sexta-feira, 5 de abril de 2013

P-066 - Os Escravos Cósmicos - Kurt Mahr [parte 2]

O'Bannon não concordou com a sugestão. Queria manter a fortaleza. Mas Mullon apoiou a proposta de Chellich.
Esperaremos até que cheguem à casa de Wolley — decidiu. — Depois daremos o fora.
Mrs. Wolley foi mandada imediatamente para fora, pois era duvidoso que, no momento adequado, conseguisse desenvolver a pressa que se faria necessária.
Mais adiante, os seres estranhos passaram a arrombar as portas e esvaziar as casas. Mas, quem olhasse pelas janelas das casas que rodeavam a de O’Bannon chegaria à conclusão de que seus moradores já haviam fugido. Assim, os desconhecidos não fizeram nenhum prisioneiro.
Mullon recuperou as esperanças. Teriam de revistar mais seis casas, antes de atingirem a de O’Bannon. Se todas estivessem vazias, talvez desistissem de prosseguir nas buscas.
Mas essa esperança não se cumpriu.
No momento em que os desconhecidos arrombaram a porta da casa de Wolley, Fraudy saiu por uma janela dos fundos. Os outros seguiram-na o mais depressa que puderam. No momento em que a primeira pancada foi desferida contra a porta da casa de O’Bannon, já não havia mais ninguém no interior da mesma.
Mullon e seus homens postaram-se na passagem estreita que separava as duas casas. A escuridão voltara a ser completa. Se os desconhecidos não tivessem a idéia de iluminar essa passagem, nunca poderiam encontrá-los.
Chellich estava na parte dos fundos da passagem. Subitamente virou-se e cochichou:
Ali estão vindo dois. Parece que estão sós. Acho que devemos tomar conta deles, não é?
Levantou-se sem aguardar as ordens de Mullon. Ouviram-se passos na areia que O’Bannon havia espalhado pela área dos fundos. Vozes agudas e chiantes mantinham uma estranha palestra.
Mullon viu uma sombra. Logo depois ouviu duas pancadas secas e violentas.
Foi quando Chellich começou a falar:
Acho que consegui. Não se mexem mais.
Lá na rua o barulho foi cessando aos poucos. Os estranhos pareciam estar cansados das buscas e afastaram-se pela rua. Ao que tudo indicava, não notavam a falta dos dois indivíduos abatidos por Chellich.
Acho que podemos entrar de novo — disse O’Bannon. — Não encontraram nada; logo, não voltarão tão depressa.
Não houve nenhuma objeção.
Empurraram os dois indivíduos inconscientes pela janela. Chellich examinou a rua.
Não vejo mais ninguém — disse. — Acho que podemos acender a luz por um instante, para dar uma olhada nestas estranhas aves.
O’Bannon procurou acender a luz, mas ao que parecia as bombas haviam destruído a usina energética. A lâmpada continuou apagada. Mas O’Bannon conseguiu encontrar uma lanterninha de bolso. Ligou-a e dirigiu o feixe de luz sobre os dois vultos imóveis que jaziam no solo.
Tinham pelo menos dois metros de comprimento e eram tão magros que não se compreendia como não quebravam ao meio quando andavam eretos. Não tinham cabelos na cabeça e a caixa craniana brilhava como se tivesse sido coberta de açúcar de confeiteiro. Os olhos pareciam muito grandes; no momento estavam fechados. O nariz era ossudo e abria-se de forma grotesca na metade inferior. Embaixo deste, via-se a boca larga, de lábios estreitos. Os braços magros tinham pelo menos um metro e meio de comprimento. Tal qual o braço humano, possuíam duas juntas. Cada mão era formada por seis dedos compridos, em forma de garras, e uma palma de mão circular, que não media mais de quatro centímetros de diâmetro.
As estranhas criaturas envergavam um uniforme que parecia ser de couro.
Na altura da cintura havia faixas parecidas com cintos, nas quais estavam presos instrumentos que evidentemente eram armas.
Chellich pegou uma delas e examinou-a. Dirigiu o cano para baixo e moveu todas as peças móveis, mas não conseguiu qualquer resultado.
Receio que eu seja tolo demais — disse depois de algum tempo. — Ou então isto não funciona.
Examinou outra arma, mas o resultado foi idêntico. Ao que parecia, possuía um excelente dispositivo de segurança, que ainda não conseguira descobrir.
O que acha que é? — perguntou Mullon. — Refiro-me às armas. Qual será o princípio de seu funcionamento?
Chellich estendeu-lhe a arma.
Está vendo a abertura em forma de funil que existe na ponta do cano? Conclui-se que não se trata de uma arma que expele projéteis. Na minha opinião é uma arma de ultra-som.
Hum! — fez Mullon. — Nunca vi uma coisa destas. Isto é muito perigoso?
Chellich sacudiu a cabeça.
Não — respondeu em tom tranqüilizador. — Se o senhor receber a carga total, na melhor das hipóteses sua caixa craniana sofrerá uma rachadura provocada pela ressonância.
Não apreciamos esse tipo de humor, meu caro — disse Mrs. Wolley em tom de recriminação.
A senhora apreciará muito menos se alguém atirar contra a senhora com uma arma destas — respondeu Chellich em tom indiferente. — Acho que devemos apagar a lanterna, senão ainda nos descobrirão.

* * *

Não era fácil chegar a uma conclusão sobre o que deveriam fazer dali em diante. Ao que parecia, não havia mais ninguém na cidade.
Nesse meio tempo, Chellich voltara a entrar em contato com o Capitão Blailey e descobrira o seguinte: Blailey recebera instruções exatas sobre a maneira pela qual deveria proceder em determinados casos. Umas dez hipóteses diversas foram especificadas. Blailey só poderia tomar alguma providência quando tivesse certeza sobre qual dessas hipóteses ocorria no caso.
Face a isso, Chellich se empenhara junto a Mullon e aos outros membros do grupo para que uma patrulha saísse a fim de verificar a situação. Mas Mullon só deu sua concordância depois das quatro horas, e fez questão de realizar pessoalmente a expedição.
Em vez do fuzil, que representaria um estorvo, levou apenas a pistola de Fraudy. Saiu pela janela dos fundos e passou sorrateiramente entre a casa de Wolley e a de O’Bannon, atingindo a rua.
Avançando grudado às casas, chegou aproximadamente ao centro da cidade.
Passou à frente de sua casa e viu que a porta havia sido demolida, tal qual nas outras casas. Sentiu-se tentado a atravessar a rua e verificar o prejuízo, mas resistiu à tentação.
Ao aproximar-se do edifício da prefeitura, que era a única construção de maior porte existente na cidade, teve a impressão de ouvir um gemido abafado. Parou e procurou verificar de onde vinha. Revistou duas das estreitas passagens que separavam as casas. Na terceira, descobriu um vulto estendido no chão.
À primeira vista percebeu que não se tratava de nenhuma das criaturas desconhecidas. Era um homem baixo e corpulento. Mullon abaixou-se e enfiou o braço embaixo da cabeça daquela pessoa quase inconsciente.
Era Ferris, um homem que já havia pertencido ao grupo de Hollander, mas que por ocasião da revolta defendera a legalidade. Parecia reconhecer Mullon.
Água...! — exclamou num gemido. — Estou com sede.
Antes de mais nada, Mullon examinou seus ferimentos. Alguma coisa rasgara o lado esquerdo de seu rosto. O homem perdera muito sangue.
Espere! — cochichou Mullon ao ouvido de Ferris. — Se possível, pare de gemer, pois do contrário os desconhecidos acabarão por encontrá-lo.
Afastou-se sorrateiramente. Ferris parou de gemer. No edifício da prefeitura, Mullon encontrou alguns canecos usados na última sessão de uma das comissões, e que ainda estavam sobre a mesa sem que tivessem sido lavados. Encheu três deles com água. E voltou.
Ferris esvaziou dois canecos e guardou o terceiro.
Isto é para qualquer eventualidade — disse: — Já me sinto muito melhor.
Mullon ajudou-o a endireitar o corpo e encostá-lo à parede.
O que houve? — perguntou. — Conte tudo.
O que sei não é muita coisa — respondeu Ferris. — Acordei de repente no meio da noite e ouvi alguém mexer na porta. Levantei-me e olhei pela janela. Vi alguns vultos cujo aspecto era tão apavorante que um calafrio me subiu pela espinha. Saí pela janela dos fundos, mas fui um idiota. Deveria ter pegado um fuzil e matado aquelas criaturas. Pretendia correr à sua casa, pois pensei que o senhor seria o primeiro a saber o que estava havendo. Assim que cheguei à rua, vi que estava cheia dessas criaturas horríveis. Uma delas descobriu-me e, ao que parece, atirou contra mim. O que sei é que levei uma pancada na cabeça que até parecia um coice de cavalo.
Por muito tempo fiquei sem saber de nada. Quando recuperei os sentidos, estava deitado à frente da casa de Shelly. Na cidade, tudo estava em silêncio, mas na periferia ouvi alguns chiados e assobios. Não sei o que era. Arrastei-me até aqui para não ser visto pelos desconhecidos quando voltassem. E aqui fiquei até que o senhor me encontrou.”
Chegou a ver o que fizeram com nossa gente? — perguntou Mullon.
Vi. Foram tangidos para fora da cidade aos bandos.
Viu algum morto?
Não.
Está em condições de andar? Ferris sacudiu a cabeça.
Tenho certeza absoluta de que não estou. Deixe-me aqui mesmo. Vou descansar um pouco; é possível que depois disso consiga. Onde estava o senhor? Em sua casa?
Não; achava-me na casa de O'Bannon. Procure ir até lá logo que seja possível.
Ferris fez um gesto afirmativo.
Muito obrigado pela água — disse.
Mullon pôs-se a caminho de novo. Atravessou toda a cidade, mas a única coisa que viu foram vidraças quebradas, portas arrombadas e móveis derrubados.
Os desconhecidos haviam feito uma limpeza total na cidade.
Mullon perguntou a si mesmo se teriam a intenção de raptar os habitantes de Greenwich. O que poderiam ganhar com isso? Será que pretendiam mantê-los como escravos ou vendê-los?
Viu que a pequena luz vermelha continuava a brilhar sob as nuvens. A nave espacial encontrava-se no mesmo lugar.
Não adianta tentar qualquer coisa antes das dez horas”, pensou. “Precisamos de luz para enxergar alguma coisa.
Voltou. Ao passar pelo edifício da prefeitura, deu mais uma olhada em Ferris, que estava dormindo. Mullon não o perturbou. Se conseguisse dormir bem e por bastante tempo, no dia seguinte estaria em condições de agüentar-se sobre as pernas. Naquele clima seco, dificilmente ocorreria uma febre traumática.
Da janela da casa de O’Bannon continuava a sair o cano de uma arma. Mullon identificou-se e entrou pela porta despedaçada.
Encontrei Ferris, que viu muita coisa — disse.
Mais tarde se arrependeria de ter dito isso. As observações feitas por Ferris não eram tão importantes para que todos tivessem de abandonar seus postos a fim de ouvir o relato de Mullon bem de perto.
Quer dizer que são mercadores de escravos galácticos — disse Chellich em tom ligeiramente irônico. — Querem vender-nos à raça inteligente, mas cruel, das medusas de Icebine.
Será? — perguntou Mrs. Wolley em tom curioso. — Onde fica Icebine?
Pare com estas tolices, Hannah! — exclamou O’Bannon. — Não deixe que este jovem a...
Não conseguiu prosseguir. Subitamente ouviram-se ruídos junto à porta e às janelas. Mullon virou-se abruptamente e viu cabeças estreitas e pontudas que se erguiam por cima dos peitoris das janelas, além de um vulto magro e alto parado na porta.
Uma voz mecânica disse num inglês matraqueante:
Não façam qualquer movimento e larguem as armas.
Um fuzil caiu ruidosamente ao chão. Mas, no mesmo instante, a voz aguda de Mrs. Wolley disse:
Vocês não podem fazer uma coisa dessas comigo. Eu lhes mostrarei como...
Largue a arma! — gritou Chellich. — Vamos logo, senão a senhora ainda causará uma desgraça.
Mullon espantou-se. Por várias vezes Chellich se adiantara a ele. Até parecia que estava ocultando suas qualidades reais. Sabia comandar, por exemplo, como um oficial da frota que tivesse uma longa folha de serviços.
Mrs. Wolley deixou cair a arma. Os outros fizeram a mesma coisa. Mullon constatou que Chellich fora o primeiro a largar a arma.
Isso foi uma atitude inteligente — matraqueou a voz mecânica. — Saiam um por um.
Mrs. Wolley foi a primeira a sair. Assim que chegou à rua e encarou um grupo daqueles seres estranhos, soltou um grito de pavor.
Mullon foi o último. Uma vez do lado de fora, viu que os desconhecidos mantinham as armas de ultra-som prontas para disparar. _
Fizeram prisioneiros? — perguntou a voz.
Fizemos — respondeu Mullon. — Estão lá dentro.
Dois dos magricelas foram buscar os colegas, que continuavam inconscientes. Os seis restantes conversavam aos assobios e chiados.
Caminhem à nossa frente! — ordenou a voz depois de algum tempo. — Sigam pela rua que leva para fora da cidade.
Obedeceram. Nem tiveram outra alternativa.
Este episódio representou o fim temporário da cidade de Greenwich, situada no planeta Fera Cinzenta.
3



As duas casas da área periférica sul da cidade atingidas pelas explosões, estavam reduzidas a um montão de cinzas fumegantes. Numa dessas estivera instalada a usina energética.
Teremos de construir outra casa e instalar um gerador novo”, pensou Mullon enquanto saíam da cidade. Mas logo chegou à conclusão de que essa idéia era ridícula. Ao que parecia, nunca mais precisariam de outro gerador.
Depois de terem passado pelos destroços da Adventurous, viram que havia luzes acesas nas proximidades da nave desconhecida. Os magricelas haviam instalado uma porção de lâmpadas, que cercavam uma área quadrada de dimensões consideráveis.
Os habitantes de Greenwich estavam sentados no interior dessa área.
Sob a luz das lâmpadas, os desconhecidos patrulharam a área, com as armas apontadas. Eram ao menos duzentos.
A visão foi tão surpreendente que Mullon parou. Mas logo levou uma forte pancada nas costas. Um dos desconhecidos emitiu um chiado, e a voz mecânica disse:
Prossiga imediatamente.
Mullon obedeceu.
Os desconhecidos tangeram-nos por entre as fileiras de guardas, obrigando-os a ficarem na área em que se encontravam os habitantes de Greenwich. Depois afastaram-se.
Mullon foi cumprimentado com muito nervosismo.
Pediu que contassem o que acontecera. Na verdade, com todos havia acontecido a mesma coisa: o estrondo de duas explosões, as pancadas na porta, cinco ou seis vultos muito magros que portavam armas estranhas e a retirada da cidade.
Deram pela falta de Philip Loft, sua esposa Mari e seu irmão Oale. Estes moravam na casa vizinha à usina de energia. Provavelmente estavam mortos. Ainda notaram a falta de Ferris, mas quanto a este, Mullon sabia informar o que acontecera.
Ninguém sabia de onde vinham os desconhecidos e ninguém tinha a menor idéia de quais eram suas intenções. Mullon já não acreditava que seriam raptados, pois nesse caso os prisioneiros por certo teriam sido colocados imediatamente na espaçonave.
Chegou à conclusão de que não adiantaria quebrar a cabeça. Seria preferível recuperar um pouco do sono perdido. Procurou um lugar em que ele e Fraudy pudessem dormir.
Mal fechara os olhos, alguém lhe bateu no ombro. Era Chellich.
Deixe-me em paz! — exclamou Mullon. — Não tenho a mesma resistência que você.
Acho que está fazendo muito frio para que a gente possa dormir — respondeu Chellich. — E tenho uma idéia brilhante.
Mullon lançou-lhe um olhar desconfiado.
Diga logo!
O senhor tem um representante?
É claro que tenho. É O’Bannon. O senhor não sabia?
Chellich fez como se não tivesse ouvido a pergunta.
Que tal fazer de mim seu representante?
Mullon ergueu o corpo.
É esta a idéia brilhante que acaba de ter?
Chellich fez um gesto afirmativo.
Acho que é uma idéia genial.
Sem o consentimento da Assembléia Popular... — principiou Mullon.
Chellich interrompeu-o num tom que quase chegou a ser áspero.
Pare com essas tolices. Gostaria de estar presente no momento em que os desconhecidos lhe explicarem o que deverá acontecer conosco. É só isso.
Mullon lançou-lhe um olhar pensativo.
Por quê? — perguntou.
Chellich deu de ombros.
Acho que quatro orelhas escutam mais que duas.
Mullon lembrou-se de que por várias vezes tivera a impressão de que Chellich era muito mais do que procurava aparentar.
Está bem — disse. — Mas agora deixe-me dormir.
Durma bem, chefe! — disse Chellich. Poderia dormir, mas nunca seria bem!

* * *

Às nove e meia, quando começava a clarear e os resmungos, por causa da fome que sentiam as pessoas acampadas ali, tornavam-se cada vez mais fortes, dois magricelas fortemente armados abriram caminho entre os prisioneiros sentados juntos uns aos outros e aproximaram-se de Mullon. Um deles segurou Mullon com os dedos em garra, virou-se e arrastou-o consigo. Os desconhecidos andavam tão depressa sobre suas pernas compridas que Mullon teve dificuldade em acompanhá-los.
Mullon viu de relance que Chellich também se levantara e vinha atrás dele. Quando chegaram ao fim do acampamento, os dois magricelas fizeram menção de mandar que Chellich ficasse para trás. Mas este falou, evidentemente sem ser entendido, tão rápido e enfático que os dois se “convenceram” e também o levaram.
Nesse meio tempo, um passadiço fora colocado junto à espaçonave, que tinha o formato de um torpedo tosco. Não era tão confortável como os passadiços das naves terranas. O piso era rígido.
Chellich calculou que devia ter uns noventa metros de altura. Viu quatro gigantescos bocais presos ao corpo da nave, bem longe das aletas de direção. Notou que estavam enegrecidos. Essa observação, conjugada com outra, bastou para que tivesse certeza quase absoluta de que não se tratava de um veículo interestelar, mas de uma nave interplanetária. Os estranhos magricelas pertenciam ao mesmo sistema do planeta Fera Cinzenta. Provavelmente ainda não conheciam a navegação espacial interestelar, ou seja, a navegação de um sistema para outro.
Mullon não fez nenhuma observação desse tipo. Apenas quebrou a cabeça sobre o que pretenderiam dele. Achou estranho que já durante a noite Chellich soubesse que mandariam buscá-los.
Quanto a Chellich, este não se interessou por outra coisa senão a espaçonave. Observou seu formato exterior e, assim que haviam atravessado o passadiço, e penetrado no interior do veículo espacial, dedicou sua atenção às instalações internas. Como perito que era, percebeu imediatamente que aquela ficava muito a dever às naves terranas.
Em sua opinião, o nível tecnológico alcançado pelos magricelas era aproximadamente idêntico ao que os terranos teriam alcançado na mesma época, se há setenta anos Perry Rhodan não tivesse realizado sua viagem à Lua, e se a civilização terrana não tivesse experimentado um avanço de alguns milênios, graças ao auxílio de dois arcônidas.
O passadiço terminava num corredor circular, que avançava junto à parede interna da nave. Os dois desconhecidos empurraram seus prisioneiros para a direita.
Chellich notou que na parede do lado esquerdo havia escotilhas a espaços regulares, mas todas estavam fechadas, motivo por que não pôde ver o que havia atrás delas.
Pelo elevador, subiram seis andares, que se seguiam a intervalos de cinco metros. Finalmente foram parar no sétimo andar, onde havia um corredor circular igual ao situado no alto do passadiço. Desta vez, caminharam para a esquerda, até chegarem a uma escotilha aberta. Mullon e Chellich foram empurrados para ela.
Entraram numa ampla sala quadrangular, cuja simetria era perturbada apenas pela parede arredondada que a fechava para o lado do corredor. O piso era liso e cinzento. O mobiliário consistia exclusivamente numa peça semelhante a uma escrivaninha, sobre a qual se erguia uma série de alavancas finas, e uma espécie de cadeira.
Atrás da escrivaninha estava sentado um dos desconhecidos magricelas, que fitou curiosamente os prisioneiros com os olhos salientes e arregalados.
No recinto encontrava-se Pashen, que cumprimentou Mullon e Chellich com um sorriso insolente.
Ora veja! — disse Chellich em tom zangado. — Até nos tínhamos esquecido do senhor. É claro que logo se agarrou ao pescoço dos magricelas.
Imediatamente — confirmou Pashen. — Acreditava que pudesse ser diferente?
O magricela que se encontrava atrás da escrivaninha soltou assobios exaltados. Mal Pashen havia pronunciado a resposta, Chellich recebeu uma tremenda pancada na nuca. Caiu ao chão, mas conseguiu levantar-se de novo.
Uma voz metálica disse em inglês:
O senhor só poderá falar quando lhe perguntarem alguma coisa.
Mullon lançou um olhar intrigado para a escrivaninha. Tinha certeza de que não fora o magricela quem pronunciara essas palavras.
Quem poderá ter sido?”, indagou-se mentalmente.
Por fim descobriu uma caixinha que ficava sobre a escrivaninha e tinha o aspecto de um alto-falante. A voz viera dali. Quer dizer que o desconhecido usava uma tradutora positrônica. Mullon já ouvira falar nesse tipo de aparelho quando ainda se encontrava na Terra.
Pashen, o traidor, havia fornecido ao aparelho o vocabulário de que precisava para reconstituir a língua inglesa. Agora a máquina estava em condições de converter os assobios e chiados dos desconhecidos em palavras inglesas, e vice-versa. Provavelmente o núcleo do aparelho estava embutido no interior da escrivaninha. O alto-falante era apenas a saída.
O senhor é o presidente do bando de intrusos que se instalou neste mundo — disse a máquina, depois que o magricela tinha dado alguns pios.
Mullon não sabia se aquilo era uma constatação ou uma pergunta, motivo por que se limitou a dizer sim.
Os senhores trabalharão para nós — constatou a máquina.
Mullon manteve-se em silêncio. Mas os magricelas eram coerentes. Não deveria falar quando não lhe perguntassem nada. Mas teria de dizer alguma coisa sempre que lhe dirigiam a palavra.
Mullon não estava preparado para receber a pancada que o atingiu entre as omoplatas. Viu nuvens escuras dançarem diante de seus olhos. Quando recuperou os sentidos, notou que estava estendido no chão. Nem sentira a queda. Procurou levantar-se, mas as pernas não queriam obedecer.
Os senhores trabalharão para nós — repetiu a máquina.
Está certo — respondeu Mullon em tom zangado.
Censurou-se, dizendo a si mesmo que era um covarde, mas não estava disposto a receber outra pancada.
Atrás dele, Pashen soltou uma risadinha sarcástica.
Cultivarão um tipo de cereal de que precisamos. Colocaremos máquinas à sua disposição, e vocês nos fornecerão periodicamente determinada quantidade de cereal. Se não cumprirem a obrigação, serão punidos. A colônia permanecerá sob vigilância. Não toleraremos qualquer desobediência.
Sim — disse Mullon.
Alguém o agarrou fortemente pelo ombro e o puxou para cima. Experimentou as pernas e constatou que voltaram a obedecer, embora continuassem um tanto preguiçosas.
Ao que tudo indicava, a palestra havia chegado ao fim. Os dois magricelas que o haviam trazido, juntamente com Chellich, levaram-nos de volta ao acampamento.
No momento em que Mullon e Chellich foram empurrados por entre as sentinelas postadas em torno do acampamento, o sol estava nascendo.

* * *

Mullon concordou plenamente quando Chellich se prontificou a explicar aos habitantes de Greenwich o que havia acontecido.
Sou um covarde e um idiota — disse em tom desanimado a Fraudy. — Acho que Chellich lhes teria dito algumas verdades.
Ele também só poderia ter falado enquanto continuasse vivo — disse Fraudy para consolá-lo. — E, pelo que notei, não seria por muito tempo. Deixe para lá. Ninguém poderá recriminá-lo. Se você pudesse preparar-se para a palestra, sem dúvida o curso desta teria sido diferente.
Dentro de pouco tempo, a maneira tranqüila e objetiva pela qual Fraudy encarava as coisas fortaleceu a autoconfiança de Mullon a ponto de permitir-lhe que se levantasse e interviesse nos debates que se travavam em torno de Chellich.
Somos terranos livres! — gritou alguém com a voz zangada. — Se quiserem transformar-nos em escravos, verão uma coisa.
Outro berrou:
Somos oito mil pessoas. Podemos tomar a nave. Ei, Mullon, diga uma coisa! Este idiota está dizendo que devemos concordar com tudo.
Mullon acenou com a cabeça e avançou até o lugar em que estava Chellich.
Este idiota tem toda razão — respondeu, colocando a mão sobre o ombro de Chellich. — No momento não devemos fazer nada. Será que vocês acham que podemos atacar apenas com as mãos uma nave espacial fortemente armada? Vocês nem conseguiriam atravessar a linha de sentinelas. Esses magricelas não têm o menor escrúpulo quando sua segurança está em jogo. Eles nos entregarão máquinas com as quais trabalharemos a terra para eles. Teremos tempo para pensar sobre as medidas de contra-ataque a serem adotadas.
Os circunstantes não concordaram com estas palavras. Mas depois que Mullon e Chellich falaram durante uma hora, ficaram conformados com o fato de que nem todo dia era o dia do juízo final, e que não havia por que desesperar enquanto os chefes ainda viam alguma esperança para o futuro.
O grupo espalhou-se. Mullon e Chellich ficaram sós. Mullon lançou um olhar de relance sobre Chellich.
Você é um ótimo orador — disse depois de algum tempo. — O que foi mesmo que disse que era na Terra?
Eu não disse coisa alguma — respondeu Chellich. — Apenas o informei de que estava ligado a Hollander. Na Terra, costumava trabalhar como mecânico.
Tem certeza? — perguntou Mullon. — Tenho a impressão de que “atrás” de você há muito mais que isso.
Chellich deu uma risada.
Já percebeu isso? O senhor tem toda razão. Na verdade fui o Imperador da China.
Na verdade, você é esquisitão — disse Mullon em tom zangado. — O que acha dessa história de nos dedicarmos à agricultura.
Não acho muita coisa. Gostaria de saber por que os peepsies resolveram cultivar seu cereal justamente aqui, e não no planeta deles.
Quem?
Os peepsies. Não acha que é um nome bonito?
Acho. Foi invenção sua, não foi? É possível que esse cereal só cresça neste planeta.
Chellich sacudiu a cabeça.
Tenho a impressão de que têm muita necessidade dele. Talvez já não disponham de terras cultiváveis em seu planeta. Será um caso de superpovoação.
Se fossem tantos, eles mesmos poderiam plantar o cereal — ponderou Mullon.
É verdade. Já andei quebrando a cabeça sobre isso. Acho que há alguma coisa que lhes torna desagradável, ou mesmo insuportável a permanência no planeta Fera Cinzenta. Talvez seja a temperatura, a composição do ar, a gravitação, ou seja lá o que for. Bem que gostaria de descobrir. Isso já representaria um bom progresso.
Seria bom — concordou Mullon.

* * *

Dali a pouco, uma das pequenas naves auxiliares, que haviam provocado o chiado, ouvido por Mullon durante a noite, saiu da escotilha da espaçonave, em direção a Greenwich. Logo foi seguida por mais duas.
Foram buscar nossas armas — disse Chellich. — Daqui a pouco, poderemos voltar à cidade.
Quem dera que o senhor tivesse razão — disse Mullon com um suspiro.
As três pequenas naves voltaram dali a uma hora e desapareceram escotilha a dentro.
Alguns peepsies surgiram na parte superior do passadiço e assobiaram ordens aos guardas postados junto aos habitantes de Greenwich. Estes se formaram em cunha, cuja ponta se dirigia para a nave. Fizeram os habitantes de Greenwich abandonarem os lugares em que se encontravam e os tangeram de volta à cidade.
O senhor deveria ter abraçado a profissão de profeta, Chellich — disse Mullon.
Enquanto passavam pelos destroços da Adventurous, o “profeta” os examinou.
Será que já encontraram a nave auxiliar? — perguntou a meia voz. — Provavelmente eles a demolirão, para que não façamos tolices.
A nave auxiliar, que a Adventurous trazia a bordo, permanecera intata por ocasião do pouso forçado. Até então, os habitantes de Greenwich não se haviam interessado por ela, pois tinham preocupações mais importantes, que não lhes permitiam se ocuparem com a navegação espacial.
A fileira de guardas tangeu os homens para a cidade e bloqueou-a.
Mullon e Chellich foram ver Ferris, ferido na noite anterior. Estava estendido no chão, e o caneco de água que Mullon havia colocado a seu lado fora entornado. Ferris trazia uma ferida no peito, que antes não existia.
Chellich apalpou sua mão.
Está morto — disse em voz baixa. — Eles o mataram quando estiveram aqui para recolher os homens. Atacaram um homem indefeso!
Mullon estava trêmulo de raiva. Mas Chellich conservou a calma.
Ele tinha esposa? — perguntou.
Não — disse Mullon. — Ainda não. Pretendia casar com Eileen Sunderson. A permissão de casamento já foi solicitada à Assembléia Popular.
Chellich acenou com a cabeça.
Devemos informá-la com toda cautela.
Deixaram Ferris no lugar em que se encontrava. A passagem estreita entre os prédios não era atingida pelo sol, e por isso não havia necessidade de apressar-se com o enterro.
Quando se encontrava na rua, Mullon olhou para trás.
Eles pagarão por isso — disse.

* * *

Pouco antes das doze horas, o ruído de motores e de correntes aproximou-se da cidade, vindo do sul. Mullon correu para fora e viu uma fileira de estranhas máquinas pesadas passarem pela rua.
Pouco depois apareceu Chellich.
...dez ...doze ...quinze — contou a meia voz. — São máquinas enormes. Ao que parece, trata-se de instrumentos de múltipla finalidade, que semeiam, colhem e aram.
Mullon ia perguntar como sabia disso, mas naquele instante um dos peepsies que se encontravam na primeira máquina saltou para o chão e aproximou-se dele. Segurou-o pelo braço e arrastou-o até a segunda máquina, na qual estava sentado Pashen.
Este descansara o pé na parede da cabina do operador e fumava tranqüilamente.
Pediram-me que lhes dissesse — começou entre duas baforadas — que estas são as máquinas que lhes foram prometidas. Nelas há sementes; são cerca de cento e cinqüenta toneladas. Isso basta para uma área de cerca de duzentos quilômetros quadrados. Pelo que dizem nossos amigos, o solo nesta região é muito fértil. Esperam uma colheita de trezentas mil toneladas dentro de quatro meses. Quer dizer que os senhores terão de andar depressa.
Mullon tinha uma porção de palavras ásperas na ponta da língua. Chellich, que parecia desconfiar disso, adiantou-se e perguntou:
Quem nos ensinará a operar estas, máquinas?
Eu — respondeu Pashen, todo empertigado.
Chellich estreitou os olhos.
Tem certeza de que nós não lhe quebraremos a cabeça?
Tenho certeza absoluta — disse Pashen com um sorriso. — Se alguma coisa me acontecer, a cidade de Greenwich irá pelos ares. Já expliquei aos nossos amigos qual é a situação especial em que me encontro.
Fez bem — disse Chellich em tom irônico. — Mas um dia ainda poremos as mãos em você.

* * *

A espaçonave decolou na manhã do mesmo dia.
Os peepsies que permaneceram no planeta — uns duzentos, segundo os cálculos de Chellich — instalaram um tipo de acampamento ao sul da cidade. Chellich percebeu que lhes haviam deixado duas naves auxiliares e um verdadeiro arsenal de armas, entre elas alguns aparelhos semelhantes a morteiros pesados, cujos canos estavam ameaçadoramente dirigidos para a cidade.
Pashen saiu da cidade quando Mullon lhe explicou que tinha coisa mais importante a fazer do que familiarizar-se com aquelas máquinas.
Caso precise de seu auxílio, mandarei chamá-lo — disse Mullon.
Eu só virei quando me der na telha — desdenhou Pashen.

* * *

Mullon convocou a Assembléia Popular e explicou que, por enquanto, a calma e a reflexão seriam as qualidades mais preciosas. Não devia haver qualquer ação precipitada. Se um dia conseguissem livrar-se do jugo dos peepsies, isso só poderia acontecer depois de um longo e minucioso planejamento.
Fizeram o inventário dos acontecimentos. Ao todo havia quatro mortos, inclusive Ferris, e cento e setenta e oito feridos.
Todas as armas haviam sido levadas, inclusive os poucos desintegradores e radiadores térmicos guardados no arsenal. A maior parte do mobiliário fora destruída, todas as portas estavam fora dos gonzos, e havia pelo menos quinhentas vidraças pelas quais, a partir das cinco e meia da manhã, o frio matutino penetraria nas casas.
Chellich refletira sobre algumas coisas e procurou tirar certas conclusões. Em sua opinião era impossível cultivar duzentos quilômetros quadrados de terra, fazer a colheita e conseguir o produto dentro de quatro meses, conforme exigiam os peepsies. Mas não acreditava que, depois de sua volta, dali a quatro meses, os peepsies adotariam medidas ainda mais rigorosas, pois com isso apenas retardariam a produção de cereais.
Os adeptos de Hollander, que há pouco tempo haviam sido condenados a dois anos de trabalhos forçados, representavam outro problema. A execução da pena teve de ser suspensa, e receava-se que os condenados aproveitassem a oportunidade para extorquir certas vantagens. A Assembléia Popular constituiu uma comissão especial que cuidaria do problema. Era a única coisa que podia ser feita no momento.

* * *

Na noite daquele dia, Chellich manteve uma palestra prolongada com o Capitão Blailey. Ofereceu um relato da situação e perguntou o que Blailey pretendia fazer.
Nada — respondeu Blailey. — O caso que o senhor acaba de relatar corresponde exatamente a uma das hipóteses em que não posso intervir.
Como? — perguntou Chellich em tom de espanto.
Não existe qualquer perigo para a vida de quem quer que seja. Além disso, ao que tudo indica, esses seres aos quais o senhor deu o nome de peepsies não se interessam pela procedência dos colonos. Portanto, não há o menor perigo de que descubram onde fica a Terra.
Acontece que quatro pessoas foram mortas! — protestou Chellich. — E é possível que outros morram se, dentro de quatro meses, não for cumprida a obrigação que nos foi imposta.
Daqui a quatro meses, poderemos conversar de novo — disse Blailey. — Por enquanto não há perigo; portanto, ficarei bem quieto no meu esconderijo.
Chellich era oficial e, por isso, sabia perfeitamente que devia abster-se de outras objeções.
Ao menos o senhor poderia procurar descobrir de onde vieram os peepsies — sugeriu. — Sua nave é um veículo interplanetário. Portanto, devem residir neste sistema.
É um detalhe interessante — admitiu Blailey. — Tratarei disso. Conseguimos acompanhar a rota da nave por um bom trecho, e tudo que teremos de fazer é examinar nossa tabela, para verificarmos qual é o planeta que fica nessa rota. Eu o informarei sobre isso assim que volte a chamar.
Chellich voltou a endireitar o relógio e olhou pela janela. Já estava escuro, e era hora de dar um pequeno passeio.
O acampamento estava iluminado por uma porção de lâmpadas, instaladas nesse meio tempo. Mais ao sul, fora do acampamento, havia uma grande caixa, que era provida de rodas, conforme Chellich pôde constatar. Provavelmente continha o gerador que fornecia a energia para as lâmpadas e outros aparelhos.
Chellich aproximou-se sorrateiro, o mais que razoavelmente poderia arriscar. Deitou-se no capim, a fim de observar sem que ninguém o perturbasse. Ao que parecia, os peepsies já estavam dormindo. Junto ao grande morteiro Chellich viu um vulto imóvel sentado no chão. Não havia a menor dúvida de que dormia tão profundamente como os que se encontravam no interior das barracas.
Pareciam sentir-se muito seguros. Havia apenas aquela única sentinela postada junto ao morteiro, e esta não era um modelo de perfeição no cumprimento de sua tarefa.
Será que ali estava a chance que procuravam?
Chellich teve de confessar que sabia muito pouco sobre o que se passava no interior das barracas para dar uma resposta suficientemente segura a essa pergunta.
Refletiu sobre se deveria dar uma olhada na nave auxiliar da Adventurous, já que tudo estava tão quieto.
Resolveu não fazê-lo. Não era por recear não conseguir seu objetivo, mas antes porque Mullon poderia procurá-lo e tornar-se ainda mais desconfiado do que já era.
Quer dizer que esse espertalhão já desconfiou de alguma coisa”, pensou Chellich. “Não poderei ocultar-lhe por muito tempo quem sou na verdade.”
Voltou e, pouco depois, alcançou a cidade pelo mesmo caminho por onde viera.

* * *

No início da manhã do dia seguinte, Mullon chamou Pashen. Para isso aproximou-se a cinqüenta metros do acampamento dos peepsies, que não lhe criaram nenhuma dificuldade, e chamou o nome de Pashen.
Pashen gritou estar tomando café, e que oportunamente apareceria.
Veio dali a duas horas. Orgulhoso com seus conhecimentos e sem regatear observações mordazes, ensinou a Mullon e alguns outros homens, inclusive Chellich, como manejar as grandes máquinas. Todas eram do mesmo tipo. Portanto, bastou que apenas fizesse a demonstração com uma delas.
O ponto mais importante era o grande painel, no qual havia uma alavanca correspondente a cada função que a máquina podia executar. Esta podia arar, limpar, roçar e debulhar. Não precisava de qualquer tipo de manutenção, nem de combustível. Trazia consigo a semente a ser lançada à terra, e não havia outra coisa a fazer senão mover a alavanca certa no momento adequado.
Cada máquina tinha lugar para duas pessoas. Mullon perguntou se os homens na cidade também teriam de trabalhar para os peepsies, já que as máquinas só exigiriam o esforço de trinta pessoas.
A tarefa não será fácil de cumprir — respondeu Pashen em tom dramático. — Já estou vendo a hora em que todos terão de ir ao campo, para que a colheita possa ser feita em tempo. As máquinas não bastarão para isso. Duzentos quilômetros quadrados não são nenhuma brincadeira.
Se pudesse dar uma informação sobre o tipo de cereal de que se trata — disse Chellich — talvez poderíamos usar nossas máquinas e terminar mais cedo.
Pashen deu de ombros.
Não sei nada a este respeito — disse. — O problema é seu.
Retirou-se. Voltou ao acampamento dos peepsies.
Chellich subiu a uma das máquinas. Gritou:
Seremos fazendeiros, meus irmãos! Nosso futuro está no campo.
Ligou o motor. Ninguém notou que procurava ouvir atentamente os ruídos emitidos pelo mecanismo. Acionou a alavanca de movimento e deixou que a máquina percorresse alguns metros em ponto morto, ou seja, na posição em que nenhum dos aparelhos de lavoura estava ligado. Depois acionou o arado. O ruído do motor tornou-se menos intenso, a máquina andou mais devagar, e atrás das esteiras surgiu uma faixa de dois metros de rua arada.
Chellich quis descrever uma curva, mas para isso teve de fazer algumas manobras difíceis. Parou à frente de Mullon, desligou o motor e saltou da máquina.
O primeiro tratorista está pronto para entrar em ação — disse. — Podemos começar.
Mullon fez que sim.
As mulheres colocarão as provisões nas máquinas — disse um dos homens que se encontravam por perto. — Depois escolheremos um trecho de terra que seja mais fácil de trabalhar.
Ao amanhecer, as mulheres já haviam começado a preparar pacotes de conservas e alimentos concentrados, que os homens levariam ao campo. Mullon achou que não valeria a pena voltar à cidade para almoçar, e chegou mesmo a brincar com a idéia de passar a noite no campo, a fim de não perder tempo. A área correspondia a um quadrado de cerca de quatorze quilômetros de lado. Em ponto morto, as máquinas não percorriam mais de quinze quilômetros por hora...
Chellich subiu ao assento, ao lado de Mullon.
Não quero ser impertinente — disse. — Espero que não tenha nenhuma objeção se eu...
Não; não tenho nenhuma objeção — disse Mullon com um sorriso. — Quem sabe se durante o tempo que passarmos juntos o senhor me conta que tipo de vida leva o Imperador da China?
O quê? — perguntou Chellich em tom de espanto.
Mas logo se lembrou da piada que fizera no dia anterior e sorriu.
Ah, sim. Isso é muito interessante.
Deram partida à máquina. Mullon seguiu para o leste, pois lembrava-se de que por lá o chão era muito plano. Imaginava ser o solo mais fértil que nas outras regiões, já que, na margem oeste, o rio carregara a terra para depositá-la na margem leste.
A dois quilômetros da cidade, Mullon começou a arar a terra. As máquinas trabalharam em formação oblíqua. Cada uma arava uma faixa de dois metros.
Chellich fez seus cálculos.
Enquanto estivermos arando, percorreremos no máximo dez quilômetros por hora. Calculadas as pausas de descanso, levaremos uma hora e meia para percorrer quatorze quilômetros. Em cada percurso de quatorze quilômetros, aramos uma faixa de trinta metros. Logo, teremos de fazer quatrocentas e setenta viagens, que durarão... que durarão setecentas horas. Depois teremos de repetir o procedimento para o trabalho de aiveca e de semeadura. No total, serão duas mil e cem horas.
Onde pretende chegar? — perguntou Mullon em tom de espanto.
O que quero é explicar ao senhor que não conseguiremos, nem que queiramos. Duas mil e cem horas representam ao menos cinqüenta e três dias, isto é, mais de três meses. E daqui a quatro meses os peepsies estarão de volta para levar a colheita.
É verdade — respondeu Mullon. — Nem pensei nisso. O que devemos fazer?
Chellich deu de ombros.
Pare por um instante.
Por quê?
Depois explicarei. Faça sinal para que os outros continuem.
Mullon fez o que o companheiro estava pedindo.
As quatorze máquinas restantes prosseguiram em sua trajetória, e depois de algum tempo pararam ao sul, atrás de um véu de ar tremeluzente sob os raios do sol.
Mullon havia desligado o motor. Um silêncio apavorante cobria a terra. Parecia que não havia nenhuma vida, além do capim e dos dois seres humanos que se mantinham imóveis em cima da máquina.
4



Pode ligar — disse Chellich.
Mullon moveu uma alavanca.
Preste atenção ao ruído!
Mullon ouviu uma sucção, seguida por um leve rolar, como se no interior da máquina um carro pesado entrasse em movimento. Após isso, ouviu-se um zumbido surdo, e finalmente um ronco que se tornava cada vez mais forte, até transformar-se no ruído do motor a que já estavam acostumados.
Basta — disse Chellich e voltou a mover a alavanca.
Seguiu-se a mesma seqüência de ruídos, em ordem inversa.
O que é isso? — perguntou Chellich, fitando Mullon.
Este parecia contrariado.
Conheço helicópteros e automóveis, mas não sei nada a respeito das máquinas dos peepsies — respondeu.
Isso não tem nada a ver com a tecnologia dos peepsies — retrucou Chellich. — Lá embaixo existe um reator rápido de alta potência e uma simples turbina a vapor.
Mullon fitou-o com uma expressão de espanto.
O senhor consegue descobrir tudo isso com base nos ruídos?
Chellich fez um gesto afirmativo e disse:
E não acredito que esteja enganado.
Muito bem. O que poderemos fazer com isso?
Pense um pouco — pediu Chellich. — Um reator e uma turbina a vapor. Isso não retrata um quadro muito progressista. Os peepsies ainda não conhecem a conversão direta da energia nuclear em energia elétrica, pois do contrário esta máquina seria movida a eletricidade, o que lhe conferiria um desempenho muito mais elevado. De que tipo será o reator?
Faça o favor de dizer — pediu Mullon.
Trata-se de um reator de fissão — começou Chellich, — Um reator de fusão trabalha com plasma, e se alguém trabalha com plasma, o princípio da conversão direta magnetohidrodinâmica surge quase espontaneamente em seu espírito.
E daí?
Chellich entusiasmara-se com suas próprias palavras.
Um reator de fissão trabalha com urânio enriquecido de plutônio ou com tório. O reator desta máquina parece ser muito pequeno; logo, deve trabalhar com matéria físsil enriquecida. Admitamos que nesta máquina exista uma boa quantidade de U 235. Neste caso, poderíamos usar o material para construir uma bomba, não é?
Mullon arregalou os olhos e deixou cair o queixo.
É claro que isso nos daria muito trabalho — prosseguiu Chellich em tom exaltado. — Teríamos de retirar um pouco de matéria físsil das outras máquinas e construir um mecanismo que nos permitisse reunir, no momento adequado, duas porções separadas de urânio, se é de urânio que se trata, para transformá-la numa massa que ultrapasse o ponto crítico.
Deu uma forte pancada no ombro de Mullon. Parecia dominado pelo entusiasmo provocado por sua idéia, muito embora esta lhe devesse ter ocorrido muito antes.
O senhor entende disso? — perguntou Mullon em tom desconfiado. — Quando o senhor fizer suas construções, não quero que todo mundo vá pelos ares.
Chellich sacudiu a cabeça e deu uma risada.
Não; não há o menor perigo. Acho que aprendi bastante para isso. A única coisa que devemos fazer é tomar cuidado com os peepsies. A maior dificuldade consistirá em encontrar uma maneira de trabalhar sem que ninguém nos perturbe. Não há nenhum físico entre os colonos?
Mullon cocou a cabeça.
Bem, Fisher e Stokes entendem um pouco do assunto, e talvez alguns dos tripulantes da Adventurous. O pior é que ainda não tivemos tempo de fazer uma lista das profissões que os habitantes da colônia exerciam na Terra. É possível que consigamos encontrar alguns físicos. Talvez entre os homens de Hollander, o antigo filósofo da natureza.
Acho que conseguiremos — disse Chellich. — Devemos começar quanto antes, para que... escute. O que é isso?
Mullon aguçou o ouvido. Algumas batidas surdas vieram de certo lugar. Mullon não conseguiu determinar a direção. Subitamente viu um pontinho brilhante que disparou para o céu.
O helicóptero! — disse em tom de espanto. — Quem será?
O senhor tem alguma dúvida? — perguntou Chellich. — Os peepsies confiscaram o helicóptero, para impedir que façamos alguma tolice. Eles não sabem pilotar o aparelho. Quem é que resta?
Acha que é Pashen?
Naturalmente. Aguarde um momento; logo demonstrará seu interesse por nós.
No início, o helicóptero seguiu para o noroeste, passou a pequena distância ao norte da máquina de Mullon e Chellich, descreveu uma curva fechada e voltou. Pousou junto à máquina.

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