Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Terceira
aventura colonial — Os terranos não se deixam reduzir à
escravidão!
Outra
vez as ações se desenrolam no planeta Fera Cinzenta, onde vivem os
8.000 terranos exilados. Eles conseguiram instalar-se nesse mundo e
alcançaram certo progresso. Constataram também que dois tipos de
seres viviam no planeta: os anões azuis — fabulosos por possuírem
faculdades paramecânicas — e os mungos, espécie de macacos
sensitivos.
A
democracia fundada por Horace O. Mullon sofre um golpe: Hollander,
ditador violento, queria o poder...
Enquanto
Hollander considerava Mullon morto, este tramava, junto com os anões
azuis, a retomada do governo.
E é
depois de toda a situação acalmada que surgem os peepsies,
escravagistas...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Chellich
— Guardião
dos desterrados.
Horace
O.
Mullon
— Presidente
da Colônia Livre de Fera Cinzenta.
Pashen
— O
traidor. Elemento sem nenhum escrúpulo.
Milligan
— Técnico
da nave Adventurous. Um democrata.
Os
Peepsies
— Seres
de dois metros de altura.
1
Mullon e
seu grupo voltaram a morar nas barracas por eles armadas depois que
os anões azuis os transportaram por cima da selva, até as
proximidades da cidade de Greenwich. Pashen fora “substituído”
por Chellich. Os anões azuis o haviam retirado da ilha fluvial
poucas horas depois de terem levado Mullon, Fraudy e Milligan. Agora
achavam-se numa colina situada em plena mata que lhes servia de
residência.
Alguns
dias já se tinham passado. Foram dias tranqüilos, durante os quais
Chellich sempre se mostrara amável, solícito e bem-humorado. As
suspeitas de Milligan iam diminuindo, e até Mullon começava a
acreditar que Chellich representava uma aquisição valiosa para a
pequena expedição.
No
entanto, Mullon continuava a guardar a pistola de Chellich. Sabia
perfeitamente que não poderia assumir mais o menor risco. Qualquer
fracasso que sofresse no curso da expedição poderia ser fatal.
Quanto ao
mais, Mullon fazia o possível para ampliar a comunicação com os
anões azuis. Diariamente conversava — se é que isso podia ser
chamado de conversar — por horas a fio com alguns deles, procurava
interpretar o jogo de cores que exibiam e compreender os estranhos
chiados emitidos por eles. Tinha certeza de que o terceiro meio de
comunicação, que era a telepatia, lhe ficaria “fechado”
para sempre.
No
entanto, não deixava de fazer progressos no entendimento de seu jogo
de cores e dos sons por eles emitidos. Obteve um verdadeiro triunfo
no momento em que um dos anões baixou ao solo e, movendo seu corpo
flexível, escreveu na areia a palavra SIM, enquanto explicava por
meio de chiados e de uma combinação de cores como essa palavra era
expressa na linguagem das criaturas azuis.
Mullon
chegou a elaborar juntamente com os anões uma espécie de plano de
batalha contra Hollander. Era bem verdade que a existência de uma
ação como esta não representava a menor garantia de que, se as
coisas realmente ficassem sérias, os seres azuis iriam agir de
acordo com o mesmo. Além disso, o intercâmbio entre o homem e os
anões trazia consigo tantas fontes de mal-entendidos que não foi
possível combinar mais que um esboço vago e geral da maneira de
agir. De qualquer modo, o fato de ambas as partes saberem do que se
estava falando já representava um grande progresso.
Mullon
quebrara a cabeça para descobrir o que Hollander pretendia fazer.
Depois de interrogar um dos guardas de Hollander, Milligan o
informara de que por enquanto o ditador pretendia esperar. Esperar
que Fraudy e o próprio Mullon voltassem da selva. Uma vez que a essa
hora já sabia que pelo menos Milligan já se encontrava nas
proximidades da cidade, provavelmente faria tudo para capturar este e
Fraudy. Não conseguiria. Todavia, Hollander era um homem incansável,
motivo por que era de esperar que nos próximos dias apareceria na
área em que ficava a colina onde haviam armado seu acampamento. O
problema dos anões era tão importante que um homem como Hollander
nunca adiaria sua solução unicamente por causa de dois fugitivos.
Provavelmente
enviaria um grupo de reconhecimento, que faria o levantamento do
terreno onde ficava a colina, e procuraria estabelecer os contatos
preliminares com os anões azuis. Se a primeira tentativa de contato
resultasse em fracasso, deveriam contar com a possibilidade de que
Hollander faria tantas viagens de helicóptero quantas fossem
necessárias para transportar até a colina
um número
suficiente de homens para impor sua vontade aos anões. Na opinião
de Mullon, esta seria, por certo, a maneira de agir de Hollander. Por
isso elaborara seu plano com base no pressuposto de que o ditador
agiria conforme esperava. Isso representava um risco, mas na opinião
de Mullon não era um risco absurdo.
*
* *
— Está
ouvindo? — perguntou Chellich.
Mullon fez
que sim.
— É o
helicóptero.
Chellich
levantou-se.
— Vamos
para os abrigos.
Caminhou
alguns passos, mas Mullon gritou atrás dele:
— Um
instante, Chellich!
Chellich
parou e olhou para trás. O zumbido do helicóptero tornava-se cada
vez mais forte.
Mullon pôs
as mãos no bolso e entregou a Chellich a pistola que dias atrás lhe
tirara na margem do rio.
— Tome!
— pediu. — Se as coisas forem mal, poderemos precisar de você.
Chellich
ergueu as sobrancelhas e hesitou por um instante. Finalmente pegou a
arma e enfiou-a no cinto largo.
— Obrigado
— disse. — O senhor é um sujeito formidável.
Fraudy e
Milligan saíram das barracas assim que ouviram o ruído dos
helicópteros. Mullon lhes fez um sinal.
— O
espetáculo vai começar.
Milligan
subiu pela colina. Desapareceu na entrada superior que dava para os
recintos onde os anões moravam e trabalhavam. Alguns metros colina a
dentro, havia uma abertura no teto do corredor. Abertura essa que
avançava até a encosta da colina, terminando numa moita. Esta
entrada estava tão bem camuflada com uma chapa de plástico e um
montão de terra que ninguém poderia vê-la; só havia uma ligeira
fresta pela qual se podia olhar para fora. Uma escada tosca subia
pela abertura.
Nos
últimos dias, com a ajuda dos anões, haviam feito quatro aberturas
desse tipo, que começavam em quatro entradas diferentes dos
subterrâneos. Mullon as distribuíra de tal forma que poderia
esperar que a qualquer instante os tripulantes do helicóptero se
encontrariam no campo de visão de um dos observadores ocultos.
Cinco
minutos depois do momento em que Chellich ouvira pela primeira vez o
ruído do helicóptero, Mullon e seus companheiros já haviam
desaparecido. Nas barracas não havia o menor sinal de que pouco
antes estas ainda eram habitadas.
O zumbido
do helicóptero aproximou-se. Mullon viu uma sombra enorme deslizar
pela colina e desaparecer para a esquerda; instantes depois, voltou.
Quinze
minutos passaram-se. O ruído do helicóptero aumentava e diminuía.
Subitamente desapareceu quase por completo, apenas para voltar dentro
de poucos segundos sob a forma de um rugido vindo de perto.
— Aproximaram-se
do norte — murmurou Mullon.
A sombra
voltou a cair sobre a colina, mas desta vez não desapareceu mais.
Depois de alguns segundos cessou o ruído dos quatro pequenos bocais
de jato que faziam girar as pás do helicóptero.
Ouviu-se
um grito:
— Fique
com os olhos bem abertos, Dwight! Assim que notar qualquer coisa que
não lhe agrade, volte.
Mullon
sobressaltou-se. Reconheceu a voz. Era de Pashen, o homem que lhe
desfechara um tiro no coração.
Ouviu
passos que se aproximavam pelo capim, e logo após um par de botas
surgiu bem perto da fresta pela qual estava olhando. O homem que
Pashen chamara pelo nome de Dwight parou por alguns segundos, em
atitude hesitante. Depois de algum tempo, gritou para o alto:
— Não
há ninguém por aqui. Vou dar uma olhada nas barracas.
Prosseguiu
colina abaixo e dali em diante Mullon pôde vê-lo perfeitamente.
Viu-o entrar na barraca de Chellich, revirar seu interior e sair
novamente. Fez um gesto tranqüilizador para Pashen.
Revistou
as barracas, uma por uma; não encontrou nada que lhe parecesse
suspeito. Dirigiu-se a uma das entradas que penetravam na colina e
examinou-a.
Mullon
sentiu-se preocupado. Era este o momento em que, segundo seu plano,
deveriam aparecer os anões. Dwight não devia passar por nenhuma
dessas entradas.
Passou por
um momento de angústia. Subitamente uns trinta anões saíram de
outra galeria, cercaram o intruso e executaram uma estranha dança no
ar.
Dwight
parecia surpreso e confuso. Tirou a arma e apontou-a para os anões.
Mullon levou um susto, pois reconheceu um dos pequenos
desintegradores que Hollander tirara dos tripulantes da Adventurous.
Naquele instante, Pashen gritou:
— Não
faça isso, Dwight! Eles não lhe farão nada.
Dwight
guardou lentamente a arma.
Abaixou-se
e procurou agarrar um dos anões.
— Espere!
— gritou Pashen. — Irei até aí.
Mullon
sabia o que Pashen pretendia fazer. Os anões já o conheciam. Só
poderia supor que estavam informados sobre o ataque traiçoeiro que
desfechara contra Mullon. Naturalmente queria experimentar para ver
como se comportariam em sua presença.
Pashen
passou bem perto do esconderijo de Mullon. Pela fresta este o viu
surgir paulatinamente: primeiro as botas, depois as pernas, o ventre,
os braços e os ombros, a cabeça.
Mullon
assustou-se. Pashen carregava alguma coisa nos braços. Mullon só
viu um pedacinho de couro peludo branco-acinzentado. Enquanto Pashen
descia pela encosta, o “pedacinho
de couro”
mexeu-se e subiu pelo braço deste. Por cima do ombro de Pashen, o
democrata viu um pequeno rosto cabeludo. O macaco olhava para o lugar
onde ele se encontrava e, de repente, começou a gritar:
— Guê-guê...
guê-guê... guê-guê...
Pashen não
lhe deu atenção.
“É
um mungo”,
pensou Mullon todo apavorado. “Se
Pashen não fosse tão idiota, a esta hora já saberia que estamos
nas proximidades.”
Os mungos,
uma raça de símios semi-inteligentes das montanhas, possuíam um
sexto sentido que lhes permitia sentir o perigo. A palavra “guê-guê”
significava inimigo, maldade ou perigo.
Ao que
parecia, Pashen não estava “versado”
na língua dos mungos. Percebeu o nervosismo do macaquinho e lhe deu
uma forte palmada nas costas. O mungo soltou um grito de dor e voltou
a abrigar-se no braço de Pashen.
Mullon
suspirou aliviado. Por enquanto o perigo havia passado. Sem dar a
menor atenção ao nervosismo do mungo, Pashen prosseguiu encosta
abaixo, mantendo-se fora do alcance dos anões que cercavam Dwight.
Ficou na expectativa.
O grupo de
anões dividiu-se. Outro círculo dançante formou-se em torno de
Pashen. O traidor conhecia estes seres desde o dia em que haviam
prendido toda a expedição de Mullon, inclusive ele mesmo, e por
isso sabia que aquela dança representava um gesto amistoso.
Manteve-se
imóvel por um instante. Depois gritou para Dwight:
— Vamos
voltar! Já descobrimos tudo que queríamos saber.
Dwight fez
um gesto afirmativo e retirou-se do círculo formado pelos anões.
Subiu pela colina juntamente com Pashen. Mais uma vez passaram perto
do esconderijo de Mullon.
O mungo
voltou a mostrar-se nervoso. Subiu pelo braço de Pashen e começou a
gritar “guê-guê,
guê-guê”.
Pashen deu-lhe outra palmada nas costas, o que fez com que o animal
se calasse, amedrontado.
Dali a
pouco, escutou-se o ruído do helicóptero. Mullon ouviu o aparelho
levantar-se do solo e afastar-se, batendo os rotores. Ao que parecia,
Pashen estava com pressa, pois, logo depois, o ruído desapareceu.
Mullon
desceu pela escada. Quando chegou na saída da galeria, Chellich já
o esperava.
— Parece
que nos esquecemos de uma coisa, não é? — perguntou.
Mullon fez
que sim.
— Isso
mesmo. Foram os mungos. Não contamos com a possibilidade de que
Hollander poderia usá-los.
Milligan e
Fraudy aproximaram-se.
— E
agora? — perguntou Fraudy.
Mullon deu
de ombros.
— Só
podemos fazer uma coisa. Quando Hollander voltar com seus homens,
devemos estar bem longe para que os macacos não percebam nossa
presença.
— Por
quê? — perguntou Milligan. — Pashen não notou nada.
— O
senhor acredita que todo mundo é tão idiota como Pashen? —
perguntou Mullon. — Pelo que conheço de Hollander, ele prestará
muita atenção ao comportamento dos mungos. Assim que perceber algo
de suspeito, poderemos nos sentir ameaçados.
Fraudy
ficou decepcionada. Fora a verdadeira descobridora dos mungos. Nas
montanhas, ocupara-se com eles e procurara entender-lhes a língua.
Mullon
consolou-a.
— Esses
macacos não são gente, se é isso que você acreditava — disse. —
Não sabem distinguir entre o bem e o mal no sentido que nós
atribuímos a esses conceitos. Protegem a criatura que esteja mais
perto. Sentiram que representamos um perigo para Pashen, e por isso o
preveniram. Ainda bem que não lhes deu atenção.
Mullon
procurou explicar aos anões azuis que o plano havia sofrido uma
modificação. Conseguiu-o com uma rapidez espantosa, conforme
percebeu pelas reações deles. Teve a impressão de que os mungos
não eram desconhecidos aos anões. Ao que parecia, compreendiam que
a presença desses macacos representava um perigo, e que, por isso,
Mullon e seus companheiros não deveriam estar nas proximidades da
colina quando o helicóptero voltasse.
Os anões
transportaram Mullon e seus homens uns vinte quilômetros selva a
dentro. O transporte foi realizado pela maneira usual. Um número
suficiente desses seres criou, com as emanações do corpo, um campo
gravitacional capaz de sustentar quatro pessoas. Depois, o grupo
planou colina abaixo e penetrou, na selva, carregando os humanos bem
acima das copas das árvores, por assim dizer, nas ondas do campo
gravitacional.
No local
de pouso havia uma espécie de clareira densamente coberta de
arbustos, mas livre de árvores. Mullon preparou-se para uma espera
de algumas horas.
*
* *
Por oito
vezes ouviram o helicóptero chegar e partir. Como a máquina pudesse
transportar no máximo cinco pessoas de cada vez, a força de
Hollander não poderia contar com mais de quarenta homens.
Pouco
depois do meio-dia o helicóptero voltou pela nona vez, não voltando
mais.
— São
quarenta e cinco homens, na pior das hipóteses — disse Mullon. —
É muita gente.
Chellich
fez um gesto de desprezo.
— Não
precisamos preocupar-nos com esses quarenta e cinco homens. Hollander
é o único que importa. Se conseguirmos prendê-lo, os outros não
nos incomodarão mais.
Mullon fez
que sim.
— Talvez
o senhor tenha razão — respondeu. — Mas é preferível não
contarmos com essa hipótese.
Dali a uma
hora, surgiu o primeiro grupo de anões que, conforme haviam
combinado, se afastara sorrateiramente da colina. Pôs-se a esperar
na clareira. Com o tempo, foram chegando outros grupos, até que,
dentro de duas horas, cerca de novecentos anões se haviam reunido na
clareira.
Alguns
minutos depois, ouviu-se o ruído do helicóptero que decolava. Não
se dirigiu para o oeste, como fizera antes, mas passou a descrever
círculos acima da selva.
Não podia
haver a menor dúvida. Hollander notara o desaparecimento dos anões
e os estava procurando.
Mullon fez
o sinal convencionado para as criaturas azuis. Um grupo de anões
levantou-se acima dos arbustos, planou sobre as copas das árvores e
exibiu seus corpos cintilantes à luz do sol.
A reação
do piloto do helicóptero foi imediata. Mullon ouviu o som do rotor
se aproximar. Os seres afastaram-se em direção ao oeste. O
helicóptero não deu a menor atenção à pequena clareira da qual
haviam saído; preferiu segui-los.
Dali a
mais algum tempo, parecia ter certeza quanto à direção tomada
pelas criaturas azuis. Descreveu uma curva fechada, fez meia-volta e
tomou rumo leste, onde ficava a colina.
Mullon
mostrou-se satisfeito.
— Daqui
a pouco a situação terá que definir-se — disse. — Acho que
para Hollander os anões são tão importantes que não deixará de
segui-los.
*
* *
Hollander
se interessara tanto pelas instalações subterrâneas da colina,
pelas numerosas entradas, pelos recintos subterrâneos e pela
estranha iluminação juntamente com os numerosos aparelhos que nem
percebeu que os anões azuis se afastavam aos grupos.
Os
sentinelas postados junto ao helicóptero, no topo da colina, viram
os seres azuis desaparecer na selva, mas não deram maior importância
ao fenômeno.
Mas quando
Hollander voltou a emergir à luz do dia, as coisas mudaram de
figura. Notara que nos recintos subterrâneos praticamente não havia
mais nenhum anão. Acreditara que se tivessem reunido na superfície.
Entretanto, não os vendo por ali, começou a desconfiar. Os
sentinelas postados junto ao helicóptero tiveram de ouvir uma série
de palavras ásperas quando contaram o que tinham observado.
Hollander
mandou que Pashen e Dwight pegassem o helicóptero e saíssem à
procura dos anões. Encontraram a pista dos seres azuis, conforme era
a intenção de Mullon, e logo voltaram à colina.
— Estão
se afastando na direção oeste — anunciou Pashen.
— Todos?
— Apenas
vimos uns cem, mas não pudemos enxergar o que se passava embaixo da
folhagem. Suponho que os outros se desloquem junto ao solo. É esta
sua maneira usual de locomoção.
— Qual é
a velocidade deles?
— É
bastante reduzida. Não passa de dez quilômetros por hora.
— Nessa
velocidade não poderemos alcançá-los a pé — disse Hollander. —
Teremos que segui-los de helicóptero.
— Desculpe,
chefe — interveio Pashen. — Não seria preferível esperarmos
aqui mesmo até que todos voltem?
— Não;
não seria preferível — respondeu Hollander em tom áspero. —
Estão se deslocando para o oeste, isto é, em direção a Greenwich.
E Milligan encontra-se nas proximidades da cidade. Teve tempo de
sobra para estabelecer contato com os anões. É bem possível que os
tenha convencido a atacar Greenwich enquanto ficamos parados por
aqui. Teremos de agarrá-los agora mesmo. Mande prender imediatamente
os que ainda se encontram na colina. Enquanto eu estiver a caminho no
helicóptero, você ficará no comando por aqui. Entendido?
Hollander
partiu dentro de alguns minutos. Levou dois homens e um mungo. Um dos
homens pilotava o helicóptero, enquanto Hollander e o outro
examinavam o terreno e prestavam a maior atenção às reações do
símio assustado.
Sobrevoaram
a clareira, que Pashen havia descrito com a maior exatidão. Dali a
alguns instantes viram as manchas coloridas cintilantes, que
continuavam a deslocar-se em direção ao oeste, pouco acima das
copas das árvores. Ao que parecia, nem tomavam conhecimento do
zumbido do helicóptero.
— Temos
que detê-los! — resmungou Hollander. — Pashen está com a razão;
provavelmente a massa principal dos anões se desloca sob a folhagem
das árvores.
Dirigindo-se
ao piloto, prosseguiu:
— Procure
encontrar um lugar em que possamos pousar. Tomara que localizemos
outra clareira.
*
* *
Mullon viu
o helicóptero passar pela segunda vez em disparada por cima da
clareira e desaparecer a oeste. Depois de algum tempo, o ruído do
rotor cessou tão repentinamente que não era de se acreditar que o
aparelho se tivesse afastado.
Hollander
acabara de pousar. Tudo estava saindo de acordo com o plano de
Mullon.
Fraudy,
Chellich e Milligan puseram-se a caminho com um grupo de cento e
cinqüenta anões. Voaram pouco acima das copas das árvores,
percorrendo o mesmo caminho seguido por Hollander.
Mullon
ficou mais um pouco na clareira.
Depois
pediu aos anões que ainda se encontravam por ali que o
transportassem na direção sudoeste.
Dali a
cerca de uma hora, Mullon descobriu uma grande clareira a noroeste do
lugar onde se achara. Com exceção do lugar em que se mantivera à
espera juntamente com seus companheiros, era a única área livre que
havia nas redondezas. Sem dúvida, o helicóptero havia pousado ali.
A clareira não ficava a mais de três quilômetros do lugar em que
Mullon se encontrava naquele momento.
Mullon
pediu que os anões o colocassem no solo e pôs-se a esperar.
*
* *
Hollander
ordenou ao piloto que pousasse na extremidade sul da clareira.
Pelos seus
cálculos, face à velocidade reduzida que as criaturas azuis
desenvolviam, ainda demoraria meia hora ou até quarenta e cinco
minutos até que alcançassem a clareira. Hollander teve tempo de
postar os dois companheiros de tal maneira que podiam abranger a
clareira com a vista. Ele mesmo escondeu-se juntamente com o mungo
atrás de um arbusto, que pelos seus cálculos ficava bem na rota dos
anões.
O tempo
foi-se arrastando.
Hollander
assustou-se quando o Mungo que segurava no braço subitamente parecia
animar-se. Por horas a fio não dera o menor sinal de vida.
Repentinamente, ergueu-se e olhou para a parede verde que fechava a
selva na direção leste.
— Guê-guê...
— fez baixinho.
Hollander
conhecia o significado dessa palavra e aguçou o ouvido.
O
macaquinho tornava-se cada vez mais inquieto. Numa sucessão rápida
soltou os gritos de advertência e levantou o braço, apontando na
direção da qual vinha o perigo.
Hollander
não sabia o que pensar. Não se ouvia o menor ruído suspeito, mas o
mungo se comportava como se um exército inimigo se aproximasse.
Lembrou-se
de Milligan.
“Será
que ele já tinha voltado à selva, depois de ter interrogado Suttney
e descoberto o que acontecera em Greenwich? Será que já tinha
conseguido a colaboração dos anões e estava voltando para me
prender?”,
pensou Hollander, interrogando-se.
Começou a
desconfiar de que se metera num perigo tão grande que não poderia
vencê-lo sozinho.
Hesitou.
Não era de seu feitio fugir de um perigo cuja existência nem sequer
estava provada.
Acontece
que o nervosismo do mungo continuava a crescer. Apontava
constantemente para o leste e ficava soltando seus guê-guês.
Hollander
mandou que seus companheiros saíssem dos esconderijos e se
retirassem para o interior do helicóptero. Ele mesmo abrigou-se
juntamente com o mungo no capim alto, junto à escada que levava à
cabina do aparelho.
Se é que
Milligan realmente se encontrava em companhia dos anões, poderia
esperar para ver o que faria quando descobrisse o helicóptero.
Mal
conseguia segurar o mungo, que deixara de soltar seus guê-guês,
para emitir sons lamentosos de angústia. Às vezes, lançava os
olhos arregalados para o outro lado da clareira, e outras vezes
olhava para trás, onde a muralha densa da selva se erguia junto ao
helicóptero.
Hollander
não lhe deu a menor atenção. Estava prevenido. E o macaquinho não
teria mais nada a fazer.
*
* *
Naquele
momento, Milligan gostaria de ter um aparelho de radiocomunicação,
a fim de perguntar a Mullon o que deveria fazer e quando teria de
atacar.
Acontece
que não dispunha de nenhum aparelho desse tipo. O único instrumento
em que podia confiar era o relógio. Mullon procurara avaliar o tempo
que levaria para colocar-se atrás de Hollander, e recomendara a
Milligan que em hipótese alguma atacasse antes disso.
Milligan,
Chellich e Fraudy esperaram, juntamente com o grupo de anões que os
trouxera, cerca de duzentos metros a leste do lugar em que o
helicóptero de Hollander havia pousado. Ainda faltavam vinte minutos
para o momento combinado.
Milligan
mandou que avançassem lentamente. Os anões ajudaram os homens nos
seus movimentos desajeitados, levando-os por cima de grandes raízes
aéreas e fazendo-os contornar os trechos pantanosos.
Dez
minutos antes da hora combinada, Milligan se encontrava na
extremidade leste da clareira. Não viu o menor sinal de Hollander ou
de seus homens, mas o helicóptero era perfeitamente visível mais ao
sul, junto ao lugar em que começava a selva.
*
* *
Mais ou
menos no mesmo instante, Mullon viu o aparelho surgir à sua frente.
E notou
mais que isso... Viu que à direita e à esquerda do helicóptero
dois homens estavam agachados atrás das moitas, fitando atentamente
a extremidade leste da clareira.
Tudo
continuava calmo. Milligan e seus anões ainda não haviam aparecido.
Mullon
descobriu outra coisa. Junto à escada que levava à cabina do
helicóptero viu um corpo que jazia imóvel no capim. Mantinha o
braço direito estendido e sua mão segurava uma coisa
branco-acinzentada que se contorcia ininterruptamente, procurando
libertar-se e emitindo sons queixosos.
Era
Hollander!
Mullon
observou-o por algum tempo. Tal qual seus companheiros, dedicava sua
atenção exclusivamente à extremidade oposta da clareira.
O plano
fora bem sucedido. O mungo sentira o perigo vindo do leste e
despertara a atenção de Hollander para aquela direção. Do leste
vinham três pessoas, e do sul apenas uma. Além disso, as três
pessoas vindas do leste se encontravam mais próximas da clareira que
a pessoa solitária que vinha do sul.
A essa
hora o mungo já devia ter percebido que atrás dele nem tudo estava
em ordem, que de lá também o ameaçava um perigo. Mas Hollander não
se interessava mais por isso. Sabia que o perigo vinha do leste.
Mullon
continuou a rastejar. Esforçou-se para não provocar o menor ruído.
Ainda faltavam quatro minutos para o momento combinado.
*
* *
Milligan
fez o sinal para os anões. Estes obedeceram; espalharam-se e saíram
para a clareira, onde efetuaram sua dança como se durante todo o
tempo não tivessem feito outra coisa.
*
* *
— Cuidado!
Estão chegando! — disse Hollander em voz baixa. — Esperem mais
um pouco.
Os dois
homens obedeceram. Olhando por cima do capim, Hollander viu os anões
azuis planarem graciosamente sobre a clareira, atravessarem a mesma e
mergulharem de novo na selva.
Essas
ações pareciam calmas demais... e Hollander começou a suspeitar.
“Será
que Milligan realmente se encontra em companhia dos anões? Por que
não aparece?”,
pensou o ditador.
Hollander
viu-se obrigado a tomar uma decisão rápida. Se perdesse muito
tempo, os estranhos seres voltariam a desaparecer.
— Vamos!
— ordenou aos dois homens. — Barrem-lhes o caminho. Se não
quiserem parar por bem, mostrem-lhes o que vem a ser um radiador
térmico.
Os
asseclas do ditador saíram dos seus esconderijos e correram pela
clareira.
Era o
momento pelo qual Mullon havia esperado. Não poderia enfrentar três
homens. Mas agora Hollander estava só.
Mullon
ergueu-se. Hollander estava tão entretido com seus companheiros que
nem ouviu o ruído vindo de trás.
— Chega!
— disse Mullon em tom enérgico. — Solte a arma e levante-se.
Hollander
estremeceu. Afrouxou a mão, e o mungo afastou-se com um forte
chiado.
Hollander
levantou-se, mas não largou a arma. Mullon não esperara outra
coisa. Com um pontapé rapidíssimo atingiu o pulso de Hollander. O
pequeno desintegrador foi arremessado para o alto.
Hollander
soltou um grito de dor. Levantou-se, virou a cabeça e...
Mullon
nunca vira uma cara tão assustada. Hollander fitou-o com os olhos
muito arregalados. Alguma coisa parecia obrigá-lo a levantar as mãos
para apalpar Mullon.
— Mullon...
é você...? — interrogou-se num gemido.
Mullon
recuou um passo e acenou com a cabeça.
— Sim;
sou eu em carne e osso. Não é meu espírito.
Hollander
baixou os braços.
— Quer
dizer que está tudo terminado — disse.
— Isso
mesmo, Hollander. Tudo terminado.
Hollander
virou a cabeça, como se esperasse que seus companheiros viessem
salvá-lo. Acontece que Milligan, Chellich e Fraudy tiveram
relativamente pouco trabalho com os mesmos. Enquanto os dois se
interpuseram no caminho dos anões, procurando descobrir se estes
seres tomavam algum conhecimento de sua presença, Milligan e seus
companheiros aproximaram-se sorrateiros. Mortalmente assustados, os
homens de Hollander não ofereceram a menor resistência.
— Dali
você não pode esperar qualquer socorro — disse Mullon.
Esperou
pacientemente até que Milligan tivesse seus prisioneiros sob
controle a ponto de que não pudessem fugir. Chellich e Fraudy
aproximaram-se. O primeiro trouxe as correias já preparadas. Dentro
de poucos minutos, Hollander foi amarrado. Fechou os olhos e
calou-se.
— Devíamos
matá-lo — exclamou Chellich. — Senão acaba escapando e repete
as mesmas bobagens.
Mullon fez
que não.
— Acho
que devemos deixar que a Assembléia Popular decida sobre isto. Não
somos competentes.
Chellich
acenou com a cabeça.
— Sim;
naturalmente. Falei apenas de raiva.
Na verdade
estava um tanto preocupado. Ao encontrar-se com Mullon, na margem do
rio, afirmara que já fora um dos colaboradores de Hollander.
Bastaria uma palavra errada, e logo ficariam sabendo que aquilo que
dissera naquela hora era mentira.
2
O resto
foi muito mais fácil do que Mullon imaginara. De início nem tentou
prender os quarenta homens comandados por Pashen, que tinham ficado
na colina.
Colocou
Hollander no helicóptero e foi a Greenwich juntamente com Chellich,
Milligan e Fraudy. Pousaram nas proximidades dos destroços da
espaçonave e libertaram O'Bannon, Wolley e mais alguns prisioneiros,
antes que na cidade qualquer pessoa descobrisse que alguma coisa
estava acontecendo.
Mullon
mandou que Chellich servisse de emissário. Pediu a este para dizer
que Hollander seria morto, se a chamada guarda pessoal não
aparecesse dentro de trinta minutos fora da cidade e depusesse as
armas.
Chellich
voltou depois de algum tempo e informou que as condições de Mullon
seriam cumpridas.
Dali a
meia hora, Greenwich estava livre. Os últimos membros da guarda
pessoal que se puseram a caminho para o lugar indicado, levando os
fuzis, foram tangidos para fora da cidade pelos habitantes
desarmados, que não deram a menor atenção ao perigo que corriam.
No dia
seguinte, Pashen e seus homens também foram presos. A ausência
prolongada de Hollander já causara uma confusão tremenda entre os
asseclas do ditador. Pashen foi o único que ofereceu resistência.
Saiu ferido.
Mullon
conquistara a colina com um contingente de apenas dez homens. A maior
parte do trabalho foi realizada pelos anões, que já haviam voltado
ao pé da colina. No momento decisivo, estes faziam as armas voar
pelo ar, fazendo com que os homens de Pashen se tornassem quase
indefesos.
Os
prisioneiros foram transportados no helicóptero, em grupos. A
Assembléia Popular já estava reunida, e procurou chegar a uma
decisão sobre o destino a ser dado aos conspiradores.
Na última
viagem realizada por Mullon, o pequeno mungo também foi colocado no
helicóptero. Por ocasião da prisão de Hollander, este fugira
apavorado, só voltando dali a algumas horas.
Durante os
debates relativos ao caso de Hollander, houve fortes divergências
sobre o destino a ser dado ao ditador. Ninguém estava interessado em
tornar-lhe mais suave o castigo, mas um bom número dos participantes
pronunciou-se contra a pena de morte, sustentando que esta já fora
abolida na Terra, motivo por que sua aplicação representaria uma
regressão à barbárie.
Mas
O’Bannon disse algumas palavras decisivas.
— Por
que a pena de morte foi abolida na Terra? — perguntou em tom
colérico. — Porque, desde o início, só serviu para livrar a
sociedade de um elemento criminoso. E porque na Terra já foram
encontrados meios de realizar essa proteção de outra maneira. Um
homem banido não pode representar um perigo para quem quer que seja,
e nas penitenciárias modernas os criminosos podem ser mantidos atrás
das grades pelo resto da vida, sem que isso represente qualquer
risco.
“O que
podemos nós fazer? Não podemos banir ninguém, e não dispomos de
uma prisão suficientemente segura. Com isso, volta a prevalecer o
velho argumento de que o homem que representa um perigo para a
sociedade deve ser morto, desde que não existam condições seguras
de isolá-lo dos demais. Proponho que Hollander pague suas infâmias
com a vida.”
Depois
desse libelo breve e pouco complicado, passou-se à votação. Trinta
e três por cento das pessoas com direito a voto pronunciaram-se a
favor da proposta de O’Bannon.
Hollander
teve oportunidade de defender-se, mas não quis aproveitar-se da
mesma. Manteve-se calado, e a sentença foi executada.
O número
de seus sequazes era tão elevado que não havia como prendê-los nos
destroços da Adventurous. Além disso, a perda da força de trabalho
não seria compensada pelo ganho em segurança. Então resolveu-se
que os seguidores de Hollander formariam um grupo de serviço, que
executaria trabalhos forçados pelo prazo de dois anos, sob a
vigilância de guardas armados.
Com isso,
o “caso
Hollander”
ficou encerrado, e revestiu-se de grande importância para a história
futura da colônia Fera Cinzenta. Compreendeu-se que o desterro comum
não bastava para transformar todos os homens em cidadãos
cumpridores dos seus deveres.
A
liberdade era um bem que devia ser cuidadosamente preservado.
Nas
semanas que se seguiram, a Assembléia Popular procurou regularizar
as relações entre os colonos de um lado, e os mungos e anões azuis
de outro.
Mullon foi
de opinião que se devia manifestar os agradecimentos do povo pelo
auxílio valioso dos anões, e conceder uma espécie de indenização
aos mungos, pelo que haviam padecido com Hollander. A Assembléia
Popular concordou em entregar aos seres azuis um dos geradores
sobressalentes da Adventurous, para que não tivessem tanto trabalho
com a geração de energia por meio das velhas máquinas
eletrostáticas.
Os mungos
tiveram liberdade de escolher o que quisessem num montão de
bugigangas coloridas. A oferta provocou-lhes um entusiasmo
indisfarçável. Precipitaram-se sobre o montão dos presentes e
pegaram tudo que conseguiram agarrar.
Fraudy e
Mullon levaram o gerador, de helicóptero, até a colina habitada
pelos anões. Mullon instalou o aparelho e procurou explicar às
criaturas azuis para que servia e como deviam lidar com ele. Graças
aos dons telepáticos dos azuis, não demorou em desincumbir-se da
tarefa. Teve a impressão de que estes souberam apreciar a gentileza.
*
* *
Cumpridas
assim as exigências da diplomacia, Mullon pôs-se a resolver alguns
problemas que se propusera há bastante tempo.
Um desses
problemas consistia na divisão do tempo. Até então, todos se
esforçavam em manter os relógios em movimento segundo o último
acerto, feito na Terra. O ponteiro das horas dava mais de três
voltas completas antes que se passasse um dia do planeta Fera
Cinzenta, e muitas vezes indicava meio-dia quando o sol estava
nascendo. Os dias eram “enfileirados”,
e falava-se nos dias 5, 6, 7 e 8 de maio, enquanto no mesmo tempo na
Terra já se havia passado quase uma semana. Em nosso planeta já se
estava em agosto, não em maio. Mullon era o único que mantinha um
registro exato sobre o transcurso do tempo.
Fixou o
ano planetário. Cada 172,33 anos terranos correspondiam a duzentos
anos do planeta Fera Cinzenta. Cada ano deste planeta tinha 188,8
dias. Mullon arredondou este número para 189 dias do planeta Fera
Cinzenta, pois a cada cinco anos tinha que deixar de fora um dia. O
dia de Fera Cinzenta tinha 39,67 horas terranas, que Mullon
transformou em 40 horas de Fera Cinzenta. Cada uma dessas horas tinha
cerca de trinta segundos menos que uma hora terrana. O ano de Fera
Cinzenta foi dividido em doze meses, para que pudessem ser mantidos
os nomes usuais dados a estes. Cada ano tinha nove meses de dezesseis
dias e três meses de quinze dias.
A divisão
da hora em sessenta minutos e do minuto em sessenta segundos também
foi mantida.
Mullon
designou o ano pelo número 2.041, pois não desejava iniciar outra
era, e o dia em que a Assembléia Popular aprovou sua proposta foi
designado como o dia 1o
de janeiro. Foi um dia “extraordinariamente”
quente, motivo por que nada tinha de comum com seu equivalente
terrano, ao menos no hemisfério norte. Mas todos ficaram satisfeitos
com a nova contagem do tempo, e até se sentiam um tanto orgulhosos
por possuírem um tempo próprio.
Mullon
ainda tinha outros planos. Pretendia estudar os hábitos dos
gigantescos animais cinzentos chamados de girafantes. Não adiantaria
realizar grandes plantações nos arredores de Greenwich, enquanto os
gigantescos animais pudessem aparecer um belo dia e pisotear tudo,
apenas porque, por coincidência, Greenwich ficava na sua rota.
Entre os
colonos, havia alguns que tinham feito cursos de Biologia, ou, de
outra forma, conseguido conhecimentos nessa área. Os mesmos
conseguiram convencer Mullon de que, para adquirir conhecimentos mais
precisos sobre os girafantes, seria necessário permanecer
constantemente próximos a esses animais, pois só assim se poderia
realizar um estudo mais acurado.
Acontece
que a permanência nas proximidades de uma manada de girafantes não
deixava de apresentar seus perigos. Os gigantescos animais
deslocavam-se com uma enorme rapidez, seu couro espesso era
impenetrável para qualquer arma convencional, com exceção dos
modernos desintegradores e radiadores térmicos, cujo estoque era
extremamente escasso. Para executar o plano de Mullon, seria
necessário colocar o helicóptero à disposição do grupo incumbido
da observação dos girafantes. Mullon não tinha nenhuma objeção,
pois em Greenwich raramente precisavam deste tipo de aparelho.
Todavia, a
Assembléia Popular achou que o plano de Mullon não era tão
urgente, e que o helicóptero representava um veículo preciosíssimo,
do qual a cidade não deveria ficar privada por muito tempo.
Mullon
preparou-se para uma discussão áspera, pois entendia que a rejeição
de sua proposta era uma leviandade, da qual não queria ser culpado,
nem mesmo por comodismo.
Por isso
andou pela cidade, conversando a sós com os homens que se opunham
mais tenazmente a seu plano, a fim de convencê-los da necessidade do
mesmo.
Como seus
argumentos fossem bem formulados e fundamentados, o que já não
acontecia com os de seus adversários, dentro de cinco dias conseguiu
tamanho êxito que poderia arriscar-se a voltar a submeter sua
proposta à votação.
Mas não
teve oportunidade para isso. Na noite de 15 para 16 de janeiro de
2.041, tempo do planeta Fera Cinzenta, a desgraça desabou sobre a
pequena colônia.
*
* *
Mullon foi
acordado por um ruído na porta. Sentou-se na cama, ainda sonolento,
e ouviu que alguém batia à porta, com certa violência.
Fraudy
mexeu-se na cama.
— O que
houve?
Mullon
levantou-se e abriu a porta. Milligan entrou.
Fraudy
acendeu a luz. Mullon viu que o rosto de Milligan exprimia pavor.
— O que
houve? — perguntou. Milligan deu de ombros.
—- Ouvi
gritos e vi uma figura magra e esquisita arrastar-se pela rua.
Segui-a, mas ela desapareceu de repente. Achei que seria preferível
avisá-lo logo.
Mullon
começou a vestir-se.
— Tire o
fuzil que está nessa caixa — ordenou a Milligan. — Fraudy, feche
a porta assim que tivermos saído.
Fraudy,
que já havia passado à sala contígua, gritou:
— Não
posso. Irei com vocês.
Mullon não
formulou nenhuma objeção. Dez minutos depois do momento em que
Milligan havia chegado, estavam prontos para sair. Fraudy trazia uma
pequena pistola no cinto.
— Suspeita
de alguma coisa? — perguntou Mullon enquanto fechava a porta.
— Não —
respondeu Milligan. — Mas tenho certeza de que alguma coisa não
está certa.
A noite
estava tão escura que não se enxergava nem um metro a frente. O céu
parecia encoberto. Era pouco antes da meia-noite, mas precisamente,
trinta e nove horas e trinta minutos.
“É
a hora em que todo mundo dorme mais profundamente”,
pensou Mullon.
Por
enquanto não atribuía muita importância ao que Milligan observara.
Alguns gritos e um vulto magro e esquisito não representam um perigo
tão grande assim. De qualquer maneira, porém, Mullon era o
presidente da Assembléia Popular, e tinha de cuidar do bem-estar dos
colonos.
— Talvez
seja conveniente entrarmos em contato com as sentinelas — sugeriu
Milligan. — É possível que tenham notado alguma coisa.
Mullon
concordou com a sugestão. Greenwich estava cercada por uma série de
postos de sentinelas, por causa dos girafantes, que um belo dia
poderiam “invadir”
a cidade. Se houvesse algum perigo, este só poderia ter vindo de
fora, e as sentinelas teriam percebido alguma coisa. A casinha de
Mullon ficava no setor norte da cidade. Pouco atrás dela começava a
pradaria. A leste dali, a duzentos ou trezentos metros, devia haver
uma sentinela. Mullon dirigiu-se ao lugar em que o guarda deveria
encontrar-se.
De repente
Fraudy parou.
— Milligan
tem razão — disse. — Alguma coisa não está em ordem.
— Isso é
um produto da intuição feminina? — perguntou Mullon em tom
irônico. — Ou está vendo alguma coisa?
— É
pura intuição — respondeu Fraudy. — Mas você pode confiar...
Mullon
preferiu não confiar. Prosseguiu. Manteve os olhos e os ouvidos
atentos, mas não percebeu nada que distinguisse essa noite das
noites anteriores que havia passado no planeta Fera Cinzenta.
Dali a
três minutos, começou a gritar. Se houvesse uma sentinela nas
proximidades, esta deveria ouvi-lo e responder.
Não houve
nenhuma resposta. Mullon começou a inquietar-se.
— Temos
de procurar o homem — sugeriu. — Acho que devemos separar-nos.
Milligan
seguiu pela esquerda, Mullon pela direita, e Fraudy permaneceu no
meio, a fim de que pudessem orientar-se. Mullon praguejou por ter-se
esquecido de trazer uma lanterna.
Ainda não
havia caminhado cem metros, quando ouviu a voz de Fraudy, vinda de
trás.
— Volte!
Milligan encontrou alguma coisa.
Fez
meia-volta e orientou-se pelos gritos que ela soltava a intervalos
regulares. Quando se viu ao lado do marido, ela parou de gritar.
Ouviu que Milligan, que se encontrava mais ao norte, também o
chamava.
Encontraram-no.
Assim que Mullon os viu emergir da escuridão, disse:
— Esteve
aqui. O capim está pisado.
— E daí?
— perguntou Mullon em tom contrariado. — Onde está?
— Não
faço a menor idéia. O capim está úmido.
— Deve
ser o orvalho — disse Mullon. Mas Fraudy ponderou:
— Antes
da meia-noite não cai orvalho.
— Vamos
dar uma olhada — disse Mullon.
Tirou um
isqueiro do bolso. Na luz da pequena chama viram o capim pisado e o
líquido grudado aos talos. Segurou um dos talos e colocou-o perto da
chama.
— Ui! —
disse Fraudy. — É sangue!
— Silêncio!
— disse Mullon em voz baixa.
A
sentinela devia ter sofrido ferimentos. Mullon esperava ouvir gemidos
ou outro sinal de vida. Porém tudo permaneceu em silêncio, com
exceção do leve canto do vento.
Alguém
devia ter atacado a sentinela. Talvez fosse um animal selvagem. Mas
ninguém jamais havia visto um animal selvagem nas proximidades da
cidade, com exceção dos girafantes. Além disso, havia o vulto
magro que Milligan vira, e os gritos que ouvira. Seria por simples
coincidência que tudo isso acontecesse na mesma noite?
Mullon
hesitou, sem saber se devia procurar outra sentinela ou voltar à
cidade. Antes que chegasse a uma decisão, Fraudy colocou a mão
sobre seu braço e cochichou:
— Olhe!
Que luz é essa?
Olhou na
direção para a qual Fraudy estava apontando. Por enquanto não
descobriu nada. Mas depois de algum tempo teve a impressão de que
havia uma luminosidade sob as nuvens, ao sul da cidade. Poderia ser
uma estrela, se a luz não fosse muito vermelha.
Milligan
também viu, assim que lhe apontaram a direção. Disse que se
parecia com uma luz colocada numa torre elevada, mas não soube
calcular a distância.
Mullon foi
de opinião que deveriam olhar de perto. Por isso contornaram a
cidade no rumo sudoeste e constataram que a luz vermelha vinha da
mesma direção em que ficavam os destroços da Adventurous.
Depois de
passarem pelos destroços, que se erguiam diante deles como uma
enorme massa escura, dirigiram-se para o sul. Uma única vez ouviram
um ruído além do vento; tratava-se de um ruído surdo que parecia
passar acima de suas cabeças, afastando-se em direção à cidade.
Não viram nada.
Mullon
estava preocupado. Alguma coisa estava para acontecer, alguma coisa
misteriosa e apavorante.
De repente
chegou à conclusão de que seria um absurdo ficar tropeçando no
meio da noite, sem enxergar a mais de um metro a frente, como se
quisessem pegar o desconhecido com as mãos.
“Seria
muito mais razoável”,
pensou, “que
voltássemos à cidade, instalássemos um holofote e olhássemos tudo
à luz do mesmo.”
Mas havia
aquela estranha estrela vermelha, que parecia irradiar uma força
hipnótica. Mullon sabia que não teria sossego enquanto não
soubesse o que vinha a ser a luz vermelha.
Moveram-se
com maior cautela. O ruído lhes serviria de advertência. Depois que
os destroços da Adventurous haviam desaparecido na escuridão,
ouviram um farfalhar vindo da frente. Mullon comprimiu o corpo contra
o solo e apontou o fuzil. O farfalhar aproximou-se, e depois de algum
tempo um vulto abaixado surgiu na escuridão.
— Mãos
para o alto! — disse Mullon.
O vulto
estremeceu e virou-se abruptamente.
— Quem
está aí? — perguntou alguém num cochicho. — É Mullon?
Apesar do
cochicho, Mullon reconheceu a voz.
— Meu
Deus, Chellich, o que está fazendo por aqui?
Chellich
não contou que o Capitão Blailey, que se encontrava na sua gazela,
estacionada nas montanhas, lhe enviara um aviso. Respondeu o
seguinte:
— Resolvi
dar um passeio, pois não conseguia dormir. Foi quando vi essa luz
vermelha e procurei descobrir de que se tratava. E o senhor?
— Foi
mais ou menos a mesma coisa. Já descobriu algo?
— Não.
Tenho a impressão de que no meio da noite construíram uma torre
gigantesca bem à frente de nosso nariz. Está vendo a sombra?
Mullon não
estava vendo nada.
Chellich
juntou-se ao pequeno grupo. Foram avançando pelo capim alto, em
direção ao lugar em que brilhava a luz vermelha.
Depois de
algum tempo, verificaram que Chellich estava com a razão. Bem à
frente deles, erguia-se alguma coisa ainda mais escura que a noite.
Realmente semelhava-se a uma torre; ao que parecia era redonda, tinha
ao menos vinte metros de diâmetro, e provavelmente a luz vermelha
assinalava-lhe o ponto extremo. Era difícil calcular a altura em que
se encontrava.
— Vamos
dar uma olhada de todos os lados. O que acham? — perguntou Chellich
em voz baixa.
Mullon não
tinha nenhuma objeção, mas quando estavam a ponto de prosseguir em
sua caminhada, ouviram algumas batidas metálicas bem acima deles.
Uma luz surgiu repentinamente a cerca de quinze metros de altura, e
uma escotilha quadrada abriu-se na torre. Mullon viu aparecer uma
coisa que se parecia com uma lancha de fundo chato. O objeto saiu
repentinamente da abertura e desapareceu na escuridão. Ouviram o
mesmo ruído surdo que despertara sua atenção poucos minutos antes.
A escotilha voltou a fechar-se.
Chellich
não parecia muito nervoso quando disse:
— Se
estiver interessado em saber minha opinião, digo-lhe que isso é uma
nave espacial.
Mullon já
tivera a mesma idéia, mas logo a afastara, porque achava que seria
uma idiotice acreditar que uma espaçonave de tais dimensões pudesse
pousar no silêncio da noite a poucos quilômetros de Greenwich, sem
que ninguém ouvisse qualquer coisa. Era bem verdade que não sabia
explicar como a torre viera parar ali. Explicou suas dúvidas a
Chellich.
— Ora
essa! — respondeu Chellich. — Se utilizarem um mecanismo de
propulsão que funcione com base num campo energético, o único
ruído que se ouve é o provocado pelo deslocamento do ar. E esse
ruído não é muito forte se a nave se deslocar a baixa velocidade.
— Caramba!
Quem poderia pousar com uma espaçonave desse tamanho justamente no
planeta Fera Cinzenta?
— Acho
que viemos até aqui para descobrir isso — respondeu Chellich.
Naquele
instante, o cenário sofreu uma modificação completa. Um raio
pálido passou pelo ar, iluminando a torre, que se encontrava à sua
frente (naquele instante viram que realmente se tratava de uma
espaçonave), por fração de segundo, com uma luz azul-esverdeada. O
chão começou a tremer sob seus pés, e logo depois o ribombar de
uma tremenda explosão sacudiu o ar.
Viraram a
cabeça. Atrás deles, o céu adquirira uma coloração vermelha. Os
destroços da Adventurous pareciam um cilindro escuro que se
destacava contra o fundo iluminado. Uma gigantesca chama subiu muito
acima dos restos metálicos, e dali a pouco ouviram o estrondo de uma
segunda explosão.
— A
cidade! — gritou Mullon, esquecendo todas as precauções. —
Estão bombardeando a cidade! Vamos voltar!
Chellich
tinha suas objeções contra essa proposta, mas preferiu ficar
calado. Agora, que tudo continuava imóvel na nave desconhecida e
ninguém parecia notar suas presenças, corriam pelo capim, para
chegar o mais depressa possível à cidade.
Chellich
mal conseguiu evitar que Mullon e seus companheiros corressem
diretamente para a desgraça.
— Não
vá diretamente para a frente! — fungou ao ver que Mullon pretendia
correr pelo caminho mais curto em direção a Greenwich. — Antes de
mais nada precisamos descobrir o que está acontecendo.
Mullon
sentiu-se grato pelo conselho. Parou por um instante, a fim de encher
os pulmões exaustos de ar. Percebeu que estivera prestes a perder a
cabeça.
Agora, que
já se encontravam mais próximos, viram que na periferia sul as
labaredas consumiam algumas casas. Os seres estranhos — só mesmo o
diabo poderia saber quem eram — provavelmente haviam arremessado
uma bomba para esse lugar, pois as peças de plástico pré-fabricadas
não eram combustíveis em condições normais. Mas naquele lugar
havia alguns ranchos revestidos de madeira e a usina energética.
Fizeram
uma volta em torno da cidade e aproximaram-se pelo noroeste. As casas
que ardiam na periferia da zona sul lançavam uma luz débil sobre a
pradaria, facilitando a orientação. Viram os homens correrem pelas
ruas; entre eles, havia alguns vultos magros e estranhos.
— Vi um
destes — exclamou Milligan.
— Devem
ter vindo na espaçonave.
— Santo
Deus! O que querem de nós? — exclamou Mullon. — Será que
pretendem saquear a cidade? Logo uma cidade como esta?
Chellich
procurou analisar a situação.
— Ao que
parece ainda não chegaram à zona norte — disse. — Será
preferível irmos para este lado. Talvez possamos fazer alguma coisa
por nossa gente. Acredito que apenas precisem de alguém que organize
a resistência.
Correram
na direção que acabara de ser indicada. Não precisavam recear a
descoberta, pois em virtude do incêndio a cidade estava mais
fortemente iluminada que a planície na qual se encontravam.
Alcançaram
a primeira casa. Esta pertencia ao colono O'Bannon, que encontrava-se
de pé junto à janela, e havia enfiado o cano de um fuzil por baixo
da janela semi-erguida. Quando Mullon o chamou pelo nome, a arma
descreveu um movimento rápido para o lado, e por alguns segundos a
vida de Mullon esteve em perigo. Mas finalmente O'Bannon o
reconheceu.
— Horace!
Entre logo, senão eles o agarram.
Colocou o
fuzil no chão e abriu a porta.
— O que
aconteceu? — perguntou O'Bannon depois que o grupo havia entrado.
— Pretendíamos
fazer a mesma pergunta a você — respondeu Mullon. — Estivemos lá
fora, descobrimos o sangue de uma das sentinelas e vimos uma
gigantesca espaçonave estacionada atrás dos destroços da
Adventurous.
— Então
é isso! — disse O'Bannon. — Já fiquei quebrando a cabeça para
descobrir de onde vinham esses sujeitos. Têm um corpo magro, de dois
metros de altura, e uma voz terrivelmente aguda. Quando gritam uns
para os outros, parecem ratos chiando. Ao que tudo indica, entraram
às escondidas na cidade e tiraram as pessoas da cama. Quando
conseguiram bastante gente, lançaram duas bombas na periferia da
cidade e liquidaram o resto. Nosso pessoal perdeu a cabeça.
Deixam-se tanger como um rebanho.
— Por
quê? — exclamou Mullon. — Alguém sabe por que estão agindo
assim?
— Não
me pergunte isso, Horace — disse O'Bannon. — Não tenho a menor
idéia. Ainda não estiveram na minha casa, nem na de Wolley, que
fica ao lado. Quando aparecerem por aqui, nós lhes proporcionaremos
uma recepção muito quente.
Espalharam-se
junto às janelas da casa de O'Bannon. Atendendo a uma sugestão de
Mullon, chamaram Wolley e sua mulher. Seria um absurdo dividir as
forças.
Depois
colocaram-se atrás das paredes, junto à janelas, e ficaram
esperando.
*
* *
Chellich
usou uma desculpa bastante ingênua para abandonar seu posto.
O’Bannon ia mostrar-lhe o caminho, mas Chellich disse que nas casas
desse tipo a toalete sempre ficava no mesmo lugar.
Trancou a
porta, lançou um olhar desconfiado para as paredes, que sabia serem
muito finas, e girou seu relógio de pulso. Em voz baixa, disse a
palavra-código — hoje era Leão de Bagdá — para dentro do
pequeno transmissor.
Blailey
respondeu. Chellich descreveu a situação.
— Por
enquanto ninguém sabe quais são as intenções dos desconhecidos —
disse. — O fato é que estão esvaziando a cidade. Acredito que os
colonos não terão a menor chance. Provavelmente também não a
teriam se os desconhecidos tivessem atacado de dia. Não sei se
devemos tomar alguma providência.
Blailey
resmungou:
— Também
não sei. Recebi ordens para atacar assim que a vida dos colonos
estiver em perigo, mas ao que parece por enquanto apenas os estão
levando daqui, não é?
— Por
enquanto — disse Chellich em tom enfático.
— Procurarei
colher informações — prometeu Blailey.
— Avise
assim que haja qualquer novidade. Em hipótese alguma demore mais de
uma hora para dar notícias — ordenou. — E não arrisque o
pescoço, seu Leão de Bagdá.
Chellich
voltou a endireitar o relógio assim que a palestra chegou ao fim e
voltou a seu lugar.
O’Bannon,
que se encontrava do outro lado da janela, lançou-lhe um olhar um
tanto desconfiado.
— O
senhor sempre costuma falar a sós, quando está nesse lugar? —
perguntou.
— Costumo
cantar, da mesma forma que outras pessoas cantam enquanto estão
tomando banho — respondeu Chellich em tom sério.
*
* *
O tempo ia
avançando lentamente. Já eram quase três horas, tempo do planeta
Fera Cinzenta. Vez por outra se ouviam ruídos vindos da rua,
parecidos com assobios e chiados. O’Bannon afirmou que era assim
que os desconhecidos costumavam comunicar-se.
Mas não
viram ninguém.
As casas
do lado oposto da rua estavam vazias. As portas e janelas estavam
abertas. O’Bannon disse que os desconhecidos as haviam arrombado.
— Até
parece que nos esqueceram — resmungou quando eram mais ou menos
três e meia. — Não tenho nada contra isso, mas gostaria de saber
qual é o jogo.
Subitamente
um grupo de vultos altos e magros surgiu mais adiante, no meio da
rua. Aproximaram-se, e a cada passo seu número parecia crescer. As
casas da zona sul da cidade já haviam sido consumidas pelas chamas,
e a visibilidade já não era tão boa como antes.
O’Bannon
ajoelhou-se e fez pontaria com seu fuzil.
— Acho
que deveríamos dar o fora — disse Chellich de repente. — São
muitos para nós.
O’Bannon
levantou a cabeça.
— Está
com medo, meu jovem?
Chellich
sacudiu a cabeça.
— Não
tenho mais medo que o senhor. Mas conte; são ao menos cem.
— E daí?
— perguntou O’Bannon, um tanto inseguro.
— Na
minha opinião devemos sair pelos fundos — sugeriu Chellich, sem
dar atenção às últimas palavras de O’Bannon. — Talvez
consigamos agarrar alguns que se perderem no meio das árvores.

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