terça-feira, 9 de abril de 2013

P-067 - Interlúdio em Silico V - Kurt Brand [parte 3]

Vândalos! — disse Mac Urban em tom indignado.
Continuava junto ao painel de controle de armamento, e com aquela única palavra exprimira tudo que estava sentindo.
A abertura fora produzida pela ação do calor. As massas metálicas parecidas com cera falavam uma linguagem inconfundível.
Radiações inalteradas — anunciou Alim Achmed a meia voz.
Thomas Cardif tomou sua decisão: fez a gazela penetrar no inferno de radiações.
Os campos defensivos da nave foram solicitados até o limite de sua capacidade. O suor começou a porejar na testa de Alim Achmed. Porém, Mac Urban, o escocês, continuou tranqüilamente junto ao painel de controle de armamento, e contemplou, em sua pequena tela, a confusão que havia no interior da coluna.
A nave de reconhecimento encontrava-se quarenta metros acima da gigantesca instalação esfacelada, derretida e atirada para todas as direções por meio do processo de desintegração atômica não dirigido. Pela grande abertura, não penetrava luz suficiente para iluminar todos os ângulos. Cardif ligou todos os holofotes e, quando dirigia o feixe principal para a esquerda, viu uma série de destroços que revelavam traços inconfundíveis de tecnologia arcônida.
A coisa começa a ficar interessante — murmurou e pediu que Urban se afastasse de seu posto junto ao controle de armamentos. — Assuma meu lugar, Urban. Irei lá fora.
Urban esteve a ponto de formular uma objeção, mas Cardif cortou-lhe a palavra com um gesto autoritário.
Por que me olha com essa cara, Urban? Sei perfeitamente o que estou fazendo. Essas radiações não impedirão que eu volte são e salvo.
Thomas Cardif não sabia que, nesse instante, apresentava novamente uma semelhança assustadora com Perry Rhodan.
Dali a dez minutos, saiu da gazela, que pousara numa pequena área livre em meio aos destroços. No interior da cabine de comando, Alim Achmed e Mac Urban fitaram-se perplexos.
Você notou? — perguntou Urban com a voz rouca.
O árabe falou apressadamente:
É uma coisa medonha, Mac. É mais que estranho. Sempre que o tenente se concentra, torna-se igualzinho ao chefe. Será que Rhodan é pai de Cardif?
O escocês achou que seu companheiro fora longe demais ao formular essa pergunta.
Alim, nunca mais faça essa pergunta. Haja o que houver, será preferível ficar quieto. O que está fazendo Cardif lá fora?
Na grande tela de visão global, viram o Tenente Cardif desaparecer em meio aos destroços. Depois de quinze minutos martirizantes, o rádio de capacete de Thomas transmitiu esta interrogação:
O que é isso?
Depois voltou a reinar o silêncio; apenas se ouvia a respiração ofegante do tenente.
Urban!
O escocês estremeceu. Fora a voz de Perry Rhodan. Respondeu prontamente:
Pois não, Sir.
Thomas Cardif nem parecia notar essa forma de tratamento. Falando com a mesma ênfase, pediu:
Verifique o que significa o número 4186-4-162.
Mac Urban moveu cinco chaves e introduziu a indagação no computador positrônico. Mal havia acionado a última chave, a fita perfurada foi expelida pela máquina.
Então?! — indagou-se Urban, admirado.
Lançou um olhar para a fita, decifrou os sinais perfurados e recuou, surpreso.
Tenente Cardif — disse pelo microfone de bordo.
Sim — respondeu este no recinto em que fervilhava o inferno atômico.
4186-4-162 é o número-código de um sol, que... um momento, vou fazer o cálculo... que fica a 8.055 anos-luz daqui, na direção da base arcônida 776-B-667. Esse sol não tem nome, tal qual o seu único planeta gigante. É estranho: só uma lua do planeta gigante tem um nome: Silico V. Nunca ouvi-o antes.
Obrigado. Continuarei a revistar a área. Como estão as radiações, Achmed?
Constantes; vêm da direita.
Obrigado.
Thomas Cardif demonstrava um estranho laconismo. Dali a meia hora, voltou a entrar na nave de reconhecimento e, ainda no interior da comporta, trocou seu traje espacial por vestes não contaminadas de radiações. Deixou-se cair no assento do piloto, sem dizer uma única palavra.
Achmed e Urban não o molestaram com perguntas. Lançaram-lhe um olhar de expectativa. O tenente saíra só para fazer o reconhecimento, e só ele saberia avaliar suas descobertas.
Virou-se lentamente para eles; fitou-os com o rosto de Perry Rhodan; os olhos arcônidas exprimiam um máximo de concentração.
Urban, quero ver o registro dos fortes estelares de Árcon.
O escocês demonstrou um enorme espanto.
Aquilo ali — apontou para fora — é um forte blindado, tenente?
Já foi, Urban. Pelo que pude constatar, foi urna instalação automática que, apesar de uma sofisticada vigilância positrônica, explodiu num processo catastrófico de desintegração atômica.
Urban voltou a lançar um olhar para a tela de visão global da nave de reconhecimento. Viu o quadro de uma tremenda destruição. A onda de calor e de pressão gerada pela explosão se deslocara com temperaturas solares e sua tremenda força soprara para fora o anteparo metálico como se fosse uma simples rolha.
Nesse momento, a maior parte do material gaseificou-se e o restante pingou pela face externa da coluna como se fosse cera líquida.
Tenente, precisamos sair daqui — advertiu Achmed. — Duas vezes desligamos os campos defensivos por um breve instante, mas isso bastou para que um bom volume de radiações penetrasse na nave.
Está bem, Achmed. Poderá dar-me a lista quando estivermos lá fora, Urban.
Dali a dez minutos, a gazela pairava cem quilômetros acima da superfície do planeta. Thomas Cardif acabara de estudar a lista dos fortes blindados de Árcon. O planeta Heet-Ris não constava da mesma.
Vamos para junto da próxima coluna, Urban!
Tenente, o senhor acredita que todas as colunas...?
Isso mesmo, Urban. Tenho certeza de que estamos na pista de uma artimanha refinada dos arcônidas. Foram eles quem espalharam essa conversa da origem pré-histórica das colunas, depois de terem instalado às escondidas seus equipamentos cósmicos nesses monumentos gigantes. Achmed, o senhor e seus instrumentos dirão se acertei no alvo, ou se me deixei levar por um engano.
A próxima coluna surgiu à sua frente. A gazela desceu a dez quilômetros. Subitamente, Achmed soltou um assobio.
Localização, tenente. Caramba, nem teria notado, se o senhor não me tivesse pedido que prestasse atenção. O que nos atingiu nem chegou a ser um raio, mas apenas um “esfregão vazio”.
Quando se aproximaram do terceiro monumento, passaram pela mesma experiência.
Mudar de rumo! — disse o Tenente Cardif e, recorrendo à força dos superpropulsores, levou a nave para o espaço cósmico com a velocidade de uma estrela cadente.
Dali a alguns minutos, o hipercomunicador, com o condensador e o codificador acoplados, levou a mensagem do Tenente Cardif em direção ao planeta Rusuf, onde foi captada pela Drusus.
A resposta não se fez esperar:

Verifiquem se lua Silico V situada no sistema 4186-4-162 é uma fortaleza cósmica. Não assumam qualquer risco.
A ordem de procurar localizar pistas da nave seqüestradora está cancelada.
Perry Rhodan.

Mac Urban, o escocês, acariciou os controles de armamentos; um sorriso de orgulho surgiu no rosto de Achmed; e o orgulho também brilhou nos olhos do Tenente Cardif. Desde o início da existência do Império Solar, sempre fora uma raridade alguém receber uma ordem expedida diretamente pelo administrador.
Acho que estamos numa pista muito importante — resmungou Mac Urban. — Estes arcônidas são de amargar. Que amigos! Mas afinal, o que é que se poderia esperar de tipos como estes? Uma raça que prefere deixar-se governar por um computador em vez de dirigir o próprio destino não pode levar a honestidade muito a sério. Aliás, como foi que o senhor descobriu o número-código 4186-4-162?
Estava escrito na placa de decifração de um decodificador antiquado, meio derretido. Não há dúvida de que é um produto da tecnologia arcônida.
9



A nave do Tenente Thomas Cardif desenvolvia 0,39 da velocidade da luz ao penetrar no sistema 4186-4-162. O único planeta do sistema encontrava-se em oposição ao sol. Gravitava em torno de seu astro rei a setecentos e vinte milhões de quilômetros.
Aquele sol, um astro de pequenas dimensões, com a metade do tamanho do sol terrano, exibiu enormes manchas solares aos três tripulantes da gazela. Essas manchas cobriam um terço da superfície do sol.
Alim Achmed, que estava sentado junto aos instrumentos, fungou muito contrariado.
Esse forno não deixa de ter suas qualidades! Isto é um verdadeiro fogo cruzado de interferências.
Desenvolvendo pouco menos que a velocidade da luz, passaram a duzentos e sessenta milhões de quilômetros do sol. O astro começou a desaparecer na margem direita da tela. Nesse momento, o único planeta do sistema surgiu do outro lado de sua atmosfera incandescente.
Por estranho que pudesse parecer, o catálogo estelar dos arcônidas, geralmente tão meticuloso, não trazia qualquer indicação sobre o gigantesco planeta. Além disso, sonegava o número exato de luas e, contrariando a numeração usual, deu à quinta lua o nome de Silico, para caracterizá-la pelo algarismo V.
Tenente, a tal lua Silico V tem pouco menos de oitenta quilômetros de diâmetro — anunciou Alim Achmed. — Mas não foi só isso que meus instrumentos constataram. Essa luz está envolta por campos defensivos mais potentes que os da Drusus.
Thomas Cardif freou a gazela, reduzindo abruptamente a velocidade para 0,3 da da luz. Os aparelhos de absorção de pressão da nave de reconhecimento tiveram de trabalhar ao máximo de sua capacidade, mas só o trovejar de seu mecanismo revelou o tremendo impacto que tiveram de anular.
Oitenta quilômetros de diâmetro... — repetiu Thomas Cardif em tom pensativo.
Dali a um instante, ordenou a Achmed:
Irradie o código de identificação, no ritmo vinte.
Isso significava que o código deveria ser irradiado vinte vezes por minuto.
A gazela descreveu uma curva suave e passou pelo gigantesco planeta, entre a segunda e a terceira lua. O planeta propriamente dito ocultava sua face sob uma atmosfera borbulhante de cloro.
A quarta lua encontrava-se atrás do planeta, enquanto Silico V se afastara em sua órbita excêntrica a 5,7 milhões de quilômetros do mundo de cloro.
Naquela distância, o minúsculo astro não era visível na tela. Thomas Cardif moveu uma chave e ligou a ampliação setorial máxima. O espaço cósmico parecia precipitar-se para o interior da gazela. De um instante para outro, o planeta gigante e o cintilar das estrelas haviam desaparecido. A ampliação setorial, regulada para a distância de 5,7 milhões de quilômetros, adaptava-se automaticamente à velocidade que a nave desenvolvia a cada momento, oferecendo uma visão nítida do respectivo setor.
Thomas Cardif dirigiu a nave diretamente para Silico V. Aquele mundo estranho, sem ar, cobria dois terços da altura da tela. Viram-se marcos de dez metros, mas nenhum deles indicava outra coisa senão que Silico era uma esfera de oitenta quilômetros de diâmetro.
Não houve resposta ao código de identificação, Achmed?
Nem resposta, nem qualquer localização partida de Silico V.
Nem mesmo um “esfregão vazio”? — Thomas Cardif resolveu usar a expressão do árabe.
Nada, tenente, mas não acredito nessa calma. Para que servem os superpotentes campos defensivos desse astro?
Farei essa pergunta ao astro, assim que tivermos chegado mais perto — respondeu o jovem tenente e perguntou a si mesmo quantos seriam os fortes cósmicos blindados cuja existência Árcon havia ocultado ao Império Solar.
Naquele instante sentiu um calafrio. Detectara um erro de lógica: por que Silico V se identificava como um sistema cheio de armas energéticas ao ativar seus campos defensivos? Por que resolvera dispensar o fator surpresa? Poderia deixar que o inimigo se aproximasse sem desconfiar de nada e destruí-lo numa ação instantânea, antes que este tivesse tempo de esboçar qualquer reação.
Cardif reduziu a velocidade para 0,1 da da luz. Precisava de tempo para refletir melhor. Apesar disso, continuava a aproximar-se rapidamente da quinta lua, cujos contornos recortados se tornavam cada vez mais nítidos na tela.
Um tanto distraído, voltou a perguntar:
Nenhuma resposta ao nosso código de identificação, Achmed?
Nenhuma, tenente.
Cardif manteve a rota inalterada. Achmed lembrou-o disso, indicando a distância sem que isso lhe tivesse sido solicitado:
Trezentos e noventa mil quilômetros, tenente!
Se fosse mantida a velocidade de 0,1 da luz, dali a treze segundos a gazela colidiria com Silico V.
Thomas não reagiu à observação. Dirigindo-se a Urban, perguntou:
As armas estão preparadas?
Estão prontas para disparar, tenente.
Distância: duzentos e dez mil quilômetros.
Isso significava que dali a sete segundos a nave colidiria com os campos defensivos superpotentes da lua Silico V e seria destruída.
Transmita o sinal de emergência pelo raio direcional, Achmed.
Alim Achmed reagiu com uma rapidez espantosa. Sabia que não poderia usar o hipercomunicador. Não queria que metade da Via Láctea descobrisse a situação fingida de emergência em que se encontravam.
Enquanto Thomas Cardif freava a gazela, reduzindo sua velocidade a cem quilômetros por segundo, Achmed expediu o sinal de telecomunicação pelo raio direcional. Por uma questão de cautela, usou a língua arcônida.
Silico V não respondeu. Mas a gazela aproximava-se cada vez mais dessa lua, que era a única imagem a aparecer na tela de visão global.
Thomas Cardif estreitou os lábios. Sentiu todo o peso da responsabilidade. Porém, nem pensou em fazer meia-volta e fugir diante dos campos defensivos superpotentes sem ter conseguido nada.
Atenção, gente! — exclamou em tom martirizado. — Aproximar-me-ei desta lua anã com o máximo de aceleração até a distância de quinhentos quilômetros. Achmed, envie ininterruptamente o sinal de emergência. Continue a acrescentar o código de identificação. Urban, preste atenção para perceber quando nos afastarmos da luz e voltarmos a mergulhar em sua sombra.
Posso disparar com todas as peças; tenente?
Pode, ao menor sinal de ação hostil vindo de Silico V.
A decisão acabara de ser tomada. O clima no interior da gazela não sofreu qualquer modificação. Alim Achmed e Mac Urban já haviam realizado outras missões desse tipo, e sempre voltaram sãos e salvos.
Desta vez, também não se preocuparam. Seu comandante, um tenente recém-formado, agia tal qual uma velha raposa do espaço, como se já tivesse cumprido algumas missões deste tipo sob o comando de Perry Rhodan.
Fechar os capacetes espaciais! — foi a última ordem expedida por Thomas Cardif.
No mesmo instante, a nave acelerou ao máximo de sua capacidade. A gazela precipitou-se vertiginosamente de uma distância de cento e cinqüenta e seis mil quilômetros sobre a lua Silico V.
O sinal de emergência e o código de identificação continuavam a ser irradiados ininterruptamente.
As mãos robustas de Mac Urban seguravam tranqüilamente as duas chaves dos canhões de impulso. Não se desviava por um segundo sequer do dispositivo ótico de pontaria, no qual aparecia a lua.
Distância: oitenta mil quilômetros.
A gazela continuava a acelerar. E a distância decrescia na razão inversa da aceleração, reduzindo-se para trinta mil quilômetros.
Dez mil quilômetros de distância!
Não houve qualquer resposta, nem ao sinal de emergência, nem ao código de identificação.
É obstinado como só um arcônida pode ser obstinado — foram as palavras que Thomas Cardif ouviu o árabe dizer pelo rádio de capacete.
A distância descia vertiginosamente: 8.000, 5.000, 3.000, 2.000, 1.000...
A quatrocentos quilômetros de altura, os campos defensivos superpotentes envolviam a lua Silico V. Thomas Cardif não tinha a intenção de colidir com os mesmos.
700 quilômetros...
600...
A gazela parecia voar em direção ao centro da lua anã. Se em Silico V houvesse algum observador atento, teria a impressão de que o mecanismo direcional da pequena nave se danificara, e que esta iria de encontro ao pequeno mundo deserto e entrecortado, cuja superfície consistia em milhares de pequenas cadeias de montanhas.
500 quilômetros...
Thomas Cardif começou a levantar a nave.
Naquele instante, os campos defensivos da gazela sofreram o impacto frontal de um terrível raio energético. Por uma fração de segundo, os campos pareciam absorver a torrente energética. Mas logo estouraram como uma bolha de sabão. Em primeiro lugar, romperam-se à esquerda da nave, dando-lhe um ligeiro empurrão para a direita, e arremessando-a para fora do inferno.
Thomas Cardif apenas chegara a ver o terrível raio energético. Depois perdeu os sentidos.
Quando voltou a si, os destroços fumegantes da gazela passavam silenciosamente por ele, precipitando-se em direção ao solo lunar.
Urban; Achmed. Façam o favor de responder imediatamente! — gritou para dentro do microfone de seu rádio de capacete.
Mas o receptor apenas emitiu um chiado monótono. Urban e Achmed não responderam.
O Tenente Cardif fez mais três tentativas de entrar em contato com os mesmos. Finalmente convenceu-se de que não haviam resistido ao traiçoeiro ataque.
Ao contemplar aquele mundo inóspito e mortífero, seu rosto não traiu a menor emoção. Seu traje espacial, que lhe permitia voar, evitaria que se esfacelasse na rocha. Mas quando contemplou o altímetro automático e viu que a altura era de duzentos e oitenta e sete quilômetros, seu rosto transformou-se numa máscara.
Silico V desligara seus superpotentes campos defensivos. Naquele momento, não passaria de um corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro para quem o contemplasse de fora.
O que estaria oculto em seu interior?
Thomas Cardif não esperava nada de bom.
10



A realidade ultrapassou seus piores receios.
Quando, depois de ter pousado na superfície lunar, foi conduzido à frente de um robô, deu-se conta de que naquele astro não havia nenhum ser humano. Silico V era um mundo robotizado. Os homens-máquina, dirigidos por um mecanismo positrônico, deveriam proteger o forte blindado arcônida instalado no interior da lua por meio da artilharia pesada e dos canhões energéticos superpotentes; deveriam disparar sempre que sua programação o exigia.
Thomas Cardif foi escoltado por cinco robôs. Eram diferentes dos outros; não eram máquinas de guerra, nem de trabalho. Pareciam desempenhar funções policiais e administrativas. Possivelmente disporiam de poderes limitados.
Sob o ponto de vista positrônico, sua inteligência chegava mesmo a ser excepcional. Cardif já fizera experiências nada agradáveis nesse terreno. Não se sentira muito à vontade ao ouvir o que um dos cinco robôs lhe disse. Com sua inteligência fria e desalmada provou a Cardif, face a observações precisas, que o sinal de emergência da gazela terrana era apenas um blefe, e que a rota de colisão da nave fora determinada pela vontade do comandante.
Thomas Cardif caminhava no meio dos robôs.
Já andara algumas centenas de metros abaixo da superfície lunar.
Mostraram-lhe tudo, e o que viu bastou para deixá-lo sem fala.
Nem mesmo a Drusus possuía canhões energéticos daquele tamanho. Nem se atreveu a avaliar-lhe a potência. O fato de todos eles trazerem sinais de velhice representava o único consolo. Mas isso só até quando se deu conta de que esse forte arcônida fora construído num corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro.
Silico V era uma base arcônida de dimensões estelares. Ao lembrar-se das numerosas colunas-mamute de Heet-Ris — cada uma das quais devia ter a potência de fogo de uma nave do tipo da Drusus — Cardif deu-se conta de que, na realidade, o Império de Árcon era mil vezes mais forte do que se apresentara aos olhos de Perry Rhodan.
Passaram por uma ponte que cruzava uma sala de trezentos metros de comprimento e setenta metros de altura. O Tenente Cardif não acreditou no que seus olhos viram: a gigantesca catedral era uma estação conversora.
Chegaram ao elevador antigravitacional. Desceram rapidamente, sempre escoltado pelos cinco robôs.
Atravessaram um corredor abaulado de trinta metros de largura e chegaram a uma porta minúscula, bloqueada por várias barreiras de radiações.
Enquanto, ao lado da pequena porta, um robô ainda estava removendo as barreiras, Thomas Cardif ouviu pelo microfone externo os passos pesados de outros homens-máquina.
Ainda envergava o traje espacial, com o capacete fechado. Virou-se automaticamente para os robôs que acabavam de chegar. No primeiro instante, não viu quase nada, pois uma lâmpada o ofuscava, mas quando seus olhos, numa adaptação rápida, conseguiram enxergar de novo, nem chegou a estremecer diante do quadro que se lhe oferecia.
Não acreditou no que estava vendo.
Como poderia Thora ter parado aqui?”, indagou-se mental e friamente.
Uma pancada nas costas, desferida pelo punho de um dos robôs, obrigou-o a prosseguir em sua marcha. A minúscula porta abriu-se. Atrás dela havia uma comporta. Assim que entrou, ouviu um robô dizer pelo microfone externo:
Pode tirar o traje espacial. A atmosfera existente aqui tem a mesma composição do ar terrano.
Os robôs o excediam em altura em mais de um metro. Sem mostrar o menor nervosismo, Cardif tirou o pesado traje espacial. Agora, não se sentia tão tranqüilo, pois naquele instante tornava-se indefeso. Mas logo se lembrou do lugar onde estava e deixou o traje espacial para trás sem que isso lhe provocasse a menor tristeza.
Ao recinto vazio em que se encontrava, seguiu-se outro que logo o fez evocar um filme arcônida que lhes fora exibido na Academia, a fim de que conhecessem de vista as salas típicas de interrogatório dos arcônidas.
Permitiram-lhe” que se sentasse.
Quatro robôs permaneceram a seu lado, enquanto o quinto saiu por uma porta lateral. Não voltou. Em compensação, dali a pouco, se ouviu a voz metálica que, em tom áspero, dirigiu a primeira pergunta a Thomas Cardif.
Isso é um cérebro positrônico!”, pensou Cardif, que se lembrou do computador gigante de Árcon III, que dirigia o gigantesco Império do grupo estelar M-13.
Graças ao treinamento recebido na Academia Espacial Terrana, Thomas Cardif manteve-se tranqüilo, enquanto respondia às perguntas que lhe eram dirigidas. Quando o locutor invisível quis saber por que ele, Cardif, resolvera pousar na estrela Heet-Ris, o alarma soou em sua mente.
Inclinou-se quase imperceptivelmente para a frente. E uma modificação quase imperceptível surgiu em seu rosto. Respondeu sem a menor hesitação. Disse que haviam pousado em Heet-Ris para satisfazer o interesse de Mac Urban pelas construções pré-históricas.
Depois de alguns segundos de silêncio, teve-se a impressão de que o locutor invisível acreditou na veracidade da resposta. Na opinião de Cardif, a pergunta seguinte representava um perigo para a segurança do Império Solar. Enquanto pesava rapidamente as diversas possibilidades, uma porta se abrira a seu lado, e dela saíra uma mulher alta e esbelta, de cabelo muito claro, peculiar à raça arcônida.
A mulher viu um homem sentado entre quatro robôs. Naquele instante, este se concentrava ao máximo para responder a uma pergunta. Antes que pudesse compreender o que estava fazendo, a mulher soltou um grito estridente:
Perry, como é que você veio parar aqui?
No mesmo instante, percebeu a quem realmente dirigira estas palavras.
Reconheceu-o pelo uniforme de tenente, não pelo rosto.
Era Thomas Cardif, seu filho!
E ela o chamara pelo nome de Perry... ela, a esposa de Perry Rhodan.
Porém, o jovem continuava a parecer-se com o pai. Muito mais agora, que se levantava de um salto, sem que os robôs o impedissem.
Então era este seu filho!
O rapaz, que a fitava com os olhos dela e que tinha a aparência de Rhodan há sessenta anos antes, aproximava-se dela. Os movimentos do jovem eram iguais aos de Perry Rhodan.
Mas havia mais alguém que vira e ouvira tudo: o locutor invisível. Subitamente sua potente voz metálica se fez ouvir:
Fico-lhe muito grato, dona Thora!
Naquele instante, Thomas Cardif berrou:
Isto é uma... — mas logo se calou.
Dobrou o cotovelo direito. Levou a mão à testa. Enxugou o suor.
Não continuou a caminhar em direção a Thora.
Não conseguiu dar mais um passo.
Uma terrível suspeita mantinha-o preso ao lugar em que se encontrava.
11



Rhodan leu a mensagem:

Localizamos Itzre Delagin. Thora encontra-se em Silico V, no sistema 4186-4-162. Seqüestro realizado exclusivamente por mercadores galácticos. Na maioria pertencem ao clã...

Perry não leu o resto.
Deu o alarma. Decolariam dali a quatro minutos. Destino: 4186-4-162, Silico V, em conformidade com o catálogo estelar arcônida.
Dali a quatro minutos, a Drusus subiu ao espaço com um ribombo, juntamente com nove cruzadores pesados e vinte e três cruzadores ligeiros. Rhodan em pessoa pilotou a Drusus. A direção acoplada faria com que toda a frota, que participava da formação, fosse guiada pelo supercouraçado.
4186-4-162 ficava a 8.431 anos-luz do planeta Rusuf. Qualquer espaçonave cujos mecanismos de propulsão estivessem em bom estado conseguiria alcançar o sistema num único hipersalto.
A formação da frota terrana realizou seis transições.
Durante a primeira e a terceira não se recorreu aos compensadores estruturais.
Quem quer que se mantivesse à espreita na Galáxia seria enganado pela manobra. Os três primeiros saltos conduziam em direção oposta a 4186-4-162. Só os últimos três, realizados sob a proteção do compensador estrutural, levaram a formação ao destino.
A setenta e cinco minutos-luz do sistema 4186-4-162, as naves saíram do hiperespaço para retornar ao cosmo normal. O choque da transição continuava a ser intenso e desagradável. Mas cada indivíduo o sentia de maneira diferente. Perry Rhodan não demorou tanto em livrar-se dos seus efeitos como Crest, o arcônida.
Naquele instante, Rhodan — administrador do Império Solar e sócio do Império de Árcon em igualdade de condições, ao qual o computador-regente conferira poderes extraordinários — não sentia muita simpatia pelo cérebro desalmado, cujo modo de agir provinha de uma logística muito sutil.
Logo após a decolagem de Rusuf, mandou que todos os arquivos fossem revistados em busca de dados sobre 4186-4-162. Ao mesmo tempo, solicitou detalhes relativos ao planeta Heet-Ris.
Mas só conseguiu generalidades, tanto sobre Silico V como sobre Heet-Ris. Nada indicava que os dois mundos fossem posições cósmicas avançadas, dotadas de extraordinário poder ofensivo.
Crest — começou Rhodan, dirigindo-se ao arcônida. — Por que será que o senhor não sabe nada sobre isso?
A palestra estava sendo mantida na gigantesca sala de comando da Drusus. O comando acoplado, que ligava os cruzadores leves e pesados com o centro de astro-navegação do supercouraçado, fora suspenso há um minuto. Cada nave voltara a transformar-se numa unidade autônoma.
Crest deu de ombros.
É possível que essas fortalezas tenham sido construídas há dez ou doze mil anos e, por algum contratempo não identificado, tenham perdido o contato com Árcon. Esta suposição não constitui nenhum absurdo. Basta lembrarmo-nos do grande computador positrônico instalado em Vênus, cuja existência era desconhecida a mim e continua a sê-lo aos arcônidas de hoje. Ainda é possível que a construção tenha sido realizada sob o regime de sigilo absoluto. Nesse caso, só três pessoas têm conhecimento da...
Além do computador-regente! — afirmou Rhodan.
Naturalmente. Este é o primeiro a saber — respondeu Crest em tom ligeiramente deprimido.
Para Rhodan, o assunto estava encerrado. Usou o sistema de intercomunicação de bordo para chamar a sala de rádio.
A gazela comandada pelo Tenente Cardif ainda não deu nenhum sinal de vida?
A resposta foi imediata.
Não senhor. Estamos tentando por todos os meios.
Obrigado — disse Rhodan em tom lacônico.
Só Crest compreendeu o olhar que Rhodan lhe lançou: Perry estava preocupado com a sorte do filho.
A formação terrana avançava em frente ampla em direção a 4186-4-162, formando um enorme semicírculo. O sol sem nome foi crescendo em meio à cintilância de milhares de estrelas. Transformou-se num disco, e passou a emitir uma luminosidade cada vez mais forte. Seu único planeta, de dimensões gigantescas, surgiu sob a forma de uma foice pálida, que emitia um brilho verde. Os satélites daquele mundo gigante ainda não se haviam tornado visíveis na tela global da Drusus.
Todos que se encontravam a bordo das naves, inclusive Perry Rhodan e Crest, formavam uma idéia errada sobre o tamanho de Silico V.
As naves voavam sob a mais forte proteção contra a localização, mas era evidente que essa proteção se tornava cada vez mais fraca, à medida que se aproximavam do destino. A partir de certa distância, os instrumentos inimigos mostrariam os temíveis diagramas triplos que, embora fossem apagados e incapazes de fornecer dados precisos, constituíam uma indicação inequívoca da presença de naves desconhecidas. Um homem bem treinado, que já tivesse lidado várias vezes com os diagramas triplos, seria capaz, apesar do sombreamento, de determinar a posição das naves que se aproximavam com o uso do dispositivo protetor.
As naves de guerra terranas dirigiam-se ao destino à velocidade de 0,96 da da luz. Quando se encontravam a quinze minutos-luz de distância, apenas a Drusus desligou o sistema protetor contra a localização, transmitiu seu código de identificação e anunciou que Perry Rhodan se encontrava a bordo.
Silico V não respondeu. Os transmissores superpotentes da Drusus emitiram o sinal numa seqüência ininterrupta, utilizando todas as faixas possíveis. Os chamados dirigidos à gazela do Tenente Cardif foram transmitidos sem prejuízo desse sinal. O setor de instrumentos anunciou:
Silico V tem oitenta quilômetros de diâmetro e a forma de um globo. Atmosfera ausente. Gravitação 1,1.
Rhodan acenou com a cabeça. Seu rosto anguloso tornou-se ainda mais expressivo. Num mundo que apresentava essas dimensões ridículas, a gravitação de 1,1 só poderia significar uma gravidade artificial.
Naquele momento, teve certeza de que os mercadores galácticos haviam levado sua esposa para Silico V.
Mas por que a gazela de Thomas não respondia?
Usou o sistema de intercomunicação de bordo para entrar em contato com o setor de investigação de raios cósmicos.
Verifique o espaço em torno de Silico V. Quero saber se a radiatividade é idêntica em todos os setores. Considerem os efeitos das manchas solares. A medição deve ser iniciada no ponto da órbita em que Silico V se encontrava há vinte e quatro horas. Os resultados deverão ser fornecidos imediatamente a mim.
Crest encolheu-se. Compreendeu a terrível suspeita que Perry Rhodan trazia na mente. Em sua opinião a gazela já deixara de existir. Provavelmente fora destruída nas últimas vinte e quatro horas pelo fogo de radiações da fortaleza.
Da parte esquerda da sala de comando da Drusus, ouviu-se subitamente uma exclamação exaltada:
Silico V acaba de ativar campos defensivos. Santo Deus... têm a potência dos campos arcônidas... — o homem passou a recitar cifras que provocaram uma reação de espanto até mesmo em Crest, o arcônida. Mas este não teve tempo de fazer qualquer observação a este respeito.
O setor de investigação de raios cósmicos, situado novecentos metros abaixo deles, no interior do corpo gigantesco da Drusus, estava chamando.
Nas coordenadas pi... constatamos fortes radiações. Verificamos sem a menor sombra de dúvida que provêm de aço 465-r-02. Com base nas medições da órbita de Silico V, pode-se afirmar que o processo foi desencadeado há oito horas e dezessete minutos, a cerca de seiscentos quilômetros da superfície da lua. O curso acelerado do processo de desintegração só pode ter sido provocado por raios de impulsos.
O aço 465-r-02 era um material criado na Terra, que, em comparação com o aço Árcon-T, utilizado na construção dos veículos espaciais do Império, possuía consideráveis vantagens. Especialmente sob o aspecto térmico. E, mesmo sem qualquer proteção especial, era mais resistente à ação da radiatividade.
Mantendo os olhos semicerrados, Rhodan permaneceu imóvel no assento do piloto e deixou que alguns segundos se passassem em silêncio.
Só Crest sabia o que o amigo estava sofrendo.
Ali estava o homem mais poderoso do Império Solar, instalado no comando de uma das naves espaciais mais potentes da Via Láctea. No entanto, não passava de um pobre homem martirizado, impotente face ao destino, que lhe roubara ao mesmo tempo a esposa e o filho.
Quanto a Thomas Cardif, todas as esperanças estavam perdidas.
E a probabilidade de rever Thora era inferior a um por cento.
A formação continuava a aproximar-se do sistema a 0,96 da velocidade da luz. O sistema de proteção contra a localização, que envolvia todas as naves, com exceção da Drusus, consumia quantidades enormes de energia. Apesar disso, todas as naves ainda dispunham de imensas reservas energéticas, que apenas aguardavam o momento de serem utilizadas.
Protegida apenas pelos campos defensivos, a Drusus, uma esfera espacial de mil e quinhentos metros de diâmetro, atravessava o sistema em direção a Silico V.
Rhodan deu ordem para que a formação de cruzadores se mantivesse trinta segundos-luz atrás da Drusus. Porém, face às distâncias astronômicas e ao alcance dos canhões energéticos e dos lançadores de raios, esse “atraso” não teria a menor importância.
No momento em que pela primeira vez apareceu na grande tela de visão global do supercouraçado, a lua Silico V não passava de um grãozinho de pó perdido no negrume do Universo. Agora já se apresentava como um corpo insignificante, um nada inofensivo.
Gravitação de 1,1 — disse Crest, que se mantinha atrás de Perry Rhodan e não podia deixar de pensar constantemente em Thora e em Thomas Cardif.
Queria distrair-se e desejava que também Perry Rhodan se concentrasse inteiramente na manobra de aproximação da fortaleza cósmica. Mas, apesar da convivência de sessenta anos, Crest ainda não conhecia perfeitamente o terrano Perry Rhodan.
Este já se encontrava em estado de concentração.
Era duro e desumano consigo mesmo, muito mais duro do que jamais poderia ser para com outro homem. Sufocara sua dor, sua angústia mental. Foram apagadas pela força de sua vontade. Naquele momento, só visava aos interesses do Império Solar e aos homens que se encontravam na Drusus e nas outras naves que se aproximavam vertiginosamente da lua esférica.
Os dados foram chovendo de todos os lados. O grande computador positrônico de bordo trabalhava ininterruptamente. Enviava cifras novas, ligeiramente alteradas, às torres de canhões da gigantesca Drusus. Realizou cálculos cada vez mais precisos da potência dos campos defensivos estelares que envolviam Silico V. Qualquer modificação de dados que representasse uma vantagem para a fortaleza cósmica enfraquecia em grau exponencial a posição da Drusus, até que esta disparasse o primeiro tiro.
A três minutos-luz de Silico V, a formação freou, reduzindo a velocidade para 0,1 da da luz. Os cruzadores ligeiros e pesados continuavam a voar sob a proteção contra a localização. Apenas a Drusus estava “de viseira erguida”.
Rhodan, não quer chamar o computador-regente? — Crest não pôde deixar de formular esta pergunta.
O computador positrônico de bordo acabara de calcular que, se todas as armas das naves terranas bombardeassem simultaneamente os campos defensivos de Silico V, este só consumiria dez por cento de sua capacidade.
Dali se concluía que Perry não conseguiria romper esses campos.
Rhodan nem sequer chegou a voltar a cabeça quando ouviu a pergunta de Crest. Disse com a maior tranqüilidade, e era exatamente isso que constantemente abalava o arcônida:
Já se foi o tempo em que eu acreditava que um computador positrônico não é capaz de mentir. Não chamarei Árcon III, mas proporcionar-lhe-ei um prazer bastante duvidoso. Terá de manter-se inativo, enquanto eu transformar esta casa de marimbondos numa lua inofensiva.
Inclinou-se ligeiramente para a frente, comprimiu um botão e falou para dentro do microfone:
Atenção, arquivo, procure imediatamente todos os dados relativos à construção das fortalezas cósmicas dos arcônidas. Desligo.
Mantendo-se na mesma posição, efetuou rapidamente outra ligação e chamou o setor do qual nenhum dos numerosos oficiais que estavam na sala de comando se havia lembrado:
Transferir todos os robôs, dentro da respectiva capacidade, ao hangar B-65. Programação 1-1. Execução dentro de oito minutos. Desligo.
A próxima ordem foi transmitida à sala de rádio:
Enviar uma mensagem de hipercomunicação por toda a Galáxia. Todos os cruzadores ligeiros e pesados, couraçados e destróieres deverão entrar em estado de prontidão. Ao receberem a mensagem 45-1-00, entrarão imediatamente em transição, em direção ao sistema 4186-4-162 do catálogo estelar arcônida. Perry Rhodan. Desligo.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto angustiado de Crest.
O código 45-1-00 era apenas um blefe preparado há muito tempo. Qualquer nave de guerra, que recebesse essa ordem, apenas faria uma ligeira interrupção nas ações costumeiras. A ordem não causaria grande alarma.
Tratava-se de um comando inventado especialmente para o computador-regente instalado em Árcon III e para os mercadores galácticos, que também estavam metidos naquilo.
Uma das características da mentalidade de Perry Rhodan consistia no empenho de obter o melhor resultado possível ao menor custo e com o menor risco.
Subitamente, o espaço cósmico negro com a cintilância fria de milhares de sóis rompeu-se.
Silico V estava golpeando sem aviso prévio!
Seis canhões de impulsos da fortaleza procuraram romper os campos defensivos da Drusus e transformar a nave numa nuvem luminosa de gases. Mas a Drusus apenas sofreu um ligeiro abalo. Prosseguiu na mesma velocidade de 0,1 da da luz em direção à lua liliputiana.
Ataque vindo de vermelho vinte e cinco — disse alguém do posto de comando.
Silico V estava atacando com a potência triplicada, e dois terços dessa potência atingiram os campos defensivos do supercouraçado, provocando uma verdadeira cascata luminosa de energias desencadeadas.
Qualquer outra nave se teria evaporado sob o impacto de tamanho volume de energia. Os campos defensivos da Drusus apenas tremeram fortemente e repeliram a energia.
Indicador de capacidade: setenta e dois por cento!
Quase chegava a representar um alarma. Esperava-se que isto fizesse Rhodan liberar o fogo.
Crest observou-o.
O que estaria acontecendo na alma de Perry Rhodan naquele instante? Em que estaria pensando esse homem, que ao ver de Crest estava predestinado a transformar-se um belo dia no senhor do Universo?
O transmissor fictício está pronto para entrar em ação?
Enquanto a pergunta era formulada, a gigantesca Drusus levou a efeito uma mudança inesperada de rota para bombordo.
O dispositivo de absorção de pressão uivou ligeiramente, fazendo com que a gravitação de 1 G permanecesse inalterada na nave. No lugar em que, uma fração de segundo antes, se encontrara o supercouraçado via-se um monstro energético feito de trinta raios de impulso enfeixados, que se perdeu nas profundezas do espaço.
Crest fitou Rhodan. O que fizera com que justamente nesse instante o terrano modificasse subitamente a rota da nave?
Não teve tempo para pensar no assunto. Chocou-se com a ordem seguinte emitida por Rhodan.
Colocar os robôs de guerra em Silico V por meio do transmissor fictício. Apressem-se!
Sir — gritou o oficial do posto número 8, e o tom de voz anunciava um desastre iminente. — Estamos constatando um enorme represamento de força magnética em Silico V. Parece que se trata de um ataque de bomba gravitacional.
A bomba gravitacional era uma das armas mais terríveis que se conhecia. Qualquer objeto atingido por sua ação era atirado para a quinta dimensão.
A reação de Rhodan foi imediata.
Transição de fuga! — ordenou à formação de cruzadores.
A proteção contra a localização voltou a envolver a Drusus, enquanto a nave se afastava com o máximo de aceleração e num desvio de rota de 43 graus.
O computador positrônico de bordo “conservou” a mesma calma de Perry Rhodan. Forneceu ao transmissor fictício todos os dados necessários para que essa arma extraordinária, da qual Rhodan recebera dois exemplares da estranha inteligência coletiva do planeta Peregrino, pudesse colocar os robôs de guerra na superfície de Silico.
O transmissor fictício trabalhava na sexta dimensão. Em todo o Universo, não havia qualquer proteção contra essa arma, que podia ser utilizada para o transporte imediato de qualquer tipo de matéria a uma distância ilimitada.
Enquanto a Drusus se afastava vertiginosamente com um desvio de rota de 43 graus, o transmissor fictício transferiu uma leva de robôs após outra à superfície de Silico V. Para ele, os potentes campos defensivos da fortaleza estelar não existiam.
Ligar a localização com o transmissor fictício!
Perry Rhodan não pretendia assumir o menor risco. O transporte de robôs sofreu uma ligeira interrupção. O oficial que se encontrava no comando principal do transmissor ouviu o que lhe cabia fazer.
A bomba de gravitação seria interceptada pelo transmissor fictício, no caminho da lua liliputiana para a Drusus, para explodir em qualquer ponto do espaço em que não pudesse causar qualquer desastre.
Poucos oficiais se encontravam presentes por ocasião da luta contra Topthor, o superpesado, quando os homens de Rhodan também tiveram que se defender contra uma bomba gravitacional. Esses oficiais sabiam o que estava acontecendo. Os outros tremiam por dentro.
Ataque! — exclamou o oficial do posto 8 com a voz ansiosa. — Sem dúvida trata-se de uma bomba gravitacional.
Subitamente, ouviu-se uma respiração ofegante, seguida de uma frase proferida em tom de espanto:
Já não há mais nada.
O transmissor fictício retirara a bomba do campo energético que se deslocava em direção à Drusus, para atirá-la no espaço vazio, onde acabou explodindo.
Prosseguir no transporte dos robôs!
Perry Rhodan não perdeu tempo. A localização fora desligada do transmissor. Do hangar B-65 do supercouraçado, centena após centena de máquinas de guerra desapareciam sob a ação do misterioso aparelho, para no mesmo instante assumir sua posição na face oculta da lua-anã.
Finalmente Rhodan recebeu os dados sobre a construção das fortalezas estelares de Árcon. Mais uma vez deu prova de sua genialidade universal. Examinou ligeiramente o complicado desenho, reconheceu-lhe os aspectos mais importantes, e os observou com ligeiras variações, no segundo, terceiro e quarto desenhos, sempre no mesmo lugar.
Já sabia onde procurar o computador positrônico de Silico V.
Transmissor fictício, como vai a manobra de transporte de robôs?
Operação concluída, Sir.
Regular o transmissor para a Drusus. O aparelho levará a nave para Silico V. O computador de bordo fornecerá as coordenadas. Desligo... Sala de rádio. Chame de volta a formação de cruzadores. Deverão realizar um ataque concentrado assim que a Drusus abrir fogo. Desligo... Transmissor fictício, tudo preparado?
Tudo preparado, Sir. Aguardo as coordenadas...
Mais uma vez, os campos defensivos da Drusus foram atingidos. Pareciam não resistir mais ao impacto energético. Na nave ouviu-se o rugido dos geradores aos quais cabia absorver e neutralizar a energia vinda de fora. O indicador de capacidade aproximou-se perigosamente da marca dos cem por cento, mas depois de alguns segundos martirizantes o rugido dos geradores foi diminuindo e o ribombo dos campos abalados também foi amainando.
Será dentro de cinco segundos, Sir! Essa indicação vinha do posto do transmissor fictício.
O tempo começou a correr. O contador robotizado foi indicando os segundos.
Já! — gritou uma voz.
Os tripulantes da Drusus, que esperavam sentir um choque de transição, acreditaram que a tentativa tivesse fracassado, pois não sentiram a menor alteração.
O fogo poderá ser iniciado por todas as peças!
Estas palavras foram proferidas pelo chefe.
Os oficiais que se encontravam diante do dispositivo ótico de pontaria fitaram os alvos. E os homens que se achavam na sala de comando olharam fixamente para a grande tela de visão global.
Silico V encontrava-se menos de mil metros abaixo do lugar em que estavam.
Silico V — um mundo destrutivo inteiramente automatizado, de oitenta quilômetros de diâmetro, dotado de toda a sofisticação da tecnologia arcônida — sentiu os efeitos da tormenta terrana.
A Drusus disparou todas as armas, nas mais variadas direções, e a uma distância extremamente reduzida.
Dentro de dois segundos, a rocha morta da lua foi transformada em nuvens de gases esvoaçantes e numa lava que escorria preguiçosamente.
O centro de computação, situado nas profundezas da lua — uma estação retransmissora do computador-regente de Árcon III — era uma instalação positrônica. Mas, nem por isso, estava em condições de tomar as medidas defensivas com a necessária rapidez, já que em três setores importantes ficara bloqueado.
Não sabia dar resposta à pergunta sobre o motivo por que os campos defensivos que envolviam Silico V estavam intactos, enquanto a Drusus voava a apenas mil metros acima da superfície da lua.
Representando o problema em forma numérica, poderíamos dizer que o computador se via diante de uma tarefa semelhante à de explicar por que um mais um seriam três.
Destruição da superfície! — ordenou Rhodan.
Por alguns segundos admirou-se pelo fato de que o fogo de sua nave não era respondido, mas logo imaginou por que a reação do computador-retransmissor era tão lenta.
Tomem cuidado com nossos robôs! Mas a maior parte destes se encontrava na face oposta. Graças a seu aparecimento inesperado, puderam atuar numa superfície de cem quilômetros quadrados, onde fecharam as bocas das peças de artilharia com rocha vitrificada.
Outra tormenta terrana, vinda do espaço, irrompeu sobre Silico V.
A formação de cruzadores acabara de regressar e, assim que emergiu da transição, abriu fogo contra um único ponto do campo defensivo estelar. À medida em que as naves se aproximavam, a força de impacto de raios crescia. Não demorou um minuto para que os campos defensivos de Silico V desmoronassem no ponto atingido, desencadeando um verdadeiro inferno naquele mundo anão.
Os raios dos cruzadores ligeiros e pesados penetravam livremente até a superfície da lua. Atingiram Silico à esquerda da calota polar, tomando por referência a posição das naves, e descongelaram-na numa faixa de dez quilômetros, transformando-a numa nuvem de gases.
Das bocas de fogo que a Drusus ainda não havia destruído, saiu uma profusão de raios destrutivos. Mas estes só puderam desenvolver-se por uma fração de segundos, pois a nave de Rhodan logo bombardeou os pontos dos quais os feixes de raio ainda se precipitavam espaço afora.
A resistência inimiga cessou de repente. Logo após, notou-se o desmoronamento total e inesperado dos campos defensivos de Silico V.
Descendo em formação cerrada, o grupo de cruzadores caiu sobre a pequena lua. Com a nave capitania de Rhodan, os cruzadores circularam em torno desse mundo liliputiano, deixando atrás uma faixa de vinte quilômetros de rocha liquefeita, que ia endurecendo lentamente.
Dali a duas horas, toda resistência na superfície cessou. Rhodan mandou que os robôs de guerra retornassem. A utilização radical destes custara sessenta e sete máquinas. Mas, por outro lado, não teve de lamentar sequer um único ferido entre os tripulantes.
Mas a luta ainda não chegara ao fim.
Teriam de penetrar no interior de Silico V, para atingir o lugar em que se encontrava o comando positrônico e o gigantesco conjunto de controles... e ainda para o lugar em que Thora era mantida presa.
Perry Rhodan não acreditava na possibilidade de encontrar seu filho Thomas com vida.
12



Dezoito quilômetros abaixo da superfície de Silico V, no recinto destinado a Thomas Cardif, reinava um silêncio absoluto, que indicava um isolamento total.
Thomas não sentia o silêncio.
Não sabia como era a sala fechada em que se encontrava. Estava inerme diante do tremendo abalo psíquico que o sacudia; não fez nada para defender-se das terríveis conseqüências do trauma.
Tinha vinte e um anos.
Era o filho de Perry Rhodan; Thora era sua mãe.
Thora Rhodan quer ser minha mãe? — disse, repetindo a pergunta que, sob formulação ligeiramente diversa, dirigira a Thora Rhodan na presença do computador-retransmissor, que se mantinha atento.
Sua jovem vida voltou a desfilar diante dos olhos de sua mente.
Pelo que se lembrava, sempre passara bem, mas nem como criança, nem como jovem sentira o calor e o aconchego de um lar.
Nestas horas, compreendeu de quanto coisa fora privado. Mas não entendeu por que Perry Rhodan e Thora haviam agido dessa forma.
Não quis compreender! A herança materna, o sangue da mãe arcônida, fervia em suas veias, fazendo crescer em seu interior a j cólera, o desprezo e o ressentimento frio.
Perry Rhodan, é bom que saiba que meu nome é Thomas Cardif, e com este nome morrerei! — murmurou convicto.
Os robôs de Silico V haviam colocado ele e Thora em compartimentos distintos. Pensar numa fuga a dezoito quilômetros de profundidade seria uma idéia ilusória.
Subitamente, Thomas Cardif ouviu a gargalhada que ele mesmo acabara de soltar. Era uma risada colérica, mas apesar disso esfregou as mãos, num gesto de satisfação.
Não queria fugir.
Por que iria fazê-lo?
Seu mundo era Árcon. Sentia por Perry Rhodan o ódio de que só um arcônida é capaz.
Rhodan, você me roubou o amor do pai e da mãe. Você quis assim. Agora sou eu que quero. Quero ir ao lugar de que provêm meus olhos amarelados. Para casa, para Árcon.
Começou a caminhar nervosamente pela sala luxuosamente instalada. Vez por outra, olhava para o espelho, e este lhe mostrava um rosto que odiava até às profundezas da alma: o rosto de Perry Rhodan!
A mãe; seu grito ainda lhe ressoava nos ouvidos.
Como minha mãe deve ter sofrido por não poder enlaçar-me. E tudo isso apenas porque o tal do Perry Rhodan proibia”, pensou Thomas.
Aqui, a dezoito quilômetros de profundidade, na prisão guardada pelo robôs de Árcon, começava a compreender por que Thora fora a Rusuf. Quis ir para junto dele, contrariando todas as ordens desumanas do ditador Perry Rhodan.
Perry Rhodan, você viu em mim não um filho, mas apenas um homem que um dia poderia representar um perigo para você. Rhodan, agora suas previsões se realizam. Minha vida será dedicada a uma única tarefa: destruí-lo.
Odiava-o com a intensidade de que só os jovens são capazes. Pensava raciocinar logicamente, mas na verdade esquecia-se da lógica. Era dominado pelo sangue arcônida que corria em suas veias. Por isso não teve a menor dificuldade em perdoar integralmente a mãe, em encontrar uma explicação para todos os atos praticados por Thora. Mas Perry Rhodan...
O ribombo surdo vindo de uma direção indeterminável arrancou-o dos seus pensamentos odientos, chamando-o de volta à realidade. Thomas aguçou o ouvido e teve a impressão de que o chão tremia sob seus pés. Por acaso, olhou para o espelho e viu Perry Rhodan.
Sua mão agarrou um objeto pesado.
Tome! — gritou em tom raivoso e atirou o objeto com tamanha força contra o espelho, que a face metálica deste se encurvou, não permitindo a reprodução fiel das imagens. — Desta vez até você desapareceu, Perry Rhodan!
Soltou uma risada de raiva e triunfo.
À sua frente, viu o pequeno painel, que lhe permitia estabelecer contato audiovisual com quinze pontos diferentes.
Fez uma ligação com o computador-retransmissor, mas apenas ouviu outro ribombo, que desta vez parecia mais selvagem, mais perigoso, mais catastrófico. Um tremor bem perceptível sacudiu o chão. Thomas Cardif até chegou a ter a impressão de que tudo balançava como num terremoto.
O saber adquirido na Academia Espacial do Império Solar revelou-se mais forte que o fogo odiento que lhe incendiava a alma. Seu espírito objetivo pôs-se a avaliar o ribombo e o tremor do solo. Lembrou-se da última missão que lhe fora confiada, e que seria dirigida contra o sistema 4186-4-162. E sabia como Perry Rhodan costumava golpear sempre que algum homem enviado numa missão não retornava ou não era encontrado.
Pois venha...
O ódio do arcônida voltou a irromper em sua alma. Nem se espantou com o fato de não conseguir entrar em contato com o computador e os outros quatorze pontos a que correspondiam as chaves do painel.
Perry Rhodan estava a caminho; viria para junto dele e de sua mãe!
Thomas atirou-se ao chão, cruzou as mãos sob a cabeça e lançou um olhar indiferente para o teto. O ribombo tornou-se mais forte e furioso, passou a soar ininterruptamente e aproximava-se cada vez mais.
Isso não o interessava.
Além da barreira energética, que lhe tolhia os movimentos, rugia a luta sem sangue, entre os robôs de Árcon e as máquinas de guerra terranas, manipuladas pelos homens bem treinados da frota espacial.
Apesar da terrível excitação que lhe enchia a alma, e também por estar dominado pelo fragor da batalha, Thomas tentou ouvir. Os estrondos aproximavam-se inexoravelmente, e dali se concluía que os robôs de Árcon recuavam sem cessar.
Subitamente, o ribombar das explosões, o chiado infernal das fontes de energia que entravam em curto-circuito, o esfacelamento surdo dos gigantescos transformadores — tudo isso diminuiu. O único ruído ouvido era o rugido da batalha travada pelos robôs. Estes carregavam sua própria fonte de energia, e sua programação conferia-lhes poderes quase humanos e uma liberdade quase total no âmbito do combate.
Mais uma vez o ruído da batalha cresceu a uma altura quase insuportável, mas depois cessou de repente e desfez-se num crepitar penetrante e em algumas explosões ligeiras. Os passos fortes dos robôs com suas toneladas de peso foram o único ruído.
A luz da sala de Thomas tremeu. A fonte de energia entrou em pane, diagnosticou Cardif sem a menor emoção, sem erguer os olhos para a lâmpada. Mas a luz não se apagou conforme esperara. A fonte luminosa manteve-se inalterada.
No momento em que a porta foi aberta repentinamente, Thomas não se moveu.
Calculou quem era o homem que se aproximava dele: PERRY RHODAN.
Mas sentiu alguma coisa mais forte que o ódio e a raiva. Os três anos de treinamento rigoroso na Academia Espacial não poderiam deixar de produzir marcas em seu espírito.
Thomas Cardif ergueu-se rapidamente diante do administrador do Império Solar. Viu-se frente a frente com Rhodan, que estava acompanhado do Coronel Julian Tifflor e do telepata John Marshall.
Tenente Cardif, derrubado durante o cumprimento da missão no sistema 4186-4-162. Mac Urban e Alim Achmed foram mortos.
Recuperara o autodomínio. Com uma expressão fria, fitou os olhos cinzentos do administrador.
Com o mesmo autodomínio, Perry Rhodan fitou seu filho, e via seu próprio rosto.
Naquele instante, Thora entrou na sala, acompanhada de Crest e um grupo de oficiais. Esteve a ponto de interpor-se entre o marido e o filho, mas num movimento instantâneo Thomas afastou-se para o lado, criando uma distância que seria insuperável.
Às costas de Rhodan, os oficiais cochichavam nervosamente. Viram-se colocados diante do fato de que o chefe tinha um filho, e que esse filho era tenente da Frota Espacial.
Perry Rhodan preferiu não recorrer a suas limitadas faculdades telepáticas para penetrar na mente do filho.
Perry! — o desespero vibrava na voz de Thora. — Thomas sabe...
Já sei.
Disse o homem que naquele instante era apenas pai, e estudava todos os ângulos do rosto do filho. Lembrou-se do que o grande computador positrônico de Vênus dissera sobre o caráter do rapaz. Mas uma resistência feroz surgiu na alma de Perry Rhodan, que se defendeu com todas as forças contra as regras frias da lógica positrônica. Seu filho Thomas não era exclusivamente um descendente dos arcônidas; seu pai era um terrano.
Também já sei, administrador! — disse Thomas Cardif em tom áspero, e nem parecia perceber que a mãe estremeceu e segurou o braço do marido como quem precisasse de amparo.
Façam o favor de nos deixar a sós com nosso filho — disse Perry Rhodan em tom tranqüilo.
Todos saíram apressadamente; inclusive Crest.
Seu filho? — disse Thomas Cardif em tom de deboche. — Desde quando sou seu filho, administrador? Meu nome é Thomas Cardif, e não troco de nome como quem troca de camisa — enquanto isso, seus olhos amarelentos tremiam de raiva; eram a herança materna.
Mas o gesto com que empertigou o corpo era do pai.
Thomas...
Na voz de Thora, sentia-se o desespero. Chegou a tocar o coração do jovem.
Num tom menos frio e insensível, mas conservando certa distância, respondeu:
Prefiro o tratamento Tenente Cardif. Por favor, madame!
Muito bem — disse Perry Rhodan. — Usemos por enquanto o tratamento Tenente Cardif e...
O jovem levantou abruptamente a cabeça. Seus olhos exprimiam o sarcasmo, e as palavras foram proferidas em tom áspero:
Até hoje tive de arranjar-me sem pai e mãe. Daqui por diante, não precisarei deles. Quero fazer-lhe uma pergunta, administrador: seu cargo lhe dá o direito de imiscuir-se em minha vida particular?
Procure compreender-nos... — a súplica de Thora não atingiu seu coração.
Não! — disse num cochicho odiento, e seu olhar foi dirigido apenas ao pai. — Não quero compreender; não posso compreender. Só sei odiar. Odeio meu rosto, que não é meu. Será que me exprimi com suficiente clareza?
Perry Rhodan teve de segurar Thora, que ia caindo ao chão. Um choro convulso e silencioso sacudiu seu corpo. Em seus olhos não havia lágrimas. Não acreditava que as palavras ouvidas realmente tivessem sido proferidas.
Thomas, meu filho... — implorou, mas Thomas Cardif não deu atenção às palavras da mãe.
Tem mais alguma ordem, administrador? — a expressão do rosto do Tenente Cardif quase chegava a ser de desafio.
Tenho! — era Perry Rhodan, administrador do Império Solar, que falava. — Retire-se, tenente. Entre em contato com o Coronel Julian Tifflor e traga-o até aqui. Será que tenho de pedir-lhe para não esquecer de que prestou um juramento de fidelidade ao Império Solar?
Pela primeira vez, notou-se uma reação em Thomas Cardif. Com o corpo imóvel, prendeu a respiração e fitou o pai. Finalmente disse num tom que quase chegava a ser de ameaça:
Não deixarei de cumprir o juramento, administrador, mas um dia o senhor me dispensará do juramento por sua livre e espontânea vontade.
Faça o favor de deixar isso por minha conta! — disse Perry Rhodan em tom áspero.
Mais uma vez, seus olhares se encontraram. Finalmente o Tenente Cardif passou por Perry Rhodan e Thora e retirou-se para procurar o Coronel Tifflor.
Não o encontrou. Depois de andar durante meia hora pelos corredores parcialmente destruídos da fortaleza subterrânea, voltou para junto de Perry Rhodan.
Obrigado — disse Rhodan, ao receber a informação. — Fique comigo, tenente!
Thomas manteve-se em silêncio, mas seus olhos amarelados e cintilantes falavam uma linguagem inconfundível.
Depois voltou o dia-a-dia das missões, dos relatórios e das decisões. Ao ouvir que o computador-retransmissor fora destruído por completo, Rhodan franziu a testa.
Refletiu ligeiramente e tomou sua decisão:
Um cruzador pesado e dois cruzadores leves ficarão em Silico V. Os comandantes das três unidades tomarão as providências necessárias para que esta lua nunca mais possa ser utilizada como fortaleza estelar.
Thora já não se encontrava ao lado de Rhodan. O Tenente Cardif não perguntou por ela. Juntamente com o chefe empreendeu a marcha difícil que o levaria à superfície da lua, dezoito quilômetros acima do lugar em que se encontrava. Foi só graças aos trajes espaciais, que lhes permitiam voar, que conseguiram chegar à Drusus.
Uma vez na sala de comando, Rhodan chamou o oficial de rádio do supercouraçado.
Use o hiper-rádio para entrar em contato com Árcon III. Quero falar com o regente. O código do computador já é de seu conhecimento. Esperarei.
Imóvel, o Tenente Cardif manteve-se de pé ao lado de Perry, que estava sentado na poltrona do piloto da Drusus. Rhodan parecia tê-lo esquecido, mas a mensagem que transmitiu ao cruzador pesado Zyklop provou o contrário.
O Coronel Tifflor está a bordo?
Sim senhor.
Aguardo-o em meu camarote. Desligo.
Nem mesmo agora, Perry Rhodan se valeu de suas reduzidas capacidades telepáticas para ler os pensamentos do filho. Mas nunca renunciaria ao direito de agir. E não estava disposto a desistir da luta quase sem esperanças que travava pelo coração do filho.
A sala de rádio chamou:
O regente de Árcon!
Rhodan lançou um olhar curioso para a objetiva. Queria que a lente atingisse Thomas. O regente deveria ver quem estava a seu lado.
Aqui fala Rhodan, regente. Encontro-me em Silico V, no sistema 4186-4-162 — sua voz era fria, implacável e acusadora.
Pois não — respondeu o computador-regente de Árcon III.
Com o auxílio do Tenente Cardif, que está a meu lado, libertei minha esposa, que se encontrava presa nas fortificações, dezoito quilômetros abaixo da superfície. Durante o vôo...
O gigantesco centro de computação de Árcon III interrompeu Rhodan.
Não conheço qualquer fortaleza cósmica que tenha o nome Silico V. Apenas conheço a lua Silico V, situada no sistema 4186-4-162.
Regente, minha esposa foi seqüestrada em Rusuf. Durante a operação foram utilizadas duas naves especiais de Árcon, que a levaram para Silico V. O computador-retransmissor de Silico V...
Mais uma vez o computador-regente de Árcon III interrompeu Rhodan.
Administrador, não conheço qualquer estação retransmissora instalada em Silico V. Pergunte a seu computador, e este só poderá dizer que não conheço. Seus técnicos não terão a menor dificuldade em examiná-lo para verificar se havia uma ligação entre nós. Tem mais alguma coisa a dizer, Rhodan?
Não — respondeu Rhodan.
No mesmo instante, o regente interrompeu a ligação pelo hiper-rádio.
Crest ouvira a palestra. Ao notar o olhar indagador de Rhodan, disse em tom queixoso:
Desta vez, nossos robôs e homens trabalharam bem demais. A esta hora o regente já sabe que a estação retransmissora de Silico V está reduzida a um montão de lixo. Por isso, pôde pregar essa mentira desavergonhada. Se ouvi bem, a mentira do computador positrônico não foi apenas desavergonhada, mas também tola. Meu caro Rhodan, às vezes, ser tolo não é nenhuma tolice, embora possa parecer. O computador-regente de Árcon voltou a sentir-se forte. Gostaria de saber por quê.
Um belo dia descobriremos — respondeu Rhodan. Levantou-se e pediu a Thomas Cardif que o seguisse.
Levou-o a seu camarote. Pouco depois, chegou o Coronel Julian Tifflor. Rhodan foi diretamente ao assunto.
Coronel, considere-se transferido para a Terra a partir deste momento. Lá lhe indicarão suas tarefas. O Tenente Thomas Cardif será seu ajudante. Para facilitar as coisas, o senhor regressará a bordo da Drusus. Peço-lhe que tome cuidado para que em hipótese alguma o Tenente Cardif tenha oportunidade de sair do sistema solar.
Sem que ninguém o esperasse, Thomas Cardif ficou em posição de sentido. Seus olhos arcônidas chisparam uma luz ofuscante.
Fico-lhe muito grato, administrador! Isso me facilitará extraordinariamente o cumprimento das tarefas que daqui em diante me caberão.
Perry Rhodan resistiu ao fogo dos olhos do tenente. Falando lentamente, como quem resiste a uma carga sobre-humana, respondeu:
Faço votos de que um belo dia não me veja obrigado a ser apenas o administrador. Faça o favor de retirar-se, Tenente Cardif.
Perry Rhodan e Julian Tifflor seguiram-no com os olhos.
Thomas Cardif acabara de retirar-se. Os dois homens mantiveram-se em silêncio. Finalmente, o coronel rompeu o silêncio, dizendo em tom constrangido:
Chefe, seu filho é um homem de dois mundos...
Isso mesmo — respondeu o homem cansado. — É de dois mundos.
E o silêncio voltou a reinar no camarote.




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Após resolver racionalmente a questão criada pelo filho, Rhodan volta-se para A Caça das Dimensões. Este é o título do próximo volume da série.


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