John Marshall encontrava-se um tanto afastado, perto de Atlan. Até então mantivera-se em silêncio. Subitamente soltou uma exclamação, concentrou-se e disse:
Foi Gucky. Apenas um ligeiro impulso, como se subitamente tivesse despertado para adormecer logo em seguida. Não foi uma idéia definida, mas apenas um impulso de medo, de um medo terrível.
Marshall fitou Rhodan com uma expressão preocupada. — A esta hora não gostaria de estar no couro de Gucky.
Nem eu — disse Rhodan.
Em seus olhos surgiu uma expressão de insegurança, mas logo se tornaram firmes como sempre. Fitou a tela. A nave preta inimiga, a bordo da qual se encontrava Gucky, tornara-se maior, pois a Sambo estava acelerando. O planeta de cristal foi-se afastando rapidamente, tornando-se cada vez menor.
Nada acontecerá a nosso Gucky. Se esses seres realmente sabem ler pensamentos, não se atreverão a fazer qualquer coisa a Gucky, pois saberão que não descansarei antes de varrer seu plano temporal do Universo, mesmo que isso me custe a vida.
Ras manteve-se em silêncio. Ninguém disse nada.
Sentiram que Rhodan estava falando sério.
5



Aquele que se encontrava na gigantesca nave disse:
Repita a mensagem!
Capturamos um dos estranhos, mestre. É diferente dos senhores. Talvez seja um servo. Não sabemos como conseguiu penetrar em nossa nave.
Alguns segundos se passaram antes que ordenasse:
Tragam o prisioneiro à minha nave. Depressa!
Desligou e por alguns minutos manteve-se imóvel em sua poltrona.
Depois tomou toda as medidas para receber o prisioneiro.

* * *

Gucky não perdeu os sentidos.
Era incapaz de fazer qualquer movimento, mas viu o robô aproximar-se. As esferas douradas continuavam a cuspir chamas azuladas, que corriam em sua direção e o mantinham preso. Embora não pudesse concentrar-se para executar um salto de teleportação, ainda estava em condições de avaliar e analisar a situação em que se encontrava.
Caíra em poder do inimigo, daqueles seres desconhecidos, que os haviam absorvido com seu plano temporal. Era bem possível que dentro em breve se defrontasse com o mais estranho ser que jamais fora visto por outro em todo o Universo. Mas pagaria um preço elevado por isso. Talvez a experiência lhe custasse a vida.
Antes de mais nada, sentiu-se aborrecido com sua falta de cautela. Era vaidoso como qualquer ser inteligente. E o fato de que aquilo acontecera justamente com ele ferira seu orgulho. Caíra numa armadilha, e suas capacidades maravilhosas não serviam para nada. Não era possível ativar o setor do cérebro por meio do qual executava a teleportação. E no terreno do telecinético tinha a mesma capacidade de uma criança recém-nascida. Quanto à telepatia, não teria necessidade de experimentá-la. Afinal, os robôs não têm a menor inclinação telepática.
O monstro quadrado encontrava-se bem à frente. Os tentáculos pendiam frouxamente junto ao corpo metálico. Só as antenas continuavam a expelir chispas energéticas. E estas eram suficientes para paralisar Gucky.
Apesar disso, o rato-castor teve a impressão de sentir um calafrio quando outra sombra gigantesca surgiu na porta e um segundo robô penetrou na sala. Era uma reprodução exata do colosso que vira em primeiro lugar. Os dois levantaram os braços e se deram as mãos.
Deve ser uma espécie de contato ou comunicação”, pensou.
Sim, devia ser isso mesmo. A esperança secreta de poder libertar-se não se cumpriu. Gucky tentou superar a paralisia nervosa para ativar o cérebro, mas foi em vão. Sempre que tentava, as dores aumentavam tanto que desistia imediatamente.
Tentou virar os olhos para ver as vigias. Ficou espantado ao notar que a Sambo havia desaparecido. Numa posição lateral viu o sol branco-amarelado em meio ao Universo negro. Antes o sol fora vermelho, em virtude do deslocamento da dimensão temporal. Quer dizer que até isso voltara ao normal.
A nave devia ter alterado a rota. Pelo que Gucky podia ver, corria pelo espaço, em direção a um destino desconhecido. Uma teleportação cega seria mais perigosa a cada segundo que passava. O salto para o vácuo era arriscado, pois se não conseguisse desmaterializar-se no mesmo instante, estaria perdido.
Um segundo poderia bastar para orientar-se.
Mas também poderia ser suficiente para matá-lo.
Por um instante a superfície do planeta de cristal passou por baixo de uma das vigias de cristal. Sobre a superfície via-se um cogumelo, que só poderia ter sido formado por uma explosão atômica.
Gucky suspirou aliviado. Podia respirar; ainda bem. Nem ele nem Ras usavam trajes protetores.
Só agora deu-se conta de que a atmosfera na nave inimiga era respirável, embora só houvesse robôs a bordo. Qual seria a finalidade disso?
Mas por que iria refletir sobre coisas que não poderia esclarecer?
A missão de Ras fora coroada de êxito. A segunda nave acabara de detonar na superfície do planeta de cristal. A nuvem-cogumelo não poderia ter outra causa.
Se fosse capaz, Gucky teria suspirado de inveja. Mas o alívio que sentiu foi mais forte que esse sentimento egoísta. O inimigo havia perdido mais uma nave, e nesse instante Rhodan já deveria saber que seu pequeno amigo caíra nas mãos do inimigo.
Estendido para além das vigias, o Universo era completamente negro. Milhares de estrelas cobriam a escuridão absoluta como se fossem um véu, dando-lhe um brilho prateado que lembrava o infinito. De repente, alguma coisa interrompeu esse brilho prateado.
Gucky viu pelo canto dos olhos. Uma sombra negra de formato oval cobriu as estrelas de tal forma que se percebiam seus contornos. Aproximava-se rapidamente. Gucky não conseguiu avaliar a posição da sombra, mas calculou que devia medir mais de mil metros.
Seria uma nave?
Será que possuíam naves desse tamanho? Provavelmente eram as inteligências dominantes do outro plano temporal e já conheciam a astronáutica há milênios...
Não; não era isso. Podia ser assim pelo cálculo de tempo terrano, mas sob o ponto de vista do inimigo o nascimento de Cristo só ocorrera há dez dias.
Subitamente Gucky se apavorou. Deu-se conta de que provavelmente aquelas naves já percorriam a Galáxia há um milhão de anos, sem que ninguém as visse.
Um ligeiro solavanco passou pela nave, no momento em que esta entrou em contato com o gigante. Ouviu-se um ruído forte quando os grampos envolveram o torpedo, ligando as duas naves.
A palestra silenciosa dos robôs chegou ao fim. O que chegara por último retirou-se.
Subitamente as vigias fecharam-se, sem que a iluminação na sala se tornasse mais forte. Na semi-escuridão Gucky mal conseguia vislumbrar os contornos dos objetos. Os traços do robô distinguiam-se contra a parede que emitia um brilho pálido, mas mesmo que Gucky não o tivesse visto, os raios azuis expelidos pelas antenas esféricas constituiriam um sinal inequívoco de sua presença.
De repente os raios azulados se apagaram.
No início Gucky nem percebeu, de tão aliviado que se sentiu com a súbita cessação da dor nervosa a que já se acostumara. Parecia que o cérebro até então estivera preso num envoltório de aço cujas paredes se derreteram como que por milagre, deixando-o livre.
Instantaneamente Gucky compreendeu.
O robô libertara-o da constrição nervosa por sentir-se seguro de sua presa. Agora, que estavam estreitamente amarrados à nave capitânia, a fuga seria impossível.
A primeira idéia que acudiu a Gucky foi a de teleportar-se. Mas não conseguiu privar-se do prazer de exercer uma pequena vingança no lugar dos acontecimentos, mesmo que isso pudesse representar um novo perigo.
O robô nem sabia o que estava acontecendo quando seus doze tentáculos e as antenas foram dobradas para trás por uma força invisível, vinda do nada. As instalações eletrônicas existentes em seu corpo obedeceram aos comandos e ofereceram resistência ao inimigo invisível, mas o resultado foi exatamente o contrário do que seria de esperar.
Os fusíveis começaram a queimar. Uma faísca saltou atrás da “pele” metálica, queimando importantes contatos. Outro curto-circuito fez com que o colosso estremecesse. As antenas dobradas expeliam raios azuis, mas estes erravam pela sala e se perdiam no teto. Gucky não sentiu o efeito dos mesmos.
O monstro fez uma última tentativa para defender-se do ataque que, segundo supunha, estava sendo desfechado pela pequena criatura que tinha à sua frente, mas isso foi o fim.
Gucky saltou para trás, apavorado, quando o último fusível se queimou, produzindo um forte estalo. O grande robô cambaleou e caiu desajeitadamente ao solo, como se de repente tivesse perdido o equilíbrio. Em seu interior ouviu-se um tilintar, como se alguém tivesse derramado uma lata cheia de parafusos. Nas costas e no peito surgiu uma mancha incandescente, e Gucky teve a impressão de que estava na hora de dar o fora.
Concentrou-se sobre a superfície pedregosa do planeta de cristal, desmaterializou-se e saltou.
Mas não chegou longe.
A rematerialização foi forçada e não ocorreu no lugar que previra.
No momento em que conseguiu enxergar, Gucky sentiu uma dor cruciante. Caía num vazio infinito, mas conseguia respirar. Antes que se preparasse para novo salto, um pensamento surgiu em seu cérebro. O pensamento não era dele, mas provinha de um impulso mental estranho que penetrara forçadamente em seu cérebro. Devia ser o comando mental de...
Você não correrá o menor perigo, forasteiro, desde que se entregue a mim.
Gucky sentiu-se dominado pelo pânico. Teve medo de encontrar-se com algum ser estranho.
Mudou de opinião e preferia agora não ver nenhum desses seres. Queria voltar para a Sambo, para junto de Rhodan e dos outros amigos.
No momento em que fechou desesperadamente os olhos e ativou o setor do cérebro que lhe permitiria realizar a teleportação, viu Rhodan à sua frente.
Saltou para o desconhecido, a fim de escapar do alcance daquela voz.
Mergulhou profundamente num abismo...
A luz voltou a surgir.
Quando abriu os olhos, viu-se num prado verde, sob um céu azul. O capim chegava até os quadris e o ar era tépido e aromático, como só o ar do planeta Terra poderia ser.
A dois metros dele, viu Perry Rhodan, que lançava um olhar sonhador para as nuvens que desfilavam pelo céu.
Gucky não compreendeu, mas o fato de ver Rhodan diante de si fez com que esquecesse todas as dúvidas. Qualquer engano era impossível.
Perry! — disse Gucky com a voz estridente e caminhou em direção ao bom amigo. — Perry, estou tão satisfeito por eu ter conseguido escapar. Está zangado porque fugi?
Rhodan nem se mexeu. Parecia não ouvir as palavras do rato-castor. Continuava a fitar o céu, como se estivesse procurando alguma coisa.
Gucky espantou-se. Mas fosse qual fosse a maneira pela qual viera parar neste lugar, fossem quais fossem as peças que as outras dimensões temporais lhe tivessem pregado, o que importava era que já não havia o menor perigo.
Perry! — disse O rato-castor com a voz abafada. — Saltei e...
Ergueu-se e estendeu a mão em direção a Rhodan.
Porém a mão de Gucky passou por Rhodan.
Não encontrou qualquer resistência...

* * *

O Tenente Sikermann firmou os controles. Sem tirar os olhos da tela frontal, disse:
A nave preta está desacelerando. Quer que eu...?
Mantenha a mesma distância, Sikermann. Antes de atacarmos, devemos saber se está só.
Logo viram que não estava só.
Os contornos de uma gigantesca nave alongada surgiram na tela. Devia ter mais de mil metros de comprimento e pairava no espaço. Não se podia reconhecer a forma de propulsão. Não havia nenhuma abertura no envoltório liso. O gigante esperava no espaço, que nem uma sombra imóvel e pavorosa, aguardando a nave menor, que se aproximava lentamente, até que os grampos magnéticos cingissem seu corpo.
É a nave capitânia! — disse Rhodan em voz baixa, como se receasse que pudessem ouvi-lo. — Só pode ser isso. Será que nos vêem?
Sikermann deu de ombros.
É bem possível. Talvez não receiem nenhum ataque, porque têm um refém. É Gucky.
Rhodan virou-se para Marshall.
Nada ainda, John? Não está captando nenhum impulso de Gucky?
Raramente. E os impulsos sempre são confusos e incompletos. Sua intensidade é bastante variável. Às vezes os impulsos são mais fortes, outras vezes são tão fracos que mal consigo percebê-los. Infelizmente não os compreendo.
O certo é que Gucky ainda está vivo e se encontra a bordo da nave menor — constatou Rhodan.
Hesitou por um momento. Depois dirigiu-se a Ras:
Tschubai, daqui a pouco você terá de saltar. Não vejo outra possibilidade de tirar Gucky de lá.
Poderíamos atacar — disse Sikermann. — Com nossas armas...
...mataríamos Gucky! — completou Rhodan em tom de espanto. — Não. desta vez a violência não resolverá nada. Só os mutantes nos poderão ajudar.
Atlan aproximou-se e colocou a mão sobre o ombro de Rhodan.
Assim que seu amiguinho estiver em segurança, deveríamos pensar seriamente em voltar ao nosso plano temporal. Estou muito preocupado, bárbaro...
Eu também — confessou Rhodan e permaneceu imóvel, como se receasse que de outra forma o imortal poderia tirar a mão de seu ombro. — Já demoramos demais nesta dimensão. Ainda não sei como faremos para romper a barreira energética. O risco seria muito grande.
O risco de ficar aqui por mais tempo e perder todo o tempo do Universo é muito maior — Atlan sacudiu a cabeça. — Durante os poucos segundos que dura a ruptura forçada da barreira energética a Sambo não poderá sofrer avarias sérias.
E os seres estranhos, Atlan? O que faremos para descobrir como e quem são? Talvez nunca consigamos descobrir.
Descobriremos, sim — e talvez logo, quando Gucky estiver conosco.
Rhodan voltou a dedicar sua atenção à tela e esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando Marshall soltou um grito de espanto.
É Gucky! Está chamando! Capto perfeitamente seus pensamentos! Pode fugir, mas ainda está esperando. Vê um robô com antenas em cujas pontas existem esferas douradas...
Os robôs com que me encontrei são do mesmo tipo — disse Ras apressadamente.
Marshall não deixou que estas palavras o distraíssem.
Quer inutilizar o robô antes de voltar. Não sabe onde estamos. Ao que parece não está captando meus pensamentos. Talvez nem esteja interessado nisso. Está atacando...
Ouviram ansiosamente as palavras do telepata, que relatou os detalhes da luta que o rato-castor travava com o robô, na medida em que os pensamentos apressados de Gucky o permitiam. Não foi muita coisa, mas depois de algum tempo Marshall pôde anunciar:
Está liquidado! Conseguiu. Neste momento, ele se concentra para o salto. Está pensando no senhor, Rhodan. Agora... saltou...
Marshall manteve-se calado por um instante e passou os olhos pela sala de comando, como se esperasse ver Gucky.
Desapareceu. Não consigo captar mais nenhum pensamento. Gucky saltou...
Subitamente os olhos de Rhodan se estreitaram. Seu olhar atingiu Crest, Atlan e por fim ficou preso a Marshall.
Saltou?
Perdi o contato. Deve ter saltado. Ou está morto.
Uma expressão dura surgiu no rosto de Rhodan. Parecia esculpido em pedra. Por alguns segundos reinou um silêncio completo na sala de comando. Ninguém falava.
De repente, Rhodan dirigiu-se a Sikermann:
Siga em direção às duas naves. Vamos atacar — adiantou-se e baixou a alavanca do intercomunicador. — Alarma! Preparar todos os postos de combate. Capitão Aurin, prepare o transmissor fictício.
Pretendia utilizar em primeiro lugar a arma mais eficiente.
O transmissor fictício viera do planeta Peregrino, um mundo artificial. Este era o mundo do imortal, um ser misterioso, feito exclusivamente de energia, que concedera a Rhodan o benefício do prolongamento da vida. O transmissor podia teleportar porções de matéria, transferindo-a de um instante para outro a qualquer lugar, fosse qual fosse a distância. Se os campos da gigantesca nave negra estivessem em superposição, a mesma desapareceria como se nunca tivesse estado lá. Retomaria ao Universo de quatro dimensões, a mil ou cem mil anos-luz de distância, e estaria perdida no tempo e no espaço.
Depois de dez segundos, a Sambo desacelerou e entrou em posição de ataque.
O intercomunicador emitiu um estalido. A voz de Aurin saiu do alto-falante:
Transmissor regulado para o alvo. Aguardo ordem de abrir fogo.
Um momento — respondeu Rhodan.
Esperava a primeira ação da nave inimiga...
Não teve de esperar muito.
Os grampos magnéticos soltaram a nave menor, libertando-a. Logo recuaram para dentro do envoltório. Uma parede reluzente surgiu entre as naves negras e a Sambo. As sombras das duas naves inimigas pareciam boiar no interior de uma bolha quase transparente.
Um campo defensivo energético não exercia qualquer influência sobre a eficácia do transmissor fictício, pois este teleportava o objeto através da barreira, passando pela quinta dimensão, quando isso se tornasse necessário.
Mas ao que parecia o inimigo não tinha a intenção de entregar-se sem luta a um destino incerto. Na proa da nave maior, algumas placas negras escorregaram para o lado, deixando livre o cano em espiral de um canhão eletrônico, que se dirigiu contra a Sambo.
Nos fundos da sala, Crest mantinha-se tenso e respirava de modo acelerado. Sua tensão aumentou quando percebeu as intenções do inimigo.
Olhem! — exclamou Atlan quando viu o lampejo fulgurante, que bateu contra o campo energético da Sambo, abrindo-se em leque.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia contrariado.
Gostaria tanto de saber como eles são. É uma pena! — inclinou-se ligeiramente, sem tirar os olhos da tela. — Aurin! Fogo! Dispare durante dez segundos contra a nave menor. É possível que depois disso o gigante se torne razoável.
Nos segundos seguintes não aconteceu muita coisa.
De início, teve-se a impressão de que a luminosidade do envoltório protetor das naves negras crescia, mas depois o campo energético se abriu, para voltar a fechar-se. Desta vez só envolveu a nave maior. A menor permaneceu por um instante sem proteção, como que abandonada pelo irmão maior, depois desapareceu sem deixar o menor vestígio.
Acontece que o fato produziu estranhos efeitos colaterais...
O transmissor fictício havia sido construído no Universo normal, motivo por que era regido pelas leis do mesmo. A transferência da Sambo para outro plano temporal não poderia modificar esse fato. A pequena nave negra foi arrancada com uma força inconcebível da quarta dimensão e atirada para a quinta dimensão, onde não havia tempo nem espaço.
Para a quinta dimensão do outro plano temporal!
A violência e a velocidade do fenômeno era setenta e duas mil vezes maior que a que se verifica numa teleportação comum. O tempo da outra dimensão tinha a consistência da matéria.
A nave teleportada bateu contra uma muralha de tempo materializado.
Desfez-se em átomos, mas com isso abriu uma fresta na muralha do tempo. Sem que Rhodan ou qualquer dos ocupantes da Sambo percebesse, foram atirados até certo trecho do passado. Isso não se revelava no mundo exterior, pois o efeito ficava restrito às imediações do local d acontecimento.
Mas a catástrofe temporal evitou que Rhodan sofresse uma terrível surpresa, pois se não tivesse ocorrido, ele teria perdido muitos anos. E nestes anos o Império Solar talvez se teria esfacelado.
O fato é que apenas viu uma abertura cintilante no lugar em que antes estivera a nave negra. Enquanto seu cérebro registrava o fato e procurava explicar o fenômeno, a fresta voltou a fechar-se. Tudo voltou ao estado anterior.
Deste estamos livres — disse o Tenente Sikermann em tom indiferente. — E agora...
Capitão Aurin! — gritou Rhodan para dentro do intercomunicador. — Mantenha o transmissor preparado, mas só abra fogo quando receber ordens expressas para isso.
Entendido! — respondeu a voz áspera.
Nossos campos defensivos não resistirão por muito tempo ao bombardeio inimigo — advertiu Sikermann com a voz preocupada. — Se não atacarmos logo...
Vamos esperar mais um pouco disse Rhodan. — Afinal, viram com os próprios olhos como são nossas armas. Acho que pautarão seu comportamento de acordo com esse fato.
Atlan perguntou:
Será que eles têm olhos?
6



Gucky fitou sua mão com uma expressão de pavor, depois que esta acabara de “atravessar” Rhodan. Logo se deu conta de que a mão era matéria e, portanto, realidade. Se havia alguma coisa que não fosse real, devia ser Rhodan.
Seus olhos dirigiram-se para o espírito de Rhodan, pois o que tinha diante de si não poderia ser outra coisa. Mas a Terra que tinha sob os pés, o capim, tudo isso devia ser real, pois do contrário não conseguiria manter-se de pé...
Gucky não teve tempo para outras reflexões. Um punho invisível, vindo do nada, agarrou-o e o arrastou para a escuridão do infinito em que o tempo deixara de existir. Sentiu que se desmaterializara, como se sua mente se tivesse concentrado sobre uma teleportação.
Mas aquilo aconteceu independentemente de sua vontade.
Gucky não saberia dizer quanto tempo durou esse estado, se é que havia uma possibilidade de medir uma situação dessas em termos de tempo. De repente, viu-se novamente capaz de sentir alguma coisa. E o que sentiu foi um calor benfazejo que o envolvia.
O calor significava vida e...
E o funcionamento do cérebro!
Abriu os olhos, para orientar-se e, se necessário, saltar de novo, fosse para onde fosse. Mas antes que pudesse ver qualquer coisa, ouviu um grito de espanto e de alívio:
Olhem; é Gucky!
Ao mesmo tempo, os pensamentos afluíram à sua mente e o envolveram numa torrente de alegria e simpatia.
Sim; voltou — disse Rhodan e por alguns segundos esqueceu a grande nave negra. — Gucky você nos meteu um susto. Por que não saltou logo, quando percebeu que sua vingança se dirigia apenas contra um robô?
O rato-castor olhou lentamente em torno e estudou os rostos dos presentes com uma expressão pensativa. Parecia ter certa dificuldade em rememorar os acontecimentos.
Há quanto tempo desapareceu a nave pequena? — perguntou, fitando a tela.
Rhodan fez um sinal para Marshall, que pretendia dizer alguma coisa.
Há alguns minutos, Gucky. Suponho que neste meio tempo você tenha estado na grande nave. O que viu por lá?
O rato-castor sacudiu lentamente a cabeça. Por um segundo fitou os olhos de Atlan, nos quais havia um brilho de eternidade, como se estes pudessem dar respostas às perguntas que trazia na mente. Depois de algum tempo anunciou:
Faz dez segundos que saltei da pequena nave. Mas neste meio tempo materializei-me em outro lugar: na Terra.
Rhodan reprimiu uma expressão de espanto e viu os olhares perplexos dos outros. A afirmativa de Gucky encerrava duas impossibilidades que teriam de ser esclarecidas.
Você não pode ter saltado há dez segundos, Gucky, pois a nave foi destruída há três minutos com o transmissor fictício. Portanto, você deve ter cometido um engano no que diz respeito ao tempo. — Rhodan respirou profundamente. — E quando você diz que esteve na Terra só pode ter feito uma piada sem graça, não é?
Os olhos castanhos do rato-castor refletiram o medo do desconhecido, do medonho, do inexplicável, para o qual não havia resposta. Num gesto de súplica cruzou os bracinhos sobre o peito.
Saltei há dez segundos, Perry, e estive na Terra. Vi o céu azul, senti o cheiro do ar tépido e... vi você.
Rhodan recuou um pouco. Certificou-se de que o Tenente Sikermann não tirava os olhos da nave negra e se mantinha preparado para reagir imediatamente a qualquer ato.
Você me viu?
Gucky fez que sim.
Você estava num prado verde cheio de flores. No céu havia pequenas nuvens. Materializei-me bem perto de você, a menos de dois metros. Eu o chamei, mas você não ouviu. Parecia não reconhecer-me quando caminhei em sua direção. Quis dar-lhe a mão. E depois...
A voz de Gucky morreu em meio a um som queixoso que expressava um medo indisfarçável. A lembrança da experiência terrível ameaçava dominar o rato-castor, geralmente tão corajoso e inteligente. Crest aproximou-se por trás e pousou a mão sobre seu ombro. Gucky voltou a acalmar-se.
Minha mão “atravessou” seu corpo, Perry. O que encontrei não foi seu corpo, mas seu espírito. Não, não foi um sonho — olhou para baixo, inclinou o corpo e passou a mão pelos pés. — As sementes de capim ainda estão aqui.
Rhodan lançou um olhar de perplexidade para Crest e Atlan.
O que será isso? Uma alucinação?
Atlan aproximou-se. Lançou um olhar reconfortador para Gucky e, dirigindo-se a Rhodan, disse:
Não, não pode ser uma alucinação, bárbaro. Existem certas coisas que ainda não compreendemos, porque excedem a capacidade de nossa inteligência. De qualquer maneira, deveríamos recorrer à lógica para procurar uma explicação. Suponhamos que Gucky não se tenha enganado, exceto quanto à duração do salto. Neste ponto, deve ter havido um engano, pois a nave da qual Gucky saltou foi destruída três minutos antes de ele ter aparecido aqui. Conclui-se que Gucky esteve a caminho durante três minutos, embora acredite que só levou dez segundos para efetuar o salto.
Prossiga, meu velho — pediu Rhodan ao arcônida, quando este fez uma pausa. — Estamos curiosos para ouvir o que você tem a dizer.
Sinto decepcioná-los — disse Atlan, reprimindo a curiosidade dos outros. — Não sei muito mais que isso. O salto de teleportação levou Gucky para um campo atemporal. Concentrou-se em Rhodan. Mas uma coisa é certa. Na momento em que Gucky saltou, você não estava aqui, e sim na Terra.
Parece que todo mundo ficou louco! — disse Rhodan, sacudindo a cabeça.
Atlan não deixou que esta observação o perturbasse.
Admitamos que Gucky tenha saltado para dentro de uma barreira energética, que os seres enigmáticos colocaram em torno de suas naves. Quem nos garante que realmente se trata de uma barreira energética? Talvez seja uma barreira temporal. Gucky saltou para o interior da mesma e foi transportado para o passado ou para o futuro. Mas seu cérebro tinha de cumprir uma ordem: levá-lo para junto de Rhodan. Acontece que você ainda, ou já, se encontrava na Terra. Por isso Gucky foi levado à Terra. É a única explicação que encontro para o fenômeno.
Crest acenou lentamente com a cabeça. Mas Rhodan ainda não se deu por satisfeito.
Por que me transformei num espírito? Gucky não acaba de afirmar que sua mão passou por mim?
Atlan acenou com a cabeça; não parecia muito impressionado.
Não conhecemos os efeitos de uma viagem pelo tempo, ainda mais uma viagem puramente espiritual. Mas posso imaginar perfeitamente que o encontro de dois seres separados pelo passado, presente ou futuro não se realize no plano material. Em outras palavras, Gucky viu um Rhodan que já existiu ou ainda existirá. E você, Rhodan, nem poderia notar a presença de Gucky.
É fantástico! — disse Rhodan, convencido de que a explicação de Atlan realmente possuía uma base lógica. — Então você quer dizer que durante dez segundos Gucky permaneceu no futuro?
Ou no passado — disse Atlan, confirmando a tremenda suposição. — É bem verdade que não posso explicar por que não ficou lá. Levou apenas dez segundos para voltar ao presente, pois, do contrário, neste momento, não poderia estar na Sambo.
Se é assim — interveio Crest — Gucky conseguiu atravessar a barreira que separa os dois planos temporais. Durante dez segundos, deve ter vivido na velocidade que prevalece no Universo normal, e com seu regresso voltou a ingressar no plano temporal estranho. Tudo isso é bastante aleatório.
Tudo isso é uma loucura rematada! — disse John Marshall em meio ao silêncio. — Contradiz a todas as leis da natureza e não resiste a qualquer espécie de raciocínio. Só um louco acreditaria nisso.
Pelo contrário — disse Atlan com a maior tranqüilidade. — Seria uma loucura não acreditar nessas possibilidades, pois com isso nos privaríamos da única chance de desvendar os segredos fundamentais do Universo.
Desta vez não houve ninguém que o contraditasse.

* * *

No momento em que o contato telepático foi interrompido, o mestre compreendeu que seu prisioneiro havia fugido. Quase no mesmo instante, olhou para a tela e viu que o inimigo desconhecido entrava em posição de ataque.
Ligar a barreira do tempo! — disse.
Logo a seguir, mandou recolher os grampos magnéticos e liberou a nave menor. O canhão de proa foi colocado em posição e disparou um tiro que não produziu qualquer efeito.
Depois, de um instante para outro, a pequena nave de guerra desapareceu. Parecia ter entrado em transição.
O contato com as dezessete naves mantidas junto ao anel luminoso continuava e funcionava perfeitamente. O mestre aproveitou a pausa para informá-los sobre a situação. Por enquanto ninguém que se encontrasse no outro plano temporal procurara vir em auxílio dos estranhos.
Manter a barreira energética. Repelir qualquer ataque. Conservem-se juntos. O inimigo só sabe destruir nossas naves uma após a outra.
Aquilo eram simples suposições. Afinal, o que se sabia sobre o inimigo? De que forma conseguira romper a barreira do tempo? O que pretendia com isso?
O ser refletia intensamente, procurando uma resposta às indagações que acabara de formular a si mesmo.
Não a conseguiu. Resolveu fazer mais uma tentativa de apoderar-se dos desconhecidos.
* * *

Atlan estava ao lado de Rhodan, quando o reluzente campo energético — ou temporal — que envolvia a nave negra se apagou de repente.
Ao mesmo tempo, o cano da arma energética foi recolhido para o interior do vulto metálico. Ao que parecia, pretendiam suspender o ataque.
O que significa isso? — perguntou Rhodan em tom de dúvida.
Fitaram as telas e procuraram uma resposta. Lá embaixo o planeta de cristal girava lentamente em torno de seu eixo. A vida despertara em sua superfície, e qualquer diferença entre os dois planos temporais deixara de existir.
Se a situação fosse outra, Rhodan teria demonstrado um interesse imenso pela civilização das lagartas, e faria esforços para libertar os arcônidas e outras raças atingidas pela frente do tempo. Mas agora, que ele mesmo se tornara prisioneiro da outra dimensão temporal, achava que o mais importante era pensar na própria segurança e no regresso ao seu Universo.
A Sambo e a grande nave gravitavam a pequena distância em torno do planeta, deslocando-se em queda livre.
Atlan estendeu o braço.
Estão abrindo uma escotilha — dali a pouco acrescentou. — Não se trata de um canhão.
O Tenente Sikermann lançou um olhar indagador para Rhodan. Sua mão direita estava pousada sobre os comandos das armas defensivas da nave. Na sala de armamentos, o Capitão Rodes Aurin aguardava a ordem de abrir fogo.
Rhodan sacudiu lentamente a cabeça. Tal qual os outros, fitava a tela que reproduzia nitidamente a escotilha aberta da nave inimiga. Pela primeira vez um ser humano pôde ver o interior do gigante negro.
Não viram muita coisa.
Provavelmente tratava-se apenas de uma espécie de comporta de ar, pela qual se podia entrar ou sair da nave.
Será que eles...?
Viram uma sombra negra. Devia ter cerca de um metro de altura, meio de largura e a mesma espessura. Sikermann imediatamente ligou o amplificador. Viram se tratar de um ser que envergava um traje protetor. Tinha pernas e braços e aproximava-se da periferia da comporta. Parou e ficou esperando. Os homens que se encontravam na Sambo tiveram a impressão de que ele os observava.
O que é isso? — perguntou Rhodan, sem esperar que ninguém respondesse.
Gucky e Marshall disseram quase ao mesmo tempo:
Isso pensa!
Os dois telepatas perceberam nitidamente os impulsos, que de início eram bastante débeis, se bem que de início não os compreendessem. O pensamento daquele ser devia processar-se por trilhas totalmente diversas e desconhecidas.
Será que é o verdadeiro representante dessa raça enigmática?
Marshall deu de ombros.
Não sei, mas sempre acreditei que eles fossem diferentes.
É um erro formular suposições num caso como este — disse Rhodan com uma ligeira recriminação. — Tomem cuidado! O campo defensivo deles foi desligado. Isso significa que receberemos visita. Sikermann, desligue nosso campo.
O tenente parecia assustado.
E se de repente houver um ataque? Qualquer disparo energético nos liquidará!
Faça o que estou dizendo, Sikermann. No momento não existe o menor perigo. Vamos receber visita. Veja só: o sujeito saiu da nave e vem flutuando nesta direção.
Todos viram.
Envergando o traje espacial, o vulto empurrara-se agilmente da comporta e vinha lentamente em direção à Sambo. Quase no mesmo instante, o campo energético da nave terrana apagou-se. A distância entre as naves inimigas não era superior a quinhentos metros.
Ele calculou muito bem o trajeto — disse Atlan em meio ao silêncio de expectativa. — Ele nos atingiria mesmo sem qualquer correção de curso. Não quer recebê-lo na comporta, bárbaro?
Sem tirar os olhos da tela, Rhodan disse:
Ficarei na sala de comando. Gucky poderá recebê-lo.
Gucky?
Isso mesmo: Gucky. Se não me engano, o embaixador dos desconhecidos tem muita coisa em comum com ele, isto é, o tamanho reduzido e a capacidade de raciocinar. Então, Gucky; você vai?
O rato-castor saiu caminhando em direção à porta.
É claro que vou. Para onde deverei levar o visitante?
Traga-o para cá. Mas tenha cuidado. Não sabemos quais são suas intenções ao vir à nossa nave. Procure descobrir alguma coisa em seus pensamentos. E ao menor indício de traição...
Compreendo — disse Gucky e desapareceu no corredor.
Marshall fitou a porta que voltara a fechar-se.
Eu deveria ter ido com ele, chefe.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Não devemos assustar o visitante, seja ele quem for. Gucky é pequeno e tem um aspecto relativamente inofensivo. Nós temos quase o dobro do tamanho dessa criatura. Isto representaria uma desvantagem para ele, pois poderia ter uma surpresa negativa quando estivesse frente a frente conosco.
Permita-me tentar manter contato mental com Gucky — pediu Marshall, que não estava disposto a ignorar os fatos que pudessem ocorrer.
Rhodan não teve qualquer objeção.
A imagem do desconhecido projetada na tela tornou-se mais nítida e o traje pode ser visto melhor. Deslizou para fora da tela e sumiu das vistas dos espectadores.
Gucky já se havia teleportado à comporta. Com alguns movimentos ligeiros, entrou no traje especial pressurizado e fechou a escotilha interna. Depois deixou que o ar respirável saísse da eclusa e abriu a escotilha externa.
O visitante encontrava-se a cinqüenta metros de distância e dirigia-se com uma estranha segurança à comporta, como se já soubesse onde esta ficava. Talvez fosse apenas um acaso, mas Gucky não acreditava no acaso.
Venho em paz — foi o pensamento que atingiu nitidamente seu cérebro vigilante. — Se vocês souberem captar pensamentos, compreenderão que apenas desejo a paz. Vocês me compreendem?
Gucky refletiu antes de responder. Teve tempo de sobra. Procurou Marshall e estabeleceu contato mental com ele. Perguntas e respostas corriam rapidamente de um lado para outro. Depois disso desfez o campo defensivo que criara em seu cérebro, em relação aos pensamentos do estranho, a fim de que ele não pudesse acompanhar a palestra telepática mantida com Marshall.
Quem é você? — perguntou o rato-castor, revelando sua qualidade de telepata, tal qual sugerira Rhodan por intermédio de Marshall, que o consultara durante o intercâmbio telepático. O que significava a revelação desse segredo para quem dispunha de um exército de mutantes altamente qualificados?
Sou Kruukh — foi a resposta. — Os mestres mandaram que procurasse vocês.
Quer dizer que não é nenhum “uuuns”, constatou Gucky com certo alívio. Haviam mandado outra pessoa. O rato-castor não sabia por quê, mas tinha medo desses seres. Era um medo instintivo, que não sabia explicar.
Nós o esperamos, Kruukh.
O desconhecido pousou suavemente no envoltório da Sambo e entrou na comporta. Não parecia conhecer receio ou dúvidas.
Você é o comandante da nave?
Não; sou apenas um dos seus servos — foi a resposta cautelosa de Gucky.
Enquanto fechava a escotilha externa e esperava que o ar penetrasse na comporta, teve oportunidade de estudar o visitante. Queria livrar-se quanto antes do traje desconfortável. Talvez conseguisse convencer o visitante a desmascarar-se. Pela lâmina translúcida não se via muita coisa. Mas Gucky ao menos teve a impressão de ver um rosto atrás da mesma.
Nosso ar é respirável para você? — perguntou.
A resposta foi imediata.
É, a atmosfera de nosso planeta é idêntica.
Gucky saiu do traje pressurizado e pendurou-o no gancho apropriado. Ao mesmo tempo abriu a escotilha interna.
O visitante imitou-o.
O ser que o rato-castor viu dali a pouco era estranho, mas seu aspecto não era de infundir medo.
No primeiro instante, Gucky não soube com quem Kruukh poderia ser comparado, pois não havia um verdadeiro paralelo com qualquer habitante da Terra.
A parte superior tinha o aspecto de uma gigantesca lagosta. Os olhos negros e brilhantes ficavam sobre tentáculos longos e móveis; naquele instante fitavam o rato-castor com certa curiosidade. Parecia não ter nariz nem boca, ou então esses órgãos ficavam num ponto recôndito. Quatro braços finos, cada um com três dedos, distribuíam-se por igual para os quatro lados. O estranho ser poderia estender a mão para qualquer lado sem modificar a posição do corpo.
A parte inferior do tronco estava revestida com uma poderosa blindagem. Dois membros não muito longos e grosseiros deviam ser os pés, sobre os quais aquele ser se movia lentamente. Tal qual Gucky, o visitante não usava qualquer tipo de roupa. E não se via nenhuma arma.
Sou Kruukh — disse novamente a mensagem telepática. — Meus senhores querem que eu fale com o comandante.
Não usou o verbo falar, mas o significado do impulso era este. Queria transmitir uma mensagem de seu senhor a Perry Rhodan.
Siga-me — respondeu Gucky e caminhou à sua frente.
Naquele instante, bem que gostaria de ter olhos nas costas...
John Marshall tateava em direção ao visitante. Conseguira acompanhar a palestra entre Gucky e o estranho, motivo por que já estava informado.
A mão de Sikermann continuava pousada sobre a alavanca que ativaria o campo energético. Ao menor sinal de perigo, ele o ligaria. Com isso, a Sambo ficaria isolada.
A porta abriu-se. Gucky entrou na sala de comando, deixou que o enviado passasse e piou:
Permitam que faça a apresentação. Este é Kruukh, embaixador dos invisíveis.
Sobre os pés curtos, o caranguejo-abelha — Gucky dera este nome à estranha criatura — foi saltitando para dentro da sala. Os olhos salientes fitaram os presentes um por um. Finalmente parou e fez uma mesura diante de Rhodan. Seus impulsos mentais foram reforçados. Tomaram-se tão intensos que puderam ser percebidos até mesmo por quem não era telepata. Kruukh devia ter um dom extraordinário nesta área.
Você é o comandante e o mestre dos estranhos vindos de outro plano temporal? — perguntou; na verdade estava fazendo uma constatação. — Meu senhor, um druuf, manda dizer que qualquer resistência será inútil. Vocês perderam sua dimensão temporal da mesma forma que todos os outros seres de seu Universo que foram atingidos por nossa dimensão temporal. Não existe nenhum caminho de volta. Capitulem.
Rhodan fitou o estranho ser com os olhos estreitados. Havia nele alguma coisa que lhe desagradava, mas não sabia o que era. Compreendeu que era um erro julgar uma inteligência desconhecida com base nas características externas. Lançou um olhar significativo para Atlan.
O arcônida imortal manteve-se imóvel. Fitava Kruukh com a maior atenção. Seus olhos eternos exprimiam desconfiança. Esse fato confirmou as suposições de Rhodan.
Este também estava desconfiando, mas preferiu não pensar nisso, a fim de não prevenir aquele ser dotado de faculdades telepáticas.
Seja bem-vindo em nossa nave, Kruukh — disse Rhodan em voz alta, para que os não-telepatas também pudessem entendê-lo. — As exigências de seu senhor nos causam espanto. Como podemos capitular sem luta diante de inimigos, se não sabemos sequer como eles são? Além disso, ainda é bastante duvidoso que realmente tenhamos de permanecer neste plano temporal. Se as intenções dos druufs são honestas, por que não permite ao menos que tentemos regressar através do anel luminoso pelo qual viemos?
Kruukh fitou Rhodan.
Não conheço os motivos de meus mestres; apenas cumpro suas ordens. Estes querem que, como prova de que vocês se renderam, o comandante desta nave venha comigo. É só o que tenho a dizer e pedir.
É muita coisa. — disse Atlan, lançando um olhar de advertência para Rhodan.
A posição tensa de seu corpo revelava que a qualquer momento aguardava um ataque do caranguejo-abelha. Nem ele mesmo saberia dizer de que espécie seria o ataque.
Dirigindo-se a Marshall, Rhodan disse em voz alta:
Chame André Noir, Ralf Marten e Fellmer Lloyd. Queremos saber a quantas andamos com Kruukh.
Assim que Marshall se retirou, prosseguiu:
Verificaremos se aquilo que você diz é verdade, Kruukh. Depois poderá retirar-se e levar nossa resposta ao seu mestre.
O caranguejo-abelha não respondeu. Em compensação fez uma coisa que só foi notada pelo telepata Gucky. Bloqueou o cérebro e ativou um setor até então não utilizado...
E passou ao ataque.
Quando Marshall entrou na sala de comando juntamente com os três mutantes a chamado de Rhodan, o ataque já havia sido desferido. No primeiro instante, ninguém desconfiou.
Wuriu Sengu está a postos — anunciou Marshall.
Sengu era o espia japonês, que sabia enxergar através da matéria sólida, motivo por que via tudo que se passava na sala de comando.
Os outros três estão comigo.
Encostaremos a Sambo junto à nave dos druufs e subiremos a bordo — disse Rhodan com uma estranha monotonia na voz. — Eles só querem nosso bem.
Marshall logo foi colocado em estado de alarma. Rhodan não poderia ter aceito essa condição tão depressa. Era impossível. Lançou um olhar ligeiro para Atlan e Crest. O imortal parecia um tanto tenso. Parado ao lado do outro arcônida, deixava pender frouxamente os braços. Em seus olhos eternos não se via o brilho da vida.
Da mesma forma que Rhodan e Atlan, Crest parecia um boneco.
André Noir, o hipno, sentiu algo estranho, pois notou instintivamente que aquilo fora obra de alguém que dispunha do mesmo dom que ele. Tratava-se de um processo de influenciação de efeito retardado, uma espécie de estado pós-hipnótico.
Estes quatro devem ser submetidos ao mesmo tratamento”, pensou Kruukh, cometendo o erro fatal.
Não calculara com a possibilidade de alguém ler seus pensamentos, mesmo que não os irradiasse diretamente.
Sem nada deixar perceber, Marshall, que evidentemente captara o pensamento de Kruukh, disse:
Noir, agora é sua vez.
Noir sabia o que Marshall queria dizer com isso. O francês era hipno e graças a essa qualidade fora incorporado ao Exército de Mutantes. Se alguém lhe pedisse que fizesse uso de sua faculdade, não havia necessidade de explicar de que faculdade se tratava. E, se Marshall não falava em termos claros, devia ter seus motivos.
O caranguejo-abelha estava despreparado e foi atingido pela força total dos impulsos hipnóticos, que romperam suas resistências naturais e se apossaram de seu cérebro. Antes que Kruukh compreendesse que o feitiço virara contra o feiticeiro, estava submetido à influência de Noir.
Pronto — disse o hipno com a voz tranqüila. — O que devo fazer com ele?
Marshall refletiu febrilmente. Não queria nem podia tomar qualquer decisão sem a concordância de Rhodan. Antes de mais nada, Perry e os arcônidas teriam de ser libertados da coação hipnótica que o medonho visitante colocara em torno de suas consciências.
Desligue-o por cinco minutos, para que não nos possa causar qualquer mal. Depois liberte Rhodan.
Dali a dois minutos, Kruukh se encontrava diante de Marshall, numa atitude completamente apática e relativamente inofensiva, sem saber o que estava acontecendo em torno dele. Seu cérebro mantinha-se passivo e suspendera toda atividade intelectual. Noir pôde passar tranqüilamente ao tratamento dos homens que haviam sido submetidos à influência hipnótica, a fim de restituir-lhes a vontade própria.
No momento em que ficou livre da constrição, o rosto de Rhodan retratava o espanto. Era estranho, mas lembrava-se do que havia acontecido. A interferência mental não fora muita intensa.
Não pude evitar, pois foi muito rápido — disse. — Nem Gucky nem eu notamos as intenções deste visitante pouco agradável. Em si a idéia de hipnotizar-nos não é nada má. Teríamos caído tranqüilamente na armadilha deles. Ainda bem que nossos hipnos são melhores. Obrigado, Noir.
Agradeça a Marshall; foi ele que desconfiou imediatamente — disse o hipno em tom modesto e voltou a dedicar sua atenção ao prisioneiro. — O que vamos fazer com ele?
Mande que durante uma semana mantenha uma atitude completamente indiferente. Será nosso refém. Quanto aos druufs mostraremos a eles que descobrimos sua trama. Talvez se lembrem de outra melhor.
Noir submeteu Kruukh a um tratamento hipnótico e levou o prisioneiro apático para fora da sala de comando. A Sambo dispunha de compartimentos destinados à guarda de visitantes indesejáveis.
De resto, convém mencionar que Ivã Ragow logo mostrou-se interessado pelo caranguejo-abelha.
Rhodan fez um sinal para Sikermann.
Ligar o campo defensivo. Preparar o radiador de impulsos. Abrir fogo contra a nave deles. Aurin, prepare o transmissor fictício. Iniciaremos um ataque em grande escala.
Menos de três segundos depois, a gigantesca nave negra foi envolvida por uma torrente de energia chamejante. Em alguns lugares, as chapas de metal começavam a derreter. Mas o prejuízo não foi grande, pois a reação do comandante dos druufs foi imediata. Os disparos energéticos logo começaram a ser repelidos pelo campo cintilante, enquanto as partes atingidas esfriavam rapidamente.
Transmissor fictício! — disse Rhodan em tom exaltado. — Fogo!
Mais tarde ninguém saberia dizer se o transmissor fictício realmente funcionou com tamanha rapidez, ou se naquele instante a nave inimiga entrou em transição. De qualquer maneira, o gigante desapareceu no mesmo instante em que o Capitão Aurin abriu fogo.
O lugar em que antes se encontrara estava vazio.
Rhodan não tirou os olhos da tela quando disse:
Tome a rota do anel luminoso, Sikermann. Procuraremos forçar passagem.
Atlan estremeceu quase imperceptivelmente.
Pretende ignorar a cortina de fogo, bárbaro? Será que isso não é muito arriscado?
Rhodan sacudiu a cabeça.
Já compreendi que cada segundo representa um risco muito maior. Se ficarmos aqui, estaremos perdidos. A tentativa de regressar ao nosso plano temporal representa um risco menor. O que ternos a perder, já que nos vemos diante da alternativa? Nada, meu caro; não temos nada a perder.
Rota estabelecida — disse Sikermann. Sua voz exprimia insegurança, mas decisão. — Qual será a velocidade?
Parta. Depois veremos o resto.
7



A Sambo corria em direção ao débil anel luminoso perfeitamente visível acima da planície. Desenvolvia a velocidade relativa da luz.
A cortina energética criada pelas pequenas naves negras não se tornaram menos espessa. Eram apenas cinco ou seis unidades que concentravam seu fogo sobre a abertura que permitiria o regresso ao outro Universo.
O anel luminoso parecia precipitar-se em sua direção, os raios energéticos procuraram atingi-los, mas foram muito lentos.
A Sambo conseguiu passar.
Atrás deles, o céu perdeu a cor; voltou a ser límpido e azul. O deserto de Tats-Tor passou vertiginosamente, enquanto Sikermann desacelerava.
Uma voz saiu do alto-falante.
Era Bell.
Não esperávamos que voltassem tão depressa. Para que serve esse buraco luminoso? Quer que o desliguemos?
Rhodan segurou o microfone do telecomunicador.
Aqui fala Rhodan. Desliguem imediatamente os geradores de campo de curvatura.
Dali a dez segundos veio a resposta:
Foram desligados! Conte logo o que aconteceu.
Rhodan suspirou aliviado e reclinou-se na poltrona. Parecia que um peso de cem quilos acabara de sair de seus ombros. Atlan aproximou-se.
Não quer perguntar a Bell quanto tempo passou por aqui? — perguntou. — Só depois disso poderemos ficar tranqüilos.
Antes que Rhodan pudesse responder, a voz de Bell saiu dos alto-falantes:
Por que bateram em retirada tão depressa? Vocês passaram menos de dois minutos do lado de lá!
Rhodan fitou Atlan e levantou-se abruptamente.
Então? — disse em tom exaltado. — O que me diz?
O imortal deu de ombros.
O que posso dizer? Aconteceu exatamente o contrário do que esperávamos.
Gucky — disse Rhodan com uma calma forçada. — Você não acredita que seu estranho comportamento junto aos robôs poderia ser a chave do mistério?
O rato-castor limitou-se a sacudir a cabeça.
Sikermann desacelerou o suficiente para que pudesse descrever uma curva e trazer a Sambo de volta. Pousou-a ao lado da gigantesca Drusus.
Crest começou a falar:
Recuperamos nossa dimensão temporal.
Um olhar para a tela confirmou a afirmativa.
Viram um homem sair da escotilha da Drusus em velocidade normal, descer pela rampa e dirigir-se à Sambo.
Era Bell.
Dali a cinco minutos apertou a mão de Rhodan e dos outros.
Quer dizer que não deu certo. Ou deu?
Ficamos por lá algumas horas, meu caro — disse Rhodan. — Não me peça que lhe dê uma explicação para a distorção do tempo, pois não a tenho.
Pois eu tenho — disse Atlan para sua surpresa. — E a explicação é simples. Já falamos sobre isso. Acho que o fato tem alguma relação com o transmissor fictício. O aparelho atirou a nave inimiga contra a barreira do tempo, enquanto nos transferiu para o passado, e para um passado de muitos anos atrás. Só assim se explica que a diferença entre os dois planos temporais praticamente se compensou, isso por puro acaso. Tivemos sorte; apenas isso.
Naquele instante, ouviu-se o som estridente do intercomunicador.
Era Ivã Ragow.
São as lagartas, chefe. Ficaram imóveis de novo. A mesma coisa aconteceu com o tal do Kruukh. O que devo fazer?
Nada — disse Rhodan e desligou. Muito sério, disse aos presentes. — Acho que isso representa a prova de que jamais poderá haver qualquer entendimento entre nós e os druufs. Não é porque nós ou eles não queiramos, mas apenas porque ninguém pode. A natureza opõe-se a tal tipo de entendimento.
Talvez aconteça um milagre — disse Crest em voz baixa.
Atlan fez um gesto de assentimento.
Crest está com a razão. O que sabemos sobre o outro plano temporal é pouco, mas encontramos um caminho que nos leva a eles. A primeira tentativa terminou em fracasso. Não conseguimos estabelecer contato positivo. Da próxima vez pode ser diferente. Se fosse você, não desistiria tão depressa, bárbaro. Será que os homens já desistiram alguma vez?
Rhodan fitou Atlan por muito tempo. Depois sacudiu lentamente a cabeça.
Não, Atlan, os homens nunca fizeram isso. Você tem razão. Por um instante eu me esqueci de que somos homens. Nunca desistimos, por mais difícil que seja um problema. Um belo dia teremos um encontro com os invisíveis. E nesse dia, eles terão de nos dar algumas explicações.
Vamos tentar logo? Afinal, só perdemos alguns minutos. O dia é longo! — falou Bell em tom impaciente.
Rhodan colocou a mão sobre seu ombro.
Meu querido e velho Bell, você diz que apenas perdemos alguns minutos. Só por acaso foram alguns minutos. A expedição poderia perfeitamente ter durado alguns decênios. Pensarei mil vezes antes de arriscar novamente o salto pela barreira do tempo. Vamos voltar à Terra.
E a decisão foi esta. A bordo da Drusus, que já havia recolhido a Sambo, nada lembrava a ventura do planeta de cristal.
Nada, com exceção de algumas lagartas imóveis, enrijecidas na posição em que se encontravam no momento em que foi rompida a barreira do tempo e... de um druuf imóvel.

* * *

Dali a alguns meses, Perry Rhodan se encontrava logo após o nascer do sol na periferia da cidade de Terrânia, num lugar que há meio século ainda era um deserto. Hoje um capim viçoso e algumas árvores cresciam no local.
Rhodan gostava de andar vez por outra a sós por ali, a fim de apreciar o nascer do sol. Próximo, ficava o túmulo de Ernst Ellert, um homem admirável, cujo espírito era capaz de correr para o futuro, Um belo dia esse espírito não voltou mais. Desaparecera no espaço-tempo, e estaria vagando por lá, à procura do corpo, que jaz intato no mausoléu, aguardando a volta do espírito que o animaria.
Quem sabe? Talvez um dia...
De repente, Rhodan teve ti impressão de não estar só.
Olhando o céu, tinha-se a impressão de que choveria dali a um ou dias; mas por enquanto o tempo era seco, o capim estava em flor.
A brisa ligeira tangia as acima do solo.
A sensação de não estar só durou apenas dez segundos. Desapareceu tão depressa como viera.
Rhodan sentiu um calafrio, mas os raios acalentadores do sol logo o espantaram.
Fez meia-volta. Estava na hora de voltar para Terrânia. A caminhada até o carro que o esperava lhe faria muito bem.
Subitamente estacou...
Perto do lugar em que ficara parado havia pequenos rastros inconfundíveis no solo. Logo os reconheceu.
Eram de Gucky, e dez segundos antes ainda não estavam lá!
Porém, naquele instante, Gucky se encontrava entre os colonos de Vênus...
O cérebro de Rhodan reagiu imediatamente. Lembrou-se das horas de incertezas passadas no mundo de cristal, que já haviam mergulhado no mar da eternidade.
Subitamente compreendeu que o círculo acabara de fechar-se.
Prosseguiu na sua caminhada, Dali a sessenta minutos, quando se encontrava em Terrânia e iniciava o trabalho de todo dia, ninguém desconfiaria de que há uma hora atrás um sopro de eternidade atingira Perry Rhodan.
...E uma recordação que há muito pertencera ao passado.
Haveria uma recordação que pertencesse ao futuro?




* * *
* *
*





A volta ao Universo foi garantida. Mas Perry Rhodan não poderá ignorar esses atacantes extratemporais... nem esquecer o robô regente de Árcon.
Em Os Escravos Cósmicos, título do próximo volume, acontecimentos marcantes vão se desenrolar.

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