terça-feira, 9 de abril de 2013

P-067 - Interlúdio em Silico V - Kurt Brand [parte 2]

O Coronel Tifflor fê-los parar.
Verifiquem imediatamente se Thora está no parque.
Naquele instante, raios térmicos vindos de três lados se cruzaram. Numa fração de segundos, destruíram oitenta por cento das árvores do parque.
Mais uma vez Tifflor procurou abrigar-se. Deixou-se cair no lugar em que estava. Mas os robôs terranos, programados para a destruição do inimigo, eram seres positrônicos que não conheciam o susto, o medo ou qualquer outro sentimento humano. Viraram-se instantaneamente sobre seus membros de aço, perceberam a direção da qual vinham os raios térmicos e dispararam.
Quatro robôs inimigos explodiram numa chuva de faíscas que se abriu em todas as direções. Mas o bombardeio de raios térmicos não se tornou menos intenso. Subitamente o céu que cobria a guarnição envolveu-se de uma luz ofuscante. O Coronel Tifflor não teve tempo para esconder o rosto, a fim de escapar à cegueira que duraria alguns minutos. Porém, compreendeu a finalidade da luta que se travava no parque.
Atenção, todos os homens! — disse para dentro de seu rádio. — A bomba luminosa destina-se a cobrir a retirada do inimigo. Thora está desaparecida. Prestem atenção a qualquer nave inimiga! A frota de cruzadores está pronta para decolar?
Estamos prontos para decolar, coronel! — disse a voz do comandante do Zyklop.
Depois, o receptor permaneceu em silêncio. Não houve qualquer informação sobre Thora.
Subitamente as informações começaram a precipitar-se.
Só mesmo um homem que tivesse passado pelo treinamento hipnótico estaria em condições de ordenar a confusão de dados em sua mente e obter uma visão de conjunto.
E as notícias fizeram com que o Coronel Julian Tifflor temesse o pior em relação a Thora. Nem por um instante, chegou a acreditar que tivesse morrido no bangalô incendiado.
Naquele momento, a zona de combate tinha quinhentos metros de largura, atravessando a sede da guarnição e estendendo-se até as imediações do campo espacial, ultrapassando a fronteira extraterritorial.
O inimigo desconhecido devia ter lançado na batalha algumas centenas de robôs de combate. Era uma quantidade inacreditável, mas esta não deu o que pensar ao Coronel Tifflor, muito menos o espantou.
O ataque era dirigido contra Thora, e só mesmo um feliz acaso poderia livrá-la das garras do inimigo.
O combate entre as máquinas positrônicas foi cessando de repente. De um instante para outro os robôs terranos não tiveram mais qualquer alvo contra o qual pudessem disparar. Novas notícias saíram do rádio de Tifflor.
O combate travado nas imediações do espaçoporto ameaçava a estação de controle espacial.
No mesmo instante, Tifflor transmitiu novas ordens.
Três cruzadores leves saltaram do solo para pousar junto à estação de controle. Ao mesmo tempo, intervieram com trinta por cento de sua capacidade de fogo na batalha de robôs. Mas não podiam atirar sem mais nem menos contra os monstros positrônicos. Havia um obstáculo insuperável, representado pela advertência do Coronel Tifflor: cuidado com Thora!
Em todos os pontos, a violência da batalha diminuía, enquanto em torno do espaçoporto as fúrias do inferno pareciam estar à solta. Talvez, o inimigo desconhecido lançara nessa área todas as máquinas de que dispunha.
Subitamente, houve unia notícia que deveria esclarecer o ataque. Porém, apenas contribuiu para que, na mente de Julian Tifflor, a situação ainda se tornasse mais confusa:
São robôs arcônidas! Não existe a menor dúvida.
Uma suspeita tresloucada apossou-se de Tifflor.
Jamais Árcon cometeria uma violação tão grosseira do tratado. As máquinas arcônidas serviriam para camuflar a identidade do inimigo que raptara Thora. Naquele mesmo instante, teve a impressão de que a luta feroz que se travava nas imediações do espaçoporto não passava de uma manobra “desviacionista”.
Atenção, forças combatentes...
O Coronel Tifflor não conseguiu prosseguir. O grupo que pretendia chamar, e que combatia cinco quilômetros além da fronteira do território do Estado de Rusuf, fez-se ouvir no rádio:
Inimigo embarcando mais de duzentos robôs em pequenas naves. Nave esférica atacando com radiações. Perdas: três homens, dezenove robôs. Posição da nave... Caramba! Está decolando.
Tenente, forneça a posição ou prepare-se para enfrentar uma corte marcial!
Era a primeira vez que o coronel gritava desde o início do combate, e estava falando sério ao ameaçar o oficial com a corte marcial.
A estação terrana de controle espacial acompanhou a palestra. Adiantou-se ao tenente. Para não bloquear a freqüência com palavras desnecessárias, um homem disse:
Localizamos nave inimiga. Está realizando decolagem de emergência...
Julian Tifflor transmitiu suas ordens:
Haja o que houver, mantenham contato instrumental com a nave desconhecida. Zyklop, envie imediatamente uma nave auxiliar para recolher-me a bordo. Desligo.
De propósito, não dera ordem de decolar a qualquer dos cruzadores. A vida de Thora era tão preciosa que não desejava colocar seu destino nas mãos de outrem.
A ordem do coronel provocou o espanto do pessoal da estação de controle espacial. Era apenas natural que não deixassem de manter o controle da posição da nave desconhecida.
Subitamente, o homem sentado junto ao ajustador de coordenadas ergueu os braços, num gesto de desespero. O companheiro que estava sentado a seu lado, diante da tela, pôs-se a praguejar.
De uma hora para outra, a imagem da nave desconhecida começou a tornar-se menos nítida; parecia desmanchar-se. À frente do ajustador de coordenadas, que poderia fornecer a qualquer instante as coordenadas de uma nave detectada pelos instrumentos de localização, o homem viu que todas as colunas de algarismos se encontravam na posição zero.
Que dispositivo de antilocalização será este? — disse num gemido Gil Besser, o primeiro a perceber o que estava acontecendo.
O Coronel Julian Tifflor logo se adaptou à nova situação. A ordem por ele transmitida foi dirigida ao cruzador ligeiro III. Enquanto ainda falava, a nave esférica saltou para o céu escuro.
Num raio de cem quilômetros, todos deviam acreditar que o dia do juízo final havia chegado, tamanho era o rugido dos propulsores e o uivo das massas de ar incandescente deslocadas pela nave.
Sem fôlego, Tifflor chegou à grande área livre. Quase no mesmo instante, a nave auxiliar da Zyklop estava pousando. Naquele momento, o coronel teve oportunidade de provar que a ducha celular recebida no planeta Peregrino não apenas lhe prolongara a vida, mas também conservara a juventude. Atravessou a área — um corredor de cem metros — e saltou para o interior da comporta da nave auxiliar.
Decolar! — gritou.
No mesmo instante em que a comporta se fechava atrás dele, forças titânicas arrastaram a pequena nave para o céu noturno.
Ininterruptamente as coordenadas saíam do receptor.
A Zyklop também havia decolado. A nave auxiliar corria no encalço da nave-mãe, que subia em marcha reduzida.
Graças a uma conjugação inacreditável da tecnologia e da perícia, a pequena nave pôde penetrar a toda velocidade no hangar da Zyklop. No interior deste, freou com todas as energias antigravitacionais de que dispunha e pousou suavemente.
Enquanto subiam em direção à Zyklop, o coronel colocara um traje espacial. Passou os últimos dois minutos de viagem junto à comporta. Mal a nave auxiliar entrou em contato com o solo do hangar, a comporta abriu-se. Julian Tifflor correu pelo gigantesco pavilhão, em direção à comporta que estava mais próxima. As bombas ainda estavam insuflando ar no hangar das naves auxiliares.
Apesar do elevador antigravitacional e da fita rolante, o Coronel Tifflor levou três minutos e meio para chegar à sala de comando. Sem dizer uma palavra, o Major Holbein, comandante da Zyklop, cedeu-lhe o lugar.
O cruzador pesado já se encontrava fora das camadas mais densas da atmosfera e corria, a toda potência, em direção ao lugar que o cruzador ligeiro indicara poucos momentos antes.
No interior da Zyklop os geradores e transformadores uivavam, zumbiam e cantavam em conjunto; os conversores chiavam, e nas fases sucessivas que terminavam nas torres de combate as energias se acumulavam, prontas para desencadearem-se num mortífero fogo de radiações.
Os propulsores montados na gigantesca protuberância equatorial da Zyklop rugiam. Usando a tranqüilidade do homem que conhece as limitações a que está sujeito, Tifflor tangia a nave espaço afora. Seu aspecto exterior era o de um oficial da Frota Espacial Terrana que não se abalava, fosse qual fosse a situação. Mas, por dentro, era um vulcão em irrupção, e sua preocupação por Thora crescia a cada segundo.
No momento, não tinha nada a fazer; por isso, resolveu liquidar um assunto que não poderia ser adiado.
Hipermensagem dirigida ao chefe. Código de condensação e de distorção um, um A e zero um...
A sala de rádio anunciou que estava pronta para transmitir.
Os oficiais da sala de comando fitaram-se com uma expressão de espanto. O código um, um A e zero um só costumava ser usado por Perry Rhodan em pessoa. Quem teria autorizado o coronel a utilizá-lo?
Julian Tifflor nem pensou nas pequeninas preocupações que enchiam a mente dos oficiais. Ainda estava ocupado com a formulação da notícia do desastre, quando notou que há bastante tempo estava fitando Thomas Cardif. Este estava sentado diante do instrumento de localização, onde desempenhava as funções de segundo-oficial.
Naquele momento, resolveu modificar o texto da mensagem.

Thora foi raptada por robôs arcônidas. No momento, encontra-se a bordo de uma pequena nave esférica. Iniciamos perseguição com cruzador ligeiro III e Zyklop.
Coronel Tifflor

A mensagem ainda estava sendo processada pelo conversor quando o cruzador ligeiro III enviou uma comunicação visual. E esta era tão importante que Tifflor ainda reteve a mensagem destinada a Perry Rhodan.
Os técnicos do cruzador III haviam conseguido num tempo extremamente curto romper a proteção contra a localização instrumental montada no pequeno veículo esférico desconhecido. E, naquele instante, os oficiais da Zyklop viram na grande tela que a nave inimiga saía com a aceleração máxima do sistema solar de Krela.
Julian Tifflor agiu com o maior sangue-frio, deixando de lado todas as convenções celebradas entre a guarnição terrana e o governo do planeta Rusuf.
Realizar transição ligeira no interior do sistema de Krela!”
Moveu uma chave e desligou o piloto automático da Zyklop. Adquiriu uma semelhança notável com Perry Rhodan, enquanto uma ordem após outra obrigava os oficiais da sala de comando a darem o máximo de si.
Envergava o traje espacial; apenas atirara o capacete para trás. Manteve-se imóvel, enquanto os dados lhe eram fornecidos de todos os lados. Por pouco, os cinco oficiais que operavam o computador positrônico de bordo não conseguiram acompanhar a velocidade da ação. O Coronel Tifflor nem sequer chegou a demonstrar uma concentração muito intensa. Ainda movia numerosas chaves, realizava controles e ajustes.
Subitamente, viu que o oficial no assento do co-piloto ia cometer um erro, pois em vez da chave número 6, que correspondia ao cabo-mestre de energia, estava para mover a chave correspondente ao campo antigravitacional de emergência.
No último instante, Tifflor afastou sua mão. No mesmo instante, disse com a voz rangedora e em tom indiferente:
Quero o Tenente Cardif no assento do co-piloto!
Nenhum dos oficiais que se encontravam na sala de comando teve tempo de assustar-se. A mudança foi realizada num instante. Thomas Cardif teve de orientar-se para saber até que ponto haviam sido manipulados os controles manuais para a transição de curta distância. Nem se deu conta de que era um tenente recém-formado, cujo lugar não era o assento do co-piloto de um cruzador pesado, e que na sala de comando havia companheiros muito mais experientes que ele.
Tifflor não teve necessidade de proferir o algarismo 6. Thomas Cardif já estava orientado. Com uma segurança de sonâmbulo, cheia de responsabilidade, desempenhava sua difícil tarefa.
O computador positrônico de bordo expeliu os dados necessários. Naquele instante, começou a contagem regressiva para a transição.
Dali a vinte segundos, a Zyklop saltaria t para o ponto no espaço em que o pequeno veículo espacial havia escapado aos instrumentos de localização do cruzador ligeiro III.
Durante vinte segundos, reinou na sala de comando um silêncio que correspondia às circunstâncias.
Os pensamentos e as preocupações de Julian Tifflor dirigiam-se a Thora. A fuga precipitada da nave desconhecida, sua extraordinária capacidade de aceleração, que permitira que escapasse até mesmo ao cruzador ligeiro, o novo sistema de proteção contra a localização instrumental, ainda desconhecido na Terra — tudo isso, sem a menor sombra de dúvida, indicava que Thora se encontrava a bordo do pequeno veículo espacial.
Sem querer, Julian Tifflor fitou Thomas Cardif. j Foi de propósito que o mandou sentar-se no lugar do co-piloto.
Naquela época — quanto tempo faria? — em que ele mesmo ainda era um jovem tenente, o chefe também mandara que numa situação catastrófica ocupasse o lugar de co-piloto, e então, juntamente com Perry Rhodan, havia decolado com a gigantesca Titan. O fato de ter chamado Thomas Cardif para tomar lugar a seu lado era uma espécie de agradecimento mudo ao chefe por aquela ordem que tão orgulhoso o deixara.
Mas, subitamente, uma exclamação vinda dos fundos da sala de comando o fez estremecer:
Cardif não se parece com o chefe?
Imediatamente Cardif virou-se para a pessoa que acabara de falar. Seus olhos, estranhos para um humano — eram olhos de arcônida — chisparam. De um instante para outro, traços marcantes desenharam-se em seu rosto jovem.
Bilhões de inteligências da Galáxia já conheciam este rosto. Era o rosto de Perry Rhodan.
Enquanto o Coronel Julian Tifflor ainda lutava com o susto, a Zyklop efetuou seu salto pelo hiperespaço, em direção à nave desconhecida.
O choque provocado pela transição foi um martírio para todos, inclusive para Julian Tifflor. Uma única pessoa parecia não sentir nada. Era Thomas Cardif.
Ali está ele, coronel! — a voz de Cardif tinha o timbre de uma fanfarra, e o braço estendido apontava para a grande tela de visão global da Zyklop.
Julian Tifflor superou a si mesmo. Não pretendia expor-se diante do jovem tenente.
Onde? — perguntou num gemido. Porém ouviu a retificação de Cardif, proferida em voz alta e em tom assustado e zangado:
Eu me enganei, coronel. A nave não é esta. A que aparece na tela é muito maior.
Esteve a ponto de dizer mais alguma coisa, mas o minúsculo ponto fulgurante que corria em direção à grande nave parecia abalroá-la.
O tenente e o coronel fitaram-se sem dizer uma palavra.
Ambos haviam compreendido.
A pequena nave acabara de pousar no interior da gigantesca esfera espacial.
Naquele instante, ouviu-se uma voz zangada vinda do setor de observação:
Parece que a nave está entrando em transição...
No momento em que foi transmitida a notícia, a nave desconhecida desapareceu da tela.
Conseguiu fazer a localização estrutural? — perguntou Tifflor em tom áspero.
A resposta veio em tom desanimado:
Também têm seu compensador estrutural, coronel!
A mesma praga que o oficial acrescentou a essa notícia estava na mente de Julian Tifflor.
Este levantou-se e voltou a entregar o comando da nave ao Major Holbein. Cardif esteve a ponto de deixar o assento do co-piloto, mas o major ordenou-lhe que ficasse.
Saiu-se muito bem, Cardif. E as palavras que foram ditas pouco antes da transição estavam na ponta da minha língua. O senhor tinha uma semelhança espantosa com o chefe, mas agora não se vê mais o menor sinal dessa semelhança. Bem, não falemos mais sobre isto. Passarei à pilotagem automática. Solicite os dados sobre a rota do porto de matrícula da nave, tenente.
Só agora Julian Tifflor retirou o traje espacial. Deixou-o caído no lugar em que dele se desvencilhara.
A observação do Major Holbein sobre a semelhança entre Cardif e Perry Rhodan fora demais para ele.
A esposa de Rhodan acabara de ser levada a um lugar desconhecido. E, em virtude de um jogo da natureza, Thomas Cardif estava prestes a descobrir que era filho de Perry e Thora Rhodan.
6



O Supercouraçado Drusus, uma nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, viera da Terra em três saltos, realizados sob a proteção do compensador estrutural. Só a quarta e última transição foi realizada sem esse disfarce.
Quem quer que estivesse envolvido no rapto de Thora, não poderia ter deixado de constatar o imenso abalo estrutural provocado pela Drusus, e teria de contar com o fato de que Rhodan lançaria mão de todos os meios de que pudesse dispor para libertar a esposa.
O gigantesco veículo espacial pousou pouco depois da Zyklop no campo espacial da guarnição terrana. Ainda pairava sobre o campo, sustentada por gigantescos campos antigravitacionais, quando o Coronel Tifflor recebeu ordens de Rhodan para comparecer a bordo da Drusus e relatar o acontecido.
Naquele instante, Julian Tifflor se encontrava no camarote do Major Holbein. Os dois estavam comparando as observações que haviam feito durante a fuga da pequena nave esférica.
Trata-se de uma nave especial, coronel! Tem um sistema propulsor superpotente. A capacidade de aceleração é tremenda e, por isso, não posso culpar o comandante do cruzador ligeiro III, por ter deixado escapar a nave desconhecida.
Sou da mesma opinião, Holbein. Até chegaria a dizer que a pequena nave foi construída especialmente para o rapto de Thora. O grande ataque de robôs lançado contra a guarnição desviou nossa atenção. Deixamos...
Naquele instante, Julian Tifflor recebeu a ordem de apresentar-se ao chefe, a bordo da Drusus.
Dali a pouco, atravessou a última barreira no interior da Drusus, passou por dois robôs de vigilância que o examinaram por meio de seus dispositivos positrônicos.
Logo depois, viu-se à frente do administrador.
Estavam a sós. Perry Rhodan estava de pé no centro do camarote, com os braços cruzados sobre o peito. Convidou o coronel a sentar-se e ouviu atentamente o relatório que este lhe ofereceu. No momento em que Tifflor aludiu à nova proteção contra a localização instrumental de que dispunha a pequena nave esférica, Rhodan o interrompeu.
Conseguiram descobrir o princípio de seu funcionamento, Tiff?
A proteção é realizada por meio de três campos de proteção fracos e superpostos, que descrevem movimentos de rotação em sentido contrário um em relação ao outro. Por isso não refletem o raio de localização, e provocam um pequeno desvio de mais de noventa e cinco por cento de sua potência. O restante da potência, que consegue penetrar nos campos, é absorvido pela rotação dos mesmos.
Ah! Uma fraqueza triplicada representa uma força duplicada. Bem, já conhecemos este princípio. Faça o favor de prosseguir, Tiff.
A interferência de Rhodan representava uma atitude típica do administrador. Nunca negligenciava qualquer detalhe que um dia pudesse assumir alguma importância. Era de opinião que toda arma ofensiva ou defensiva perdia grande parte de seu valor depois de conhecido o princípio de seu funcionamento.
Mas, subitamente, Perry Rhodan atirou a cabeça para trás, num gesto de surpresa. Tifflor acabara de contar que, por alguns segundos, o rosto de Thomas Cardif apresentara uma semelhança espantosa com o do pai.
Naquele momento, a alma daquele homem que, em poucos decênios, criara um gigantesco império estelar, começou a fervilhar.
Tiff, será que ele já sabe? Será que desconfia de alguma coisa?
Quem fez essa pergunta não foi o administrador do Império Solar, mas o pai de Thomas Cardif.
Não senhor, ainda não sabe. Mas quem poderia dizer se desconfia de alguma coisa? Eu mesmo não sei explicar este fenômeno repentino, esta semelhança momentânea com o senhor. Quando descontraído, seu rosto nem mesmo de perfil apresenta qualquer semelhança com o do senhor. Mas num momento de extrema concentração, aconteceu; a semelhança foi completa. Quem estava no assento do co-piloto não era Thomas Cardif, mas o senhor. E mais de trinta oficiais da Zyklop reconheceram o senhor.
Rhodan fitou seu confidente com uma expressão pensativa, obrigando-se a conservar a calma.
Tiff, sabe o que deve fazer?
Julian Tifflor já conhecia o chefe há tanto tempo que não poderia deixar de compreender suas palavras. Num gesto de defesa débil, como uma manifestação do instinto de que nem ele nem Rhodan poderiam deter o destino, disse com a voz embargada:
Tentarei o que puder, Sir...
Nada de tentativas, Tiff! Nunca mais faça experiências com seres humanos. Nós dois, Thora e eu, teremos de pagar nossa dívida com juros. Coloque Thomas em ação. Dê-lhe tanto trabalho que nem tenha tempo para pensar...
Chefe! — nesse momento o Coronel Tifflor poderia interromper o administrador do Império Solar sem merecer qualquer repreensão, e manifestar uma oposição indignada às opiniões do mesmo. — Mandar que atue nesta situação? Isso significaria...
Pare, Tiff! — Rhodan sublinhou suas palavras com um movimento enérgico do braço. — O senhor já viu algo demais em enviar um tenente a uma missão perigosa? Pois então. Mas o simples fato de que esse tenente é meu filho faz com que o senhor veja as coisas sob um ângulo distorcido. A idéia acompanha-o que nem uma sombra: é o filho de Rhodan. Dê-lhe um tratamento diferente.
Acorde, Tiff, meu caro! Pense no caráter de Thomas. Metade do sangue que corre nas suas veias é de origem arcônida. E Árcon é nosso maior inimigo, nosso inimigo mais perigoso e implacável. Não gosto de superlativos. Mas, no presente caso, estes são plenamente adequados. O que seria feito de Thomas? O ilustre filho poderia permitir-se qualquer coisa, porque o nome de seu pai é Perry Rhodan. O que seria dele, Tiff?”
O que será dele agora, chefe?
Tomara que não venha a ser meu inimigo.
Perry Rhodan também era apenas um humano. Sua voz parecia cansada. E cansados foram os passos com que atravessou o camarote e sentou atrás da escrivaninha.
Julian Tifflor não se espantou com o fato de que pouco haviam falado sobre o desaparecimento de Thora. Por experiência própria, sabia que o chefe desenvolveria uma ação rápida e abrangente.
Sir, sua esposa veio numa gazela do tipo mais recente. O senhor tem alguma objeção a que Thomas pilote essa nave de reconhecimento?
Entregue-o a Holbein; acho que ele está subordinado ao major, não está?
Está, sim, senhor.
Muito bem. Não me decepcione, Tiff, e cuide bem do menino...
Trata-se de uma tarefa difícil, chefe, de uma tarefa quase sem solução, porque o senhor quer que Thomas realize as missões mais arriscadas. Não gosto de fazer uma coisa dessas. Mas, por outro lado, eu o compreendo. Permite que me retire?
Rhodan fez um gesto afirmativo e seguiu o coronel com os olhos, enquanto este saía lentamente do camarote do chefe.
Julian Tifflor entrou imediatamente em contato com o Major Holbein, comandante do cruzador pesado Zyklop.
Quem foi que raptou Thora?
Com essa pergunta, Holbein recebeu o coronel.
Como posso saber, Holbein?
O senhor vem da Drusus, coronel. E o chefe trouxe mais de trinta mutantes. Se estes não conseguirem descobrir para onde foi levada Thora...
Era sempre a mesma coisa.
No seio da Frota Espacial, o Exército de Mutantes era considerado uma unidade formada por semideuses, que realizava milagres. Poucos davam-se ao trabalho de procurar enxergar atrás dos bastidores e perceber que todos os êxitos dos mutantes foram obtidos por meio de lutas duríssimas, e que as derrotas que tiveram de engolir se contavam pelas centenas.
O chefe encarregou-se da operação de busca. Holbein, o senhor já deve imaginar com que disposição ele vai entrar na briga! O que me dá de pensar no momento é a ótima atuação desenvolvida por Cardif, no assento do co-piloto. Deve ficar de olhos nele, Holbein.
Mande-o pilotar o novo tipo de gazela em que Thora veio a este planeta. Aliás, acho que deveríamos mandar que nossas naves de reconhecimento de longo curso vasculhassem o espaço num raio de mil anos-luz. É possível que, então, consigamos localizar a pista da nave que realizou o rapto, muito embora todas as probabilidades falem contra esta ação.
Bem, Holbein, vamos ao motivo de minha vinda. O senhor será responsável pelas providências necessárias para que todos os cruzadores possam decolar imediatamente. Diga aos homens que Rhodan espera oferecer em breve alguma coisa que possa neutralizar o novo sistema de proteção contra a localização instrumental.
A Frota Espacial do Império Solar era um órgão bastante sofisticado. Bastou que o Major Holbein desse algumas ordens, para que toda a frota da guarnição, relativamente numerosa, se colocasse de prontidão para decolar a qualquer momento.
Não foi necessário exercer qualquer pressão sobre os técnicos; bastou dizer-lhes que o chefe aguardava o resultado de seu trabalho.
Foi necessário acordar o Tenente Thomas Cardif.
Dali a alguns minutos, o jovem tenente, de estatura alta, encontrava-se à frente do major. Uma expressão de orgulho enchia seus olhos amarelados quando ouviu que, além de voar numa missão, pilotaria o tipo mais recente de nave de reconhecimento de longa distância.
É claro que você levará uma tripulação, Cardif. Já pilotou alguma vez esse novo tipo de gazela?
Já, major. Nosso treinamento na Academia foi feito com dois modelos diferentes.
Muito bem. A ordem de entrar em ação será transmitida pelo rádio. Aguardo seu aviso de prontidão para decolar.
Thomas Cardif retirou-se. Usou a campainha de alarma para acordar sua tripulação, formada por Mac Urban, um escocês de 32 anos, dotado de uma calma fenomenal, e de Alim Achmed, um árabe de 24 anos, nascido em Dchida, um sujeito moreno, que sabia ser ágil e frio quando se tornava necessário assumir um risco.
Enquanto se dirigiam ao elevador anti-gravitacional central, encontraram-se com as tripulações de mais duas naves de reconhecimento. Estas tinham de ir aos hangares onde estavam guardadas as gazelas. Naturalmente, quiseram saber por que Thomas Cardif e sua tripulação não seguiam o mesmo caminho.
Sem demonstrar a menor inveja, o Tenente Scheck assobiou entre os dentes:
Uma gazela do último tipo, Cardif! Caramba! Tem um raio de ação de dez mil anos-luz. Em comparação com esta nave de reconhecimento, as antigas não passam de patas chocas. Que sorte!
Mac Urban e Alim Achmed disseram a mesma coisa, enquanto corriam pelo campo espacial em que estava estacionada a gazela na qual Thora viera a Rusuf.
Quanto às dimensões, o novo tipo não apresentava qualquer alteração. O disco de trinta metros de diâmetro tinha uma altura de dezoito metros. Acontece que o disco a ser tripulado por eles dispunha não apenas de um mecanismo de propulsão triplamente reforçado e de um imenso raio de ação de dez mil anos-luz. Além desses aparelhos, estava equipado com as mais potentes armas ofensivas e defensivas.
Thomas Cardif levou meia hora para explicar a seus homens o funcionamento da nova nave. Depois ficaram familiarizados com as inovações. Não regateou os elogios, mas Mac Urban, o escocês, repeliu-os com um gesto.
No fundo, só devemos isso aos maus tratos que todos têm de suportar nos primeiros dois anos passados na Frota Espacial. Muitas vezes, até fiquei sem fôlego por causa disso. Bem, mas isto aqui é um lindo asteróide!
Era o maior elogio que um astronauta poderia dispensar a uma nave. Os olhos escuros de Alim Achmed chispavam, enquanto ele acariciava a pesada chave do canhão de impulsos.
Avise o Major Holbein de que estamos prontos para decolar, Achmed! — ordenou o Tenente Cardif.
O árabe foi para o rádio e transmitiu o aviso. Dali a dois minutos, receberam ordens para entrar em ação.
Alim Achmed revirou os olhos. Mac Urban encheu o cachimbo com uma calma enervante. Não se abalaria com essa missão.
Com uma estrela cadente como esta a busca será um prazer, Alim!
É verdade — confirmou o árabe. — Mas vasculhar um trecho de mil anos-luz...
Subitamente, o perfurador do decifrador começou a martelar. O comando da Drusus não assumia o menor risco: ninguém poderia captar suas mensagens.
Com um gesto pensativo, o Tenente Cardif guardou a fita perfurada, que continha os sinais de identificação diária dos próximos dez dias, que na hipótese de um encontro com uma nave de Árcon representaria o “abre-te, Sésamo”, que garantiria o prosseguimento do vôo.
A comporta da gazela fechou-se. Os conjuntos já estavam aquecidos. Os três tripulantes envergavam trajes espaciais. O capacete estava jogado para trás. Cada homem ocupava seu lugar. O tempo de bordo começara a correr.
Decolagem dentro de quarenta segundos!
Juntamente com a gazela do último tipo, mais dezenove naves de reconhecimento de longa distância saíram dos hangares da Zyklop e correram espaço afora.
Thomas Cardif concentrou-se. Ele o fez inconscientemente e sem que isso lhe custasse o menor esforço. Apenas desligou todos os setores da mente que não estavam ligados à decolagem da gazela. Para ele, só existia a nave. Naquele instante, embora estivesse “encapsulado”, ouviu Mac Urban, o escocês dotado de uma calma fenomenal, dizer em tom de espanto:
Tenente, o senhor se parece com o chefe!
O que foi que o senhor disse? — no último instante, Thomas Cardif percebeu que o tempo de bordo corria em direção ao ponto zero.
O momento da decolagem havia chegado.
O mecanismo propulsor começou a chiar, o sistema de neutralização gravitacional uivou. Em torno da gazela, as massas de ar deslocado rugiram com a força de um furacão.
A nave de reconhecimento de longa distância subiu verticalmente ao céu noturno, sob a direção do computador positrônico de bordo.
Sentado atrás dos controles de armamento, Mac Urban continuava a fitar o jovem comandante com uma expressão de perplexidade. Não compreendeu por que, poucos segundos antes da decolagem, chegara a ter a impressão de ver Perry Rhodan no assento do piloto. Agora não se via mais a menor semelhança entre o rosto do chefe e o do tenente.
Urban lançou um olhar indagador para seu companheiro Achmed. Ao que parecia, o árabe observara a mesma coisa. Seu rosto espelhava a perturbação, o espanto e a dúvida.
Enquanto isso, a gazela acelerava cada vez mais. O indicador do altímetro subiu vertiginosamente pela escala. Quando chegou aos 40 mil metros acima do normal, desligou-se automaticamente. Acabara de cumprir sua missão.
Agora se jogaria com padrões mais elevados. Saía do oceano de ar que envolvia Rusuf e precipitava-se no espaço.
Rota: 32-12,43 pi; 45-02,53 psi; 06-58,09 chi.
Controle de armamentos, Mac Urban! — chamou o Tenente Cardif. — Controle dos instrumentos de medição e comunicação, Achmed!
Ele mesmo tinha muito que fazer. A começar pela determinação da intensidade dos campos defensivos que envolviam a gazela. Depois observou o desempenho do dispositivo de absorção de gravidade e dos conjuntos energéticos e transformadores. E, por fim, o mecanismo de propulsão da nave.
Thomas Cardif verificou tudo da forma como aprendera na Academia.
Suas intervenções na trajetória da gazela foram reguladas imediatamente por meio dos cálculos automáticos do computador positrônico de bordo. Mesmo depois de ter desligado o computador positrônico por trinta segundos e realizado a pilotagem manual, a gazela levou apenas quatro segundos, a partir da experiência, para retomar com toda exatidão a rota nos setores pi, psi e chi.
O sol Krela corria velozmente sobre a tela de visão global da nave de reconhecimento. Depois de surgir na parte inferior esquerda, desapareceu na extremidade superior direita. A luz fria de sóis distantes refletiu-se na tela. Brilhavam com todo esplendor, mas não conseguiam preencher o vasto negrume infinito do Universo, que parecia tão ameaçador, mas era dominado pelo homem.
Thomas Cardif lançou mais um olhar para o velocímetro, que indicava o algarismo 0,7. Naquele momento, a gazela afastava-se do sistema solar de Krela à velocidade de 210 mil quilômetros por segundo.
O tenente virou-se para Mac Urban.
O que foi que o senhor disse a respeito de minha semelhança com o chefe?
O escocês já recuperara a calma proverbial, mas assim mesmo a pergunta do tenente deixou-o um tanto embaraçado.
Devo ter sofrido uma alucinação, tenente. Todo o tempo fico perguntando a mim mesmo por que fiz essa observação. É só o que sei dizer a este respeito.
E se eu lhe disser que nesta mesma noite ouvi a mesma coisa em dois lugares diferentes, o senhor ainda acreditará que sofreu uma alucinação?
A pergunta do Tenente Cardif foi formulada em tom tão estranho que Alim Achmed também teve sua atenção despertada.
Um sorriso largo cobriu o rosto de Mac Urban.
Tenente, não me venha com esta... Apesar da leve tensão que se espalhou pela gazela, o Tenente Achmed não se esqueceu de ficar de olho nos instrumentos de localização. Com a voz fria interveio na palestra:
Localização no setor verde... — e acrescentou os dados.
No mesmo instante, ouviu-se uma voz saída do receptor:
Que nave é essa? Forneçam o código de identificação.
A ordem fora dada em intercosmo, mas a língua que a proferira pertencia a um terrano.
Alim Achmed logo identificou as naves.
Oito cruzadores pesados.
Com um gesto indiferente, como se nunca tivesse feito outra coisa, o Tenente Cardif atirou a indicação do código para o telegrafista. Tratava-se de um conjunto de nove letras e algarismos.
O telegrafista transmitiu o código. A resposta veio como que num eco:
Boa viagem!
Após isso, o silêncio instalou-se na pequena sala de comando da gazela. Oito cruzadores terranos deslocavam-se a toda velocidade em direção a Rusuf, onde há poucas horas pousara o supercouraçado de Perry Rhodan, a nave Drusus. Essa concentração de poderio do Império Solar não fazia esperar nada de bom.
Thomas Cardif foi o primeiro a avaliar a situação global.
Acredito — disse, dirigindo-se à pequena tripulação de sua nave — que, dentro em breve, teremos uma batalha espacial que será comentada durante os próximos dez anos. Se o chefe mandou vir oito cruzadores de uma só vez, deve ter encontrado a pista que levará à sua esposa. Gostaria de saber quem está atrás desse rapto.
Mas logo seus pensamentos tomaram outro rumo. Virou-se automaticamente para Mac Urban e fitou-o, sem que o visse.
Como posso ter uma semelhança com Perry Rhodan? É impossível! Minha ambição nunca chegou a ponto de identificar-me com ele. Como é que essa gente descobre a semelhança no meu rosto?”, pensou intensamente.
Foi uma hora decisiva para Thomas Cardif.
Lançou um olhar pensativo para Mac Urban, mas não notou o susto estampado no rosto do escocês. Mais uma vez, o escocês teve a impressão de ver o chefe à sua frente.
Naqueles segundos, o rosto de Thomas Cardif tinha os traços de Perry Rhodan.
7



John Marshall, um dos primeiros mutantes que se colocara a serviço de Perry Rhodan, encontrava-se em Gelgen, a cidadezinha situada a 45 quilômetros da guarnição terrana. Naquele momento, estava sentado no Ook-Taan; depois de uma hora, o copo de rhegis que se achava à sua frente ainda não havia sido tocado.
Pelo aspecto exterior já se notava que Ook-Taan era um local típico dos saltadores. Ao que parecia, os colonos de Árcon não o visitavam. Ao entrar ali, Marshall não havia visto nenhum arcônida e, a essa hora, ainda esperava o aparecimento do primeiro representante dessa raça.
Qualquer um reconheceria em John Marshall um terrano; por isso, nem se esforçou para adotar um comportamento que não chamasse a atenção. A chegada do supercouraçado de Perry Rhodan, a Drusus, e o pouso de oito cruzadores pesados, ocorrido poucas horas depois, criara um clima tenso em Rusuf.
O governo enviara uma nota enérgica face a essa demonstração de poder, e formulara um protesto junto ao computador-regente de Árcon. Além disso, os mercadores galácticos viram nesse agrupamento de naves de guerra uma ameaça aos seus interesses, e intervieram junto ao governo de Rusuf, ameaçando-o de suspenderem todo e qualquer comércio com o planeta.
Não tiveram a menor dificuldade em demonstrar que Rhodan e sua naves já lhes haviam causado muitos prejuízos. E, também, o menor escrúpulo em aludir aos aras, os médicos galácticos, dando a entender que uma súbita suspensão das remessas de medicamentos poderia ter conseqüências gravíssimas.
Marshall esperava um colega. Tratava-se de Kitai Ishibashi, o sugestor, ao qual pedira, pouco antes de entrar no Ook-Taan, que seguisse uma levíssima pista mental.
Fora um único pensamento que captara no momento em que se encontraram com três saltadores que caminhavam do lado oposto da rua, e lhes lançavam olhares provocadores.
Um deles pensara em Thora e perguntara a si mesmo se a esta hora já teria chegado ao destino.
Não era muita coisa, mas bastara para que John Marshall pedisse imediatamente a Ishibashi que vigiasse esses saltadores, apontando na direção do sujeito maciço que caminhava no meio do grupo.
Cuide dele, Kitai; transforme-o num autômato — com estas palavras se separaram.
John Marshall dirigira-se ao Ook-Taan, enquanto o japonês Ishibashi fizera meia-volta para seguir os mercadores galácticos.
O desejo de Marshall, que pretendia transformar um dos saltadores em autômato, não provinha de qualquer instinto sanguinário. Ishibashi tinha a capacidade de impor sua vontade aos outros, deixando que a pessoa atingida continuasse a acreditar que agia espontaneamente.
Durante a hora passada no local, Marshall fora duas vezes ao toalete. Pouco importava o que pensassem os saltadores sentados em torno das mesas vizinhas. Uma vez no toalete, transmitia seus relatórios por meio do minúsculo rádio de bolso e indagava se os outros mutantes haviam encontrado outras pistas.
Quem respondeu foi Rhodan em pessoa.
Não, por enquanto não surgiu nenhuma pista — dissera. — Sua notícia constitui a primeira indicação, mas esta me parece incompreensível. Será que os saltadores poderiam estar atrás desse rapto encenado em grande estilo?
Os pensamentos de John Marshall também giravam em torno deste ponto.
Os mercadores galácticos não eram seus amigos; quanto a isso não havia a menor dúvida. E os aras, que eram verdadeiros gênios na área da medicina, também não gostavam de Perry Rhodan nem do Império Solar.
Não havia ninguém que compreendesse melhor os aras que Marshall, que lhes pregara várias peças.
Por fim, ainda havia o computador- regente de Árcon.
Bell tinha razão em não demonstrar o menor respeito para com o gigantesco cérebro positrônico instalado no mundo central de Árcon. Chamava-o de montão de lata.
Com esse montão de lata, Rhodan havia celebrado um acordo, como representante do Império Solar. Na oportunidade, Perry estivera convencido de que esse mecanismo sem alma não seria capaz de enganá-lo.
Mas, com o correr dos meses, surgiram vários acontecimentos que lhe impuseram a convicção de que os construtores do cérebro-mamute, que não eram outros senão os arcônidas, haviam introduzido nele a fraude, a traição, a astúcia e a malícia.
Não se tratava de tentativas grosseiras de tapear o sócio; o que ocorria constantemente era a tentativa de recorrer a todos os meios para recuperar a força perdida, assim que o sócio suspendesse por um segundo sua vigilância.
É mesmo o montão de lata! — disse John Marshall em voz alta e clara, esforçando-se para usar o intercosmo.
De todos os lados lhe foram lançados olhares atentos. Nenhum deles era amável. A permanência nesse local estava ligada a certos riscos. Gelgen, uma cidadezinha arcônida, não era uma área extraterritorial controlada pela Terra. Mas isso não incomodou. Estava interessado exclusivamente em conseguir uma pista palpável da esposa de Perry Rhodan.
Subitamente, um ligeiro choque elétrico atravessou seu corpo. A Drusus ou Kitai Ishibashi estava chamando. Esse choque representava o pedido de anunciar à estação transmissora que estava pronto para receber a mensagem.
John Marshall olhou as palmas das mãos. Ainda o estavam fitando de todos os lados. Girou as mãos. O anel num dos dedos da mão esquerda estava torto. Naturalmente, ao girá-lo produziu o efeito desejado. John Marshall aprendera a comprimir a minúscula saliência que havia nele.
Desde a época em que alguns milhares de microtécnicos haviam sido levados à Terra, todo o Exército de Mutantes foi equipado com esses instrumentos milagrosos de reduzidas dimensões e grande desempenho.
Marshall apoiou a cabeça na mão esquerda, colocando o anel junto ao ouvido. Não era necessário recorrer ao instrumento que trazia no bolso. Um micro transmissor do tamanho da cabeça de um alfinete daria conta do recado.
Kitai Ishibashi estava chamando.
Estou preso. Rangeroo-n, subterrâneo, do lado esquerdo. Construção de plástico cinza-escura com os emblemas dos saltadores. Desligo.
O gesto de pegar o copo e tomar a aguardente rhegis foi apenas uma reação normal.
Kitai Ishibashi estava preso!
Ele também!
No interior de Ook-Taan os mercadores galácticos não permitiram que houvesse qualquer dúvida quanto a isso. Alguns deles haviam colocado as armas de radiações sobre a mesa. Estas deveriam servir-lhe de advertência. Os rostos zangados diziam o resto. Cinco saltadores dirigiram-se à porta. Provavelmente sua tarefa consistia em não permitir a entrada de espectadores.
Marshall realizou um controle instantâneo de seus pensamentos. Leu-os como quem lê num livro aberto. Quando examinou a mente do homem que se encontrava no bar, teve de controlar-se para não estremecer.
Os pensamentos frios e assassinos dirigiram-se contra sua pessoa.
Com este não vamos perder tanto tempo como perdemos com Thora, a arcônida traidora.”
No mesmo instante, John Marshall mexeu no anel:
Aqui fala Marshall — cochichou, enquanto colocava ambas as mãos à frente da boca. — Bar Ook-Taan, situado na rua principal. Enviar imediatamente um contingente de robôs.
A mensagem só consumira um segundo e meio. Passou a mão pela boca, desceu o braço, pegou o copo vazio e fez um sinal em direção à copa, para que lhe servissem mais um rhegis.
Outro choque débil anunciou que nova mensagem estava sendo expedida. Marshall não teve necessidade de examinar os rostos dos saltadores. Era muito mais simples ler seus pensamentos. Todos estavam aguardando o sinal de agir contra ele.
John mexeu no anel, desligando o microfone e ligando o alto-falante. Nesse instante, o chefe dos mercadores galácticos saiu do lugar que ocupava junto ao balcão e aproximou-se da mesa de Marshall. Este desistiu de ler os pensamentos. Mal teve tempo de ouvir a mensagem que estava recebendo.
Será que não provocaria suspeitas se mais uma vez apoiasse a cabeça na mão esquerda?
Marshall, você não conseguirá sair do bar. Já solicitei auxílio...
Não ouviu o resto da mensagem de Ishibashi. O mercador galático de rosto traiçoeiro encontrava-se a seu lado e apontava o radiador térmico para ele.
Venha conosco, terrano!
A palavra terrano exprimia o ódio e o desprezo de uma galáxia.
É a polícia? — perguntou John Marshall em tom de espanto. — Mas...
Venha logo; não discuta. Marshall levantou-se, nem muito depressa, nem muito devagar.
Os mercadores galácticos aproximaram-se de todos os lados. Só o caminho da porta ficou livre. Lá, cinco robustos saltadores já o esperavam.
Vamos logo para a porta, terrano. Ande depressa!
John Marshall, um homem alto e de cabelos escuros, voltou o rosto alongado para o chefe dos saltadores. Apesar da situação crítica em que se encontrava, teve coragem de perguntar:
O senhor pensou bem nas conseqüências do ato que está praticando?
A resposta foi uma risada que não anunciava nada de bom. Duas pessoas seguraram-no por trás. No mesmo instante, três saltadores aproximaram-se pela frente e passaram a revistá-lo.
Não se espantaram ao encontrar um radiador de impulsos. Mas sentiram-se perplexos por não descobrirem qualquer aparelho de comunicação.
Onde será que deixou essa droga? — chiou o mercador galático que dirigia o grupo.
John Marshall o guardava no bolso esquerdo da calça. Acontecia que o aparelho era tão pequeno que só se poderia pegá-lo com uma pinça. Qualquer mão humana passaria por cima do mesmo, a não ser que algum acaso o fizesse entrar embaixo da unha.
A busca infrutífera proporcionou alguns preciosos segundos ao mutante de Perry Rhodan. Este não resistiu quando lhe torceram o braço nas costas. Parecia indiferente diante do que estavam fazendo com ele. Na verdade, esforçava-se para estabelecer contato telepático com Kitai Ishibashi, que o prevenira pouco antes do ataque dos saltadores.
Como o sugestionador japonês, que também se encontrava em situação crítica, poderia saber que ele, Marshall, não conseguiria sair de Ook-Taan?
A ação telepática realizada por Marshall não produziu o menor resultado. Os três saltadores desistiram de procurar o aparelho de comunicação.
Deve tê-lo jogado no toalete — resmungou um deles e recuou.
Marshall leu os pensamentos dos saltadores. Também o dirigente do bando já se convencia de que o terrano fora ao toalete para livrar-se do aparelho de comunicação.
Levem-no para fora!
Naquele instante, houve outro pequeno contratempo.
Alguém que se encontrava nos fundos do local gritou algumas palavras. O rosto do chefe do bando contorceu-se num riso de satisfação.
Falando em tom presunçoso, disse a Marshall:
Você será o quinto que daqui a pouco nos revelará todos os segredos sob os efeitos de uma lavagem cerebral.
Ao dizer estas palavras, o saltador pensava intensamente em Thora, e estabeleceu uma ligação entre a arcônida e o êxito da ação que resultará na captura de cinco agentes terranos. O resultado final seria um alto negócio.
John Marshall contava com sessenta anos de atividade de agente, fora beneficiado por várias vezes com o treinamento hipnótico arcônida, e sempre recebera de Perry Rhodan o ensinamento de que dentre uma série de acontecimentos deveria reconhecer sempre o que mais importava. E John Marshall leu nos pensamentos do chefe o nome Itzre Delagin.
Era o homem de quem o chefe dos saltadores queria arrancar uma soma absurda pela captura dos cinco agentes terranos. Além disso, queria conservar um trunfo: conservar todo o saber terrano, que seria obtido por meio da lavagem cerebral.
Em toda a Galáxia, não havia coisa mais infame que a lavagem cerebral. Uma pessoa submetida a esse processo revelava tudo que sabia e, ao sair do aparelho, estava transformada num idiota.
Marshall sabia que não poderia esperar a menor compaixão dos saltadores. Estava em perigo de dali a algumas horas ser um idiota. Apesar disso, não se esqueceu da missão em que se lançara juntamente com Perry Rhodan e os outros mutantes.
Foi empurrado em direção à porta, onde cinco saltadores já o aguardavam. Os dois indivíduos que lhe haviam torcido o braço entregaram-no aos outros. No mesmo instante, Marshall soltou um gemido bem estudado e caiu ao solo.
Meia dúzia de gigantescas mãos de saltadores estenderam-se para agarrá-lo, mas atrapalharam-se umas às outras. Marshall aproveitou a oportunidade para atirar os braços para a frente, ligar o microfone do anel... e jamais o treinamento levado a efeito por horas a fio, que lhe permitia encontrar instantaneamente os comandos, rendera dividendos tão altos.
Caiu para a frente. Pôs a boca sobre o punho cerrado e, sem que qualquer dos saltadores pudesse ouvi-lo, cochichou duas palavras para dentro do microfone:
Itzre Delagin.
Quase no mesmo instante o chefe, zangado com a demora, berrou:
Será que vocês não conseguem pôr para fora um miserável terrano?
Estas palavras também foram transmitidas pelo micro aparelho de Marshall. A sala de rádio da Drusus era mantida a par de sua situação.
Marshall foi levantado como se fosse um saco. A porta abriu-se. Logo à frente, havia um jipe. Foi atirado para dentro da pequena cabine da viatura como se não passasse de uma massa de matéria inerte.
Dois saltadores seguiram-no de perto. A porta fechou-se. Um arcônida de vestes relaxadas estava junto à direção. Um olhar bastou-lhe para perceber que estava na hora de dar a partida. O motor de radiações começou a rugir e estava atingindo o desempenho máximo, quando um uivo diabólico, vindo de cima, atingiu os ouvidos de quem se encontrava no veículo. Este foi atingido de raspão pela gazela, que o atirou para o interior de Ook-Taan.
A larga porta foi atirada para dentro do bar.
Acontece que, mesmo depois de abalroado, o jipe ainda desenvolvia metade de sua potência.
E essa potência foi suficiente para atirar o veículo contra o bar, com uma aceleração de 3 G, passando por cima de mesas, cadeiras e dos saltadores, que não foram bastante rápidos para afastar-se.
As garrafas foram quebradas com um estrondo, pois não representaram nenhum obstáculo para o jipe.
John Marshall não via nem ouvia mais nada. Durante o primeiro impacto havia batido com a cabeça contra alguma coisa e perdera os sentidos. Mas seu micro transmissor continuava a emitir e, na sala de rádio da Drusus, ouviu-se todo o barulho infernal que enchia Ook-Taan.
Houve um homem que não se impressionou com isso: Perry Rhodan.
Entrou em contato com três dos seus agentes que trabalhavam em Cill, capital do planeta Rusuf.
Procurem Itzre Delagin!
A condensação da ordem implicava a maior urgência.
Enquanto isso, o jipe desgovernado e com a frente deformada ficara preso nas paredes firmes do local.
Da gazela saíram precipitadamente vários homens-máquina.
Dois robôs de guerra terranos usaram suas armas de impulso para paralisar o motor do jipe. Seis outros saíram em perseguição dos saltadores que fugiam. O chefe dos mercadores galácticos era um deles.
À frente de Ook-Taan, quatorze das máquinas de guerra fecharam hermeticamente a rua e cercaram o quarteirão em que ficava o bar dos saltadores.
A polícia arcônida de Rusuf, alarmada pela violência usada por uma nave de reconhecimento terrana em pleno centro da cidade, nada pôde fazer contra os robôs fortemente armados.
O canhão de impulsos da gazela descrevia círculos ameaçadores de 360 graus. Mesmo os mais curiosos dentre os arcônidas perdiam a vontade de se deleitarem com o espetáculo.
Um grito de indignação passou pela multidão mantida à distância, quando oito mercadores galácticos expulsos de Ook-Taan pelo contingente de robôs foram tangidos para o interior da gazela.
As máquinas de guerra de Rhodan não olhavam para a direita nem para a esquerda. Trabalhavam segundo sua programação e só obedeciam aos comandos de seu dispositivo positrônico. Era bem verdade que um sistema de lentes e um aparelho auditivo ultra-sensível permitiam-lhes que registrassem as reações do ambiente. Porém, uma vez que o dispositivo positrônico nada tinha a dizer sobre isso, a gritaria e as paixões humanas desencadeadas ao seu redor não existiam para eles.
Depois de haverem destruído com suas armas de impulsos o motor do jipe, os dois robôs encontrados no interior do bar retiraram John Marshall da cabine deformada.
Não negligenciaram os três tripulantes do jipe: um arcônida de roupas desleixadas e dois saltadores. Também estavam inconscientes.
Um dos robôs carregou Marshall nos braços mecânicos como se fosse uma criança. Outro colocou os dois saltadores sobre os ombros largos e arrastou o arcônida atrás de si, como se fossem sacos.
Vendo na atuação das máquinas de guerra terranas uma usurpação intolerável, os arcônidas e os mercadores galácticos gritaram de indignação. E, a seguir, desencadearam um ataque absurdo, pois achavam-se desarmados.
Romperam o tênue cordão de isolamento. As máquinas de guerra, que se mantinham em pé em meio à multidão exaltada como se fossem colunas de aço, não usaram as armas. Sua programação não o previa. Os robôs, que se encontravam a bordo da gazela, possuíam outro tipo de programação.
Sua reação foi imediata!
De repente o canhão de impulsos da nave de reconhecimento deixou de descrever seus círculos de 360 graus. Em compensação os anteparos das peças hipnóticas foram retirados. Sem provocar o menor ruído, estas passaram a expelir seus raios.
Estes agiram sem o menor ruído, e a gritaria saída de centenas de bocas cessou como por encanto.
Era um quadro fantasmagórico. De qualquer maneira, os robôs atrás das peças hipnóticas não poderiam modificar nada. Sua programação previra a liberação do hipno; duração de 0,25 segundos, intensidade 10 a partir de jota 20.
Era uma dose muito suave...
O silêncio foi rompido pelos passos retumbantes de numerosos robôs, que corriam rapidamente em direção à gazela, vindos de todos os lados. Não houve a menor pressa ou confusão junto à comporta. Subiram pela gigantesca rampa como se estivessem num campo de provas.
A rampa foi recolhida. A comporta fechou-se. Os propulsores começaram a uivar. Enquanto a gazela se desprendia do solo, seus campos defensivos foram ativados. As pessoas que se encontravam na área de atuação destes foram atiradas para os lados.
O robô-comandante não tomou conhecimento do fato.
O comando introduzido em sua programação era simples. Uma vez cumprida a missão, deveria voltar à Drusus pelo caminho mais rápido e pousar.
Assim que a gazela iniciou o curto salto de 45 quilômetros, a três quilômetros dali, outra gazela subiu na Rua Rangerro-n. Também concluíra sua missão, que consistia em libertar o mutante Kitai Ishibashi.
Vinte e dois minutos depois de John Marshall regressar à Drusus, o outro mutante entrou a bordo do supercouraçado. Para ele, os robôs haviam surgido no último instante. Se não fosse o micro transmissor, que funcionara ininterruptamente, transmitindo a palestra dos saltadores para a Drusus, os homens-máquina não o teriam localizado tão depressa.
Já estava amarrado à cadeira do aparelho de lavagem cerebral, esperando apenas que a máquina diabólica fosse ligada.
Perry Rhodan acabara de ser informado de que os cinco mutantes haviam regressado sãos e salvos. Encontrava-se em seu camarote, juntamente com Crest. Os dois aguardavam notícias dos agentes que trabalhavam em Cill. O nome fornecido por John Marshall era a única indicação que poderia permitir a Rhodan seguir a pista dos seqüestradores de Thora.
Era a única esperança.
Mas, nem mesmo Crest, o arcônida, acreditava que os mercadores galácticos estivessem atrás do seqüestro de Thora. Transmitiu sua opinião a Rhodan.
Isso parece ser obra de Árcon, Rhodan!
É possível — disse o administrador do Império Solar, esquivando-se de um pronunciamento direto. — Acontece que já sabemos do que os saltadores são capazes. No momento, minhas suspeitas se dirigem contra Árcon e contra um clã dos saltadores que ainda não conhecemos. Já constatamos que minha esposa foi seqüestrada por mercadores galácticos. Infelizmente os indivíduos trazidos pelos robôs não sabiam mais que isso. Só o chefe do grupo conhece Itzre Delagin, mas não sabe como é, onde mora e a que clã ele pertence.
Isso não é de estranhar, Crest. Não se esqueça de que a esse grupo cabia apenas usar todos os meios para impedir as investigações que pudessem levar-nos ao paradeiro de minha esposa. Para mim, é apenas natural que o tal do Itzre Delagin faça o possível para manter-se distante desses acontecimentos de ordem secundária.”
Tomara que o nome esteja certo...
Estava. Mas os três agentes não conseguiram encontrar Itzre Delagin na cidade de Cill
8



Fazia dezoito horas que o Tenente Cardif decolara com sua gazela do planeta Heet-Ris, depois de um ligeiro pouso. Transmitira uma mensagem codificada e condensada de hipercomunicação e, imediatamente, recebera da Drusus a ordem de seguir a pista.
Com isso, foi eliminada a restrição segundo a qual só deviam deslocar-se pelo espaço num raio de quinhentos anos-luz em torno de Rusuf.
A pista era tênue, e só deram com ela por acaso. Mac Urban pedira que pousassem em Heet-Ris.
Tratava-se de um mundo de oxigênio inóspito, onde havia uma colônia arcônida abandonada. Mas, muito antes dos arcônidas, outro povo importante devia ter vivido no sexto planeta do sistema de dois sóis, pois os vestígios de sua existência perduraram por mais de dez mil anos, embora o povo tivesse sido tragado na voragem dos séculos.
Mac Urban sabia da existência de misteriosos monumentos metálicos de setecentos metros de altura, espalhados ao acaso por Heet-Ris. Mas nunca vira esses monumentos, nem qualquer fotografia dos mesmos.
Era um homem que gostava de ocupar-se em caráter particular com coisas misteriosas, e, por isso, manifestara o desejo de pousar no sexto planeta, enquanto passavam pelo sistema de dois sóis. Seu entusiasmo pelas culturas desaparecidas e não esclarecidas fora transmitido a Thomas Cardif, que depois de ligeira hesitação concordou em pousar em Heet-Ris.
O sistema ficava a trezentos e setenta e seis anos-luz do sol Krela.
No momento em que pousava a gazela junto a um dos monumentos, Thomas Cardif não pensava em outra coisa senão naquelas gigantescas construções metálicas de setecentos metros de altura. Sentira-se tocado pela expressão alegórica das colunas. Para um homem, aquilo era muito estranho, embora lhe tocasse a alma intensamente.
Ainda impressionado com os monumentos, Thomas Cardif não notou, ao desligar os propulsores, que o aparelho automático de análise da atmosfera registrava a presença de uma elevada dose de radiações no ar de Heet-Ris.
Abra os campos, tenente! — gritou Alim Achmed por cima do ombro. — Há perigo de radiações.
As palavras de Alim Achmed e o ato de Thomas Cardif foram praticamente simultâneos. O jovem tenente reagiu com uma rapidez espantosa diante da situação inesperada. Percebeu a dose perigosa de radiações contida na atmosfera e, no mesmo instante, a suspeita se instalou em sua mente.
Achmed, verifique de que direção vêm as radiações! Urban, está preparado para entrar em combate?
Todas as peças de artilharia prontas para disparar, tenente — gritou o escocês junto ao painel de controle do armamento. Imaginara que o pouso em Heet-Ris fosse menos dramático. Mas aquilo cheirava a perigo.
Alim Achmed procurou determinar a direção da qual vinham as radiações extremamente intensas. No momento em que se inclinou sobre os instrumentos, com uma expressão de espanto no rosto, Cardif e Urban compreenderam que alguma coisa não estava em ordem. Antes que pudessem formular uma pergunta, o árabe exclamou:
As radiações vêm da ponta dessa coluna, tenente!

* * *

OK! — rangeu a voz de Cardif. — Prontidão rigorosa. Vamos verificar o que houve na ponta da coluna.
Os dados sobre as colunas de Heet-Ris, armazenados no computador positrônico da nave, foram bem extensos. O que impressionava era o fato de que a base de cada coluna cobria uma área de cerca de cinco quilômetros quadrados, enquanto no topo ainda media 1,5 quilômetros quadrados.
Deslocando-se paralelamente ao monumento metálico, a três mil metros deste, a gazela subiu à altura do topo. A intensidade das radiações cresceu vertiginosamente.
Isso é mau — disse Achmed, e continuou a transmitir as cifras representativas da intensidade das radiações.
Ao alcançar a altitude de trezentos metros, Thomas Cardif fez a nave subir à velocidade de apenas cinco metros por segundo. Não sabia por que agia dessa forma. Concentrou-se cada vez mais sobre as indicações fornecidas por Achmed.
Seiscentos metros de altitude!
A intensidade das radiações era tamanha que até parecia que estavam entrando num reator de elevada potência.
A... bem... a... aaa. — gaguejou Achmed.
Thomas Cardif lançou um olhar apressado em sua direção. Ao perceber que subitamente o valor das radiações diminuíra em oitenta por cento, não pareceu ficar muito impressionado.
Parou abruptamente o movimento da gazela. Passou a descer à velocidade de um metro por segundo. A cada metro descido as radiações se tornavam mais intensas. A nave de reconhecimento chegou à zona em que estas eram mais fortes.
Thomas Cardif descreveu uma rota circular. Contornou a coluna.
É interessante! — murmurou, sem dar-se conta de que naquela situação se mantinha frio como gelo.
Os olhos corriam alternadamente para os instrumentos e para a tela de visão global. A três mil metros, as apresentações alegóricas contidas na coluna pareciam uma pintura de doido.
Haviam contornado dois terços da coluna, a 643 metros de altitude, quando uma abertura de cem metros de diâmetro apareceu na tela.
Abertura à vista! — anunciou Mac Urban com a maior tranqüilidade.
Sob a proteção dos potentes campos defensivos que envolviam a nave, Thomas aproximou-se a duzentos metros da abertura.

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