Pashen
desceu. Estava só.
— O que
estão fazendo por aqui? — perguntou.
— Será
que até com isso o senhor tem a ver alguma coisa? — perguntou
Chellich.
Pashen
ficou furioso.
— O
senhor arranjou um lugar-tenente que diz as palavras desagradáveis
em seu lugar, Mullon?
— Sinto-me
satisfeito em não ter de falar com você — confessou Mullon.
— Tome
cuidado! — gritou Pashen em tom zangado. — E ponha a máquina em
movimento quanto antes. O senhor não tem um minuto a perder.
Mullon não
se mexeu. Chellich colocou o pé direito confortavelmente sobre a
porta lateral e fitou Pashen.
— Suma-se
daqui! — disse em tom tranqüilo. — Senão ligo o motor e o
atropelo. Por aqui o senhor não manda coisa alguma; é bom nem
tentar.
Pashen
empalideceu.
— O
senhor... o senhor vai pagar por isso — gritou. — Seu... seu...
— Dê o
fora! — berrou Chellich sem fazer o menor movimento.
Pashen
estremeceu, tropeçou, virou-se e saiu correndo. Quando percebeu que
se deixara enganar já era tarde para apagar a vergonha pela qual
acabara de passar. Sacudiu ameaçadoramente o punho; seu rosto estava
transformado numa careta de raiva. Entrou na cabine do helicóptero e
decolou.
Assim que
o ruído do helicóptero desapareceu ao longe, Chellich começou a
rir. Mas o rosto de Mullon parecia desolado.
— Isso
não foi uma imprudência? — perguntou.
— Confesso
que assumi um risco — disse Chellich em tom indiferente. — Mas
não foi um risco muito grande. Pashen é um homem que tem medo da
própria sombra. Não acredito que os peepsies lhe tenham conferido
muitos poderes.
Mullon
voltou a colocar a máquina em movimento e prosseguiu na direção
leste.
*
* *
Trabalharam
o resto do dia. Durante a pausa do almoço, a máquina de Mullon
alcançou as outras. Haviam feito seis viagens de ida e volta, e a
largura do campo arado já era de cento e oitenta metros. Mas suas
cabeças zumbiam com o ruído dos motores e, devido à trepidação,
as mãos que seguravam o volante ainda tremiam.
Descansaram
na sombra das máquinas e, depois de duas horas, reiniciaram o
trabalho.
Chellich
não fez a menor objeção de que Mullon informasse os homens sobre
seu plano. Estes logo se entusiasmaram. Chellich lhes explicou que
qualquer observação, por insignificante que fosse, proferida no
lugar errado, poderia frustrar o plano. Prometeram que não diriam
nada, nem mesmo a suas esposas.
Trabalharam
até o escurecer, com outra única interrupção, de uma hora.
Mullon
cometera um ligeiro engano nos seus cálculos. O sol ainda estava
relativamente alto no céu, e ele insistira em que arassem mais uma
faixa dupla antes de voltarem para casa. Quando terminaram esse
serviço já estava escuro, e precisavam de uma pausa para descansar.
Encostaram-se
às gigantescas esteiras e fumaram cigarros. Dormiam no chão aqueles
que tinham dirigido as máquinas por último e não teriam nada a
fazer durante a viagem de volta.
Chellich
levantou-se e afastou-se do grupo, dizendo que queria descobrir a
melhor maneira de chegar ao reator das máquinas. Ninguém parecia
notar que escolhera justamente a máquina mais afastada.
Subiu à
cabine, fez alguns movimentos para cima e para baixo, como se
estivesse procurando alguma coisa, e depois ajustou o relógio de
pulso para a palestra que pretendia manter com o Capitão Blailey.
Usou a
senha, que para aquele dia era “Príncipe
de Gales”,
e relatou a Blailey o que havia acontecido.
— Tenho
uma novidade para o senhor — disse Blailey depois de algum tempo. —
Já sabemos de onde vêm os peepsies.
— Não
diga! — disse Chellich em tom de espanto. — Qual é o lugar?
— O sol
deste sistema, ao qual demos o nome de Mirta, tem quarenta e nove
planetas de todos os tamanhos. O planeta Fera Cinzenta é o sétimo,
contado de dentro para fora. Os peepsies vêm de Mirta XII. Já
estivemos lá e demos uma olhada. É um mundo relativamente pequeno.
A gravitação na superfície é de 0,7 G e, um detalhe que deverá
interessá-lo, a pressão atmosférica superficial é de apenas
quatrocentos torr.
Aí, em Fera Cinzenta, a pressão média é de novecentos torr, o que
corresponde a cerca de 1,2 atmosferas. Acho que é por isso que a
permanência neste planeta é tão desagradável para os magricelas.
Devem sentir-se como nós nos sentiríamos dez metros abaixo da água
sem qualquer proteção para os ouvidos.
Chellich
soltou um assobio entre os dentes.
— Pode
ser — disse. — Descobriu mais alguma coisa?
— Fomos
localizados — respondeu Blailey. — Por meio de um simples radar.
Voávamos a cerca de cem quilômetros de altitude. Mas eles não têm
caças e foguetes eficientes, ou então não conseguiram fazê-los
decolar com a necessária rapidez. De qualquer maneira, ninguém se
preocupou conosco. Vimos algumas cidades muito grandes. Parece que
aquela terra é densamente povoada.
— Foi o
que imaginamos.
— Como
vai sua plantação de cereais? — indagou Blailey.
— É uma
coisa enfadonha, como já disse — respondeu Chellich.
— E como
é o comportamento de sua gente?
— Excelente.
Nunca esperava que fossem tão formidáveis. O principal é que nunca
desanimam. O tal do Mullon, o democrata, é um sujeito de primeira;
não poderiam ter escolhido um chefe melhor.
— Espere
aí, Chellich! — exclamou Blailey depois de algum tempo. —
Afinal, a gente a que você se refere tentou contra a vida de Rhodan
e planejou uma revolução, motivo por que um juízo regular os
condenou ao degredo perpétuo.
— Tenho
certeza de que esse juízo seria mais condescendente se visse como
essa gente defende o bom nome dos terranos — respondeu em tom
sério.
— Está
bem — disse Blailey. — Vamos terminar por hoje. Volte a chamar
oportunamente.
Chellich
voltou a endireitar o relógio e ia descer do assento do tratorista.
Naquele
instante, escutou um ruído vindo de baixo. Estacou em meio ao
movimento e ouviu alguém subir a escada. Os contornos de uma cabeça
surgiram por cima da porta baixa, e uma voz disse:
— Nunca
pensei que alguém pudesse ter uma opinião tão boa a nosso
respeito.
Era
Mullon.
Chellich
não demonstrou o menor embaraço.
— Será
que também ouviu as palavras favoráveis a respeito de sua pessoa? O
senhor devia enrubescer como uma mocinha que ouve uma piada de mau
gosto. Primeiro, porque foi elogiado, e depois porque anda espionando
de forma tão desavergonhada.
Mullon
riu.
— Acho
que meu esforço não foi em vão. Já está disposto a contar sua
história, seu “Imperador
da China”?
Chellich
fez um gesto afirmativo.
— Não
tenho outra alternativa.
Relatou
tudo que tinha a contar.
— Rhodan
é de opinião — concluiu — que os senhores devem arranjar-se
sozinhos, mas apenas enquanto não surgir um perigo mais sério. Quer
dizer que uma mão invisível os protege, e continuará a
protegê-los, quer gostem, quer não.
Mullon
saltou por cima da porta e sentou-se ao lado do oficial.
— No
momento em que partimos da Terra — disse em tom hesitante e com a
voz embargada — eu ainda me teria rebelado contra uma proteção
desse tipo. Diria que, uma vez que nos mandam embora, não queremos
mais nada com eles. Mas agora... santo Deus, gostaria de abraçar o
tal do Capitão Blailey.
— Tenha
cuidado! — disse o oficial com uma risada. — O senhor poderia
espetar-se, pois geralmente Blailey não anda com a barba bem feita.
Apenas lhe peço que me prometa uma coisa. O que acabo de lhe contar
fica entre nós, até que eu mesmo resolva levantar o véu.
Combinado?
— Combinado
— respondeu Mullon prontamente e apertou-lhe a mão.
*
* *
Às trinta
e três horas, as máquinas entraram ruidosamente na cidade de
Greenwich.
As pessoas
que haviam ficado na cidade saíram à rua.
A máquina
de Mullon ia à frente das outras.
— Por
que será que não fizeram as ruas um pouco mais largas? —
perguntou Chellich. — Não existe nenhum lugar em que se possa
estacionar uma máquina.
O edifício
da prefeitura avançava um pouco mais rua a dentro que as outras
casas. O oficial colocou a máquina de tal maneira que a construção
saliente encobria-lhe a maior parte. As outras máquinas foram
colocadas atrás da de Mullon.
*
* *
Chellich
fez uma refeição ligeira na casa em que morava só e foi para a
cama. Ajustou o pequeno despertador, cujo mostrador e mecanismo já
haviam sido adaptados para o novo tempo do planeta Fera Cinzenta,
para as trinta e nove horas.
“Por
enquanto, cinco horas e meia de sono serão suficientes”,
pensou.
Dissera a
Mullon que pretendia iniciar o serviço uma hora antes da meia-noite,
e tinha certeza de que o democrata compareceria juntamente com alguns
homens para montar guarda.
Às trinta
e nove horas em ponto, o despertador começou a zumbir. Chellich
tomou um banho frio para ficar bem disposto.
Quando
chegou ao edifício da prefeitura, Mullon e O’Bannon saíram da
sombra pálida projetada pelo telhado saliente.
— Trouxeram
ferramentas? — perguntou o oficial laconicamente.
— Trouxemos
— respondeu O’Bannon.
Chellich
pôs-se a trabalhar.
Não
demorou em encontrar o acesso à caixa do reator. Ficava atrás da
tampa que havia na parte lateral da máquina. A tampa estava presa
por uma série de parafusos de cabeças esquisitas. Nenhuma das
numerosas chaves ajustava-se aos mesmos. Chellich teve de usar um
alicate.
Acabou
tirando a tampa e descobriu a parte exterior do revestimento protetor
de radiações do reator. Conforme esperava, esse revestimento era
feito de peças encaixadas, mas não presas. Chellich retirou-as e
empilhou-as de forma a saber depois qual era seu lugar.
O
revestimento propriamente dito consistia numa esfera oca cuja parede
media mais de um metro de diâmetro. Chellich retirou a parte
dianteira dessa esfera e descobriu o núcleo do reator, formado por
outra esfera de apenas meio metro de diâmetro. O que o oficial viu
em primeiro lugar foi uma camada cinza-clara, que em sua opinião era
formada por oxido de berilo. Esta exercia as funções de refletor,
fazendo com que a massa crítica fosse mais reduzida do que teria de
ser sem o mesmo. Havia bastões que penetravam na parte superior do
reator. Eram feitos de cádmio, um metal semelhante ao alumínio.
Chellich
estava satisfeito. O reator não era muito diferente daqueles usados
na Terra há setenta ou oitenta anos, ou mesmo antes. Restava saber
qual era a matéria físsil usada no reator.
Retirou
parte do refletor e, embaixo, viu uma superfície metálica lisa. Não
pôde constatar de qual dos três metais anteriormente usados na
Terra — o tório, o urânio ou o plutônio — se tratava. Talvez
fosse até o exótico cúrio. Mas tinha certeza de uma coisa. Um
reator pequeno como este era feito de material bastante enriquecido,
ou talvez até de matéria físsil pura, como o Th 229, o U 235 ou o
Pu 239.
Dedicou um
interesse bastante limitado ao dispositivo de circulação térmica,
já que isso não pertencia à sua tarefa. Este dispositivo envolvia
mais de metade da esfera, do lado que dava para o motor. Ali o calor
gerado pelo processo de fissão era transmitido à água. A água
transformava-se em vapor e movia uma turbina ou até mesmo um simples
sistema de pistões.
Agachado
no chão, Chellich lançou um olhar pensativo para o reator.
— Não é
perigoso? — perguntou Mullon. — Acho que isso emite radiações.
— São
principalmente raios alfa, que apenas avançam alguns centímetros —
disse Chellich em tom distraído. — Também há alguns raios gamas,
mas são pouco numerosos e bastante macios. Não há nenhum perigo
mais sério.
Como se só
agora tivesse percebido que Mullon acabara de fazer uma pergunta e
que sua resposta não fora satisfatória, levantou a cabeça e
prosseguiu com um sorriso:
— É bem
verdade que não se deve segurar este material na mão por muito
tempo, e muito menos engoli-lo.
Mullon deu
uma risada.
— Não
farei nada disso. Como é: acha que conseguirá?
Chellich
fez um gesto afirmativo.
— Será
fácil. Os peepsies construíram o reator de tal forma que até
poderia parecer que queriam ajudar-nos a construir uma bomba. Apenas
resta saber como fabricaremos o detonador. Teremos de retirar o
refletor. Depois a massa crítica naturalmente ficará maior.
Acontece que ainda teremos de trabalhar com a máquina.
— Não
entendi uma única palavra — disse Mullon, quando viu que o oficial
se punha a meditar. — Mas acho que o senhor fará um serviço bem
feito.
Chellich
sorriu.
— Muito
obrigado pela confiança.
Voltou a
montar o refletor, colocou as diversas peças do revestimento
protetor e fechou a tampa.
*
* *
Na manhã
do dia seguinte, as máquinas saíram muito cedo. Os operadores eram
os mesmos do dia anterior, e os trinta homens que iam nas máquinas
passaram a constituir, sem maiores formalidades, um tipo de comitê
de defesa.
Durante a
pausa de duas horas, para o almoço, Chellich explicou que tinha suas
preocupações por causa dos trabalhos agrícolas.
— Pensei
nisso na noite passada — disse. — Os peepsies são bastante
inteligentes para calcular que, se continuarmos a manter a mesma
velocidade, não conseguiremos cumprir a tarefa em tempo. Não
acredito que se mantenham inativos até que os quatro meses tenham
chegado ao fim.
Olhou em
torno, e face aos rostos perplexos, concluiu que provavelmente mais
ninguém havia pensado sobre o problema.
— O que
acredita que eles possam fazer? — perguntou Mullon.
— Haverá
duas possibilidades. Os duzentos guardas poderão tentar apressar
nosso trabalho, ou então informarão o mundo dos peepsies, que
enviará novamente a grande nave espacial.
— Qual
das duas alternativas você preferiria?
Chellich
deu uma risada.
— Acho
que teremos de aceitar ambas. Primeiro uma, depois a outra.
O'Bannon
fez sinal de que queria dizer uma coisa.
— Chellich,
todo mundo lhe ficaria muito grato se quisesse...
— Se
quisesse exprimir-me com mais precisão, não é? Pois é exatamente
isso que tento fazer. Ainda não sei muito bem a quantas andamos. O
ponto nevrálgico é este: precisamos de tempo para fabricar a bomba.
Isso poderá levar dez ou doze dias. Devemos evitar que os peepsies
intervenham antes disso, pois do contrário não daremos conta do
recado. Mas se resolverem fazê-lo...
Calou-se,
para que Mullon completasse a frase:
— Nesse
caso teremos de defender-nos. Não é isso?
— Mais
ou menos — respondeu o oficial. — Gostaria de eliminar todo e
qualquer risco...
Perceberam
que refletia enquanto falava e esperaram pacientemente.
— Bem,
poderíamos fazer o seguinte — disse depois de algum tempo,
sorrindo como se acabasse de ter uma idéia formidável. —
Admitamos que consigamos compreender qual é o tipo de contato que
nossos duzentos peepsies mantêm com seu mundo natal. Devem avisar de
alguma maneira que ainda estão vivos, e também devem ter a
possibilidade de emitir um pedido de socorro.
“Acredito
que tenham combinado certo sinal, transmitido periodicamente, a fim
de que no mundo dos peepsies fiquem sabendo que, no planeta Fera
Cinzenta, tudo está em ordem. Se conseguíssemos descobrir que sinal
é este, e se estivermos em condições de operar seu transmissor...
bem, neste caso poderemos neutralizar tranqüilamente os duzentos
peepsies, transmitir o sinal convencionado com o intervalo previsto e
fazer com que, no mundo deles, ninguém desconfie que estamos
fabricando com toda calma uma grande bomba.”
Lançou um
olhar de triunfo para seus ouvintes, mas ao que tudo indicava estes
não participavam de sua euforia.
— Se
pudéssemos, se tivéssemos! — exclamou O’Bannon. — Acontece
que não temos nem podemos. Como pretende neutralizar duzentos
peepsies?
— Este
problema vem depois — observou Chellich. — O que temos de fazer
antes de tudo é saber como são realizadas as comunicações de
rádio entre os peepsies.
— Temos
alguns pequenos receptores em nosso arsenal — disse Mullon. — É
possível que, com eles, possamos...
— Não é
provável — interrompeu-o Chellich. — Comparados aos terranos, os
peepsies são uma raça muito primitiva. Ao que parece, só conhecem
a navegação interplanetária, e os princípios da hipercomunicação
lhes são completamente desconhecidos. Quer dizer que seu transmissor
só pode ser do tipo eletromagnético, ou seja, um transmissor de
rádio do tipo mais simples. Para vencer com esse tipo de transmissor
uma distância de vários milhões de quilômetros, terão de
trabalhar com raios direcionais. Não teríamos a menor chance de
captar suas transmissões, a não ser que nos colocássemos nas
imediações do transmissor para receber as irradiações esparsas.
Acredito que não permitirão uma coisa dessas.
Mullon fez
que sim.
— Sinto
muito — disse em tom desanimado. — Não tenho outra idéia.
Chellich
não parecia incomodar-se com isso. Subitamente mudou de assunto.
Dali a meia hora, não havia mais ninguém — com exceção de
Mullon — que acreditasse que as idéias do oficial, sobre a
descoberta do código dos peepsies e a eliminação dos duzentos
guardas, pudessem ser levadas a sério.
Assim que
as duas horas haviam passado, voltaram a entrar nas máquinas e
prosseguiram, faixa por faixa, sulco após sulco.
— Então,
qual é sua idéia? — perguntou Mullon depois que tinham percorrido
algumas centenas de metros.
Um sorriso
matreiro surgiu no rosto de Chellich.
— É
impossível esconder qualquer coisa do senhor, não é?
— Não
sei — respondeu Mullon. — Tenho a impressão de que você não
consegue.
Depois de
refletir por algum tempo, Chellich disse:
— A
chave da porta proibida é Pashen. Mullon lançou-lhe um olhar de
espanto.
— Pashen?
Realmente acredita que ele lhe contará qualquer coisa?
— De
livre e espontânea vontade não. Mas saberei obrigá-lo.
— Ah, é?
Como?
O oficial
soltou uma risada.
— Deixe
que eu tenha um pequeno prazer. Está certo? Gosto de surpreender o
próximo. Além disso, talvez possa evitar um fiasco. Nem sei se
conseguirei impressionar Pashen.
— Quando
será a hora? — perguntou Mullon.
— O mais
tardar, hoje de noite — respondeu Chellich.
Pelo tom
de sua voz, concluía-se que Pashen teria uma surpresa nada
agradável.
*
* *
Durante a
tarde, por duas vezes, apareceu uma das naves auxiliares dos peepsies
com seu ruído característico. Ao que parecia, os magricelas ficaram
satisfeitos em ver as máquinas em movimento, pois não pousaram.
Nesse dia
Mullon dispensou o procedimento metódico e parou a meio caminho
assim que o sol se pôs. Às trinta e uma horas, já estavam em casa.
Mullon
convidou Chellich para o jantar.
— A vida
a sós em sua casa deve ser muito monótona — disse.
Chellich
deu de ombros.
— Afinal,
não estou numa estação de férias. Seria conveniente mandar
imediatamente algumas pessoas ao acampamento, para que gritem,
chamando Pashen. Quero falar com ele.
— Onde
quer encontrar-se com ele? — perguntou Mullon.
— Peça-lhe
que compareça à sua casa.
— Fraudy
e eu teremos alguma função? — perguntou Mullon.
— A
função será a de figurantes gratuitos sem texto — respondeu
Chellich com um sorriso.
Alguns
homens foram enviados ao acampamento, para avisar Pashen de que havia
uma coisa importante a tratar. O oficial não teve a menor dúvida de
que Pashen atenderia ao chamado e viria à cidade.
Assim que
chegaram à casa de Mullon, Fraudy estava na porta.
— Vejo
que terei de colocar mais um talher — disse com uma risada e deu as
boas-vindas a Chellich.
— Você
terá sua paga, Fraudy — disse Mullon. — Chellich nos apresentará
um espetáculo.
O oficial
não ficou muito satisfeito por Mullon ter falado nisso tão
depressa. Fraudy ainda não sabia qual era o papel que ele
desempenharia. Mas se ela ficasse fazendo perguntas, Chellich não
conseguiria ocultá-lo por muito tempo, pois já fora uma agente
especializada.
O jantar
servido por Fraudy tinha os mesmos ingredientes de todos os jantares
consumidos na época. Mas Chellich ficou surpreso ao constatar que
Fraudy preparava a comida de maneira a torná-la muito mais gostosa
que as refeições de solteiro a que estava acostumado. Fez uma
observação nesse sentido e, com isso, conquistou a simpatia
incondicional de Fraudy.
Quando ela
estava acabando de tirar a mesa, Milligan entrou.
— Pashen
está a caminho — anunciou.
— Vem
para cá? — perguntou Chellich.
Milligan
fez que sim.
Dali a
alguns segundos, chegou Pashen. Entrou sem bater e sem cumprimentar e
parou no meio da sala.
— O que
houve? — perguntou em tom áspero, dirigindo-se a Mullon.
Este
lembrou-se do que o oficial lhe havia dito sobre o papel que deveria
desempenhar e manteve-se calado.
— Não
seremos grosseiros como o senhor — disse Chellich, apontando para a
última cadeira livre. — Faça o favor de sentar.
Pashen
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Será
que o senhor passou a mandar nesta casa?
O oficial
não deu a menor atenção à pergunta.
— Conforme
sabe, nossa usina energética foi destruída pelos peepsies. Só
dispomos de algumas velas, e não gostamos de ficar no escuro. Por
isso gostaríamos de construir outra usina. O senhor acredita que
seus amigos terão alguma objeção?
— Acredito
— respondeu Pashen com um sorriso de deboche. — Com a
eletricidade, pode-se fazer muitas tolices. Tenho certeza de que não
lhes permitirão a reconstrução da usina energética. De qualquer
maneira, os geradores estão em poder de meus amigos.
Chellich
acenou com a cabeça, como se não esperasse outra resposta.
— Como é
que os peepsies se comunicam com seu mundo? — perguntou de sopetão.
— Por
meio de um... — principiou Pashen, mas logo percebeu que caíra na
armadilha de Chellich.
Um brilho
de cólera surgiu em seus olhos.
— O que
é que o senhor tem com isso? — gritou. — Por que faz essa
pergunta?
— Quer
dizer que o senhor sabe — constatou Chellich. — E o senhor nos
contará.
Pashen
levantou-se de um salto.
— Não
contarei coisa alguma — gritou.
— O que
posso é avisar meus amigos de que por aqui algumas pessoas estão
ficando muito curiosas.
O oficial
interrompeu-o com um gesto.
— Sente,
seu palhaço! — a calma com que falava já representava uma
insolência.
— Bem
que poderia imaginar que não iríamos proferir ameaças vãs! Preste
atenção: Os peepsies residem em barracas pressurizadas, não é?
De repente
ouviu-se um suspiro de espanto. Quem o havia soltado: Fraudy, Mullon
ou Milligan?
Pashen
fitava Chellich com os olhos arregalados.
— Quem
foi... — gaguejou.
Chellich
apontou para Pashen.
— Quem
contou foi o senhor, Pashen. É isso que direi aos peepsies. Sabe
perfeitamente que eles vêm de um mundo onde a pressão atmosférica
corresponde a menos de metade da do planeta Fera Cinzenta. O senhor
ainda sabe que até nós tivemos certas dificuldades, quando pela
primeira vez respiramos o ar deste planeta. Os peepsies só conseguem
sobreviver neste planeta se passarem ao menos metade do dia sob a
pressão atmosférica a que estão acostumados. Por isso trouxeram
barracas pressurizadas, nas quais o ar se rarefaz até atingir a
pressão desejada.
“Suponhamos
que durante sua busca os peepsies tivessem deixado de encontrar um
único fuzil, o que é perfeitamente possível. Nesse caso, não
precisaríamos fazer mais nada senão disparar uma bala contra cada
barraca para abrir um pequeno furo. Haveria uma implosão. A
modificação da pressão seria tão rápida que todos os peepsies,
com exceção daqueles que estivessem fora das barracas, morreriam
imediatamente. E os outros também não teriam muito tempo de vida,
pois não haveria mais nenhuma barraca na qual pudessem abrigar-se.
“E tudo
isso aconteceria porque um certo Pashen, que se apresentou como amigo
dos peepsies, contou a determinadas pessoas um segredo zelosamente
guardado. Então, Pashen, o que acha?”
Pashen
parecia uma estátua. Estava pálido como cera.
— Seu...
seu... — gritou.
O Oficial
manteve-se calmo e esperou até que seu interlocutor recuperasse a
fala.
— Isso é
uma mentira! — gritou Pashen. — Sabe perfeitamente que eu nunca
seria capaz de fazer uma coisa dessas.
Chellich
deu de ombros.
— Acha
realmente que sou tão idiota? Não vou ter a mínima consideração
pelo senhor.
Pashen
refletiu intensamente. Chellich não se sentia tão tranqüilo como
parecia. Era bem possível que a amizade entre Pashen e os peepsies
já se tornara tão estreita que o traidor pudesse dizer
tranqüilamente a esses seres que Chellich havia descoberto que os
mesmos viviam em barracas pressurizadas, e agora afirmava que Pashen
lhe contara isso, para fazer chantagem.
Mas, ao
que parecia, Pashen nem contemplava essa possibilidade. Tinha o
aspecto de um homem que se encontrava na cobertura de um grande
edifício e não pudesse sair dali porque as escadas haviam pegado
fogo.
— Isso é
uma chantagem! — disse depois de algum tempo.
Chellich
acenou pachorrentamente com a cabeça.
— Sim;
eu sei.
— O que
quer de mim? — perguntou Pashen, depois que percebera que não
havia nenhuma saída.
— Quero
saber como é o instrumento com que eles se comunicam com seu mundo e
quais são as palestras mantidas.
Pashen
apertou as mãos.
— Qual é
a garantia que eu tenho de que os senhores não me trairão se eu
lhes contar?
— Nenhuma
— respondeu Chellich sem a menor comoção. — A única garantia
que lhe dou é esta: Se o senhor não falar, daqui a dois minutos
estarei no acampamento e contarei tudo.
O olhar de
Pashen exprimia medo.
— Está
bem — disse. — Utilizam um simples transmissor eletromagnético
que opera na faixa decimétrica. Trabalham com raios direcionais e só
transmitem dois sinais: um sinal de rotina, irradiado aproximadamente
a cada cinco horas, a fim de que em seu mundo fiquem sabendo que tudo
está em ordem, e um sinal de perigo, que só poderá ser irradiado
se houver alguma emergência.
— Como
são esses sinais?
— Não
sei. No transmissor há um botão preto e um vermelho. Comprimindo o
botão preto, transmite-se o sinal de rotina, enquanto o botão
vermelho corresponde ao sinal de perigo.
— Quer
dizer que o sinal é automático. Quais são as mensagens que eles
recebem do mundo dos peepsies?
— Nenhuma.
— O que
acontecerá se alguém der o sinal de perigo?
— Não
tenho certeza, mas acredito que nesse caso a grande nave espacial
voltará.
— Só
aquela?
— Acho
que não têm muitas. Estão no estágio inicial da navegação
espacial.
Chellich
acenou com a cabeça e refletiu sobre o que acabara de ouvir.
— Tenho
um trabalho para o senhor — disse depois de algum tempo. —
Descubra, com a precisão de um minuto, o intervalo exato em que é
irradiado o sinal de rotina. Ande depressa e volte assim que tiver
descoberto. Onde está instalado o transmissor?
— Na
última barraca do lado sul, isto é, na que fica mais próxima da
Adventurous.
— Está
bem. Os peepsies têm aparelhos de luz infravermelha?
— Até
hoje não vi nenhum.
— Mantêm
sentinelas regulares?
— Nas
barracas, há pequenas vigias revestidas de plástico transparente.
Vez por outra olham pelas mesmas. Além disso, um guarda fica
constantemente junto ao morteiro, mas quase sempre está dormindo. É
estranho, mas a elevada pressão atmosférica os cansa muito
depressa.
— Não
há nada de estranho nisso — disse Chellich. — Qualquer variação
da pressão atmosférica, para cima ou para baixo, cansa qualquer
pessoa. Gostaria que o senhor me desse mais um detalhe. Evidentemente
suas barracas possuem comportas de ar. Quanto tempo gastam com a
adaptação da pressão?
Ao que
parecia, Pashen já havia recuperado o equilíbrio psíquico.
Respondeu em tom muito tranqüilo:
— Geralmente
levam uns dez minutos.
Mas quando
saem de lá ainda estão bem lerdos.
— Isso
não é de admirar — disse Chellich. — Uma diferença de pressão
de quinhentos torr não é brincadeira. O efeito é o mesmo que o
senhor sentiria se descesse, em dez minutos, seis mil e quinhentos
metros de altura ao nível do mar. Nem mesmo um pára-quedista
realiza uma façanha como esta.
Parecia
que Chellich queria perguntar mais alguma coisa. Dava a impressão de
ter esquecido. Mas subitamente seu rosto iluminou-se.
— Ah,
sim. Já esteve no interior de uma das barracas dos peepsies? Como é
que a gente se sente lá dentro?
— Miseravelmente
mal — respondeu Pashen. — Tive um zumbido nos ouvidos, tontura e
falta de ar.
— Mas a
gente agüenta?
— Agüenta,
sim, especialmente se a gente não se esquece das novas condições e
não faz muitos movimentos.
— Muito
bem — disse Chellich. — Por enquanto é só isto. Volte ao
acampamento e descubra o intervalo. E nunca se esqueça do que os
peepsies farão do senhor se descobrirem que nos revelou o segredo
das barracas pressurizadas.
Pashen
levantou-se e saiu apressadamente.
No
interior da casa de Mullon, todos soltaram um suspiro de alívio.
Como sempre, Fraudy foi a primeira que deixou as próprias idéias de
lado e começou a fazer perguntas.
— Santo
Deus! — disse em tom petulante. — Como foi que descobriu tudo
isso?
— Basta
um pouco de observação — disse Chellich com a maior naturalidade.
— Estive várias vezes lá fora, de noite, e dei uma olhada nas
barracas. Sabe como percebi?
— Não —
respondeu Fraudy.
— Pela
maneira como estão pregadas as pequenas vigias. Nota-se
perfeitamente a parte mais grossa da emenda, correspondente à
vedação.
Quando
chegasse a hora de verem de perto as barracas dos peepsies, iria
rezar para que realmente encontrassem os sinais de vedação. Era
claro que jamais vira nada disso, pois nunca chegara tão perto das
barracas.
Pouco
depois de Pashen ter saído, O’Bannon e Wolley entraram. Queriam
saber por que o traidor parecia tão perturbado.
Mullon
contou o que havia acontecido.
O oficial
pediu aos três que, por enquanto, guardassem segredo. Depois
despediu-se e foi para casa.
Fez um
café com o fogareiro de combustível sólido que havia arranjado no
arsenal e pôs-se a projetar o detonador da bomba.
Assim que
terminou o primeiro esboço, lembrou-se de que não precisaria seguir
o plano inicial. Se conseguissem eliminar ou neutralizar os duzentos
peepsies que se encontravam no acampamento, as coisas seriam muito
mais simples.
Até então
tivera a intenção de utilizar o material físsil de sua máquina
para fabricar uma das metades da bomba, e retirar dos outros quatorze
reatores uma quantidade tal que bastasse para a segunda metade. Dessa
forma, as máquinas continuariam a funcionar.
Mas agora,
isso já não seria necessário. Se os duzentos peepsies não
estivessem mais por lá para incomodá-lo, poderia retirar todo o
material físsil de outra máquina para fabricar a segunda metade da
bomba. Não haveria mais ninguém que pudesse incomodar-se com o fato
de que uma das máquinas deixara de funcionar.
Sim, era
isso mesmo. Dali a três horas, havia elaborado no papel um detonador
que corresponderia a todas as exigências.
Contemplou
sua obra com certo orgulho e satisfação e teve a palestra usual com
o Capitão Blailey. Durante o diálogo nenhum dos interlocutores
disse qualquer coisa de interessante — Chellich pretendia
apresentar posteriormente o ataque de surpresa contra os duzentos
peepsies como obra dos colonos — e foi para a cama.
5
Pashen
realmente apareceu ao nascer do sol, quando ainda eram poucas as
pessoas que andavam pela rua. Estava abatido, mas não se notava o
menor sinal de medo.
— São
quatro horas e quarenta e oito minutos — disse a Chellich, que o
aguardava à frente de sua casa. — Exatamente. Daqui a trinta e
dois minutos deverá ser expedido o próximo sinal.
— O
senhor já tem um relógio adaptado?
Sem dizer
uma palavra, Pashen mostrou-lhe o relógio de pulso que trazia o novo
mostrador, regulado às condições reinantes no planeta Fera
Cinzenta.
O oficial
ficou satisfeito.
“Quatro
e quarenta e oito!”,
rememorou. Teve certeza de que nunca mais se esqueceria desses
números.
Pashen
dispôs-se a retirar-se. Mas antes disso disse:
— Se por
acaso os peepsies perguntarem alguma coisa, estive aqui para
recomendar mais pressa no trabalho. Combinado?
Chellich
notou que, pela primeira vez, Pashen usava a palavra peepsies, em vez
de falar em meus amigos ou nossos amigos. Começava a adaptar-se à
nova situação, a ajustar a bandeira à nova direção do vento.
— Está
bem — respondeu Chellich. — Isto é do interesse de todos. Mas
sei de outra coisa. Há de concordar em que o povo de Greenwich não
anda muito satisfeito com suas ações. O senhor poderia, por
exemplo, ter a idéia de pegar algumas armas e um helicóptero, e dar
o fora. Acontece que o helicóptero é um veículo de importância
vital para Greenwich. O senhor seria morto imediatamente, se o
descobrissem com o helicóptero roubado. Se permanecer no acampamento
e aguardar o desenrolar dos acontecimentos, creio poder garantir que
escapará com vida. Compreendeu?
Pashen fez
cara de espanto.
— Não
sei como poderiam encontrar-me depois que tivesse ido embora no
helicóptero — respondeu.
— O fato
de o senhor não saber — disse Chellich — não significa que
realmente não conseguiríamos encontrá-lo. Muita coisa mudou depois
que se bandeou para os peepsies. Se eu fosse o senhor, não faria
mais nenhuma bobagem.
Pashen
franziu a testa e retirou-se sem dizer mais uma única palavra.
*
* *
Chellich e
Mullon aproveitaram o dia para elaborar um plano de batalha. Para
Mullon tudo parecia muito simples. Depois de dominar a sentinela dos
peepsies, postada junto ao morteiro, arranjariam alguns fuzis e
atirariam contra as barracas, para abrir um buraco nas mesmas. Com
isso, o problema estaria resolvido.
Mas
Chellich disse que não pensava em matar duzentos peepsies sem mais
nem menos, apenas porque tinha preguiça de elaborar outro plano.
Mullon
argumentou com a morte de Ferris e dos Loft, que haviam sido
trucidados pelos peepsies sem que houvesse qualquer motivo para isso.
Porém, o oficial era de opinião que um assassinato não justifica
outro.
Depois de
algum tempo, exclamou em tom exaltado:
— O
senhor quer ser um terrano ou um bárbaro?
Por
estranho que pudesse parecer, os efeitos desse argumento foram
imediatos. Mullon abandonou seu plano e confessou que se deixara
dominar pela raiva. Chellich percebeu que, em sua mente, a vontade de
ser um verdadeiro terrano crescera bastante.
Dali em
diante, Mullon limitou-se a escutar. Chellich expôs um plano que em
sua opinião permitiria prender os peepsies sem assumir maiores
riscos e sem usar de violência. Obtendo a aprovação integral de
Mullon, esse plano foi comunicado aos outros homens durante a pausa
do almoço.
Às trinta
e uma horas, voltaram para Greenwich, e depois do jantar começou a
ser formado o exército secreto de quinhentos homens, que desfecharia
o ataque contra o acampamento dos peepsies. Pediu-se aos outros
habitantes de Greenwich que abandonassem a cidade, já que se tinha
de contar com a possibilidade de que os peepsies disparassem alguns
tiros de morteiro antes que os terranos pudessem quebrar a
resistência deles.
Assim que
tudo estava preparado, Chellich mandou que os homens fossem para a
cidade. A evacuação seria iniciada à zero hora, enquanto o ataque
ao acampamento estava previsto para a uma e trinta.
*
* *
Chellich
levantou pouco depois da meia-noite e viu que metade dos habitantes
já havia saído da cidade. Tudo estava correndo conforme ordenara.
Ao que parecia, os peepsies não estavam percebendo nada; ao menos,
reinava no acampamento o silêncio de sempre.
À uma e
meia em ponto, os motores pesados das máquinas começaram a
trabalhar. Atrás de cada um dos colossos, estavam abrigados vinte
homens e, quando os veículos se puseram em movimento, seguiram na
sombra da estrutura alta e larga.
Desta vez,
a coluna dirigiu-se para o sul. O plano de Chellich baseava-se na
suposição de que, depois que Pashen estivera na cidade para
recomendar maior pressa nos trabalhos, os peepsies não poderiam
estranhar o fato de que os homens de Greenwich resolvessem trabalhar
de noite. De qualquer maneira, surgiu um momento crítico. Este se
deu quando as máquinas pesadas, ao saírem da cidade pelo lado sul,
subitamente dobraram para a esquerda e pararam ao longo do
acampamento.
Naquele
momento, os duzentos homens restantes já se haviam dividido em dois
grupos de cem, postados ao leste e oeste do acampamento, sob o abrigo
do capim. Por certo os peepsies não haviam percebido nada, pois se
havia alguma coisa que lhes despertava a atenção, eram as manobras
das máquinas.
Chellich,
Mullon e Milligan aproximaram-se do acampamento, vindos do leste.
Mantiveram-se fora do alcance da visão dos peepsies, até que as
quinze máquinas tivessem terminado sua manobra e despertado, por
completo, a atenção dos peepsies.
Depois
aproximaram-se do acampamento.
Pararam
entre duas barracas, que não ficavam a mais de vinte metros do
morteiro e das granadas empilhadas numa armação móvel. Observaram
a sentinela, que se levantara e estava fitando as máquinas.
Segundo
parecia, nas barracas tudo continuava em silêncio.
— Nunca
imaginava que fosse tão fácil — disse Chellich. — Vamos
agarrá-lo.
Irromperam
entre as barracas e precipitaram-se sobre o peepsie. Este percebeu
que atrás dele alguma coisa não estava em ordem e virou-se
abruptamente. Chellich viu-o tirar uma arma, uma perigosa pistola de
ultra-som, e apontá-la.
Mas
Milligan aproximou-se pelo lado e bateu fortemente embaixo de seu
braço. A arma voou longe e o peepsie soltou um grito chiante.
Chellich
deu o sinal combinado: um assobio por entre os dentes. Os homens que
esperavam ao leste e ao oeste do acampamento puseram-se em movimento.
Armados apenas de paus, postaram-se de ambos os lados das saídas das
comportas para dar uma recepção condigna aos peepsies que, dali a
pouco, sairiam apressadamente das barracas.
Enquanto
isso Chellich e seus companheiros viraram o morteiro, apontando-o de
modo a cobrir a parte sul do acampamento. A um novo sinal, acorreram
vinte dos homens que se mantinham escondidos atrás das máquinas e
começaram a empurrar o morteiro e a armação com as munições em
direção às máquinas. O oficial supervisionou o transporte das
granadas.
Quando o
morteiro desapareceu atrás das máquinas, o depósito de munições
— bem mais pesado — só havia percorrido a metade do caminho. Mas
logo os outros homens vieram ajudar os que estavam empurrando, e a
armação passou a deslocar-se a uma velocidade maior.
Naquele
momento, abriu-se a primeira comporta de ar e delas saíram alguns
peepsies confusos e cambaleantes. Os habitantes de Greenwich estavam
a postos: com algumas pancadas secas colocaram fora de combate os
magricelas atordoados com a súbita mudança de pressão.
Os
terranos desarmaram-nos. Ainda não sabiam como manejar as pistolas
de ultra-som, mas as armas apontadas evitaram que outros peepsies
saíssem das barracas.
Enquanto
isso, outro grupo de habitantes de Greenwich tomou de assalto as
barracas, nas quais, na opinião de Pashen, estavam guardados os
fuzis e as pistolas. Agarraram o que conseguiram carregar e correram
para o leste, em direção às máquinas enfileiradas.
Simultaneamente,
Chellich preparava-se para dar o terceiro sinal, que viria marcar o
início da fase decisiva do combate. Combinara que, ao primeiro tiro
de morteiro, os homens se retirariam do acampamento.
Mas mesmo
um sujeito como Chellich teve dificuldade em compreender com a
necessária rapidez o manejo da arma que era produto de tecnologia
totalmente estranha. Na parte traseira, havia um painel com cerca de
uma dezena de chaves, botões e alavancas. Logo descobriu que três
destas serviam para movimentar o cano, dois botões estavam ligados a
uma escala iluminada na qual se viam estranhos caracteres e um
ponteiro deslizante. Provavelmente tratava-se de um dispositivo
destinado a realizar os cálculos de pontaria. O oficial retirou a
placa do painel. Viu que de dois botões coloridos saíam fios que
terminavam no fundo do cano, e chegou à conclusão de que esses
botões teriam algo a ver com o mecanismo de detonação.
Naquele
momento, apareceu Milligan. Estava ofegante.
— Não
acredito que nossos homens conseguirão segurar os peepsies por muito
tempo no interior das barracas, Sir!
No estado
de excitação em que se encontrava, usava o tratamento dispensado
aos militares hierarquicamente superiores, embora não soubesse quem
era Chellich. Depois, indagou:
— Será
que não poderia disparar logo?
— Dê-me
uma ajuda — pediu Chellich. — E reze para que este morteiro
funcione da mesma forma que um morteiro terrano.
Usando as
três alavancas cujas funções já tinha descoberto, deu ao cano uma
certa inclinação. Assim a granada disparada detonaria bem além do
acampamento dos peepsies.
Milligan
pegou uma das granadas de cerca de vinte centímetros de diâmetro, e
colocou-a na boca do cano, com a parte achatada para baixo. Lançou
um olhar para Chellich.
— Dentro
de instantes, poderemos ser estraçalhados!
— Procure
abrigar-se assim que solte a granada! — gritou para Milligan.
Este fez
um gesto afirmativo.
— Tudo
preparado, Sir — disse. — Aguardo o comando.
Chellich
observou mais uma vez o painel desmontado e levantou o braço.
— Atenção...
Já!
Milligan
limitou-se a afastar as mãos. O pesado projétil desapareceu no
interior do cano, enquanto Milligan saltava para o lado e se atirava
ao solo.
Chellich
agachou-se atrás da carreta do morteiro.
Por vezes,
o perigo traz um aumento extraordinário da receptividade dos
sentidos humanos. O oficial ouviu perfeitamente o ruído provocado
pela granada enquanto esta descia pelo cano e o estalo que surgiu ao
desencadear a ação de um mecanismo. Seguiu-se um estrondo. Porém,
mais fraco do que Chellich esperara. Após isso, um assobio.
O projétil
saiu numa trajetória parabólica. Emitia um estranho ruído
matraqueante enquanto passava por cima do acampamento. Finalmente
desapareceu na escuridão.
“Daqui
a pouco deve explodir,”
pensou Chellich. “Não...
ainda não... Agora. Caramba! Já deveria ter batido no solo...”
O tempo
arrastava-se com uma estranha lentidão. Ainda se ouvia bem ao longe
o som produzido pela granada, fato que denotava a pouca estabilidade
de sua trajetória.
Por um
segundo, o ruído cessou.
Ao sul,
bem longe do acampamento, surgiu um raio fulgurante. O oficial
sentiu-se com a visão ofuscada. No mesmo instante, o ribombar da
explosão passou por cima das máquinas.
“O
tiro foi muito longo”,
pensou Chellich. “Devemos
abaixar o cano.”
Não tinha
a intenção de atingir o acampamento. Não estava interessado em
matar os peepsies. Mas teria preferido que a granada tivesse detonado
a poucos metros do acampamento, e não a uns quinhentos metros de
distância. Este fato mostrava aos peepsies que não sabia lidar com
o morteiro.
Subitamente
os homens, que se encontravam por perto, entraram em movimento.
Alguém gritou:
— Foi um
excelente tiro, Mr. Chellich! Mostre-lhes com quantos paus se faz uma
canoa. Já estamos com os fuzis.
— Cale a
boca! — disse o oficial em tom zangado. — Foi um tiro horrível.
Postem-se por aqui e detenham os peepsies quando eles aparecerem.
Baixou o
cano do morteiro e, com o auxílio de Milligan, disparou outro tiro.
Desta vez a granada passou pouco acima do acampamento e detonou tão
próxima das barracas que estas começaram a oscilar.
Os homens,
que até então se haviam mantido junto às comportas de ar, para
evitar que os peepsies saíssem, se retiraram. Os peepsies perceberam
e avançaram.
Chellich
pediu que um dos terranos lhe desse uma das pistolas de ultra-som de
que os homens se haviam apoderado. Examinou-a, enquanto a seu lado e
acima dele, sobre as máquinas enfileiradas, os fuzis começavam a
disparar. O avanço desordenado dos peepsies cessou de vez. Os
magricelas esconderam-se atrás das barracas e aguardaram um momento
mais favorável.
Chellich
largou a pistola para disparar outro tiro de morteiro. Girou o cano
para o leste e lançou uma granada bem perto do acampamento, mais ou
menos no lugar em que pretendia. Isso bastou para que os peepsies
compreendessem que ele já aprendera a lidar com a arma.
Os homens
de Greenwich pararam com seus disparos assim que os peepsies se
abrigaram. O oficial terrano teve tempo de examinar a arma de
ultra-som.
Finalmente
descobriu o mecanismo de travamento. Notou que o cano afunilado
girava dentro de certos limites em torno de seu eixo. Girando-o para
a direita, a arma estava travada. Mas Chellich virou o cano para a
esquerda e apontou-o para um cartucho jogado no capim pesado. Este
emitiu um chiado e transformou-se num montículo de poeira metálica.
Nesse
instante, alguém gritou:
— Estão
chegando! À esquerda; saem de trás das barracas.
Chellich
levantou-se. Os peepsies se haviam deslocado furtivamente até a
extremidade norte do acampamento e, emitindo seus pios e chiados,
irrompiam por trás da barraca mais próxima às máquinas. As armas
voltaram a crepitar. Um dos defensores da posição de Greenwich
soltou um grito e caiu de cima da máquina. Chellich viu-lhe uma
ferida sangrenta situada bem embaixo da orelha. Era uma ferida
produzida por ultra-som.
O oficial
jogou-se para a frente. Atirando sem cessar com suas pistolas, os
peepsies avançaram até dez metros, obrigando os homens que
disparavam com os fuzis a abrigar-se. Chellich desferiu uma salva
cantante de ultra-som e criou uma tremenda confusão nas fileiras dos
peepsies. Os terranos aproveitaram a situação, saíram de seus
abrigos e abriram um fogo bem nutrido, produzindo grandes claros nas
fileiras dos atacantes.
Para os
peepsies foi o bastante. Fugiram e voltaram a desaparecer atrás das
barracas.
Chellich
aproveitou a pausa para distribuir as outras pistolas de ultra-som de
que seus homens se haviam apoderado e explicar como lidar com as
mesmas. Quando os peepsies lançaram o terceiro ataque, avançaram
apenas alguns metros além das barracas e logo tiveram de recuar.
Chellich
não estava disposto a perder muito tempo. Com o auxílio de
Milligan, lançou uma granada tão perto da barraca que ficava mais
ao norte que as “paredes”
desta se abaularam depois de perfuradas pelos estilhaços. O ar
penetrou, e os peepsies começaram a soltar assobios lamentosos.
Quinze
minutos passaram-se sem que acontecesse nada. O oficial mandou que
Milligan fosse pegar outra granada. Naquele instante, um vulto magro
surgiu entre as barracas, abanando com um pedaço de pano e trazendo
preso às costas um aparelho do tamanho de uma mala.
Milligan
voltou a colocar a granada na pilha. O peepsie que segurava o pano
parou um instante, em atitude hesitante. Mas a um sinal de Chellich
criou coragem e aproximou-se. Começou a chiar e piar, e antes que
chegasse ao lugar em que Chellich se encontrava, uma voz mecânica
saiu do interior da tal mala:
— O que
é isso? Por que nos atacaram?
O oficial
respondeu:
— Se
veio para negociar, não nos faça perguntas idiotas. Não temos o
menor prazer em ser seus escravos. Se dentro de quinze minutos não
capitularem incondicionalmente, estraçalharemos suas barracas. Volte
para junto de seus homens e diga-lhes que saiam um por um e atirem
suas armas nesse lugar, entre as barracas. Sabe o que vem a ser
quinze minutos?
A mala
traduziu a exigência de Chellich na língua dos peepsies. O
mensageiro ouviu atentamente, virou-se e, sem dizer mais uma única
palavra, voltou para o lugar de onde viera.
Chellich
aguardou com impaciência. A luta ainda não estava decidida. Se o
espírito combativo dos peepsies fosse maior do que imaginava,
poderiam lançar um quarto ataque. E se conseguissem agir de acordo
com um plano bem elaborado, em vez de avançar simplesmente aos chios
e assobios, as chances deles de êxito não seriam tão limitadas.
O oficial
ficou de olho na última das barracas. Era lá que estava o
transmissor de que Pashen lhe falara, e era de se esperar que, antes
de capitularem, os peepsies procurassem transmitir o sinal de
emergência. Talvez fosse possível que, armados apenas com paus, os
dez homens que guardavam a tal barraca não conseguissem conter o
ímpeto dos magricelas. Chellich mandou que mais três homens armados
com pistolas de ultra-som fossem para lá.
Quando
haviam passado uns dez minutos dos quinze que Chellich concedera aos
peepsies, ouviu-se um grito agudo e estridente vindo da periferia sul
do acampamento. Logo após ouviu-se uma voz retumbante —
provavelmente era a de O’Bannon — que gritou:
— Um
deles tentou, Mr. Chellich. Conseguimos pegá-lo.
O oficial
acenou com a cabeça; parecia satisfeito. Lançou um olhar para
Milligan, que se mantinha de pé junto à pilha de munições,
observando vez por outra para o relógio. Ao perceber o olhar de
Chellich, piscou com um olho e sorriu. O oficial cumprimentou-o com
um gesto.
Dali a
pouco, o peepsie com o pedaço de pano voltou a aparecer, desta vez
mais ao longe, num lugar em que mal e mal se conseguia vê-lo em meio
à escuridão.
Fazia
sinais com a mão, mas não se aproximava. Outro peepsie passou entre
duas barracas e atirou ao chão alguma coisa que não se via o que
era. Lançou um olhar atento para Chellich. Este lhe fez um sinal. O
peepsie aproximou-se.
— Revistem-no
para ver se traz armas! — ordenou o oficial aos homens que se
encontravam atrás dele.
Um
terceiro peepsie apareceu, jogou alguma coisa ao chão e seguiu o
primeiro. O primeiro continuava semi-imerso na escuridão e abanando
o pedaço de pano.
*
* *
Dali a uma
hora, todos os peepsies estavam presos em lugar seguro. Não houvera
outros problemas. Estavam prontos para capitular; o susto era tamanho
que nem pensavam em prolongar a resistência. Em seus rostos
desenhava-se o pavor, reconhecível também nos seus gestos. Pavor
este provocado pelo fato de que um punhado de gente, que se
acreditava estar totalmente subjugada, se atrevera a rebelar-se e
ainda tivera a “insolência”
de ser bem sucedido.
Ao todo
foram presos cento e oitenta e três peepsies; cerca de quarenta
estavam feridos. Vinte haviam sido mortos. Do lado dos homens de
Greenwich havia um único ferido.
Constatou-se
que todas as barracas estavam intatas, com exceção daquela
perfurada pelos estilhaços de granada. Os terranos revistaram-nas, à
procura de armas escondidas. Após isso, os peepsies foram abrigados
nas tendas pressurizadas, a fim de que sua saúde não fosse
prejudicada pela elevada pressão atmosférica reinante em Fera
Cinzenta. Estavam indefesos e não poderiam fazer mais nada. Deixaram
que eles mesmos cuidassem de seus feridos e procedessem com os
cadáveres segundo o ritual de seu mundo.
*
* *
Pashen
saiu de uma das barracas situadas na parte sul do acampamento.
Parecia muito perturbado; provavelmente passara por um terrível
susto.
Sem dizer
uma palavra, deixou que o levassem e o trancassem numa das casas
cujas portas já haviam sido reparadas.
Chellich
postou alguns guardas bem armados à frente da barraca em que ficava
o transmissor e incumbiu um dos homens de comprimir o botão preto do
aparelho a intervalos regulares de quatro horas e quarenta e oito
minutos.
Outra
fileira de guardas cercava o acampamento, a fim de reprimir no
nascedouro qualquer tipo de combatividade que voltasse a surgir na
mente dos peepsies.
Chellich
pensou que isso bastaria. O resto de seus homens e as máquinas
voltaram à cidade.
*
* *
No dia
seguinte, o oficial iniciou os trabalhos de construção da bomba. O
detonador, o mecanismo que no momento adequado reuniria as duas
metades da bomba numa massa supercrítica, pôde ser construído sem
sua vigilância. No entanto, fez questão de estar presente aos
trabalhos de remodelação com matéria físsil das duas esferas que
haviam sido retiradas de dois dos reatores.
A bomba
teria de ter o formato esférico, pois a matéria físsil de cada
reator tinha de ser reduzida a uma semi-esfera. Dali resultariam
certas “lascas”
que, face às suas reduzidas dimensões e ao elevado grau de
radiatividade, poderiam representar um perigo.
Chellich
exigiu que quem trabalhasse na remodelação dos reatores teria de
usar trajes protetores de radiações. Exigiu também que as
ferramentas utilizadas no trabalho fossem enterradas. A pequena sala
onde realizaram-se os trabalhos foi lacrada, para que nunca mais
fosse usada.
Chellich
procurou calcular o poder explosivo da bomba. Com os trabalhos, a
massa físsil era reduzida em alguns gramas. Por isso, viu-se
obrigado a revestir o reator com uma camada reflexiva, para que não
houvesse o menor risco. Com esse refletor, a bomba teria, segundo os
cálculos do oficial, uma força explosiva de quinze mil toneladas de
TNT. No entanto, não pôde deixar de confessar que poderia ter
havido um engano de trinta por cento para mais ou para menos, já que
não dispunha dos meios necessários a um cálculo mais preciso.
Esse
imenso poder explosivo, se bem que fosse bastante reduzido em
comparação com o das bombas produzidas na Terra, trazia novos
problemas, sobre os quais Chellich ainda não refletira detidamente.
Era de
supor que, quando tivessem passado os quatro meses, a grande
espaçonave dos peepsies fosse pousar no mesmo local em que descera
na noite do dia 15 para o dia 16 de janeiro. Esse lugar ficava a
cerca de oito quilômetros de Greenwich, e estava separado da cidade
pelos destroços da enorme Adventurous. Por isso não era de se
recear que houvesse qualquer efeito direto da explosão sobre a
cidade, mas a radiatividade produzida pela bomba poderia representar
um perigo futuro para seus habitantes.
Tentou
calcular o volume total das radiações que seriam produzidas pela
bomba e concluiu que era tão elevado que justificava a evacuação
da cidade. E, depois da explosão, não poderiam voltar à mesma. Um
grupo de trabalho, equipado com trajes protetores, teria de desmontar
as casas para reconstruí-las em lugar mais seguro. O trabalho não
seria muito difícil, já que todas eram feitas de peças
pré-fabricadas.
Chellich
procurou explicar à Assembléia Popular que essa medida seria
imprescindível. Os membros daquele congresso não se entusiasmaram
com a idéia, mas chegaram à conclusão de não haver outra
alternativa.
Também
conseguiu convencer os representantes da Assembléia de que, apesar
da situação tensa, os trabalhos de lavoura deveriam prosseguir.
Muitos membros foram de opinião que havia coisa mais importante a
fazer. Mas Chellich via aproximar-se o momento em que os habitantes
de Greenwich começariam a sofrer de alergia provocada pelos
alimentos em conserva altamente concentrados. Daí resultariam as
doenças do estômago. Soube expor muito bem os seus argumentos, e a
Assembléia acabou concordando com o preparo de uma área de quarenta
quilômetros quadrados destinada ao plantio de cereal panificável.
Pouco
tempo depois do ataque ao acampamento dos peepsies, a calma voltou a
reinar no planeta Fera Cinzenta; mas era uma calma enganadora.
*
* *
Nos quinze
dias que se seguiram à conquista da liberdade, Chellich parecia
sofrer de angústias. Não se mostrava tão alegre como de costume e
Mullon, que acreditava ser amigo de Chellich, não parava de fazer
perguntas sobre o motivo de sua tristeza.
Mas só
conseguiu saber o que realmente estava ocorrendo quando Chellich
disse com um suspiro de alívio.
— Acho
que o pior já passou.
Mullon fez
um gesto de assentimento.
— Fico
satisfeito em saber disso. Qual é esse pior?
— Pense
um pouco — respondeu Chellich. — Suponha que Pashem tivesse
mentido quando nos falou a respeito do transmissor. Se tivesse
indicado um intervalo errôneo para a transmissão do sinal de
rotina... Já imaginou o que aconteceria?
Mullon
espalmou as mãos.
— É
simples. Os peepsies teriam pegado sua espaçonave e viriam ao
planeta Fera Cinzenta para verificar o que estava acontecendo.
— Exatamente
— confirmou Chellich. — Acontece que não fizeram nada disso
Logo, as informações fornecidas por Pashen são corretas.
Mullon
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Como
soube disso?
— No
momento, a distância entre o planeta Fera Cinzenta e Mirta XII, que
é o mundo dos peepsies, é pouco inferior a quatrocentos milhões de
quilômetros. Segundo os cálculos do Capitão Blailey, a nave dos
peepsies não desenvolve mais que trezentos mil quilômetros por
segundo. Conclui-se que, na melhor das hipóteses, levaria dez dias
para fazer a viagem de Mirta XII ao planeta Fera Cinzenta. Tenho
certeza de que os peepsies se teriam apressado, se notassem que
alguma coisa não está certa. Acontece que quinze dias já se
passaram desde o ataque, e ainda não vimos o menor sinal da nave.
Então, ao que tudo indica, não perceberam nada. Meu raciocínio não
lhe parece lógico?
Mullon fez
um gesto afirmativo.
— Muito
lógico — disse.
*
* *
No fim do
segundo mês, um grupo começou a construir uma espécie de abrigo
gigantesco junto ao rio que passava perto de Greenwich. Nesse abrigo
— protegido contra o vento e as águas e que, se necessário,
poderia ser coberto com grandes encerados — os habitantes da cidade
estariam protegidos contra os efeitos das radiações até que suas
casas fossem reconstruídas.
Segundo os
cálculos de Chellich, uns três ou quatro dias se passariam desde a
evacuação da cidade até a reconstrução das casas. Não era muito
tempo, e para os habitantes de Greenwich, que já estavam acostumados
a outras provações, a permanência no abrigo não representaria uma
carga excessiva.
O abrigo
ficava vinte quilômetros ao nordeste de Greenwich, bem além dos
limites de eficácia da bomba. A nova cidade seria erguida bem perto
desse lugar.
No fim do
terceiro mês, os cento e oitenta peepsies, que se mantiveram calmos
e obedientes, foram evacuados juntamente com as barracas
pressurizadas e instalados junto ao rio. Apenas o transmissor
permaneceu no mesmo lugar, pois, com o transporte, poderia ser
danificado.
Nesse meio
tempo os trabalhos de semeadura do trecho de quarenta quilômetros
quadrados haviam sido concluídos e as plantas estavam nascendo.
Segundo a opinião dos técnicos, realmente se poderia contar,
conforme as exigências dos peepsies, com um produto que
corresponderia a duas mil vezes a quantidade da semente.
*
* *
Nos
últimos dias do terceiro mês, o nervosismo crescia constantemente.
Chellich não pretendia iniciar a evacuação antes que isso se
tornasse necessário; esperava pelo sinal de Blailey. Os aparelhos
existentes a bordo da gazela permitiriam a Blailey localizar a nave
dos peepsies em tempo, para que os habitantes da cidade pudessem
transferir-se calmamente para o abrigo montado junto ao Rio Verde;
agora, que esse curso de água repentinamente se tornara tão
importante, resolveram dar-lhe um nome.
Acontece
que só Mullon conhecia os contatos misteriosos de Chellich. Por
isso, os menos corajosos acharam que a demora do oficial era
irresponsável, ao passo que para os mais corajosos era inexplicável.
Chellich
recebeu os ataques com o maior estoicismo. Sabia que, assim que a
bomba explodisse, a raiva se desvaneceria.
Na
madrugada do dia 15 de abril de 2.041, tempo de Fera Cinzenta, o
oficial foi despertado por um zumbido do rádio de pulso. Colocou o
aparelho em funcionamento e ligou para a recepção.
— Flor
de Havaí — disse a voz áspera de Blailey.
— A flor
de Havaí está a caminho de Taiti — respondeu.
— Fizemos
uma localização na direção de Mirta XII — explicou Blailey. —
Distância vinte e cinco vezes dez na nona potência, velocidade
novecentos mil. Já iniciaram a manobra de frenagem. Ao que parece,
não têm muita pressa.
— Obrigado
— respondeu Chellich. — O senhor conhece os dados da frenagem?
Quando deverá estar aqui?
— Entre
trinta e sete e quarenta horas a partir de agora. Tudo em ordem por
aí?
— Tudo —
respondeu Chellich.
— Ainda
bem. Fico torcendo pelo senhor. Quando tudo tiver passado, teremos
muito para conversar.
— Ah, é?
— perguntou Chellich.
— É,
sim. Na Terra já estão informados sobre o que está acontecendo.
Acham elogiável a energia dos colonos e chegaram à conclusão de
que no futuro deverão ser apoiados em sua luta contra os peepsies.
Será que o senhor acredita que depois da destruição daquela nave
espacial a paz reinará para todo o sempre?
— É
claro que não, Sir.
— Pois
então, a partir do momento em que a bomba for detonada, o planeta
Fera Cinzenta se encontrará em alarma de primeiro grau. Por enquanto
estaremos sós, mas se a situação se tornar mais séria receberemos
um cruzador da classe Terra.
Chellich
reprimiu um grito de alegria.
— O
senhor disse alguma coisa? — perguntou Blailey. — Não? Bem, pelo
que ouvi falar querem transformar Mirta VII numa base de nossa frota
espacial. Por qualquer razão, o lugar deve ser favorável. Boa
sorte! Precisa de alguma coisa?
— Não,
obrigado — respondeu Chellich. — Os colonos preferem fazer o
trabalho sozinhos.
— Hum —
fez Blailey. — Meus respeitos.
*
* *
Ao nascer
do sol, a cidade começou a ser evacuada. Pelo meio-dia, metade dos
habitantes já se havia transferido para o abrigo, situado junto ao
Rio Verde. Às trinta horas, não havia mais ninguém na cidade, com
exceção dos cinco homens incumbidos da detonação da bomba.
Blailey
voltara a chamar Chellich e o avisara de que o pouso da espaçonave
era esperado para o tempo situado entre sete horas e sete e trinta.
Pouco
depois do pôr do sol, Chellich e Mullon subiram à máquina em cujo
interior estava instalada a bomba e foram até as proximidades do
local de pouso.
— O que
acontecerá se resolverem pousar em outro lugar? — perguntou
Mullon.
Chellich
olhou-o de lado.
— Nesse
caso, um de nós terá de subir à máquina e levá-la ao local
adequado.
— Mas os
peepsies o verão! E não deixarão de tirar suas conclusões...
— Sem
dúvida — começou Chellich. — Acontece que o perigo será muito
menor do que o senhor pensa, pois na hora do pouso estará escuro.
Além do mais, o helicóptero está pronto para decolar. Se
necessário, o homem que dirigir a máquina com a bomba poderá ser
retirado pelo caminho mais rápido. Não se esqueça de que a
espaçonave dos peepsies é um veículo pouco ágil. Não é capaz de
uma decolagem-relâmpago. Não conseguirão afastar-se antes de
detonarmos a bomba. Que horas são?
Mullon
informou.
— Daqui
a duas horas teremos de comprimir o botão negro — disse Chellich.
— Senão acabarão desconfiando no último instante.
Largaram a
máquina e voltaram à cidade a pé.
*
* *
Dormira um
pouco; os outros, ou seja, Mullon, Milligan, O'Bannon e Wolley não
conseguiram. Estavam reunidos na casa de O’Bannon, em torno da mesa
sobre a qual estava o detonador da bomba.
No momento
em que Chellich se levantou e surgiu na porta, Wolley estava dizendo:
— É
esquisito. Basta mover esta chave, e a dez quilômetros daqui o
inferno estará às soltas.
O oficial
bocejou.
— Se o
senhor gosta disso, poderá fazê-lo daqui a pouco, Mr. Wolley. Que
horas são? Falta pouco para as seis? Maldita espera! Alguém tem
café?
— Temos
muito mais do que o senhor poderia suportar — disse O’Bannon,
trazendo um enorme bule. — As xícaras estão ali.
Chellich
serviu-se de café e perguntou:
— Alguém
cuidou do transmissor?
— Conforme
o combinado — disse Mullon. — Transmitimos o sinal no momento
exato.
O oficial
soprou seu café. Até parecia que desejava evitar que os presentes
pensassem nos peepsies ou na bomba, pois subitamente disse:
— Andei
pensando. Acho que não poderemos usar o cereal plantado na faixa de
dois quilômetros situada ao oeste, pois a área será atingida pelas
radiações da bomba.
O’Bannon
entrou no assunto.
— Serão
seis quilômetros quadrados de um total de quarenta e dois. Acho que
a perda é suportável.
— Quanto
às casas — prosseguiu Chellich — teremos de lavar as peças no
rio antes de voltarmos a montá-las, por causa da poeira radiativa.
Mullon fez
um gesto de assentimento.
— Acha
que isso bastará?
— Tenho
certeza absoluta. Dispomos de medidores de radiações em número
suficiente para verificarmos tudo, não é?
Mullon fez
que sim.
— Temos
mais de trinta — disse.
Wolley
levantou-se e saiu. Ao que parecia, não suportava esta conversa que
girava em torno de bagatelas.
— Está
sentindo os nervos — disse O’Bannon com uma risada, mas pelo tom
da risada concluía-se que com ele acontecia o mesmo.
Chellich
acendeu um cigarro e disse:
— Teremos
de verificar se não existe alguma planta parecida com o tabaco.
Teremos de cultivar o fumo, senão acabaremos ficando sem cigarros.
Lançou um
olhar para Mullon, como se aguardasse a sua concordância, mas este
limitou-se a dizer:
— Agora
chega de conversa, Chellich!
*
* *
Pouco
antes das sete horas, o oficial manteve a última palestra com o
Capitão Blailey.
— Estão
chegando! — exclamou Blailey. — E vêm certinho, exatamente ao
mesmo local de pouso. Chellich espantou-se.
— Onde
está o senhor para constatar isso com tamanha exatidão?
— Estamos
num estreito desfiladeiro — respondeu Blailey. — Não poderão
localizar-nos com o radar, e outra coisa eles não têm.
— Quanto
tempo deverá demorar?
— Uns
trinta ou quarenta minutos — respondeu Blailey. — Vêm descendo
devagarzinho, que nem uma folha que cai. Desligaram os jatos de
plasma e trabalham com um campo de gravitação artificial.
Chellich
refletiu.
— É
estranho que já conheçam isso — disse. — Olhe que andam por aí
nuns calhambeques bem antiquados.
— Às
vezes a ciência entra por atalhos estranhos — disse Blailey. —
Na Terra, a teoria dos quanta também era conhecida antes que se
soubesse qualquer coisa sobre a estrutura do átomo.
*
* *
Pegaram o
detonador e saíram da cidade, na direção norte. Mullon seguiu-os
de helicóptero, passou por eles e pousou no lugar combinado, que
ficava cerca de dois quilômetros ao sul da cidade.
Às seis
horas e vinte e cinco minutos, viram a luz vermelha, que já lhes era
conhecida, surgir no céu e descer lentamente. Ao mesmo tempo,
ouviram um ruído leve e agudo.
Milligan e
O’Bannon colocaram-se, cada qual com um teodolito, em pontos
prefixados, e realizaram a angulação da luz vermelha.
— Isso
basta — disse Chellich em tom sério. — Mullon, avise o pessoal.
Mullon
pegou o pequeno aparelho de rádio, levantou a antena e ligou-o.
Colocou o fone no ouvido e uma voz disse:
— Aqui
fala Stokes. O que houve?
O
democrata parecia sem fôlego quando disse:
— Tudo
em ordem. Faremos a bomba detonar dentro de um minuto.
*
* *
O momento
chegara!
Uma
gigantesca bola de fogo levantou-se ao sul, irradiando a claridade de
vinte sóis. Os destroços da gigantesca Adventurous pareciam um
pontinho situado na periferia interior da bola luminosa.
Assim o
fenômeno foi visto no Rio Verde.
Chellich e
seus companheiros apenas notaram que os arredores estavam banhados em
luz. Estavam deitados numa pequena depressão do terreno e haviam
erguido um escudo de metal plastificado à sua frente, a fim de
proteger-se do calor.
*
* *
Dois dias
depois da explosão, a área foi examinada por meio de um
helicóptero. O piloto e seu acompanhante usavam pesados trajes
protetores. Encontraram uma grande cratera, mas não viram o menor
sinal da nave dos peepsies.
Quanto ao
mais, acontecera o que Chellich havia previsto. Os destroços da
Adventurous haviam evitado o pior para a cidade de Greenwich. A
própria Adventurous, que se encontrava a poucos quilômetros do
local da explosão, não se movera um centímetro. A face sul emitia
uma dose apreciável de radiações, mas no interior da nave o perigo
radiativo era praticamente nulo.
A
intensidade das radiações era de um milirontgen
por hora, o que correspondia aproximadamente ao quádruplo do valor
usual.
Chellich
mandou que as casas fossem desmontadas e removidas imediatamente,
antes que o vento mudasse de direção. Os homens do grupo de
transporte simplificaram o trabalho o mais que puderam. Assim que
chegavam ao rio, atiravam as peças no mesmo, deixavam que flutuassem
rio abaixo e voltavam a retirá-las. Dessa forma, tinham certeza de
que toda a poeira radiativa fora removida pela água.
A
reconstrução da cidade de Greenwich foi levada a efeito com uma
rapidez espantosa. O perigo de radiações era muito reduzido, e por
isso todos os homens puderam participar dos trabalhos. No dia 5 de
maio, a cidadezinha se apresentava como antes, apenas a vinte
quilômetros do local anterior.
As pessoas
voltaram às suas casas; sentiram-se felizes por poderem morar nas
mesmas, em vez de habitarem o abrigo, e ainda porque os peepsies
haviam sido derrotados. Todos pareciam saber que os magricelas nunca
mais poriam os pés no planeta Fera Cinzenta. As poucas pessoas que
pensavam de outra forma guardavam suas preocupações para si.
Na
verdade, não chegava a haver preocupações. Chellich informara a um
pequeno círculo de pessoas de confiança que o planeta Terra
mantinha sua mão protetora sobre os desterrados. Essa informação
provocou uma verdadeira euforia.
Realizaram-se
cuidadosas medições, e estas revelaram que apenas uma pequena faixa
da área cultivada sofrera a contaminação radiativa. O cereal dessa
faixa foi cortado e queimado num momento em que o vento soprava numa
direção favorável. O resto crescia e amadurecia, e fazia com que
os habitantes de Greenwich ficassem com água na boca ao pensarem num
pedaço de pão fresco.
Chellich
pretendia ficar em Greenwich até que tudo tivesse voltado ao normal.
Depois faria uma visita ao Capitão Blailey, juntamente com Mullon e
O'Bannon. Havia necessidade de conferenciar sobre as novas medidas a
serem tomadas contra os peepsies, que provavelmente não os deixariam
em paz. Greenwich tinha a condição de colônia independente,
condição esta que estava implícita na sentença proferida contra
os desterrados. Portanto Blailey tinha a obrigação de ouvir o
presidente da colônia sobre o que pretendia fazer.
Os
prisioneiros peepsies receberam com a maior tranqüilidade a notícia
da destruição de sua grande espaçonave. Ao que parecia, já se
haviam conformado com o fato de que nada poderiam fazer contra os
terranos. Mostraram-se dispostos a prestar aos colonos toda
colaboração que lhes era possível; prontificaram-se, por exemplo,
a ensinar-lhes como manejar as naves auxiliares apresadas.
No dia 2
de junho, Chellich partiu juntamente com Mullon e O’Bannon.
Levaram
Pashen, pois estavam convencidos de que no planeta Fera Cinzenta não
seria possível aplicar-lhe a pena que merecia. Na Terra, sua vida
seria poupada, conforme Chellich lhe havia prometido. Mas não lhe
dariam oportunidade para que mais uma vez pusesse em prática suas
estranhas idéias sobre a lealdade e a sinceridade, em prejuízo do
próximo.
*
* *
*
*
*
Por
enquanto, as investidas dos peepsies foram barradas. Mas, se da
próxima vez eles enviarem toda a armada espacial, a situação pode
ficar crítica...
Em
Interlúdio em Silico
V,
título do livro seguinte, uma aventura enigmática acontece.

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