— Vândalos!
— disse Mac Urban em tom indignado.
Continuava
junto ao painel de controle de armamento, e com aquela única palavra
exprimira tudo que estava sentindo.
A abertura
fora produzida pela ação do calor. As massas metálicas parecidas
com cera falavam uma linguagem inconfundível.
— Radiações
inalteradas — anunciou Alim Achmed a meia voz.
Thomas
Cardif tomou sua decisão: fez a gazela penetrar no inferno de
radiações.
Os campos
defensivos da nave foram solicitados até o limite de sua capacidade.
O suor começou a porejar na testa de Alim Achmed. Porém, Mac Urban,
o escocês, continuou tranqüilamente junto ao painel de controle de
armamento, e contemplou, em sua pequena tela, a confusão que havia
no interior da coluna.
A nave de
reconhecimento encontrava-se quarenta metros acima da gigantesca
instalação esfacelada, derretida e atirada para todas as direções
por meio do processo de desintegração atômica não dirigido. Pela
grande abertura, não penetrava luz suficiente para iluminar todos os
ângulos. Cardif ligou todos os holofotes e, quando dirigia o feixe
principal para a esquerda, viu uma série de destroços que revelavam
traços inconfundíveis de tecnologia arcônida.
— A
coisa começa a ficar interessante — murmurou e pediu que Urban se
afastasse de seu posto junto ao controle de armamentos. — Assuma
meu lugar, Urban. Irei lá fora.
Urban
esteve a ponto de formular uma objeção, mas Cardif cortou-lhe a
palavra com um gesto autoritário.
— Por
que me olha com essa cara, Urban? Sei perfeitamente o que estou
fazendo. Essas radiações não impedirão que eu volte são e salvo.
Thomas
Cardif não sabia que, nesse instante, apresentava novamente uma
semelhança assustadora com Perry Rhodan.
Dali a dez
minutos, saiu da gazela, que pousara numa pequena área livre em meio
aos destroços. No interior da cabine de comando, Alim Achmed e Mac
Urban fitaram-se perplexos.
— Você
notou? — perguntou Urban com a voz rouca.
O árabe
falou apressadamente:
— É uma
coisa medonha, Mac. É mais que estranho. Sempre que o tenente se
concentra, torna-se igualzinho ao chefe. Será que Rhodan é pai de
Cardif?
O escocês
achou que seu companheiro fora longe demais ao formular essa
pergunta.
— Alim,
nunca mais faça essa pergunta. Haja o que houver, será preferível
ficar quieto. O que está fazendo Cardif lá fora?
Na grande
tela de visão global, viram o Tenente Cardif desaparecer em meio aos
destroços. Depois de quinze minutos martirizantes, o rádio de
capacete de Thomas transmitiu esta interrogação:
— O que
é isso?
Depois
voltou a reinar o silêncio; apenas se ouvia a respiração ofegante
do tenente.
— Urban!
O escocês
estremeceu. Fora a voz de Perry Rhodan. Respondeu prontamente:
— Pois
não, Sir.
Thomas
Cardif nem parecia notar essa forma de tratamento. Falando com a
mesma ênfase, pediu:
— Verifique
o que significa o número 4186-4-162.
Mac Urban
moveu cinco chaves e introduziu a indagação no computador
positrônico. Mal havia acionado a última chave, a fita perfurada
foi expelida pela máquina.
— Então?!
— indagou-se Urban, admirado.
Lançou um
olhar para a fita, decifrou os sinais perfurados e recuou, surpreso.
— Tenente
Cardif — disse pelo microfone de bordo.
— Sim —
respondeu este no recinto em que fervilhava o inferno atômico.
— 4186-4-162
é o número-código de um sol, que... um momento, vou fazer o
cálculo... que fica a 8.055 anos-luz daqui, na direção da base
arcônida 776-B-667. Esse sol não tem nome, tal qual o seu único
planeta gigante. É estranho: só uma lua do planeta gigante tem um
nome: Silico V. Nunca ouvi-o antes.
— Obrigado.
Continuarei a revistar a área. Como estão as radiações, Achmed?
— Constantes;
vêm da direita.
— Obrigado.
Thomas
Cardif demonstrava um estranho laconismo. Dali a meia hora, voltou a
entrar na nave de reconhecimento e, ainda no interior da comporta,
trocou seu traje espacial por vestes não contaminadas de radiações.
Deixou-se cair no assento do piloto, sem dizer uma única palavra.
Achmed e
Urban não o molestaram com perguntas. Lançaram-lhe um olhar de
expectativa. O tenente saíra só para fazer o reconhecimento, e só
ele saberia avaliar suas descobertas.
Virou-se
lentamente para eles; fitou-os com o rosto de Perry Rhodan; os olhos
arcônidas exprimiam um máximo de concentração.
— Urban,
quero ver o registro dos fortes estelares de Árcon.
O escocês
demonstrou um enorme espanto.
— Aquilo
ali — apontou para fora — é um forte blindado, tenente?
— Já
foi, Urban. Pelo que pude constatar, foi urna instalação automática
que, apesar de uma sofisticada vigilância positrônica, explodiu num
processo catastrófico de desintegração atômica.
Urban
voltou a lançar um olhar para a tela de visão global da nave de
reconhecimento. Viu o quadro de uma tremenda destruição. A onda de
calor e de pressão gerada pela explosão se deslocara com
temperaturas solares e sua tremenda força soprara para fora o
anteparo metálico como se fosse uma simples rolha.
Nesse
momento, a maior parte do material gaseificou-se e o restante pingou
pela face externa da coluna como se fosse cera líquida.
— Tenente,
precisamos sair daqui — advertiu Achmed. — Duas vezes desligamos
os campos defensivos por um breve instante, mas isso bastou para que
um bom volume de radiações penetrasse na nave.
— Está
bem, Achmed. Poderá dar-me a lista quando estivermos lá fora,
Urban.
Dali a dez
minutos, a gazela pairava cem quilômetros acima da superfície do
planeta. Thomas Cardif acabara de estudar a lista dos fortes
blindados de Árcon. O planeta Heet-Ris não constava da mesma.
— Vamos
para junto da próxima coluna, Urban!
— Tenente,
o senhor acredita que todas as colunas...?
— Isso
mesmo, Urban. Tenho certeza de que estamos na pista de uma artimanha
refinada dos arcônidas. Foram eles quem espalharam essa conversa da
origem pré-histórica das colunas, depois de terem instalado às
escondidas seus equipamentos cósmicos nesses monumentos gigantes.
Achmed, o senhor e seus instrumentos dirão se acertei no alvo, ou se
me deixei levar por um engano.
A próxima
coluna surgiu à sua frente. A gazela desceu a dez quilômetros.
Subitamente, Achmed soltou um assobio.
— Localização,
tenente. Caramba, nem teria notado, se o senhor não me tivesse
pedido que prestasse atenção. O que nos atingiu nem chegou a ser um
raio, mas apenas um “esfregão
vazio”.
Quando se
aproximaram do terceiro monumento, passaram pela mesma experiência.
— Mudar
de rumo! — disse o Tenente Cardif e, recorrendo à força dos
superpropulsores, levou a nave para o espaço cósmico com a
velocidade de uma estrela cadente.
Dali a
alguns minutos, o hipercomunicador, com o condensador e o codificador
acoplados, levou a mensagem do Tenente Cardif em direção ao planeta
Rusuf, onde foi captada pela Drusus.
A resposta
não se fez esperar:
Verifiquem
se lua Silico V situada no sistema 4186-4-162 é uma fortaleza
cósmica. Não assumam qualquer risco.
A ordem
de procurar localizar pistas da nave seqüestradora está cancelada.
Perry
Rhodan.
Mac Urban,
o escocês, acariciou os controles de armamentos; um sorriso de
orgulho surgiu no rosto de Achmed; e o orgulho também brilhou nos
olhos do Tenente Cardif. Desde o início da existência do Império
Solar, sempre fora uma raridade alguém receber uma ordem expedida
diretamente pelo administrador.
— Acho
que estamos numa pista muito importante — resmungou Mac Urban. —
Estes arcônidas são de amargar. Que amigos! Mas afinal, o que é
que se poderia esperar de tipos como estes? Uma raça que prefere
deixar-se governar por um computador em vez de dirigir o próprio
destino não pode levar a honestidade muito a sério. Aliás, como
foi que o senhor descobriu o número-código 4186-4-162?
— Estava
escrito na placa de decifração de um decodificador antiquado, meio
derretido. Não há dúvida de que é um produto da tecnologia
arcônida.
9
A nave do
Tenente Thomas Cardif desenvolvia 0,39 da velocidade da luz ao
penetrar no sistema 4186-4-162. O único planeta do sistema
encontrava-se em oposição ao sol. Gravitava em torno de seu astro
rei a setecentos e vinte milhões de quilômetros.
Aquele
sol, um astro de pequenas dimensões, com a metade do tamanho do sol
terrano, exibiu enormes manchas solares aos três tripulantes da
gazela. Essas manchas cobriam um terço da superfície do sol.
Alim
Achmed, que estava sentado junto aos instrumentos, fungou muito
contrariado.
— Esse
forno não deixa de ter suas qualidades! Isto é um verdadeiro fogo
cruzado de interferências.
Desenvolvendo
pouco menos que a velocidade da luz, passaram a duzentos e sessenta
milhões de quilômetros do sol. O astro começou a desaparecer na
margem direita da tela. Nesse momento, o único planeta do sistema
surgiu do outro lado de sua atmosfera incandescente.
Por
estranho que pudesse parecer, o catálogo estelar dos arcônidas,
geralmente tão meticuloso, não trazia qualquer indicação sobre o
gigantesco planeta. Além disso, sonegava o número exato de luas e,
contrariando a numeração usual, deu à quinta lua o nome de Silico,
para caracterizá-la pelo algarismo V.
— Tenente,
a tal lua Silico V tem pouco menos de oitenta quilômetros de
diâmetro — anunciou Alim Achmed. — Mas não foi só isso que
meus instrumentos constataram. Essa luz está envolta por campos
defensivos mais potentes que os da Drusus.
Thomas
Cardif freou a gazela, reduzindo abruptamente a velocidade para 0,3
da da luz. Os aparelhos de absorção de pressão da nave de
reconhecimento tiveram de trabalhar ao máximo de sua capacidade, mas
só o trovejar de seu mecanismo revelou o tremendo impacto que
tiveram de anular.
— Oitenta
quilômetros de diâmetro... — repetiu Thomas Cardif em tom
pensativo.
Dali a um
instante, ordenou a Achmed:
— Irradie
o código de identificação, no ritmo vinte.
Isso
significava que o código deveria ser irradiado vinte vezes por
minuto.
A gazela
descreveu uma curva suave e passou pelo gigantesco planeta, entre a
segunda e a terceira lua. O planeta propriamente dito ocultava sua
face sob uma atmosfera borbulhante de cloro.
A quarta
lua encontrava-se atrás do planeta, enquanto Silico V se afastara em
sua órbita excêntrica a 5,7 milhões de quilômetros do mundo de
cloro.
Naquela
distância, o minúsculo astro não era visível na tela. Thomas
Cardif moveu uma chave e ligou a ampliação setorial máxima. O
espaço cósmico parecia precipitar-se para o interior da gazela. De
um instante para outro, o planeta gigante e o cintilar das estrelas
haviam desaparecido. A ampliação setorial, regulada para a
distância de 5,7 milhões de quilômetros, adaptava-se
automaticamente à velocidade que a nave desenvolvia a cada momento,
oferecendo uma visão nítida do respectivo setor.
Thomas
Cardif dirigiu a nave diretamente para Silico V. Aquele mundo
estranho, sem ar, cobria dois terços da altura da tela. Viram-se
marcos de dez metros, mas nenhum deles indicava outra coisa senão
que Silico era uma esfera de oitenta quilômetros de diâmetro.
— Não
houve resposta ao código de identificação, Achmed?
— Nem
resposta, nem qualquer localização partida de Silico V.
— Nem
mesmo um “esfregão
vazio”?
— Thomas Cardif resolveu usar a expressão do árabe.
— Nada,
tenente, mas não acredito nessa calma. Para que servem os
superpotentes campos defensivos desse astro?
— Farei
essa pergunta ao astro, assim que tivermos chegado mais perto —
respondeu o jovem tenente e perguntou a si mesmo quantos seriam os
fortes cósmicos blindados cuja existência Árcon havia ocultado ao
Império Solar.
Naquele
instante sentiu um calafrio. Detectara um erro de lógica: por que
Silico V se identificava como um sistema cheio de armas energéticas
ao ativar seus campos defensivos? Por que resolvera dispensar o fator
surpresa? Poderia deixar que o inimigo se aproximasse sem desconfiar
de nada e destruí-lo numa ação instantânea, antes que este
tivesse tempo de esboçar qualquer reação.
Cardif
reduziu a velocidade para 0,1 da da luz. Precisava de tempo para
refletir melhor. Apesar disso, continuava a aproximar-se rapidamente
da quinta lua, cujos contornos recortados se tornavam cada vez mais
nítidos na tela.
Um tanto
distraído, voltou a perguntar:
— Nenhuma
resposta ao nosso código de identificação, Achmed?
— Nenhuma,
tenente.
Cardif
manteve a rota inalterada. Achmed lembrou-o disso, indicando a
distância sem que isso lhe tivesse sido solicitado:
— Trezentos
e noventa mil quilômetros, tenente!
Se fosse
mantida a velocidade de 0,1 da luz, dali a treze segundos a gazela
colidiria com Silico V.
Thomas não
reagiu à observação. Dirigindo-se a Urban, perguntou:
— As
armas estão preparadas?
— Estão
prontas para disparar, tenente.
— Distância:
duzentos e dez mil quilômetros.
Isso
significava que dali a sete segundos a nave colidiria com os campos
defensivos superpotentes da lua Silico V e seria destruída.
— Transmita
o sinal de emergência pelo raio direcional, Achmed.
Alim
Achmed reagiu com uma rapidez espantosa. Sabia que não poderia usar
o hipercomunicador. Não queria que metade da Via Láctea descobrisse
a situação fingida de emergência em que se encontravam.
Enquanto
Thomas Cardif freava a gazela, reduzindo sua velocidade a cem
quilômetros por segundo, Achmed expediu o sinal de telecomunicação
pelo raio direcional. Por uma questão de cautela, usou a língua
arcônida.
Silico V
não respondeu. Mas a gazela aproximava-se cada vez mais dessa lua,
que era a única imagem a aparecer na tela de visão global.
Thomas
Cardif estreitou os lábios. Sentiu todo o peso da responsabilidade.
Porém, nem pensou em fazer meia-volta e fugir diante dos campos
defensivos superpotentes sem ter conseguido nada.
— Atenção,
gente! — exclamou em tom martirizado. — Aproximar-me-ei desta lua
anã com o máximo de aceleração até a distância de quinhentos
quilômetros. Achmed, envie ininterruptamente o sinal de emergência.
Continue a acrescentar o código de identificação. Urban, preste
atenção para perceber quando nos afastarmos da luz e voltarmos a
mergulhar em sua sombra.
— Posso
disparar com todas as peças; tenente?
— Pode,
ao menor sinal de ação hostil vindo de Silico V.
A decisão
acabara de ser tomada. O clima no interior da gazela não sofreu
qualquer modificação. Alim Achmed e Mac Urban já haviam realizado
outras missões desse tipo, e sempre voltaram sãos e salvos.
Desta vez,
também não se preocuparam. Seu comandante, um tenente
recém-formado, agia tal qual uma velha raposa do espaço, como se já
tivesse cumprido algumas missões deste tipo sob o comando de Perry
Rhodan.
— Fechar
os capacetes espaciais! — foi a última ordem expedida por Thomas
Cardif.
No mesmo
instante, a nave acelerou ao máximo de sua capacidade. A gazela
precipitou-se vertiginosamente de uma distância de cento e cinqüenta
e seis mil quilômetros sobre a lua Silico V.
O sinal de
emergência e o código de identificação continuavam a ser
irradiados ininterruptamente.
As mãos
robustas de Mac Urban seguravam tranqüilamente as duas chaves dos
canhões de impulso. Não se desviava por um segundo sequer do
dispositivo ótico de pontaria, no qual aparecia a lua.
Distância:
oitenta mil quilômetros.
A gazela
continuava a acelerar. E a distância decrescia na razão inversa da
aceleração, reduzindo-se para trinta mil quilômetros.
Dez mil
quilômetros de distância!
Não houve
qualquer resposta, nem ao sinal de emergência, nem ao código de
identificação.
— É
obstinado como só um arcônida pode ser obstinado — foram as
palavras que Thomas Cardif ouviu o árabe dizer pelo rádio de
capacete.
A
distância descia vertiginosamente: 8.000, 5.000, 3.000, 2.000,
1.000...
A
quatrocentos quilômetros de altura, os campos defensivos
superpotentes envolviam a lua Silico V. Thomas Cardif não tinha a
intenção de colidir com os mesmos.
700
quilômetros...
600...
A gazela
parecia voar em direção ao centro da lua anã. Se em Silico V
houvesse algum observador atento, teria a impressão de que o
mecanismo direcional da pequena nave se danificara, e que esta iria
de encontro ao pequeno mundo deserto e entrecortado, cuja superfície
consistia em milhares de pequenas cadeias de montanhas.
500
quilômetros...
Thomas
Cardif começou a levantar a nave.
Naquele
instante, os campos defensivos da gazela sofreram o impacto frontal
de um terrível raio energético. Por uma fração de segundo, os
campos pareciam absorver a torrente energética. Mas logo estouraram
como uma bolha de sabão. Em primeiro lugar, romperam-se à esquerda
da nave, dando-lhe um ligeiro empurrão para a direita, e
arremessando-a para fora do inferno.
Thomas
Cardif apenas chegara a ver o terrível raio energético. Depois
perdeu os sentidos.
Quando
voltou a si, os destroços fumegantes da gazela passavam
silenciosamente por ele, precipitando-se em direção ao solo lunar.
— Urban;
Achmed. Façam o favor de responder imediatamente! — gritou para
dentro do microfone de seu rádio de capacete.
Mas o
receptor apenas emitiu um chiado monótono. Urban e Achmed não
responderam.
O Tenente
Cardif fez mais três tentativas de entrar em contato com os mesmos.
Finalmente convenceu-se de que não haviam resistido ao traiçoeiro
ataque.
Ao
contemplar aquele mundo inóspito e mortífero, seu rosto não traiu
a menor emoção. Seu traje espacial, que lhe permitia voar, evitaria
que se esfacelasse na rocha. Mas quando contemplou o altímetro
automático e viu que a altura era de duzentos e oitenta e sete
quilômetros, seu rosto transformou-se numa máscara.
Silico V
desligara seus superpotentes campos defensivos. Naquele momento, não
passaria de um corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro
para quem o contemplasse de fora.
O que
estaria oculto em seu interior?
Thomas
Cardif não esperava nada de bom.
10
A
realidade ultrapassou seus piores receios.
Quando,
depois de ter pousado na superfície lunar, foi conduzido à frente
de um robô, deu-se conta de que naquele astro não havia nenhum ser
humano. Silico V era um mundo robotizado. Os homens-máquina,
dirigidos por um mecanismo positrônico, deveriam proteger o forte
blindado arcônida instalado no interior da lua por meio da
artilharia pesada e dos canhões energéticos superpotentes; deveriam
disparar sempre que sua programação o exigia.
Thomas
Cardif foi escoltado por cinco robôs. Eram diferentes dos outros;
não eram máquinas de guerra, nem de trabalho. Pareciam desempenhar
funções policiais e administrativas. Possivelmente disporiam de
poderes limitados.
Sob o
ponto de vista positrônico, sua inteligência chegava mesmo a ser
excepcional. Cardif já fizera experiências nada agradáveis nesse
terreno. Não se sentira muito à vontade ao ouvir o que um dos cinco
robôs lhe disse. Com sua inteligência fria e desalmada provou a
Cardif, face a observações precisas, que o sinal de emergência da
gazela terrana era apenas um blefe, e que a rota de colisão da nave
fora determinada pela vontade do comandante.
Thomas
Cardif caminhava no meio dos robôs.
Já andara
algumas centenas de metros abaixo da superfície lunar.
Mostraram-lhe
tudo, e o que viu bastou para deixá-lo sem fala.
Nem mesmo
a Drusus possuía canhões energéticos daquele tamanho. Nem se
atreveu a avaliar-lhe a potência. O fato de todos eles trazerem
sinais de velhice representava o único consolo. Mas isso só até
quando se deu conta de que esse forte arcônida fora construído num
corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro.
Silico V
era uma base arcônida de dimensões estelares. Ao lembrar-se das
numerosas colunas-mamute de Heet-Ris — cada uma das quais devia ter
a potência de fogo de uma nave do tipo da Drusus — Cardif deu-se
conta de que, na realidade, o Império de Árcon era mil vezes mais
forte do que se apresentara aos olhos de Perry Rhodan.
Passaram
por uma ponte que cruzava uma sala de trezentos metros de comprimento
e setenta metros de altura. O Tenente Cardif não acreditou no que
seus olhos viram: a gigantesca catedral era uma estação conversora.
Chegaram
ao elevador antigravitacional. Desceram rapidamente, sempre escoltado
pelos cinco robôs.
Atravessaram
um corredor abaulado de trinta metros de largura e chegaram a uma
porta minúscula, bloqueada por várias barreiras de radiações.
Enquanto,
ao lado da pequena porta, um robô ainda estava removendo as
barreiras, Thomas Cardif ouviu pelo microfone externo os passos
pesados de outros homens-máquina.
Ainda
envergava o traje espacial, com o capacete fechado. Virou-se
automaticamente para os robôs que acabavam de chegar. No primeiro
instante, não viu quase nada, pois uma lâmpada o ofuscava, mas
quando seus olhos, numa adaptação rápida, conseguiram enxergar de
novo, nem chegou a estremecer diante do quadro que se lhe oferecia.
Não
acreditou no que estava vendo.
“Como
poderia Thora ter parado aqui?”,
indagou-se mental e friamente.
Uma
pancada nas costas, desferida pelo punho de um dos robôs, obrigou-o
a prosseguir em sua marcha. A minúscula porta abriu-se. Atrás dela
havia uma comporta. Assim que entrou, ouviu um robô dizer pelo
microfone externo:
— Pode
tirar o traje espacial. A atmosfera existente aqui tem a mesma
composição do ar terrano.
Os robôs
o excediam em altura em mais de um metro. Sem mostrar o menor
nervosismo, Cardif tirou o pesado traje espacial. Agora, não se
sentia tão tranqüilo, pois naquele instante tornava-se indefeso.
Mas logo se lembrou do lugar onde estava e deixou o traje espacial
para trás sem que isso lhe provocasse a menor tristeza.
Ao recinto
vazio em que se encontrava, seguiu-se outro que logo o fez evocar um
filme arcônida que lhes fora exibido na Academia, a fim de que
conhecessem de vista as salas típicas de interrogatório dos
arcônidas.
“Permitiram-lhe”
que se sentasse.
Quatro
robôs permaneceram a seu lado, enquanto o quinto saiu por uma porta
lateral. Não voltou. Em compensação, dali a pouco, se ouviu a voz
metálica que, em tom áspero, dirigiu a primeira pergunta a Thomas
Cardif.
“Isso
é um cérebro positrônico!”,
pensou Cardif, que se lembrou do computador gigante de Árcon III,
que dirigia o gigantesco Império do grupo estelar M-13.
Graças ao
treinamento recebido na Academia Espacial Terrana, Thomas Cardif
manteve-se tranqüilo, enquanto respondia às perguntas que lhe eram
dirigidas. Quando o locutor invisível quis saber por que ele,
Cardif, resolvera pousar na estrela Heet-Ris, o alarma soou em sua
mente.
Inclinou-se
quase imperceptivelmente para a frente. E uma modificação quase
imperceptível surgiu em seu rosto. Respondeu sem a menor hesitação.
Disse que haviam pousado em Heet-Ris para satisfazer o interesse de
Mac Urban pelas construções pré-históricas.
Depois de
alguns segundos de silêncio, teve-se a impressão de que o locutor
invisível acreditou na veracidade da resposta. Na opinião de
Cardif, a pergunta seguinte representava um perigo para a segurança
do Império Solar. Enquanto pesava rapidamente as diversas
possibilidades, uma porta se abrira a seu lado, e dela saíra uma
mulher alta e esbelta, de cabelo muito claro, peculiar à raça
arcônida.
A mulher
viu um homem sentado entre quatro robôs. Naquele instante, este se
concentrava ao máximo para responder a uma pergunta. Antes que
pudesse compreender o que estava fazendo, a mulher soltou um grito
estridente:
— Perry,
como é que você veio parar aqui?
No mesmo
instante, percebeu a quem realmente dirigira estas palavras.
Reconheceu-o
pelo uniforme de tenente, não pelo rosto.
Era Thomas
Cardif, seu filho!
E ela o
chamara pelo nome de Perry... ela, a esposa de Perry Rhodan.
Porém, o
jovem continuava a parecer-se com o pai. Muito mais agora, que se
levantava de um salto, sem que os robôs o impedissem.
Então era
este seu filho!
O rapaz,
que a fitava com os olhos dela e que tinha a aparência de Rhodan há
sessenta anos antes, aproximava-se dela. Os movimentos do jovem eram
iguais aos de Perry Rhodan.
Mas havia
mais alguém que vira e ouvira tudo: o locutor invisível.
Subitamente sua potente voz metálica se fez ouvir:
— Fico-lhe
muito grato, dona Thora!
Naquele
instante, Thomas Cardif berrou:
— Isto é
uma... — mas logo se calou.
Dobrou o
cotovelo direito. Levou a mão à testa. Enxugou o suor.
Não
continuou a caminhar em direção a Thora.
Não
conseguiu dar mais um passo.
Uma
terrível suspeita mantinha-o preso ao lugar em que se encontrava.
11
Rhodan leu
a mensagem:
Localizamos
Itzre Delagin. Thora encontra-se em Silico V, no sistema 4186-4-162.
Seqüestro realizado exclusivamente por mercadores galácticos. Na
maioria pertencem ao clã...
Perry não
leu o resto.
Deu o
alarma. Decolariam dali a quatro minutos. Destino: 4186-4-162, Silico
V, em conformidade com o catálogo estelar arcônida.
Dali a
quatro minutos, a Drusus subiu ao espaço com um ribombo, juntamente
com nove cruzadores pesados e vinte e três cruzadores ligeiros.
Rhodan em pessoa pilotou a Drusus. A direção acoplada faria com que
toda a frota, que participava da formação, fosse guiada pelo
supercouraçado.
4186-4-162
ficava a 8.431 anos-luz do planeta Rusuf. Qualquer espaçonave cujos
mecanismos de propulsão estivessem em bom estado conseguiria
alcançar o sistema num único hipersalto.
A formação
da frota terrana realizou seis transições.
Durante a
primeira e a terceira não se recorreu aos compensadores estruturais.
Quem quer
que se mantivesse à espreita na Galáxia seria enganado pela
manobra. Os três primeiros saltos conduziam em direção oposta a
4186-4-162. Só os últimos três, realizados sob a proteção do
compensador estrutural, levaram a formação ao destino.
A setenta
e cinco minutos-luz do sistema 4186-4-162, as naves saíram do
hiperespaço para retornar ao cosmo normal. O choque da transição
continuava a ser intenso e desagradável. Mas cada indivíduo o
sentia de maneira diferente. Perry Rhodan não demorou tanto em
livrar-se dos seus efeitos como Crest, o arcônida.
Naquele
instante, Rhodan — administrador do Império Solar e sócio do
Império de Árcon em igualdade de condições, ao qual o
computador-regente conferira poderes extraordinários — não sentia
muita simpatia pelo cérebro desalmado, cujo modo de agir provinha de
uma logística muito sutil.
Logo após
a decolagem de Rusuf, mandou que todos os arquivos fossem revistados
em busca de dados sobre 4186-4-162. Ao mesmo tempo, solicitou
detalhes relativos ao planeta Heet-Ris.
Mas só
conseguiu generalidades, tanto sobre Silico V como sobre Heet-Ris.
Nada indicava que os dois mundos fossem posições cósmicas
avançadas, dotadas de extraordinário poder ofensivo.
— Crest
— começou Rhodan, dirigindo-se ao arcônida. — Por que será que
o senhor não sabe nada sobre isso?
A palestra
estava sendo mantida na gigantesca sala de comando da Drusus. O
comando acoplado, que ligava os cruzadores leves e pesados com o
centro de astro-navegação do supercouraçado, fora suspenso há um
minuto. Cada nave voltara a transformar-se numa unidade autônoma.
Crest deu
de ombros.
— É
possível que essas fortalezas tenham sido construídas há dez ou
doze mil anos e, por algum contratempo não identificado, tenham
perdido o contato com Árcon. Esta suposição não constitui nenhum
absurdo. Basta lembrarmo-nos do grande computador positrônico
instalado em Vênus, cuja existência era desconhecida a mim e
continua a sê-lo aos arcônidas de hoje. Ainda é possível que a
construção tenha sido realizada sob o regime de sigilo absoluto.
Nesse caso, só três pessoas têm conhecimento da...
— Além
do computador-regente! — afirmou Rhodan.
— Naturalmente.
Este é o primeiro a saber — respondeu Crest em tom ligeiramente
deprimido.
Para
Rhodan, o assunto estava encerrado. Usou o sistema de
intercomunicação de bordo para chamar a sala de rádio.
— A
gazela comandada pelo Tenente Cardif ainda não deu nenhum sinal de
vida?
A resposta
foi imediata.
— Não
senhor. Estamos tentando por todos os meios.
— Obrigado
— disse Rhodan em tom lacônico.
Só Crest
compreendeu o olhar que Rhodan lhe lançou: Perry estava preocupado
com a sorte do filho.
A formação
terrana avançava em frente ampla em direção a 4186-4-162, formando
um enorme semicírculo. O sol sem nome foi crescendo em meio à
cintilância de milhares de estrelas. Transformou-se num disco, e
passou a emitir uma luminosidade cada vez mais forte. Seu único
planeta, de dimensões gigantescas, surgiu sob a forma de uma foice
pálida, que emitia um brilho verde. Os satélites daquele mundo
gigante ainda não se haviam tornado visíveis na tela global da
Drusus.
Todos que
se encontravam a bordo das naves, inclusive Perry Rhodan e Crest,
formavam uma idéia errada sobre o tamanho de Silico V.
As naves
voavam sob a mais forte proteção contra a localização, mas era
evidente que essa proteção se tornava cada vez mais fraca, à
medida que se aproximavam do destino. A partir de certa distância,
os instrumentos inimigos mostrariam os temíveis diagramas triplos
que, embora fossem apagados e incapazes de fornecer dados precisos,
constituíam uma indicação inequívoca da presença de naves
desconhecidas. Um homem bem treinado, que já tivesse lidado várias
vezes com os diagramas triplos, seria capaz, apesar do sombreamento,
de determinar a posição das naves que se aproximavam com o uso do
dispositivo protetor.
As naves
de guerra terranas dirigiam-se ao destino à velocidade de 0,96 da da
luz. Quando se encontravam a quinze minutos-luz de distância, apenas
a Drusus desligou o sistema protetor contra a localização,
transmitiu seu código de identificação e anunciou que Perry Rhodan
se encontrava a bordo.
Silico V
não respondeu. Os transmissores superpotentes da Drusus emitiram o
sinal numa seqüência ininterrupta, utilizando todas as faixas
possíveis. Os chamados dirigidos à gazela do Tenente Cardif foram
transmitidos sem prejuízo desse sinal. O setor de instrumentos
anunciou:
— Silico
V tem oitenta quilômetros de diâmetro e a forma de um globo.
Atmosfera ausente. Gravitação 1,1.
Rhodan
acenou com a cabeça. Seu rosto anguloso tornou-se ainda mais
expressivo. Num mundo que apresentava essas dimensões ridículas, a
gravitação de 1,1 só poderia significar uma gravidade artificial.
Naquele
momento, teve certeza de que os mercadores galácticos haviam levado
sua esposa para Silico V.
Mas por
que a gazela de Thomas não respondia?
Usou o
sistema de intercomunicação de bordo para entrar em contato com o
setor de investigação de raios cósmicos.
— Verifique
o espaço em torno de Silico V. Quero saber se a radiatividade é
idêntica em todos os setores. Considerem os efeitos das manchas
solares. A medição deve ser iniciada no ponto da órbita em que
Silico V se encontrava há vinte e quatro horas. Os resultados
deverão ser fornecidos imediatamente a mim.
Crest
encolheu-se. Compreendeu a terrível suspeita que Perry Rhodan trazia
na mente. Em sua opinião a gazela já deixara de existir.
Provavelmente fora destruída nas últimas vinte e quatro horas pelo
fogo de radiações da fortaleza.
Da parte
esquerda da sala de comando da Drusus, ouviu-se subitamente uma
exclamação exaltada:
— Silico
V acaba de ativar campos defensivos. Santo Deus... têm a potência
dos campos arcônidas... — o homem passou a recitar cifras que
provocaram uma reação de espanto até mesmo em Crest, o arcônida.
Mas este não teve tempo de fazer qualquer observação a este
respeito.
O setor de
investigação de raios cósmicos, situado novecentos metros abaixo
deles, no interior do corpo gigantesco da Drusus, estava chamando.
— Nas
coordenadas pi... constatamos fortes radiações. Verificamos sem a
menor sombra de dúvida que provêm de aço 465-r-02. Com base nas
medições da órbita de Silico V, pode-se afirmar que o processo foi
desencadeado há oito horas e dezessete minutos, a cerca de
seiscentos quilômetros da superfície da lua. O curso acelerado do
processo de desintegração só pode ter sido provocado por raios de
impulsos.
O aço
465-r-02 era um material criado na Terra, que, em comparação com o
aço Árcon-T, utilizado na construção dos veículos espaciais do
Império, possuía consideráveis vantagens. Especialmente sob o
aspecto térmico. E, mesmo sem qualquer proteção especial, era mais
resistente à ação da radiatividade.
Mantendo
os olhos semicerrados, Rhodan permaneceu imóvel no assento do piloto
e deixou que alguns segundos se passassem em silêncio.
Só Crest
sabia o que o amigo estava sofrendo.
Ali estava
o homem mais poderoso do Império Solar, instalado no comando de uma
das naves espaciais mais potentes da Via Láctea. No entanto, não
passava de um pobre homem martirizado, impotente face ao destino, que
lhe roubara ao mesmo tempo a esposa e o filho.
Quanto a
Thomas Cardif, todas as esperanças estavam perdidas.
E a
probabilidade de rever Thora era inferior a um por cento.
A formação
continuava a aproximar-se do sistema a 0,96 da velocidade da luz. O
sistema de proteção contra a localização, que envolvia todas as
naves, com exceção da Drusus, consumia quantidades enormes de
energia. Apesar disso, todas as naves ainda dispunham de imensas
reservas energéticas, que apenas aguardavam o momento de serem
utilizadas.
Protegida
apenas pelos campos defensivos, a Drusus, uma esfera espacial de mil
e quinhentos metros de diâmetro, atravessava o sistema em direção
a Silico V.
Rhodan deu
ordem para que a formação de cruzadores se mantivesse trinta
segundos-luz atrás da Drusus. Porém, face às distâncias
astronômicas e ao alcance dos canhões energéticos e dos lançadores
de raios, esse “atraso”
não teria a menor importância.
No momento
em que pela primeira vez apareceu na grande tela de visão global do
supercouraçado, a lua Silico V não passava de um grãozinho de pó
perdido no negrume do Universo. Agora já se apresentava como um
corpo insignificante, um nada inofensivo.
— Gravitação
de 1,1 — disse Crest, que se mantinha atrás de Perry Rhodan e não
podia deixar de pensar constantemente em Thora e em Thomas Cardif.
Queria
distrair-se e desejava que também Perry Rhodan se concentrasse
inteiramente na manobra de aproximação da fortaleza cósmica. Mas,
apesar da convivência de sessenta anos, Crest ainda não conhecia
perfeitamente o terrano Perry Rhodan.
Este já
se encontrava em estado de concentração.
Era duro e
desumano consigo mesmo, muito mais duro do que jamais poderia ser
para com outro homem. Sufocara sua dor, sua angústia mental. Foram
apagadas pela força de sua vontade. Naquele momento, só visava aos
interesses do Império Solar e aos homens que se encontravam na
Drusus e nas outras naves que se aproximavam vertiginosamente da lua
esférica.
Os dados
foram chovendo de todos os lados. O grande computador positrônico de
bordo trabalhava ininterruptamente. Enviava cifras novas,
ligeiramente alteradas, às torres de canhões da gigantesca Drusus.
Realizou cálculos cada vez mais precisos da potência dos campos
defensivos estelares que envolviam Silico V. Qualquer modificação
de dados que representasse uma vantagem para a fortaleza cósmica
enfraquecia em grau exponencial a posição da Drusus, até que esta
disparasse o primeiro tiro.
A três
minutos-luz de Silico V, a formação freou, reduzindo a velocidade
para 0,1 da da luz. Os cruzadores ligeiros e pesados continuavam a
voar sob a proteção contra a localização. Apenas a Drusus estava
“de
viseira erguida”.
— Rhodan,
não quer chamar o computador-regente? — Crest não pôde deixar de
formular esta pergunta.
O
computador positrônico de bordo acabara de calcular que, se todas as
armas das naves terranas bombardeassem simultaneamente os campos
defensivos de Silico V, este só consumiria dez por cento de sua
capacidade.
Dali se
concluía que Perry não conseguiria romper esses campos.
Rhodan nem
sequer chegou a voltar a cabeça quando ouviu a pergunta de Crest.
Disse com a maior tranqüilidade, e era exatamente isso que
constantemente abalava o arcônida:
— Já se
foi o tempo em que eu acreditava que um computador positrônico não
é capaz de mentir. Não chamarei Árcon III, mas proporcionar-lhe-ei
um prazer bastante duvidoso. Terá de manter-se inativo, enquanto eu
transformar esta casa de marimbondos numa lua inofensiva.
Inclinou-se
ligeiramente para a frente, comprimiu um botão e falou para dentro
do microfone:
— Atenção,
arquivo, procure imediatamente todos os dados relativos à construção
das fortalezas cósmicas dos arcônidas. Desligo.
Mantendo-se
na mesma posição, efetuou rapidamente outra ligação e chamou o
setor do qual nenhum dos numerosos oficiais que estavam na sala de
comando se havia lembrado:
— Transferir
todos os robôs, dentro da respectiva capacidade, ao hangar B-65.
Programação 1-1. Execução dentro de oito minutos. Desligo.
A próxima
ordem foi transmitida à sala de rádio:
— Enviar
uma mensagem de hipercomunicação por toda a Galáxia. Todos os
cruzadores ligeiros e pesados, couraçados e destróieres deverão
entrar em estado de prontidão. Ao receberem a mensagem 45-1-00,
entrarão imediatamente em transição, em direção ao sistema
4186-4-162 do catálogo estelar arcônida. Perry Rhodan. Desligo.
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto angustiado de Crest.
O código
45-1-00 era apenas um blefe preparado há muito tempo. Qualquer nave
de guerra, que recebesse essa ordem, apenas faria uma ligeira
interrupção nas ações costumeiras. A ordem não causaria grande
alarma.
Tratava-se
de um comando inventado especialmente para o computador-regente
instalado em Árcon III e para os mercadores galácticos, que também
estavam metidos naquilo.
Uma das
características da mentalidade de Perry Rhodan consistia no empenho
de obter o melhor resultado possível ao menor custo e com o menor
risco.
Subitamente,
o espaço cósmico negro com a cintilância fria de milhares de sóis
rompeu-se.
Silico V
estava golpeando sem aviso prévio!
Seis
canhões de impulsos da fortaleza procuraram romper os campos
defensivos da Drusus e transformar a nave numa nuvem luminosa de
gases. Mas a Drusus apenas sofreu um ligeiro abalo. Prosseguiu na
mesma velocidade de 0,1 da da luz em direção à lua liliputiana.
— Ataque
vindo de vermelho vinte e cinco — disse alguém do posto de
comando.
Silico V
estava atacando com a potência triplicada, e dois terços dessa
potência atingiram os campos defensivos do supercouraçado,
provocando uma verdadeira cascata luminosa de energias desencadeadas.
Qualquer
outra nave se teria evaporado sob o impacto de tamanho volume de
energia. Os campos defensivos da Drusus apenas tremeram fortemente e
repeliram a energia.
— Indicador
de capacidade: setenta e dois por cento!
Quase
chegava a representar um alarma. Esperava-se que isto fizesse Rhodan
liberar o fogo.
Crest
observou-o.
O que
estaria acontecendo na alma de Perry Rhodan naquele instante? Em que
estaria pensando esse homem, que ao ver de Crest estava predestinado
a transformar-se um belo dia no senhor do Universo?
— O
transmissor fictício está pronto para entrar em ação?
Enquanto a
pergunta era formulada, a gigantesca Drusus levou a efeito uma
mudança inesperada de rota para bombordo.
O
dispositivo de absorção de pressão uivou ligeiramente, fazendo com
que a gravitação de 1 G permanecesse inalterada na nave. No lugar
em que, uma fração de segundo antes, se encontrara o supercouraçado
via-se um monstro energético feito de trinta raios de impulso
enfeixados, que se perdeu nas profundezas do espaço.
Crest
fitou Rhodan. O que fizera com que justamente nesse instante o
terrano modificasse subitamente a rota da nave?
Não teve
tempo para pensar no assunto. Chocou-se com a ordem seguinte emitida
por Rhodan.
— Colocar
os robôs de guerra em Silico V por meio do transmissor fictício.
Apressem-se!
— Sir —
gritou o oficial do posto número 8, e o tom de voz anunciava um
desastre iminente. — Estamos constatando um enorme represamento de
força magnética em Silico V. Parece que se trata de um ataque de
bomba gravitacional.
A bomba
gravitacional era uma das armas mais terríveis que se conhecia.
Qualquer objeto atingido por sua ação era atirado para a quinta
dimensão.
A reação
de Rhodan foi imediata.
— Transição
de fuga! — ordenou à formação de cruzadores.
A proteção
contra a localização voltou a envolver a Drusus, enquanto a nave se
afastava com o máximo de aceleração e num desvio de rota de 43
graus.
O
computador positrônico de bordo “conservou”
a mesma calma de Perry Rhodan. Forneceu ao transmissor fictício
todos os dados necessários para que essa arma extraordinária, da
qual Rhodan recebera dois exemplares da estranha inteligência
coletiva do planeta Peregrino, pudesse colocar os robôs de guerra na
superfície de Silico.
O
transmissor fictício trabalhava na sexta dimensão. Em todo o
Universo, não havia qualquer proteção contra essa arma, que podia
ser utilizada para o transporte imediato de qualquer tipo de matéria
a uma distância ilimitada.
Enquanto a
Drusus se afastava vertiginosamente com um desvio de rota de 43
graus, o transmissor fictício transferiu uma leva de robôs após
outra à superfície de Silico V. Para ele, os potentes campos
defensivos da fortaleza estelar não existiam.
— Ligar
a localização com o transmissor fictício!
Perry
Rhodan não pretendia assumir o menor risco. O transporte de robôs
sofreu uma ligeira interrupção. O oficial que se encontrava no
comando principal do transmissor ouviu o que lhe cabia fazer.
A bomba de
gravitação seria interceptada pelo transmissor fictício, no
caminho da lua liliputiana para a Drusus, para explodir em qualquer
ponto do espaço em que não pudesse causar qualquer desastre.
Poucos
oficiais se encontravam presentes por ocasião da luta contra
Topthor, o superpesado, quando os homens de Rhodan também tiveram
que se defender contra uma bomba gravitacional. Esses oficiais sabiam
o que estava acontecendo. Os outros tremiam por dentro.
— Ataque!
— exclamou o oficial do posto 8 com a voz ansiosa. — Sem dúvida
trata-se de uma bomba gravitacional.
Subitamente,
ouviu-se uma respiração ofegante, seguida de uma frase proferida em
tom de espanto:
— Já
não há mais nada.
O
transmissor fictício retirara a bomba do campo energético que se
deslocava em direção à Drusus, para atirá-la no espaço vazio,
onde acabou explodindo.
— Prosseguir
no transporte dos robôs!
Perry
Rhodan não perdeu tempo. A localização fora desligada do
transmissor. Do hangar B-65 do supercouraçado, centena após centena
de máquinas de guerra desapareciam sob a ação do misterioso
aparelho, para no mesmo instante assumir sua posição na face oculta
da lua-anã.
Finalmente
Rhodan recebeu os dados sobre a construção das fortalezas estelares
de Árcon. Mais uma vez deu prova de sua genialidade universal.
Examinou ligeiramente o complicado desenho, reconheceu-lhe os
aspectos mais importantes, e os observou com ligeiras variações, no
segundo, terceiro e quarto desenhos, sempre no mesmo lugar.
Já sabia
onde procurar o computador positrônico de Silico V.
— Transmissor
fictício, como vai a manobra de transporte de robôs?
— Operação
concluída, Sir.
— Regular
o transmissor para a Drusus. O aparelho levará a nave para Silico V.
O computador de bordo fornecerá as coordenadas. Desligo... Sala de
rádio. Chame de volta a formação de cruzadores. Deverão realizar
um ataque concentrado assim que a Drusus abrir fogo. Desligo...
Transmissor fictício, tudo preparado?
— Tudo
preparado, Sir. Aguardo as coordenadas...
Mais uma
vez, os campos defensivos da Drusus foram atingidos. Pareciam não
resistir mais ao impacto energético. Na nave ouviu-se o rugido dos
geradores aos quais cabia absorver e neutralizar a energia vinda de
fora. O indicador de capacidade aproximou-se perigosamente da marca
dos cem por cento, mas depois de alguns segundos martirizantes o
rugido dos geradores foi diminuindo e o ribombo dos campos abalados
também foi amainando.
— Será
dentro de cinco segundos, Sir! Essa indicação vinha do posto do
transmissor fictício.
O tempo
começou a correr. O contador robotizado foi indicando os segundos.
— Já! —
gritou uma voz.
Os
tripulantes da Drusus, que esperavam sentir um choque de transição,
acreditaram que a tentativa tivesse fracassado, pois não sentiram a
menor alteração.
— O fogo
poderá ser iniciado por todas as peças!
Estas
palavras foram proferidas pelo chefe.
Os
oficiais que se encontravam diante do dispositivo ótico de pontaria
fitaram os alvos. E os homens que se achavam na sala de comando
olharam fixamente para a grande tela de visão global.
Silico V
encontrava-se menos de mil metros abaixo do lugar em que estavam.
Silico V —
um mundo destrutivo inteiramente automatizado, de oitenta quilômetros
de diâmetro, dotado de toda a sofisticação da tecnologia arcônida
— sentiu os efeitos da tormenta terrana.
A Drusus
disparou todas as armas, nas mais variadas direções, e a uma
distância extremamente reduzida.
Dentro de
dois segundos, a rocha morta da lua foi transformada em nuvens de
gases esvoaçantes e numa lava que escorria preguiçosamente.
O centro
de computação, situado nas profundezas da lua — uma estação
retransmissora do computador-regente de Árcon III — era uma
instalação positrônica. Mas, nem por isso, estava em condições
de tomar as medidas defensivas com a necessária rapidez, já que em
três setores importantes ficara bloqueado.
Não sabia
dar resposta à pergunta sobre o motivo por que os campos defensivos
que envolviam Silico V estavam intactos, enquanto a Drusus voava a
apenas mil metros acima da superfície da lua.
Representando
o problema em forma numérica, poderíamos dizer que o computador se
via diante de uma tarefa semelhante à de explicar por que um mais um
seriam três.
— Destruição
da superfície! — ordenou Rhodan.
Por alguns
segundos admirou-se pelo fato de que o fogo de sua nave não era
respondido, mas logo imaginou por que a reação do
computador-retransmissor era tão lenta.
— Tomem
cuidado com nossos robôs! Mas a maior parte destes se encontrava na
face oposta. Graças a seu aparecimento inesperado, puderam atuar
numa superfície de cem quilômetros quadrados, onde fecharam as
bocas das peças de artilharia com rocha vitrificada.
Outra
tormenta terrana, vinda do espaço, irrompeu sobre Silico V.
A formação
de cruzadores acabara de regressar e, assim que emergiu da transição,
abriu fogo contra um único ponto do campo defensivo estelar. À
medida em que as naves se aproximavam, a força de impacto de raios
crescia. Não demorou um minuto para que os campos defensivos de
Silico V desmoronassem no ponto atingido, desencadeando um verdadeiro
inferno naquele mundo anão.
Os raios
dos cruzadores ligeiros e pesados penetravam livremente até a
superfície da lua. Atingiram Silico à esquerda da calota polar,
tomando por referência a posição das naves, e descongelaram-na
numa faixa de dez quilômetros, transformando-a numa nuvem de gases.
Das bocas
de fogo que a Drusus ainda não havia destruído, saiu uma profusão
de raios destrutivos. Mas estes só puderam desenvolver-se por uma
fração de segundos, pois a nave de Rhodan logo bombardeou os pontos
dos quais os feixes de raio ainda se precipitavam espaço afora.
A
resistência inimiga cessou de repente. Logo após, notou-se o
desmoronamento total e inesperado dos campos defensivos de Silico V.
Descendo
em formação cerrada, o grupo de cruzadores caiu sobre a pequena
lua. Com a nave capitania de Rhodan, os cruzadores circularam em
torno desse mundo liliputiano, deixando atrás uma faixa de vinte
quilômetros de rocha liquefeita, que ia endurecendo lentamente.
Dali a
duas horas, toda resistência na superfície cessou. Rhodan mandou
que os robôs de guerra retornassem. A utilização radical destes
custara sessenta e sete máquinas. Mas, por outro lado, não teve de
lamentar sequer um único ferido entre os tripulantes.
Mas a luta
ainda não chegara ao fim.
Teriam de
penetrar no interior de Silico V, para atingir o lugar em que se
encontrava o comando positrônico e o gigantesco conjunto de
controles... e ainda para o lugar em que Thora era mantida presa.
Perry
Rhodan não acreditava na possibilidade de encontrar seu filho Thomas
com vida.
12
Dezoito
quilômetros abaixo da superfície de Silico V, no recinto destinado
a Thomas Cardif, reinava um silêncio absoluto, que indicava um
isolamento total.
Thomas não
sentia o silêncio.
Não sabia
como era a sala fechada em que se encontrava. Estava inerme diante do
tremendo abalo psíquico que o sacudia; não fez nada para
defender-se das terríveis conseqüências do trauma.
Tinha
vinte e um anos.
Era o
filho de Perry Rhodan; Thora era sua mãe.
— Thora
Rhodan quer ser minha mãe? — disse, repetindo a pergunta que, sob
formulação ligeiramente diversa, dirigira a Thora Rhodan na
presença do computador-retransmissor, que se mantinha atento.
Sua jovem
vida voltou a desfilar diante dos olhos de sua mente.
Pelo que
se lembrava, sempre passara bem, mas nem como criança, nem como
jovem sentira o calor e o aconchego de um lar.
Nestas
horas, compreendeu de quanto coisa fora privado. Mas não entendeu
por que Perry Rhodan e Thora haviam agido dessa forma.
Não quis
compreender! A herança materna, o sangue da mãe arcônida, fervia
em suas veias, fazendo crescer em seu interior a j cólera, o
desprezo e o ressentimento frio.
— Perry
Rhodan, é bom que saiba que meu nome é Thomas Cardif, e com este
nome morrerei! — murmurou convicto.
Os robôs
de Silico V haviam colocado ele e Thora em compartimentos distintos.
Pensar numa fuga a dezoito quilômetros de profundidade seria uma
idéia ilusória.
Subitamente,
Thomas Cardif ouviu a gargalhada que ele mesmo acabara de soltar. Era
uma risada colérica, mas apesar disso esfregou as mãos, num gesto
de satisfação.
Não
queria fugir.
Por que
iria fazê-lo?
Seu mundo
era Árcon. Sentia por Perry Rhodan o ódio de que só um arcônida é
capaz.
— Rhodan,
você me roubou o amor do pai e da mãe. Você quis assim. Agora sou
eu que quero. Quero ir ao lugar de que provêm meus olhos amarelados.
Para casa, para Árcon.
Começou a
caminhar nervosamente pela sala luxuosamente instalada. Vez por
outra, olhava para o espelho, e este lhe mostrava um rosto que odiava
até às profundezas da alma: o rosto de Perry Rhodan!
A mãe;
seu grito ainda lhe ressoava nos ouvidos.
“Como
minha mãe deve ter sofrido por não poder enlaçar-me. E tudo isso
apenas porque o tal do Perry Rhodan proibia”,
pensou Thomas.
Aqui, a
dezoito quilômetros de profundidade, na prisão guardada pelo robôs
de Árcon, começava a compreender por que Thora fora a Rusuf. Quis
ir para junto dele, contrariando todas as ordens desumanas do ditador
Perry Rhodan.
— Perry
Rhodan, você viu em mim não um filho, mas apenas um homem que um
dia poderia representar um perigo para você. Rhodan, agora suas
previsões se realizam. Minha vida será dedicada a uma única
tarefa: destruí-lo.
Odiava-o
com a intensidade de que só os jovens são capazes. Pensava
raciocinar logicamente, mas na verdade esquecia-se da lógica. Era
dominado pelo sangue arcônida que corria em suas veias. Por isso não
teve a menor dificuldade em perdoar integralmente a mãe, em
encontrar uma explicação para todos os atos praticados por Thora.
Mas Perry Rhodan...
O ribombo
surdo vindo de uma direção indeterminável arrancou-o dos seus
pensamentos odientos, chamando-o de volta à realidade. Thomas aguçou
o ouvido e teve a impressão de que o chão tremia sob seus pés. Por
acaso, olhou para o espelho e viu Perry Rhodan.
Sua mão
agarrou um objeto pesado.
— Tome!
— gritou em tom raivoso e atirou o objeto com tamanha força contra
o espelho, que a face metálica deste se encurvou, não permitindo a
reprodução fiel das imagens. — Desta vez até você desapareceu,
Perry Rhodan!
Soltou uma
risada de raiva e triunfo.
À sua
frente, viu o pequeno painel, que lhe permitia estabelecer contato
audiovisual com quinze pontos diferentes.
Fez uma
ligação com o computador-retransmissor, mas apenas ouviu outro
ribombo, que desta vez parecia mais selvagem, mais perigoso, mais
catastrófico. Um tremor bem perceptível sacudiu o chão. Thomas
Cardif até chegou a ter a impressão de que tudo balançava como num
terremoto.
O saber
adquirido na Academia Espacial do Império Solar revelou-se mais
forte que o fogo odiento que lhe incendiava a alma. Seu espírito
objetivo pôs-se a avaliar o ribombo e o tremor do solo. Lembrou-se
da última missão que lhe fora confiada, e que seria dirigida contra
o sistema 4186-4-162. E sabia como Perry Rhodan costumava golpear
sempre que algum homem enviado numa missão não retornava ou não
era encontrado.
— Pois
venha...
O ódio do
arcônida voltou a irromper em sua alma. Nem se espantou com o fato
de não conseguir entrar em contato com o computador e os outros
quatorze pontos a que correspondiam as chaves do painel.
Perry
Rhodan estava a caminho; viria para junto dele e de sua mãe!
Thomas
atirou-se ao chão, cruzou as mãos sob a cabeça e lançou um olhar
indiferente para o teto. O ribombo tornou-se mais forte e furioso,
passou a soar ininterruptamente e aproximava-se cada vez mais.
Isso não
o interessava.
Além da
barreira energética, que lhe tolhia os movimentos, rugia a luta sem
sangue, entre os robôs de Árcon e as máquinas de guerra terranas,
manipuladas pelos homens bem treinados da frota espacial.
Apesar da
terrível excitação que lhe enchia a alma, e também por estar
dominado pelo fragor da batalha, Thomas tentou ouvir. Os estrondos
aproximavam-se inexoravelmente, e dali se concluía que os robôs de
Árcon recuavam sem cessar.
Subitamente,
o ribombar das explosões, o chiado infernal das fontes de energia
que entravam em curto-circuito, o esfacelamento surdo dos gigantescos
transformadores — tudo isso diminuiu. O único ruído ouvido era o
rugido da batalha travada pelos robôs. Estes carregavam sua própria
fonte de energia, e sua programação conferia-lhes poderes quase
humanos e uma liberdade quase total no âmbito do combate.
Mais uma
vez o ruído da batalha cresceu a uma altura quase insuportável, mas
depois cessou de repente e desfez-se num crepitar penetrante e em
algumas explosões ligeiras. Os passos fortes dos robôs com suas
toneladas de peso foram o único ruído.
A luz da
sala de Thomas tremeu. A fonte de energia entrou em pane,
diagnosticou Cardif sem a menor emoção, sem erguer os olhos para a
lâmpada. Mas a luz não se apagou conforme esperara. A fonte
luminosa manteve-se inalterada.
No momento
em que a porta foi aberta repentinamente, Thomas não se moveu.
Calculou
quem era o homem que se aproximava dele: PERRY RHODAN.
Mas sentiu
alguma coisa mais forte que o ódio e a raiva. Os três anos de
treinamento rigoroso na Academia Espacial não poderiam deixar de
produzir marcas em seu espírito.
Thomas
Cardif ergueu-se rapidamente diante do administrador do Império
Solar. Viu-se frente a frente com Rhodan, que estava acompanhado do
Coronel Julian Tifflor e do telepata John Marshall.
— Tenente
Cardif, derrubado durante o cumprimento da missão no sistema
4186-4-162. Mac Urban e Alim Achmed foram mortos.
Recuperara
o autodomínio. Com uma expressão fria, fitou os olhos cinzentos do
administrador.
Com o
mesmo autodomínio, Perry Rhodan fitou seu filho, e via seu próprio
rosto.
Naquele
instante, Thora entrou na sala, acompanhada de Crest e um grupo de
oficiais. Esteve a ponto de interpor-se entre o marido e o filho, mas
num movimento instantâneo Thomas afastou-se para o lado, criando uma
distância que seria insuperável.
Às costas
de Rhodan, os oficiais cochichavam nervosamente. Viram-se colocados
diante do fato de que o chefe tinha um filho, e que esse filho era
tenente da Frota Espacial.
Perry
Rhodan preferiu não recorrer a suas limitadas faculdades telepáticas
para penetrar na mente do filho.
— Perry!
— o desespero vibrava na voz de Thora. — Thomas sabe...
— Já
sei.
Disse o
homem que naquele instante era apenas pai, e estudava todos os
ângulos do rosto do filho. Lembrou-se do que o grande computador
positrônico de Vênus dissera sobre o caráter do rapaz. Mas uma
resistência feroz surgiu na alma de Perry Rhodan, que se defendeu
com todas as forças contra as regras frias da lógica positrônica.
Seu filho Thomas não era exclusivamente um descendente dos
arcônidas; seu pai era um terrano.
— Também
já sei, administrador! — disse Thomas Cardif em tom áspero, e nem
parecia perceber que a mãe estremeceu e segurou o braço do marido
como quem precisasse de amparo.
— Façam
o favor de nos deixar a sós com nosso filho — disse Perry Rhodan
em tom tranqüilo.
Todos
saíram apressadamente; inclusive Crest.
— Seu
filho? — disse Thomas Cardif em tom de deboche. — Desde quando
sou seu filho, administrador? Meu nome é Thomas Cardif, e não troco
de nome como quem troca de camisa — enquanto isso, seus olhos
amarelentos tremiam de raiva; eram a herança materna.
Mas o
gesto com que empertigou o corpo era do pai.
— Thomas...
Na voz de
Thora, sentia-se o desespero. Chegou a tocar o coração do jovem.
Num tom
menos frio e insensível, mas conservando certa distância,
respondeu:
— Prefiro
o tratamento Tenente Cardif. Por favor, madame!
— Muito
bem — disse Perry Rhodan. — Usemos por enquanto o tratamento
Tenente Cardif e...
O jovem
levantou abruptamente a cabeça. Seus olhos exprimiam o sarcasmo, e
as palavras foram proferidas em tom áspero:
— Até
hoje tive de arranjar-me sem pai e mãe. Daqui por diante, não
precisarei deles. Quero fazer-lhe uma pergunta, administrador: seu
cargo lhe dá o direito de imiscuir-se em minha vida particular?
— Procure
compreender-nos... — a súplica de Thora não atingiu seu coração.
— Não!
— disse num cochicho odiento, e seu olhar foi dirigido apenas ao
pai. — Não quero compreender; não posso compreender. Só sei
odiar. Odeio meu rosto, que não é meu. Será que me exprimi com
suficiente clareza?
Perry
Rhodan teve de segurar Thora, que ia caindo ao chão. Um choro
convulso e silencioso sacudiu seu corpo. Em seus olhos não havia
lágrimas. Não acreditava que as palavras ouvidas realmente tivessem
sido proferidas.
— Thomas,
meu filho... — implorou, mas Thomas Cardif não deu atenção às
palavras da mãe.
— Tem
mais alguma ordem, administrador? — a expressão do rosto do
Tenente Cardif quase chegava a ser de desafio.
— Tenho!
— era Perry Rhodan, administrador do Império Solar, que falava. —
Retire-se, tenente. Entre em contato com o Coronel Julian Tifflor e
traga-o até aqui. Será que tenho de pedir-lhe para não esquecer de
que prestou um juramento de fidelidade ao Império Solar?
Pela
primeira vez, notou-se uma reação em Thomas Cardif. Com o corpo
imóvel, prendeu a respiração e fitou o pai. Finalmente disse num
tom que quase chegava a ser de ameaça:
— Não
deixarei de cumprir o juramento, administrador, mas um dia o senhor
me dispensará do juramento por sua livre e espontânea vontade.
— Faça
o favor de deixar isso por minha conta! — disse Perry Rhodan em tom
áspero.
Mais uma
vez, seus olhares se encontraram. Finalmente o Tenente Cardif passou
por Perry Rhodan e Thora e retirou-se para procurar o Coronel
Tifflor.
Não o
encontrou. Depois de andar durante meia hora pelos corredores
parcialmente destruídos da fortaleza subterrânea, voltou para junto
de Perry Rhodan.
— Obrigado
— disse Rhodan, ao receber a informação. — Fique comigo,
tenente!
Thomas
manteve-se em silêncio, mas seus olhos amarelados e cintilantes
falavam uma linguagem inconfundível.
Depois
voltou o dia-a-dia das missões, dos relatórios e das decisões. Ao
ouvir que o computador-retransmissor fora destruído por completo,
Rhodan franziu a testa.
Refletiu
ligeiramente e tomou sua decisão:
— Um
cruzador pesado e dois cruzadores leves ficarão em Silico V. Os
comandantes das três unidades tomarão as providências necessárias
para que esta lua nunca mais possa ser utilizada como fortaleza
estelar.
Thora já
não se encontrava ao lado de Rhodan. O Tenente Cardif não perguntou
por ela. Juntamente com o chefe empreendeu a marcha difícil que o
levaria à superfície da lua, dezoito quilômetros acima do lugar em
que se encontrava. Foi só graças aos trajes espaciais, que lhes
permitiam voar, que conseguiram chegar à Drusus.
Uma vez na
sala de comando, Rhodan chamou o oficial de rádio do supercouraçado.
— Use o
hiper-rádio para entrar em contato com Árcon III. Quero falar com o
regente. O código do computador já é de seu conhecimento.
Esperarei.
Imóvel, o
Tenente Cardif manteve-se de pé ao lado de Perry, que estava sentado
na poltrona do piloto da Drusus. Rhodan parecia tê-lo esquecido, mas
a mensagem que transmitiu ao cruzador pesado Zyklop provou o
contrário.
— O
Coronel Tifflor está a bordo?
— Sim
senhor.
— Aguardo-o
em meu camarote. Desligo.
Nem mesmo
agora, Perry Rhodan se valeu de suas reduzidas capacidades
telepáticas para ler os pensamentos do filho. Mas nunca renunciaria
ao direito de agir. E não estava disposto a desistir da luta quase
sem esperanças que travava pelo coração do filho.
A sala de
rádio chamou:
— O
regente de Árcon!
Rhodan
lançou um olhar curioso para a objetiva. Queria que a lente
atingisse Thomas. O regente deveria ver quem estava a seu lado.
— Aqui
fala Rhodan, regente. Encontro-me em Silico V, no sistema 4186-4-162
— sua voz era fria, implacável e acusadora.
— Pois
não — respondeu o computador-regente de Árcon III.
— Com o
auxílio do Tenente Cardif, que está a meu lado, libertei minha
esposa, que se encontrava presa nas fortificações, dezoito
quilômetros abaixo da superfície. Durante o vôo...
O
gigantesco centro de computação de Árcon III interrompeu Rhodan.
— Não
conheço qualquer fortaleza cósmica que tenha o nome Silico V.
Apenas conheço a lua Silico V, situada no sistema 4186-4-162.
— Regente,
minha esposa foi seqüestrada em Rusuf. Durante a operação foram
utilizadas duas naves especiais de Árcon, que a levaram para Silico
V. O computador-retransmissor de Silico V...
Mais uma
vez o computador-regente de Árcon III interrompeu Rhodan.
— Administrador,
não conheço qualquer estação retransmissora instalada em Silico
V. Pergunte a seu computador, e este só poderá dizer que não
conheço. Seus técnicos não terão a menor dificuldade em
examiná-lo para verificar se havia uma ligação entre nós. Tem
mais alguma coisa a dizer, Rhodan?
— Não —
respondeu Rhodan.
No mesmo
instante, o regente interrompeu a ligação pelo hiper-rádio.
Crest
ouvira a palestra. Ao notar o olhar indagador de Rhodan, disse em tom
queixoso:
— Desta
vez, nossos robôs e homens trabalharam bem demais. A esta hora o
regente já sabe que a estação retransmissora de Silico V está
reduzida a um montão de lixo. Por isso, pôde pregar essa mentira
desavergonhada. Se ouvi bem, a mentira do computador positrônico não
foi apenas desavergonhada, mas também tola. Meu caro Rhodan, às
vezes, ser tolo não é nenhuma tolice, embora possa parecer. O
computador-regente de Árcon voltou a sentir-se forte. Gostaria de
saber por quê.
— Um
belo dia descobriremos — respondeu Rhodan. Levantou-se e pediu a
Thomas Cardif que o seguisse.
Levou-o a
seu camarote. Pouco depois, chegou o Coronel Julian Tifflor. Rhodan
foi diretamente ao assunto.
— Coronel,
considere-se transferido para a Terra a partir deste momento. Lá lhe
indicarão suas tarefas. O Tenente Thomas Cardif será seu ajudante.
Para facilitar as coisas, o senhor regressará a bordo da Drusus.
Peço-lhe que tome cuidado para que em hipótese alguma o Tenente
Cardif tenha oportunidade de sair do sistema solar.
Sem que
ninguém o esperasse, Thomas Cardif ficou em posição de sentido.
Seus olhos arcônidas chisparam uma luz ofuscante.
— Fico-lhe
muito grato, administrador! Isso me facilitará extraordinariamente o
cumprimento das tarefas que daqui em diante me caberão.
Perry
Rhodan resistiu ao fogo dos olhos do tenente. Falando lentamente,
como quem resiste a uma carga sobre-humana, respondeu:
— Faço
votos de que um belo dia não me veja obrigado a ser apenas o
administrador. Faça o favor de retirar-se, Tenente Cardif.
Perry
Rhodan e Julian Tifflor seguiram-no com os olhos.
Thomas
Cardif acabara de retirar-se. Os dois homens mantiveram-se em
silêncio. Finalmente, o coronel rompeu o silêncio, dizendo em tom
constrangido:
— Chefe,
seu filho é um homem de dois mundos...
— Isso
mesmo — respondeu o homem cansado. — É de dois mundos.
E o
silêncio voltou a reinar no camarote.
*
* *
*
*
*
Após
resolver racionalmente a questão criada pelo filho, Rhodan volta-se
para A Caça das Dimensões. Este é o título do próximo volume da
série.

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