— Aqui
fala Ras Tschubai.
A resposta
veio dentro de poucos segundos. Quem falou foi o próprio Rhodan.
— Aqui é
a Sambo. O que houve?
— Encontro-me
na sala de máquinas da nave inimiga. Vejo robôs, mas nenhum ser
orgânico. Segurarei a câmara de tal maneira que o senhor veja tudo.
— Espere
dez segundos — ordenou Rhodan. — Ligarei os aparelhos de registro
de imagem, para que possamos documentar tudo. Nossos técnicos
precisarão de algum tempo para estudar as máquinas.
Ras
esperou os dez segundos e ligou a câmara. Ficava embaixo do
minúsculo aparelho que trazia no pulso, e que não era maior que um
relógio de pulso. Movia lentamente o braço de um lado para outro.
Enquanto
isso fazia ligeiros comentários.
— Estes
robôs têm um formato diferente. Até parece que seus inventores
recorreram a uma construção diferente para cada finalidade. As
esferas são oficiais, pois parece que são muito versáteis. E,
naquela ocasião, estavam armadas. Não tenho certeza se isso
acontece com os robôs que estão aqui. Não sei ainda como são os
verdadeiros criadores dessa tecnologia, Não existe a menor
indicação. É possível que Gucky tenha mais sorte.
— Não
temos qualquer contato com Gucky. Não responde às nossas mensagens.
E não houve qualquer mensagem telepática.
Ras não
respondeu. Levantou-se um pouco para dirigir a pequena câmara a
todos os cantos da sala. Provocou um ligeiro ruído, que foi superado
inteiramente pelo zumbido das máquinas.
Será que
foi mesmo?
O robô de
trabalho que se encontrava mais próximo parou em meio ao movimento.
Um dos braços foi descendo lentamente. Depois rolou em direção ao
esconderijo do africano.
— Notaram
minha presença — cochichou Ras em tom assustado. — Tenho de
iniciar a destruição...
— Espere
mais um pouco! — ordenou Rhodan em tom enfático. — Salte para
outra sala e volte mais tarde à sala de máquinas. Precisamos de
mais algumas fotografias. Deixe o aparelho ligado; pouco importa que
haja uma localização goniométrica.
Ras não
teve tempo de responder. O robô havia rolado para junto dele e
mantinha estendidos quatro braços, como se quisesse agarrar um
inimigo invisível.
Realmente
agarrou... mas agarrou o vazio...
Ras
materializou-se dois pavimentos mais em cima, num pavilhão metálico
cujo teto tinha um estranho formato de abóbada. Consistia num
estranho material leitoso, no qual confusas faixas coloridas corriam
de um lado para outro. Enquanto Ras estava olhando, as faixas foram
adquirindo contornos definidos.
Transformaram-se
num quadro nítido No mesmo instante, Ras sentiu uma suave pressão
no cérebro e cedeu à mesma. Não era telepata, mas de repente
pareceu ser capaz de ler pensamentos, pois em sua consciência surgiu
uma voz perceptível, que disse:
— O
que você viu, forasteiro, foi a realidade.
Naquele
instante, Rhodan perguntou:
— O que
houve, Ras? Onde está o senhor? A imagem captada é muito apagada.
Desligue a câmera.
Ras
cochichou:
— Alguém
falou comigo. No meu cérebro. Por via telepática. O que devo fazer?
Rhodan não
respondeu imediatamente. Depois de algum tempo, ordenou:
— Tenha
cuidado. Pode ser urna armadilha. Não o incomodarei mais, para não
distrair sua atenção. Continue a transmitir.
A
transmissão não desviava a atenção de Ras.
A voz
voltou a soar em sua consciência e repetiu a mesma frase. No teto o
quadro começou a tornar-se mais nítido. Um planeta girava em torno
de seu eixo e corria em torno de um sol branco-amarelado. Ras teve a
impressão de encontrar-se a algumas horas-luz daquele mundo,
assistindo a uma reprodução concentrada no tempo.
A imagem
projetada no teto tornou-se maior e mais nítida. O espectador
parecia precipitar-se em direção ao planeta, que girava em torno de
seu eixo, aproximadamente uma vez por segundo. Levava uns cinco ou
seis minutos para completar uma volta em torno do sol.
O planeta
foi crescendo. Ras distinguiu continentes e mares.
Aquelas
formas lhe eram familiares.
Subitamente
o africano estremeceu ao perceber a verdade.
O planeta
que via diante de si era a Terra!
Ras
Tschubai ficou rígido de pavor. Os estranhos seres conheciam a
Terra. Sabiam de onde vinha Rhodan.
A Terra
girava setenta e duas mil vezes mais depressa que sua velocidade
normal. Ras Tschubai viu-a sob esse ângulo de visão. No plano
temporal, transformara-se num desses seres.
Subitamente
notou uma coisa.
De início
pensou que fosse engano. Mas depois percebeu que enxergara bem. Os
olhos viam perfeitamente os continentes — a África e a América,
e, entre os dois, o Atlântico.
E no meio
do Atlântico um pequeno continente que já deixara de existir na
Terra.
Atlântida!
A voz
estranha voltou a soar em seu cérebro.
— O
que você está vendo, forasteiro, é a realidade. Há um tempo que
vocês designam como a fração de um ano.
Ras fitou
atentamente o planeta que girava vertiginosamente e a Atlântida, que
se tornava visível pela fração de um segundo.
Cada
segundo era um dia.
E cada dia
representava duzentos movimentos de translação em torno do sol...
Ras
sentiu-se tonto.
“Quando,
em sua dimensão temporal, os seres teriam tirado essas fotografias?
Há dez mil anos, quando os dois planos se cruzaram pela primeira
vez?”,
indagou-se mentalmente.
De
repente, percebeu qual seria o destino da expedição, se não
acontecesse um milagre. Se permanecessem por uma semana naquele plano
temporal, mais de mil anos se passariam em seu Universo. O Império
Solar, o Império dos Arcônidas e Perry Rhodan já teriam
desaparecido.
Tudo
desaparecido e esquecido.
Num gesto
de desespero, Ras Tschubai levantou a arma energética e destruiu o
quadro da Terra que girava vertiginosamente. O quadro apagou-se.
Dez ou
vinte portas abriram-se no salão circular. Gigantescas figuras
quadrangulares entraram. Se Gucky as visse, elas lhe pareceriam
familiares. Suas antenas dirigiram-se para Ras, e um brilho azulado
surgiu em torno das esferas douradas...
Mas Ras
foi mais rápido.
Antes que
as ondas de choque paralisantes pudessem atingi-lo, teleportou-se
para a sala de máquinas. Parou no centro da mesma e abriu fogo
contra os quadros de comando, as fileiras de instrumentos e os robôs
de trabalho.
Pingos de
metal caíam ao solo. Os isolamentos se queimavam, e raios
fulgurantes corriam de um bloco a outro. Ras ouviu uma detonação.
Perdeu o equilíbrio e teria caído se não estivesse encostado a um
gerador.
A nave
inclinou-se para a frente e correu em direção à superfície do
planeta.
— Não
perca tempo! — gritou Rhodan. — Está caindo.
Ras acenou
com a cabeça; seu rosto parecia zangado.
— Já
sei — respondeu.
Lançou
mais um olhar para o caos e concentrou-se para efetuar o salto.
Ainda viu
uma porta oval abrir-se nos fundos. Dois ou três dos colossos
angulares penetraram na sala. Ainda chegou a sentir a primeira onda
de choque das armas que portavam, mas a mesma veio tarde. Não
conseguiu romper a concentração de sua mente.
Saltou.
A nave
preta correu vertiginosamente em direção ao solo pedregoso. Sua
proa pontuda penetrou profundamente na montanha. Dentro de poucos
segundos foi despedaçada por uma enorme explosão.
Ras
Tschubai materializou-se ao lado de Rhodan, na sala de comando da
Sambo.
Esteve a
ponto de suspirar aliviado, mas antes disso viu o rosto de Rhodan.
— Missão
cumprida — anunciou em tom objetivo e tentou ler nos rostos de
Crest ou de Sikermann o que havia acontecido.
Rhodan fez
um gesto afirmativo e disse:
— A nave
para a qual Gucky saltou está sendo desviada da rota. Aumentou a
velocidade e voa em direção a um ponto situado fora do sistema.
Gucky não responde às nossas mensagens — lançou um olhar para
Ras. — Tem uma idéia do que poderia ter acontecido?
Ras logo
se lembrou dos robôs com suas ondas de choque paralisantes. Talvez o
rato-castor tivesse sido surpreendido pelos mesmos. Isso não era do
seu feitio, mas era perfeitamente possível que tivesse subestimado o
perigo e confiado demais em suas extraordinárias faculdades.
— Eles
têm robôs de combate que usam armas que não conhecemos. Emitem
ondas de choque cuja causa é desconhecida. Talvez...
— Isso é
altamente provável! — interrompeu Rhodan, que já imaginava o que
Ras iria dizer. — Pegaram Gucky.
Dirigiu-se
a Sikermann.
— Siga a
nave. Precisamos saber para onde levarão Gucky.
Ras venceu
suas dúvidas e perguntou:
— Quer
que tente...?
— Não!
— disse Rhodan em tom resoluto. — Se Gucky estiver morto, o
senhor chegará tarde. Se estiver vivo, saberá o que fazer.
Permaneceremos perto dele, para que possa saltar assim que seja
capaz. Além disso, talvez encontremos a pista dos verdadeiros
inimigos.
John
Marshall encontrava-se um tanto afastado, perto de Atlan. Até então
mantivera-se em silêncio. Subitamente soltou uma exclamação,
concentrou-se e disse:
— Foi
Gucky. Apenas um ligeiro impulso, como se subitamente tivesse
despertado para adormecer logo em seguida. Não foi uma idéia
definida, mas apenas um impulso de medo, de um medo terrível.
Marshall
fitou Rhodan com uma expressão preocupada. — A esta hora não
gostaria de estar no couro de Gucky.
— Nem eu
— disse Rhodan.
Em seus
olhos surgiu uma expressão de insegurança, mas logo se tornaram
firmes como sempre. Fitou a tela. A nave preta inimiga, a bordo da
qual se encontrava Gucky, tornara-se maior, pois a Sambo estava
acelerando. O planeta de cristal foi-se afastando rapidamente,
tornando-se cada vez menor.
— Nada
acontecerá a nosso Gucky. Se esses seres realmente sabem ler
pensamentos, não se atreverão a fazer qualquer coisa a Gucky, pois
saberão que não descansarei antes de varrer seu plano temporal do
Universo, mesmo que isso me custe a vida.
Ras
manteve-se em silêncio. Ninguém disse nada.
Sentiram
que Rhodan estava falando sério.
5
Aquele que
se encontrava na gigantesca nave disse:
— Repita
a mensagem!
— Capturamos
um dos estranhos, mestre. É diferente dos senhores. Talvez seja um
servo. Não sabemos como conseguiu penetrar em nossa nave.
Alguns
segundos se passaram antes que ordenasse:
— Tragam
o prisioneiro à minha nave. Depressa!
Desligou e
por alguns minutos manteve-se imóvel em sua poltrona.
Depois
tomou toda as medidas para receber o prisioneiro.
*
* *
Gucky não
perdeu os sentidos.
Era
incapaz de fazer qualquer movimento, mas viu o robô aproximar-se. As
esferas douradas continuavam a cuspir chamas azuladas, que corriam em
sua direção e o mantinham preso. Embora não pudesse concentrar-se
para executar um salto de teleportação, ainda estava em condições
de avaliar e analisar a situação em que se encontrava.
Caíra em
poder do inimigo, daqueles seres desconhecidos, que os haviam
absorvido com seu plano temporal. Era bem possível que dentro em
breve se defrontasse com o mais estranho ser que jamais fora visto
por outro em todo o Universo. Mas pagaria um preço elevado por isso.
Talvez a experiência lhe custasse a vida.
Antes de
mais nada, sentiu-se aborrecido com sua falta de cautela. Era vaidoso
como qualquer ser inteligente. E o fato de que aquilo acontecera
justamente com ele ferira seu orgulho. Caíra numa armadilha, e suas
capacidades maravilhosas não serviam para nada. Não era possível
ativar o setor do cérebro por meio do qual executava a teleportação.
E no terreno do telecinético tinha a mesma capacidade de uma criança
recém-nascida. Quanto à telepatia, não teria necessidade de
experimentá-la. Afinal, os robôs não têm a menor inclinação
telepática.
O monstro
quadrado encontrava-se bem à frente. Os tentáculos pendiam
frouxamente junto ao corpo metálico. Só as antenas continuavam a
expelir chispas energéticas. E estas eram suficientes para paralisar
Gucky.
Apesar
disso, o rato-castor teve a impressão de sentir um calafrio quando
outra sombra gigantesca surgiu na porta e um segundo robô penetrou
na sala. Era uma reprodução exata do colosso que vira em primeiro
lugar. Os dois levantaram os braços e se deram as mãos.
“Deve
ser uma espécie de contato ou comunicação”,
pensou.
Sim, devia
ser isso mesmo. A esperança secreta de poder libertar-se não se
cumpriu. Gucky tentou superar a paralisia nervosa para ativar o
cérebro, mas foi em vão. Sempre que tentava, as dores aumentavam
tanto que desistia imediatamente.
Tentou
virar os olhos para ver as vigias. Ficou espantado ao notar que a
Sambo havia desaparecido. Numa posição lateral viu o sol
branco-amarelado em meio ao Universo negro. Antes o sol fora
vermelho, em virtude do deslocamento da dimensão temporal. Quer
dizer que até isso voltara ao normal.
A nave
devia ter alterado a rota. Pelo que Gucky podia ver, corria pelo
espaço, em direção a um destino desconhecido. Uma teleportação
cega seria mais perigosa a cada segundo que passava. O salto para o
vácuo era arriscado, pois se não conseguisse desmaterializar-se no
mesmo instante, estaria perdido.
Um segundo
poderia bastar para orientar-se.
Mas também
poderia ser suficiente para matá-lo.
Por um
instante a superfície do planeta de cristal passou por baixo de uma
das vigias de cristal. Sobre a superfície via-se um cogumelo, que só
poderia ter sido formado por uma explosão atômica.
Gucky
suspirou aliviado. Podia respirar; ainda bem. Nem ele nem Ras usavam
trajes protetores.
Só agora
deu-se conta de que a atmosfera na nave inimiga era respirável,
embora só houvesse robôs a bordo. Qual seria a finalidade disso?
Mas por
que iria refletir sobre coisas que não poderia esclarecer?
A missão
de Ras fora coroada de êxito. A segunda nave acabara de detonar na
superfície do planeta de cristal. A nuvem-cogumelo não poderia ter
outra causa.
Se fosse
capaz, Gucky teria suspirado de inveja. Mas o alívio que sentiu foi
mais forte que esse sentimento egoísta. O inimigo havia perdido mais
uma nave, e nesse instante Rhodan já deveria saber que seu pequeno
amigo caíra nas mãos do inimigo.
Estendido
para além das vigias, o Universo era completamente negro. Milhares
de estrelas cobriam a escuridão absoluta como se fossem um véu,
dando-lhe um brilho prateado que lembrava o infinito. De repente,
alguma coisa interrompeu esse brilho prateado.
Gucky viu
pelo canto dos olhos. Uma sombra negra de formato oval cobriu as
estrelas de tal forma que se percebiam seus contornos. Aproximava-se
rapidamente. Gucky não conseguiu avaliar a posição da sombra, mas
calculou que devia medir mais de mil metros.
Seria uma
nave?
Será que
possuíam naves desse tamanho? Provavelmente eram as inteligências
dominantes do outro plano temporal e já conheciam a astronáutica há
milênios...
Não; não
era isso. Podia ser assim pelo cálculo de tempo terrano, mas sob o
ponto de vista do inimigo o nascimento de Cristo só ocorrera há dez
dias.
Subitamente
Gucky se apavorou. Deu-se conta de que provavelmente aquelas naves já
percorriam a Galáxia há um milhão de anos, sem que ninguém as
visse.
Um ligeiro
solavanco passou pela nave, no momento em que esta entrou em contato
com o gigante. Ouviu-se um ruído forte quando os grampos envolveram
o torpedo, ligando as duas naves.
A palestra
silenciosa dos robôs chegou ao fim. O que chegara por último
retirou-se.
Subitamente
as vigias fecharam-se, sem que a iluminação na sala se tornasse
mais forte. Na semi-escuridão Gucky mal conseguia vislumbrar os
contornos dos objetos. Os traços do robô distinguiam-se contra a
parede que emitia um brilho pálido, mas mesmo que Gucky não o
tivesse visto, os raios azuis expelidos pelas antenas esféricas
constituiriam um sinal inequívoco de sua presença.
De repente
os raios azulados se apagaram.
No início
Gucky nem percebeu, de tão aliviado que se sentiu com a súbita
cessação da dor nervosa a que já se acostumara. Parecia que o
cérebro até então estivera preso num envoltório de aço cujas
paredes se derreteram como que por milagre, deixando-o livre.
Instantaneamente
Gucky compreendeu.
O robô
libertara-o da constrição nervosa por sentir-se seguro de sua
presa. Agora, que estavam estreitamente amarrados à nave capitânia,
a fuga seria impossível.
A primeira
idéia que acudiu a Gucky foi a de teleportar-se. Mas não conseguiu
privar-se do prazer de exercer uma pequena vingança no lugar dos
acontecimentos, mesmo que isso pudesse representar um novo perigo.
O robô
nem sabia o que estava acontecendo quando seus doze tentáculos e as
antenas foram dobradas para trás por uma força invisível, vinda do
nada. As instalações eletrônicas existentes em seu corpo
obedeceram aos comandos e ofereceram resistência ao inimigo
invisível, mas o resultado foi exatamente o contrário do que seria
de esperar.
Os
fusíveis começaram a queimar. Uma faísca saltou atrás da “pele”
metálica, queimando importantes contatos. Outro curto-circuito fez
com que o colosso estremecesse. As antenas dobradas expeliam raios
azuis, mas estes erravam pela sala e se perdiam no teto. Gucky não
sentiu o efeito dos mesmos.
O monstro
fez uma última tentativa para defender-se do ataque que, segundo
supunha, estava sendo desfechado pela pequena criatura que tinha à
sua frente, mas isso foi o fim.
Gucky
saltou para trás, apavorado, quando o último fusível se queimou,
produzindo um forte estalo. O grande robô cambaleou e caiu
desajeitadamente ao solo, como se de repente tivesse perdido o
equilíbrio. Em seu interior ouviu-se um tilintar, como se alguém
tivesse derramado uma lata cheia de parafusos. Nas costas e no peito
surgiu uma mancha incandescente, e Gucky teve a impressão de que
estava na hora de dar o fora.
Concentrou-se
sobre a superfície pedregosa do planeta de cristal,
desmaterializou-se e saltou.
Mas não
chegou longe.
A
rematerialização foi forçada e não ocorreu no lugar que previra.
No momento
em que conseguiu enxergar, Gucky sentiu uma dor cruciante. Caía num
vazio infinito, mas conseguia respirar. Antes que se preparasse para
novo salto, um pensamento surgiu em seu cérebro. O pensamento não
era dele, mas provinha de um impulso mental estranho que penetrara
forçadamente em seu cérebro. Devia ser o comando mental de...
— Você
não correrá o menor perigo, forasteiro, desde que se entregue a
mim.
Gucky
sentiu-se dominado pelo pânico. Teve medo de encontrar-se com algum
ser estranho.
Mudou de
opinião e preferia agora não ver nenhum desses seres. Queria voltar
para a Sambo, para junto de Rhodan e dos outros amigos.
No momento
em que fechou desesperadamente os olhos e ativou o setor do cérebro
que lhe permitiria realizar a teleportação, viu Rhodan à sua
frente.
Saltou
para o desconhecido, a fim de escapar do alcance daquela voz.
Mergulhou
profundamente num abismo...
A luz
voltou a surgir.
Quando
abriu os olhos, viu-se num prado verde, sob um céu azul. O capim
chegava até os quadris e o ar era tépido e aromático, como só o
ar do planeta Terra poderia ser.
A dois
metros dele, viu Perry Rhodan, que lançava um olhar sonhador para as
nuvens que desfilavam pelo céu.
Gucky não
compreendeu, mas o fato de ver Rhodan diante de si fez com que
esquecesse todas as dúvidas. Qualquer engano era impossível.
— Perry!
— disse Gucky com a voz estridente e caminhou em direção ao bom
amigo. — Perry, estou tão satisfeito por eu ter conseguido
escapar. Está zangado porque fugi?
Rhodan nem
se mexeu. Parecia não ouvir as palavras do rato-castor. Continuava a
fitar o céu, como se estivesse procurando alguma coisa.
Gucky
espantou-se. Mas fosse qual fosse a maneira pela qual viera parar
neste lugar, fossem quais fossem as peças que as outras dimensões
temporais lhe tivessem pregado, o que importava era que já não
havia o menor perigo.
— Perry!
— disse O rato-castor com a voz abafada. — Saltei e...
Ergueu-se
e estendeu a mão em direção a Rhodan.
Porém a
mão de Gucky passou por Rhodan.
Não
encontrou qualquer resistência...
*
* *
O Tenente
Sikermann firmou os controles. Sem tirar os olhos da tela frontal,
disse:
— A nave
preta está desacelerando. Quer que eu...?
— Mantenha
a mesma distância, Sikermann. Antes de atacarmos, devemos saber se
está só.
Logo viram
que não estava só.
Os
contornos de uma gigantesca nave alongada surgiram na tela. Devia ter
mais de mil metros de comprimento e pairava no espaço. Não se podia
reconhecer a forma de propulsão. Não havia nenhuma abertura no
envoltório liso. O gigante esperava no espaço, que nem uma sombra
imóvel e pavorosa, aguardando a nave menor, que se aproximava
lentamente, até que os grampos magnéticos cingissem seu corpo.
— É a
nave capitânia! — disse Rhodan em voz baixa, como se receasse que
pudessem ouvi-lo. — Só pode ser isso. Será que nos vêem?
Sikermann
deu de ombros.
— É bem
possível. Talvez não receiem nenhum ataque, porque têm um refém.
É Gucky.
Rhodan
virou-se para Marshall.
— Nada
ainda, John? Não está captando nenhum impulso de Gucky?
— Raramente.
E os impulsos sempre são confusos e incompletos. Sua intensidade é
bastante variável. Às vezes os impulsos são mais fortes, outras
vezes são tão fracos que mal consigo percebê-los. Infelizmente não
os compreendo.
— O
certo é que Gucky ainda está vivo e se encontra a bordo da nave
menor — constatou Rhodan.
Hesitou
por um momento. Depois dirigiu-se a Ras:
— Tschubai,
daqui a pouco você terá de saltar. Não vejo outra possibilidade de
tirar Gucky de lá.
— Poderíamos
atacar — disse Sikermann. — Com nossas armas...
— ...mataríamos
Gucky! — completou Rhodan em tom de espanto. — Não. desta vez a
violência não resolverá nada. Só os mutantes nos poderão ajudar.
Atlan
aproximou-se e colocou a mão sobre o ombro de Rhodan.
— Assim
que seu amiguinho estiver em segurança, deveríamos pensar
seriamente em voltar ao nosso plano temporal. Estou muito preocupado,
bárbaro...
— Eu
também — confessou Rhodan e permaneceu imóvel, como se receasse
que de outra forma o imortal poderia tirar a mão de seu ombro. —
Já demoramos demais nesta dimensão. Ainda não sei como faremos
para romper a barreira energética. O risco seria muito grande.
— O
risco de ficar aqui por mais tempo e perder todo o tempo do Universo
é muito maior — Atlan sacudiu a cabeça. — Durante os poucos
segundos que dura a ruptura forçada da barreira energética a Sambo
não poderá sofrer avarias sérias.
— E os
seres estranhos, Atlan? O que faremos para descobrir como e quem são?
Talvez nunca consigamos descobrir.
— Descobriremos,
sim — e talvez logo, quando Gucky estiver conosco.
Rhodan
voltou a dedicar sua atenção à tela e esteve a ponto de dizer
alguma coisa, quando Marshall soltou um grito de espanto.
— É
Gucky! Está chamando! Capto perfeitamente seus pensamentos! Pode
fugir, mas ainda está esperando. Vê um robô com antenas em cujas
pontas existem esferas douradas...
— Os
robôs com que me encontrei são do mesmo tipo — disse Ras
apressadamente.
Marshall
não deixou que estas palavras o distraíssem.
— Quer
inutilizar o robô antes de voltar. Não sabe onde estamos. Ao que
parece não está captando meus pensamentos. Talvez nem esteja
interessado nisso. Está atacando...
Ouviram
ansiosamente as palavras do telepata, que relatou os detalhes da luta
que o rato-castor travava com o robô, na medida em que os
pensamentos apressados de Gucky o permitiam. Não foi muita coisa,
mas depois de algum tempo Marshall pôde anunciar:
— Está
liquidado! Conseguiu. Neste momento, ele se concentra para o salto.
Está pensando no senhor, Rhodan. Agora... saltou...
Marshall
manteve-se calado por um instante e passou os olhos pela sala de
comando, como se esperasse ver Gucky.
— Desapareceu.
Não consigo captar mais nenhum pensamento. Gucky saltou...
Subitamente
os olhos de Rhodan se estreitaram. Seu olhar atingiu Crest, Atlan e
por fim ficou preso a Marshall.
— Saltou?
— Perdi
o contato. Deve ter saltado. Ou está morto.
Uma
expressão dura surgiu no rosto de Rhodan. Parecia esculpido em
pedra. Por alguns segundos reinou um silêncio completo na sala de
comando. Ninguém falava.
De
repente, Rhodan dirigiu-se a Sikermann:
— Siga
em direção às duas naves. Vamos atacar — adiantou-se e baixou a
alavanca do intercomunicador. — Alarma! Preparar todos os postos de
combate. Capitão Aurin, prepare o transmissor fictício.
Pretendia
utilizar em primeiro lugar a arma mais eficiente.
O
transmissor fictício viera do planeta Peregrino, um mundo
artificial. Este era o mundo do imortal, um ser misterioso, feito
exclusivamente de energia, que concedera a Rhodan o benefício do
prolongamento da vida. O transmissor podia teleportar porções de
matéria, transferindo-a de um instante para outro a qualquer lugar,
fosse qual fosse a distância. Se os campos da gigantesca nave negra
estivessem em superposição, a mesma desapareceria como se nunca
tivesse estado lá. Retomaria ao Universo de quatro dimensões, a mil
ou cem mil anos-luz de distância, e estaria perdida no tempo e no
espaço.
Depois de
dez segundos, a Sambo desacelerou e entrou em posição de ataque.
O
intercomunicador emitiu um estalido. A voz de Aurin saiu do
alto-falante:
— Transmissor
regulado para o alvo. Aguardo ordem de abrir fogo.
— Um
momento — respondeu Rhodan.
Esperava a
primeira ação da nave inimiga...
Não teve
de esperar muito.
Os grampos
magnéticos soltaram a nave menor, libertando-a. Logo recuaram para
dentro do envoltório. Uma parede reluzente surgiu entre as naves
negras e a Sambo. As sombras das duas naves inimigas pareciam boiar
no interior de uma bolha quase transparente.
Um campo
defensivo energético não exercia qualquer influência sobre a
eficácia do transmissor fictício, pois este teleportava o objeto
através da barreira, passando pela quinta dimensão, quando isso se
tornasse necessário.
Mas ao que
parecia o inimigo não tinha a intenção de entregar-se sem luta a
um destino incerto. Na proa da nave maior, algumas placas negras
escorregaram para o lado, deixando livre o cano em espiral de um
canhão eletrônico, que se dirigiu contra a Sambo.
Nos fundos
da sala, Crest mantinha-se tenso e respirava de modo acelerado. Sua
tensão aumentou quando percebeu as intenções do inimigo.
— Olhem!
— exclamou Atlan quando viu o lampejo fulgurante, que bateu contra
o campo energético da Sambo, abrindo-se em leque.
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia contrariado.
— Gostaria
tanto de saber como eles são. É uma pena! — inclinou-se
ligeiramente, sem tirar os olhos da tela. — Aurin! Fogo! Dispare
durante dez segundos contra a nave menor. É possível que depois
disso o gigante se torne razoável.
Nos
segundos seguintes não aconteceu muita coisa.
De início,
teve-se a impressão de que a luminosidade do envoltório protetor
das naves negras crescia, mas depois o campo energético se abriu,
para voltar a fechar-se. Desta vez só envolveu a nave maior. A menor
permaneceu por um instante sem proteção, como que abandonada pelo
irmão maior, depois desapareceu sem deixar o menor vestígio.
Acontece
que o fato produziu estranhos efeitos colaterais...
O
transmissor fictício havia sido construído no Universo normal,
motivo por que era regido pelas leis do mesmo. A transferência da
Sambo para outro plano temporal não poderia modificar esse fato. A
pequena nave negra foi arrancada com uma força inconcebível da
quarta dimensão e atirada para a quinta dimensão, onde não havia
tempo nem espaço.
Para a
quinta dimensão do outro plano temporal!
A
violência e a velocidade do fenômeno era setenta e duas mil vezes
maior que a que se verifica numa teleportação comum. O tempo da
outra dimensão tinha a consistência da matéria.
A nave
teleportada bateu contra uma muralha de tempo materializado.
Desfez-se
em átomos, mas com isso abriu uma fresta na muralha do tempo. Sem
que Rhodan ou qualquer dos ocupantes da Sambo percebesse, foram
atirados até certo trecho do passado. Isso não se revelava no mundo
exterior, pois o efeito ficava restrito às imediações do local d
acontecimento.
Mas a
catástrofe temporal evitou que Rhodan sofresse uma terrível
surpresa, pois se não tivesse ocorrido, ele teria perdido muitos
anos. E nestes anos o Império Solar talvez se teria esfacelado.
O fato é
que apenas viu uma abertura cintilante no lugar em que antes estivera
a nave negra. Enquanto seu cérebro registrava o fato e procurava
explicar o fenômeno, a fresta voltou a fechar-se. Tudo voltou ao
estado anterior.
— Deste
estamos livres — disse o Tenente Sikermann em tom indiferente. —
E agora...
— Capitão
Aurin! — gritou Rhodan para dentro do intercomunicador. —
Mantenha o transmissor preparado, mas só abra fogo quando receber
ordens expressas para isso.
— Entendido!
— respondeu a voz áspera.
— Nossos
campos defensivos não resistirão por muito tempo ao bombardeio
inimigo — advertiu Sikermann com a voz preocupada. — Se não
atacarmos logo...
— Vamos
esperar mais um pouco disse Rhodan. — Afinal, viram com os próprios
olhos como são nossas armas. Acho que pautarão seu comportamento de
acordo com esse fato.
Atlan
perguntou:
— Será
que eles têm olhos?
6
Gucky
fitou sua mão com uma expressão de pavor, depois que esta acabara
de “atravessar”
Rhodan. Logo se deu conta de que a mão era matéria e, portanto,
realidade. Se havia alguma coisa que não fosse real, devia ser
Rhodan.
Seus olhos
dirigiram-se para o espírito de Rhodan, pois o que tinha diante de
si não poderia ser outra coisa. Mas a Terra que tinha sob os pés, o
capim, tudo isso devia ser real, pois do contrário não conseguiria
manter-se de pé...
Gucky não
teve tempo para outras reflexões. Um punho invisível, vindo do
nada, agarrou-o e o arrastou para a escuridão do infinito em que o
tempo deixara de existir. Sentiu que se desmaterializara, como se sua
mente se tivesse concentrado sobre uma teleportação.
Mas aquilo
aconteceu independentemente de sua vontade.
Gucky não
saberia dizer quanto tempo durou esse estado, se é que havia uma
possibilidade de medir uma situação dessas em termos de tempo. De
repente, viu-se novamente capaz de sentir alguma coisa. E o que
sentiu foi um calor benfazejo que o envolvia.
O calor
significava vida e...
E o
funcionamento do cérebro!
Abriu os
olhos, para orientar-se e, se necessário, saltar de novo, fosse para
onde fosse. Mas antes que pudesse ver qualquer coisa, ouviu um grito
de espanto e de alívio:
— Olhem;
é Gucky!
Ao mesmo
tempo, os pensamentos afluíram à sua mente e o envolveram numa
torrente de alegria e simpatia.
— Sim;
voltou — disse Rhodan e por alguns segundos esqueceu a grande nave
negra. — Gucky você nos meteu um susto. Por que não saltou logo,
quando percebeu que sua vingança se dirigia apenas contra um robô?
O
rato-castor olhou lentamente em torno e estudou os rostos dos
presentes com uma expressão pensativa. Parecia ter certa dificuldade
em rememorar os acontecimentos.
— Há
quanto tempo desapareceu a nave pequena? — perguntou, fitando a
tela.
Rhodan fez
um sinal para Marshall, que pretendia dizer alguma coisa.
— Há
alguns minutos, Gucky. Suponho que neste meio tempo você tenha
estado na grande nave. O que viu por lá?
O
rato-castor sacudiu lentamente a cabeça. Por um segundo fitou os
olhos de Atlan, nos quais havia um brilho de eternidade, como se
estes pudessem dar respostas às perguntas que trazia na mente.
Depois de algum tempo anunciou:
— Faz
dez segundos que saltei da pequena nave. Mas neste meio tempo
materializei-me em outro lugar: na Terra.
Rhodan
reprimiu uma expressão de espanto e viu os olhares perplexos dos
outros. A afirmativa de Gucky encerrava duas impossibilidades que
teriam de ser esclarecidas.
— Você
não pode ter saltado há dez segundos, Gucky, pois a nave foi
destruída há três minutos com o transmissor fictício. Portanto,
você deve ter cometido um engano no que diz respeito ao tempo. —
Rhodan respirou profundamente. — E quando você diz que esteve na
Terra só pode ter feito uma piada sem graça, não é?
Os olhos
castanhos do rato-castor refletiram o medo do desconhecido, do
medonho, do inexplicável, para o qual não havia resposta. Num gesto
de súplica cruzou os bracinhos sobre o peito.
— Saltei
há dez segundos, Perry, e estive na Terra. Vi o céu azul, senti o
cheiro do ar tépido e... vi você.
Rhodan
recuou um pouco. Certificou-se de que o Tenente Sikermann não tirava
os olhos da nave negra e se mantinha preparado para reagir
imediatamente a qualquer ato.
— Você
me viu?
Gucky fez
que sim.
— Você
estava num prado verde cheio de flores. No céu havia pequenas
nuvens. Materializei-me bem perto de você, a menos de dois metros.
Eu o chamei, mas você não ouviu. Parecia não reconhecer-me quando
caminhei em sua direção. Quis dar-lhe a mão. E depois...
A voz de
Gucky morreu em meio a um som queixoso que expressava um medo
indisfarçável. A lembrança da experiência terrível ameaçava
dominar o rato-castor, geralmente tão corajoso e inteligente. Crest
aproximou-se por trás e pousou a mão sobre seu ombro. Gucky voltou
a acalmar-se.
— Minha
mão “atravessou”
seu corpo, Perry. O que encontrei não foi seu corpo, mas seu
espírito. Não, não foi um sonho — olhou para baixo, inclinou o
corpo e passou a mão pelos pés. — As sementes de capim ainda
estão aqui.
Rhodan
lançou um olhar de perplexidade para Crest e Atlan.
— O que
será isso? Uma alucinação?
Atlan
aproximou-se. Lançou um olhar reconfortador para Gucky e,
dirigindo-se a Rhodan, disse:
— Não,
não pode ser uma alucinação, bárbaro. Existem certas coisas que
ainda não compreendemos, porque excedem a capacidade de nossa
inteligência. De qualquer maneira, deveríamos recorrer à lógica
para procurar uma explicação. Suponhamos que Gucky não se tenha
enganado, exceto quanto à duração do salto. Neste ponto, deve ter
havido um engano, pois a nave da qual Gucky saltou foi destruída
três minutos antes de ele ter aparecido aqui. Conclui-se que Gucky
esteve a caminho durante três minutos, embora acredite que só levou
dez segundos para efetuar o salto.
— Prossiga,
meu velho — pediu Rhodan ao arcônida, quando este fez uma pausa. —
Estamos curiosos para ouvir o que você tem a dizer.
— Sinto
decepcioná-los — disse Atlan, reprimindo a curiosidade dos outros.
— Não sei muito mais que isso. O salto de teleportação levou
Gucky para um campo atemporal. Concentrou-se em Rhodan. Mas uma coisa
é certa. Na momento em que Gucky saltou, você não estava aqui, e
sim na Terra.
— Parece
que todo mundo ficou louco! — disse Rhodan, sacudindo a cabeça.
Atlan não
deixou que esta observação o perturbasse.
— Admitamos
que Gucky tenha saltado para dentro de uma barreira energética, que
os seres enigmáticos colocaram em torno de suas naves. Quem nos
garante que realmente se trata de uma barreira energética? Talvez
seja uma barreira temporal. Gucky saltou para o interior da mesma e
foi transportado para o passado ou para o futuro. Mas seu cérebro
tinha de cumprir uma ordem: levá-lo para junto de Rhodan. Acontece
que você ainda, ou já, se encontrava na Terra. Por isso Gucky foi
levado à Terra. É a única explicação que encontro para o
fenômeno.
Crest
acenou lentamente com a cabeça. Mas Rhodan ainda não se deu por
satisfeito.
— Por
que me transformei num espírito? Gucky não acaba de afirmar que sua
mão passou por mim?
Atlan
acenou com a cabeça; não parecia muito impressionado.
— Não
conhecemos os efeitos de uma viagem pelo tempo, ainda mais uma viagem
puramente espiritual. Mas posso imaginar perfeitamente que o encontro
de dois seres separados pelo passado, presente ou futuro não se
realize no plano material. Em outras palavras, Gucky viu um Rhodan
que já existiu ou ainda existirá. E você, Rhodan, nem poderia
notar a presença de Gucky.
— É
fantástico! — disse Rhodan, convencido de que a explicação de
Atlan realmente possuía uma base lógica. — Então você quer
dizer que durante dez segundos Gucky permaneceu no futuro?
— Ou no
passado — disse Atlan, confirmando a tremenda suposição. — É
bem verdade que não posso explicar por que não ficou lá. Levou
apenas dez segundos para voltar ao presente, pois, do contrário,
neste momento, não poderia estar na Sambo.
— Se é
assim — interveio Crest — Gucky conseguiu atravessar a barreira
que separa os dois planos temporais. Durante dez segundos, deve ter
vivido na velocidade que prevalece no Universo normal, e com seu
regresso voltou a ingressar no plano temporal estranho. Tudo isso é
bastante aleatório.
— Tudo
isso é uma loucura rematada! — disse John Marshall em meio ao
silêncio. — Contradiz a todas as leis da natureza e não resiste a
qualquer espécie de raciocínio. Só um louco acreditaria nisso.
— Pelo
contrário — disse Atlan com a maior tranqüilidade. — Seria uma
loucura não acreditar nessas possibilidades, pois com isso nos
privaríamos da única chance de desvendar os segredos fundamentais
do Universo.
Desta vez
não houve ninguém que o contraditasse.
*
* *
No momento
em que o contato telepático foi interrompido, o mestre compreendeu
que seu prisioneiro havia fugido. Quase no mesmo instante, olhou para
a tela e viu que o inimigo desconhecido entrava em posição de
ataque.
— Ligar
a barreira do tempo! — disse.
Logo a
seguir, mandou recolher os grampos magnéticos e liberou a nave
menor. O canhão de proa foi colocado em posição e disparou um tiro
que não produziu qualquer efeito.
Depois, de
um instante para outro, a pequena nave de guerra desapareceu. Parecia
ter entrado em transição.
O contato
com as dezessete naves mantidas junto ao anel luminoso continuava e
funcionava perfeitamente. O mestre aproveitou a pausa para
informá-los sobre a situação. Por enquanto ninguém que se
encontrasse no outro plano temporal procurara vir em auxílio dos
estranhos.
— Manter
a barreira energética. Repelir qualquer ataque. Conservem-se juntos.
O inimigo só sabe destruir nossas naves uma após a outra.
Aquilo
eram simples suposições. Afinal, o que se sabia sobre o inimigo? De
que forma conseguira romper a barreira do tempo? O que pretendia com
isso?
O ser
refletia intensamente, procurando uma resposta às indagações que
acabara de formular a si mesmo.
Não a
conseguiu. Resolveu fazer mais uma tentativa de apoderar-se dos
desconhecidos.
*
* *
Atlan
estava ao lado de Rhodan, quando o reluzente campo energético — ou
temporal — que envolvia a nave negra se apagou de repente.
Ao mesmo
tempo, o cano da arma energética foi recolhido para o interior do
vulto metálico. Ao que parecia, pretendiam suspender o ataque.
— O que
significa isso? — perguntou Rhodan em tom de dúvida.
Fitaram as
telas e procuraram uma resposta. Lá embaixo o planeta de cristal
girava lentamente em torno de seu eixo. A vida despertara em sua
superfície, e qualquer diferença entre os dois planos temporais
deixara de existir.
Se a
situação fosse outra, Rhodan teria demonstrado um interesse imenso
pela civilização das lagartas, e faria esforços para libertar os
arcônidas e outras raças atingidas pela frente do tempo. Mas agora,
que ele mesmo se tornara prisioneiro da outra dimensão temporal,
achava que o mais importante era pensar na própria segurança e no
regresso ao seu Universo.
A Sambo e
a grande nave gravitavam a pequena distância em torno do planeta,
deslocando-se em queda livre.
Atlan
estendeu o braço.
— Estão
abrindo uma escotilha — dali a pouco acrescentou. — Não se trata
de um canhão.
O Tenente
Sikermann lançou um olhar indagador para Rhodan. Sua mão direita
estava pousada sobre os comandos das armas defensivas da nave. Na
sala de armamentos, o Capitão Rodes Aurin aguardava a ordem de abrir
fogo.
Rhodan
sacudiu lentamente a cabeça. Tal qual os outros, fitava a tela que
reproduzia nitidamente a escotilha aberta da nave inimiga. Pela
primeira vez um ser humano pôde ver o interior do gigante negro.
Não viram
muita coisa.
Provavelmente
tratava-se apenas de uma espécie de comporta de ar, pela qual se
podia entrar ou sair da nave.
Será que
eles...?
Viram uma
sombra negra. Devia ter cerca de um metro de altura, meio de largura
e a mesma espessura. Sikermann imediatamente ligou o amplificador.
Viram se tratar de um ser que envergava um traje protetor. Tinha
pernas e braços e aproximava-se da periferia da comporta. Parou e
ficou esperando. Os homens que se encontravam na Sambo tiveram a
impressão de que ele os observava.
— O que
é isso? — perguntou Rhodan, sem esperar que ninguém respondesse.
Gucky e
Marshall disseram quase ao mesmo tempo:
— Isso
pensa!
Os dois
telepatas perceberam nitidamente os impulsos, que de início eram
bastante débeis, se bem que de início não os compreendessem. O
pensamento daquele ser devia processar-se por trilhas totalmente
diversas e desconhecidas.
— Será
que é o verdadeiro representante dessa raça enigmática?
Marshall
deu de ombros.
— Não
sei, mas sempre acreditei que eles fossem diferentes.
— É um
erro formular suposições num caso como este — disse Rhodan com
uma ligeira recriminação. — Tomem cuidado! O campo defensivo
deles foi desligado. Isso significa que receberemos visita.
Sikermann, desligue nosso campo.
O tenente
parecia assustado.
— E se
de repente houver um ataque? Qualquer disparo energético nos
liquidará!
— Faça
o que estou dizendo, Sikermann. No momento não existe o menor
perigo. Vamos receber visita. Veja só: o sujeito saiu da nave e vem
flutuando nesta direção.
Todos
viram.
Envergando
o traje espacial, o vulto empurrara-se agilmente da comporta e vinha
lentamente em direção à Sambo. Quase no mesmo instante, o campo
energético da nave terrana apagou-se. A distância entre as naves
inimigas não era superior a quinhentos metros.
— Ele
calculou muito bem o trajeto — disse Atlan em meio ao silêncio de
expectativa. — Ele nos atingiria mesmo sem qualquer correção de
curso. Não quer recebê-lo na comporta, bárbaro?
Sem tirar
os olhos da tela, Rhodan disse:
— Ficarei
na sala de comando. Gucky poderá recebê-lo.
— Gucky?
— Isso
mesmo: Gucky. Se não me engano, o embaixador dos desconhecidos tem
muita coisa em comum com ele, isto é, o tamanho reduzido e a
capacidade de raciocinar. Então, Gucky; você vai?
O
rato-castor saiu caminhando em direção à porta.
— É
claro que vou. Para onde deverei levar o visitante?
— Traga-o
para cá. Mas tenha cuidado. Não sabemos quais são suas intenções
ao vir à nossa nave. Procure descobrir alguma coisa em seus
pensamentos. E ao menor indício de traição...
— Compreendo
— disse Gucky e desapareceu no corredor.
Marshall
fitou a porta que voltara a fechar-se.
— Eu
deveria ter ido com ele, chefe.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Não
devemos assustar o visitante, seja ele quem for. Gucky é pequeno e
tem um aspecto relativamente inofensivo. Nós temos quase o dobro do
tamanho dessa criatura. Isto representaria uma desvantagem para ele,
pois poderia ter uma surpresa negativa quando estivesse frente a
frente conosco.
— Permita-me
tentar manter contato mental com Gucky — pediu Marshall, que não
estava disposto a ignorar os fatos que pudessem ocorrer.
Rhodan não
teve qualquer objeção.
A imagem
do desconhecido projetada na tela tornou-se mais nítida e o traje
pode ser visto melhor. Deslizou para fora da tela e sumiu das vistas
dos espectadores.
Gucky já
se havia teleportado à comporta. Com alguns movimentos ligeiros,
entrou no traje especial pressurizado e fechou a escotilha interna.
Depois deixou que o ar respirável saísse da eclusa e abriu a
escotilha externa.
O
visitante encontrava-se a cinqüenta metros de distância e
dirigia-se com uma estranha segurança à comporta, como se já
soubesse onde esta ficava. Talvez fosse apenas um acaso, mas Gucky
não acreditava no acaso.
— Venho
em paz
— foi o pensamento que atingiu nitidamente seu cérebro vigilante.
— Se
vocês souberem captar pensamentos, compreenderão que apenas desejo
a paz. Vocês me compreendem?
Gucky
refletiu antes de responder. Teve tempo de sobra. Procurou Marshall e
estabeleceu contato mental com ele. Perguntas e respostas corriam
rapidamente de um lado para outro. Depois disso desfez o campo
defensivo que criara em seu cérebro, em relação aos pensamentos do
estranho, a fim de que ele não pudesse acompanhar a palestra
telepática mantida com Marshall.
— Quem
é você?
— perguntou o rato-castor, revelando sua qualidade de telepata, tal
qual sugerira Rhodan por intermédio de Marshall, que o consultara
durante o intercâmbio telepático. O que significava a revelação
desse segredo para quem dispunha de um exército de mutantes
altamente qualificados?
— Sou
Kruukh
— foi a resposta. — Os
mestres mandaram que procurasse vocês.
Quer dizer
que não é nenhum “uuuns”,
constatou Gucky com certo alívio. Haviam mandado outra pessoa. O
rato-castor não sabia por quê, mas tinha medo desses seres. Era um
medo instintivo, que não sabia explicar.
— Nós
o esperamos, Kruukh.
O
desconhecido pousou suavemente no envoltório da Sambo e entrou na
comporta. Não parecia conhecer receio ou dúvidas.
— Você
é o comandante da nave?
— Não;
sou apenas um dos seus servos
— foi a resposta cautelosa de Gucky.
Enquanto
fechava a escotilha externa e esperava que o ar penetrasse na
comporta, teve oportunidade de estudar o visitante. Queria livrar-se
quanto antes do traje desconfortável. Talvez conseguisse convencer o
visitante a desmascarar-se. Pela lâmina translúcida não se via
muita coisa. Mas Gucky ao menos teve a impressão de ver um rosto
atrás da mesma.
— Nosso
ar é respirável para você?
— perguntou.
A resposta
foi imediata.
— É,
a atmosfera de nosso planeta é idêntica.
Gucky saiu
do traje pressurizado e pendurou-o no gancho apropriado. Ao mesmo
tempo abriu a escotilha interna.
O
visitante imitou-o.
O ser que
o rato-castor viu dali a pouco era estranho, mas seu aspecto não era
de infundir medo.
No
primeiro instante, Gucky não soube com quem Kruukh poderia ser
comparado, pois não havia um verdadeiro paralelo com qualquer
habitante da Terra.
A parte
superior tinha o aspecto de uma gigantesca lagosta. Os olhos negros e
brilhantes ficavam sobre tentáculos longos e móveis; naquele
instante fitavam o rato-castor com certa curiosidade. Parecia não
ter nariz nem boca, ou então esses órgãos ficavam num ponto
recôndito. Quatro braços finos, cada um com três dedos,
distribuíam-se por igual para os quatro lados. O estranho ser
poderia estender a mão para qualquer lado sem modificar a posição
do corpo.
A parte
inferior do tronco estava revestida com uma poderosa blindagem. Dois
membros não muito longos e grosseiros deviam ser os pés, sobre os
quais aquele ser se movia lentamente. Tal qual Gucky, o visitante não
usava qualquer tipo de roupa. E não se via nenhuma arma.
— Sou
Kruukh —
disse novamente a mensagem telepática. — Meus
senhores querem que eu fale com o comandante.
Não usou
o verbo falar, mas o significado do impulso era este. Queria
transmitir uma mensagem de seu senhor a Perry Rhodan.
— Siga-me
— respondeu Gucky e caminhou à sua frente.
Naquele
instante, bem que gostaria de ter olhos nas costas...
John
Marshall tateava em direção ao visitante. Conseguira acompanhar a
palestra entre Gucky e o estranho, motivo por que já estava
informado.
A mão de
Sikermann continuava pousada sobre a alavanca que ativaria o campo
energético. Ao menor sinal de perigo, ele o ligaria. Com isso, a
Sambo ficaria isolada.
A porta
abriu-se. Gucky entrou na sala de comando, deixou que o enviado
passasse e piou:
— Permitam
que faça a apresentação. Este é Kruukh, embaixador dos
invisíveis.
Sobre os
pés curtos, o caranguejo-abelha — Gucky dera este nome à estranha
criatura — foi saltitando para dentro da sala. Os olhos salientes
fitaram os presentes um por um. Finalmente parou e fez uma mesura
diante de Rhodan. Seus impulsos mentais foram reforçados. Tomaram-se
tão intensos que puderam ser percebidos até mesmo por quem não era
telepata. Kruukh devia ter um dom extraordinário nesta área.
— Você
é o comandante e o mestre dos estranhos vindos de outro plano
temporal?
— perguntou; na verdade estava fazendo uma constatação. — Meu
senhor, um druuf, manda dizer que qualquer resistência será inútil.
Vocês perderam sua dimensão temporal da mesma forma que todos os
outros seres de seu Universo que foram atingidos por nossa dimensão
temporal. Não existe nenhum caminho de volta. Capitulem.
Rhodan
fitou o estranho ser com os olhos estreitados. Havia nele alguma
coisa que lhe desagradava, mas não sabia o que era. Compreendeu que
era um erro julgar uma inteligência desconhecida com base nas
características externas. Lançou um olhar significativo para Atlan.
O arcônida
imortal manteve-se imóvel. Fitava Kruukh com a maior atenção. Seus
olhos eternos exprimiam desconfiança. Esse fato confirmou as
suposições de Rhodan.
Este
também estava desconfiando, mas preferiu não pensar nisso, a fim de
não prevenir aquele ser dotado de faculdades telepáticas.
— Seja
bem-vindo em nossa nave, Kruukh — disse Rhodan em voz alta, para
que os não-telepatas também pudessem entendê-lo. — As exigências
de seu senhor nos causam espanto. Como podemos capitular sem luta
diante de inimigos, se não sabemos sequer como eles são? Além
disso, ainda é bastante duvidoso que realmente tenhamos de
permanecer neste plano temporal. Se as intenções dos druufs são
honestas, por que não permite ao menos que tentemos regressar
através do anel luminoso pelo qual viemos?
Kruukh
fitou Rhodan.
— Não
conheço os motivos de meus mestres; apenas cumpro suas ordens. Estes
querem que, como prova de que vocês se renderam, o comandante desta
nave venha comigo. É só o que tenho a dizer e pedir.
— É
muita coisa. — disse Atlan, lançando um olhar de advertência para
Rhodan.
A posição
tensa de seu corpo revelava que a qualquer momento aguardava um
ataque do caranguejo-abelha. Nem ele mesmo saberia dizer de que
espécie seria o ataque.
Dirigindo-se
a Marshall, Rhodan disse em voz alta:
— Chame
André Noir, Ralf Marten e Fellmer Lloyd. Queremos saber a quantas
andamos com Kruukh.
Assim que
Marshall se retirou, prosseguiu:
— Verificaremos
se aquilo que você diz é verdade, Kruukh. Depois poderá retirar-se
e levar nossa resposta ao seu mestre.
O
caranguejo-abelha não respondeu. Em compensação fez uma coisa que
só foi notada pelo telepata Gucky. Bloqueou o cérebro e ativou um
setor até então não utilizado...
E passou
ao ataque.
Quando
Marshall entrou na sala de comando juntamente com os três mutantes a
chamado de Rhodan, o ataque já havia sido desferido. No primeiro
instante, ninguém desconfiou.
— Wuriu
Sengu está a postos — anunciou Marshall.
Sengu era
o espia japonês, que sabia enxergar através da matéria sólida,
motivo por que via tudo que se passava na sala de comando.
— Os
outros três estão comigo.
— Encostaremos
a Sambo junto à nave dos druufs e subiremos a bordo — disse Rhodan
com uma estranha monotonia na voz. — Eles só querem nosso bem.
Marshall
logo foi colocado em estado de alarma. Rhodan não poderia ter aceito
essa condição tão depressa. Era impossível. Lançou um olhar
ligeiro para Atlan e Crest. O imortal parecia um tanto tenso. Parado
ao lado do outro arcônida, deixava pender frouxamente os braços. Em
seus olhos eternos não se via o brilho da vida.
Da mesma
forma que Rhodan e Atlan, Crest parecia um boneco.
André
Noir, o hipno, sentiu algo estranho, pois notou instintivamente que
aquilo fora obra de alguém que dispunha do mesmo dom que ele.
Tratava-se de um processo de influenciação de efeito retardado, uma
espécie de estado pós-hipnótico.
“Estes
quatro devem ser submetidos ao mesmo tratamento”,
pensou Kruukh, cometendo o erro fatal.
Não
calculara com a possibilidade de alguém ler seus pensamentos, mesmo
que não os irradiasse diretamente.
Sem nada
deixar perceber, Marshall, que evidentemente captara o pensamento de
Kruukh, disse:
— Noir,
agora é sua vez.
Noir sabia
o que Marshall queria dizer com isso. O francês era hipno e graças
a essa qualidade fora incorporado ao Exército de Mutantes. Se alguém
lhe pedisse que fizesse uso de sua faculdade, não havia necessidade
de explicar de que faculdade se tratava. E, se Marshall não falava
em termos claros, devia ter seus motivos.
O
caranguejo-abelha estava despreparado e foi atingido pela força
total dos impulsos hipnóticos, que romperam suas resistências
naturais e se apossaram de seu cérebro. Antes que Kruukh
compreendesse que o feitiço virara contra o feiticeiro, estava
submetido à influência de Noir.
— Pronto
— disse o hipno com a voz tranqüila. — O que devo fazer com ele?
Marshall
refletiu febrilmente. Não queria nem podia tomar qualquer decisão
sem a concordância de Rhodan. Antes de mais nada, Perry e os
arcônidas teriam de ser libertados da coação hipnótica que o
medonho visitante colocara em torno de suas consciências.
— Desligue-o
por cinco minutos, para que não nos possa causar qualquer mal.
Depois liberte Rhodan.
Dali a
dois minutos, Kruukh se encontrava diante de Marshall, numa atitude
completamente apática e relativamente inofensiva, sem saber o que
estava acontecendo em torno dele. Seu cérebro mantinha-se passivo e
suspendera toda atividade intelectual. Noir pôde passar
tranqüilamente ao tratamento dos homens que haviam sido submetidos à
influência hipnótica, a fim de restituir-lhes a vontade própria.
No momento
em que ficou livre da constrição, o rosto de Rhodan retratava o
espanto. Era estranho, mas lembrava-se do que havia acontecido. A
interferência mental não fora muita intensa.
— Não
pude evitar, pois foi muito rápido — disse. — Nem Gucky nem eu
notamos as intenções deste visitante pouco agradável. Em si a
idéia de hipnotizar-nos não é nada má. Teríamos caído
tranqüilamente na armadilha deles. Ainda bem que nossos hipnos são
melhores. Obrigado, Noir.
— Agradeça
a Marshall; foi ele que desconfiou imediatamente — disse o hipno em
tom modesto e voltou a dedicar sua atenção ao prisioneiro. — O
que vamos fazer com ele?
— Mande
que durante uma semana mantenha uma atitude completamente
indiferente. Será nosso refém. Quanto aos druufs mostraremos a eles
que descobrimos sua trama. Talvez se lembrem de outra melhor.
Noir
submeteu Kruukh a um tratamento hipnótico e levou o prisioneiro
apático para fora da sala de comando. A Sambo dispunha de
compartimentos destinados à guarda de visitantes indesejáveis.
De resto,
convém mencionar que Ivã Ragow logo mostrou-se interessado pelo
caranguejo-abelha.
Rhodan fez
um sinal para Sikermann.
— Ligar
o campo defensivo. Preparar o radiador de impulsos. Abrir fogo contra
a nave deles. Aurin, prepare o transmissor fictício. Iniciaremos um
ataque em grande escala.
Menos de
três segundos depois, a gigantesca nave negra foi envolvida por uma
torrente de energia chamejante. Em alguns lugares, as chapas de metal
começavam a derreter. Mas o prejuízo não foi grande, pois a reação
do comandante dos druufs foi imediata. Os disparos energéticos logo
começaram a ser repelidos pelo campo cintilante, enquanto as partes
atingidas esfriavam rapidamente.
— Transmissor
fictício! — disse Rhodan em tom exaltado. — Fogo!
Mais tarde
ninguém saberia dizer se o transmissor fictício realmente funcionou
com tamanha rapidez, ou se naquele instante a nave inimiga entrou em
transição. De qualquer maneira, o gigante desapareceu no mesmo
instante em que o Capitão Aurin abriu fogo.
O lugar em
que antes se encontrara estava vazio.
Rhodan não
tirou os olhos da tela quando disse:
— Tome a
rota do anel luminoso, Sikermann. Procuraremos forçar passagem.
Atlan
estremeceu quase imperceptivelmente.
— Pretende
ignorar a cortina de fogo, bárbaro? Será que isso não é muito
arriscado?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Já
compreendi que cada segundo representa um risco muito maior. Se
ficarmos aqui, estaremos perdidos. A tentativa de regressar ao nosso
plano temporal representa um risco menor. O que ternos a perder, já
que nos vemos diante da alternativa? Nada, meu caro; não temos nada
a perder.
— Rota
estabelecida — disse Sikermann. Sua voz exprimia insegurança, mas
decisão. — Qual será a velocidade?
— Parta.
Depois veremos o resto.
7
A Sambo
corria em direção ao débil anel luminoso perfeitamente visível
acima da planície. Desenvolvia a velocidade relativa da luz.
A cortina
energética criada pelas pequenas naves negras não se tornaram menos
espessa. Eram apenas cinco ou seis unidades que concentravam seu fogo
sobre a abertura que permitiria o regresso ao outro Universo.
O anel
luminoso parecia precipitar-se em sua direção, os raios energéticos
procuraram atingi-los, mas foram muito lentos.
A Sambo
conseguiu passar.
Atrás
deles, o céu perdeu a cor; voltou a ser límpido e azul. O deserto
de Tats-Tor passou vertiginosamente, enquanto Sikermann desacelerava.
Uma voz
saiu do alto-falante.
Era Bell.
— Não
esperávamos que voltassem tão depressa. Para que serve esse buraco
luminoso? Quer que o desliguemos?
Rhodan
segurou o microfone do telecomunicador.
— Aqui
fala Rhodan. Desliguem imediatamente os geradores de campo de
curvatura.
Dali a dez
segundos veio a resposta:
— Foram
desligados! Conte logo o que aconteceu.
Rhodan
suspirou aliviado e reclinou-se na poltrona. Parecia que um peso de
cem quilos acabara de sair de seus ombros. Atlan aproximou-se.
— Não
quer perguntar a Bell quanto tempo passou por aqui? — perguntou. —
Só depois disso poderemos ficar tranqüilos.
Antes que
Rhodan pudesse responder, a voz de Bell saiu dos alto-falantes:
— Por
que bateram em retirada tão depressa? Vocês passaram menos de dois
minutos do lado de lá!
Rhodan
fitou Atlan e levantou-se abruptamente.
— Então?
— disse em tom exaltado. — O que me diz?
O imortal
deu de ombros.
— O que
posso dizer? Aconteceu exatamente o contrário do que esperávamos.
— Gucky
— disse Rhodan com uma calma forçada. — Você não acredita que
seu estranho comportamento junto aos robôs poderia ser a chave do
mistério?
O
rato-castor limitou-se a sacudir a cabeça.
Sikermann
desacelerou o suficiente para que pudesse descrever uma curva e
trazer a Sambo de volta. Pousou-a ao lado da gigantesca Drusus.
Crest
começou a falar:
— Recuperamos
nossa dimensão temporal.
Um olhar
para a tela confirmou a afirmativa.
Viram um
homem sair da escotilha da Drusus em velocidade normal, descer pela
rampa e dirigir-se à Sambo.
Era Bell.
Dali a
cinco minutos apertou a mão de Rhodan e dos outros.
— Quer
dizer que não deu certo. Ou deu?
— Ficamos
por lá algumas horas, meu caro — disse Rhodan. — Não me peça
que lhe dê uma explicação para a distorção do tempo, pois não a
tenho.
— Pois
eu tenho — disse Atlan para sua surpresa. — E a explicação é
simples. Já falamos sobre isso. Acho que o fato tem alguma relação
com o transmissor fictício. O aparelho atirou a nave inimiga contra
a barreira do tempo, enquanto nos transferiu para o passado, e para
um passado de muitos anos atrás. Só assim se explica que a
diferença entre os dois planos temporais praticamente se compensou,
isso por puro acaso. Tivemos sorte; apenas isso.
Naquele
instante, ouviu-se o som estridente do intercomunicador.
Era Ivã
Ragow.
São as
lagartas, chefe. Ficaram imóveis de novo. A mesma coisa aconteceu
com o tal do Kruukh. O que devo fazer?
— Nada —
disse Rhodan e desligou. Muito sério, disse aos presentes. — Acho
que isso representa a prova de que jamais poderá haver qualquer
entendimento entre nós e os druufs. Não é porque nós ou eles não
queiramos, mas apenas porque ninguém pode. A natureza opõe-se a tal
tipo de entendimento.
— Talvez
aconteça um milagre — disse Crest em voz baixa.
Atlan fez
um gesto de assentimento.
— Crest
está com a razão. O que sabemos sobre o outro plano temporal é
pouco, mas encontramos um caminho que nos leva a eles. A primeira
tentativa terminou em fracasso. Não conseguimos estabelecer contato
positivo. Da próxima vez pode ser diferente. Se fosse você, não
desistiria tão depressa, bárbaro. Será que os homens já
desistiram alguma vez?
Rhodan
fitou Atlan por muito tempo. Depois sacudiu lentamente a cabeça.
— Não,
Atlan, os homens nunca fizeram isso. Você tem razão. Por um
instante eu me esqueci de que somos homens. Nunca desistimos, por
mais difícil que seja um problema. Um belo dia teremos um encontro
com os invisíveis. E nesse dia, eles terão de nos dar algumas
explicações.
— Vamos
tentar logo? Afinal, só perdemos alguns minutos. O dia é longo! —
falou Bell em tom impaciente.
Rhodan
colocou a mão sobre seu ombro.
— Meu
querido e velho Bell, você diz que apenas perdemos alguns minutos.
Só por acaso foram alguns minutos. A expedição poderia
perfeitamente ter durado alguns decênios. Pensarei mil vezes antes
de arriscar novamente o salto pela barreira do tempo. Vamos voltar à
Terra.
E a
decisão foi esta. A bordo da Drusus, que já havia recolhido a
Sambo, nada lembrava a ventura do planeta de cristal.
Nada, com
exceção de algumas lagartas imóveis, enrijecidas na posição em
que se encontravam no momento em que foi rompida a barreira do tempo
e... de um druuf imóvel.
*
* *
Dali a
alguns meses, Perry Rhodan se encontrava logo após o nascer do sol
na periferia da cidade de Terrânia, num lugar que há meio século
ainda era um deserto. Hoje um capim viçoso e algumas árvores
cresciam no local.
Rhodan
gostava de andar vez por outra a sós por ali, a fim de apreciar o
nascer do sol. Próximo, ficava o túmulo de Ernst Ellert, um homem
admirável, cujo espírito era capaz de correr para o futuro, Um belo
dia esse espírito não voltou mais. Desaparecera no espaço-tempo, e
estaria vagando por lá, à procura do corpo, que jaz intato no
mausoléu, aguardando a volta do espírito que o animaria.
Quem sabe?
Talvez um dia...
De
repente, Rhodan teve ti impressão de não estar só.
Olhando o
céu, tinha-se a impressão de que choveria dali a um ou dias; mas
por enquanto o tempo era seco, o capim estava em flor.
A brisa
ligeira tangia as acima do solo.
A sensação
de não estar só durou apenas dez segundos. Desapareceu tão
depressa como viera.
Rhodan
sentiu um calafrio, mas os raios acalentadores do sol logo o
espantaram.
Fez
meia-volta. Estava na hora de voltar para Terrânia. A caminhada até
o carro que o esperava lhe faria muito bem.
Subitamente
estacou...
Perto do
lugar em que ficara parado havia pequenos rastros inconfundíveis no
solo. Logo os reconheceu.
Eram de
Gucky, e dez segundos antes ainda não estavam lá!
Porém,
naquele instante, Gucky se encontrava entre os colonos de Vênus...
O cérebro
de Rhodan reagiu imediatamente. Lembrou-se das horas de incertezas
passadas no mundo de cristal, que já haviam mergulhado no mar da
eternidade.
Subitamente
compreendeu que o círculo acabara de fechar-se.
Prosseguiu
na sua caminhada, Dali a sessenta minutos, quando se encontrava em
Terrânia e iniciava o trabalho de todo dia, ninguém desconfiaria de
que há uma hora atrás um sopro de eternidade atingira Perry Rhodan.
...E uma
recordação que há muito pertencera ao passado.
Haveria
uma recordação que pertencesse ao futuro?
*
* *
*
*
*
A volta
ao Universo foi garantida. Mas Perry Rhodan não poderá ignorar
esses atacantes extratemporais... nem esquecer o robô regente de
Árcon.
Em Os
Escravos Cósmicos,
título do próximo volume, acontecimentos marcantes vão se
desenrolar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário