sexta-feira, 5 de abril de 2013

P-066 - Os Escravos Cósmicos - Kurt Mahr [parte 3]

Pashen desceu. Estava só.
O que estão fazendo por aqui? — perguntou.
Será que até com isso o senhor tem a ver alguma coisa? — perguntou Chellich.
Pashen ficou furioso.
O senhor arranjou um lugar-tenente que diz as palavras desagradáveis em seu lugar, Mullon?
Sinto-me satisfeito em não ter de falar com você — confessou Mullon.
Tome cuidado! — gritou Pashen em tom zangado. — E ponha a máquina em movimento quanto antes. O senhor não tem um minuto a perder.
Mullon não se mexeu. Chellich colocou o pé direito confortavelmente sobre a porta lateral e fitou Pashen.
Suma-se daqui! — disse em tom tranqüilo. — Senão ligo o motor e o atropelo. Por aqui o senhor não manda coisa alguma; é bom nem tentar.
Pashen empalideceu.
O senhor... o senhor vai pagar por isso — gritou. — Seu... seu...
Dê o fora! — berrou Chellich sem fazer o menor movimento.
Pashen estremeceu, tropeçou, virou-se e saiu correndo. Quando percebeu que se deixara enganar já era tarde para apagar a vergonha pela qual acabara de passar. Sacudiu ameaçadoramente o punho; seu rosto estava transformado numa careta de raiva. Entrou na cabine do helicóptero e decolou.
Assim que o ruído do helicóptero desapareceu ao longe, Chellich começou a rir. Mas o rosto de Mullon parecia desolado.
Isso não foi uma imprudência? — perguntou.
Confesso que assumi um risco — disse Chellich em tom indiferente. — Mas não foi um risco muito grande. Pashen é um homem que tem medo da própria sombra. Não acredito que os peepsies lhe tenham conferido muitos poderes.
Mullon voltou a colocar a máquina em movimento e prosseguiu na direção leste.

* * *

Trabalharam o resto do dia. Durante a pausa do almoço, a máquina de Mullon alcançou as outras. Haviam feito seis viagens de ida e volta, e a largura do campo arado já era de cento e oitenta metros. Mas suas cabeças zumbiam com o ruído dos motores e, devido à trepidação, as mãos que seguravam o volante ainda tremiam.
Descansaram na sombra das máquinas e, depois de duas horas, reiniciaram o trabalho.
Chellich não fez a menor objeção de que Mullon informasse os homens sobre seu plano. Estes logo se entusiasmaram. Chellich lhes explicou que qualquer observação, por insignificante que fosse, proferida no lugar errado, poderia frustrar o plano. Prometeram que não diriam nada, nem mesmo a suas esposas.
Trabalharam até o escurecer, com outra única interrupção, de uma hora.
Mullon cometera um ligeiro engano nos seus cálculos. O sol ainda estava relativamente alto no céu, e ele insistira em que arassem mais uma faixa dupla antes de voltarem para casa. Quando terminaram esse serviço já estava escuro, e precisavam de uma pausa para descansar.
Encostaram-se às gigantescas esteiras e fumaram cigarros. Dormiam no chão aqueles que tinham dirigido as máquinas por último e não teriam nada a fazer durante a viagem de volta.
Chellich levantou-se e afastou-se do grupo, dizendo que queria descobrir a melhor maneira de chegar ao reator das máquinas. Ninguém parecia notar que escolhera justamente a máquina mais afastada.
Subiu à cabine, fez alguns movimentos para cima e para baixo, como se estivesse procurando alguma coisa, e depois ajustou o relógio de pulso para a palestra que pretendia manter com o Capitão Blailey.
Usou a senha, que para aquele dia era “Príncipe de Gales”, e relatou a Blailey o que havia acontecido.
Tenho uma novidade para o senhor — disse Blailey depois de algum tempo. — Já sabemos de onde vêm os peepsies.
Não diga! — disse Chellich em tom de espanto. — Qual é o lugar?
O sol deste sistema, ao qual demos o nome de Mirta, tem quarenta e nove planetas de todos os tamanhos. O planeta Fera Cinzenta é o sétimo, contado de dentro para fora. Os peepsies vêm de Mirta XII. Já estivemos lá e demos uma olhada. É um mundo relativamente pequeno. A gravitação na superfície é de 0,7 G e, um detalhe que deverá interessá-lo, a pressão atmosférica superficial é de apenas quatrocentos torr. Aí, em Fera Cinzenta, a pressão média é de novecentos torr, o que corresponde a cerca de 1,2 atmosferas. Acho que é por isso que a permanência neste planeta é tão desagradável para os magricelas. Devem sentir-se como nós nos sentiríamos dez metros abaixo da água sem qualquer proteção para os ouvidos.
Chellich soltou um assobio entre os dentes.
Pode ser — disse. — Descobriu mais alguma coisa?
Fomos localizados — respondeu Blailey. — Por meio de um simples radar. Voávamos a cerca de cem quilômetros de altitude. Mas eles não têm caças e foguetes eficientes, ou então não conseguiram fazê-los decolar com a necessária rapidez. De qualquer maneira, ninguém se preocupou conosco. Vimos algumas cidades muito grandes. Parece que aquela terra é densamente povoada.
Foi o que imaginamos.
Como vai sua plantação de cereais? — indagou Blailey.
É uma coisa enfadonha, como já disse — respondeu Chellich.
E como é o comportamento de sua gente?
Excelente. Nunca esperava que fossem tão formidáveis. O principal é que nunca desanimam. O tal do Mullon, o democrata, é um sujeito de primeira; não poderiam ter escolhido um chefe melhor.
Espere aí, Chellich! — exclamou Blailey depois de algum tempo. — Afinal, a gente a que você se refere tentou contra a vida de Rhodan e planejou uma revolução, motivo por que um juízo regular os condenou ao degredo perpétuo.
Tenho certeza de que esse juízo seria mais condescendente se visse como essa gente defende o bom nome dos terranos — respondeu em tom sério.
Está bem — disse Blailey. — Vamos terminar por hoje. Volte a chamar oportunamente.
Chellich voltou a endireitar o relógio e ia descer do assento do tratorista.
Naquele instante, escutou um ruído vindo de baixo. Estacou em meio ao movimento e ouviu alguém subir a escada. Os contornos de uma cabeça surgiram por cima da porta baixa, e uma voz disse:
Nunca pensei que alguém pudesse ter uma opinião tão boa a nosso respeito.
Era Mullon.
Chellich não demonstrou o menor embaraço.
Será que também ouviu as palavras favoráveis a respeito de sua pessoa? O senhor devia enrubescer como uma mocinha que ouve uma piada de mau gosto. Primeiro, porque foi elogiado, e depois porque anda espionando de forma tão desavergonhada.
Mullon riu.
Acho que meu esforço não foi em vão. Já está disposto a contar sua história, seu “Imperador da China”?
Chellich fez um gesto afirmativo.
Não tenho outra alternativa.
Relatou tudo que tinha a contar.
Rhodan é de opinião — concluiu — que os senhores devem arranjar-se sozinhos, mas apenas enquanto não surgir um perigo mais sério. Quer dizer que uma mão invisível os protege, e continuará a protegê-los, quer gostem, quer não.
Mullon saltou por cima da porta e sentou-se ao lado do oficial.
No momento em que partimos da Terra — disse em tom hesitante e com a voz embargada — eu ainda me teria rebelado contra uma proteção desse tipo. Diria que, uma vez que nos mandam embora, não queremos mais nada com eles. Mas agora... santo Deus, gostaria de abraçar o tal do Capitão Blailey.
Tenha cuidado! — disse o oficial com uma risada. — O senhor poderia espetar-se, pois geralmente Blailey não anda com a barba bem feita. Apenas lhe peço que me prometa uma coisa. O que acabo de lhe contar fica entre nós, até que eu mesmo resolva levantar o véu. Combinado?
Combinado — respondeu Mullon prontamente e apertou-lhe a mão.

* * *

Às trinta e três horas, as máquinas entraram ruidosamente na cidade de Greenwich.
As pessoas que haviam ficado na cidade saíram à rua.
A máquina de Mullon ia à frente das outras.
Por que será que não fizeram as ruas um pouco mais largas? — perguntou Chellich. — Não existe nenhum lugar em que se possa estacionar uma máquina.
O edifício da prefeitura avançava um pouco mais rua a dentro que as outras casas. O oficial colocou a máquina de tal maneira que a construção saliente encobria-lhe a maior parte. As outras máquinas foram colocadas atrás da de Mullon.

* * *

Chellich fez uma refeição ligeira na casa em que morava só e foi para a cama. Ajustou o pequeno despertador, cujo mostrador e mecanismo já haviam sido adaptados para o novo tempo do planeta Fera Cinzenta, para as trinta e nove horas.
Por enquanto, cinco horas e meia de sono serão suficientes”, pensou.
Dissera a Mullon que pretendia iniciar o serviço uma hora antes da meia-noite, e tinha certeza de que o democrata compareceria juntamente com alguns homens para montar guarda.
Às trinta e nove horas em ponto, o despertador começou a zumbir. Chellich tomou um banho frio para ficar bem disposto.
Quando chegou ao edifício da prefeitura, Mullon e O’Bannon saíram da sombra pálida projetada pelo telhado saliente.
Trouxeram ferramentas? — perguntou o oficial laconicamente.
Trouxemos — respondeu O’Bannon.
Chellich pôs-se a trabalhar.
Não demorou em encontrar o acesso à caixa do reator. Ficava atrás da tampa que havia na parte lateral da máquina. A tampa estava presa por uma série de parafusos de cabeças esquisitas. Nenhuma das numerosas chaves ajustava-se aos mesmos. Chellich teve de usar um alicate.
Acabou tirando a tampa e descobriu a parte exterior do revestimento protetor de radiações do reator. Conforme esperava, esse revestimento era feito de peças encaixadas, mas não presas. Chellich retirou-as e empilhou-as de forma a saber depois qual era seu lugar.
O revestimento propriamente dito consistia numa esfera oca cuja parede media mais de um metro de diâmetro. Chellich retirou a parte dianteira dessa esfera e descobriu o núcleo do reator, formado por outra esfera de apenas meio metro de diâmetro. O que o oficial viu em primeiro lugar foi uma camada cinza-clara, que em sua opinião era formada por oxido de berilo. Esta exercia as funções de refletor, fazendo com que a massa crítica fosse mais reduzida do que teria de ser sem o mesmo. Havia bastões que penetravam na parte superior do reator. Eram feitos de cádmio, um metal semelhante ao alumínio.
Chellich estava satisfeito. O reator não era muito diferente daqueles usados na Terra há setenta ou oitenta anos, ou mesmo antes. Restava saber qual era a matéria físsil usada no reator.
Retirou parte do refletor e, embaixo, viu uma superfície metálica lisa. Não pôde constatar de qual dos três metais anteriormente usados na Terra — o tório, o urânio ou o plutônio — se tratava. Talvez fosse até o exótico cúrio. Mas tinha certeza de uma coisa. Um reator pequeno como este era feito de material bastante enriquecido, ou talvez até de matéria físsil pura, como o Th 229, o U 235 ou o Pu 239.
Dedicou um interesse bastante limitado ao dispositivo de circulação térmica, já que isso não pertencia à sua tarefa. Este dispositivo envolvia mais de metade da esfera, do lado que dava para o motor. Ali o calor gerado pelo processo de fissão era transmitido à água. A água transformava-se em vapor e movia uma turbina ou até mesmo um simples sistema de pistões.
Agachado no chão, Chellich lançou um olhar pensativo para o reator.
Não é perigoso? — perguntou Mullon. — Acho que isso emite radiações.
São principalmente raios alfa, que apenas avançam alguns centímetros — disse Chellich em tom distraído. — Também há alguns raios gamas, mas são pouco numerosos e bastante macios. Não há nenhum perigo mais sério.
Como se só agora tivesse percebido que Mullon acabara de fazer uma pergunta e que sua resposta não fora satisfatória, levantou a cabeça e prosseguiu com um sorriso:
É bem verdade que não se deve segurar este material na mão por muito tempo, e muito menos engoli-lo.
Mullon deu uma risada.
Não farei nada disso. Como é: acha que conseguirá?
Chellich fez um gesto afirmativo.
Será fácil. Os peepsies construíram o reator de tal forma que até poderia parecer que queriam ajudar-nos a construir uma bomba. Apenas resta saber como fabricaremos o detonador. Teremos de retirar o refletor. Depois a massa crítica naturalmente ficará maior. Acontece que ainda teremos de trabalhar com a máquina.
Não entendi uma única palavra — disse Mullon, quando viu que o oficial se punha a meditar. — Mas acho que o senhor fará um serviço bem feito.
Chellich sorriu.
Muito obrigado pela confiança.
Voltou a montar o refletor, colocou as diversas peças do revestimento protetor e fechou a tampa.

* * *

Na manhã do dia seguinte, as máquinas saíram muito cedo. Os operadores eram os mesmos do dia anterior, e os trinta homens que iam nas máquinas passaram a constituir, sem maiores formalidades, um tipo de comitê de defesa.
Durante a pausa de duas horas, para o almoço, Chellich explicou que tinha suas preocupações por causa dos trabalhos agrícolas.
Pensei nisso na noite passada — disse. — Os peepsies são bastante inteligentes para calcular que, se continuarmos a manter a mesma velocidade, não conseguiremos cumprir a tarefa em tempo. Não acredito que se mantenham inativos até que os quatro meses tenham chegado ao fim.
Olhou em torno, e face aos rostos perplexos, concluiu que provavelmente mais ninguém havia pensado sobre o problema.
O que acredita que eles possam fazer? — perguntou Mullon.
Haverá duas possibilidades. Os duzentos guardas poderão tentar apressar nosso trabalho, ou então informarão o mundo dos peepsies, que enviará novamente a grande nave espacial.
Qual das duas alternativas você preferiria?
Chellich deu uma risada.
Acho que teremos de aceitar ambas. Primeiro uma, depois a outra.
O'Bannon fez sinal de que queria dizer uma coisa.
Chellich, todo mundo lhe ficaria muito grato se quisesse...
Se quisesse exprimir-me com mais precisão, não é? Pois é exatamente isso que tento fazer. Ainda não sei muito bem a quantas andamos. O ponto nevrálgico é este: precisamos de tempo para fabricar a bomba. Isso poderá levar dez ou doze dias. Devemos evitar que os peepsies intervenham antes disso, pois do contrário não daremos conta do recado. Mas se resolverem fazê-lo...
Calou-se, para que Mullon completasse a frase:
Nesse caso teremos de defender-nos. Não é isso?
Mais ou menos — respondeu o oficial. — Gostaria de eliminar todo e qualquer risco...
Perceberam que refletia enquanto falava e esperaram pacientemente.
Bem, poderíamos fazer o seguinte — disse depois de algum tempo, sorrindo como se acabasse de ter uma idéia formidável. — Admitamos que consigamos compreender qual é o tipo de contato que nossos duzentos peepsies mantêm com seu mundo natal. Devem avisar de alguma maneira que ainda estão vivos, e também devem ter a possibilidade de emitir um pedido de socorro.
Acredito que tenham combinado certo sinal, transmitido periodicamente, a fim de que no mundo dos peepsies fiquem sabendo que, no planeta Fera Cinzenta, tudo está em ordem. Se conseguíssemos descobrir que sinal é este, e se estivermos em condições de operar seu transmissor... bem, neste caso poderemos neutralizar tranqüilamente os duzentos peepsies, transmitir o sinal convencionado com o intervalo previsto e fazer com que, no mundo deles, ninguém desconfie que estamos fabricando com toda calma uma grande bomba.”
Lançou um olhar de triunfo para seus ouvintes, mas ao que tudo indicava estes não participavam de sua euforia.
Se pudéssemos, se tivéssemos! — exclamou O’Bannon. — Acontece que não temos nem podemos. Como pretende neutralizar duzentos peepsies?
Este problema vem depois — observou Chellich. — O que temos de fazer antes de tudo é saber como são realizadas as comunicações de rádio entre os peepsies.
Temos alguns pequenos receptores em nosso arsenal — disse Mullon. — É possível que, com eles, possamos...
Não é provável — interrompeu-o Chellich. — Comparados aos terranos, os peepsies são uma raça muito primitiva. Ao que parece, só conhecem a navegação interplanetária, e os princípios da hipercomunicação lhes são completamente desconhecidos. Quer dizer que seu transmissor só pode ser do tipo eletromagnético, ou seja, um transmissor de rádio do tipo mais simples. Para vencer com esse tipo de transmissor uma distância de vários milhões de quilômetros, terão de trabalhar com raios direcionais. Não teríamos a menor chance de captar suas transmissões, a não ser que nos colocássemos nas imediações do transmissor para receber as irradiações esparsas. Acredito que não permitirão uma coisa dessas.
Mullon fez que sim.
Sinto muito — disse em tom desanimado. — Não tenho outra idéia.
Chellich não parecia incomodar-se com isso. Subitamente mudou de assunto. Dali a meia hora, não havia mais ninguém — com exceção de Mullon — que acreditasse que as idéias do oficial, sobre a descoberta do código dos peepsies e a eliminação dos duzentos guardas, pudessem ser levadas a sério.
Assim que as duas horas haviam passado, voltaram a entrar nas máquinas e prosseguiram, faixa por faixa, sulco após sulco.
Então, qual é sua idéia? — perguntou Mullon depois que tinham percorrido algumas centenas de metros.
Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Chellich.
É impossível esconder qualquer coisa do senhor, não é?
Não sei — respondeu Mullon. — Tenho a impressão de que você não consegue.
Depois de refletir por algum tempo, Chellich disse:
A chave da porta proibida é Pashen. Mullon lançou-lhe um olhar de espanto.
Pashen? Realmente acredita que ele lhe contará qualquer coisa?
De livre e espontânea vontade não. Mas saberei obrigá-lo.
Ah, é? Como?
O oficial soltou uma risada.
Deixe que eu tenha um pequeno prazer. Está certo? Gosto de surpreender o próximo. Além disso, talvez possa evitar um fiasco. Nem sei se conseguirei impressionar Pashen.
Quando será a hora? — perguntou Mullon.
O mais tardar, hoje de noite — respondeu Chellich.
Pelo tom de sua voz, concluía-se que Pashen teria uma surpresa nada agradável.

* * *

Durante a tarde, por duas vezes, apareceu uma das naves auxiliares dos peepsies com seu ruído característico. Ao que parecia, os magricelas ficaram satisfeitos em ver as máquinas em movimento, pois não pousaram.
Nesse dia Mullon dispensou o procedimento metódico e parou a meio caminho assim que o sol se pôs. Às trinta e uma horas, já estavam em casa.
Mullon convidou Chellich para o jantar.
A vida a sós em sua casa deve ser muito monótona — disse.
Chellich deu de ombros.
Afinal, não estou numa estação de férias. Seria conveniente mandar imediatamente algumas pessoas ao acampamento, para que gritem, chamando Pashen. Quero falar com ele.
Onde quer encontrar-se com ele? — perguntou Mullon.
Peça-lhe que compareça à sua casa.
Fraudy e eu teremos alguma função? — perguntou Mullon.
A função será a de figurantes gratuitos sem texto — respondeu Chellich com um sorriso.
Alguns homens foram enviados ao acampamento, para avisar Pashen de que havia uma coisa importante a tratar. O oficial não teve a menor dúvida de que Pashen atenderia ao chamado e viria à cidade.
Assim que chegaram à casa de Mullon, Fraudy estava na porta.
Vejo que terei de colocar mais um talher — disse com uma risada e deu as boas-vindas a Chellich.
Você terá sua paga, Fraudy — disse Mullon. — Chellich nos apresentará um espetáculo.
O oficial não ficou muito satisfeito por Mullon ter falado nisso tão depressa. Fraudy ainda não sabia qual era o papel que ele desempenharia. Mas se ela ficasse fazendo perguntas, Chellich não conseguiria ocultá-lo por muito tempo, pois já fora uma agente especializada.
O jantar servido por Fraudy tinha os mesmos ingredientes de todos os jantares consumidos na época. Mas Chellich ficou surpreso ao constatar que Fraudy preparava a comida de maneira a torná-la muito mais gostosa que as refeições de solteiro a que estava acostumado. Fez uma observação nesse sentido e, com isso, conquistou a simpatia incondicional de Fraudy.
Quando ela estava acabando de tirar a mesa, Milligan entrou.
Pashen está a caminho — anunciou.
Vem para cá? — perguntou Chellich.
Milligan fez que sim.
Dali a alguns segundos, chegou Pashen. Entrou sem bater e sem cumprimentar e parou no meio da sala.
O que houve? — perguntou em tom áspero, dirigindo-se a Mullon.
Este lembrou-se do que o oficial lhe havia dito sobre o papel que deveria desempenhar e manteve-se calado.
Não seremos grosseiros como o senhor — disse Chellich, apontando para a última cadeira livre. — Faça o favor de sentar.
Pashen lançou-lhe um olhar de espanto.
Será que o senhor passou a mandar nesta casa?
O oficial não deu a menor atenção à pergunta.
Conforme sabe, nossa usina energética foi destruída pelos peepsies. Só dispomos de algumas velas, e não gostamos de ficar no escuro. Por isso gostaríamos de construir outra usina. O senhor acredita que seus amigos terão alguma objeção?
Acredito — respondeu Pashen com um sorriso de deboche. — Com a eletricidade, pode-se fazer muitas tolices. Tenho certeza de que não lhes permitirão a reconstrução da usina energética. De qualquer maneira, os geradores estão em poder de meus amigos.
Chellich acenou com a cabeça, como se não esperasse outra resposta.
Como é que os peepsies se comunicam com seu mundo? — perguntou de sopetão.
Por meio de um... — principiou Pashen, mas logo percebeu que caíra na armadilha de Chellich.
Um brilho de cólera surgiu em seus olhos.
O que é que o senhor tem com isso? — gritou. — Por que faz essa pergunta?
Quer dizer que o senhor sabe — constatou Chellich. — E o senhor nos contará.
Pashen levantou-se de um salto.
Não contarei coisa alguma — gritou.
O que posso é avisar meus amigos de que por aqui algumas pessoas estão ficando muito curiosas.
O oficial interrompeu-o com um gesto.
Sente, seu palhaço! — a calma com que falava já representava uma insolência.
Bem que poderia imaginar que não iríamos proferir ameaças vãs! Preste atenção: Os peepsies residem em barracas pressurizadas, não é?
De repente ouviu-se um suspiro de espanto. Quem o havia soltado: Fraudy, Mullon ou Milligan?
Pashen fitava Chellich com os olhos arregalados.
Quem foi... — gaguejou.
Chellich apontou para Pashen.
Quem contou foi o senhor, Pashen. É isso que direi aos peepsies. Sabe perfeitamente que eles vêm de um mundo onde a pressão atmosférica corresponde a menos de metade da do planeta Fera Cinzenta. O senhor ainda sabe que até nós tivemos certas dificuldades, quando pela primeira vez respiramos o ar deste planeta. Os peepsies só conseguem sobreviver neste planeta se passarem ao menos metade do dia sob a pressão atmosférica a que estão acostumados. Por isso trouxeram barracas pressurizadas, nas quais o ar se rarefaz até atingir a pressão desejada.
Suponhamos que durante sua busca os peepsies tivessem deixado de encontrar um único fuzil, o que é perfeitamente possível. Nesse caso, não precisaríamos fazer mais nada senão disparar uma bala contra cada barraca para abrir um pequeno furo. Haveria uma implosão. A modificação da pressão seria tão rápida que todos os peepsies, com exceção daqueles que estivessem fora das barracas, morreriam imediatamente. E os outros também não teriam muito tempo de vida, pois não haveria mais nenhuma barraca na qual pudessem abrigar-se.
E tudo isso aconteceria porque um certo Pashen, que se apresentou como amigo dos peepsies, contou a determinadas pessoas um segredo zelosamente guardado. Então, Pashen, o que acha?”
Pashen parecia uma estátua. Estava pálido como cera.
Seu... seu... — gritou.
O Oficial manteve-se calmo e esperou até que seu interlocutor recuperasse a fala.
Isso é uma mentira! — gritou Pashen. — Sabe perfeitamente que eu nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas.
Chellich deu de ombros.
Acha realmente que sou tão idiota? Não vou ter a mínima consideração pelo senhor.
Pashen refletiu intensamente. Chellich não se sentia tão tranqüilo como parecia. Era bem possível que a amizade entre Pashen e os peepsies já se tornara tão estreita que o traidor pudesse dizer tranqüilamente a esses seres que Chellich havia descoberto que os mesmos viviam em barracas pressurizadas, e agora afirmava que Pashen lhe contara isso, para fazer chantagem.
Mas, ao que parecia, Pashen nem contemplava essa possibilidade. Tinha o aspecto de um homem que se encontrava na cobertura de um grande edifício e não pudesse sair dali porque as escadas haviam pegado fogo.
Isso é uma chantagem! — disse depois de algum tempo.
Chellich acenou pachorrentamente com a cabeça.
Sim; eu sei.
O que quer de mim? — perguntou Pashen, depois que percebera que não havia nenhuma saída.
Quero saber como é o instrumento com que eles se comunicam com seu mundo e quais são as palestras mantidas.
Pashen apertou as mãos.
Qual é a garantia que eu tenho de que os senhores não me trairão se eu lhes contar?
Nenhuma — respondeu Chellich sem a menor comoção. — A única garantia que lhe dou é esta: Se o senhor não falar, daqui a dois minutos estarei no acampamento e contarei tudo.
O olhar de Pashen exprimia medo.
Está bem — disse. — Utilizam um simples transmissor eletromagnético que opera na faixa decimétrica. Trabalham com raios direcionais e só transmitem dois sinais: um sinal de rotina, irradiado aproximadamente a cada cinco horas, a fim de que em seu mundo fiquem sabendo que tudo está em ordem, e um sinal de perigo, que só poderá ser irradiado se houver alguma emergência.
Como são esses sinais?
Não sei. No transmissor há um botão preto e um vermelho. Comprimindo o botão preto, transmite-se o sinal de rotina, enquanto o botão vermelho corresponde ao sinal de perigo.
Quer dizer que o sinal é automático. Quais são as mensagens que eles recebem do mundo dos peepsies?
Nenhuma.
O que acontecerá se alguém der o sinal de perigo?
Não tenho certeza, mas acredito que nesse caso a grande nave espacial voltará.
Só aquela?
Acho que não têm muitas. Estão no estágio inicial da navegação espacial.
Chellich acenou com a cabeça e refletiu sobre o que acabara de ouvir.
Tenho um trabalho para o senhor — disse depois de algum tempo. — Descubra, com a precisão de um minuto, o intervalo exato em que é irradiado o sinal de rotina. Ande depressa e volte assim que tiver descoberto. Onde está instalado o transmissor?
Na última barraca do lado sul, isto é, na que fica mais próxima da Adventurous.
Está bem. Os peepsies têm aparelhos de luz infravermelha?
Até hoje não vi nenhum.
Mantêm sentinelas regulares?
Nas barracas, há pequenas vigias revestidas de plástico transparente. Vez por outra olham pelas mesmas. Além disso, um guarda fica constantemente junto ao morteiro, mas quase sempre está dormindo. É estranho, mas a elevada pressão atmosférica os cansa muito depressa.
Não há nada de estranho nisso — disse Chellich. — Qualquer variação da pressão atmosférica, para cima ou para baixo, cansa qualquer pessoa. Gostaria que o senhor me desse mais um detalhe. Evidentemente suas barracas possuem comportas de ar. Quanto tempo gastam com a adaptação da pressão?
Ao que parecia, Pashen já havia recuperado o equilíbrio psíquico. Respondeu em tom muito tranqüilo:
Geralmente levam uns dez minutos.
Mas quando saem de lá ainda estão bem lerdos.
Isso não é de admirar — disse Chellich. — Uma diferença de pressão de quinhentos torr não é brincadeira. O efeito é o mesmo que o senhor sentiria se descesse, em dez minutos, seis mil e quinhentos metros de altura ao nível do mar. Nem mesmo um pára-quedista realiza uma façanha como esta.
Parecia que Chellich queria perguntar mais alguma coisa. Dava a impressão de ter esquecido. Mas subitamente seu rosto iluminou-se.
Ah, sim. Já esteve no interior de uma das barracas dos peepsies? Como é que a gente se sente lá dentro?
Miseravelmente mal — respondeu Pashen. — Tive um zumbido nos ouvidos, tontura e falta de ar.
Mas a gente agüenta?
Agüenta, sim, especialmente se a gente não se esquece das novas condições e não faz muitos movimentos.
Muito bem — disse Chellich. — Por enquanto é só isto. Volte ao acampamento e descubra o intervalo. E nunca se esqueça do que os peepsies farão do senhor se descobrirem que nos revelou o segredo das barracas pressurizadas.
Pashen levantou-se e saiu apressadamente.
No interior da casa de Mullon, todos soltaram um suspiro de alívio. Como sempre, Fraudy foi a primeira que deixou as próprias idéias de lado e começou a fazer perguntas.
Santo Deus! — disse em tom petulante. — Como foi que descobriu tudo isso?
Basta um pouco de observação — disse Chellich com a maior naturalidade. — Estive várias vezes lá fora, de noite, e dei uma olhada nas barracas. Sabe como percebi?
Não — respondeu Fraudy.
Pela maneira como estão pregadas as pequenas vigias. Nota-se perfeitamente a parte mais grossa da emenda, correspondente à vedação.
Quando chegasse a hora de verem de perto as barracas dos peepsies, iria rezar para que realmente encontrassem os sinais de vedação. Era claro que jamais vira nada disso, pois nunca chegara tão perto das barracas.
Pouco depois de Pashen ter saído, O’Bannon e Wolley entraram. Queriam saber por que o traidor parecia tão perturbado.
Mullon contou o que havia acontecido.
O oficial pediu aos três que, por enquanto, guardassem segredo. Depois despediu-se e foi para casa.
Fez um café com o fogareiro de combustível sólido que havia arranjado no arsenal e pôs-se a projetar o detonador da bomba.
Assim que terminou o primeiro esboço, lembrou-se de que não precisaria seguir o plano inicial. Se conseguissem eliminar ou neutralizar os duzentos peepsies que se encontravam no acampamento, as coisas seriam muito mais simples.
Até então tivera a intenção de utilizar o material físsil de sua máquina para fabricar uma das metades da bomba, e retirar dos outros quatorze reatores uma quantidade tal que bastasse para a segunda metade. Dessa forma, as máquinas continuariam a funcionar.
Mas agora, isso já não seria necessário. Se os duzentos peepsies não estivessem mais por lá para incomodá-lo, poderia retirar todo o material físsil de outra máquina para fabricar a segunda metade da bomba. Não haveria mais ninguém que pudesse incomodar-se com o fato de que uma das máquinas deixara de funcionar.
Sim, era isso mesmo. Dali a três horas, havia elaborado no papel um detonador que corresponderia a todas as exigências.
Contemplou sua obra com certo orgulho e satisfação e teve a palestra usual com o Capitão Blailey. Durante o diálogo nenhum dos interlocutores disse qualquer coisa de interessante — Chellich pretendia apresentar posteriormente o ataque de surpresa contra os duzentos peepsies como obra dos colonos — e foi para a cama.
5



Pashen realmente apareceu ao nascer do sol, quando ainda eram poucas as pessoas que andavam pela rua. Estava abatido, mas não se notava o menor sinal de medo.
São quatro horas e quarenta e oito minutos — disse a Chellich, que o aguardava à frente de sua casa. — Exatamente. Daqui a trinta e dois minutos deverá ser expedido o próximo sinal.
O senhor já tem um relógio adaptado?
Sem dizer uma palavra, Pashen mostrou-lhe o relógio de pulso que trazia o novo mostrador, regulado às condições reinantes no planeta Fera Cinzenta.
O oficial ficou satisfeito.
Quatro e quarenta e oito!”, rememorou. Teve certeza de que nunca mais se esqueceria desses números.
Pashen dispôs-se a retirar-se. Mas antes disso disse:
Se por acaso os peepsies perguntarem alguma coisa, estive aqui para recomendar mais pressa no trabalho. Combinado?
Chellich notou que, pela primeira vez, Pashen usava a palavra peepsies, em vez de falar em meus amigos ou nossos amigos. Começava a adaptar-se à nova situação, a ajustar a bandeira à nova direção do vento.
Está bem — respondeu Chellich. — Isto é do interesse de todos. Mas sei de outra coisa. Há de concordar em que o povo de Greenwich não anda muito satisfeito com suas ações. O senhor poderia, por exemplo, ter a idéia de pegar algumas armas e um helicóptero, e dar o fora. Acontece que o helicóptero é um veículo de importância vital para Greenwich. O senhor seria morto imediatamente, se o descobrissem com o helicóptero roubado. Se permanecer no acampamento e aguardar o desenrolar dos acontecimentos, creio poder garantir que escapará com vida. Compreendeu?
Pashen fez cara de espanto.
Não sei como poderiam encontrar-me depois que tivesse ido embora no helicóptero — respondeu.
O fato de o senhor não saber — disse Chellich — não significa que realmente não conseguiríamos encontrá-lo. Muita coisa mudou depois que se bandeou para os peepsies. Se eu fosse o senhor, não faria mais nenhuma bobagem.
Pashen franziu a testa e retirou-se sem dizer mais uma única palavra.

* * *

Chellich e Mullon aproveitaram o dia para elaborar um plano de batalha. Para Mullon tudo parecia muito simples. Depois de dominar a sentinela dos peepsies, postada junto ao morteiro, arranjariam alguns fuzis e atirariam contra as barracas, para abrir um buraco nas mesmas. Com isso, o problema estaria resolvido.
Mas Chellich disse que não pensava em matar duzentos peepsies sem mais nem menos, apenas porque tinha preguiça de elaborar outro plano.
Mullon argumentou com a morte de Ferris e dos Loft, que haviam sido trucidados pelos peepsies sem que houvesse qualquer motivo para isso. Porém, o oficial era de opinião que um assassinato não justifica outro.
Depois de algum tempo, exclamou em tom exaltado:
O senhor quer ser um terrano ou um bárbaro?
Por estranho que pudesse parecer, os efeitos desse argumento foram imediatos. Mullon abandonou seu plano e confessou que se deixara dominar pela raiva. Chellich percebeu que, em sua mente, a vontade de ser um verdadeiro terrano crescera bastante.
Dali em diante, Mullon limitou-se a escutar. Chellich expôs um plano que em sua opinião permitiria prender os peepsies sem assumir maiores riscos e sem usar de violência. Obtendo a aprovação integral de Mullon, esse plano foi comunicado aos outros homens durante a pausa do almoço.
Às trinta e uma horas, voltaram para Greenwich, e depois do jantar começou a ser formado o exército secreto de quinhentos homens, que desfecharia o ataque contra o acampamento dos peepsies. Pediu-se aos outros habitantes de Greenwich que abandonassem a cidade, já que se tinha de contar com a possibilidade de que os peepsies disparassem alguns tiros de morteiro antes que os terranos pudessem quebrar a resistência deles.
Assim que tudo estava preparado, Chellich mandou que os homens fossem para a cidade. A evacuação seria iniciada à zero hora, enquanto o ataque ao acampamento estava previsto para a uma e trinta.

* * *

Chellich levantou pouco depois da meia-noite e viu que metade dos habitantes já havia saído da cidade. Tudo estava correndo conforme ordenara. Ao que parecia, os peepsies não estavam percebendo nada; ao menos, reinava no acampamento o silêncio de sempre.
À uma e meia em ponto, os motores pesados das máquinas começaram a trabalhar. Atrás de cada um dos colossos, estavam abrigados vinte homens e, quando os veículos se puseram em movimento, seguiram na sombra da estrutura alta e larga.
Desta vez, a coluna dirigiu-se para o sul. O plano de Chellich baseava-se na suposição de que, depois que Pashen estivera na cidade para recomendar maior pressa nos trabalhos, os peepsies não poderiam estranhar o fato de que os homens de Greenwich resolvessem trabalhar de noite. De qualquer maneira, surgiu um momento crítico. Este se deu quando as máquinas pesadas, ao saírem da cidade pelo lado sul, subitamente dobraram para a esquerda e pararam ao longo do acampamento.
Naquele momento, os duzentos homens restantes já se haviam dividido em dois grupos de cem, postados ao leste e oeste do acampamento, sob o abrigo do capim. Por certo os peepsies não haviam percebido nada, pois se havia alguma coisa que lhes despertava a atenção, eram as manobras das máquinas.
Chellich, Mullon e Milligan aproximaram-se do acampamento, vindos do leste. Mantiveram-se fora do alcance da visão dos peepsies, até que as quinze máquinas tivessem terminado sua manobra e despertado, por completo, a atenção dos peepsies.
Depois aproximaram-se do acampamento.
Pararam entre duas barracas, que não ficavam a mais de vinte metros do morteiro e das granadas empilhadas numa armação móvel. Observaram a sentinela, que se levantara e estava fitando as máquinas.
Segundo parecia, nas barracas tudo continuava em silêncio.
Nunca imaginava que fosse tão fácil — disse Chellich. — Vamos agarrá-lo.
Irromperam entre as barracas e precipitaram-se sobre o peepsie. Este percebeu que atrás dele alguma coisa não estava em ordem e virou-se abruptamente. Chellich viu-o tirar uma arma, uma perigosa pistola de ultra-som, e apontá-la.
Mas Milligan aproximou-se pelo lado e bateu fortemente embaixo de seu braço. A arma voou longe e o peepsie soltou um grito chiante.
Chellich deu o sinal combinado: um assobio por entre os dentes. Os homens que esperavam ao leste e ao oeste do acampamento puseram-se em movimento. Armados apenas de paus, postaram-se de ambos os lados das saídas das comportas para dar uma recepção condigna aos peepsies que, dali a pouco, sairiam apressadamente das barracas.
Enquanto isso Chellich e seus companheiros viraram o morteiro, apontando-o de modo a cobrir a parte sul do acampamento. A um novo sinal, acorreram vinte dos homens que se mantinham escondidos atrás das máquinas e começaram a empurrar o morteiro e a armação com as munições em direção às máquinas. O oficial supervisionou o transporte das granadas.
Quando o morteiro desapareceu atrás das máquinas, o depósito de munições — bem mais pesado — só havia percorrido a metade do caminho. Mas logo os outros homens vieram ajudar os que estavam empurrando, e a armação passou a deslocar-se a uma velocidade maior.
Naquele momento, abriu-se a primeira comporta de ar e delas saíram alguns peepsies confusos e cambaleantes. Os habitantes de Greenwich estavam a postos: com algumas pancadas secas colocaram fora de combate os magricelas atordoados com a súbita mudança de pressão.
Os terranos desarmaram-nos. Ainda não sabiam como manejar as pistolas de ultra-som, mas as armas apontadas evitaram que outros peepsies saíssem das barracas.
Enquanto isso, outro grupo de habitantes de Greenwich tomou de assalto as barracas, nas quais, na opinião de Pashen, estavam guardados os fuzis e as pistolas. Agarraram o que conseguiram carregar e correram para o leste, em direção às máquinas enfileiradas.
Simultaneamente, Chellich preparava-se para dar o terceiro sinal, que viria marcar o início da fase decisiva do combate. Combinara que, ao primeiro tiro de morteiro, os homens se retirariam do acampamento.
Mas mesmo um sujeito como Chellich teve dificuldade em compreender com a necessária rapidez o manejo da arma que era produto de tecnologia totalmente estranha. Na parte traseira, havia um painel com cerca de uma dezena de chaves, botões e alavancas. Logo descobriu que três destas serviam para movimentar o cano, dois botões estavam ligados a uma escala iluminada na qual se viam estranhos caracteres e um ponteiro deslizante. Provavelmente tratava-se de um dispositivo destinado a realizar os cálculos de pontaria. O oficial retirou a placa do painel. Viu que de dois botões coloridos saíam fios que terminavam no fundo do cano, e chegou à conclusão de que esses botões teriam algo a ver com o mecanismo de detonação.
Naquele momento, apareceu Milligan. Estava ofegante.
Não acredito que nossos homens conseguirão segurar os peepsies por muito tempo no interior das barracas, Sir!
No estado de excitação em que se encontrava, usava o tratamento dispensado aos militares hierarquicamente superiores, embora não soubesse quem era Chellich. Depois, indagou:
Será que não poderia disparar logo?
Dê-me uma ajuda — pediu Chellich. — E reze para que este morteiro funcione da mesma forma que um morteiro terrano.
Usando as três alavancas cujas funções já tinha descoberto, deu ao cano uma certa inclinação. Assim a granada disparada detonaria bem além do acampamento dos peepsies.
Milligan pegou uma das granadas de cerca de vinte centímetros de diâmetro, e colocou-a na boca do cano, com a parte achatada para baixo. Lançou um olhar para Chellich.
Dentro de instantes, poderemos ser estraçalhados!
Procure abrigar-se assim que solte a granada! — gritou para Milligan.
Este fez um gesto afirmativo.
Tudo preparado, Sir — disse. — Aguardo o comando.
Chellich observou mais uma vez o painel desmontado e levantou o braço.
Atenção... Já!
Milligan limitou-se a afastar as mãos. O pesado projétil desapareceu no interior do cano, enquanto Milligan saltava para o lado e se atirava ao solo.
Chellich agachou-se atrás da carreta do morteiro.
Por vezes, o perigo traz um aumento extraordinário da receptividade dos sentidos humanos. O oficial ouviu perfeitamente o ruído provocado pela granada enquanto esta descia pelo cano e o estalo que surgiu ao desencadear a ação de um mecanismo. Seguiu-se um estrondo. Porém, mais fraco do que Chellich esperara. Após isso, um assobio.
O projétil saiu numa trajetória parabólica. Emitia um estranho ruído matraqueante enquanto passava por cima do acampamento. Finalmente desapareceu na escuridão.
Daqui a pouco deve explodir,” pensou Chellich. “Não... ainda não... Agora. Caramba! Já deveria ter batido no solo...”
O tempo arrastava-se com uma estranha lentidão. Ainda se ouvia bem ao longe o som produzido pela granada, fato que denotava a pouca estabilidade de sua trajetória.
Por um segundo, o ruído cessou.
Ao sul, bem longe do acampamento, surgiu um raio fulgurante. O oficial sentiu-se com a visão ofuscada. No mesmo instante, o ribombar da explosão passou por cima das máquinas.
O tiro foi muito longo”, pensou Chellich. “Devemos abaixar o cano.”
Não tinha a intenção de atingir o acampamento. Não estava interessado em matar os peepsies. Mas teria preferido que a granada tivesse detonado a poucos metros do acampamento, e não a uns quinhentos metros de distância. Este fato mostrava aos peepsies que não sabia lidar com o morteiro.
Subitamente os homens, que se encontravam por perto, entraram em movimento. Alguém gritou:
Foi um excelente tiro, Mr. Chellich! Mostre-lhes com quantos paus se faz uma canoa. Já estamos com os fuzis.
Cale a boca! — disse o oficial em tom zangado. — Foi um tiro horrível. Postem-se por aqui e detenham os peepsies quando eles aparecerem.
Baixou o cano do morteiro e, com o auxílio de Milligan, disparou outro tiro. Desta vez a granada passou pouco acima do acampamento e detonou tão próxima das barracas que estas começaram a oscilar.
Os homens, que até então se haviam mantido junto às comportas de ar, para evitar que os peepsies saíssem, se retiraram. Os peepsies perceberam e avançaram.
Chellich pediu que um dos terranos lhe desse uma das pistolas de ultra-som de que os homens se haviam apoderado. Examinou-a, enquanto a seu lado e acima dele, sobre as máquinas enfileiradas, os fuzis começavam a disparar. O avanço desordenado dos peepsies cessou de vez. Os magricelas esconderam-se atrás das barracas e aguardaram um momento mais favorável.
Chellich largou a pistola para disparar outro tiro de morteiro. Girou o cano para o leste e lançou uma granada bem perto do acampamento, mais ou menos no lugar em que pretendia. Isso bastou para que os peepsies compreendessem que ele já aprendera a lidar com a arma.
Os homens de Greenwich pararam com seus disparos assim que os peepsies se abrigaram. O oficial terrano teve tempo de examinar a arma de ultra-som.
Finalmente descobriu o mecanismo de travamento. Notou que o cano afunilado girava dentro de certos limites em torno de seu eixo. Girando-o para a direita, a arma estava travada. Mas Chellich virou o cano para a esquerda e apontou-o para um cartucho jogado no capim pesado. Este emitiu um chiado e transformou-se num montículo de poeira metálica.
Nesse instante, alguém gritou:
Estão chegando! À esquerda; saem de trás das barracas.
Chellich levantou-se. Os peepsies se haviam deslocado furtivamente até a extremidade norte do acampamento e, emitindo seus pios e chiados, irrompiam por trás da barraca mais próxima às máquinas. As armas voltaram a crepitar. Um dos defensores da posição de Greenwich soltou um grito e caiu de cima da máquina. Chellich viu-lhe uma ferida sangrenta situada bem embaixo da orelha. Era uma ferida produzida por ultra-som.
O oficial jogou-se para a frente. Atirando sem cessar com suas pistolas, os peepsies avançaram até dez metros, obrigando os homens que disparavam com os fuzis a abrigar-se. Chellich desferiu uma salva cantante de ultra-som e criou uma tremenda confusão nas fileiras dos peepsies. Os terranos aproveitaram a situação, saíram de seus abrigos e abriram um fogo bem nutrido, produzindo grandes claros nas fileiras dos atacantes.
Para os peepsies foi o bastante. Fugiram e voltaram a desaparecer atrás das barracas.
Chellich aproveitou a pausa para distribuir as outras pistolas de ultra-som de que seus homens se haviam apoderado e explicar como lidar com as mesmas. Quando os peepsies lançaram o terceiro ataque, avançaram apenas alguns metros além das barracas e logo tiveram de recuar.
Chellich não estava disposto a perder muito tempo. Com o auxílio de Milligan, lançou uma granada tão perto da barraca que ficava mais ao norte que as “paredes” desta se abaularam depois de perfuradas pelos estilhaços. O ar penetrou, e os peepsies começaram a soltar assobios lamentosos.
Quinze minutos passaram-se sem que acontecesse nada. O oficial mandou que Milligan fosse pegar outra granada. Naquele instante, um vulto magro surgiu entre as barracas, abanando com um pedaço de pano e trazendo preso às costas um aparelho do tamanho de uma mala.
Milligan voltou a colocar a granada na pilha. O peepsie que segurava o pano parou um instante, em atitude hesitante. Mas a um sinal de Chellich criou coragem e aproximou-se. Começou a chiar e piar, e antes que chegasse ao lugar em que Chellich se encontrava, uma voz mecânica saiu do interior da tal mala:
O que é isso? Por que nos atacaram?
O oficial respondeu:
Se veio para negociar, não nos faça perguntas idiotas. Não temos o menor prazer em ser seus escravos. Se dentro de quinze minutos não capitularem incondicionalmente, estraçalharemos suas barracas. Volte para junto de seus homens e diga-lhes que saiam um por um e atirem suas armas nesse lugar, entre as barracas. Sabe o que vem a ser quinze minutos?
A mala traduziu a exigência de Chellich na língua dos peepsies. O mensageiro ouviu atentamente, virou-se e, sem dizer mais uma única palavra, voltou para o lugar de onde viera.
Chellich aguardou com impaciência. A luta ainda não estava decidida. Se o espírito combativo dos peepsies fosse maior do que imaginava, poderiam lançar um quarto ataque. E se conseguissem agir de acordo com um plano bem elaborado, em vez de avançar simplesmente aos chios e assobios, as chances deles de êxito não seriam tão limitadas.
O oficial ficou de olho na última das barracas. Era lá que estava o transmissor de que Pashen lhe falara, e era de se esperar que, antes de capitularem, os peepsies procurassem transmitir o sinal de emergência. Talvez fosse possível que, armados apenas com paus, os dez homens que guardavam a tal barraca não conseguissem conter o ímpeto dos magricelas. Chellich mandou que mais três homens armados com pistolas de ultra-som fossem para lá.
Quando haviam passado uns dez minutos dos quinze que Chellich concedera aos peepsies, ouviu-se um grito agudo e estridente vindo da periferia sul do acampamento. Logo após ouviu-se uma voz retumbante — provavelmente era a de O’Bannon — que gritou:
Um deles tentou, Mr. Chellich. Conseguimos pegá-lo.
O oficial acenou com a cabeça; parecia satisfeito. Lançou um olhar para Milligan, que se mantinha de pé junto à pilha de munições, observando vez por outra para o relógio. Ao perceber o olhar de Chellich, piscou com um olho e sorriu. O oficial cumprimentou-o com um gesto.
Dali a pouco, o peepsie com o pedaço de pano voltou a aparecer, desta vez mais ao longe, num lugar em que mal e mal se conseguia vê-lo em meio à escuridão.
Fazia sinais com a mão, mas não se aproximava. Outro peepsie passou entre duas barracas e atirou ao chão alguma coisa que não se via o que era. Lançou um olhar atento para Chellich. Este lhe fez um sinal. O peepsie aproximou-se.
Revistem-no para ver se traz armas! — ordenou o oficial aos homens que se encontravam atrás dele.
Um terceiro peepsie apareceu, jogou alguma coisa ao chão e seguiu o primeiro. O primeiro continuava semi-imerso na escuridão e abanando o pedaço de pano.

* * *

Dali a uma hora, todos os peepsies estavam presos em lugar seguro. Não houvera outros problemas. Estavam prontos para capitular; o susto era tamanho que nem pensavam em prolongar a resistência. Em seus rostos desenhava-se o pavor, reconhecível também nos seus gestos. Pavor este provocado pelo fato de que um punhado de gente, que se acreditava estar totalmente subjugada, se atrevera a rebelar-se e ainda tivera a “insolência” de ser bem sucedido.
Ao todo foram presos cento e oitenta e três peepsies; cerca de quarenta estavam feridos. Vinte haviam sido mortos. Do lado dos homens de Greenwich havia um único ferido.
Constatou-se que todas as barracas estavam intatas, com exceção daquela perfurada pelos estilhaços de granada. Os terranos revistaram-nas, à procura de armas escondidas. Após isso, os peepsies foram abrigados nas tendas pressurizadas, a fim de que sua saúde não fosse prejudicada pela elevada pressão atmosférica reinante em Fera Cinzenta. Estavam indefesos e não poderiam fazer mais nada. Deixaram que eles mesmos cuidassem de seus feridos e procedessem com os cadáveres segundo o ritual de seu mundo.

* * *

Pashen saiu de uma das barracas situadas na parte sul do acampamento. Parecia muito perturbado; provavelmente passara por um terrível susto.
Sem dizer uma palavra, deixou que o levassem e o trancassem numa das casas cujas portas já haviam sido reparadas.
Chellich postou alguns guardas bem armados à frente da barraca em que ficava o transmissor e incumbiu um dos homens de comprimir o botão preto do aparelho a intervalos regulares de quatro horas e quarenta e oito minutos.
Outra fileira de guardas cercava o acampamento, a fim de reprimir no nascedouro qualquer tipo de combatividade que voltasse a surgir na mente dos peepsies.
Chellich pensou que isso bastaria. O resto de seus homens e as máquinas voltaram à cidade.

* * *

No dia seguinte, o oficial iniciou os trabalhos de construção da bomba. O detonador, o mecanismo que no momento adequado reuniria as duas metades da bomba numa massa supercrítica, pôde ser construído sem sua vigilância. No entanto, fez questão de estar presente aos trabalhos de remodelação com matéria físsil das duas esferas que haviam sido retiradas de dois dos reatores.
A bomba teria de ter o formato esférico, pois a matéria físsil de cada reator tinha de ser reduzida a uma semi-esfera. Dali resultariam certas “lascas” que, face às suas reduzidas dimensões e ao elevado grau de radiatividade, poderiam representar um perigo.
Chellich exigiu que quem trabalhasse na remodelação dos reatores teria de usar trajes protetores de radiações. Exigiu também que as ferramentas utilizadas no trabalho fossem enterradas. A pequena sala onde realizaram-se os trabalhos foi lacrada, para que nunca mais fosse usada.
Chellich procurou calcular o poder explosivo da bomba. Com os trabalhos, a massa físsil era reduzida em alguns gramas. Por isso, viu-se obrigado a revestir o reator com uma camada reflexiva, para que não houvesse o menor risco. Com esse refletor, a bomba teria, segundo os cálculos do oficial, uma força explosiva de quinze mil toneladas de TNT. No entanto, não pôde deixar de confessar que poderia ter havido um engano de trinta por cento para mais ou para menos, já que não dispunha dos meios necessários a um cálculo mais preciso.
Esse imenso poder explosivo, se bem que fosse bastante reduzido em comparação com o das bombas produzidas na Terra, trazia novos problemas, sobre os quais Chellich ainda não refletira detidamente.
Era de supor que, quando tivessem passado os quatro meses, a grande espaçonave dos peepsies fosse pousar no mesmo local em que descera na noite do dia 15 para o dia 16 de janeiro. Esse lugar ficava a cerca de oito quilômetros de Greenwich, e estava separado da cidade pelos destroços da enorme Adventurous. Por isso não era de se recear que houvesse qualquer efeito direto da explosão sobre a cidade, mas a radiatividade produzida pela bomba poderia representar um perigo futuro para seus habitantes.
Tentou calcular o volume total das radiações que seriam produzidas pela bomba e concluiu que era tão elevado que justificava a evacuação da cidade. E, depois da explosão, não poderiam voltar à mesma. Um grupo de trabalho, equipado com trajes protetores, teria de desmontar as casas para reconstruí-las em lugar mais seguro. O trabalho não seria muito difícil, já que todas eram feitas de peças pré-fabricadas.
Chellich procurou explicar à Assembléia Popular que essa medida seria imprescindível. Os membros daquele congresso não se entusiasmaram com a idéia, mas chegaram à conclusão de não haver outra alternativa.
Também conseguiu convencer os representantes da Assembléia de que, apesar da situação tensa, os trabalhos de lavoura deveriam prosseguir. Muitos membros foram de opinião que havia coisa mais importante a fazer. Mas Chellich via aproximar-se o momento em que os habitantes de Greenwich começariam a sofrer de alergia provocada pelos alimentos em conserva altamente concentrados. Daí resultariam as doenças do estômago. Soube expor muito bem os seus argumentos, e a Assembléia acabou concordando com o preparo de uma área de quarenta quilômetros quadrados destinada ao plantio de cereal panificável.
Pouco tempo depois do ataque ao acampamento dos peepsies, a calma voltou a reinar no planeta Fera Cinzenta; mas era uma calma enganadora.

* * *

Nos quinze dias que se seguiram à conquista da liberdade, Chellich parecia sofrer de angústias. Não se mostrava tão alegre como de costume e Mullon, que acreditava ser amigo de Chellich, não parava de fazer perguntas sobre o motivo de sua tristeza.
Mas só conseguiu saber o que realmente estava ocorrendo quando Chellich disse com um suspiro de alívio.
Acho que o pior já passou.
Mullon fez um gesto de assentimento.
Fico satisfeito em saber disso. Qual é esse pior?
Pense um pouco — respondeu Chellich. — Suponha que Pashem tivesse mentido quando nos falou a respeito do transmissor. Se tivesse indicado um intervalo errôneo para a transmissão do sinal de rotina... Já imaginou o que aconteceria?
Mullon espalmou as mãos.
É simples. Os peepsies teriam pegado sua espaçonave e viriam ao planeta Fera Cinzenta para verificar o que estava acontecendo.
Exatamente — confirmou Chellich. — Acontece que não fizeram nada disso Logo, as informações fornecidas por Pashen são corretas.
Mullon lançou-lhe um olhar de espanto.
Como soube disso?
No momento, a distância entre o planeta Fera Cinzenta e Mirta XII, que é o mundo dos peepsies, é pouco inferior a quatrocentos milhões de quilômetros. Segundo os cálculos do Capitão Blailey, a nave dos peepsies não desenvolve mais que trezentos mil quilômetros por segundo. Conclui-se que, na melhor das hipóteses, levaria dez dias para fazer a viagem de Mirta XII ao planeta Fera Cinzenta. Tenho certeza de que os peepsies se teriam apressado, se notassem que alguma coisa não está certa. Acontece que quinze dias já se passaram desde o ataque, e ainda não vimos o menor sinal da nave. Então, ao que tudo indica, não perceberam nada. Meu raciocínio não lhe parece lógico?
Mullon fez um gesto afirmativo.
Muito lógico — disse.

* * *

No fim do segundo mês, um grupo começou a construir uma espécie de abrigo gigantesco junto ao rio que passava perto de Greenwich. Nesse abrigo — protegido contra o vento e as águas e que, se necessário, poderia ser coberto com grandes encerados — os habitantes da cidade estariam protegidos contra os efeitos das radiações até que suas casas fossem reconstruídas.
Segundo os cálculos de Chellich, uns três ou quatro dias se passariam desde a evacuação da cidade até a reconstrução das casas. Não era muito tempo, e para os habitantes de Greenwich, que já estavam acostumados a outras provações, a permanência no abrigo não representaria uma carga excessiva.
O abrigo ficava vinte quilômetros ao nordeste de Greenwich, bem além dos limites de eficácia da bomba. A nova cidade seria erguida bem perto desse lugar.
No fim do terceiro mês, os cento e oitenta peepsies, que se mantiveram calmos e obedientes, foram evacuados juntamente com as barracas pressurizadas e instalados junto ao rio. Apenas o transmissor permaneceu no mesmo lugar, pois, com o transporte, poderia ser danificado.
Nesse meio tempo os trabalhos de semeadura do trecho de quarenta quilômetros quadrados haviam sido concluídos e as plantas estavam nascendo. Segundo a opinião dos técnicos, realmente se poderia contar, conforme as exigências dos peepsies, com um produto que corresponderia a duas mil vezes a quantidade da semente.

* * *

Nos últimos dias do terceiro mês, o nervosismo crescia constantemente. Chellich não pretendia iniciar a evacuação antes que isso se tornasse necessário; esperava pelo sinal de Blailey. Os aparelhos existentes a bordo da gazela permitiriam a Blailey localizar a nave dos peepsies em tempo, para que os habitantes da cidade pudessem transferir-se calmamente para o abrigo montado junto ao Rio Verde; agora, que esse curso de água repentinamente se tornara tão importante, resolveram dar-lhe um nome.
Acontece que só Mullon conhecia os contatos misteriosos de Chellich. Por isso, os menos corajosos acharam que a demora do oficial era irresponsável, ao passo que para os mais corajosos era inexplicável.
Chellich recebeu os ataques com o maior estoicismo. Sabia que, assim que a bomba explodisse, a raiva se desvaneceria.
Na madrugada do dia 15 de abril de 2.041, tempo de Fera Cinzenta, o oficial foi despertado por um zumbido do rádio de pulso. Colocou o aparelho em funcionamento e ligou para a recepção.
Flor de Havaí — disse a voz áspera de Blailey.
A flor de Havaí está a caminho de Taiti — respondeu.
Fizemos uma localização na direção de Mirta XII — explicou Blailey. — Distância vinte e cinco vezes dez na nona potência, velocidade novecentos mil. Já iniciaram a manobra de frenagem. Ao que parece, não têm muita pressa.
Obrigado — respondeu Chellich. — O senhor conhece os dados da frenagem? Quando deverá estar aqui?
Entre trinta e sete e quarenta horas a partir de agora. Tudo em ordem por aí?
Tudo — respondeu Chellich.
Ainda bem. Fico torcendo pelo senhor. Quando tudo tiver passado, teremos muito para conversar.
Ah, é? — perguntou Chellich.
É, sim. Na Terra já estão informados sobre o que está acontecendo. Acham elogiável a energia dos colonos e chegaram à conclusão de que no futuro deverão ser apoiados em sua luta contra os peepsies. Será que o senhor acredita que depois da destruição daquela nave espacial a paz reinará para todo o sempre?
É claro que não, Sir.
Pois então, a partir do momento em que a bomba for detonada, o planeta Fera Cinzenta se encontrará em alarma de primeiro grau. Por enquanto estaremos sós, mas se a situação se tornar mais séria receberemos um cruzador da classe Terra.
Chellich reprimiu um grito de alegria.
O senhor disse alguma coisa? — perguntou Blailey. — Não? Bem, pelo que ouvi falar querem transformar Mirta VII numa base de nossa frota espacial. Por qualquer razão, o lugar deve ser favorável. Boa sorte! Precisa de alguma coisa?
Não, obrigado — respondeu Chellich. — Os colonos preferem fazer o trabalho sozinhos.
Hum — fez Blailey. — Meus respeitos.

* * *

Ao nascer do sol, a cidade começou a ser evacuada. Pelo meio-dia, metade dos habitantes já se havia transferido para o abrigo, situado junto ao Rio Verde. Às trinta horas, não havia mais ninguém na cidade, com exceção dos cinco homens incumbidos da detonação da bomba.
Blailey voltara a chamar Chellich e o avisara de que o pouso da espaçonave era esperado para o tempo situado entre sete horas e sete e trinta.
Pouco depois do pôr do sol, Chellich e Mullon subiram à máquina em cujo interior estava instalada a bomba e foram até as proximidades do local de pouso.
O que acontecerá se resolverem pousar em outro lugar? — perguntou Mullon.
Chellich olhou-o de lado.
Nesse caso, um de nós terá de subir à máquina e levá-la ao local adequado.
Mas os peepsies o verão! E não deixarão de tirar suas conclusões...
Sem dúvida — começou Chellich. — Acontece que o perigo será muito menor do que o senhor pensa, pois na hora do pouso estará escuro. Além do mais, o helicóptero está pronto para decolar. Se necessário, o homem que dirigir a máquina com a bomba poderá ser retirado pelo caminho mais rápido. Não se esqueça de que a espaçonave dos peepsies é um veículo pouco ágil. Não é capaz de uma decolagem-relâmpago. Não conseguirão afastar-se antes de detonarmos a bomba. Que horas são?
Mullon informou.
Daqui a duas horas teremos de comprimir o botão negro — disse Chellich. — Senão acabarão desconfiando no último instante.
Largaram a máquina e voltaram à cidade a pé.

* * *

Dormira um pouco; os outros, ou seja, Mullon, Milligan, O'Bannon e Wolley não conseguiram. Estavam reunidos na casa de O’Bannon, em torno da mesa sobre a qual estava o detonador da bomba.
No momento em que Chellich se levantou e surgiu na porta, Wolley estava dizendo:
É esquisito. Basta mover esta chave, e a dez quilômetros daqui o inferno estará às soltas.
O oficial bocejou.
Se o senhor gosta disso, poderá fazê-lo daqui a pouco, Mr. Wolley. Que horas são? Falta pouco para as seis? Maldita espera! Alguém tem café?
Temos muito mais do que o senhor poderia suportar — disse O’Bannon, trazendo um enorme bule. — As xícaras estão ali.
Chellich serviu-se de café e perguntou:
Alguém cuidou do transmissor?
Conforme o combinado — disse Mullon. — Transmitimos o sinal no momento exato.
O oficial soprou seu café. Até parecia que desejava evitar que os presentes pensassem nos peepsies ou na bomba, pois subitamente disse:
Andei pensando. Acho que não poderemos usar o cereal plantado na faixa de dois quilômetros situada ao oeste, pois a área será atingida pelas radiações da bomba.
O’Bannon entrou no assunto.
Serão seis quilômetros quadrados de um total de quarenta e dois. Acho que a perda é suportável.
Quanto às casas — prosseguiu Chellich — teremos de lavar as peças no rio antes de voltarmos a montá-las, por causa da poeira radiativa.
Mullon fez um gesto de assentimento.
Acha que isso bastará?
Tenho certeza absoluta. Dispomos de medidores de radiações em número suficiente para verificarmos tudo, não é?
Mullon fez que sim.
Temos mais de trinta — disse.
Wolley levantou-se e saiu. Ao que parecia, não suportava esta conversa que girava em torno de bagatelas.
Está sentindo os nervos — disse O’Bannon com uma risada, mas pelo tom da risada concluía-se que com ele acontecia o mesmo.
Chellich acendeu um cigarro e disse:
Teremos de verificar se não existe alguma planta parecida com o tabaco. Teremos de cultivar o fumo, senão acabaremos ficando sem cigarros.
Lançou um olhar para Mullon, como se aguardasse a sua concordância, mas este limitou-se a dizer:
Agora chega de conversa, Chellich!

* * *

Pouco antes das sete horas, o oficial manteve a última palestra com o Capitão Blailey.
Estão chegando! — exclamou Blailey. — E vêm certinho, exatamente ao mesmo local de pouso. Chellich espantou-se.
Onde está o senhor para constatar isso com tamanha exatidão?
Estamos num estreito desfiladeiro — respondeu Blailey. — Não poderão localizar-nos com o radar, e outra coisa eles não têm.
Quanto tempo deverá demorar?
Uns trinta ou quarenta minutos — respondeu Blailey. — Vêm descendo devagarzinho, que nem uma folha que cai. Desligaram os jatos de plasma e trabalham com um campo de gravitação artificial.
Chellich refletiu.
É estranho que já conheçam isso — disse. — Olhe que andam por aí nuns calhambeques bem antiquados.
Às vezes a ciência entra por atalhos estranhos — disse Blailey. — Na Terra, a teoria dos quanta também era conhecida antes que se soubesse qualquer coisa sobre a estrutura do átomo.

* * *

Pegaram o detonador e saíram da cidade, na direção norte. Mullon seguiu-os de helicóptero, passou por eles e pousou no lugar combinado, que ficava cerca de dois quilômetros ao sul da cidade.
Às seis horas e vinte e cinco minutos, viram a luz vermelha, que já lhes era conhecida, surgir no céu e descer lentamente. Ao mesmo tempo, ouviram um ruído leve e agudo.
Milligan e O’Bannon colocaram-se, cada qual com um teodolito, em pontos prefixados, e realizaram a angulação da luz vermelha.
Isso basta — disse Chellich em tom sério. — Mullon, avise o pessoal.
Mullon pegou o pequeno aparelho de rádio, levantou a antena e ligou-o. Colocou o fone no ouvido e uma voz disse:
Aqui fala Stokes. O que houve?
O democrata parecia sem fôlego quando disse:
Tudo em ordem. Faremos a bomba detonar dentro de um minuto.

* * *

O momento chegara!
Uma gigantesca bola de fogo levantou-se ao sul, irradiando a claridade de vinte sóis. Os destroços da gigantesca Adventurous pareciam um pontinho situado na periferia interior da bola luminosa.
Assim o fenômeno foi visto no Rio Verde.
Chellich e seus companheiros apenas notaram que os arredores estavam banhados em luz. Estavam deitados numa pequena depressão do terreno e haviam erguido um escudo de metal plastificado à sua frente, a fim de proteger-se do calor.

* * *

Dois dias depois da explosão, a área foi examinada por meio de um helicóptero. O piloto e seu acompanhante usavam pesados trajes protetores. Encontraram uma grande cratera, mas não viram o menor sinal da nave dos peepsies.
Quanto ao mais, acontecera o que Chellich havia previsto. Os destroços da Adventurous haviam evitado o pior para a cidade de Greenwich. A própria Adventurous, que se encontrava a poucos quilômetros do local da explosão, não se movera um centímetro. A face sul emitia uma dose apreciável de radiações, mas no interior da nave o perigo radiativo era praticamente nulo.
A intensidade das radiações era de um milirontgen por hora, o que correspondia aproximadamente ao quádruplo do valor usual.
Chellich mandou que as casas fossem desmontadas e removidas imediatamente, antes que o vento mudasse de direção. Os homens do grupo de transporte simplificaram o trabalho o mais que puderam. Assim que chegavam ao rio, atiravam as peças no mesmo, deixavam que flutuassem rio abaixo e voltavam a retirá-las. Dessa forma, tinham certeza de que toda a poeira radiativa fora removida pela água.
A reconstrução da cidade de Greenwich foi levada a efeito com uma rapidez espantosa. O perigo de radiações era muito reduzido, e por isso todos os homens puderam participar dos trabalhos. No dia 5 de maio, a cidadezinha se apresentava como antes, apenas a vinte quilômetros do local anterior.
As pessoas voltaram às suas casas; sentiram-se felizes por poderem morar nas mesmas, em vez de habitarem o abrigo, e ainda porque os peepsies haviam sido derrotados. Todos pareciam saber que os magricelas nunca mais poriam os pés no planeta Fera Cinzenta. As poucas pessoas que pensavam de outra forma guardavam suas preocupações para si.
Na verdade, não chegava a haver preocupações. Chellich informara a um pequeno círculo de pessoas de confiança que o planeta Terra mantinha sua mão protetora sobre os desterrados. Essa informação provocou uma verdadeira euforia.
Realizaram-se cuidadosas medições, e estas revelaram que apenas uma pequena faixa da área cultivada sofrera a contaminação radiativa. O cereal dessa faixa foi cortado e queimado num momento em que o vento soprava numa direção favorável. O resto crescia e amadurecia, e fazia com que os habitantes de Greenwich ficassem com água na boca ao pensarem num pedaço de pão fresco.
Chellich pretendia ficar em Greenwich até que tudo tivesse voltado ao normal. Depois faria uma visita ao Capitão Blailey, juntamente com Mullon e O'Bannon. Havia necessidade de conferenciar sobre as novas medidas a serem tomadas contra os peepsies, que provavelmente não os deixariam em paz. Greenwich tinha a condição de colônia independente, condição esta que estava implícita na sentença proferida contra os desterrados. Portanto Blailey tinha a obrigação de ouvir o presidente da colônia sobre o que pretendia fazer.
Os prisioneiros peepsies receberam com a maior tranqüilidade a notícia da destruição de sua grande espaçonave. Ao que parecia, já se haviam conformado com o fato de que nada poderiam fazer contra os terranos. Mostraram-se dispostos a prestar aos colonos toda colaboração que lhes era possível; prontificaram-se, por exemplo, a ensinar-lhes como manejar as naves auxiliares apresadas.
No dia 2 de junho, Chellich partiu juntamente com Mullon e O’Bannon.
Levaram Pashen, pois estavam convencidos de que no planeta Fera Cinzenta não seria possível aplicar-lhe a pena que merecia. Na Terra, sua vida seria poupada, conforme Chellich lhe havia prometido. Mas não lhe dariam oportunidade para que mais uma vez pusesse em prática suas estranhas idéias sobre a lealdade e a sinceridade, em prejuízo do próximo.





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Por enquanto, as investidas dos peepsies foram barradas. Mas, se da próxima vez eles enviarem toda a armada espacial, a situação pode ficar crítica...
Em Interlúdio em Silico V, título do livro seguinte, uma aventura enigmática acontece.

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