Rhodan
respondeu em tom de estranheza:
— Que
acontecimento é esse, Auris de Las-Toor?
Auris
fitou-o prolongadamente. Nos rostos dos três homens que a
acompanhavam havia uma expressão sombria e resoluta. Num gesto
provocador colocaram as mãos sobre as armas que traziam no cinto.
— O
senhor sabe perfeitamente a que acontecimento me refiro, Perry
Rhodan. Na última noite um desconhecido penetrou em nosso porto
espacial e quase matou dois dos nossos homens. E o fato aconteceu em
circunstâncias muito estranhas.
— O que
houve mesmo? — perguntou Rhodan, em tom de espanto.
— O
senhor realmente não sabe? Pois eu lhe explicarei.
Auris
contou em que condições haviam encontrado os dois policiais e
concluiu:
— Esse
ato só pode ter sido praticado por um mutante, e no caso trata-se de
um pequeno ser peludo, que muitas vezes foi visto perto do senhor.
Sabemos que esse ser dispõe de faculdades extraordinárias.
— Ah,
refere-se a Gucky? — Rhodan soltou uma risada; parecia aliviado. —
Infelizmente tenho que decepcioná-la, madame. Gucky encontra-se na
Terra. Será que a senhora acredita que ele poderia ter vindo aqui,
sem dispor de uma nave espacial e sem que eu soubesse?
Auris
fitou-o prolongadamente.
— Quer
dizer que a pequena criatura não está aqui? — olhou para a casa,
à frente da qual havia algumas pessoas. — O senhor permitiria que
eu e meus oficiais revistássemos o local?
— Se a
senhora faz questão e se isso a tranqüiliza, fique à vontade —
respondeu Rhodan. — Mas exijo que depois disso o campo energético
seja desligado, pois ele impede nossas comunicações pelo rádio.
— O
campo será desligado quando nós acharmos conveniente — disse
Auris, em tom atrevido. — O senhor cometeu uma infração grave e
não estamos dispostos a tolerar isso. O Conselho adiou a decisão
sobre a ampliação da base até que o assunto seja esclarecido.
“Dê
o fora!”,
pensou Rhodan intensamente, esperando que Gucky mantivesse contato
telepático com ele.
Perry era
um telepata tão fraco que não poderia prestar atenção aos
impulsos de Gucky, sem chamar a atenção dos presentes.
Auris e os
oficiais executaram o trabalho com o maior cuidado. Revistaram todos
os compartimentos da casa. Rhodan ajudou-os e chegou mesmo a levá-los
ao porão. Não viram o menor sinal do pequeno ser peludo. Apenas, um
dos oficiais pisou numa cenoura meio roída e escorregou. Ninguém
teve a idéia de que essa cenoura pudesse representar uma pista da
presença de Gucky, embora na verdade fosse o sinal mais evidente que
poderia ter deixado.
Dali a
meia hora Rhodan acompanhou sua visitante até o planador.
— Quando
a senhora me espera para a visita que planejamos, madame?
— Não o
espero, Rhodan. E o campo energético será mantido. O senhor terá
notícias minhas.
Rhodan
olhou para o relógio. Dentro de duas horas terminaria o prazo
combinado com o Major Scott.
— A
senhora está cometendo um erro, Auris — disse em tom preocupado. —
A interrupção dos contatos com a Terra desencadeará certas
operações que farão com que a senhora se arrependa da atitude que
está tomando. Sua frota ainda não está em condições de entrar em
combate. O que pretende fazer quando minhas naves partirem para o
ataque?
Auris
fitou-o com uma expressão triste. Via-se perfeitamente que agia
contra sua vontade e contra suas convicções.
— O
campo azul nos protegerá.
— De
forma alguma — respondeu Rhodan. — A senhora sabe perfeitamente
que nossas naves podem atravessar o campo energético. Ao menos as
naves que dispõem do sistema de propulsão linear.
Auris
sorriu.
— As
naves se espatifariam e seus homens morreriam.
Foi a vez
de Rhodan sorrir.
— Naturalmente
se espatifariam, mas serão naves sem tripulantes, que transportarão
uma carga muito perigosa. As bombas de Árcon serão detonadas com o
impacto. Seu campo azul será eliminado e a senhora ficará entregue
ao seu destino.
Auris
fitou-o. A coloração moreno-aveludada de sua pele desapareceu.
Havia um brilho de insegurança em seus olhos, enquanto se afastava.
— Avisarei
o Grande Conselho. Oportunamente o senhor será cientificado.
Desta vez
não estendeu a mão a Rhodan. Este teve a impressão de que assim
agira somente por causa dos oficiais, que haviam acompanhado a
conversa em silêncio. A escotilha fechou-se e o planador foi
subindo, para afastar-se rapidamente em direção à cidade.
Rhodan
seguiu-o com os olhos até que desaparecesse atrás das colinas.
Depois voltou lentamente para a casa. Os amigos aguardavam-no do lado
de fora. Gucky, que já tinha voltado, mantinha-se num ponto mais
afastado. Teleportara-se para o topo da montanha que antes lhe
servira de estação intermediária nos seus saltos. De lá
acompanhara atentamente a palestra travada por Rhodan e Auris, e
assim tivera conhecimento da partida do planador.
— E
agora? — perguntou John Marshall.
— Antes
de mais nada, Atlan intervirá. Como todos sabem, o campo energético
azul não constitui um obstáculo invencível para as ondas de
hiper-rádio. Um transmissor que tenha bastante potência é capaz de
rompê-lo, o que não é possível com o rádio comum. Atlan entrará
em contato comigo “por
puro acaso”
e tomará conhecimento dos acontecimentos. Pedirei que me ajude. Os
acônidas, que poderão captar a transmissão, ficarão sabendo como
Atlan reagirá diante do...
Viu-se
interrompido antes que pudesse completar a frase. Axel Wiener, que
estava de plantão na sala de rádio, saiu da casa.
— Uma
mensagem de hiper-rádio, sir. É a central de Árcon.
Rhodan fez
um gesto.
— Está
na hora. Vamos fazer votos de que os acônidas estejam grudados nos
aparelhos de escuta. Nesse caso terão uma boa surpresa, que tornará
ainda mais forte o choque que sofrerão depois.
Os outros
seguiram-no. Estavam curiosos para ver o que iria acontecer.
Rhodan
entrou na sala de rádio. Viu o rosto de seu amigo Atlan na tela. A
imagem do imperador era pouco nítida porque o campo energético
prejudicava gravemente a transmissão.
— Você
se encontra no mundo dos ancestrais — disse Atlan, dando início à
palestra. — Eu o vejo muito mal, Perry. Não existe nenhum motivo
especial para este chamado, mas se você dispuser de tempo, eu
gostaria que, por ocasião do regresso para a Terra, você se
dirigisse ao sistema de Proxyta. No segundo planeta...
Neste
ponto foi interrompido por Rhodan.
— Ainda
bem que você chamou, Atlan. Os aparelhos de que disponho aqui são
muito fracos para romper o campo energético de Ácon. Encontro-me
numa situação melindrosa. Os acônidas estão criando problemas.
Preciso do seu auxílio.
Atlan
mostrou-se espantado, conforme fora combinado.
— Você
precisa de ajuda? Diga logo do que se trata.
Rhodan
apresentou seu relato. Recriminou amargamente os acônidas, fazendo
questão de ressaltar que não tinha o menor interesse em provocar
complicações diplomáticas com Ácon. Mas também ressaltou que, se
não tivesse outra alternativa, seria obrigado a defender-se.
— Como
pretende fazer isso se não dispõe de nenhuma frota? — perguntou
Atlan. De repente havia uma tonalidade irônica na voz de Atlan, que
por certo provocaria a atenção dos acônidas. — Quanto a mim, nem
penso em ajudá-lo. Afinal, descendemos deles, e se houve conflitos
entre nós, os mesmos não mais existem. Hoje em dia as relações
entre Árcon e Ácon são amistosas.
Rhodan
parecia indeciso.
— Peço-lhe
que me ajude, Atlan. Você não poderá negar seu auxílio. Não se
esqueça de nossa aliança.
— Também
tenho uma aliança com os acônidas, e a mesma é mais importante.
Perry, no presente caso não posso prestar-lhes qualquer auxílio,
sem provocar uma guerra com Ácon. Será que vale a pena assumir um
risco tão grande por uma bagatela como essa?
— Não,
não vale — confessou Rhodan, aparentemente a contragosto. — É
verdade que se trata de uma bagatela. Gucky está na Terra, e o homem
que sofreu um ataque diz tê-lo visto numa nave dos acônidas.
Ninguém poderá provar isso. Todavia...
— Procure
conseguir permissão de decolar e dê o fora de Ácon. É o único
conselho que lhe posso dar. Sinto muito, mas estou do lado dos meus
ancestrais. Estão com a razão, pois afinal Ácon é seu mundo. Os
terranos não têm nada a fazer por aí.
Rhodan
fitou Atlan com uma expressão furiosa. Depois de algum tempo disse:
— Seja o
que você quiser, Atlan. Nunca me esquecerei de que você me negou
seu auxílio.
Desligou
abruptamente. Dali a alguns segundos, quando a ligação foi
interrompida também do lado de Árcon, a imagem de Atlan apagou-se.
Marshall,
Groeder e os outros fitaram Rhodan com uma expressão de
perplexidade.
Rhodan
sorriu e fez um gesto.
— Excelente,
não acham? Atlan bem que poderia ter abraçado a profissão de
artista.
Marshall,
que já lera os pensamentos de Rhodan, sorriu.
Com o
Tenente Groeder não aconteceu a mesma coisa.
— Quer
dizer...?
— É
claro que só pode ser isso. A briga entre mim e Atlan faz parte do
espetáculo. Daqui a uma hora, Bell dará início à segunda fase.
Para os acônidas será mais fácil atender às minhas exigências se
pensarem que Atlan está do seu lado. Parece um paradoxo, não
parece? — um sorriso irônico esboçou-se em seu rosto. —
Acontece que não é. Os acônidas ficarão satisfeitos, pois isso
talvez lhes renda uma aliança com Atlan. Veremos. Além disso, mais
tarde, quando houver necessidade, os acônidas estarão mais
dispostos a acreditar nas declarações de Atlan. E é o que importa.
Alguém,
que se encontrava mais ao fundo, fez um sinal. Todos viraram-se.
Gucky
passava a mão no pêlo que lhe cobria o peito.
— Na
minha opinião isso é muito confuso e complicado. Drama e mentira —
soltou um assobio de desaprovação. — Nos círculos civilizados
tudo isso costuma ser designado pela palavra diplomacia.
Afastou-se
em atitude de desprezo.
*
* *
Naturalmente
os postos de escuta de Ácon haviam acompanhado a comunicação
audiovisual entre Rhodan e Atlan. O Grande Conselho foi convocado
imediatamente para examinar a nova situação. Durante a sessão,
Auris de Las-Toor manteve uma atitude bastante discreta. Quase
chegava a dar a impressão de estar decepcionada. Ninguém soube
explicar sua atitude, mas quando chegaram os primeiros avisos de
abalos estruturais em torno do sistema, muitos membros do Conselho
acreditaram ter encontrado uma explicação para a atitude discreta e
a decepção da representante feminina.
As
informações eram inquietantes.
Os abalos
estruturais ininterruptos nas imediações do Sistema Azul provavam
que uma gigantesca frota ia se materializando. Saiu do hiperespaço e
fechou o cerco em torno de Ácon. As mensagens de rádio que foram
captadas indicavam que se tratava de uma frota terrana que viera para
libertar Rhodan.
Os
conselheiros acônidas sentiram-se dominados pelo pânico. O comando
de sua frota informou que as naves que estavam sendo adaptadas ainda
não podiam entrar em ação. Além disso, parecia haver uma
superioridade de um para cinco a favor dos terranos. Constatara-se a
presença de cinco mil unidades.
Por algum
motivo desconhecido a mensagem de rádio dirigida ao imperador de
Árcon ficou sem resposta.
O Conselho
precisava urgentemente de bons conselhos. Finalmente incumbiu Auris
de Las-Toor de procurar um entendimento com Rhodan.
*
* *
— A
senhora já deve ter visto que nestas últimas horas a situação se
modificou bastante, Auris de Las-Toor — disse Rhodan. — Veio para
avisar-me que já posso sair livremente de Ácon?
Auris
fitou atentamente os olhos cinzentos de Rhodan.
— O
senhor não pode contar com o apoio de Atlan, Rhodan.
Rhodan fez
um gesto de desprezo.
— Saberei
defender-me sem Atlan, Auris. O Império de Árcon não intervirá no
conflito, nem a meu favor, nem a seu favor. Para mim é quanto basta.
— Quais
são suas exigências?
John
Marshall mantinha-se em posição mais afastada. Cabia-lhe examinar
os pensamentos da acônida e avisar Rhodan assim que a mesma tramasse
alguma traição. Por enquanto não dera o sinal combinado.
— Quero
ter liberdade para sair daqui e exijo o cumprimento do que combinamos
em relação à ampliação de nosso entreposto comercial. Várias
naves mercantes já estão à espera no interior do sistema. Conceda
a permissão de pousar.
— E sua
frota de guerra? Será que não atacará quando abrirmos o campo
energético?
Rhodan
surpreendeu-se. Era uma idéia nova, com a qual ele não contara.
— Seria
possível manter o campo energético, abrindo apenas uma passagem?
Auris
confirmou com um gesto hesitante. Rhodan prosseguiu:
— Pois
bem, vou formular outra exigência. No futuro, Ácon poderá ativar o
campo azul quando quiser, mas obriga-se a deixar livre o espaço
aéreo acima de nosso entreposto. Poderia fazer o favor de transmitir
esta exigência ao Conselho?
— Nossos
geradores foram colocados de tal maneira que nesse caso uma área
muito mais ampla que sua base ficaria desguarnecida.
— Mantenho
minha exigência, Auris — de repente o tom de sua voz parecia mais
suave e acessível. — Procure compreender que tenho de tomar minhas
precauções, Auris. Quero que a senhora compreenda, mesmo que os
membros do Conselho não queiram ou não possam. Tente.
Auris
fitou-o.
— É o
que estou tentando desde que nos conhecemos, Rhodan. Nem sempre tem
sido fácil. Compreendo seus atos, mas nem sempre estes correspondem
aos interesses dos acônidas. E mesmo que eu compreenda tais atos,
não posso concordar com os mesmos.
Rhodan
soltou um suspiro.
— A
senhora torna as negociações bem difíceis, Auris, pois não quero
decepcioná-la nem magoá-la. A senhora cumpre seu dever de acônida
e eu cumpro o de terrano. Os sentimentos pessoais porventura
existentes deverão ser deixados de lado. De qualquer maneira, porém,
eles não deixam de desempenhar seu papel, conforme já ressaltei.
Por isso desejo que volte à cidade e peça ao Conselho que me envie
outro representante, caso minhas propostas sejam rejeitadas. Perante
qualquer outra pessoa poderei abandonar certas considerações que
tenho para com a senhora.
Desta vez
Auris estendeu-lhe a mão antes de entrar no planador.
— O
senhor terá notícias nossas, Perry Rhodan — prometeu e fitou-o em
cheio. — E eu voltarei, haja o que houver.
John
Marshall fez um sinal para Rhodan, que acompanhava o planador com a
vista.
— Auris
disse a verdade, sir. Não há em sua mente qualquer falsidade,
nenhuma idéia de traição. Suas intenções são honestas.
— Sei
disso — respondeu Rhodan em tom pensativo. — É justamente por
isso que minha tarefa se torna tão difícil. Se todos os acônidas
fossem falsos e traiçoeiros, eu seria de opinião que nossos atos se
justificariam. Mas do jeito que estão as coisas, acho que nosso
plano não passa de pura traição, mesmo que não tenhamos outra
possibilidade de proteger a Terra. Mesmo que hoje em dia os acônidas
não tenham nenhuma traição em mente, um belo dia terão. Isso
acontecerá quando se sentirem bastante fortes. E esse dia chegará
quando possuírem uma frota espacial. Daí se conclui que nossa
atuação é correta.
— Naturalmente
— concordou o Tenente Groeder, que acabara de aproximar-se. —
Afinal, esse campo energético não representa um ato amistoso para
conosco.
Gucky
apareceu.
— Já
estou cansado de esconder-me no porão ou teleportar-me para as
montanhas toda vez que aparece um acônida — lamentou-se. — Vivo
escondido, em vez de participar dos acontecimentos.
— Temos
de tomar nossas precauções — disse Rhodan, em tom apaziguador. —
Se você for visto, a trama estará descoberta. Por enquanto os
acônidas não têm certeza de quem colocou fora de ação os dois
policiais. Suspeitam, e as suspeitas dirigem-se a você. Mas não
podem provar nada.
— Sim,
compreendo. Mas bem que gostaria que pudéssemos dar logo o fora
daqui. É bem verdade que não há nenhum perigo, mas é justamente
por isso que sinto tanto tédio.
— Não
há perigo? — perguntou Rhodan, erguendo as sobrancelhas. —
Receio que você esteja subestimando a situação. Se os acônidas
não caírem no meu blefe dos bombardeios espaciais de mergulho,
ficaremos presos embaixo do campo azul pro resto da vida. Bell não
pode fazer nada sem assumir um grande risco para si ou colocar-nos em
perigo.
— Hum —
fez Gucky.
Preferiu
afastar-se sem outros comentários. Rhodan olhou para o relógio que
trazia no braço.
— Ainda
faltam três horas para a próxima ação. Espero que até lá
tenhamos uma resposta dos acônidas. Enquanto isso cuidaremos do
receptor de impulsos. Groeder e Wiener me ajudarão — fez um sinal
para Jenner e Ranault, que se encontravam perto deles. — É claro
que os senhores também ajudarão.
Desceram
para o porão, onde Gucky, bastante contrariado, se mantinha agachado
num canto, como quem não tem nada com o que se passa em torno de si.
Três
minutos antes do fim do prazo o pequeno receptor audiovisual entrou
em atividade. Auris apareceu na tela. Alguém foi chamar Rhodan.
Muito tenso, mas aparentando calma, entrou na sala de rádio.
Cumprimentou Auris com um gesto e sentou-se numa cadeira.
— Então,
o que diz o Grande Conselho de Ácon?
Auris
fechou os olhos por um instante e começou a falar:
— Suas
propostas foram aceitas. O campo azul ficará aberto permanentemente
em cima da base terrana. Haverá a respectiva adaptação dos
geradores.
— Obrigado
— respondeu Rhodan e esboçou um sorriso amável, parecendo que
nunca houvera divergências entre ele e Auris. — E a ampliação de
nosso porto espacial?
— Também
foi aceita, se bem que... Interrompeu-se abruptamente.
John
Marshall, cuja faculdade telepática lhe permitia controlar os
pensamentos de uma pessoa a uma distância relativamente grande,
lançou um olhar preocupado para Rhodan.
— Se bem
o quê?
— Não é
nada, Perry Rhodan. Apenas quero preveni-lo. O senhor conseguiu isso
por meio de ameaças. O Conselho só concordou a contragosto.
— Não
tive outra alternativa.
— Pois é
justamente isso. Uma amizade forçada não dura.
Rhodan
lançou um olhar penetrante para Auris.
— A
amizade que une nós dois não é forçada, Auris. Surgiu
espontaneamente. E não é afetada por aquilo que a senhora e eu
devemos fazer em virtude do cargo que ocupamos. Não nos esqueçamos
disso, haja o que houver — apontou para o teto. — Providencie
para que o campo energético seja desligado. Minha frota recebeu
ordens para iniciar o ataque a Ácon daqui a cinco minutos.
Auris
assustou-se. Olhou em torno, como quem procura auxílio.
— Como
posso fazer isso tão depressa? O Conselho terá de ser convocado.
Pela decisão do mesmo, o desligamento só estava previsto para hoje
de noite e...
— Aja
independentemente do Conselho, Auris! Dê logo a ordem, senão será
tarde para Ácon.
Auris
hesitou. Mas quando voltou a fitá-lo, leu nos olhos de Rhodan a
gravidade da situação. Confirmou com um gesto e disse em tom
resoluto:
— Está
bem. Mandarei desligar o campo energético.
— E
deixe-o desligado por cinco horas, para que minhas naves mercantes
possam pousar e decolar livremente. Já há muitas unidades reunidas
no sistema. Garanto que nenhuma nave de minha frota de guerra pousará
no planeta.
— Obrigado
— respondeu Auris e desligou.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Ainda
dispomos de dois minutos, Groeder. Faça uma ligação para Bell e
chame-me assim que estiver completada. Espero que o campo azul
desapareça de um instante para outro — levantou-se. — Esperarei
lá fora.
Jakobowski
e Jenner encontravam-se à frente da casa e olhavam para o céu, que
brilhava num azul intenso. Quando viram Rhodan, sentiram-se
aliviados.
— O
campo energético será desativado a qualquer momento — disse este.
— Não acredito que os acônidas assumam o risco de um ataque.
Acredito que a abertura que consegui pelo prazo de cinco horas será
suficiente para permitir a saída de toda a frota robotizada. Pelo
que concluí das palavras de Auris, o campo azul será aberto também
sobre o porto espacial dos acônidas. Se tudo correr conforme
previmos, não terão tempo de voltar a ativá-lo.
Jakobowski
apontou para o alto.
— Olhe o
campo energético, sir. Foi desligado.
Realmente
o azul do céu tornara-se mais pálido. Só junto à linha do
horizonte havia uma faixa azul-escura. Parecia que naquela região se
estendia o oceano.
Naquele
momento Wiener saiu correndo da casa.
— Sir, o
Tenente Groeder já conseguiu a ligação com mister Bell.
— Excelente
— Rhodan correu para a sala de rádio. O rosto do Major Scott
apareceu numa segunda tela. Rhodan poderia falar com ele e com Bell
ao mesmo tempo. — Tudo bem, Bell — principiou, esperando mais uma
vez que os acônidas o ouvissem.
— A
frota continuará de prontidão. Não ataquem! As naves cargueiras
que estão esperando podem pousar. Major Scott, o senhor também
pousará para levar-nos. Acho que as negociações a concluir poderão
ser conduzidas por Jakobowski, que será meu representante.
— São
sete naves cargueiras, sir — disse Scott. — Quer dizer que
juntamente com minha nave serão oito unidades que precisarão de
permissão para pousar.
— Ácon
já concedeu a permissão — respondeu Rhodan em tom indiferente,
numa interferência consciente nas atribuições do Grande Conselho.
— Acredito que no futuro não haverá mais necessidade de obter uma
permissão de pousar. Mais alguma pergunta, major?
— Não
senhor. Quer dizer que pousarei juntamente com as naves mercantes.
Rhodan fez
um gesto para Scott e Bell.
— O
contato de rádio será mantido. Bell, se o campo energético for
ativado de novo, você atacará imediatamente com bombas robotizadas.
— Naturalmente
— disse Bell com um sorriso.
Rhodan
fitou-o com uma expressão de advertência e saiu para assistir ao
pouso das naves terranas. Antes que a primeira tocasse na superfície
de Ácon, pousou um planador e dele desceu Auris. Rhodan viu-a
aproximar-se sem que ninguém a acompanhasse e compreendeu que seria
a última vez que a olharia por algumas semanas. O futuro encontro
traria algumas perguntas desagradáveis para ele, cujas respostas já
preparara.
— Muito
obrigado pelo auxílio, Auris — disse em tom amável. — Já
avisou os comandos de carga? Sete naves terranas pousarão e
descarregarão mercadorias destinadas ao comércio.
Auris
fitou-o prolongadamente, mas não entrou no assunto em que Rhodan
acabara de tocar.
— Seria
difícil influenciar o Conselho tão depressa. Portanto, dei por
conta própria a ordem para que a barreira energética fosse
retirada. Faço votos de que minha ordem não seja revogada. Se isso
acontecer, a culpa não será minha. Talvez não permitirão sua
saída do planeta, enquanto o incidente da última noite não for
esclarecido.
— Por
quê?
Auris
continuava a fitá-lo.
— O
intruso colocou fora de ação dois policiais nossos que patrulhavam
o porto espacial. O Grande Conselho quer saber o que estava fazendo
por lá. Receia-se que tenha agido por ordem sua, a fim de danificar
as naves.
— Um
simples intruso? Isso é ridículo! Como é que uma única pessoa
pode inutilizar toda uma frota?
— É
justamente o que queremos saber. Ainda não encontramos nenhuma
resposta — confessou Auris, honestamente.
Continuavam
de pé na área que ficava entre o planador e a casa. Ninguém podia
ouvir o que diziam, com exceção de Marshall e Gucky, que se
encontravam no interior da casa.
— De
qualquer maneira peço-lhe que não saia de Ácon, Rhodan, enquanto
as naves não tiverem sido examinadas por peritos.
— Sinto
muito, Auris, mas já tomei todos os preparativos para deixar Ácon
nestas próximas horas. Não posso revogar tudo sem que haja um
motivo bem plausível.
— E se
eu lhe pedisse?
Rhodan
manteve-se inflexível.
— Isso
não alteraria nada, por mais que lamente não poder encontrar-me
mais com a senhora... ao menos num futuro previsível.
De repente
surgiu uma expressão de tristeza nos olhos de Auris. O brilho do sol
nascente deu uma colaração violeta ao seu cabelo cor de cobre,
fazendo-o ficar com uma tonalidade quase igual à da manta que usava
constantemente.
— Terei
dificuldades... — disse Auris.
— Por
ter agido por conta própria? Não acredito que isso aconteça se
explicar ao Conselho que se viu coagida pelas circunstâncias.
Ninguém poderá acusá-la, Auris. A senhora apenas defendeu os
interesses de Ácon.
— É
estranho. Foi logo o senhor quem me obrigou a defender os interesses
de Ácon. Seria perfeitamente compreensível que só pensasse nos
seus interesses...
Rhodan
sorriu.
— Às
vezes os interesses das duas partes são paralelos, Auris.
A palestra
prolongou-se por mais dez minutos, até ser interrompida pelo pouso
da Odin.
— Este é
o comandante de minha nave — disse Rhodan, apontando para o Major
Scott, que acabara de entrar no elevador antigravitacional que o
levou suavemente da escotilha para o solo. — Peço licença para
apresentar-lhe o Major Scott — esperou que os dois se apertassem as
mãos. — Major Scott, recolha o pessoal. Decolaremos dentro de meia
hora.
Dali a
pouco despediu-se de Auris, que parecia bastante insegura. Sentiu que
algo estava para acontecer, algo que talvez poderia ter evitado. Mas
não dispunha de qualquer prova de que Rhodan pretendia enganá-la.
Quando
Marshall informou Rhodan sobre esses pensamentos da acônida, o
administrador soltou um suspiro de alívio.
— É
exatamente o que eu quero que ela acredite; ela e os acônidas. Será
um acaso, um acaso incompreensível, mas nada improvável na área da
Cibernética. Terá sido um pequeno erro na manipulação dos
controles, que não foi notado por ninguém. Uma causa insignificante
produziu um efeito tremendo.
As naves
cargueiras foram pousando uma após a outra. Jakobowski teve o que
fazer. Esqueceu-se das preocupações que Rhodan procurara apagar.
— Não
se preocupe com os acônidas — dissera Rhodan. — Quando o “acaso”
acontecer, procurarão prendê-lo, atribuindo a culpa a mim e ao
senhor. Mas o senhor sempre poderá apresentar o argumento de que
nunca teria ficado no planeta se a subtração da frota acônida
tivesse sido planejada por nós. Ninguém faz uma cova para deitar-se
no interior da mesma.
Finalmente
a Odin decolou.
A abertura
no campo energético azul era perfeitamente visível a grande
altitude. Realmente cobria uma área bem ampla. A gigantesca frota
espacial dos acônidas jazia desprotegida na zona neutra. Sem dúvida
pretendiam retirá-la dali quanto antes.
Mas quando
isso acontecesse seria tarde.
Rhodan
encontrava-se na sala de comando, juntamente com Jenner. Olhou para o
relógio.
— São
três horas e dez minutos, tempo padrão da Terra. Exatamente às
cinco horas, ou seja, dentro de menos de duas horas, o transmissor de
impulsos emitirá o sinal de ativação. Tem certeza de que tudo está
certo, tenente?
— Tenho
certeza absoluta. Todos os setores de ativação das naves foram
regulados para a mesma freqüência. Assim que o sinal de
impulsionamento for transmitido, o dispositivo robotizado assumirá o
comando de todas as unidades da frota. A rota será programada.
Dentro de cinco minutos os propulsores desenvolverão sua plena
potência. Assim que as naves tenham sido colocadas na rota, o
transmissor de impulsos será destruído. A pequena carga explosiva
que se encontra no porão da casa de Jakobowski será detonada
exatamente às cinco horas e três minutos. A nuvem de ácido
dissolverá o transmissor. Ninguém encontrará o menor vestígio do
mesmo.
Rhodan
confirmou com um gesto. Parecia satisfeito.
— Se
tudo der certo, daqui a duas horas os acônidas só terão oito naves
e não mil. Sinto não poder ver seus rostos quando a frota decolar.
Ácon
foi-se afastando no espaço. A Odin reuniu-se à frota de Bell. Todas
as unidades realizaram uma transição não camuflada em direção à
Terra. O salto seria facilmente registrado pelos rastreadores
estruturais dos acônidas. Até mesmo a segunda e a terceira
transição poderiam ser acompanhadas sem dificuldade. Rhodan não
tomou nenhuma providência para que a direção e a intensidade
dessas transições fossem mantidas em segredo.
Subitamente
prenderam a respiração.
Os
ponteiros dos relógios avançavam para a marca das cinco horas,
tempo padrão da Terra.
Auris de
Las-Toor tentava defender seu ponto de vista junto ao Conselho
convocado às pressas. Não foi fácil, mas os acônidas acabaram
reconhecendo que, nas circunstâncias relatadas, não haveria outra
solução. As medidas adotadas por Auris foram aprovadas a
posteriori.
Os
técnicos realizaram um exame por amostragem. Não encontraram
qualquer alteração nas naves vistoriadas. Isso não lhes dava uma
certeza cem por cento de que o intruso desconhecido fora perturbado
na execução do seu plano, mas o fato sempre representava uma
tranqüilidade. Uma hora depois da partida de Perry Rhodan, os
últimos técnicos saíram das naves e anunciaram que estavam prontos
para prosseguir nos trabalhos de adaptação. No entanto, o Grande
Conselho chegou à conclusão de que a redução da área de abertura
do campo energético seria mais urgente. Para isso tornava-se
necessária a remoção das unidades geradoras, que exigia toda a
força de trabalho disponível.
Auris foi
para casa e finalmente teve tempo para refletir. Da janela tinha uma
boa visão da cidade, que ficava de um lado. À sua esquerda viam-se
os bojos reluzentes de centenas de espaçonaves. No horizonte,
confundiam-se com o azul do céu.
Auris
recapitulou as declarações dos policiais que haviam sido atacados.
Era impossível que tivesse havido um engano. O ser que aquele homem
vira só podia ser o pequeno rato-castor que costumava estar sempre
em companhia de Rhodan. Mas desta vez não foi visto em companhia do
administrador. As suspeitas de Auris iam aumentando.
“Por
que Rhodan mandou o rato-castor para aquela nave?”,
indagou-se.
Não se
sabia muita coisa a respeito daquele animal que, segundo se dizia,
possuía faculdades sobrenaturais. Devia ser um mutante. A maneira
pela qual o policial fora colocado fora de ação parecia indicar
isso mesmo. Auris lembrou-se do homem invisível que fora “visto”
quando se encontrava na frente da barreira, deixando uma marca na
grama. Haveria alguma relação entre os dois fatos?
À medida
que refletia sobre isso, tornava-se cada vez mais preocupada.
“Será
que não cometi um erro ao permitir que Rhodan saísse livremente do
planeta?”,
voltou a questionar-se.
Afastou-se
da janela e sentou-se numa confortável poltrona anatômica que
ficava próxima à mesma.
De repente
a casa foi atingida por uma tormenta vinda da planície. A janela
rachou sob a pressão. As vidraças e a poeira penetraram pela
janela. Alguma coisa comprimiu o corpo de Auris, prendendo-a à
poltrona. Mal conseguia mover-se, mas finalmente conseguiu olhar pela
janela.
E então
viu.
Era a
frota!
Os
propulsores começaram a uivar e as unidades precipitaram-se para o
céu azul de Ácon. Eram cinqüenta ou cem naves de cada vez. Só
agora o deslocamento de ar provocado pela decolagem do primeiro grupo
atingira a casa de Auris. Metade da frota já subira ao céu. E o
resto seguia as primeiras unidades com uma terrível precisão.
Mesmo que
a pressão não a impedisse de levantar-se, Auris teria permanecido
na poltrona. De repente começou a compreender. A consciência da
culpa aliou-se ao medo da responsabilidade que teria de carregar
sozinha. Fora enganada por Perry Rhodan, pois ninguém senão ele
poderia ter provocado a fuga da frota robotizada. Então foi esse o
motivo da “excursão
do invisível”,
foi esse o motivo do ataque aos dois policiais.
Mas no
momento em que as últimas naves decolavam e a pressão causada pelo
deslocamento de ar foi diminuindo, Auris lembrou-se de uma frase que
Rhodan proferira numa prolongada palestra, durante a qual haviam
abordado temas filosóficos.
— No
amor e na guerra todos os recursos são permitidos
— dissera Rhodan, citando um provérbio muito em voga entre os
indivíduos de seu povo.
Auris
prosseguiu em suas reflexões. Se Rhodan tivesse agido de acordo com
os princípios morais de seu povo, ninguém poderia acusá-lo por
isso. Fizera o que devia. Além disso, ainda não havia como afirmar
se a fuga da frota realmente fora obra sua ou se resultará de um
acaso técnico incompreensível.
Levantou-se
e saiu da casa. Teria de chamar trabalhadores, mas era bem possível
que tivesse de esperar bastante para que o estrago fosse consertado.
Por certo sua casa não havia sido a única que fora atingida pelo
deslocamento de ar.
Soltou um
suspiro e entrou no pequeno planador, que numa viagem rápida a levou
até a cidade.
*
* *
Os
rastreadores automáticos dos acônidas funcionavam muito bem.
Entraram em ação assim que o propulsor da primeira nave entrou em
funcionamento. E acompanharam o curso de toda a frota que, segundo
parecia, era dirigida por um comando robotizado, até o momento em
que mergulhou no hiperespaço.
Mais tarde
os registros positrônicos contaram sua história.
As naves
decolaram em grupos, com um intervalo de poucos segundos. Aceleraram
imediatamente ao máximo e todas se dirigiram a um ponto
predeterminado, onde se reuniram. Chegando lá, prosseguiram na mesma
rota, que levava para um sol também azul, situado a cinco anos-luz
do ponto pré-fixado.
Subitamente
toda a frota desapareceu no hiperespaço, como se obedecesse a um
comando único.
No mesmo
instante houve um acontecimento extraordinário, que só pôde ser
constatado dali a cinco anos, a olho nu.
O cruzador
de patrulhamento Ácon VIII transmitiu o relato uma hora depois da
decolagem da frota. Os tripulantes testemunharam o acontecimento,
pois o vôo de inspeção levava o cruzador em direção ao sol azul.
O texto do
relatório era o seguinte:
O sol
sem planetas teve urna nova irrupção. Um fenômeno inexplicável
que se desenrolou na superfície do sol provocou uma reação em
cadeia, que atingiu a parte interna da estrela e provocou a explosão
da mesma. Isso aconteceu quando nos aproximávamos deste sol.
Conseguimos voltar em tempo. Nossos filmes revelam claramente que
alguns objetos voadores saíram do hiperespaço nas proximidades do
sol e foram atingidos por sua gravitação. A queda destes objetos e
as explosões nucleares que se seguiram devem ter causado a irrupção.
Aguardamos novas instruções.
Comandante
Kondor.
Depois de
ter ouvido o relato vindo de Ácon VIII, o Grande Conselho teve suas
primeiras dúvidas sobre a culpabilidade de Rhodan. Que interesse
poderia ter o terrano em roubar-lhes a frota para fazer com que se
precipitasse num sol? A tese de Auris, segundo a qual o fenômeno
poderia ter sido causado pelos comandos robotizados que provocaram
uma ação independente, firmou-se cada vez mais. Mas não havia como
provar uma hipótese ou outra.
Auris foi
incumbida de manter um contato de hiper-rádio com o imperador de
Árcon. Recebeu suas diretrizes e foi imediatamente à estação de
rádio que ficava na periferia do porto espacial, agora quase vazio.
Atlan
ouviu o relato sem interromper Auris. Seu rosto manteve uma expressão
de indiferença, embora em seu olhar surgisse um brilho de simpatia
quando encontrava com o de Auris.
Assim que
Auris concluiu, perguntou:
— Por
que Ácon resolveu avisar-me sobre a falha dos comandos robotizados
da frota? Será que posso ser culpado pela incompetência dos seus
técnicos? As naves estavam em boas condições, mas acabam de cair
sobre um sol e foram destruídas. É claro que a decolagem inesperada
pode ter sido provocada por alguma manipulação errônea do comando.
— As
causas ainda serão esclarecidas. O Grande Conselho de Ácon gostaria
de saber se o senhor pode colocar à nossa disposição mais uma
frota de mil naves. Estamos dispostos a pagar o preço que for
pedido.
Atlan
fitou-a com uma expressão de espanto.
— Mil
naves? Isso só pode ser uma brincadeira, Auris de Las-Toor. Onde
poderia arranjar mil naves, num momento em que os inimigos ameaçam o
Grande Império em todos os lados? Se houver alguma emergência
poderei ajudar, mas sinto muito não poder fornecer as mil naves.
— E se
provássemos que Perry Rhodan roubou nossa frota? — perguntou
Auris, com a voz tensa.
Atlan
parecia espantado.
— Provar
que Rhodan roubou a frota? — soltou uma gargalhada. — Por que
faria uma coisa dessas? Sua frota espacial é tão grande que não
iria transformar-se num ladrão para fortalecê-la. Não, Auris de
Las-Toor, essa idéia não tem nenhuma base lógica.
— Pois
ele provocou suspeitas — insistiu Auris. — Estranhas coisas
aconteceram enquanto se encontrava em Ácon.
— Isso
pode ter sido coincidência. Se Rhodan tivesse subtraído a frota,
sem dúvida teria encontrado um porto melhor que aquele sol azul. Não
acha, Auris?
Auris
confirmou com um gesto.
— Apenas
estou repetindo o que diz o Conselho. Da minha parte não acredito
que Rhodan seja culpado. Mas insisto no pedido de que o senhor nos
ceda outra frota. Sem couraçados espaciais, estaremos indefesos
diante de qualquer ataque.
— Pois
eu insisto em dizer que é impossível. E também insisto na garantia
de que, em caso de ataque, não negarei meu auxílio a Ácon. Tenho
certeza de que Rhodan fornecerá uma garantia idêntica quando souber
do acidente. Um instante, Auris. Nesse momento estou recebendo uma
mensagem.
Olhou para
o lado e pegou uma chapa de plástico na qual estavam gravadas certas
letras. Isso provava que se tratava de uma mensagem de hiper-rádio,
recebida pela estação robotizada. Leu-a e voltou a olhar para
Auris.
— Ouça
as informações que acabo de receber, embora não representem
nenhuma novidade para a senhora. Mas por certo removerão quaisquer
dúvidas que ainda possam haver em seu espírito. A mensagem vem de
um posto móvel de observação espacial e diz respeito ao sol azul
que ficava a cinco anos-luz de Ácon. Preste atenção, Auris: “Cerca
de mil esferas espaciais dirigiram-se a esse sol e, com pequenos
intervalos, desapareceram sob o envoltório gasoso, provocando uma
reação nuclear no coração do sol, que sofreu nova irrupção.
Estas observações provam que as naves não obedeceram a qualquer
comando humano. E também não se pode provar se eram comandadas por
robôs. As naves, depois de superarem a força de tração do sol,
desmaterializaram-se.’’
Voltou a
olhar para Auris.
— Como
vê, também por outro caminho chega-se a conclusão idêntica à
sua. Quero fazer-lhe uma pergunta. A senhora realmente acredita que
Rhodan seria tolo a ponto de destruir uma frota espacial, depois de
ter assumido riscos enormes ao roubá-la?
Auris
enfrentou o olhar de Atlan.
— Não —
disse em tom apático. — Não acredito — procurou esboçar um
sorriso débil. — Fico-lhe muito grata, Atlan. Transmitirei suas
informações ao Grande Conselho de Ácon. Passe bem.
— Muitas
felicidades, Auris de Las-Toor — respondeu Atlan antes que a tela
escurecesse.
Auris se
viu novamente a sós com as dúvidas e a incerteza que a enchiam cada
vez mais.
*
* *
Uma mão
lava a outra, e com isso ambas ficam limpas. Rhodan e Atlan haviam
seguido este princípio. Sob o ponto de vista moral não haviam
cometido nenhum roubo, mas apenas “recuperaram”
algo, que os acônidas tinham adquirido sob falsos pressupostos,
embora não fossem culpados disso. Estavam novamente sem frota, mas
bastariam alguns decênios para que construíssem uma. Mas muita
coisa aconteceria até lá, e Rhodan e Atlan saberiam aproveitar o
tempo.
O sol
azul, que sofrerá nova irrupção, representava apenas uma manobra
destinada a desviar as atenções dos acônidas. Rhodan nem pensara
em sacrificar uma única das novecentas e noventa e duas naves. Mal
saíram da atmosfera de Ácon, e o gigantesco centro de computação
de Árcon III, situado a milhares de anos-luz, assumira o comando
sobre elas e as reunira. Acontece que as naves não se materializaram
num ponto próximo, mas afastadas dois mil anos-luz, onde modificaram
sua rota e logo voltaram a entrar em transição.
Depois
disso as naves desapareceram. Oportunamente Atlan as traria de volta
e apagaria todos os sinais que pudessem indicar que as unidades já
tinham estado em poder dos acônidas.
No momento
em que a frota realizou sua primeira transição, as bombas
robotizadas, que gravitavam em torno do sol azul, reduziram a
velocidade, penetrando no campo de gravitação da estrela, e
precipitaram-se sobre a mesma. Conforme se esperara, explodiram.
Acreditava-se que fossem as naves que haviam decolado abrupta e
inesperadamente de Ácon. A estrela azul sofreu nova irrupção, que
a transformou num astro chamejante. E a frota deveria ser considerada
perdida.
Tudo isso
aconteceu enquanto Rhodan regressava para a Terra. Atlan informou-o
sobre o curso da operação destinada a remover os restos da
desastrada herança deixada por Thomas Cardif. As condições
anteriores foram restabelecidas. Por enquanto o perigo de outro
ataque dos acônidas contra a Terra fora removido. Rhodan poderia
dedicar-se tranqüilamente ao trabalho de reconquistar a confiança
das raças inteligentes da Galáxia. Trabalhava em cooperação com
Atlan e, como os dois unidos representavam um poder que ninguém
conseguiria derrotar, sem dúvida seriam bem-sucedidos.
Rhodan
sobressaltou-se quando recebeu o chamado do Capitão Burkow, que se
encontrava na sala de rádio da Odin.
— Há
uma mensagem de hiper-rádio de Ácon, sir. É Jakobowski.
Rhodan
aproximou-se do gravador e deixou correr a fita que continha a
mensagem. Não era longa nem minuciosa. Ao que parecia, Jakobowski
não tinha muito tempo:
— Deslocamento
de ar causado pela decolagem da frota danificou a casa residencial e
o edifício administrativo da base terrana de Ácon. Dois policiais
acônidas que se encontravam junto à barreira e três dos nossos
homens, foram feridos. Uma nave cargueira sofreu danos ligeiros em
virtude da queda de um elevador gravitacional. Comissão do Grande
Conselho realizou investigações. Suspeitas de que tenhamos
participado da subtração da frota foram abandonadas. Jakobowski
— Falou
pouco e bem — elogiou Rhodan e desligou o aparelho. — Os danos
que sofremos acabarão por convencer os acônidas de que não tivemos
nada com isso. Obrigado, Capitão Burkow. Ainda não chegou nenhuma
mensagem de Atlan?
— Eu o
avisarei assim que chegar, sir. Enquanto se realizavam os cálculos
para o próximo salto e a nave se aproximava do ponto de transição,
Gucky entrou na sala de comando. Ainda não aparecera desde a
decolagem.
Rhodan
fitou-o com uma expressão de espanto.
— Então,
ainda está vivo? Até parece que você se sente ofendido, baixinho.
— Pelo
menos você não me chama de Tenente Guck — disse o rato-castor, em
tom contrariado. Parecia sentir-se aliviado. — Afinal, todos
cometem erros. Será que você nunca cometeu nenhum?
Rhodan
lembrou-se dos olhos avermelhados de Thora, a esposa que morrera há
tanto tempo. Depois lembrou-se da expressão indagadora dos olhos de
Auris de Las-Toor. Fitou Gucky com uma expressão pensativa.
— Sim,
Gucky, já cometi meus erros, mas sempre suportei as conseqüências.
E estas foram mais pesadas do que eu esperava.
— Não
foi tanto assim — disse Gucky, e acabou revelando o que realmente
lhe oprimia o coração. — Não quero que Bell saiba que tive de
esconder-me no porão, toda vez que a bela Auris aparecia. É capaz
de pensar que tenho medo das mulheres.
Rhodan
colocou a mão sobre o ombro de Gucky.
— Isso
fica entre nós, baixinho. Não direi nada a Bell — levantou o dedo
e ameaçou em tom de brincadeira. — Você também vai calar a boca,
não vai? Em relação a Auris. Aposto que andou espionando nos meus
pensamentos. Caso eu tenha pensado alguma tolice, isto ficará entre
nós. Senão Bell acabará descobrindo toda a verdade. É possível
que eu esteja exagerando.
— Combinado!
— disse Gucky. — Acontece que não andei espionando — piscou
para Rhodan e saiu para o corredor.
Uma
cenoura meio roída caiu de seu bolso, rolou pela sala de comando e
parou aos pés do comandante. O major Scott contemplou-a com uma
expressão de contrariedade.
— Em
toda parte a gente encontra os sinais do rato-castor — lamentou-se
e abaixou-se para pegar a cenoura que tanto o chocara, mas a mesma
levantou-se subitamente, como se tivesse sido agarrada pela mão de
um fantasma e passou silenciosamente pela porta aberta.
— Ah,
você está aí — disse a voz alegre de Gucky.
O Major
Scott resmungou e passou a dedicar sua atenção aos controles. Os
computadores tiquetaqueavam ininterruptamente. A Odin aproximava-se
do ponto de transição. A frota de Bell já saltara e desaparecera.
Finalmente
a Odin também saltou.
*
* *
Momentos
depois Atlan chamou e informou Rhodan sobre a palestra que tivera com
Auris.
— A
operação está concluída. — Disse, acrescentando: — Se é que
alguém tinha suspeitas contra você, as mesmas foram eliminadas
pelas informações que prestei a Auris. De mim nunca suspeitaram. Se
a situação esquentar muito, disponha da frota arcônida.
— Muito
obrigado. A ação foi inútil a mim e a você. Não devemos nada um
ao outro — Rhodan fez uma pausa. — Auris disse mais alguma coisa?
Atlan
sorriu. Foi um sorriso indagador e curioso, mas também um tanto
irônico.
— Auris
de Las-Toor, a jovem e bela acônida? É uma representante
encantadora da raça dos meus ancestrais. Tenho a impressão de que
se sentiu muito feliz quando afastei as suspeitas de você. O
argumento do sol azul acabou por convencê-la. Ela não gostaria de
acreditar que você seja tão tolo.
— Bem...
mais alguma coisa?
— Mais
nada. Felicidades, Perry. Voltaremos a ver-nos no próximo contato de
rotina.
— Felicidades,
Atlan. Muito obrigado.
*
* *
Dali a
exatamente dois dias, Rhodan transmitira a Auris de Las-Toor, em nome
do Império Solar, sua tristeza pela perda inexplicável da frota
robotizada, ressaltando que se dispunha a ajudar o Império de Ácon
com suas naves, sempre que este fosse atacado. Ainda agradeceu pelas
atenções dispensadas aos homens da base terrana.
Auris
confirmou o recebimento da mensagem e informou que o Império de
Árcon também garantira seu auxílio. Disse que Ácon ficava
satisfeito em saber que possuía amigos.
Quando
Rhodan entrou no planador que o levaria ao lago de Goshun, não
imaginava a suspresa que o aguardava. Ainda não conhecia os
antecedentes dessa surpresa.
Esses
antecedentes datavam de quase três dias...
*
* *
Um técnico
chamado Morkat concluiu as inspeções em dez cruzadores e não
encontrou o menor indício de que algum desconhecido tivesse tentado
uma sabotagem ou colocado bombas nos mesmos.
Em sua
opinião os dois policiais haviam sofrido uma alucinação, ao
acreditarem que tinham visto um estranho. É bem verdade que não
soube explicar o ataque.
“Pois
bem”,
pensou depois de algum tempo, “apenas
estou realizando um exame por amostragem, tal qual os sete técnicos
restantes. E um exame por amostragem sempre tem seus pontos fracos.
As verificações costumam ser realizadas justamente nos lugares em
que não aconteceu nada. Examinarei mais cinco naves. Isto não está
previsto nos planos, mas justamente por esse motivo talvez traga bons
resultados.”
E assim o
técnico Morkat, que se encontrava no cruzador ligeiro número 75
quando o sinal do transmissor de impulsos liberou as fúrias do
inferno, foi raptado!
Felizmente
os campos antigravitacionais ligaram-se automaticamente, pois, do
contrário, a pressão o teria esmagado. Olhou para a tela e apenas
viu o porto espacial de Ácon V afastar-se com uma tremenda rapidez,
não demorando a desaparecer de vez da tela.
Viu que as
outras naves também estavam decolando.
No início
a idéia de que pudesse ter tocado um dos numerosos comandos
robotizados, provocando a fuga em massa, deixou-o assustado, mas logo
se chamou de idiota. Mas o susto provocado pela surpresa continuou.
Era
técnico e sabia alguma coisa sobre os sistemas propulsores das
espaçonaves. E estava por puro acaso na sala de comando do cruzador.
Tinha certeza de que não ligara os propulsores. Isso devia ter
acontecido por si, através um impulso transmitido pelo rádio, ou
por meio de um transmissor instalado em algum lugar.
O
desconhecido!
Morkat
começou a compreender que só por acaso estava vivendo um
acontecimento inconcebível. Compreendeu imediatamente quem era
responsável pela decolagem imprevista da frota. Ele sabia, mas será
que os acônidas também sabiam?
Esquecendo
todas as precauções, correu para a sala de rádio. Não era muito
versado na matéria, mas achou que seria capaz de pôr o transmissor
a funcionar. Quando conseguiu, já era tarde. Sentiu a dor da
transição e sabia que os sinais de rádio que conseguisse expedir
só chegariam a Ácon dali a alguns anos ou mesmo séculos.
As
características da transição não lhe forneceram nenhuma indicação
sobre a distância percorrida. Procurou, depois de refeito, colocar
em funcionamento o hiper-transmissor, mas não conseguiu. Desconfiou
de que seus conhecimentos não bastavam para isso. Logo após
seguiu-se outra transição.
Morkat
constatou um total de sete transições, mas não sabia que cada uma
delas levava numa direção diferente e que todas foram realizadas
sob o efeito dos compensadores de vibrações. Ninguém seria capaz
de localizá-los.
Quando o
cruzador voltou a materializar-se depois de sair da última
transição, Morkat viu um céu estranho projetado nas telas. As
outras naves foram aparecendo, até que toda a frota ficasse reunida.
Da leitura dos instrumentos concluiu que o vôo prosseguia à metade
da velocidade da luz, em direção a um sol não muito distante.
Durante as primeiras manobras convenceu-se de que as naves estavam
sendo dirigidas. E comandadas com muita segurança e precisão. Com a
mesma segurança com que toda a frota estava sendo dirigida desde o
início. Porém, na sala de comando de sua nave, não havia ninguém!
Dois
planetas gravitavam em torno do sol. O destino parecia ser o planeta
exterior, um enorme mundo seco coberto de imensos desertos e estepes.
Quando as naves roubadas entraram nas órbitas de pouso e desceram
sobre o mundo que, segundo parecia, era desabitado, a velocidade foi
reduzida fortemente. Dali a dez minutos o cruzador ligeiro pousou
suavemente.
Por alguns
segundos, Morkat permaneceu na sala de comando, em atitude indecisa,
mas logo correu para a eclusa principal. Soltou um suspiro de alívio
quando leu nas escalas os dados relativos à atmosfera do planeta. O
ar era respirável e a gravitação aproximava-se da de Ácon V.
Abriu a
eclusa e parou na mesma, perplexo. A visão que se descortinou à sua
frente era fantástica, embora correspondesse exatamente ao quadro
que imaginara.
A frota
estava pousando. Nave após nave descia e pousava suavemente e com
grande maestria no chão desértico do planeta desconhecido. Até
mesmo a disposição das unidades, que fora observada no campo de
pouso de Ácon V, foi mantida. Até parecia que a frota fora
transferida pura e simplesmente de um mundo para outro.
E com toda
certeza foi o que aconteceu.
Morkat
esperou que a última nave pousasse. Só depois disso ligou o
elevador antigravitacional que o conduziu à superfície do planeta.
O pequeno sol amarelo estava quase a pino, mas o calor irradiado era
muito escasso. Nesse planeta, as noites por certo seriam muito frias.
Caminhando
pela areia fria, foi andando de uma nave a outra, na esperança louca
de que mais algum técnico tivesse experimentado a mesma desgraça
que ele. Logo se deu conta de que nunca seria capaz de fazer decolar
o cruzador sem que ninguém o ajudasse. Seus conhecimentos não
bastavam para isso. Entendia os vários controles e sabia lidar com
os mesmos. Mas seria totalmente impossível realizar a decolagem,
ainda mais numa posição desconhecida.
Mas a
força que provocara a decolagem da frota não deixaria de cuidar da
presa. Realmente teria sido Perry Rhodan? Teve suas primeiras
dúvidas, embora estas tivessem menos fundamento que as suspeitas.
Subitamente
Morkat assustou-se.
— E se
eu for descoberto? Sim, o que acontecerá? Tive conhecimento de um
segredo terrível. Não vão permitir que continue a viver! Quando
eles chegarem não devem encontrar-me por aqui.
Mais uma
vez deu-se conta de que a situação não oferecia nenhuma esperança.
Onde
poderia esconder-se? Numa das naves? Isso seria uma tolice, pois logo
seria descoberto. Que tal se se escondesse no planeta?
Olhou em
torno e soltou uma risada amarga. Era tudo deserto ou estepe. Nem
sequer havia montanhas ou outros acidentes da natureza que pudessem
oferecer alguma proteção. Seria inútil. Além disso, morreria de
fome se levassem a frota, deixando-o para trás.
Finalmente
os acontecimentos decidiram por ele.
Dois dias
passaram-se numa expectativa angustiante. Nada aconteceu. As naves
mantinham-se imóveis, como se estivessem petrificadas na solidão
cruel daquele planeta desabitado. De noite, Morkat voltava para
dentro de seu cruzador, para não morrer de frio. Assim que raiava o
dia saía e ficava a olhar o céu verde-pálido, de onde teriam de
vir os ladrões.
E de
repente apareceram. Uma nave esférica da classe Império pousou a
pequena distância da frota bem alinhada e imediatamente constatou a
presença de Morkat. Grupos de robôs saíram das escotilhas,
acompanhados por alguns humanos.
Quando
chegaram mais perto, Morkat constatou que se tratava de arcônidas.
Surpreendeu-se, pois esperava ver terranos.
Dispensaram-lhe
um tratamento cortês, mas não responderam às suas perguntas. Os
arcônidas permaneceram no planeta juntamente com os robôs.
Puseram-se a trabalhar nas naves. Morkat não sabia o que estavam
fazendo, mas imaginava. Removeriam todas as inovações deixadas
pelos acônidas.
Entretanto,
ainda havia algo, que não podia ser removido.
Era ele,
Morkat, o acônida!
O
comandante da nave esférica colocou à sua disposição um camarote
e decolou. Morkat constatou que a nave realizou uma única transição
e logo pousou.
Dali a
meia hora viu-se à frente de Gonozal VIII, Imperador de Árcon...
*
* *
Mais uma
vez estavam deitados sobre o convés do pequeno barco a vela, tal
qual há pouco mais de uma semana. Não havia quase nenhum vento e os
raios de sol dardejavam do céu azul.
Desta vez
Bell não estava nadando. Deitado ao lado de Rhodan, ouvia o relato
de Atlan, cuja voz saía, forte e bem compreensível, do minúsculo
receptor. E Gucky não mergulhou. Sentado na beirada do barco,
mantinha-se em silêncio, esforçando-se em vão para atingir a água
com os pés. Não conseguiu, pois suas pernas eram muito curtas.
Atlan fez
uma pausa. Rhodan perguntou:
— E
agora, Atlan? Você não pode prender o acônida Morkat. Também não
pode matá-lo. O que fazer?
— Já
pensei sobre isso. Tive uma idéia, Perry. Se você concordar,
modificarei a memória de Morkat. Quando voltar a Ácon, não terá a
menor lembrança do roubo da frota.
— Pretende
aplicar-lhe um bloqueio hipnótico acompanhado de outra memória? —
Rhodan fez um gesto afirmativo. — A idéia não é nada de má. Mas
será que dará certo? Como pretende levá-lo de volta para Ácon?
Atlan
sorriu.
— Se
quiser, eu lhe conto a história. É curta.
— Conte
logo, Atlan. Bell e Gucky também estão curiosos.
— Estão
ouvindo? Tanto melhor. Aliás, os homens que enviei a Xorbaty para
receber e arrumar a frota encontraram, justamente no cruzador ligeiro
em que Morkat tinha vindo e que desempenhou um papel todo especial na
história, os restos de uma cenoura. Será que alguém pode explicar
como aquilo foi parar lá?
— Hum —
murmurou Gucky e fitou Rhodan com a cabeça inclinada. — Como terá
sido?
— Sim,
como? — repetiu Rhodan. — Mas conte logo a história.
— Bem, é
o seguinte.
“Os
acônidas já estão superando a perda da frota. O mistério não foi
desvendado, e o culpado, se é que existe, continua desconhecido.
“Um belo
dia as naves de vigilância constatam a presença de um cruzador
ligeiro que não se identifica. Parece não ter tripulação, mas
acaba pousando em Ácon. O pouso é um tanto desajeitado. A nave é
danificada.
“A
escotilha abre-se e dela sai um homem. É Morkat!
“Morkat,
o técnico desaparecido, acaba de voltar. Logo apresenta seu relato
ao Grande Conselho, que é convocado às pressas. Conta que estava no
cruzador quando a frota decolou. Conseguiu ligar as telas, mas não
pôde fazer mais nada, pois os comandos não obedeciam. E o
equipamento de rádio também não funcionava.
“Na tela
surgiu um gigantesco sol azul, que se aproximava rapidamente e
desapareceu de repente. Mas só desapareceu por alguns segundos, e
logo voltou a surgir na tela. Isso depois de uma transição que
certamente fora realizada de surpresa, sem seguir nenhum plano.
“Todas
as naves precipitaram-se sobre o sol e caíram no mesmo. Não sabia
dizer por que seu cruzador ligeiro tomou outra rota, escapando à
terrível destruição. Resolvera verificar mais uma vez os comandos
e constatou que de repente o cruzador obedecia aos mesmos. Depois de
vagar por vários dias pelo espaço e dar alguns saltos que falharam,
acabou parando nas proximidades de Ácon. O resto do trecho foi
percorrido em vôo visual direto.
“O
Grande Conselho de Ácon ouve com muita atenção o relato de Morkat
e vê nele a prova definitiva de que o comando robotizado realmente
deve ter sido ativado, em virtude de uma falha técnica, e de que a
perda da frota não foi devido à atuação de qualquer potência
estrangeira.
“Auris
de Las-Toor solta um suspiro de alívio. Uma pedra parece sair de
cima de seu coração.
“O
técnico Morkat repete sua história sob o detector de mentiras. E o
aparelho confirma que diz a verdade.
“Dali em
diante os acônidas voltarão a defrontar-se sem o menor
constrangimento com os terranos e os arcônidas, contra os quais
nutriam graves suspeitas.
“Então,
amigos, que tal a minha história?”
— Parece
formidável — disse Rhodan. — Só me resta fazer votos de que se
torne verdadeira.
— Não
tenha a menor dúvida!
— Se
isso acontecer, Morkat nos terá prestado uma inestimável ajuda —
Rhodan respirou mais aliviado. — Às vezes um incidente imprevisto
pode ser bom para muita coisa.
— Não é
mesmo? — piou Gucky, muito satisfeito.
Rhodan
despediu-se de Atlan. Estendeu-se gostosamente sob os raios do Sol e
prestou atenção ao ruído borbulhante da água que passava pelo
casco do barco. Tudo saíra bem, e dali a alguns dias, quando a
história de Atlan se transformasse em verdade, Auris abandonaria de
vez as vagas suspeitas que ainda mantinha contra ele.
— Acho
que é isso que realmente importa — disse Gucky em voz alta.
Ao ver que
Bell o fitava com uma expressão indagadora, acrescentou:
— O que
realmente importa é que desta vez nossas férias tão curtas não
sejam interrompidas. O que poderia ser senão isso?
— Também
penso assim — disse Bell e deixou-se cair na água. Aliviado da
pesada carga, o barco voltou a endireitar-se subitamente, e o
rato-castor, que se encontrava do outro lado, perdeu o equilíbrio.
Mesmo contra a vontade, juntou-se a Bell.
Rhodan foi
o único que continuou deitado.
Estava
estendido bem no centro do barco, e por isso as modificações que
ocorriam à sua direita e à sua esquerda não o afetavam. Com um
sorriso viu Gucky mergulhar até o fundo, trazer uma pedra achatada e
colocá-la sobre a barriga de Bell.
Bell
limitou-se a dar uma gargalhada.
Era
maravilhoso ficar deitado sobre a água, deixando-se envolver sob os
raios do Sol e não fazendo absolutamente nada.
As férias
sempre são maravilhosas...
*
* *
*
*
*
Não
teria sido nada inteligente usar a força para obrigar os acônidas a
devolverem as espaçonaves. Por isso Perry Rhodan recorre à astúcia
e alcança seu objetivo.
Assim,
parece estar liquidado o último remanescente da triste lembrança de
Cardif. Estará mesmo?
O
sargento biorrobô revelará!
O
Sargento Robô,
é este o título do próximo volume da série Perry Rhodan, que
conta mais uma excitante aventura da Divisão III.

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