terça-feira, 11 de dezembro de 2012

P-029 - A Frota dos Saltadores - Kurt Marh [parte1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN



A Terceira Potência, resultado da feliz aliança entre a supertecnologia arcônida e o espírito de iniciativa do homem, já existe há alguns anos, segundo a contagem de tempo terrestre.
Muita coisa aconteceu nesses anos: a defesa contra as invasões vindas do espaço, a decifração dos velhos mistérios do planeta Vênus, a luta contra os tópsidas no sistema Vega e a descoberta do planeta da imortalidade; isso para mencionar apenas algumas das realizações mais dramáticas da história, ainda recente, da Terceira Potência, criada e dirigida por Perry Rhodan.
Mesmo o Supercrânio, um mutante dotado de um incrível poder hipnótico, pôde ser eliminado.
Mas sua ação nefasta teve uma conseqüência grave: os mercadores galácticos, também conhecidos como saltadores, tiveram sua atenção despertada para o planeta Terra, e para a Terra enviaram seus espiões; em compensação, Perry Rhodan incumbiu Julian Tifflor, um cadete da Academia Espacial, de realizar a contra-espionagem. Para isso, o transformou num verdadeiro chamariz cósmico. Mas, quando o senhor da Terceira Potência quer livrar Julian Tifflor de uma situação bastante desagradável, defronta-se com A Frota dos Saltadores...






= = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = =

Perry RhodanChefe da Terceira Potência.

Julian TifflorQue vai para o espaço numa missão secreta; tão secreta, que nem mesmo ele nada sabe.

Humpry Hifield, Klaus Eberhardt, Mildred Orson e Felicitas KergonenQue conseguem fugir pouco antes da hora em que seriam libertados, e vão de mal a pior.

Orlgans e OrnaferDois saltadores cuja nave foi a primeira a descobrir a Terra.

RB.013Um dos robôs da Terceira Potência.



1



A Grande tela de imagem parecia uma janela.
Uma grande parte do campo de visão estava encoberta pelo brilho fosco da nave espacial estranha. Só na margem direita via-se um trecho do espaço, com uma nesga daquele estranho mundo nublado, em torno do qual as duas naves gravitavam há muitas horas.
Era a Good Hope-IX, uma nave auxiliar da frota terrestre, com sessenta metros de diâmetro, e a Orla XI, um verdadeiro gigante pertencente a uma raça extraterrestre cujos membros se denominavam saltadores.
Uma fita magnético-mecânica ultrapotente, que se neutralizava automaticamente no interior da nave, prendia a Good Hope-IX à grande nave dos saltadores.
Amarrada dessa forma à outra nave, a Good Hope-IX fora forçada a acompanhar os saltadores numa transição, que os levara da órbita de Plutão até o ponto em que voltaram a imergir no espaço, um ponto cuja situação ninguém conhecia, a não ser os saltadores. E estes nem pensavam em revelar o segredo aos seus prisioneiros.
Havia três tripulantes na sala de comando da Good Hope-IX: Humpry Hifield, conhecido por Hump, Klaus Eberhardt e Mildred Orson. Hump e Eberhardt ainda envergavam o uniforme que os cadetes da Academia Espacial usavam em uma missão de cosmonáutica. Mildred, a estudante de bacteriologia, trajava uma vestimenta espacial finíssima e muito confortável, de fabricação arcônida. O capacete pendia nas costas, em forma de capuz.
— Está demorando — resmungou Eberhardt.
Hump deu de ombros.
— Tomara que não lhe façam nada — gemeu Mildred.
Hump parecia contrariado.
— O que poderiam fazer a ele? Dentro de uns cinco ou dez minutos estará de volta e vai achar graça do medo que vocês sentiram. Bem que eu gostaria que alguém se preocupasse dessa forma comigo.
Mildred não lhe deu atenção. Eberhardt lançou um olhar de esguelha para Hump e esboçou um sorriso.
— Você se cuida para nunca enfrentar uma situação em que alguém possa se preocupar por sua causa, não é?
Hump não era de deixar tal acusação sem resposta, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mildred gritou:
— Aí vem ele!
Subitamente, um buraco se abriu no casco liso da nave dos saltadores. Um vulto humano surgiu e atravessou o abismo que se abria entre as duas naves. Sumiu da tela onde era visto no instante em que desapareceu atrás do abaulamento da nave auxiliar.
Mildred já estava a caminho.
— Vamos ao encontro dele! — gritou.
Eberhardt correu atrás dela. Hump sacudiu a cabeça, bastante contrariado, mas acabou seguindo os dois.
Passaram correndo entre as duas sentinelas saltadoras, armadas até os dentes, postadas junto à porta da sala de comando, e foram seguindo pelo largo corredor que levava ao elevador principal.
Os saltadores, que eram criaturas altas e de cabelos compridos, nem se abalaram. Haviam observado os três prisioneiros enquanto eles se encontravam na sala de comando e tinham certeza de que não haviam feito nada que pudesse ser considerado indesejável.
Mildred, Eberhardt e Hump chegaram à comporta do pé da nave no mesmo instante em que a escotilha se abria. O homem que haviam visto atravessar o espaço que separava a Good Hope-IX da Orla XI saiu da comporta, tirou o capacete e, num gesto de resignação, baixou os ombros.
— Que tal, Tiff? — perguntou Mildred, assustada.
Julian Tifflor fez um gesto de desânimo. Tiff, como o chamavam, era cadete da Academia Espacial de Terrânia e se encontrava em missão secreta; mas ele mesmo não conhecia os detalhes desta missão.
— Não houve nada — respondeu em tom cansado. — Fui interrogado. E lhes garanto que a maneira como eles conduzem um interrogatório faz qualquer um perder o riso.
— O que foi que você contou a eles? — perguntou Hump, em tom mais malicioso do que pretendia.
— Nada! — gritou Tiff, zangado. — Não sei nada; logo, não posso contar nada.
— É o que você diz — retrucou Hump, impassível.
Mildred lançou-lhe um olhar furioso.
— Será que vocês não podem parar com essa bobagem ao menos por cinco minutos? — perguntou.
Voltou-se para Tiff; pretendia fazer outra pergunta. Mas Tiff se adiantou a ela.
— Vamos para cima. Quero conversar com vocês.
Tiff tomou a frente. Foi seguido pelos dois cadetes e pela moça. Entraram no elevador antigravitacional e subiram ao setor da nave em que ficavam os camarotes e a pequena sala da tripulação. Na sala da tripulação encontraram seis dos nove cadetes que a Good Hope-IX tinha a bordo, Felicitas Kergonen, uma estudante de botânica, e o major Deringhouse, que saíra do camarote, caminhando sobre muletas, apenas para não ficar só.
Todos sabiam que Julian Tifflor havia sido chamado a bordo da Orla XI para ser interrogado. Quando entrou, ficaram calados.
De início, Tiff se limitou a fazer um gesto rápido: a mão direita, que se encontrava junto ao quadril, subiu obliquamente. Só depois disso falou:
— Bom dia! Como estão as coisas por aqui?
As respostas, embora hesitantes, vieram exatamente como Tiff as esperava: foram proferidas com a maior inocência.
Haviam compreendido o gesto, combinado poucas horas antes. A mão levantada obliquamente diante do quadril significava o seguinte: “Vou dizer alguma coisa que os saltadores não podem ouvir; tenham cuidado com o intercomunicador.”
Os saltadores podiam ser tudo, menos idiotas. Sabiam perfeitamente quem eram os prisioneiros que haviam capturado: tratava-se de gente que só desistiria da idéia de fugir depois que lhe tivesse cortado a cabeça. A Good Hope-IX estava equipada com um intercomunicador eficientíssimo, e os saltadores se aproveitavam dele para vigiar os prisioneiros.
Tiff deu início a uma palestra indiferente. Alguns dos cadetes se agruparam em torno dele e começaram a fazer perguntas sobre a experiência pela qual acabara de passar a bordo da Orla XI. Os outros continuaram a conversar com Deringhouse, que se instalara confortavelmente sobre duas poltronas, a fim de proteger a perna ferida.
O grupo que rodeava Tiff se mantinha bem unido. Estava tão unido que, enquanto dava respostas indiferentes, Tiff pôde escrever às pressas algumas linhas sem que pudesse ser visto através do intercomunicador.
Entregou o bilhete a Hump, que se encontrava a seu lado. Tinha certeza de que, dentro de poucos minutos, a novidade teria feito a ronda entre todos os presentes.
A conversa prosseguiu, enquanto o bilhete circulava. Nele estava escrito o seguinte:
A Orla XI é inferior à Good Hope-IX em armamento e potencial energético. Temos chances de fugir, desde que consigamos ativar os propulsores. As duas moças terão que desviar a atenção das duas sentinelas postadas diante da sala de comando. Eu mesmo ligarei as máquinas e as porei em funcionamento com um atraso de cerca de uma hora. Peço sugestões quanto à hora em que podemos começar.

* * *

A Stardust-III estava estacionada na periferia do sistema solar terrestre, entre as órbitas de Plutão e Netuno. O gigantesco couraçado, que media oitocentos metros de diâmetro, estava ladeado pelos cruzadores pesados Terra e Solar System. Perry Rhodan mantinha contato permanente pelo intercomunicador com os comandantes dos dois cruzadores.
Os sensores estruturais haviam captado a transição da nave dos saltadores e conseguiram localizar o ponto de saída no espaço. Rhodan introduziu os dados fornecidos pelos sensores na calculadora positrônica e pediu a maior rapidez na interpretação.
Rhodan sabia perfeitamente que mesmo o gigantesco cérebro positrônico da Stardust-III levaria de seis a sete horas para interpretar aqueles dados, diagramados e extremamente complicados; a não ser que se quisesse admitir um desvio superior a um por cento no resultado.
Acontece que Rhodan não podia dispor de seis ou sete horas.
Ele mesmo, a Stardust-III e a própria Terra se defrontavam com um inimigo que, apesar de todos os esforços empreendidos, até então conseguira se manter oculto. Daí podia se deduzir que, de forma alguma, sua tecnologia era subdesenvolvida.
Rhodan elaborara um plano segundo o qual Julian Tifflor lhe forneceria a pista do inimigo. Tifflor agira conforme se esperava. Mas ninguém contara com uma possibilidade: a de que o inimigo pudesse capturar a Good Hope-IX junto à órbita de Plutão e desviá-la para o hiperespaço. Com isso, o emissor celular embutido no organismo de Tifflor ficou, de um instante para outro, fora do alcance do poder de localização dos telepatas.
Rhodan estava disposto a admitir um erro de até dez por cento na interpretação do diagrama, mas de forma alguma poderia se conformar com uma perda de tempo superior a uma hora.
— Temos de localizar a Good Hope-IX! Era a única frase que se ouvia dele depois do desaparecimento da nave auxiliar.
Reginald Bell apareceu com o resultado fornecido pela calculadora positrônica, gravado em fita. Rhodan lhe arrancou as fitas da mão e passou a examiná-las. Gastou um minuto nessa atividade.
Bell olhou-o de lado.
— Então?
Esteve a ponto de formular outras perguntas; mas nesse instante Rhodan levantou a cabeça e gritou:
— Preparar a nave para a transição! A Terra e a Solar System irão conosco.

* * *

Daqui a duas horas”, foi a resposta ao pedido de sugestões. “Logo depois do revezamento das sentinelas.
Tiff concordou. Ele mesmo formulara a mesma sugestão.
Saiu da sala da tripulação, acompanhado de Eberhardt e Mildred. Hump permaneceu na mesma.
Havia receptores de imagem e som embutidos a intervalos regulares nas paredes do corredor. A distância entre um receptor e outro era de cerca de sete metros. Uma vez que a conversa entre Mildred e os dois cadetes era realizada em voz muito baixa, havia um trecho de dois ou três metros entre cada série de dois receptores em que as palavras não podiam ser captadas.
A conversa foi mais ou menos a seguinte:
— Orlgans se sacudiu de gargalhadas — disse Tiff, relatando uma situação surgida no curso do interrogatório que acabara de enfrentar, enquanto passavam lentamente diante de um dos aparelhos. — Mas vocês conhecem os saltadores: enquanto ficara rindo a bandeiras despregadas e se divertem a valer, pensam sobre a melhor maneira de matar a gente.
— O que ele quis saber? — perguntou Eberhardt.
Tiff olhou para o lado. O intercomunicador pelo qual haviam acabado de passar ficara mais de dois metros atrás deles e o próximo ficava a quase cinco metros.
— Vocês terão de envolver as sentinelas numa conversa, Milly — disse Tiff, falando baixo e depressa. — Digam que querem lhes mostrar alguma coisa e afastem-nas da sala de comando ao menos por três minutos. Se for necessário, poderemos terminar nesse tempo; mas se puder ser mais, será bem melhor.
O intercomunicador já estava mais perto.
— ...é claro que não — disse Tiff, mudando o tema de uma hora para outra. — não faço a menor idéia de quais sejam os segredos que ele espera descobrir. Aliás, não fornece a menor indicação a este respeito. Riu bem na minha cara e disse que, da próxima vez, terá de recorrer a outros meios, que serão muito desagradáveis para mim, a fim de obter as informações desejadas.
Mildred fez cara de assustada.
— Será que ele vai fazer uma coisa dessas?
Tiff fez que sim. O intercomunicador estava atrás deles.
— Não tenha a menor dúvida!... Vocês terão de proceder com muita habilidade, Milly. Mesmo que eu faça a ligação de retardamento, as sentinelas podem descobrir minha intenção se desconfiarem e resolverem dar uma olhada bastante demorada na sala de comando. Explique tudo a Felicitas, para que ela não faça nenhuma tolice. E diga-lhe que não precisa ter medo... os saltadores não são nada maus, enquanto são amigos da gente. Mas ai de quem os contraria!

* * *

— Não há qualquer reflexo que indique a existência de matéria num raio de vinte anos-luz — anunciou o localizador.
Perry Rhodan estava sentado diante do painel do piloto da Stardust-III. Na tela via-se o negrume do espaço vazio, entremeado por um véu de pontos luminosos, frios e de contornos indefinidos.
Duas manchas apagadas e desbotadas também apareciam na tela — os cruzadores Terra e Solar System.
— E fora do raio de vinte anos-luz? — perguntou Rhodan, falando para o interior do microfone.
A resposta foi imediata:
— Beta-Albíreo fica a uma distância de 21,85 anos-luz do ponto em que nos encontramos. Trata-se de uma estrela geminada da constelação de Cisne.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Há mais alguma coisa?
— Há mais dois sóis a uma distância de 53,56 e 62,72 anos-luz.
— Obrigado.
Reginald Bell, que já se levantara há algum tempo, se encostou de lado contra o painel de instrumentos.
Rhodan lançou-lhe um olhar.
— Saltamos por uma distância de trezentos e cinqüenta anos-luz — disse em tom pensativo. — Beta-Albíreo fica a trezentos e vinte anos-luz de nosso sol. Segundo o cérebro positrônico, a margem de erro dos cálculos realizados é de 9,2%.
Ficou em silêncio e voltou a entrar em contato com o localizador.
— Preciso saber a distância entre as duas estrelas desconhecidas e o Sol — disse.
No receptor ouviu-se o zumbido da calculadora automática. A resposta não se fez esperar.
— A mais próxima das duas fica quase exatamente sobre o prolongamento da linha que une a Terra à Stardust-III. Conclui-se que a distância do Sol é de cerca de quatrocentos anos-luz. A outra se afasta dessa linha na proporção de um Pi positivo. A distância do Sol é de cerca de trezentos e oitenta e três anos-luz.
Rhodan desligou e voltou a olhar para Bell.
— Você ouviu?
Bell realizou alguns cálculos mentais.
— Ouvi, sim — disse em tom pensativo. — Trezentos e cinqüenta com 9,2% de margem de erro significa que o objetivo se encontra no espaço situado entre trezentos e dezoito e trezentos e oitenta e dois anos-luz. O valor de trezentos e vinte pode ser correto, o de trezentos e oitenta e três talvez também o seja. Mas o de quatrocentos pode ser excluído.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Está bem. Podemos escolher entre dois objetivos. Por qual deles devemos optar?
Bell contorceu o rosto num sorriso combativo.
— Pelo mais provável dos dois: Beta-Albíreo.

* * *

Pela sua origem, os saltadores podiam ser considerados uma raça arcônida. No que diz respeito à tecnologia, eram iguais, se não superiores aos arcônidas, os senhores do império galático.
As naves dos saltadores, tanto as de guerra como as mercantes, estavam equipadas com sensores estruturais que registravam, a grande distância, o abalo do espaço quadridimensional provocado pela transição de uma nave.
A Orla XI não teve a menor dificuldade em localizar o forte abalo provocado pela transição das três naves de guerra terrestres.
Foi quando Orlgans, dono e comandante da Orla XI, começou a perceber que provavelmente o empreendimento em que se metera ultrapassava suas forças.
Conversou com a pessoa que, a bordo de uma nave terrestre, seria designada como o imediato. Os saltadores eram negociantes, e a bordo de suas naves ninguém ostentava dignidades militares.
O nome dessa pessoa era Ornafer. Um terreno que visse os dois homens não conseguiria distingui-los, a não ser que os conhecesse há muito tempo. Tinham a mesma estatura — ambos mediam dois metros — e o mesmo feitio maciço do corpo. Os cabelos, da mesma cor, não eram cortados, e ambos traziam a barba aparada segundo a moda que então prevalecia entre os saltadores.
— Alguém está no nosso encalço — disse Orlgans em tom sério.
Ornafer deu uma risada de desafio.
— E daí? Ficarão sabendo com quem estão lidando.
Orlgans balançou a cabeça.
— É possível que nós também fiquemos sabendo com quem estamos lidando — ponderou.
Ornafer ainda estava rindo.
— Quem poderá fazer alguma coisa contra nós? Afinal, somos os saltadores!
Orlgans era de outra opinião.
— Esses seres conhecem o mundo da vida eterna. Não conhecemos os recursos técnicos de que dispõem.
Ornafer contemporizou.
— Está bem — disse. — Já que está preocupado, podemos pedir que mandem algumas naves de guerra para nos socorrer.
Orlgans levantou ambas as mãos, num gesto de concordância.
— A última localização indica uma distância de vinte anos-luz. Se chegarem mais perto, chamarei as naves de guerra.

* * *

Mildred informou Felicitas sobre a missão conjunta que teriam de cumprir. Recorreu ao mesmo meio que Tiff usara para com ela; falava quando se encontravam entre dois dos aparelhos de intercomunicação instalados no corredor.
Tiff se certificara pessoalmente de que as máquinas da nave dos saltadores eram inferiores às da Good Hope-IX. Estava decidido a realizar a fuga de qualquer maneira; recorreriam à astúcia e, se necessário, à violência.
No momento em que entrasse na sala de comando, Eberhardt, Hump e mais alguns dos cadetes ficariam à espreita, para verificar se as sentinelas não voltavam antes do tempo. Se o fizessem, teriam de ser eliminadas. Tiff tinha certeza de que a nave auxiliar, cujas máquinas haviam sido desligadas há várias horas, poderia ser colocada em condições de partir dentro de um espaço de tempo de dez minutos. Nesses dez minutos, teriam que defender a Good Hope-IX contra os saltadores; isso se as moças fracassassem.
Havia um detalhe sobre o qual Tiff não tinha certeza:
Quando os saltadores atacaram a Good Hope-IX na órbita de Plutão, o major Deringhouse, depois de uma defesa breve ineficaz, deixou que a nave caísse em poder do inimigo. As armas da Good Hope-IX eram muito superiores às da nave mercante dos saltadores. Por que Deringhouse não prolongou sua ação defensiva? Teria todas as probabilidades de sair vitorioso.
Tiff gostaria de formular essa pergunta ao próprio Deringhouse. Mas confiava que este devia ter tido seus motivos e receava pôr à mostra um segredo, se formulasse a pergunta sob as vistas do intercomunicador.
Mildred e Felicitas aguardaram o instante combinado no interior de seus camarotes. Chegado o momento, fizeram de conta que se encontravam por acaso no corredor, refletiram em voz alta, para que o intercomunicador pudesse ouvi-las, e finalmente decidiram bater um papo com as duas sentinelas postadas diante da sala de comando.
A sala de comando ficava dois andares do lugar em que se encontravam. Pegaram o elevador e desceram.
Tiff viu quando passaram diante da sala dos tripulantes e fez um sinal para Eberhardt. Este compreendeu imediatamente e transmitiu o sinal aos outros. Tiff saiu da sala; dali a dois minutos, Eberhardt, Hump e mais três cadetes o seguiram.
De início Tiff se manteve afastado da sala de comando. Desceu à parte inferior da nave e fingiu que estava procurando alguma coisa. Quando pelos seus cálculos as duas moças já deviam ter cumprido a primeira parte de sua missão, voltou a flutuar para cima no poço do elevador e chegou à entrada principal, cerca de cinco metros da escotilha da sala de comando, que ficava bem embaixo de um pequeno receptor do intercomunicador. Mas tinha certeza de que esse receptor nunca seria consultado. Havia duas sentinelas incumbidas de vigiar o que se passava por ali.
As sentinelas haviam desaparecido. Do fundo do corredor, Tiff ouviu risadinhas femininas. O trabalho das moças estava em pleno andamento.
Deu o assobio combinado. Mais ao longe, no corredor principal, ouviu a resposta: Eberhardt e seus homens estavam a postos.
Tiff não hesitou. Deu uns seis ou oito passos apressados e se colocou diante da escotilha da sala de comando. Fez com que a mesma deslizasse para o lado, e aguardou com impaciência até que a abertura se tornasse bastante ampla para permitir sua passagem. As luzes se acenderam quando penetrou na sala redonda. Mas Tiff logo as apagou, comprimindo o botão de controle manual. Ao mesmo tempo transmitiu o comando de fechamento à escotilha. Com um chiado provocado pelo ar expelido, a escotilha voltou para o caixilho hermeticamente fechado.
Tiff suspirou aliviado e voltou a acender a luz. Olhou em torno e pôs-se a trabalhar.

* * *

Rhodan colocou o microfone perto de seu rosto.
— A parte mais difícil da tarefa cabe a você, Nyssen — disse em tom sério. — Avisarei assim que os telepatas tenham localizado Tifflor. Conte com a possibilidade de que Beta-Albíreo tenha um sistema planetário. Quase todas as estrelas geminadas têm. Não temos a menor informação sobre o armamento da nave desconhecida. Na pior das hipóteses, será superior ao de seu cruzador. Portanto, não se arrisque demais. Sua tarefa consistirá unicamente em desviar a atenção daqueles seres, para que a tripulação da Good Hope-IX encontre um meio de recuperar a liberdade. O resto fica por minha conta e por conta de MacClears. Faça o favor de confirmar.
O major Nyssen, comandante da Solar System, confirmou o recebimento da ordem através de uma repetição quase textual da mesma.
— Está bem — concluiu Rhodan. — Realizaremos a transição exatamente dentro de quatorze minutos. Pelos meus cálculos, a mesma deverá terminar aproximadamente a dois anos-luz de Beta-Albíreo. Atenção, todos os tripulantes. Todos os postos de combate e de observação devem entrar imediatamente em rigorosa prontidão. Fim.

* * *

Ornafer riu.
Costumava rir sempre que se via diante de uma situação extraordinária.
Estava assustado e sentia um pouco de medo.
O sensor estrutural deu notícia de outra transição, ainda mais intensa que a anterior por ser mais próxima.
Apenas uns dois anos-luz.
Orlgans não se encontrava na sala de comando. Ornafer entrou em contato com ele para lhe transmitir o aviso.
— Chame as naves de guerra! — ordenou Orlgans. — Imediatamente! E mande reforçar as sentinelas na nave inimiga. Os corredores mais importantes devem ser ocupados. Não quero que essa gente aproveite a confusão para fugir.
Ornafer confirmou e dispôs-se a cumprir as ordens que acabara de receber.
Os saltadores eram seres estranhos. Não tinham pátria; viviam nas naves em que viajavam pela galáxia. Viam a finalidade de sua vida em praticar o comércio e impedir que qualquer outro ser o praticasse. Reivindicavam o monopólio do comércio intergaláctico. Por mais abertas que suas mentes fossem para o Universo, afirmavam com um fervor verdadeiramente religioso que no começo de sua história uma lendária divindade lhes havia concedido o monopólio do comércio intergaláctico.
De certa forma, a situação dos saltadores no âmbito do império galático, cujo centro era o mundo de Árcon, não deixava de ser singular. Desde tempos imemoriais, os arcônidas foram de opinião que o comércio com quem quer que fosse era uma prática inferior à sua dignidade. Os saltadores, que eram parentes afastados dos arcônidas, preencheram o espaço vazio e se tornaram indispensáveis, a ponto de que qualquer um que quisesse fazer algum negócio a grande distância não poderia prescindir de seu auxílio.
Acontece, porém, que os “comerciantes” só visavam ao seu proveito. Eram eles que fomentavam as rivalidades no interior do império, pois a formação de grupos dissidentes abria campo mais amplo às suas manobras.
Mostravam-se tolerantes perante todos, porque não havia nada pelo que valesse a pena lutar. Só numa hipótese perdiam a tolerância: quando alguém tentava romper seu monopólio. Sua imensa frota de guerra conferia-lhe um grande poder; na verdade, esta frota já era muito mais forte que a de Árcon. Os saltadores, que por convicção eram indivíduos cujo maior prazer consistia em arrancar o lucro de um colega, não haviam tardado a compreender que mesmo um individualista tem que se dedicar à defesa dos interesses comuns. Por isso haviam construído uma frota de guerra que andava pelo espaço, aguardando o momento em que qualquer nave mercante solicitasse seu auxílio.
Nos momentos de perigo, embora costumassem viver espalhados pelos quatro cantos da galáxia, competindo entre si, os saltadores formavam uma unidade compacta. “Viver separados, defender-se juntos” — esta frase, que tanto se parece com certo provérbio terrestre, se transformou na concepção fundamental da política dos saltadores.
Ornafer, que transmitiu seu grito de socorro pelas hiperondas, poderia ter certeza de que o auxílio chegaria num brevíssimo espaço de tempo.
Depois tratou de cumprir a segunda parte da ordem de Orlgans: mandou que mais cinco sentinelas se deslocassem para a nave inimiga.

* * *

Tiff levou vinte minutos para ativar os agregados da Good Hope-IX. Mais uma hora se passaria antes que os propulsores da nave trabalhassem a toda força, libertando-a da tenaz magnética da Orla XI.
Estava decidido sobre uma coisa: tal qual Deringhouse, não faria nada ao inimigo.
Tiff saiu da sala de comando sem ser visto. Assobiou um trecho da melodia combinada. Imediatamente Hump, Eberhardt e os três cadetes que os acompanhavam nessa parte da missão saíram dos nichos da escotilha da sala de carga em que estiveram escondidos.
Ainda se ouviam as risadas das moças, vindas da direita.
— Tudo em ordem? — perguntou Hump.
Tiff confirmou com um aceno de cabeça.
— Tudo em ordem. Daqui a uma hora a Good Hope-IX deverá se soltar da nave inimiga. Até lá teremos de estar preparados para dar um jeito nas sentinelas. Vamos voltar à sala de comando — ordenou. — Temos de avisar os outros.
Mal havia dado um passo quando as campainhas de alarma soaram pela nave. Tiff parou e prestou atenção ao ritmo do sinal. O som das campainhas foi interrompido vez por outra, a intervalos irregulares. Não conhecia o significado do sinal.
Em compensação, ouviu as pisadas ruidosas das sentinelas.
— Vamos embora! — cochichou Tiff. — Não devem nos pegar por aqui.
Correram um pedaço. Assim que ouviram os dois saltadores atrás deles, passaram a andar devagar, para não despertar desconfianças.
— Pare! — gritou um deles. — Pare, senão atiro!
Falava em intercosmo, uma língua ensinada a todos os cadetes da Academia Espacial.
Tiff começou a conversar com os amigos e continuou a andar, como se não tivesse ouvido nada. Um tiro disparado por uma das longas armas de impulsos térmicos usadas pelas sentinelas passou com um chiado acima da cabeça dos cadetes e traçou uma linha de fusão da largura de um cabelo no metal do teto.
Tiff parou e se virou. Contorceu o rosto, como se estivesse assustado.
— O que... o que houve? — gritou.
Uma das sentinelas se aproximou.
— Eu mandei que parassem — resmungou. — Não ouviram?
Tiff sacudiu a cabeça.
— Não ouvi nada. O que houve?
— Alarma — respondeu a sentinela. — Por onde vocês andaram?
Tiff deu de ombros.
— Estávamos dando uma volta. Afinal, a gente não pode ficar sentado o tempo todo naquela sala.
A sentinela lançou um olhar por cima do ombro.
— Feria, dê uma olhada na sala de comando. Veja se não fizeram uma das suas.
Feria abriu a escotilha e entrou na sala de comando. A luz se acendeu. Feria olhou em torno.
— Não há nada — disse. — Tudo em ordem.
Tiff suspirou aliviado. Ainda bem que tivera a idéia de inutilizar as luzes de controle do painel de comando.
Alguém subiu pelo poço do elevador; era um saltador, alto e de ombros largos, com a arma de impulsos térmicos embaixo do braço. Foi seguido por quatro criaturas da mesma espécie.
— Ah! Ah! Ah! — riu a sentinela. — O que vieram fazer por aqui?
— Alarma — respondeu um dos saltadores, também com uma risada. — Há transições nas proximidades.
Apontou para os cadetes.
— Vamos trancar esses rapazes e vigiá-los direitinhos, para que não nos causem problemas.
Tiff e seus colegas tiveram bastante juízo para não formular qualquer objeção.
Sabiam que o tempo trabalhava a seu favor; por enquanto a melhor coisa que tinham que fazer era esperar. Esperar uma hora.
Foram levados de volta à sala dos tripulantes, juntamente com as duas moças. A escotilha foi fechada.
Tiff levantou os braços. Era o sinal convencionado, através do qual Deringhouse e os cadetes ficaram sabendo que o plano havia sido executado. Depois disse:
— Colocaram mais cinco sentinelas na nave. Não querem assumir qualquer risco. Registraram algumas transições nas proximidades.

2



— Marshall diz que já está em condições de localizar Tifflor — anunciou Reginald Bell em tom exaltado.
Rhodan acenou ligeiramente com a cabeça e continuou a examinar o quadro projetado na pequena tela setorial. Era a imagem captada pelo rastreador, transformada em sinais óticos.
O sistema de Beta-Albíreo era formado por uma estrela semelhante ao Sol, de cor alaranjada, e uma acompanhante menor, porém dotada de potencial energético mais elevado, que brilhava na cor azul. Além disso, havia planetas, provavelmente em número de quatro.
Depois de terminada a transição, Rhodan já não teve a menor dúvida de que o inimigo poderia ser encontrado nesse sistema. A informação transmitida por Bell apenas serviu de confirmação.
— É claro que Marshall não pode determinar com a precisão de um metro o lugar em que se encontra Tifflor — acrescentou Bell.
Rhodan voltou a acenar com a cabeça. Depois puxou o microfone para junto de si. Apertou um botão e o comandante do cruzador Solar System surgiu na tela. O major Nyssen se encontrava bem à frente do receptor.
— Tudo em ordem, Nyssen — disse Rhodan em tom indiferente. — Tifflor se encontra nas proximidades. Pode partir.
Nyssen confirmou com um aceno de cabeça. Sua imagem se apagou. Dali a poucos segundos, a Solar System abandonou a formação das três naves, acelerando rapidamente. Tomou a direção de Beta-Albíreo.
Rhodan notou quando, a uma distância de três segundos-luz, o cruzador desapareceu subitamente ao iniciar o processo de transição.
Logo após, mandou que também sua nave acelerasse. Dentro de poucos segundos a Stardust e a Terra atingiram metade de velocidade da luz.
— Mantenham-se preparados para a transição — ordenou.

* * *

Já fazia tempo que Orlgans voltara à sala de comando.
— Nada de novo — dizia Ornafer de tempo em tempo. — Ao que parece estão pendurados pelo espaço e não sabem onde procurar.
Já recuperara o otimismo. Mas Orlgans continuava cético.
— Tenho minhas dúvidas — disse. — Não me espantarei se dentro de alguns minutos...
Foi interrompido pelos apitos de alarma. O som era de uma intensidade que Orlgans e Ornafer nunca antes haviam ouvido. O inimigo devia ter aparecido nas imediações.
O sensor estrutural reagiu no mesmo instante. Orlgans não se preocupou com ele. Prestou atenção à voz histérica do observador, que soou do alto-falante:
— Senhor de todas as estrelas! É uma nave arcônida!
Dali a meia hora, Orlgans viu a nave na tela de imagem. Era uma nave esférica de construção arcônida, que se encontrava a menos de dez mil quilômetros.
Orlgans sabia que não estava em condições de enfrentá-la.
— Aceleração máxima! — gritou para dentro do intercomunicador, dirigindo-se à sala de máquinas. — Vamos dar o fora!
Os mecanismos da nave funcionaram com a maior precisão. A energia imensa dos propulsores arrancou a Orla XI de sua órbita e impeliu-a pelo espaço afora.
Orlgans acompanhou o desenrolar dos acontecimentos da sala de comando. Viu que subestimara a velocidade do inimigo. A nave esférica emergira do hiperespaço a uma velocidade próxima à da luz e, face ao seu deslocamento vertiginoso, os esforços da Orla XI revelaram-se inúteis.
Orlgans era um comandante experimentado, que já passara por dez mil transições. Sabia qual o risco ligado à operação de quem emerge da transição a uma velocidade tão elevada. Ele mesmo jamais teria se arriscado a empreendê-la, e sabia perfeitamente que nenhum comandante arcônida se arriscaria.
Que sujeito seria este?
Até então Orlgans estava cético, mas agora estava ficando com medo.
Uma nave arcônida e um comandante desconhecido!
A nave esférica logo alcançou a Orla XI e passou por ela. No momento em que a distância era menor, um raio pálido cinza-claro saiu do bojo da nave inimiga e se perdeu nas profundezas do espaço.
— Ainda bem que não têm pontaria — resmungou Orlgans e ordenou aos seus artilheiros que ficassem alerta.

* * *

Na sala dos tripulantes da Good Hope-IX não se notava que a Orla pusera-se em movimento juntamente com seus prisioneiros. Os neutralizadores da nave prisioneira continuavam a funcionar e conseguiram absorver uma aceleração muito maior que a que vinham enfrentando no momento.
De tempo em tempo, Tiff olhava para o relógio.
Faltavam dez minutos para o momento X.
Apesar das horas, o major Deringhouse sorriu. Na sala reinava um silêncio quase completo. Entendiam-se perfeitamente as palavras que Deringhouse proferiu no seu leito:
— Eu daria os vencimentos de um ano se pudesse ver seus rostos.
De início Tiff se assustou. Mas pôs-se a calcular e concluiu que Deringhouse não assumira nenhum risco. Mesmo que os saltadores introduzissem todas as palavras ali pronunciadas no tradutor positrônico, demoraria mais de dez minutos até que tivessem diante de si a tradução daquela frase pronunciada em inglês; e ainda mais até que compreendessem seu sentido.
Faltavam cerca de três minutos para o momento X. Conforme havia sido combinado, um dos cadetes pôs-se a martelar a escotilha. Dali a menos um minuto, a escotilha deslizou para o lado e os rostos de duas sentinelas saltadoras surgiram na abertura.
— O que houve? — perguntou um deles.
— Estamos com fome — respondeu Tiff.
— Preparem comida!
— Não temos nada — disse Tiff.
A sentinela riu. Virou-se e gritou:
— Honap, arranje comida.
A voz retumbante de Honap soou do corredor principal:
— Não posso ir para lá. Com a velocidade em que estamos a travessia é muito perigosa.
A sentinela voltou a se dirigir a Tiff.
— É isso mesmo — resmungou. — Estamos viajando há alguns minutos. Vocês terão de esperar até que a Orla XI não esteja acelerando mais.
Tiff estava muito surpreso, mas sabia que, apesar disso, não poderia deixar de aproveitar a oportunidade que se oferecia. Sabia perfeitamente que da próxima vez a sentinela não se mostraria tão confidente.
Tiff encarou os companheiros. Os rostos dos outros cadetes revelavam a mesma surpresa. Um deles perguntou:
— Por que a Orla XI está acelerando?
Apesar da pergunta, Tiff começou a assobiar.
Viu que todos viravam a cabeça; estavam compreendendo. A Orla XI estava viajando, com a Good Hope-IX a reboque, e ninguém sabia por quê. O momento era este!
Tiff saltou para a frente. Antes de voltar ao chão, seu braço enlaçou a enorme nuca da sentinela. O impacto levou-o para o corredor; mas Tiff encolheu as pernas e arrastou a figura maciça do saltador para dentro da escotilha.
O corpo se tornou flácido. Tiff deixou-o cair.
— Cuidem dele! — gritou.
Os cinco cadetes destacados para vigiar os prisioneiros puseram-se a desempenhar suas funções.
Hump, ajudado por dois cadetes, dominou a outra sentinela.
Honap teve a atenção despertada para o ruído. Aproximou-se, caminhando ruidosamente. Tiff e Eberhardt se lançaram simultaneamente sobre ele. A arma de impulsos térmicos de Honap não lhe serviu de nada, pois quando conseguiu levantar o cano já era tarde. Um tiro sem pontaria se perdeu com um chiado pelo corredor. Um instante depois disso, Honap jazia no chão, inconsciente.
— Faltam quatro — disse Tiff, fungando. — Vamos para a sala de comando.
Não viram nenhuma das quatro sentinelas que restavam. Um bando de cadetes correu pelo corredor principal.

* * *

— Olhe a nave! — gritou Ornafer, cheio de desespero. — Está se desprendendo.
Por um instante, Orlgans ficou sem saber o que Ornafer queria dizer.
Mas logo lançou um olhar para a tela lateral.
A pequena esfera que representava a nave aprisionada havia desaparecido. Ou melhor, ainda não havia desaparecido de todo, pois dela ainda se via uma pequena mancha pendente no espaço.
Mas se desprendera da Orla XI.
Orlgans praguejou.
Teve vontade de sair em perseguição aos fugitivos e recapturá-los. Mas a tela frontal ainda refletia a grande nave inimiga sob a forma de um ponto palidamente iluminado. O tiro de desintegrador disparado pela mesma havia passado a apenas algumas centenas de metros da Orla XI.
Era ali que ficava o maior perigo, concluiu Orlgans.
Não sabia como os prisioneiros haviam conseguido se libertar. E no momento não era o que mais importava.
A luz pálida que representava o cruzador arcônida havia ultrapassado a intensidade luminosa mínima e voltou a se aproximar da Orla XI.
— Onde estão nossas naves de guerra? — gemeu Orlgans. — Da próxima vez a pontaria deles será melhor.

* * *

O major Nyssen não pretendia atingir a Orla XI. Agora, que a Good Hope-IX conseguira se desprender da máquina ruidosa dos saltadores, estava interessado apenas em confundir o inimigo até que conseguisse capturá-lo com um campo gravitacional; da mesma forma como os saltadores haviam aprisionado a Good Hope-IX.
Nyssen tinha plena certeza de que a nave inimiga era muito inferior à Solar System. Não respondera ao fogo no momento em que foi ultrapassada. Não poderia haver início mais poderoso.
Nyssen mandou que todas as reservas de energia fossem utilizadas para alimentar o gerador gravitacional.
Todos os observadores da Solar System estavam ocupados em localizar eventuais inimigos que se aproximassem. Não encontraram nenhum. A Solar System, a nave inimiga e a Good Hope-IX estavam sozinhas naquele setor do espaço.
Mais uma vez Nyssen passou a algumas centenas de quilômetros do inimigo e mandou disparar uma salva, errando a pontaria de propósito.
Ficou satisfeito ao notar que a nave inimiga iniciou manobras desviacionistas. Descreveu uma curva ampla e continuou a acelerar.
Nyssen mandou que a Solar System fizesse meia-volta e mais uma vez se lançasse ao ataque.
Enquanto as duas naves se aproximavam, ordenou:
— Preparar o campo gravitacional para a captura.

* * *

— Estamos soltos! — gritou Tiff.
Os compensadores de aceleração da Good Hope-IX haviam absorvido não apenas a pressão resultante da fuga precipitada da Orla XI, mas também aquela produzida pelo desprendimento da nave inimiga.
Ninguém que se encontrasse no interior da Good Hope-IX perceberia que a nave estava realizando manobras, a não ser que tivesse diante de si uma tela com os resultados fornecidos pelo rastreador.
Nos receptores da sala de comando via-se perfeitamente que a Orla XI, reduzida a uma faixa estreita e pálida, estava a uma distância de pelo menos mil quilômetros da Good Hope-IX.
Haviam subjugado mais duas sentinelas, postadas diante da escotilha da sala de comando. As duas que faltavam deviam estar andando pela nave. Tiff espalhara os cadetes de tal maneira que, nos próximos quinze minutos, os dois saltadores teriam que dar com eles.
Não havia mais nada que pudesse sair errado.
Conforme se combinara, o cadete Eberhardt assumira o posto de observador. Por algum tempo, estudou o registro da maneira tranqüila que lhe era peculiar; depois gritou com a voz rouca:
— Há uma terceira nave! Tiff virou-se apressadamente.
— Já chegou? Onde?
Sem dizer uma palavra, Eberhardt apontou para a tela esverdeada do rastreador. Tiff saltou para junto dela e percebeu duas manchas luminosas que se deslocavam rapidamente. Uma delas era comprida e fina; só podia ser a Orla XI. A outra consistia apenas num ponto que cresceu rapidamente, transformando-se num disco.
— É a Stardust-III! — murmurou Eberhardt, trêmulo de emoção.
Tiff leu a posição das duas naves. A nave esférica encontrava-se a cerca de vinte mil quilômetros, isso no momento da leitura de Tiff. Se fosse a Stardust-III, sua imagem na tela devia ser muito maior.
— O hipercomunicador está preparado? — gritou Tiff sem virar a cabeça.
— Está! — respondeu alguém.
Tiff virou-se e ajustou o microfone.
— Atenção, mensagem de socorro! Atenção, mensagem de socorro! Good Hope-IX chamando todas as naves da frota espacial terrestre. Good Hope-IX chamando todas as naves da frota espacial terrestre.
Ficou calado por um instante aguardando a resposta, que veio dentro de poucos segundos.
— Solar System para Good Hope-IX. Comandante Nyssen falando. Daqui a pouco iremos buscá-los; ainda temos de liquidar um assunto.
Tiff sorriu.
— Está bem.

* * *

Orlgans acompanhava as manobras da nave inimiga com uma exaltação que lhe provocava tremores.
Ornafer, imobilizado, encarava as telas.
— Desta vez eles nos pegam — resmungou Orlgans. — Não vão errar a pontaria mais uma vez.
A nave esférica voltara a passar em disparada perto da Orla XI. Ainda desta vez disparara vários tiros, mas nenhum deles acertara o alvo. Numa manobra arriscada, o inimigo modificou sua rota e voltou a se aproximar.
Orlgans deu ordem para que desta vez os artilheiros respondessem ao fogo. A esperança de que as peças pesadas da Orla XI pudessem causar algum mal à outra nave era muito reduzida. Mas nem mesmo um mercador gosta de morrer sem tentar a defesa.

* * *

Rhodan aguardava. Estava impaciente. Não havia notícias de Nyssen, nem da Good Hope-IX.
O cronômetro, regulado para a contagem de tempo terrestre, marcava 21:12 h do dia 28 de julho, tempo de Terrânia.
— Já está na hora de darem sinal de vida — resmungou Bell.
Rhodan lançou mais um olhar para o relógio. Aproximou-se do microfone.
— Rhodan para MacClears. Prepare-se para o salto. Precisamos verificar o que está acontecendo.
* * *

Os relógios de bordo da Good Hope-IX marcavam 21:14 h, hora de Terrânia.
— As máquinas estão trabalhando com sessenta por cento de sua capacidade — disse Hump.
Tiff respondeu:
— Isso não basta para ativar os campos protetores.
— Para que campos protetores? A Orla XI se encontra a quase trinta mil quilômetros; além disso, está ocupada com a Solar System. Ninguém nos fará nada.
Tiff acenou com a cabeça; parecia pensativo.
— Tomara que as coisas continuem assim. Não acredite que os saltadores, sem mais nem menos...
Um sinal estridente de alarma arrancou-lhe as palavras da boca.
— Rastreação estrutural! — gritou um dos cadetes. — Houve uma transição a pequena distância.
Tiff não deu muita atenção à notícia.
— É a Stardust-III — disse.
Mas o observador logo o retificou.
— São trinta objetos não identificados. Distância: 3,107 m; Pi, vinte e um; Teta, oitenta e nove; velocidade de 8,106 m/s; componente em relação à nossa direção, 2,5.104 m/s.
Tiff virou-se apressadamente.
— Como é o aspecto dos objetos?
— São finos e cilíndricos.
— São as naves dos saltadores — gritou Tiff. — Ativar os campos protetores!
Hump respondeu em tom zangado:
— A energia não é suficiente. As máquinas estão funcionando com apenas sessenta e cinco por cento de sua capacidade.
Enquanto isso, o observador anunciou:
— Atenção, estão abrindo fogo contra nós.

* * *

No momento em que o sensor estrutural reagiu, Ornafer se sentiu tão surpreso que levou algum tempo para transmitir a notícia a Orlgans.
— Há uma transição muito forte nas imediações — fungou. — Estamos perdidos de vez.
Mas, dali a dois segundos, Orlgans gritou com a voz retumbante:
— São nossas naves de guerra! Estamos salvos!

* * *

A constatação da presença das trinta unidades espaciais não provocou qualquer pânico a bordo do cruzador Solar System. Nyssen se limitou a resmungar:
— A coisa está ficando séria. Instruiu o setor de pilotagem a colocar a nave em posição de espera, desistindo por ora do inimigo com que até então se haviam defrontado. O pessoal da sala de máquinas recebeu ordem para pôr o gerador gravitacional a funcionar em ponto morto.
Só depois disso, Nyssen avisou a Stardust-III. Por lá a transição também devia ter sido constatada. Por isso, Nyssen se limitou a descrever as naves inimigas.
— São bastante parecidas com o veículo espacial que temos diante de nós — disse. — Diria que pertencem aos mesmos seres. Apenas a construção dessas trinta é um pouco mais bojuda. Parecem mais perigosas que a canoa que até agora tivemos diante de nós.
Mal havia terminado seu relato quando o observador anunciou a ocorrência de descargas energéticas a uma distância de cerca de dezoito mil quilômetros.
Nyssen compreendeu imediatamente: a Good Hope-IX estava sendo bombardeada. Tentou estabelecer contato com a nave auxiliar; mas não conseguiu mais. Face a isso colocou em movimento a Solar System e dispôs-se a atacar a formação inimiga. A enorme superioridade do inimigo não poderia demovê-lo desse intento.

* * *

A primeira salva passou a algumas centenas de metros da Good Hope-IX; Tiff deu ordem para responder ao fogo, mas não conseguiu muito. Sua tripulação era muito reduzida; além disso a experiência dos tripulantes com o manejo dos pesados desintegradores, radiadores térmicos e canhões neutrônicos era muito limitada.
Apesar disso, uma das naves inimigas foi destruída.
Os cadetes começaram a exultar. Mas nem chegaram a abrir bem a boca quando a Good Hope-IX sofreu um forte solavanco e foi deslocada alguns quilômetros para fora de sua rota, com tamanha rapidez que os compensadores de aceleração mal conseguiram reagir.
— Houve um impacto na sala de máquinas! — gritou alguém.
As sereias começaram a uivar, e a luz vermelha de controle da sala de máquinas começou a piscar.
Sentado diante do painel do piloto, Julian Tifflor distribuía suas instruções com a calma, objetividade e segurança de um comandante experimentado.
— Temos capacidade de manobrar? — perguntou tranqüilamente.
A resposta não se fez esperar:
— É quase nula. Não chega a cinco por cento.
Tiff acenou com a cabeça.
— Atenção, artilheiros! Continuem a disparar. Mantenham o inimigo à distância.
— Entendido.
Tiff virou-se com a cadeira.
— Vamos descer — decidiu.
Hump perguntou:
— Nós quem? Só temos um destróier a bordo, e nele não cabem mais de três pessoas.
Tiff deu de ombros.
— Pois teremos que fazer com que caibam cinco: as duas moças e três homens. Sugiro que Deringhouse seja um dos três.
A sugestão encontrou a concordância dos demais.
— Está bem — respondeu Eberhardt. — Quem serão os outros?
Tiff já estava andando.
— Veremos. Venham comigo. Correram para a sala dos tripulantes. O impacto violento atirara o major Deringhouse fora do leito. Ele arrastara-se até a mesa e procurava se levantar.
Tiff expôs a situação em que se encontravam.
— Vamos levá-lo para fora — concluiu.
Deringhouse deixou-se cair novamente e fez um gesto de recusa.
— Nem pensem nisso — disse. — Tive tempo de sobra para quebrar a cabeça sobre os planos de Rhodan. Tifflor, você se encontra numa missão muito importante. Acho que convém que dê o fora daqui. Leve as moças e estes dois — apontou para Eberhardt e Hump — e não se esqueça de levar armas. Tomem as armas de impulsos térmicos dos saltadores.
Tiff protestou, mas Deringhouse cortou-lhe a palavra.
— Nada de discussões, cadete Tifflor! É uma ordem!
Tiff fez continência.
— Entendido!
Perto da escotilha, os cinco saltadores estavam deitados no chão, amarrados. Mais adiante viam-se os canos compridos dos radiadores de impulsos térmicos, que os cadetes lhe haviam tomado.
— Peguem os cinco! — ordenou Tiff. — Nunca poderão ser demais.
Eberhardt e Hump recolheram as armas. Tiff parou na escotilha e olhou para Deringhouse.
— Sinto-me como se fosse um... — principiou, mas logo foi interrompido por Deringhouse.
— Cale a boca, cadete — gritou. — Trate de dar o fora o quanto antes. Procure abrir caminho para a Stardust-III. De qualquer maneira, entre imediatamente em contato com o chefe.
Tiff voltou a fazer continência e se retirou. Hump e Eberhardt seguiram-no. Foram buscar as moças nos seus camarotes.
No hangar do destróier, Tiff deu as últimas instruções.
— Suspendam o fogo e procurem salvar ao menos a vida — ordenou aos cadetes. — Por enquanto o inimigo leva vantagem sobre nós. Não façam tolices.
As duas moças já se encontravam na cabina. Hump deu-lhes as armas. Ainda estava com o último dos radiadores na mão quando a escotilha interna começou a emitir um zumbido e se abriu lentamente.
Eberhardt se encontrava sobre a asa esquerda do destróier. Ficou perplexo quando viu o que havia atrás da escotilha.
— Cuidado! — gritou.
Tiff deixou-se cair para a frente e rolou em direção a Hump. Um disparo de radiações chiou através do recinto. Hump compreendeu com uma rapidez espantosa. Apontou a arma e disparou uma série de tiros contra a escotilha. Um grito horrível saiu da abertura. Um vulto alto e largo cambaleou para dentro do hangar, procurou se manter de pé e acabou tombando ao chão com um forte baque. Passos apressados se afastaram pelo corredor que dava para o hangar.
Hump saltou em direção à escotilha, passando por cima do saltador gravemente ferido.
— Fique aqui! — gritou Tiff. — Não temos tempo a perder!
Hump estacou em meio à corrida e voltou. Virou o saltador inconsciente, deitando-o de costas. Apresentava uma grande queimadura bem no ombro esquerdo.
— Vai escapar — disse Hump laconicamente.
Saltou para cima da asa do destróier e entrou na cabina. Tiff foi o último a entrar; enfiou-se no assento do piloto.
Numa mensagem apressada, informou a sala de comando de que um dos dois saltadores que continuavam em liberdade estava deitado no hangar, gravemente ferido, e que o outro havia escapado.
Depois ordenou:
— Fechem os trajes espaciais! Preparem-se para sair!

* * *

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