Gucky não
demoraria a descobrir.
O
rato-castor manteve-se imóvel diante do grupo das lagartas
imobilizadas, e prestou atenção ao seu uuum
prolongado. Por aqui o som só percorria cinco milímetros por
segundo, isto é, o som originário do outro plano temporal. Era
claro que esse retardamento não deixaria de produzir seus efeitos
acústicos.
“Estas
lagartas imobilizadas no tempo devem pensar”,
imaginou Gucky. “Por
que não tento descobrir o que se passa em seus pequenos e primitivos
cérebros? Não são prisioneiras como as outras; estão livres.
Talvez revelem alguma coisa que suas semelhantes estão ocultando.”
Gucky
passou à recepção e... cambaleou. Quase chegou a cair.
“Por
todos os sistemas solares do Saco de Carvão... o que será isso?”,
pensou assustado.
O cérebro
de Gucky não captou pensamentos inteligíveis e ordenados; apenas
ouviu um conjunto de impulsos prolongados, totalmente
incompreensíveis, que lembravam uma peça de música eletrônica. Em
termos acústicos, poderia dizer que era como se encostasse o ouvido
a uma casa de abelhas. Não conseguiu distinguir e classificar os
impulsos.
Desligou-se
imediatamente e isolou a parte telepática de seu cérebro de
mutante. Orientou-se com um olhar e teleportou-se para o lugar em que
Rhodan se encontrava. Materializou-se bem a seu lado.
— Então?
— perguntou Rhodan com a voz tranqüila. Estava acostumado em ver o
rato-castor surgir do nada. — Trate de subir a bordo. Decolaremos
dentro de poucos minutos.
Gucky
relatou em tom exaltado a experiência que acabara de fazer com as
lagartas. Era a primeira vez que não conseguia encontrar qualquer
explicação para um fenômeno.
— Afinal,
consegui ler os pensamentos dos outros “uuuns”,
ou melhor, das outras lagartas. Por que com as que vi agora foi
diferente? Também devem pensar, não é?
Rhodan
mostrou um ligeiro sorriso irônico.
— É
claro que pensam, Gucky; e pensam da mesma forma que as outras.
Apenas, seu pensamento se desenvolve em outro plano temporal. Pensam
mais devagar. O que você captou foram seus impulsos mentais,
transmitidos num ritmo setenta e duas mil vezes mais lento.
O
rato-castor não respondeu. As palavras de Rhodan pesavam em sua
consciência, pois compreendeu imediatamente o alcance das
conseqüências que teriam de ser extraídas daquela explicação.
Nunca
poderia haver uma comunicação entre o homem e o “uuum”!
O contato só se tornava possível quando um se transportasse para a
dimensão do outro.
Gucky saiu
saltitando em direção à Sambo.
Rhodan
insistiu para que partissem o quanto antes. Só ele compreendia todo
o alcance de um retardamento. Caso não estivesse muito enganado,
para Bell, que se encontrava a bordo da Drusus, já deviam ter
passado várias horas ou até dias.
Rhodan foi
o último a pisar no passadiço inclinado que levava à escotilha de
entrada. Lançou um olhar ligeiro para a K-7. A nave teria de ficar
onde estava, pois no momento era praticamente impossível trazê-la
de volta à sua dimensão temporal.
Sikermann,
que já estava sentado junto aos controles, aguardava nervosamente a
ordem de decolar. Gucky se dirigira ao setor em que Ragow e Noir
cuidavam das lagartas prisioneiras. Passou a interessar-se
tremendamente por aqueles seres vindos de outra dimensão. Agora, que
contava com o auxílio de Noir, não teve a menor dificuldade de
entrar em contato com aqueles seres.
A conversa
poderia ser iniciada.
Rhodan fez
um sinal para Sikermann quando a luz verde se acendeu, anunciando que
todas as escotilhas estavam fechadas e a nave achava-se pronta para
decolar.
— Suba
devagar. Não acelere muito. A rota já é conhecida. Pousaremos
ligeiramente a meio caminho para recolher Josua, o meteorólogo.
Depois vamos diretamente à janela luminosa.
Os minutos
seguintes passaram-se com uma rapidez extraordinária. Josua foi
recolhido e o vôo prosseguiu. Rhodan fitava Ininterruptamente as
largas telas frontais da sala de rumando. Não tirava os olhos da
planície que deslizava embaixo deles. O tenente Rous corrigia a rota
sempre que isso se tornava necessário. Afinal, não havia ninguém
que não conhecesse a rota entre o vulcão e a janela luminosa tão
bem quanto ele.
Bem longe,
junto à linha do horizonte, a uns cem quilômetros de distância,
via-se uma “parede”
escura e opaca. Essa “parede”
se erguia bem alto, mas tornava-se cada vez mais fraca e
transparente. Rous explicou a Rhodan que essa “parede”
não passava de energia pura, ou então de tempo transformado em
matéria. O fenômeno fora provocado por um efeito colateral ainda
desconhecido do gerador de campo de curvatura.
Tempo
transformado em matéria...!
Rhodan
sentiu um calafrio quando o significado dessas palavras atingiu sua
consciência. Era inacreditável! Mas devia ser isso mesmo.
A Sambo
passou pelo lugar onde antigamente se situara a pequena “muralha”
do tempo.
Alcançaram
a planície onde havia uma área vitrificada, ainda incandescente.
— Foi
ali que o raio energético mortal dos atemporais atingiu a superfície
— disse Rous em tom indiferente. — Isso aconteceu há cerca de
oito dias. A rocha ainda não se solidificou.
Rhodan não
deu atenção às palavras de Rous, nem ao círculo incandescente.
Seus olhos
sempre atentos haviam notado um ligeiro movimento no sentido de
deslocamento da nave.
Era no
lugar em que o anel luminoso assinalava o ponto de contato das duas
dimensões.
A
Janela
luminosa
continuava
no
mesmo lugar. Portanto, o caminho de volta a seu plano temporal não
estava fechado. Poderiam abandonar este Universo estranho.
Acontece
que não puderam...
Com o
formato de torpedo, umas vinte naves compridas, vindas do espaço,
correram vertiginosamente em direção ao anel luminoso e abriram um
tremendo fogo com suas peças energéticas contra o fenômeno
luminoso. As naves desconhecidas percorriam dois quilômetros por
segundo. Em sua dimensão temporal, isso correspondia à metade da
velocidade da luz.
Estendida
diante da abertura na barreira do tempo, a cortina de fogo tornava-se
cada vez mais densa. Rhodan viu imediatamente que seria impossível
romper a barragem. Os campos defensivos de sua nave não resistiriam.
Só
restava uma possibilidade...
3
— Pronto!
—
disse
alguém.
—
Pode ligar.
Sombras
deslizavam pelos corredores e compartimentos da gigantesca nave, que
circulava a grande distância em torno daquele sistema solar. Corria
à velocidade da luz, sem que o compensador de tempo tivesse sido
ligado. O efeito esperado surgiu imediatamente. Os estranhos que
haviam penetrado em sua dimensão tornaram-se visíveis.
— Está
ligado — soou a resposta vinda da nave-mãe, que se encontrava a
várias horas-luz
de
distância,
mantendo-se
na
atmosfera do planeta, à espreita do inimigo. — Pode orientar-nos.
Isso era
imprescindível, pois só assim os estranhos se tornavam visíveis
nas telas do gigante espacial. As naves menores continuavam “cegas”
e dependiam das ordens do gigante, que dirigia a ação.
A sombra
inclinou-se sobre as telas.
Lá
embaixo, naquele mundo quase superpovoado, havia um movimento
intenso. Há pouco um planeta de outro plano temporal fora atingido
pela frente do tempo, e os seres estranhos foram transferidos ao seu
plano existencial. As lagartas cuidariam deles; levá-los-iam aos
alojamentos e lhes forneceriam alimento, A comunicação não
representava qualquer problema, pois os estranhos já não viviam
mais depressa que eles, já que se haviam adaptado a seu ritmo.
...Com
exceção daqueles que, mediante o auxílio da técnica, conseguiram
penetrar em seu plano temporal, conservando sua própria dimensão.
Moviam-se com tamanha rapidez que permaneciam invisíveis.
Representavam um perigo, pois o objetivo dos invisíveis consistia em
igualar os dois planos.
A estação
retransmissora de imagem funcionava perfeitamente.
— As
armas estão preparadas? — perguntou alguém.
— Estão
preparadas! — foi a resposta vinda da nave capitania.
— Pois
aumente
a
velocidade
para
aproximadamente metade da luz. Essa velocidade é tão elevada que
nem mesmo os estranhos poderão desviar-se do ataque. Eu os
orientarei.
Antes que
a frota de guerra pudesse executar a ordem, uma coisa estranha
aconteceu.
Lá
embaixo, perto do lugar em que minutos atrás os seis estranhos
haviam penetrado em seu plano existencial, surgiu um fenômeno
luminoso, um anel gigantesco. Os observadores enigmáticos já
conheciam o fenômeno. Era causado pelo aparelho que permitiu aos
outros seres o ingresso em seu plano temporal.
“Estariam
recebendo reforços?”,
pensou um deles.
O anel
chamejante fechou-se. Quase no mesmo instante, uma esfera escura
surgiu no centro do mesmo. Vinda do nada, penetrou naquele mundo e
logo desacelerou. Num vôo seguro, dirigiu-se calmamente às
montanhas onde a esfera menor estava à espera.
O receptor
captou impulsos distorcidos.
O mestre
ordenou à sua frota:
— Aguardem!
As naves
pretas esperaram. Dali
a
meio
segundo
veio
a
contra-ordem:
— Atacar!
Dirigirei a ação.
Haviam
passado já uns dez minutos. Em suas telas os desconhecidos se
deslocavam à velocidade natural. Para eles, o tempo também passava
mais depressa do que para aqueles que não se deslocavam à
velocidade da luz,
— Vôo
concêntrico à metade da velocidade da luz.
Os sinais
de comando provocaram a reação das naves. Desenvolvendo a
velocidade ordenada, vinte cruzadores esguios precipitaram-se para a
superfície do planeta e abriram fogo.
Mas logo
receberam outras ordens...
*
* *
O Tenente
Rous deu de ombros. Estava perplexo.
— Sinto
muito, mas não lhe posso dar qualquer explicação.
Steiner
também não sabe
o
que
fazer.
Pelos
nossos
cálculos,
para eles não devem ter passado mais de dez segundos desde o momento
em que penetramos neste plano temporal. Não é possível que nestes
dez segundos tenham descoberto qualquer método novo.
— Acontece
que descobriram! — disse Rhodan
em
tom
enfático,
acrescentando
com a voz séria: — Estão reagindo em milésimos de segundo.
Parece impossível, mas a prova está aí. Se não encontrarmos uma
explicação, estaremos liquidados.
Enquanto
falava, não tirava os olhos da tela.
As naves
desconhecidas tinham formato extremamente longo, fino e pontudo. Eram
feitas de metal negro. Haviam descido junto à janela luminosa e
bombardeavam-na com suas peças de artilharia energética. Colocaram
uma verdadeira barreira de energia chamejante à frente da mesma,
tornando impossível a volta ao Universo do homem ou a chegada de
novos reforços.
— Não
poderíamos atacar as naves pretas?
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— É
claro que poderíamos, mas não sei como nossos campos defensivos
reagirão a raios
energéticos
que
percorrem
apenas
quatro quilômetros por segundo. O senhor tem uma idéia sobre isso?
Rous
sacudiu a cabeça. De lugar mais afastado, Steiner disse:
— Imagino
quais são suas suposições. Os raios energéticos estão sujeitos
às leis do outro plano temporal. Sua força destrutiva deve ser
maior — hesitou um pouco. — Será que não poderia ser menor?
— O
senhor acha que devemos experimentar? — perguntou Rhodan.
Steiner
não respondeu. Rhodan soltou um suspiro.
— Uma
coisa é certa. Eles nos vêem, e não com um atraso de cinco
minutos; no máximo o atraso é de cinco segundos. Fizeram algum
progresso. Não sei o que fazer. Sikermann, peça a Crest e Atlan que
compareçam à sala de comando.
A Sambo
encontrava-se a vinte quilômetros da janela luminosa. A mão de
Sikermann estava pousada sobre a alavanca de aceleração. Assim que
um dos feixes energéticos que bloqueavam sua retirada se dirigisse
para eles, poderia fazer com que a nave disparasse para o alto.
Disporia de dez segundos.
Crest foi
o primeiro que entrou na sala de comando. Sua figura alta e
veneranda, com os cabelos brancos, os olhos avermelhados de albino e
as mãos finas provavam que era arcônida. Sorriu para Rhodan e os
outros homens e acomodou-se numa das poltronas.
Atlan, o
imortal, não tinha o aspecto de arcônida. Vivera durante dez mil
anos na Terra, entre os homens, sem ser reconhecido, e adotara alguns
de seus hábitos. A máscara que costumava exibir deixara seus
sinais, apagando algumas das características do arcônida. Também
sorriu. Seu sorriso exprimia uma ironia misturada com uma sensação
de superioridade, que em outra oportunidade teria irritado Rhodan.
Hoje não.
— Não
tive a intenção de trazê-los nesta expedição — disse com a voz
mais tranqüila possível. — Foram os senhores que insistiram dela
participar. Por isso quero dizer-lhes que encontramo-nos numa
situação para a qual não vejo nenhuma saída.
Relatou em
palavras ligeiras o que acabara de acontecer. Crest e Atlan ouviram
sem interrompê-lo. Seus rostos exprimiam preocupação; mesmo Atlan
deixara de sorrir.
— Agora
não sabe o que fazer, não é, bárbaro? — perguntou Atlan em tom
irônico. — E quer que nós, que não passamos de arcônidas
degenerados, o ajudemos. Não acha que é uma pretensão um tanto
absurda?
— De
forma alguma — respondeu Rhodan. — Nunca afirmei que você ou
Crest fossem indivíduos degenerados. Pelo contrário! Acho que são
os representantes mais capazes de seu povo. Por que estamos
discutindo? Seria melhor se todos refletíssemos para descobrir um
meio de voltar à nossa dimensão temporal. Isto aqui não é o
passado, nem o presente ou o futuro. Apenas é... diferente.
Atlan fez
um gesto afirmativo.
— Sim,
Perry; concordo com você. Isto aqui é diferente. Mas soubemos vir;
logo, saberemos voltar.
— Mas
não será através da barragem existente junto à janela luminosa.
Atlan
voltou a fazer um gesto afirmativo.
— Antes
de mais nada precisamos encontrar uma explicação de como
subitamente esses seres conseguiram reagir tão depressa, embora,
segundo se diz, vivam setenta e duas mil vezes mais devagar que nós.
O que terá acontecido?
— Bem
que gostaria de saber... — principiou o Tenente Rous, mas Atlan fez
um gesto para que se calasse.
— Saberemos,
desde que saibamos usar a lógica. A primeira lembrança que me
ocorre é a das lagartas que temos a bordo. Perderam sua dimensão
temporal e se adaptaram à nossa. Não seria possível que os
invisíveis também tivessem feito essa adaptação?
— Foi
exatamente o que pensei — disse Rhodan, sem dar a menor atenção
ao sorriso de Atlan. — Continue.
— A
coisa é muito simples. Até hoje não sabemos exatamente o que
acontece quando se atinge a velocidade da luz, porque nunca tivemos
oportunidade de experimentar. À nossa velocidade da luz, entramos em
transição, com o que os compensadores de tempo passam a funcionar
automaticamente. Até hoje ninguém tentou viajar à velocidade da
luz sem esses aparelhos. Exceto o Tenente Rous e seus homens. E,
mesmo ali, isso foi feito apenas em sentido relativo. De qualquer
maneira, o senhor não poderá deixar de reconhecer que isto
representa uma resposta.
Rhodan
acenou com a cabeça, mas preferiu não contestar o imortal. Aguardou
tranquilamente para ver se Atlan confirmaria as suposições que lhe
haviam ocorrido.
— O que
poderia ter acontecido quando esses seres tiveram a idéia de voar
também à velocidade da luz? Será que com isso a concepção do
tempo sofreu uma deformação? Passaram a viver tão depressa como
nós? O que terá acontecido se assim foi? Será que nos vêem da
mesma forma que nós nos vemos? Para eles o tempo passará tão
depressa como para nós? Terão de morrer mais depressa, porque vivem
mais depressa? Ainda teremos tempo para desenvolver estas
especulações. O que importa é encontrar uma explicação, e, face
ao que acabo de dizer, acredito que já a encontramos.
— Isso
seria...! — disse Steiner em tom de espanto e lançou um olhar de
perplexidade para Atlan, que retribuiu o olhar com um sorriso.
Rhodan e
Sikermann fizeram gestos de assentimento. Crest mantinha-se tranqüilo
e mudo, mas em seus olhos calmos brilhava o orgulho que sua
ascendência lhe infundia. Ainda sabiam desenvolver um raciocínio
coerente e extrair conclusões decisivas.
Ao menos
Atlan era capaz disso.
Rhodan
disse:
— Sinto-me
mais tranqüilo ao ouvir uma explicação relativamente simples,
embora ainda não tenhamos nenhuma prova de que seja correta —
lançou um olhar para a tela. — Três das naves pretas suspenderam
o fogo. Sobem relativamente devagar e viram a proa para nós.
Acredito que daqui a pouco teremos oportunidade de apurar a diferença
de tempo pela qual eles se aproximaram de nós. Então poderemos
deduzir seu tempo de reação.
Atlan
sentara ao lado de Crest. Os dois arcônidas conversavam em voz
baixa. Rhodan percebeu que discutiam os meios de atingir o inimigo.
— Mantenha
a Sambo preparada para partir a qualquer momento — disse Rhodan,
dirigindo-se ao piloto e voltou a contemplar a tela.
As três
naves desconhecidas haviam subido às camadas superiores da
atmosfera, sempre com a proa dirigida para a Sambo. Tornava-se
evidente que pretendiam lançar um ataque.
— Guie-se
pelos meus comandos, tenente! Precisamos descobrir dentro de quanto
tempo conseguem reagir a uma modificação na situação — observou
Rhodan.
Tratava-se
de uma oportunidade única de verificar o tempo de reação. Por
ocasião do primeiro ataque desfechado contra o Tenente Rous esse
tempo fora de cinco minutos. Mas agora talvez tivesse sofrido uma
redução acentuada.
As três
naves emitiram um lampejo. Rhodan percebeu-o no mesmo instante em que
os raios atingiram os campos defensivos da Sambo. Antes disso, não
poderia vê-los.
Os
ponteiros executaram movimentos violentos e o zumbido que se ouvia no
interior da nave cresceu subitamente.
— Vamos
embora! — gritou Rhodan.
A reação
de Sikermann foi imediata. A Sambo saltou e atingiu a estratosfera do
mundo de cristal. Dali a pouco alcançou a marca dos dois quilômetros
por segundo, deixando para trás os raios energéticos que a
perseguiam. Mas as três naves não desistiram. Seguiram-na.
Três
quilômetros por segundo; isso correspondia a setenta e cinco por
cento da velocidade relativa da luz. Rhodan não sabia explicar como
os seres conseguiam vê-los..
Se a
teoria de Atlan fosse correta...
Mas
poderia sê-lo? Ás três naves que os perseguiam só percorriam dois
quilômetros por segundo. Em seu plano temporal isso era apenas
metade da velocidade da luz.
Rhodan
desistiu de quebrar a cabeça sobre o problema. Não poderia saber
que lá fora, a vários dias-luz do mundo de cristal, a nave-mãe dos
seres cruzava o espaço à velocidade verdadeira da luz —
verdadeira no sentido do outro plano temporal — e mantinha contato
com as unidades da frota negra através das estações
retransmissoras.
— Os
campos defensivos agüentaram — disse Atlan em tom seco.
Interrompera por um instante a palestra que vinha mantendo com Crest.
— Mas tenho minhas dúvidas sobre se agüentarão o bombardeio de
dezessete peças de artilharia.
— Neste
caso estamos de pleno acordo, arcônida — respondeu Rhodan com a
voz tranqüila. — Nem vamos arriscar a experiência. Apenas
gostaria de saber por quanto tempo ainda poderemos brincar de
esconder com o inimigo.
— Brincar...?
— perguntou Gucky de repente. — Será que eles brincam de
esconder?
Rhodan
respirou fortemente e dirigiu-se ao rato-castor.
— Quero
evitar qualquer mal-entendido — disse em tom enfático. — Ninguém
afirmou que estão brincando. Sei que você gosta de brincar, mas
esta não é a hora.
Subitamente
estacou e lançou um olhar atento para o rato-castor.
— Bem,
ao menos a palavra brincar não seria uma designação adequada —
fez outra pausa para refletir. — Chame Ras Tschubai! — disse.
Gucky
chilreou algumas palavras incompreensíveis, mas obedeceu. Escorregou
do sofá e caminhou em direção à porta. Mas antes de chegar lá
resolveu outra coisa. Parou, concentrou-se e desapareceu em meio a
uma nuvem de ar tremeluzente.
Preferira
teleportar-se.
Atlan não
era telepata.
— O que
pretende fazer com Ras Tschubai? — perguntou.
Rhodan não
tirou os olhos da tela. Embaixo deles deslizava a superfície do
mundo de cristal. Na verdade, o planeta já se transformara numa
gigantesca esfera, em torno da qual a Sambo se deslocava à
velocidade de três quilômetros por segundo. Dessa forma, estariam
razoavelmente protegidos contra um eventual ataque de surpresa.
— Ras
Tschubai é um teleportador, tal qual Gucky. Pretendo enviar os dois
a uma das naves inimigas.
Até mesmo
Atlan espantou-se com o plano. Depois de alguns segundos de silêncio,
perguntou:
— Por
quê?
Com um
sorriso suave, Rhodan respondeu:
— Quero
saber como são esses seres. Apenas isto.
*
* *
Ivã
Ragow, o biólogo, não se interessava pelo aspecto exterior dos
inimigos, nem pelos ataques que a frota deles vinha desfechando
contra a Sambo. O que o mantinha ocupado naquele momento era o estudo
da vida psíquica das lagartas aprisionadas. Noir e John Marshall
ajudaram-no. Com o auxílio destes, conseguira até estabelecer uma
verdadeira comunicação com esses seres.
Noir era
hipno. Não tinha a menor dificuldade em projetar uma imagem mental
nos cérebros dos prisioneiros, e essa mensagem correspondia
exatamente àquilo que se pretendia dizer ou perguntar aos mesmos. As
lagartas formulavam a resposta em seus pensamentos, e esta era
captada por Marshall, o telepata.
Era tudo
muito simples.
Ragow
sacudiu a cabeça de espanto.
— Noir,
pergunte-lhes se conhecem seus senhores, e de que forma recebem as
ordens dos seus superiores.
Noir
concentrou-se para criar a respectiva imagem mental. Marshall
procurou sentir a resposta. Quando veio, sacudiu a cabeça.
— Nunca
os viram, Ragow. Segundo afirmam, as ordens são transmitidas pelo
rádio ou por meio de robôs.
— Coitados
— disse Ragow em tom distraído. — Quer dizer que nunca os viram,
embora vivam no mesmo plano temporal. É de espantar. Talvez sejam
criaturas muito esquivas.
Depois de
algum tempo, Marshall disse:
— Não é
isso. Pelo que dizem as lagartas, eles não têm nada de esquivo.
Devem ter um motivo todo especial para nunca aparecer. Não consigo
descobrir mais que isto.
Ragow
contemplou os prisioneiros. Depois dedicou sua atenção a outra
jaula, na qual estavam três lagartas imóveis. Esses exemplares
haviam sido levados para bordo da Sambo por meio de um campo
antigravitacional. Foram deixados no seu plano temporal, para que
pudessem ser estudados assim que chegassem à Terra.
— Talvez
— dissera Steiner — o salto pelo hiperespaço traga uma surpresa.
Uma das
lagartas mantinha o corpo ereto e estava levantando a presa do lado
direito. Nas últimas duas horas, os membros finos haviam subido dez
centímetros.
As outras
estavam deitadas. Parecia que estavam pensando. Era possível que
realmente estivessem.
Ragow
voltou a olhar a que estava de pé.
A presa
direita subira mais cinco centímetros.
Não numa
hora, mas em pouco menos de dois minutos.
*
* *
Ras
Tschubai, um africano, era de estatura robusta e, tal qual os outros
mutantes, recebera a ducha celular do planeta Peregrino, que lhe
conferia uma imortalidade relativa, ao menos por um tempo
ligeiramente superior a sessenta anos.
Seu dom
era o da teleportação.
De
repente, apareceu na sala de comando ao lado de Gucky, e anunciou a
Rhodan que estava pronto para entrar em ação.
A Sambo
continuava a circular em torno do planeta de cristal, nome que lhe
fora dado em virtude de sua vida paralisada. As três naves negras
dos inimigos seguiam-na em ritmo um pouco mais lento. Esforçavam-se
para atingir a esfera mais veloz. Alguns disparos energéticos
isolados erraram o alvo móvel.
Rhodan
pediu a Sikermann que não permitisse que a distância fosse reduzida
a menos de cem quilômetros. Numa distância dessas não havia como
fazer uma pontaria segura, ainda mais que na dimensão em que se
encontravam a mesma correspondia a 25 segundos-luz.
Dirigiu-se
a Ras Tschubai e Gucky.
— Olhem
a tela de popa. Ali estão as três naves. A distância é de cem
quilômetros. Saltem juntos e permaneçam sempre um ao lado do outro.
Quero saber como são esses seres. Gucky procurará manter contato
telepático com eles, enquanto Ras lhe dará cobertura. Se forem
atacados, defendam-se. É possível que aqueles que se encontram
naquelas naves não vivam mais devagar que nós. Portanto, tenham
cuidado.
— Talvez
não sejam telepatas — ponderou o rato-castor.
— Nesse
caso voltem e levem Noir. Ras Tschubai tirou o radiador do cinto e
destravou-o. Ao que parecia, não estava disposto a assumir qualquer
risco. Gucky não levou nenhuma arma, mas fez esta pergunta:
— Que
tal se depositássemos uma bombinha nessas naves-aspargo?
Rhodan
reprimiu um sorriso.
— Calma,
meu filho! Ainda não sabemos quais são as intenções deles. É
possível que apenas se sintam ameaçados e estejam agindo para
defender-se. O que determina o caráter de um indivíduo não são
seus atos, mas os seus motivos.
— Suas
palavras são muito sábias — respondeu Gucky em tom irônico e fez
uma mesura. Seus olhos castanhos piscaram alegremente. — Tomara que
eles tenham a mesma opinião.
— Procurem
voltar depressa — disse Rhodan. — Boa sorte!
Gucky
aproximou-se de Ras Tschubai e segurou-lhe a mão. Fizeram um sinal,
concentraram-se ao mesmo tempo e desapareceram.
Por algum
tempo Rhodan fitou o espaço vazio; depois voltou a dirigir-se a
Sikermann:
— Mantenha
a rota. Modifique-a apenas se surgir um caso de emergência. A
velocidade deverá ser constante.
Estava
muito curioso para saber o que os dois teleportadores lhe contariam.
*
* *
Ao notar a
rematerialização, Gucky sentiu a mão do africano pousada na sua. O
salto simultâneo fora bem sucedido, pois não se haviam afastado um
do outro.
Em torno
deles reinava a penumbra. Sob seus pés havia um soalho flexível,
semelhante a um tapete de plástico. As paredes brilhavam numa luz
indefinida, que delas parecia emanar. O teto era negro e máquinas
desconhecidas vibravam.
Não se
ouvia mais nada.
— Está
escutando alguma coisa, com exceção do som das máquinas?
O africano
fez que não. Depois de uma pausa, cochichou:
— E
você? Está captando impulsos mentais?
Gucky
sacudiu a cabeça.
— Apenas
percebo alguns fragmentos confusos, semelhantes aos que captei das
lagartas petrificadas. Mas os impulsos vêm de muito longe; sinto-o
por causa da intensidade. Um momento! Isso mesmo, sou um burro!
— Sempre
acreditei que fosse um rato-castor — disse Ras Tschubai...
Gucky não
estava disposto a ouvir piadas.
— O que
captei foram os impulsos mentais dos homens que se encontram na Sambo
e dos seres do mundo de cristal. Nesta nave não há ninguém que
esteja pensando. Ou então estão usando aparelhos de bloqueio. Não
consigo localizar ninguém.
Ras esteve
a ponto de responder, mas resolveu ficar quieto...
Ouviram o
som fraco de passos. Eram irregulares e arrastados. Estavam se
aproximando.
— Vem
alguém — disse Ras em tom assustado.
Forçou a
vista, mas o corredor que agora já conseguia enxergar fez uma
curva.. Os passos vinham do outro lado da curva e aproximavam-se
inexoravelmente.
O africano
segurou o braço de Gucky.
— Não
acha que devíamos...
— Dar o
fora? Nem pense nisso! Muito bem; concordo plenamente em que
procuremos um esconderijo, pois quero olhar esse ser com toda calma.
Vamos até ali.
A poucos
metros de distância encontraram um nicho. Provavelmente se destinava
ao depósito de certos objetos. Naquele momento prestava um serviço
excelente a Ras e Gucky, já que os escondeu dos olhos do alguém que
se aproximava.
Os olhos
dos mutantes já se haviam acostumados à semi-escuridão; viam
perfeitamente os arredores. Nas paredes, junto às fontes de luz,
viram figuras esquisitas, cuja finalidade não conseguiram adivinhar.
Gucky logo percebeu que não se tratava de quadros. Antes pareciam
esculturas, se bem que não tivesse muita certeza. Havia várias
portas que levavam a compartimentos desconhecidos.
Uma sombra
começou a tomar forma.
Não media
mais de um metro, tinha formato esférico e, pelo que se via,
dispunha de vários membros que lhe serviam à locomoção. Finos
tentáculos ou antenas subiam verticalmente, balançando levemente.
O ser
aproximou-se. Os detalhes tornaram-se perceptíveis.
Ras
esforçou-se em vão para procurar os olhos, a boca ou as orelhas.
“Estranho,
esse ser parece não ter rosto!”,
admirou-se o mutante.
Seu corpo
era assimétrico. Não era redondo nem quadrado, nem gordo ou magro.
Parecia um grande pingo de metal líquido endurecido repentinamente.
Ras
Tschubai falou com a voz quase inaudível.
— Ele se
move muito devagar, mas não há dúvida de que se move. Logo,
encontra-se em nosso plano temporal.
Gucky
acenou com a cabeça, mas não disse nada. Seus olhos fascinados
contemplavam o ser que deslizava lentamente na direção em que se
encontravam. O termo deslizar era a expressão correta para designar
essa forma de locomoção. Às pernas — ou membros — moviam-se
ininterruptamente. Duas ou três das pernas curtas sempre estavam em
contato com o solo. Praticamente poderia caminhar, fosse qual fosse
praticamente a posição de seu corpo.
“Um
ouriço-do-mar amassado! É este o aspecto desse ser. Para que servem
as antenas? Será um telepata?”,
pensou o rato-castor.
Gucky fez
mais um esforço para penetrar na mente do estranho ser, que se
encontrava a menos de dois metros. A tentativa fracassou, da mesma
forma que as anteriores. Os impulsos tateantes de Gucky esbarraram
numa muralha.
Ras tinha
razão. O ser movia-se devagar, embora certamente tivesse passado por
um processo de adaptação. Mas era possível que aquilo fossem
apenas os movimentos naturais de uma inteligência que tinha tempo.
A idéia
do tempo provocou um calafrio em Gucky, que logo se lembrou de sua
missão. Precisava encontrar um meio de entrar em contato com o
estranho.
Mas teria
de ser justamente com este? Talvez fosse preferível observar essas
criaturas por mais algum tempo, antes de apresentar-se às mesmas.
Era bem possível que fosse apenas um tripulante de categoria
subalterna. Se Gucky entrasse em contato com alguém, esse alguém
deveria ser o comandante do cruzador negro.
Mantiveram-se
em silêncio e imóveis, até que o indefinível se tivesse afastado.
Ras
suspirou aliviado.
— Que
seres serão estes? — perguntou em tom de espanto. — Serão
Insetos ou mamíferos? Será que pensam? conseguiu apurar alguma
coisa?
— Não
há dúvida de que pensam, do contrário não poderiam travar uma
guerra — respondeu Gucky em tom sarcástico. — Mas, para dizer a
verdade, não consegui captar nenhum pensamento. Você viu as pernas?
São dispostas de tal forma que ele sempre “cai”
sobre os pés. Enquanto anda, todas se movem.
Fez uma
pequena pausa.
— Quase
parece um autômato — acrescentou.
Ras não
respondeu.
— Vamos
à sala de comando — disse, adivinhando os pensamentos do
rato-castor. — Estou curioso para ver a reação deles quando
aparecermos à sua frente.
— Já
que seu aspecto é tão estranho, acreditarão que somos monstros —
conjeturou Gucky com certa dose de lógica. — Tomara que não se
assustem muito.
— Se
virem você em primeiro lugar — principiou Ras, mas preferiu não
prosseguir. Era melhor assim.
Gucky
soltou um ligeiro chiado e disse:
— Vamos
saltar para a sala de comando. Mas gostaria primeiro de saber onde
fica!
Esse era o
problema. Um teleportador só pode chegar ao destino quando pode
vê-lo ou ao menos imaginá-lo. Em outras palavras, alguém lhes
deveria ter descrito o local, ou eles mesmo já deviam ter estado lá.
Naquele
momento, nenhuma dessas condições se verificava.
Gucky deu
de ombros.
— Vamos
andando; talvez tenhamos sorte. Se aparecer alguém, escondemo-nos
num nicho. Estes existem em toda parte. Além disso, os “ouriços”
são tão lentos que dificilmente poderão representar um perigo
maior.
Depois da
segunda curva, alcançaram o ser que já haviam visto. Os passos que
ouviam poderiam induzir em engano quanto à velocidade com que esse
ser se deslocava. A cada passo avançava no máximo dez centímetros,
e entre um passo e outro decorriam uns três ou quatro segundos.
Esperaram
até que desaparecesse por uma porta. Isso demorou quase dois
minutos.
— Estão
um pouco atrasados no tempo — cochichou Gucky.
Nem
desconfiava de que tinha razão, embora num sentido bem diferente do
que acreditava.
Depois que
o caminho ficou livre, avançaram mais depressa. Não se encontraram
com mais nenhum daqueles seres. Não tiveram maiores dificuldades em
achar a sala de comando, pois a nave não possuía o conhecido
formato esférico, sendo comprida e de diâmetro reduzido. Por isso a
sala de comando só poderia ficar na proa.
O corredor
terminava diante de uma porta.
Ras
Tschubai não saberia dizer por que ele e Gucky viam aquela parede
lisa como uma porta. Não havia o menor sinal disso. Não viram
nenhuma maçaneta ou botão, nenhuma reentrância em que pudessem
enfiar a mão a fim de desencadear o impulso que ativaria o fecho.
Era uma
parede lisa — apenas isso.
Gucky
começou a tatear e sentiu o primeiro obstáculo telecinético.
— É uma
fechadura eletrônica — cochichou. — Só pode ser ativada por
meio de ondas elétricas. Eles sempre carregam um transmissor, quando
pretendem passar por uma porta. É estranho.
— Você
pode abrir a porta? — perguntou Ras com a voz preocupada.
— Tentarei
— consolou-o Gucky e concentrou-se na tarefa.
Enquanto
isso, o africano montava guarda. Continuava a segurar o punho do
radiador de impulso, ao qual nenhum tipo de matéria resistiria,
desde que desenvolvesse toda sua potência.
Atrás da
parede — ou da porta ouviu-se um ruído, Ouviu-se um ligeiro clic.
A parede escorregou para o lado. Surgiu um grande compartimento,
cheio de instrumentos e estranhos aparelhos. Não havia dúvida de
que era a sala de comando da nave preta.
A primeira
coisa a chamar a atenção de Ras foi uma gigantesca tela oval,
embutida na parede da frente. Nela se viu a Sambo, aparentemente
imóvel e na expectativa, quando na verdade se deslocava à
velocidade de três quilômetros por segundo.
À frente
da tela estavam três daqueles deres. Ao que parecia, não haviam
notado que a porta se abrira. Ao menos não procuraram deter os
intrusos. Ao lado deles, encontravam-se pesados blocos de metal que
abrigavam máquinas ou outras instalações desconhecidas.
Num canto,
mais à direita, outra tela, um pouco menor, brilhava.
Ao vê-la,
Ras estremeceu, embora não compreendesse a imagem projetada na tela.
Dois
círculos cercavam um ponto, deslocavam-se lentamente e voltavam ao
mesmo lugar. Um dos círculos era vermelho e o outro verde. Era
evidente que alguém cuidava para que os dois círculos se cobrissem
e para que o ponto ficasse exatamente no centro dos mesmos.
Ras não
compreendeu a finalidade daquilo, mas imaginava se tratar de um
dispositivo destinado a manter a rota fixada. Essa suposição era
correta, mas naquele momento ainda não sabia disso.
O ser que
se encontrava entre os outros dois virou-se lentamente.
Gucky
continuava a esforçar-se para estabelecer contato telepático com a
estranha criatura, mas não conseguiu. Não sentiu a menor reação
mental. Até parecia que os estranhos seres não passavam de
autômatos sem alma; era ao menos a impressão de Gucky.
Tentou o
método acústico.
— Por
que nos perseguem? — perguntou na língua dos arcônidas, conhecida
em todo o Universo. — Não queremos a guerra.
O ser
finalmente acabara de virar-se por completo. Era evidente que ainda
não havia atingido o plano temporal dos terranos. Mas aproximava-se
perigosamente do mesmo.
Gucky e
Ras viram que os membros destinados à locomoção retraíram-se para
dentro da pele do ser esférico. Em compensação surgiram braços,
em cuja extremidade se viam vários instrumentos. Eram pequenas
tenazes, chaves de fenda, dedos e até ventosas. Deveriam possuir uma
inteligência muito versátil.
Mas não
tinham rosto.
Gucky e
Ras não compreendiam como podiam ver, ouvir ou falar... se é que
podiam.
Um dos
braços encolheu-se lentamente, e dali a meio minuto uma abertura
redonda saiu do ventre esférico.
O
indefinível não emitia qualquer impulso mental, motivo por que
Gucky não pôde descobrir as intenções daquele ser estranho. Foi
tomado de surpresa, tal qual Ras, quando ele abriu fogo.
Sem o
menor aviso, um ofuscante raio energético passou entre Ras e Gucky,
batendo na parede e abrindo-se em leque...
— Seu
bicho nojento! — gritou Gucky e saltou por baixo do raio, à
procura de abrigo.
Encontrou
um bloco de metal que o protegeria. Enquanto isso, seus fluxos
telecinéticos atingiram o ser e obrigaram-no a rolar um pouco para
trás. O raio energético subiu na vertical e derreteu o teto da sala
de comando.
Ras também
procurara abrigo. E não hesitou em utilizar a arma que trazia.
Olhando por cima do bloco, fez pontaria, puxou o gatilho e não o
soltou até que o estranho ser, envolto em fogo, suspendesse o
ataque. Até então ninguém resistira a um banho energético com
este.
Alguma
coisa caiu pesadamente, produzindo um som metálico.
Gucky
levantou cautelosamente a cabeça, e procurou descobrir a causa do
estranho ruído.
A visão
oferecida ao rato-castor era tão espantosa que, por um instante,
decisivo esqueceu-se dos outros dois seres que se encontravam na sala
de comando.
O atacante
se abrira.
Uma larga
fenda surgira na esfera, pondo à mostra seu interior. Os fios
prateados, chamuscados pelo calor e descoloridos em vários pontos,
com as curvas e os entrelaçamentos complicados, lembravam o interior
de um sofisticado computador eletrônico. As caixinhas metálicas,
algumas delas destruídas, caíram de seus suportes ruidosamente ao
chão, onde se imobilizavam. Um tubo estourou com um ruído surdo, ou
então uma coisa que parecia um tubo. Uma chama azul levantou-se para
apagar-se em seguida. Subitamente o cheiro de borracha queimada e de
ozônio encheu a sala de comando.
Ras disse
em tom assustado:
— Robôs!
Não passam de robôs!
Gucky
continuava a fitar o quadro que não conseguia compreender.
— São
robôs; é verdade — confirmou, mas logo acrescentou: — Mas não
podemos afirmar que essas esferas realmente sejam os verdadeiros
cabeças do ataque.
Ras esteve
a ponto de responder, mas não teve tempo.
— Cuidado!
— berrou e levantou o radiador de impulsos, para abrir fogo sem
fazer pontaria.
As outras
duas esferas já deveriam ter registrado a derrota do colega. Agiram
de acordo com essa percepção e passaram ao ataque. O aviso de Ras
Tschubai chegou no último instante. Gucky desapareceu atrás do
bloco metálico e procurou realizar sua intervenção por via
telecinética. Mas, face à lentidão das reações dos robôs, Ras
gozava de certa vantagem e conseguiu dominar a situação sem o
auxílio de Gucky.
Com dois
disparos rápidos liquidou os atacantes.
O quadro
que se oferecia na sala de comando era desolador. Não podia haver
muita coisa que escapara à destruição. Os dois anéis coloridos
escorregaram para fora da tela, e Ras constatou que também a posição
da Sambo mudava constantemente na tela oval.
A nave dos
robôs desviava-se da rota. A superfície do planeta de cristal
tornou-se visível e aproximava-se vertiginosamente.
— Temos
que dar o fora! — gritou Ras e preparou-se para saltar.
Gucky viu
que não havia outra alternativa. Não havia mais nada que pudessem
encontrar nessa nave, e seria impossível permanecer ali caso não
quisessem arriscar a vida.
— Vamos
saltar! — disse com a voz queixosa e exibiu o dente roedor, sem
sorrir como costumava fazer quando isso acontecia, — Mas ainda
vamos dar uma olhada nas outras canoas. Já sabemos do que se trata.
Mas agora vamos voltar à Sambo.
Desmaterializaram-se.
Dali a
dois minutos a nave dos robôs explodiu violentamente na superfície
do planeta de cristal.
Ao lado de
Rhodan, na sala de comando da Sambo, Rous contemplava o espetáculo
com os olhos semicerrados.
— Não
pode ser! — disse em tom assustado e empalideceu. — É
impossível!
— O quê?
— perguntou Rhodan laconicamente.
— É
impossível que todo o planeta, todo o plano temporal se adapte ao
nosso. Tem outra explicação para o fato de que a detonação
verificada lá embaixo se tornou visível aos nossos olhos? Veja! O
cogumelo da explosão sobe ligeiro pela atmosfera. Devia subir
lentamente, de forma quase imperceptível. Antes os pingos de chuva
caíam apenas alguns centímetros por hora, e agora...
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Quer
uma explicação? — manteve-se imóvel que nem uma estátua, mas os
cantos de sua boca tremiam. — Não existe qualquer outro plano
temporal, Tenente Rous. Ao menos por enquanto.
Porém
Perry já sabia que esse plano temporal existia; apenas, não se
atrevia a reconhecê-lo... pois isso significaria o fim de todas as
esperanças.
4
Ivã Ragow
sacudiu a cabeça e fitou John Marshall com uma expressão de
perplexidade, como se tivesse feito a sugestão de saltar da nave.
Noir mantinha uma atitude de expectativa. Procurava descobrir uma
explicação para o fato de que as lagartas, até então imóveis,
começavam a adaptar-se a seu plano temporal.
— Não
existe a menor dúvida. Nós as estamos assumindo sem atingir a
velocidade relativa da luz. Não posso dar nenhuma explicação, mas
o fato é incontestável. Os membros das lagartas já se movem com
cinqüenta por cento da velocidade normal. Se a modificação
prosseguir no mesmo ritmo, daqui a meia hora serão tão rápidas
como nós.
— Ainda
bem que não é o contrário — disse Noir.
Os olhos
de Ragow estreitaram-se.
— Será
que nós perceberíamos se isso acontecesse? — perguntou com a voz
embaraçada.
— O quê?
— ao que parecia, Noir não estava compreendendo.
Ragow
explicou:
— Será
que nós perceberíamos se fosse o contrário? Não existe nenhum
ponto neutro de referência pelo qual possamos guiar-nos.
Noir
compreendeu. E Marshall também.
— Ragow,
será que o senhor quer dizer que...
Marshall
não teve tempo de expor sua opinião, pois nesse momento ouviu-se o
som estridente do intercomunicador da nave. O rosto de Rhodan
apareceu na pequena tela.
— Peço
a todos os oficiais e chefes de equipes científicas que compareçam
a uma reunião na sala dos oficiais. A reunião terá início dentro
de dez minutos.
A tela
apagou-se.
Marshall
fitou Ragow.
— Então;
o que me diz? — perguntou, pois já reconhecera os pensamentos e as
conjeturas que enchiam a mente do russo. — Ao que parece, em outro
lugar também já estão pensando como o senhor.
Ragow fez
um gesto afirmativo.
— Daqui
a dez minutos saberemos.
Lançou
mais um olhar para as lagartas, que se libertavam progressivamente e
num ritmo cada vez mais veloz da rigidez do tempo, e saiu da sala sem
dizer uma palavra.
John
Marshall seguiu-o, andando devagar.
*
* *
— Quer
dizer que as conclusões são as seguintes, e todas elas trazem uma
conseqüência inequívoca. Procurem descobri-la.
Rhodan fez
uma ligeira pausa e fitou os rostos dos homens. Os oficiais da Sambo
mantinham-se de pé junto aos técnicos e mutantes. Seus rostos
estavam sérios, pois sabiam perfeitamente que Rhodan deveria ter um
motivo importante para convocar uma reunião enquanto estavam sendo
perseguidos pelas naves pretas.
— Em
primeiro lugar, Ragow descobriu que os movimentos das lagartas presas
começavam a adaptar-se aos nossos padrões de tempo. Tornaram-se
cada vez mais rápidas e já atingiram mais da metade da velocidade
normal. Além disso, constatamos que, ao que tudo indica, os robôs
conseguiram seguir-nos, embora nossos movimentos sejam setenta e duas
mil vezes mais rápidos. Até aqui ficamos quebrando a cabeça em vão
para descobrir como conseguiram. Parece, todavia, que este ponto já
não é tão Importante.
“Gucky e
Ras só encontraram robôs, e estes também viviam num ritmo um pouco
mais lento que o de nosso plano temporal. Quer dizer que mais uma vez
isso prova que houve um processo de adaptação. Mas o que esclareceu
a situação foi a queda da outra nave e sua destruição. Se bem que
não possamos excluir a hipótese de que o inimigo pode, mediante o
uso de fatores que não conhecemos, aproximar-se de outro plano
temporal, seria absurdo supormos que isso aconteça com todo o
planeta, conforme pareceu indicar a explosão.”
Fez uma
pequena pausa, para que suas palavras produzissem o efeito desejado.
Porém a maior parte dos ouvintes não se atreveu a extrair das
mesmas a única conclusão lógica, pois esta seria muito fantástica
e... terrível.
Mas Rhodan
não gostava que seus amigos fossem mantidos na incerteza. Fez um
ligeiro movimento com a mão e entrou em contato com a sala de
comando:
— Sikermann,
ligue a tela grande e transfira a imagem captada para a sala de
comando. Poderemos usar a tela de intercomunicação.
Esperou
até que esta se iluminasse e exibisse a superfície do planeta de
cristal, que deslizava lentamente. Ou melhor, já não deslizava
lentamente embaixo da Sambo. O planeta girava em alta velocidade.
— Não
aumentamos a velocidade — disse Rhodan com a voz tranqüila. —
Apenas, nosso vôo tornou-se mais rápido em virtude da adaptação
dos planos temporais. Tenente Sikermann, ligue o amplificador e
diminua a velocidade da Sambo, para que possamos reconhecer os
detalhes da superfície. Fique de olho nas naves que nos perseguem.
A imagem
projetada na tela tornou-se pouco nítida. O deserto e as montanhas
tornaram-se visíveis, passaram a deslizar mais devagar, e finalmente
foram substituídos por um cenário tão surpreendente que houve um
murmúrio entre os espectadores.
No mundo
de cristal a existência se desenvolvia num ritmo tão lento que não
havia qualquer movimento perceptível. Toda vida parecia extinta e
imobilizada.
Até
agora.
Acontece
que naquele instante centenas de lagartas andavam pela tela, seguiam
suas ocupações, e fizeram como se nunca tivessem vivido num ritmo
mais lento. Já não se percebia qualquer diferença na dimensão
temporal.
Os
espectadores reconheceram alguns habitantes de Tats-Tor, que haviam
sido atingidos pelo contato dos dois planos, perdendo sua dimensão
temporal e desaparecendo. Mas agora viviam no mundo de cristal — e
viviam num ritmo tão rápido como as lagartas... e como as pessoas
que se encontravam na Sambo.
Alguém
gemeu. Devia ser uma pessoa que compreendia onde Rhodan pretendia
chegar.
Ivã Ragow
adiantou-se.
— Já
desconfiei disso quando examinei as lagartas enjauladas e vi que as
mesmas começavam a mover-se. Não é seu plano temporal que se
adapta ao nosso, mas nosso plano está perdendo a dimensão temporal
que lhe é própria. Na verdade, estamos vivendo num ritmo setenta e
duas mil vezes mais lento que os homens da Terra ou os tripulantes da
Drusus. Cada segundo que passamos aqui...
Interrompeu-se
e cobriu o rosto com as mãos.
Rhodan
aproximou-se e colocou a mão sobre seu ombro.
— Isso é
apenas uma suposição, Ragow. Ninguém sabe realmente quanto tempo
está passando, e devemos ter o cuidado de não tirar conclusões
precipitadas. Uma coisa é certa: estamos nos adaptando ao outro
plano temporal, e não existe a menor dúvida de que estaremos
perdidos se não voltarmos bem depressa ao nosso Universo. Mas nem
por isso se pode dizer que a cada segundo, que passamos aqui, os
homens da Drusus envelhecem vinte dias. As relações entre os dois
planos são flexíveis e indefiníveis. Não conhecemos as leis que
os regem, e que produzam todas as diferenças. Crest saiu de junto de
Atlan, com o qual estivera conversando em voz baixa.
— Existe
alguma explicação para o fenômeno? — perguntou.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Esperava
que o senhor fizesse essa pergunta, Crest. Infelizmente só posso
responder que por enquanto não existe. O senhor tem alguma
explicação? Ou Atlan?
— Sim;
temos uma explicação — disse Crest, procurando disfarçar o
orgulho. — Mas não podemos garantir que seja correta. Nos últimos
dez mil anos nunca houve um fenômeno igual a este. É completamente
novo. Mas nossa tecnologia também é nova. Como por exemplo o
gerador de campo de curvatura. Sabemos que com ele conseguimos romper
a barreira que nos separava do outro plano temporal. Porém ninguém
sabe dizer qual é a influência que o aparelho exerce sobre o tempo
em si. Há algumas horas encontramo-nos sob a influência dos campos
de curvatura que envolvem todo o planeta. Além disso, atravessamos
várias vezes a cúpula do tempo, que é a formação negra que
envolveu o gerador. No solo, a ruptura dessa parede não é possível,
mas em grande altitude, onde esta se torna mais fácil, pode ser
realizada. Sabemos quais são os efeitos desses fatos sobre nossa
dimensão temporal?
Todos
ficaram em silêncio. Nem mesmo Rhodan respondeu. Desconfiava de que
Crest encontrara a solução do mistério, muito embora isso não
lhes adiantasse nada.
A única
coisa que sabiam era que se haviam tornado prisioneiros de outra
dimensão temporal.
De uma
dimensão temporal incrustada no Universo normal, que aos poucos o
ia, decompondo e inundando.
Rhodan
perguntou a si mesmo se realmente seria uma catástrofe, mas logo
voltou ao presente duro e implacável.
— Vamos
atacá-los — disse.
Os rostos
confiantes de seus oficiais lhe revelaram que ninguém pensara em
outra possibilidade.
Será que
existia outra possibilidade?
*
* *
As duas
naves-torpedo que os perseguiam haviam se aproximado. Mais uma vez,
Rhodan reduziu a velocidade e mandou que Gucky e Ras atacassem ao
mesmo tempo. O africano levou a arma de radiações. Já sabia que
condições o aguardavam na nave inimiga e tinha certeza de que não
demoraria em derrubá-la. Os robôs esféricos eram relativamente
inofensivos e fáceis de subjugar.
Gucky,
porém, preferiu mais uma vez não levar nenhuma arma. Tinha certeza
de que poderia desarmado lidar com os desconhecidos.
Poucos
segundos antes do momento em que saltaram, uma coisa muito importante
aconteceu num lugar bem distante.
*
* *
— Eles
se tornam visíveis, mestre.
O ser
ouviu as palavras do comandante da frota cujas unidades estavam
paradas junto ao anel luminoso para impedir que os estranhos
regressassem a seu plano temporal. Fez um gesto de surpresa.
— Visíveis?
O que quer dizer com isso?
— Ainda
são mais rápidos que nós; mais ou menos o dobro. Mas já podemos
vê-los sem recorrer à tela.
— Como é
que vocês me vêem? — perguntou com a voz tensa.
— De
forma normal e com a mesma velocidade.
Houve um
suspiro aliviado.
— Nesse
caso os estranhos estão sendo absorvidos por nosso plano temporal —
constatou. — Vencemos. Continue a bombardear o anel luminoso, para
que não possam fugir. Queremos pegá-los vivos, para descobrir como
vieram para cá sem que de início perdessem sua dimensão temporal.
Iniciem a perseguição. Desligarei os aparelhos e passarei à
velocidade normal.
— Três
das minhas naves saíram em perseguição dos desconhecidos. Uma
delas caiu.
O mestre
registrou a observação. Depois disse:
— Se os
estranhos não cessarem a resistência, atacarei com a nave-mãe.
Permaneceremos em contato.
Com um
forte movimento de seus robustos membros puxou o acelerador para
trás.
A
velocidade da gigantesca nave diminuiu rapidamente.
Aproximou-se
lentamente da superfície do mundo de cristal.
*
* *
Gucky caiu
fortemente e viu-se no chão de um corredor. Permaneceu imóvel e
aguçou o ouvido, mas não escutou os passos de qualquer robô.
Concluiu que não haviam percebido sua chegada. Mas era possível que
estivesse enganado. Talvez o espreitassem.
Era muito
raro que Gucky sentisse medo. Na verdade, o sentimento que de repente
passou a dominá-lo não era o medo, apenas a “certeza
apavorante”
de estar só. E a idéia de que a qualquer momento poderia
teleportar-se a um lugar seguro não o tranqüilizava muito.
Em algum
lugar, no interior do corpo metálico, trabalhavam máquinas. Ninguém
saberia dizer de que tipo eram as máquinas propulsoras criadas pelos
enigmáticos seres. Mas era de se supor que podiam atingir e
ultrapassar a velocidade da luz. Sem esse pressuposto técnico não
poderia haver qualquer espécie de navegação espacial interestelar.
Gucky
caminhou tranqüilamente pelo corredor, sempre preparado para pôr-se
em segurança com um salto de teleportação. Sua tarefa consistia
apenas em inutilizar a nave. Ao que tudo indicava, não havia nenhum
ser vivo a bordo, e esse fato tornava muito mais fácil sua decisão.
Todavia...
Uma das
portas estava aberta.
Dava para
um recinto no qual, em vez de telas, havia simples vigias. Gucky viu
a paisagem do planeta de cristal deslizar embaixo da nave; aliás, o
planeta já não era de cristal. A vida despertara do estado de
rigidez. Toda diferença das dimensões temporais havia desaparecido.
Mais
adiante, a Sambo voava pelo espaço; era perfeitamente visível. A
nave inimiga também reduziu a velocidade, de maneira tal que ambas
se deslocassem à mesma velocidade. Concluiu que os robôs
aguardavam; no momento não estavam atacando.
No
corredor surgiu um zumbido, seguido do ruído de alguma coisa que se
arrastava.
Gucky
saltou para o lado e colocou-se atrás da porta.
“Será
que há alguém a bordo, alguém que não seja um robô?”,
pensou indagando-se.
Um vulto
maciço surgiu na porta. Pelo canto dos olhos Gucky percebeu que não
se tratava de uma das esferas. Desta vez, era algo muito diferente.
Abaixou-se
para não ser visto. No interior do recinto, a luz não era muito
forte. Ao que parecia, os seres vinham de um mundo que gravitava em
torno de um sol envelhecido. Mas o que é que isso tinha que ver com
os robôs?
O vulto
maciço rolou para dentro da sala.
Gucky
sabia que um robô não precisava andar necessariamente para
locomover-se. Este rolava sobre rodinhas colocadas embaixo de seu
corpo. E o corpo era quase retangular, com quatro membros de cada
lado, e mais dois na frente e dois atrás. O vulto não possuía
cabeça; no lugar da mesma havia duas antenas encimadas por uma
esfera dourada, que balançavam lentamente. Gucky teve a impressão
de sentir alguma coisa parecida com uma corrente elétrica muito
fraca, que provocou cócegas em seu corpo.
Isso não
representava um perigo direto, mas poderia assumir esse caráter.
Aquilo que
tinha diante de si era um robô. Por enquanto não conhecia a função
que ele desempenhava. Gucky já não tinha tanta pressa em derrubar a
nave. Estava interessado no robô. Qual seria sua reação ao
perceber a presença de Gucky?
Por
enquanto isso não aconteceu.
O colosso
rolou para dentro da sala e parou no centro da mesma. Manteve-se
imóvel e agitou as antenas. Seriam os órgãos sensoriais, com os
quais via e ouvia? Qual seria o princípio de seu funcionamento?
Os fluxos
mentais invisíveis atingiram o desconhecido e seguraram-no. Gucky
sentiu perfeitamente que o robô notou a influência estranha e
procurou mover-se.
Mas Gucky
não o soltou.
Ao mesmo
tempo, saiu de seu esconderijo e caminhou lentamente em torno do
monstro, preparado para fugir a qualquer movimento. Queria descobrir
onde era a “frente”
do mesmo.
Isso não
era tão fácil assim. Sempre se é tentado a procurar um rosto, por
mais estranho que seja um ser. Até uma máquina costuma possuir um
rosto. Mas este robô não possuía nenhum.
Não
descobriu a finalidade dos doze braços. Nas extremidades dos
tentáculos havia pequenas figuras esféricas, cujo formato parecia
mudar constantemente. Às vezes lembravam uma mão, outras vezes um
par de tenazes, e depois uma simples esfera. Aquelas mãos deviam ser
feitas de material flexível, sendo capazes de modificar o formato
segundo a finalidade que deveriam desempenhar. Tratava-se de uma
conquista tecnológica que nem sequer os arcônidas conheciam.
Gucky
tentou influenciar ou mesmo eliminar a modificação do formato, mas
não conseguiu. Por isso não pôde impedir que de repente na
extremidade do braço que lhe ficava mais próximo surgisse uma coisa
estranha, cuja finalidade não compreendeu logo.
Lembrava
vagamente um garfo de quatro dentes, cujas pontas estivessem
dirigidas sobre Gucky. Não parecia ser uma arma, mas também não
era nenhum brinquedo. Desviou-se ligeiramente, segurando o braço do
robô. Mas nem mesmo sua capacidade telecinética pôde exercer
qualquer influência sobre os processos que se desenrolavam no
interior do monstro, pois não sabia como funcionava o mecanismo. Por
isso o choque elétrico veio de surpresa.
Gucky
sentiu que o fogo percorria seus nervos e atingia o cérebro. Suas
capacidades parapsicológicas ficaram paralisadas. O robô ficou
livre. Virou-se e com um leve zumbido rolou em direção ao
rato-castor imobilizado.
Gucky não
conseguiu fazer o menor movimento. Com um susto repentino descobriu
que cometera um erro imperdoável: subestimara um inimigo.
Viu os
doze braços estenderem-se em sua direção e sentiu a forte pressão
das tenazes que o envolveram.
*
* *
Ras
Tschubai teve mais sorte.
Quando
materializou-se, notou que valera a pena concentrar-se sobre a sala
de comando da nave inimiga. Viu-se bem atrás dos três robôs
esféricos e conseguiu inutilizá-los com um único disparo da arma
energética, antes que pudessem fazer qualquer movimento e sequer
notassem sua presença. Antes de iniciar a destruição sistemática
da sala de comando, resolveu dar uma volta pela nave.
Procedeu
com muita cautela, mas não descobriu nada de novo. As instalações
continuavam a ser um mistério, pois apesar do treinamento hipnótico
que recebera, não chegava a ser um cientista.
Quando
estava inspecionando uma sala cujas paredes estavam cobertas de
bobinas gigantes, ouviu passos que se aproximavam. Não chegou a
compreender a finalidade do mecanismo. Um dos conhecidos robôs
esféricos começou a manipular as chaves e voltou a sair da sala sem
que tivesse notado a presença de Ras.
À medida
que o africano penetrava no interior da nave, o zumbido dos
propulsores e do mecanismo de direção tornava-se mais forte e
grave. Finalmente, depois de uma curta teleportação, viu-se no meio
das máquinas vibrantes da central de propulsão.
Abaixou-se
imediatamente atrás de um gigantesco bloco metálico prateado e
olhou em torno.
De início
pensou Que o gigantesco recinto estivesse vazio e fosse controlado à
distância, mas logo reconheceu o engano.
Deslizando
pelo solo praticamente sem produzir qualquer ruído e deslocando-se
entre os geradores e os quadros de comando, gigantescas sombras
manipulavam uma chave ou outra.
Manipulavam...?
Eram robôs
de trabalho, o que Ras percebeu ao primeiro olhar. Suas mãos
consistiam de ferramentas de toda espécie, com as quais controlavam
e abasteciam as máquinas. Seu formato diferia tanto, que não havia
como chegar a qualquer conclusão sobre o corpo do construtor. Aliás,
não havia o menor indício sobre a forma do inimigo, fosse ele quem
fosse.
Ras
manteve-se escondido, para observar tudo que fosse possível antes de
dar início à destruição. Qualquer informação poderia ser
decisiva para a vida ou a morte dos homens.
Lembrou-se
de seu aparelho de comunicação audiovisual, que deveria funcionar,
visto que a adaptação dos dois tempos estava consumada. Comprimiu
um botão para ligá-lo e disse em voz baixa:

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