Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL
NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
A Terceira Potência, resultado da feliz aliança entre a
supertecnologia arcônida e o espírito de iniciativa do homem, já existe há
alguns anos, segundo a contagem de tempo terrestre.
Muita coisa aconteceu nesses anos: a defesa contra as invasões
vindas do espaço, a decifração dos velhos mistérios do planeta Vênus, a luta
contra os tópsidas no sistema Vega e a descoberta do planeta da imortalidade;
isso para mencionar apenas algumas das realizações mais dramáticas da história,
ainda recente, da Terceira Potência, criada e dirigida por Perry Rhodan.
Mesmo o Supercrânio, um mutante dotado de um incrível poder
hipnótico, pôde ser eliminado.
Mas sua ação nefasta teve uma conseqüência grave: os mercadores
galácticos, também conhecidos como saltadores, tiveram sua atenção despertada
para o planeta Terra, e para a Terra enviaram seus espiões; em compensação,
Perry Rhodan incumbiu Julian Tifflor, um cadete da Academia Espacial, de
realizar a contra-espionagem. Para isso, o transformou num verdadeiro chamariz
cósmico. Mas, quando o senhor da Terceira Potência quer livrar Julian Tifflor
de uma situação bastante desagradável, defronta-se com A Frota dos
Saltadores...
= = = = = = =
Personagens Principais:
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Perry Rhodan — Chefe
da Terceira Potência.
Julian Tifflor — Que vai para
o espaço numa missão secreta; tão secreta, que nem mesmo ele nada sabe.
Humpry Hifield, Klaus
Eberhardt,
Mildred
Orson
e Felicitas
Kergonen
— Que conseguem fugir pouco antes da hora em que seriam libertados, e vão de
mal a pior.
Orlgans e Ornafer — Dois
saltadores cuja nave foi a primeira a descobrir a Terra.
RB.013 — Um dos robôs da
Terceira Potência.
1
A Grande tela
de imagem parecia uma janela.
Uma grande
parte do campo de visão estava encoberta pelo brilho fosco da nave espacial
estranha. Só na margem direita via-se um trecho do espaço, com uma nesga
daquele estranho mundo nublado, em torno do qual as duas naves gravitavam há
muitas horas.
Era a Good
Hope-IX, uma nave auxiliar da frota terrestre, com sessenta metros de diâmetro,
e a Orla XI, um verdadeiro gigante pertencente a uma
raça extraterrestre cujos membros se denominavam saltadores.
Uma fita
magnético-mecânica ultrapotente, que se neutralizava automaticamente no
interior da nave, prendia a Good Hope-IX à grande
nave dos saltadores.
Amarrada
dessa forma à outra nave, a Good Hope-IX fora forçada a acompanhar os
saltadores numa transição, que os levara da órbita de Plutão até o ponto em que
voltaram a imergir no espaço, um ponto cuja situação ninguém conhecia, a não
ser os saltadores. E estes nem pensavam em revelar o segredo aos seus
prisioneiros.
Havia três
tripulantes na sala de comando da Good Hope-IX: Humpry Hifield, conhecido por
Hump, Klaus Eberhardt e Mildred Orson. Hump e Eberhardt ainda envergavam o
uniforme que os cadetes da Academia Espacial usavam em uma missão de
cosmonáutica. Mildred, a estudante de bacteriologia, trajava uma vestimenta
espacial finíssima e muito confortável, de fabricação arcônida. O capacete
pendia nas costas, em forma de capuz.
— Está
demorando — resmungou Eberhardt.
Hump deu de
ombros.
— Tomara que
não lhe façam nada — gemeu Mildred.
Hump parecia
contrariado.
— O que
poderiam fazer a ele? Dentro de uns cinco ou dez minutos estará de volta e vai
achar graça do medo que vocês sentiram. Bem que eu gostaria que alguém se
preocupasse dessa forma comigo.
Mildred não
lhe deu atenção. Eberhardt lançou um olhar de esguelha para Hump e esboçou um
sorriso.
— Você se
cuida para nunca enfrentar uma situação em que alguém possa se preocupar por
sua causa, não é?
Hump não era
de deixar tal acusação sem resposta, mas, antes que pudesse dizer qualquer
coisa, Mildred gritou:
— Aí vem
ele!
Subitamente,
um buraco se abriu no casco liso da nave dos saltadores. Um vulto humano surgiu
e atravessou o abismo que se abria entre as duas naves. Sumiu da tela onde era
visto no instante em que desapareceu atrás do abaulamento da nave auxiliar.
Mildred já
estava a caminho.
— Vamos ao
encontro dele! — gritou.
Eberhardt
correu atrás dela. Hump sacudiu a cabeça, bastante contrariado, mas acabou
seguindo os dois.
Passaram
correndo entre as duas sentinelas saltadoras, armadas até os dentes, postadas
junto à porta da sala de comando, e foram seguindo pelo largo corredor que
levava ao elevador principal.
Os
saltadores, que eram criaturas altas e de cabelos compridos, nem se abalaram.
Haviam observado os três prisioneiros enquanto eles se encontravam na sala de
comando e tinham certeza de que não haviam feito nada que pudesse ser
considerado indesejável.
Mildred,
Eberhardt e Hump chegaram à comporta do pé da nave no mesmo instante em que a
escotilha se abria. O homem que haviam visto atravessar o espaço que separava a
Good Hope-IX da Orla XI saiu da
comporta, tirou o capacete e, num gesto de resignação, baixou os ombros.
— Que tal,
Tiff? — perguntou Mildred, assustada.
Julian
Tifflor fez um gesto de desânimo. Tiff, como o chamavam, era cadete da Academia
Espacial de Terrânia e se encontrava em missão secreta; mas ele mesmo não
conhecia os detalhes desta missão.
— Não houve
nada — respondeu em tom cansado. — Fui interrogado. E lhes garanto que a
maneira como eles conduzem um interrogatório faz qualquer um perder o riso.
— O que foi
que você contou a eles? — perguntou Hump, em tom mais malicioso do que
pretendia.
— Nada! —
gritou Tiff, zangado. — Não sei nada; logo, não posso contar nada.
— É o que
você diz — retrucou Hump, impassível.
Mildred
lançou-lhe um olhar furioso.
— Será que
vocês não podem parar com essa bobagem ao menos por cinco minutos? — perguntou.
Voltou-se
para Tiff; pretendia fazer outra pergunta. Mas Tiff se adiantou a ela.
— Vamos para
cima. Quero conversar com vocês.
Tiff tomou a
frente. Foi seguido pelos dois cadetes e pela moça. Entraram no elevador
antigravitacional e subiram ao setor da nave em que ficavam os camarotes e a
pequena sala da tripulação. Na sala da tripulação encontraram seis dos nove
cadetes que a Good Hope-IX tinha a bordo, Felicitas Kergonen, uma estudante de
botânica, e o major Deringhouse, que saíra do camarote, caminhando sobre
muletas, apenas para não ficar só.
Todos sabiam
que Julian Tifflor havia sido chamado a bordo da Orla XI para ser interrogado. Quando entrou, ficaram calados.
De início,
Tiff se limitou a fazer um gesto rápido: a mão direita, que se encontrava junto
ao quadril, subiu obliquamente. Só depois disso falou:
— Bom dia!
Como estão as coisas por aqui?
As
respostas, embora hesitantes, vieram exatamente como Tiff as esperava: foram
proferidas com a maior inocência.
Haviam
compreendido o gesto, combinado poucas horas antes. A mão levantada
obliquamente diante do quadril significava o seguinte: “Vou dizer alguma coisa que os saltadores não podem ouvir; tenham
cuidado com o intercomunicador.”
Os
saltadores podiam ser tudo, menos idiotas. Sabiam perfeitamente quem eram os
prisioneiros que haviam capturado: tratava-se de gente que só desistiria da
idéia de fugir depois que lhe tivesse cortado a cabeça. A Good Hope-IX estava
equipada com um intercomunicador eficientíssimo, e os saltadores se
aproveitavam dele para vigiar os prisioneiros.
Tiff deu
início a uma palestra indiferente. Alguns dos cadetes se agruparam em torno
dele e começaram a fazer perguntas sobre a experiência pela qual acabara de
passar a bordo da Orla XI. Os outros
continuaram a conversar com Deringhouse, que se instalara confortavelmente
sobre duas poltronas, a fim de proteger a perna ferida.
O grupo que
rodeava Tiff se mantinha bem unido. Estava tão unido que, enquanto dava
respostas indiferentes, Tiff pôde escrever às pressas algumas linhas sem que
pudesse ser visto através do intercomunicador.
Entregou o
bilhete a Hump, que se encontrava a seu lado. Tinha certeza de que, dentro de
poucos minutos, a novidade teria feito a ronda entre todos os presentes.
A conversa
prosseguiu, enquanto o bilhete circulava. Nele estava escrito o seguinte:
A Orla XI é inferior à Good Hope-IX em
armamento e potencial energético. Temos chances de fugir, desde que consigamos
ativar os propulsores. As duas moças terão que desviar a atenção das duas
sentinelas postadas diante da sala de comando. Eu mesmo ligarei as máquinas e
as porei em funcionamento com um atraso de cerca de uma hora. Peço sugestões
quanto à hora em que podemos começar.
* * *
A
Stardust-III estava estacionada na periferia do sistema solar terrestre, entre
as órbitas de Plutão e Netuno. O gigantesco couraçado, que media oitocentos
metros de diâmetro, estava ladeado pelos cruzadores pesados Terra e Solar
System. Perry Rhodan mantinha contato permanente pelo intercomunicador com os
comandantes dos dois cruzadores.
Os sensores
estruturais haviam captado a transição da nave dos saltadores e conseguiram
localizar o ponto de saída no espaço. Rhodan introduziu os dados fornecidos
pelos sensores na calculadora positrônica e pediu a maior rapidez na
interpretação.
Rhodan sabia
perfeitamente que mesmo o gigantesco cérebro positrônico da Stardust-III
levaria de seis a sete horas para interpretar aqueles dados, diagramados e
extremamente complicados; a não ser que se quisesse admitir um desvio superior
a um por cento no resultado.
Acontece que
Rhodan não podia dispor de seis ou sete horas.
Ele mesmo, a
Stardust-III e a própria Terra se defrontavam com um inimigo que, apesar de
todos os esforços empreendidos, até então conseguira se manter oculto. Daí
podia se deduzir que, de forma alguma, sua tecnologia era subdesenvolvida.
Rhodan
elaborara um plano segundo o qual Julian Tifflor lhe forneceria a pista do
inimigo. Tifflor agira conforme se esperava. Mas ninguém contara com uma
possibilidade: a de que o inimigo pudesse capturar a Good Hope-IX junto à
órbita de Plutão e desviá-la para o hiperespaço. Com isso, o emissor celular
embutido no organismo de Tifflor ficou, de um instante para outro, fora do
alcance do poder de localização dos telepatas.
Rhodan
estava disposto a admitir um erro de até dez por cento na interpretação do
diagrama, mas de forma alguma poderia se conformar com uma perda de tempo
superior a uma hora.
— Temos de
localizar a Good Hope-IX! Era a única frase que se ouvia dele depois do
desaparecimento da nave auxiliar.
Reginald
Bell apareceu com o resultado fornecido pela calculadora positrônica, gravado
em fita. Rhodan lhe arrancou as fitas da mão e passou a examiná-las. Gastou um
minuto nessa atividade.
Bell olhou-o
de lado.
— Então?
Esteve a
ponto de formular outras perguntas; mas nesse instante Rhodan levantou a cabeça
e gritou:
— Preparar a
nave para a transição! A Terra e a Solar System irão conosco.
* * *
“Daqui a duas horas”, foi a resposta ao
pedido de sugestões. “Logo depois do
revezamento das sentinelas.”
Tiff
concordou. Ele mesmo formulara a mesma sugestão.
Saiu da sala
da tripulação, acompanhado de Eberhardt e Mildred. Hump permaneceu na mesma.
Havia
receptores de imagem e som embutidos a intervalos regulares nas paredes do
corredor. A distância entre um receptor e outro era de cerca de sete metros.
Uma vez que a conversa entre Mildred e os dois cadetes era realizada em voz
muito baixa, havia um trecho de dois ou três metros entre cada série de dois
receptores em que as palavras não podiam ser captadas.
A conversa
foi mais ou menos a seguinte:
— Orlgans se
sacudiu de gargalhadas — disse Tiff, relatando uma situação surgida no curso do
interrogatório que acabara de enfrentar, enquanto passavam lentamente diante de
um dos aparelhos. — Mas vocês conhecem os saltadores: enquanto ficara rindo a
bandeiras despregadas e se divertem a valer, pensam sobre a melhor maneira de
matar a gente.
— O que ele quis
saber? — perguntou Eberhardt.
Tiff olhou
para o lado. O intercomunicador pelo qual haviam acabado de passar ficara mais
de dois metros atrás deles e o próximo ficava a quase cinco metros.
— Vocês
terão de envolver as sentinelas numa conversa, Milly — disse Tiff, falando
baixo e depressa. — Digam que querem lhes mostrar alguma coisa e afastem-nas da
sala de comando ao menos por três minutos. Se for necessário, poderemos
terminar nesse tempo; mas se puder ser mais, será bem melhor.
O
intercomunicador já estava mais perto.
— ...é claro
que não — disse Tiff, mudando o tema de uma hora para outra. — não faço a menor
idéia de quais sejam os segredos que ele espera descobrir. Aliás, não fornece a
menor indicação a este respeito. Riu bem na minha cara e disse que, da próxima
vez, terá de recorrer a outros meios, que serão muito desagradáveis para mim, a
fim de obter as informações desejadas.
Mildred fez
cara de assustada.
— Será que
ele vai fazer uma coisa dessas?
Tiff fez que
sim. O intercomunicador estava atrás deles.
— Não tenha
a menor dúvida!... Vocês terão de proceder com muita habilidade, Milly. Mesmo
que eu faça a ligação de retardamento, as sentinelas podem descobrir minha
intenção se desconfiarem e resolverem dar uma olhada bastante demorada na sala
de comando. Explique tudo a Felicitas, para que ela não faça nenhuma tolice. E
diga-lhe que não precisa ter medo... os saltadores não são nada maus, enquanto
são amigos da gente. Mas ai de quem os contraria!
* * *
— Não há
qualquer reflexo que indique a existência de matéria num raio de vinte anos-luz
— anunciou o localizador.
Perry Rhodan
estava sentado diante do painel do piloto da Stardust-III. Na tela via-se o
negrume do espaço vazio, entremeado por um véu de pontos luminosos, frios e de
contornos indefinidos.
Duas manchas
apagadas e desbotadas também apareciam na tela — os cruzadores Terra e Solar
System.
— E fora do
raio de vinte anos-luz? — perguntou Rhodan, falando para o interior do
microfone.
A resposta
foi imediata:
— Beta-Albíreo
fica a uma distância de 21,85 anos-luz do ponto em que nos encontramos.
Trata-se de uma estrela geminada da constelação de Cisne.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Há mais
alguma coisa?
— Há mais
dois sóis a uma distância de 53,56 e 62,72 anos-luz.
— Obrigado.
Reginald
Bell, que já se levantara há algum tempo, se encostou de lado contra o painel
de instrumentos.
Rhodan
lançou-lhe um olhar.
— Saltamos
por uma distância de trezentos e cinqüenta anos-luz — disse em tom pensativo. —
Beta-Albíreo fica a trezentos e vinte anos-luz de nosso sol. Segundo o cérebro
positrônico, a margem de erro dos cálculos realizados é de 9,2%.
Ficou em
silêncio e voltou a entrar em contato com o localizador.
— Preciso
saber a distância entre as duas estrelas desconhecidas e o Sol — disse.
No receptor
ouviu-se o zumbido da calculadora automática. A resposta não se fez esperar.
— A mais
próxima das duas fica quase exatamente sobre o prolongamento da linha que une a
Terra à Stardust-III. Conclui-se que a distância do Sol é de cerca de quatrocentos
anos-luz. A outra se afasta dessa linha na proporção de um Pi positivo. A
distância do Sol é de cerca de trezentos e oitenta e três anos-luz.
Rhodan
desligou e voltou a olhar para Bell.
— Você
ouviu?
Bell
realizou alguns cálculos mentais.
— Ouvi, sim —
disse em tom pensativo. — Trezentos e cinqüenta com 9,2% de margem de erro
significa que o objetivo se encontra no espaço situado entre trezentos e
dezoito e trezentos e oitenta e dois anos-luz. O valor de trezentos e vinte
pode ser correto, o de trezentos e oitenta e três talvez também o seja. Mas o
de quatrocentos pode ser excluído.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Está bem.
Podemos escolher entre dois objetivos. Por qual deles devemos optar?
Bell
contorceu o rosto num sorriso combativo.
— Pelo mais
provável dos dois: Beta-Albíreo.
* * *
Pela sua
origem, os saltadores podiam ser considerados uma raça arcônida. No que diz
respeito à tecnologia, eram iguais, se não superiores aos arcônidas, os
senhores do império galático.
As naves dos
saltadores, tanto as de guerra como as mercantes, estavam equipadas com
sensores estruturais que registravam, a grande distância, o abalo do espaço
quadridimensional provocado pela transição de uma nave.
A Orla XI não teve a menor dificuldade em localizar o
forte abalo provocado pela transição das três naves de guerra terrestres.
Foi quando
Orlgans, dono e comandante da Orla XI, começou a perceber que provavelmente o
empreendimento em que se metera ultrapassava suas forças.
Conversou
com a pessoa que, a bordo de uma nave terrestre, seria designada como o
imediato. Os saltadores eram negociantes, e a bordo de suas naves ninguém
ostentava dignidades militares.
O nome dessa
pessoa era Ornafer. Um terreno que visse os dois homens não conseguiria
distingui-los, a não ser que os conhecesse há muito tempo. Tinham a mesma
estatura — ambos mediam dois metros — e o mesmo feitio maciço do corpo. Os
cabelos, da mesma cor, não eram cortados, e ambos traziam a barba aparada
segundo a moda que então prevalecia entre os saltadores.
— Alguém
está no nosso encalço — disse Orlgans em tom sério.
Ornafer deu
uma risada de desafio.
— E daí?
Ficarão sabendo com quem estão lidando.
Orlgans
balançou a cabeça.
— É possível
que nós também fiquemos sabendo com quem estamos lidando — ponderou.
Ornafer
ainda estava rindo.
— Quem
poderá fazer alguma coisa contra nós? Afinal, somos os saltadores!
Orlgans era
de outra opinião.
— Esses
seres conhecem o mundo da vida eterna. Não conhecemos os recursos técnicos de
que dispõem.
Ornafer
contemporizou.
— Está bem —
disse. — Já que está preocupado, podemos pedir que mandem algumas naves de
guerra para nos socorrer.
Orlgans
levantou ambas as mãos, num gesto de concordância.
— A última
localização indica uma distância de vinte anos-luz. Se chegarem mais perto, chamarei
as naves de guerra.
* * *
Mildred
informou Felicitas sobre a missão conjunta que teriam de cumprir. Recorreu ao
mesmo meio que Tiff usara para com ela; falava quando se encontravam entre dois
dos aparelhos de intercomunicação instalados no corredor.
Tiff se
certificara pessoalmente de que as máquinas da nave dos saltadores eram
inferiores às da Good Hope-IX. Estava decidido a realizar a fuga de qualquer
maneira; recorreriam à astúcia e, se necessário, à violência.
No momento
em que entrasse na sala de comando, Eberhardt, Hump e mais alguns dos cadetes
ficariam à espreita, para verificar se as sentinelas não voltavam antes do
tempo. Se o fizessem, teriam de ser eliminadas. Tiff tinha certeza de que a
nave auxiliar, cujas máquinas haviam sido desligadas há várias horas, poderia
ser colocada em condições de partir dentro de um espaço de tempo de dez
minutos. Nesses dez minutos, teriam que defender a Good Hope-IX contra os
saltadores; isso se as moças fracassassem.
Havia um
detalhe sobre o qual Tiff não tinha certeza:
Quando os
saltadores atacaram a Good Hope-IX na órbita de Plutão, o major Deringhouse,
depois de uma defesa breve ineficaz, deixou que a nave caísse em poder do
inimigo. As armas da Good Hope-IX eram muito superiores às da nave mercante dos
saltadores. Por que Deringhouse não prolongou sua ação defensiva? Teria todas
as probabilidades de sair vitorioso.
Tiff
gostaria de formular essa pergunta ao próprio Deringhouse. Mas confiava que
este devia ter tido seus motivos e receava pôr à mostra um segredo, se
formulasse a pergunta sob as vistas do intercomunicador.
Mildred e
Felicitas aguardaram o instante combinado no interior de seus camarotes.
Chegado o momento, fizeram de conta que se encontravam por acaso no corredor,
refletiram em voz alta, para que o intercomunicador pudesse ouvi-las, e
finalmente decidiram bater um papo com as duas sentinelas postadas diante da
sala de comando.
A sala de
comando ficava dois andares do lugar em que se encontravam. Pegaram o elevador
e desceram.
Tiff viu
quando passaram diante da sala dos tripulantes e fez um sinal para Eberhardt.
Este compreendeu imediatamente e transmitiu o sinal aos outros. Tiff saiu da
sala; dali a dois minutos, Eberhardt, Hump e mais três cadetes o seguiram.
De início
Tiff se manteve afastado da sala de comando. Desceu à parte inferior da nave e
fingiu que estava procurando alguma coisa. Quando pelos seus cálculos as duas
moças já deviam ter cumprido a primeira parte de sua missão, voltou a flutuar
para cima no poço do elevador e chegou à entrada principal, cerca de cinco
metros da escotilha da sala de comando, que ficava bem embaixo de um pequeno
receptor do intercomunicador. Mas tinha certeza de que esse receptor nunca
seria consultado. Havia duas sentinelas incumbidas de vigiar o que se passava
por ali.
As
sentinelas haviam desaparecido. Do fundo do corredor, Tiff ouviu risadinhas
femininas. O trabalho das moças estava em pleno andamento.
Deu o
assobio combinado. Mais ao longe, no corredor principal, ouviu a resposta:
Eberhardt e seus homens estavam a postos.
Tiff não
hesitou. Deu uns seis ou oito passos apressados e se colocou diante da
escotilha da sala de comando. Fez com que a mesma deslizasse para o lado, e
aguardou com impaciência até que a abertura se tornasse bastante ampla para permitir
sua passagem. As luzes se acenderam quando penetrou na sala redonda. Mas Tiff
logo as apagou, comprimindo o botão de controle manual. Ao mesmo tempo
transmitiu o comando de fechamento à escotilha. Com um chiado provocado pelo ar
expelido, a escotilha voltou para o caixilho hermeticamente fechado.
Tiff
suspirou aliviado e voltou a acender a luz. Olhou em torno e pôs-se a
trabalhar.
* * *
Rhodan
colocou o microfone perto de seu rosto.
— A parte
mais difícil da tarefa cabe a você, Nyssen — disse em tom sério. — Avisarei
assim que os telepatas tenham localizado Tifflor. Conte com a possibilidade de
que Beta-Albíreo tenha um sistema planetário. Quase todas as estrelas geminadas
têm. Não temos a menor informação sobre o armamento da nave desconhecida. Na pior
das hipóteses, será superior ao de seu cruzador. Portanto, não se arrisque
demais. Sua tarefa consistirá unicamente em desviar a atenção daqueles seres,
para que a tripulação da Good Hope-IX encontre um meio de recuperar a
liberdade. O resto fica por minha conta e por conta de MacClears. Faça o favor
de confirmar.
O major
Nyssen, comandante da Solar System, confirmou o recebimento da ordem através de
uma repetição quase textual da mesma.
— Está bem —
concluiu Rhodan. — Realizaremos a transição exatamente dentro de quatorze
minutos. Pelos meus cálculos, a mesma deverá terminar aproximadamente a dois
anos-luz de Beta-Albíreo. Atenção, todos os tripulantes. Todos os postos de
combate e de observação devem entrar imediatamente em rigorosa prontidão. Fim.
* * *
Ornafer riu.
Costumava
rir sempre que se via diante de uma situação extraordinária.
Estava
assustado e sentia um pouco de medo.
O sensor
estrutural deu notícia de outra transição, ainda mais intensa que a anterior
por ser mais próxima.
Apenas uns
dois anos-luz.
Orlgans não
se encontrava na sala de comando. Ornafer entrou em contato com ele para lhe
transmitir o aviso.
— Chame as
naves de guerra! — ordenou Orlgans. — Imediatamente! E mande reforçar as
sentinelas na nave inimiga. Os corredores mais importantes devem ser ocupados.
Não quero que essa gente aproveite a confusão para fugir.
Ornafer
confirmou e dispôs-se a cumprir as ordens que acabara de receber.
Os
saltadores eram seres estranhos. Não tinham pátria; viviam nas naves em que
viajavam pela galáxia. Viam a finalidade de sua vida em praticar o comércio e
impedir que qualquer outro ser o praticasse. Reivindicavam o monopólio do
comércio intergaláctico. Por mais abertas que suas mentes fossem para o
Universo, afirmavam com um fervor verdadeiramente religioso que no começo de
sua história uma lendária divindade lhes havia concedido o monopólio do
comércio intergaláctico.
De certa
forma, a situação dos saltadores no âmbito do império galático, cujo centro era
o mundo de Árcon, não deixava de ser singular. Desde tempos imemoriais, os
arcônidas foram de opinião que o comércio com quem quer que fosse era uma
prática inferior à sua dignidade. Os saltadores, que eram parentes afastados
dos arcônidas, preencheram o espaço vazio e se tornaram indispensáveis, a ponto
de que qualquer um que quisesse fazer algum negócio a grande distância não
poderia prescindir de seu auxílio.
Acontece,
porém, que os “comerciantes” só
visavam ao seu proveito. Eram eles que fomentavam as rivalidades no interior do
império, pois a formação de grupos dissidentes abria campo mais amplo às suas
manobras.
Mostravam-se
tolerantes perante todos, porque não havia nada pelo que valesse a pena lutar.
Só numa hipótese perdiam a tolerância: quando alguém tentava romper seu
monopólio. Sua imensa frota de guerra conferia-lhe um grande poder; na verdade,
esta frota já era muito mais forte que a de Árcon. Os saltadores, que por
convicção eram indivíduos cujo maior prazer consistia em arrancar o lucro de um
colega, não haviam tardado a compreender que mesmo um individualista tem que se
dedicar à defesa dos interesses comuns. Por isso haviam construído uma frota de
guerra que andava pelo espaço, aguardando o momento em que qualquer nave
mercante solicitasse seu auxílio.
Nos momentos
de perigo, embora costumassem viver espalhados pelos quatro cantos da galáxia,
competindo entre si, os saltadores formavam uma unidade compacta. “Viver separados, defender-se juntos” —
esta frase, que tanto se parece com certo provérbio terrestre, se transformou
na concepção fundamental da política dos saltadores.
Ornafer, que
transmitiu seu grito de socorro pelas hiperondas, poderia ter certeza de que o
auxílio chegaria num brevíssimo espaço de tempo.
Depois
tratou de cumprir a segunda parte da ordem de Orlgans: mandou que mais cinco
sentinelas se deslocassem para a nave inimiga.
* * *
Tiff levou
vinte minutos para ativar os agregados da Good Hope-IX. Mais uma hora se
passaria antes que os propulsores da nave trabalhassem a toda força,
libertando-a da tenaz magnética da Orla XI.
Estava
decidido sobre uma coisa: tal qual Deringhouse, não faria nada ao inimigo.
Tiff saiu da
sala de comando sem ser visto. Assobiou um trecho da melodia combinada.
Imediatamente Hump, Eberhardt e os três cadetes que os acompanhavam nessa parte
da missão saíram dos nichos da escotilha da sala de carga em que estiveram
escondidos.
Ainda se
ouviam as risadas das moças, vindas da direita.
— Tudo em
ordem? — perguntou Hump.
Tiff
confirmou com um aceno de cabeça.
— Tudo em
ordem. Daqui a uma hora a Good Hope-IX deverá se soltar da nave inimiga. Até lá
teremos de estar preparados para dar um jeito nas sentinelas. Vamos voltar à
sala de comando — ordenou. — Temos de avisar os outros.
Mal havia
dado um passo quando as campainhas de alarma soaram pela nave. Tiff parou e
prestou atenção ao ritmo do sinal. O som das campainhas foi interrompido vez
por outra, a intervalos irregulares. Não conhecia o significado do sinal.
Em
compensação, ouviu as pisadas ruidosas das sentinelas.
— Vamos
embora! — cochichou Tiff. — Não devem nos pegar por aqui.
Correram um
pedaço. Assim que ouviram os dois saltadores atrás deles, passaram a andar
devagar, para não despertar desconfianças.
— Pare! —
gritou um deles. — Pare, senão atiro!
Falava em
intercosmo, uma língua ensinada a todos os cadetes da Academia Espacial.
Tiff começou
a conversar com os amigos e continuou a andar, como se não tivesse ouvido nada.
Um tiro disparado por uma das longas armas de impulsos térmicos usadas pelas
sentinelas passou com um chiado acima da cabeça dos cadetes e traçou uma linha
de fusão da largura de um cabelo no metal do teto.
Tiff parou e
se virou. Contorceu o rosto, como se estivesse assustado.
— O que... o
que houve? — gritou.
Uma das
sentinelas se aproximou.
— Eu mandei
que parassem — resmungou. — Não ouviram?
Tiff sacudiu
a cabeça.
— Não ouvi nada.
O que houve?
— Alarma —
respondeu a sentinela. — Por onde vocês andaram?
Tiff deu de
ombros.
— Estávamos
dando uma volta. Afinal, a gente não pode ficar sentado o tempo todo naquela
sala.
A sentinela lançou
um olhar por cima do ombro.
— Feria, dê
uma olhada na sala de comando. Veja se não fizeram uma das suas.
Feria abriu
a escotilha e entrou na sala de comando. A luz se acendeu. Feria olhou em
torno.
— Não há
nada — disse. — Tudo em ordem.
Tiff suspirou
aliviado. Ainda bem que tivera a idéia de inutilizar as luzes de controle do
painel de comando.
Alguém subiu
pelo poço do elevador; era um saltador, alto e de ombros largos, com a arma de
impulsos térmicos embaixo do braço. Foi seguido por quatro criaturas da mesma
espécie.
— Ah! Ah!
Ah! — riu a sentinela. — O que vieram fazer por aqui?
— Alarma —
respondeu um dos saltadores, também com uma risada. — Há transições nas
proximidades.
Apontou para
os cadetes.
— Vamos
trancar esses rapazes e vigiá-los direitinhos, para que não nos causem
problemas.
Tiff e seus
colegas tiveram bastante juízo para não formular qualquer objeção.
Sabiam que o
tempo trabalhava a seu favor; por enquanto a melhor coisa que tinham que fazer
era esperar. Esperar uma hora.
Foram levados
de volta à sala dos tripulantes, juntamente com as duas moças. A escotilha foi
fechada.
Tiff
levantou os braços. Era o sinal convencionado, através do qual Deringhouse e os
cadetes ficaram sabendo que o plano havia sido executado. Depois disse:
— Colocaram
mais cinco sentinelas na nave. Não querem assumir qualquer risco. Registraram
algumas transições nas proximidades.
2
— Marshall diz
que já está em condições de localizar Tifflor — anunciou Reginald Bell em tom
exaltado.
Rhodan acenou
ligeiramente com a cabeça e continuou a examinar o quadro projetado na pequena
tela setorial. Era a imagem captada pelo rastreador, transformada em sinais
óticos.
O sistema de
Beta-Albíreo era formado por uma estrela semelhante ao Sol, de cor alaranjada,
e uma acompanhante menor, porém dotada de potencial energético mais elevado,
que brilhava na cor azul. Além disso, havia planetas, provavelmente em número
de quatro.
Depois de
terminada a transição, Rhodan já não teve a menor dúvida de que o inimigo
poderia ser encontrado nesse sistema. A informação transmitida por Bell apenas
serviu de confirmação.
— É claro
que Marshall não pode determinar com a precisão de um metro o lugar em que se
encontra Tifflor — acrescentou Bell.
Rhodan
voltou a acenar com a cabeça. Depois puxou o microfone para junto de si.
Apertou um botão e o comandante do cruzador Solar System surgiu na tela. O
major Nyssen se encontrava bem à frente do receptor.
— Tudo em
ordem, Nyssen — disse Rhodan em tom indiferente. — Tifflor se encontra nas
proximidades. Pode partir.
Nyssen
confirmou com um aceno de cabeça. Sua imagem se apagou. Dali a poucos segundos,
a Solar System abandonou a formação das três naves, acelerando rapidamente.
Tomou a direção de Beta-Albíreo.
Rhodan notou
quando, a uma distância de três segundos-luz, o cruzador desapareceu
subitamente ao iniciar o processo de transição.
Logo após,
mandou que também sua nave acelerasse. Dentro de poucos segundos a Stardust e a
Terra atingiram metade de velocidade da luz.
— Mantenham-se
preparados para a transição — ordenou.
* * *
Já fazia
tempo que Orlgans voltara à sala de comando.
— Nada de
novo — dizia Ornafer de tempo em tempo. — Ao que parece estão pendurados pelo
espaço e não sabem onde procurar.
Já
recuperara o otimismo. Mas Orlgans continuava cético.
— Tenho
minhas dúvidas — disse. — Não me espantarei se dentro de alguns minutos...
Foi
interrompido pelos apitos de alarma. O som era de uma intensidade que Orlgans e
Ornafer nunca antes haviam ouvido. O inimigo devia ter aparecido nas
imediações.
O sensor
estrutural reagiu no mesmo instante. Orlgans não se preocupou com ele. Prestou
atenção à voz histérica do observador, que soou do alto-falante:
— Senhor de
todas as estrelas! É uma nave arcônida!
Dali a meia
hora, Orlgans viu a nave na tela de imagem. Era uma nave esférica de construção
arcônida, que se encontrava a menos de dez mil quilômetros.
Orlgans
sabia que não estava em condições de enfrentá-la.
— Aceleração
máxima! — gritou para dentro do intercomunicador, dirigindo-se à sala de
máquinas. — Vamos dar o fora!
Os mecanismos
da nave funcionaram com a maior precisão. A energia imensa dos propulsores
arrancou a Orla XI de sua
órbita e impeliu-a pelo espaço afora.
Orlgans
acompanhou o desenrolar dos acontecimentos da sala de comando. Viu que
subestimara a velocidade do inimigo. A nave esférica emergira do hiperespaço a
uma velocidade próxima à da luz e, face ao seu deslocamento vertiginoso, os
esforços da Orla XI revelaram-se
inúteis.
Orlgans era
um comandante experimentado, que já passara por dez mil transições. Sabia qual
o risco ligado à operação de quem emerge da transição a uma velocidade tão
elevada. Ele mesmo jamais teria se arriscado a empreendê-la, e sabia
perfeitamente que nenhum comandante arcônida se arriscaria.
Que sujeito
seria este?
Até então
Orlgans estava cético, mas agora estava ficando com medo.
Uma nave
arcônida e um comandante desconhecido!
A nave
esférica logo alcançou a Orla XI e passou por
ela. No momento em que a distância era menor, um raio pálido cinza-claro saiu
do bojo da nave inimiga e se perdeu nas profundezas do espaço.
— Ainda bem
que não têm pontaria — resmungou Orlgans e ordenou aos seus artilheiros que
ficassem alerta.
* * *
Na sala dos
tripulantes da Good Hope-IX não se
notava que a Orla pusera-se em movimento juntamente com seus prisioneiros. Os
neutralizadores da nave prisioneira continuavam a funcionar e conseguiram
absorver uma aceleração muito maior que a que vinham enfrentando no momento.
De tempo em
tempo, Tiff olhava para o relógio.
Faltavam dez
minutos para o momento X.
Apesar das
horas, o major Deringhouse sorriu. Na sala reinava um silêncio quase completo.
Entendiam-se perfeitamente as palavras que Deringhouse proferiu no seu leito:
— Eu daria
os vencimentos de um ano se pudesse ver seus rostos.
De início
Tiff se assustou. Mas pôs-se a calcular e concluiu que Deringhouse não assumira
nenhum risco. Mesmo que os saltadores introduzissem todas as palavras ali
pronunciadas no tradutor positrônico, demoraria mais de dez minutos até que
tivessem diante de si a tradução daquela frase pronunciada em inglês; e ainda
mais até que compreendessem seu sentido.
Faltavam
cerca de três minutos para o momento X. Conforme
havia sido combinado, um dos cadetes pôs-se a martelar a escotilha. Dali a
menos um minuto, a escotilha deslizou para o lado e os rostos de duas
sentinelas saltadoras surgiram na abertura.
— O que
houve? — perguntou um deles.
— Estamos
com fome — respondeu Tiff.
— Preparem
comida!
— Não temos
nada — disse Tiff.
A sentinela
riu. Virou-se e gritou:
— Honap,
arranje comida.
A voz
retumbante de Honap soou do corredor principal:
— Não posso
ir para lá. Com a velocidade em que estamos a travessia é muito perigosa.
A sentinela
voltou a se dirigir a Tiff.
— É isso
mesmo — resmungou. — Estamos viajando há alguns minutos. Vocês terão de esperar
até que a Orla XI não esteja
acelerando mais.
Tiff estava
muito surpreso, mas sabia que, apesar disso, não poderia deixar de aproveitar a
oportunidade que se oferecia. Sabia perfeitamente que da próxima vez a
sentinela não se mostraria tão confidente.
Tiff encarou
os companheiros. Os rostos dos outros cadetes revelavam a mesma surpresa. Um
deles perguntou:
— Por que a
Orla XI está acelerando?
Apesar da
pergunta, Tiff começou a assobiar.
Viu que
todos viravam a cabeça; estavam compreendendo. A Orla XI estava viajando, com a Good Hope-IX a reboque, e ninguém sabia por
quê. O momento era este!
Tiff saltou
para a frente. Antes de voltar ao chão, seu braço enlaçou a enorme nuca da
sentinela. O impacto levou-o para o corredor; mas Tiff encolheu as pernas e
arrastou a figura maciça do saltador para dentro da escotilha.
O corpo se
tornou flácido. Tiff deixou-o cair.
— Cuidem
dele! — gritou.
Os cinco
cadetes destacados para vigiar os prisioneiros puseram-se a desempenhar suas
funções.
Hump, ajudado
por dois cadetes, dominou a outra sentinela.
Honap teve a
atenção despertada para o ruído. Aproximou-se, caminhando ruidosamente. Tiff e
Eberhardt se lançaram simultaneamente sobre ele. A arma de impulsos térmicos de
Honap não lhe serviu de nada, pois quando conseguiu levantar o cano já era
tarde. Um tiro sem pontaria se perdeu com um chiado pelo corredor. Um instante
depois disso, Honap jazia no chão, inconsciente.
— Faltam
quatro — disse Tiff, fungando. — Vamos para a sala de comando.
Não viram
nenhuma das quatro sentinelas que restavam. Um bando de cadetes correu pelo
corredor principal.
* * *
— Olhe a
nave! — gritou Ornafer, cheio de desespero. — Está se desprendendo.
Por um
instante, Orlgans ficou sem saber o que Ornafer queria dizer.
Mas logo lançou
um olhar para a tela lateral.
A pequena
esfera que representava a nave aprisionada havia desaparecido. Ou melhor, ainda
não havia desaparecido de todo, pois dela ainda se via uma pequena mancha
pendente no espaço.
Mas se
desprendera da Orla XI.
Orlgans
praguejou.
Teve vontade
de sair em perseguição aos fugitivos e recapturá-los. Mas a tela frontal ainda
refletia a grande nave inimiga sob a forma de um ponto palidamente iluminado. O
tiro de desintegrador disparado pela mesma havia passado a apenas algumas
centenas de metros da Orla XI.
Era ali que
ficava o maior perigo, concluiu Orlgans.
Não sabia
como os prisioneiros haviam conseguido se libertar. E no momento não era o que
mais importava.
A luz pálida
que representava o cruzador arcônida havia ultrapassado a intensidade luminosa
mínima e voltou a se aproximar da Orla XI.
— Onde estão
nossas naves de guerra? — gemeu Orlgans. — Da próxima vez a pontaria deles será
melhor.
* * *
O major
Nyssen não pretendia atingir a Orla XI. Agora, que a
Good Hope-IX conseguira se desprender da máquina ruidosa dos saltadores, estava
interessado apenas em confundir o inimigo até que conseguisse capturá-lo com um
campo gravitacional; da mesma forma como os saltadores haviam aprisionado a
Good Hope-IX.
Nyssen tinha
plena certeza de que a nave inimiga era muito inferior à Solar System. Não
respondera ao fogo no momento em que foi ultrapassada. Não poderia haver início
mais poderoso.
Nyssen
mandou que todas as reservas de energia fossem utilizadas para alimentar o
gerador gravitacional.
Todos os
observadores da Solar System estavam ocupados em localizar eventuais inimigos
que se aproximassem. Não encontraram nenhum. A Solar System, a nave inimiga e a
Good Hope-IX estavam sozinhas naquele setor do espaço.
Mais uma vez
Nyssen passou a algumas centenas de quilômetros do inimigo e mandou disparar
uma salva, errando a pontaria de propósito.
Ficou
satisfeito ao notar que a nave inimiga iniciou manobras desviacionistas.
Descreveu uma curva ampla e continuou a acelerar.
Nyssen
mandou que a Solar System fizesse meia-volta e mais uma vez se lançasse ao
ataque.
Enquanto as
duas naves se aproximavam, ordenou:
— Preparar o
campo gravitacional para a captura.
* * *
— Estamos
soltos! — gritou Tiff.
Os
compensadores de aceleração da Good Hope-IX haviam absorvido não apenas a
pressão resultante da fuga precipitada da Orla XI, mas também aquela produzida pelo desprendimento da nave inimiga.
Ninguém que
se encontrasse no interior da Good Hope-IX perceberia que a nave estava
realizando manobras, a não ser que tivesse diante de si uma tela com os
resultados fornecidos pelo rastreador.
Nos
receptores da sala de comando via-se perfeitamente que a Orla XI, reduzida a
uma faixa estreita e pálida, estava a uma distância de pelo menos mil
quilômetros da Good Hope-IX.
Haviam
subjugado mais duas sentinelas, postadas diante da escotilha da sala de
comando. As duas que faltavam deviam estar andando pela nave. Tiff espalhara os
cadetes de tal maneira que, nos próximos quinze minutos, os dois saltadores
teriam que dar com eles.
Não havia
mais nada que pudesse sair errado.
Conforme se
combinara, o cadete Eberhardt assumira o posto de observador. Por algum tempo,
estudou o registro da maneira tranqüila que lhe era peculiar; depois gritou com
a voz rouca:
— Há uma terceira
nave! Tiff virou-se apressadamente.
— Já chegou?
Onde?
Sem dizer
uma palavra, Eberhardt apontou para a tela esverdeada do rastreador. Tiff
saltou para junto dela e percebeu duas manchas luminosas que se deslocavam
rapidamente. Uma delas era comprida e fina; só podia ser a Orla XI. A outra consistia apenas num ponto que cresceu
rapidamente, transformando-se num disco.
— É a
Stardust-III! — murmurou Eberhardt, trêmulo de emoção.
Tiff leu a
posição das duas naves. A nave esférica encontrava-se a cerca de vinte mil
quilômetros, isso no momento da leitura de Tiff. Se fosse a Stardust-III, sua
imagem na tela devia ser muito maior.
— O
hipercomunicador está preparado? — gritou Tiff sem virar a cabeça.
— Está! —
respondeu alguém.
Tiff
virou-se e ajustou o microfone.
— Atenção,
mensagem de socorro! Atenção, mensagem de socorro! Good Hope-IX chamando todas
as naves da frota espacial terrestre. Good Hope-IX chamando todas as naves da
frota espacial terrestre.
Ficou calado
por um instante aguardando a resposta, que veio dentro de poucos segundos.
— Solar
System para Good Hope-IX. Comandante Nyssen falando. Daqui a pouco iremos
buscá-los; ainda temos de liquidar um assunto.
Tiff sorriu.
— Está bem.
* * *
Orlgans
acompanhava as manobras da nave inimiga com uma exaltação que lhe provocava
tremores.
Ornafer,
imobilizado, encarava as telas.
— Desta vez
eles nos pegam — resmungou Orlgans. — Não vão errar a pontaria mais uma vez.
A nave
esférica voltara a passar em disparada perto da Orla XI. Ainda desta vez disparara vários tiros, mas nenhum deles acertara
o alvo. Numa manobra arriscada, o inimigo modificou sua rota e voltou a se
aproximar.
Orlgans deu
ordem para que desta vez os artilheiros respondessem ao fogo. A esperança de
que as peças pesadas da Orla XI pudessem causar algum mal à outra nave era
muito reduzida. Mas nem mesmo um mercador gosta de morrer sem tentar a defesa.
* * *
Rhodan
aguardava. Estava impaciente. Não havia notícias de Nyssen, nem da Good
Hope-IX.
O
cronômetro, regulado para a contagem de tempo terrestre, marcava 21:12 h do dia
28 de julho, tempo de Terrânia.
— Já está na
hora de darem sinal de vida — resmungou Bell.
Rhodan
lançou mais um olhar para o relógio. Aproximou-se do microfone.
— Rhodan
para MacClears. Prepare-se para o salto. Precisamos verificar o que está
acontecendo.
* * *
Os relógios
de bordo da Good Hope-IX marcavam 21:14 h, hora de Terrânia.
— As
máquinas estão trabalhando com sessenta por cento de sua capacidade — disse
Hump.
Tiff
respondeu:
— Isso não
basta para ativar os campos protetores.
— Para que
campos protetores? A Orla XI se encontra
a quase trinta mil quilômetros; além disso, está ocupada com a Solar System.
Ninguém nos fará nada.
Tiff acenou
com a cabeça; parecia pensativo.
— Tomara que
as coisas continuem assim. Não acredite que os saltadores, sem mais nem
menos...
Um sinal
estridente de alarma arrancou-lhe as palavras da boca.
— Rastreação
estrutural! — gritou um dos cadetes. — Houve uma transição a pequena distância.
Tiff não deu
muita atenção à notícia.
— É a
Stardust-III — disse.
Mas o
observador logo o retificou.
— São trinta
objetos não identificados. Distância: 3,107 m; Pi, vinte e um; Teta,
oitenta e nove; velocidade de 8,106 m/s; componente em relação à
nossa direção, 2,5.104 m/s.
Tiff
virou-se apressadamente.
— Como é o
aspecto dos objetos?
— São finos
e cilíndricos.
— São as
naves dos saltadores — gritou Tiff. — Ativar os campos protetores!
Hump
respondeu em tom zangado:
— A energia
não é suficiente. As máquinas estão funcionando com apenas sessenta e cinco por
cento de sua capacidade.
Enquanto
isso, o observador anunciou:
— Atenção,
estão abrindo fogo contra nós.
* * *
No momento
em que o sensor estrutural reagiu, Ornafer se sentiu tão surpreso que levou
algum tempo para transmitir a notícia a Orlgans.
— Há uma
transição muito forte nas imediações — fungou. — Estamos perdidos de vez.
Mas, dali a
dois segundos, Orlgans gritou com a voz retumbante:
— São nossas
naves de guerra! Estamos salvos!
* * *
A
constatação da presença das trinta unidades espaciais não provocou qualquer
pânico a bordo do cruzador Solar System. Nyssen se limitou a resmungar:
— A coisa
está ficando séria. Instruiu o setor de pilotagem a colocar a nave em posição
de espera, desistindo por ora do inimigo com que até então se haviam defrontado.
O pessoal da sala de máquinas recebeu ordem para pôr o gerador gravitacional a
funcionar em ponto morto.
Só depois
disso, Nyssen avisou a Stardust-III. Por lá a transição também devia ter sido
constatada. Por isso, Nyssen se limitou a descrever as naves inimigas.
— São
bastante parecidas com o veículo espacial que temos diante de nós — disse. —
Diria que pertencem aos mesmos seres. Apenas a construção dessas trinta é um
pouco mais bojuda. Parecem mais perigosas que a canoa que até agora tivemos
diante de nós.
Mal havia
terminado seu relato quando o observador anunciou a ocorrência de descargas
energéticas a uma distância de cerca de dezoito mil quilômetros.
Nyssen
compreendeu imediatamente: a Good Hope-IX estava sendo bombardeada. Tentou
estabelecer contato com a nave auxiliar; mas não conseguiu mais. Face a isso
colocou em movimento a Solar System e dispôs-se a atacar a formação inimiga. A
enorme superioridade do inimigo não poderia demovê-lo desse intento.
* * *
A primeira
salva passou a algumas centenas de metros da Good Hope-IX; Tiff deu ordem para
responder ao fogo, mas não conseguiu muito. Sua tripulação era muito reduzida;
além disso a experiência dos tripulantes com o manejo dos pesados
desintegradores, radiadores térmicos e canhões neutrônicos era muito limitada.
Apesar
disso, uma das naves inimigas foi destruída.
Os cadetes
começaram a exultar. Mas nem chegaram a abrir bem a boca quando a Good Hope-IX
sofreu um forte solavanco e foi deslocada alguns quilômetros para fora de sua
rota, com tamanha rapidez que os compensadores de aceleração mal conseguiram
reagir.
— Houve um
impacto na sala de máquinas! — gritou alguém.
As sereias
começaram a uivar, e a luz vermelha de controle da sala de máquinas começou a
piscar.
Sentado
diante do painel do piloto, Julian Tifflor distribuía suas instruções com a
calma, objetividade e segurança de um comandante experimentado.
— Temos
capacidade de manobrar? — perguntou tranqüilamente.
A resposta
não se fez esperar:
— É quase
nula. Não chega a cinco por cento.
Tiff acenou
com a cabeça.
— Atenção,
artilheiros! Continuem a disparar. Mantenham o inimigo à distância.
— Entendido.
Tiff
virou-se com a cadeira.
— Vamos
descer — decidiu.
Hump
perguntou:
— Nós quem?
Só temos um destróier a bordo, e nele não cabem mais de três pessoas.
Tiff deu de
ombros.
— Pois
teremos que fazer com que caibam cinco: as duas moças e três homens. Sugiro que
Deringhouse seja um dos três.
A sugestão
encontrou a concordância dos demais.
— Está bem —
respondeu Eberhardt. — Quem serão os outros?
Tiff já
estava andando.
— Veremos.
Venham comigo. Correram para a sala dos tripulantes. O impacto violento atirara
o major Deringhouse fora do leito. Ele arrastara-se até a mesa e procurava se
levantar.
Tiff expôs a
situação em que se encontravam.
— Vamos
levá-lo para fora — concluiu.
Deringhouse
deixou-se cair novamente e fez um gesto de recusa.
— Nem pensem
nisso — disse. — Tive tempo de sobra para quebrar a cabeça sobre os planos de
Rhodan. Tifflor, você se encontra numa missão muito importante. Acho que convém
que dê o fora daqui. Leve as moças e estes dois — apontou para Eberhardt e Hump
— e não se esqueça de levar armas. Tomem as armas de impulsos térmicos dos
saltadores.
Tiff
protestou, mas Deringhouse cortou-lhe a palavra.
— Nada de
discussões, cadete Tifflor! É uma ordem!
Tiff fez
continência.
— Entendido!
Perto da
escotilha, os cinco saltadores estavam deitados no chão, amarrados. Mais
adiante viam-se os canos compridos dos radiadores de impulsos térmicos, que os
cadetes lhe haviam tomado.
— Peguem os
cinco! — ordenou Tiff. — Nunca poderão ser demais.
Eberhardt e
Hump recolheram as armas. Tiff parou na escotilha e olhou para Deringhouse.
— Sinto-me
como se fosse um... — principiou, mas logo foi interrompido por Deringhouse.
— Cale a
boca, cadete — gritou. — Trate de dar o fora o quanto antes. Procure abrir
caminho para a Stardust-III. De qualquer maneira, entre imediatamente em
contato com o chefe.
Tiff voltou
a fazer continência e se retirou. Hump e Eberhardt seguiram-no. Foram buscar as
moças nos seus camarotes.
No hangar do
destróier, Tiff deu as últimas instruções.
— Suspendam
o fogo e procurem salvar ao menos a vida — ordenou aos cadetes. — Por enquanto
o inimigo leva vantagem sobre nós. Não façam tolices.
As duas
moças já se encontravam na cabina. Hump deu-lhes as armas. Ainda estava com o
último dos radiadores na mão quando a escotilha interna começou a emitir um
zumbido e se abriu lentamente.
Eberhardt se
encontrava sobre a asa esquerda do destróier. Ficou perplexo quando viu o que
havia atrás da escotilha.
— Cuidado! —
gritou.
Tiff
deixou-se cair para a frente e rolou em direção a Hump. Um disparo de radiações
chiou através do recinto. Hump compreendeu com uma rapidez espantosa. Apontou a
arma e disparou uma série de tiros contra a escotilha. Um grito horrível saiu
da abertura. Um vulto alto e largo cambaleou para dentro do hangar, procurou se
manter de pé e acabou tombando ao chão com um forte baque. Passos apressados se
afastaram pelo corredor que dava para o hangar.
Hump saltou
em direção à escotilha, passando por cima do saltador gravemente ferido.
— Fique
aqui! — gritou Tiff. — Não temos tempo a perder!
Hump estacou
em meio à corrida e voltou. Virou o saltador inconsciente, deitando-o de
costas. Apresentava uma grande queimadura bem no ombro esquerdo.
— Vai
escapar — disse Hump laconicamente.
Saltou para
cima da asa do destróier e entrou na cabina. Tiff foi o último a entrar;
enfiou-se no assento do piloto.
Numa
mensagem apressada, informou a sala de comando de que um dos dois saltadores
que continuavam em liberdade estava deitado no hangar, gravemente ferido, e que
o outro havia escapado.
Depois
ordenou:
— Fechem os
trajes espaciais! Preparem-se para sair!
* * *

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