terça-feira, 2 de abril de 2013

P-065 - Um Sopro de Eternidade - Clark Darlton [parte 2]

Gucky não demoraria a descobrir.
O rato-castor manteve-se imóvel diante do grupo das lagartas imobilizadas, e prestou atenção ao seu uuum prolongado. Por aqui o som só percorria cinco milímetros por segundo, isto é, o som originário do outro plano temporal. Era claro que esse retardamento não deixaria de produzir seus efeitos acústicos.
Estas lagartas imobilizadas no tempo devem pensar”, imaginou Gucky. “Por que não tento descobrir o que se passa em seus pequenos e primitivos cérebros? Não são prisioneiras como as outras; estão livres. Talvez revelem alguma coisa que suas semelhantes estão ocultando.”
Gucky passou à recepção e... cambaleou. Quase chegou a cair.
Por todos os sistemas solares do Saco de Carvão... o que será isso?, pensou assustado.
O cérebro de Gucky não captou pensamentos inteligíveis e ordenados; apenas ouviu um conjunto de impulsos prolongados, totalmente incompreensíveis, que lembravam uma peça de música eletrônica. Em termos acústicos, poderia dizer que era como se encostasse o ouvido a uma casa de abelhas. Não conseguiu distinguir e classificar os impulsos.
Desligou-se imediatamente e isolou a parte telepática de seu cérebro de mutante. Orientou-se com um olhar e teleportou-se para o lugar em que Rhodan se encontrava. Materializou-se bem a seu lado.
Então? — perguntou Rhodan com a voz tranqüila. Estava acostumado em ver o rato-castor surgir do nada. — Trate de subir a bordo. Decolaremos dentro de poucos minutos.
Gucky relatou em tom exaltado a experiência que acabara de fazer com as lagartas. Era a primeira vez que não conseguia encontrar qualquer explicação para um fenômeno.
Afinal, consegui ler os pensamentos dos outros “uuuns”, ou melhor, das outras lagartas. Por que com as que vi agora foi diferente? Também devem pensar, não é?
Rhodan mostrou um ligeiro sorriso irônico.
É claro que pensam, Gucky; e pensam da mesma forma que as outras. Apenas, seu pensamento se desenvolve em outro plano temporal. Pensam mais devagar. O que você captou foram seus impulsos mentais, transmitidos num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento.
O rato-castor não respondeu. As palavras de Rhodan pesavam em sua consciência, pois compreendeu imediatamente o alcance das conseqüências que teriam de ser extraídas daquela explicação.
Nunca poderia haver uma comunicação entre o homem e o “uuum”! O contato só se tornava possível quando um se transportasse para a dimensão do outro.
Gucky saiu saltitando em direção à Sambo.
Rhodan insistiu para que partissem o quanto antes. Só ele compreendia todo o alcance de um retardamento. Caso não estivesse muito enganado, para Bell, que se encontrava a bordo da Drusus, já deviam ter passado várias horas ou até dias.
Rhodan foi o último a pisar no passadiço inclinado que levava à escotilha de entrada. Lançou um olhar ligeiro para a K-7. A nave teria de ficar onde estava, pois no momento era praticamente impossível trazê-la de volta à sua dimensão temporal.
Sikermann, que já estava sentado junto aos controles, aguardava nervosamente a ordem de decolar. Gucky se dirigira ao setor em que Ragow e Noir cuidavam das lagartas prisioneiras. Passou a interessar-se tremendamente por aqueles seres vindos de outra dimensão. Agora, que contava com o auxílio de Noir, não teve a menor dificuldade de entrar em contato com aqueles seres.
A conversa poderia ser iniciada.
Rhodan fez um sinal para Sikermann quando a luz verde se acendeu, anunciando que todas as escotilhas estavam fechadas e a nave achava-se pronta para decolar.
Suba devagar. Não acelere muito. A rota já é conhecida. Pousaremos ligeiramente a meio caminho para recolher Josua, o meteorólogo. Depois vamos diretamente à janela luminosa.
Os minutos seguintes passaram-se com uma rapidez extraordinária. Josua foi recolhido e o vôo prosseguiu. Rhodan fitava Ininterruptamente as largas telas frontais da sala de rumando. Não tirava os olhos da planície que deslizava embaixo deles. O tenente Rous corrigia a rota sempre que isso se tornava necessário. Afinal, não havia ninguém que não conhecesse a rota entre o vulcão e a janela luminosa tão bem quanto ele.
Bem longe, junto à linha do horizonte, a uns cem quilômetros de distância, via-se uma “parede” escura e opaca. Essa “parede” se erguia bem alto, mas tornava-se cada vez mais fraca e transparente. Rous explicou a Rhodan que essa “parede” não passava de energia pura, ou então de tempo transformado em matéria. O fenômeno fora provocado por um efeito colateral ainda desconhecido do gerador de campo de curvatura.
Tempo transformado em matéria...!
Rhodan sentiu um calafrio quando o significado dessas palavras atingiu sua consciência. Era inacreditável! Mas devia ser isso mesmo.
A Sambo passou pelo lugar onde antigamente se situara a pequena “muralha” do tempo.
Alcançaram a planície onde havia uma área vitrificada, ainda incandescente.
Foi ali que o raio energético mortal dos atemporais atingiu a superfície — disse Rous em tom indiferente. — Isso aconteceu há cerca de oito dias. A rocha ainda não se solidificou.
Rhodan não deu atenção às palavras de Rous, nem ao círculo incandescente.
Seus olhos sempre atentos haviam notado um ligeiro movimento no sentido de deslocamento da nave.
Era no lugar em que o anel luminoso assinalava o ponto de contato das duas dimensões.
A Janela luminosa continuava no mesmo lugar. Portanto, o caminho de volta a seu plano temporal não estava fechado. Poderiam abandonar este Universo estranho.
Acontece que não puderam...
Com o formato de torpedo, umas vinte naves compridas, vindas do espaço, correram vertiginosamente em direção ao anel luminoso e abriram um tremendo fogo com suas peças energéticas contra o fenômeno luminoso. As naves desconhecidas percorriam dois quilômetros por segundo. Em sua dimensão temporal, isso correspondia à metade da velocidade da luz.
Estendida diante da abertura na barreira do tempo, a cortina de fogo tornava-se cada vez mais densa. Rhodan viu imediatamente que seria impossível romper a barragem. Os campos defensivos de sua nave não resistiriam.
Só restava uma possibilidade...
3



Pronto! disse alguém. — Pode ligar.
Sombras deslizavam pelos corredores e compartimentos da gigantesca nave, que circulava a grande distância em torno daquele sistema solar. Corria à velocidade da luz, sem que o compensador de tempo tivesse sido ligado. O efeito esperado surgiu imediatamente. Os estranhos que haviam penetrado em sua dimensão tornaram-se visíveis.
Está ligado — soou a resposta vinda da nave-mãe, que se encontrava a várias horas-luz de distância, mantendo-se na atmosfera do planeta, à espreita do inimigo. — Pode orientar-nos.
Isso era imprescindível, pois só assim os estranhos se tornavam visíveis nas telas do gigante espacial. As naves menores continuavam “cegas” e dependiam das ordens do gigante, que dirigia a ação.
A sombra inclinou-se sobre as telas.
Lá embaixo, naquele mundo quase superpovoado, havia um movimento intenso. Há pouco um planeta de outro plano temporal fora atingido pela frente do tempo, e os seres estranhos foram transferidos ao seu plano existencial. As lagartas cuidariam deles; levá-los-iam aos alojamentos e lhes forneceriam alimento, A comunicação não representava qualquer problema, pois os estranhos já não viviam mais depressa que eles, já que se haviam adaptado a seu ritmo.
...Com exceção daqueles que, mediante o auxílio da técnica, conseguiram penetrar em seu plano temporal, conservando sua própria dimensão. Moviam-se com tamanha rapidez que permaneciam invisíveis. Representavam um perigo, pois o objetivo dos invisíveis consistia em igualar os dois planos.
A estação retransmissora de imagem funcionava perfeitamente.
As armas estão preparadas? — perguntou alguém.
Estão preparadas! — foi a resposta vinda da nave capitania.
Pois aumente a velocidade para aproximadamente metade da luz. Essa velocidade é tão elevada que nem mesmo os estranhos poderão desviar-se do ataque. Eu os orientarei.
Antes que a frota de guerra pudesse executar a ordem, uma coisa estranha aconteceu.
Lá embaixo, perto do lugar em que minutos atrás os seis estranhos haviam penetrado em seu plano existencial, surgiu um fenômeno luminoso, um anel gigantesco. Os observadores enigmáticos já conheciam o fenômeno. Era causado pelo aparelho que permitiu aos outros seres o ingresso em seu plano temporal.
Estariam recebendo reforços?”, pensou um deles.
O anel chamejante fechou-se. Quase no mesmo instante, uma esfera escura surgiu no centro do mesmo. Vinda do nada, penetrou naquele mundo e logo desacelerou. Num vôo seguro, dirigiu-se calmamente às montanhas onde a esfera menor estava à espera.
O receptor captou impulsos distorcidos.
O mestre ordenou à sua frota:
Aguardem!
As naves pretas esperaram. Dali a meio segundo veio a contra-ordem:
Atacar! Dirigirei a ação.
Haviam passado já uns dez minutos. Em suas telas os desconhecidos se deslocavam à velocidade natural. Para eles, o tempo também passava mais depressa do que para aqueles que não se deslocavam à velocidade da luz,
Vôo concêntrico à metade da velocidade da luz.
Os sinais de comando provocaram a reação das naves. Desenvolvendo a velocidade ordenada, vinte cruzadores esguios precipitaram-se para a superfície do planeta e abriram fogo.
Mas logo receberam outras ordens...

* * *

O Tenente Rous deu de ombros. Estava perplexo.
Sinto muito, mas não lhe posso dar qualquer explicação. Steiner também não sabe o que fazer. Pelos nossos cálculos, para eles não devem ter passado mais de dez segundos desde o momento em que penetramos neste plano temporal. Não é possível que nestes dez segundos tenham descoberto qualquer método novo.
Acontece que descobriram! — disse Rhodan em tom enfático, acrescentando com a voz séria: — Estão reagindo em milésimos de segundo. Parece impossível, mas a prova está aí. Se não encontrarmos uma explicação, estaremos liquidados.
Enquanto falava, não tirava os olhos da tela.
As naves desconhecidas tinham formato extremamente longo, fino e pontudo. Eram feitas de metal negro. Haviam descido junto à janela luminosa e bombardeavam-na com suas peças de artilharia energética. Colocaram uma verdadeira barreira de energia chamejante à frente da mesma, tornando impossível a volta ao Universo do homem ou a chegada de novos reforços.
Não poderíamos atacar as naves pretas?
Rhodan fez um gesto afirmativo.
É claro que poderíamos, mas não sei como nossos campos defensivos reagirão a raios energéticos que percorrem apenas quatro quilômetros por segundo. O senhor tem uma idéia sobre isso?
Rous sacudiu a cabeça. De lugar mais afastado, Steiner disse:
Imagino quais são suas suposições. Os raios energéticos estão sujeitos às leis do outro plano temporal. Sua força destrutiva deve ser maior — hesitou um pouco. — Será que não poderia ser menor?
O senhor acha que devemos experimentar? — perguntou Rhodan.
Steiner não respondeu. Rhodan soltou um suspiro.
Uma coisa é certa. Eles nos vêem, e não com um atraso de cinco minutos; no máximo o atraso é de cinco segundos. Fizeram algum progresso. Não sei o que fazer. Sikermann, peça a Crest e Atlan que compareçam à sala de comando.
A Sambo encontrava-se a vinte quilômetros da janela luminosa. A mão de Sikermann estava pousada sobre a alavanca de aceleração. Assim que um dos feixes energéticos que bloqueavam sua retirada se dirigisse para eles, poderia fazer com que a nave disparasse para o alto. Disporia de dez segundos.
Crest foi o primeiro que entrou na sala de comando. Sua figura alta e veneranda, com os cabelos brancos, os olhos avermelhados de albino e as mãos finas provavam que era arcônida. Sorriu para Rhodan e os outros homens e acomodou-se numa das poltronas.
Atlan, o imortal, não tinha o aspecto de arcônida. Vivera durante dez mil anos na Terra, entre os homens, sem ser reconhecido, e adotara alguns de seus hábitos. A máscara que costumava exibir deixara seus sinais, apagando algumas das características do arcônida. Também sorriu. Seu sorriso exprimia uma ironia misturada com uma sensação de superioridade, que em outra oportunidade teria irritado Rhodan.
Hoje não.
Não tive a intenção de trazê-los nesta expedição — disse com a voz mais tranqüila possível. — Foram os senhores que insistiram dela participar. Por isso quero dizer-lhes que encontramo-nos numa situação para a qual não vejo nenhuma saída.
Relatou em palavras ligeiras o que acabara de acontecer. Crest e Atlan ouviram sem interrompê-lo. Seus rostos exprimiam preocupação; mesmo Atlan deixara de sorrir.
Agora não sabe o que fazer, não é, bárbaro? — perguntou Atlan em tom irônico. — E quer que nós, que não passamos de arcônidas degenerados, o ajudemos. Não acha que é uma pretensão um tanto absurda?
De forma alguma — respondeu Rhodan. — Nunca afirmei que você ou Crest fossem indivíduos degenerados. Pelo contrário! Acho que são os representantes mais capazes de seu povo. Por que estamos discutindo? Seria melhor se todos refletíssemos para descobrir um meio de voltar à nossa dimensão temporal. Isto aqui não é o passado, nem o presente ou o futuro. Apenas é... diferente.
Atlan fez um gesto afirmativo.
Sim, Perry; concordo com você. Isto aqui é diferente. Mas soubemos vir; logo, saberemos voltar.
Mas não será através da barragem existente junto à janela luminosa.
Atlan voltou a fazer um gesto afirmativo.
Antes de mais nada precisamos encontrar uma explicação de como subitamente esses seres conseguiram reagir tão depressa, embora, segundo se diz, vivam setenta e duas mil vezes mais devagar que nós. O que terá acontecido?
Bem que gostaria de saber... — principiou o Tenente Rous, mas Atlan fez um gesto para que se calasse.
Saberemos, desde que saibamos usar a lógica. A primeira lembrança que me ocorre é a das lagartas que temos a bordo. Perderam sua dimensão temporal e se adaptaram à nossa. Não seria possível que os invisíveis também tivessem feito essa adaptação?
Foi exatamente o que pensei — disse Rhodan, sem dar a menor atenção ao sorriso de Atlan. — Continue.
A coisa é muito simples. Até hoje não sabemos exatamente o que acontece quando se atinge a velocidade da luz, porque nunca tivemos oportunidade de experimentar. À nossa velocidade da luz, entramos em transição, com o que os compensadores de tempo passam a funcionar automaticamente. Até hoje ninguém tentou viajar à velocidade da luz sem esses aparelhos. Exceto o Tenente Rous e seus homens. E, mesmo ali, isso foi feito apenas em sentido relativo. De qualquer maneira, o senhor não poderá deixar de reconhecer que isto representa uma resposta.
Rhodan acenou com a cabeça, mas preferiu não contestar o imortal. Aguardou tranquilamente para ver se Atlan confirmaria as suposições que lhe haviam ocorrido.
O que poderia ter acontecido quando esses seres tiveram a idéia de voar também à velocidade da luz? Será que com isso a concepção do tempo sofreu uma deformação? Passaram a viver tão depressa como nós? O que terá acontecido se assim foi? Será que nos vêem da mesma forma que nós nos vemos? Para eles o tempo passará tão depressa como para nós? Terão de morrer mais depressa, porque vivem mais depressa? Ainda teremos tempo para desenvolver estas especulações. O que importa é encontrar uma explicação, e, face ao que acabo de dizer, acredito que já a encontramos.
Isso seria...! — disse Steiner em tom de espanto e lançou um olhar de perplexidade para Atlan, que retribuiu o olhar com um sorriso.
Rhodan e Sikermann fizeram gestos de assentimento. Crest mantinha-se tranqüilo e mudo, mas em seus olhos calmos brilhava o orgulho que sua ascendência lhe infundia. Ainda sabiam desenvolver um raciocínio coerente e extrair conclusões decisivas.
Ao menos Atlan era capaz disso.
Rhodan disse:
Sinto-me mais tranqüilo ao ouvir uma explicação relativamente simples, embora ainda não tenhamos nenhuma prova de que seja correta — lançou um olhar para a tela. — Três das naves pretas suspenderam o fogo. Sobem relativamente devagar e viram a proa para nós. Acredito que daqui a pouco teremos oportunidade de apurar a diferença de tempo pela qual eles se aproximaram de nós. Então poderemos deduzir seu tempo de reação.
Atlan sentara ao lado de Crest. Os dois arcônidas conversavam em voz baixa. Rhodan percebeu que discutiam os meios de atingir o inimigo.
Mantenha a Sambo preparada para partir a qualquer momento — disse Rhodan, dirigindo-se ao piloto e voltou a contemplar a tela.
As três naves desconhecidas haviam subido às camadas superiores da atmosfera, sempre com a proa dirigida para a Sambo. Tornava-se evidente que pretendiam lançar um ataque.
Guie-se pelos meus comandos, tenente! Precisamos descobrir dentro de quanto tempo conseguem reagir a uma modificação na situação — observou Rhodan.
Tratava-se de uma oportunidade única de verificar o tempo de reação. Por ocasião do primeiro ataque desfechado contra o Tenente Rous esse tempo fora de cinco minutos. Mas agora talvez tivesse sofrido uma redução acentuada.
As três naves emitiram um lampejo. Rhodan percebeu-o no mesmo instante em que os raios atingiram os campos defensivos da Sambo. Antes disso, não poderia vê-los.
Os ponteiros executaram movimentos violentos e o zumbido que se ouvia no interior da nave cresceu subitamente.
Vamos embora! — gritou Rhodan.
A reação de Sikermann foi imediata. A Sambo saltou e atingiu a estratosfera do mundo de cristal. Dali a pouco alcançou a marca dos dois quilômetros por segundo, deixando para trás os raios energéticos que a perseguiam. Mas as três naves não desistiram. Seguiram-na.
Três quilômetros por segundo; isso correspondia a setenta e cinco por cento da velocidade relativa da luz. Rhodan não sabia explicar como os seres conseguiam vê-los..
Se a teoria de Atlan fosse correta...
Mas poderia sê-lo? Ás três naves que os perseguiam só percorriam dois quilômetros por segundo. Em seu plano temporal isso era apenas metade da velocidade da luz.
Rhodan desistiu de quebrar a cabeça sobre o problema. Não poderia saber que lá fora, a vários dias-luz do mundo de cristal, a nave-mãe dos seres cruzava o espaço à velocidade verdadeira da luz — verdadeira no sentido do outro plano temporal — e mantinha contato com as unidades da frota negra através das estações retransmissoras.
Os campos defensivos agüentaram — disse Atlan em tom seco. Interrompera por um instante a palestra que vinha mantendo com Crest. — Mas tenho minhas dúvidas sobre se agüentarão o bombardeio de dezessete peças de artilharia.
Neste caso estamos de pleno acordo, arcônida — respondeu Rhodan com a voz tranqüila. — Nem vamos arriscar a experiência. Apenas gostaria de saber por quanto tempo ainda poderemos brincar de esconder com o inimigo.
Brincar...? — perguntou Gucky de repente. — Será que eles brincam de esconder?
Rhodan respirou fortemente e dirigiu-se ao rato-castor.
Quero evitar qualquer mal-entendido — disse em tom enfático. — Ninguém afirmou que estão brincando. Sei que você gosta de brincar, mas esta não é a hora.
Subitamente estacou e lançou um olhar atento para o rato-castor.
Bem, ao menos a palavra brincar não seria uma designação adequada — fez outra pausa para refletir. — Chame Ras Tschubai! — disse.
Gucky chilreou algumas palavras incompreensíveis, mas obedeceu. Escorregou do sofá e caminhou em direção à porta. Mas antes de chegar lá resolveu outra coisa. Parou, concentrou-se e desapareceu em meio a uma nuvem de ar tremeluzente.
Preferira teleportar-se.
Atlan não era telepata.
O que pretende fazer com Ras Tschubai? — perguntou.
Rhodan não tirou os olhos da tela. Embaixo deles deslizava a superfície do mundo de cristal. Na verdade, o planeta já se transformara numa gigantesca esfera, em torno da qual a Sambo se deslocava à velocidade de três quilômetros por segundo. Dessa forma, estariam razoavelmente protegidos contra um eventual ataque de surpresa.
Ras Tschubai é um teleportador, tal qual Gucky. Pretendo enviar os dois a uma das naves inimigas.
Até mesmo Atlan espantou-se com o plano. Depois de alguns segundos de silêncio, perguntou:
Por quê?
Com um sorriso suave, Rhodan respondeu:
Quero saber como são esses seres. Apenas isto.

* * *

Ivã Ragow, o biólogo, não se interessava pelo aspecto exterior dos inimigos, nem pelos ataques que a frota deles vinha desfechando contra a Sambo. O que o mantinha ocupado naquele momento era o estudo da vida psíquica das lagartas aprisionadas. Noir e John Marshall ajudaram-no. Com o auxílio destes, conseguira até estabelecer uma verdadeira comunicação com esses seres.
Noir era hipno. Não tinha a menor dificuldade em projetar uma imagem mental nos cérebros dos prisioneiros, e essa mensagem correspondia exatamente àquilo que se pretendia dizer ou perguntar aos mesmos. As lagartas formulavam a resposta em seus pensamentos, e esta era captada por Marshall, o telepata.
Era tudo muito simples.
Ragow sacudiu a cabeça de espanto.
Noir, pergunte-lhes se conhecem seus senhores, e de que forma recebem as ordens dos seus superiores.
Noir concentrou-se para criar a respectiva imagem mental. Marshall procurou sentir a resposta. Quando veio, sacudiu a cabeça.
Nunca os viram, Ragow. Segundo afirmam, as ordens são transmitidas pelo rádio ou por meio de robôs.
Coitados — disse Ragow em tom distraído. — Quer dizer que nunca os viram, embora vivam no mesmo plano temporal. É de espantar. Talvez sejam criaturas muito esquivas.
Depois de algum tempo, Marshall disse:
Não é isso. Pelo que dizem as lagartas, eles não têm nada de esquivo. Devem ter um motivo todo especial para nunca aparecer. Não consigo descobrir mais que isto.
Ragow contemplou os prisioneiros. Depois dedicou sua atenção a outra jaula, na qual estavam três lagartas imóveis. Esses exemplares haviam sido levados para bordo da Sambo por meio de um campo antigravitacional. Foram deixados no seu plano temporal, para que pudessem ser estudados assim que chegassem à Terra.
Talvez — dissera Steiner — o salto pelo hiperespaço traga uma surpresa.
Uma das lagartas mantinha o corpo ereto e estava levantando a presa do lado direito. Nas últimas duas horas, os membros finos haviam subido dez centímetros.
As outras estavam deitadas. Parecia que estavam pensando. Era possível que realmente estivessem.
Ragow voltou a olhar a que estava de pé.
A presa direita subira mais cinco centímetros.
Não numa hora, mas em pouco menos de dois minutos.

* * *

Ras Tschubai, um africano, era de estatura robusta e, tal qual os outros mutantes, recebera a ducha celular do planeta Peregrino, que lhe conferia uma imortalidade relativa, ao menos por um tempo ligeiramente superior a sessenta anos.
Seu dom era o da teleportação.
De repente, apareceu na sala de comando ao lado de Gucky, e anunciou a Rhodan que estava pronto para entrar em ação.
A Sambo continuava a circular em torno do planeta de cristal, nome que lhe fora dado em virtude de sua vida paralisada. As três naves negras dos inimigos seguiam-na em ritmo um pouco mais lento. Esforçavam-se para atingir a esfera mais veloz. Alguns disparos energéticos isolados erraram o alvo móvel.
Rhodan pediu a Sikermann que não permitisse que a distância fosse reduzida a menos de cem quilômetros. Numa distância dessas não havia como fazer uma pontaria segura, ainda mais que na dimensão em que se encontravam a mesma correspondia a 25 segundos-luz.
Dirigiu-se a Ras Tschubai e Gucky.
Olhem a tela de popa. Ali estão as três naves. A distância é de cem quilômetros. Saltem juntos e permaneçam sempre um ao lado do outro. Quero saber como são esses seres. Gucky procurará manter contato telepático com eles, enquanto Ras lhe dará cobertura. Se forem atacados, defendam-se. É possível que aqueles que se encontram naquelas naves não vivam mais devagar que nós. Portanto, tenham cuidado.
Talvez não sejam telepatas — ponderou o rato-castor.
Nesse caso voltem e levem Noir. Ras Tschubai tirou o radiador do cinto e destravou-o. Ao que parecia, não estava disposto a assumir qualquer risco. Gucky não levou nenhuma arma, mas fez esta pergunta:
Que tal se depositássemos uma bombinha nessas naves-aspargo?
Rhodan reprimiu um sorriso.
Calma, meu filho! Ainda não sabemos quais são as intenções deles. É possível que apenas se sintam ameaçados e estejam agindo para defender-se. O que determina o caráter de um indivíduo não são seus atos, mas os seus motivos.
Suas palavras são muito sábias — respondeu Gucky em tom irônico e fez uma mesura. Seus olhos castanhos piscaram alegremente. — Tomara que eles tenham a mesma opinião.
Procurem voltar depressa — disse Rhodan. — Boa sorte!
Gucky aproximou-se de Ras Tschubai e segurou-lhe a mão. Fizeram um sinal, concentraram-se ao mesmo tempo e desapareceram.
Por algum tempo Rhodan fitou o espaço vazio; depois voltou a dirigir-se a Sikermann:
Mantenha a rota. Modifique-a apenas se surgir um caso de emergência. A velocidade deverá ser constante.
Estava muito curioso para saber o que os dois teleportadores lhe contariam.

* * *

Ao notar a rematerialização, Gucky sentiu a mão do africano pousada na sua. O salto simultâneo fora bem sucedido, pois não se haviam afastado um do outro.
Em torno deles reinava a penumbra. Sob seus pés havia um soalho flexível, semelhante a um tapete de plástico. As paredes brilhavam numa luz indefinida, que delas parecia emanar. O teto era negro e máquinas desconhecidas vibravam.
Não se ouvia mais nada.
Está escutando alguma coisa, com exceção do som das máquinas?
O africano fez que não. Depois de uma pausa, cochichou:
E você? Está captando impulsos mentais?
Gucky sacudiu a cabeça.
Apenas percebo alguns fragmentos confusos, semelhantes aos que captei das lagartas petrificadas. Mas os impulsos vêm de muito longe; sinto-o por causa da intensidade. Um momento! Isso mesmo, sou um burro!
Sempre acreditei que fosse um rato-castor — disse Ras Tschubai...
Gucky não estava disposto a ouvir piadas.
O que captei foram os impulsos mentais dos homens que se encontram na Sambo e dos seres do mundo de cristal. Nesta nave não há ninguém que esteja pensando. Ou então estão usando aparelhos de bloqueio. Não consigo localizar ninguém.
Ras esteve a ponto de responder, mas resolveu ficar quieto...
Ouviram o som fraco de passos. Eram irregulares e arrastados. Estavam se aproximando.
Vem alguém — disse Ras em tom assustado.
Forçou a vista, mas o corredor que agora já conseguia enxergar fez uma curva.. Os passos vinham do outro lado da curva e aproximavam-se inexoravelmente.
O africano segurou o braço de Gucky.
Não acha que devíamos...
Dar o fora? Nem pense nisso! Muito bem; concordo plenamente em que procuremos um esconderijo, pois quero olhar esse ser com toda calma. Vamos até ali.
A poucos metros de distância encontraram um nicho. Provavelmente se destinava ao depósito de certos objetos. Naquele momento prestava um serviço excelente a Ras e Gucky, já que os escondeu dos olhos do alguém que se aproximava.
Os olhos dos mutantes já se haviam acostumados à semi-escuridão; viam perfeitamente os arredores. Nas paredes, junto às fontes de luz, viram figuras esquisitas, cuja finalidade não conseguiram adivinhar. Gucky logo percebeu que não se tratava de quadros. Antes pareciam esculturas, se bem que não tivesse muita certeza. Havia várias portas que levavam a compartimentos desconhecidos.
Uma sombra começou a tomar forma.
Não media mais de um metro, tinha formato esférico e, pelo que se via, dispunha de vários membros que lhe serviam à locomoção. Finos tentáculos ou antenas subiam verticalmente, balançando levemente.
O ser aproximou-se. Os detalhes tornaram-se perceptíveis.
Ras esforçou-se em vão para procurar os olhos, a boca ou as orelhas.
Estranho, esse ser parece não ter rosto!”, admirou-se o mutante.
Seu corpo era assimétrico. Não era redondo nem quadrado, nem gordo ou magro. Parecia um grande pingo de metal líquido endurecido repentinamente.
Ras Tschubai falou com a voz quase inaudível.
Ele se move muito devagar, mas não há dúvida de que se move. Logo, encontra-se em nosso plano temporal.
Gucky acenou com a cabeça, mas não disse nada. Seus olhos fascinados contemplavam o ser que deslizava lentamente na direção em que se encontravam. O termo deslizar era a expressão correta para designar essa forma de locomoção. Às pernas — ou membros — moviam-se ininterruptamente. Duas ou três das pernas curtas sempre estavam em contato com o solo. Praticamente poderia caminhar, fosse qual fosse praticamente a posição de seu corpo.
Um ouriço-do-mar amassado! É este o aspecto desse ser. Para que servem as antenas? Será um telepata?”, pensou o rato-castor.
Gucky fez mais um esforço para penetrar na mente do estranho ser, que se encontrava a menos de dois metros. A tentativa fracassou, da mesma forma que as anteriores. Os impulsos tateantes de Gucky esbarraram numa muralha.
Ras tinha razão. O ser movia-se devagar, embora certamente tivesse passado por um processo de adaptação. Mas era possível que aquilo fossem apenas os movimentos naturais de uma inteligência que tinha tempo.
A idéia do tempo provocou um calafrio em Gucky, que logo se lembrou de sua missão. Precisava encontrar um meio de entrar em contato com o estranho.
Mas teria de ser justamente com este? Talvez fosse preferível observar essas criaturas por mais algum tempo, antes de apresentar-se às mesmas. Era bem possível que fosse apenas um tripulante de categoria subalterna. Se Gucky entrasse em contato com alguém, esse alguém deveria ser o comandante do cruzador negro.
Mantiveram-se em silêncio e imóveis, até que o indefinível se tivesse afastado.
Ras suspirou aliviado.
Que seres serão estes? — perguntou em tom de espanto. — Serão Insetos ou mamíferos? Será que pensam? conseguiu apurar alguma coisa?
Não há dúvida de que pensam, do contrário não poderiam travar uma guerra — respondeu Gucky em tom sarcástico. — Mas, para dizer a verdade, não consegui captar nenhum pensamento. Você viu as pernas? São dispostas de tal forma que ele sempre “cai” sobre os pés. Enquanto anda, todas se movem.
Fez uma pequena pausa.
Quase parece um autômato — acrescentou.
Ras não respondeu.
Vamos à sala de comando — disse, adivinhando os pensamentos do rato-castor. — Estou curioso para ver a reação deles quando aparecermos à sua frente.
Já que seu aspecto é tão estranho, acreditarão que somos monstros — conjeturou Gucky com certa dose de lógica. — Tomara que não se assustem muito.
Se virem você em primeiro lugar — principiou Ras, mas preferiu não prosseguir. Era melhor assim.
Gucky soltou um ligeiro chiado e disse:
Vamos saltar para a sala de comando. Mas gostaria primeiro de saber onde fica!
Esse era o problema. Um teleportador só pode chegar ao destino quando pode vê-lo ou ao menos imaginá-lo. Em outras palavras, alguém lhes deveria ter descrito o local, ou eles mesmo já deviam ter estado lá.
Naquele momento, nenhuma dessas condições se verificava.
Gucky deu de ombros.
Vamos andando; talvez tenhamos sorte. Se aparecer alguém, escondemo-nos num nicho. Estes existem em toda parte. Além disso, os “ouriços” são tão lentos que dificilmente poderão representar um perigo maior.
Depois da segunda curva, alcançaram o ser que já haviam visto. Os passos que ouviam poderiam induzir em engano quanto à velocidade com que esse ser se deslocava. A cada passo avançava no máximo dez centímetros, e entre um passo e outro decorriam uns três ou quatro segundos.
Esperaram até que desaparecesse por uma porta. Isso demorou quase dois minutos.
Estão um pouco atrasados no tempo — cochichou Gucky.
Nem desconfiava de que tinha razão, embora num sentido bem diferente do que acreditava.
Depois que o caminho ficou livre, avançaram mais depressa. Não se encontraram com mais nenhum daqueles seres. Não tiveram maiores dificuldades em achar a sala de comando, pois a nave não possuía o conhecido formato esférico, sendo comprida e de diâmetro reduzido. Por isso a sala de comando só poderia ficar na proa.
O corredor terminava diante de uma porta.
Ras Tschubai não saberia dizer por que ele e Gucky viam aquela parede lisa como uma porta. Não havia o menor sinal disso. Não viram nenhuma maçaneta ou botão, nenhuma reentrância em que pudessem enfiar a mão a fim de desencadear o impulso que ativaria o fecho.
Era uma parede lisa — apenas isso.
Gucky começou a tatear e sentiu o primeiro obstáculo telecinético.
É uma fechadura eletrônica — cochichou. — Só pode ser ativada por meio de ondas elétricas. Eles sempre carregam um transmissor, quando pretendem passar por uma porta. É estranho.
Você pode abrir a porta? — perguntou Ras com a voz preocupada.
Tentarei — consolou-o Gucky e concentrou-se na tarefa.
Enquanto isso, o africano montava guarda. Continuava a segurar o punho do radiador de impulso, ao qual nenhum tipo de matéria resistiria, desde que desenvolvesse toda sua potência.
Atrás da parede — ou da porta ouviu-se um ruído, Ouviu-se um ligeiro clic. A parede escorregou para o lado. Surgiu um grande compartimento, cheio de instrumentos e estranhos aparelhos. Não havia dúvida de que era a sala de comando da nave preta.
A primeira coisa a chamar a atenção de Ras foi uma gigantesca tela oval, embutida na parede da frente. Nela se viu a Sambo, aparentemente imóvel e na expectativa, quando na verdade se deslocava à velocidade de três quilômetros por segundo.
À frente da tela estavam três daqueles deres. Ao que parecia, não haviam notado que a porta se abrira. Ao menos não procuraram deter os intrusos. Ao lado deles, encontravam-se pesados blocos de metal que abrigavam máquinas ou outras instalações desconhecidas.
Num canto, mais à direita, outra tela, um pouco menor, brilhava.
Ao vê-la, Ras estremeceu, embora não compreendesse a imagem projetada na tela.
Dois círculos cercavam um ponto, deslocavam-se lentamente e voltavam ao mesmo lugar. Um dos círculos era vermelho e o outro verde. Era evidente que alguém cuidava para que os dois círculos se cobrissem e para que o ponto ficasse exatamente no centro dos mesmos.
Ras não compreendeu a finalidade daquilo, mas imaginava se tratar de um dispositivo destinado a manter a rota fixada. Essa suposição era correta, mas naquele momento ainda não sabia disso.
O ser que se encontrava entre os outros dois virou-se lentamente.
Gucky continuava a esforçar-se para estabelecer contato telepático com a estranha criatura, mas não conseguiu. Não sentiu a menor reação mental. Até parecia que os estranhos seres não passavam de autômatos sem alma; era ao menos a impressão de Gucky.
Tentou o método acústico.
Por que nos perseguem? — perguntou na língua dos arcônidas, conhecida em todo o Universo. — Não queremos a guerra.
O ser finalmente acabara de virar-se por completo. Era evidente que ainda não havia atingido o plano temporal dos terranos. Mas aproximava-se perigosamente do mesmo.
Gucky e Ras viram que os membros destinados à locomoção retraíram-se para dentro da pele do ser esférico. Em compensação surgiram braços, em cuja extremidade se viam vários instrumentos. Eram pequenas tenazes, chaves de fenda, dedos e até ventosas. Deveriam possuir uma inteligência muito versátil.
Mas não tinham rosto.
Gucky e Ras não compreendiam como podiam ver, ouvir ou falar... se é que podiam.
Um dos braços encolheu-se lentamente, e dali a meio minuto uma abertura redonda saiu do ventre esférico.
O indefinível não emitia qualquer impulso mental, motivo por que Gucky não pôde descobrir as intenções daquele ser estranho. Foi tomado de surpresa, tal qual Ras, quando ele abriu fogo.
Sem o menor aviso, um ofuscante raio energético passou entre Ras e Gucky, batendo na parede e abrindo-se em leque...
Seu bicho nojento! — gritou Gucky e saltou por baixo do raio, à procura de abrigo.
Encontrou um bloco de metal que o protegeria. Enquanto isso, seus fluxos telecinéticos atingiram o ser e obrigaram-no a rolar um pouco para trás. O raio energético subiu na vertical e derreteu o teto da sala de comando.
Ras também procurara abrigo. E não hesitou em utilizar a arma que trazia. Olhando por cima do bloco, fez pontaria, puxou o gatilho e não o soltou até que o estranho ser, envolto em fogo, suspendesse o ataque. Até então ninguém resistira a um banho energético com este.
Alguma coisa caiu pesadamente, produzindo um som metálico.
Gucky levantou cautelosamente a cabeça, e procurou descobrir a causa do estranho ruído.
A visão oferecida ao rato-castor era tão espantosa que, por um instante, decisivo esqueceu-se dos outros dois seres que se encontravam na sala de comando.
O atacante se abrira.
Uma larga fenda surgira na esfera, pondo à mostra seu interior. Os fios prateados, chamuscados pelo calor e descoloridos em vários pontos, com as curvas e os entrelaçamentos complicados, lembravam o interior de um sofisticado computador eletrônico. As caixinhas metálicas, algumas delas destruídas, caíram de seus suportes ruidosamente ao chão, onde se imobilizavam. Um tubo estourou com um ruído surdo, ou então uma coisa que parecia um tubo. Uma chama azul levantou-se para apagar-se em seguida. Subitamente o cheiro de borracha queimada e de ozônio encheu a sala de comando.
Ras disse em tom assustado:
Robôs! Não passam de robôs!
Gucky continuava a fitar o quadro que não conseguia compreender.
São robôs; é verdade — confirmou, mas logo acrescentou: — Mas não podemos afirmar que essas esferas realmente sejam os verdadeiros cabeças do ataque.
Ras esteve a ponto de responder, mas não teve tempo.
Cuidado! — berrou e levantou o radiador de impulsos, para abrir fogo sem fazer pontaria.
As outras duas esferas já deveriam ter registrado a derrota do colega. Agiram de acordo com essa percepção e passaram ao ataque. O aviso de Ras Tschubai chegou no último instante. Gucky desapareceu atrás do bloco metálico e procurou realizar sua intervenção por via telecinética. Mas, face à lentidão das reações dos robôs, Ras gozava de certa vantagem e conseguiu dominar a situação sem o auxílio de Gucky.
Com dois disparos rápidos liquidou os atacantes.
O quadro que se oferecia na sala de comando era desolador. Não podia haver muita coisa que escapara à destruição. Os dois anéis coloridos escorregaram para fora da tela, e Ras constatou que também a posição da Sambo mudava constantemente na tela oval.
A nave dos robôs desviava-se da rota. A superfície do planeta de cristal tornou-se visível e aproximava-se vertiginosamente.
Temos que dar o fora! — gritou Ras e preparou-se para saltar.
Gucky viu que não havia outra alternativa. Não havia mais nada que pudessem encontrar nessa nave, e seria impossível permanecer ali caso não quisessem arriscar a vida.
Vamos saltar! — disse com a voz queixosa e exibiu o dente roedor, sem sorrir como costumava fazer quando isso acontecia, — Mas ainda vamos dar uma olhada nas outras canoas. Já sabemos do que se trata. Mas agora vamos voltar à Sambo.
Desmaterializaram-se.
Dali a dois minutos a nave dos robôs explodiu violentamente na superfície do planeta de cristal.
Ao lado de Rhodan, na sala de comando da Sambo, Rous contemplava o espetáculo com os olhos semicerrados.
Não pode ser! — disse em tom assustado e empalideceu. — É impossível!
O quê? — perguntou Rhodan laconicamente.
É impossível que todo o planeta, todo o plano temporal se adapte ao nosso. Tem outra explicação para o fato de que a detonação verificada lá embaixo se tornou visível aos nossos olhos? Veja! O cogumelo da explosão sobe ligeiro pela atmosfera. Devia subir lentamente, de forma quase imperceptível. Antes os pingos de chuva caíam apenas alguns centímetros por hora, e agora...
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Quer uma explicação? — manteve-se imóvel que nem uma estátua, mas os cantos de sua boca tremiam. — Não existe qualquer outro plano temporal, Tenente Rous. Ao menos por enquanto.
Porém Perry já sabia que esse plano temporal existia; apenas, não se atrevia a reconhecê-lo... pois isso significaria o fim de todas as esperanças.

4



Ivã Ragow sacudiu a cabeça e fitou John Marshall com uma expressão de perplexidade, como se tivesse feito a sugestão de saltar da nave. Noir mantinha uma atitude de expectativa. Procurava descobrir uma explicação para o fato de que as lagartas, até então imóveis, começavam a adaptar-se a seu plano temporal.
Não existe a menor dúvida. Nós as estamos assumindo sem atingir a velocidade relativa da luz. Não posso dar nenhuma explicação, mas o fato é incontestável. Os membros das lagartas já se movem com cinqüenta por cento da velocidade normal. Se a modificação prosseguir no mesmo ritmo, daqui a meia hora serão tão rápidas como nós.
Ainda bem que não é o contrário — disse Noir.
Os olhos de Ragow estreitaram-se.
Será que nós perceberíamos se isso acontecesse? — perguntou com a voz embaraçada.
O quê? — ao que parecia, Noir não estava compreendendo.
Ragow explicou:
Será que nós perceberíamos se fosse o contrário? Não existe nenhum ponto neutro de referência pelo qual possamos guiar-nos.
Noir compreendeu. E Marshall também.
Ragow, será que o senhor quer dizer que...
Marshall não teve tempo de expor sua opinião, pois nesse momento ouviu-se o som estridente do intercomunicador da nave. O rosto de Rhodan apareceu na pequena tela.
Peço a todos os oficiais e chefes de equipes científicas que compareçam a uma reunião na sala dos oficiais. A reunião terá início dentro de dez minutos.
A tela apagou-se.
Marshall fitou Ragow.
Então; o que me diz? — perguntou, pois já reconhecera os pensamentos e as conjeturas que enchiam a mente do russo. — Ao que parece, em outro lugar também já estão pensando como o senhor.
Ragow fez um gesto afirmativo.
Daqui a dez minutos saberemos.
Lançou mais um olhar para as lagartas, que se libertavam progressivamente e num ritmo cada vez mais veloz da rigidez do tempo, e saiu da sala sem dizer uma palavra.
John Marshall seguiu-o, andando devagar.

* * *

Quer dizer que as conclusões são as seguintes, e todas elas trazem uma conseqüência inequívoca. Procurem descobri-la.
Rhodan fez uma ligeira pausa e fitou os rostos dos homens. Os oficiais da Sambo mantinham-se de pé junto aos técnicos e mutantes. Seus rostos estavam sérios, pois sabiam perfeitamente que Rhodan deveria ter um motivo importante para convocar uma reunião enquanto estavam sendo perseguidos pelas naves pretas.
Em primeiro lugar, Ragow descobriu que os movimentos das lagartas presas começavam a adaptar-se aos nossos padrões de tempo. Tornaram-se cada vez mais rápidas e já atingiram mais da metade da velocidade normal. Além disso, constatamos que, ao que tudo indica, os robôs conseguiram seguir-nos, embora nossos movimentos sejam setenta e duas mil vezes mais rápidos. Até aqui ficamos quebrando a cabeça em vão para descobrir como conseguiram. Parece, todavia, que este ponto já não é tão Importante.
Gucky e Ras só encontraram robôs, e estes também viviam num ritmo um pouco mais lento que o de nosso plano temporal. Quer dizer que mais uma vez isso prova que houve um processo de adaptação. Mas o que esclareceu a situação foi a queda da outra nave e sua destruição. Se bem que não possamos excluir a hipótese de que o inimigo pode, mediante o uso de fatores que não conhecemos, aproximar-se de outro plano temporal, seria absurdo supormos que isso aconteça com todo o planeta, conforme pareceu indicar a explosão.”
Fez uma pequena pausa, para que suas palavras produzissem o efeito desejado. Porém a maior parte dos ouvintes não se atreveu a extrair das mesmas a única conclusão lógica, pois esta seria muito fantástica e... terrível.
Mas Rhodan não gostava que seus amigos fossem mantidos na incerteza. Fez um ligeiro movimento com a mão e entrou em contato com a sala de comando:
Sikermann, ligue a tela grande e transfira a imagem captada para a sala de comando. Poderemos usar a tela de intercomunicação.
Esperou até que esta se iluminasse e exibisse a superfície do planeta de cristal, que deslizava lentamente. Ou melhor, já não deslizava lentamente embaixo da Sambo. O planeta girava em alta velocidade.
Não aumentamos a velocidade — disse Rhodan com a voz tranqüila. — Apenas, nosso vôo tornou-se mais rápido em virtude da adaptação dos planos temporais. Tenente Sikermann, ligue o amplificador e diminua a velocidade da Sambo, para que possamos reconhecer os detalhes da superfície. Fique de olho nas naves que nos perseguem.
A imagem projetada na tela tornou-se pouco nítida. O deserto e as montanhas tornaram-se visíveis, passaram a deslizar mais devagar, e finalmente foram substituídos por um cenário tão surpreendente que houve um murmúrio entre os espectadores.
No mundo de cristal a existência se desenvolvia num ritmo tão lento que não havia qualquer movimento perceptível. Toda vida parecia extinta e imobilizada.
Até agora.
Acontece que naquele instante centenas de lagartas andavam pela tela, seguiam suas ocupações, e fizeram como se nunca tivessem vivido num ritmo mais lento. Já não se percebia qualquer diferença na dimensão temporal.
Os espectadores reconheceram alguns habitantes de Tats-Tor, que haviam sido atingidos pelo contato dos dois planos, perdendo sua dimensão temporal e desaparecendo. Mas agora viviam no mundo de cristal — e viviam num ritmo tão rápido como as lagartas... e como as pessoas que se encontravam na Sambo.
Alguém gemeu. Devia ser uma pessoa que compreendia onde Rhodan pretendia chegar.
Ivã Ragow adiantou-se.
Já desconfiei disso quando examinei as lagartas enjauladas e vi que as mesmas começavam a mover-se. Não é seu plano temporal que se adapta ao nosso, mas nosso plano está perdendo a dimensão temporal que lhe é própria. Na verdade, estamos vivendo num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento que os homens da Terra ou os tripulantes da Drusus. Cada segundo que passamos aqui...
Interrompeu-se e cobriu o rosto com as mãos.
Rhodan aproximou-se e colocou a mão sobre seu ombro.
Isso é apenas uma suposição, Ragow. Ninguém sabe realmente quanto tempo está passando, e devemos ter o cuidado de não tirar conclusões precipitadas. Uma coisa é certa: estamos nos adaptando ao outro plano temporal, e não existe a menor dúvida de que estaremos perdidos se não voltarmos bem depressa ao nosso Universo. Mas nem por isso se pode dizer que a cada segundo, que passamos aqui, os homens da Drusus envelhecem vinte dias. As relações entre os dois planos são flexíveis e indefiníveis. Não conhecemos as leis que os regem, e que produzam todas as diferenças. Crest saiu de junto de Atlan, com o qual estivera conversando em voz baixa.
Existe alguma explicação para o fenômeno? — perguntou.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Esperava que o senhor fizesse essa pergunta, Crest. Infelizmente só posso responder que por enquanto não existe. O senhor tem alguma explicação? Ou Atlan?
Sim; temos uma explicação — disse Crest, procurando disfarçar o orgulho. — Mas não podemos garantir que seja correta. Nos últimos dez mil anos nunca houve um fenômeno igual a este. É completamente novo. Mas nossa tecnologia também é nova. Como por exemplo o gerador de campo de curvatura. Sabemos que com ele conseguimos romper a barreira que nos separava do outro plano temporal. Porém ninguém sabe dizer qual é a influência que o aparelho exerce sobre o tempo em si. Há algumas horas encontramo-nos sob a influência dos campos de curvatura que envolvem todo o planeta. Além disso, atravessamos várias vezes a cúpula do tempo, que é a formação negra que envolveu o gerador. No solo, a ruptura dessa parede não é possível, mas em grande altitude, onde esta se torna mais fácil, pode ser realizada. Sabemos quais são os efeitos desses fatos sobre nossa dimensão temporal?
Todos ficaram em silêncio. Nem mesmo Rhodan respondeu. Desconfiava de que Crest encontrara a solução do mistério, muito embora isso não lhes adiantasse nada.
A única coisa que sabiam era que se haviam tornado prisioneiros de outra dimensão temporal.
De uma dimensão temporal incrustada no Universo normal, que aos poucos o ia, decompondo e inundando.
Rhodan perguntou a si mesmo se realmente seria uma catástrofe, mas logo voltou ao presente duro e implacável.
Vamos atacá-los — disse.
Os rostos confiantes de seus oficiais lhe revelaram que ninguém pensara em outra possibilidade.
Será que existia outra possibilidade?

* * *

As duas naves-torpedo que os perseguiam haviam se aproximado. Mais uma vez, Rhodan reduziu a velocidade e mandou que Gucky e Ras atacassem ao mesmo tempo. O africano levou a arma de radiações. Já sabia que condições o aguardavam na nave inimiga e tinha certeza de que não demoraria em derrubá-la. Os robôs esféricos eram relativamente inofensivos e fáceis de subjugar.
Gucky, porém, preferiu mais uma vez não levar nenhuma arma. Tinha certeza de que poderia desarmado lidar com os desconhecidos.
Poucos segundos antes do momento em que saltaram, uma coisa muito importante aconteceu num lugar bem distante.

* * *

Eles se tornam visíveis, mestre.
O ser ouviu as palavras do comandante da frota cujas unidades estavam paradas junto ao anel luminoso para impedir que os estranhos regressassem a seu plano temporal. Fez um gesto de surpresa.
Visíveis? O que quer dizer com isso?
Ainda são mais rápidos que nós; mais ou menos o dobro. Mas já podemos vê-los sem recorrer à tela.
Como é que vocês me vêem? — perguntou com a voz tensa.
De forma normal e com a mesma velocidade.
Houve um suspiro aliviado.
Nesse caso os estranhos estão sendo absorvidos por nosso plano temporal — constatou. — Vencemos. Continue a bombardear o anel luminoso, para que não possam fugir. Queremos pegá-los vivos, para descobrir como vieram para cá sem que de início perdessem sua dimensão temporal. Iniciem a perseguição. Desligarei os aparelhos e passarei à velocidade normal.
Três das minhas naves saíram em perseguição dos desconhecidos. Uma delas caiu.
O mestre registrou a observação. Depois disse:
Se os estranhos não cessarem a resistência, atacarei com a nave-mãe. Permaneceremos em contato.
Com um forte movimento de seus robustos membros puxou o acelerador para trás.
A velocidade da gigantesca nave diminuiu rapidamente.
Aproximou-se lentamente da superfície do mundo de cristal.

* * *

Gucky caiu fortemente e viu-se no chão de um corredor. Permaneceu imóvel e aguçou o ouvido, mas não escutou os passos de qualquer robô. Concluiu que não haviam percebido sua chegada. Mas era possível que estivesse enganado. Talvez o espreitassem.
Era muito raro que Gucky sentisse medo. Na verdade, o sentimento que de repente passou a dominá-lo não era o medo, apenas a “certeza apavorante” de estar só. E a idéia de que a qualquer momento poderia teleportar-se a um lugar seguro não o tranqüilizava muito.
Em algum lugar, no interior do corpo metálico, trabalhavam máquinas. Ninguém saberia dizer de que tipo eram as máquinas propulsoras criadas pelos enigmáticos seres. Mas era de se supor que podiam atingir e ultrapassar a velocidade da luz. Sem esse pressuposto técnico não poderia haver qualquer espécie de navegação espacial interestelar.
Gucky caminhou tranqüilamente pelo corredor, sempre preparado para pôr-se em segurança com um salto de teleportação. Sua tarefa consistia apenas em inutilizar a nave. Ao que tudo indicava, não havia nenhum ser vivo a bordo, e esse fato tornava muito mais fácil sua decisão. Todavia...
Uma das portas estava aberta.
Dava para um recinto no qual, em vez de telas, havia simples vigias. Gucky viu a paisagem do planeta de cristal deslizar embaixo da nave; aliás, o planeta já não era de cristal. A vida despertara do estado de rigidez. Toda diferença das dimensões temporais havia desaparecido.
Mais adiante, a Sambo voava pelo espaço; era perfeitamente visível. A nave inimiga também reduziu a velocidade, de maneira tal que ambas se deslocassem à mesma velocidade. Concluiu que os robôs aguardavam; no momento não estavam atacando.
No corredor surgiu um zumbido, seguido do ruído de alguma coisa que se arrastava.
Gucky saltou para o lado e colocou-se atrás da porta.
Será que há alguém a bordo, alguém que não seja um robô?”, pensou indagando-se.
Um vulto maciço surgiu na porta. Pelo canto dos olhos Gucky percebeu que não se tratava de uma das esferas. Desta vez, era algo muito diferente.
Abaixou-se para não ser visto. No interior do recinto, a luz não era muito forte. Ao que parecia, os seres vinham de um mundo que gravitava em torno de um sol envelhecido. Mas o que é que isso tinha que ver com os robôs?
O vulto maciço rolou para dentro da sala.
Gucky sabia que um robô não precisava andar necessariamente para locomover-se. Este rolava sobre rodinhas colocadas embaixo de seu corpo. E o corpo era quase retangular, com quatro membros de cada lado, e mais dois na frente e dois atrás. O vulto não possuía cabeça; no lugar da mesma havia duas antenas encimadas por uma esfera dourada, que balançavam lentamente. Gucky teve a impressão de sentir alguma coisa parecida com uma corrente elétrica muito fraca, que provocou cócegas em seu corpo.
Isso não representava um perigo direto, mas poderia assumir esse caráter.
Aquilo que tinha diante de si era um robô. Por enquanto não conhecia a função que ele desempenhava. Gucky já não tinha tanta pressa em derrubar a nave. Estava interessado no robô. Qual seria sua reação ao perceber a presença de Gucky?
Por enquanto isso não aconteceu.
O colosso rolou para dentro da sala e parou no centro da mesma. Manteve-se imóvel e agitou as antenas. Seriam os órgãos sensoriais, com os quais via e ouvia? Qual seria o princípio de seu funcionamento?
Os fluxos mentais invisíveis atingiram o desconhecido e seguraram-no. Gucky sentiu perfeitamente que o robô notou a influência estranha e procurou mover-se.
Mas Gucky não o soltou.
Ao mesmo tempo, saiu de seu esconderijo e caminhou lentamente em torno do monstro, preparado para fugir a qualquer movimento. Queria descobrir onde era a “frente” do mesmo.
Isso não era tão fácil assim. Sempre se é tentado a procurar um rosto, por mais estranho que seja um ser. Até uma máquina costuma possuir um rosto. Mas este robô não possuía nenhum.
Não descobriu a finalidade dos doze braços. Nas extremidades dos tentáculos havia pequenas figuras esféricas, cujo formato parecia mudar constantemente. Às vezes lembravam uma mão, outras vezes um par de tenazes, e depois uma simples esfera. Aquelas mãos deviam ser feitas de material flexível, sendo capazes de modificar o formato segundo a finalidade que deveriam desempenhar. Tratava-se de uma conquista tecnológica que nem sequer os arcônidas conheciam.
Gucky tentou influenciar ou mesmo eliminar a modificação do formato, mas não conseguiu. Por isso não pôde impedir que de repente na extremidade do braço que lhe ficava mais próximo surgisse uma coisa estranha, cuja finalidade não compreendeu logo.
Lembrava vagamente um garfo de quatro dentes, cujas pontas estivessem dirigidas sobre Gucky. Não parecia ser uma arma, mas também não era nenhum brinquedo. Desviou-se ligeiramente, segurando o braço do robô. Mas nem mesmo sua capacidade telecinética pôde exercer qualquer influência sobre os processos que se desenrolavam no interior do monstro, pois não sabia como funcionava o mecanismo. Por isso o choque elétrico veio de surpresa.
Gucky sentiu que o fogo percorria seus nervos e atingia o cérebro. Suas capacidades parapsicológicas ficaram paralisadas. O robô ficou livre. Virou-se e com um leve zumbido rolou em direção ao rato-castor imobilizado.
Gucky não conseguiu fazer o menor movimento. Com um susto repentino descobriu que cometera um erro imperdoável: subestimara um inimigo.
Viu os doze braços estenderem-se em sua direção e sentiu a forte pressão das tenazes que o envolveram.

* * *

Ras Tschubai teve mais sorte.
Quando materializou-se, notou que valera a pena concentrar-se sobre a sala de comando da nave inimiga. Viu-se bem atrás dos três robôs esféricos e conseguiu inutilizá-los com um único disparo da arma energética, antes que pudessem fazer qualquer movimento e sequer notassem sua presença. Antes de iniciar a destruição sistemática da sala de comando, resolveu dar uma volta pela nave.
Procedeu com muita cautela, mas não descobriu nada de novo. As instalações continuavam a ser um mistério, pois apesar do treinamento hipnótico que recebera, não chegava a ser um cientista.
Quando estava inspecionando uma sala cujas paredes estavam cobertas de bobinas gigantes, ouviu passos que se aproximavam. Não chegou a compreender a finalidade do mecanismo. Um dos conhecidos robôs esféricos começou a manipular as chaves e voltou a sair da sala sem que tivesse notado a presença de Ras.
À medida que o africano penetrava no interior da nave, o zumbido dos propulsores e do mecanismo de direção tornava-se mais forte e grave. Finalmente, depois de uma curta teleportação, viu-se no meio das máquinas vibrantes da central de propulsão.
Abaixou-se imediatamente atrás de um gigantesco bloco metálico prateado e olhou em torno.
De início pensou Que o gigantesco recinto estivesse vazio e fosse controlado à distância, mas logo reconheceu o engano.
Deslizando pelo solo praticamente sem produzir qualquer ruído e deslocando-se entre os geradores e os quadros de comando, gigantescas sombras manipulavam uma chave ou outra.
Manipulavam...?
Eram robôs de trabalho, o que Ras percebeu ao primeiro olhar. Suas mãos consistiam de ferramentas de toda espécie, com as quais controlavam e abasteciam as máquinas. Seu formato diferia tanto, que não havia como chegar a qualquer conclusão sobre o corpo do construtor. Aliás, não havia o menor indício sobre a forma do inimigo, fosse ele quem fosse.
Ras manteve-se escondido, para observar tudo que fosse possível antes de dar início à destruição. Qualquer informação poderia ser decisiva para a vida ou a morte dos homens.
Lembrou-se de seu aparelho de comunicação audiovisual, que deveria funcionar, visto que a adaptação dos dois tempos estava consumada. Comprimiu um botão para ligá-lo e disse em voz baixa:

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