quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-117 - Frota Espacial Roubada - Clark Darlton [Parte 3]

Rhodan respondeu em tom de estranheza:
Que acontecimento é esse, Auris de Las-Toor?
Auris fitou-o prolongadamente. Nos rostos dos três homens que a acompanhavam havia uma expressão sombria e resoluta. Num gesto provocador colocaram as mãos sobre as armas que traziam no cinto.
O senhor sabe perfeitamente a que acontecimento me refiro, Perry Rhodan. Na última noite um desconhecido penetrou em nosso porto espacial e quase matou dois dos nossos homens. E o fato aconteceu em circunstâncias muito estranhas.
O que houve mesmo? — perguntou Rhodan, em tom de espanto.
O senhor realmente não sabe? Pois eu lhe explicarei.
Auris contou em que condições haviam encontrado os dois policiais e concluiu:
Esse ato só pode ter sido praticado por um mutante, e no caso trata-se de um pequeno ser peludo, que muitas vezes foi visto perto do senhor. Sabemos que esse ser dispõe de faculdades extraordinárias.
Ah, refere-se a Gucky? — Rhodan soltou uma risada; parecia aliviado. — Infelizmente tenho que decepcioná-la, madame. Gucky encontra-se na Terra. Será que a senhora acredita que ele poderia ter vindo aqui, sem dispor de uma nave espacial e sem que eu soubesse?
Auris fitou-o prolongadamente.
Quer dizer que a pequena criatura não está aqui? — olhou para a casa, à frente da qual havia algumas pessoas. — O senhor permitiria que eu e meus oficiais revistássemos o local?
Se a senhora faz questão e se isso a tranqüiliza, fique à vontade — respondeu Rhodan. — Mas exijo que depois disso o campo energético seja desligado, pois ele impede nossas comunicações pelo rádio.
O campo será desligado quando nós acharmos conveniente — disse Auris, em tom atrevido. — O senhor cometeu uma infração grave e não estamos dispostos a tolerar isso. O Conselho adiou a decisão sobre a ampliação da base até que o assunto seja esclarecido.
Dê o fora!”, pensou Rhodan intensamente, esperando que Gucky mantivesse contato telepático com ele.
Perry era um telepata tão fraco que não poderia prestar atenção aos impulsos de Gucky, sem chamar a atenção dos presentes.
Auris e os oficiais executaram o trabalho com o maior cuidado. Revistaram todos os compartimentos da casa. Rhodan ajudou-os e chegou mesmo a levá-los ao porão. Não viram o menor sinal do pequeno ser peludo. Apenas, um dos oficiais pisou numa cenoura meio roída e escorregou. Ninguém teve a idéia de que essa cenoura pudesse representar uma pista da presença de Gucky, embora na verdade fosse o sinal mais evidente que poderia ter deixado.
Dali a meia hora Rhodan acompanhou sua visitante até o planador.
Quando a senhora me espera para a visita que planejamos, madame?
Não o espero, Rhodan. E o campo energético será mantido. O senhor terá notícias minhas.
Rhodan olhou para o relógio. Dentro de duas horas terminaria o prazo combinado com o Major Scott.
A senhora está cometendo um erro, Auris — disse em tom preocupado. — A interrupção dos contatos com a Terra desencadeará certas operações que farão com que a senhora se arrependa da atitude que está tomando. Sua frota ainda não está em condições de entrar em combate. O que pretende fazer quando minhas naves partirem para o ataque?
Auris fitou-o com uma expressão triste. Via-se perfeitamente que agia contra sua vontade e contra suas convicções.
O campo azul nos protegerá.
De forma alguma — respondeu Rhodan. — A senhora sabe perfeitamente que nossas naves podem atravessar o campo energético. Ao menos as naves que dispõem do sistema de propulsão linear.
Auris sorriu.
As naves se espatifariam e seus homens morreriam.
Foi a vez de Rhodan sorrir.
Naturalmente se espatifariam, mas serão naves sem tripulantes, que transportarão uma carga muito perigosa. As bombas de Árcon serão detonadas com o impacto. Seu campo azul será eliminado e a senhora ficará entregue ao seu destino.
Auris fitou-o. A coloração moreno-aveludada de sua pele desapareceu. Havia um brilho de insegurança em seus olhos, enquanto se afastava.
Avisarei o Grande Conselho. Oportunamente o senhor será cientificado.
Desta vez não estendeu a mão a Rhodan. Este teve a impressão de que assim agira somente por causa dos oficiais, que haviam acompanhado a conversa em silêncio. A escotilha fechou-se e o planador foi subindo, para afastar-se rapidamente em direção à cidade.
Rhodan seguiu-o com os olhos até que desaparecesse atrás das colinas. Depois voltou lentamente para a casa. Os amigos aguardavam-no do lado de fora. Gucky, que já tinha voltado, mantinha-se num ponto mais afastado. Teleportara-se para o topo da montanha que antes lhe servira de estação intermediária nos seus saltos. De lá acompanhara atentamente a palestra travada por Rhodan e Auris, e assim tivera conhecimento da partida do planador.
E agora? — perguntou John Marshall.
Antes de mais nada, Atlan intervirá. Como todos sabem, o campo energético azul não constitui um obstáculo invencível para as ondas de hiper-rádio. Um transmissor que tenha bastante potência é capaz de rompê-lo, o que não é possível com o rádio comum. Atlan entrará em contato comigo “por puro acaso” e tomará conhecimento dos acontecimentos. Pedirei que me ajude. Os acônidas, que poderão captar a transmissão, ficarão sabendo como Atlan reagirá diante do...
Viu-se interrompido antes que pudesse completar a frase. Axel Wiener, que estava de plantão na sala de rádio, saiu da casa.
Uma mensagem de hiper-rádio, sir. É a central de Árcon.
Rhodan fez um gesto.
Está na hora. Vamos fazer votos de que os acônidas estejam grudados nos aparelhos de escuta. Nesse caso terão uma boa surpresa, que tornará ainda mais forte o choque que sofrerão depois.
Os outros seguiram-no. Estavam curiosos para ver o que iria acontecer.
Rhodan entrou na sala de rádio. Viu o rosto de seu amigo Atlan na tela. A imagem do imperador era pouco nítida porque o campo energético prejudicava gravemente a transmissão.
Você se encontra no mundo dos ancestrais — disse Atlan, dando início à palestra. — Eu o vejo muito mal, Perry. Não existe nenhum motivo especial para este chamado, mas se você dispuser de tempo, eu gostaria que, por ocasião do regresso para a Terra, você se dirigisse ao sistema de Proxyta. No segundo planeta...
Neste ponto foi interrompido por Rhodan.
Ainda bem que você chamou, Atlan. Os aparelhos de que disponho aqui são muito fracos para romper o campo energético de Ácon. Encontro-me numa situação melindrosa. Os acônidas estão criando problemas. Preciso do seu auxílio.
Atlan mostrou-se espantado, conforme fora combinado.
Você precisa de ajuda? Diga logo do que se trata.
Rhodan apresentou seu relato. Recriminou amargamente os acônidas, fazendo questão de ressaltar que não tinha o menor interesse em provocar complicações diplomáticas com Ácon. Mas também ressaltou que, se não tivesse outra alternativa, seria obrigado a defender-se.
Como pretende fazer isso se não dispõe de nenhuma frota? — perguntou Atlan. De repente havia uma tonalidade irônica na voz de Atlan, que por certo provocaria a atenção dos acônidas. — Quanto a mim, nem penso em ajudá-lo. Afinal, descendemos deles, e se houve conflitos entre nós, os mesmos não mais existem. Hoje em dia as relações entre Árcon e Ácon são amistosas.
Rhodan parecia indeciso.
Peço-lhe que me ajude, Atlan. Você não poderá negar seu auxílio. Não se esqueça de nossa aliança.
Também tenho uma aliança com os acônidas, e a mesma é mais importante. Perry, no presente caso não posso prestar-lhes qualquer auxílio, sem provocar uma guerra com Ácon. Será que vale a pena assumir um risco tão grande por uma bagatela como essa?
Não, não vale — confessou Rhodan, aparentemente a contragosto. — É verdade que se trata de uma bagatela. Gucky está na Terra, e o homem que sofreu um ataque diz tê-lo visto numa nave dos acônidas. Ninguém poderá provar isso. Todavia...
Procure conseguir permissão de decolar e dê o fora de Ácon. É o único conselho que lhe posso dar. Sinto muito, mas estou do lado dos meus ancestrais. Estão com a razão, pois afinal Ácon é seu mundo. Os terranos não têm nada a fazer por aí.
Rhodan fitou Atlan com uma expressão furiosa. Depois de algum tempo disse:
Seja o que você quiser, Atlan. Nunca me esquecerei de que você me negou seu auxílio.
Desligou abruptamente. Dali a alguns segundos, quando a ligação foi interrompida também do lado de Árcon, a imagem de Atlan apagou-se.
Marshall, Groeder e os outros fitaram Rhodan com uma expressão de perplexidade.
Rhodan sorriu e fez um gesto.
Excelente, não acham? Atlan bem que poderia ter abraçado a profissão de artista.
Marshall, que já lera os pensamentos de Rhodan, sorriu.
Com o Tenente Groeder não aconteceu a mesma coisa.
Quer dizer...?
É claro que só pode ser isso. A briga entre mim e Atlan faz parte do espetáculo. Daqui a uma hora, Bell dará início à segunda fase. Para os acônidas será mais fácil atender às minhas exigências se pensarem que Atlan está do seu lado. Parece um paradoxo, não parece? — um sorriso irônico esboçou-se em seu rosto. — Acontece que não é. Os acônidas ficarão satisfeitos, pois isso talvez lhes renda uma aliança com Atlan. Veremos. Além disso, mais tarde, quando houver necessidade, os acônidas estarão mais dispostos a acreditar nas declarações de Atlan. E é o que importa.
Alguém, que se encontrava mais ao fundo, fez um sinal. Todos viraram-se.
Gucky passava a mão no pêlo que lhe cobria o peito.
Na minha opinião isso é muito confuso e complicado. Drama e mentira — soltou um assobio de desaprovação. — Nos círculos civilizados tudo isso costuma ser designado pela palavra diplomacia.
Afastou-se em atitude de desprezo.

* * *

Naturalmente os postos de escuta de Ácon haviam acompanhado a comunicação audiovisual entre Rhodan e Atlan. O Grande Conselho foi convocado imediatamente para examinar a nova situação. Durante a sessão, Auris de Las-Toor manteve uma atitude bastante discreta. Quase chegava a dar a impressão de estar decepcionada. Ninguém soube explicar sua atitude, mas quando chegaram os primeiros avisos de abalos estruturais em torno do sistema, muitos membros do Conselho acreditaram ter encontrado uma explicação para a atitude discreta e a decepção da representante feminina.
As informações eram inquietantes.
Os abalos estruturais ininterruptos nas imediações do Sistema Azul provavam que uma gigantesca frota ia se materializando. Saiu do hiperespaço e fechou o cerco em torno de Ácon. As mensagens de rádio que foram captadas indicavam que se tratava de uma frota terrana que viera para libertar Rhodan.
Os conselheiros acônidas sentiram-se dominados pelo pânico. O comando de sua frota informou que as naves que estavam sendo adaptadas ainda não podiam entrar em ação. Além disso, parecia haver uma superioridade de um para cinco a favor dos terranos. Constatara-se a presença de cinco mil unidades.
Por algum motivo desconhecido a mensagem de rádio dirigida ao imperador de Árcon ficou sem resposta.
O Conselho precisava urgentemente de bons conselhos. Finalmente incumbiu Auris de Las-Toor de procurar um entendimento com Rhodan.

* * *

A senhora já deve ter visto que nestas últimas horas a situação se modificou bastante, Auris de Las-Toor — disse Rhodan. — Veio para avisar-me que já posso sair livremente de Ácon?
Auris fitou atentamente os olhos cinzentos de Rhodan.
O senhor não pode contar com o apoio de Atlan, Rhodan.
Rhodan fez um gesto de desprezo.
Saberei defender-me sem Atlan, Auris. O Império de Árcon não intervirá no conflito, nem a meu favor, nem a seu favor. Para mim é quanto basta.
Quais são suas exigências?
John Marshall mantinha-se em posição mais afastada. Cabia-lhe examinar os pensamentos da acônida e avisar Rhodan assim que a mesma tramasse alguma traição. Por enquanto não dera o sinal combinado.
Quero ter liberdade para sair daqui e exijo o cumprimento do que combinamos em relação à ampliação de nosso entreposto comercial. Várias naves mercantes já estão à espera no interior do sistema. Conceda a permissão de pousar.
E sua frota de guerra? Será que não atacará quando abrirmos o campo energético?
Rhodan surpreendeu-se. Era uma idéia nova, com a qual ele não contara.
Seria possível manter o campo energético, abrindo apenas uma passagem?
Auris confirmou com um gesto hesitante. Rhodan prosseguiu:
Pois bem, vou formular outra exigência. No futuro, Ácon poderá ativar o campo azul quando quiser, mas obriga-se a deixar livre o espaço aéreo acima de nosso entreposto. Poderia fazer o favor de transmitir esta exigência ao Conselho?
Nossos geradores foram colocados de tal maneira que nesse caso uma área muito mais ampla que sua base ficaria desguarnecida.
Mantenho minha exigência, Auris — de repente o tom de sua voz parecia mais suave e acessível. — Procure compreender que tenho de tomar minhas precauções, Auris. Quero que a senhora compreenda, mesmo que os membros do Conselho não queiram ou não possam. Tente.
Auris fitou-o.
É o que estou tentando desde que nos conhecemos, Rhodan. Nem sempre tem sido fácil. Compreendo seus atos, mas nem sempre estes correspondem aos interesses dos acônidas. E mesmo que eu compreenda tais atos, não posso concordar com os mesmos.
Rhodan soltou um suspiro.
A senhora torna as negociações bem difíceis, Auris, pois não quero decepcioná-la nem magoá-la. A senhora cumpre seu dever de acônida e eu cumpro o de terrano. Os sentimentos pessoais porventura existentes deverão ser deixados de lado. De qualquer maneira, porém, eles não deixam de desempenhar seu papel, conforme já ressaltei. Por isso desejo que volte à cidade e peça ao Conselho que me envie outro representante, caso minhas propostas sejam rejeitadas. Perante qualquer outra pessoa poderei abandonar certas considerações que tenho para com a senhora.
Desta vez Auris estendeu-lhe a mão antes de entrar no planador.
O senhor terá notícias nossas, Perry Rhodan — prometeu e fitou-o em cheio. — E eu voltarei, haja o que houver.
John Marshall fez um sinal para Rhodan, que acompanhava o planador com a vista.
Auris disse a verdade, sir. Não há em sua mente qualquer falsidade, nenhuma idéia de traição. Suas intenções são honestas.
Sei disso — respondeu Rhodan em tom pensativo. — É justamente por isso que minha tarefa se torna tão difícil. Se todos os acônidas fossem falsos e traiçoeiros, eu seria de opinião que nossos atos se justificariam. Mas do jeito que estão as coisas, acho que nosso plano não passa de pura traição, mesmo que não tenhamos outra possibilidade de proteger a Terra. Mesmo que hoje em dia os acônidas não tenham nenhuma traição em mente, um belo dia terão. Isso acontecerá quando se sentirem bastante fortes. E esse dia chegará quando possuírem uma frota espacial. Daí se conclui que nossa atuação é correta.
Naturalmente — concordou o Tenente Groeder, que acabara de aproximar-se. — Afinal, esse campo energético não representa um ato amistoso para conosco.
Gucky apareceu.
Já estou cansado de esconder-me no porão ou teleportar-me para as montanhas toda vez que aparece um acônida — lamentou-se. — Vivo escondido, em vez de participar dos acontecimentos.
Temos de tomar nossas precauções — disse Rhodan, em tom apaziguador. — Se você for visto, a trama estará descoberta. Por enquanto os acônidas não têm certeza de quem colocou fora de ação os dois policiais. Suspeitam, e as suspeitas dirigem-se a você. Mas não podem provar nada.
Sim, compreendo. Mas bem que gostaria que pudéssemos dar logo o fora daqui. É bem verdade que não há nenhum perigo, mas é justamente por isso que sinto tanto tédio.
Não há perigo? — perguntou Rhodan, erguendo as sobrancelhas. — Receio que você esteja subestimando a situação. Se os acônidas não caírem no meu blefe dos bombardeios espaciais de mergulho, ficaremos presos embaixo do campo azul pro resto da vida. Bell não pode fazer nada sem assumir um grande risco para si ou colocar-nos em perigo.
Hum — fez Gucky.
Preferiu afastar-se sem outros comentários. Rhodan olhou para o relógio que trazia no braço.
Ainda faltam três horas para a próxima ação. Espero que até lá tenhamos uma resposta dos acônidas. Enquanto isso cuidaremos do receptor de impulsos. Groeder e Wiener me ajudarão — fez um sinal para Jenner e Ranault, que se encontravam perto deles. — É claro que os senhores também ajudarão.
Desceram para o porão, onde Gucky, bastante contrariado, se mantinha agachado num canto, como quem não tem nada com o que se passa em torno de si.
Três minutos antes do fim do prazo o pequeno receptor audiovisual entrou em atividade. Auris apareceu na tela. Alguém foi chamar Rhodan. Muito tenso, mas aparentando calma, entrou na sala de rádio. Cumprimentou Auris com um gesto e sentou-se numa cadeira.
Então, o que diz o Grande Conselho de Ácon?
Auris fechou os olhos por um instante e começou a falar:
Suas propostas foram aceitas. O campo azul ficará aberto permanentemente em cima da base terrana. Haverá a respectiva adaptação dos geradores.
Obrigado — respondeu Rhodan e esboçou um sorriso amável, parecendo que nunca houvera divergências entre ele e Auris. — E a ampliação de nosso porto espacial?
Também foi aceita, se bem que... Interrompeu-se abruptamente.
John Marshall, cuja faculdade telepática lhe permitia controlar os pensamentos de uma pessoa a uma distância relativamente grande, lançou um olhar preocupado para Rhodan.
Se bem o quê?
Não é nada, Perry Rhodan. Apenas quero preveni-lo. O senhor conseguiu isso por meio de ameaças. O Conselho só concordou a contragosto.
Não tive outra alternativa.
Pois é justamente isso. Uma amizade forçada não dura.
Rhodan lançou um olhar penetrante para Auris.
A amizade que une nós dois não é forçada, Auris. Surgiu espontaneamente. E não é afetada por aquilo que a senhora e eu devemos fazer em virtude do cargo que ocupamos. Não nos esqueçamos disso, haja o que houver — apontou para o teto. — Providencie para que o campo energético seja desligado. Minha frota recebeu ordens para iniciar o ataque a Ácon daqui a cinco minutos.
Auris assustou-se. Olhou em torno, como quem procura auxílio.
Como posso fazer isso tão depressa? O Conselho terá de ser convocado. Pela decisão do mesmo, o desligamento só estava previsto para hoje de noite e...
Aja independentemente do Conselho, Auris! Dê logo a ordem, senão será tarde para Ácon.
Auris hesitou. Mas quando voltou a fitá-lo, leu nos olhos de Rhodan a gravidade da situação. Confirmou com um gesto e disse em tom resoluto:
Está bem. Mandarei desligar o campo energético.
E deixe-o desligado por cinco horas, para que minhas naves mercantes possam pousar e decolar livremente. Já há muitas unidades reunidas no sistema. Garanto que nenhuma nave de minha frota de guerra pousará no planeta.
Obrigado — respondeu Auris e desligou.
Rhodan olhou para o relógio.
Ainda dispomos de dois minutos, Groeder. Faça uma ligação para Bell e chame-me assim que estiver completada. Espero que o campo azul desapareça de um instante para outro — levantou-se. — Esperarei lá fora.
Jakobowski e Jenner encontravam-se à frente da casa e olhavam para o céu, que brilhava num azul intenso. Quando viram Rhodan, sentiram-se aliviados.
O campo energético será desativado a qualquer momento — disse este. — Não acredito que os acônidas assumam o risco de um ataque. Acredito que a abertura que consegui pelo prazo de cinco horas será suficiente para permitir a saída de toda a frota robotizada. Pelo que concluí das palavras de Auris, o campo azul será aberto também sobre o porto espacial dos acônidas. Se tudo correr conforme previmos, não terão tempo de voltar a ativá-lo.
Jakobowski apontou para o alto.
Olhe o campo energético, sir. Foi desligado.
Realmente o azul do céu tornara-se mais pálido. Só junto à linha do horizonte havia uma faixa azul-escura. Parecia que naquela região se estendia o oceano.
Naquele momento Wiener saiu correndo da casa.
Sir, o Tenente Groeder já conseguiu a ligação com mister Bell.
Excelente — Rhodan correu para a sala de rádio. O rosto do Major Scott apareceu numa segunda tela. Rhodan poderia falar com ele e com Bell ao mesmo tempo. — Tudo bem, Bell — principiou, esperando mais uma vez que os acônidas o ouvissem.
A frota continuará de prontidão. Não ataquem! As naves cargueiras que estão esperando podem pousar. Major Scott, o senhor também pousará para levar-nos. Acho que as negociações a concluir poderão ser conduzidas por Jakobowski, que será meu representante.
São sete naves cargueiras, sir — disse Scott. — Quer dizer que juntamente com minha nave serão oito unidades que precisarão de permissão para pousar.
Ácon já concedeu a permissão — respondeu Rhodan em tom indiferente, numa interferência consciente nas atribuições do Grande Conselho. — Acredito que no futuro não haverá mais necessidade de obter uma permissão de pousar. Mais alguma pergunta, major?
Não senhor. Quer dizer que pousarei juntamente com as naves mercantes.
Rhodan fez um gesto para Scott e Bell.
O contato de rádio será mantido. Bell, se o campo energético for ativado de novo, você atacará imediatamente com bombas robotizadas.
Naturalmente — disse Bell com um sorriso.
Rhodan fitou-o com uma expressão de advertência e saiu para assistir ao pouso das naves terranas. Antes que a primeira tocasse na superfície de Ácon, pousou um planador e dele desceu Auris. Rhodan viu-a aproximar-se sem que ninguém a acompanhasse e compreendeu que seria a última vez que a olharia por algumas semanas. O futuro encontro traria algumas perguntas desagradáveis para ele, cujas respostas já preparara.
Muito obrigado pelo auxílio, Auris — disse em tom amável. — Já avisou os comandos de carga? Sete naves terranas pousarão e descarregarão mercadorias destinadas ao comércio.
Auris fitou-o prolongadamente, mas não entrou no assunto em que Rhodan acabara de tocar.
Seria difícil influenciar o Conselho tão depressa. Portanto, dei por conta própria a ordem para que a barreira energética fosse retirada. Faço votos de que minha ordem não seja revogada. Se isso acontecer, a culpa não será minha. Talvez não permitirão sua saída do planeta, enquanto o incidente da última noite não for esclarecido.
Por quê?
Auris continuava a fitá-lo.
O intruso colocou fora de ação dois policiais nossos que patrulhavam o porto espacial. O Grande Conselho quer saber o que estava fazendo por lá. Receia-se que tenha agido por ordem sua, a fim de danificar as naves.
Um simples intruso? Isso é ridículo! Como é que uma única pessoa pode inutilizar toda uma frota?
É justamente o que queremos saber. Ainda não encontramos nenhuma resposta — confessou Auris, honestamente.
Continuavam de pé na área que ficava entre o planador e a casa. Ninguém podia ouvir o que diziam, com exceção de Marshall e Gucky, que se encontravam no interior da casa.
De qualquer maneira peço-lhe que não saia de Ácon, Rhodan, enquanto as naves não tiverem sido examinadas por peritos.
Sinto muito, Auris, mas já tomei todos os preparativos para deixar Ácon nestas próximas horas. Não posso revogar tudo sem que haja um motivo bem plausível.
E se eu lhe pedisse?
Rhodan manteve-se inflexível.
Isso não alteraria nada, por mais que lamente não poder encontrar-me mais com a senhora... ao menos num futuro previsível.
De repente surgiu uma expressão de tristeza nos olhos de Auris. O brilho do sol nascente deu uma colaração violeta ao seu cabelo cor de cobre, fazendo-o ficar com uma tonalidade quase igual à da manta que usava constantemente.
Terei dificuldades... — disse Auris.
Por ter agido por conta própria? Não acredito que isso aconteça se explicar ao Conselho que se viu coagida pelas circunstâncias. Ninguém poderá acusá-la, Auris. A senhora apenas defendeu os interesses de Ácon.
É estranho. Foi logo o senhor quem me obrigou a defender os interesses de Ácon. Seria perfeitamente compreensível que só pensasse nos seus interesses...
Rhodan sorriu.
Às vezes os interesses das duas partes são paralelos, Auris.
A palestra prolongou-se por mais dez minutos, até ser interrompida pelo pouso da Odin.
Este é o comandante de minha nave — disse Rhodan, apontando para o Major Scott, que acabara de entrar no elevador antigravitacional que o levou suavemente da escotilha para o solo. — Peço licença para apresentar-lhe o Major Scott — esperou que os dois se apertassem as mãos. — Major Scott, recolha o pessoal. Decolaremos dentro de meia hora.
Dali a pouco despediu-se de Auris, que parecia bastante insegura. Sentiu que algo estava para acontecer, algo que talvez poderia ter evitado. Mas não dispunha de qualquer prova de que Rhodan pretendia enganá-la.
Quando Marshall informou Rhodan sobre esses pensamentos da acônida, o administrador soltou um suspiro de alívio.
É exatamente o que eu quero que ela acredite; ela e os acônidas. Será um acaso, um acaso incompreensível, mas nada improvável na área da Cibernética. Terá sido um pequeno erro na manipulação dos controles, que não foi notado por ninguém. Uma causa insignificante produziu um efeito tremendo.
As naves cargueiras foram pousando uma após a outra. Jakobowski teve o que fazer. Esqueceu-se das preocupações que Rhodan procurara apagar.
Não se preocupe com os acônidas — dissera Rhodan. — Quando o “acaso” acontecer, procurarão prendê-lo, atribuindo a culpa a mim e ao senhor. Mas o senhor sempre poderá apresentar o argumento de que nunca teria ficado no planeta se a subtração da frota acônida tivesse sido planejada por nós. Ninguém faz uma cova para deitar-se no interior da mesma.
Finalmente a Odin decolou.
A abertura no campo energético azul era perfeitamente visível a grande altitude. Realmente cobria uma área bem ampla. A gigantesca frota espacial dos acônidas jazia desprotegida na zona neutra. Sem dúvida pretendiam retirá-la dali quanto antes.
Mas quando isso acontecesse seria tarde.
Rhodan encontrava-se na sala de comando, juntamente com Jenner. Olhou para o relógio.
São três horas e dez minutos, tempo padrão da Terra. Exatamente às cinco horas, ou seja, dentro de menos de duas horas, o transmissor de impulsos emitirá o sinal de ativação. Tem certeza de que tudo está certo, tenente?
Tenho certeza absoluta. Todos os setores de ativação das naves foram regulados para a mesma freqüência. Assim que o sinal de impulsionamento for transmitido, o dispositivo robotizado assumirá o comando de todas as unidades da frota. A rota será programada. Dentro de cinco minutos os propulsores desenvolverão sua plena potência. Assim que as naves tenham sido colocadas na rota, o transmissor de impulsos será destruído. A pequena carga explosiva que se encontra no porão da casa de Jakobowski será detonada exatamente às cinco horas e três minutos. A nuvem de ácido dissolverá o transmissor. Ninguém encontrará o menor vestígio do mesmo.
Rhodan confirmou com um gesto. Parecia satisfeito.
Se tudo der certo, daqui a duas horas os acônidas só terão oito naves e não mil. Sinto não poder ver seus rostos quando a frota decolar.
Ácon foi-se afastando no espaço. A Odin reuniu-se à frota de Bell. Todas as unidades realizaram uma transição não camuflada em direção à Terra. O salto seria facilmente registrado pelos rastreadores estruturais dos acônidas. Até mesmo a segunda e a terceira transição poderiam ser acompanhadas sem dificuldade. Rhodan não tomou nenhuma providência para que a direção e a intensidade dessas transições fossem mantidas em segredo.
Subitamente prenderam a respiração.
Os ponteiros dos relógios avançavam para a marca das cinco horas, tempo padrão da Terra.
Auris de Las-Toor tentava defender seu ponto de vista junto ao Conselho convocado às pressas. Não foi fácil, mas os acônidas acabaram reconhecendo que, nas circunstâncias relatadas, não haveria outra solução. As medidas adotadas por Auris foram aprovadas a posteriori.
Os técnicos realizaram um exame por amostragem. Não encontraram qualquer alteração nas naves vistoriadas. Isso não lhes dava uma certeza cem por cento de que o intruso desconhecido fora perturbado na execução do seu plano, mas o fato sempre representava uma tranqüilidade. Uma hora depois da partida de Perry Rhodan, os últimos técnicos saíram das naves e anunciaram que estavam prontos para prosseguir nos trabalhos de adaptação. No entanto, o Grande Conselho chegou à conclusão de que a redução da área de abertura do campo energético seria mais urgente. Para isso tornava-se necessária a remoção das unidades geradoras, que exigia toda a força de trabalho disponível.
Auris foi para casa e finalmente teve tempo para refletir. Da janela tinha uma boa visão da cidade, que ficava de um lado. À sua esquerda viam-se os bojos reluzentes de centenas de espaçonaves. No horizonte, confundiam-se com o azul do céu.
Auris recapitulou as declarações dos policiais que haviam sido atacados. Era impossível que tivesse havido um engano. O ser que aquele homem vira só podia ser o pequeno rato-castor que costumava estar sempre em companhia de Rhodan. Mas desta vez não foi visto em companhia do administrador. As suspeitas de Auris iam aumentando.
Por que Rhodan mandou o rato-castor para aquela nave?”, indagou-se.
Não se sabia muita coisa a respeito daquele animal que, segundo se dizia, possuía faculdades sobrenaturais. Devia ser um mutante. A maneira pela qual o policial fora colocado fora de ação parecia indicar isso mesmo. Auris lembrou-se do homem invisível que fora “visto” quando se encontrava na frente da barreira, deixando uma marca na grama. Haveria alguma relação entre os dois fatos?
À medida que refletia sobre isso, tornava-se cada vez mais preocupada.
Será que não cometi um erro ao permitir que Rhodan saísse livremente do planeta?”, voltou a questionar-se.
Afastou-se da janela e sentou-se numa confortável poltrona anatômica que ficava próxima à mesma.
De repente a casa foi atingida por uma tormenta vinda da planície. A janela rachou sob a pressão. As vidraças e a poeira penetraram pela janela. Alguma coisa comprimiu o corpo de Auris, prendendo-a à poltrona. Mal conseguia mover-se, mas finalmente conseguiu olhar pela janela.
E então viu.
Era a frota!
Os propulsores começaram a uivar e as unidades precipitaram-se para o céu azul de Ácon. Eram cinqüenta ou cem naves de cada vez. Só agora o deslocamento de ar provocado pela decolagem do primeiro grupo atingira a casa de Auris. Metade da frota já subira ao céu. E o resto seguia as primeiras unidades com uma terrível precisão.
Mesmo que a pressão não a impedisse de levantar-se, Auris teria permanecido na poltrona. De repente começou a compreender. A consciência da culpa aliou-se ao medo da responsabilidade que teria de carregar sozinha. Fora enganada por Perry Rhodan, pois ninguém senão ele poderia ter provocado a fuga da frota robotizada. Então foi esse o motivo da “excursão do invisível”, foi esse o motivo do ataque aos dois policiais.
Mas no momento em que as últimas naves decolavam e a pressão causada pelo deslocamento de ar foi diminuindo, Auris lembrou-se de uma frase que Rhodan proferira numa prolongada palestra, durante a qual haviam abordado temas filosóficos.
No amor e na guerra todos os recursos são permitidos — dissera Rhodan, citando um provérbio muito em voga entre os indivíduos de seu povo.
Auris prosseguiu em suas reflexões. Se Rhodan tivesse agido de acordo com os princípios morais de seu povo, ninguém poderia acusá-lo por isso. Fizera o que devia. Além disso, ainda não havia como afirmar se a fuga da frota realmente fora obra sua ou se resultará de um acaso técnico incompreensível.
Levantou-se e saiu da casa. Teria de chamar trabalhadores, mas era bem possível que tivesse de esperar bastante para que o estrago fosse consertado. Por certo sua casa não havia sido a única que fora atingida pelo deslocamento de ar.
Soltou um suspiro e entrou no pequeno planador, que numa viagem rápida a levou até a cidade.

* * *

Os rastreadores automáticos dos acônidas funcionavam muito bem. Entraram em ação assim que o propulsor da primeira nave entrou em funcionamento. E acompanharam o curso de toda a frota que, segundo parecia, era dirigida por um comando robotizado, até o momento em que mergulhou no hiperespaço.
Mais tarde os registros positrônicos contaram sua história.
As naves decolaram em grupos, com um intervalo de poucos segundos. Aceleraram imediatamente ao máximo e todas se dirigiram a um ponto predeterminado, onde se reuniram. Chegando lá, prosseguiram na mesma rota, que levava para um sol também azul, situado a cinco anos-luz do ponto pré-fixado.
Subitamente toda a frota desapareceu no hiperespaço, como se obedecesse a um comando único.
No mesmo instante houve um acontecimento extraordinário, que só pôde ser constatado dali a cinco anos, a olho nu.
O cruzador de patrulhamento Ácon VIII transmitiu o relato uma hora depois da decolagem da frota. Os tripulantes testemunharam o acontecimento, pois o vôo de inspeção levava o cruzador em direção ao sol azul.
O texto do relatório era o seguinte:

O sol sem planetas teve urna nova irrupção. Um fenômeno inexplicável que se desenrolou na superfície do sol provocou uma reação em cadeia, que atingiu a parte interna da estrela e provocou a explosão da mesma. Isso aconteceu quando nos aproximávamos deste sol. Conseguimos voltar em tempo. Nossos filmes revelam claramente que alguns objetos voadores saíram do hiperespaço nas proximidades do sol e foram atingidos por sua gravitação. A queda destes objetos e as explosões nucleares que se seguiram devem ter causado a irrupção. Aguardamos novas instruções.
Comandante Kondor.

Depois de ter ouvido o relato vindo de Ácon VIII, o Grande Conselho teve suas primeiras dúvidas sobre a culpabilidade de Rhodan. Que interesse poderia ter o terrano em roubar-lhes a frota para fazer com que se precipitasse num sol? A tese de Auris, segundo a qual o fenômeno poderia ter sido causado pelos comandos robotizados que provocaram uma ação independente, firmou-se cada vez mais. Mas não havia como provar uma hipótese ou outra.
Auris foi incumbida de manter um contato de hiper-rádio com o imperador de Árcon. Recebeu suas diretrizes e foi imediatamente à estação de rádio que ficava na periferia do porto espacial, agora quase vazio.
Atlan ouviu o relato sem interromper Auris. Seu rosto manteve uma expressão de indiferença, embora em seu olhar surgisse um brilho de simpatia quando encontrava com o de Auris.
Assim que Auris concluiu, perguntou:
Por que Ácon resolveu avisar-me sobre a falha dos comandos robotizados da frota? Será que posso ser culpado pela incompetência dos seus técnicos? As naves estavam em boas condições, mas acabam de cair sobre um sol e foram destruídas. É claro que a decolagem inesperada pode ter sido provocada por alguma manipulação errônea do comando.
As causas ainda serão esclarecidas. O Grande Conselho de Ácon gostaria de saber se o senhor pode colocar à nossa disposição mais uma frota de mil naves. Estamos dispostos a pagar o preço que for pedido.
Atlan fitou-a com uma expressão de espanto.
Mil naves? Isso só pode ser uma brincadeira, Auris de Las-Toor. Onde poderia arranjar mil naves, num momento em que os inimigos ameaçam o Grande Império em todos os lados? Se houver alguma emergência poderei ajudar, mas sinto muito não poder fornecer as mil naves.
E se provássemos que Perry Rhodan roubou nossa frota? — perguntou Auris, com a voz tensa.
Atlan parecia espantado.
Provar que Rhodan roubou a frota? — soltou uma gargalhada. — Por que faria uma coisa dessas? Sua frota espacial é tão grande que não iria transformar-se num ladrão para fortalecê-la. Não, Auris de Las-Toor, essa idéia não tem nenhuma base lógica.
Pois ele provocou suspeitas — insistiu Auris. — Estranhas coisas aconteceram enquanto se encontrava em Ácon.
Isso pode ter sido coincidência. Se Rhodan tivesse subtraído a frota, sem dúvida teria encontrado um porto melhor que aquele sol azul. Não acha, Auris?
Auris confirmou com um gesto.
Apenas estou repetindo o que diz o Conselho. Da minha parte não acredito que Rhodan seja culpado. Mas insisto no pedido de que o senhor nos ceda outra frota. Sem couraçados espaciais, estaremos indefesos diante de qualquer ataque.
Pois eu insisto em dizer que é impossível. E também insisto na garantia de que, em caso de ataque, não negarei meu auxílio a Ácon. Tenho certeza de que Rhodan fornecerá uma garantia idêntica quando souber do acidente. Um instante, Auris. Nesse momento estou recebendo uma mensagem.
Olhou para o lado e pegou uma chapa de plástico na qual estavam gravadas certas letras. Isso provava que se tratava de uma mensagem de hiper-rádio, recebida pela estação robotizada. Leu-a e voltou a olhar para Auris.
Ouça as informações que acabo de receber, embora não representem nenhuma novidade para a senhora. Mas por certo removerão quaisquer dúvidas que ainda possam haver em seu espírito. A mensagem vem de um posto móvel de observação espacial e diz respeito ao sol azul que ficava a cinco anos-luz de Ácon. Preste atenção, Auris: “Cerca de mil esferas espaciais dirigiram-se a esse sol e, com pequenos intervalos, desapareceram sob o envoltório gasoso, provocando uma reação nuclear no coração do sol, que sofreu nova irrupção. Estas observações provam que as naves não obedeceram a qualquer comando humano. E também não se pode provar se eram comandadas por robôs. As naves, depois de superarem a força de tração do sol, desmaterializaram-se.’’
Voltou a olhar para Auris.
Como vê, também por outro caminho chega-se a conclusão idêntica à sua. Quero fazer-lhe uma pergunta. A senhora realmente acredita que Rhodan seria tolo a ponto de destruir uma frota espacial, depois de ter assumido riscos enormes ao roubá-la?
Auris enfrentou o olhar de Atlan.
Não — disse em tom apático. — Não acredito — procurou esboçar um sorriso débil. — Fico-lhe muito grata, Atlan. Transmitirei suas informações ao Grande Conselho de Ácon. Passe bem.
Muitas felicidades, Auris de Las-Toor — respondeu Atlan antes que a tela escurecesse.
Auris se viu novamente a sós com as dúvidas e a incerteza que a enchiam cada vez mais.

* * *

Uma mão lava a outra, e com isso ambas ficam limpas. Rhodan e Atlan haviam seguido este princípio. Sob o ponto de vista moral não haviam cometido nenhum roubo, mas apenas “recuperaram” algo, que os acônidas tinham adquirido sob falsos pressupostos, embora não fossem culpados disso. Estavam novamente sem frota, mas bastariam alguns decênios para que construíssem uma. Mas muita coisa aconteceria até lá, e Rhodan e Atlan saberiam aproveitar o tempo.
O sol azul, que sofrerá nova irrupção, representava apenas uma manobra destinada a desviar as atenções dos acônidas. Rhodan nem pensara em sacrificar uma única das novecentas e noventa e duas naves. Mal saíram da atmosfera de Ácon, e o gigantesco centro de computação de Árcon III, situado a milhares de anos-luz, assumira o comando sobre elas e as reunira. Acontece que as naves não se materializaram num ponto próximo, mas afastadas dois mil anos-luz, onde modificaram sua rota e logo voltaram a entrar em transição.
Depois disso as naves desapareceram. Oportunamente Atlan as traria de volta e apagaria todos os sinais que pudessem indicar que as unidades já tinham estado em poder dos acônidas.
No momento em que a frota realizou sua primeira transição, as bombas robotizadas, que gravitavam em torno do sol azul, reduziram a velocidade, penetrando no campo de gravitação da estrela, e precipitaram-se sobre a mesma. Conforme se esperara, explodiram. Acreditava-se que fossem as naves que haviam decolado abrupta e inesperadamente de Ácon. A estrela azul sofreu nova irrupção, que a transformou num astro chamejante. E a frota deveria ser considerada perdida.
Tudo isso aconteceu enquanto Rhodan regressava para a Terra. Atlan informou-o sobre o curso da operação destinada a remover os restos da desastrada herança deixada por Thomas Cardif. As condições anteriores foram restabelecidas. Por enquanto o perigo de outro ataque dos acônidas contra a Terra fora removido. Rhodan poderia dedicar-se tranqüilamente ao trabalho de reconquistar a confiança das raças inteligentes da Galáxia. Trabalhava em cooperação com Atlan e, como os dois unidos representavam um poder que ninguém conseguiria derrotar, sem dúvida seriam bem-sucedidos.
Rhodan sobressaltou-se quando recebeu o chamado do Capitão Burkow, que se encontrava na sala de rádio da Odin.
Há uma mensagem de hiper-rádio de Ácon, sir. É Jakobowski.
Rhodan aproximou-se do gravador e deixou correr a fita que continha a mensagem. Não era longa nem minuciosa. Ao que parecia, Jakobowski não tinha muito tempo:
Deslocamento de ar causado pela decolagem da frota danificou a casa residencial e o edifício administrativo da base terrana de Ácon. Dois policiais acônidas que se encontravam junto à barreira e três dos nossos homens, foram feridos. Uma nave cargueira sofreu danos ligeiros em virtude da queda de um elevador gravitacional. Comissão do Grande Conselho realizou investigações. Suspeitas de que tenhamos participado da subtração da frota foram abandonadas. Jakobowski
Falou pouco e bem — elogiou Rhodan e desligou o aparelho. — Os danos que sofremos acabarão por convencer os acônidas de que não tivemos nada com isso. Obrigado, Capitão Burkow. Ainda não chegou nenhuma mensagem de Atlan?
Eu o avisarei assim que chegar, sir. Enquanto se realizavam os cálculos para o próximo salto e a nave se aproximava do ponto de transição, Gucky entrou na sala de comando. Ainda não aparecera desde a decolagem.
Rhodan fitou-o com uma expressão de espanto.
Então, ainda está vivo? Até parece que você se sente ofendido, baixinho.
Pelo menos você não me chama de Tenente Guck — disse o rato-castor, em tom contrariado. Parecia sentir-se aliviado. — Afinal, todos cometem erros. Será que você nunca cometeu nenhum?
Rhodan lembrou-se dos olhos avermelhados de Thora, a esposa que morrera há tanto tempo. Depois lembrou-se da expressão indagadora dos olhos de Auris de Las-Toor. Fitou Gucky com uma expressão pensativa.
Sim, Gucky, já cometi meus erros, mas sempre suportei as conseqüências. E estas foram mais pesadas do que eu esperava.
Não foi tanto assim — disse Gucky, e acabou revelando o que realmente lhe oprimia o coração. — Não quero que Bell saiba que tive de esconder-me no porão, toda vez que a bela Auris aparecia. É capaz de pensar que tenho medo das mulheres.
Rhodan colocou a mão sobre o ombro de Gucky.
Isso fica entre nós, baixinho. Não direi nada a Bell — levantou o dedo e ameaçou em tom de brincadeira. — Você também vai calar a boca, não vai? Em relação a Auris. Aposto que andou espionando nos meus pensamentos. Caso eu tenha pensado alguma tolice, isto ficará entre nós. Senão Bell acabará descobrindo toda a verdade. É possível que eu esteja exagerando.
Combinado! — disse Gucky. — Acontece que não andei espionando — piscou para Rhodan e saiu para o corredor.
Uma cenoura meio roída caiu de seu bolso, rolou pela sala de comando e parou aos pés do comandante. O major Scott contemplou-a com uma expressão de contrariedade.
Em toda parte a gente encontra os sinais do rato-castor — lamentou-se e abaixou-se para pegar a cenoura que tanto o chocara, mas a mesma levantou-se subitamente, como se tivesse sido agarrada pela mão de um fantasma e passou silenciosamente pela porta aberta.
Ah, você está aí — disse a voz alegre de Gucky.
O Major Scott resmungou e passou a dedicar sua atenção aos controles. Os computadores tiquetaqueavam ininterruptamente. A Odin aproximava-se do ponto de transição. A frota de Bell já saltara e desaparecera.
Finalmente a Odin também saltou.

* * *

Momentos depois Atlan chamou e informou Rhodan sobre a palestra que tivera com Auris.
A operação está concluída. — Disse, acrescentando: — Se é que alguém tinha suspeitas contra você, as mesmas foram eliminadas pelas informações que prestei a Auris. De mim nunca suspeitaram. Se a situação esquentar muito, disponha da frota arcônida.
Muito obrigado. A ação foi inútil a mim e a você. Não devemos nada um ao outro — Rhodan fez uma pausa. — Auris disse mais alguma coisa?
Atlan sorriu. Foi um sorriso indagador e curioso, mas também um tanto irônico.
Auris de Las-Toor, a jovem e bela acônida? É uma representante encantadora da raça dos meus ancestrais. Tenho a impressão de que se sentiu muito feliz quando afastei as suspeitas de você. O argumento do sol azul acabou por convencê-la. Ela não gostaria de acreditar que você seja tão tolo.
Bem... mais alguma coisa?
Mais nada. Felicidades, Perry. Voltaremos a ver-nos no próximo contato de rotina.
Felicidades, Atlan. Muito obrigado.

* * *

Dali a exatamente dois dias, Rhodan transmitira a Auris de Las-Toor, em nome do Império Solar, sua tristeza pela perda inexplicável da frota robotizada, ressaltando que se dispunha a ajudar o Império de Ácon com suas naves, sempre que este fosse atacado. Ainda agradeceu pelas atenções dispensadas aos homens da base terrana.
Auris confirmou o recebimento da mensagem e informou que o Império de Árcon também garantira seu auxílio. Disse que Ácon ficava satisfeito em saber que possuía amigos.
Quando Rhodan entrou no planador que o levaria ao lago de Goshun, não imaginava a suspresa que o aguardava. Ainda não conhecia os antecedentes dessa surpresa.
Esses antecedentes datavam de quase três dias...

* * *

Um técnico chamado Morkat concluiu as inspeções em dez cruzadores e não encontrou o menor indício de que algum desconhecido tivesse tentado uma sabotagem ou colocado bombas nos mesmos.
Em sua opinião os dois policiais haviam sofrido uma alucinação, ao acreditarem que tinham visto um estranho. É bem verdade que não soube explicar o ataque.
Pois bem”, pensou depois de algum tempo, “apenas estou realizando um exame por amostragem, tal qual os sete técnicos restantes. E um exame por amostragem sempre tem seus pontos fracos. As verificações costumam ser realizadas justamente nos lugares em que não aconteceu nada. Examinarei mais cinco naves. Isto não está previsto nos planos, mas justamente por esse motivo talvez traga bons resultados.”
E assim o técnico Morkat, que se encontrava no cruzador ligeiro número 75 quando o sinal do transmissor de impulsos liberou as fúrias do inferno, foi raptado!
Felizmente os campos antigravitacionais ligaram-se automaticamente, pois, do contrário, a pressão o teria esmagado. Olhou para a tela e apenas viu o porto espacial de Ácon V afastar-se com uma tremenda rapidez, não demorando a desaparecer de vez da tela.
Viu que as outras naves também estavam decolando.
No início a idéia de que pudesse ter tocado um dos numerosos comandos robotizados, provocando a fuga em massa, deixou-o assustado, mas logo se chamou de idiota. Mas o susto provocado pela surpresa continuou.
Era técnico e sabia alguma coisa sobre os sistemas propulsores das espaçonaves. E estava por puro acaso na sala de comando do cruzador. Tinha certeza de que não ligara os propulsores. Isso devia ter acontecido por si, através um impulso transmitido pelo rádio, ou por meio de um transmissor instalado em algum lugar.
O desconhecido!
Morkat começou a compreender que só por acaso estava vivendo um acontecimento inconcebível. Compreendeu imediatamente quem era responsável pela decolagem imprevista da frota. Ele sabia, mas será que os acônidas também sabiam?
Esquecendo todas as precauções, correu para a sala de rádio. Não era muito versado na matéria, mas achou que seria capaz de pôr o transmissor a funcionar. Quando conseguiu, já era tarde. Sentiu a dor da transição e sabia que os sinais de rádio que conseguisse expedir só chegariam a Ácon dali a alguns anos ou mesmo séculos.
As características da transição não lhe forneceram nenhuma indicação sobre a distância percorrida. Procurou, depois de refeito, colocar em funcionamento o hiper-transmissor, mas não conseguiu. Desconfiou de que seus conhecimentos não bastavam para isso. Logo após seguiu-se outra transição.
Morkat constatou um total de sete transições, mas não sabia que cada uma delas levava numa direção diferente e que todas foram realizadas sob o efeito dos compensadores de vibrações. Ninguém seria capaz de localizá-los.
Quando o cruzador voltou a materializar-se depois de sair da última transição, Morkat viu um céu estranho projetado nas telas. As outras naves foram aparecendo, até que toda a frota ficasse reunida. Da leitura dos instrumentos concluiu que o vôo prosseguia à metade da velocidade da luz, em direção a um sol não muito distante. Durante as primeiras manobras convenceu-se de que as naves estavam sendo dirigidas. E comandadas com muita segurança e precisão. Com a mesma segurança com que toda a frota estava sendo dirigida desde o início. Porém, na sala de comando de sua nave, não havia ninguém!
Dois planetas gravitavam em torno do sol. O destino parecia ser o planeta exterior, um enorme mundo seco coberto de imensos desertos e estepes. Quando as naves roubadas entraram nas órbitas de pouso e desceram sobre o mundo que, segundo parecia, era desabitado, a velocidade foi reduzida fortemente. Dali a dez minutos o cruzador ligeiro pousou suavemente.
Por alguns segundos, Morkat permaneceu na sala de comando, em atitude indecisa, mas logo correu para a eclusa principal. Soltou um suspiro de alívio quando leu nas escalas os dados relativos à atmosfera do planeta. O ar era respirável e a gravitação aproximava-se da de Ácon V.
Abriu a eclusa e parou na mesma, perplexo. A visão que se descortinou à sua frente era fantástica, embora correspondesse exatamente ao quadro que imaginara.
A frota estava pousando. Nave após nave descia e pousava suavemente e com grande maestria no chão desértico do planeta desconhecido. Até mesmo a disposição das unidades, que fora observada no campo de pouso de Ácon V, foi mantida. Até parecia que a frota fora transferida pura e simplesmente de um mundo para outro.
E com toda certeza foi o que aconteceu.
Morkat esperou que a última nave pousasse. Só depois disso ligou o elevador antigravitacional que o conduziu à superfície do planeta. O pequeno sol amarelo estava quase a pino, mas o calor irradiado era muito escasso. Nesse planeta, as noites por certo seriam muito frias.
Caminhando pela areia fria, foi andando de uma nave a outra, na esperança louca de que mais algum técnico tivesse experimentado a mesma desgraça que ele. Logo se deu conta de que nunca seria capaz de fazer decolar o cruzador sem que ninguém o ajudasse. Seus conhecimentos não bastavam para isso. Entendia os vários controles e sabia lidar com os mesmos. Mas seria totalmente impossível realizar a decolagem, ainda mais numa posição desconhecida.
Mas a força que provocara a decolagem da frota não deixaria de cuidar da presa. Realmente teria sido Perry Rhodan? Teve suas primeiras dúvidas, embora estas tivessem menos fundamento que as suspeitas.
Subitamente Morkat assustou-se.
E se eu for descoberto? Sim, o que acontecerá? Tive conhecimento de um segredo terrível. Não vão permitir que continue a viver! Quando eles chegarem não devem encontrar-me por aqui.
Mais uma vez deu-se conta de que a situação não oferecia nenhuma esperança.
Onde poderia esconder-se? Numa das naves? Isso seria uma tolice, pois logo seria descoberto. Que tal se se escondesse no planeta?
Olhou em torno e soltou uma risada amarga. Era tudo deserto ou estepe. Nem sequer havia montanhas ou outros acidentes da natureza que pudessem oferecer alguma proteção. Seria inútil. Além disso, morreria de fome se levassem a frota, deixando-o para trás.
Finalmente os acontecimentos decidiram por ele.
Dois dias passaram-se numa expectativa angustiante. Nada aconteceu. As naves mantinham-se imóveis, como se estivessem petrificadas na solidão cruel daquele planeta desabitado. De noite, Morkat voltava para dentro de seu cruzador, para não morrer de frio. Assim que raiava o dia saía e ficava a olhar o céu verde-pálido, de onde teriam de vir os ladrões.
E de repente apareceram. Uma nave esférica da classe Império pousou a pequena distância da frota bem alinhada e imediatamente constatou a presença de Morkat. Grupos de robôs saíram das escotilhas, acompanhados por alguns humanos.
Quando chegaram mais perto, Morkat constatou que se tratava de arcônidas. Surpreendeu-se, pois esperava ver terranos.
Dispensaram-lhe um tratamento cortês, mas não responderam às suas perguntas. Os arcônidas permaneceram no planeta juntamente com os robôs. Puseram-se a trabalhar nas naves. Morkat não sabia o que estavam fazendo, mas imaginava. Removeriam todas as inovações deixadas pelos acônidas.
Entretanto, ainda havia algo, que não podia ser removido.
Era ele, Morkat, o acônida!
O comandante da nave esférica colocou à sua disposição um camarote e decolou. Morkat constatou que a nave realizou uma única transição e logo pousou.
Dali a meia hora viu-se à frente de Gonozal VIII, Imperador de Árcon...

* * *

Mais uma vez estavam deitados sobre o convés do pequeno barco a vela, tal qual há pouco mais de uma semana. Não havia quase nenhum vento e os raios de sol dardejavam do céu azul.
Desta vez Bell não estava nadando. Deitado ao lado de Rhodan, ouvia o relato de Atlan, cuja voz saía, forte e bem compreensível, do minúsculo receptor. E Gucky não mergulhou. Sentado na beirada do barco, mantinha-se em silêncio, esforçando-se em vão para atingir a água com os pés. Não conseguiu, pois suas pernas eram muito curtas.
Atlan fez uma pausa. Rhodan perguntou:
E agora, Atlan? Você não pode prender o acônida Morkat. Também não pode matá-lo. O que fazer?
Já pensei sobre isso. Tive uma idéia, Perry. Se você concordar, modificarei a memória de Morkat. Quando voltar a Ácon, não terá a menor lembrança do roubo da frota.
Pretende aplicar-lhe um bloqueio hipnótico acompanhado de outra memória? — Rhodan fez um gesto afirmativo. — A idéia não é nada de má. Mas será que dará certo? Como pretende levá-lo de volta para Ácon?
Atlan sorriu.
Se quiser, eu lhe conto a história. É curta.
Conte logo, Atlan. Bell e Gucky também estão curiosos.
Estão ouvindo? Tanto melhor. Aliás, os homens que enviei a Xorbaty para receber e arrumar a frota encontraram, justamente no cruzador ligeiro em que Morkat tinha vindo e que desempenhou um papel todo especial na história, os restos de uma cenoura. Será que alguém pode explicar como aquilo foi parar lá?
Hum — murmurou Gucky e fitou Rhodan com a cabeça inclinada. — Como terá sido?
Sim, como? — repetiu Rhodan. — Mas conte logo a história.
Bem, é o seguinte.
Os acônidas já estão superando a perda da frota. O mistério não foi desvendado, e o culpado, se é que existe, continua desconhecido.
Um belo dia as naves de vigilância constatam a presença de um cruzador ligeiro que não se identifica. Parece não ter tripulação, mas acaba pousando em Ácon. O pouso é um tanto desajeitado. A nave é danificada.
A escotilha abre-se e dela sai um homem. É Morkat!
Morkat, o técnico desaparecido, acaba de voltar. Logo apresenta seu relato ao Grande Conselho, que é convocado às pressas. Conta que estava no cruzador quando a frota decolou. Conseguiu ligar as telas, mas não pôde fazer mais nada, pois os comandos não obedeciam. E o equipamento de rádio também não funcionava.
Na tela surgiu um gigantesco sol azul, que se aproximava rapidamente e desapareceu de repente. Mas só desapareceu por alguns segundos, e logo voltou a surgir na tela. Isso depois de uma transição que certamente fora realizada de surpresa, sem seguir nenhum plano.
Todas as naves precipitaram-se sobre o sol e caíram no mesmo. Não sabia dizer por que seu cruzador ligeiro tomou outra rota, escapando à terrível destruição. Resolvera verificar mais uma vez os comandos e constatou que de repente o cruzador obedecia aos mesmos. Depois de vagar por vários dias pelo espaço e dar alguns saltos que falharam, acabou parando nas proximidades de Ácon. O resto do trecho foi percorrido em vôo visual direto.
O Grande Conselho de Ácon ouve com muita atenção o relato de Morkat e vê nele a prova definitiva de que o comando robotizado realmente deve ter sido ativado, em virtude de uma falha técnica, e de que a perda da frota não foi devido à atuação de qualquer potência estrangeira.
Auris de Las-Toor solta um suspiro de alívio. Uma pedra parece sair de cima de seu coração.
O técnico Morkat repete sua história sob o detector de mentiras. E o aparelho confirma que diz a verdade.
Dali em diante os acônidas voltarão a defrontar-se sem o menor constrangimento com os terranos e os arcônidas, contra os quais nutriam graves suspeitas.
Então, amigos, que tal a minha história?”
Parece formidável — disse Rhodan. — Só me resta fazer votos de que se torne verdadeira.
Não tenha a menor dúvida!
Se isso acontecer, Morkat nos terá prestado uma inestimável ajuda — Rhodan respirou mais aliviado. — Às vezes um incidente imprevisto pode ser bom para muita coisa.
Não é mesmo? — piou Gucky, muito satisfeito.
Rhodan despediu-se de Atlan. Estendeu-se gostosamente sob os raios do Sol e prestou atenção ao ruído borbulhante da água que passava pelo casco do barco. Tudo saíra bem, e dali a alguns dias, quando a história de Atlan se transformasse em verdade, Auris abandonaria de vez as vagas suspeitas que ainda mantinha contra ele.
Acho que é isso que realmente importa — disse Gucky em voz alta.
Ao ver que Bell o fitava com uma expressão indagadora, acrescentou:
O que realmente importa é que desta vez nossas férias tão curtas não sejam interrompidas. O que poderia ser senão isso?
Também penso assim — disse Bell e deixou-se cair na água. Aliviado da pesada carga, o barco voltou a endireitar-se subitamente, e o rato-castor, que se encontrava do outro lado, perdeu o equilíbrio. Mesmo contra a vontade, juntou-se a Bell.
Rhodan foi o único que continuou deitado.
Estava estendido bem no centro do barco, e por isso as modificações que ocorriam à sua direita e à sua esquerda não o afetavam. Com um sorriso viu Gucky mergulhar até o fundo, trazer uma pedra achatada e colocá-la sobre a barriga de Bell.
Bell limitou-se a dar uma gargalhada.
Era maravilhoso ficar deitado sobre a água, deixando-se envolver sob os raios do Sol e não fazendo absolutamente nada.
As férias sempre são maravilhosas...


* * *
* *
*





Não teria sido nada inteligente usar a força para obrigar os acônidas a devolverem as espaçonaves. Por isso Perry Rhodan recorre à astúcia e alcança seu objetivo.
Assim, parece estar liquidado o último remanescente da triste lembrança de Cardif. Estará mesmo?
O sargento biorrobô revelará!
O Sargento Robô, é este o título do próximo volume da série Perry Rhodan, que conta mais uma excitante aventura da Divisão III.

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