Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Tenente
THOMAS CARDIF... só cinco
pessoas
conhecem o segredo de sua origem.
Os
calendários da Terra registram outubro de 2.041. Na Academia
Espacial de Terrânia, mais uma turma de cadetes concluiu os exames
finais. Entre estes está Thomas Cardif, o filho de dois mundos.
Apenas
cinco pessoas conhecem o segredo da origem deste jovem oficial. E até
agora o segredo foi guardado.
Porém,
durante o Interlúdio em Silico V, verificou-se que os pais de Thomas
haviam cometido um grave erro, isto é, falharam em suas
considerações de política cósmica...
Sim,
Perry e Thora cometeram um erro grave ao deixarem o filho na
ignorância de sua origem. E agora que Cardif descobriu, por acaso, o
segredo, poderá acontecer aquilo que seus pais queriam evitar...
E todas
as ações mais se complicam, pois mãe e filho tornam-se
prisioneiros dos robôs arcônidas, na fortaleza de Silico V.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= == = = = =
Thomas
Cardif
— Filho de Rhodan e Thora. Tem os olhos da mãe. Nos momentos de
concentração, o rosto adquire os traços do pai.
Thora
— A arcônida, esposa de Perry.
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
Julian
Tifflor
— Coronel transferido para servir na Terra.
1
Os nervos
de oitenta e três jovens não estavam em bom estado. À medida que o
relógio se aproximava das onze horas, mais uniformes se tornavam os
rostos, pois cada um tentava não revelar a menor comoção,
procurando, pelo contrário, irradiar uma expressão de segurança e
autoconfiança.
Segundo o
plano de trabalho da Academia Espacial do Império Solar, oitenta e
três jovens, cuja idade média era de vinte e um anos, teriam de
comparecer às onze horas desse dia ao grande salão, a fim de
receberem das mãos do comandante da Academia a patente de Tenente da
Frota Espacial, ou serem obrigados a, num curso de um ano, adquirir o
saber que ainda lhes faltava para submeter-se a novo exame.
Os
sessenta minutos que se seguiriam às onze horas seriam um marco
importante na vida dos oitenta e três cadetes; para muitos era um
momento decisivo, porque o restante de seu tempo de vida seria uma
atuação ininterrupta.
O relógio
marcava onze horas.
Oitenta e
três cadetes ficaram em posição de sentido.
O
comandante foi pontual.
Atrás da
tribuna, a grande porta rolou para trás, e o chefe da Academia
Espacial entrou juntamente com seu Estado-Maior.
O Major
Wals anunciou a presença dos cadetes ao comandante. Este respondeu
com um ligeiro cumprimento. Seu agradecimento tinha um tom impessoal.
Adiantou-se
um passo além dos oficiais. Com um olhar abrangeu oitenta e três
rostos. Conhecia cada um dos cadetes não apenas pelo nome, mas
também pelo passado, pelas qualidades de caráter e pelo desempenho.
Durante o tempo de aprendizagem não fora apenas o chefe.
Esforçara-se em relação a cada um, para que lhes fosse dado no
âmbito da Frota Espacial um lugar adequado.
A Frota
Espacial chamava os homens que, com sua atuação no cumprimento
integral do dever, eram capazes de entusiasmar mais vinte ou trinta
homens.
No momento
em que o chefe iniciava sua alocução, o relógio do salão nobre
apontava onze horas e um minuto.
Era homem
de poucas palavras. Com dez frases atingiu o núcleo da matéria. Não
utilizou qualquer registro de nomes. Citou apenas três.
Três
rostos empalideceram. Três jovens deixaram cair a cabeça. Não
haviam sido aprovados nos exames finais da Academia Espacial.
Continuariam a ser cadetes por mais um ano.
Mas, até
mesmo para os cadetes reprovados, o comandante teve algumas palavras
de estímulo.
— Não
desanimem por causa deste fracasso. Não renunciem a si mesmos, pois
o Império Solar os espera. Deverão transformar-se num sustentáculo
do Império Solar, tal qual todos os oficiais da Frota. Ao afirmar
que qualquer um dos senhores poderá ser um dia o fator decisivo, do
qual dependerá a existência ou a destruição do Império, não
estarei dizendo uma frase vazia.
“Uma vez
que cada oficial da Frota Espacial, representa um fator de poder no
seu campo de atuação, vemo-nos obrigados a aplicar os padrões mais
rigorosos a todos aqueles que queiram pertencer a essa comunidade.”
Oitenta
homens adiantaram-se um por um. Ainda envergavam o uniforme de
cadetes. Mas, em conformidade com o plano de trabalho, teriam de
comparecer dali a uma hora, no uniforme simples de oficial da Frota,
diante do chefe de seu setor, para serem informados sobre a posição
que lhes seria designada.
Não
tiveram nem um dia de folga, ou melhor, nem mesmo uma hora. Isso não
tinha sua origem nas normas oficiais, pois embora os oitenta homens
fizessem jus a férias, preferiram não fazer uso desse direito.
Cada um
recebeu sua patente das mãos do comandante e, depois disso, oitenta
homens envergaram pela primeira vez o uniforme de oficial.
— Isso
está liquidado! — exclamou Tilf Reyno em tom de alívio,
examinando seu uniforme. — Você acha que isto assenta bem, Thomas?
Tilf
Reyno, um sueco com o aspecto de viking, de cabelos louros e olhos
azuis, girou o corpo diante de Thomas Cardif, seu colega de quarto, e
pediu-lhe para que verificasse se o uniforme lhe assentava bem.
— Assenta
perfeitamente, Tilf — disse Thomas depois de ligeiro exame. — E o
meu uniforme? — levantou-se, e só agora que se encontrava em pé
sua figura adquiria o realce merecido.
A seu
lado, Tilf parecia pálido e apagado. Thomas Cardif irradiava
personalidade e, o que era de admirar nos seus vinte e um anos,
demonstrava um orgulho indefinível, que não chegava a ser tão
pronunciado que causasse uma impressão desagradável.
— Caramba!
— disse Tilf Reyno com toda sinceridade, acenando a cabeça num
gesto de reconhecimento. — Você até parece ser o chefe.
— Será
que não poderia ter inventado uma piada menos idiota?! —
indignou-se Thomas Cardif, dirigindo-se ao colega de quarto.
Depois,
lançou-lhe um olhar penetrante que realçava a estranha coloração
amarela dos olhos, porém, no mesmo instante, fez um gesto com a mão,
que eliminou a aspereza de que a pergunta parecia revestir-se.
Thomas
Cardif muitas vezes costumava ser como se mostrara naquele instante.
Embora não soubesse, era uma das numerosas personalidades-problema
para psicólogos, que, durante o tempo de aprendizado na Academia,
observavam e testavam discretamente cada um dos cadetes.
Muitos dos
testes não haviam produzido resultado muito favorável para Thomas
Cardif, enquanto os resultados de outras séries de experiências
eram surpreendentemente positivos. Foi o cadete mais enigmático para
os psicólogos. Segundo todas as probabilidades, dificilmente
encontraria amigos enquanto cursasse a Academia. Acontece, todavia,
que quase todos os cadetes eram seus amigos. Sua solidariedade e
franqueza eram proverbiais, motivo pelo qual, de bom grado, os
colegas fechavam um olho sempre que demonstrava aquele orgulho
indefinível.
A voz do
robô percorreu a ala do prédio em que residia o novo tenente.
O relógio
indicava 11:55 h.
Segundo as
normas de serviço, cada um dos cadetes deveria apresentar-se às
12:00 h ao chefe de seu setor, para tomar conhecimento de sua
designação.
O superior
hierárquico de Tilf Reyno e Thomas Cardif tinha a seu cargo o setor
“Assuntos
Gerais”.
Para
qualquer cadete, a ordem de participar da solução de assuntos
gerais representava um exame final com excelentes resultados.
O setor
“Assuntos
Gerais”
tinha o programa de ensino mais extenso. Incluía a astronomia, a
técnica de telecomunicação, a astronavegação, o estudo dos
mecanismos de propulsão, o treinamento hipnótico arcônida, a
metalurgia e mais trinta especialidades, inclusive a doutrina Zyan.
Era o setor em que o futuro oficial da Frota Espacial adquiria o
maior volume de saber.
O processo
de aprendizagem, que chegara ao fim nesse dia, com a entrega da
patente de oficial, incluíra três homens que deveriam apresentar-se
ao Major Knight. Estes três novos oficiais acabavam de desaparecer
atrás da porta à qual estava afixada uma placa com a indicação
vaga “Assuntos
Gerais”.
— Tenente
Hal Stockman! — disse o ibero-africano e ficou em posição de
sentido.
— Tenente
Thomas Cardif!
— Tenente
Tilf Reyno!
O Major
Knight, um homem de seus sessenta anos, de cabelos grisalhos e cego
de um dos olhos, agradeceu laconicamente. Fitou os três homens um
por um, e depois apertou-lhes efusivamente as mãos e os felicitou.
— Tenente
Stockman, o senhor foi designado para servir em Vênus. Será o
segundo-ordenança do Coronel Dirkan. Mantenha-se preparado para
partir das quatorze horas em diante. O senhor irá na nave-correio. É
só. Obrigado.
O Tenente
Hal Stockman retirou-se.
Tilf Reyno
foi designado para servir em Hellgate, um planeta muito quente,
situado a 12.348 anos-luz, na periferia do Império de Árcon, onde
substituiria o Tenente Bings no comando da base.
Essa base
consistia numa gigantesca cúpula de aço que servia de central
receptora de mensagens dos agentes. A tarefa de Reyno consistiria em
classificar as mensagens segundo o grau de urgência, armazenando-as
ou transmitindo-as imediatamente à Terra pelo processo de
condensação. Tilf Reyno partiria à uma da madrugada.
E nesta
mesma hora, um cruzador do Império Solar, levando o Tenente Thomas
Cardif a bordo, entrava na primeira órbita de frenagem sobre o
planeta Rusuf.
O sistema
solar nativo estava mergulhado no espaço, a 1.062 anos-luz.
Às 9:34
h, tempo de bordo, a nave esférica do Império Solar pousou no
espaço-porto que servia ao pequeno destacamento militar estacionado
no planeta.
Às 9:57
h, tempo de bordo, o Tenente Thomas Cardif apresentou-se ao novo
chefe, o Coronel Julian Tifflor, comandante da pequena unidade
terrana.
No mesmo
instante, Thomas Cardif pensou, indagando-se:
“Por
que será que o coronel me olha de forma tão esquisita?”
E não foi
uma pergunta de que se esqueceu dali a um instante; esta perseguia-o
como uma sombra, desde o primeiro instante de sua permanência na
guarnição.
Pela
primeira vez alguma coisa perturbava a jovem vida de Thomas Cardif.
Teve de
concentrar-se para acompanhar as palavras do Coronel Tifflor. O
oficial superior falou na missão que o destacamento cumpria naquele
mundo arcônida, nas dificuldades do dia-a-dia, nos conflitos
constantes entre os terranos e os mercadores galácticos que se
haviam instalado em Rusuf.
— Aproveite
o dia de hoje para conhecer a base e apresente-se amanhã, às seis e
trinta da manhã, antes da primeira conferência. Obrigado, tenente.
O Coronel
Julian Tifflor — há uns sessenta anos realizara, como cadete,
missões mais arriscadas com uma bravura extraordinária — lançou
um olhar pensativo à saída do Tenente Thomas Cardif.
Respirou
profundamente.
Sacudiu a
cabeça.
— Chefe
— disse para si mesmo — receio que desta vez a coisa não dê
certo.
Lembrava-se
de Perry Rhodan.
No Império
Solar só havia um chefe, tal qual só havia um Tiff.
Podia
chamar Rhodan de chefe sem que ninguém levasse a mal, e este
chamava-o de Tiff, um apelido que seus amigos lhe haviam dado há
sessenta anos, quando ainda era cadete.
Entre
Rhodan e Tiff, havia uma intensa ligação invisível. Fundava-se não
apenas no fato de que também Julian Tifflor havia recebido no
planeta Peregrino, um mundo artificial, a ducha celular que
prolongava a vida. Mas, acima de tudo, pelo fato de Rhodan lhe
confiar quem era Thomas Cardif.
Era filho
de Thora e Perry Rhodan!
Julian
Tifflor voltou a murmurar:
— Tenente
Thomas Cardif...
Voltou a
respirar profundamente, e, com certo receio, pensou no instante em
que Thomas Cardif ficasse sabendo quem eram seus pais...
2
Thora,
esposa de Perry Rhodan, estava mergulhada em profundas reflexões
enquanto fitava a área coberta de parques que antigamente fora o
deserto de Gobi, hoje transformada num verdadeiro paraíso.
À sua
direita, levantavam-se os primeiros edifícios industriais e
administrativos. Eram o único sinal de que o milagre acontecido no
antigo deserto estava estreitamente ligado à tecnologia, à política
e à vontade férrea de certos homens.
A Frota
Espacial do Império Solar, uma das obras grandiosas de Perry Rhodan,
exigia homens desse tipo, e estes eram formados pela Academia
Espacial, num treinamento ininterrupto.
Thora
estendeu a mão e ligou o fone. A central robotizada de sua casa
respondeu. Pediu uma ligação para a Academia.
— Faça
o favor de chamar assim que seja possível falar com o comandante.
Para a
arcônida, o fato de falar com um robô não era motivo de esquecer a
cortesia que dispensava aos outros.
Antes que
tivesse tempo de reclinar-se na poltrona, a tela do videofone
iluminou-se, perdeu o tom cinzento e adquiriu cores.
Nela se
viu o rosto marcante do dirigente da Academia Espacial. O homem
inclinou ligeiramente a cabeça, a título de cumprimento. Thora
respondeu com um sorriso.
— Depois
de tanto tempo, gostaria de estar presente novamente, quando os
cadetes da Academia, que tivessem sido aprovados nos exames,
recebessem suas patentes de oficial. O dia de formatura é amanhã,
não é?
— Sinto
muito — disse o comandante, cujo rosto assumiu uma expressão
triste. — Tivemos de antecipar a formatura. As patentes foram
entregues ontem, e hoje os jovens oficiais já se encontram nos
lugares onde estão servindo.
— Obrigada
— disse Thora. A palavra foi proferida no mesmo tom de sempre,
embora não conseguisse respirar. — Fico-lhe muito grata,
comandante.
Desligou.
Já não estava em condições de sorrir.
Estava só.
Thora, a
arcônida orgulhosa, filha de uma das mais antigas e conceituadas
famílias da nobreza de Árcon e esposa de Perry Rhodan, cobriu o
rosto com as mãos e chorou.
A causa de
suas lágrimas era Thomas Cardif, o jovem tenente, que servia no
planeta Rusuf, sob o comando do Coronel Julian Tifflor.
— Perry...
— soluçou, enquanto uma dor atroz lhe sacudia o corpo. — Pecamos
contra nosso filho. Cometemos um grande erro...
Ela sabia;
e Perry Rhodan também sabia. Mas quando se deram conta da renúncia
que estavam praticando e do sacrifício que impunham ao filho, já
era tarde para voltar atrás.
Thomas
Cardif teria de continuar a ser Thomas Cardif. O menino já era bem
crescido e, paradoxalmente, também muito novo para suportar o abalo
psíquico que resultaria da revelação da verdade.
Tanto
Perry, o pai de Thomas, como ela, só lhe desejavam o melhor. Queriam
que Thomas se tornasse um verdadeiro homem por meio de seus próprios
esforços, e não em virtude da ilustre ascendência. Até que se
transformasse em homem, teria de abrir seu próprio caminho, sem
sentir a mão invisível do pai, que o dirigia sem que ele o
percebesse.
Foi assim
que renunciaram ao produto mais valioso de seu amor: o filho. Depois
de algum tempo, perceberam que ele crescia num mundo frio, sem o
calor humano proporcionado pelo aconchego do lar.
Era tarde!
E hoje,
mais uma vez, lamentava-se. Thomas não estava mais em Terrânia. Não
teria oportunidade, nem de longe, de contemplar seu filho.
Continuou
a chorar em silêncio. Ninguém a perturbou. Nenhum ser humano
aproximou-se dela. A primeira dama do Império Solar era uma mulher
solitária.
Seu marido
Perry não se encontrava na Terra. Naquele instante, estava em
Tats-Tor, um mundo em que seis dos seus homens haviam desaparecido no
outro plano temporal. Não poderia chamá-lo para que ele a
consolasse. Não deveria fazê-lo.
Mas podia
deixar a Terra.
Podia
requisitar uma gazela e voar para Vênus. Qualquer um veria que
precisava de descanso.
Em Vênus,
seria mais fácil decolar às escondidas, sem chamar a atenção das
estações de superfície, sempre menos vigilantes do que no planeta
Terra.
Para ela,
que já comandara uma grande nave expedicionária de Árcon, não
haveria nenhuma dificuldade em pilotar uma gazela. A realização de
um salto pelo hiperespaço, que a transportaria a alguns milhares de
anos-luz, nada mais era senão a aplicação da tecnologia arcônida.
Rusuf, o
quarto planeta do sol Krela, era o novo paradeiro de Thomas Cardif.
Thora sabia disso há muito tempo, e também sabia que havia sido
aprovado, com distinção, nas três séries de exames. Tinha motivo
de sobra para orgulhar-se dele. No Império Solar, só havia cinco
pessoas que sabiam da existência de um filho de Rhodan: ela e Perry,
Crest, o arcônida, Reginald Bell e o Coronel Julian Tifflor,
comandante da guarnição de Rusuf.
Thomas
Cardif não prestara seus exames na qualidade de filho de Rhodan; não
tivera nenhuma vantagem. Mas fora privado de uma coisa que todos os
outros cadetes haviam recebido: o amor.
O amor dos
pais.
Ainda com
o rosto coberto pelas mãos, soluçou:
— Perry,
não agüento mais! Tenho de ir ao lugar em que se encontra. Preciso
vê-lo!
O momento
de desespero teria de ceder diante da educação arcônida. E Thora
continuava a ser uma arcônida, embora tivesse encontrado a
felicidade ao lado de Perry Rhodan.
No auge de
seu esplendor e no estágio de grande expansão, Árcon obrigara seus
filhos a se tornarem duros e a contemplarem os fatos sem a menor
hesitação.
Muitas
vezes, esses fatos eram representados por planetas virgens que Árcon
pretendia incorporar a seu Império. Muitos deles não demoraram em
transformar-se em membros do reino estelar que tinha sua sede na
nebulosa M-13, uma vez que os arcônidas, como conquistadores natos,
renunciavam às vantagens pessoais e às comodidades para servir ao
Império.
Thora
lembrou-se da palestra que pouco antes do nascimento do filho tivera
com Rhodan, Crest e Bell. Bell, o amigo sincero e impulsivo de
Rhodan, só chegara quando a palestra já estava para terminar, e
exclamou em meio à mesma:
— Que
pais são vocês! Céus, estrelas e foguetes!
Não
proferira outras palavras para dar vazão à sua revolta. Perry
colocara a mão em seu braço e o fitara intensamente. Havia um
sorriso triste em seus lábios e, mesmo a contragosto, fizera um
gesto de assentimento.
— Que
pais somos nós, Bell! Nunca ninguém nos disse isso de forma tão
grosseira e sincera como você. Não precisa lançar estes olhares
furiosos contra Thora e contra mim, gorducho. Não somos pais
desnaturados; você sabe tão bem quanto Crest, como nos sentimos
felizes com o filho que teremos.
— “Acontece
que só Crest soube enxergar mais longe que nós.”
Quando entrei ainda ouvi essa parte, Perry! Vocês são uns pais
desnaturados que pretendem...
Perry
Rhodan atirou violentamente a cabeça para trás e interrompeu Bell
em tom áspero:
— Quer
fazer o favor de me deixar falar até o fim, Bell?
— Pois
fale — resmungou Bell, mas logo proferiu uma ameaça: — Se não
mudarem de idéia, nossas relações passarão a ser puramente
oficiais.
Sem dizer
uma palavra, Perry entregou-lhe a interpretação do computador
positrônico instalado em Vênus.
Bell
indignou-se ao ler qual seria o caráter do filho de Perry Rhodan.
— Que
tolice! — disse em tom indignado. — Realmente acredita nisso,
Perry? Quer que o destino de seu filho dependa de uma fita perfurada?
Naquele
instante, Thora lembrou-se dessa cena. E, mais uma vez tornou a
sentir o mesmo choque. Só que, daquela vez, fitou Bell com os olhos
radiantes e o coração cheio de alegria, gratidão e esperança.
Bell
levantara-se de um salto, atirara a fita sobre a mesa, e se dirigira
em tom agressivo a Crest:
— É
claro que só mesmo um arcônida poderia ter uma idéia desse tipo!
Quero que todos vão para o inferno! Uma criança, que ainda nem
nasceu, está sendo negociada como um objeto qualquer...
Acontece
que Crest nem empalideceu sob as palavras de Bell, nem se mostrou
nervoso. Respondeu com toda calma:
— Bell,
a mãe desse menino é Thora, uma arcônida. Não se esqueça de que
durante decênios Thora tem demonstrado um orgulho inflexível.
— Não
se esqueça de que, por mais de uma vez, Thora se deixou levar pelo
orgulho e levou a Terra à beira do abismo — retrucou Bell.
— Procure
lembrar-se das qualidades que vicejam em Perry. Admitamos que seu
filho herde apenas uma pequena parte dessas qualidades. De um lado o
orgulho arcônida, a arrogância, a presunção. De outro lado, um
filho de Rhodan em formação, um ser cujo pai criou o Império
Solar. Qual será o caráter do filho de Perry, se este for
influenciado por um fator decisivo, pelo fato de Perry Rhodan ser seu
pai? Ele se permitirá fazer qualquer coisa — concluiu Crest.
Naquela
época, há mais de vinte e um anos, fora de admirar que Bell não
tivesse interrompido o arcônida. Mas mal este se calou, Reginald
Bell lançou um olhar penetrante para seu amigo Perry, segurou a fita
perfurada como se fosse ferro em brasa, sacudiu-a de um lado para
outro e disse:
— Perry,
você não disse em certa ocasião que o computador positrônico de
Vênus não pode realizar uma avaliação cem por cento correta dos
seres humanos, porque foi construído por arcônida? Disse ou não
disse?
— Disse
e continuo a dizer. Mas, apesar disso, Thora, uma arcônida, será a
mãe de meu filho.
Bell não
respondeu. Dirigiu-se a Thora.
— Diga
não e fique firme...
— Bell,
Perry já me fez essa sugestão e repetiu-a há uma hora, mas...
— O quê?
Não há mas nem porém! — disse Bell em tom furioso, lançando-lhe
um olhar de desespero.
— Sim,
gorducho, existe um mas e um porém: um dia nosso filho poderá
censurar-nos de não termos permitido, por motivos puramente
egoísticos, que sua vida se desenvolvesse livremente. Dirá que, no
dia em que nasceu, seu destino já estava traçado. Bell, você sabe
como me sinto feliz juntamente com Perry, e chego até a me esquecer
que venho de Árcon. Nós, os arcônidas, não podemos rebelar-nos
contra a nossa natureza, que é arrogante, orgulhosa e obstinada.
“Eu o
sinto, Bell. Nosso filho virá ao mundo com as qualidades da mãe, e
as desesperadas horas de choro não poderão impedi-lo. Tenho medo do
preço que Perry e eu teremos de pagar pela nossa felicidade. Se
nosso filho, sem saber quem são seus pais, consegue por suas
próprias forças formar-se para o bem, um dia saberá agradecer-nos
pela chance que lhe demos. Perry e eu teremos todos os motivos para
esperar que, juntamente com nosso filho, sejamos uma família feliz.”
A
lembrança dessa palestra decisiva empalideceu em sua mente. Thora
levantou-se e olhou para o céu azul. Em qualquer lugar, a milhares
de anos-luz, estava seu filho Thomas Cardif.
Ele já
provara que era capaz de, por suas próprias forças, formar-se para
o bem.
Não teria
chegado a hora em que podia saber quem eram seus pais?
O coração
de Thora e as saudades maternas disseram sim à pergunta. É bem
verdade que sua inteligência penetrante a preveniu. Mas, mesmo numa
mãe arcônida, o desejo natural de abraçar o filho é muito mais
poderoso que qualquer outra força.
— Thomas...
— disse. — Thomas, irei para junto de você. Logo estarei aí.
3
A Drusus,
uma nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, pertencente ao
Império Solar, saiu do hiperespaço com um ruído trovejante,
juntamente com o cruzador ligeiro Sambo. Graças aos seus
compensadores estruturais, o imenso abalo da estrutura
espaço-temporal não pôde ser registrado pelas estações de
controle do sistema solar nativo, nem pelo Império de Árcon.
Foi o
último salto das duas naves esféricas. Encontravam-se agora a 132
anos-luz de Tats-Tor, um mundo no qual Perry Rhodan realizara uma
missão arriscada, durante a qual salvara os membros da chamada
expedição do tempo e os tripulantes de uma nave girino que foi
“raptada”
por outro plano temporal.
O sol e
seus planetas espalharam-se na gigantesca tela da Drusus.
Desenvolvendo 0,6 vezes a velocidade da luz, as duas naves, que
viajavam separadamente, aproximavam-se da órbita de Plutão. Os
aparelhos de bordo transmitiram em mensagem condensada os seus sinais
de identificação. Esses sinais foram captados pelas estações
retransmissoras que, por sua vez, os modificaram e os retransmitiram
à Terra, a Vênus e a Marte, sob outro código. Dali a cinco
segundos, a Drusus e a Sambo receberam licença de pousar.
Perry
Rhodan estava dormindo. Bell o substituía na sala de comando do
couraçado espacial; não tinha nada a fazer. A tripulação da
Drusus estava tão bem entrosada que teve tempo para ir à sala de
rádio, a fim de saber as últimas notícias.
Ao entrar,
o oficial fez menção de apresentar-se formalmente. Reginald Bell,
representante de Perry Rhodan, fez um gesto de recusa. Sentou-se ao
lado do coordenador, pegou a pilha de mensagens e folheou-a como se
fossem as cartas de um baralho.
Bell não
estava com vontade de trabalhar; apenas queria saciar sua
curiosidade. Mas, desta vez, seu desejo não foi satisfeito.
— É uma
guerra de papéis — resmungou e continuou a folhear rapidamente a
pilha.
Uma
notícia dizia que havia surgido mais um grupo dos CAL — Colonos
Associados Livres — que acreditavam não agüentarem mais a vida na
Terra.
— Vão
embora! Ainda bem que na Galáxia existem muitos mundos para os quais
podemos mandá-los.
Bell não
gostava muito desse tipo de gente, e quem conhecesse Bell ficaria
espantado se ele não demonstrasse abertamente sua antipatia.
Mas agora
leu uma notícia interessante. Thora acabara de entrar em férias.
— Em
Vênus — disse Bell baixinho.
Rememorou
a apavorante selva do planeta Vênus, ouviu em sua mente as trovoadas
inconcebíveis e os berros dos sáurios e outras feras gigantescas.
— Hoje,
em certos lugares, as coisas já estão melhores. Hum! Por que será
que os burocratas não disseram nesta notícia que lugar de Vênus
Thora escolheu para descansar?
Leu mais
duas mensagens e, com isso, as novidades haviam chegado ao fim. Bell
esperara ler mais notícias.
— É só
isso? — perguntou ao coordenador.
Sem dizer
uma palavra, este empurrou-lhe uma mensagem cujo texto decifrado
acabara de sair da máquina.
— Bem...
— disse Reginald Bell, levantando-se. — Isso é com o chefe.
Não
queria ter nada a ver com a legislação e suas modificações. Era
um homem que apreciava as coisas palpáveis. Não gostava da guerra
de papéis e dos detalhes administrativos, embora soubesse preencher
muito bem o lugar de representante de Perry Rhodan, sempre que este
se via obrigado, por circunstâncias extraordinárias, a sair da
Terra e do sistema solar.
Enquanto
se retirava da sala de rádio, procurou pensar em coisas mais
agradáveis. Lançou um olhar ligeiro para dentro da sala de comando
e disse que, se precisassem dele, poderiam encontrá-lo no centro de
computação positrônica.
Bell, que
era engenheiro eletrônico, sentia-se atraído constantemente pela
seção à qual, durante vários anos, se dedicara de corpo e alma.
Por isso, não era de admirar que dali a três horas, quando se visse
frente a frente com Perry, no seu camarote, esquecesse de dizer:
“Ouça,
Perry, sua esposa está de férias em Vênus. Quando voltar a
Terrânia, não encontrará Thora.”
Voltaram a
discutir os resultados da atuação do Tenente Rous em Tats-Tor. A
Drusus e a Sambo pousaram no gigantesco espaçoporto de Terrânia.
Apesar disso, Rhodan e Bell prosseguiram em sua palestra, e só
quatro horas depois o primeiro soube que sua esposa não se
encontrava na Terra, já que resolvera descansar em Vênus.
— Com
que nave viajou? — perguntou, sem qualquer intenção especial.
— Com
uma gazela nova, de velocidade superior à da luz, Sir — respondeu
o Major Mys sem desconfiar de nada. — O tipo está começando a ser
produzido em série. Colocamos à disposição de sua esposa um
aparelho da série mais recente. Perdão, Sir, será que fizemos mal?
Mys vira o
brilho temível nos olhos de Rhodan, mas sentiu-se aliviado quando
este respondeu em tom amável:
— Fizeram
bem, major, obrigado.
Mas Bell
conhecia o amigo tão bem que não deixaria enganar-se. Quando ficou
a sós com Rhodan, no gabinete deste, onde ninguém os perturbaria,
disse:
— Você
está preocupado com alguma coisa, Perry.
Era uma
afirmativa típica de Bell, mas se a situação fosse outra, Perry
Rhodan não se deixaria envolver pela pergunta. Suas preocupações
realmente eram tamanhas que preferiu não pedir a Bell que desse as
provas do que afirmara.
— É
claro que sim, gorducho. Por que Thora resolveu ir a Vênus com uma
gazela do último tipo? Por que não esperou até que eu voltasse de
Morag II? Foi o que combinamos.
Bell
passou a mão pelo cabelo. Teve o cuidado de não dizer nenhuma
palavra irrefletida, mas ainda não estava disposto a confessar a si
mesmo que as informações de Rhodan o inquietavam.
Thora
costumava ser um modelo de confiabilidade.
Uma
terrível suspeita surgiu em seu cérebro. Será que o processo de
envelhecimento tivera início no organismo de Thora? Será que o fato
de estar irremediavelmente condenada a transformar-se numa mulher
velha a tivesse feito fugir para a solidão de Vênus?
Ele
ou Aquilo,
o senhor do planeta artificial denominado Peregrino, até então
recusara a Thora e Crest, os dois arcônidas, a ducha celular
vivificadora. Thora e Crest haviam sido conservados jovens por meio
das fórmulas dos aras e dos soros produzidos na Terra. Mas, a
qualquer momento, todos estes remédios poderiam falhar e o processo
de envelhecimento teria início. E esse processo, uma vez iniciado,
não pode ser detido.
Lançou um
olhar discreto para Perry, mas os pensamentos deste estavam ocupados
com outro assunto.
De seu
gabinete, podia-se falar diretamente com os lugares mais importantes
de Terrânia.
Quando
subitamente viu o comandante da Academia Espacial surgir na tela,
Bell engoliu em seco.
— Sim,
senhor — respondeu este a seu superior. — Todos os oitenta
tenentes já estão em seus postos.
— Obrigado
— respondeu Rhodan. — Providencie para que me seja fornecida
imediatamente a lista completa dos jovens tenentes com os respectivos
locais de serviço. Desligo.
Bell
estava sentado sobre a escrivaninha de Rhodan. Encheu as bochechas e
soltou ruidosamente o ar.
Rhodan não
disse nada. Seu rosto marcante parecia petrificado. Olhava
incessantemente para o céu límpido que cobria o Gobi.
Bell
começou a tamborilar nervosamente com os dedos. Em sua mente, havia
um único pensamento:
Se as
suspeitas de Perry fossem corretas, Thora já não estaria em Vênus,
mas sim no lugar onde Thomas Cardif estivesse servindo.
— Nem
poderia ser outra coisa — Bell nem se deu conta de ter pensado em
voz alta.
— O quê?
— perguntou Rhodan em tom áspero.
Bell
assustou-se. Mas ainda conseguiu dizer:
— Por
que pergunta o quê? Não há nenhum o quê. Por que faz essa
pergunta, Perry?
— Está
bem.
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto de Rhodan. Compreendera por que o amigo
estava mentindo. Se estivesse no lugar de Bell, também mentiria. Uma
mentira desse tipo não é uma mentira; é um ato de amizade.
A tela
situada do lado direito da escrivaninha iluminou-se. Nela surgiu a
cabeça de um oficial de certa idade e, ao mesmo tempo, a voz deste
soou no alto-falante:
— Permite
que, para terminar mais depressa, a lista completa seja...
— Permito
— interrompeu Rhodan. Logo após a tela exibiu, em vez da cabeça
do oficial, a lista completa dos nomes de oitenta tenentes com os
locais em que estavam servindo.
— Hal
Stockman... Reyno... Thomas Cardif, sistema de Krela, planeta Rusuf,
guarnição terrana, Coronel Julian Tifflor — leu Rhodan a meia voz
e acenou ligeiramente com a cabeça. Não esperara outra coisa.
Desligou.
Inclinou lentamente a cabeça para trás e fitou o amigo, que
continuava sentado sobre a escrivaninha. Bell mantinha-se em
silêncio. Lembrou-se de um apaixonada palestra mantida há vinte e
um anos atrás com Perry, Thora e Crest.
Por isso
mesmo, não estava dizendo uma única palavra.
Perry
Rhodan — o criador do Império Solar, um homem que soubera
enfrentar até mesmo o computador-regente de Árcon, transformando-se
em sócio do mesmo — sentia-se tomado de uma excitação febril.
Era um pai
que temia pela sorte do filho único.
A essa
hora, Perry era apenas pai — nem mais nem menos que isso. E todos
os pais que temem por seus filhos são iguais uns aos outros, assim
como todas as mães se igualam em seu modo de agir, quando querem ir
para junto dos filhos.
— Escute,
Bell. Confiei o segredo a Tiff, antes que fôssemos para Morag II —
estas palavras continham algo mais que seu sentido literal;
representavam um pedido de socorro de amigo para amigo. Era como se
Rhodan dissesse: ajude-me.
— Perry...
— Reginald Bell desceu da escrivaninha. Estava de pé ao lado do
amigo. Bell transformara-se num homem sério e pensativo. — Não o
ajudarei a manter o status
quo,
mas estou pronto a empenhar todas as energias para ajudar os três,
se houver uma catástrofe.
— Você
acha que haverá uma catástrofe. Bell?
Perry
Rhodan era apenas pai. Bell teve consciência disso.
— Bem,
agora você não sabe o que fazer. Neste meio tempo, Thora deve ter
feito alguma bobagem para a qual não há mais remédio. Por que é
que vocês dois não recepcionaram o rapaz, quando pela primeira vez
saiu da Academia, envergando seu uniforme de tenente?
— Será
que tenho de lembrar que estávamos em Tats-Tor?
— Ora
essa! — protestou Bell. — Quer que eu acredite nessa? Afinal,
quem é você? Não é o chefe? Então não podia ter dado uma ordem
para que a concessão das patentes de oficial fosse adiada?
Depois de
uma pausa, Bell prosseguiu:
— Diga-me
uma coisa. O que pretende fazer do rapaz? Por quanto tempo Thomas
ainda terá de cuidar da própria formação? Homem, essa... Há
vinte e dois anos esta expressão me pesa no estômago, sem que
consiga digeri-la. Tenham cuidado! Quem sabe se a formação de
Thomas a esta hora é tão completa que vocês não a possam mudar em
mais nada? Se fosse você, chamaria Vênus, Perry...
A estação
de vigilância espacial de Vênus informou laconicamente e em tom
imparcial a que hora Thora Rhodan decolara numa gazela do tipo mais
recente, em direção ao sistema de Krela.
— Já
está lá, Perry...
— Está
— foi a única resposta de Rhodan.
O velho
Perry Rhodan voltara a manifestar-se. Num instante, pesou todas as
possibilidades e as respectivas conseqüências.
— Se
Tiff não cometer nenhum erro e Thora...
Bell
colocou pesadamente a mão sobre o ombro do amigo.
— Perry,
pegue a Drusus e corra para o sistema de Krela.
— A nave
acaba de voltar de uma missão.
— E daí?
Seria a primeira vez que você utilizaria seu poder para resolver um
assunto pessoal. Será que não pode fazer uma coisa dessas? Acha que
o assunto não é tão importante assim?
Bell
estava lançando um ataque maciço, pois pretendia coagir o amigo de
qualquer forma a finalmente “remover”
uma ferida dolorosa chamada Thomas Cardif.
Mas Perry
Rhodan não era um homem fácil de influenciar. E, ao contrário de
Bell, era uma pessoa que muitas vezes sabia por intuição o que
devia e o que não devia fazer.
Perry
Rhodan resolveu esperar.
4
Num gesto
de desespero, o Coronel Julian Tifflor apertou a cabeça com as mãos.
— Era só
o que faltava — disse num cochicho, mas logo se controlou e entrou
em contato com o porto espacial.
Deu uma
ordem pelo microfone:
— Thora
será recebida na pista por uma escolta de seis oficiais que a
conduzirão à minha presença o mais rápido possível. Desligo.
No mesmo
instante, o encarregado do setor de controle espacial surgiu na tela.
— Onde
está a gazela?
A
resposta, proferida em tom rotineiro, foi a seguinte:
— Neste
momento está entrando na última órbita de aterrissagem. Deverá
pousar dentro de três ou quatro minutos...
O Coronel
Tifflor nem chegou a ouvir o resto. Saiu correndo. Ao menos um
oficial teria de recepcionar Thora Rhodan. A escolta por ele
solicitada não chegaria em tempo.
Naquele
momento, Thora já estava realizando o vôo visual.
O mundo de
Rusuf deslizava abaixo dela como numa fita de cinema. Era um astro
semelhante à Terra, no qual havia uma velha colônia arcônida. A
gravitação de 1,42 G estava no limite daquilo que poderia ser
tolerado por meio da força de vontade. Apesar disso, fizera, no
curso de muitas gerações, com que os arcônidas nascidos em Rusuf
se adaptassem fisicamente ao novo ambiente. Além de um esqueleto
reforçado e de uma estrutura muscular robusta, os colonos tinham um
tórax que lhes conferia um aspecto disforme.
O sistema
de Krela, que incluía o planeta Rusuf, ficava tão distante de Árcon
que não chegou a ser atingido pelo fenômeno de degenerescência. Os
arcônidas residentes nesse planeta continuavam a ser um povo
orgulhoso, um tanto arrogante, mas cheio de energia.
Manifestando
uma generosidade que só se adquire no curso de milênios, toleraram
que os mercadores galácticos construíssem povoações no planeta.
Mas nunca permitiram que os saltadores se arrogassem outros direitos
que não aqueles previstos no contrato.
Por duas
vezes houvera conflitos entre os arcônidas e os mercadores
galácticos. Por duas vezes os saltadores cometeram o engano de
entender que um arcônida é sempre igual a outro arcônida e
imaginaram que os arcônidas radicados em Rusuf eram criaturas
indolentes que nem os de seu mundo central.
Durante a
primeira refrega, os mercadores revoltados receberam sua lição:
saíram derrotados e tiveram de registrar a perda de nove naves
cilíndricas. Já o segundo conflito lhes custou a destruição de
três clãs dos saltadores juntamente com suas frotas.
Dali em
diante, os mercadores galácticos não tiveram outra alternativa
senão manter um conceito bastante elevado a respeito de Rusuf. Os
saltadores que ali se encontravam tomavam todo o cuidado para que não
houvesse novos contratempos.
Também
não protestaram quando as naves terranas pousaram e desembarcaram
soldados. Mantiveram-se tranqüilos ao verem os terranos instalar sua
guarnição e um espaçoporto a quarenta e cinco quilômetros de
Gelgen, uma pequena cidade arcônida na qual havia o maior
contingente de saltadores.
Esses
saltadores, que viam a finalidade da vida em negociar e obter
elevados lucros, obedeciam às ordens do computador-regente de Árcon,
tal qual os arcônidas que viviam nesse mundo.
E, desde
que a pequena guarnição se instalara, não houvera o menor
mal-entendido com os mercadores galácticos ou os colonos. Mas se
havia alguém que não confiasse muito nessa paz estranha, era o
Império Solar, especialmente seu chefe, Perry Rhodan. Sempre
encarecia ao chefe da guarnição que ficasse com os olhos bem
abertos. O computador-regente não era um sócio honesto. Deviam ser
amáveis com os saltadores, mas não deveriam levar a amabilidade a
um ponto que pudesse representar um perigo para sua vida.
Thora,
cuja gazela penetrara nas camadas mais densas da atmosfera e voava em
direção ao espaçoporto, já sabia disso.
Subitamente,
a estação de superfície: dos colonos chamou. Thora venceu o susto!
Ao ouvir sua língua materna tão “esticada”
e transformada num feio dialeto.
Pediram
que fornecesse seu número de identificação. Mas antes que pudesse
pensar em responder, uma voz inconfundível de terrano disse no
melhor intercosmo:
— Aqui
fala a guarnição terrana. Há uma hora e oito minutos a nave
irradiou do espaço o número terrano de identificação. Segundo o
contrato celebrado com Árcon, isso basta para satisfazer todas as
exigências. Solicito resposta pela faixa F-0775. Câmbio.
Um sorriso
de alívio passou pelos lábios de Thora. Sentia-se satisfeita pela
vigilância do controle espacial terrano, mas não se entregou à
ilusão, pois acreditava não ser a primeira vez que se verificavam
interferências como esta.
E o setor
de vigilância espacial da guarnição terrana cometeu um erro: não
informou o Coronel Julian Tifflor sobre o incidente.
A mesma
voz voltou a ranger:
— Quer
que a conduzamos para cá pelo raio vetor?
O orgulho
da arcônida despertou na mente de Thora. Será que ela, que
comandara a última nave expedicionária de Árcon, não seria capaz
de pousar a gazela no local indicado? Numa atitude quase automática,
e principalmente em virtude do nervosismo, respondeu num excelente
arcônida:
— Obrigada;
eu mesma pilotarei minha nave.
Acontece
que fazia muito tempo que Thora não pilotava qualquer espaçonave.
Embora
ainda se lembrasse perfeitamente de todos os comandos, teve de
concentrar-se ao máximo, e sentiu-se feliz com isso.
Durante
cinco minutos, seu cérebro deixou de martelar um nome: Thomas
Cardif!
Ao longe,
surgiram os contornos da base. O espaçoporto ficava do lado direito.
Estava assinalado por vários cruzadores ligeiros com seu típico
formato esférico. Thora ainda reconheceu três grupos de gazelas,
estacionadas na extremidade oposta do campo de pouso. Agora também
viu o carro que se dirigia em velocidade vertiginosa ao lugar onde
deveria pousar.
A gazela
pousou macia e elegantemente, segundo todas as regras da
Astronáutica. Thora desativou os campos defensivos, moveu uma chave
do quadro de comando que abria a comporta e fazia descer a rampa. No
momento em que o sinal de controle anunciou que o caminho para fora
da nave estava livre, colocou todos os comandos da nave na posição
zero.
Não se
levantou. Fitou rigidamente os instrumentos. Os olhos de sua mente
viram um jovem — Thomas — com o qual se defrontaria ainda hoje,
não como Thora, esposa do administrador do Império Solar, mas como
mãe.
Não sabia
como era bela com o sorriso maternal no rosto. Conservou este sorriso
ao reconhecer Julian Tifflor no pé da rampa. Sim, sentia-se muito
satisfeita em revelo.
Fez como
se não notasse que pretendia prestar-lhe as honras militares que lhe
cabiam como esposa do administrador. Thora apertou sua mão e disse
com uma amabilidade cativante:
— Tiff,
sinto-me tão feliz por ser você a primeira pessoa com quem me
encontro em Rusuf.
E Tiff —
mais precisamente, o Coronel Julian Tifflor — que já tinha oitenta
anos de idade, embora ainda parecesse um jovem na flor dos anos,
enrubesceu. Sentira que o cumprimento impulsivo de Thora vinha do
fundo do coração e, ao mesmo tempo, percebeu como era difícil a
missão que lhe fora confiada pelo chefe.
Enquanto
iam de carro em direção à sede da guarnição, conversaram sobre
assuntos indiferentes, até que o Coronel Tifflor pedisse desculpas
por ainda não ter arranjado um apartamento no hotel para Thora.
— Por
que não estamos preparados para receber visitas tão importantes,
dona Thora.
— Ora,
Tiff! — disse Thora com uma risada.
A
expectativa febril de encontrar Thomas dali a pouco fazia com que
tudo se apresentasse sob uma luz rósea.
— Apenas
preciso de um quarto. Não estou aqui em caráter oficial. Será que
não posso ocupar um quarto na sede da guarnição?
Demonstrando
uma solicitude surpreendente, o Coronel Tifflor deu resposta
afirmativa à pergunta. Chegou mesmo a afirmar que seria mais
agradável morar na sede da guarnição que no hotel.
Em
qualquer outra oportunidade, Thora teria lançado um olhar
desconfiado para o coronel e perguntado em tom frio o que pretendia
conseguir com a oferta. Mas, nesse instante, era apenas uma mãe que
viera para revelar essa qualidade ao filho.
O carro
parou diante do edifício simples e funcional em que estava instalada
a administração da guarnição. O Coronel Tifflor ajudou Thora a
descer. Passaram atrás das sentinelas e penetraram num longo
corredor. Saíram deste para entrar num grande parque, em cuja
extremidade se via um bangalô.
— Tiff —
disse em tom de surpresa, quando viu que em todas as peças do
bangalô os robôs de trabalho estavam em atividade. — O senhor fez
seus preparativos para receber minha visita.
— Ora —
respondeu Tifflor. — Os preparativos consistiram unicamente em,
enquanto me dirigia ao carro que me levaria ao espaçoporto, gritar
para a sentinela que arejasse o bangalô. Os robôs ainda estão
trabalhando.
Dali a uma
hora, o Coronel Tifflor bateu delicadamente na porta de Thora Rhodan.
Com a voz exultante a mesma disse:
— Tiff,
se for o senhor, faça o favor de entrar.
Disposta e
juvenil, com um estranho brilho nos olhos de arcônida, Thora estava
em pé junto à janela enquanto via o coronel entrar. Já sacudira a
poeira da viagem, utilizara todas as vantagens da cultura
habitacional arcônida para refrescar o corpo. Ficou satisfeita ao
constatar que Julian Tifflor substituíra o uniforme por um elegante
traje civil.
Enquanto
Julian Tifflor sentava à sua frente, ela o examinou atentamente.
Teve a atenção despertada por seu rosto severo, quase enrijecido.
— O que
há, Tiff?
O coronel
acenou com a cabeça.
— Pois
bem, dona Thora. Sei por que veio a Rusuf. O chefe me ordenou que
cuidasse do Tenente Thomas Cardif.
Thora
Rhodan enrijeceu-se. Ficou imóvel diante de Julian Tifflor e fitou-o
intensamente.
— Coronel
Tifflor, o senhor não se atreverá a impedir-me de entrar em contato
com o tenente.
Thora não
viu outra alternativa senão bancar a arcônida altiva e arrogante.
Mas tudo aquilo era apenas um esforço desesperado, gerado pelo
sentimento de desamparo.
Fazia
quase sessenta anos que Julian Tifflor conhecia a esposa de seu
chefe. Haviam-se aproximado durante muitas missões perigosas. E não
há nada que possa ligar duas pessoas mais estreitamente que a ameaça
da morte e o perigo em geral. Por isso, compreendeu perfeitamente por
quê, naquele instante, fazia o papel de arcônida orgulhosa e esposa
do administrador.
Compreendeu
e perdoou.
Afinal,
era a mãe de Thomas Cardif!
Mas não
lhe demonstrou quanta pena sentia. Continuava a ser um oficial da
Frota Espacial, cujo comandante supremo era Perry Rhodan.
Foi o que
lhe disse. Não fez o menor comentário.
— Tiff...
Fez de
conta que não ouvira a voz suplicante.
— Dona
Thora, neste instante preferia sair numa missão sem retorno a estar
sentado diante da senhora. Eu...
Thora
levantou-se. Seus olhos chamejavam, mas uma vontade quase
sobre-humana obrigou a voz a não revelar o furacão sentimental que
lhe varria a mente.
— Coronel
Tifflor, meu marido lhe deu ordem expressa de impedir-me de falar com
Thomas? Sim ou não?
— Não.
— Então,
por que se julga com o direito de barrar-me o caminho?
O Coronel
Julian Tifflor também se levantou. Foi para trás de sua poltrona.
Ele, que arriscara cem vezes a vida por Perry Rhodan e pelo Império
Solar, temia os próximos trinta minutos.
— Coronel
Tifflor, por que se julga com o direito de impedir-me de fazer o que
quero? — Thora não gritava. Muito pior: falava baixo, e os olhos
pareciam dardejar fogo.
Não o
chamou mais de Tiff. Naquele momento, só via nele o Coronel Julian
Tifflor, oficial da Frota Espacial Terrana e chefe da guarnição de
Rusuf.
— É meu
senso de responsabilidade! — ele o disse com a voz rangedora, como
quem se defende.
Com uma
tranqüilidade apavorante, Thora perguntou:
— E o
senhor se atreve a sepultar meus sentimentos de mãe sob seu senso de
responsabilidade?
A acusação
fortaleceu Julian Tifflor. Sentiu instintivamente que essa pergunta
tocara num ponto que Thora não poderia deixar de compreender,
justamente por ser a mãe de Thomas Cardif.
Por
enquanto esquivou-se à pergunta que representava uma acusação.
Apoiando a mão sobre o encosto da poltrona, obrigou-se a perguntar
em tom suave:
— Posso
aproximar-me da senhora, Thora?
— Pois
não! — respondeu a arcônida. Julian Tifflor colocou-se bem à sua
frente e formulou outra pergunta:
— Permite
que segure sua mão? Thora não disse sim nem não, e Tiff — ou
melhor, o Coronel Julian Tifflor — deixou-se dominar pelo
sentimento. Segurou as mãos de Thora entre as suas.
Sentiu
fisicamente a rejeição que irradiava dela. Sentiu a força que lhe
enchia a alma, e teve a honestidade de confessar a si mesmo que,
nessa hora, Thora Rhodan era mais forte que ele. No entanto, Tifflor
tinha na mão um trunfo com que poderia tirar-lhe a força,
substituindo-a pela reflexão.
— Tenho
pena de Thomas Cardif. Seu trunfo era este.
Thora
desprendeu-se dele. O Coronel Tifflor percebeu que ela ainda não o
havia compreendido. Mas, se dissesse mais alguma coisa, diluiria a
força que havia atrás de suas palavras.
Ela mesma
teria de compreender o que ele queria dizer.
A
expressão do olhar de Thora mudava constantemente. Tifflor percebeu
como os arcônidas sabem odiar, como é terrível sua raiva, mas
também viu a força de vontade e o autodomínio dos arcônidas.
— Por
que... por que tem pena de Thomas, coronel?
— Porque
durante os poucos dias que está servindo em Rusuf, eu o estudei
constantemente.
“Thomas
Cardif é um arcônida em todos os sentidos. É um ser de dois
mundos. Com um dos pés pisa firmemente na Terra, enquanto o outro
está apoiado com a mesma firmeza em Árcon.
“É
nisso que reside sua infelicidade...”
Falara sem
a maior paixão, com a mesma objetividade do jurista que defende um
acusado perante o juiz.
— Arcônida?
— disse Thora, repetindo a palavra do coronel.
Estaria
agora perscrutando em sua mente a palavra arcônida?
Subitamente,
Julian Tifflor teve medo dessa mulher. Pela primeira vez, deu-se
conta de que, entre a Terra e Árcon, havia o abismo da eternidade. O
terrano e o arcônida eram seres semelhantes, mas apenas pelo aspecto
exterior; na mentalidade eram totalmente estranhos uns aos outros.
— Será
mesmo?
Com o
Coronel Tifflor, acontecia a mesma coisa que se passara com Reginald
Bell durante a palestra com Perry: estava transformando seus
pensamentos em palavras.
— O quê,
coronel?
Não se
valeu apenas da mentira de conveniência. Disse a Thora o que acabara
de pensar.
E ela
prestou atenção às suas palavras. Nem poderia deixar de fazê-lo,
pois aquilo lhe dizia respeito. Era a esposa de um terrano; a esposa
de Perry Rhodan. Será que haviam pecado ao se casarem?
Thora
esteve prestes a sucumbir a esse medo, mas lembrou-se do filho.
Naquele instante, brilhou em seus olhos o orgulho da mãe que deu a
vida a um filho sadio.
— Tiff,
não é verdade. Thomas está são ou doente?
Tiff fez
soar sua risada atrevida.
— Está
são! — disse com a voz rangedora. — Goza uma saúde de ferro.
— Neste
caso, deve haver um caminho que eu possa seguir sem que o senhor
tenha motivo de ter pena de Thomas.
Tiff não
lhe deu nenhuma esperança. Mais uma vez seu instinto lhe disse que,
nem mesmo com a mentira mais sofisticada, conseguiria enganar essa
mulher.
— Dona
Thora, não vejo nenhum caminho, e mais uma vez insisto nas minhas
observações. Nos sentimentos Thomas Cardif é um arcônida,
enquanto seu pensamento é o de um terrano. Por isso, a senhora não
poderá encontrar o caminho que levará a ele.
— Se meu
marido...
O Coronel
Tifflor não deixou que concluísse. Quanto mais cedo soubesse da
verdade, melhor seria para ela.
— O
chefe sente-se desesperado, dona Thora. Não tenho o direito de
dizer-lhe isso, mas agora é meu dever.
— Queira
deixar-me só, Tiff — Thora sorriu entre lágrimas e, quando o
coronel já se encontrava na porta, disse: — Tiff, o senhor é o
mesmo sujeito formidável de sempre.
Julian
Tifflor fechou apressadamente a porta atrás de si. Uma vez no
corredor, esfregou os olhos.
Enquanto
se encontrava a caminho do edifício da Administração, um robô de
vigilância deteve-o por um instante. Um largo círculo de engenhos
desse tipo cercava o bangalô. O Coronel Tifflor nem pensava em
afastar os robôs. Não queria nem podia assumir o menor risco com
Thora. O espaço aéreo acima do bangalô também era constantemente
observado.
Muito
preocupado, o coronel entrou em seu gabinete. O ordenança seguiu-o
de perto. Mas hoje Tifflor nem queria saber de quaisquer trabalhos
administrativos.
— Deixe-me
só. Incomode-me somente se surgir um caso de extrema urgência.
Descansou
a cabeça nas mãos. Seus pensamentos giravam constantemente em torno
de um ponto, e o nome desse ponto era Thomas Cardif.
O orgulho
de arcônida desse jovem, sua arrogância e sua teimosia, que por
vezes surgia inesperadamente, constituía o maior obstáculo para que
seus pais pudessem identificar-se perante ele.
O
computador positrônico de Vênus, que avaliara seu caráter, chegara
ao mesmo resultado e encarecera a inconveniência de qualquer outro
procedimento.
Era uma
verdadeira tragédia.
Thomas
Cardif era um homem de dois mundos. Carregava as características
principais desses mundos. Thomas Cardif era uma união dos extremos.
Julian
Tifflor não se atreveu a formular qualquer acusação, mesmo em
pensamento. Nunca se esqueceria da dor desesperada de Thora, nem o
esforço que tivera de fazer para pronunciar estas palavras: “Tenho
pena de Thomas Cardif.”
Com esta
frase, acusara Thora e Perry Rhodan de se entregarem ao egoísmo mais
crasso.
Um som e
uma imagem surgidos de repente representaram um verdadeiro alívio
para o Coronel Julian Tifflor.
— Pois
não — disse em tom distraído, mas acordou instantaneamente ao ver
o rosto de Thora projetado na tela.
— Venha
para cá, Tiff.
Dali a
alguns minutos, viu-se de novo frente a frente com ela, em seu
bangalô.
Thora
falava. Tiff escutava comovido. Cada uma de suas palavras exprimia
uma renúncia. Cada frase baseava-se nesta afirmativa: “Tenho
pena de Thomas Cardif.”
— ...mas
posso vê-lo, Tiff, não posso? Acho que não é necessário que eu
lhe prometa que me apresentarei somente como a esposa do
administrador.
— Pode
passar perto dele — restringiu Tifflor. — De acordo, Thora.
Thora
acenou fortemente com a cabeça.
— Quando
poderei vê-lo, Tiff?
— No
momento, o Tenente Cardif está realizando um vôo de patrulhamento
pelo sistema de Krela. Deverá estar de volta pelas vinte horas,
tempo local. Pelas vinte e uma horas, reunirei os oficiais numa
conferência. Posso pedir-lhe a gentileza de dirigir algumas palavras
aos mesmos?
Num gesto
impulsivo, a arcônida apertou-lhe a mão.
— Conte
comigo, Tiff — disse.
E, atrás
das lágrimas que lhe enchiam os olhos, brilhava o sorriso de
renúncia de uma mãe.
5
O coronel
Julian Tifflor quase não prestou atenção quando, pelas 19 horas e
44 minutos, o cruzador pesado Zyklop se dispôs a pousar sob o
farfalhar dos campos antigravitacionais. Tinha muito trabalho para
preparar a conferência dos oficiais, designada a curto prazo, e não
poderia reduzir a força de combate da guarnição. Apesar do
nervosismo, que crescia à medida que se aproximavam as 21 horas,
parecia calmo.
Seu
ajudante, o Major Lens, entrou. Tifflor mal o olhou. Lens passou
imediatamente ao assunto.
— O
espaçoporto manda perguntar se ainda precisamos dos robôs de
vigilância. Para falar com franqueza, não compreendo essa proteção
superconcentrada, coronel. Por aqui já se anda dizendo que o senhor
prendeu dona Thora.
— Ah!
Então vivem dizendo isso, major? Muito bem. Os comandantes de
gazelas já foram convocados para a reunião.
O Major
Lens enrubesceu ligeiramente. Acabara de receber uma das temidas
bofetadas morais. Tifflor não as distribuía com muita freqüência.
Só recorria a estas em caso de necessidade, e estava convencido de
que agora o major faria os boatos silenciarem de vez.
— Os
comandantes das gazelas foram convocados para as vinte e uma horas,
coronel. Além de todos os oficiais do estado-maior dos cruzadores e
todos os dirigentes administrativos...
— Naturalmente
— a observação foi proferida em tom mordaz.
— Quer
que os desconvide? — o Major Lens também não gostava dos
camaradas que passavam a vida nos alojamentos ou nos serviços de
retaguarda.
— Não.
O Serviço de Comunicações tem alguma notícia especial?
Lens
compreendeu imediatamente o motivo da pergunta. Tudo girava em torno
da segurança de Thora.
— Por
enquanto não.
— Mais
alguma coisa, major?
Julian
Tifflor preferia ficar só. Viu Lens caminhar em direção à porta.
No momento em que este pretendia abri-la, ouviu-se um ruído
estranho, vindo de fora.
Lens
também ouvira.
— É um
bombardeio de radiações, coronel?
Este
colocou a guarnição em estado de alarma. O espaçoporto também
ficou em prontidão rigorosa.
Mais uma
vez, o horrível chiado vindo de fora rompeu as paredes dotadas de
isolamento acústico.
— Major,
é o bangalô!
A
constatação de Tifflor não se revestiu da natureza de um grito
histérico. Os sessenta anos de serviços prestados a Perry Rhodan
representavam um duro treinamento, que obrigara os homens a saberem
lidar com todas as situações.
O Coronel
Tifflor permaneceu junto à escrivaninha e expediu suas ordens. Não
havia a menor dúvida de que o ataque era dirigido contra Thora.
Correu para fora juntamente com o Major Lens.
No mesmo
instante, as sereias uivaram nos cruzadores estacionados na periferia
do campo de pouso. Dentro de menos de um minuto, as naves se
prepararam para entrar cm combate.
Na
guarnição, os primeiros grupos de robôs de combate estavam
assumindo suas posições.
Tifflor
chegou à grande porta de entrada antes do major, mas subitamente
sentiu-se ofuscado por um raio verde- pálido.
— Abrigue-se!
— gritou Tifflor para o major, empurrando-o para trás.
Caíram
ruidosamente ao chão. Nesses poucos instantes, três raios
destruíram toda a entrada e, ainda, penetraram um bom pedaço pelo
corredor, até que o espetáculo cessasse numa tremenda explosão que
se verificou do lado de fora. O Coronel Tifflor tivera alguns
segundos para combinar os dados. Tinha certeza de que o ataque era
dirigido contra Thora. Ligou o rádio de bolso e transmitiu a
seguinte mensagem:
— Enviar
relatório ao comandante! Depois que o triplo raio destruidor s
desfez numa tremenda explosão, levantou se de um salto. Correu
através de um escritório, viu quatro homens que se haviam abrigado
no chão, abriu a janela e saltou para fora.
Três
metros abaixo dele, ficava um canteiro de flores bem cuidado. A terra
macia absorveu o impacto do salto. Enquanto se ajoelhava, recebeu as
primeiras informações:
— Os
robôs de vigilância foram destruídos por máquinas de combate
desconhecidas. O bangalô foi incendiado.
O
comandante do cruzador pesado Zyklop esteve a ponto de entrar na
palestra.
— Não
transmita nenhum relatório! — disse Tifflor em tom enérgico.
Atravessou
canteiros, tropeçou em meio à escuridão, voltou a levantar-se e
berrou para dentro do rádio:
— Quero
o relatório sobre o bangalô. Acontece que, no momento, por lá só
havia robôs terranos em luta contra máquinas de guerra
desconhecidas. O coronel não compreendia. Onde estavam os três
oficiais com os 25 homens que, segundo o plano de emergência,
deveriam ter assumido suas posições junto ao bangalô?
— Tenente
Hecks — fungou para dentro do telefone enquanto se desviava de um
galho baixo.
Viu o
bangalô que ardia na outra extremidade do parque e oito robôs
terranos que brilhavam sob o reflexo das chamas. Disparavam todas as
armas de radiações de que dispunham, pois estavam em luta com um
inimigo duas vezes superior em forças.
Naquele
instante, Julian Tifflor não viu nem a casa incendiada, nem a luta
dos robôs. Segurou seu rádio e falou em voz rouca:
— Alguém
viu Thora? Avisem imediatamente.
Do lado
oposto do parque, surgiu outra fileira de máquinas de combate,
seguida de perto por homens.

Nenhum comentário:
Postar um comentário