terça-feira, 9 de abril de 2013

P-067 - Interlúdio em Silico V - Kurt Brand [parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Tenente THOMAS CARDIF... só cinco
pessoas conhecem o segredo de sua origem.


Os calendários da Terra registram outubro de 2.041. Na Academia Espacial de Terrânia, mais uma turma de cadetes concluiu os exames finais. Entre estes está Thomas Cardif, o filho de dois mundos.
Apenas cinco pessoas conhecem o segredo da origem deste jovem oficial. E até agora o segredo foi guardado.
Porém, durante o Interlúdio em Silico V, verificou-se que os pais de Thomas haviam cometido um grave erro, isto é, falharam em suas considerações de política cósmica...
Sim, Perry e Thora cometeram um erro grave ao deixarem o filho na ignorância de sua origem. E agora que Cardif descobriu, por acaso, o segredo, poderá acontecer aquilo que seus pais queriam evitar...
E todas as ações mais se complicam, pois mãe e filho tornam-se prisioneiros dos robôs arcônidas, na fortaleza de Silico V.





= = = = = = = Personagens Principais: = == = = = =

Thomas Cardif — Filho de Rhodan e Thora. Tem os olhos da mãe. Nos momentos de concentração, o rosto adquire os traços do pai.

Thora — A arcônida, esposa de Perry.

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Julian Tifflor — Coronel transferido para servir na Terra.
1



Os nervos de oitenta e três jovens não estavam em bom estado. À medida que o relógio se aproximava das onze horas, mais uniformes se tornavam os rostos, pois cada um tentava não revelar a menor comoção, procurando, pelo contrário, irradiar uma expressão de segurança e autoconfiança.
Segundo o plano de trabalho da Academia Espacial do Império Solar, oitenta e três jovens, cuja idade média era de vinte e um anos, teriam de comparecer às onze horas desse dia ao grande salão, a fim de receberem das mãos do comandante da Academia a patente de Tenente da Frota Espacial, ou serem obrigados a, num curso de um ano, adquirir o saber que ainda lhes faltava para submeter-se a novo exame.
Os sessenta minutos que se seguiriam às onze horas seriam um marco importante na vida dos oitenta e três cadetes; para muitos era um momento decisivo, porque o restante de seu tempo de vida seria uma atuação ininterrupta.
O relógio marcava onze horas.
Oitenta e três cadetes ficaram em posição de sentido.
O comandante foi pontual.
Atrás da tribuna, a grande porta rolou para trás, e o chefe da Academia Espacial entrou juntamente com seu Estado-Maior.
O Major Wals anunciou a presença dos cadetes ao comandante. Este respondeu com um ligeiro cumprimento. Seu agradecimento tinha um tom impessoal.
Adiantou-se um passo além dos oficiais. Com um olhar abrangeu oitenta e três rostos. Conhecia cada um dos cadetes não apenas pelo nome, mas também pelo passado, pelas qualidades de caráter e pelo desempenho. Durante o tempo de aprendizagem não fora apenas o chefe. Esforçara-se em relação a cada um, para que lhes fosse dado no âmbito da Frota Espacial um lugar adequado.
A Frota Espacial chamava os homens que, com sua atuação no cumprimento integral do dever, eram capazes de entusiasmar mais vinte ou trinta homens.
No momento em que o chefe iniciava sua alocução, o relógio do salão nobre apontava onze horas e um minuto.
Era homem de poucas palavras. Com dez frases atingiu o núcleo da matéria. Não utilizou qualquer registro de nomes. Citou apenas três.
Três rostos empalideceram. Três jovens deixaram cair a cabeça. Não haviam sido aprovados nos exames finais da Academia Espacial. Continuariam a ser cadetes por mais um ano.
Mas, até mesmo para os cadetes reprovados, o comandante teve algumas palavras de estímulo.
Não desanimem por causa deste fracasso. Não renunciem a si mesmos, pois o Império Solar os espera. Deverão transformar-se num sustentáculo do Império Solar, tal qual todos os oficiais da Frota. Ao afirmar que qualquer um dos senhores poderá ser um dia o fator decisivo, do qual dependerá a existência ou a destruição do Império, não estarei dizendo uma frase vazia.
Uma vez que cada oficial da Frota Espacial, representa um fator de poder no seu campo de atuação, vemo-nos obrigados a aplicar os padrões mais rigorosos a todos aqueles que queiram pertencer a essa comunidade.”
Oitenta homens adiantaram-se um por um. Ainda envergavam o uniforme de cadetes. Mas, em conformidade com o plano de trabalho, teriam de comparecer dali a uma hora, no uniforme simples de oficial da Frota, diante do chefe de seu setor, para serem informados sobre a posição que lhes seria designada.
Não tiveram nem um dia de folga, ou melhor, nem mesmo uma hora. Isso não tinha sua origem nas normas oficiais, pois embora os oitenta homens fizessem jus a férias, preferiram não fazer uso desse direito.
Cada um recebeu sua patente das mãos do comandante e, depois disso, oitenta homens envergaram pela primeira vez o uniforme de oficial.
Isso está liquidado! — exclamou Tilf Reyno em tom de alívio, examinando seu uniforme. — Você acha que isto assenta bem, Thomas?
Tilf Reyno, um sueco com o aspecto de viking, de cabelos louros e olhos azuis, girou o corpo diante de Thomas Cardif, seu colega de quarto, e pediu-lhe para que verificasse se o uniforme lhe assentava bem.
Assenta perfeitamente, Tilf — disse Thomas depois de ligeiro exame. — E o meu uniforme? — levantou-se, e só agora que se encontrava em pé sua figura adquiria o realce merecido.
A seu lado, Tilf parecia pálido e apagado. Thomas Cardif irradiava personalidade e, o que era de admirar nos seus vinte e um anos, demonstrava um orgulho indefinível, que não chegava a ser tão pronunciado que causasse uma impressão desagradável.
Caramba! — disse Tilf Reyno com toda sinceridade, acenando a cabeça num gesto de reconhecimento. — Você até parece ser o chefe.
Será que não poderia ter inventado uma piada menos idiota?! — indignou-se Thomas Cardif, dirigindo-se ao colega de quarto.
Depois, lançou-lhe um olhar penetrante que realçava a estranha coloração amarela dos olhos, porém, no mesmo instante, fez um gesto com a mão, que eliminou a aspereza de que a pergunta parecia revestir-se.
Thomas Cardif muitas vezes costumava ser como se mostrara naquele instante. Embora não soubesse, era uma das numerosas personalidades-problema para psicólogos, que, durante o tempo de aprendizado na Academia, observavam e testavam discretamente cada um dos cadetes.
Muitos dos testes não haviam produzido resultado muito favorável para Thomas Cardif, enquanto os resultados de outras séries de experiências eram surpreendentemente positivos. Foi o cadete mais enigmático para os psicólogos. Segundo todas as probabilidades, dificilmente encontraria amigos enquanto cursasse a Academia. Acontece, todavia, que quase todos os cadetes eram seus amigos. Sua solidariedade e franqueza eram proverbiais, motivo pelo qual, de bom grado, os colegas fechavam um olho sempre que demonstrava aquele orgulho indefinível.
A voz do robô percorreu a ala do prédio em que residia o novo tenente.
O relógio indicava 11:55 h.
Segundo as normas de serviço, cada um dos cadetes deveria apresentar-se às 12:00 h ao chefe de seu setor, para tomar conhecimento de sua designação.
O superior hierárquico de Tilf Reyno e Thomas Cardif tinha a seu cargo o setor “Assuntos Gerais”.
Para qualquer cadete, a ordem de participar da solução de assuntos gerais representava um exame final com excelentes resultados.
O setor “Assuntos Gerais” tinha o programa de ensino mais extenso. Incluía a astronomia, a técnica de telecomunicação, a astronavegação, o estudo dos mecanismos de propulsão, o treinamento hipnótico arcônida, a metalurgia e mais trinta especialidades, inclusive a doutrina Zyan. Era o setor em que o futuro oficial da Frota Espacial adquiria o maior volume de saber.
O processo de aprendizagem, que chegara ao fim nesse dia, com a entrega da patente de oficial, incluíra três homens que deveriam apresentar-se ao Major Knight. Estes três novos oficiais acabavam de desaparecer atrás da porta à qual estava afixada uma placa com a indicação vaga “Assuntos Gerais”.
Tenente Hal Stockman! — disse o ibero-africano e ficou em posição de sentido.
Tenente Thomas Cardif!
Tenente Tilf Reyno!
O Major Knight, um homem de seus sessenta anos, de cabelos grisalhos e cego de um dos olhos, agradeceu laconicamente. Fitou os três homens um por um, e depois apertou-lhes efusivamente as mãos e os felicitou.
Tenente Stockman, o senhor foi designado para servir em Vênus. Será o segundo-ordenança do Coronel Dirkan. Mantenha-se preparado para partir das quatorze horas em diante. O senhor irá na nave-correio. É só. Obrigado.
O Tenente Hal Stockman retirou-se.
Tilf Reyno foi designado para servir em Hellgate, um planeta muito quente, situado a 12.348 anos-luz, na periferia do Império de Árcon, onde substituiria o Tenente Bings no comando da base.
Essa base consistia numa gigantesca cúpula de aço que servia de central receptora de mensagens dos agentes. A tarefa de Reyno consistiria em classificar as mensagens segundo o grau de urgência, armazenando-as ou transmitindo-as imediatamente à Terra pelo processo de condensação. Tilf Reyno partiria à uma da madrugada.
E nesta mesma hora, um cruzador do Império Solar, levando o Tenente Thomas Cardif a bordo, entrava na primeira órbita de frenagem sobre o planeta Rusuf.
O sistema solar nativo estava mergulhado no espaço, a 1.062 anos-luz.
Às 9:34 h, tempo de bordo, a nave esférica do Império Solar pousou no espaço-porto que servia ao pequeno destacamento militar estacionado no planeta.
Às 9:57 h, tempo de bordo, o Tenente Thomas Cardif apresentou-se ao novo chefe, o Coronel Julian Tifflor, comandante da pequena unidade terrana.
No mesmo instante, Thomas Cardif pensou, indagando-se:
Por que será que o coronel me olha de forma tão esquisita?
E não foi uma pergunta de que se esqueceu dali a um instante; esta perseguia-o como uma sombra, desde o primeiro instante de sua permanência na guarnição.
Pela primeira vez alguma coisa perturbava a jovem vida de Thomas Cardif.
Teve de concentrar-se para acompanhar as palavras do Coronel Tifflor. O oficial superior falou na missão que o destacamento cumpria naquele mundo arcônida, nas dificuldades do dia-a-dia, nos conflitos constantes entre os terranos e os mercadores galácticos que se haviam instalado em Rusuf.
Aproveite o dia de hoje para conhecer a base e apresente-se amanhã, às seis e trinta da manhã, antes da primeira conferência. Obrigado, tenente.
O Coronel Julian Tifflor — há uns sessenta anos realizara, como cadete, missões mais arriscadas com uma bravura extraordinária — lançou um olhar pensativo à saída do Tenente Thomas Cardif.
Respirou profundamente.
Sacudiu a cabeça.
Chefe — disse para si mesmo — receio que desta vez a coisa não dê certo.
Lembrava-se de Perry Rhodan.
No Império Solar só havia um chefe, tal qual só havia um Tiff.
Podia chamar Rhodan de chefe sem que ninguém levasse a mal, e este chamava-o de Tiff, um apelido que seus amigos lhe haviam dado há sessenta anos, quando ainda era cadete.
Entre Rhodan e Tiff, havia uma intensa ligação invisível. Fundava-se não apenas no fato de que também Julian Tifflor havia recebido no planeta Peregrino, um mundo artificial, a ducha celular que prolongava a vida. Mas, acima de tudo, pelo fato de Rhodan lhe confiar quem era Thomas Cardif.
Era filho de Thora e Perry Rhodan!
Julian Tifflor voltou a murmurar:
Tenente Thomas Cardif...
Voltou a respirar profundamente, e, com certo receio, pensou no instante em que Thomas Cardif ficasse sabendo quem eram seus pais...
2



Thora, esposa de Perry Rhodan, estava mergulhada em profundas reflexões enquanto fitava a área coberta de parques que antigamente fora o deserto de Gobi, hoje transformada num verdadeiro paraíso.
À sua direita, levantavam-se os primeiros edifícios industriais e administrativos. Eram o único sinal de que o milagre acontecido no antigo deserto estava estreitamente ligado à tecnologia, à política e à vontade férrea de certos homens.
A Frota Espacial do Império Solar, uma das obras grandiosas de Perry Rhodan, exigia homens desse tipo, e estes eram formados pela Academia Espacial, num treinamento ininterrupto.
Thora estendeu a mão e ligou o fone. A central robotizada de sua casa respondeu. Pediu uma ligação para a Academia.
Faça o favor de chamar assim que seja possível falar com o comandante.
Para a arcônida, o fato de falar com um robô não era motivo de esquecer a cortesia que dispensava aos outros.
Antes que tivesse tempo de reclinar-se na poltrona, a tela do videofone iluminou-se, perdeu o tom cinzento e adquiriu cores.
Nela se viu o rosto marcante do dirigente da Academia Espacial. O homem inclinou ligeiramente a cabeça, a título de cumprimento. Thora respondeu com um sorriso.
Depois de tanto tempo, gostaria de estar presente novamente, quando os cadetes da Academia, que tivessem sido aprovados nos exames, recebessem suas patentes de oficial. O dia de formatura é amanhã, não é?
Sinto muito — disse o comandante, cujo rosto assumiu uma expressão triste. — Tivemos de antecipar a formatura. As patentes foram entregues ontem, e hoje os jovens oficiais já se encontram nos lugares onde estão servindo.
Obrigada — disse Thora. A palavra foi proferida no mesmo tom de sempre, embora não conseguisse respirar. — Fico-lhe muito grata, comandante.
Desligou. Já não estava em condições de sorrir.
Estava só.
Thora, a arcônida orgulhosa, filha de uma das mais antigas e conceituadas famílias da nobreza de Árcon e esposa de Perry Rhodan, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
A causa de suas lágrimas era Thomas Cardif, o jovem tenente, que servia no planeta Rusuf, sob o comando do Coronel Julian Tifflor.
Perry... — soluçou, enquanto uma dor atroz lhe sacudia o corpo. — Pecamos contra nosso filho. Cometemos um grande erro...
Ela sabia; e Perry Rhodan também sabia. Mas quando se deram conta da renúncia que estavam praticando e do sacrifício que impunham ao filho, já era tarde para voltar atrás.
Thomas Cardif teria de continuar a ser Thomas Cardif. O menino já era bem crescido e, paradoxalmente, também muito novo para suportar o abalo psíquico que resultaria da revelação da verdade.
Tanto Perry, o pai de Thomas, como ela, só lhe desejavam o melhor. Queriam que Thomas se tornasse um verdadeiro homem por meio de seus próprios esforços, e não em virtude da ilustre ascendência. Até que se transformasse em homem, teria de abrir seu próprio caminho, sem sentir a mão invisível do pai, que o dirigia sem que ele o percebesse.
Foi assim que renunciaram ao produto mais valioso de seu amor: o filho. Depois de algum tempo, perceberam que ele crescia num mundo frio, sem o calor humano proporcionado pelo aconchego do lar.
Era tarde!
E hoje, mais uma vez, lamentava-se. Thomas não estava mais em Terrânia. Não teria oportunidade, nem de longe, de contemplar seu filho.
Continuou a chorar em silêncio. Ninguém a perturbou. Nenhum ser humano aproximou-se dela. A primeira dama do Império Solar era uma mulher solitária.
Seu marido Perry não se encontrava na Terra. Naquele instante, estava em Tats-Tor, um mundo em que seis dos seus homens haviam desaparecido no outro plano temporal. Não poderia chamá-lo para que ele a consolasse. Não deveria fazê-lo.
Mas podia deixar a Terra.
Podia requisitar uma gazela e voar para Vênus. Qualquer um veria que precisava de descanso.
Em Vênus, seria mais fácil decolar às escondidas, sem chamar a atenção das estações de superfície, sempre menos vigilantes do que no planeta Terra.
Para ela, que já comandara uma grande nave expedicionária de Árcon, não haveria nenhuma dificuldade em pilotar uma gazela. A realização de um salto pelo hiperespaço, que a transportaria a alguns milhares de anos-luz, nada mais era senão a aplicação da tecnologia arcônida.
Rusuf, o quarto planeta do sol Krela, era o novo paradeiro de Thomas Cardif. Thora sabia disso há muito tempo, e também sabia que havia sido aprovado, com distinção, nas três séries de exames. Tinha motivo de sobra para orgulhar-se dele. No Império Solar, só havia cinco pessoas que sabiam da existência de um filho de Rhodan: ela e Perry, Crest, o arcônida, Reginald Bell e o Coronel Julian Tifflor, comandante da guarnição de Rusuf.
Thomas Cardif não prestara seus exames na qualidade de filho de Rhodan; não tivera nenhuma vantagem. Mas fora privado de uma coisa que todos os outros cadetes haviam recebido: o amor.
O amor dos pais.
Ainda com o rosto coberto pelas mãos, soluçou:
Perry, não agüento mais! Tenho de ir ao lugar em que se encontra. Preciso vê-lo!
O momento de desespero teria de ceder diante da educação arcônida. E Thora continuava a ser uma arcônida, embora tivesse encontrado a felicidade ao lado de Perry Rhodan.
No auge de seu esplendor e no estágio de grande expansão, Árcon obrigara seus filhos a se tornarem duros e a contemplarem os fatos sem a menor hesitação.
Muitas vezes, esses fatos eram representados por planetas virgens que Árcon pretendia incorporar a seu Império. Muitos deles não demoraram em transformar-se em membros do reino estelar que tinha sua sede na nebulosa M-13, uma vez que os arcônidas, como conquistadores natos, renunciavam às vantagens pessoais e às comodidades para servir ao Império.
Thora lembrou-se da palestra que pouco antes do nascimento do filho tivera com Rhodan, Crest e Bell. Bell, o amigo sincero e impulsivo de Rhodan, só chegara quando a palestra já estava para terminar, e exclamou em meio à mesma:
Que pais são vocês! Céus, estrelas e foguetes!
Não proferira outras palavras para dar vazão à sua revolta. Perry colocara a mão em seu braço e o fitara intensamente. Havia um sorriso triste em seus lábios e, mesmo a contragosto, fizera um gesto de assentimento.
Que pais somos nós, Bell! Nunca ninguém nos disse isso de forma tão grosseira e sincera como você. Não precisa lançar estes olhares furiosos contra Thora e contra mim, gorducho. Não somos pais desnaturados; você sabe tão bem quanto Crest, como nos sentimos felizes com o filho que teremos.
— “Acontece que só Crest soube enxergar mais longe que nós.” Quando entrei ainda ouvi essa parte, Perry! Vocês são uns pais desnaturados que pretendem...
Perry Rhodan atirou violentamente a cabeça para trás e interrompeu Bell em tom áspero:
Quer fazer o favor de me deixar falar até o fim, Bell?
Pois fale — resmungou Bell, mas logo proferiu uma ameaça: — Se não mudarem de idéia, nossas relações passarão a ser puramente oficiais.
Sem dizer uma palavra, Perry entregou-lhe a interpretação do computador positrônico instalado em Vênus.
Bell indignou-se ao ler qual seria o caráter do filho de Perry Rhodan.
Que tolice! — disse em tom indignado. — Realmente acredita nisso, Perry? Quer que o destino de seu filho dependa de uma fita perfurada?
Naquele instante, Thora lembrou-se dessa cena. E, mais uma vez tornou a sentir o mesmo choque. Só que, daquela vez, fitou Bell com os olhos radiantes e o coração cheio de alegria, gratidão e esperança.
Bell levantara-se de um salto, atirara a fita sobre a mesa, e se dirigira em tom agressivo a Crest:
É claro que só mesmo um arcônida poderia ter uma idéia desse tipo! Quero que todos vão para o inferno! Uma criança, que ainda nem nasceu, está sendo negociada como um objeto qualquer...
Acontece que Crest nem empalideceu sob as palavras de Bell, nem se mostrou nervoso. Respondeu com toda calma:
Bell, a mãe desse menino é Thora, uma arcônida. Não se esqueça de que durante decênios Thora tem demonstrado um orgulho inflexível.
Não se esqueça de que, por mais de uma vez, Thora se deixou levar pelo orgulho e levou a Terra à beira do abismo — retrucou Bell.
Procure lembrar-se das qualidades que vicejam em Perry. Admitamos que seu filho herde apenas uma pequena parte dessas qualidades. De um lado o orgulho arcônida, a arrogância, a presunção. De outro lado, um filho de Rhodan em formação, um ser cujo pai criou o Império Solar. Qual será o caráter do filho de Perry, se este for influenciado por um fator decisivo, pelo fato de Perry Rhodan ser seu pai? Ele se permitirá fazer qualquer coisa — concluiu Crest.
Naquela época, há mais de vinte e um anos, fora de admirar que Bell não tivesse interrompido o arcônida. Mas mal este se calou, Reginald Bell lançou um olhar penetrante para seu amigo Perry, segurou a fita perfurada como se fosse ferro em brasa, sacudiu-a de um lado para outro e disse:
Perry, você não disse em certa ocasião que o computador positrônico de Vênus não pode realizar uma avaliação cem por cento correta dos seres humanos, porque foi construído por arcônida? Disse ou não disse?
Disse e continuo a dizer. Mas, apesar disso, Thora, uma arcônida, será a mãe de meu filho.
Bell não respondeu. Dirigiu-se a Thora.
Diga não e fique firme...
Bell, Perry já me fez essa sugestão e repetiu-a há uma hora, mas...
O quê? Não há mas nem porém! — disse Bell em tom furioso, lançando-lhe um olhar de desespero.
Sim, gorducho, existe um mas e um porém: um dia nosso filho poderá censurar-nos de não termos permitido, por motivos puramente egoísticos, que sua vida se desenvolvesse livremente. Dirá que, no dia em que nasceu, seu destino já estava traçado. Bell, você sabe como me sinto feliz juntamente com Perry, e chego até a me esquecer que venho de Árcon. Nós, os arcônidas, não podemos rebelar-nos contra a nossa natureza, que é arrogante, orgulhosa e obstinada.
Eu o sinto, Bell. Nosso filho virá ao mundo com as qualidades da mãe, e as desesperadas horas de choro não poderão impedi-lo. Tenho medo do preço que Perry e eu teremos de pagar pela nossa felicidade. Se nosso filho, sem saber quem são seus pais, consegue por suas próprias forças formar-se para o bem, um dia saberá agradecer-nos pela chance que lhe demos. Perry e eu teremos todos os motivos para esperar que, juntamente com nosso filho, sejamos uma família feliz.”
A lembrança dessa palestra decisiva empalideceu em sua mente. Thora levantou-se e olhou para o céu azul. Em qualquer lugar, a milhares de anos-luz, estava seu filho Thomas Cardif.
Ele já provara que era capaz de, por suas próprias forças, formar-se para o bem.
Não teria chegado a hora em que podia saber quem eram seus pais?
O coração de Thora e as saudades maternas disseram sim à pergunta. É bem verdade que sua inteligência penetrante a preveniu. Mas, mesmo numa mãe arcônida, o desejo natural de abraçar o filho é muito mais poderoso que qualquer outra força.
Thomas... — disse. — Thomas, irei para junto de você. Logo estarei aí.
3



A Drusus, uma nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, pertencente ao Império Solar, saiu do hiperespaço com um ruído trovejante, juntamente com o cruzador ligeiro Sambo. Graças aos seus compensadores estruturais, o imenso abalo da estrutura espaço-temporal não pôde ser registrado pelas estações de controle do sistema solar nativo, nem pelo Império de Árcon.
Foi o último salto das duas naves esféricas. Encontravam-se agora a 132 anos-luz de Tats-Tor, um mundo no qual Perry Rhodan realizara uma missão arriscada, durante a qual salvara os membros da chamada expedição do tempo e os tripulantes de uma nave girino que foi “raptada” por outro plano temporal.
O sol e seus planetas espalharam-se na gigantesca tela da Drusus. Desenvolvendo 0,6 vezes a velocidade da luz, as duas naves, que viajavam separadamente, aproximavam-se da órbita de Plutão. Os aparelhos de bordo transmitiram em mensagem condensada os seus sinais de identificação. Esses sinais foram captados pelas estações retransmissoras que, por sua vez, os modificaram e os retransmitiram à Terra, a Vênus e a Marte, sob outro código. Dali a cinco segundos, a Drusus e a Sambo receberam licença de pousar.
Perry Rhodan estava dormindo. Bell o substituía na sala de comando do couraçado espacial; não tinha nada a fazer. A tripulação da Drusus estava tão bem entrosada que teve tempo para ir à sala de rádio, a fim de saber as últimas notícias.
Ao entrar, o oficial fez menção de apresentar-se formalmente. Reginald Bell, representante de Perry Rhodan, fez um gesto de recusa. Sentou-se ao lado do coordenador, pegou a pilha de mensagens e folheou-a como se fossem as cartas de um baralho.
Bell não estava com vontade de trabalhar; apenas queria saciar sua curiosidade. Mas, desta vez, seu desejo não foi satisfeito.
É uma guerra de papéis — resmungou e continuou a folhear rapidamente a pilha.
Uma notícia dizia que havia surgido mais um grupo dos CAL — Colonos Associados Livres — que acreditavam não agüentarem mais a vida na Terra.
Vão embora! Ainda bem que na Galáxia existem muitos mundos para os quais podemos mandá-los.
Bell não gostava muito desse tipo de gente, e quem conhecesse Bell ficaria espantado se ele não demonstrasse abertamente sua antipatia.
Mas agora leu uma notícia interessante. Thora acabara de entrar em férias.
Em Vênus — disse Bell baixinho.
Rememorou a apavorante selva do planeta Vênus, ouviu em sua mente as trovoadas inconcebíveis e os berros dos sáurios e outras feras gigantescas.
Hoje, em certos lugares, as coisas já estão melhores. Hum! Por que será que os burocratas não disseram nesta notícia que lugar de Vênus Thora escolheu para descansar?
Leu mais duas mensagens e, com isso, as novidades haviam chegado ao fim. Bell esperara ler mais notícias.
É só isso? — perguntou ao coordenador.
Sem dizer uma palavra, este empurrou-lhe uma mensagem cujo texto decifrado acabara de sair da máquina.
Bem... — disse Reginald Bell, levantando-se. — Isso é com o chefe.
Não queria ter nada a ver com a legislação e suas modificações. Era um homem que apreciava as coisas palpáveis. Não gostava da guerra de papéis e dos detalhes administrativos, embora soubesse preencher muito bem o lugar de representante de Perry Rhodan, sempre que este se via obrigado, por circunstâncias extraordinárias, a sair da Terra e do sistema solar.
Enquanto se retirava da sala de rádio, procurou pensar em coisas mais agradáveis. Lançou um olhar ligeiro para dentro da sala de comando e disse que, se precisassem dele, poderiam encontrá-lo no centro de computação positrônica.
Bell, que era engenheiro eletrônico, sentia-se atraído constantemente pela seção à qual, durante vários anos, se dedicara de corpo e alma. Por isso, não era de admirar que dali a três horas, quando se visse frente a frente com Perry, no seu camarote, esquecesse de dizer: “Ouça, Perry, sua esposa está de férias em Vênus. Quando voltar a Terrânia, não encontrará Thora.”
Voltaram a discutir os resultados da atuação do Tenente Rous em Tats-Tor. A Drusus e a Sambo pousaram no gigantesco espaçoporto de Terrânia. Apesar disso, Rhodan e Bell prosseguiram em sua palestra, e só quatro horas depois o primeiro soube que sua esposa não se encontrava na Terra, já que resolvera descansar em Vênus.
Com que nave viajou? — perguntou, sem qualquer intenção especial.
Com uma gazela nova, de velocidade superior à da luz, Sir — respondeu o Major Mys sem desconfiar de nada. — O tipo está começando a ser produzido em série. Colocamos à disposição de sua esposa um aparelho da série mais recente. Perdão, Sir, será que fizemos mal?
Mys vira o brilho temível nos olhos de Rhodan, mas sentiu-se aliviado quando este respondeu em tom amável:
Fizeram bem, major, obrigado.
Mas Bell conhecia o amigo tão bem que não deixaria enganar-se. Quando ficou a sós com Rhodan, no gabinete deste, onde ninguém os perturbaria, disse:
Você está preocupado com alguma coisa, Perry.
Era uma afirmativa típica de Bell, mas se a situação fosse outra, Perry Rhodan não se deixaria envolver pela pergunta. Suas preocupações realmente eram tamanhas que preferiu não pedir a Bell que desse as provas do que afirmara.
É claro que sim, gorducho. Por que Thora resolveu ir a Vênus com uma gazela do último tipo? Por que não esperou até que eu voltasse de Morag II? Foi o que combinamos.
Bell passou a mão pelo cabelo. Teve o cuidado de não dizer nenhuma palavra irrefletida, mas ainda não estava disposto a confessar a si mesmo que as informações de Rhodan o inquietavam.
Thora costumava ser um modelo de confiabilidade.
Uma terrível suspeita surgiu em seu cérebro. Será que o processo de envelhecimento tivera início no organismo de Thora? Será que o fato de estar irremediavelmente condenada a transformar-se numa mulher velha a tivesse feito fugir para a solidão de Vênus?
Ele ou Aquilo, o senhor do planeta artificial denominado Peregrino, até então recusara a Thora e Crest, os dois arcônidas, a ducha celular vivificadora. Thora e Crest haviam sido conservados jovens por meio das fórmulas dos aras e dos soros produzidos na Terra. Mas, a qualquer momento, todos estes remédios poderiam falhar e o processo de envelhecimento teria início. E esse processo, uma vez iniciado, não pode ser detido.
Lançou um olhar discreto para Perry, mas os pensamentos deste estavam ocupados com outro assunto.
De seu gabinete, podia-se falar diretamente com os lugares mais importantes de Terrânia.
Quando subitamente viu o comandante da Academia Espacial surgir na tela, Bell engoliu em seco.
Sim, senhor — respondeu este a seu superior. — Todos os oitenta tenentes já estão em seus postos.
Obrigado — respondeu Rhodan. — Providencie para que me seja fornecida imediatamente a lista completa dos jovens tenentes com os respectivos locais de serviço. Desligo.
Bell estava sentado sobre a escrivaninha de Rhodan. Encheu as bochechas e soltou ruidosamente o ar.
Rhodan não disse nada. Seu rosto marcante parecia petrificado. Olhava incessantemente para o céu límpido que cobria o Gobi.
Bell começou a tamborilar nervosamente com os dedos. Em sua mente, havia um único pensamento:
Se as suspeitas de Perry fossem corretas, Thora já não estaria em Vênus, mas sim no lugar onde Thomas Cardif estivesse servindo.
Nem poderia ser outra coisa — Bell nem se deu conta de ter pensado em voz alta.
O quê? — perguntou Rhodan em tom áspero.
Bell assustou-se. Mas ainda conseguiu dizer:
Por que pergunta o quê? Não há nenhum o quê. Por que faz essa pergunta, Perry?
Está bem.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Rhodan. Compreendera por que o amigo estava mentindo. Se estivesse no lugar de Bell, também mentiria. Uma mentira desse tipo não é uma mentira; é um ato de amizade.
A tela situada do lado direito da escrivaninha iluminou-se. Nela surgiu a cabeça de um oficial de certa idade e, ao mesmo tempo, a voz deste soou no alto-falante:
Permite que, para terminar mais depressa, a lista completa seja...
Permito — interrompeu Rhodan. Logo após a tela exibiu, em vez da cabeça do oficial, a lista completa dos nomes de oitenta tenentes com os locais em que estavam servindo.
Hal Stockman... Reyno... Thomas Cardif, sistema de Krela, planeta Rusuf, guarnição terrana, Coronel Julian Tifflor — leu Rhodan a meia voz e acenou ligeiramente com a cabeça. Não esperara outra coisa.
Desligou. Inclinou lentamente a cabeça para trás e fitou o amigo, que continuava sentado sobre a escrivaninha. Bell mantinha-se em silêncio. Lembrou-se de um apaixonada palestra mantida há vinte e um anos atrás com Perry, Thora e Crest.
Por isso mesmo, não estava dizendo uma única palavra.
Perry Rhodan — o criador do Império Solar, um homem que soubera enfrentar até mesmo o computador-regente de Árcon, transformando-se em sócio do mesmo — sentia-se tomado de uma excitação febril.
Era um pai que temia pela sorte do filho único.
A essa hora, Perry era apenas pai — nem mais nem menos que isso. E todos os pais que temem por seus filhos são iguais uns aos outros, assim como todas as mães se igualam em seu modo de agir, quando querem ir para junto dos filhos.
Escute, Bell. Confiei o segredo a Tiff, antes que fôssemos para Morag II — estas palavras continham algo mais que seu sentido literal; representavam um pedido de socorro de amigo para amigo. Era como se Rhodan dissesse: ajude-me.
Perry... — Reginald Bell desceu da escrivaninha. Estava de pé ao lado do amigo. Bell transformara-se num homem sério e pensativo. — Não o ajudarei a manter o status quo, mas estou pronto a empenhar todas as energias para ajudar os três, se houver uma catástrofe.
Você acha que haverá uma catástrofe. Bell?
Perry Rhodan era apenas pai. Bell teve consciência disso.
Bem, agora você não sabe o que fazer. Neste meio tempo, Thora deve ter feito alguma bobagem para a qual não há mais remédio. Por que é que vocês dois não recepcionaram o rapaz, quando pela primeira vez saiu da Academia, envergando seu uniforme de tenente?
Será que tenho de lembrar que estávamos em Tats-Tor?
Ora essa! — protestou Bell. — Quer que eu acredite nessa? Afinal, quem é você? Não é o chefe? Então não podia ter dado uma ordem para que a concessão das patentes de oficial fosse adiada?
Depois de uma pausa, Bell prosseguiu:
Diga-me uma coisa. O que pretende fazer do rapaz? Por quanto tempo Thomas ainda terá de cuidar da própria formação? Homem, essa... Há vinte e dois anos esta expressão me pesa no estômago, sem que consiga digeri-la. Tenham cuidado! Quem sabe se a formação de Thomas a esta hora é tão completa que vocês não a possam mudar em mais nada? Se fosse você, chamaria Vênus, Perry...
A estação de vigilância espacial de Vênus informou laconicamente e em tom imparcial a que hora Thora Rhodan decolara numa gazela do tipo mais recente, em direção ao sistema de Krela.
Já está lá, Perry...
Está — foi a única resposta de Rhodan.
O velho Perry Rhodan voltara a manifestar-se. Num instante, pesou todas as possibilidades e as respectivas conseqüências.
Se Tiff não cometer nenhum erro e Thora...
Bell colocou pesadamente a mão sobre o ombro do amigo.
Perry, pegue a Drusus e corra para o sistema de Krela.
A nave acaba de voltar de uma missão.
E daí? Seria a primeira vez que você utilizaria seu poder para resolver um assunto pessoal. Será que não pode fazer uma coisa dessas? Acha que o assunto não é tão importante assim?
Bell estava lançando um ataque maciço, pois pretendia coagir o amigo de qualquer forma a finalmente “remover” uma ferida dolorosa chamada Thomas Cardif.
Mas Perry Rhodan não era um homem fácil de influenciar. E, ao contrário de Bell, era uma pessoa que muitas vezes sabia por intuição o que devia e o que não devia fazer.
Perry Rhodan resolveu esperar.
4



Num gesto de desespero, o Coronel Julian Tifflor apertou a cabeça com as mãos.
Era só o que faltava — disse num cochicho, mas logo se controlou e entrou em contato com o porto espacial.
Deu uma ordem pelo microfone:
Thora será recebida na pista por uma escolta de seis oficiais que a conduzirão à minha presença o mais rápido possível. Desligo.
No mesmo instante, o encarregado do setor de controle espacial surgiu na tela.
Onde está a gazela?
A resposta, proferida em tom rotineiro, foi a seguinte:
Neste momento está entrando na última órbita de aterrissagem. Deverá pousar dentro de três ou quatro minutos...
O Coronel Tifflor nem chegou a ouvir o resto. Saiu correndo. Ao menos um oficial teria de recepcionar Thora Rhodan. A escolta por ele solicitada não chegaria em tempo.
Naquele momento, Thora já estava realizando o vôo visual.
O mundo de Rusuf deslizava abaixo dela como numa fita de cinema. Era um astro semelhante à Terra, no qual havia uma velha colônia arcônida. A gravitação de 1,42 G estava no limite daquilo que poderia ser tolerado por meio da força de vontade. Apesar disso, fizera, no curso de muitas gerações, com que os arcônidas nascidos em Rusuf se adaptassem fisicamente ao novo ambiente. Além de um esqueleto reforçado e de uma estrutura muscular robusta, os colonos tinham um tórax que lhes conferia um aspecto disforme.
O sistema de Krela, que incluía o planeta Rusuf, ficava tão distante de Árcon que não chegou a ser atingido pelo fenômeno de degenerescência. Os arcônidas residentes nesse planeta continuavam a ser um povo orgulhoso, um tanto arrogante, mas cheio de energia.
Manifestando uma generosidade que só se adquire no curso de milênios, toleraram que os mercadores galácticos construíssem povoações no planeta. Mas nunca permitiram que os saltadores se arrogassem outros direitos que não aqueles previstos no contrato.
Por duas vezes houvera conflitos entre os arcônidas e os mercadores galácticos. Por duas vezes os saltadores cometeram o engano de entender que um arcônida é sempre igual a outro arcônida e imaginaram que os arcônidas radicados em Rusuf eram criaturas indolentes que nem os de seu mundo central.
Durante a primeira refrega, os mercadores revoltados receberam sua lição: saíram derrotados e tiveram de registrar a perda de nove naves cilíndricas. Já o segundo conflito lhes custou a destruição de três clãs dos saltadores juntamente com suas frotas.
Dali em diante, os mercadores galácticos não tiveram outra alternativa senão manter um conceito bastante elevado a respeito de Rusuf. Os saltadores que ali se encontravam tomavam todo o cuidado para que não houvesse novos contratempos.
Também não protestaram quando as naves terranas pousaram e desembarcaram soldados. Mantiveram-se tranqüilos ao verem os terranos instalar sua guarnição e um espaçoporto a quarenta e cinco quilômetros de Gelgen, uma pequena cidade arcônida na qual havia o maior contingente de saltadores.
Esses saltadores, que viam a finalidade da vida em negociar e obter elevados lucros, obedeciam às ordens do computador-regente de Árcon, tal qual os arcônidas que viviam nesse mundo.
E, desde que a pequena guarnição se instalara, não houvera o menor mal-entendido com os mercadores galácticos ou os colonos. Mas se havia alguém que não confiasse muito nessa paz estranha, era o Império Solar, especialmente seu chefe, Perry Rhodan. Sempre encarecia ao chefe da guarnição que ficasse com os olhos bem abertos. O computador-regente não era um sócio honesto. Deviam ser amáveis com os saltadores, mas não deveriam levar a amabilidade a um ponto que pudesse representar um perigo para sua vida.
Thora, cuja gazela penetrara nas camadas mais densas da atmosfera e voava em direção ao espaçoporto, já sabia disso.
Subitamente, a estação de superfície: dos colonos chamou. Thora venceu o susto! Ao ouvir sua língua materna tão “esticada” e transformada num feio dialeto.
Pediram que fornecesse seu número de identificação. Mas antes que pudesse pensar em responder, uma voz inconfundível de terrano disse no melhor intercosmo:
Aqui fala a guarnição terrana. Há uma hora e oito minutos a nave irradiou do espaço o número terrano de identificação. Segundo o contrato celebrado com Árcon, isso basta para satisfazer todas as exigências. Solicito resposta pela faixa F-0775. Câmbio.
Um sorriso de alívio passou pelos lábios de Thora. Sentia-se satisfeita pela vigilância do controle espacial terrano, mas não se entregou à ilusão, pois acreditava não ser a primeira vez que se verificavam interferências como esta.
E o setor de vigilância espacial da guarnição terrana cometeu um erro: não informou o Coronel Julian Tifflor sobre o incidente.
A mesma voz voltou a ranger:
Quer que a conduzamos para cá pelo raio vetor?
O orgulho da arcônida despertou na mente de Thora. Será que ela, que comandara a última nave expedicionária de Árcon, não seria capaz de pousar a gazela no local indicado? Numa atitude quase automática, e principalmente em virtude do nervosismo, respondeu num excelente arcônida:
Obrigada; eu mesma pilotarei minha nave.
Acontece que fazia muito tempo que Thora não pilotava qualquer espaçonave.
Embora ainda se lembrasse perfeitamente de todos os comandos, teve de concentrar-se ao máximo, e sentiu-se feliz com isso.
Durante cinco minutos, seu cérebro deixou de martelar um nome: Thomas Cardif!
Ao longe, surgiram os contornos da base. O espaçoporto ficava do lado direito. Estava assinalado por vários cruzadores ligeiros com seu típico formato esférico. Thora ainda reconheceu três grupos de gazelas, estacionadas na extremidade oposta do campo de pouso. Agora também viu o carro que se dirigia em velocidade vertiginosa ao lugar onde deveria pousar.
A gazela pousou macia e elegantemente, segundo todas as regras da Astronáutica. Thora desativou os campos defensivos, moveu uma chave do quadro de comando que abria a comporta e fazia descer a rampa. No momento em que o sinal de controle anunciou que o caminho para fora da nave estava livre, colocou todos os comandos da nave na posição zero.
Não se levantou. Fitou rigidamente os instrumentos. Os olhos de sua mente viram um jovem — Thomas — com o qual se defrontaria ainda hoje, não como Thora, esposa do administrador do Império Solar, mas como mãe.
Não sabia como era bela com o sorriso maternal no rosto. Conservou este sorriso ao reconhecer Julian Tifflor no pé da rampa. Sim, sentia-se muito satisfeita em revelo.
Fez como se não notasse que pretendia prestar-lhe as honras militares que lhe cabiam como esposa do administrador. Thora apertou sua mão e disse com uma amabilidade cativante:
Tiff, sinto-me tão feliz por ser você a primeira pessoa com quem me encontro em Rusuf.
E Tiff — mais precisamente, o Coronel Julian Tifflor — que já tinha oitenta anos de idade, embora ainda parecesse um jovem na flor dos anos, enrubesceu. Sentira que o cumprimento impulsivo de Thora vinha do fundo do coração e, ao mesmo tempo, percebeu como era difícil a missão que lhe fora confiada pelo chefe.
Enquanto iam de carro em direção à sede da guarnição, conversaram sobre assuntos indiferentes, até que o Coronel Tifflor pedisse desculpas por ainda não ter arranjado um apartamento no hotel para Thora.
Por que não estamos preparados para receber visitas tão importantes, dona Thora.
Ora, Tiff! — disse Thora com uma risada.
A expectativa febril de encontrar Thomas dali a pouco fazia com que tudo se apresentasse sob uma luz rósea.
Apenas preciso de um quarto. Não estou aqui em caráter oficial. Será que não posso ocupar um quarto na sede da guarnição?
Demonstrando uma solicitude surpreendente, o Coronel Tifflor deu resposta afirmativa à pergunta. Chegou mesmo a afirmar que seria mais agradável morar na sede da guarnição que no hotel.
Em qualquer outra oportunidade, Thora teria lançado um olhar desconfiado para o coronel e perguntado em tom frio o que pretendia conseguir com a oferta. Mas, nesse instante, era apenas uma mãe que viera para revelar essa qualidade ao filho.
O carro parou diante do edifício simples e funcional em que estava instalada a administração da guarnição. O Coronel Tifflor ajudou Thora a descer. Passaram atrás das sentinelas e penetraram num longo corredor. Saíram deste para entrar num grande parque, em cuja extremidade se via um bangalô.
Tiff — disse em tom de surpresa, quando viu que em todas as peças do bangalô os robôs de trabalho estavam em atividade. — O senhor fez seus preparativos para receber minha visita.
Ora — respondeu Tifflor. — Os preparativos consistiram unicamente em, enquanto me dirigia ao carro que me levaria ao espaçoporto, gritar para a sentinela que arejasse o bangalô. Os robôs ainda estão trabalhando.
Dali a uma hora, o Coronel Tifflor bateu delicadamente na porta de Thora Rhodan. Com a voz exultante a mesma disse:
Tiff, se for o senhor, faça o favor de entrar.
Disposta e juvenil, com um estranho brilho nos olhos de arcônida, Thora estava em pé junto à janela enquanto via o coronel entrar. Já sacudira a poeira da viagem, utilizara todas as vantagens da cultura habitacional arcônida para refrescar o corpo. Ficou satisfeita ao constatar que Julian Tifflor substituíra o uniforme por um elegante traje civil.
Enquanto Julian Tifflor sentava à sua frente, ela o examinou atentamente. Teve a atenção despertada por seu rosto severo, quase enrijecido.
O que há, Tiff?
O coronel acenou com a cabeça.
Pois bem, dona Thora. Sei por que veio a Rusuf. O chefe me ordenou que cuidasse do Tenente Thomas Cardif.
Thora Rhodan enrijeceu-se. Ficou imóvel diante de Julian Tifflor e fitou-o intensamente.
Coronel Tifflor, o senhor não se atreverá a impedir-me de entrar em contato com o tenente.
Thora não viu outra alternativa senão bancar a arcônida altiva e arrogante. Mas tudo aquilo era apenas um esforço desesperado, gerado pelo sentimento de desamparo.
Fazia quase sessenta anos que Julian Tifflor conhecia a esposa de seu chefe. Haviam-se aproximado durante muitas missões perigosas. E não há nada que possa ligar duas pessoas mais estreitamente que a ameaça da morte e o perigo em geral. Por isso, compreendeu perfeitamente por quê, naquele instante, fazia o papel de arcônida orgulhosa e esposa do administrador.
Compreendeu e perdoou.
Afinal, era a mãe de Thomas Cardif!
Mas não lhe demonstrou quanta pena sentia. Continuava a ser um oficial da Frota Espacial, cujo comandante supremo era Perry Rhodan.
Foi o que lhe disse. Não fez o menor comentário.
Tiff...
Fez de conta que não ouvira a voz suplicante.
Dona Thora, neste instante preferia sair numa missão sem retorno a estar sentado diante da senhora. Eu...
Thora levantou-se. Seus olhos chamejavam, mas uma vontade quase sobre-humana obrigou a voz a não revelar o furacão sentimental que lhe varria a mente.
Coronel Tifflor, meu marido lhe deu ordem expressa de impedir-me de falar com Thomas? Sim ou não?
Não.
Então, por que se julga com o direito de barrar-me o caminho?
O Coronel Julian Tifflor também se levantou. Foi para trás de sua poltrona. Ele, que arriscara cem vezes a vida por Perry Rhodan e pelo Império Solar, temia os próximos trinta minutos.
Coronel Tifflor, por que se julga com o direito de impedir-me de fazer o que quero? — Thora não gritava. Muito pior: falava baixo, e os olhos pareciam dardejar fogo.
Não o chamou mais de Tiff. Naquele momento, só via nele o Coronel Julian Tifflor, oficial da Frota Espacial Terrana e chefe da guarnição de Rusuf.
É meu senso de responsabilidade! — ele o disse com a voz rangedora, como quem se defende.
Com uma tranqüilidade apavorante, Thora perguntou:
E o senhor se atreve a sepultar meus sentimentos de mãe sob seu senso de responsabilidade?
A acusação fortaleceu Julian Tifflor. Sentiu instintivamente que essa pergunta tocara num ponto que Thora não poderia deixar de compreender, justamente por ser a mãe de Thomas Cardif.
Por enquanto esquivou-se à pergunta que representava uma acusação. Apoiando a mão sobre o encosto da poltrona, obrigou-se a perguntar em tom suave:
Posso aproximar-me da senhora, Thora?
Pois não! — respondeu a arcônida. Julian Tifflor colocou-se bem à sua frente e formulou outra pergunta:
Permite que segure sua mão? Thora não disse sim nem não, e Tiff — ou melhor, o Coronel Julian Tifflor — deixou-se dominar pelo sentimento. Segurou as mãos de Thora entre as suas.
Sentiu fisicamente a rejeição que irradiava dela. Sentiu a força que lhe enchia a alma, e teve a honestidade de confessar a si mesmo que, nessa hora, Thora Rhodan era mais forte que ele. No entanto, Tifflor tinha na mão um trunfo com que poderia tirar-lhe a força, substituindo-a pela reflexão.
Tenho pena de Thomas Cardif. Seu trunfo era este.
Thora desprendeu-se dele. O Coronel Tifflor percebeu que ela ainda não o havia compreendido. Mas, se dissesse mais alguma coisa, diluiria a força que havia atrás de suas palavras.
Ela mesma teria de compreender o que ele queria dizer.
A expressão do olhar de Thora mudava constantemente. Tifflor percebeu como os arcônidas sabem odiar, como é terrível sua raiva, mas também viu a força de vontade e o autodomínio dos arcônidas.
Por que... por que tem pena de Thomas, coronel?
Porque durante os poucos dias que está servindo em Rusuf, eu o estudei constantemente.
Thomas Cardif é um arcônida em todos os sentidos. É um ser de dois mundos. Com um dos pés pisa firmemente na Terra, enquanto o outro está apoiado com a mesma firmeza em Árcon.
É nisso que reside sua infelicidade...”
Falara sem a maior paixão, com a mesma objetividade do jurista que defende um acusado perante o juiz.
Arcônida? — disse Thora, repetindo a palavra do coronel.
Estaria agora perscrutando em sua mente a palavra arcônida?
Subitamente, Julian Tifflor teve medo dessa mulher. Pela primeira vez, deu-se conta de que, entre a Terra e Árcon, havia o abismo da eternidade. O terrano e o arcônida eram seres semelhantes, mas apenas pelo aspecto exterior; na mentalidade eram totalmente estranhos uns aos outros.
Será mesmo?
Com o Coronel Tifflor, acontecia a mesma coisa que se passara com Reginald Bell durante a palestra com Perry: estava transformando seus pensamentos em palavras.
O quê, coronel?
Não se valeu apenas da mentira de conveniência. Disse a Thora o que acabara de pensar.
E ela prestou atenção às suas palavras. Nem poderia deixar de fazê-lo, pois aquilo lhe dizia respeito. Era a esposa de um terrano; a esposa de Perry Rhodan. Será que haviam pecado ao se casarem?
Thora esteve prestes a sucumbir a esse medo, mas lembrou-se do filho. Naquele instante, brilhou em seus olhos o orgulho da mãe que deu a vida a um filho sadio.
Tiff, não é verdade. Thomas está são ou doente?
Tiff fez soar sua risada atrevida.
Está são! — disse com a voz rangedora. — Goza uma saúde de ferro.
Neste caso, deve haver um caminho que eu possa seguir sem que o senhor tenha motivo de ter pena de Thomas.
Tiff não lhe deu nenhuma esperança. Mais uma vez seu instinto lhe disse que, nem mesmo com a mentira mais sofisticada, conseguiria enganar essa mulher.
Dona Thora, não vejo nenhum caminho, e mais uma vez insisto nas minhas observações. Nos sentimentos Thomas Cardif é um arcônida, enquanto seu pensamento é o de um terrano. Por isso, a senhora não poderá encontrar o caminho que levará a ele.
Se meu marido...
O Coronel Tifflor não deixou que concluísse. Quanto mais cedo soubesse da verdade, melhor seria para ela.
O chefe sente-se desesperado, dona Thora. Não tenho o direito de dizer-lhe isso, mas agora é meu dever.
Queira deixar-me só, Tiff — Thora sorriu entre lágrimas e, quando o coronel já se encontrava na porta, disse: — Tiff, o senhor é o mesmo sujeito formidável de sempre.
Julian Tifflor fechou apressadamente a porta atrás de si. Uma vez no corredor, esfregou os olhos.
Enquanto se encontrava a caminho do edifício da Administração, um robô de vigilância deteve-o por um instante. Um largo círculo de engenhos desse tipo cercava o bangalô. O Coronel Tifflor nem pensava em afastar os robôs. Não queria nem podia assumir o menor risco com Thora. O espaço aéreo acima do bangalô também era constantemente observado.
Muito preocupado, o coronel entrou em seu gabinete. O ordenança seguiu-o de perto. Mas hoje Tifflor nem queria saber de quaisquer trabalhos administrativos.
Deixe-me só. Incomode-me somente se surgir um caso de extrema urgência.
Descansou a cabeça nas mãos. Seus pensamentos giravam constantemente em torno de um ponto, e o nome desse ponto era Thomas Cardif.
O orgulho de arcônida desse jovem, sua arrogância e sua teimosia, que por vezes surgia inesperadamente, constituía o maior obstáculo para que seus pais pudessem identificar-se perante ele.
O computador positrônico de Vênus, que avaliara seu caráter, chegara ao mesmo resultado e encarecera a inconveniência de qualquer outro procedimento.
Era uma verdadeira tragédia.
Thomas Cardif era um homem de dois mundos. Carregava as características principais desses mundos. Thomas Cardif era uma união dos extremos.
Julian Tifflor não se atreveu a formular qualquer acusação, mesmo em pensamento. Nunca se esqueceria da dor desesperada de Thora, nem o esforço que tivera de fazer para pronunciar estas palavras: “Tenho pena de Thomas Cardif.
Com esta frase, acusara Thora e Perry Rhodan de se entregarem ao egoísmo mais crasso.
Um som e uma imagem surgidos de repente representaram um verdadeiro alívio para o Coronel Julian Tifflor.
Pois não — disse em tom distraído, mas acordou instantaneamente ao ver o rosto de Thora projetado na tela.
Venha para cá, Tiff.
Dali a alguns minutos, viu-se de novo frente a frente com ela, em seu bangalô.
Thora falava. Tiff escutava comovido. Cada uma de suas palavras exprimia uma renúncia. Cada frase baseava-se nesta afirmativa: “Tenho pena de Thomas Cardif.”
...mas posso vê-lo, Tiff, não posso? Acho que não é necessário que eu lhe prometa que me apresentarei somente como a esposa do administrador.
Pode passar perto dele — restringiu Tifflor. — De acordo, Thora.
Thora acenou fortemente com a cabeça.
Quando poderei vê-lo, Tiff?
No momento, o Tenente Cardif está realizando um vôo de patrulhamento pelo sistema de Krela. Deverá estar de volta pelas vinte horas, tempo local. Pelas vinte e uma horas, reunirei os oficiais numa conferência. Posso pedir-lhe a gentileza de dirigir algumas palavras aos mesmos?
Num gesto impulsivo, a arcônida apertou-lhe a mão.
Conte comigo, Tiff — disse.
E, atrás das lágrimas que lhe enchiam os olhos, brilhava o sorriso de renúncia de uma mãe.
5



O coronel Julian Tifflor quase não prestou atenção quando, pelas 19 horas e 44 minutos, o cruzador pesado Zyklop se dispôs a pousar sob o farfalhar dos campos antigravitacionais. Tinha muito trabalho para preparar a conferência dos oficiais, designada a curto prazo, e não poderia reduzir a força de combate da guarnição. Apesar do nervosismo, que crescia à medida que se aproximavam as 21 horas, parecia calmo.
Seu ajudante, o Major Lens, entrou. Tifflor mal o olhou. Lens passou imediatamente ao assunto.
O espaçoporto manda perguntar se ainda precisamos dos robôs de vigilância. Para falar com franqueza, não compreendo essa proteção superconcentrada, coronel. Por aqui já se anda dizendo que o senhor prendeu dona Thora.
Ah! Então vivem dizendo isso, major? Muito bem. Os comandantes de gazelas já foram convocados para a reunião.
O Major Lens enrubesceu ligeiramente. Acabara de receber uma das temidas bofetadas morais. Tifflor não as distribuía com muita freqüência. Só recorria a estas em caso de necessidade, e estava convencido de que agora o major faria os boatos silenciarem de vez.
Os comandantes das gazelas foram convocados para as vinte e uma horas, coronel. Além de todos os oficiais do estado-maior dos cruzadores e todos os dirigentes administrativos...
Naturalmente — a observação foi proferida em tom mordaz.
Quer que os desconvide? — o Major Lens também não gostava dos camaradas que passavam a vida nos alojamentos ou nos serviços de retaguarda.
Não. O Serviço de Comunicações tem alguma notícia especial?
Lens compreendeu imediatamente o motivo da pergunta. Tudo girava em torno da segurança de Thora.
Por enquanto não.
Mais alguma coisa, major?
Julian Tifflor preferia ficar só. Viu Lens caminhar em direção à porta. No momento em que este pretendia abri-la, ouviu-se um ruído estranho, vindo de fora.
Lens também ouvira.
É um bombardeio de radiações, coronel?
Este colocou a guarnição em estado de alarma. O espaçoporto também ficou em prontidão rigorosa.
Mais uma vez, o horrível chiado vindo de fora rompeu as paredes dotadas de isolamento acústico.
Major, é o bangalô!
A constatação de Tifflor não se revestiu da natureza de um grito histérico. Os sessenta anos de serviços prestados a Perry Rhodan representavam um duro treinamento, que obrigara os homens a saberem lidar com todas as situações.
O Coronel Tifflor permaneceu junto à escrivaninha e expediu suas ordens. Não havia a menor dúvida de que o ataque era dirigido contra Thora. Correu para fora juntamente com o Major Lens.
No mesmo instante, as sereias uivaram nos cruzadores estacionados na periferia do campo de pouso. Dentro de menos de um minuto, as naves se prepararam para entrar cm combate.
Na guarnição, os primeiros grupos de robôs de combate estavam assumindo suas posições.
Tifflor chegou à grande porta de entrada antes do major, mas subitamente sentiu-se ofuscado por um raio verde- pálido.
Abrigue-se! — gritou Tifflor para o major, empurrando-o para trás.
Caíram ruidosamente ao chão. Nesses poucos instantes, três raios destruíram toda a entrada e, ainda, penetraram um bom pedaço pelo corredor, até que o espetáculo cessasse numa tremenda explosão que se verificou do lado de fora. O Coronel Tifflor tivera alguns segundos para combinar os dados. Tinha certeza de que o ataque era dirigido contra Thora. Ligou o rádio de bolso e transmitiu a seguinte mensagem:
Enviar relatório ao comandante! Depois que o triplo raio destruidor s desfez numa tremenda explosão, levantou se de um salto. Correu através de um escritório, viu quatro homens que se haviam abrigado no chão, abriu a janela e saltou para fora.
Três metros abaixo dele, ficava um canteiro de flores bem cuidado. A terra macia absorveu o impacto do salto. Enquanto se ajoelhava, recebeu as primeiras informações:
Os robôs de vigilância foram destruídos por máquinas de combate desconhecidas. O bangalô foi incendiado.
O comandante do cruzador pesado Zyklop esteve a ponto de entrar na palestra.
Não transmita nenhum relatório! — disse Tifflor em tom enérgico.
Atravessou canteiros, tropeçou em meio à escuridão, voltou a levantar-se e berrou para dentro do rádio:
Quero o relatório sobre o bangalô. Acontece que, no momento, por lá só havia robôs terranos em luta contra máquinas de guerra desconhecidas. O coronel não compreendia. Onde estavam os três oficiais com os 25 homens que, segundo o plano de emergência, deveriam ter assumido suas posições junto ao bangalô?
Tenente Hecks — fungou para dentro do telefone enquanto se desviava de um galho baixo.
Viu o bangalô que ardia na outra extremidade do parque e oito robôs terranos que brilhavam sob o reflexo das chamas. Disparavam todas as armas de radiações de que dispunham, pois estavam em luta com um inimigo duas vezes superior em forças.
Naquele instante, Julian Tifflor não viu nem a casa incendiada, nem a luta dos robôs. Segurou seu rádio e falou em voz rouca:
Alguém viu Thora? Avisem imediatamente.
Do lado oposto do parque, surgiu outra fileira de máquinas de combate, seguida de perto por homens.

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