O'Bannon
não concordou com a sugestão. Queria manter a fortaleza. Mas Mullon
apoiou a proposta de Chellich.
— Esperaremos
até que cheguem à casa de Wolley — decidiu. — Depois daremos o
fora.
Mrs.
Wolley foi mandada imediatamente para fora, pois era duvidoso que, no
momento adequado, conseguisse desenvolver a pressa que se faria
necessária.
Mais
adiante, os seres estranhos passaram a arrombar as portas e esvaziar
as casas. Mas, quem olhasse pelas janelas das casas que rodeavam a de
O’Bannon chegaria à conclusão de que seus moradores já haviam
fugido. Assim, os desconhecidos não fizeram nenhum prisioneiro.
Mullon
recuperou as esperanças. Teriam de revistar mais seis casas, antes
de atingirem a de O’Bannon. Se todas estivessem vazias, talvez
desistissem de prosseguir nas buscas.
Mas essa
esperança não se cumpriu.
No momento
em que os desconhecidos arrombaram a porta da casa de Wolley, Fraudy
saiu por uma janela dos fundos. Os outros seguiram-na o mais depressa
que puderam. No momento em que a primeira pancada foi desferida
contra a porta da casa de O’Bannon, já não havia mais ninguém no
interior da mesma.
Mullon e
seus homens postaram-se na passagem estreita que separava as duas
casas. A escuridão voltara a ser completa. Se os desconhecidos não
tivessem a idéia de iluminar essa passagem, nunca poderiam
encontrá-los.
Chellich
estava na parte dos fundos da passagem. Subitamente virou-se e
cochichou:
— Ali
estão vindo dois. Parece que estão sós. Acho que devemos tomar
conta deles, não é?
Levantou-se
sem aguardar as ordens de Mullon. Ouviram-se passos na areia que
O’Bannon havia espalhado pela área dos fundos. Vozes agudas e
chiantes mantinham uma estranha palestra.
Mullon viu
uma sombra. Logo depois ouviu duas pancadas secas e violentas.
Foi quando
Chellich começou a falar:
— Acho
que consegui. Não se mexem mais.
Lá na rua
o barulho foi cessando aos poucos. Os estranhos pareciam estar
cansados das buscas e afastaram-se pela rua. Ao que tudo indicava,
não notavam a falta dos dois indivíduos abatidos por Chellich.
— Acho
que podemos entrar de novo — disse O’Bannon. — Não encontraram
nada; logo, não voltarão tão depressa.
Não houve
nenhuma objeção.
Empurraram
os dois indivíduos inconscientes pela janela. Chellich examinou a
rua.
— Não
vejo mais ninguém — disse. — Acho que podemos acender a luz por
um instante, para dar uma olhada nestas estranhas aves.
O’Bannon
procurou acender a luz, mas ao que parecia as bombas haviam destruído
a usina energética. A lâmpada continuou apagada. Mas O’Bannon
conseguiu encontrar uma lanterninha de bolso. Ligou-a e dirigiu o
feixe de luz sobre os dois vultos imóveis que jaziam no solo.
Tinham
pelo menos dois metros de comprimento e eram tão magros que não se
compreendia como não quebravam ao meio quando andavam eretos. Não
tinham cabelos na cabeça e a caixa craniana brilhava como se tivesse
sido coberta de açúcar de confeiteiro. Os olhos pareciam muito
grandes; no momento estavam fechados. O nariz era ossudo e abria-se
de forma grotesca na metade inferior. Embaixo deste, via-se a boca
larga, de lábios estreitos. Os braços magros tinham pelo menos um
metro e meio de comprimento. Tal qual o braço humano, possuíam duas
juntas. Cada mão era formada por seis dedos compridos, em forma de
garras, e uma palma de mão circular, que não media mais de quatro
centímetros de diâmetro.
As
estranhas criaturas envergavam um uniforme que parecia ser de couro.
Na altura
da cintura havia faixas parecidas com cintos, nas quais estavam
presos instrumentos que evidentemente eram armas.
Chellich
pegou uma delas e examinou-a. Dirigiu o cano para baixo e moveu todas
as peças móveis, mas não conseguiu qualquer resultado.
— Receio
que eu seja tolo demais — disse depois de algum tempo. — Ou então
isto não funciona.
Examinou
outra arma, mas o resultado foi idêntico. Ao que parecia, possuía
um excelente dispositivo de segurança, que ainda não conseguira
descobrir.
— O que
acha que é? — perguntou Mullon. — Refiro-me às armas. Qual será
o princípio de seu funcionamento?
Chellich
estendeu-lhe a arma.
— Está
vendo a abertura em forma de funil que existe na ponta do cano?
Conclui-se que não se trata de uma arma que expele projéteis. Na
minha opinião é uma arma de ultra-som.
— Hum! —
fez Mullon. — Nunca vi uma coisa destas. Isto é muito perigoso?
Chellich
sacudiu a cabeça.
— Não —
respondeu em tom tranqüilizador. — Se o senhor receber a carga
total, na melhor das hipóteses sua caixa craniana sofrerá uma
rachadura provocada pela ressonância.
— Não
apreciamos esse tipo de humor, meu caro — disse Mrs. Wolley em tom
de recriminação.
— A
senhora apreciará muito menos se alguém atirar contra a senhora com
uma arma destas — respondeu Chellich em tom indiferente. — Acho
que devemos apagar a lanterna, senão ainda nos descobrirão.
*
* *
Não era
fácil chegar a uma conclusão sobre o que deveriam fazer dali em
diante. Ao que parecia, não havia mais ninguém na cidade.
Nesse meio
tempo, Chellich voltara a entrar em contato com o Capitão Blailey e
descobrira o seguinte: Blailey recebera instruções exatas sobre a
maneira pela qual deveria proceder em determinados casos. Umas dez
hipóteses diversas foram especificadas. Blailey só poderia tomar
alguma providência quando tivesse certeza sobre qual dessas
hipóteses ocorria no caso.
Face a
isso, Chellich se empenhara junto a Mullon e aos outros membros do
grupo para que uma patrulha saísse a fim de verificar a situação.
Mas Mullon só deu sua concordância depois das quatro horas, e fez
questão de realizar pessoalmente a expedição.
Em vez do
fuzil, que representaria um estorvo, levou apenas a pistola de
Fraudy. Saiu pela janela dos fundos e passou sorrateiramente entre a
casa de Wolley e a de O’Bannon, atingindo a rua.
Avançando
grudado às casas, chegou aproximadamente ao centro da cidade.
Passou à
frente de sua casa e viu que a porta havia sido demolida, tal qual
nas outras casas. Sentiu-se tentado a atravessar a rua e verificar o
prejuízo, mas resistiu à tentação.
Ao
aproximar-se do edifício da prefeitura, que era a única construção
de maior porte existente na cidade, teve a impressão de ouvir um
gemido abafado. Parou e procurou verificar de onde vinha. Revistou
duas das estreitas passagens que separavam as casas. Na terceira,
descobriu um vulto estendido no chão.
À
primeira vista percebeu que não se tratava de nenhuma das criaturas
desconhecidas. Era um homem baixo e corpulento. Mullon abaixou-se e
enfiou o braço embaixo da cabeça daquela pessoa quase inconsciente.
Era
Ferris, um homem que já havia pertencido ao grupo de Hollander, mas
que por ocasião da revolta defendera a legalidade. Parecia
reconhecer Mullon.
— Água...!
— exclamou num gemido. — Estou com sede.
Antes de
mais nada, Mullon examinou seus ferimentos. Alguma coisa rasgara o
lado esquerdo de seu rosto. O homem perdera muito sangue.
— Espere!
— cochichou Mullon ao ouvido de Ferris. — Se possível, pare de
gemer, pois do contrário os desconhecidos acabarão por encontrá-lo.
Afastou-se
sorrateiramente. Ferris parou de gemer. No edifício da prefeitura,
Mullon encontrou alguns canecos usados na última sessão de uma das
comissões, e que ainda estavam sobre a mesa sem que tivessem sido
lavados. Encheu três deles com água. E voltou.
Ferris
esvaziou dois canecos e guardou o terceiro.
— Isto é
para qualquer eventualidade — disse: — Já me sinto muito melhor.
Mullon
ajudou-o a endireitar o corpo e encostá-lo à parede.
— O que
houve? — perguntou. — Conte tudo.
— O que
sei não é muita coisa — respondeu Ferris. — Acordei de repente
no meio da noite e ouvi alguém mexer na porta. Levantei-me e olhei
pela janela. Vi alguns vultos cujo aspecto era tão apavorante que um
calafrio me subiu pela espinha. Saí pela janela dos fundos, mas fui
um idiota. Deveria ter pegado um fuzil e matado aquelas criaturas.
Pretendia correr à sua casa, pois pensei que o senhor seria o
primeiro a saber o que estava havendo. Assim que cheguei à rua, vi
que estava cheia dessas criaturas horríveis. Uma delas descobriu-me
e, ao que parece, atirou contra mim. O que sei é que levei uma
pancada na cabeça que até parecia um coice de cavalo.
“Por
muito tempo fiquei sem saber de nada. Quando recuperei os sentidos,
estava deitado à frente da casa de Shelly. Na cidade, tudo estava em
silêncio, mas na periferia ouvi alguns chiados e assobios. Não sei
o que era. Arrastei-me até aqui para não ser visto pelos
desconhecidos quando voltassem. E aqui fiquei até que o senhor me
encontrou.”
— Chegou
a ver o que fizeram com nossa gente? — perguntou Mullon.
— Vi.
Foram tangidos para fora da cidade aos bandos.
— Viu
algum morto?
— Não.
— Está
em condições de andar? Ferris sacudiu a cabeça.
— Tenho
certeza absoluta de que não estou. Deixe-me aqui mesmo. Vou
descansar um pouco; é possível que depois disso consiga. Onde
estava o senhor? Em sua casa?
— Não;
achava-me na casa de O'Bannon. Procure ir até lá logo que seja
possível.
Ferris fez
um gesto afirmativo.
— Muito
obrigado pela água — disse.
Mullon
pôs-se a caminho de novo. Atravessou toda a cidade, mas a única
coisa que viu foram vidraças quebradas, portas arrombadas e móveis
derrubados.
Os
desconhecidos haviam feito uma limpeza total na cidade.
Mullon
perguntou a si mesmo se teriam a intenção de raptar os habitantes
de Greenwich. O que poderiam ganhar com isso? Será que pretendiam
mantê-los como escravos ou vendê-los?
Viu que a
pequena luz vermelha continuava a brilhar sob as nuvens. A nave
espacial encontrava-se no mesmo lugar.
“Não
adianta tentar qualquer coisa antes das dez horas”,
pensou. “Precisamos
de luz para enxergar alguma coisa.”
Voltou. Ao
passar pelo edifício da prefeitura, deu mais uma olhada em Ferris,
que estava dormindo. Mullon não o perturbou. Se conseguisse dormir
bem e por bastante tempo, no dia seguinte estaria em condições de
agüentar-se sobre as pernas. Naquele clima seco, dificilmente
ocorreria uma febre traumática.
Da janela
da casa de O’Bannon continuava a sair o cano de uma arma. Mullon
identificou-se e entrou pela porta despedaçada.
— Encontrei
Ferris, que viu muita coisa — disse.
Mais tarde
se arrependeria de ter dito isso. As observações feitas por Ferris
não eram tão importantes para que todos tivessem de abandonar seus
postos a fim de ouvir o relato de Mullon bem de perto.
— Quer
dizer que são mercadores de escravos galácticos — disse Chellich
em tom ligeiramente irônico. — Querem vender-nos à raça
inteligente, mas cruel, das medusas de Icebine.
— Será?
— perguntou Mrs. Wolley em tom curioso. — Onde fica Icebine?
— Pare
com estas tolices, Hannah! — exclamou O’Bannon. — Não deixe
que este jovem a...
Não
conseguiu prosseguir. Subitamente ouviram-se ruídos junto à porta e
às janelas. Mullon virou-se abruptamente e viu cabeças estreitas e
pontudas que se erguiam por cima dos peitoris das janelas, além de
um vulto magro e alto parado na porta.
Uma voz
mecânica disse num inglês matraqueante:
— Não
façam qualquer movimento e larguem as armas.
Um fuzil
caiu ruidosamente ao chão. Mas, no mesmo instante, a voz aguda de
Mrs. Wolley disse:
— Vocês
não podem fazer uma coisa dessas comigo. Eu lhes mostrarei como...
— Largue
a arma! — gritou Chellich. — Vamos logo, senão a senhora ainda
causará uma desgraça.
Mullon
espantou-se. Por várias vezes Chellich se adiantara a ele. Até
parecia que estava ocultando suas qualidades reais. Sabia comandar,
por exemplo, como um oficial da frota que tivesse uma longa folha de
serviços.
Mrs.
Wolley deixou cair a arma. Os outros fizeram a mesma coisa. Mullon
constatou que Chellich fora o primeiro a largar a arma.
— Isso
foi uma atitude inteligente — matraqueou a voz mecânica. — Saiam
um por um.
Mrs.
Wolley foi a primeira a sair. Assim que chegou à rua e encarou um
grupo daqueles seres estranhos, soltou um grito de pavor.
Mullon foi
o último. Uma vez do lado de fora, viu que os desconhecidos
mantinham as armas de ultra-som prontas para disparar. _
— Fizeram
prisioneiros? — perguntou a voz.
— Fizemos
— respondeu Mullon. — Estão lá dentro.
Dois dos
magricelas foram buscar os colegas, que continuavam inconscientes. Os
seis restantes conversavam aos assobios e chiados.
— Caminhem
à nossa frente! — ordenou a voz depois de algum tempo. — Sigam
pela rua que leva para fora da cidade.
Obedeceram.
Nem tiveram outra alternativa.
Este
episódio representou o fim temporário da cidade de Greenwich,
situada no planeta Fera Cinzenta.
3
As duas
casas da área periférica sul da cidade atingidas pelas explosões,
estavam reduzidas a um montão de cinzas fumegantes. Numa dessas
estivera instalada a usina energética.
“Teremos
de construir outra casa e instalar um gerador novo”,
pensou Mullon enquanto saíam da cidade. Mas logo chegou à conclusão
de que essa idéia era ridícula. Ao que parecia, nunca mais
precisariam de outro gerador.
Depois de
terem passado pelos destroços da Adventurous, viram que havia luzes
acesas nas proximidades da nave desconhecida. Os magricelas haviam
instalado uma porção de lâmpadas, que cercavam uma área quadrada
de dimensões consideráveis.
Os
habitantes de Greenwich estavam sentados no interior dessa área.
Sob a luz
das lâmpadas, os desconhecidos patrulharam a área, com as armas
apontadas. Eram ao menos duzentos.
A visão
foi tão surpreendente que Mullon parou. Mas logo levou uma forte
pancada nas costas. Um dos desconhecidos emitiu um chiado, e a voz
mecânica disse:
— Prossiga
imediatamente.
Mullon
obedeceu.
Os
desconhecidos tangeram-nos por entre as fileiras de guardas,
obrigando-os a ficarem na área em que se encontravam os habitantes
de Greenwich. Depois afastaram-se.
Mullon foi
cumprimentado com muito nervosismo.
Pediu que
contassem o que acontecera. Na verdade, com todos havia acontecido a
mesma coisa: o estrondo de duas explosões, as pancadas na porta,
cinco ou seis vultos muito magros que portavam armas estranhas e a
retirada da cidade.
Deram pela
falta de Philip Loft, sua esposa Mari e seu irmão Oale. Estes
moravam na casa vizinha à usina de energia. Provavelmente estavam
mortos. Ainda notaram a falta de Ferris, mas quanto a este, Mullon
sabia informar o que acontecera.
Ninguém
sabia de onde vinham os desconhecidos e ninguém tinha a menor idéia
de quais eram suas intenções. Mullon já não acreditava que seriam
raptados, pois nesse caso os prisioneiros por certo teriam sido
colocados imediatamente na espaçonave.
Chegou à
conclusão de que não adiantaria quebrar a cabeça. Seria preferível
recuperar um pouco do sono perdido. Procurou um lugar em que ele e
Fraudy pudessem dormir.
Mal
fechara os olhos, alguém lhe bateu no ombro. Era Chellich.
— Deixe-me
em paz! — exclamou Mullon. — Não tenho a mesma resistência que
você.
— Acho
que está fazendo muito frio para que a gente possa dormir —
respondeu Chellich. — E tenho uma idéia brilhante.
Mullon
lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Diga
logo!
— O
senhor tem um representante?
— É
claro que tenho. É O’Bannon. O senhor não sabia?
Chellich
fez como se não tivesse ouvido a pergunta.
— Que
tal fazer de mim seu representante?
Mullon
ergueu o corpo.
— É
esta a idéia brilhante que acaba de ter?
Chellich
fez um gesto afirmativo.
— Acho
que é uma idéia genial.
— Sem o
consentimento da Assembléia Popular... — principiou Mullon.
Chellich
interrompeu-o num tom que quase chegou a ser áspero.
— Pare
com essas tolices. Gostaria de estar presente no momento em que os
desconhecidos lhe explicarem o que deverá acontecer conosco. É só
isso.
Mullon
lançou-lhe um olhar pensativo.
— Por
quê? — perguntou.
Chellich
deu de ombros.
— Acho
que quatro orelhas escutam mais que duas.
Mullon
lembrou-se de que por várias vezes tivera a impressão de que
Chellich era muito mais do que procurava aparentar.
— Está
bem — disse. — Mas agora deixe-me dormir.
— Durma
bem, chefe! — disse Chellich. Poderia dormir, mas nunca seria bem!
*
* *
Às nove e
meia, quando começava a clarear e os resmungos, por causa da fome
que sentiam as pessoas acampadas ali, tornavam-se cada vez mais
fortes, dois magricelas fortemente armados abriram caminho entre os
prisioneiros sentados juntos uns aos outros e aproximaram-se de
Mullon. Um deles segurou Mullon com os dedos em garra, virou-se e
arrastou-o consigo. Os desconhecidos andavam tão depressa sobre suas
pernas compridas que Mullon teve dificuldade em acompanhá-los.
Mullon viu
de relance que Chellich também se levantara e vinha atrás dele.
Quando chegaram ao fim do acampamento, os dois magricelas fizeram
menção de mandar que Chellich ficasse para trás. Mas este falou,
evidentemente sem ser entendido, tão rápido e enfático que os dois
se “convenceram”
e também o levaram.
Nesse meio
tempo, um passadiço fora colocado junto à espaçonave, que tinha o
formato de um torpedo tosco. Não era tão confortável como os
passadiços das naves terranas. O piso era rígido.
Chellich
calculou que devia ter uns noventa metros de altura. Viu quatro
gigantescos bocais presos ao corpo da nave, bem longe das aletas de
direção. Notou que estavam enegrecidos. Essa observação,
conjugada com outra, bastou para que tivesse certeza quase absoluta
de que não se tratava de um veículo interestelar, mas de uma nave
interplanetária. Os estranhos magricelas pertenciam ao mesmo sistema
do planeta Fera Cinzenta. Provavelmente ainda não conheciam a
navegação espacial interestelar, ou seja, a navegação de um
sistema para outro.
Mullon não
fez nenhuma observação desse tipo. Apenas quebrou a cabeça sobre o
que pretenderiam dele. Achou estranho que já durante a noite
Chellich soubesse que mandariam buscá-los.
Quanto a
Chellich, este não se interessou por outra coisa senão a
espaçonave. Observou seu formato exterior e, assim que haviam
atravessado o passadiço, e penetrado no interior do veículo
espacial, dedicou sua atenção às instalações internas. Como
perito que era, percebeu imediatamente que aquela ficava muito a
dever às naves terranas.
Em sua
opinião, o nível tecnológico alcançado pelos magricelas era
aproximadamente idêntico ao que os terranos teriam alcançado na
mesma época, se há setenta anos Perry Rhodan não tivesse realizado
sua viagem à Lua, e se a civilização terrana não tivesse
experimentado um avanço de alguns milênios, graças ao auxílio de
dois arcônidas.
O
passadiço terminava num corredor circular, que avançava junto à
parede interna da nave. Os dois desconhecidos empurraram seus
prisioneiros para a direita.
Chellich
notou que na parede do lado esquerdo havia escotilhas a espaços
regulares, mas todas estavam fechadas, motivo por que não pôde ver
o que havia atrás delas.
Pelo
elevador, subiram seis andares, que se seguiam a intervalos de cinco
metros. Finalmente foram parar no sétimo andar, onde havia um
corredor circular igual ao situado no alto do passadiço. Desta vez,
caminharam para a esquerda, até chegarem a uma escotilha aberta.
Mullon e Chellich foram empurrados para ela.
Entraram
numa ampla sala quadrangular, cuja simetria era perturbada apenas
pela parede arredondada que a fechava para o lado do corredor. O piso
era liso e cinzento. O mobiliário consistia exclusivamente numa peça
semelhante a uma escrivaninha, sobre a qual se erguia uma série de
alavancas finas, e uma espécie de cadeira.
Atrás da
escrivaninha estava sentado um dos desconhecidos magricelas, que
fitou curiosamente os prisioneiros com os olhos salientes e
arregalados.
No recinto
encontrava-se Pashen, que cumprimentou Mullon e Chellich com um
sorriso insolente.
— Ora
veja! — disse Chellich em tom zangado. — Até nos tínhamos
esquecido do senhor. É claro que logo se agarrou ao pescoço dos
magricelas.
— Imediatamente
— confirmou Pashen. — Acreditava que pudesse ser diferente?
O
magricela que se encontrava atrás da escrivaninha soltou assobios
exaltados. Mal Pashen havia pronunciado a resposta, Chellich recebeu
uma tremenda pancada na nuca. Caiu ao chão, mas conseguiu
levantar-se de novo.
Uma voz
metálica disse em inglês:
— O
senhor só poderá falar quando lhe perguntarem alguma coisa.
Mullon
lançou um olhar intrigado para a escrivaninha. Tinha certeza de que
não fora o magricela quem pronunciara essas palavras.
“Quem
poderá ter sido?”,
indagou-se mentalmente.
Por fim
descobriu uma caixinha que ficava sobre a escrivaninha e tinha o
aspecto de um alto-falante. A voz viera dali. Quer dizer que o
desconhecido usava uma tradutora positrônica. Mullon já ouvira
falar nesse tipo de aparelho quando ainda se encontrava na Terra.
Pashen, o
traidor, havia fornecido ao aparelho o vocabulário de que precisava
para reconstituir a língua inglesa. Agora a máquina estava em
condições de converter os assobios e chiados dos desconhecidos em
palavras inglesas, e vice-versa. Provavelmente o núcleo do aparelho
estava embutido no interior da escrivaninha. O alto-falante era
apenas a saída.
— O
senhor é o presidente do bando de intrusos que se instalou neste
mundo — disse a máquina, depois que o magricela tinha dado alguns
pios.
Mullon não
sabia se aquilo era uma constatação ou uma pergunta, motivo por que
se limitou a dizer sim.
— Os
senhores trabalharão para nós — constatou a máquina.
Mullon
manteve-se em silêncio. Mas os magricelas eram coerentes. Não
deveria falar quando não lhe perguntassem nada. Mas teria de dizer
alguma coisa sempre que lhe dirigiam a palavra.
Mullon não
estava preparado para receber a pancada que o atingiu entre as
omoplatas. Viu nuvens escuras dançarem diante de seus olhos. Quando
recuperou os sentidos, notou que estava estendido no chão. Nem
sentira a queda. Procurou levantar-se, mas as pernas não queriam
obedecer.
— Os
senhores trabalharão para nós — repetiu a máquina.
— Está
certo — respondeu Mullon em tom zangado.
Censurou-se,
dizendo a si mesmo que era um covarde, mas não estava disposto a
receber outra pancada.
Atrás
dele, Pashen soltou uma risadinha sarcástica.
— Cultivarão
um tipo de cereal de que precisamos. Colocaremos máquinas à sua
disposição, e vocês nos fornecerão periodicamente determinada
quantidade de cereal. Se não cumprirem a obrigação, serão
punidos. A colônia permanecerá sob vigilância. Não toleraremos
qualquer desobediência.
— Sim —
disse Mullon.
Alguém o
agarrou fortemente pelo ombro e o puxou para cima. Experimentou as
pernas e constatou que voltaram a obedecer, embora continuassem um
tanto preguiçosas.
Ao que
tudo indicava, a palestra havia chegado ao fim. Os dois magricelas
que o haviam trazido, juntamente com Chellich, levaram-nos de volta
ao acampamento.
No momento
em que Mullon e Chellich foram empurrados por entre as sentinelas
postadas em torno do acampamento, o sol estava nascendo.
*
* *
Mullon
concordou plenamente quando Chellich se prontificou a explicar aos
habitantes de Greenwich o que havia acontecido.
— Sou um
covarde e um idiota — disse em tom desanimado a Fraudy. — Acho
que Chellich lhes teria dito algumas verdades.
— Ele
também só poderia ter falado enquanto continuasse vivo — disse
Fraudy para consolá-lo. — E, pelo que notei, não seria por muito
tempo. Deixe para lá. Ninguém poderá recriminá-lo. Se você
pudesse preparar-se para a palestra, sem dúvida o curso desta teria
sido diferente.
Dentro de
pouco tempo, a maneira tranqüila e objetiva pela qual Fraudy
encarava as coisas fortaleceu a autoconfiança de Mullon a ponto de
permitir-lhe que se levantasse e interviesse nos debates que se
travavam em torno de Chellich.
— Somos
terranos livres! — gritou alguém com a voz zangada. — Se
quiserem transformar-nos em escravos, verão uma coisa.
Outro
berrou:
— Somos
oito mil pessoas. Podemos tomar a nave. Ei, Mullon, diga uma coisa!
Este idiota está dizendo que devemos concordar com tudo.
Mullon
acenou com a cabeça e avançou até o lugar em que estava Chellich.
— Este
idiota tem toda razão — respondeu, colocando a mão sobre o ombro
de Chellich. — No momento não devemos fazer nada. Será que vocês
acham que podemos atacar apenas com as mãos uma nave espacial
fortemente armada? Vocês nem conseguiriam atravessar a linha de
sentinelas. Esses magricelas não têm o menor escrúpulo quando sua
segurança está em jogo. Eles nos entregarão máquinas com as quais
trabalharemos a terra para eles. Teremos tempo para pensar sobre as
medidas de contra-ataque a serem adotadas.
Os
circunstantes não concordaram com estas palavras. Mas depois que
Mullon e Chellich falaram durante uma hora, ficaram conformados com o
fato de que nem todo dia era o dia do juízo final, e que não havia
por que desesperar enquanto os chefes ainda viam alguma esperança
para o futuro.
O grupo
espalhou-se. Mullon e Chellich ficaram sós. Mullon lançou um olhar
de relance sobre Chellich.
— Você
é um ótimo orador — disse depois de algum tempo. — O que foi
mesmo que disse que era na Terra?
— Eu não
disse coisa alguma — respondeu Chellich. — Apenas o informei de
que estava ligado a Hollander. Na Terra, costumava trabalhar como
mecânico.
— Tem
certeza? — perguntou Mullon. — Tenho a impressão de que “atrás”
de você há muito mais que isso.
Chellich
deu uma risada.
— Já
percebeu isso? O senhor tem toda razão. Na verdade fui o Imperador
da China.
— Na
verdade, você é esquisitão — disse Mullon em tom zangado. — O
que acha dessa história de nos dedicarmos à agricultura.
— Não
acho muita coisa. Gostaria de saber por que os peepsies resolveram
cultivar seu cereal justamente aqui, e não no planeta deles.
— Quem?
— Os
peepsies. Não acha que é um nome bonito?
— Acho.
Foi invenção sua, não foi? É possível que esse cereal só cresça
neste planeta.
Chellich
sacudiu a cabeça.
— Tenho
a impressão de que têm muita necessidade dele. Talvez já não
disponham de terras cultiváveis em seu planeta. Será um caso de
superpovoação.
— Se
fossem tantos, eles mesmos poderiam plantar o cereal — ponderou
Mullon.
— É
verdade. Já andei quebrando a cabeça sobre isso. Acho que há
alguma coisa que lhes torna desagradável, ou mesmo insuportável a
permanência no planeta Fera Cinzenta. Talvez seja a temperatura, a
composição do ar, a gravitação, ou seja lá o que for. Bem que
gostaria de descobrir. Isso já representaria um bom progresso.
— Seria
bom — concordou Mullon.
*
* *
Dali a
pouco, uma das pequenas naves auxiliares, que haviam provocado o
chiado, ouvido por Mullon durante a noite, saiu da escotilha da
espaçonave, em direção a Greenwich. Logo foi seguida por mais
duas.
— Foram
buscar nossas armas — disse Chellich. — Daqui a pouco, poderemos
voltar à cidade.
— Quem
dera que o senhor tivesse razão — disse Mullon com um suspiro.
As três
pequenas naves voltaram dali a uma hora e desapareceram escotilha a
dentro.
Alguns
peepsies surgiram na parte superior do passadiço e assobiaram ordens
aos guardas postados junto aos habitantes de Greenwich. Estes se
formaram em cunha, cuja ponta se dirigia para a nave. Fizeram os
habitantes de Greenwich abandonarem os lugares em que se encontravam
e os tangeram de volta à cidade.
— O
senhor deveria ter abraçado a profissão de profeta, Chellich —
disse Mullon.
Enquanto
passavam pelos destroços da Adventurous, o “profeta”
os examinou.
— Será
que já encontraram a nave auxiliar? — perguntou a meia voz. —
Provavelmente eles a demolirão, para que não façamos tolices.
A nave
auxiliar, que a Adventurous trazia a bordo, permanecera intata por
ocasião do pouso forçado. Até então, os habitantes de Greenwich
não se haviam interessado por ela, pois tinham preocupações mais
importantes, que não lhes permitiam se ocuparem com a navegação
espacial.
A fileira
de guardas tangeu os homens para a cidade e bloqueou-a.
Mullon e
Chellich foram ver Ferris, ferido na noite anterior. Estava estendido
no chão, e o caneco de água que Mullon havia colocado a seu lado
fora entornado. Ferris trazia uma ferida no peito, que antes não
existia.
Chellich
apalpou sua mão.
— Está
morto — disse em voz baixa. — Eles o mataram quando estiveram
aqui para recolher os homens. Atacaram um homem indefeso!
Mullon
estava trêmulo de raiva. Mas Chellich conservou a calma.
— Ele
tinha esposa? — perguntou.
— Não —
disse Mullon. — Ainda não. Pretendia casar com Eileen Sunderson. A
permissão de casamento já foi solicitada à Assembléia Popular.
Chellich
acenou com a cabeça.
— Devemos
informá-la com toda cautela.
Deixaram
Ferris no lugar em que se encontrava. A passagem estreita entre os
prédios não era atingida pelo sol, e por isso não havia
necessidade de apressar-se com o enterro.
Quando se
encontrava na rua, Mullon olhou para trás.
— Eles
pagarão por isso — disse.
*
* *
Pouco
antes das doze horas, o ruído de motores e de correntes aproximou-se
da cidade, vindo do sul. Mullon correu para fora e viu uma fileira de
estranhas máquinas pesadas passarem pela rua.
Pouco
depois apareceu Chellich.
— ...dez
...doze ...quinze — contou a meia voz. — São máquinas enormes.
Ao que parece, trata-se de instrumentos de múltipla finalidade, que
semeiam, colhem e aram.
Mullon ia
perguntar como sabia disso, mas naquele instante um dos peepsies que
se encontravam na primeira máquina saltou para o chão e
aproximou-se dele. Segurou-o pelo braço e arrastou-o até a segunda
máquina, na qual estava sentado Pashen.
Este
descansara o pé na parede da cabina do operador e fumava
tranqüilamente.
— Pediram-me
que lhes dissesse — começou entre duas baforadas — que estas são
as máquinas que lhes foram prometidas. Nelas há sementes; são
cerca de cento e cinqüenta toneladas. Isso basta para uma área de
cerca de duzentos quilômetros quadrados. Pelo que dizem nossos
amigos, o solo nesta região é muito fértil. Esperam uma colheita
de trezentas mil toneladas dentro de quatro meses. Quer dizer que os
senhores terão de andar depressa.
Mullon
tinha uma porção de palavras ásperas na ponta da língua.
Chellich, que parecia desconfiar disso, adiantou-se e perguntou:
— Quem
nos ensinará a operar estas, máquinas?
— Eu —
respondeu Pashen, todo empertigado.
Chellich
estreitou os olhos.
— Tem
certeza de que nós não lhe quebraremos a cabeça?
— Tenho
certeza absoluta — disse Pashen com um sorriso. — Se alguma coisa
me acontecer, a cidade de Greenwich irá pelos ares. Já expliquei
aos nossos amigos qual é a situação especial em que me encontro.
— Fez
bem — disse Chellich em tom irônico. — Mas um dia ainda poremos
as mãos em você.
*
* *
A
espaçonave decolou na manhã do mesmo dia.
Os
peepsies que permaneceram no planeta — uns duzentos, segundo os
cálculos de Chellich — instalaram um tipo de acampamento ao sul da
cidade. Chellich percebeu que lhes haviam deixado duas naves
auxiliares e um verdadeiro arsenal de armas, entre elas alguns
aparelhos semelhantes a morteiros pesados, cujos canos estavam
ameaçadoramente dirigidos para a cidade.
Pashen
saiu da cidade quando Mullon lhe explicou que tinha coisa mais
importante a fazer do que familiarizar-se com aquelas máquinas.
— Caso
precise de seu auxílio, mandarei chamá-lo — disse Mullon.
— Eu só
virei quando me der na telha — desdenhou Pashen.
*
* *
Mullon
convocou a Assembléia Popular e explicou que, por enquanto, a calma
e a reflexão seriam as qualidades mais preciosas. Não devia haver
qualquer ação precipitada. Se um dia conseguissem livrar-se do jugo
dos peepsies, isso só poderia acontecer depois de um longo e
minucioso planejamento.
Fizeram o
inventário dos acontecimentos. Ao todo havia quatro mortos,
inclusive Ferris, e cento e setenta e oito feridos.
Todas as
armas haviam sido levadas, inclusive os poucos desintegradores e
radiadores térmicos guardados no arsenal. A maior parte do
mobiliário fora destruída, todas as portas estavam fora dos gonzos,
e havia pelo menos quinhentas vidraças pelas quais, a partir das
cinco e meia da manhã, o frio matutino penetraria nas casas.
Chellich
refletira sobre algumas coisas e procurou tirar certas conclusões.
Em sua opinião era impossível cultivar duzentos quilômetros
quadrados de terra, fazer a colheita e conseguir o produto dentro de
quatro meses, conforme exigiam os peepsies. Mas não acreditava que,
depois de sua volta, dali a quatro meses, os peepsies adotariam
medidas ainda mais rigorosas, pois com isso apenas retardariam a
produção de cereais.
Os adeptos
de Hollander, que há pouco tempo haviam sido condenados a dois anos
de trabalhos forçados, representavam outro problema. A execução da
pena teve de ser suspensa, e receava-se que os condenados
aproveitassem a oportunidade para extorquir certas vantagens. A
Assembléia Popular constituiu uma comissão especial que cuidaria do
problema. Era a única coisa que podia ser feita no momento.
*
* *
Na noite
daquele dia, Chellich manteve uma palestra prolongada com o Capitão
Blailey. Ofereceu um relato da situação e perguntou o que Blailey
pretendia fazer.
— Nada —
respondeu Blailey. — O caso que o senhor acaba de relatar
corresponde exatamente a uma das hipóteses em que não posso
intervir.
— Como?
— perguntou Chellich em tom de espanto.
— Não
existe qualquer perigo para a vida de quem quer que seja. Além
disso, ao que tudo indica, esses seres aos quais o senhor deu o nome
de peepsies não se interessam pela procedência dos colonos.
Portanto, não há o menor perigo de que descubram onde fica a Terra.
— Acontece
que quatro pessoas foram mortas! — protestou Chellich. — E é
possível que outros morram se, dentro de quatro meses, não for
cumprida a obrigação que nos foi imposta.
— Daqui
a quatro meses, poderemos conversar de novo — disse Blailey. —
Por enquanto não há perigo; portanto, ficarei bem quieto no meu
esconderijo.
Chellich
era oficial e, por isso, sabia perfeitamente que devia abster-se de
outras objeções.
— Ao
menos o senhor poderia procurar descobrir de onde vieram os peepsies
— sugeriu. — Sua nave é um veículo interplanetário. Portanto,
devem residir neste sistema.
— É um
detalhe interessante — admitiu Blailey. — Tratarei disso.
Conseguimos acompanhar a rota da nave por um bom trecho, e tudo que
teremos de fazer é examinar nossa tabela, para verificarmos qual é
o planeta que fica nessa rota. Eu o informarei sobre isso assim que
volte a chamar.
Chellich
voltou a endireitar o relógio e olhou pela janela. Já estava
escuro, e era hora de dar um pequeno passeio.
O
acampamento estava iluminado por uma porção de lâmpadas,
instaladas nesse meio tempo. Mais ao sul, fora do acampamento, havia
uma grande caixa, que era provida de rodas, conforme Chellich pôde
constatar. Provavelmente continha o gerador que fornecia a energia
para as lâmpadas e outros aparelhos.
Chellich
aproximou-se sorrateiro, o mais que razoavelmente poderia arriscar.
Deitou-se no capim, a fim de observar sem que ninguém o perturbasse.
Ao que parecia, os peepsies já estavam dormindo. Junto ao grande
morteiro Chellich viu um vulto imóvel sentado no chão. Não havia a
menor dúvida de que dormia tão profundamente como os que se
encontravam no interior das barracas.
Pareciam
sentir-se muito seguros. Havia apenas aquela única sentinela postada
junto ao morteiro, e esta não era um modelo de perfeição no
cumprimento de sua tarefa.
Será que
ali estava a chance que procuravam?
Chellich
teve de confessar que sabia muito pouco sobre o que se passava no
interior das barracas para dar uma resposta suficientemente segura a
essa pergunta.
Refletiu
sobre se deveria dar uma olhada na nave auxiliar da Adventurous, já
que tudo estava tão quieto.
Resolveu
não fazê-lo. Não era por recear não conseguir seu objetivo, mas
antes porque Mullon poderia procurá-lo e tornar-se ainda mais
desconfiado do que já era.
“Quer
dizer que esse espertalhão já desconfiou de alguma coisa”,
pensou Chellich. “Não
poderei ocultar-lhe por muito tempo quem sou na verdade.”
Voltou e,
pouco depois, alcançou a cidade pelo mesmo caminho por onde viera.
*
* *
No início
da manhã do dia seguinte, Mullon chamou Pashen. Para isso
aproximou-se a cinqüenta metros do acampamento dos peepsies, que não
lhe criaram nenhuma dificuldade, e chamou o nome de Pashen.
Pashen
gritou estar tomando café, e que oportunamente apareceria.
Veio dali
a duas horas. Orgulhoso com seus conhecimentos e sem regatear
observações mordazes, ensinou a Mullon e alguns outros homens,
inclusive Chellich, como manejar as grandes máquinas. Todas eram do
mesmo tipo. Portanto, bastou que apenas fizesse a demonstração com
uma delas.
O ponto
mais importante era o grande painel, no qual havia uma alavanca
correspondente a cada função que a máquina podia executar. Esta
podia arar, limpar, roçar e debulhar. Não precisava de qualquer
tipo de manutenção, nem de combustível. Trazia consigo a semente a
ser lançada à terra, e não havia outra coisa a fazer senão mover
a alavanca certa no momento adequado.
Cada
máquina tinha lugar para duas pessoas. Mullon perguntou se os homens
na cidade também teriam de trabalhar para os peepsies, já que as
máquinas só exigiriam o esforço de trinta pessoas.
— A
tarefa não será fácil de cumprir — respondeu Pashen em tom
dramático. — Já estou vendo a hora em que todos terão de ir ao
campo, para que a colheita possa ser feita em tempo. As máquinas não
bastarão para isso. Duzentos quilômetros quadrados não são
nenhuma brincadeira.
— Se
pudesse dar uma informação sobre o tipo de cereal de que se trata —
disse Chellich — talvez poderíamos usar nossas máquinas e
terminar mais cedo.
Pashen deu
de ombros.
— Não
sei nada a este respeito — disse. — O problema é seu.
Retirou-se.
Voltou ao acampamento dos peepsies.
Chellich
subiu a uma das máquinas. Gritou:
— Seremos
fazendeiros, meus irmãos! Nosso futuro está no campo.
Ligou o
motor. Ninguém notou que procurava ouvir atentamente os ruídos
emitidos pelo mecanismo. Acionou a alavanca de movimento e deixou que
a máquina percorresse alguns metros em ponto morto, ou seja, na
posição em que nenhum dos aparelhos de lavoura estava ligado.
Depois acionou o arado. O ruído do motor tornou-se menos intenso, a
máquina andou mais devagar, e atrás das esteiras surgiu uma faixa
de dois metros de rua arada.
Chellich
quis descrever uma curva, mas para isso teve de fazer algumas
manobras difíceis. Parou à frente de Mullon, desligou o motor e
saltou da máquina.
— O
primeiro tratorista está pronto para entrar em ação — disse. —
Podemos começar.
Mullon fez
que sim.
— As
mulheres colocarão as provisões nas máquinas — disse um dos
homens que se encontravam por perto. — Depois escolheremos um
trecho de terra que seja mais fácil de trabalhar.
Ao
amanhecer, as mulheres já haviam começado a preparar pacotes de
conservas e alimentos concentrados, que os homens levariam ao campo.
Mullon achou que não valeria a pena voltar à cidade para almoçar,
e chegou mesmo a brincar com a idéia de passar a noite no campo, a
fim de não perder tempo. A área correspondia a um quadrado de cerca
de quatorze quilômetros de lado. Em ponto morto, as máquinas não
percorriam mais de quinze quilômetros por hora...
Chellich
subiu ao assento, ao lado de Mullon.
— Não
quero ser impertinente — disse. — Espero que não tenha nenhuma
objeção se eu...
— Não;
não tenho nenhuma objeção — disse Mullon com um sorriso. —
Quem sabe se durante o tempo que passarmos juntos o senhor me conta
que tipo de vida leva o Imperador da China?
— O quê?
— perguntou Chellich em tom de espanto.
Mas logo
se lembrou da piada que fizera no dia anterior e sorriu.
— Ah,
sim. Isso é muito interessante.
Deram
partida à máquina. Mullon seguiu para o leste, pois lembrava-se de
que por lá o chão era muito plano. Imaginava ser o solo mais fértil
que nas outras regiões, já que, na margem oeste, o rio carregara a
terra para depositá-la na margem leste.
A dois
quilômetros da cidade, Mullon começou a arar a terra. As máquinas
trabalharam em formação oblíqua. Cada uma arava uma faixa de dois
metros.
Chellich
fez seus cálculos.
— Enquanto
estivermos arando, percorreremos no máximo dez quilômetros por
hora. Calculadas as pausas de descanso, levaremos uma hora e meia
para percorrer quatorze quilômetros. Em cada percurso de quatorze
quilômetros, aramos uma faixa de trinta metros. Logo, teremos de
fazer quatrocentas e setenta viagens, que durarão... que durarão
setecentas horas. Depois teremos de repetir o procedimento para o
trabalho de aiveca e de semeadura. No total, serão duas mil e cem
horas.
— Onde
pretende chegar? — perguntou Mullon em tom de espanto.
— O que
quero é explicar ao senhor que não conseguiremos, nem que
queiramos. Duas mil e cem horas representam ao menos cinqüenta e
três dias, isto é, mais de três meses. E daqui a quatro meses os
peepsies estarão de volta para levar a colheita.
— É
verdade — respondeu Mullon. — Nem pensei nisso. O que devemos
fazer?
Chellich
deu de ombros.
— Pare
por um instante.
— Por
quê?
— Depois
explicarei. Faça sinal para que os outros continuem.
Mullon fez
o que o companheiro estava pedindo.
As
quatorze máquinas restantes prosseguiram em sua trajetória, e
depois de algum tempo pararam ao sul, atrás de um véu de ar
tremeluzente sob os raios do sol.
Mullon
havia desligado o motor. Um silêncio apavorante cobria a terra.
Parecia que não havia nenhuma vida, além do capim e dos dois seres
humanos que se mantinham imóveis em cima da máquina.
4
— Pode
ligar — disse Chellich.
Mullon
moveu uma alavanca.
— Preste
atenção ao ruído!
Mullon
ouviu uma sucção, seguida por um leve rolar, como se no interior da
máquina um carro pesado entrasse em movimento. Após isso, ouviu-se
um zumbido surdo, e finalmente um ronco que se tornava cada vez mais
forte, até transformar-se no ruído do motor a que já estavam
acostumados.
— Basta
— disse Chellich e voltou a mover a alavanca.
Seguiu-se
a mesma seqüência de ruídos, em ordem inversa.
— O que
é isso? — perguntou Chellich, fitando Mullon.
Este
parecia contrariado.
— Conheço
helicópteros e automóveis, mas não sei nada a respeito das
máquinas dos peepsies — respondeu.
— Isso
não tem nada a ver com a tecnologia dos peepsies — retrucou
Chellich. — Lá embaixo existe um reator rápido de alta potência
e uma simples turbina a vapor.
Mullon
fitou-o com uma expressão de espanto.
— O
senhor consegue descobrir tudo isso com base nos ruídos?
Chellich
fez um gesto afirmativo e disse:
— E não
acredito que esteja enganado.
— Muito
bem. O que poderemos fazer com isso?
— Pense
um pouco — pediu Chellich. — Um reator e uma turbina a vapor.
Isso não retrata um quadro muito progressista. Os peepsies ainda não
conhecem a conversão direta da energia nuclear em energia elétrica,
pois do contrário esta máquina seria movida a eletricidade, o que
lhe conferiria um desempenho muito mais elevado. De que tipo será o
reator?
— Faça
o favor de dizer — pediu Mullon.
— Trata-se
de um reator de fissão — começou Chellich, — Um reator de fusão
trabalha com plasma, e se alguém trabalha com plasma, o princípio
da conversão direta magnetohidrodinâmica surge quase
espontaneamente em seu espírito.
— E daí?
Chellich
entusiasmara-se com suas próprias palavras.
— Um
reator de fissão trabalha com urânio enriquecido de plutônio ou
com tório. O reator desta máquina parece ser muito pequeno; logo,
deve trabalhar com matéria físsil enriquecida. Admitamos que nesta
máquina exista uma boa quantidade de U 235. Neste caso, poderíamos
usar o material para construir uma bomba, não é?
Mullon
arregalou os olhos e deixou cair o queixo.
— É
claro que isso nos daria muito trabalho — prosseguiu Chellich em
tom exaltado. — Teríamos de retirar um pouco de matéria físsil
das outras máquinas e construir um mecanismo que nos permitisse
reunir, no momento adequado, duas porções separadas de urânio, se
é de urânio que se trata, para transformá-la numa massa que
ultrapasse o ponto crítico.
Deu uma
forte pancada no ombro de Mullon. Parecia dominado pelo entusiasmo
provocado por sua idéia, muito embora esta lhe devesse ter ocorrido
muito antes.
— O
senhor entende disso? — perguntou Mullon em tom desconfiado. —
Quando o senhor fizer suas construções, não quero que todo mundo
vá pelos ares.
Chellich
sacudiu a cabeça e deu uma risada.
— Não;
não há o menor perigo. Acho que aprendi bastante para isso. A única
coisa que devemos fazer é tomar cuidado com os peepsies. A maior
dificuldade consistirá em encontrar uma maneira de trabalhar sem que
ninguém nos perturbe. Não há nenhum físico entre os colonos?
Mullon
cocou a cabeça.
— Bem,
Fisher e Stokes entendem um pouco do assunto, e talvez alguns dos
tripulantes da Adventurous. O pior é que ainda não tivemos tempo de
fazer uma lista das profissões que os habitantes da colônia
exerciam na Terra. É possível que consigamos encontrar alguns
físicos. Talvez entre os homens de Hollander, o antigo filósofo da
natureza.
— Acho
que conseguiremos — disse Chellich. — Devemos começar quanto
antes, para que... escute. O que é isso?
Mullon
aguçou o ouvido. Algumas batidas surdas vieram de certo lugar.
Mullon não conseguiu determinar a direção. Subitamente viu um
pontinho brilhante que disparou para o céu.
— O
helicóptero! — disse em tom de espanto. — Quem será?
— O
senhor tem alguma dúvida? — perguntou Chellich. — Os peepsies
confiscaram o helicóptero, para impedir que façamos alguma tolice.
Eles não sabem pilotar o aparelho. Quem é que resta?
— Acha
que é Pashen?
— Naturalmente.
Aguarde um momento; logo demonstrará seu interesse por nós.
No início,
o helicóptero seguiu para o noroeste, passou a pequena distância ao
norte da máquina de Mullon e Chellich, descreveu uma curva fechada e
voltou. Pousou junto à máquina.

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