— Sim, e
os terranos perderam só um. Já sei disso — atalhou Garathon
furioso.
— Eles
querem de qualquer maneira mais reforço. Sozinhos não vão mais
agüentar.
Garathon
decidiu sem muita hesitação:
— Mande-lhes
cinco homens, deve ser suficiente.
Garr
anotou tudo num pedaço de papel que sacou do bolso, coisinhas
mínimas que qualquer criança guardaria de cabeça.
— Fora
disso — perguntou autoritário Garathon — como estão as
colheitadeiras?
Esta
pergunta se dirigia ao quinto saltador, sentado um pouco afastado da
mesa, como se não pertencesse ao grupo, o que em parte era verdade.
Chamava-se Lag-Garmoth. Já o nome indicava pertencer ele a um outro
clã ou subclã. Garathon o tomara emprestado, pois Lag-Garmoth era
bioquímico e no clã de Garathon não havia ninguém com esta
profissão, aliás necessária em Azgola. Conforme os antigos rituais
do clã, Lag-Garmoth estava obrigado a manter absoluto segredo, em
troca do que receberia um bom lucro. Não obstante tudo isto,
Lag-Garmoth e Garathon não se suportavam. Tinham a mesma idade e
mais ou menos a mesma inteligência.
— Bem —
respondeu secamente o bioquímico. — Estarei pronto na data
combinada.
— Não
pode ser mais cedo?
— Não.
Pela
primeira vez olhou diretamente para Garathon, que pareceu ler nos
seus olhos enérgicos uma ameaça: “Não
queira perguntar por quê!”
Engoliu a pergunta e disfarçou com outro assunto:
— Alguma
idéia nova sobre a origem do fenômeno?
— São
fungos de um musgo — respondeu Lag-Garmoth — que deve existir em
Azgola em grande quantidade. Tais fungos contêm excelentes elementos
nutritivos que chegam ao interior do organismo pelas vias
respiratórias. Eles são, se pudermos falar assim, um alimento já
digerido, não havendo mais necessidade do trabalho estomacal. A
substância nutritiva é imediatamente...
— Está
bem, está bem — interrompeu-o Garathon. — Estou pensando em
outra coisa. Este musgo tem alguma semelhança com os demais musgos
encontrados em Azgola? Como você sabe, já fizemos mais vezes esta
pergunta.
Lag-Garmoth
gesticulou longamente com a mão direita, antes de responder:
— Francamente,
ainda não sei. Não achamos ainda nenhuma espécie de musgo que se
assemelhe a este negócio esquisito. Isto, porém, não quer dizer
que não exista.
— Certo.
Agora, haverá alguma possibilidade de os primeiros fungos terem
entrado aqui através do espaço?
— Não.
Fungos de musgo são formações relativamente bem desenvolvidas. Não
podem suportar as condições do espaço.
— Suponhamos
que o musgo não seja realmente uma planta nativa do planeta —
continuou Garathon insistente — e a favor desta hipótese, o maior
argumento é o fato de que os azgônidas até pouco tempo eram magros
e fracos. De onde e como teria este musgo chegado a Azgola?
— De
onde? Não tenho a menor idéia. Como? Lembre-se da história que
ouvimos a respeito de seres...
— Isto é
bobagem! — gritou Garathon. — Não existe na Galáxia nenhuma
raça desconhecida viajando pelo espaço.
Mais uma
vez, Lag-Garmoth começou a gesticular com a mão direita.
— Então
não sei mais nada — respondeu ele. — Mas eu também tenho uma
pergunta para fazer — levantou a cabeça e olhou em volta. — Acho
que já tornei bem claro que a construção das colheitadeiras, que
apanham automaticamente os fungos dos musgos, os comprimem e os
deixam prontos para o transporte, exige todas as nossas reservas de
energia. Pedi, por este motivo, que fosse reduzido ao máximo todo
consumo particular de energia. Há pouco tempo, duas máquinas
importantes falharam. Surgiu uma série de enguiços repentinos por
falta de energia. Gasta-se pelo menos quatro horas para se colocar de
novo a máquina em funcionamento. Se conseguir recuperar este atraso
e esta perda, o merecimento é exclusivamente meu e de minha gente, e
de mais ninguém. Gostaria de saber quem está causando este
transtorno.
Garathon
teve a coragem de levantar a cabeça e olhar em volta. Sabia
perfeitamente como era grande o consumo de energia de seus
instrumentos de tortura.
— Será
um de nós aqui? — perguntou com aparente naturalidade.
Um depois
do outro, todos fizeram um gesto negativo.
— Não é
nenhum saltador — disse Garathon peremptório. — Vou mandar
investigar o assunto.
Levantou-se.
— O que
vai acontecer com os prisioneiros? — perguntou Lag-Garmoth
indiferente.
Por um
triz que Garathon não perdeu o autodomínio. Só depois de um
instante de hesitação foi que lhe chegou ao consciente que a
ligação das duas perguntas não tinha significado especial. A
pergunta indiscreta referente ao consumo clandestino de energia e a
pergunta a respeito dos prisioneiros podiam ter saído dos lábios de
Lag-Garmoth por acaso, uma depois da outra, sem segundas intenções.
— Por
que...? — disse Garathon indeciso, depois de se ter refeito do
susto. — Vamos levá-los conosco quando deixarmos Azgola, para que
não possam nos prejudicar.
Depois
destas palavras, Lag-Garmoth não se manifestou mais, parecendo estar
satisfeito. Garathon deixou o recinto. Estava irritado a aborrecido
por ter perdido o autodomínio. Parecia até nervoso. O ar, a umidade
e a misteriosa substância nutritiva o deixavam maluco.
Despertou
num mar de dores. Queria gritar, mas seus pulmões não tinham ar
para tanto e as cordas vocais não funcionavam mais.
Seu
primeiro pensamento foi para Garathon, cujo nome congregava todo ódio
do mundo. Conseguiu abrir os olhos, examinando espantado o ambiente
em volta.
Não
fizeram muita cerimônia para lhe arranjar um abrigo. O cubículo era
quadrado, sendo que a única mobília não passava de uma lâmpada
antiquada no meio do teto. Ron Landry estava deitado de costas. Se
virasse de lado para a direita, daria com o material liso da parede
bem na frente dos olhos.
Na parede
oposta em ângulo reto, existia uma porta ou ao menos os contornos de
uma porta. Mas não viu o menor sinal de um dispositivo que
permitisse abri-la. É claro que isto não estaria, nem podia estar,
nas intenções dos saltadores. Uma porta que não se pudesse abrir
por dentro, reduzia de qualquer maneira o trabalho de ficar vigiando
os prisioneiros.
Tentou
levantar-se e uma onda de dor lancinante o envolveu todo quando
firmou os pés no chão. Cerrou os olhos, apoiou-se na parede e ficou
esperando. A dor foi passando, afastou-se da parede e conseguiu ficar
de pé. Sentia uma leve tontura e as linhas retas das quinas das
paredes lhe davam a impressão de serem sinuosas. Mas foi tudo. Com
força de vontade se podia agüentar.
Ron não
queria mais fazer experiências. Sabia que eram inúteis e perigosas
e não devia desperdiçar energia, mas poupá-la. Sentou-se de novo
no chão, encostando-se na parede.
“Eu
devia estar com fome agora”,
pensava ele.
Procurou
se lembrar há quanto tempo não punha nada na boca. Não o
conseguiu. Para isso tinha que saber por quanto tempo estivera
inconsciente. Não tinha mais relógio consigo, aliás nenhum dos
instrumentos de medição que costumava carregar. Percebera isto já
durante a conversa dolorosa com Garathon. Os saltadores lhe haviam
tirado tudo, em primeiro lugar, naturalmente, a arma.
No tocante
à fome, era mesmo esquisito. Não apenas pelo fato de não senti-la.
Tinha mesmo a sensação de ter saído naquele instante de um lauto
banquete, onde havia comido demais. O mistério de Azgola: alguma
coisa pairava no ar, deixando os homens saciados e gordos. Algum
elemento estranho que o corpo absorvia com avidez. E os saltadores
pretendiam utilizá-lo como um negócio, a fim de um lucro fabuloso.
Seria de
fato um negócio esplêndido quando descobrissem o fenômeno. No
espaço imenso da Galáxia, havia muitos mundos cuja população
passava fome, porque o solo era infértil ou por não dominarem os
métodos de fabricar alimentos sintéticos ou simplesmente porque a
população era excessiva. Se os saltadores conseguissem introduzir
no mercado um produto alimentício que saciasse a fome pela simples
respiração, ficariam milionários da noite para o dia.
Apesar de
seu estado físico, Ron compreendia os truques, a astúcia e a
clandestinidade com que agiam os saltadores em Azgola. Já haviam
feito péssimas experiências com os terranos, especialmente os do
clã de Garathon, de onde descendia também Alboolal. Não queriam
ser perturbados no seu “trabalho” em Azgola e ninguém devia
saber que eles estavam por ali. Os azgônidas não eram capazes de
prejudicá-los, nem traí-los, pois não tinham meios para isto. E
quanto a suas espaçonaves, cujos motores podiam ser rastreados de
longe, os saltadores as haviam enviado de volta para o espaço
distante, onde ninguém as procuraria.
Compreendia
também que a missão que recebera de Nike Quinto já estava cumprida
— se a tomasse ao pé da letra. Sacerdotes de Baalol não existiam
em Azgola. A aventura vivida por Chuck Waller não tinha nada que ver
com um dos misteriosos ativadores celulares que alguns adeptos de
Baalol traziam consigo.
As duas
espaçonaves de que falara Bladoor deviam ter alguma coisa com os
singulares acontecimentos de Azgola. Ron tentou fazer um quadro geral
de tudo que se passara no planeta. De onde teriam vindo as duas
naves, a grande e a pequena, por que não se via nenhuma tripulação?
Que vieram fazer em Azgola estas duas naves?
É claro
que existiam naves robotizadas, isto é, tripuladas somente por
robôs. A maior parte da frota arcônida era assim. Os azgônidas
mesmos não dominavam a Cosmonáutica, em compensação chegaram a
desenvolver um grande sentido para distinguir os diversos tipos de
espaçonaves e saber a que parte da Galáxia pertenciam.
Naves como
estas jamais foram vistas antes em Azgola. E mais ainda, conforme as
descrições de Bladoor, Ron começou a duvidar de que elas
existissem mesmo em outra parte. Falar numa raça desconhecida,
vagando em naves pelo espaço? Era uma coisa inimaginável. Mas mesmo
assim, Ron julgava que esta suposição absurda devia entrar no
âmbito das hipóteses.
Por algum
tempo, deu vazão a esta fascinante idéia. Depois, concentrou sua
atenção em problemas mais concretos, mais evidentes. Tinha que
achar uma saída. Seu pensamento voltou-se novamente para Garathon e
foi neste momento que pela primeira vez achou estranho o fato de que
Garathon já o conhecia e sabia que ele estava implicado na prisão
de seu primo Alboolal. Estranho mesmo, pois a identidade dos homens
que trabalhavam para Nike Quinto, na Divisão III, era mantida sob
severo sigilo. Ninguém sabia exatamente quais eram as atribuições
da Divisão III, muito menos quais os homens que dela faziam parte. É
verdade que às vezes não se podia evitar que os homens de Nike
Quinto fossem conhecidos por pessoas estranhas durante o desenrolar
de uma missão, onde não podiam esconder totalmente suas funções.
Mas, com toda certeza, Garathon não esteve naquela época em Ghama.
Como se
explicaria isto?
A resposta
era simples. Garathon os submetera a uma espécie de lavagem
cerebral, ou a todos os três ou a ele, Ron, somente. Isto devia ter
sido feito durante o período em que estavam inconscientes. Havia uma
série de informações mais importantes e mais secretas que estavam
impregnadas no cérebro de Ron, Larry e de Lofty, de tal maneira que
não existia na Galáxia nenhum método de inquirição ou de lavagem
cerebral que pudesse atingi-las. Mas, quanto ao conteúdo comum do
consciente, qualquer meio eficaz bem aplicado podia desvendá-lo. E o
nome e a atividade de um homem são coisas que pertencem ao conteúdo
comum do consciente.
Conseqüência
de tudo isto: seu ódio contra Garathon chegou ao clímax. Por
insignificantes que fossem as informações arrancadas de seu
consciente, um homem de boa inteligência, de posse de um bom
computador, podia deduzir muita coisa sobre a existência, os métodos
e a atividade da Divisão III e do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento.
Garathon
representava, pois, perigo para a Terra. E Ron compreendeu que tinha
que tomar alguma iniciativa. Não podia ficar ali deitado, esperando
pela ação do inimigo. Tinha que agir.
É muito
difícil empreender algo de concreto quando se está num cubículo
vazio, com a única porta totalmente travada. Podia gritar e esmurrar
a porta, até que viesse um guarda, que certamente estaria por ali.
Mas o guarda seria cauteloso e não lhe daria chance de escapar. Além
do mais, os saltadores não eram gente de cair facilmente numa
cilada.
Ron
começou a remoer as coisas e fatos das últimas horas. Tinha que
arranjar um ponto de apoio.
“Fomos
atacados na cidade. Perdemos os sentidos. Os saltadores nos
apanharam, Garathon nos aplicou a lavagem cerebral. Eu fiquei depois
um bom tempo inconsciente e acabei despertando no recinto de trabalho
de Garathon, com os terríveis suplícios elétricos. Falei com
Garathon e fui por ele inquirido...”,
meditava.
Seus
pensamentos estavam hesitantes e procuravam voltar a um ponto onde
não havia muita clareza. Que ponto era este? Voltou mentalmente todo
o caminho percorrido. A queda, o aprisionamento, o transporte, o
inquérito, o voltar a si.
— O
inquérito! Ah! O inquérito.
Não sabia
ou não se lembrava de que tipos de aparelhos Garathon usou para
arrancar informações, informações estas que jamais daria
conscientemente. Mas, pelo que se conhecia de Garathon, não havia
dúvida de que ele fizera tudo para descobrir o que desejava.
Equivalia, então, a dizer que esgotara a capacidade tanto dos
aparelhos como de seu prisioneiro. Talvez tivesse mesmo superestimado
a capacidade mental de seu prisioneiro. Sabia de muitos casos em que
a lavagem cerebral levara à loucura.
Isto lhe
vinha servir agora de pretexto, abrindo-lhe um novo caminho. Nunca
representara um papel deste tipo e precisava de alguns minutos para
se preparar. Ponderou tudo que ia fazer e a seqüência das ações.
Calculou também todas as hipóteses no tratamento com o possível
guarda, as reações dele às suas encenações. Não chegou, porém,
a um plano definido. Se continuasse assim, iria confiar na inspiração
do momento. Não havia nenhum plano que continuasse depois do ponto
em que o guarda abrisse a porta e olhasse para dentro...
Ron
começou a esmurrar a porta e a gritar, tendo o cuidado de emitir
sons agudos e diferentes. De vez em quando gargalhava doidamente.
Esbravejava, pulava, jogava-se no chão, corria batendo com os ombros
contra a porta, cuspindo e virando os olhos. No estado de fraqueza em
que se achava, não foi para estranhar que começasse a espumar.
Recuou de
novo para dar mais um safanão na porta. Neste momento ela se abriu.
Por uma fração de segundo, parou para olhar, continuando logo
depois. Deixou-se cair de costas e começou a dizer coisas
desconexas, enquanto os olhos começaram a lacrimejar de tanto
esforço que fazia para virá-los.
Na
realidade, estava exultante de contentamento. Sabia que vencera. Quem
estava junto da porta, examinando-o com olhos mortos, não era um
guarda comum, mas sim um robô dos saltadores.
*
* *
Meech
tinha a impressão de que tudo estava em ordem. Pareceu-lhe que
ninguém notara que ele havia penetrado na base, passando pela série
de sensores ultravermelhos. Esperara alguns minutos, embora cada
minuto lhe parecesse uma eternidade, para depois continuar
caminhando.
Agora, era
uma cúpula que se erguia à sua frente, muito maior que a do sinal
de alarma que pulara facilmente. A irradiação dos três conjuntos,
que já sentira de longe, vinha agora de debaixo da terra, num ângulo
oblíquo. Portanto, a base mesmo era subterrânea em quase toda sua
extensão.
A questão
era a seguinte: como penetrar nela? Se os saltadores haviam defendido
tão bem os terrenos adjacentes à base, era evidente que a segurança
lá dentro seria redobrada. Os últimos passos seriam, pois, mais
difíceis que todos os outros. Mesmo assim, o biorrobô terrano foi
se aproximando sem hesitação.
Examinou o
material. Era aço polímero e ferro. Podia-se fabricar uma cúpula
desta no prazo de poucas horas. Meech notou que os saltadores tiveram
de fazer sua base às pressas.
Andou uns
dez metros em volta da cúpula e descobriu um par de ranhuras,
ocupando um pedaço retangular da superfície da mesma. Estas
ranhuras eram estreitas e de pouca fundura, talvez alguns milésimos
de milímetro. A vista humana certamente não as teria percebido.
“Deve
ser uma escotilha ou comporta. E talvez haja outras”,
pensou Meech. “Os
saltadores possuem carros voadores. Não vi nenhum deles ao ar livre.
Devem estar no interior da cúpula. Mas por esta escotilha aqui não
podem passar.”
Meech
sabia que estava na dependência de um deslizador se quisesse pôr
fora de perigo Ron Landry e sua gente.
“Não
poderiam sair correndo por aí. Necessitavam de um veículo
rápido...”,
concluiu.
Continuou
a marcha, achando depois de meio minuto a grande abertura, tão bem
fechada como a primeira. As ranhuras atingiam grande parte da
curvatura da abóbada. Tão grande era a abertura que até poderiam
passar por ela dois deslizadores ao mesmo tempo. O biorrobô estava
parado, calmo, examinando o âmbito das ranhuras. Não viu nada que
pudesse indicar o mecanismo para abri-la.
— Como é
que se abre isto?
Esticou o
braço e apalpou as bordas das ranhuras. Mal tocara o frio metal
plastificado, quando sentiu a rápida sucessão de impulsos. Eram
sinais diferentes, mas Meech os compreendeu. Sua programação
incluía uma série de linguagens — linguagens de robô. Ouviu
claramente:
1F(T)
990,991,200
990
CALLSUP
Sentiu que
o ser atrás do material de metal plástico obedecia à ordem,
registrando a pressão de seus dedos, correspondente ao módulo 990 e
se preparando para executar a operação respectiva. CALLSUP
queria dizer alarma. Dentro de poucos segundos, toda a base saberia
que algum estranho tentara abrir uma das comportas.
Meech teve
uma reação instantânea e teve a grande sorte de que os saltadores
não haviam conseguido tempo de instalar nos robôs de comportas os
dispositivos mais modernos de sua base. Sua positrônica trabalhava
muito mais lentamente do que a de Meech Hannigan, sargento da Frota
Espacial Terrana e membro do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento, atualmente em missão especial.
Nove
bilionésimos de segundo foi o que gastou o robô da entrada da base
para executar a instrução 990, enquanto Meech levou apenas meio
bilionésimo de segundo para lhe transmitir o EXEM.
Estas
quatro letras fizeram o robô dos saltadores parar totalmente.
Compreendeu a linguagem positrônica. EXEM significava: alguma coisa
está errada, não podemos continuar a programação. Percebia-se que
o robô da base era muito inferior a Meech. Não possuía a faculdade
de distinguir se uma série de impulsos vinha de seu próprio
mecanismo ou procedia de fora.
De
qualquer maneira, o robô dos saltadores não executou a instrução
990. Recomeçou a programação. Neste meio tempo, Meech já retirara
a mão da comporta e o robô decidiu que a situação, no momento’,
correspondia à instrução 991. Com este número, estava anotado em
sua programação: 991 KEEPALERT. E ele obedeceu: ficou parado,
esperando que algo acontecesse.
E
aconteceu mesmo, uma fração de segundo depois. Meech entendeu do
que se tratava. Na grande área da comporta, haveria um determinado
ponto que um iniciado no segredo teria de tocar, se quisesse abri-la.
Este lugar tinha que ser encontrado e Meech agiu muito
sistematicamente. Sabia que tinha de fazer com que o robô
acreditasse haver um estranho lá fora. Sua grande sorte era que
podia eliminar qualquer reação hostil, não correndo, pois, nenhum
perigo, contanto que agisse rápido e nada acontecesse de
desfavorável.
O ponto de
que tudo dependia devia ser pelo menos tão grande que um iniciado no
assunto pudesse abrir a comporta, sem procurar muito e sem incorrer
no perigo de tocar num ponto errado, provocando assim o alarma. Devia
ser pelo menos tão grande como a mão avantajada dos saltadores.
Devia, além disso, estar ao fácil alcance, isto é, pelo menos dois
metros e meio acima do solo.
Assim
orientado, Meech continuou sua procura sistemática. Para seus
conceitos de tempo, demoraria muito até que conseguisse tocar um
ponto da entrada que não causasse suspeita ao robô de vigilância.
Ouviu, como atrás da chapa de metal plastificado, a positrônica
executava seus cálculos:
1F(T) 990,
991,200
200 ABERTO
Meech deu
um passo atrás. Sem o menor ruído, levantou-se o lado inferior da
comporta. Toda a parede metálica recuou um palmo para dentro da
abóboda e subiu, surgindo no fundo um aposento fracamente iluminado.
Meech
entrou. A princípio nada tinha a temer, pois o robô de vigilância
o estava reconhecendo como colega de confiança e não usaria o
alarma. Atrás dele não havia sinal de perigo. Podia concentrar toda
a atenção naquilo que se passava à sua frente.
O recinto
em que se encontrava agora despertou seu interesse. Atrás da chapa
dupla da comporta, até a parede oposta, estava uma fila de
planadores motorizados, do tipo dos deslizadores terranos, e mais
para o fundo viam-se os girinos ou naves auxiliares. Guardou bem na
memória a colocação destes últimos. Necessitaria deles para pôr
a salvo Ron Landry e seus colegas.
Estava
convencido de que saberia manejar os aparelhos. A direção era
baseada em computação positrônica, portanto, nos mesmos princípios
que regiam sua atividade. Ele e os aparelhos voadores saberiam,
então, se entender.
Começou
estudando o interior da comporta. Como esperava, ali dentro havia uma
marca bem visível do ponto que tinha de ser tocado para movimentação
da abertura.
“Deve
haver também”,
deduziu ele, “no interior
dos aparelhos voadores um dispositivo adicional para o mesmo efeito,
pois ninguém, depois de sair num daqueles aparelhos, ia poder
esticar a mão pela janela e tocar no referido ponto para fechar a
comporta.”
Já sabia
o bastante para se defender neste recinto. Sua próxima etapa era
descobrir onde os saltadores haviam abrigado os prisioneiros.
Atravessou o recinto dos aparelhos voadores e achou na parede
fronteiriça uma série de portas. A primeira em que se deteve, abriu
automaticamente, quando estava a dois passos dela. Ficou um pouco de
lado e viu atrás da porta um aposento quadrado em cujas paredes
havia três clarabóias.
“Poços
de elevadores antigravitacionais”,
registrou Meech. “Entrada
para as partes subterrâneas da base.”
Depois de
pequena hesitação, entrou num dos elevadores e desceu até o fundo.
Enquanto ia para baixo, captou um impulso que muito o alegrou. A
última pergunta sobre que rumo tomar, se e quando conseguisse
libertar Ron e sua gente, já estava praticamente respondida.
O caminho
já estava traçado.
Os
saltadores não tinham a menor preocupação com a parte estética de
seus robôs. Eram um conjunto pesado, mas de grande mobilidade, de
metal plastificado e de vidro inquebrável. Imitando seus criadores,
moviam-se com duas pernas, mas, fora disso, não tinham nenhuma
semelhança com o ser humano.
Mas não
era isto que interessava no momento a Ron Landry. Sabia que o robô
dos saltadores estava agora estudando seu comportamento para
naturalmente tomar uma decisão. Não havia dúvida de que era um
simples vigia e não possuía noções de medicina e saúde e, além
disso, ainda havia o fato de que um homem tem sempre a faculdade de
disfarçar suas intenções. Sendo assim, tornava-se quase impossível
programar um robô para perceber os pensamentos ocultos. Um robô não
poderia compreender que um homem poderia simular uma doença, sem
tê-la realmente.
Aconteceu
o que Ron esperava. O robô veio até ele e o levantou do chão. Ron
parou, então, de estrebuchar, como se estivesse surpreendido com
alguma coisa. No íntimo, ele não queria que o robô o viesse
acalmar com suas pesadas mãos. Teria que poupar seu corpo para ter
forças para outras atividades. Deixou a cabeça cair de lado, virou
os olhos e murmurou palavras desconexas.
O robô de
vigilância o levou por um corredor e Ron teve uns segundos para
estudar por fora a porta de sua cela. Mais para a frente surgia uma
série de portas iguais. Ron teve a impressão de que Bladoor, Lofty
e Larry estavam atrás delas e memorizou bem o local. No fim do
corredor havia um quarto quadrado, com uma série de instrumentos,
entre os quais uma padiola. O robô descarregou sua carga nela e Ron
se levantou imediatamente, sabendo que seu vigia seria mais rápido
do que ele. Realmente, o robô deu meia-volta, esticou os braços,
comprimindo-o de volta à padiola.
— Calma!
Fique deitado aí! — rosnou ele, em arcônida.
Tinha que
obedecer. Observou que o robô se mantinha calado a seu lado, olhando
para o outro lado do quarto, onde continuava o corredor. Emitiu um
sinal que Ron não pôde escutar, mas que foi captado por outro robô,
pois logo se ouviram as passadas pesadas ao longo do corredor.
Segundos depois, um outro robô entrava no aposento. Ron olhou-o
rapidamente, sem deixar perceber que ele, como um homem normal, ainda
estava em condições de receber impressões de fora e aproveitá-las.
O segundo autômato era de construção mais complicada que o
primeiro, provavelmente um tipo superior. Olhou para o prisioneiro,
virou-o cuidadosamente de costas e se afastou logo que Ron começou a
se estrebuchar.
Assim que
o segundo robô deixou o quarto, Ron se acalmou, e respirou já mais
aliviado. Até a técnica de um ser mecanizado mais complicado também
falhara. O próximo a vir cuidar dele seria certamente um saltador em
carne e osso. Era o que Ron esperava agora.
Demorou
bastante até que se ouvisse barulho no corredor. Estava agora
deitado de bruços, com a cabeça virada para um lado, observando a
entrada do quarto com os olhos semicerrados. Não deixava de emitir
sons e grunhidos esquisitos, como se costuma ouvir de pessoas
dementes.
Primeiro
entrou o robô. O saltador que veio atrás dele era Garathon. De um
momento para o outro, reacendeu-se em Ron o velho ódio, que com o
grande esforço de bancar o louco havia quase desaparecido.
Pulou para
fora da padiola, gritou desesperado, correndo furioso na direção da
parede e batendo com a cabeça nela. O choque o fez cair para trás,
rolando no chão, onde continuou gemendo. Ouviu como Garathon emitiu
uma ordem, em voz quase alta. O robô de vigilância o apanhou de
novo, recolocou-o na padiola. Ron fechara os olhos.
No pequeno
quarto soou a voz volumosa de Garathon.
— Que
palhaçada é esta que o senhor está fazendo? Para que toda esta
simulação de loucura? O que o senhor quer é aproveitar um momento
de descuido para sair correndo por aí. Não é isso?
Ron não
reagiu. É claro que Garathon queria enganá-lo. Tudo agora dependia
de quem tivesse maior fôlego.
— Mas
não vai conseguir escapar, não. Em poucos segundos, vamos saber
como estão as coisas.
Ouviu em
seguida passos pesados no corredor. Alguma coisas fria, metálica,
tocava em seu braço e um outro objeto do mesmo metal envolvia sua
cabeça.
— Pronto!
— ordenou Garathon.
Uma
denotação ruidosa e cintilante se abateu no cérebro de Ron. A dor
cruciante se espalhou por seu corpo, curvou-se todo, gritando não
mais para enganar os outros. Caiu da padiola e começou a rolar no
chão.
Quando a
dor serenou, sentia-se tão debilitado, que não conseguia mais se
levantar.
Mas
prosseguiu seu jogo. Palavras soltas, sons desconexos saíam de seus
lábios. Com muito sacrifício, ergueu o braço direito e fingiu
arrancar os cabelos. De tão ocupado na sua dramatização, não viu
que se havia levantado três vezes e fora novamente recolocado na
padiola.
Ouviu-se
então o vozeirão de Garathon:
— O
senhor sabe que não vai mais suportar um outro choque igual a este.
Morrerá infalivelmente. Portanto, levante-se e confesse que tudo não
passou de encenação. Do contrário...
O robô já
estava com a mão na alavanca.
Uma
corrente de pensamentos percorreu-lhe a mente martirizada. Podia
abrir os olhos e confessar abertamente que sua loucura não passava
de simulação. Mas de qualquer maneira, Garathon o mataria.
Podia
continuar seu jogo. Porém Garathon não se preocuparia com um louco
e acabaria tirando-lhe a vida. Não haveria, pois, nenhuma diferença.
Virou de
lado e começou a gemer. De sua boca saía, junto com a espuma, muito
palavrão. Não estava vendo o que estava acima dele. Ao abrir os
olhos, percebeu as pernas grossas de Garathon, que pareciam imóveis.
Os segundos passavam lentos, insuportavelmente lentos. Ron não via o
robô, nem a alavanca que ele ainda segurava. Sabia apenas que
Garathon tinha razão. No estado em que se achava, não suportaria
mais um daqueles choques. Seria o último.
Mais um
segundo... apenas um...
As pernas
de Garathon se mexeram. Virou-se para trás. Ron afrouxou todos os
músculos para suportar o choque.
Ouviu,
então, o vozeirão do saltador:
— Terminado.
Tire a mão daí. Ele não nos mentiu.
Ron não
esperava por uma vitória desta. Teria gargalhado, se seu corpo
tivesse força para isto. Continuou quieto, murmurando palavras sem
sentido.
Os minutos
foram passando sem acontecer nada de novo e Ron notava que as forças
lhe voltavam. Tentou com um galeio bem forte, acompanhado de um grito
histérico, se levantar da padiola e chegou mesmo a iniciar o
movimento, mas o robô o empurrou de volta.
Abriu os
olhos rapidamente e viu como Garathon, do outro lado da padiola,
mexia num instrumento. Ron antes não tivera tempo de examinar melhor
aqueles aparelhos. Aproveitou, agora, o ensejo e num instante
percebeu onde estava. Em volta dele estavam os psicogeradores,
transformadores e demais dispositivos indispensáveis para a lavagem
cerebral.
“Foi,
talvez, aqui que Garathon me arrancou certos segredos profissionais,
antes que recuperasse os sentidos”,
conjecturou.
O aparelho
que Garathon estava manejando ali no canto era um pré-tensor. A
função do pré-tensor era elevar de tal maneira o potencial do
cérebro, que a vítima da lavagem cerebral não podia mais se opor,
quebrando assim a “resistência”,
como diziam os psicólogos.
“Será
que Garathon tenciona fazer mais um ‘inquérito’?”,
interrogou-se. “Deve
saber que não se pode inquirir um débil mental...”
Instantes
depois, Ron acabou mudando de opinião. Um pré-tensor poderia servir
também para debilitar o potencial geral do cérebro. Com este
efeito, iniciava-se em geral todo tratamento de cura de um débil
mental. Garathon queria, pois, transformá-lo num homem normal. Esta
era a única explicação.
E Ron não
estava disposto a aceitar os “bons
serviços”
do saltador. Portanto, agora era o momento de agir.
Garathon
estava a seu alcance, de costas, depois de ter confiado aos dois
robôs o doente mental. Ambos ouviram dos próprios lábios do chefe
a confirmação da doença mental de Ron. O cuidado deles era somente
impedir que o doente se levantasse e se ferisse com as quedas ou
cabeçadas nas paredes.
A pouco
mais de meio metro dele, estava a pistola de Garathon pendurada no
cinturão. Observou que Garathon a deixara solta no coldre. Um
simples puxão na coronha e a arma estaria em suas mãos.
Contraiu
os joelhos. Não parou um segundo de gemer e dizer coisas desconexas
e, quando abria os olhos, mantinha-os virados.
Foi então
que deu o pulo. Bateu de encontro às costas de Garathon. Viu com o
canto dos olhos que os dois robôs viraram-se para frente. Apanhou no
mesmo instante pela coronha a arma de raios energéticos e afastou-se
do saltador, voltando a cair na dura padiola. Com o cano da arma
apontado para o robô mais especializado, apertou o gatilho.
Quando o
tiro inesperado de Ron o convenceu de que Garathon não tinha razão
em considerar o prisioneiro como débil mental, o robô estava para
se precipitar sobre ele e prendê-lo. Mas até um sofisticado robô
precisa ao menos de um segundo para mudar sua programação e agir. E
tal tempo foi a salvação de Ron. O primeiro disparo atingiu o robô
no peito e o desfez, caindo metal fundido por todo canto. Uma onda de
calor insuportável varreu o recinto.
O segundo
robô ainda não se movera. E Ron o destruiu antes que conseguisse
passar da programação atual para outra. Só depois é que se
preocupou com Garathon.
O
saltador, desarmado e apavorado, se escondeu atrás do pré-tensor, e
quando Ron se aproximou dele, ergueu os braços para proteger o rosto
e gritou a todo pulmão:
— Não,
não! Não me mate.
O suor
escorria da face de Ron. O calor irradiado pelos destroços metálicos
dos dois robôs era descomunal.
— Saia
para o corredor! — ordenou ao saltador.
Trêmulo,
abaixou as mãos e olhou em que direção estava apontando a arma de
Ron. Saiu de trás do aparelho e submisso ganhou o corredor onde se
situavam as celas dos outros prisioneiros. Ron o seguia na distância
segura de três metros.
O
intrépido terrano não ignorava a gravidade da situação. Para
recuperar a liberdade, tivera que abater dois robôs. O barulho
provocado fora certamente ouvido em outros lugares. Em poucos
segundos alguém deveria vir para saber do ocorrido. Não sabia se a
vida de Garathon valia tanto para os saltadores restantes, para
prever se iam preferir vê-lo morto ou permitir a fuga dos terranos.
Deixou este pensamento de lado, dizendo para Garathon:
— Abra
as portas das celas onde estão presos os terranos.
Perplexo,
o saltador não sabia o que fazer:
— O
senhor... o senhor não... não pode exigir isto — disse
gaguejando.
Ron deu um
passo à frente e lhe cutucou com o cano da arma.
Garathon
abaixou a cabeça e abriu a primeira porta, ficando parado em frente
a ela. Não devia ter feito isto, pois Lofty Patterson já há muito
tempo talvez esperasse por tal oportunidade. Certamente não ouvira
as poucas palavras trocadas entre Ron e o chefe dos saltadores, ou
não as entendera. Possuído de todo o ódio que se acumulara nele,
precipitou-se para fora, e como um bólide se chocou contra Garathon.
Este, assustado, começou a berrar de mãos levantadas. Mas Lofty já
o tinha agarrado e não o largou mais, sem se incomodar com sua
altura descomunal. No ímpeto de cólera, o atacou a socos e
pontapés. O saltador estava muito assustado para se defender.
Simplesmente abaixou os braços e continuou apanhando, mal tentando
escapar de alguns golpes.
Neste
momento, Ron pôde ver, com a melhor luz do corredor, a verdadeira
fisionomia de Garathon. Prepotente, enquanto seu adversário estava
amarrado, mas, no fundo, um grande covarde.
— Pare,
Lofty! — ordenou Ron, sentindo nojo no que via. — Você está
apenas sujando suas mãos neste covarde.
Lofty se
desprendeu do homenzarrão.
— Senhor!...
— exclamou Lofty surpreso. — Como foi que...
— Não
temos tempo agora, Lofty — disse, interrompendo o velho. Depois,
olhando para o saltador: — Vamos, solte os outros dois.
Sem
titubear mais, abriu a próxima porta, não ficando mais parado à
sua frente. Mas Larry Randall não era homem de se deixar levar por
ímpetos de cólera. Estava parado, encostado na parede de fundo de
sua cela, e não se moveu. Ron se aproximou da porta, sem perder de
vista o chefe dos saltadores.
— Venha,
Larry — disse sorrindo. — Ainda temos alguma coisa a fazer.
Larry
Randall correspondeu ao sorriso e caminhou lentamente para o
corredor. Levou um susto ao ver o valente saltador, agora trêmulo e
pálido.
— É
este o homem — perguntou ele — que nos...?
Ron acenou
com a cabeça.
— É ele
mesmo.
Garathon
se comprimiu contra a parede e seu rosto ainda ficou mais pálido.
Larry o fitou por alguns segundos e depois perguntou:
— Onde
está Bladoor?
Ron
apontou para o saltador:
— Ele
nos vai dizer. Vamos, Garathon! Garathon deu mais uns passos para
frente, deixou passar uma porta, sem que Ron nada dissesse e abriu a
seguinte. Parece que do azgônida ele nada receava. Olhou para dentro
da cela e seu semblante acusou uma expressão de espanto. Ron o puxou
para o lado e olhou o que havia no pequeno cubículo.
Bladoor
estava deitado de costas. Nas últimas horas, seu corpo estufara mais
ainda.
Ron não
precisava de médico para lhe dizer que Bladoor já estava morto.
A queda
com o carro voador, o aprisionamento pelos saltadores, o terrível
inquérito — suas forças não resistiram a tudo isto. Morreu
porque ninguém cuidou dele.
Ron virou
para o lado, olhou friamente no rosto do saltador e lhe disse:
— O
senhor é responsável por isto, o senhor o assassinou.
Garathon
deu um passo atrás e suplicante levantou as mãos. Abriu a boca para
dizer alguma coisa, mas não lhe saiu nenhum som da garganta. Horror
e medo tolhiam-lhe a palavra.
De
repente, ouviram uma voz estranha:
— Quem
foi que matou alguém aqui?
Ron olhou
para trás. Larry, à sua direita, lhe impedia um pouco a visão.
Mas, para Ron, era suficiente o que estava vendo. Cinco saltadores
surgiram no corredor que vinha da sala onde foi feita a inquirição.
“Como
fomos doidos”,
pensava Ron triste. “Eu
sabia que eles iam ouvir o nosso barulho.”
Não lhes
restava agora a menor chance.
O incrível
biorrobô, sargento da Frota Espacial, descobriu logo que a base
tinha uma tripulação muito menor do que se podia supor. Isto
facilitava sua missão. Sem que nada o impedisse, afastou-se da parte
mais profunda da base, onde terminavam os poços dos elevadores e
penetrou num corredor vazio e mal iluminado, caminhando para o centro
da cúpula.
Havia uma
verdadeira confusão de corredores, portas, pequenos cubículos,
cruzamentos e pequenos saguões. Quase um labirinto. Sempre que
percebia a aproximação de um saltador, escondia-se num corredor
lateral. E como seus cálculos positrônicos eram infalíveis, jamais
iria de encontro aos inimigos.
Não que
ele tivesse de se preocupar com isso. Tinha melhores armamentos do
que qualquer ser humano ou robô, disso não havia dúvida. Mas Meech
não queria chamar a atenção de ninguém, antes de descobrir onde
os saltadores esconderam seus prisioneiros.
Começou a
sondar alguns lugares que tinham saída para os corredores
subterrâneos. Primeiro, não sabia para que serviam aqueles
aparelhos todos que ali se reuniam e estavam em constante atividade.
Mas lembrou-se depois da teoria, com a qual tentara horas atrás
explicar a repentina engorda da raça azgônida. E teve uma idéia
luminosa: “Os
saltadores chegaram à mesma teoria, mas, como verdadeiros
comerciantes, queriam explorá-la comercialmente. Seria realmente o
maior negócio do Universo.”
Meech
guardou tudo de memória e continuou sua exploração. Talvez meia
hora depois de chegar à base, ouviu, bem longe, vozes mais altas,
até mesmo gritos. A excelente acústica, que lhe substituía o
sentido da audição, reconheceu, entre estas vozes, uma que lhe era
muito familiar.
Continuou
caminhando.
Passou por
uma sala, um pouco mais ampla, onde viu uma padiola e muitos
instrumentos psicotécnicos. O corredor continuava depois desta sala.
Meech estava indeciso. A não mais do que dez metros do bifurcamento
do corredor, encontravam-se cinco saltadores de costas para ele,
mantendo um áspero diálogo com um grupo de homens. Meech se pôs em
posição de combate. Tinha chegado sua hora.
*
* *
— Mate-os,
Lag-Garmoth! — gritava Garathon com voz histérica. — São os
prisioneiros que fugiram das celas.
Entrementes,
Ron se virará para o novo adversário. Fazia um esforço enorme para
aparentar calma. E sua voz estava mesmo tranqüila quando falou:
— Seja o
senhor quem for, Lag-Garmoth, não ouça o que diz este homem. Sei
que estamos irremediavelmente presos em suas mãos, mas não tão
presos assim que eu não possa dar a este covarde aqui o que ele
merece, antes que o senhor me mate.
Ouviu
Garathon protestar atrás dele, enquanto Lag-Garmoth sorria, sem
tocar na arma.
— Não
tenha receio, terrano — respondeu ele. — Eu me oriento de acordo
com meus planos. — Ficou mais sério e depois continuou: — Quem
foi assassinado?
— Um
azgônida — disse Ron sem titubear. — Sua gente o prendeu
juntamente conosco e não cuidou dele, embora todos soubessem de seu
estado físico. Prenderam-no aqui e o deixaram morrer.
Lag-Garmoth
franziu a testa e se dirigiu para Garathon:
— Um
azgônida?
Da maneira
como interrogou, se podia perceber que não estava a par do
acontecido, muito menos o aprovava.
Garathon
pareceu recuperar alguma coisa da coragem que só surgia quando
estava bem protegido.
— Sim,
um azgônida — afirmou cheio de ódio. — Estava com esta gente,
por isto tivemos de prendê-lo.
Lag-Garmoth
ficou impassível.
— Estava
estabelecido que, sob nenhuma hipótese, entraríamos em conflito com
esta gente. Você sabe disso melhor do que eu. Poderíamos trabalhar
em Azgola, se eles se tornassem nossos amigos e ficassem em suas
casas, preguiçosos e pesados. E você tem a coragem de prender um
deles, trazê-lo para cá e deixá-lo morrer?
As últimas
palavras foram ditas num tom bem mais ameaçador. Garathon se
empertigou todo, voltando quase ao porte orgulhoso de costume.
— Quem é
que manda nesta base? — perguntou irritado. — Você ou eu?
— Você
— concordou Lag-Garmoth. — Mas fique sabendo que eu não sou seu
subordinado. Não pertenço ao seu subclã. Você assinou um contrato
comigo e estou vendo que não vai cumpri-lo.
Garathon
desgarrou-se da parede, veio até o meio do corredor e, postando-se
de pernas abertas e mãos nos quadris, disse arrogante, em tom de
ordem:
— Você
vai agora conduzir estes terranos de volta para as celas e depois
vamos falar sobre o contrato. Está claro?
Via-se no
rosto de Lag-Garmoth que ele já estava com as palavras certas na
ponta da língua. Empertigou-se e estava para responder ao atrevido
Garathon. Mas não chegou a isto. Atrás dele, no corredor, disse
alguém com voz calma, mas firme:
— Seja
qual for, meus senhores, o assunto da discussão, joguem no chão
primeiro suas armas, antes de prosseguirem.
— Meech!
— gritou Ron.
Por um
segundo, reinou silêncio total no recinto, quando se ouviu o grito
de Ron. Lag-Garmoth se virou rápido, mas Meech foi mais ligeiro que
ele. Não se ouviu nenhuma detonação quando usou a arma. Foi um
disparo de raios psíquicos, pois evitar o derramamento de sangue
ainda pertencia aos princípios fundamentais da consciência de um
biorrobô terrano.
Com um
gemido fraco, Lag-Garmoth rolou no chão. Com ele, tombou também um
de seus quatro companheiros. Os demais obedeceram e deixaram cair as
armas.
Meech não
saiu do lugar em que estava. Mas sua voz denotava urgência, quando
falou:
— Senhor,
temos pouco tempo. Somos obrigados a sair daqui o mais rápido
possível.
Ron olhou
para seus dois colegas.
— Estão
ouvindo? Vamos embora!
Ninguém
mais tarde soube explicar o que aconteceu naquele instante. A
obrigação de não deixar fugir os prisioneiros e também de não
permitir que Lag-Garmoth levasse o assunto do azgônida morto na cela
ao conhecimento dos demais patriarcas dos saltadores — esses dois
deveres fizeram com que Garathon chegasse a um gesto maluco.
O fato é
que, de repente, pulou nas costas de Ron Landry. Este, embora de
menor estatura e pego de surpresa, num grito assustador conseguiu
erguer o braço com a arma. Mas Garathon já estava esperando isto e,
muito ágil, arrancou a arma de Ron. Porém Ron também sabia o que
devia fazer. Pegou o braço direito do saltador e o ergueu no ar.
Estaria perdido se Garathon tivesse mais força que ele.
Meech não
interveio. Um tiro disparado por ele podia atingir tanto Garathon
como Ron.
O saltador
fazia uma força monstruosa, enquanto que Ron, em razão do físico
superavantajado de Garathon, ia cedendo. Garathon estava vencendo.
Por um segundo, que lhe foi uma eternidade, Ron olhou de frente para
o cano escuro da arma.
Foi quando
alguém, com um berro alucinante, saltou do lado direito. Ron viu num
relance o cabelo escuro de Lofty Patterson e sua barba em desalinho.
Garathon soltou um grito de dor. Recebera um tremendo soco na barriga
e, neste exato momento, seu dedo indicador apertara o gatilho, talvez
sem querer. O disparo, de um clarão ofuscante, atingiu seu próprio
rosto.
Lofty
pulou para o lado e se encostou na parede, não acreditando no que
via: o saltador morto no chão.
— Não
foi esta minha intenção... — balbuciou o velho horrorizado.
Ron
bateu-lhe de leve no ombro:
— Você
não tem culpa, foi ele quem se matou. Vamos embora.
Lofty se
afastou da parede. Os três saltadores, que estavam entre Ron e
Meech, abriram ala de boa vontade. O biorrobô ficou alerta enquanto
Larry Randall, que vinha por último, se agachou para pegar a arma da
mão de Garathon. Ron e Lofty armaram-se com as pistolas de raios dos
dois saltadores inconscientes.
— Quanto
mais depressa andarmos, tanto melhor — disse Meech.
Ninguém
mais lhes veio barrar o caminho e, em poucos minutos, Meech os
conduziu para o depósito de aparelhos voadores. Ocuparam o aparelho
que o biorrobô lhes indicou. O próprio Meech tomou a direção.
Levou dois segundos e meio para achar o ponto exato em que a comporta
se abria. O aparelho levantou vôo e subiu calmo na noite do planeta.
Meech não
deu uma palavra, a não ser depois que a base dos saltadores já
estava muito longe. Só então começou a narrar tudo que acontecera
com ele. Não escondeu nada, dando uma descrição pormenorizada dos
aparelhos que vira e observara nos recintos subterrâneos da base dos
mercadores galácticos. Ninguém mais tinha dúvida dos objetivos dos
saltadores. Bem antes dos terranos, eles já tinham desvendado o
mistério de Azgola. Se eles sabiam ou não em que consistia a
misteriosa substância nutritiva que aparentemente enchia o ar como
um tipo de aerossol — o fato é que estavam explorando a nova
riqueza do planeta, procurando fazer dela o maior ramo de comércio
de um universo cada vez mais carente de alimentos.
Meech
voava para o oeste, seguindo sempre o litoral, pois o impulso sentido
quando descia pelo elevador antigravitacional da base dos saltadores
lhe indicava que uma das espaçonaves terranas se preparava para
aterrissar a oeste.
A Vondar
já estava prestes a decolar, quando a nave auxiliar foi sentida
primeiro no rastreador e depois vista diretamente na tela panorâmica.
Meech não se esqueceu de, antes de mais nada, se apresentar. Gerry
Montini estava esperando, embora seu maior desejo fosse deixar este
planeta insidioso o mais depressa possível.
Quando os
quatro terranos foram recebidos a bordo, Montini quis transferir o
comando para Ron Landry, que naturalmente não aceitou.
— Estou
exausto, a única coisa que me interessa é uma cama para descansar
e, naturalmente, o que o senhor tem ainda a resolver aqui em Azgola.
— Isto é
muito fácil — respondeu Montini. — Sabíamos que havia algo
misterioso aqui em Azgola. Já das observações de Chuck Waller se
podia prever isto. Não pudemos aterrissar no continente principal,
pois os saltadores nos afastaram com um fogo cerrado de teleguiados,
logo na primeira tentativa. Este continente parecia livre de bases
inimigas, por isto viemos para cá e desembarcamos alguns
especialistas para observação.
Ron estava
ouvindo com muita atenção.
— E
então?
Gerry
Montini passou a mão pelo cabelo.
— Encontraram
realmente algo muito singular. Quase todo o continente parece estar
recoberto pela mesma espécie de musgo. Esta planta segrega
constantemente fungos que se compõem principalmente de... santo
Deus! Não me lembro direito do nome. De qualquer maneira, são
grandemente nutritivos. Uma grama de fungo de musgo tem mais valor
alimentício do que uma refeição lauta com serviço, sopa, três
pratos e duas sobremesas. O pior é que as partículas dos fungos são
tão diminutas que podem ser facilmente respiradas. Espalham-se pelo
corpo e o alimentam. As pessoas que encontramos lá fora engordavam,
na média, dois quilos e meio em cinco horas.
Ron
concordou.
— Havia
um biólogo na expedição?
— Naturalmente.
— Qual é
a opinião dele? Por que se nota somente agora o efeito deste musgo?
Por que razão os azgônidas já não estão gordos assim há séculos
atrás? Por que começaram só agora?
Gerry
cocou o queixo.
— É, o
negócio é complicado. Ele examinou algumas espécies nativas de
musgo, que se encontram ainda em alguns trechos do continente e ficou
muito preocupado.
— Por
quê?
— Ele
disse que as diferenças são notórias. O musgo que nos está dando
trabalho não combina de maneira alguma com a história do
desenvolvimento de Azgola.
— E daí?
— Deve
ter sido trazido clandestinamente de outro mundo...
*
* *
Vinte e
quatro horas mais tarde, a Terra estava informada de tudo. Inclusive
sobre o fato de que os azgônidas estavam condenados à morte se não
fossem evacuados a tempo.
Azgola
tinha uma população de dois milhões de habitantes. Sua evacuação
não constituiria nenhum problema maior para a Frota Espacial
Terrana. A operação foi iniciada imediatamente.
No seu
apartamento em Terrânia, Ron Landry estava de pé na balança,
controlando seu peso. Durante sua estada em Azgola, engordara trinta
libras, ou seja, quase quatorze quilos. Teria sido muito pior se a
base dos saltadores, onde permanecera a maior parte do tempo, não
estivesse no meio daquele terreno pantanoso onde a grande umidade do
ar prendia os fungos, retendo-os no solo. Além disso, os saltadores
instalaram fora do pântano instrumentos para coletar os fungos e
conduzi-los às máquinas de beneficiamento.
— Quatorze
quilos! Terei muito trabalho para fazer desaparecer esta gordura
toda.
*
* *
Poucas
horas depois, já estava em andamento a retirada dos habitantes de
Azgola. Os saltadores não intervieram, sentindo-se mesmo felizes
pelo fato de a poderosa Frota Terrana os deixar em paz.
Em meio à
grande atividade que reinava em Azgola, com a evacuação de toda a
população, ninguém percebeu que naves terranas e arcônidas
estavam lado a lado percorrendo a Galáxia para descobrirem onde se
localizavam as duas espaçonaves que introduziram o grande mal em
Azgola.
Só podia
ser uma raça desconhecida e muito inteligente, residindo em algum
ponto remoto do espaço infinito. Esta era a grande sensação do
momento, abalando a opinião geral em todos os cantos do Universo,
onde penetravam as notícias sobre o grande mistério de Azgola.
*
* *
*
*
*
Somente
através de uma operação bem planejada e com um bom apoio técnico
da Frota Espacial Terrana, puderam os habitantes de Azgola ser
preservados de uma morte lenta causada por super alimentação,
embora de fato nada comessem.
No
entanto, todos os mundos com camadas de oxigênio permanecerão
expostos aos mesmos fenômenos ocorridos em Azgola, enquanto não se
descobrir os responsáveis pela semeadura do assim chamado “musgo
de fungo”...
Em
SEMENTES
DA DESGRAÇA,
título do próximo volume, o fantasma da morte por superalimentação
volta a agitar a Galáxia.