sexta-feira, 5 de abril de 2013

P-066 - Os Escravos Cósmicos - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN






Terceira aventura colonial — Os terranos não se deixam reduzir à escravidão!



Outra vez as ações se desenrolam no planeta Fera Cinzenta, onde vivem os 8.000 terranos exilados. Eles conseguiram instalar-se nesse mundo e alcançaram certo progresso. Constataram também que dois tipos de seres viviam no planeta: os anões azuis — fabulosos por possuírem faculdades paramecânicas — e os mungos, espécie de macacos sensitivos.
A democracia fundada por Horace O. Mullon sofre um golpe: Hollander, ditador violento, queria o poder...
Enquanto Hollander considerava Mullon morto, este tramava, junto com os anões azuis, a retomada do governo.
E é depois de toda a situação acalmada que surgem os peepsies, escravagistas...






= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

ChellichGuardião dos desterrados.

Horace O. MullonPresidente da Colônia Livre de Fera Cinzenta.

PashenO traidor. Elemento sem nenhum escrúpulo.

MilliganTécnico da nave Adventurous. Um democrata.

Os PeepsiesSeres de dois metros de altura.

1



Mullon e seu grupo voltaram a morar nas barracas por eles armadas depois que os anões azuis os transportaram por cima da selva, até as proximidades da cidade de Greenwich. Pashen fora “substituído” por Chellich. Os anões azuis o haviam retirado da ilha fluvial poucas horas depois de terem levado Mullon, Fraudy e Milligan. Agora achavam-se numa colina situada em plena mata que lhes servia de residência.
Alguns dias já se tinham passado. Foram dias tranqüilos, durante os quais Chellich sempre se mostrara amável, solícito e bem-humorado. As suspeitas de Milligan iam diminuindo, e até Mullon começava a acreditar que Chellich representava uma aquisição valiosa para a pequena expedição.
No entanto, Mullon continuava a guardar a pistola de Chellich. Sabia perfeitamente que não poderia assumir mais o menor risco. Qualquer fracasso que sofresse no curso da expedição poderia ser fatal.
Quanto ao mais, Mullon fazia o possível para ampliar a comunicação com os anões azuis. Diariamente conversava — se é que isso podia ser chamado de conversar — por horas a fio com alguns deles, procurava interpretar o jogo de cores que exibiam e compreender os estranhos chiados emitidos por eles. Tinha certeza de que o terceiro meio de comunicação, que era a telepatia, lhe ficaria “fechado” para sempre.
No entanto, não deixava de fazer progressos no entendimento de seu jogo de cores e dos sons por eles emitidos. Obteve um verdadeiro triunfo no momento em que um dos anões baixou ao solo e, movendo seu corpo flexível, escreveu na areia a palavra SIM, enquanto explicava por meio de chiados e de uma combinação de cores como essa palavra era expressa na linguagem das criaturas azuis.
Mullon chegou a elaborar juntamente com os anões uma espécie de plano de batalha contra Hollander. Era bem verdade que a existência de uma ação como esta não representava a menor garantia de que, se as coisas realmente ficassem sérias, os seres azuis iriam agir de acordo com o mesmo. Além disso, o intercâmbio entre o homem e os anões trazia consigo tantas fontes de mal-entendidos que não foi possível combinar mais que um esboço vago e geral da maneira de agir. De qualquer modo, o fato de ambas as partes saberem do que se estava falando já representava um grande progresso.
Mullon quebrara a cabeça para descobrir o que Hollander pretendia fazer. Depois de interrogar um dos guardas de Hollander, Milligan o informara de que por enquanto o ditador pretendia esperar. Esperar que Fraudy e o próprio Mullon voltassem da selva. Uma vez que a essa hora já sabia que pelo menos Milligan já se encontrava nas proximidades da cidade, provavelmente faria tudo para capturar este e Fraudy. Não conseguiria. Todavia, Hollander era um homem incansável, motivo por que era de esperar que nos próximos dias apareceria na área em que ficava a colina onde haviam armado seu acampamento. O problema dos anões era tão importante que um homem como Hollander nunca adiaria sua solução unicamente por causa de dois fugitivos.
Provavelmente enviaria um grupo de reconhecimento, que faria o levantamento do terreno onde ficava a colina, e procuraria estabelecer os contatos preliminares com os anões azuis. Se a primeira tentativa de contato resultasse em fracasso, deveriam contar com a possibilidade de que Hollander faria tantas viagens de helicóptero quantas fossem necessárias para transportar até a colina
um número suficiente de homens para impor sua vontade aos anões. Na opinião de Mullon, esta seria, por certo, a maneira de agir de Hollander. Por isso elaborara seu plano com base no pressuposto de que o ditador agiria conforme esperava. Isso representava um risco, mas na opinião de Mullon não era um risco absurdo.

* * *

Está ouvindo? — perguntou Chellich.
Mullon fez que sim.
É o helicóptero.
Chellich levantou-se.
Vamos para os abrigos.
Caminhou alguns passos, mas Mullon gritou atrás dele:
Um instante, Chellich!
Chellich parou e olhou para trás. O zumbido do helicóptero tornava-se cada vez mais forte.
Mullon pôs as mãos no bolso e entregou a Chellich a pistola que dias atrás lhe tirara na margem do rio.
Tome! — pediu. — Se as coisas forem mal, poderemos precisar de você.
Chellich ergueu as sobrancelhas e hesitou por um instante. Finalmente pegou a arma e enfiou-a no cinto largo.
Obrigado — disse. — O senhor é um sujeito formidável.
Fraudy e Milligan saíram das barracas assim que ouviram o ruído dos helicópteros. Mullon lhes fez um sinal.
O espetáculo vai começar.
Milligan subiu pela colina. Desapareceu na entrada superior que dava para os recintos onde os anões moravam e trabalhavam. Alguns metros colina a dentro, havia uma abertura no teto do corredor. Abertura essa que avançava até a encosta da colina, terminando numa moita. Esta entrada estava tão bem camuflada com uma chapa de plástico e um montão de terra que ninguém poderia vê-la; só havia uma ligeira fresta pela qual se podia olhar para fora. Uma escada tosca subia pela abertura.
Nos últimos dias, com a ajuda dos anões, haviam feito quatro aberturas desse tipo, que começavam em quatro entradas diferentes dos subterrâneos. Mullon as distribuíra de tal forma que poderia esperar que a qualquer instante os tripulantes do helicóptero se encontrariam no campo de visão de um dos observadores ocultos.
Cinco minutos depois do momento em que Chellich ouvira pela primeira vez o ruído do helicóptero, Mullon e seus companheiros já haviam desaparecido. Nas barracas não havia o menor sinal de que pouco antes estas ainda eram habitadas.
O zumbido do helicóptero aproximou-se. Mullon viu uma sombra enorme deslizar pela colina e desaparecer para a esquerda; instantes depois, voltou.
Quinze minutos passaram-se. O ruído do helicóptero aumentava e diminuía. Subitamente desapareceu quase por completo, apenas para voltar dentro de poucos segundos sob a forma de um rugido vindo de perto.
Aproximaram-se do norte — murmurou Mullon.
A sombra voltou a cair sobre a colina, mas desta vez não desapareceu mais. Depois de alguns segundos cessou o ruído dos quatro pequenos bocais de jato que faziam girar as pás do helicóptero.
Ouviu-se um grito:
Fique com os olhos bem abertos, Dwight! Assim que notar qualquer coisa que não lhe agrade, volte.
Mullon sobressaltou-se. Reconheceu a voz. Era de Pashen, o homem que lhe desfechara um tiro no coração.
Ouviu passos que se aproximavam pelo capim, e logo após um par de botas surgiu bem perto da fresta pela qual estava olhando. O homem que Pashen chamara pelo nome de Dwight parou por alguns segundos, em atitude hesitante. Depois de algum tempo, gritou para o alto:
Não há ninguém por aqui. Vou dar uma olhada nas barracas.
Prosseguiu colina abaixo e dali em diante Mullon pôde vê-lo perfeitamente. Viu-o entrar na barraca de Chellich, revirar seu interior e sair novamente. Fez um gesto tranqüilizador para Pashen.
Revistou as barracas, uma por uma; não encontrou nada que lhe parecesse suspeito. Dirigiu-se a uma das entradas que penetravam na colina e examinou-a.
Mullon sentiu-se preocupado. Era este o momento em que, segundo seu plano, deveriam aparecer os anões. Dwight não devia passar por nenhuma dessas entradas.
Passou por um momento de angústia. Subitamente uns trinta anões saíram de outra galeria, cercaram o intruso e executaram uma estranha dança no ar.
Dwight parecia surpreso e confuso. Tirou a arma e apontou-a para os anões. Mullon levou um susto, pois reconheceu um dos pequenos desintegradores que Hollander tirara dos tripulantes da Adventurous. Naquele instante, Pashen gritou:
Não faça isso, Dwight! Eles não lhe farão nada.
Dwight guardou lentamente a arma.
Abaixou-se e procurou agarrar um dos anões.
Espere! — gritou Pashen. — Irei até aí.
Mullon sabia o que Pashen pretendia fazer. Os anões já o conheciam. Só poderia supor que estavam informados sobre o ataque traiçoeiro que desfechara contra Mullon. Naturalmente queria experimentar para ver como se comportariam em sua presença.
Pashen passou bem perto do esconderijo de Mullon. Pela fresta este o viu surgir paulatinamente: primeiro as botas, depois as pernas, o ventre, os braços e os ombros, a cabeça.
Mullon assustou-se. Pashen carregava alguma coisa nos braços. Mullon só viu um pedacinho de couro peludo branco-acinzentado. Enquanto Pashen descia pela encosta, o “pedacinho de couro” mexeu-se e subiu pelo braço deste. Por cima do ombro de Pashen, o democrata viu um pequeno rosto cabeludo. O macaco olhava para o lugar onde ele se encontrava e, de repente, começou a gritar:
Guê-guê... guê-guê... guê-guê...
Pashen não lhe deu atenção.
É um mungo”, pensou Mullon todo apavorado. “Se Pashen não fosse tão idiota, a esta hora já saberia que estamos nas proximidades.
Os mungos, uma raça de símios semi-inteligentes das montanhas, possuíam um sexto sentido que lhes permitia sentir o perigo. A palavra “guê-guê” significava inimigo, maldade ou perigo.
Ao que parecia, Pashen não estava “versado” na língua dos mungos. Percebeu o nervosismo do macaquinho e lhe deu uma forte palmada nas costas. O mungo soltou um grito de dor e voltou a abrigar-se no braço de Pashen.
Mullon suspirou aliviado. Por enquanto o perigo havia passado. Sem dar a menor atenção ao nervosismo do mungo, Pashen prosseguiu encosta abaixo, mantendo-se fora do alcance dos anões que cercavam Dwight. Ficou na expectativa.
O grupo de anões dividiu-se. Outro círculo dançante formou-se em torno de Pashen. O traidor conhecia estes seres desde o dia em que haviam prendido toda a expedição de Mullon, inclusive ele mesmo, e por isso sabia que aquela dança representava um gesto amistoso.
Manteve-se imóvel por um instante. Depois gritou para Dwight:
Vamos voltar! Já descobrimos tudo que queríamos saber.
Dwight fez um gesto afirmativo e retirou-se do círculo formado pelos anões. Subiu pela colina juntamente com Pashen. Mais uma vez passaram perto do esconderijo de Mullon.
O mungo voltou a mostrar-se nervoso. Subiu pelo braço de Pashen e começou a gritar “guê-guê, guê-guê”. Pashen deu-lhe outra palmada nas costas, o que fez com que o animal se calasse, amedrontado.
Dali a pouco, escutou-se o ruído do helicóptero. Mullon ouviu o aparelho levantar-se do solo e afastar-se, batendo os rotores. Ao que parecia, Pashen estava com pressa, pois, logo depois, o ruído desapareceu.
Mullon desceu pela escada. Quando chegou na saída da galeria, Chellich já o esperava.
Parece que nos esquecemos de uma coisa, não é? — perguntou.
Mullon fez que sim.
Isso mesmo. Foram os mungos. Não contamos com a possibilidade de que Hollander poderia usá-los.
Milligan e Fraudy aproximaram-se.
E agora? — perguntou Fraudy.
Mullon deu de ombros.
Só podemos fazer uma coisa. Quando Hollander voltar com seus homens, devemos estar bem longe para que os macacos não percebam nossa presença.
Por quê? — perguntou Milligan. — Pashen não notou nada.
O senhor acredita que todo mundo é tão idiota como Pashen? — perguntou Mullon. — Pelo que conheço de Hollander, ele prestará muita atenção ao comportamento dos mungos. Assim que perceber algo de suspeito, poderemos nos sentir ameaçados.
Fraudy ficou decepcionada. Fora a verdadeira descobridora dos mungos. Nas montanhas, ocupara-se com eles e procurara entender-lhes a língua.
Mullon consolou-a.
Esses macacos não são gente, se é isso que você acreditava — disse. — Não sabem distinguir entre o bem e o mal no sentido que nós atribuímos a esses conceitos. Protegem a criatura que esteja mais perto. Sentiram que representamos um perigo para Pashen, e por isso o preveniram. Ainda bem que não lhes deu atenção.
Mullon procurou explicar aos anões azuis que o plano havia sofrido uma modificação. Conseguiu-o com uma rapidez espantosa, conforme percebeu pelas reações deles. Teve a impressão de que os mungos não eram desconhecidos aos anões. Ao que parecia, compreendiam que a presença desses macacos representava um perigo, e que, por isso, Mullon e seus companheiros não deveriam estar nas proximidades da colina quando o helicóptero voltasse.
Os anões transportaram Mullon e seus homens uns vinte quilômetros selva a dentro. O transporte foi realizado pela maneira usual. Um número suficiente desses seres criou, com as emanações do corpo, um campo gravitacional capaz de sustentar quatro pessoas. Depois, o grupo planou colina abaixo e penetrou, na selva, carregando os humanos bem acima das copas das árvores, por assim dizer, nas ondas do campo gravitacional.
No local de pouso havia uma espécie de clareira densamente coberta de arbustos, mas livre de árvores. Mullon preparou-se para uma espera de algumas horas.

* * *

Por oito vezes ouviram o helicóptero chegar e partir. Como a máquina pudesse transportar no máximo cinco pessoas de cada vez, a força de Hollander não poderia contar com mais de quarenta homens.
Pouco depois do meio-dia o helicóptero voltou pela nona vez, não voltando mais.
São quarenta e cinco homens, na pior das hipóteses — disse Mullon. — É muita gente.
Chellich fez um gesto de desprezo.
Não precisamos preocupar-nos com esses quarenta e cinco homens. Hollander é o único que importa. Se conseguirmos prendê-lo, os outros não nos incomodarão mais.
Mullon fez que sim.
Talvez o senhor tenha razão — respondeu. — Mas é preferível não contarmos com essa hipótese.
Dali a uma hora, surgiu o primeiro grupo de anões que, conforme haviam combinado, se afastara sorrateiramente da colina. Pôs-se a esperar na clareira. Com o tempo, foram chegando outros grupos, até que, dentro de duas horas, cerca de novecentos anões se haviam reunido na clareira.
Alguns minutos depois, ouviu-se o ruído do helicóptero que decolava. Não se dirigiu para o oeste, como fizera antes, mas passou a descrever círculos acima da selva.
Não podia haver a menor dúvida. Hollander notara o desaparecimento dos anões e os estava procurando.
Mullon fez o sinal convencionado para as criaturas azuis. Um grupo de anões levantou-se acima dos arbustos, planou sobre as copas das árvores e exibiu seus corpos cintilantes à luz do sol.
A reação do piloto do helicóptero foi imediata. Mullon ouviu o som do rotor se aproximar. Os seres afastaram-se em direção ao oeste. O helicóptero não deu a menor atenção à pequena clareira da qual haviam saído; preferiu segui-los.
Dali a mais algum tempo, parecia ter certeza quanto à direção tomada pelas criaturas azuis. Descreveu uma curva fechada, fez meia-volta e tomou rumo leste, onde ficava a colina.
Mullon mostrou-se satisfeito.
Daqui a pouco a situação terá que definir-se — disse. — Acho que para Hollander os anões são tão importantes que não deixará de segui-los.

* * *

Hollander se interessara tanto pelas instalações subterrâneas da colina, pelas numerosas entradas, pelos recintos subterrâneos e pela estranha iluminação juntamente com os numerosos aparelhos que nem percebeu que os anões azuis se afastavam aos grupos.
Os sentinelas postados junto ao helicóptero, no topo da colina, viram os seres azuis desaparecer na selva, mas não deram maior importância ao fenômeno.
Mas quando Hollander voltou a emergir à luz do dia, as coisas mudaram de figura. Notara que nos recintos subterrâneos praticamente não havia mais nenhum anão. Acreditara que se tivessem reunido na superfície. Entretanto, não os vendo por ali, começou a desconfiar. Os sentinelas postados junto ao helicóptero tiveram de ouvir uma série de palavras ásperas quando contaram o que tinham observado.
Hollander mandou que Pashen e Dwight pegassem o helicóptero e saíssem à procura dos anões. Encontraram a pista dos seres azuis, conforme era a intenção de Mullon, e logo voltaram à colina.
Estão se afastando na direção oeste — anunciou Pashen.
Todos?
Apenas vimos uns cem, mas não pudemos enxergar o que se passava embaixo da folhagem. Suponho que os outros se desloquem junto ao solo. É esta sua maneira usual de locomoção.
Qual é a velocidade deles?
É bastante reduzida. Não passa de dez quilômetros por hora.
Nessa velocidade não poderemos alcançá-los a pé — disse Hollander. — Teremos que segui-los de helicóptero.
Desculpe, chefe — interveio Pashen. — Não seria preferível esperarmos aqui mesmo até que todos voltem?
Não; não seria preferível — respondeu Hollander em tom áspero. — Estão se deslocando para o oeste, isto é, em direção a Greenwich. E Milligan encontra-se nas proximidades da cidade. Teve tempo de sobra para estabelecer contato com os anões. É bem possível que os tenha convencido a atacar Greenwich enquanto ficamos parados por aqui. Teremos de agarrá-los agora mesmo. Mande prender imediatamente os que ainda se encontram na colina. Enquanto eu estiver a caminho no helicóptero, você ficará no comando por aqui. Entendido?
Hollander partiu dentro de alguns minutos. Levou dois homens e um mungo. Um dos homens pilotava o helicóptero, enquanto Hollander e o outro examinavam o terreno e prestavam a maior atenção às reações do símio assustado.
Sobrevoaram a clareira, que Pashen havia descrito com a maior exatidão. Dali a alguns instantes viram as manchas coloridas cintilantes, que continuavam a deslocar-se em direção ao oeste, pouco acima das copas das árvores. Ao que parecia, nem tomavam conhecimento do zumbido do helicóptero.
Temos que detê-los! — resmungou Hollander. — Pashen está com a razão; provavelmente a massa principal dos anões se desloca sob a folhagem das árvores.
Dirigindo-se ao piloto, prosseguiu:
Procure encontrar um lugar em que possamos pousar. Tomara que localizemos outra clareira.

* * *

Mullon viu o helicóptero passar pela segunda vez em disparada por cima da clareira e desaparecer a oeste. Depois de algum tempo, o ruído do rotor cessou tão repentinamente que não era de se acreditar que o aparelho se tivesse afastado.
Hollander acabara de pousar. Tudo estava saindo de acordo com o plano de Mullon.
Fraudy, Chellich e Milligan puseram-se a caminho com um grupo de cento e cinqüenta anões. Voaram pouco acima das copas das árvores, percorrendo o mesmo caminho seguido por Hollander.
Mullon ficou mais um pouco na clareira.
Depois pediu aos anões que ainda se encontravam por ali que o transportassem na direção sudoeste.
Dali a cerca de uma hora, Mullon descobriu uma grande clareira a noroeste do lugar onde se achara. Com exceção do lugar em que se mantivera à espera juntamente com seus companheiros, era a única área livre que havia nas redondezas. Sem dúvida, o helicóptero havia pousado ali. A clareira não ficava a mais de três quilômetros do lugar em que Mullon se encontrava naquele momento.
Mullon pediu que os anões o colocassem no solo e pôs-se a esperar.

* * *

Hollander ordenou ao piloto que pousasse na extremidade sul da clareira.
Pelos seus cálculos, face à velocidade reduzida que as criaturas azuis desenvolviam, ainda demoraria meia hora ou até quarenta e cinco minutos até que alcançassem a clareira. Hollander teve tempo de postar os dois companheiros de tal maneira que podiam abranger a clareira com a vista. Ele mesmo escondeu-se juntamente com o mungo atrás de um arbusto, que pelos seus cálculos ficava bem na rota dos anões.
O tempo foi-se arrastando.
Hollander assustou-se quando o Mungo que segurava no braço subitamente parecia animar-se. Por horas a fio não dera o menor sinal de vida. Repentinamente, ergueu-se e olhou para a parede verde que fechava a selva na direção leste.
Guê-guê... — fez baixinho.
Hollander conhecia o significado dessa palavra e aguçou o ouvido.
O macaquinho tornava-se cada vez mais inquieto. Numa sucessão rápida soltou os gritos de advertência e levantou o braço, apontando na direção da qual vinha o perigo.
Hollander não sabia o que pensar. Não se ouvia o menor ruído suspeito, mas o mungo se comportava como se um exército inimigo se aproximasse.
Lembrou-se de Milligan.
Será que ele já tinha voltado à selva, depois de ter interrogado Suttney e descoberto o que acontecera em Greenwich? Será que já tinha conseguido a colaboração dos anões e estava voltando para me prender?”, pensou Hollander, interrogando-se.
Começou a desconfiar de que se metera num perigo tão grande que não poderia vencê-lo sozinho.
Hesitou. Não era de seu feitio fugir de um perigo cuja existência nem sequer estava provada.
Acontece que o nervosismo do mungo continuava a crescer. Apontava constantemente para o leste e ficava soltando seus guê-guês.
Hollander mandou que seus companheiros saíssem dos esconderijos e se retirassem para o interior do helicóptero. Ele mesmo abrigou-se juntamente com o mungo no capim alto, junto à escada que levava à cabina do aparelho.
Se é que Milligan realmente se encontrava em companhia dos anões, poderia esperar para ver o que faria quando descobrisse o helicóptero.
Mal conseguia segurar o mungo, que deixara de soltar seus guê-guês, para emitir sons lamentosos de angústia. Às vezes, lançava os olhos arregalados para o outro lado da clareira, e outras vezes olhava para trás, onde a muralha densa da selva se erguia junto ao helicóptero.
Hollander não lhe deu a menor atenção. Estava prevenido. E o macaquinho não teria mais nada a fazer.

* * *

Naquele momento, Milligan gostaria de ter um aparelho de radiocomunicação, a fim de perguntar a Mullon o que deveria fazer e quando teria de atacar.
Acontece que não dispunha de nenhum aparelho desse tipo. O único instrumento em que podia confiar era o relógio. Mullon procurara avaliar o tempo que levaria para colocar-se atrás de Hollander, e recomendara a Milligan que em hipótese alguma atacasse antes disso.
Milligan, Chellich e Fraudy esperaram, juntamente com o grupo de anões que os trouxera, cerca de duzentos metros a leste do lugar em que o helicóptero de Hollander havia pousado. Ainda faltavam vinte minutos para o momento combinado.
Milligan mandou que avançassem lentamente. Os anões ajudaram os homens nos seus movimentos desajeitados, levando-os por cima de grandes raízes aéreas e fazendo-os contornar os trechos pantanosos.
Dez minutos antes da hora combinada, Milligan se encontrava na extremidade leste da clareira. Não viu o menor sinal de Hollander ou de seus homens, mas o helicóptero era perfeitamente visível mais ao sul, junto ao lugar em que começava a selva.

* * *

Mais ou menos no mesmo instante, Mullon viu o aparelho surgir à sua frente.
E notou mais que isso... Viu que à direita e à esquerda do helicóptero dois homens estavam agachados atrás das moitas, fitando atentamente a extremidade leste da clareira.
Tudo continuava calmo. Milligan e seus anões ainda não haviam aparecido.
Mullon descobriu outra coisa. Junto à escada que levava à cabina do helicóptero viu um corpo que jazia imóvel no capim. Mantinha o braço direito estendido e sua mão segurava uma coisa branco-acinzentada que se contorcia ininterruptamente, procurando libertar-se e emitindo sons queixosos.
Era Hollander!
Mullon observou-o por algum tempo. Tal qual seus companheiros, dedicava sua atenção exclusivamente à extremidade oposta da clareira.
O plano fora bem sucedido. O mungo sentira o perigo vindo do leste e despertara a atenção de Hollander para aquela direção. Do leste vinham três pessoas, e do sul apenas uma. Além disso, as três pessoas vindas do leste se encontravam mais próximas da clareira que a pessoa solitária que vinha do sul.
A essa hora o mungo já devia ter percebido que atrás dele nem tudo estava em ordem, que de lá também o ameaçava um perigo. Mas Hollander não se interessava mais por isso. Sabia que o perigo vinha do leste.
Mullon continuou a rastejar. Esforçou-se para não provocar o menor ruído. Ainda faltavam quatro minutos para o momento combinado.

* * *

Milligan fez o sinal para os anões. Estes obedeceram; espalharam-se e saíram para a clareira, onde efetuaram sua dança como se durante todo o tempo não tivessem feito outra coisa.

* * *

Cuidado! Estão chegando! — disse Hollander em voz baixa. — Esperem mais um pouco.
Os dois homens obedeceram. Olhando por cima do capim, Hollander viu os anões azuis planarem graciosamente sobre a clareira, atravessarem a mesma e mergulharem de novo na selva.
Essas ações pareciam calmas demais... e Hollander começou a suspeitar.
Será que Milligan realmente se encontra em companhia dos anões? Por que não aparece?”, pensou o ditador.
Hollander viu-se obrigado a tomar uma decisão rápida. Se perdesse muito tempo, os estranhos seres voltariam a desaparecer.
Vamos! — ordenou aos dois homens. — Barrem-lhes o caminho. Se não quiserem parar por bem, mostrem-lhes o que vem a ser um radiador térmico.
Os asseclas do ditador saíram dos seus esconderijos e correram pela clareira.
Era o momento pelo qual Mullon havia esperado. Não poderia enfrentar três homens. Mas agora Hollander estava só.
Mullon ergueu-se. Hollander estava tão entretido com seus companheiros que nem ouviu o ruído vindo de trás.
Chega! — disse Mullon em tom enérgico. — Solte a arma e levante-se.
Hollander estremeceu. Afrouxou a mão, e o mungo afastou-se com um forte chiado.
Hollander levantou-se, mas não largou a arma. Mullon não esperara outra coisa. Com um pontapé rapidíssimo atingiu o pulso de Hollander. O pequeno desintegrador foi arremessado para o alto.
Hollander soltou um grito de dor. Levantou-se, virou a cabeça e...
Mullon nunca vira uma cara tão assustada. Hollander fitou-o com os olhos muito arregalados. Alguma coisa parecia obrigá-lo a levantar as mãos para apalpar Mullon.
Mullon... é você...? — interrogou-se num gemido.
Mullon recuou um passo e acenou com a cabeça.
Sim; sou eu em carne e osso. Não é meu espírito.
Hollander baixou os braços.
Quer dizer que está tudo terminado — disse.
Isso mesmo, Hollander. Tudo terminado.
Hollander virou a cabeça, como se esperasse que seus companheiros viessem salvá-lo. Acontece que Milligan, Chellich e Fraudy tiveram relativamente pouco trabalho com os mesmos. Enquanto os dois se interpuseram no caminho dos anões, procurando descobrir se estes seres tomavam algum conhecimento de sua presença, Milligan e seus companheiros aproximaram-se sorrateiros. Mortalmente assustados, os homens de Hollander não ofereceram a menor resistência.
Dali você não pode esperar qualquer socorro — disse Mullon.
Esperou pacientemente até que Milligan tivesse seus prisioneiros sob controle a ponto de que não pudessem fugir. Chellich e Fraudy aproximaram-se. O primeiro trouxe as correias já preparadas. Dentro de poucos minutos, Hollander foi amarrado. Fechou os olhos e calou-se.
Devíamos matá-lo — exclamou Chellich. — Senão acaba escapando e repete as mesmas bobagens.
Mullon fez que não.
Acho que devemos deixar que a Assembléia Popular decida sobre isto. Não somos competentes.
Chellich acenou com a cabeça.
Sim; naturalmente. Falei apenas de raiva.
Na verdade estava um tanto preocupado. Ao encontrar-se com Mullon, na margem do rio, afirmara que já fora um dos colaboradores de Hollander. Bastaria uma palavra errada, e logo ficariam sabendo que aquilo que dissera naquela hora era mentira.
2



O resto foi muito mais fácil do que Mullon imaginara. De início nem tentou prender os quarenta homens comandados por Pashen, que tinham ficado na colina.
Colocou Hollander no helicóptero e foi a Greenwich juntamente com Chellich, Milligan e Fraudy. Pousaram nas proximidades dos destroços da espaçonave e libertaram O'Bannon, Wolley e mais alguns prisioneiros, antes que na cidade qualquer pessoa descobrisse que alguma coisa estava acontecendo.
Mullon mandou que Chellich servisse de emissário. Pediu a este para dizer que Hollander seria morto, se a chamada guarda pessoal não aparecesse dentro de trinta minutos fora da cidade e depusesse as armas.
Chellich voltou depois de algum tempo e informou que as condições de Mullon seriam cumpridas.
Dali a meia hora, Greenwich estava livre. Os últimos membros da guarda pessoal que se puseram a caminho para o lugar indicado, levando os fuzis, foram tangidos para fora da cidade pelos habitantes desarmados, que não deram a menor atenção ao perigo que corriam.
No dia seguinte, Pashen e seus homens também foram presos. A ausência prolongada de Hollander já causara uma confusão tremenda entre os asseclas do ditador. Pashen foi o único que ofereceu resistência. Saiu ferido.
Mullon conquistara a colina com um contingente de apenas dez homens. A maior parte do trabalho foi realizada pelos anões, que já haviam voltado ao pé da colina. No momento decisivo, estes faziam as armas voar pelo ar, fazendo com que os homens de Pashen se tornassem quase indefesos.
Os prisioneiros foram transportados no helicóptero, em grupos. A Assembléia Popular já estava reunida, e procurou chegar a uma decisão sobre o destino a ser dado aos conspiradores.
Na última viagem realizada por Mullon, o pequeno mungo também foi colocado no helicóptero. Por ocasião da prisão de Hollander, este fugira apavorado, só voltando dali a algumas horas.
Durante os debates relativos ao caso de Hollander, houve fortes divergências sobre o destino a ser dado ao ditador. Ninguém estava interessado em tornar-lhe mais suave o castigo, mas um bom número dos participantes pronunciou-se contra a pena de morte, sustentando que esta já fora abolida na Terra, motivo por que sua aplicação representaria uma regressão à barbárie.
Mas O’Bannon disse algumas palavras decisivas.
Por que a pena de morte foi abolida na Terra? — perguntou em tom colérico. — Porque, desde o início, só serviu para livrar a sociedade de um elemento criminoso. E porque na Terra já foram encontrados meios de realizar essa proteção de outra maneira. Um homem banido não pode representar um perigo para quem quer que seja, e nas penitenciárias modernas os criminosos podem ser mantidos atrás das grades pelo resto da vida, sem que isso represente qualquer risco.
O que podemos nós fazer? Não podemos banir ninguém, e não dispomos de uma prisão suficientemente segura. Com isso, volta a prevalecer o velho argumento de que o homem que representa um perigo para a sociedade deve ser morto, desde que não existam condições seguras de isolá-lo dos demais. Proponho que Hollander pague suas infâmias com a vida.”
Depois desse libelo breve e pouco complicado, passou-se à votação. Trinta e três por cento das pessoas com direito a voto pronunciaram-se a favor da proposta de O’Bannon.
Hollander teve oportunidade de defender-se, mas não quis aproveitar-se da mesma. Manteve-se calado, e a sentença foi executada.
O número de seus sequazes era tão elevado que não havia como prendê-los nos destroços da Adventurous. Além disso, a perda da força de trabalho não seria compensada pelo ganho em segurança. Então resolveu-se que os seguidores de Hollander formariam um grupo de serviço, que executaria trabalhos forçados pelo prazo de dois anos, sob a vigilância de guardas armados.
Com isso, o “caso Hollander” ficou encerrado, e revestiu-se de grande importância para a história futura da colônia Fera Cinzenta. Compreendeu-se que o desterro comum não bastava para transformar todos os homens em cidadãos cumpridores dos seus deveres.
A liberdade era um bem que devia ser cuidadosamente preservado.
Nas semanas que se seguiram, a Assembléia Popular procurou regularizar as relações entre os colonos de um lado, e os mungos e anões azuis de outro.
Mullon foi de opinião que se devia manifestar os agradecimentos do povo pelo auxílio valioso dos anões, e conceder uma espécie de indenização aos mungos, pelo que haviam padecido com Hollander. A Assembléia Popular concordou em entregar aos seres azuis um dos geradores sobressalentes da Adventurous, para que não tivessem tanto trabalho com a geração de energia por meio das velhas máquinas eletrostáticas.
Os mungos tiveram liberdade de escolher o que quisessem num montão de bugigangas coloridas. A oferta provocou-lhes um entusiasmo indisfarçável. Precipitaram-se sobre o montão dos presentes e pegaram tudo que conseguiram agarrar.
Fraudy e Mullon levaram o gerador, de helicóptero, até a colina habitada pelos anões. Mullon instalou o aparelho e procurou explicar às criaturas azuis para que servia e como deviam lidar com ele. Graças aos dons telepáticos dos azuis, não demorou em desincumbir-se da tarefa. Teve a impressão de que estes souberam apreciar a gentileza.

* * *

Cumpridas assim as exigências da diplomacia, Mullon pôs-se a resolver alguns problemas que se propusera há bastante tempo.
Um desses problemas consistia na divisão do tempo. Até então, todos se esforçavam em manter os relógios em movimento segundo o último acerto, feito na Terra. O ponteiro das horas dava mais de três voltas completas antes que se passasse um dia do planeta Fera Cinzenta, e muitas vezes indicava meio-dia quando o sol estava nascendo. Os dias eram “enfileirados”, e falava-se nos dias 5, 6, 7 e 8 de maio, enquanto no mesmo tempo na Terra já se havia passado quase uma semana. Em nosso planeta já se estava em agosto, não em maio. Mullon era o único que mantinha um registro exato sobre o transcurso do tempo.
Fixou o ano planetário. Cada 172,33 anos terranos correspondiam a duzentos anos do planeta Fera Cinzenta. Cada ano deste planeta tinha 188,8 dias. Mullon arredondou este número para 189 dias do planeta Fera Cinzenta, pois a cada cinco anos tinha que deixar de fora um dia. O dia de Fera Cinzenta tinha 39,67 horas terranas, que Mullon transformou em 40 horas de Fera Cinzenta. Cada uma dessas horas tinha cerca de trinta segundos menos que uma hora terrana. O ano de Fera Cinzenta foi dividido em doze meses, para que pudessem ser mantidos os nomes usuais dados a estes. Cada ano tinha nove meses de dezesseis dias e três meses de quinze dias.
A divisão da hora em sessenta minutos e do minuto em sessenta segundos também foi mantida.
Mullon designou o ano pelo número 2.041, pois não desejava iniciar outra era, e o dia em que a Assembléia Popular aprovou sua proposta foi designado como o dia 1o de janeiro. Foi um dia “extraordinariamente” quente, motivo por que nada tinha de comum com seu equivalente terrano, ao menos no hemisfério norte. Mas todos ficaram satisfeitos com a nova contagem do tempo, e até se sentiam um tanto orgulhosos por possuírem um tempo próprio.
Mullon ainda tinha outros planos. Pretendia estudar os hábitos dos gigantescos animais cinzentos chamados de girafantes. Não adiantaria realizar grandes plantações nos arredores de Greenwich, enquanto os gigantescos animais pudessem aparecer um belo dia e pisotear tudo, apenas porque, por coincidência, Greenwich ficava na sua rota.
Entre os colonos, havia alguns que tinham feito cursos de Biologia, ou, de outra forma, conseguido conhecimentos nessa área. Os mesmos conseguiram convencer Mullon de que, para adquirir conhecimentos mais precisos sobre os girafantes, seria necessário permanecer constantemente próximos a esses animais, pois só assim se poderia realizar um estudo mais acurado.
Acontece que a permanência nas proximidades de uma manada de girafantes não deixava de apresentar seus perigos. Os gigantescos animais deslocavam-se com uma enorme rapidez, seu couro espesso era impenetrável para qualquer arma convencional, com exceção dos modernos desintegradores e radiadores térmicos, cujo estoque era extremamente escasso. Para executar o plano de Mullon, seria necessário colocar o helicóptero à disposição do grupo incumbido da observação dos girafantes. Mullon não tinha nenhuma objeção, pois em Greenwich raramente precisavam deste tipo de aparelho.
Todavia, a Assembléia Popular achou que o plano de Mullon não era tão urgente, e que o helicóptero representava um veículo preciosíssimo, do qual a cidade não deveria ficar privada por muito tempo.
Mullon preparou-se para uma discussão áspera, pois entendia que a rejeição de sua proposta era uma leviandade, da qual não queria ser culpado, nem mesmo por comodismo.
Por isso andou pela cidade, conversando a sós com os homens que se opunham mais tenazmente a seu plano, a fim de convencê-los da necessidade do mesmo.
Como seus argumentos fossem bem formulados e fundamentados, o que já não acontecia com os de seus adversários, dentro de cinco dias conseguiu tamanho êxito que poderia arriscar-se a voltar a submeter sua proposta à votação.
Mas não teve oportunidade para isso. Na noite de 15 para 16 de janeiro de 2.041, tempo do planeta Fera Cinzenta, a desgraça desabou sobre a pequena colônia.

* * *

Mullon foi acordado por um ruído na porta. Sentou-se na cama, ainda sonolento, e ouviu que alguém batia à porta, com certa violência.
Fraudy mexeu-se na cama.
O que houve?
Mullon levantou-se e abriu a porta. Milligan entrou.
Fraudy acendeu a luz. Mullon viu que o rosto de Milligan exprimia pavor.
O que houve? — perguntou. Milligan deu de ombros.
- Ouvi gritos e vi uma figura magra e esquisita arrastar-se pela rua. Segui-a, mas ela desapareceu de repente. Achei que seria preferível avisá-lo logo.
Mullon começou a vestir-se.
Tire o fuzil que está nessa caixa — ordenou a Milligan. — Fraudy, feche a porta assim que tivermos saído.
Fraudy, que já havia passado à sala contígua, gritou:
Não posso. Irei com vocês.
Mullon não formulou nenhuma objeção. Dez minutos depois do momento em que Milligan havia chegado, estavam prontos para sair. Fraudy trazia uma pequena pistola no cinto.
Suspeita de alguma coisa? — perguntou Mullon enquanto fechava a porta.
Não — respondeu Milligan. — Mas tenho certeza de que alguma coisa não está certa.
A noite estava tão escura que não se enxergava nem um metro a frente. O céu parecia encoberto. Era pouco antes da meia-noite, mas precisamente, trinta e nove horas e trinta minutos.
É a hora em que todo mundo dorme mais profundamente”, pensou Mullon.
Por enquanto não atribuía muita importância ao que Milligan observara. Alguns gritos e um vulto magro e esquisito não representam um perigo tão grande assim. De qualquer maneira, porém, Mullon era o presidente da Assembléia Popular, e tinha de cuidar do bem-estar dos colonos.
Talvez seja conveniente entrarmos em contato com as sentinelas — sugeriu Milligan. — É possível que tenham notado alguma coisa.
Mullon concordou com a sugestão. Greenwich estava cercada por uma série de postos de sentinelas, por causa dos girafantes, que um belo dia poderiam “invadir” a cidade. Se houvesse algum perigo, este só poderia ter vindo de fora, e as sentinelas teriam percebido alguma coisa. A casinha de Mullon ficava no setor norte da cidade. Pouco atrás dela começava a pradaria. A leste dali, a duzentos ou trezentos metros, devia haver uma sentinela. Mullon dirigiu-se ao lugar em que o guarda deveria encontrar-se.
De repente Fraudy parou.
Milligan tem razão — disse. — Alguma coisa não está em ordem.
Isso é um produto da intuição feminina? — perguntou Mullon em tom irônico. — Ou está vendo alguma coisa?
É pura intuição — respondeu Fraudy. — Mas você pode confiar...
Mullon preferiu não confiar. Prosseguiu. Manteve os olhos e os ouvidos atentos, mas não percebeu nada que distinguisse essa noite das noites anteriores que havia passado no planeta Fera Cinzenta.
Dali a três minutos, começou a gritar. Se houvesse uma sentinela nas proximidades, esta deveria ouvi-lo e responder.
Não houve nenhuma resposta. Mullon começou a inquietar-se.
Temos de procurar o homem — sugeriu. — Acho que devemos separar-nos.
Milligan seguiu pela esquerda, Mullon pela direita, e Fraudy permaneceu no meio, a fim de que pudessem orientar-se. Mullon praguejou por ter-se esquecido de trazer uma lanterna.
Ainda não havia caminhado cem metros, quando ouviu a voz de Fraudy, vinda de trás.
Volte! Milligan encontrou alguma coisa.
Fez meia-volta e orientou-se pelos gritos que ela soltava a intervalos regulares. Quando se viu ao lado do marido, ela parou de gritar. Ouviu que Milligan, que se encontrava mais ao norte, também o chamava.
Encontraram-no. Assim que Mullon os viu emergir da escuridão, disse:
Esteve aqui. O capim está pisado.
E daí? — perguntou Mullon em tom contrariado. — Onde está?
Não faço a menor idéia. O capim está úmido.
Deve ser o orvalho — disse Mullon. Mas Fraudy ponderou:
Antes da meia-noite não cai orvalho.
Vamos dar uma olhada — disse Mullon.
Tirou um isqueiro do bolso. Na luz da pequena chama viram o capim pisado e o líquido grudado aos talos. Segurou um dos talos e colocou-o perto da chama.
Ui! — disse Fraudy. — É sangue!
Silêncio! — disse Mullon em voz baixa.
A sentinela devia ter sofrido ferimentos. Mullon esperava ouvir gemidos ou outro sinal de vida. Porém tudo permaneceu em silêncio, com exceção do leve canto do vento.
Alguém devia ter atacado a sentinela. Talvez fosse um animal selvagem. Mas ninguém jamais havia visto um animal selvagem nas proximidades da cidade, com exceção dos girafantes. Além disso, havia o vulto magro que Milligan vira, e os gritos que ouvira. Seria por simples coincidência que tudo isso acontecesse na mesma noite?
Mullon hesitou, sem saber se devia procurar outra sentinela ou voltar à cidade. Antes que chegasse a uma decisão, Fraudy colocou a mão sobre seu braço e cochichou:
Olhe! Que luz é essa?
Olhou na direção para a qual Fraudy estava apontando. Por enquanto não descobriu nada. Mas depois de algum tempo teve a impressão de que havia uma luminosidade sob as nuvens, ao sul da cidade. Poderia ser uma estrela, se a luz não fosse muito vermelha.
Milligan também viu, assim que lhe apontaram a direção. Disse que se parecia com uma luz colocada numa torre elevada, mas não soube calcular a distância.
Mullon foi de opinião que deveriam olhar de perto. Por isso contornaram a cidade no rumo sudoeste e constataram que a luz vermelha vinha da mesma direção em que ficavam os destroços da Adventurous.
Depois de passarem pelos destroços, que se erguiam diante deles como uma enorme massa escura, dirigiram-se para o sul. Uma única vez ouviram um ruído além do vento; tratava-se de um ruído surdo que parecia passar acima de suas cabeças, afastando-se em direção à cidade. Não viram nada.
Mullon estava preocupado. Alguma coisa estava para acontecer, alguma coisa misteriosa e apavorante.
De repente chegou à conclusão de que seria um absurdo ficar tropeçando no meio da noite, sem enxergar a mais de um metro a frente, como se quisessem pegar o desconhecido com as mãos.
Seria muito mais razoável”, pensou, “que voltássemos à cidade, instalássemos um holofote e olhássemos tudo à luz do mesmo.
Mas havia aquela estranha estrela vermelha, que parecia irradiar uma força hipnótica. Mullon sabia que não teria sossego enquanto não soubesse o que vinha a ser a luz vermelha.
Moveram-se com maior cautela. O ruído lhes serviria de advertência. Depois que os destroços da Adventurous haviam desaparecido na escuridão, ouviram um farfalhar vindo da frente. Mullon comprimiu o corpo contra o solo e apontou o fuzil. O farfalhar aproximou-se, e depois de algum tempo um vulto abaixado surgiu na escuridão.
Mãos para o alto! — disse Mullon.
O vulto estremeceu e virou-se abruptamente.
Quem está aí? — perguntou alguém num cochicho. — É Mullon?
Apesar do cochicho, Mullon reconheceu a voz.
Meu Deus, Chellich, o que está fazendo por aqui?
Chellich não contou que o Capitão Blailey, que se encontrava na sua gazela, estacionada nas montanhas, lhe enviara um aviso. Respondeu o seguinte:
Resolvi dar um passeio, pois não conseguia dormir. Foi quando vi essa luz vermelha e procurei descobrir de que se tratava. E o senhor?
Foi mais ou menos a mesma coisa. Já descobriu algo?
Não. Tenho a impressão de que no meio da noite construíram uma torre gigantesca bem à frente de nosso nariz. Está vendo a sombra?
Mullon não estava vendo nada.
Chellich juntou-se ao pequeno grupo. Foram avançando pelo capim alto, em direção ao lugar em que brilhava a luz vermelha.
Depois de algum tempo, verificaram que Chellich estava com a razão. Bem à frente deles, erguia-se alguma coisa ainda mais escura que a noite. Realmente semelhava-se a uma torre; ao que parecia era redonda, tinha ao menos vinte metros de diâmetro, e provavelmente a luz vermelha assinalava-lhe o ponto extremo. Era difícil calcular a altura em que se encontrava.
Vamos dar uma olhada de todos os lados. O que acham? — perguntou Chellich em voz baixa.
Mullon não tinha nenhuma objeção, mas quando estavam a ponto de prosseguir em sua caminhada, ouviram algumas batidas metálicas bem acima deles. Uma luz surgiu repentinamente a cerca de quinze metros de altura, e uma escotilha quadrada abriu-se na torre. Mullon viu aparecer uma coisa que se parecia com uma lancha de fundo chato. O objeto saiu repentinamente da abertura e desapareceu na escuridão. Ouviram o mesmo ruído surdo que despertara sua atenção poucos minutos antes. A escotilha voltou a fechar-se.
Chellich não parecia muito nervoso quando disse:
Se estiver interessado em saber minha opinião, digo-lhe que isso é uma nave espacial.
Mullon já tivera a mesma idéia, mas logo a afastara, porque achava que seria uma idiotice acreditar que uma espaçonave de tais dimensões pudesse pousar no silêncio da noite a poucos quilômetros de Greenwich, sem que ninguém ouvisse qualquer coisa. Era bem verdade que não sabia explicar como a torre viera parar ali. Explicou suas dúvidas a Chellich.
Ora essa! — respondeu Chellich. — Se utilizarem um mecanismo de propulsão que funcione com base num campo energético, o único ruído que se ouve é o provocado pelo deslocamento do ar. E esse ruído não é muito forte se a nave se deslocar a baixa velocidade.
Caramba! Quem poderia pousar com uma espaçonave desse tamanho justamente no planeta Fera Cinzenta?
Acho que viemos até aqui para descobrir isso — respondeu Chellich.
Naquele instante, o cenário sofreu uma modificação completa. Um raio pálido passou pelo ar, iluminando a torre, que se encontrava à sua frente (naquele instante viram que realmente se tratava de uma espaçonave), por fração de segundo, com uma luz azul-esverdeada. O chão começou a tremer sob seus pés, e logo depois o ribombar de uma tremenda explosão sacudiu o ar.
Viraram a cabeça. Atrás deles, o céu adquirira uma coloração vermelha. Os destroços da Adventurous pareciam um cilindro escuro que se destacava contra o fundo iluminado. Uma gigantesca chama subiu muito acima dos restos metálicos, e dali a pouco ouviram o estrondo de uma segunda explosão.
A cidade! — gritou Mullon, esquecendo todas as precauções. — Estão bombardeando a cidade! Vamos voltar!
Chellich tinha suas objeções contra essa proposta, mas preferiu ficar calado. Agora, que tudo continuava imóvel na nave desconhecida e ninguém parecia notar suas presenças, corriam pelo capim, para chegar o mais depressa possível à cidade.
Chellich mal conseguiu evitar que Mullon e seus companheiros corressem diretamente para a desgraça.
Não vá diretamente para a frente! — fungou ao ver que Mullon pretendia correr pelo caminho mais curto em direção a Greenwich. — Antes de mais nada precisamos descobrir o que está acontecendo.
Mullon sentiu-se grato pelo conselho. Parou por um instante, a fim de encher os pulmões exaustos de ar. Percebeu que estivera prestes a perder a cabeça.
Agora, que já se encontravam mais próximos, viram que na periferia sul as labaredas consumiam algumas casas. Os seres estranhos — só mesmo o diabo poderia saber quem eram — provavelmente haviam arremessado uma bomba para esse lugar, pois as peças de plástico pré-fabricadas não eram combustíveis em condições normais. Mas naquele lugar havia alguns ranchos revestidos de madeira e a usina energética.
Fizeram uma volta em torno da cidade e aproximaram-se pelo noroeste. As casas que ardiam na periferia da zona sul lançavam uma luz débil sobre a pradaria, facilitando a orientação. Viram os homens correrem pelas ruas; entre eles, havia alguns vultos magros e estranhos.
Vi um destes — exclamou Milligan.
Devem ter vindo na espaçonave.
Santo Deus! O que querem de nós? — exclamou Mullon. — Será que pretendem saquear a cidade? Logo uma cidade como esta?
Chellich procurou analisar a situação.
Ao que parece ainda não chegaram à zona norte — disse. — Será preferível irmos para este lado. Talvez possamos fazer alguma coisa por nossa gente. Acredito que apenas precisem de alguém que organize a resistência.
Correram na direção que acabara de ser indicada. Não precisavam recear a descoberta, pois em virtude do incêndio a cidade estava mais fortemente iluminada que a planície na qual se encontravam.
Alcançaram a primeira casa. Esta pertencia ao colono O'Bannon, que encontrava-se de pé junto à janela, e havia enfiado o cano de um fuzil por baixo da janela semi-erguida. Quando Mullon o chamou pelo nome, a arma descreveu um movimento rápido para o lado, e por alguns segundos a vida de Mullon esteve em perigo. Mas finalmente O'Bannon o reconheceu.
Horace! Entre logo, senão eles o agarram.
Colocou o fuzil no chão e abriu a porta.
O que aconteceu? — perguntou O'Bannon depois que o grupo havia entrado.
Pretendíamos fazer a mesma pergunta a você — respondeu Mullon. — Estivemos lá fora, descobrimos o sangue de uma das sentinelas e vimos uma gigantesca espaçonave estacionada atrás dos destroços da Adventurous.
Então é isso! — disse O'Bannon. — Já fiquei quebrando a cabeça para descobrir de onde vinham esses sujeitos. Têm um corpo magro, de dois metros de altura, e uma voz terrivelmente aguda. Quando gritam uns para os outros, parecem ratos chiando. Ao que tudo indica, entraram às escondidas na cidade e tiraram as pessoas da cama. Quando conseguiram bastante gente, lançaram duas bombas na periferia da cidade e liquidaram o resto. Nosso pessoal perdeu a cabeça. Deixam-se tanger como um rebanho.
Por quê? — exclamou Mullon. — Alguém sabe por que estão agindo assim?
Não me pergunte isso, Horace — disse O'Bannon. — Não tenho a menor idéia. Ainda não estiveram na minha casa, nem na de Wolley, que fica ao lado. Quando aparecerem por aqui, nós lhes proporcionaremos uma recepção muito quente.
Espalharam-se junto às janelas da casa de O'Bannon. Atendendo a uma sugestão de Mullon, chamaram Wolley e sua mulher. Seria um absurdo dividir as forças.
Depois colocaram-se atrás das paredes, junto à janelas, e ficaram esperando.

* * *

Chellich usou uma desculpa bastante ingênua para abandonar seu posto. O’Bannon ia mostrar-lhe o caminho, mas Chellich disse que nas casas desse tipo a toalete sempre ficava no mesmo lugar.
Trancou a porta, lançou um olhar desconfiado para as paredes, que sabia serem muito finas, e girou seu relógio de pulso. Em voz baixa, disse a palavra-código — hoje era Leão de Bagdá — para dentro do pequeno transmissor.
Blailey respondeu. Chellich descreveu a situação.
Por enquanto ninguém sabe quais são as intenções dos desconhecidos — disse. — O fato é que estão esvaziando a cidade. Acredito que os colonos não terão a menor chance. Provavelmente também não a teriam se os desconhecidos tivessem atacado de dia. Não sei se devemos tomar alguma providência.
Blailey resmungou:
Também não sei. Recebi ordens para atacar assim que a vida dos colonos estiver em perigo, mas ao que parece por enquanto apenas os estão levando daqui, não é?
Por enquanto — disse Chellich em tom enfático.
Procurarei colher informações — prometeu Blailey.
Avise assim que haja qualquer novidade. Em hipótese alguma demore mais de uma hora para dar notícias — ordenou. — E não arrisque o pescoço, seu Leão de Bagdá.
Chellich voltou a endireitar o relógio assim que a palestra chegou ao fim e voltou a seu lugar.
O’Bannon, que se encontrava do outro lado da janela, lançou-lhe um olhar um tanto desconfiado.
O senhor sempre costuma falar a sós, quando está nesse lugar? — perguntou.
Costumo cantar, da mesma forma que outras pessoas cantam enquanto estão tomando banho — respondeu Chellich em tom sério.

* * *

O tempo ia avançando lentamente. Já eram quase três horas, tempo do planeta Fera Cinzenta. Vez por outra se ouviam ruídos vindos da rua, parecidos com assobios e chiados. O’Bannon afirmou que era assim que os desconhecidos costumavam comunicar-se.
Mas não viram ninguém.
As casas do lado oposto da rua estavam vazias. As portas e janelas estavam abertas. O’Bannon disse que os desconhecidos as haviam arrombado.
Até parece que nos esqueceram — resmungou quando eram mais ou menos três e meia. — Não tenho nada contra isso, mas gostaria de saber qual é o jogo.
Subitamente um grupo de vultos altos e magros surgiu mais adiante, no meio da rua. Aproximaram-se, e a cada passo seu número parecia crescer. As casas da zona sul da cidade já haviam sido consumidas pelas chamas, e a visibilidade já não era tão boa como antes.
O’Bannon ajoelhou-se e fez pontaria com seu fuzil.
Acho que deveríamos dar o fora — disse Chellich de repente. — São muitos para nós.
O’Bannon levantou a cabeça.
Está com medo, meu jovem?
Chellich sacudiu a cabeça.
Não tenho mais medo que o senhor. Mas conte; são ao menos cem.
E daí? — perguntou O’Bannon, um tanto inseguro.
Na minha opinião devemos sair pelos fundos — sugeriu Chellich, sem dar atenção às últimas palavras de O’Bannon. — Talvez consigamos agarrar alguns que se perderem no meio das árvores.

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