quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr


De modo a facilitar e organizar a leitura  dividi os livros em 3 partes:

















P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr [Parte 3]

Sim, e os terranos perderam só um. Já sei disso — atalhou Garathon furioso.
Eles querem de qualquer maneira mais reforço. Sozinhos não vão mais agüentar.
Garathon decidiu sem muita hesitação:
Mande-lhes cinco homens, deve ser suficiente.
Garr anotou tudo num pedaço de papel que sacou do bolso, coisinhas mínimas que qualquer criança guardaria de cabeça.
Fora disso — perguntou autoritário Garathon — como estão as colheitadeiras?
Esta pergunta se dirigia ao quinto saltador, sentado um pouco afastado da mesa, como se não pertencesse ao grupo, o que em parte era verdade. Chamava-se Lag-Garmoth. Já o nome indicava pertencer ele a um outro clã ou subclã. Garathon o tomara emprestado, pois Lag-Garmoth era bioquímico e no clã de Garathon não havia ninguém com esta profissão, aliás necessária em Azgola. Conforme os antigos rituais do clã, Lag-Garmoth estava obrigado a manter absoluto segredo, em troca do que receberia um bom lucro. Não obstante tudo isto, Lag-Garmoth e Garathon não se suportavam. Tinham a mesma idade e mais ou menos a mesma inteligência.
Bem — respondeu secamente o bioquímico. — Estarei pronto na data combinada.
Não pode ser mais cedo?
Não.
Pela primeira vez olhou diretamente para Garathon, que pareceu ler nos seus olhos enérgicos uma ameaça: “Não queira perguntar por quê!” Engoliu a pergunta e disfarçou com outro assunto:
Alguma idéia nova sobre a origem do fenômeno?
São fungos de um musgo — respondeu Lag-Garmoth — que deve existir em Azgola em grande quantidade. Tais fungos contêm excelentes elementos nutritivos que chegam ao interior do organismo pelas vias respiratórias. Eles são, se pudermos falar assim, um alimento já digerido, não havendo mais necessidade do trabalho estomacal. A substância nutritiva é imediatamente...
Está bem, está bem — interrompeu-o Garathon. — Estou pensando em outra coisa. Este musgo tem alguma semelhança com os demais musgos encontrados em Azgola? Como você sabe, já fizemos mais vezes esta pergunta.
Lag-Garmoth gesticulou longamente com a mão direita, antes de responder:
Francamente, ainda não sei. Não achamos ainda nenhuma espécie de musgo que se assemelhe a este negócio esquisito. Isto, porém, não quer dizer que não exista.
Certo. Agora, haverá alguma possibilidade de os primeiros fungos terem entrado aqui através do espaço?
Não. Fungos de musgo são formações relativamente bem desenvolvidas. Não podem suportar as condições do espaço.
Suponhamos que o musgo não seja realmente uma planta nativa do planeta — continuou Garathon insistente — e a favor desta hipótese, o maior argumento é o fato de que os azgônidas até pouco tempo eram magros e fracos. De onde e como teria este musgo chegado a Azgola?
De onde? Não tenho a menor idéia. Como? Lembre-se da história que ouvimos a respeito de seres...
Isto é bobagem! — gritou Garathon. — Não existe na Galáxia nenhuma raça desconhecida viajando pelo espaço.
Mais uma vez, Lag-Garmoth começou a gesticular com a mão direita.
Então não sei mais nada — respondeu ele. — Mas eu também tenho uma pergunta para fazer — levantou a cabeça e olhou em volta. — Acho que já tornei bem claro que a construção das colheitadeiras, que apanham automaticamente os fungos dos musgos, os comprimem e os deixam prontos para o transporte, exige todas as nossas reservas de energia. Pedi, por este motivo, que fosse reduzido ao máximo todo consumo particular de energia. Há pouco tempo, duas máquinas importantes falharam. Surgiu uma série de enguiços repentinos por falta de energia. Gasta-se pelo menos quatro horas para se colocar de novo a máquina em funcionamento. Se conseguir recuperar este atraso e esta perda, o merecimento é exclusivamente meu e de minha gente, e de mais ninguém. Gostaria de saber quem está causando este transtorno.
Garathon teve a coragem de levantar a cabeça e olhar em volta. Sabia perfeitamente como era grande o consumo de energia de seus instrumentos de tortura.
Será um de nós aqui? — perguntou com aparente naturalidade.
Um depois do outro, todos fizeram um gesto negativo.
Não é nenhum saltador — disse Garathon peremptório. — Vou mandar investigar o assunto.
Levantou-se.
O que vai acontecer com os prisioneiros? — perguntou Lag-Garmoth indiferente.
Por um triz que Garathon não perdeu o autodomínio. Só depois de um instante de hesitação foi que lhe chegou ao consciente que a ligação das duas perguntas não tinha significado especial. A pergunta indiscreta referente ao consumo clandestino de energia e a pergunta a respeito dos prisioneiros podiam ter saído dos lábios de Lag-Garmoth por acaso, uma depois da outra, sem segundas intenções.
Por que...? — disse Garathon indeciso, depois de se ter refeito do susto. — Vamos levá-los conosco quando deixarmos Azgola, para que não possam nos prejudicar.
Depois destas palavras, Lag-Garmoth não se manifestou mais, parecendo estar satisfeito. Garathon deixou o recinto. Estava irritado a aborrecido por ter perdido o autodomínio. Parecia até nervoso. O ar, a umidade e a misteriosa substância nutritiva o deixavam maluco.

Despertou num mar de dores. Queria gritar, mas seus pulmões não tinham ar para tanto e as cordas vocais não funcionavam mais.
Seu primeiro pensamento foi para Garathon, cujo nome congregava todo ódio do mundo. Conseguiu abrir os olhos, examinando espantado o ambiente em volta.
Não fizeram muita cerimônia para lhe arranjar um abrigo. O cubículo era quadrado, sendo que a única mobília não passava de uma lâmpada antiquada no meio do teto. Ron Landry estava deitado de costas. Se virasse de lado para a direita, daria com o material liso da parede bem na frente dos olhos.
Na parede oposta em ângulo reto, existia uma porta ou ao menos os contornos de uma porta. Mas não viu o menor sinal de um dispositivo que permitisse abri-la. É claro que isto não estaria, nem podia estar, nas intenções dos saltadores. Uma porta que não se pudesse abrir por dentro, reduzia de qualquer maneira o trabalho de ficar vigiando os prisioneiros.
Tentou levantar-se e uma onda de dor lancinante o envolveu todo quando firmou os pés no chão. Cerrou os olhos, apoiou-se na parede e ficou esperando. A dor foi passando, afastou-se da parede e conseguiu ficar de pé. Sentia uma leve tontura e as linhas retas das quinas das paredes lhe davam a impressão de serem sinuosas. Mas foi tudo. Com força de vontade se podia agüentar.
Ron não queria mais fazer experiências. Sabia que eram inúteis e perigosas e não devia desperdiçar energia, mas poupá-la. Sentou-se de novo no chão, encostando-se na parede.
Eu devia estar com fome agora”, pensava ele.
Procurou se lembrar há quanto tempo não punha nada na boca. Não o conseguiu. Para isso tinha que saber por quanto tempo estivera inconsciente. Não tinha mais relógio consigo, aliás nenhum dos instrumentos de medição que costumava carregar. Percebera isto já durante a conversa dolorosa com Garathon. Os saltadores lhe haviam tirado tudo, em primeiro lugar, naturalmente, a arma.
No tocante à fome, era mesmo esquisito. Não apenas pelo fato de não senti-la. Tinha mesmo a sensação de ter saído naquele instante de um lauto banquete, onde havia comido demais. O mistério de Azgola: alguma coisa pairava no ar, deixando os homens saciados e gordos. Algum elemento estranho que o corpo absorvia com avidez. E os saltadores pretendiam utilizá-lo como um negócio, a fim de um lucro fabuloso.
Seria de fato um negócio esplêndido quando descobrissem o fenômeno. No espaço imenso da Galáxia, havia muitos mundos cuja população passava fome, porque o solo era infértil ou por não dominarem os métodos de fabricar alimentos sintéticos ou simplesmente porque a população era excessiva. Se os saltadores conseguissem introduzir no mercado um produto alimentício que saciasse a fome pela simples respiração, ficariam milionários da noite para o dia.
Apesar de seu estado físico, Ron compreendia os truques, a astúcia e a clandestinidade com que agiam os saltadores em Azgola. Já haviam feito péssimas experiências com os terranos, especialmente os do clã de Garathon, de onde descendia também Alboolal. Não queriam ser perturbados no seu “trabalho” em Azgola e ninguém devia saber que eles estavam por ali. Os azgônidas não eram capazes de prejudicá-los, nem traí-los, pois não tinham meios para isto. E quanto a suas espaçonaves, cujos motores podiam ser rastreados de longe, os saltadores as haviam enviado de volta para o espaço distante, onde ninguém as procuraria.
Compreendia também que a missão que recebera de Nike Quinto já estava cumprida — se a tomasse ao pé da letra. Sacerdotes de Baalol não existiam em Azgola. A aventura vivida por Chuck Waller não tinha nada que ver com um dos misteriosos ativadores celulares que alguns adeptos de Baalol traziam consigo.
As duas espaçonaves de que falara Bladoor deviam ter alguma coisa com os singulares acontecimentos de Azgola. Ron tentou fazer um quadro geral de tudo que se passara no planeta. De onde teriam vindo as duas naves, a grande e a pequena, por que não se via nenhuma tripulação? Que vieram fazer em Azgola estas duas naves?
É claro que existiam naves robotizadas, isto é, tripuladas somente por robôs. A maior parte da frota arcônida era assim. Os azgônidas mesmos não dominavam a Cosmonáutica, em compensação chegaram a desenvolver um grande sentido para distinguir os diversos tipos de espaçonaves e saber a que parte da Galáxia pertenciam.
Naves como estas jamais foram vistas antes em Azgola. E mais ainda, conforme as descrições de Bladoor, Ron começou a duvidar de que elas existissem mesmo em outra parte. Falar numa raça desconhecida, vagando em naves pelo espaço? Era uma coisa inimaginável. Mas mesmo assim, Ron julgava que esta suposição absurda devia entrar no âmbito das hipóteses.
Por algum tempo, deu vazão a esta fascinante idéia. Depois, concentrou sua atenção em problemas mais concretos, mais evidentes. Tinha que achar uma saída. Seu pensamento voltou-se novamente para Garathon e foi neste momento que pela primeira vez achou estranho o fato de que Garathon já o conhecia e sabia que ele estava implicado na prisão de seu primo Alboolal. Estranho mesmo, pois a identidade dos homens que trabalhavam para Nike Quinto, na Divisão III, era mantida sob severo sigilo. Ninguém sabia exatamente quais eram as atribuições da Divisão III, muito menos quais os homens que dela faziam parte. É verdade que às vezes não se podia evitar que os homens de Nike Quinto fossem conhecidos por pessoas estranhas durante o desenrolar de uma missão, onde não podiam esconder totalmente suas funções. Mas, com toda certeza, Garathon não esteve naquela época em Ghama.
Como se explicaria isto?
A resposta era simples. Garathon os submetera a uma espécie de lavagem cerebral, ou a todos os três ou a ele, Ron, somente. Isto devia ter sido feito durante o período em que estavam inconscientes. Havia uma série de informações mais importantes e mais secretas que estavam impregnadas no cérebro de Ron, Larry e de Lofty, de tal maneira que não existia na Galáxia nenhum método de inquirição ou de lavagem cerebral que pudesse atingi-las. Mas, quanto ao conteúdo comum do consciente, qualquer meio eficaz bem aplicado podia desvendá-lo. E o nome e a atividade de um homem são coisas que pertencem ao conteúdo comum do consciente.
Conseqüência de tudo isto: seu ódio contra Garathon chegou ao clímax. Por insignificantes que fossem as informações arrancadas de seu consciente, um homem de boa inteligência, de posse de um bom computador, podia deduzir muita coisa sobre a existência, os métodos e a atividade da Divisão III e do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento.
Garathon representava, pois, perigo para a Terra. E Ron compreendeu que tinha que tomar alguma iniciativa. Não podia ficar ali deitado, esperando pela ação do inimigo. Tinha que agir.
É muito difícil empreender algo de concreto quando se está num cubículo vazio, com a única porta totalmente travada. Podia gritar e esmurrar a porta, até que viesse um guarda, que certamente estaria por ali. Mas o guarda seria cauteloso e não lhe daria chance de escapar. Além do mais, os saltadores não eram gente de cair facilmente numa cilada.
Ron começou a remoer as coisas e fatos das últimas horas. Tinha que arranjar um ponto de apoio.
Fomos atacados na cidade. Perdemos os sentidos. Os saltadores nos apanharam, Garathon nos aplicou a lavagem cerebral. Eu fiquei depois um bom tempo inconsciente e acabei despertando no recinto de trabalho de Garathon, com os terríveis suplícios elétricos. Falei com Garathon e fui por ele inquirido...”, meditava.
Seus pensamentos estavam hesitantes e procuravam voltar a um ponto onde não havia muita clareza. Que ponto era este? Voltou mentalmente todo o caminho percorrido. A queda, o aprisionamento, o transporte, o inquérito, o voltar a si.
O inquérito! Ah! O inquérito.
Não sabia ou não se lembrava de que tipos de aparelhos Garathon usou para arrancar informações, informações estas que jamais daria conscientemente. Mas, pelo que se conhecia de Garathon, não havia dúvida de que ele fizera tudo para descobrir o que desejava. Equivalia, então, a dizer que esgotara a capacidade tanto dos aparelhos como de seu prisioneiro. Talvez tivesse mesmo superestimado a capacidade mental de seu prisioneiro. Sabia de muitos casos em que a lavagem cerebral levara à loucura.
Isto lhe vinha servir agora de pretexto, abrindo-lhe um novo caminho. Nunca representara um papel deste tipo e precisava de alguns minutos para se preparar. Ponderou tudo que ia fazer e a seqüência das ações. Calculou também todas as hipóteses no tratamento com o possível guarda, as reações dele às suas encenações. Não chegou, porém, a um plano definido. Se continuasse assim, iria confiar na inspiração do momento. Não havia nenhum plano que continuasse depois do ponto em que o guarda abrisse a porta e olhasse para dentro...
Ron começou a esmurrar a porta e a gritar, tendo o cuidado de emitir sons agudos e diferentes. De vez em quando gargalhava doidamente. Esbravejava, pulava, jogava-se no chão, corria batendo com os ombros contra a porta, cuspindo e virando os olhos. No estado de fraqueza em que se achava, não foi para estranhar que começasse a espumar.
Recuou de novo para dar mais um safanão na porta. Neste momento ela se abriu. Por uma fração de segundo, parou para olhar, continuando logo depois. Deixou-se cair de costas e começou a dizer coisas desconexas, enquanto os olhos começaram a lacrimejar de tanto esforço que fazia para virá-los.
Na realidade, estava exultante de contentamento. Sabia que vencera. Quem estava junto da porta, examinando-o com olhos mortos, não era um guarda comum, mas sim um robô dos saltadores.

* * *

Meech tinha a impressão de que tudo estava em ordem. Pareceu-lhe que ninguém notara que ele havia penetrado na base, passando pela série de sensores ultravermelhos. Esperara alguns minutos, embora cada minuto lhe parecesse uma eternidade, para depois continuar caminhando.
Agora, era uma cúpula que se erguia à sua frente, muito maior que a do sinal de alarma que pulara facilmente. A irradiação dos três conjuntos, que já sentira de longe, vinha agora de debaixo da terra, num ângulo oblíquo. Portanto, a base mesmo era subterrânea em quase toda sua extensão.
A questão era a seguinte: como penetrar nela? Se os saltadores haviam defendido tão bem os terrenos adjacentes à base, era evidente que a segurança lá dentro seria redobrada. Os últimos passos seriam, pois, mais difíceis que todos os outros. Mesmo assim, o biorrobô terrano foi se aproximando sem hesitação.
Examinou o material. Era aço polímero e ferro. Podia-se fabricar uma cúpula desta no prazo de poucas horas. Meech notou que os saltadores tiveram de fazer sua base às pressas.
Andou uns dez metros em volta da cúpula e descobriu um par de ranhuras, ocupando um pedaço retangular da superfície da mesma. Estas ranhuras eram estreitas e de pouca fundura, talvez alguns milésimos de milímetro. A vista humana certamente não as teria percebido.
Deve ser uma escotilha ou comporta. E talvez haja outras”, pensou Meech. “Os saltadores possuem carros voadores. Não vi nenhum deles ao ar livre. Devem estar no interior da cúpula. Mas por esta escotilha aqui não podem passar.
Meech sabia que estava na dependência de um deslizador se quisesse pôr fora de perigo Ron Landry e sua gente.
Não poderiam sair correndo por aí. Necessitavam de um veículo rápido...”, concluiu.
Continuou a marcha, achando depois de meio minuto a grande abertura, tão bem fechada como a primeira. As ranhuras atingiam grande parte da curvatura da abóbada. Tão grande era a abertura que até poderiam passar por ela dois deslizadores ao mesmo tempo. O biorrobô estava parado, calmo, examinando o âmbito das ranhuras. Não viu nada que pudesse indicar o mecanismo para abri-la.
Como é que se abre isto?
Esticou o braço e apalpou as bordas das ranhuras. Mal tocara o frio metal plastificado, quando sentiu a rápida sucessão de impulsos. Eram sinais diferentes, mas Meech os compreendeu. Sua programação incluía uma série de linguagens — linguagens de robô. Ouviu claramente:

1F(T) 990,991,200
990 CALLSUP

Sentiu que o ser atrás do material de metal plástico obedecia à ordem, registrando a pressão de seus dedos, correspondente ao módulo 990 e se preparando para executar a operação respectiva. CALLSUP queria dizer alarma. Dentro de poucos segundos, toda a base saberia que algum estranho tentara abrir uma das comportas.
Meech teve uma reação instantânea e teve a grande sorte de que os saltadores não haviam conseguido tempo de instalar nos robôs de comportas os dispositivos mais modernos de sua base. Sua positrônica trabalhava muito mais lentamente do que a de Meech Hannigan, sargento da Frota Espacial Terrana e membro do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, atualmente em missão especial.
Nove bilionésimos de segundo foi o que gastou o robô da entrada da base para executar a instrução 990, enquanto Meech levou apenas meio bilionésimo de segundo para lhe transmitir o EXEM.
Estas quatro letras fizeram o robô dos saltadores parar totalmente. Compreendeu a linguagem positrônica. EXEM significava: alguma coisa está errada, não podemos continuar a programação. Percebia-se que o robô da base era muito inferior a Meech. Não possuía a faculdade de distinguir se uma série de impulsos vinha de seu próprio mecanismo ou procedia de fora.
De qualquer maneira, o robô dos saltadores não executou a instrução 990. Recomeçou a programação. Neste meio tempo, Meech já retirara a mão da comporta e o robô decidiu que a situação, no momento’, correspondia à instrução 991. Com este número, estava anotado em sua programação: 991 KEEPALERT. E ele obedeceu: ficou parado, esperando que algo acontecesse.
E aconteceu mesmo, uma fração de segundo depois. Meech entendeu do que se tratava. Na grande área da comporta, haveria um determinado ponto que um iniciado no segredo teria de tocar, se quisesse abri-la. Este lugar tinha que ser encontrado e Meech agiu muito sistematicamente. Sabia que tinha de fazer com que o robô acreditasse haver um estranho lá fora. Sua grande sorte era que podia eliminar qualquer reação hostil, não correndo, pois, nenhum perigo, contanto que agisse rápido e nada acontecesse de desfavorável.
O ponto de que tudo dependia devia ser pelo menos tão grande que um iniciado no assunto pudesse abrir a comporta, sem procurar muito e sem incorrer no perigo de tocar num ponto errado, provocando assim o alarma. Devia ser pelo menos tão grande como a mão avantajada dos saltadores. Devia, além disso, estar ao fácil alcance, isto é, pelo menos dois metros e meio acima do solo.
Assim orientado, Meech continuou sua procura sistemática. Para seus conceitos de tempo, demoraria muito até que conseguisse tocar um ponto da entrada que não causasse suspeita ao robô de vigilância. Ouviu, como atrás da chapa de metal plastificado, a positrônica executava seus cálculos:

1F(T) 990, 991,200
200 ABERTO

Meech deu um passo atrás. Sem o menor ruído, levantou-se o lado inferior da comporta. Toda a parede metálica recuou um palmo para dentro da abóboda e subiu, surgindo no fundo um aposento fracamente iluminado.
Meech entrou. A princípio nada tinha a temer, pois o robô de vigilância o estava reconhecendo como colega de confiança e não usaria o alarma. Atrás dele não havia sinal de perigo. Podia concentrar toda a atenção naquilo que se passava à sua frente.
O recinto em que se encontrava agora despertou seu interesse. Atrás da chapa dupla da comporta, até a parede oposta, estava uma fila de planadores motorizados, do tipo dos deslizadores terranos, e mais para o fundo viam-se os girinos ou naves auxiliares. Guardou bem na memória a colocação destes últimos. Necessitaria deles para pôr a salvo Ron Landry e seus colegas.
Estava convencido de que saberia manejar os aparelhos. A direção era baseada em computação positrônica, portanto, nos mesmos princípios que regiam sua atividade. Ele e os aparelhos voadores saberiam, então, se entender.
Começou estudando o interior da comporta. Como esperava, ali dentro havia uma marca bem visível do ponto que tinha de ser tocado para movimentação da abertura.
Deve haver também”, deduziu ele, “no interior dos aparelhos voadores um dispositivo adicional para o mesmo efeito, pois ninguém, depois de sair num daqueles aparelhos, ia poder esticar a mão pela janela e tocar no referido ponto para fechar a comporta.”
Já sabia o bastante para se defender neste recinto. Sua próxima etapa era descobrir onde os saltadores haviam abrigado os prisioneiros. Atravessou o recinto dos aparelhos voadores e achou na parede fronteiriça uma série de portas. A primeira em que se deteve, abriu automaticamente, quando estava a dois passos dela. Ficou um pouco de lado e viu atrás da porta um aposento quadrado em cujas paredes havia três clarabóias.
Poços de elevadores antigravitacionais”, registrou Meech. “Entrada para as partes subterrâneas da base.”
Depois de pequena hesitação, entrou num dos elevadores e desceu até o fundo. Enquanto ia para baixo, captou um impulso que muito o alegrou. A última pergunta sobre que rumo tomar, se e quando conseguisse libertar Ron e sua gente, já estava praticamente respondida.
O caminho já estava traçado.

Os saltadores não tinham a menor preocupação com a parte estética de seus robôs. Eram um conjunto pesado, mas de grande mobilidade, de metal plastificado e de vidro inquebrável. Imitando seus criadores, moviam-se com duas pernas, mas, fora disso, não tinham nenhuma semelhança com o ser humano.
Mas não era isto que interessava no momento a Ron Landry. Sabia que o robô dos saltadores estava agora estudando seu comportamento para naturalmente tomar uma decisão. Não havia dúvida de que era um simples vigia e não possuía noções de medicina e saúde e, além disso, ainda havia o fato de que um homem tem sempre a faculdade de disfarçar suas intenções. Sendo assim, tornava-se quase impossível programar um robô para perceber os pensamentos ocultos. Um robô não poderia compreender que um homem poderia simular uma doença, sem tê-la realmente.
Aconteceu o que Ron esperava. O robô veio até ele e o levantou do chão. Ron parou, então, de estrebuchar, como se estivesse surpreendido com alguma coisa. No íntimo, ele não queria que o robô o viesse acalmar com suas pesadas mãos. Teria que poupar seu corpo para ter forças para outras atividades. Deixou a cabeça cair de lado, virou os olhos e murmurou palavras desconexas.
O robô de vigilância o levou por um corredor e Ron teve uns segundos para estudar por fora a porta de sua cela. Mais para a frente surgia uma série de portas iguais. Ron teve a impressão de que Bladoor, Lofty e Larry estavam atrás delas e memorizou bem o local. No fim do corredor havia um quarto quadrado, com uma série de instrumentos, entre os quais uma padiola. O robô descarregou sua carga nela e Ron se levantou imediatamente, sabendo que seu vigia seria mais rápido do que ele. Realmente, o robô deu meia-volta, esticou os braços, comprimindo-o de volta à padiola.
Calma! Fique deitado aí! — rosnou ele, em arcônida.
Tinha que obedecer. Observou que o robô se mantinha calado a seu lado, olhando para o outro lado do quarto, onde continuava o corredor. Emitiu um sinal que Ron não pôde escutar, mas que foi captado por outro robô, pois logo se ouviram as passadas pesadas ao longo do corredor. Segundos depois, um outro robô entrava no aposento. Ron olhou-o rapidamente, sem deixar perceber que ele, como um homem normal, ainda estava em condições de receber impressões de fora e aproveitá-las. O segundo autômato era de construção mais complicada que o primeiro, provavelmente um tipo superior. Olhou para o prisioneiro, virou-o cuidadosamente de costas e se afastou logo que Ron começou a se estrebuchar.
Assim que o segundo robô deixou o quarto, Ron se acalmou, e respirou já mais aliviado. Até a técnica de um ser mecanizado mais complicado também falhara. O próximo a vir cuidar dele seria certamente um saltador em carne e osso. Era o que Ron esperava agora.
Demorou bastante até que se ouvisse barulho no corredor. Estava agora deitado de bruços, com a cabeça virada para um lado, observando a entrada do quarto com os olhos semicerrados. Não deixava de emitir sons e grunhidos esquisitos, como se costuma ouvir de pessoas dementes.
Primeiro entrou o robô. O saltador que veio atrás dele era Garathon. De um momento para o outro, reacendeu-se em Ron o velho ódio, que com o grande esforço de bancar o louco havia quase desaparecido.
Pulou para fora da padiola, gritou desesperado, correndo furioso na direção da parede e batendo com a cabeça nela. O choque o fez cair para trás, rolando no chão, onde continuou gemendo. Ouviu como Garathon emitiu uma ordem, em voz quase alta. O robô de vigilância o apanhou de novo, recolocou-o na padiola. Ron fechara os olhos.
No pequeno quarto soou a voz volumosa de Garathon.
Que palhaçada é esta que o senhor está fazendo? Para que toda esta simulação de loucura? O que o senhor quer é aproveitar um momento de descuido para sair correndo por aí. Não é isso?
Ron não reagiu. É claro que Garathon queria enganá-lo. Tudo agora dependia de quem tivesse maior fôlego.
Mas não vai conseguir escapar, não. Em poucos segundos, vamos saber como estão as coisas.
Ouviu em seguida passos pesados no corredor. Alguma coisas fria, metálica, tocava em seu braço e um outro objeto do mesmo metal envolvia sua cabeça.
Pronto! — ordenou Garathon.
Uma denotação ruidosa e cintilante se abateu no cérebro de Ron. A dor cruciante se espalhou por seu corpo, curvou-se todo, gritando não mais para enganar os outros. Caiu da padiola e começou a rolar no chão.
Quando a dor serenou, sentia-se tão debilitado, que não conseguia mais se levantar.
Mas prosseguiu seu jogo. Palavras soltas, sons desconexos saíam de seus lábios. Com muito sacrifício, ergueu o braço direito e fingiu arrancar os cabelos. De tão ocupado na sua dramatização, não viu que se havia levantado três vezes e fora novamente recolocado na padiola.
Ouviu-se então o vozeirão de Garathon:
O senhor sabe que não vai mais suportar um outro choque igual a este. Morrerá infalivelmente. Portanto, levante-se e confesse que tudo não passou de encenação. Do contrário...
O robô já estava com a mão na alavanca.
Uma corrente de pensamentos percorreu-lhe a mente martirizada. Podia abrir os olhos e confessar abertamente que sua loucura não passava de simulação. Mas de qualquer maneira, Garathon o mataria.
Podia continuar seu jogo. Porém Garathon não se preocuparia com um louco e acabaria tirando-lhe a vida. Não haveria, pois, nenhuma diferença.
Virou de lado e começou a gemer. De sua boca saía, junto com a espuma, muito palavrão. Não estava vendo o que estava acima dele. Ao abrir os olhos, percebeu as pernas grossas de Garathon, que pareciam imóveis. Os segundos passavam lentos, insuportavelmente lentos. Ron não via o robô, nem a alavanca que ele ainda segurava. Sabia apenas que Garathon tinha razão. No estado em que se achava, não suportaria mais um daqueles choques. Seria o último.
Mais um segundo... apenas um...
As pernas de Garathon se mexeram. Virou-se para trás. Ron afrouxou todos os músculos para suportar o choque.
Ouviu, então, o vozeirão do saltador:
Terminado. Tire a mão daí. Ele não nos mentiu.
Ron não esperava por uma vitória desta. Teria gargalhado, se seu corpo tivesse força para isto. Continuou quieto, murmurando palavras sem sentido.
Os minutos foram passando sem acontecer nada de novo e Ron notava que as forças lhe voltavam. Tentou com um galeio bem forte, acompanhado de um grito histérico, se levantar da padiola e chegou mesmo a iniciar o movimento, mas o robô o empurrou de volta.
Abriu os olhos rapidamente e viu como Garathon, do outro lado da padiola, mexia num instrumento. Ron antes não tivera tempo de examinar melhor aqueles aparelhos. Aproveitou, agora, o ensejo e num instante percebeu onde estava. Em volta dele estavam os psicogeradores, transformadores e demais dispositivos indispensáveis para a lavagem cerebral.
Foi, talvez, aqui que Garathon me arrancou certos segredos profissionais, antes que recuperasse os sentidos”, conjecturou.
O aparelho que Garathon estava manejando ali no canto era um pré-tensor. A função do pré-tensor era elevar de tal maneira o potencial do cérebro, que a vítima da lavagem cerebral não podia mais se opor, quebrando assim a “resistência”, como diziam os psicólogos.
Será que Garathon tenciona fazer mais um ‘inquérito’?”, interrogou-se. “Deve saber que não se pode inquirir um débil mental...
Instantes depois, Ron acabou mudando de opinião. Um pré-tensor poderia servir também para debilitar o potencial geral do cérebro. Com este efeito, iniciava-se em geral todo tratamento de cura de um débil mental. Garathon queria, pois, transformá-lo num homem normal. Esta era a única explicação.
E Ron não estava disposto a aceitar os “bons serviços” do saltador. Portanto, agora era o momento de agir.
Garathon estava a seu alcance, de costas, depois de ter confiado aos dois robôs o doente mental. Ambos ouviram dos próprios lábios do chefe a confirmação da doença mental de Ron. O cuidado deles era somente impedir que o doente se levantasse e se ferisse com as quedas ou cabeçadas nas paredes.
A pouco mais de meio metro dele, estava a pistola de Garathon pendurada no cinturão. Observou que Garathon a deixara solta no coldre. Um simples puxão na coronha e a arma estaria em suas mãos.
Contraiu os joelhos. Não parou um segundo de gemer e dizer coisas desconexas e, quando abria os olhos, mantinha-os virados.
Foi então que deu o pulo. Bateu de encontro às costas de Garathon. Viu com o canto dos olhos que os dois robôs viraram-se para frente. Apanhou no mesmo instante pela coronha a arma de raios energéticos e afastou-se do saltador, voltando a cair na dura padiola. Com o cano da arma apontado para o robô mais especializado, apertou o gatilho.
Quando o tiro inesperado de Ron o convenceu de que Garathon não tinha razão em considerar o prisioneiro como débil mental, o robô estava para se precipitar sobre ele e prendê-lo. Mas até um sofisticado robô precisa ao menos de um segundo para mudar sua programação e agir. E tal tempo foi a salvação de Ron. O primeiro disparo atingiu o robô no peito e o desfez, caindo metal fundido por todo canto. Uma onda de calor insuportável varreu o recinto.
O segundo robô ainda não se movera. E Ron o destruiu antes que conseguisse passar da programação atual para outra. Só depois é que se preocupou com Garathon.
O saltador, desarmado e apavorado, se escondeu atrás do pré-tensor, e quando Ron se aproximou dele, ergueu os braços para proteger o rosto e gritou a todo pulmão:
Não, não! Não me mate.
O suor escorria da face de Ron. O calor irradiado pelos destroços metálicos dos dois robôs era descomunal.
Saia para o corredor! — ordenou ao saltador.
Trêmulo, abaixou as mãos e olhou em que direção estava apontando a arma de Ron. Saiu de trás do aparelho e submisso ganhou o corredor onde se situavam as celas dos outros prisioneiros. Ron o seguia na distância segura de três metros.
O intrépido terrano não ignorava a gravidade da situação. Para recuperar a liberdade, tivera que abater dois robôs. O barulho provocado fora certamente ouvido em outros lugares. Em poucos segundos alguém deveria vir para saber do ocorrido. Não sabia se a vida de Garathon valia tanto para os saltadores restantes, para prever se iam preferir vê-lo morto ou permitir a fuga dos terranos. Deixou este pensamento de lado, dizendo para Garathon:
Abra as portas das celas onde estão presos os terranos.
Perplexo, o saltador não sabia o que fazer:
O senhor... o senhor não... não pode exigir isto — disse gaguejando.
Ron deu um passo à frente e lhe cutucou com o cano da arma.
Garathon abaixou a cabeça e abriu a primeira porta, ficando parado em frente a ela. Não devia ter feito isto, pois Lofty Patterson já há muito tempo talvez esperasse por tal oportunidade. Certamente não ouvira as poucas palavras trocadas entre Ron e o chefe dos saltadores, ou não as entendera. Possuído de todo o ódio que se acumulara nele, precipitou-se para fora, e como um bólide se chocou contra Garathon. Este, assustado, começou a berrar de mãos levantadas. Mas Lofty já o tinha agarrado e não o largou mais, sem se incomodar com sua altura descomunal. No ímpeto de cólera, o atacou a socos e pontapés. O saltador estava muito assustado para se defender. Simplesmente abaixou os braços e continuou apanhando, mal tentando escapar de alguns golpes.
Neste momento, Ron pôde ver, com a melhor luz do corredor, a verdadeira fisionomia de Garathon. Prepotente, enquanto seu adversário estava amarrado, mas, no fundo, um grande covarde.
Pare, Lofty! — ordenou Ron, sentindo nojo no que via. — Você está apenas sujando suas mãos neste covarde.
Lofty se desprendeu do homenzarrão.
Senhor!... — exclamou Lofty surpreso. — Como foi que...
Não temos tempo agora, Lofty — disse, interrompendo o velho. Depois, olhando para o saltador: — Vamos, solte os outros dois.
Sem titubear mais, abriu a próxima porta, não ficando mais parado à sua frente. Mas Larry Randall não era homem de se deixar levar por ímpetos de cólera. Estava parado, encostado na parede de fundo de sua cela, e não se moveu. Ron se aproximou da porta, sem perder de vista o chefe dos saltadores.
Venha, Larry — disse sorrindo. — Ainda temos alguma coisa a fazer.
Larry Randall correspondeu ao sorriso e caminhou lentamente para o corredor. Levou um susto ao ver o valente saltador, agora trêmulo e pálido.
É este o homem — perguntou ele — que nos...?
Ron acenou com a cabeça.
É ele mesmo.
Garathon se comprimiu contra a parede e seu rosto ainda ficou mais pálido. Larry o fitou por alguns segundos e depois perguntou:
Onde está Bladoor?
Ron apontou para o saltador:
Ele nos vai dizer. Vamos, Garathon! Garathon deu mais uns passos para frente, deixou passar uma porta, sem que Ron nada dissesse e abriu a seguinte. Parece que do azgônida ele nada receava. Olhou para dentro da cela e seu semblante acusou uma expressão de espanto. Ron o puxou para o lado e olhou o que havia no pequeno cubículo.
Bladoor estava deitado de costas. Nas últimas horas, seu corpo estufara mais ainda.
Ron não precisava de médico para lhe dizer que Bladoor já estava morto.
A queda com o carro voador, o aprisionamento pelos saltadores, o terrível inquérito — suas forças não resistiram a tudo isto. Morreu porque ninguém cuidou dele.
Ron virou para o lado, olhou friamente no rosto do saltador e lhe disse:
O senhor é responsável por isto, o senhor o assassinou.
Garathon deu um passo atrás e suplicante levantou as mãos. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não lhe saiu nenhum som da garganta. Horror e medo tolhiam-lhe a palavra.
De repente, ouviram uma voz estranha:
Quem foi que matou alguém aqui?
Ron olhou para trás. Larry, à sua direita, lhe impedia um pouco a visão. Mas, para Ron, era suficiente o que estava vendo. Cinco saltadores surgiram no corredor que vinha da sala onde foi feita a inquirição.
Como fomos doidos”, pensava Ron triste. “Eu sabia que eles iam ouvir o nosso barulho.”
Não lhes restava agora a menor chance.

O incrível biorrobô, sargento da Frota Espacial, descobriu logo que a base tinha uma tripulação muito menor do que se podia supor. Isto facilitava sua missão. Sem que nada o impedisse, afastou-se da parte mais profunda da base, onde terminavam os poços dos elevadores e penetrou num corredor vazio e mal iluminado, caminhando para o centro da cúpula.
Havia uma verdadeira confusão de corredores, portas, pequenos cubículos, cruzamentos e pequenos saguões. Quase um labirinto. Sempre que percebia a aproximação de um saltador, escondia-se num corredor lateral. E como seus cálculos positrônicos eram infalíveis, jamais iria de encontro aos inimigos.
Não que ele tivesse de se preocupar com isso. Tinha melhores armamentos do que qualquer ser humano ou robô, disso não havia dúvida. Mas Meech não queria chamar a atenção de ninguém, antes de descobrir onde os saltadores esconderam seus prisioneiros.
Começou a sondar alguns lugares que tinham saída para os corredores subterrâneos. Primeiro, não sabia para que serviam aqueles aparelhos todos que ali se reuniam e estavam em constante atividade. Mas lembrou-se depois da teoria, com a qual tentara horas atrás explicar a repentina engorda da raça azgônida. E teve uma idéia luminosa: “Os saltadores chegaram à mesma teoria, mas, como verdadeiros comerciantes, queriam explorá-la comercialmente. Seria realmente o maior negócio do Universo.”
Meech guardou tudo de memória e continuou sua exploração. Talvez meia hora depois de chegar à base, ouviu, bem longe, vozes mais altas, até mesmo gritos. A excelente acústica, que lhe substituía o sentido da audição, reconheceu, entre estas vozes, uma que lhe era muito familiar.
Continuou caminhando.
Passou por uma sala, um pouco mais ampla, onde viu uma padiola e muitos instrumentos psicotécnicos. O corredor continuava depois desta sala. Meech estava indeciso. A não mais do que dez metros do bifurcamento do corredor, encontravam-se cinco saltadores de costas para ele, mantendo um áspero diálogo com um grupo de homens. Meech se pôs em posição de combate. Tinha chegado sua hora.

* * *

Mate-os, Lag-Garmoth! — gritava Garathon com voz histérica. — São os prisioneiros que fugiram das celas.
Entrementes, Ron se virará para o novo adversário. Fazia um esforço enorme para aparentar calma. E sua voz estava mesmo tranqüila quando falou:
Seja o senhor quem for, Lag-Garmoth, não ouça o que diz este homem. Sei que estamos irremediavelmente presos em suas mãos, mas não tão presos assim que eu não possa dar a este covarde aqui o que ele merece, antes que o senhor me mate.
Ouviu Garathon protestar atrás dele, enquanto Lag-Garmoth sorria, sem tocar na arma.
Não tenha receio, terrano — respondeu ele. — Eu me oriento de acordo com meus planos. — Ficou mais sério e depois continuou: — Quem foi assassinado?
Um azgônida — disse Ron sem titubear. — Sua gente o prendeu juntamente conosco e não cuidou dele, embora todos soubessem de seu estado físico. Prenderam-no aqui e o deixaram morrer.
Lag-Garmoth franziu a testa e se dirigiu para Garathon:
Um azgônida?
Da maneira como interrogou, se podia perceber que não estava a par do acontecido, muito menos o aprovava.
Garathon pareceu recuperar alguma coisa da coragem que só surgia quando estava bem protegido.
Sim, um azgônida — afirmou cheio de ódio. — Estava com esta gente, por isto tivemos de prendê-lo.
Lag-Garmoth ficou impassível.
Estava estabelecido que, sob nenhuma hipótese, entraríamos em conflito com esta gente. Você sabe disso melhor do que eu. Poderíamos trabalhar em Azgola, se eles se tornassem nossos amigos e ficassem em suas casas, preguiçosos e pesados. E você tem a coragem de prender um deles, trazê-lo para cá e deixá-lo morrer?
As últimas palavras foram ditas num tom bem mais ameaçador. Garathon se empertigou todo, voltando quase ao porte orgulhoso de costume.
Quem é que manda nesta base? — perguntou irritado. — Você ou eu?
Você — concordou Lag-Garmoth. — Mas fique sabendo que eu não sou seu subordinado. Não pertenço ao seu subclã. Você assinou um contrato comigo e estou vendo que não vai cumpri-lo.
Garathon desgarrou-se da parede, veio até o meio do corredor e, postando-se de pernas abertas e mãos nos quadris, disse arrogante, em tom de ordem:
Você vai agora conduzir estes terranos de volta para as celas e depois vamos falar sobre o contrato. Está claro?
Via-se no rosto de Lag-Garmoth que ele já estava com as palavras certas na ponta da língua. Empertigou-se e estava para responder ao atrevido Garathon. Mas não chegou a isto. Atrás dele, no corredor, disse alguém com voz calma, mas firme:
Seja qual for, meus senhores, o assunto da discussão, joguem no chão primeiro suas armas, antes de prosseguirem.
Meech! — gritou Ron.
Por um segundo, reinou silêncio total no recinto, quando se ouviu o grito de Ron. Lag-Garmoth se virou rápido, mas Meech foi mais ligeiro que ele. Não se ouviu nenhuma detonação quando usou a arma. Foi um disparo de raios psíquicos, pois evitar o derramamento de sangue ainda pertencia aos princípios fundamentais da consciência de um biorrobô terrano.
Com um gemido fraco, Lag-Garmoth rolou no chão. Com ele, tombou também um de seus quatro companheiros. Os demais obedeceram e deixaram cair as armas.
Meech não saiu do lugar em que estava. Mas sua voz denotava urgência, quando falou:
Senhor, temos pouco tempo. Somos obrigados a sair daqui o mais rápido possível.
Ron olhou para seus dois colegas.
Estão ouvindo? Vamos embora!
Ninguém mais tarde soube explicar o que aconteceu naquele instante. A obrigação de não deixar fugir os prisioneiros e também de não permitir que Lag-Garmoth levasse o assunto do azgônida morto na cela ao conhecimento dos demais patriarcas dos saltadores — esses dois deveres fizeram com que Garathon chegasse a um gesto maluco.
O fato é que, de repente, pulou nas costas de Ron Landry. Este, embora de menor estatura e pego de surpresa, num grito assustador conseguiu erguer o braço com a arma. Mas Garathon já estava esperando isto e, muito ágil, arrancou a arma de Ron. Porém Ron também sabia o que devia fazer. Pegou o braço direito do saltador e o ergueu no ar. Estaria perdido se Garathon tivesse mais força que ele.
Meech não interveio. Um tiro disparado por ele podia atingir tanto Garathon como Ron.
O saltador fazia uma força monstruosa, enquanto que Ron, em razão do físico superavantajado de Garathon, ia cedendo. Garathon estava vencendo. Por um segundo, que lhe foi uma eternidade, Ron olhou de frente para o cano escuro da arma.
Foi quando alguém, com um berro alucinante, saltou do lado direito. Ron viu num relance o cabelo escuro de Lofty Patterson e sua barba em desalinho. Garathon soltou um grito de dor. Recebera um tremendo soco na barriga e, neste exato momento, seu dedo indicador apertara o gatilho, talvez sem querer. O disparo, de um clarão ofuscante, atingiu seu próprio rosto.
Lofty pulou para o lado e se encostou na parede, não acreditando no que via: o saltador morto no chão.
Não foi esta minha intenção... — balbuciou o velho horrorizado.
Ron bateu-lhe de leve no ombro:
Você não tem culpa, foi ele quem se matou. Vamos embora.
Lofty se afastou da parede. Os três saltadores, que estavam entre Ron e Meech, abriram ala de boa vontade. O biorrobô ficou alerta enquanto Larry Randall, que vinha por último, se agachou para pegar a arma da mão de Garathon. Ron e Lofty armaram-se com as pistolas de raios dos dois saltadores inconscientes.
Quanto mais depressa andarmos, tanto melhor — disse Meech.
Ninguém mais lhes veio barrar o caminho e, em poucos minutos, Meech os conduziu para o depósito de aparelhos voadores. Ocuparam o aparelho que o biorrobô lhes indicou. O próprio Meech tomou a direção. Levou dois segundos e meio para achar o ponto exato em que a comporta se abria. O aparelho levantou vôo e subiu calmo na noite do planeta.
Meech não deu uma palavra, a não ser depois que a base dos saltadores já estava muito longe. Só então começou a narrar tudo que acontecera com ele. Não escondeu nada, dando uma descrição pormenorizada dos aparelhos que vira e observara nos recintos subterrâneos da base dos mercadores galácticos. Ninguém mais tinha dúvida dos objetivos dos saltadores. Bem antes dos terranos, eles já tinham desvendado o mistério de Azgola. Se eles sabiam ou não em que consistia a misteriosa substância nutritiva que aparentemente enchia o ar como um tipo de aerossol — o fato é que estavam explorando a nova riqueza do planeta, procurando fazer dela o maior ramo de comércio de um universo cada vez mais carente de alimentos.
Meech voava para o oeste, seguindo sempre o litoral, pois o impulso sentido quando descia pelo elevador antigravitacional da base dos saltadores lhe indicava que uma das espaçonaves terranas se preparava para aterrissar a oeste.
A Vondar já estava prestes a decolar, quando a nave auxiliar foi sentida primeiro no rastreador e depois vista diretamente na tela panorâmica. Meech não se esqueceu de, antes de mais nada, se apresentar. Gerry Montini estava esperando, embora seu maior desejo fosse deixar este planeta insidioso o mais depressa possível.
Quando os quatro terranos foram recebidos a bordo, Montini quis transferir o comando para Ron Landry, que naturalmente não aceitou.
Estou exausto, a única coisa que me interessa é uma cama para descansar e, naturalmente, o que o senhor tem ainda a resolver aqui em Azgola.
Isto é muito fácil — respondeu Montini. — Sabíamos que havia algo misterioso aqui em Azgola. Já das observações de Chuck Waller se podia prever isto. Não pudemos aterrissar no continente principal, pois os saltadores nos afastaram com um fogo cerrado de teleguiados, logo na primeira tentativa. Este continente parecia livre de bases inimigas, por isto viemos para cá e desembarcamos alguns especialistas para observação.
Ron estava ouvindo com muita atenção.
E então?
Gerry Montini passou a mão pelo cabelo.
Encontraram realmente algo muito singular. Quase todo o continente parece estar recoberto pela mesma espécie de musgo. Esta planta segrega constantemente fungos que se compõem principalmente de... santo Deus! Não me lembro direito do nome. De qualquer maneira, são grandemente nutritivos. Uma grama de fungo de musgo tem mais valor alimentício do que uma refeição lauta com serviço, sopa, três pratos e duas sobremesas. O pior é que as partículas dos fungos são tão diminutas que podem ser facilmente respiradas. Espalham-se pelo corpo e o alimentam. As pessoas que encontramos lá fora engordavam, na média, dois quilos e meio em cinco horas.
Ron concordou.
Havia um biólogo na expedição?
Naturalmente.
Qual é a opinião dele? Por que se nota somente agora o efeito deste musgo? Por que razão os azgônidas já não estão gordos assim há séculos atrás? Por que começaram só agora?
Gerry cocou o queixo.
É, o negócio é complicado. Ele examinou algumas espécies nativas de musgo, que se encontram ainda em alguns trechos do continente e ficou muito preocupado.
Por quê?
Ele disse que as diferenças são notórias. O musgo que nos está dando trabalho não combina de maneira alguma com a história do desenvolvimento de Azgola.
E daí?
Deve ter sido trazido clandestinamente de outro mundo...

* * *

Vinte e quatro horas mais tarde, a Terra estava informada de tudo. Inclusive sobre o fato de que os azgônidas estavam condenados à morte se não fossem evacuados a tempo.
Azgola tinha uma população de dois milhões de habitantes. Sua evacuação não constituiria nenhum problema maior para a Frota Espacial Terrana. A operação foi iniciada imediatamente.
No seu apartamento em Terrânia, Ron Landry estava de pé na balança, controlando seu peso. Durante sua estada em Azgola, engordara trinta libras, ou seja, quase quatorze quilos. Teria sido muito pior se a base dos saltadores, onde permanecera a maior parte do tempo, não estivesse no meio daquele terreno pantanoso onde a grande umidade do ar prendia os fungos, retendo-os no solo. Além disso, os saltadores instalaram fora do pântano instrumentos para coletar os fungos e conduzi-los às máquinas de beneficiamento.
Quatorze quilos! Terei muito trabalho para fazer desaparecer esta gordura toda.

* * *

Poucas horas depois, já estava em andamento a retirada dos habitantes de Azgola. Os saltadores não intervieram, sentindo-se mesmo felizes pelo fato de a poderosa Frota Terrana os deixar em paz.
Em meio à grande atividade que reinava em Azgola, com a evacuação de toda a população, ninguém percebeu que naves terranas e arcônidas estavam lado a lado percorrendo a Galáxia para descobrirem onde se localizavam as duas espaçonaves que introduziram o grande mal em Azgola.
Só podia ser uma raça desconhecida e muito inteligente, residindo em algum ponto remoto do espaço infinito. Esta era a grande sensação do momento, abalando a opinião geral em todos os cantos do Universo, onde penetravam as notícias sobre o grande mistério de Azgola.




* * *
* *
*





Somente através de uma operação bem planejada e com um bom apoio técnico da Frota Espacial Terrana, puderam os habitantes de Azgola ser preservados de uma morte lenta causada por super alimentação, embora de fato nada comessem.
No entanto, todos os mundos com camadas de oxigênio permanecerão expostos aos mesmos fenômenos ocorridos em Azgola, enquanto não se descobrir os responsáveis pela semeadura do assim chamado “musgo de fungo”...
Em SEMENTES DA DESGRAÇA, título do próximo volume, o fantasma da morte por superalimentação volta a agitar a Galáxia.

P-118 - O Sargento Robô - Kurt Mahr [Parte 2]

A situação era alarmante e nos deixava sem ânimo e não podíamos fazer mesmo nada. Engordando cada vez mais, não conseguíamos mais parar de pé. Para sair de casa, tínhamos de andar de quatro, até nos convencermos de que não precisávamos mais nos mover. Éramos alimentados de uma maneira misteriosa e não precisávamos mais trabalhar para ganhar o pão de cada dia, nem nos era necessário mais sair de casa. Por isso que as ruas das cidades e aldeias ficaram vazias, o trânsito desapareceu. E mais, cessou toda atividade de Azgola, que agora não passa de um planeta morto e ninguém sabe como isto vai acabar...”
Parou de falar e respirou profundamente. Falara muito e estava sentindo o cansaço.
Como é, então, que se explica que o senhor está ainda tão ativo? — perguntou-lhe Ron. — Certamente o senhor está muito mais gordo do que antes, mas não tem de longe o volume que constatamos em outros homens de sua raça. De que maneira o senhor se protegeu contra esta praga do engordamento?
Bladoor fez um gesto de dúvida.
Não sei — disse hesitante. — Naqueles dias, quando começou a desgraça, estava ocupado com um trabalho muito importante. Estava sentado dia e noite no meu escritório e não tinha tempo para me preocupar com o que se passava lá fora. Somente quando, uma certa manhã, nenhum dos meus funcionários apareceu ao meu toque de campainha, é que minha atenção se voltou para o problema. Saí do escritório e fiquei envergonhado com o que vi. Homens disformes, horrendamente gordos, rolavam pelos corredores do Palácio do Governo. Com muita dificuldade, consegui reconhecer alguns deles. Santo Deus, como estavam diferentes! Trouxe um deles comigo para conversar um pouco e para me contar como tudo acontecera. Contou-me mais ou menos o que acabei de lhes relatar há pouco. É claro que fiquei admirado de ter sido poupado da engorda. Não podia achar explicação para o fato. Acabei aceitando a idéia de que meu escritório era um local bem resguardado. Por isso continuei ficando por lá. Não precisei me preocupar com a alimentação, pois realmente não sentia fome, embora estivesse livre do fastio de que eram acometidos os demais.
Fiquei lá esperando. Notei com o tempo que eu também estava engordando, se bem que essencialmente de modo mais lento que os outros. Via de minha janela que a cada hora as ruas se esvaziavam mais. Muitas vezes fiquei desesperado, mas me botava na cabeça que haveria de chegar alguém para desvendar o mistério. Continuei esperando e finalmente os senhores chegaram.”
Ron estava muito concentrado nos seus pensamentos, mas depois de alguns instantes, rompeu o silêncio:
Acho que a questão decisiva está na seguinte pergunta: em que seu escritório se diferencia do de outros ministros?
Uma idéia tomara corpo em sua mente. No princípio a julgava até ridícula, mas sua mente disciplinada lhe dizia que não se deve deixar de lado nenhum pensamento. Será que o ar de Azgola estava impregnado de algum eficiente, mas invisível elemento nutritivo? Ou tudo aquilo era uma nova invenção, ainda sem explicação? E as duas espaçonaves observadas no planeta, teriam alguma coisa a ver com isto? Haveria em Azgola lugares onde a epidemia — se assim a podemos chamar — não penetrara e onde os homens ainda estavam normais?
Bladoor não teve dificuldades em responder a pergunta.
Expôs o seguinte:
Primeiramente sou extremamente sensível ao barulho. Meu poder de concentração diminui assim que ouço um ruído diferente. Por este motivo, minhas portas são sempre duplas. Em segundo lugar, amo o ar fresco, mas sou muito alérgico à poeira. Mandei instalar na minha janela uma tela de arame, mas de um trançado tão fino, que a poeira não passa. Fora disso, meu escritório é igual aos outros, exceto talvez nos móveis, mas isto, talvez, não tenha muita...
Muito excitado, Ron se levantou.
Não, os móveis não têm importância — disse interrompendo Bladoor. — O senhor tem razão, a porta dupla e a tela de arame de trançado fino... esta é a diferença. Por meio delas, o senhor conseguiu deter, pelo menos até um certo ponto, a substância nutritiva.
Substância nutritiva? — indagou Bladoor, perplexo.
Exato, talvez o senhor não esteja compreendendo. O negócio devia estar espalhado no ar. Sabe Deus o que seria! Mas pelo fato de os homens o respirarem, desaparecia toda sensação de fome. Sentiam-se sempre saciados e engordavam tanto que não podiam mais se mexer.
Bladoor olhava-o admirado.
Sim... sim... — gaguejou ele — estou compreendendo. Mas como foi que a substância veio parar no ar? Imagine que em Azgola vivem mais de dois milhões de homens. Que número colossal de toneladas desta substância alimentícia devia ser pulverizado no ar para deixar dois milhões constantemente saciados?
Ron sorriu.
Existem métodos de que o senhor talvez ainda não ouviu falar. Se de fato existe uma tal substância nutritiva, não seria difícil para seu fabricante injetar na atmosfera do seu planeta uma quantidade suficiente.
O azgônida sacudiu a cabeça.
Não — continuou ele. — A pergunta é muito mais “por que” isto foi feito. Será isto um novo tipo de ataque que precede à invasão de Azgola? Ou existe outro motivo atrás de tudo isto, que nós ainda não vemos? Se alguém me pudesse responder a esta pergunta, ficaria muito...
Foi interrompido. Contornando a coluna, Lofty vinha correndo na direção de Ron.
Não tenho certeza — disse preocupado — não se pode ver com nitidez, mas creio que vi movimento numa das ruas.
Está bem, Lofty, sairemos daqui o mais depressa possível. Continue de olhos abertos.
O velho e experimentado Lofty voltou para seu posto e Ron se dirigiu de novo ao azgônida.
O senhor acha que há uma possibilidade de encontrarmos um barco bom para o alto-mar?
Bladoor abriu os braços num sinal de incerteza.
A questão não é o barco. A uns vinte quilômetros ao sul daqui, está o porto de Timpik. Lá encontramos uma imensidade de barcos para o alto-mar. O que vai ser difícil é encontrar uma tripulação. Não existe ninguém para trabalhar.
Acho que isto, nós mesmos podemos fazer. Estamos em condições de manobrar um barco médio em pleno oceano, mesmo que seja a vela. Infelizmente o veículo que temos conosco não é adequado para maiores distâncias.
E não se esqueça de uma coisa muito importante — advertiu Bladoor.
O quê?
A desgraça, ou a epidemia, como o senhor diz, que nos atingiu, pode atingi-los também. Se a substância nutritiva ainda paira no ar, os senhores vão respirá-la tão bem quanto eu. Em poucos dias poderão ficar tão disformes e gordos como todos os meus patrícios que se esconderam em suas casas.
Ron concedeu que não pensara nisto e o perigo realmente existia. Tinham que estar preparados para dentro de poucos dias se apresentarem como os azgônidas, quase sem movimento. Até lá teriam que lutar para descobrir de onde vinha a tal substância nutritiva, quem era o inimigo carrasco que os atacara com tanto ódio.
Ron dirigiu-se a Lofty. O velho estava sentado nos degraus do pedestal da coluna, olhando atento para o leste.
Alguma novidade? — perguntou-lhe Ron.
Não — disse meneando a cabeça. — Tenho, porém, um mau pressentimento. Há alguma coisa errada lá nos fundos.
Ron também ficou olhando para a mesma direção que merecia a atenção especial de Lofty. Um bom número de ruas vinha dar ali no grande parque, permitindo assim um descortínio mais amplo. Mas tudo estava vazio e não se via nada de suspeito.
Queremos ir embora, Lofty. Vamos.
É uma boa idéia, chefe.
Deram a volta pela coluna. Larry estava na direção e ao seu lado, esgotado pelos poucos passos e pela entrada no deslizador, Bladoor já estava refestelado na poltrona. Instintivamente Ron procurou por Meech Hannigan. Logo depois lembrou-se de que ele estava perdido. Educadamente, deixou Lofty entrar na frente. O velho, de pequena estatura, saltou ágil para dentro e sentou-se no banco de trás. Ron vinha logo a seguir e ia fazer a mesma coisa.
Surgiu, então, o inesperado.
De repente, como um trovão, irrompe do ar uma voz possante, que vinha de todos os lados. Tão de repente que Ron não entendeu as primeiras palavras. Só depois que o susto passou, foi que compreendeu:
...uma força quinze vezes maior. Aqui fala Garathon, comandante da nave Garath Quarenta e Três. Rendam-se, terranos, pois estão perdidos.
Ron percebeu tudo. Uma venda lhe caiu dos olhos, fazendo-o ver todo o quadro. O interlocutor invisível falava o arcônida. Seu nome era Garathon e sua nave se chamava Garath XLIII. Sabia, agora, quem eram os estranhos desconhecidos que queriam matá-los no Palácio do Governo. Estavam um pouco diferentes desde a última vez que os vira, mas seu modo de agir era sempre o mesmo.
Portanto, até em Azgola, lá nos confins do Universo, os saltadores estavam atrás de todo negócio sujo.

Ron se lançou no deslizador e a escotilha fechou automaticamente.
Vamos embora — ordenou — voando o mais baixo possível.
Larry já estava esperando esta ordem. Lá fora, o vozeirão tonitruante enchia todo o parque. Garathon trombeteava que a praça estava cercada pelo menos com uma força quinze vezes maior do que a terrana e que seus poderosos canhões haveriam de destruir seu planador, se tentassem fugir. Ron não duvidava de que o saltador levava a sério o que anunciava. Mas aqui estava em jogo muita coisa; coisa tão importante que as ameaças não iriam quebrar a determinação terrana.
Num pulo, o carro voador levantou no ar. Uma fração de segundo, parece que ficou parado uns metros sobre o parque, foi quando Larry ligou a tração horizontal. O aparelho ia cada vez mais rápido. Parece que Bladoor se assustou com a repentina aproximação de uns prédios altos. Depois vieram os telhados das casas mais baixas, que pareciam disparar para trás. Dava a impressão de que Larry queria ir de encontro aos velhos telhados.
Ron, olhando para baixo, via duas coisas ao mesmo tempo: o volume achatado do poderoso desintegrador que os saltadores haviam inteligentemente colocado no teto de uma casa mais saliente, e o brilho fraco e esverdeado que emanava da boca da arma.
No mesmo instante, o deslizador empinou-se todo. Bladoor foi jogado para frente, batendo com a cabeça no pára-brisa. O gemido lhe morreu na garganta, pois perdeu os sentidos imediatamente.
Foi destruída a propulsão! — gritou Larry. — Não estou agüentando mais.
Ron tentou ficar quieto, pelo menos por uns segundos. Frank Bell tinha que ser colocado a par dos últimos acontecimentos. Frank devia estar com a Victory, dando voltas em torno do planeta.
Leve-o para baixo, o mais lentamente possível — gritou para Larry.
Conseguiu ligar o pequeno transmissor de pulso. Deu o código de Frank, mas não teve tempo de esperar até que este se apresentasse. Apressadamente, fez um curto relato sobre os últimos acontecimentos em Timpik. Concluiu suas palavras com:
Chame a Vondar em seu auxílio, Frank, e tente tudo para nos tirar daqui. Fale também com Montini. E o mais importante de tudo: temos que sair daqui depressa, do contrário estamos perdidos. Não há necessidade de confirmação. Fim.
O deslizador estava caindo e Larry não podia fazer nada para detê-lo. O disparo do desintegrador reduzira a pó o conjunto de propulsão. O fato de o deslizador não ter caído de uma vez só no chão, como uma pedra, deveu-se à sua forma aerodinâmica. Larry mantinha o aparelho numa linha reta acima da rua. Parecia que os telhados vinham de encontro a eles, crescendo em altura dos dois lados. Por poucos segundos, Ron conseguiu olhar para dentro das janelas das casas. Depois, virou-se para trás. Não tinha certeza se já estava fora ou dentro da região cercada pelas forças dos saltadores. A rua estava vazia, e o desintegrador e os homens que o manejavam já haviam sumido numa esquina.
Vamos descer nesta rua — ordenou Ron.
Larry tentou controlar o carro voador e por um momento deu a impressão de que ele obedecia. Mas a situação se alterou de repente. Uma forte rajada de vento, um trecho de menor pressão de ar...
Larry deu um grito de alarma, Ron se encolheu todo. E o mundo todo em volta foi envolvido numa onda de um estrondo profundo e de um ranger de metais. Ron foi atirado de sua poltrona, batendo com a cabeça em algo muito duro. Sentiu uma dor agudíssima e depois tudo sumiu nas trevas.

* * *

A Victory estava girando em órbita do planeta Azgola, a uma altura de dois mil e quinhentos quilômetros quando recebeu o grito de socorro de Ron. A reação de Frank Bell foi fulminante: em segundos Montini, comandante da Vondar, foi avisado.
Estava nas mãos deste último tomar uma decisão. Ron Landry não se manifestou mais. Montini resolveu que a Victory devia ficar aguardando no local onde estava, até que a Vondar chegasse. Montini preparou sua nave, que estava a oito horas-luz de Azgola, para uma transição imediata e venceu em poucos segundos tal distância.
Frank Bell viu o ponto cintilante da Vondar, quando surgiu do nada a poucos quilômetros de sua nave. E antes que tivesse tempo de se virar e dizer alguma coisa aos seus tripulantes, falou o telecomunicador e se ouviu a voz de Montini.
Falo da Vondar. Mande-me os dados sobre sua órbita, Frank. Vamos tentar descer o mais rápido possível.
Os dados da órbita estavam no computador da seção de astronáutica. Frank Bell não teve outro trabalho senão apertar uns botões e fazer com que o aparelho codificasse os dados e os transmitisse por hiper-rádio. Poucos segundos depois, quando Montini perguntou na seção de navegação pelos dados necessários para o resto do vôo, já estava com o sinal verde.
Sem perder um segundo, Montini tirou sua espaçonave da órbita. Frank Bell compreendeu sua missão e seguiu a Vondar, com um intervalo de trinta quilômetros. Com os envoltórios de proteção ligados, ionizando e produzindo um brilho fosforescente, na superfície do pequeno planeta, as duas naves se aproximavam de Azgola. Viram primeiro o litoral do continente em cujo interior se situava Timpik, a cidade mais importante.
Por intermédio de um relatório de Frank Bell, Gerry Montini sabia que os saltadores dispunham em Azgola de um grande arsenal de armas teleguiadas. Não cometeu o erro de expor as duas naves em condições de ficarem encurraladas devido a uma aterrissagem apressada. Voando a uma altura de dez quilômetros, ainda com uma boa velocidade, disparou na direção de Timpik, tendo a Victory atrás. Câmaras automáticas filmavam toda a região. Em poucos segundos as fotos eram enviadas para o observador eletrônico, programado para um determinado tipo de pesquisa. Mais de dez mil quadros foram examinados em meio minuto.
Veio, então, o resultado da análise:
Nada de anormal. Tudo tranqüilo.
Montini girou sua poltrona e se levantou. Os oficiais no posto de comando interromperam seus afazeres para olhá-lo.
Alguma coisa está cheirando mal por aqui, meus senhores — explicou Montini, com voz clara. — Os saltadores se retiraram ou se esconderam de tal maneira, que nem mesmo os observadores eletrônicos conseguem ver seus rastros. E para esta manobra apressada só cabe uma explicação: devem ter chegado à convicção de que Ron e sua gente não vieram sozinhos para cá. Estão nos esperando. Mandem ocupar os postos de artilharia com reforço duplo e dêem a mesma ordem para a Victory, explicando-lhes a situação. Tudo depende de que estejamos preparados para qualquer eventualidade nos próximos minutos.
Voltou ao seu lugar, ficando atrás dele as vozes de seus auxiliares, que transmitiam suas ordens, e as pequenas telas cintilantes do intercomunicador. Sentou-se na sua poltrona, recostou-se e pôs-se a observar a grande tela panorâmica. Toda a cidade estava calma sob a nave. Não se percebia o menor movimento.
A sala de comando atrás de Gerry voltou à tranqüilidade. As ordens tinham sido emitidas e as tripulações das duas espaçonaves terranas estavam de prontidão.
Mas não aconteceu nada. Passou-se um quarto de hora sem que houvesse sinal de qualquer movimento em Azgola. O único fato foi que, no fim de um quarto de hora, Frank Bell chamou, pedindo autorização para aterrissar. Montini, porém, estava hesitante. Mandou que Frank esperasse mais quinze minutos. Se até lá nada ocorresse, as duas naves aterrissariam ao mesmo tempo no espaçoporto de Timpik.
Aumentava, porém, a cada minuto que passava, a inquietação de Montini. O quarto de hora não havia passado ainda, depois do chamado de Frank Bell, quando Gerry deu a autorização. As duas naves avançavam agora juntas, na direção norte, por sobre a cidade. Já na periferia, foram diminuindo a altura e deslizando no aeroporto vazio.
O observador eletrônico ainda não acusava nada das atividades suspeitas do inimigo. Nenhum sinal dos saltadores. Montini julgou desnecessário continuar nas severas medidas de alarma. Ligou-se o piloto automático para fazer a Vondar aterrissar o mais rápido possível.
Um bom número de deslizadores já estava preparado para descer em terra. Montini não queria perder um segundo. Ninguém sabia o que acontecera com Ron e sua gente. Mas a Victory captara o local de onde Ron usara o rádio pela última vez, com uma aproximação de mais ou menos dois quilômetros. Devia ser mais ou menos no centro da cidade e Montini estava crente de que haveria de descobrir pegadas ou sinais, se observasse bastante.
A Vondar pousou logo depois da Victory, mais ou menos no mesmo local onde esta última aterrissara há poucas horas atrás, quando o inimigo invisível atacou pela primeira vez. Montini deu ordem expressa para que os motores de propulsão continuassem ligados o tempo todo, durante a operação.
E foi esta sua sorte, pois os instrumentos de observação perceberam a enorme quantidade de foguetes teleguiados, somente quando já estavam atravessando a margem sul do espaçoporto. Com um truque todo especial, o inimigo conseguiu impedir até então a observação. Colocaram os mísseis um pouco acima dos telhados das casas. Desta maneira, só podiam ser vistos dentro de uma distância já altamente crítica. Isto significava que a Victory e a Vondar tinham que suportar os primeiros teleguiados. Não lhes restava mais possibilidade de evitá-los e se os campos de proteção agüentassem, poderiam depois tentar sair de Timpik, antes de chegar a segunda leva de foguetes.
Montini compreendeu logo a situação. Com um soco, empurrou para baixo a alavanca da instalação do telecomunicador e entrou em contato com a Victory.
Abriguem-se — soou sua voz firme. — Procurem um apoio firme.
Seguiu-se um arrastar de poltronas e o barulho de passadas pesadas. Mas depois veio o silêncio. Sete dos doze segundos dados pelo observador eletrônico já haviam passado. Gerry ainda deu uma olhada em volta, para ver se todos estavam bem protegidos. Depois fincou os pés firmes contra a base da poltrona, que estava fortemente atarraxada nas chapas do soalho. Enquanto seu corpo estivesse bem colado no espaldar, sentia-se seguro. Sem o perceber, prendeu a respiração.
Os disparos vinham rápidos demais para poderem ser reconhecidos na tela panorâmica. Um segundo antes da primeira detonação, o observador eletrônico soltou um silvo agudo. O som ainda estava no espaço, quando a grande tela se encheu, se iluminou de um branco ofuscante e um impacto assassino foi sentido por toda nave.
Sua opinião sobre a estabilidade da poltrona, Montini teve logo que modificar. Suas pernas foram simplesmente atiradas para o lado. Como se não houvesse mais lei da gravidade, seu corpo foi levantado do assento. Viu por um instante como os aparelhos do painel à sua frente pareciam todos virados para baixo. Depois, o segundo impacto o jogou ao chão, batendo forte com a cabeça. Por uns segundos, os estrondos das sucessivas explosões lhe pareciam um suave ruído que vinha de muito longe, através de um túnel estreito. O zumbido na cabeça dolorida abafava tudo.
Aos poucos tornou a ver tudo claro de novo. A forte cintilação esbranquiçada na tela panorâmica enchia o posto de comando de uma claridade ofuscante. De joelhos no chão, com as mãos apoiadas em alguma coisa na frente, Gerry olhava em torno meio estonteado.
Uma nova explosão atirou a Vondar um pouco para trás. Montini foi projetado de costas, conseguindo, logo depois, pôr-se de joelhos. Via o clarão avermelhado lá fora e sabia que a capacidade do envoltório de proteção estava atingindo seu ponto crítico.
Se o bombardeio não terminar...”, a próxima explosão interrompeu seu pensamento.
Foi atirado para cima, caindo depois deitado no chão. Estava respirando com dificuldade e vendo círculos vermelhos diante dos olhos. Um clarão avermelhado encheu a sala de comando e feixes largos de uma luz vermelha saíam da tela panorâmica.
Montini deu um pulo, sem cuidar agora se tinha ou não apoio. Chegou cambaleante até seu posto. O telecomunicador estava ainda ligado, mas a tela menor tombara no chão. Quando a levantou, percebeu que estava escura e apagada. Não havia mais imagem no videofone, para poder entrar em contato com Frank Bell.
Vondar chamando Victory — gritou com voz rouca. — Vondar chamando...
Aqui fala da Victory — interrompeu-o uma voz bastante nervosa. — Fala Frank Bell. Como está a situação com os senhores?
Gerry Montini suspirou aliviado. Se era este o maior cuidado de Frank Bell, então a situação da Victory não podia ser tão ruim assim.
Obrigado. Ainda conseguiremos levantar vôo. Vocês aí já estão preparados?
A qualquer momento — foi a pronta resposta de Frank.
Então, vamos embora. Até o próximo bombardeio não levará mais de dois minutos. Acelere o máximo que puder.
Entendido, senhor — respondeu Frank Bell.
Um pequeno estalo interrompeu a ligação. O primeiro-oficial atrás de Gerry já dera a ordem de partida.
De um segundo para o outro aumentou o ronco, até que todo o interior da nave sofreu uma forte vibração. A tela panorâmica continuava encoberta, pois o redemoinho de fumaça e poeira das contínuas explosões embaciava a visão. Gerry Montini aguardava o sinal agudo de partida, para saber o momento em que a Vondar se levantava.
Via-se a inquietação em sua fisionomia. Não tinha uma noção exata da extensão dos danos dos mísseis inimigos. Os motores de propulsão pareciam funcionar normalmente. Poderia, no entanto, acontecer que não tivessem mais a mesma força. E a Vondar necessitava de toda sua potência para enfrentar o próximo ataque!
A cortina de pó e fumaça foi ficando mais rala e os. contornos das coisas foram surgindo na tela. Montini viu os barracões no lado sul do espaçoporto. Momentos depois, apareceram também as linhas gerais da cidade de Timpik. Do outro lado, estava a majestosa esfera da Victory, que se movia com a mesma velocidade da Vondar.
Montini estava mais calmo. A velocidade com que desapareciam as nuvens de poeira, a superfície do espaçoporto abandonado e os contornos da cidade no fundo eram satisfatórios. Ao que parecia os conjuntos de propulsão não sofreram muito com o terrível bombardeio.
Foi então que viu a nova remessa de teleguiados surgindo sobre os tetos da cidade. A questão agora era uma só: Quem tinha maior capacidade de aceleração, as duas espaçonaves ou os foguetes dos saltadores?
Os mísseis teleguiados possuíam uma velocidade inicial maior. Agora, se a Vondar e a Victory conseguissem aumentar a velocidade, antes que se desse o impacto, estaria tudo salvo.
Os homens no posto de comando aguardavam as ordens de Gerry. Mas o comandante estava imóvel diante da grande tela. Nada havia para dizer, tinham que simplesmente esperar. Com uma morosidade enervante, aproximavam-se os foguetes do adversário. O céu em volta perdeu o azul leitoso e radiante, passando para tons arroxeados. As estrelas começavam a surgir e o escuro profundo do Universo expulsava as últimas cores.
A Vondar aumentava cada vez mais sua velocidade, a oitenta quilômetros acima da superfície de Azgola. A seu lado, sempre a majestosa Victory. A distância entre a leva de foguetes e as duas naves terranas era ainda de cento e trinta e dois quilômetros. Os foguetes continuavam vencendo a corrida; tinham maior velocidade. Não estava ainda decidido quem venceria.
Chegou, então, o momento em que o computador anunciou que a redução da distância por segundo estava menor. Os foguetes chegavam cada vez mais perto. Até agora a razão de aproximação era de duzentos metros por segundo; passou a ser agora apenas de cento e oitenta.
As mãos de Montini, verdadeira expressão de seu sistema nervoso, se comprimiam exageradamente contra as bordas da estante à sua frente. Esta pequena diferença não significava ainda a salvação. Mesmo que os foguetes avançassem apenas um metro a mais por segundo, poderiam ainda atingir seu objetivo.
Pareciam agora pontinhos minúsculos nas profundezas do espaço. Era uma verdadeira legião deles, muito mais do que os dois envoltórios de proteção podiam suportar, mesmo que estivessem intactos.
Cento e setenta metros por segundo... cento e cinqüenta... O tempo passava lento demais e a tensão na sala de comando era de rebentar os nervos.
A distância é de sessenta e sete quilômetros — dizia o computador, o único a não sentir tensão de nervos.
Do alto-falante saiu um som chiado e longo. Gerry Montini se virou para trás, sabendo o que acontecera, mesmo antes de a voz mecânica de cérebro positrônico anunciar:
Quota de aproximação negativa!
Voz fria e desagradável, como se tinha de esperar de um instrumento inanimado. Mas seu conteúdo tinha muita vida, estava dizendo que as naves terranas venceram. Os foguetes dos saltadores estavam ficando cada vez mais para trás. Sua força de propulsão era inferior à da Vondar e da Victory.
Gerry permitiu-se alguns segundos para deixar desaparecer a tensão dos últimos minutos e receber a onda benéfica de uma sensação infinita de alívio. Voltou depois para sua poltrona, ajeitando-a de tal maneira que podia ver seus oficiais.
Conseguimos — disse tranqüilo. — Programem o computador para uma órbita a quinze mil quilômetros do solo. Ficaremos lá para reparar nossos danos e para observar o que se passa em Azgola. Os aparelhos de medição captaram muitos dados sobre os foguetes inimigos, nos últimos minutos. Ordenem aos postos de artilharia que permaneçam de prontidão e estejam preparados para usarem os projéteis anti-foguetes. Não haveremos de fugir outra vez.

Foi a primeira vez em sua existência que Meech Hannigan teve que mobilizar toda sua energia. Até agora, mesmo nos maiores momentos de perigo, tinha se safado usando apenas a metade das energias de seu corpo mecânico. Mas aqui, tinha que dar tudo que havia nele. Tinha que se locomover com a velocidade de um automóvel, se quisesse escapar do desmoronamento do gigantesco edifício.
Ron Landry já estava fora de perigo isto sabia ele. Captara o rádio pelo qual Larry Randall fora solicitado a trazer o carro voador para a parede da torre e subir à procura dos terranos. Melhor do que ninguém, sabia também que o edifício perderia a estabilidade com o desmoronamento de parte da escadaria.
Pulou escada abaixo, atingindo o saguão no andar térreo, antes que o trecho da escadaria, onde Ron Landry estava agüentando o fogo cerrado dos raios térmicos dos desconhecidos, despencasse e desse assim início à obra de total destruição. Com largas passadas, depois que alcançou a rua, Meech corria à sombra das paredes das casas. Ninguém o viu. Larry Randall já estava, a esta altura, subindo com seu desliza-dor ao longo dos andares da torre. O biorrobô viu ainda duas cabeças olhando por uma das janelas da torre. Eram Lofty e Ron. Mas sua maior atenção era para o deslizador.
Meech nunca fazia nada sem calcular. Nos poucos segundos que se passaram após sua fuga da torre, desenvolvera em seu interior um vasto programa à base de computação. Media a situação sumariamente pelo estado atual de suas informações. Chegou, então, à conclusão de que os estranhos, fossem quem fossem, deviam ter uma base muito bem provida em Azgola. Em flagrante contraste com isso, estavam Ron Landry e seus homens, depois que a Victory partira e se retirara. Os três terranos estavam entregues a si mesmos e não podiam contar com outras armas, a não ser as de pequeno porte que traziam consigo e as que guarneciam o deslizador. Era mais do que certo que passariam por grandes apuros, até sua espaçonave voltar.
Num caso deste, era muito interessante que alguém ficasse para trás, alguém de cuja existência nem Ron, nem o adversário suspeitassem. Meech não tinha dúvida de que Ron o julgava sepultado sob os escombros da escadaria da torre. O inimigo que, por sua vez, também perdera muitos de sua gente neste acidente, não tinha razão para duvidar da morte de um adversário.
A partir do momento em que a torre desmoronou, levantando uma gigantesca nuvem de poeira, Meech Hannigan era uma incógnita na equação em que se desenrolavam os acontecimentos em Azgola. E não queria de fato ser outra coisa, quando se esforçava para não ser observado em sua fuga.
Viu o deslizador se dirigir ao longo da rua na direção norte. Esperou um pouco, pois se podia ver pela velocidade reduzida do veículo que Ron Landry não se decidira ainda qual rumo tomar. Meio minuto depois, Meech constatou que esta conclusão estava certa. O deslizador virou à esquerda, numa rua lateral, e começou a acelerar, desaparecendo depois.
Os robôs não dependem exclusivamente dos cinco sentidos humanos, se bem que o termo “sentido”, aplicado a um robô, deve sofrer uma pequena alteração semântica, pois não é muito agradável colocar no mesmo plano a maravilhosa visão humana e a atividade visual de um registrador positrônico, que examina a imagem produzida por um complicadíssimo jogo de lentes numa imitação artificial de uma retina hiper-sensível. Não podemos, então, chamar de sentido humano a um combinado de elementos ópticos e positrônicos. Mas o fato era que Meech possuía uma peça cerebral que lhe permitia captar as irradiações de instrumentos produtores ou consumidores de energia. É claro que lhe seria totalmente impossível perceber um motor de explosão ou um gerador elétrico sem que o visse ou ouvisse, ou então os identificasse, por assim dizer, cheirando através da análise dos seus elementos residuais. Mas, quanto aos pequenos motores nucleares, como eram usados nos carros voadores ou demais tipos de deslizadores, o robô os percebia mesmo à grande distância, com tanta nitidez como se fossem lâmpadas de mercúrio cintilando em plena escuridão.
Meech sabia, portanto, que o carro voador tomara a direção sul, aumentando a velocidade. Mas, por mais veloz que fosse seu vôo, Meech o seguia, convencido de que, embora demorasse bastante, ele o encontraria.
Estava caminhando, apressado, é verdade, mas com muita cautela. Mas, não obstante a união da pressa com o cuidado, conseguia ainda uma velocidade em torno de vinte quilômetros por hora. Se o deslizador de Ron Landry aterrissasse em qualquer ponto da cidade, não ficaria parado mais do que um quarto de hora.
As irradiações do motor nuclear estavam cada vez mais fracas. Conforme os cálculos de Meech, continuaria recebendo as já fracas ondas do motor somente por uns doze ou quinze minutos, e isto dependendo do fato de não alterarem a velocidade e o rumo. Depois disso, suas pistas para segui-lo seriam muito mais difíceis e demoradas. Não tinha, porém, dúvida de que alcançaria Ron Landry.
Felizmente, logo depois pôde observar que o carro voador não estava mais se distanciando tanto dele; pelo contrário, se aproximava cada vez mais. Talvez isto queria dizer que o veículo tivesse pousado em algum lugar, pois a velocidade da aproximação correspondia à caminhada acelerada do biorrobô ao longo das casas da rua totalmente vazia.
Manteve o mesmo tempo, até que, no centro do cruzamento de duas ruas, percebeu de repente que estava captando outras irradiações energéticas diferentes das que lhe vinham do deslizador de Ron Landry. Analisou-as rapidamente e chegou à conclusão de que se tratava com toda certeza de um campo magnético produzido por motores nucleares. Ainda estavam bem longe dele, distribuídos numa ampla faixa do leste para o oeste. Sendo que só havia um único deslizador terrano em Azgola, a situação se tornava mais crítica.
Num milésimo de segundo, o biorrobô chegou à conclusão de que não devia avisar Ron. Pelo que percebera, seu chefe estava cercado e, num caso assim, não poderia ser útil. Deixou de lado a cautela com que vinha em sua marcha acelerada, e elevou ao máximo a velocidade que seu corpo permitia: mais ou menos trinta e cinco quilômetros por hora. Tal velocidade representava um aspecto muito estranho para alguém que visse o possante biorrobô correndo ao longo das ruas com saltos gigantescos.
Nesta corrida desajeitada, ele ouviu a voz de Ron no alto-falante portátil, quando este pedia socorro à Victory. Foi então que Meech soube que seus adversários eram os saltadores. Sobre o fato de os saltadores não se apresentarem em Azgola como eles realmente eram, o biorrobô não quis perder tempo a respeito.
Pouco depois, também ficou sabendo que Ron e sua gente haviam caído nas mãos dos inimigos. Os poderosos disparos do desintegrador ecoaram nitidamente no seu sensor energético e o estampido com que o deslizador se chocou contra o solo ou contra uma casa em algum lugar mais para frente foi tão forte que seria escutado facilmente pelo ouvido humano. O apurado aparelhamento acústico de Meech reconheceu também que o carro voador dos terranos não fora derrubado de grande altura. Os três terranos tinham, pois, probabilidade de estarem vivos. Os saltadores haveriam de levá-los consigo e Meech tinha que acompanhá-los.
No momento, o robô se contentou em se esconder no corredor de uma casa e aguardar o que os saltadores iriam fazer. Notou como os deslizadores inimigos levantaram vôo quase simultaneamente, e se afastaram para os lados do sul. Nesta direção, devia estar perto a periferia da cidade. Portanto, a base dos saltadores se situaria por ali, em pleno campo. Meech sabia que logo perderia a pista direta dos carros voadores. Mas se continuasse caminhando para o sul, haveria de, mais cedo ou mais tarde, sentir as irradiações de um outro aparelho, de um gerador ou de um hiper-rádio, que lhe mostraria o caminho com mais nitidez do que o pequeno motor nuclear de um carro voador.
Inicialmente, inspecionou o local do ataque inimigo. Passou pelo Parque Central e numa das ruas laterais encontrou os destroços do deslizador terrano, que não estava mais em condições de ser recuperado.
Meech estava para iniciar a caminhada rumo ao sul, quando surgiram sobre a cidade as esferas da Vondar é da Victory. Ficou observando suas manobras e com todos os seus “sentidos” calculou de que maneira as duas unidades terranas tiveram que lutar para escapar da destruição no espaço-porto. Guardou na memória que não podia contar com a ajuda das espaçonaves nas primeiras horas. Os saltadores de Azgola estavam muito bem armados.
Finalmente recomeçou a marcha para o sul. Com a lógica fria de um robô, reconheceu que as possibilidades dos terranos neste planeta não eram nada encorajadoras.

* * *

Ron Landry voltou a si com tremenda dor no corpo inteiro. Queria se erguer, mas algo o retinha; alguém gargalhava perto dele, deixando-o tão furioso que esfregou os olhos e abriu as pálpebras que pareciam pesadas como chumbo. O quadro que vislumbrou era confuso. Só com o tempo é que os contornos se desenharam com mais nitidez. Sentia dores horríveis na cabeça. Mas a dor era anestesiada pelo tremendo ódio contra o homem que zombeteiro estava ali postado, rindo dele.
Tinha uma leve impressão de já ter visto aquele rosto. Podia, porém, ser mera ilusão. O saltador, se é que era mesmo um deles, não usava barba. De rosto balofo e esponjoso, o homem parecia ser vítima de uma gordura doentia. Estava sentado numa enorme cadeira atrás de uma mesa pequena, onde havia um reduzido painel de comandos. Ron podia imaginar para que servia. Também não estava interessado em saber. Num grande esforço, tentou novamente se levantar.
O saltador, inclinando-se um pouco para frente, apertou um dos botões. No mesmo instante, Ron soltou um grito de dor. Parecia que alguém lhe espetara uma agulha incandescente para dentro do crânio. Tão violenta foi a dor, que perdeu novamente os sentidos por uns minutos.
Quando voltou a si pela segunda vez, o saltador ainda estava com a mão sobre o painel e ameaçadoramente lhe falou:
Fique quieto que não lhe acontecerá nada. Tenho que tomar minhas providências, pois o senhor é um homem violento.
Ron maldisse sua fraqueza no momento. Não podia nem virar a cabeça. Conseguiu ver que o recinto na sua frente não ia além de três metros e dos dois lados, não mais que dois. À direita e à esquerda do saltador, atrás da pequena mesa, viam-se as carcaças quadradas, de cor escura, dos dois geradores que estavam acoplados com o painel de contatos. Viu uma meia dúzia de cabos coloridos que dos geradores vinham para ele, compreendendo, então, quem lhe aplicara a terrível estocada no cérebro. Aliás, o recinto não tinha janelas. A iluminação provinha de uma fila de lâmpadas azuladas pouco abaixo do teto.
Ron olhou firme para o saltador.
Onde está minha gente?
Não interessa — respondeu-lhe secamente o saltador.
Falava baixo e pausado, observando muito seu prisioneiro. Ron não perdia estes detalhes.
O senhor é Garathon?
Perfeitamente. Meu nome já lhe é conhecido?
Desde... desde quando que foi mesmo? Quando nos atacou com muita coragem e com uma supremacia numérica exagerada.
Novamente a dor terrível em seu crânio. Não notara que o saltador apertara o botão. O choque veio repentino. Desta vez, porém, o terrano não perdeu os sentidos. O ódio o manteve consciente.
Não quero ouvir mais palavras ofensivas — disse Garathon, com um sorriso amarelo no rosto. — Para que você saiba, sou primo de Alboolal. Você se lembra deste nome, não é verdade?
Ron tentou se lembrar. O nome lhe parecia conhecido. Já tivera que lidar com um saltador de nome Alboolal, há algum tempo atrás. Devia ser em... Ghama, o planeta das águas, onde os saltadores retiveram como prisioneiros os sobreviventes de um acidente com uma espaçonave, acidente este encenado pelos saltadores. Ron e Larry, no entanto, estragaram os planos dos saltadores e os trouxeram presos para a Terra, onde foram condenados pelos tribunais a trabalhos forçados por vinte anos, para indenizarem o grande mal que praticaram.
Ron estava compreendendo e ligando os fatos. Garathon estava tentando vingar seu primo Alboolal e Ron poderia se dar por felicíssimo se algum dia escapasse desta prisão.
Ah! Alboolal... — disse ele. — Sim, estou me lembrando. — Conseguiu um sorriso zombeteiro e continuou: — Acho que ele agora estará pensando se vale a pena assaltar espaçonaves terranas.
Sabia que após estas palavras, receberia o terrível choque da agulha incandescente. Fechou os olhos e se concentrou no choque, suportando-o melhor que nas duas vezes anteriores. Quando os abriu, o semblante do saltador era uma carranca do ódio.
Este sorriso sarcástico vai desaparecer de seus olhos, terrano. Haverá de maldizer o dia em que levaram Alboolal preso.
Acalmou-se logo depois, de maneira surpreendente, recostando-se novamente na ampla poltrona.
Gostaria de lhe dizer pela terceira vez — começou o saltador lacônico — que palavras ofensivas não me agradam; que somente o podem prejudicar e muito, quando ouço coisas que não me agradam. Mas estou certo de que você não vai mudar.
Ron meneou a cabeça afirmativamente.
Pode ser — disse indiferente. — Mas já que o senhor se sente tão firme, certamente estará em condições de me informar o que os saltadores estão tentando de novo em Azgola.
Garathon se mostrou a princípio indeciso.
Trata-se de um negócio muito importante — disse hesitante. — Acho que você não deve saber mais do que isto.
Compreendo — disse Ron. — O negócio é tão bom que o senhor ficou mais gordo que um sapo-boi.
A mão de Garathon moveu-se para a frente e Ron viu que o dedo esticado procurava agora outro botão. Esticou os músculos. Teve a impressão de que alguma coisa estava dependurada nos dois braços e os puxava violentamente para baixo. Ron gemia.
Garathon gargalhava. Ficou de repente sério.
Aliás, você tem razão. A estada aqui em Azgola tem seu lado desagradável. A gente engorda exageradamente. Essa região aqui é mais ou menos sadia. Não sofremos tanto como os pobres azgônidas que, de tanta gordura, nem podem mais se mover.
Ron se esforçava para conter suas palavras.
Mas qual é a novidade que está no ar? — perguntou em voz bem firme.
Garathon ouvia com atenção.
Novidade no ar? Não há nenhuma. Já lhe disse que estas coisas não são de sua conta.
Covarde! — gritou ele. Queria pôr fim a esta luta desigual, sem temer as conseqüências. — Dentro de sua própria cidadela, o senhor ainda tem medo de nós.
Lentamente Garathon se inclinou para frente... Mas, bem mais para longe, atrás das paredes do recinto onde estavam, soou um gongo. O ruído foi aumentando, enchendo os ouvidos de Ron.
De repente, queimou-se uma resistência em algum lugar e, de um momento para o outro, não havia nada mais em torno de Ron, a não ser a noite, noite negra e benfazeja.

* * *

Os danos nas duas espaçonaves não chegaram a ser substanciais. No tocante aos geradores do envoltório de proteção, bastou um período de doze horas para se completar a reserva energética.
As duas centrais de computação das naves terranas estavam, entrementes, ocupadas em determinar o curso e a origem dos foguetes adversários. Por ter o inimigo mantido o bombardeio num ângulo muito diminuto, os dados obtidos não eram suficientes. Assim mesmo, Gerry Montini descobriu que as duas grandes faixas de mísseis teleguiados partiam de duas rampas de lançamento bem distintas e que as duas bases se localizavam no continente, em cujo litoral leste os azgônidas construíram sua capital, Timpik.
Fora disso, os setores de observação astronômica das duas naves estavam em intensa atividade para controlar qualquer novidade na superfície do planeta. Montini não ignorava que com isto estava se expondo a um grande risco, pois as espaçonaves dos saltadores deviam andar por perto e não haveriam de tolerar que alguém atrapalhasse seu jogo disfarçado. Montini sabia, porém, muito bem que tal operação era de suma importância, principalmente depois que souberam que os saltadores é que estavam por detrás dos acontecimentos de Azgola. E operação de importância não se fazia sem um grande risco.
Este risco estava diante deles e Montini assumia toda a responsabilidade.
A minuciosa observação da superfície do planeta concluiu que o hemisfério norte de Azgola, ocupado em sua maioria pelo continente, era praticamente desabitado. Talvez a terra fosse tão estéril que os azgônidas não se interessavam por ela. Outros trechos do continente apresentavam uma coloração de um verde-amarelado, como de capim há muito ressecado.
Se os azgônidas não se interessaram por esta enorme faixa de terra”, assim pensava Montini, “certamente também os saltadores não lhe dariam importância.”
Era uma conclusão gratuita, temerária mesmo, sem nenhum apoio concreto. Montini, porém, se arriscou a aceitar a tese, crente de estar com a razão.
A Victory recebeu instruções para voltar à órbita de Azgola, enquanto a Vondar se preparava para se aproximar de novo da superfície do planeta. Montini dispôs a rota de tal maneira que não tocaria os lugares mais perigosos da superfície. A Vondar descia quase perpendicular, de encontro ao continente do hemisfério norte.
Já se havia preparado um grupo de especialistas para desembarcar.

* * *

O biorrobô Meech Hannigan continuava sua marcha acelerada. O terreno era plano e de boa visibilidade, o que podia ser uma vantagem, como também uma desvantagem. Dispondo de um formidável sistema óptico, sua visão atingia muito além dos olhos humanos, incluindo os espertos salta-dores. Não precisava ter medo de ninguém que por acaso encontrasse no caminho. Naturalmente, a situação se modificava quando o terreno era vasculhado por instrumentos de rastreamento. Rastreadores enxergavam mais longe do que um biorrobô. E aquela imensa planície não oferecia a Meech muita chance para se esconder.
De qualquer forma, haveria de notar quando alguém o descobrisse. A questão era esta: ele seria bastante rápido para desaparecer antes que os saltadores começassem a desconfiar e a correr atrás dele?
Deixara a cidade já bem longe. Se olhasse para trás, veria apenas a silhueta dos edifícios no horizonte.
Um grande número de estradas partiam da cidade para o sul e Meech as evitava, pois eram muito mais desprotegidas do que a planície de capim ressecado. Notava, além disso, que o terreno descia em declive brando, certamente na direção do mar. Notava-se no ar maior teor de salinidade, em comparação com as regiões do Norte.
Ainda outra coisa chamara a atenção de Meech. O interior de seu corpo mecânico necessitava de um sistema de aeração e de refrigeração. Era muito simples usar como gás de refrigeração a simples atmosfera em que o biorrobô se encontrava, se não contivesse componentes que pudessem atacar a complicada estrutura interna de Meech. Somente no vácuo do espaço infinito é que o biorrobô passaria a viver como um conjunto auto-suficiente.
O conjunto de aeração estava equipado com uma série de filtros que vedavam a passagem de impurezas e que, em períodos normais, eram limpos automaticamente. Mas por mais automático que fosse, algumas impurezas permaneciam no consciente do biorrobô. E, depois de sua chegada a Azgola, estes filtros necessitavam ainda mais de uma limpeza. Não seria difícil compreender isto, pois se percebia como o ar era impuro e como o vento levantava sempre aquela poeira fina. A questão era agora saber de onde vinha aquela poeira constante. O capim em que Meech estava caminhando achava-se ressecado, mas não deixava quase nada do solo descoberto. O mar não podia estar muito longe, pois havia muita umidade no ar. Isto era facilmente evidenciado pelos instrumentos de Meech. De onde vinha, portanto, a poeira?
Meech não estava a par do problema dos azgônidas, pois não se encontrava presente quando da conversa de Ron com o supergordo Bladoor. Apesar disso, seu pensamento agora estava perguntando aos dados acumulados dentro dele se aquela poeira fora do comum tinha alguma coisa que ver com a engorda deformante que parecia uma epidemia do planeta. E como seria, então, se a tal poeira contivesse elementos nutritivos?
Para um homem normal, este simples pensamento pareceria absurdo. Mas um biorrobô não conhecia preconceitos. Seu julgamento dependia com exclusividade dos conceitos acumulados eletropositronicamente, formando o substrato de sua consciência, ou por assim dizer, sua pseudo-experiência. Podia assim imaginar que alguém tivesse aspergido no ar ácidos de lipídio, ou seja, de gordura, em forma de aerosol, fazendo com que os homens que os respirassem engordassem de uma hora para a outra. E por que não poderia acontecer uma coisa desta em Azgola?
A pergunta não era assim tão simples de responder. Por este motivo, Meech a deixou provisoriamente de lado, sem contudo desprezá-la, até que tivesse mais informações.
Uma hora mais tarde, o negro véu da noite se estendeu sobre o triste planeta. A escuridão não causava nenhuma sensação diferente no biorrobô. Seus sentidos funcionavam independentes das trevas e continuou sua caminhada no rumo sul. Uma hora e meia depois do sol posto, captou os primeiros sinais de uma estranha fonte de energia.
A origem das ondas energéticas estava quase em linha reta com a direção seguida por Meech. Bastou-lhe uma leve correção de um grau e pouco para o oeste. Daí para frente, toda a sua atenção se convergiu para seus sensores energéticos, isto é, ativou uma ligação especial que salientava sobremaneira a reação de um tipo de dispositivo ligado diretamente com os órgãos correspondentes aos sentidos.
Pôde perceber, minutos mais tarde, que pelo menos três fontes energéticas estavam diante dele. Pareciam dispostas em ordem simétrica, pois somente de uma delas é que recebia impulsos mais fortes e mais nítidos, enquanto as outras duas, se bem que perceptíveis, eram mais fracas.
Não poderia ser um enigma em Azgola, descobrir o que se passava lá na frente. Os pobres azgônidas não possuíam aparelhos ou instrumentos que o biorrobô pudesse auscultar ao longe. Ron Landry fora obrigado a deixar seu deslizador em Timpik. Que poderia ser então?
Somente os saltadores!
Sentiu Meech que o chão a seus pés e o ar em volta se tornavam mais úmidos. A terra cedia quando ele andava e a grama seca dava lugar a um trecho quase de brejo. Meech não deu maior importância ao fato, se bem que seu peso fosse muito superior ao de um homem, podendo pois afundar no pântano bem mais depressa. A força de seu corpo, porém, compensava em muito seu próprio peso. Não havia brejo nem atoleiro de onde Meech não saísse. Continuou na mesma marcha acelerada.
Entretanto, um pouco depois foi obrigado a diminuir seus passos, pois a irradiação se tornou tão forte que calculou a distância até a próxima fonte energética em menos de um quilômetro. É claro que os saltadores deviam ter tomado providências para que nenhum estranho penetrasse em sua base.
Meech desfez a ligação especial e concentrou toda sua atenção no terreno em volta.
Descobriu segundos depois um pequeno sensor, aflorando do solo à sua frente. Uma cúpula diminuta, de meio metro de diâmetro, sobressaía do chão pantanoso uns dez centímetros. Esta cúpula possuía duas pontas simétricas, assemelhando-se muito aos bicos recurvados das antigas cafeteiras. Meech não ignorava sua finalidade. Através destes bicos, podia penetrar qualquer tipo de irradiação, por exemplo, raios ultravermelhos. Esta irradiação entrava compacta e era retransmitida por receptores instalados à direita e à esquerda. Provavelmente, estas cúpulas e o que estava dentro delas na terra eram receptores e transmissores ao mesmo tempo. Se alguém passasse entre dois destes dispositivos, o receptor seria interrompido pela fração de um segundo. Na Terra, aplicava-se este princípio em escadas rolantes e em portas automáticas de estabelecimentos comerciais. Aqui, a interrupção disparava, talvez, uma instalação de alarma. O mecanismo era simples, mas eficiente. Se a lâmpada de raios ultravermelhos debaixo da cúpula não possuísse uma irradiação característica, o biorrobô jamais teria percebido a aparelhagem ou a teria julgado inofensiva.
Realmente, Meech precisou de muito tempo para tomar uma decisão. Muito tempo para o biorrobô era um décimo de segundo. Poderia tentar dar uma volta em torno do dispositivo, mas os saltadores certamente haviam minado todo o terreno com uma série de sensores ultravermelhos. Podia passar por sobre a cúpula... Quem sabe, porém, existia um dispositivo especial que disparava o alarma quando alguém pisasse na cúpula? Existiam muitas outras possibilidades e Meech as ponderava uma por uma, com a lógica fria de um computador. Acabou se decidindo pela mais simples delas. Curvou bem os joelhos e deu um grande salto por sobre a cúpula.

* * *

Garathon, o chefe da base em Azgola, deixou seu recinto de trabalho e os aparelhos que lá foram instalados secretamente por meia dúzia de súditos, que, certamente, não cometeriam a loucura de abrir a boca sobre o que viam e ouviam. Os demais membros do clã de Garathon nada sabiam sobre a distração predileta de seu patriarca.
Atravessou o corredor meio escuro que ligava seus aposentos com o resto da base. O corredor era subterrâneo, como a maior parte da base e isto por bons motivos. A única coisa que ia além do nível do solo era uma cúpula relativamente baixa cujo ápice não atingia cinco metros. Toda a instalação havia sido uma obra-prima que os arquitetos do clã criaram em menos de sete dias. É claro que não se podia falar em conforto, pois o assunto em Azgola era interesse comercial. O saltador estava sempre pronto a sacrificar tudo — conforto, prazeres — por um lucro substancioso.
O corredor era muito úmido e o ar muito quente, obrigando Garathon a suar em bicas, muito antes de chegar até o salão de reunião, para onde convocara seus homens de confiança. O patriarca amaldiçoava o planeta Azgola e a excrescência que empesteava a atmosfera. Mas não podia se esquecer de que viera para cá por livre vontade — por causa dos lucros, naturalmente.
Já se aproximando do salão, o corredor se alargava um pouco. Diante do grande portal, transformava-se num saguão de onde partiam outros tantos corredores. Garathon parou por um instante, olhando com orgulho o emaranhado de corredores e galerias que abriam caminho para câmaras e depósitos. Ele era o único dono de tudo isto. E quando saísse daí, seria um dos mais ricos dentre todos os patriarcas.
Empurrou a porta do salão e entrou. O recinto fora construído para quinze pessoas. Toda a base contava com quarenta e oito homens. Os bancos e mesas estavam vazios, com exceção de uma nos fundos. Garathon se encaminhou para os quatro homens de confiança que lá estavam, fazendo uma saudação com a mão, sem dizer nada. Suspirando e suando sob o enorme peso do corpo, sentou-se num banco largo e sem encosto.
Conseguimos prendê-los — disse ele.
À sua frente estava Garhalor, um homem baixo, aparentemente jovem, não usando mais a cabeleira pomposa dos saltadores, muito menos a barba, já quase fora de uso. Na realidade, Garhalor era alguns anos mais velho do que Garathon, seu chefe, e tinha papel importante nas grandes reuniões.
Isto não é tudo — respondeu ele à frase inicial de Garathon, fazendo uma expressão de tristeza e preocupação. — Você acha que os terranos vão abandonar seus homens?
Garrhegan, sentado ao lado de Garhalor, o mais jovem e o maior de todos, gargalhava à vontade.
Eu não me preocuparia tanto com este assunto — disse o último. — As duas primeiras naves já tiveram uma boa lição.
Garhalor, fazendo um gesto de censura:
A Terra não tem apenas duas espaçonaves e os terranos são perseverantes. Não nos darão mais sossego.
Garathon interrompeu a discussão:
Garhalor tem razão. Mas nós precisamos apenas de dez ou onze dias, para montar as instalações e garantir nosso lucro contínuo. Até lá, deve esta base, juntamente com os postos avançados em Kanen e em Galuik, estar em condições de nos proteger contra os terríveis terranos.
Por em falar Galuik — interveio o quarto saltador, Garr, um homem de estatura média e também de aparência e prestígio médio — perdemos naquela ação na cidade um bom punhado de homens...

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html