terça-feira, 11 de dezembro de 2012

P-030 - Perigo no Planeta Gelado - Kurt Mahr [parte 2]


Foi empurrado com certa violência para dentro de uma sala na qual havia dois homens. Mouselet só conhecia um deles.
O francês viera juntamente com três guardas. Dois deles permaneceram no corredor, enquanto aquele que trazia o pequeno tradutor mecânico pendurado no pescoço entrou.
— O que é que você sabe sobre o planeta da vida eterna? — perguntou Etztak em tom áspero. O pequeno instrumento traduziu a pergunta.
Mouselet levantou os olhos, surpreso. Com um misto de pavor e perplexidade encarou o patriarca encanecido. Depois de algum tempo lançou um olhar de súplica para Orlgans, que já era seu conhecido; mas o rosto de Orlgans não demonstrava a menor emoção.
— Nem... nem sei... no que o senhor está falando — respondeu Mouselet gaguejando, e a resposta traduzida pelo instrumento também saiu gaguejante.
Etztak se levantou de um golpe. O gesto violento daquele gigante de ombros largos deixou Mouselet ainda mais perplexo e assustado.
— Vamos ao interrogatório psicológico — ordenou Etztak.
Também estas palavras foram traduzidas.
Mouselet não tinha a menor idéia do que seria um interrogatório psicológico, mas a expressão bastou para assustá-lo. Pôs-se a protestar.
— Pois ouça! — lamentou-se Mouselet, e a voz mecânica do tradutor, que seguia suas palavras com um pequeno atraso, fez com que se sentisse ainda mais nervoso. — Terei o maior prazer em dizer tudo que sei. Mas nunca ouvi falar no planeta da vida eterna. O que vem a ser isso? Um planeta?
Os dois saltadores o olharam rigidamente. Etztak levantou a mão e fez um sinal para o guarda. Mouselet compreendeu.
— Não! — gritou. — Não quero ser submetido ao interrogatório psicológico. Não posso dizer nada além do que já disse.
O guarda segurou o francês franzino e o arrastou para o corredor, e dali para a célula de interrogatórios, que ficava a cerca de duzentos metros.
— Parece que realmente não sabe nada — disse Orlgans em tom pensativo.
Etztak resmungou; parecia contrariado.
— Pode ser. Mas é possível que no seu subconsciente saiba de alguma coisa que se relacione com o planeta da vida eterna. Se o interrogarmos pura e simplesmente, não obteremos uma visão de conjunto dos dados armazenados em sua memória; para isso teremos que submetê-lo ao interrogatório psicológico. O analisador não se esquecerá de nenhuma informação.
— Mas o homem não resistirá a isso — ponderou Orlgans.
Etztak fez um gesto de recusa.
— O que importa? — respondeu em tom de desprezo.
* * *
— Não vim para fazer todo o trabalho dos senhores — disse Gucky. — De início sairei sozinho para esclarecer a situação. Devemos descobrir onde se encontra o inimigo. Quando soubermos, dependerá de cada um de nós que o objetivo seja atingido depressa. Mais uma vez vou explicar detalhadamente o nosso objetivo: aqueles seres chamados de saltadores estão interessados na Terra. Agentes deles pousaram em Vênus e em nosso planeta. Pelo que conseguimos apurar, esse interesse está inspirado em intenções hostis. Os saltadores são uma raça bastante evoluída no terreno da tecnologia; por isso a Terra não poderá deixar de se preparar da melhor forma possível para o confronto que se aproxima. Um dos preparativos mais importantes consiste na coleta de informações, e é precisamente para conseguir informações que nos encontramos no Homem de Neve. Precisamos descobrir o que os saltadores pretendem fazer contra a Terra. Precisamos descobrir de que maneira querem realizar seus planos. Precisamos saber quem são seus agentes na Terra, e ainda precisamos conhecer o motivo por que ainda não foi possível prender nenhum deles. Quando tivermos descoberto tudo isto, nossa missão estará concluída.
Piscou para Tiff e nesse mesmo instante deixou de ser o oficial do Exército de Mutantes, para se transformar naquele encantador ser peludo que todos viam nele.
— A esta hora já deve saber — cochichou para Tiff — que tipo de jogo foi realizado com o senhor nestes últimos dias. Foi lançado por Rhodan como se fosse um homem que possui informações muito importantes. Ao que tudo indica, o estratagema foi bem sucedido. Os saltadores estão demonstrando um interesse extraordinário por você.
Não esperou que Tiff dominasse o espanto. Indicou a tarefa que cabia a cada um dos três cadetes e explicou às moças o que tinham a fazer.
Pediu a Moisés que lhe fornecesse a posição da nave inimiga mais próxima e desapareceu num salto de teleportação, depois de ter indicado o momento do seu regresso.
* * *
O interrogatório de Mouselet durou apenas alguns minutos. O instrumento que realizava a tarefa trabalhava com rapidez e precisão, e sem a menor contemplação.
Quando Mouselet foi desamarrado da cadeira em que ficara sentado durante o interrogatório, já não era um ser racional.
A tarefa do analisador consistia em esvaziar o cérebro da pessoa submetida ao interrogatório, armazenar os dados assim colhidos e apresentá-los depois de concluído o interrogatório. Era muito eficiente: o que deixava para trás era apenas uma massa cinzenta espremida, que mal dava para regular as funções animais do ser humano.
O guarda Holloran colocou Mouselet, que afinal já não era Mouselet, numa nave-patrulha de dois lugares e voltou à Orla XI. Mouselet não ofereceu a menor resistência. Holloran levou-o ao seu camarote e trancou-o lá.
Depois foi levar a nave auxiliar de volta para a Etz XXI. Na mesma oportunidade pretendia perguntar a Orlgans se tinha mais algum serviço para ele.
A Orla XI, que pousara no início dessa missão, porque Orlgans julgava necessário dispor de uma base fixa, encontrava-se a cerca de dez quilômetros da gigantesca Etz XXI.
Holloran mal saíra da comporta da Orla XI em seu pequeno veículo espacial, quando o mesmo, desobedecendo a todos os comandos dados por Holloran, perdeu a velocidade e altitude.
Alguma força de sucção parecia ter atingido o pequenino veículo, ou então os propulsores estavam falhando.
Holloran voara poucos metros acima da neve. Antes que tivesse tempo de ler as indicações dos instrumentos ou expedir uma mensagem de socorro para as duas naves, seu veículo tocou na massa fofa, abriu uma trilha cintilante e parou.
Holloran se agarrara fortemente ao painel de instrumentos, mas não haveria necessidade disso. O pouso foi muito suave, não tendo causado o menor dano ao veículo ou ao seu condutor.
Perplexo, Holloran lançou os olhos em torno. A nave afundara na neve até a metade de sua altura. Na tela panorâmica mal se viam ao oeste os contornos da Orla XI, reduzida a um traço cinzento que se destacava contra a neve. Da Etz XXI não se via absolutamente nada. O veículo afundara muito.
O saltador examinou as indicações dos instrumentos, e quanto mais os examinou, mais confuso ficou. Os instrumentos estavam em ordem, o pequeno propulsor encontrava-se ligado. Por que o veículo fora arrastado ao solo?
Holloran franziu a testa e tentou a decolagem. Bastaria ligar o propulsor vertical para um desempenho médio e...
Nada! Não conseguiu mover a chave...
Incrédulo, reforçou a pressão do dedo. Quando nem assim conseguiu fazer a ligação, usou toda a mão e finalmente bateu com o punho cerrado contra a chave rebelde.
Foi tudo em vão. A chave não se movia.
Por alguns segundos, ficou parado. Estava duro de perplexidade. Finalmente deu-se conta de que não lhe restava outra alternativa senão expedir um pedido de socorro para a Orla XI. Pediria que viessem buscá-lo.
Com um movimento automático, pegou a chave do transmissor e procurou comprimi-la para baixo.
Soltou um grito de pavor quando percebeu que também essa chave estava imobilizada.
Holloran experimentou ao acaso as outras chaves. Funcionavam. Podia ligar e desligar à vontade as luzes de emergência, o aparelho de condicionamento de ar, os rastreadores e a tela.
Acontece que não era das luzes de emergência, nem do condicionamento de ar, nem dos rastreadores, nem da tela que precisava.
Precisava do propulsor vertical ou do transmissor. Olhou em torno para ver se havia outro veículo no ar, que pudesse vê-lo. Mas o espaço estava vazio até onde alcançava a sua vista.
Começou a quebrar a cabeça sobre sua situação. Conforme as circunstâncias, poderia ficar por alguns dias na neve, totalmente desamparado. Não poderia descer, pois estava sem traje protetor. Pretendia voar apenas da comporta de uma das naves até a de outra; para isso não se precisava de traje especial. E demorariam bastante a dar pela sua falta. Pertencia à casta dos barqueiros do espaço e, como tal, não era nenhum personagem importante.
Se nem dessem pela falta dele nem o encontrassem por acaso, então...
Em meio aos pensamentos de Holloran, o cérebro parou de funcionar. Acreditou ouvir um riso de escárnio. E também ouviu uma voz que dizia:
— Não fique se preocupando à toa, meu filho. Daqui a pouco estarei de volta, e então seguiremos juntos no seu barquinho.
* * *
Muito antes que Reginald Bell regressasse com a Z-13, John Marshall, um telepata de alta capacidade que se encontrava a bordo da Stardust-III, recebeu a mensagem de Gucky, irradiada por via telepática, segundo a qual o transporte dos equipamentos e seu próprio pouso no mundo de gelo haviam sido bem sucedidos.
Gucky acrescentou que estava colhendo informações sobre a posição do inimigo, motivo por que o trabalho propriamente dito, que consistia na coleta das informações pretendidas, poderia ser iniciado em breve.
Marshall transmitiu a informação a Rhodan. Como suas informações sobre os planos de Rhodan fossem incompletas, se sentiu espantado ao notar que um peso parecia sair de cima do coração de Rhodan quando este soube do êxito alcançado por Gucky.
Muito tempo depois que Marshall havia saído da ampla sala de comando da Stardust-III, na qual no momento só se encontravam Rhodan e Crest, o primeiro disse:
— Fico satisfeito em saber que tudo está em ordem. O jogo que estamos realizando com Tifflor e os elementos de seu grupo é bastante arriscado. Provavelmente estariam perdidos se Gucky não tivesse feito um bom serviço.
Crest, o arcônida, lançou-lhe um olhar pensativo.
— Já estou mesmo admirado em ver — admitiu — com que... bem, com que leviandade você lida com esses homens.
Rhodan sorriu. Compreendia Crest e seu modo de encarar as coisas. Como arcônida que era — fora chefe de uma expedição científica cuja nave realizara um pouso forçado na Lua — pertencia a uma cultura que passara do ponto culminante muito antes da época em que a Humanidade penetrou na segunda idade da pedra. Uma das características fundamentais das concepções arcônidas, que prevaleciam depois do Grande Império ter alcançado o apogeu do seu poderio e estagnado neste ponto de sua evolução, era a opinião de que a vida do indivíduo tem um valor tão elevado que, em benefício da coletividade, mesmo que esta se encontre numa grave emergência.
Só mesmo uma sociedade firmemente estruturada poderia se dar ao luxo de adotar um princípio destes.
— Quer saber de uma coisa? — respondeu Rhodan com um sorriso. — Acho que você nunca compreenderá uma coisa destas. Apesar disso, estou convencido de ter agido corretamente, muito embora no início da missão as possibilidades de sobrevivência de Tifflor fossem de apenas cinqüenta por cento.
Crest voltou a dedicar sua atenção aos instrumentos, a cuja vigilância se dispusera voluntariamente.
Os observadores não forneciam nenhuma informação. As duas frotas inimigas não estavam realizando nenhuma transição, embora talvez se movimentassem. A calma reinava no setor de Beta-Albíreo.
Talvez fosse apenas a calma antes da tempestade.
* * *
Holloran ainda não havia se recuperado inteiramente do primeiro susto quando foi atingido pelo segundo. E este foi muito maior.
Subitamente viu no assento ao seu lado alguma coisa que sempre parecia ter estado lá; um ser nunca visto.
Sua primeira impressão seria que se tratava de um animal, se não estivesse usando um traje espacial.
Aquele ser possuía mais ou menos metade do tamanho de Holloran. Tinha focinho pontudo, orelhas grandes e a parte traseira do corpo um pouco volumosa. Os olhos eram grandes e piscavam alegremente para Holloran através do visor do capacete.
De repente, Holloran voltou a ouvir a voz:
— Você pode demorar um pouco me olhando, mas não muito. Acontece que estou com muita pressa.
É um telepata”, pensou Holloran apavorado. “E parece conhecer mais alguns truques além deste. Talvez seja responsável pelas chaves que não consegui mover.”
— Basta pensar o que você quer dizer — explicou o ser que se encontrava a seu lado. — Eu compreendo. Se não gostar, fale à vontade, que também compreendo.
Um calafrio percorreu a espinha de Holloran. Aquele ser sabia ler todos os seus pensamentos.
— O que quer de mim? — perguntou, perplexo.
— Nada de especial — foi a resposta. — Quero entrar na nave grande que está logo ali. Ninguém me deixaria entrar espontaneamente, e por isso você me levará para dentro no seu barco.
— Não é possível! — fungou Holloran, apavorado. — Se souberem que fiz uma coisa dessas, eles me matarão.
— Tanto melhor para mim — foi a resposta que chegou à sua compreensão. — Assim você ficará de boca calada e não contará nada a meu respeito.
Holloran continuou a protestar. Mas o ser peludo enfiou no bolso a pata dianteira, firmemente envolta no revestimento fino do traje protetor, e tirou uma pequena arma de radiações, apontando-a para o saltador.
— Vamos embora! — ouviu Holloran. — E nada de discussões.
O saltador viu que não tinha outra alternativa senão obedecer à ordem que lhe era dada.
Lentamente e ainda um pouco desconfiado, foi levando a mão para a chave do propulsor vertical. O dedo hesitante comprimiu o botão, e... Clic! A chave cedeu. O propulsor emitiu um zumbido agudo e, no momento em que Holloran avançou a chave e acelerou a máquina, o pequeno veículo se elevou, perfeitamente equilibrado, acima da neve.
— Muito bem — disse o ser peludo. — Continue. Existe algum controle na entrada da comporta da grande nave?
A pergunta deixou Holloran assustado
— Sim... naturalmente — respondeu, falando entre os dentes.
Voltou a ouvir o riso de escárnio com que o ser peludo ainda há pouco anunciara sua presença.
— Não precisa mentir — ouviu Holloran. — Como já lhe disse, entendo seus pensamentos. Não há nenhum controle. Tanto melhor. Nesse caso também não haverá qualquer problema.
Holloran praguejou baixinho. Por que tinha que ser justamente ele que se via numa situação dessas?
A leste, os contornos alongados da Etz XXI começaram a se levantar acima da neve. O ser peludo não parecia lhe dar a menor atenção, mas continuava de arma em punho.
Holloran não tinha a menor chance.
* * *
O assunto foi tão importante que Orlgans e Etztak se incumbiram pessoalmente da interpretação dos dados.
O analisador elaborara um total de vinte e quatro diagramas relativos ao interrogatório de Mouselet, um para cada um dos setores mais importantes do cérebro. As coordenadas dos pontos de medição — cada diagrama possuía de mil a dez mil desses pontos — foram introduzidas num interpretador mecânico, juntamente com os valores estatístico-biológicos também incluídos nos diagramas. O interpretador fornecia as informações decodificadas, concebidas em palavras-chaves concisas, gravadas em estreitas fitas de plástico.
Dali a meia hora constataram que Jean Pierre Mouselet realmente não sabia nada sobre o planeta da vida eterna.
O fato deixou Etztak tão desapontado que ele teve um acesso de raiva. Esteve prestes a atirar ao solo as fitas de plástico gravadas que enchiam a grande mesa, quando Orlgans lhe segurou o braço e exclamou:
— Olhe! Encontrei uma indicação.
Etztak custou a se acalmar. Furioso, arrancou a fita de plástico das mãos de Orlgans e fitou-a.
— Uma coisa é certa — leu baixinho. — A Terra não tem a menor idéia dos planos dos saltadores. Caso Rhodan comece a se interessar pelo assunto, sua primeira preocupação consistirá em colher informações.
— E daí? — resmungou Etztak. — Isso é uma verdade trivial.
Orlgans lhe entregou outra fita. Uma nota na margem dizia o seguinte a respeito das informações que o analisador espremera daquele homem: Atitude fundamental — irônica.
— Pelo que sei de Rhodan — continuou a ler Etztak — ele colocará um espião tão pertinho dos saltadores, que os mesmos nem conseguirão vê-lo com seus enormes olhos. E, pelo que sei de Tifflor, este seria o elemento indicado para uma missão desse tipo.
Etztak se levantou de um salto.
— Isso... isso — fungou.
O rosto de Orlgans parecia indiferente.
— Isso não significa necessariamente — interrompeu o velho — que estejamos na pista errada. Nosso prisioneiro não sabe nada sobre o planeta da vida eterna; logo, não pode saber se Tifflor possui informações a este respeito. Assim mesmo considero a idéia muito importante.
— Se é! — berrou Etztak, batendo com o punho na mesa. — A coisa mais importante sempre foi conhecer a mentalidade do inimigo. O prisioneiro conhecia Rhodan melhor que nós. Se acredita que Rhodan procederia dessa forma, provavelmente está com a razão.
— Só estou interessado numa coisa: como é que o prisioneiro chegou a conhecer deste modo o tal do Tifflor?
Orlgans remexeu as fitas com as informações e tirou mais três. Numa delas lia-se que, por ocasião das últimas ações realizadas a mando do Supercrânio, Mouselet se defrontara com Tifflor. E o confronto não foi nada agradável, tanto que até mesmo o empedernido Mouselet chegou a adquirir certo respeito pelo cadete.
Etztak estava satisfeito. Seus olhos cintilantes fitaram Orlgans, e este sentiu a atividade renovada que irradiava do velho.
— Já que é assim — trovejou a voz de Etztak, precedida de uma estrondosa gargalhada — não temos nenhum motivo para ficarmos parados por aqui. Vamos dar uma busca rigorosa nos arredores dos lugares em que pousamos.
Orlgans estava de acordo, mas acrescentou:
— Sugiro que a busca seja estendida aos arredores do lugar em que os fugitivos se apoderaram de uma nave-patrulha da Orla XI.
Etztak concordou imediatamente.
— Isso mesmo! — confirmou.
Os preparativos foram tomados imediatamente. Etztak extraiu as conseqüências da lição que Orlgans havia recebido. Ordenou aos tripulantes das naves que participariam da operação para que, em hipótese alguma, saíssem dos veículos. Além disso, as naves deveriam voar em grupos de dois ao menos, sempre à vista um do outro.
— Se nosso prisioneiro estava com a razão — ressoou a voz de Etztak pelo intercomunicador, depois de ter ele transmitido suas ordens — não demorará mais que algumas horas até que encontremos os fugitivos.

3



A nave auxiliar de Holloran disparou em alta velocidade para dentro do buraco escuro da comporta do hangar.
Do exame dos pensamentos de Holloran, Gucky concluiu que o saltador não tinha a intenção de matar a si mesmo e ao seu passageiro.
Voava de maneira usual.
A pequena nave foi freada rápida, mas suavemente, e flutuou para o interior de um poço que conduzia para os hangares individuais das pequenas naves de patrulha.
A partir de determinado lugar, a manobra parecia ser automática. Holloran não manipulava qualquer controle. Apesar disso, dali a poucos instantes a nave se encontrava no interior de um nicho na parede do poço de acesso onde, ao que tudo indicava, um campo gravitacional estacionário a mantinha presa ao lugar.
— Chegamos — disse Holloran.
Gucky agradeceu em tom irônico. Continuou sentado por um instante a fim de colher na mente de Holloran alguns dados sobre a estrutura geral da gigantesca nave. Entre as informações que o saltador lhe forneceu a contragosto, Gucky extraiu uma única que julgou aproveitável. Dizia respeito ao depósito de peças de reposição situado na popa da Etz XXI que, segundo Holloran sabia, estava vazio e raramente era utilizado.
No momento em que Holloran se dispôs a sair e pretendia perguntar ao seu passageiro quais eram seus planos, Gucky efetuou o salto. Apavorado, Holloran fitou o assento em que um instante antes se encontrara o ser peludo.
O suor porejou na sua testa quando se deu conta do estrago que um ser desses poderia causar na nave. E se sentiu ainda mais miserável ao se lembrar de que, no seu próprio interesse, deveria se abster de falar com quem quer que fosse sobre o estranho clandestino que acabara de trazer para bordo.
Pálido e trêmulo, desceu de seu veículo e se dirigiu ao intercomunicador mais próximo, a fim de informar o chefe dos hangares de que a nave-patrulha estava de volta, tendo ingressado a bordo em boa forma.
* * *
Gucky se rematerializou sem a menor complicação no pequeno depósito.
Ao primeiro relance de olhos percebeu que a informação de Holloran devia estar errada ou superada. As paredes do compartimento estavam cobertas de grandes armações, e as prateleiras das mesmas estavam ocupadas até o último centímetro quadrado.
A situação daquele compartimento não era tão tranqüila como Gucky esperara. Mas, ao menos no momento, nenhum saltador se encontrava no interior do mesmo.
Utilizando sua capacidade de sondagem, que decorria do dom da telecinésia, Gucky tateou cuidadosamente as imediações do depósito em que se encontrava. Conseguia sentir, até uma distância de cerca de cinco metros, o contorno de objetos que a vista não alcançava.
Apesar do cuidado com que agiu, não perdeu tempo em identificar todos os contornos dos objetos. O que lhe interessava saber era se lá fora alguma coisa se movia num raio de cinco metros do ponto em que se encontrava.
Depois de ter se certificado a este respeito, saltou para fora.
Aterrizou diante da escotilha do depósito. Viu-se num corredor estreito e anguloso, que terminava poucos metros atrás dele, numa parede lisa e brilhante. Gucky apalpou o outro lado da parede e sentiu o gélido vento nevado.
Era o envoltório exterior da nave!
Para descobrir qualquer coisa, teria que se dirigir para o lado oposto.
Foi caminhando alegremente. A cada três ou quatro metros, o estreito corredor era cortado por um ângulo fechado. O “tateador” de Gucky atingia de cada vez o lado oposto desse ângulo. No momento não havia o menor perigo de que alguém desse com a sua presença.
Depois de ter descrito dez ângulos, o corredor desembocava em outro muito mais largo e que se estendia em linha reta, o que deixou Gucky contrariado. Aproximou-se cuidadosamente e tateou o corredor. Concluiu que, ao menos nesse setor, estava vazio.
Continuou a se adiantar e atingiu o fim do corredor estreito. O corredor mais largo tinha uma iluminação bem mais forte.
E estava vazio apenas a uma distância de cerca de vinte metros de ambos os lados.
Gucky viu uma porção de vultos que vinham apressadamente dos dois sentidos e se dirigiam a nichos das paredes, onde desapareceram. Logo concluiu que esses nichos nada mais eram senão as aberturas dos poços dos elevadores antigravitacionais.
Contou trinta saltadores de cada um dos lados. Esperou até que tivessem desaparecido no interior dos poços dos elevadores. Depois se teleportou pelo corredor até onde pôde alcançar com a vista.
Voltou a surgir num ponto em que desembocava um corredor lateral. Este, poucos metros à esquerda, vinha dar em outro corredor, cujo solo estava coberto de fitas rolantes que se deslocavam em ambas as direções.
Gucky percebeu que havia chegado ao grande corredor central da nave. Se suas informações sobre a mentalidade dos saltadores eram corretas, o gabinete do comandante devia ficar nesse corredor central, provavelmente no meio do mesmo.
E o comandante era o homem do qual Gucky esperava obter as informações de que precisava. Como não conhecesse a posição exata do gabinete, teve que avançar pelo corredor central.
A tarefa não seria nada fácil, concluiu Gucky.
Apesar disso, teria que ser tentada.
* * *
— Observação! — disse Moisés laconicamente.
Tiff ergueu a cabeça.
— O que é, Moisés? — perguntou.
— Uma porção de veículos pequenos — respondeu Moisés. — Vejo-os em todas as direções. Viajam dois a dois, perto um do outro. Os mais próximos se encontram em R, quinze mil; Pi, cinco. Altitude constante de trezentos metros.
Tiff se levantou.
— Então é isso — disse em tom sombrio. — Ainda estão à nossa procura. Preparem-se.
Humpry Hifield continuou sentado, encostou as costas enormes contra a parede e lançou um olhar desconfiado para Tiff.
— Quem lhe garante que são saltadores? — perguntou em tom contrariado.
— Sim, você tem razão. Devem ser umas estátuas de gelo.
Tiff acenou com a cabeça.
Não se preocupou com Hump. Há muito os pacotes trazidos por Gucky haviam sido levados para o interior da caverna e desembrulhados. Os trajes transportadores arcônidas estavam cuidadosamente estendidos no fundo da caverna, prontos para serem enfiados no corpo.
Tiff tirou o traje espacial e envergou o traje transportador. Eberhardt seguiu seu exemplo. Hump continuava imóvel, encostado à parede.
Eberhardt disse:
— Até parece que você está com medo dos saltadores, Hump.
Hump se levantou e se aproximou a passadas vigorosas.
— Nunca mais diga uma coisa dessas! — disse em tom ameaçador.
Também começou a tirar o traje espacial para envergar o traje transportador.
— Controle de funcionamento! — ordenou Tiff. — Campo de deflexão?
— Em ordem.
— Campo de choque?
—  Em ordem.
— Antígravo?
— Em ordem.
— Aquecimento?
— Em ordem.
— Está bem!
Tiff dirigiu-se às moças.
— Vocês ficarão por aqui; não se mexam — ordenou.
Depois se aproximou de Moisés.
— Você irá conosco até a parede externa, Moisés! — ordenou. — Só apareça fora da caverna quando eu o chamar. Um bloco metálico como você seria localizado imediatamente.
Entendido — confirmou Moisés.
Tiff olhou para trás.
— Bem que gostaria que Gucky estivesse de volta — murmurou. Com a voz alta acrescentou: — Fechem os capacetes. Segurem as armas. A comunicação pelo rádio de capacete será realizada com a potência mínima.
Todos fizeram o que estava dizendo.
— Vamos dar o fora.
Moisés removeu a peça que fechava a parede divisória. Uma lufada de ar frio penetrou na caverna. O robô se espremeu pela abertura estreita, seguido por Tiff, Eberhardt e Hump.
— Encontram-se a apenas cinco mil metros — anunciou Moisés, enquanto recolocava a peça separatória. — Pi inalterado, altitude continua em trezentos.
Tiff compreendeu. Pi inalterado; isso significava que os dois veículos se dirigiam ao centro do sistema de coordenadas. E esse centro era constituído por Moisés com seu mecanismo localizador.
* * *
— Eu diria que ali à frente há uma grande cadeia de montanhas — disse Vilagar.
Pcholgur acrescentou esta observação:
— E eu diria que alguém que queira se esconder da gente terá melhores chances numa zona montanhosa. Ninguém costuma se enterrar numa planície.
Vilagar riu.
— Quer dizer que somos da mesma opinião.
Vilagar e Pcholgur eram os tripulantes de uma das naves-patrulha cuja presença fora constatada por Moisés. Vilagar entrou em contato pelo telecomunicador com a outra nave-patrulha e transmitiu-lhes sua suspeita e a de Pcholgur.
Horlgon, um jovem da família Horl, à qual pertencia a Horl VII, e Enaret foram de opinião que a suspeita era perfeitamente plausível.
— Quer dizer que daqui em diante devemos ter um cuidado todo especial — disse Horlgon. — Estamos a cerca de quatrocentos quilômetros do ponto em que os fugitivos aprisionaram nossa nave. É bem possível que tenham se escondido nesta área.
— Sou da mesma opinião — respondeu Vilagar. — Convém que reduzamos a velocidade assim que atingirmos as montanhas.
— Isso mesmo — respondeu Horlgon.
* * *
No momento em que olhou o mostrador do relógio luminoso, Tiff teve de reprimir um acesso de saudades. 2 de agosto, 6:51 h, hora de Terrânia. A essa hora um novo dia começava a raiar em Terrânia.
Aqui no Homem de Neve o ponto luminoso formado pelo sol azulado descia para o horizonte. Embora a mancha alaranjada do astro principal continuasse no céu, sua luminosidade era tão fraca que depois do pôr do sol azulado não passaria de uma lua de intensidade média.
Haviam assumido suas posições na beira da grota em que estava escondida a nave-patrulha.
Tiff mantinha contato ininterrupto com Moisés, que aguardava junto à parede exterior da caverna. Moisés o informou sobre a posição das duas naves-patrulha. Tiff já se dera conta de que seus tripulantes nutriam uma suspeita toda especial para com a cadeia de montanhas em que ficava a caverna. Alteraram a rota e descreveram círculos cada vez menores em torno de um ponto que distava poucos quilômetros da caverna.
* * *
Vilagar e Pcholgur experimentaram uma nova técnica.
Mantiveram a nave a cerca de cem metros de altitude e deixaram que os feixes de raios do rastreador circulassem em torno deles.
Horlgon e Enaret se uniram a eles. Sua nave mantinha-se a poucos metros de distância, sempre à vista da outra nave, conforme fora ordenado por Etztak.
Os quatro tripulantes sabiam perfeitamente que não conseguiriam localizar os próprios fugitivos. A essa hora deviam estar escondidos em alguma caverna.
Mas devia haver uma possibilidade de localizar a nave-patrulha de que os mesmos haviam se apoderado, desde que o rastreador pudesse realizar um trabalho preciso.
Quem encontrou a nave-patrulha desviada foi Horlgon.
Indicou as coordenadas e Vilagar também dirigiu os raios do rastreador para o local indicado.
— Vamos mudar de posição — sugeriu Vilagar.
A voz de Horlgon soou muito nervosa:
— De acordo. Não devem perceber que foram descobertos. Isso se já constataram nossa presença.
Vilagar ficou aborrecido porque Horlgon logo adivinhara suas intenções.
* * *
O cálculo de Tiff era exato e convincente.
— Faz duas horas que estão trabalhando por um novo sistema — disse. — Permanecem cerca de vinte minutos sobre determinado ponto e dão busca na área circunvizinha até onde alcançam seus instrumentos. Fizeram isso cinco vezes. Da sexta vez, quando se encontravam quase em posição vertical sobre a grota, não demoraram mais que oito minutos para seguir viagem. Se isso não significa que nesses oito minutos descobriram a nave e só seguiram para nos enganar, vocês podem me chamar de Hopalong.
— Combinado, Hopalong! — respondeu Hump. — Acho que você está vendo as coisas pretas demais.
Tiff não teve necessidade de responder. Eberhardt falou.
— Acho a explicação de Tiff perfeitamente plausível. Se estivesse no lugar dos saltadores, teria agido da mesma forma, apenas não deixaria que desse tanto na vista.
Moisés indicou os novos dados sobre a localização do inimigo. As duas naves se encontravam trezentos metros além da caverna.
— Esperemos! — sugeriu Tiff. — Se encontraram nossa nave, não demorarão para mudar sua tática.
Eberhardt pôs-se a resmungar.
— Gostaria de ver você de novo. O que vamos fazer com os defletores?
— Continuarão ligados! — respondeu Tiff em tom áspero. — Não sabemos qual é o alcance dos seus instrumentos.
* * *
Gucky passara cerca de meia hora junto à entrada do corredor lateral, esquivando-se habilmente de qualquer pessoa em cujo cérebro pudesse ler que a mesma nunca poderia se dirigir diretamente ao comandante.
Precisava que alguém o informasse, com a precisão de um metro, sobre a posição da sala em que se encontrava o comandante.
Gucky recuou mais um pedaço para o corredor pouco movimentado pelo qual viera e procurou um lugar no qual lhe bastaria saltar através da parede para encontrar um esconderijo seguro, caso se aproximassem várias pessoas de uma vez.
Pôs-se a esperar.
Nos primeiros dez minutos, ninguém passou por perto. Nem sequer teve necessidade de saltar.
Mas, pouco depois, um grupo de saltadores passou apressadamente pelo corredor. Seus pensamentos estavam tão confusos que Gucky não conseguiu decifrá-los. Saltou através da parede e só retornou depois que a área estava limpa.
Mas finalmente chegou um grande momento!
Um único saltador saiu do corredor lateral e se aproximou calmamente do lugar em que Gucky se encontrava. Este saltou para seu esconderijo, para não trair sua presença antes da hora.
Estendeu seus tateadores e abrangeu o homem que se encontrava do outro lado da parede, a apenas cinco metros do ponto em que estava. Ainda caminhava tranqüilamente, balançando os braços.
Gucky saltou de volta para o corredor.
Ouviu o grito de pavor do saltador, um ser enorme de ombros largos, e leu o medo súbito que surgiu em sua mente.
Gucky apontou sua arma de impulsos térmicos. O saltador parou e permaneceu em silêncio.
Falando em intercosmo, Gucky explicou:
— Nada lhe acontecerá, desde que você me informe pela maneira mais rápida e exata possível qual é a sala em que está o comandante.
Gucky viu a gama de pensamentos espantados, surpresos e pavorosos desfilar diante dele.
— Vamos logo! — insistiu. — Eu o matarei antes de deixar que me agarrem por sua causa.
O saltador compreendeu. Também compreendeu que era seu dever colaborar para a segurança da nave, não revelando a verdadeira posição da sala do comandante.
Mas quando esse pensamento atravessou sua mente, a informação de que Gucky precisava já estava contida no mesmo. O saltador ouviu um conselho irônico:
— Não se incomode mais, meu filho. A sala de comando de Etztak fica no corredor central, setor centro. A escotilha está bem marcada. Muito obrigado. Conte a outra pessoa aquilo que você estava tramando.
Depois disso, Gucky saltou. De início se limitou a voltar ao seu esconderijo. A informação que o saltador lhe fornecera contra a vontade era bem mais extensa do que se depreenderia das palavras de Gucky. Na verdade, sabia com a precisão de um metro em que ponto encontraria Etztak. Como a distância fosse relativamente pequena, poderia saltar para lá diretamente do seu esconderijo.
Mas o salto exigia um grau de concentração todo especial. Era possível que no momento em que surgisse na sala de comando de Etztak ali se encontrassem várias pessoas. Se isso acontecesse, teria que saltar de volta no mesmo instante.
Além disso, sabia que o saltador com o qual acabara de se defrontar não levaria muito tempo para compreender que seu encontro com o ser peludo que usava um traje espacial e possuía dons telepáticos não era um simples sonho. E não havia dúvida de que, quando isso acontecesse, informaria os outros sobre o incidente.
Gucky não sabia como os saltadores costumavam reagir diante de notícias sensacionalistas desse tipo. Era bem possível que se limitassem a zombar de quem as trouxesse e o mandassem embora. Mas também era possível que Etztak fosse avisado imediatamente.
Gucky resolveu admitir esta última possibilidade.
Teria que agir depressa.
Demorou alguns segundos para se concentrar no salto... e saltou.
* * *
— Vamos descer! — disse Vilagar. Pousaram as naves cautelosamente na neve.
— E agora? — perguntou Horlgon.
Vilagar deu uma gargalhada provocadora.
— De cada uma das naves descerá uma pessoa para dar uma olhada no ponto indicado — respondeu.
Horlgon ponderou:
— Acontece que Etztak proibiu que saíssemos dos veículos.
— Se é assim, como espera pegar essa gente? — retrucou Vilagar.
Quando Horlgon não soube o que responder, Vilagar achou que sua proposta havia sido aceita.
— Que tal nós dois, Horlgon? — perguntou.
— De acordo — respondeu Horlgon.
Pela sua voz percebia-se que só a contragosto agia em contrário às ordens do patriarca.
— Pois vamos — disse Vilagar com uma risada.
* * *
— Pousaram depois de doze minutos — constatou Tiff tranqüilamente. — Será que ainda existe alguma dúvida de que descobriram a nave?
— Não — respondeu Eberhardt.
— Hump ficou calado. Pelo receptor de capacete Tiff ouviu que respirava pesadamente.
— E agora? — indagou Eberhardt.
— Deixem os defletores ligados — ordenou Tiff. — Vamos dar uma olhada.
Levantaram-se da nave. Andaram alguns passos. Como os defletores ligados não permitissem que se vissem uns aos outros, as pistas deixadas na neve lhes causavam arrepios.
Tiff ordenou às moças, que se encontravam na caverna, que ficassem quietas. E mandou que Moisés se colocasse em posição de espera. O inimigo estava a trezentos metros. Tiff sabia que, apesar de seu peso, Moisés poderia vencer esse trecho em poucos instantes. Em caso de necessidade, chegaria em tempo.
Depois disso, ordenou aos seus acompanhantes que ligassem o antígravo. O gerador começou a funcionar, e o potente campo gravitacional elevou os cadetes alguns metros acima da neve solta, que trairia sua presença.
Viajando tranqüilamente pela escuridão, aproximaram-se do ponto em que, segundo as indicações fornecidas por Moisés, a nave-patrulha acabara de pousar.
— Para prevenir qualquer eventualidade — disse Tiff tranqüilamente — liguem os campos protetores. É bem possível que comecem a atirar assim que nos percebam.
* * *
A neve era macia. A cada passo afundavam até as coxas.
Ainda bem”, pensou Horlgon, “que a gravitação é tão reduzida. Se não fosse assim só chegaríamos ao destino amanhã de manhã.”
Vilagar tinha muito mais pressa que ele mesmo. Era uma pressa perigosa, pensou Horlgon.
Depois de terem caminhado uns quinze minutos, quando haviam vencido cerca de metade da distância, Horlgon disse:
— Será que convém caminharmos diretamente para o objetivo?
Vilagar parou.
— Por quê?
Horlgon estendeu as mãos e virou para cima as palmas revestidas de grossas luvas.
— Afinal, essa gente tem naves arcônidas. É bem possível que também disponham de geradores de campo, que lhes permitam tornar-se invisíveis.
Vilagar soltou uma risada de desprezo.
— Ora essa! Pousaram num minúsculo veículo, em que cabem apenas três pessoas. Acontece que são seis, conforme vimos pelos rastos. Você acredita que teriam lugar para levar um grande arsenal de equipamento técnico?
Horlgon continuou com as mãos estendidas.
— Não sei, não. Apenas acho que seria prudente não marcharmos diretamente para o lugar.
A conversa foi ouvida, através dos rádios de capacete, pelos tripulantes que continuavam no interior das naves-patrulha. Pcholgur escarneceu:
— Não lhe dê atenção, Vilagar. Está com medo.
Vilagar riu.
— Acho que é isso mesmo.
Para se defender contra a acusação, Horlgon passou por Vilagar e caminhou à frente deste.
Ainda achava que o procedimento era perigoso e irresponsável. Mas antes de ser chamado de covarde preferia que a irresponsabilidade de Vilagar o matasse.
* * *
A luz do sol alaranjado era suficiente apenas para que alguém que se deslocasse a uma altura de seis metros acima da neve tivesse uma visão relativamente exata de pequenos acidentes do terreno.
Para Tiff, os dois vultos altos e de ombros largos representavam pequenos acidentes do terreno. Continuavam a caminhar em direção ao objetivo, afundando na neve. Naquele momento se encontravam a apenas oitenta metros da grota, e a cinqüenta metros da entrada da caverna.
— Cuidado! — cochichou Tiff.
Eberhardt já observara os vultos.
Hump regulou seu propulsor horizontal para um desempenho mais elevado e se aproximou, produzindo um ligeiro chiado no ar. Tiff não o viu, mas pelo impacto suave sentiu que Hump não conseguiu frear em tempo.
— Onde estão? — fungou.
Tiff não teve necessidade de responder. Hump viu os dois vultos.
Nunca descobririam o que Hump sentiu naquele instante.
O fato foi que arrancou o radiador de impulsos antes que Tiff ou Eberhardt pudessem impedi-lo e o dirigiu para o vulto que ia à frente.
Horlgon estava perdido.
Foi atingido pela energia do raio fulgurante antes que tivesse tempo de se desviar.
Vilagar soltou um grito agudo e se atirou de bruços ao solo.
Acontece que seu inimigo tinha boa pontaria. Vilagar só estava meio afundado na neve quando também foi atingido pelo raio escaldante.
— Seu idiota! — gritou Tiff furioso.
Bateu em torno de si. Atingiu alguém, pensando que fosse Hump. Voltou a bater. Hump foi tangido para longe. Ora de cabeça para cima, ora de cabeça para baixo, foi se deslocando acima da neve.
— Vamos! — gritou Tiff. — Rápido! Temos de chegar antes que as naves dêem o fora.
Hump não ouviu suas palavras.
Só Tiff e Eberhardt se dirigiram a toda velocidade para o local de pouso das duas naves-patrulha.
* * *
Enaret ouviu o grito de pavor de Vilagar. No mesmo instante deu-se conta de como fora sábia a ordem de não sair dos veículos, dada por Etztak.
— Pegaram-nos! — gritou para Pcholgur.
Pcholgur ainda não havia entendido a situação. Enaret ouviu seu chamado monótono:
— Vilagar! Vilagar! Horlgon! Onde estão?
— Estão mortos! — gritou Enaret. — Será que você ainda não compreendeu?
Não esperou a resposta de Pcholgur. Suas mãos ágeis puseram o mecanismo propulsor a funcionar. A pequena nave se ergueu do solo. Confiou que Pcholgur o seguiria.
Enaret sabia o que fazer. As duas solitárias naves-patrulha não poderiam fazer nada contra o inimigo. Precisavam de auxílio.
Subiu para cerca de trezentos metros e colocou o transmissor na freqüência integral.
— Naves-patrulha trinta e um e trinta e dois estabeleceram contato com o inimigo. Pedimos auxílio. Inimigo está bem armado. As coordenadas são as seguintes...
Repetiu a mensagem por cinco vezes. Depois disso teve certeza de que fora captada em toda parte. Voltou a se preocupar com Pcholgur.
Na tela do rastreador, Enaret viu que a nave de Pcholgur se levantava da neve e ganhava altitude rapidamente. Por alguns segundos teve a impressão de que Pcholgur voltara a recobrar o juízo, e por isso se esforçava para sair da área perigosa.
Mas, subitamente, o ponto azul que se via na tela deslizou para o lado. A nave de Pcholgur não subia mais. A cerca de vinte metros do solo seguiu a pista de Vilagar e Horlgon.
— Volte, Pcholgur! — gritou Enaret. — Volte, seu idiota!
Pcholgur não o ouviu. Nem respondeu. Sua nave se deslocou para o oeste, a uma velocidade cada vez maior.
* * *
— Nave levantando — anunciou a voz monótona de Moisés. — Sobe rapidamente.
Devem estar com medo”, pensou Tiff. “Não sabem com quem estão lidando.”
Poucos segundos depois, Moisés voltou a relatar:
— Pedido de socorro em intercosmo transmitido pela faixa de freqüência integral, a grande intensidade.
Tiff praguejou baixinho. Dali a poucos minutos todo o bando de saltadores estaria em cima deles. E tudo isso por causa de Hump!
O robô voltou a chamar:
— Tenha cuidado! Outra nave está levantando e vem em sua direção.
Tiff compreendeu.
— Desvie-se para a direita! — gritou para Eberhardt.
Eberhardt obedeceu imediatamente. Tiff ouviu-o passar perto dele.
— Muito bem — anunciou Moisés. — A nave passará a vinte metros do senhor.
— Vamos chegar mais perto, Eberhardt — murmurou Tiff.
Voltaram alguns metros.
E a nave foi chegando. Tiff ouviu o farfalhar e viu a sombra negra que surgia a poucos metros de distância. Era um alvo miserável, mas...
* * *
Pcholgur não se preocupou com coisa alguma.
Nem sabia por que voava nessa direção.
Estivera convencido de que os seres que procuravam eram criaturas tolas e famintas. Por isso, a morte de Vilagar e Horlgon causara-lhe um susto que forçara a mente ao máximo, levando-o aos limites da loucura.
Por uma fração de segundo viu os feixes energéticos branco-azulados que, retratados fielmente pela tela, precipitavam-se sobre sua nave.
Depois foi o fim.
* * *
Enaret viu Pcholgur morrer.
De repente, um ponto ofuscante, que se deslocava rapidamente, surgiu na tela que até então só retratara a escuridão negra e a débil mancha luminosa e alaranjada do sol central.
Enaret viu o impacto na neve, que subiu em forma de repuxo.
— Pcholgur!
A mancha ofuscante se apagou.
Não houve resposta.
* * *
Tiff levou alguns segundos para compreender que ele e Eberhardt realmente haviam derrubado a nave inimiga com seus pequenos radiadores térmicos.
O que pretendia era apenas danificar o veículo e obrigá-lo a pousar. Mas a potente carga energética das duas armas fora suficiente para destruir a nave.
Tiff não perdeu tempo em olhar a nave que explodira na queda. Sabia que sua hora tinha soado.
— Vamos voltar para a caverna! — gritou para Eberhardt. — Desligue o defletor.
Ligou o transmissor para o alcance máximo e, pondo na voz a velha raiva, ainda não mitigada, gritou:
— Hump, volte à caverna! Depressa!
Dali a alguns minutos os saltadores estariam ali. Em bandos.

4



O salto de Gucky terminou numa espécie de sala auxiliar de navegação. A peça não tinha mais de quinze metros quadrados. As paredes estavam cobertas de mapas estelares; na mesa, que formava a única peça do mobiliário, via-se um micro-cérebro positrônico, destinado provavelmente à determinação aproximada das rotas.
Gucky aguçou o ouvido. Captou uma profusão de pensamentos, que o atingia através da parede, vinda da peça contígua.
Pôs-se a classificar os impulsos. Constatou que na peça ao lado havia quatro pessoas. A atitude fundamental de três delas era fácil de reconhecer: cautela de mistura com um certo respeito aliado à antipatia que qualquer homem sente diante de um superior.
É a típica atitude subalterna”, pensou Gucky.
Concluía-se que o quarto elemento devia ser o superior dos outros três.
Gucky não teve de esperar mais que um minuto até que o nome do superior fosse mencionado num pensamento.
Era Etztak!
Gucky se instalou o mais confortavelmente possível embaixo da mesa de cálculos e pôs-se a separar os impulsos pelos respectivos emissores, a fim de ter uma idéia da palestra que estava sendo travada na peça ao lado.
Entendeu o seguinte:
Isso aconteceu”, disse um dos cérebros subalternos, “porque Vilagar e Horlgon saíram do veículo, contrariando suas ordens, senhor.
Ainda surgiu uma série de impulsos meio conscientes, meio inconscientes, como por exemplo este:
Se estivesse no lugar deles, provavelmente teria agido da mesma forma. Ainda bem que não fui eu.”
Mas Gucky só se interessou pelos pensamentos nítidos e produtivos, que costumam servir de base à palavra falada.
Um potente fluxo de pensamentos respondeu:
Pouco importa por que motivo as duas naves foram derrotadas. O que me interessa é que os fugitivos sejam capturados.”
Outro subalterno interveio:
Enviamos todas as naves para a área assinalada, senhor. Os fugitivos não conseguirão escapar.”
Será?”, respondeu Etztak em tom irônico. “Será que da outra vez vocês não acreditavam a mesma coisa? E, em vez de alcançarmos algum êxito, três dos nossos homens foram mortos e uma nave foi destruída.”
Houve uma pausa durante a qual Gucky só capturou pensamentos carregados de embaraço e desânimo. Depois dela Etztak prosseguiu:
Não canso de repetir: esses fugitivos são muito importantes para mim. Mas não são tão importantes a ponto de eu permitir que me façam de bobo por toda a vida. Se a missão não for coroada de êxito, esse mundo será transformado num sol.”
Nos impulsos mentais surgiu o pavor, e logo a movimentação. Ao que parecia, Etztak estava despedindo seus oficiais.
O velho ficou sozinho na sala. Depois que os outros três se haviam afastado pelo corredor, Gucky passou a captar exclusivamente os pensamentos dele.
E os pensamentos de Etztak encheram a pequena criatura peluda de medo. Etztak não proferira uma ameaça vã quando anunciou a destruição do planeta. Realmente carregava essa idéia consigo, e Gucky chegou a ouvir o motivo:
Não podemos nos dar ao luxo de ficar procurando toda vida por este mundo”, pensou Etztak. “Despertaremos a atenção dos outros, e depois disso farejarão um negócio e tentarão arrancá-lo das nossas mãos. Aquilo que pretendemos descobrir de Tifflor também poderá ser descoberto no mundo de onde ele vem. O estoque de bombas arcônidas que a Horl VII traz a bordo será suficiente para transformar este mundo numa fornalha de energia. Ninguém terá oportunidade de pôr as mãos em Tifflor para interrogá-lo.”
Gucky percebeu que o perigo se aproximava.
E o perigo vinha de dois lados.
Em primeiro lugar, uma busca que procurava localizar Tifflor e seu grupo estava em pleno andamento e, ao que tudo indicava, já fora coroada de certo êxito.
Além disso, Etztak destruiria o planeta Homem de Neve, se contra todas as expectativas Tiff conseguisse transformar os êxitos iniciais da operação de busca num fracasso.
Gucky viu nessa constelação de alternativas um beco sem saída, e teve certa dificuldade em tomar uma decisão sobre o passo que deveria tomar.
Poderia se dirigir para a Horl VII que, segundo as informações fornecidas por Etztak, encontrava-se no espaço, a uma altitude de oitocentos quilômetros, para inutilizar sua carga de bombas.
Mas era bem provável que nesse meio tempo Tiff e as pessoas de seu grupo fossem capturados. E seria muito mais difícil libertá-los depois que se encontrassem a bordo de uma das naves do que ir agora em seu auxílio.
Por isso, Gucky resolveu deixar a Etz XXI e voltar para a caverna.
Se conseguisse intervir logo na luta e alcançasse uma vitória rápida, talvez ainda houvesse tempo para remover o perigo representado pelas bombas que se encontravam a bordo da Horl VII.
Agachado embaixo da mesa de cálculo, se concentrou sobre a caverna em que os cadetes e as duas moças se mantinham escondidos... e saltou.

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