O Coronel
Tifflor fê-los parar.
— Verifiquem
imediatamente se Thora está no parque.
Naquele
instante, raios térmicos vindos de três lados se cruzaram. Numa
fração de segundos, destruíram oitenta por cento das árvores do
parque.
Mais uma
vez Tifflor procurou abrigar-se. Deixou-se cair no lugar em que
estava. Mas os robôs terranos, programados para a destruição do
inimigo, eram seres positrônicos que não conheciam o susto, o medo
ou qualquer outro sentimento humano. Viraram-se instantaneamente
sobre seus membros de aço, perceberam a direção da qual vinham os
raios térmicos e dispararam.
Quatro
robôs inimigos explodiram numa chuva de faíscas que se abriu em
todas as direções. Mas o bombardeio de raios térmicos não se
tornou menos intenso. Subitamente o céu que cobria a guarnição
envolveu-se de uma luz ofuscante. O Coronel Tifflor não teve tempo
para esconder o rosto, a fim de escapar à cegueira que duraria
alguns minutos. Porém, compreendeu a finalidade da luta que se
travava no parque.
— Atenção,
todos os homens! — disse para dentro de seu rádio. — A bomba
luminosa destina-se a cobrir a retirada do inimigo. Thora está
desaparecida. Prestem atenção a qualquer nave inimiga! A frota de
cruzadores está pronta para decolar?
— Estamos
prontos para decolar, coronel! — disse a voz do comandante do
Zyklop.
Depois, o
receptor permaneceu em silêncio. Não houve qualquer informação
sobre Thora.
Subitamente
as informações começaram a precipitar-se.
Só mesmo
um homem que tivesse passado pelo treinamento hipnótico estaria em
condições de ordenar a confusão de dados em sua mente e obter uma
visão de conjunto.
E as
notícias fizeram com que o Coronel Julian Tifflor temesse o pior em
relação a Thora. Nem por um instante, chegou a acreditar que
tivesse morrido no bangalô incendiado.
Naquele
momento, a zona de combate tinha quinhentos metros de largura,
atravessando a sede da guarnição e estendendo-se até as imediações
do campo espacial, ultrapassando a fronteira extraterritorial.
O inimigo
desconhecido devia ter lançado na batalha algumas centenas de robôs
de combate. Era uma quantidade inacreditável, mas esta não deu o
que pensar ao Coronel Tifflor, muito menos o espantou.
O ataque
era dirigido contra Thora, e só mesmo um feliz acaso poderia
livrá-la das garras do inimigo.
O combate
entre as máquinas positrônicas foi cessando de repente. De um
instante para outro os robôs terranos não tiveram mais qualquer
alvo contra o qual pudessem disparar. Novas notícias saíram do
rádio de Tifflor.
O combate
travado nas imediações do espaçoporto ameaçava a estação de
controle espacial.
No mesmo
instante, Tifflor transmitiu novas ordens.
Três
cruzadores leves saltaram do solo para pousar junto à estação de
controle. Ao mesmo tempo, intervieram com trinta por cento de sua
capacidade de fogo na batalha de robôs. Mas não podiam atirar sem
mais nem menos contra os monstros positrônicos. Havia um obstáculo
insuperável, representado pela advertência do Coronel Tifflor:
cuidado com Thora!
Em todos
os pontos, a violência da batalha diminuía, enquanto em torno do
espaçoporto as fúrias do inferno pareciam estar à solta. Talvez, o
inimigo desconhecido lançara nessa área todas as máquinas de que
dispunha.
Subitamente,
houve unia notícia que deveria esclarecer o ataque. Porém, apenas
contribuiu para que, na mente de Julian Tifflor, a situação ainda
se tornasse mais confusa:
— São
robôs arcônidas! Não existe a menor dúvida.
Uma
suspeita tresloucada apossou-se de Tifflor.
Jamais
Árcon cometeria uma violação tão grosseira do tratado. As
máquinas arcônidas serviriam para camuflar a identidade do inimigo
que raptara Thora. Naquele mesmo instante, teve a impressão de que a
luta feroz que se travava nas imediações do espaçoporto não
passava de uma manobra “desviacionista”.
— Atenção,
forças combatentes...
O Coronel
Tifflor não conseguiu prosseguir. O grupo que pretendia chamar, e
que combatia cinco quilômetros além da fronteira do território do
Estado de Rusuf, fez-se ouvir no rádio:
— Inimigo
embarcando mais de duzentos robôs em pequenas naves. Nave esférica
atacando com radiações. Perdas: três homens, dezenove robôs.
Posição da nave... Caramba! Está decolando.
— Tenente,
forneça a posição ou prepare-se para enfrentar uma corte marcial!
Era a
primeira vez que o coronel gritava desde o início do combate, e
estava falando sério ao ameaçar o oficial com a corte marcial.
A estação
terrana de controle espacial acompanhou a palestra. Adiantou-se ao
tenente. Para não bloquear a freqüência com palavras
desnecessárias, um homem disse:
— Localizamos
nave inimiga. Está realizando decolagem de emergência...
Julian
Tifflor transmitiu suas ordens:
— Haja o
que houver, mantenham contato instrumental com a nave desconhecida.
Zyklop, envie imediatamente uma nave auxiliar para recolher-me a
bordo. Desligo.
De
propósito, não dera ordem de decolar a qualquer dos cruzadores. A
vida de Thora era tão preciosa que não desejava colocar seu destino
nas mãos de outrem.
A ordem do
coronel provocou o espanto do pessoal da estação de controle
espacial. Era apenas natural que não deixassem de manter o controle
da posição da nave desconhecida.
Subitamente,
o homem sentado junto ao ajustador de coordenadas ergueu os braços,
num gesto de desespero. O companheiro que estava sentado a seu lado,
diante da tela, pôs-se a praguejar.
De uma
hora para outra, a imagem da nave desconhecida começou a tornar-se
menos nítida; parecia desmanchar-se. À frente do ajustador de
coordenadas, que poderia fornecer a qualquer instante as coordenadas
de uma nave detectada pelos instrumentos de localização, o homem
viu que todas as colunas de algarismos se encontravam na posição
zero.
— Que
dispositivo de antilocalização será este? — disse num gemido Gil
Besser, o primeiro a perceber o que estava acontecendo.
O Coronel
Julian Tifflor logo se adaptou à nova situação. A ordem por ele
transmitida foi dirigida ao cruzador ligeiro III. Enquanto ainda
falava, a nave esférica saltou para o céu escuro.
Num raio
de cem quilômetros, todos deviam acreditar que o dia do juízo final
havia chegado, tamanho era o rugido dos propulsores e o uivo das
massas de ar incandescente deslocadas pela nave.
Sem
fôlego, Tifflor chegou à grande área livre. Quase no mesmo
instante, a nave auxiliar da Zyklop estava pousando. Naquele momento,
o coronel teve oportunidade de provar que a ducha celular recebida no
planeta Peregrino não apenas lhe prolongara a vida, mas também
conservara a juventude. Atravessou a área — um corredor de cem
metros — e saltou para o interior da comporta da nave auxiliar.
— Decolar!
— gritou.
No mesmo
instante em que a comporta se fechava atrás dele, forças titânicas
arrastaram a pequena nave para o céu noturno.
Ininterruptamente
as coordenadas saíam do receptor.
A Zyklop
também havia decolado. A nave auxiliar corria no encalço da
nave-mãe, que subia em marcha reduzida.
Graças a
uma conjugação inacreditável da tecnologia e da perícia, a
pequena nave pôde penetrar a toda velocidade no hangar da Zyklop. No
interior deste, freou com todas as energias antigravitacionais de que
dispunha e pousou suavemente.
Enquanto
subiam em direção à Zyklop, o coronel colocara um traje espacial.
Passou os últimos dois minutos de viagem junto à comporta. Mal a
nave auxiliar entrou em contato com o solo do hangar, a comporta
abriu-se. Julian Tifflor correu pelo gigantesco pavilhão, em direção
à comporta que estava mais próxima. As bombas ainda estavam
insuflando ar no hangar das naves auxiliares.
Apesar do
elevador antigravitacional e da fita rolante, o Coronel Tifflor levou
três minutos e meio para chegar à sala de comando. Sem dizer uma
palavra, o Major Holbein, comandante da Zyklop, cedeu-lhe o lugar.
O cruzador
pesado já se encontrava fora das camadas mais densas da atmosfera e
corria, a toda potência, em direção ao lugar que o cruzador
ligeiro indicara poucos momentos antes.
No
interior da Zyklop os geradores e transformadores uivavam, zumbiam e
cantavam em conjunto; os conversores chiavam, e nas fases sucessivas
que terminavam nas torres de combate as energias se acumulavam,
prontas para desencadearem-se num mortífero fogo de radiações.
Os
propulsores montados na gigantesca protuberância equatorial da
Zyklop rugiam. Usando a tranqüilidade do homem que conhece as
limitações a que está sujeito, Tifflor tangia a nave espaço
afora. Seu aspecto exterior era o de um oficial da Frota Espacial
Terrana que não se abalava, fosse qual fosse a situação. Mas, por
dentro, era um vulcão em irrupção, e sua preocupação por Thora
crescia a cada segundo.
No
momento, não tinha nada a fazer; por isso, resolveu liquidar um
assunto que não poderia ser adiado.
— Hipermensagem
dirigida ao chefe. Código de condensação e de distorção um, um A
e zero um...
A sala de
rádio anunciou que estava pronta para transmitir.
Os
oficiais da sala de comando fitaram-se com uma expressão de espanto.
O código um, um A e zero um só costumava ser usado por Perry Rhodan
em pessoa. Quem teria autorizado o coronel a utilizá-lo?
Julian
Tifflor nem pensou nas pequeninas preocupações que enchiam a mente
dos oficiais. Ainda estava ocupado com a formulação da notícia do
desastre, quando notou que há bastante tempo estava fitando Thomas
Cardif. Este estava sentado diante do instrumento de localização,
onde desempenhava as funções de segundo-oficial.
Naquele
momento, resolveu modificar o texto da mensagem.
Thora
foi raptada por robôs arcônidas. No momento, encontra-se a bordo de
uma pequena nave esférica. Iniciamos perseguição com cruzador
ligeiro III e Zyklop.
Coronel
Tifflor
A mensagem
ainda estava sendo processada pelo conversor quando o cruzador
ligeiro III enviou uma comunicação visual. E esta era tão
importante que Tifflor ainda reteve a mensagem destinada a Perry
Rhodan.
Os
técnicos do cruzador III haviam conseguido num tempo extremamente
curto romper a proteção contra a localização instrumental montada
no pequeno veículo esférico desconhecido. E, naquele instante, os
oficiais da Zyklop viram na grande tela que a nave inimiga saía com
a aceleração máxima do sistema solar de Krela.
Julian
Tifflor agiu com o maior sangue-frio, deixando de lado todas as
convenções celebradas entre a guarnição terrana e o governo do
planeta Rusuf.
“Realizar
transição ligeira no interior do sistema de Krela!”
Moveu uma
chave e desligou o piloto automático da Zyklop. Adquiriu uma
semelhança notável com Perry Rhodan, enquanto uma ordem após outra
obrigava os oficiais da sala de comando a darem o máximo de si.
Envergava
o traje espacial; apenas atirara o capacete para trás. Manteve-se
imóvel, enquanto os dados lhe eram fornecidos de todos os lados. Por
pouco, os cinco oficiais que operavam o computador positrônico de
bordo não conseguiram acompanhar a velocidade da ação. O Coronel
Tifflor nem sequer chegou a demonstrar uma concentração muito
intensa. Ainda movia numerosas chaves, realizava controles e ajustes.
Subitamente,
viu que o oficial no assento do co-piloto ia cometer um erro, pois em
vez da chave número 6, que correspondia ao cabo-mestre de energia,
estava para mover a chave correspondente ao campo antigravitacional
de emergência.
No último
instante, Tifflor afastou sua mão. No mesmo instante, disse com a
voz rangedora e em tom indiferente:
— Quero
o Tenente Cardif no assento do co-piloto!
Nenhum dos
oficiais que se encontravam na sala de comando teve tempo de
assustar-se. A mudança foi realizada num instante. Thomas Cardif
teve de orientar-se para saber até que ponto haviam sido manipulados
os controles manuais para a transição de curta distância. Nem se
deu conta de que era um tenente recém-formado, cujo lugar não era o
assento do co-piloto de um cruzador pesado, e que na sala de comando
havia companheiros muito mais experientes que ele.
Tifflor
não teve necessidade de proferir o algarismo 6. Thomas Cardif já
estava orientado. Com uma segurança de sonâmbulo, cheia de
responsabilidade, desempenhava sua difícil tarefa.
O
computador positrônico de bordo expeliu os dados necessários.
Naquele instante, começou a contagem regressiva para a transição.
Dali a
vinte segundos, a Zyklop saltaria t para o ponto no espaço em que o
pequeno veículo espacial havia escapado aos instrumentos de
localização do cruzador ligeiro III.
Durante
vinte segundos, reinou na sala de comando um silêncio que
correspondia às circunstâncias.
Os
pensamentos e as preocupações de Julian Tifflor dirigiam-se a
Thora. A fuga precipitada da nave desconhecida, sua extraordinária
capacidade de aceleração, que permitira que escapasse até mesmo ao
cruzador ligeiro, o novo sistema de proteção contra a localização
instrumental, ainda desconhecido na Terra — tudo isso, sem a menor
sombra de dúvida, indicava que Thora se encontrava a bordo do
pequeno veículo espacial.
Sem
querer, Julian Tifflor fitou Thomas Cardif. j Foi de propósito que o
mandou sentar-se no lugar do co-piloto.
Naquela
época — quanto tempo faria? — em que ele mesmo ainda era um
jovem tenente, o chefe também mandara que numa situação
catastrófica ocupasse o lugar de co-piloto, e então, juntamente com
Perry Rhodan, havia decolado com a gigantesca Titan. O fato de ter
chamado Thomas Cardif para tomar lugar a seu lado era uma espécie de
agradecimento mudo ao chefe por aquela ordem que tão orgulhoso o
deixara.
Mas,
subitamente, uma exclamação vinda dos fundos da sala de comando o
fez estremecer:
— Cardif
não se parece com o chefe?
Imediatamente
Cardif virou-se para a pessoa que acabara de falar. Seus olhos,
estranhos para um humano — eram olhos de arcônida — chisparam.
De um instante para outro, traços marcantes desenharam-se em seu
rosto jovem.
Bilhões
de inteligências da Galáxia já conheciam este rosto. Era o rosto
de Perry Rhodan.
Enquanto o
Coronel Julian Tifflor ainda lutava com o susto, a Zyklop efetuou seu
salto pelo hiperespaço, em direção à nave desconhecida.
O choque
provocado pela transição foi um martírio para todos, inclusive
para Julian Tifflor. Uma única pessoa parecia não sentir nada. Era
Thomas Cardif.
— Ali
está ele, coronel! — a voz de Cardif tinha o timbre de uma
fanfarra, e o braço estendido apontava para a grande tela de visão
global da Zyklop.
Julian
Tifflor superou a si mesmo. Não pretendia expor-se diante do jovem
tenente.
— Onde?
— perguntou num gemido. Porém ouviu a retificação de Cardif,
proferida em voz alta e em tom assustado e zangado:
— Eu me
enganei, coronel. A nave não é esta. A que aparece na tela é muito
maior.
Esteve a
ponto de dizer mais alguma coisa, mas o minúsculo ponto fulgurante
que corria em direção à grande nave parecia abalroá-la.
O tenente
e o coronel fitaram-se sem dizer uma palavra.
Ambos
haviam compreendido.
A pequena
nave acabara de pousar no interior da gigantesca esfera espacial.
Naquele
instante, ouviu-se uma voz zangada vinda do setor de observação:
— Parece
que a nave está entrando em transição...
No momento
em que foi transmitida a notícia, a nave desconhecida desapareceu da
tela.
— Conseguiu
fazer a localização estrutural? — perguntou Tifflor em tom
áspero.
A resposta
veio em tom desanimado:
— Também
têm seu compensador estrutural, coronel!
A mesma
praga que o oficial acrescentou a essa notícia estava na mente de
Julian Tifflor.
Este
levantou-se e voltou a entregar o comando da nave ao Major Holbein.
Cardif esteve a ponto de deixar o assento do co-piloto, mas o major
ordenou-lhe que ficasse.
— Saiu-se
muito bem, Cardif. E as palavras que foram ditas pouco antes da
transição estavam na ponta da minha língua. O senhor tinha uma
semelhança espantosa com o chefe, mas agora não se vê mais o menor
sinal dessa semelhança. Bem, não falemos mais sobre isto. Passarei
à pilotagem automática. Solicite os dados sobre a rota do porto de
matrícula da nave, tenente.
Só agora
Julian Tifflor retirou o traje espacial. Deixou-o caído no lugar em
que dele se desvencilhara.
A
observação do Major Holbein sobre a semelhança entre Cardif e
Perry Rhodan fora demais para ele.
A esposa
de Rhodan acabara de ser levada a um lugar desconhecido. E, em
virtude de um jogo da natureza, Thomas Cardif estava prestes a
descobrir que era filho de Perry e Thora Rhodan.
6
O
Supercouraçado Drusus, uma nave esférica de 1.500 metros de
diâmetro, viera da Terra em três saltos, realizados sob a proteção
do compensador estrutural. Só a quarta e última transição foi
realizada sem esse disfarce.
Quem quer
que estivesse envolvido no rapto de Thora, não poderia ter deixado
de constatar o imenso abalo estrutural provocado pela Drusus, e teria
de contar com o fato de que Rhodan lançaria mão de todos os meios
de que pudesse dispor para libertar a esposa.
O
gigantesco veículo espacial pousou pouco depois da Zyklop no campo
espacial da guarnição terrana. Ainda pairava sobre o campo,
sustentada por gigantescos campos antigravitacionais, quando o
Coronel Tifflor recebeu ordens de Rhodan para comparecer a bordo da
Drusus e relatar o acontecido.
Naquele
instante, Julian Tifflor se encontrava no camarote do Major Holbein.
Os dois estavam comparando as observações que haviam feito durante
a fuga da pequena nave esférica.
— Trata-se
de uma nave especial, coronel! Tem um sistema propulsor superpotente.
A capacidade de aceleração é tremenda e, por isso, não posso
culpar o comandante do cruzador ligeiro III, por ter deixado escapar
a nave desconhecida.
— Sou da
mesma opinião, Holbein. Até chegaria a dizer que a pequena nave foi
construída especialmente para o rapto de Thora. O grande ataque de
robôs lançado contra a guarnição desviou nossa atenção.
Deixamos...
Naquele
instante, Julian Tifflor recebeu a ordem de apresentar-se ao chefe, a
bordo da Drusus.
Dali a
pouco, atravessou a última barreira no interior da Drusus, passou
por dois robôs de vigilância que o examinaram por meio de seus
dispositivos positrônicos.
Logo
depois, viu-se à frente do administrador.
Estavam a
sós. Perry Rhodan estava de pé no centro do camarote, com os braços
cruzados sobre o peito. Convidou o coronel a sentar-se e ouviu
atentamente o relatório que este lhe ofereceu. No momento em que
Tifflor aludiu à nova proteção contra a localização instrumental
de que dispunha a pequena nave esférica, Rhodan o interrompeu.
— Conseguiram
descobrir o princípio de seu funcionamento, Tiff?
— A
proteção é realizada por meio de três campos de proteção fracos
e superpostos, que descrevem movimentos de rotação em sentido
contrário um em relação ao outro. Por isso não refletem o raio de
localização, e provocam um pequeno desvio de mais de noventa e
cinco por cento de sua potência. O restante da potência, que
consegue penetrar nos campos, é absorvido pela rotação dos mesmos.
— Ah!
Uma fraqueza triplicada representa uma força duplicada. Bem, já
conhecemos este princípio. Faça o favor de prosseguir, Tiff.
A
interferência de Rhodan representava uma atitude típica do
administrador. Nunca negligenciava qualquer detalhe que um dia
pudesse assumir alguma importância. Era de opinião que toda arma
ofensiva ou defensiva perdia grande parte de seu valor depois de
conhecido o princípio de seu funcionamento.
Mas,
subitamente, Perry Rhodan atirou a cabeça para trás, num gesto de
surpresa. Tifflor acabara de contar que, por alguns segundos, o rosto
de Thomas Cardif apresentara uma semelhança espantosa com o do pai.
Naquele
momento, a alma daquele homem que, em poucos decênios, criara um
gigantesco império estelar, começou a fervilhar.
— Tiff,
será que ele já sabe? Será que desconfia de alguma coisa?
Quem fez
essa pergunta não foi o administrador do Império Solar, mas o pai
de Thomas Cardif.
— Não
senhor, ainda não sabe. Mas quem poderia dizer se desconfia de
alguma coisa? Eu mesmo não sei explicar este fenômeno repentino,
esta semelhança momentânea com o senhor. Quando descontraído, seu
rosto nem mesmo de perfil apresenta qualquer semelhança com o do
senhor. Mas num momento de extrema concentração, aconteceu; a
semelhança foi completa. Quem estava no assento do co-piloto não
era Thomas Cardif, mas o senhor. E mais de trinta oficiais da Zyklop
reconheceram o senhor.
Rhodan
fitou seu confidente com uma expressão pensativa, obrigando-se a
conservar a calma.
— Tiff,
sabe o que deve fazer?
Julian
Tifflor já conhecia o chefe há tanto tempo que não poderia deixar
de compreender suas palavras. Num gesto de defesa débil, como uma
manifestação do instinto de que nem ele nem Rhodan poderiam deter o
destino, disse com a voz embargada:
— Tentarei
o que puder, Sir...
— Nada
de tentativas, Tiff! Nunca mais faça experiências com seres
humanos. Nós dois, Thora e eu, teremos de pagar nossa dívida com
juros. Coloque Thomas em ação. Dê-lhe tanto trabalho que nem tenha
tempo para pensar...
— Chefe!
— nesse momento o Coronel Tifflor poderia interromper o
administrador do Império Solar sem merecer qualquer repreensão, e
manifestar uma oposição indignada às opiniões do mesmo. —
Mandar que atue nesta situação? Isso significaria...
— Pare,
Tiff! — Rhodan sublinhou suas palavras com um movimento enérgico
do braço. — O senhor já viu algo demais em enviar um tenente a
uma missão perigosa? Pois então. Mas o simples fato de que esse
tenente é meu filho faz com que o senhor veja as coisas sob um
ângulo distorcido. A idéia acompanha-o que nem uma sombra: é o
filho de Rhodan. Dê-lhe um tratamento diferente.
“Acorde,
Tiff, meu caro! Pense no caráter de Thomas. Metade do sangue que
corre nas suas veias é de origem arcônida. E Árcon é nosso maior
inimigo, nosso inimigo mais perigoso e implacável. Não gosto de
superlativos. Mas, no presente caso, estes são plenamente adequados.
O que seria feito de Thomas? O ilustre filho poderia permitir-se
qualquer coisa, porque o nome de seu pai é Perry Rhodan. O que seria
dele, Tiff?”
— O que
será dele agora, chefe?
— Tomara
que não venha a ser meu inimigo.
Perry
Rhodan também era apenas um humano. Sua voz parecia cansada. E
cansados foram os passos com que atravessou o camarote e sentou atrás
da escrivaninha.
Julian
Tifflor não se espantou com o fato de que pouco haviam falado sobre
o desaparecimento de Thora. Por experiência própria, sabia que o
chefe desenvolveria uma ação rápida e abrangente.
— Sir,
sua esposa veio numa gazela do tipo mais recente. O senhor tem alguma
objeção a que Thomas pilote essa nave de reconhecimento?
— Entregue-o
a Holbein; acho que ele está subordinado ao major, não está?
— Está,
sim, senhor.
— Muito
bem. Não me decepcione, Tiff, e cuide bem do menino...
— Trata-se
de uma tarefa difícil, chefe, de uma tarefa quase sem solução,
porque o senhor quer que Thomas realize as missões mais arriscadas.
Não gosto de fazer uma coisa dessas. Mas, por outro lado, eu o
compreendo. Permite que me retire?
Rhodan fez
um gesto afirmativo e seguiu o coronel com os olhos, enquanto este
saía lentamente do camarote do chefe.
Julian
Tifflor entrou imediatamente em contato com o Major Holbein,
comandante do cruzador pesado Zyklop.
— Quem
foi que raptou Thora?
Com essa
pergunta, Holbein recebeu o coronel.
— Como
posso saber, Holbein?
— O
senhor vem da Drusus, coronel. E o chefe trouxe mais de trinta
mutantes. Se estes não conseguirem descobrir para onde foi levada
Thora...
Era sempre
a mesma coisa.
No seio da
Frota Espacial, o Exército de Mutantes era considerado uma unidade
formada por semideuses, que realizava milagres. Poucos davam-se ao
trabalho de procurar enxergar atrás dos bastidores e perceber que
todos os êxitos dos mutantes foram obtidos por meio de lutas
duríssimas, e que as derrotas que tiveram de engolir se contavam
pelas centenas.
— O
chefe encarregou-se da operação de busca. Holbein, o senhor já
deve imaginar com que disposição ele vai entrar na briga! O que me
dá de pensar no momento é a ótima atuação desenvolvida por
Cardif, no assento do co-piloto. Deve ficar de olhos nele, Holbein.
— Mande-o
pilotar o novo tipo de gazela em que Thora veio a este planeta.
Aliás, acho que deveríamos mandar que nossas naves de
reconhecimento de longo curso vasculhassem o espaço num raio de mil
anos-luz. É possível que, então, consigamos localizar a pista da
nave que realizou o rapto, muito embora todas as probabilidades falem
contra esta ação.
— Bem,
Holbein, vamos ao motivo de minha vinda. O senhor será responsável
pelas providências necessárias para que todos os cruzadores possam
decolar imediatamente. Diga aos homens que Rhodan espera oferecer em
breve alguma coisa que possa neutralizar o novo sistema de proteção
contra a localização instrumental.
A Frota
Espacial do Império Solar era um órgão bastante sofisticado.
Bastou que o Major Holbein desse algumas ordens, para que toda a
frota da guarnição, relativamente numerosa, se colocasse de
prontidão para decolar a qualquer momento.
Não foi
necessário exercer qualquer pressão sobre os técnicos; bastou
dizer-lhes que o chefe aguardava o resultado de seu trabalho.
Foi
necessário acordar o Tenente Thomas Cardif.
Dali a
alguns minutos, o jovem tenente, de estatura alta, encontrava-se à
frente do major. Uma expressão de orgulho enchia seus olhos
amarelados quando ouviu que, além de voar numa missão, pilotaria o
tipo mais recente de nave de reconhecimento de longa distância.
— É
claro que você levará uma tripulação, Cardif. Já pilotou alguma
vez esse novo tipo de gazela?
— Já,
major. Nosso treinamento na Academia foi feito com dois modelos
diferentes.
— Muito
bem. A ordem de entrar em ação será transmitida pelo rádio.
Aguardo seu aviso de prontidão para decolar.
Thomas
Cardif retirou-se. Usou a campainha de alarma para acordar sua
tripulação, formada por Mac Urban, um escocês de 32 anos, dotado
de uma calma fenomenal, e de Alim Achmed, um árabe de 24 anos,
nascido em Dchida, um sujeito moreno, que sabia ser ágil e frio
quando se tornava necessário assumir um risco.
Enquanto
se dirigiam ao elevador anti-gravitacional central, encontraram-se
com as tripulações de mais duas naves de reconhecimento. Estas
tinham de ir aos hangares onde estavam guardadas as gazelas.
Naturalmente, quiseram saber por que Thomas Cardif e sua tripulação
não seguiam o mesmo caminho.
Sem
demonstrar a menor inveja, o Tenente Scheck assobiou entre os dentes:
— Uma
gazela do último tipo, Cardif! Caramba! Tem um raio de ação de dez
mil anos-luz. Em comparação com esta nave de reconhecimento, as
antigas não passam de patas chocas. Que sorte!
Mac Urban
e Alim Achmed disseram a mesma coisa, enquanto corriam pelo campo
espacial em que estava estacionada a gazela na qual Thora viera a
Rusuf.
Quanto às
dimensões, o novo tipo não apresentava qualquer alteração. O
disco de trinta metros de diâmetro tinha uma altura de dezoito
metros. Acontece que o disco a ser tripulado por eles dispunha não
apenas de um mecanismo de propulsão triplamente reforçado e de um
imenso raio de ação de dez mil anos-luz. Além desses aparelhos,
estava equipado com as mais potentes armas ofensivas e defensivas.
Thomas
Cardif levou meia hora para explicar a seus homens o funcionamento da
nova nave. Depois ficaram familiarizados com as inovações. Não
regateou os elogios, mas Mac Urban, o escocês, repeliu-os com um
gesto.
— No
fundo, só devemos isso aos maus tratos que todos têm de suportar
nos primeiros dois anos passados na Frota Espacial. Muitas vezes, até
fiquei sem fôlego por causa disso. Bem, mas isto aqui é um lindo
asteróide!
Era o
maior elogio que um astronauta poderia dispensar a uma nave. Os olhos
escuros de Alim Achmed chispavam, enquanto ele acariciava a pesada
chave do canhão de impulsos.
— Avise
o Major Holbein de que estamos prontos para decolar, Achmed! —
ordenou o Tenente Cardif.
O árabe
foi para o rádio e transmitiu o aviso. Dali a dois minutos,
receberam ordens para entrar em ação.
Alim
Achmed revirou os olhos. Mac Urban encheu o cachimbo com uma calma
enervante. Não se abalaria com essa missão.
— Com
uma estrela cadente como esta a busca será um prazer, Alim!
— É
verdade — confirmou o árabe. — Mas vasculhar um trecho de mil
anos-luz...
Subitamente,
o perfurador do decifrador começou a martelar. O comando da Drusus
não assumia o menor risco: ninguém poderia captar suas mensagens.
Com um
gesto pensativo, o Tenente Cardif guardou a fita perfurada, que
continha os sinais de identificação diária dos próximos dez dias,
que na hipótese de um encontro com uma nave de Árcon representaria
o “abre-te,
Sésamo”,
que garantiria o prosseguimento do vôo.
A comporta
da gazela fechou-se. Os conjuntos já estavam aquecidos. Os três
tripulantes envergavam trajes espaciais. O capacete estava jogado
para trás. Cada homem ocupava seu lugar. O tempo de bordo começara
a correr.
— Decolagem
dentro de quarenta segundos!
Juntamente
com a gazela do último tipo, mais dezenove naves de reconhecimento
de longa distância saíram dos hangares da Zyklop e correram espaço
afora.
Thomas
Cardif concentrou-se. Ele o fez inconscientemente e sem que isso lhe
custasse o menor esforço. Apenas desligou todos os setores da mente
que não estavam ligados à decolagem da gazela. Para ele, só
existia a nave. Naquele instante, embora estivesse “encapsulado”,
ouviu Mac Urban, o escocês dotado de uma calma fenomenal, dizer em
tom de espanto:
— Tenente,
o senhor se parece com o chefe!
— O que
foi que o senhor disse? — no último instante, Thomas Cardif
percebeu que o tempo de bordo corria em direção ao ponto zero.
O momento
da decolagem havia chegado.
O
mecanismo propulsor começou a chiar, o sistema de neutralização
gravitacional uivou. Em torno da gazela, as massas de ar deslocado
rugiram com a força de um furacão.
A nave de
reconhecimento de longa distância subiu verticalmente ao céu
noturno, sob a direção do computador positrônico de bordo.
Sentado
atrás dos controles de armamento, Mac Urban continuava a fitar o
jovem comandante com uma expressão de perplexidade. Não compreendeu
por que, poucos segundos antes da decolagem, chegara a ter a
impressão de ver Perry Rhodan no assento do piloto. Agora não se
via mais a menor semelhança entre o rosto do chefe e o do tenente.
Urban
lançou um olhar indagador para seu companheiro Achmed. Ao que
parecia, o árabe observara a mesma coisa. Seu rosto espelhava a
perturbação, o espanto e a dúvida.
Enquanto
isso, a gazela acelerava cada vez mais. O indicador do altímetro
subiu vertiginosamente pela escala. Quando chegou aos 40 mil metros
acima do normal, desligou-se automaticamente. Acabara de cumprir sua
missão.
Agora se
jogaria com padrões mais elevados. Saía do oceano de ar que
envolvia Rusuf e precipitava-se no espaço.
Rota:
32-12,43 pi; 45-02,53 psi; 06-58,09 chi.
— Controle
de armamentos, Mac Urban! — chamou o Tenente Cardif. — Controle
dos instrumentos de medição e comunicação, Achmed!
Ele mesmo
tinha muito que fazer. A começar pela determinação da intensidade
dos campos defensivos que envolviam a gazela. Depois observou o
desempenho do dispositivo de absorção de gravidade e dos conjuntos
energéticos e transformadores. E, por fim, o mecanismo de propulsão
da nave.
Thomas
Cardif verificou tudo da forma como aprendera na Academia.
Suas
intervenções na trajetória da gazela foram reguladas imediatamente
por meio dos cálculos automáticos do computador positrônico de
bordo. Mesmo depois de ter desligado o computador positrônico por
trinta segundos e realizado a pilotagem manual, a gazela levou apenas
quatro segundos, a partir da experiência, para retomar com toda
exatidão a rota nos setores pi, psi e chi.
O sol
Krela corria velozmente sobre a tela de visão global da nave de
reconhecimento. Depois de surgir na parte inferior esquerda,
desapareceu na extremidade superior direita. A luz fria de sóis
distantes refletiu-se na tela. Brilhavam com todo esplendor, mas não
conseguiam preencher o vasto negrume infinito do Universo, que
parecia tão ameaçador, mas era dominado pelo homem.
Thomas
Cardif lançou mais um olhar para o velocímetro, que indicava o
algarismo 0,7. Naquele momento, a gazela afastava-se do sistema solar
de Krela à velocidade de 210 mil quilômetros por segundo.
O tenente
virou-se para Mac Urban.
— O que
foi que o senhor disse a respeito de minha semelhança com o chefe?
O escocês
já recuperara a calma proverbial, mas assim mesmo a pergunta do
tenente deixou-o um tanto embaraçado.
— Devo
ter sofrido uma alucinação, tenente. Todo o tempo fico perguntando
a mim mesmo por que fiz essa observação. É só o que sei dizer a
este respeito.
— E se
eu lhe disser que nesta mesma noite ouvi a mesma coisa em dois
lugares diferentes, o senhor ainda acreditará que sofreu uma
alucinação?
A pergunta
do Tenente Cardif foi formulada em tom tão estranho que Alim Achmed
também teve sua atenção despertada.
Um sorriso
largo cobriu o rosto de Mac Urban.
— Tenente,
não me venha com esta... Apesar da leve tensão que se espalhou pela
gazela, o Tenente Achmed não se esqueceu de ficar de olho nos
instrumentos de localização. Com a voz fria interveio na palestra:
— Localização
no setor verde... — e acrescentou os dados.
No mesmo
instante, ouviu-se uma voz saída do receptor:
— Que
nave é essa? Forneçam o código de identificação.
A ordem
fora dada em intercosmo, mas a língua que a proferira pertencia a um
terrano.
Alim
Achmed logo identificou as naves.
— Oito
cruzadores pesados.
Com um
gesto indiferente, como se nunca tivesse feito outra coisa, o Tenente
Cardif atirou a indicação do código para o telegrafista.
Tratava-se de um conjunto de nove letras e algarismos.
O
telegrafista transmitiu o código. A resposta veio como que num eco:
— Boa
viagem!
Após
isso, o silêncio instalou-se na pequena sala de comando da gazela.
Oito cruzadores terranos deslocavam-se a toda velocidade em direção
a Rusuf, onde há poucas horas pousara o supercouraçado de Perry
Rhodan, a nave Drusus. Essa concentração de poderio do Império
Solar não fazia esperar nada de bom.
Thomas
Cardif foi o primeiro a avaliar a situação global.
— Acredito
— disse, dirigindo-se à pequena tripulação de sua nave — que,
dentro em breve, teremos uma batalha espacial que será comentada
durante os próximos dez anos. Se o chefe mandou vir oito cruzadores
de uma só vez, deve ter encontrado a pista que levará à sua
esposa. Gostaria de saber quem está atrás desse rapto.
Mas logo
seus pensamentos tomaram outro rumo. Virou-se automaticamente para
Mac Urban e fitou-o, sem que o visse.
“Como
posso ter uma semelhança com Perry Rhodan? É impossível! Minha
ambição nunca chegou a ponto de identificar-me com ele. Como é que
essa gente descobre a semelhança no meu rosto?”,
pensou intensamente.
Foi uma
hora decisiva para Thomas Cardif.
Lançou um
olhar pensativo para Mac Urban, mas não notou o susto estampado no
rosto do escocês. Mais uma vez, o escocês teve a impressão de ver
o chefe à sua frente.
Naqueles
segundos, o rosto de Thomas Cardif tinha os traços de Perry Rhodan.
7
John
Marshall, um dos primeiros mutantes que se colocara a serviço de
Perry Rhodan, encontrava-se em Gelgen, a cidadezinha situada a 45
quilômetros da guarnição terrana. Naquele momento, estava sentado
no Ook-Taan; depois de uma hora, o copo de rhegis que se achava à
sua frente ainda não havia sido tocado.
Pelo
aspecto exterior já se notava que Ook-Taan era um local típico dos
saltadores. Ao que parecia, os colonos de Árcon não o visitavam. Ao
entrar ali, Marshall não havia visto nenhum arcônida e, a essa
hora, ainda esperava o aparecimento do primeiro representante dessa
raça.
Qualquer
um reconheceria em John Marshall um terrano; por isso, nem se
esforçou para adotar um comportamento que não chamasse a atenção.
A chegada do supercouraçado de Perry Rhodan, a Drusus, e o pouso de
oito cruzadores pesados, ocorrido poucas horas depois, criara um
clima tenso em Rusuf.
O governo
enviara uma nota enérgica face a essa demonstração de poder, e
formulara um protesto junto ao computador-regente de Árcon. Além
disso, os mercadores galácticos viram nesse agrupamento de naves de
guerra uma ameaça aos seus interesses, e intervieram junto ao
governo de Rusuf, ameaçando-o de suspenderem todo e qualquer
comércio com o planeta.
Não
tiveram a menor dificuldade em demonstrar que Rhodan e sua naves já
lhes haviam causado muitos prejuízos. E, também, o menor escrúpulo
em aludir aos aras, os médicos galácticos, dando a entender que uma
súbita suspensão das remessas de medicamentos poderia ter
conseqüências gravíssimas.
Marshall
esperava um colega. Tratava-se de Kitai Ishibashi, o sugestor, ao
qual pedira, pouco antes de entrar no Ook-Taan, que seguisse uma
levíssima pista mental.
Fora um
único pensamento que captara no momento em que se encontraram com
três saltadores que caminhavam do lado oposto da rua, e lhes
lançavam olhares provocadores.
Um deles
pensara em Thora e perguntara a si mesmo se a esta hora já teria
chegado ao destino.
Não era
muita coisa, mas bastara para que John Marshall pedisse imediatamente
a Ishibashi que vigiasse esses saltadores, apontando na direção do
sujeito maciço que caminhava no meio do grupo.
— Cuide
dele, Kitai; transforme-o num autômato — com estas palavras se
separaram.
John
Marshall dirigira-se ao Ook-Taan, enquanto o japonês Ishibashi
fizera meia-volta para seguir os mercadores galácticos.
O desejo
de Marshall, que pretendia transformar um dos saltadores em autômato,
não provinha de qualquer instinto sanguinário. Ishibashi tinha a
capacidade de impor sua vontade aos outros, deixando que a pessoa
atingida continuasse a acreditar que agia espontaneamente.
Durante a
hora passada no local, Marshall fora duas vezes ao toalete. Pouco
importava o que pensassem os saltadores sentados em torno das mesas
vizinhas. Uma vez no toalete, transmitia seus relatórios por meio do
minúsculo rádio de bolso e indagava se os outros mutantes haviam
encontrado outras pistas.
Quem
respondeu foi Rhodan em pessoa.
— Não,
por enquanto não surgiu nenhuma pista — dissera. — Sua notícia
constitui a primeira indicação, mas esta me parece incompreensível.
Será que os saltadores poderiam estar atrás desse rapto encenado em
grande estilo?
Os
pensamentos de John Marshall também giravam em torno deste ponto.
Os
mercadores galácticos não eram seus amigos; quanto a isso não
havia a menor dúvida. E os aras, que eram verdadeiros gênios na
área da medicina, também não gostavam de Perry Rhodan nem do
Império Solar.
Não havia
ninguém que compreendesse melhor os aras que Marshall, que lhes
pregara várias peças.
Por fim,
ainda havia o computador- regente de Árcon.
Bell tinha
razão em não demonstrar o menor respeito para com o gigantesco
cérebro positrônico instalado no mundo central de Árcon. Chamava-o
de montão de lata.
Com esse
montão de lata, Rhodan havia celebrado um acordo, como representante
do Império Solar. Na oportunidade, Perry estivera convencido de que
esse mecanismo sem alma não seria capaz de enganá-lo.
Mas, com o
correr dos meses, surgiram vários acontecimentos que lhe impuseram a
convicção de que os construtores do cérebro-mamute, que não eram
outros senão os arcônidas, haviam introduzido nele a fraude, a
traição, a astúcia e a malícia.
Não se
tratava de tentativas grosseiras de tapear o sócio; o que ocorria
constantemente era a tentativa de recorrer a todos os meios para
recuperar a força perdida, assim que o sócio suspendesse por um
segundo sua vigilância.
— É
mesmo o montão de lata! — disse John Marshall em voz alta e clara,
esforçando-se para usar o intercosmo.
De todos
os lados lhe foram lançados olhares atentos. Nenhum deles era
amável. A permanência nesse local estava ligada a certos riscos.
Gelgen, uma cidadezinha arcônida, não era uma área
extraterritorial controlada pela Terra. Mas isso não incomodou.
Estava interessado exclusivamente em conseguir uma pista palpável da
esposa de Perry Rhodan.
Subitamente,
um ligeiro choque elétrico atravessou seu corpo. A Drusus ou Kitai
Ishibashi estava chamando. Esse choque representava o pedido de
anunciar à estação transmissora que estava pronto para receber a
mensagem.
John
Marshall olhou as palmas das mãos. Ainda o estavam fitando de todos
os lados. Girou as mãos. O anel num dos dedos da mão esquerda
estava torto. Naturalmente, ao girá-lo produziu o efeito desejado.
John Marshall aprendera a comprimir a minúscula saliência que havia
nele.
Desde a
época em que alguns milhares de microtécnicos haviam sido levados à
Terra, todo o Exército de Mutantes foi equipado com esses
instrumentos milagrosos de reduzidas dimensões e grande desempenho.
Marshall
apoiou a cabeça na mão esquerda, colocando o anel junto ao ouvido.
Não era necessário recorrer ao instrumento que trazia no bolso. Um
micro transmissor do tamanho da cabeça de um alfinete daria conta do
recado.
Kitai
Ishibashi estava chamando.
— Estou
preso. Rangeroo-n, subterrâneo, do lado esquerdo. Construção de
plástico cinza-escura com os emblemas dos saltadores. Desligo.
O gesto de
pegar o copo e tomar a aguardente rhegis foi apenas uma reação
normal.
Kitai
Ishibashi estava preso!
Ele
também!
No
interior de Ook-Taan os mercadores galácticos não permitiram que
houvesse qualquer dúvida quanto a isso. Alguns deles haviam colocado
as armas de radiações sobre a mesa. Estas deveriam servir-lhe de
advertência. Os rostos zangados diziam o resto. Cinco saltadores
dirigiram-se à porta. Provavelmente sua tarefa consistia em não
permitir a entrada de espectadores.
Marshall
realizou um controle instantâneo de seus pensamentos. Leu-os como
quem lê num livro aberto. Quando examinou a mente do homem que se
encontrava no bar, teve de controlar-se para não estremecer.
Os
pensamentos frios e assassinos dirigiram-se contra sua pessoa.
“Com
este não vamos perder tanto tempo como perdemos com Thora, a
arcônida traidora.”
No mesmo
instante, John Marshall mexeu no anel:
— Aqui
fala Marshall — cochichou, enquanto colocava ambas as mãos à
frente da boca. — Bar Ook-Taan, situado na rua principal. Enviar
imediatamente um contingente de robôs.
A mensagem
só consumira um segundo e meio. Passou a mão pela boca, desceu o
braço, pegou o copo vazio e fez um sinal em direção à copa, para
que lhe servissem mais um rhegis.
Outro
choque débil anunciou que nova mensagem estava sendo expedida.
Marshall não teve necessidade de examinar os rostos dos saltadores.
Era muito mais simples ler seus pensamentos. Todos estavam aguardando
o sinal de agir contra ele.
John mexeu
no anel, desligando o microfone e ligando o alto-falante. Nesse
instante, o chefe dos mercadores galácticos saiu do lugar que
ocupava junto ao balcão e aproximou-se da mesa de Marshall. Este
desistiu de ler os pensamentos. Mal teve tempo de ouvir a mensagem
que estava recebendo.
Será que
não provocaria suspeitas se mais uma vez apoiasse a cabeça na mão
esquerda?
— Marshall,
você não conseguirá sair do bar. Já solicitei auxílio...
Não ouviu
o resto da mensagem de Ishibashi. O mercador galático de rosto
traiçoeiro encontrava-se a seu lado e apontava o radiador térmico
para ele.
— Venha
conosco, terrano!
A palavra
terrano exprimia o ódio e o desprezo de uma galáxia.
— É a
polícia? — perguntou John Marshall em tom de espanto. — Mas...
— Venha
logo; não discuta. Marshall levantou-se, nem muito depressa, nem
muito devagar.
Os
mercadores galácticos aproximaram-se de todos os lados. Só o
caminho da porta ficou livre. Lá, cinco robustos saltadores já o
esperavam.
— Vamos
logo para a porta, terrano. Ande depressa!
John
Marshall, um homem alto e de cabelos escuros, voltou o rosto alongado
para o chefe dos saltadores. Apesar da situação crítica em que se
encontrava, teve coragem de perguntar:
— O
senhor pensou bem nas conseqüências do ato que está praticando?
A resposta
foi uma risada que não anunciava nada de bom. Duas pessoas
seguraram-no por trás. No mesmo instante, três saltadores
aproximaram-se pela frente e passaram a revistá-lo.
Não se
espantaram ao encontrar um radiador de impulsos. Mas sentiram-se
perplexos por não descobrirem qualquer aparelho de comunicação.
— Onde
será que deixou essa droga? — chiou o mercador galático que
dirigia o grupo.
John
Marshall o guardava no bolso esquerdo da calça. Acontecia que o
aparelho era tão pequeno que só se poderia pegá-lo com uma pinça.
Qualquer mão humana passaria por cima do mesmo, a não ser que algum
acaso o fizesse entrar embaixo da unha.
A busca
infrutífera proporcionou alguns preciosos segundos ao mutante de
Perry Rhodan. Este não resistiu quando lhe torceram o braço nas
costas. Parecia indiferente diante do que estavam fazendo com ele. Na
verdade, esforçava-se para estabelecer contato telepático com Kitai
Ishibashi, que o prevenira pouco antes do ataque dos saltadores.
Como o
sugestionador japonês, que também se encontrava em situação
crítica, poderia saber que ele, Marshall, não conseguiria sair de
Ook-Taan?
A ação
telepática realizada por Marshall não produziu o menor resultado.
Os três saltadores desistiram de procurar o aparelho de comunicação.
— Deve
tê-lo jogado no toalete — resmungou um deles e recuou.
Marshall
leu os pensamentos dos saltadores. Também o dirigente do bando já
se convencia de que o terrano fora ao toalete para livrar-se do
aparelho de comunicação.
— Levem-no
para fora!
Naquele
instante, houve outro pequeno contratempo.
Alguém
que se encontrava nos fundos do local gritou algumas palavras. O
rosto do chefe do bando contorceu-se num riso de satisfação.
Falando em
tom presunçoso, disse a Marshall:
— Você
será o quinto que daqui a pouco nos revelará todos os segredos sob
os efeitos de uma lavagem cerebral.
Ao dizer
estas palavras, o saltador pensava intensamente em Thora, e
estabeleceu uma ligação entre a arcônida e o êxito da ação que
resultará na captura de cinco agentes terranos. O resultado final
seria um alto negócio.
John
Marshall contava com sessenta anos de atividade de agente, fora
beneficiado por várias vezes com o treinamento hipnótico arcônida,
e sempre recebera de Perry Rhodan o ensinamento de que dentre uma
série de acontecimentos deveria reconhecer sempre o que mais
importava. E John Marshall leu nos pensamentos do chefe o nome Itzre
Delagin.
Era o
homem de quem o chefe dos saltadores queria arrancar uma soma absurda
pela captura dos cinco agentes terranos. Além disso, queria
conservar um trunfo: conservar todo o saber terrano, que seria obtido
por meio da lavagem cerebral.
Em toda a
Galáxia, não havia coisa mais infame que a lavagem cerebral. Uma
pessoa submetida a esse processo revelava tudo que sabia e, ao sair
do aparelho, estava transformada num idiota.
Marshall
sabia que não poderia esperar a menor compaixão dos saltadores.
Estava em perigo de dali a algumas horas ser um idiota. Apesar disso,
não se esqueceu da missão em que se lançara juntamente com Perry
Rhodan e os outros mutantes.
Foi
empurrado em direção à porta, onde cinco saltadores já o
aguardavam. Os dois indivíduos que lhe haviam torcido o braço
entregaram-no aos outros. No mesmo instante, Marshall soltou um
gemido bem estudado e caiu ao solo.
Meia dúzia
de gigantescas mãos de saltadores estenderam-se para agarrá-lo, mas
atrapalharam-se umas às outras. Marshall aproveitou a oportunidade
para atirar os braços para a frente, ligar o microfone do anel... e
jamais o treinamento levado a efeito por horas a fio, que lhe
permitia encontrar instantaneamente os comandos, rendera dividendos
tão altos.
Caiu para
a frente. Pôs a boca sobre o punho cerrado e, sem que qualquer dos
saltadores pudesse ouvi-lo, cochichou duas palavras para dentro do
microfone:
— Itzre
Delagin.
Quase no
mesmo instante o chefe, zangado com a demora, berrou:
— Será
que vocês não conseguem pôr para fora um miserável terrano?
Estas
palavras também foram transmitidas pelo micro aparelho de Marshall.
A sala de rádio da Drusus era mantida a par de sua situação.
Marshall
foi levantado como se fosse um saco. A porta abriu-se. Logo à
frente, havia um jipe. Foi atirado para dentro da pequena cabine da
viatura como se não passasse de uma massa de matéria inerte.
Dois
saltadores seguiram-no de perto. A porta fechou-se. Um arcônida de
vestes relaxadas estava junto à direção. Um olhar bastou-lhe para
perceber que estava na hora de dar a partida. O motor de radiações
começou a rugir e estava atingindo o desempenho máximo, quando um
uivo diabólico, vindo de cima, atingiu os ouvidos de quem se
encontrava no veículo. Este foi atingido de raspão pela gazela, que
o atirou para o interior de Ook-Taan.
A larga
porta foi atirada para dentro do bar.
Acontece
que, mesmo depois de abalroado, o jipe ainda desenvolvia metade de
sua potência.
E essa
potência foi suficiente para atirar o veículo contra o bar, com uma
aceleração de 3 G, passando por cima de mesas, cadeiras e dos
saltadores, que não foram bastante rápidos para afastar-se.
As
garrafas foram quebradas com um estrondo, pois não representaram
nenhum obstáculo para o jipe.
John
Marshall não via nem ouvia mais nada. Durante o primeiro impacto
havia batido com a cabeça contra alguma coisa e perdera os sentidos.
Mas seu micro transmissor continuava a emitir e, na sala de rádio da
Drusus, ouviu-se todo o barulho infernal que enchia Ook-Taan.
Houve um
homem que não se impressionou com isso: Perry Rhodan.
Entrou em
contato com três dos seus agentes que trabalhavam em Cill, capital
do planeta Rusuf.
— Procurem
Itzre Delagin!
A
condensação da ordem implicava a maior urgência.
Enquanto
isso, o jipe desgovernado e com a frente deformada ficara preso nas
paredes firmes do local.
Da gazela
saíram precipitadamente vários homens-máquina.
Dois robôs
de guerra terranos usaram suas armas de impulso para paralisar o
motor do jipe. Seis outros saíram em perseguição dos saltadores
que fugiam. O chefe dos mercadores galácticos era um deles.
À frente
de Ook-Taan, quatorze das máquinas de guerra fecharam hermeticamente
a rua e cercaram o quarteirão em que ficava o bar dos saltadores.
A polícia
arcônida de Rusuf, alarmada pela violência usada por uma nave de
reconhecimento terrana em pleno centro da cidade, nada pôde fazer
contra os robôs fortemente armados.
O canhão
de impulsos da gazela descrevia círculos ameaçadores de 360 graus.
Mesmo os mais curiosos dentre os arcônidas perdiam a vontade de se
deleitarem com o espetáculo.
Um grito
de indignação passou pela multidão mantida à distância, quando
oito mercadores galácticos expulsos de Ook-Taan pelo contingente de
robôs foram tangidos para o interior da gazela.
As
máquinas de guerra de Rhodan não olhavam para a direita nem para a
esquerda. Trabalhavam segundo sua programação e só obedeciam aos
comandos de seu dispositivo positrônico. Era bem verdade que um
sistema de lentes e um aparelho auditivo ultra-sensível
permitiam-lhes que registrassem as reações do ambiente. Porém, uma
vez que o dispositivo positrônico nada tinha a dizer sobre isso, a
gritaria e as paixões humanas desencadeadas ao seu redor não
existiam para eles.
Depois de
haverem destruído com suas armas de impulsos o motor do jipe, os
dois robôs encontrados no interior do bar retiraram John Marshall da
cabine deformada.
Não
negligenciaram os três tripulantes do jipe: um arcônida de roupas
desleixadas e dois saltadores. Também estavam inconscientes.
Um dos
robôs carregou Marshall nos braços mecânicos como se fosse uma
criança. Outro colocou os dois saltadores sobre os ombros largos e
arrastou o arcônida atrás de si, como se fossem sacos.
Vendo na
atuação das máquinas de guerra terranas uma usurpação
intolerável, os arcônidas e os mercadores galácticos gritaram de
indignação. E, a seguir, desencadearam um ataque absurdo, pois
achavam-se desarmados.
Romperam o
tênue cordão de isolamento. As máquinas de guerra, que se
mantinham em pé em meio à multidão exaltada como se fossem colunas
de aço, não usaram as armas. Sua programação não o previa. Os
robôs, que se encontravam a bordo da gazela, possuíam outro tipo de
programação.
Sua reação
foi imediata!
De repente
o canhão de impulsos da nave de reconhecimento deixou de descrever
seus círculos de 360 graus. Em compensação os anteparos das peças
hipnóticas foram retirados. Sem provocar o menor ruído, estas
passaram a expelir seus raios.
Estes
agiram sem o menor ruído, e a gritaria saída de centenas de bocas
cessou como por encanto.
Era um
quadro fantasmagórico. De qualquer maneira, os robôs atrás das
peças hipnóticas não poderiam modificar nada. Sua programação
previra a liberação do hipno; duração de 0,25 segundos,
intensidade 10 a partir de jota 20.
Era uma
dose muito suave...
O silêncio
foi rompido pelos passos retumbantes de numerosos robôs, que corriam
rapidamente em direção à gazela, vindos de todos os lados. Não
houve a menor pressa ou confusão junto à comporta. Subiram pela
gigantesca rampa como se estivessem num campo de provas.
A rampa
foi recolhida. A comporta fechou-se. Os propulsores começaram a
uivar. Enquanto a gazela se desprendia do solo, seus campos
defensivos foram ativados. As pessoas que se encontravam na área de
atuação destes foram atiradas para os lados.
O
robô-comandante não tomou conhecimento do fato.
O comando
introduzido em sua programação era simples. Uma vez cumprida a
missão, deveria voltar à Drusus pelo caminho mais rápido e pousar.
Assim que
a gazela iniciou o curto salto de 45 quilômetros, a três
quilômetros dali, outra gazela subiu na Rua Rangerro-n. Também
concluíra sua missão, que consistia em libertar o mutante Kitai
Ishibashi.
Vinte e
dois minutos depois de John Marshall regressar à Drusus, o outro
mutante entrou a bordo do supercouraçado. Para ele, os robôs haviam
surgido no último instante. Se não fosse o micro transmissor, que
funcionara ininterruptamente, transmitindo a palestra dos saltadores
para a Drusus, os homens-máquina não o teriam localizado tão
depressa.
Já estava
amarrado à cadeira do aparelho de lavagem cerebral, esperando apenas
que a máquina diabólica fosse ligada.
Perry
Rhodan acabara de ser informado de que os cinco mutantes haviam
regressado sãos e salvos. Encontrava-se em seu camarote, juntamente
com Crest. Os dois aguardavam notícias dos agentes que trabalhavam
em Cill. O nome fornecido por John Marshall era a única indicação
que poderia permitir a Rhodan seguir a pista dos seqüestradores de
Thora.
Era a
única esperança.
Mas, nem
mesmo Crest, o arcônida, acreditava que os mercadores galácticos
estivessem atrás do seqüestro de Thora. Transmitiu sua opinião a
Rhodan.
— Isso
parece ser obra de Árcon, Rhodan!
— É
possível — disse o administrador do Império Solar, esquivando-se
de um pronunciamento direto. — Acontece que já sabemos do que os
saltadores são capazes. No momento, minhas suspeitas se dirigem
contra Árcon e contra um clã dos saltadores que ainda não
conhecemos. Já constatamos que minha esposa foi seqüestrada por
mercadores galácticos. Infelizmente os indivíduos trazidos pelos
robôs não sabiam mais que isso. Só o chefe do grupo conhece Itzre
Delagin, mas não sabe como é, onde mora e a que clã ele pertence.
“Isso
não é de estranhar, Crest. Não se esqueça de que a esse grupo
cabia apenas usar todos os meios para impedir as investigações que
pudessem levar-nos ao paradeiro de minha esposa. Para mim, é apenas
natural que o tal do Itzre Delagin faça o possível para manter-se
distante desses acontecimentos de ordem secundária.”
— Tomara
que o nome esteja certo...
Estava.
Mas os três agentes não conseguiram encontrar Itzre Delagin na
cidade de Cill
8
Fazia
dezoito horas que o Tenente Cardif decolara com sua gazela do planeta
Heet-Ris, depois de um ligeiro pouso. Transmitira uma mensagem
codificada e condensada de hipercomunicação e, imediatamente,
recebera da Drusus a ordem de seguir a pista.
Com isso,
foi eliminada a restrição segundo a qual só deviam deslocar-se
pelo espaço num raio de quinhentos anos-luz em torno de Rusuf.
A pista
era tênue, e só deram com ela por acaso. Mac Urban pedira que
pousassem em Heet-Ris.
Tratava-se
de um mundo de oxigênio inóspito, onde havia uma colônia arcônida
abandonada. Mas, muito antes dos arcônidas, outro povo importante
devia ter vivido no sexto planeta do sistema de dois sóis, pois os
vestígios de sua existência perduraram por mais de dez mil anos,
embora o povo tivesse sido tragado na voragem dos séculos.
Mac Urban
sabia da existência de misteriosos monumentos metálicos de
setecentos metros de altura, espalhados ao acaso por Heet-Ris. Mas
nunca vira esses monumentos, nem qualquer fotografia dos mesmos.
Era um
homem que gostava de ocupar-se em caráter particular com coisas
misteriosas, e, por isso, manifestara o desejo de pousar no sexto
planeta, enquanto passavam pelo sistema de dois sóis. Seu entusiasmo
pelas culturas desaparecidas e não esclarecidas fora transmitido a
Thomas Cardif, que depois de ligeira hesitação concordou em pousar
em Heet-Ris.
O sistema
ficava a trezentos e setenta e seis anos-luz do sol Krela.
No momento
em que pousava a gazela junto a um dos monumentos, Thomas Cardif não
pensava em outra coisa senão naquelas gigantescas construções
metálicas de setecentos metros de altura. Sentira-se tocado pela
expressão alegórica das colunas. Para um homem, aquilo era muito
estranho, embora lhe tocasse a alma intensamente.
Ainda
impressionado com os monumentos, Thomas Cardif não notou, ao
desligar os propulsores, que o aparelho automático de análise da
atmosfera registrava a presença de uma elevada dose de radiações
no ar de Heet-Ris.
— Abra
os campos, tenente! — gritou Alim Achmed por cima do ombro. — Há
perigo de radiações.
As
palavras de Alim Achmed e o ato de Thomas Cardif foram praticamente
simultâneos. O jovem tenente reagiu com uma rapidez espantosa diante
da situação inesperada. Percebeu a dose perigosa de radiações
contida na atmosfera e, no mesmo instante, a suspeita se instalou em
sua mente.
— Achmed,
verifique de que direção vêm as radiações! Urban, está
preparado para entrar em combate?
— Todas
as peças de artilharia prontas para disparar, tenente — gritou o
escocês junto ao painel de controle do armamento. Imaginara que o
pouso em Heet-Ris fosse menos dramático. Mas aquilo cheirava a
perigo.
Alim
Achmed procurou determinar a direção da qual vinham as radiações
extremamente intensas. No momento em que se inclinou sobre os
instrumentos, com uma expressão de espanto no rosto, Cardif e Urban
compreenderam que alguma coisa não estava em ordem. Antes que
pudessem formular uma pergunta, o árabe exclamou:
— As
radiações vêm da ponta dessa coluna, tenente!
*
* *
— OK! —
rangeu a voz de Cardif. — Prontidão rigorosa. Vamos verificar o
que houve na ponta da coluna.
Os dados
sobre as colunas de Heet-Ris, armazenados no computador positrônico
da nave, foram bem extensos. O que impressionava era o fato de que a
base de cada coluna cobria uma área de cerca de cinco quilômetros
quadrados, enquanto no topo ainda media 1,5 quilômetros quadrados.
Deslocando-se
paralelamente ao monumento metálico, a três mil metros deste, a
gazela subiu à altura do topo. A intensidade das radiações cresceu
vertiginosamente.
— Isso é
mau — disse Achmed, e continuou a transmitir as cifras
representativas da intensidade das radiações.
Ao
alcançar a altitude de trezentos metros, Thomas Cardif fez a nave
subir à velocidade de apenas cinco metros por segundo. Não sabia
por que agia dessa forma. Concentrou-se cada vez mais sobre as
indicações fornecidas por Achmed.
Seiscentos
metros de altitude!
A
intensidade das radiações era tamanha que até parecia que estavam
entrando num reator de elevada potência.
— A...
bem... a... aaa. — gaguejou Achmed.
Thomas
Cardif lançou um olhar apressado em sua direção. Ao perceber que
subitamente o valor das radiações diminuíra em oitenta por cento,
não pareceu ficar muito impressionado.
Parou
abruptamente o movimento da gazela. Passou a descer à velocidade de
um metro por segundo. A cada metro descido as radiações se tornavam
mais intensas. A nave de reconhecimento chegou à zona em que estas
eram mais fortes.
Thomas
Cardif descreveu uma rota circular. Contornou a coluna.
— É
interessante! — murmurou, sem dar-se conta de que naquela situação
se mantinha frio como gelo.
Os olhos
corriam alternadamente para os instrumentos e para a tela de visão
global. A três mil metros, as apresentações alegóricas contidas
na coluna pareciam uma pintura de doido.
Haviam
contornado dois terços da coluna, a 643 metros de altitude, quando
uma abertura de cem metros de diâmetro apareceu na tela.
— Abertura
à vista! — anunciou Mac Urban com a maior tranqüilidade.
Sob a
proteção dos potentes campos defensivos que envolviam a nave,
Thomas aproximou-se a duzentos metros da abertura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário