Foi
empurrado com certa violência para dentro de uma sala na qual havia dois
homens. Mouselet só conhecia um deles.
O
francês viera juntamente com três guardas. Dois deles permaneceram no corredor,
enquanto aquele que trazia o pequeno tradutor mecânico pendurado no pescoço
entrou.
—
O que é que você sabe sobre o planeta da vida eterna? — perguntou Etztak em tom
áspero. O pequeno instrumento traduziu a pergunta.
Mouselet
levantou os olhos, surpreso. Com um misto de pavor e perplexidade encarou o
patriarca encanecido. Depois de algum tempo lançou um olhar de súplica para
Orlgans, que já era seu conhecido; mas o rosto de Orlgans não demonstrava a
menor emoção.
—
Nem... nem sei... no que o senhor está falando — respondeu Mouselet gaguejando,
e a resposta traduzida pelo instrumento também saiu gaguejante.
Etztak
se levantou de um golpe. O gesto violento daquele gigante de ombros largos
deixou Mouselet ainda mais perplexo e assustado.
—
Vamos ao interrogatório psicológico — ordenou Etztak.
Também
estas palavras foram traduzidas.
Mouselet
não tinha a menor idéia do que seria um interrogatório psicológico, mas a
expressão bastou para assustá-lo. Pôs-se a protestar.
—
Pois ouça! — lamentou-se Mouselet, e a voz mecânica do tradutor, que seguia
suas palavras com um pequeno atraso, fez com que se sentisse ainda mais
nervoso. — Terei o maior prazer em dizer tudo que sei. Mas nunca ouvi falar no
planeta da vida eterna. O que vem a ser isso? Um planeta?
Os
dois saltadores o olharam rigidamente. Etztak levantou a mão e fez um sinal
para o guarda. Mouselet compreendeu.
—
Não! — gritou. — Não quero ser submetido ao interrogatório psicológico. Não
posso dizer nada além do que já disse.
O
guarda segurou o francês franzino e o arrastou para o corredor, e dali para a
célula de interrogatórios, que ficava a cerca de duzentos metros.
—
Parece que realmente não sabe nada — disse Orlgans em tom pensativo.
Etztak
resmungou; parecia contrariado.
—
Pode ser. Mas é possível que no seu subconsciente saiba de alguma coisa que se
relacione com o planeta da vida eterna. Se o interrogarmos pura e simplesmente,
não obteremos uma visão de conjunto dos dados armazenados em sua memória; para
isso teremos que submetê-lo ao interrogatório psicológico. O analisador não se
esquecerá de nenhuma informação.
—
Mas o homem não resistirá a isso — ponderou Orlgans.
Etztak
fez um gesto de recusa.
—
O que importa? — respondeu em tom de desprezo.
* * *
—
Não vim para fazer todo o trabalho dos senhores — disse Gucky. — De início
sairei sozinho para esclarecer a situação. Devemos descobrir onde se encontra o
inimigo. Quando soubermos, dependerá de cada um de nós que o objetivo seja
atingido depressa. Mais uma vez vou explicar detalhadamente o nosso objetivo:
aqueles seres chamados de saltadores estão interessados na Terra. Agentes deles
pousaram em Vênus e em nosso planeta. Pelo que conseguimos apurar, esse
interesse está inspirado em intenções hostis. Os saltadores são uma raça
bastante evoluída no terreno da tecnologia; por isso a Terra não poderá deixar
de se preparar da melhor forma possível para o confronto que se aproxima. Um
dos preparativos mais importantes consiste na coleta de informações, e é
precisamente para conseguir informações que nos encontramos no Homem de Neve.
Precisamos descobrir o que os saltadores pretendem fazer contra a Terra.
Precisamos descobrir de que maneira querem realizar seus planos. Precisamos
saber quem são seus agentes na Terra, e ainda precisamos conhecer o motivo por
que ainda não foi possível prender nenhum deles. Quando tivermos descoberto
tudo isto, nossa missão estará concluída.
Piscou
para Tiff e nesse mesmo instante deixou de ser o oficial do Exército de
Mutantes, para se transformar naquele encantador ser peludo que todos viam
nele.
—
A esta hora já deve saber — cochichou para Tiff — que tipo de jogo foi
realizado com o senhor nestes últimos dias. Foi lançado por Rhodan como se
fosse um homem que possui informações muito importantes. Ao que tudo indica, o
estratagema foi bem sucedido. Os saltadores estão demonstrando um interesse
extraordinário por você.
Não
esperou que Tiff dominasse o espanto. Indicou a tarefa que cabia a cada um dos
três cadetes e explicou às moças o que tinham a fazer.
Pediu
a Moisés que lhe fornecesse a posição da nave inimiga mais próxima e
desapareceu num salto de teleportação, depois de ter indicado o momento do seu
regresso.
* * *
O
interrogatório de Mouselet durou apenas alguns minutos. O instrumento que
realizava a tarefa trabalhava com rapidez e precisão, e sem a menor contemplação.
Quando
Mouselet foi desamarrado da cadeira em que ficara sentado durante o
interrogatório, já não era um ser racional.
A
tarefa do analisador consistia em esvaziar o cérebro da pessoa submetida ao
interrogatório, armazenar os dados assim colhidos e apresentá-los depois de
concluído o interrogatório. Era muito eficiente: o que deixava para trás era
apenas uma massa cinzenta espremida, que mal dava para regular as funções
animais do ser humano.
O
guarda Holloran colocou Mouselet, que afinal já não era Mouselet, numa
nave-patrulha de dois lugares e voltou à Orla XI. Mouselet não ofereceu a menor
resistência. Holloran levou-o ao seu camarote e trancou-o lá.
Depois
foi levar a nave auxiliar de volta para a Etz XXI. Na mesma oportunidade
pretendia perguntar a Orlgans se tinha mais algum serviço para ele.
A
Orla XI, que pousara no início dessa missão, porque Orlgans julgava necessário
dispor de uma base fixa, encontrava-se a cerca de dez quilômetros da gigantesca
Etz XXI.
Holloran
mal saíra da comporta da Orla XI em seu pequeno veículo espacial, quando o
mesmo, desobedecendo a todos os comandos dados por Holloran, perdeu a
velocidade e altitude.
Alguma
força de sucção parecia ter atingido o pequenino veículo, ou então os
propulsores estavam falhando.
Holloran
voara poucos metros acima da neve. Antes que tivesse tempo de ler as indicações
dos instrumentos ou expedir uma mensagem de socorro para as duas naves, seu
veículo tocou na massa fofa, abriu uma trilha cintilante e parou.
Holloran
se agarrara fortemente ao painel de instrumentos, mas não haveria necessidade
disso. O pouso foi muito suave, não tendo causado o menor dano ao veículo ou ao
seu condutor.
Perplexo,
Holloran lançou os olhos em torno. A nave afundara na neve até a metade de sua
altura. Na tela panorâmica mal se viam ao oeste os contornos da Orla XI,
reduzida a um traço cinzento que se destacava contra a neve. Da Etz XXI não se
via absolutamente nada. O veículo afundara muito.
O
saltador examinou as indicações dos instrumentos, e quanto mais os examinou,
mais confuso ficou. Os instrumentos estavam em ordem, o pequeno propulsor
encontrava-se ligado. Por que o veículo fora arrastado ao solo?
Holloran
franziu a testa e tentou a decolagem. Bastaria ligar o propulsor vertical para
um desempenho médio e...
Nada!
Não conseguiu mover a chave...
Incrédulo,
reforçou a pressão do dedo. Quando nem assim conseguiu fazer a ligação, usou
toda a mão e finalmente bateu com o punho cerrado contra a chave rebelde.
Foi
tudo em vão. A chave não se movia.
Por
alguns segundos, ficou parado. Estava duro de perplexidade. Finalmente deu-se
conta de que não lhe restava outra alternativa senão expedir um pedido de
socorro para a Orla XI. Pediria que viessem buscá-lo.
Com
um movimento automático, pegou a chave do transmissor e procurou comprimi-la
para baixo.
Soltou
um grito de pavor quando percebeu que também essa chave estava imobilizada.
Holloran
experimentou ao acaso as outras chaves. Funcionavam. Podia ligar e desligar à
vontade as luzes de emergência, o aparelho de condicionamento de ar, os
rastreadores e a tela.
Acontece
que não era das luzes de emergência, nem do condicionamento de ar, nem dos
rastreadores, nem da tela que precisava.
Precisava
do propulsor vertical ou do transmissor. Olhou em torno para ver se havia outro
veículo no ar, que pudesse vê-lo. Mas o espaço estava vazio até onde alcançava
a sua vista.
Começou
a quebrar a cabeça sobre sua situação. Conforme as circunstâncias, poderia
ficar por alguns dias na neve, totalmente desamparado. Não poderia descer, pois
estava sem traje protetor. Pretendia voar apenas da comporta de uma das naves
até a de outra; para isso não se precisava de traje especial. E demorariam
bastante a dar pela sua falta. Pertencia à casta dos barqueiros do espaço e,
como tal, não era nenhum personagem importante.
Se
nem dessem pela falta dele nem o encontrassem por acaso, então...
Em
meio aos pensamentos de Holloran, o cérebro parou de funcionar. Acreditou ouvir
um riso de escárnio. E também ouviu uma voz que dizia:
—
Não fique se preocupando à toa, meu filho. Daqui a pouco estarei de volta, e
então seguiremos juntos no seu barquinho.
* * *
Muito
antes que Reginald Bell regressasse com a Z-13, John Marshall, um telepata de
alta capacidade que se encontrava a bordo da Stardust-III, recebeu a mensagem
de Gucky, irradiada por via telepática, segundo a qual o transporte dos
equipamentos e seu próprio pouso no mundo de gelo haviam sido bem sucedidos.
Gucky
acrescentou que estava colhendo informações sobre a posição do inimigo, motivo
por que o trabalho propriamente dito, que consistia na coleta das informações
pretendidas, poderia ser iniciado em breve.
Marshall
transmitiu a informação a Rhodan. Como suas informações sobre os planos de
Rhodan fossem incompletas, se sentiu espantado ao notar que um peso parecia
sair de cima do coração de Rhodan quando este soube do êxito alcançado por
Gucky.
Muito
tempo depois que Marshall havia saído da ampla sala de comando da Stardust-III,
na qual no momento só se encontravam Rhodan e Crest, o primeiro disse:
—
Fico satisfeito em saber que tudo está em ordem. O jogo que estamos realizando
com Tifflor e os elementos de seu grupo é bastante arriscado. Provavelmente
estariam perdidos se Gucky não tivesse feito um bom serviço.
Crest,
o arcônida, lançou-lhe um olhar pensativo.
—
Já estou mesmo admirado em ver — admitiu — com que... bem, com que leviandade
você lida com esses homens.
Rhodan
sorriu. Compreendia Crest e seu modo de encarar as coisas. Como arcônida que
era — fora chefe de uma expedição científica cuja nave realizara um pouso
forçado na Lua — pertencia a uma cultura que passara do ponto culminante muito
antes da época em que a Humanidade penetrou na segunda idade da pedra. Uma das
características fundamentais das concepções arcônidas, que prevaleciam depois
do Grande Império ter alcançado o apogeu do seu poderio e estagnado neste ponto
de sua evolução, era a opinião de que a vida do indivíduo tem um valor tão
elevado que, em benefício da coletividade, mesmo que esta se encontre numa
grave emergência.
Só
mesmo uma sociedade firmemente estruturada poderia se dar ao luxo de adotar um
princípio destes.
—
Quer saber de uma coisa? — respondeu Rhodan com um sorriso. — Acho que você
nunca compreenderá uma coisa destas. Apesar disso, estou convencido de ter
agido corretamente, muito embora no início da missão as possibilidades de
sobrevivência de Tifflor fossem de apenas cinqüenta por cento.
Crest
voltou a dedicar sua atenção aos instrumentos, a cuja vigilância se dispusera
voluntariamente.
Os
observadores não forneciam nenhuma informação. As duas frotas inimigas não
estavam realizando nenhuma transição, embora talvez se movimentassem. A calma
reinava no setor de Beta-Albíreo.
Talvez
fosse apenas a calma antes da tempestade.
* * *
Holloran
ainda não havia se recuperado inteiramente do primeiro susto quando foi
atingido pelo segundo. E este foi muito maior.
Subitamente
viu no assento ao seu lado alguma coisa que sempre parecia ter estado lá; um
ser nunca visto.
Sua
primeira impressão seria que se tratava de um animal, se não estivesse usando
um traje espacial.
Aquele
ser possuía mais ou menos metade do tamanho de Holloran. Tinha focinho pontudo,
orelhas grandes e a parte traseira do corpo um pouco volumosa. Os olhos eram
grandes e piscavam alegremente para Holloran através do visor do capacete.
De
repente, Holloran voltou a ouvir a voz:
—
Você pode demorar um pouco me olhando, mas não muito. Acontece que estou com
muita pressa.
“É um telepata”, pensou Holloran
apavorado. “E parece conhecer mais alguns
truques além deste. Talvez seja responsável pelas chaves que não consegui mover.”
—
Basta pensar o que você quer dizer — explicou o ser que se encontrava a seu
lado. — Eu compreendo. Se não gostar, fale à vontade, que também compreendo.
Um
calafrio percorreu a espinha de Holloran. Aquele ser sabia ler todos os seus
pensamentos.
—
O que quer de mim? — perguntou, perplexo.
—
Nada de especial — foi a resposta. — Quero entrar na nave grande que está logo
ali. Ninguém me deixaria entrar espontaneamente, e por isso você me levará para
dentro no seu barco.
—
Não é possível! — fungou Holloran, apavorado. — Se souberem que fiz uma coisa
dessas, eles me matarão.
—
Tanto melhor para mim — foi a resposta que chegou à sua compreensão. — Assim
você ficará de boca calada e não contará nada a meu respeito.
Holloran
continuou a protestar. Mas o ser peludo enfiou no bolso a pata dianteira,
firmemente envolta no revestimento fino do traje protetor, e tirou uma pequena
arma de radiações, apontando-a para o saltador.
—
Vamos embora! — ouviu Holloran. — E nada de discussões.
O
saltador viu que não tinha outra alternativa senão obedecer à ordem que lhe era
dada.
Lentamente
e ainda um pouco desconfiado, foi levando a mão para a chave do propulsor
vertical. O dedo hesitante comprimiu o botão, e... Clic! A chave cedeu. O
propulsor emitiu um zumbido agudo e, no momento em que Holloran avançou a chave
e acelerou a máquina, o pequeno veículo se elevou, perfeitamente equilibrado,
acima da neve.
—
Muito bem — disse o ser peludo. — Continue. Existe algum controle na entrada da
comporta da grande nave?
A
pergunta deixou Holloran assustado
—
Sim... naturalmente — respondeu, falando entre os dentes.
Voltou
a ouvir o riso de escárnio com que o ser peludo ainda há pouco anunciara sua
presença.
—
Não precisa mentir — ouviu Holloran. — Como já lhe disse, entendo seus
pensamentos. Não há nenhum controle. Tanto melhor. Nesse caso também não haverá
qualquer problema.
Holloran
praguejou baixinho. Por que tinha que ser justamente ele que se via numa
situação dessas?
A
leste, os contornos alongados da Etz XXI começaram a se levantar acima da neve.
O ser peludo não parecia lhe dar a menor atenção, mas continuava de arma em
punho.
Holloran
não tinha a menor chance.
* * *
O
assunto foi tão importante que Orlgans e Etztak se incumbiram pessoalmente da
interpretação dos dados.
O
analisador elaborara um total de vinte e quatro diagramas relativos ao
interrogatório de Mouselet, um para cada um dos setores mais importantes do
cérebro. As coordenadas dos pontos de medição — cada diagrama possuía de mil a
dez mil desses pontos — foram introduzidas num interpretador mecânico,
juntamente com os valores estatístico-biológicos também incluídos nos
diagramas. O interpretador fornecia as informações decodificadas, concebidas em
palavras-chaves concisas, gravadas em estreitas fitas de plástico.
Dali
a meia hora constataram que Jean Pierre Mouselet realmente não sabia nada sobre
o planeta da vida eterna.
O
fato deixou Etztak tão desapontado que ele teve um acesso de raiva. Esteve
prestes a atirar ao solo as fitas de plástico gravadas que enchiam a grande
mesa, quando Orlgans lhe segurou o braço e exclamou:
—
Olhe! Encontrei uma indicação.
Etztak
custou a se acalmar. Furioso, arrancou a fita de plástico das mãos de Orlgans e
fitou-a.
—
Uma coisa é certa — leu baixinho. — A Terra não tem a menor idéia dos planos
dos saltadores. Caso Rhodan comece a se interessar pelo assunto, sua primeira
preocupação consistirá em colher informações.
—
E daí? — resmungou Etztak. — Isso é uma verdade trivial.
Orlgans
lhe entregou outra fita. Uma nota na margem dizia o seguinte a respeito das
informações que o analisador espremera daquele homem: Atitude fundamental —
irônica.
—
Pelo que sei de Rhodan — continuou a ler Etztak — ele colocará um espião tão
pertinho dos saltadores, que os mesmos nem conseguirão vê-lo com seus enormes
olhos. E, pelo que sei de Tifflor, este seria o elemento indicado para uma
missão desse tipo.
Etztak
se levantou de um salto.
—
Isso... isso — fungou.
O
rosto de Orlgans parecia indiferente.
—
Isso não significa necessariamente — interrompeu o velho — que estejamos na
pista errada. Nosso prisioneiro não sabe nada sobre o planeta da vida eterna;
logo, não pode saber se Tifflor possui informações a este respeito. Assim mesmo
considero a idéia muito importante.
—
Se é! — berrou Etztak, batendo com o punho na mesa. — A coisa mais importante
sempre foi conhecer a mentalidade do inimigo. O prisioneiro conhecia Rhodan
melhor que nós. Se acredita que Rhodan procederia dessa forma, provavelmente está
com a razão.
—
Só estou interessado numa coisa: como é que o prisioneiro chegou a conhecer
deste modo o tal do Tifflor?
Orlgans
remexeu as fitas com as informações e tirou mais três. Numa delas lia-se que,
por ocasião das últimas ações realizadas a mando do Supercrânio, Mouselet se
defrontara com Tifflor. E o confronto não foi nada agradável, tanto que até
mesmo o empedernido Mouselet chegou a adquirir certo respeito pelo cadete.
Etztak
estava satisfeito. Seus olhos cintilantes fitaram Orlgans, e este sentiu a
atividade renovada que irradiava do velho.
—
Já que é assim — trovejou a voz de Etztak, precedida de uma estrondosa
gargalhada — não temos nenhum motivo para ficarmos parados por aqui. Vamos dar
uma busca rigorosa nos arredores dos lugares em que pousamos.
Orlgans
estava de acordo, mas acrescentou:
—
Sugiro que a busca seja estendida aos arredores do lugar em que os fugitivos se
apoderaram de uma nave-patrulha da Orla XI.
Etztak
concordou imediatamente.
—
Isso mesmo! — confirmou.
Os
preparativos foram tomados imediatamente. Etztak extraiu as conseqüências da
lição que Orlgans havia recebido. Ordenou aos tripulantes das naves que
participariam da operação para que, em hipótese alguma, saíssem dos veículos.
Além disso, as naves deveriam voar em grupos de dois ao menos, sempre à vista
um do outro.
— Se nosso prisioneiro estava com a razão — ressoou
a voz de Etztak pelo intercomunicador, depois de ter ele transmitido suas
ordens — não demorará mais que algumas horas até que encontremos os fugitivos.
3
A nave auxiliar
de Holloran disparou em alta velocidade para dentro do buraco escuro da
comporta do hangar.
Do exame dos
pensamentos de Holloran, Gucky concluiu que o saltador não tinha a intenção de
matar a si mesmo e ao seu passageiro.
Voava de
maneira usual.
A pequena
nave foi freada rápida, mas suavemente, e flutuou para o interior de um poço
que conduzia para os hangares individuais das pequenas naves de patrulha.
A partir de
determinado lugar, a manobra parecia ser automática. Holloran não manipulava
qualquer controle. Apesar disso, dali a poucos instantes a nave se encontrava
no interior de um nicho na parede do poço de acesso onde, ao que tudo indicava,
um campo gravitacional estacionário a mantinha presa ao lugar.
— Chegamos —
disse Holloran.
Gucky
agradeceu em tom irônico. Continuou sentado por um instante a fim de colher na
mente de Holloran alguns dados sobre a estrutura geral da gigantesca nave.
Entre as informações que o saltador lhe forneceu a contragosto, Gucky extraiu
uma única que julgou aproveitável. Dizia respeito ao depósito de peças de
reposição situado na popa da Etz XXI que, segundo Holloran sabia, estava vazio
e raramente era utilizado.
No momento
em que Holloran se dispôs a sair e pretendia perguntar ao seu passageiro quais
eram seus planos, Gucky efetuou o salto. Apavorado, Holloran fitou o assento em
que um instante antes se encontrara o ser peludo.
O suor
porejou na sua testa quando se deu conta do estrago que um ser desses poderia
causar na nave. E se sentiu ainda mais miserável ao se lembrar de que, no seu
próprio interesse, deveria se abster de falar com quem quer que fosse sobre o
estranho clandestino que acabara de trazer para bordo.
Pálido e
trêmulo, desceu de seu veículo e se dirigiu ao intercomunicador mais próximo, a
fim de informar o chefe dos hangares de que a nave-patrulha estava de volta,
tendo ingressado a bordo em boa forma.
* * *
Gucky se
rematerializou sem a menor complicação no pequeno depósito.
Ao primeiro
relance de olhos percebeu que a informação de Holloran devia estar errada ou superada.
As paredes do compartimento estavam cobertas de grandes armações, e as
prateleiras das mesmas estavam ocupadas até o último centímetro quadrado.
A situação
daquele compartimento não era tão tranqüila como Gucky esperara. Mas, ao menos
no momento, nenhum saltador se encontrava no interior do mesmo.
Utilizando
sua capacidade de sondagem, que decorria do dom da telecinésia, Gucky tateou
cuidadosamente as imediações do depósito em que se encontrava. Conseguia
sentir, até uma distância de cerca de cinco metros, o contorno de objetos que a
vista não alcançava.
Apesar do
cuidado com que agiu, não perdeu tempo em identificar todos os contornos dos
objetos. O que lhe interessava saber era se lá fora alguma coisa se movia num
raio de cinco metros do ponto em que se encontrava.
Depois de
ter se certificado a este respeito, saltou para fora.
Aterrizou
diante da escotilha do depósito. Viu-se num corredor estreito e anguloso, que
terminava poucos metros atrás dele, numa parede lisa e brilhante. Gucky apalpou
o outro lado da parede e sentiu o gélido vento nevado.
Era o
envoltório exterior da nave!
Para
descobrir qualquer coisa, teria que se dirigir para o lado oposto.
Foi
caminhando alegremente. A cada três ou quatro metros, o estreito corredor era
cortado por um ângulo fechado. O “tateador”
de Gucky atingia de cada vez o lado oposto desse ângulo. No momento não havia o
menor perigo de que alguém desse com a sua presença.
Depois de
ter descrito dez ângulos, o corredor desembocava em outro muito mais largo e
que se estendia em linha reta, o que deixou Gucky contrariado. Aproximou-se
cuidadosamente e tateou o corredor. Concluiu que, ao menos nesse setor, estava
vazio.
Continuou a
se adiantar e atingiu o fim do corredor estreito. O corredor mais largo tinha
uma iluminação bem mais forte.
E estava
vazio apenas a uma distância de cerca de vinte metros de ambos os lados.
Gucky viu
uma porção de vultos que vinham apressadamente dos dois sentidos e se dirigiam
a nichos das paredes, onde desapareceram. Logo concluiu que esses nichos nada
mais eram senão as aberturas dos poços dos elevadores antigravitacionais.
Contou
trinta saltadores de cada um dos lados. Esperou até que tivessem desaparecido
no interior dos poços dos elevadores. Depois se teleportou pelo corredor até
onde pôde alcançar com a vista.
Voltou a
surgir num ponto em que desembocava um corredor lateral. Este, poucos metros à
esquerda, vinha dar em outro corredor, cujo solo estava coberto de fitas
rolantes que se deslocavam em ambas as direções.
Gucky
percebeu que havia chegado ao grande corredor central da nave. Se suas
informações sobre a mentalidade dos saltadores eram corretas, o gabinete do
comandante devia ficar nesse corredor central, provavelmente no meio do mesmo.
E o
comandante era o homem do qual Gucky esperava obter as informações de que
precisava. Como não conhecesse a posição exata do gabinete, teve que avançar
pelo corredor central.
A tarefa não
seria nada fácil, concluiu Gucky.
Apesar
disso, teria que ser tentada.
* * *
— Observação!
— disse Moisés laconicamente.
Tiff ergueu
a cabeça.
— O que é,
Moisés? — perguntou.
— Uma porção
de veículos pequenos — respondeu Moisés. — Vejo-os em todas as direções. Viajam
dois a dois, perto um do outro. Os mais próximos se encontram em R, quinze mil;
Pi, cinco. Altitude constante de trezentos metros.
Tiff se
levantou.
— Então é
isso — disse em tom sombrio. — Ainda estão à nossa procura. Preparem-se.
Humpry
Hifield continuou sentado, encostou as costas enormes contra a parede e lançou
um olhar desconfiado para Tiff.
— Quem lhe
garante que são saltadores? — perguntou em tom contrariado.
— Sim, você tem
razão. Devem ser umas estátuas de gelo.
Tiff acenou
com a cabeça.
Não se
preocupou com Hump. Há muito os pacotes trazidos por Gucky haviam sido levados
para o interior da caverna e desembrulhados. Os trajes transportadores
arcônidas estavam cuidadosamente estendidos no fundo da caverna, prontos para
serem enfiados no corpo.
Tiff tirou o
traje espacial e envergou o traje transportador. Eberhardt seguiu seu exemplo.
Hump continuava imóvel, encostado à parede.
Eberhardt
disse:
— Até parece
que você está com medo dos saltadores, Hump.
Hump se
levantou e se aproximou a passadas vigorosas.
— Nunca mais
diga uma coisa dessas! — disse em tom ameaçador.
Também
começou a tirar o traje espacial para envergar o traje transportador.
— Controle
de funcionamento! — ordenou Tiff. — Campo de deflexão?
— Em ordem.
— Campo de
choque?
— Em ordem.
— Antígravo?
— Em ordem.
— Aquecimento?
— Em ordem.
— Está bem!
Tiff
dirigiu-se às moças.
— Vocês ficarão
por aqui; não se mexam — ordenou.
Depois se
aproximou de Moisés.
— Você irá
conosco até a parede externa, Moisés! — ordenou. — Só apareça fora da caverna
quando eu o chamar. Um bloco metálico como você seria localizado imediatamente.
Entendido —
confirmou Moisés.
Tiff olhou
para trás.
— Bem que
gostaria que Gucky estivesse de volta — murmurou. Com a voz alta acrescentou: —
Fechem os capacetes. Segurem as armas. A comunicação pelo rádio de capacete
será realizada com a potência mínima.
Todos
fizeram o que estava dizendo.
— Vamos dar
o fora.
Moisés
removeu a peça que fechava a parede divisória. Uma lufada de ar frio penetrou
na caverna. O robô se espremeu pela abertura estreita, seguido por Tiff,
Eberhardt e Hump.
— Encontram-se
a apenas cinco mil metros — anunciou Moisés, enquanto recolocava a peça
separatória. — Pi inalterado, altitude continua em trezentos.
Tiff
compreendeu. Pi inalterado; isso significava que os dois veículos se dirigiam
ao centro do sistema de coordenadas. E esse centro era constituído por Moisés
com seu mecanismo localizador.
* * *
— Eu diria
que ali à frente há uma grande cadeia de montanhas — disse Vilagar.
Pcholgur
acrescentou esta observação:
— E eu diria
que alguém que queira se esconder da gente terá melhores chances numa zona montanhosa.
Ninguém costuma se enterrar numa planície.
Vilagar riu.
— Quer dizer
que somos da mesma opinião.
Vilagar e
Pcholgur eram os tripulantes de uma das naves-patrulha cuja presença fora
constatada por Moisés. Vilagar entrou em contato pelo telecomunicador com a
outra nave-patrulha e transmitiu-lhes sua suspeita e a de Pcholgur.
Horlgon, um
jovem da família Horl, à qual pertencia a Horl VII, e Enaret foram de opinião
que a suspeita era perfeitamente plausível.
— Quer dizer
que daqui em diante devemos ter um cuidado todo especial — disse Horlgon. —
Estamos a cerca de quatrocentos quilômetros do ponto em que os fugitivos
aprisionaram nossa nave. É bem possível que tenham se escondido nesta área.
— Sou da
mesma opinião — respondeu Vilagar. — Convém que reduzamos a velocidade assim
que atingirmos as montanhas.
— Isso mesmo
— respondeu Horlgon.
* * *
No momento
em que olhou o mostrador do relógio luminoso, Tiff teve de reprimir um acesso
de saudades. 2 de agosto, 6:51 h, hora de Terrânia. A essa hora um novo dia
começava a raiar em Terrânia.
Aqui no
Homem de Neve o ponto luminoso formado pelo sol azulado descia para o
horizonte. Embora a mancha alaranjada do astro principal continuasse no céu,
sua luminosidade era tão fraca que depois do pôr do sol azulado não passaria de
uma lua de intensidade média.
Haviam
assumido suas posições na beira da grota em que estava escondida a
nave-patrulha.
Tiff
mantinha contato ininterrupto com Moisés, que aguardava junto à parede exterior
da caverna. Moisés o informou sobre a posição das duas naves-patrulha. Tiff já
se dera conta de que seus tripulantes nutriam uma suspeita toda especial para
com a cadeia de montanhas em que ficava a caverna. Alteraram a rota e
descreveram círculos cada vez menores em torno de um ponto que distava poucos
quilômetros da caverna.
* * *
Vilagar e
Pcholgur experimentaram uma nova técnica.
Mantiveram a
nave a cerca de cem metros de altitude e deixaram que os feixes de raios do
rastreador circulassem em torno deles.
Horlgon e
Enaret se uniram a eles. Sua nave mantinha-se a poucos metros de distância,
sempre à vista da outra nave, conforme fora ordenado por Etztak.
Os quatro
tripulantes sabiam perfeitamente que não conseguiriam localizar os próprios
fugitivos. A essa hora deviam estar escondidos em alguma caverna.
Mas devia
haver uma possibilidade de localizar a nave-patrulha de que os mesmos haviam se
apoderado, desde que o rastreador pudesse realizar um trabalho preciso.
Quem
encontrou a nave-patrulha desviada foi Horlgon.
Indicou as
coordenadas e Vilagar também dirigiu os raios do rastreador para o local
indicado.
— Vamos
mudar de posição — sugeriu Vilagar.
A voz de
Horlgon soou muito nervosa:
— De acordo.
Não devem perceber que foram descobertos. Isso se já constataram nossa
presença.
Vilagar
ficou aborrecido porque Horlgon logo adivinhara suas intenções.
* * *
O cálculo de
Tiff era exato e convincente.
— Faz duas
horas que estão trabalhando por um novo sistema — disse. — Permanecem cerca de
vinte minutos sobre determinado ponto e dão busca na área circunvizinha até
onde alcançam seus instrumentos. Fizeram isso cinco vezes. Da sexta vez, quando
se encontravam quase em posição vertical sobre a grota, não demoraram mais que
oito minutos para seguir viagem. Se isso não significa que nesses oito minutos
descobriram a nave e só seguiram para nos enganar, vocês podem me chamar de
Hopalong.
— Combinado,
Hopalong! — respondeu Hump. — Acho que você está vendo as coisas pretas demais.
Tiff não
teve necessidade de responder. Eberhardt falou.
— Acho a
explicação de Tiff perfeitamente plausível. Se estivesse no lugar dos
saltadores, teria agido da mesma forma, apenas não deixaria que desse tanto na
vista.
Moisés
indicou os novos dados sobre a localização do inimigo. As duas naves se
encontravam trezentos metros além da caverna.
— Esperemos!
— sugeriu Tiff. — Se encontraram nossa nave, não demorarão para mudar sua
tática.
Eberhardt
pôs-se a resmungar.
— Gostaria
de ver você de novo. O que vamos fazer com os defletores?
— Continuarão
ligados! — respondeu Tiff em tom áspero. — Não sabemos qual é o alcance dos
seus instrumentos.
* * *
Gucky
passara cerca de meia hora junto à entrada do corredor lateral, esquivando-se
habilmente de qualquer pessoa em cujo cérebro pudesse ler que a mesma nunca
poderia se dirigir diretamente ao comandante.
Precisava
que alguém o informasse, com a precisão de um metro, sobre a posição da sala em
que se encontrava o comandante.
Gucky recuou
mais um pedaço para o corredor pouco movimentado pelo qual viera e procurou um
lugar no qual lhe bastaria saltar através da parede para encontrar um
esconderijo seguro, caso se aproximassem várias pessoas de uma vez.
Pôs-se a
esperar.
Nos
primeiros dez minutos, ninguém passou por perto. Nem sequer teve necessidade de
saltar.
Mas, pouco
depois, um grupo de saltadores passou apressadamente pelo corredor. Seus
pensamentos estavam tão confusos que Gucky não conseguiu decifrá-los. Saltou
através da parede e só retornou depois que a área estava limpa.
Mas
finalmente chegou um grande momento!
Um único
saltador saiu do corredor lateral e se aproximou calmamente do lugar em que
Gucky se encontrava. Este saltou para seu esconderijo, para não trair sua
presença antes da hora.
Estendeu
seus tateadores e abrangeu o homem que se encontrava do outro lado da parede, a
apenas cinco metros do ponto em que estava. Ainda caminhava tranqüilamente,
balançando os braços.
Gucky saltou
de volta para o corredor.
Ouviu o
grito de pavor do saltador, um ser enorme de ombros largos, e leu o medo súbito
que surgiu em sua mente.
Gucky
apontou sua arma de impulsos térmicos. O saltador parou e permaneceu em
silêncio.
Falando em
intercosmo, Gucky explicou:
— Nada lhe
acontecerá, desde que você me informe pela maneira mais rápida e exata possível
qual é a sala em que está o comandante.
Gucky viu a
gama de pensamentos espantados, surpresos e pavorosos desfilar diante dele.
— Vamos
logo! — insistiu. — Eu o matarei antes de deixar que me agarrem por sua causa.
O saltador
compreendeu. Também compreendeu que era seu dever colaborar para a segurança da
nave, não revelando a verdadeira posição da sala do comandante.
Mas quando
esse pensamento atravessou sua mente, a informação de que Gucky precisava já estava
contida no mesmo. O saltador ouviu um conselho irônico:
— Não se
incomode mais, meu filho. A sala de comando de Etztak fica no corredor central,
setor centro. A escotilha está bem marcada. Muito obrigado. Conte a outra
pessoa aquilo que você estava tramando.
Depois
disso, Gucky saltou. De início se limitou a voltar ao seu esconderijo. A
informação que o saltador lhe fornecera contra a vontade era bem mais extensa
do que se depreenderia das palavras de Gucky. Na verdade, sabia com a precisão
de um metro em que ponto encontraria Etztak. Como a distância fosse
relativamente pequena, poderia saltar para lá diretamente do seu esconderijo.
Mas o salto
exigia um grau de concentração todo especial. Era possível que no momento em
que surgisse na sala de comando de Etztak ali se encontrassem várias pessoas.
Se isso acontecesse, teria que saltar de volta no mesmo instante.
Além disso,
sabia que o saltador com o qual acabara de se defrontar não levaria muito tempo
para compreender que seu encontro com o ser peludo que usava um traje espacial
e possuía dons telepáticos não era um simples sonho. E não havia dúvida de que,
quando isso acontecesse, informaria os outros sobre o incidente.
Gucky não
sabia como os saltadores costumavam reagir diante de notícias sensacionalistas
desse tipo. Era bem possível que se limitassem a zombar de quem as trouxesse e
o mandassem embora. Mas também era possível que Etztak fosse avisado
imediatamente.
Gucky
resolveu admitir esta última possibilidade.
Teria que
agir depressa.
Demorou
alguns segundos para se concentrar no salto... e saltou.
* * *
— Vamos
descer! — disse Vilagar. Pousaram as naves cautelosamente na neve.
— E agora? —
perguntou Horlgon.
Vilagar deu
uma gargalhada provocadora.
— De cada
uma das naves descerá uma pessoa para dar uma olhada no ponto indicado —
respondeu.
Horlgon
ponderou:
— Acontece que
Etztak proibiu que saíssemos dos veículos.
— Se é
assim, como espera pegar essa gente? — retrucou Vilagar.
Quando
Horlgon não soube o que responder, Vilagar achou que sua proposta havia sido
aceita.
— Que tal
nós dois, Horlgon? — perguntou.
— De acordo —
respondeu Horlgon.
Pela sua voz
percebia-se que só a contragosto agia em contrário às ordens do patriarca.
— Pois vamos
— disse Vilagar com uma risada.
* * *
— Pousaram
depois de doze minutos — constatou Tiff tranqüilamente. — Será que ainda existe
alguma dúvida de que descobriram a nave?
— Não —
respondeu Eberhardt.
— Hump ficou
calado. Pelo receptor de capacete Tiff ouviu que respirava pesadamente.
— E agora? —
indagou Eberhardt.
— Deixem os
defletores ligados — ordenou Tiff. — Vamos dar uma olhada.
Levantaram-se
da nave. Andaram alguns passos. Como os defletores ligados não permitissem que
se vissem uns aos outros, as pistas deixadas na neve lhes causavam arrepios.
Tiff ordenou
às moças, que se encontravam na caverna, que ficassem quietas. E mandou que
Moisés se colocasse em posição de espera. O inimigo estava a trezentos metros.
Tiff sabia que, apesar de seu peso, Moisés poderia vencer esse trecho em poucos
instantes. Em caso de necessidade, chegaria em tempo.
Depois
disso, ordenou aos seus acompanhantes que ligassem o antígravo. O gerador
começou a funcionar, e o potente campo gravitacional elevou os cadetes alguns
metros acima da neve solta, que trairia sua presença.
Viajando
tranqüilamente pela escuridão, aproximaram-se do ponto em que, segundo as
indicações fornecidas por Moisés, a nave-patrulha acabara de pousar.
— Para
prevenir qualquer eventualidade — disse Tiff tranqüilamente — liguem os campos
protetores. É bem possível que comecem a atirar assim que nos percebam.
* * *
A neve era
macia. A cada passo afundavam até as coxas.
“Ainda bem”, pensou Horlgon, “que a gravitação é tão reduzida. Se não
fosse assim só chegaríamos ao destino amanhã de manhã.”
Vilagar
tinha muito mais pressa que ele mesmo. Era uma pressa perigosa, pensou Horlgon.
Depois de
terem caminhado uns quinze minutos, quando haviam vencido cerca de metade da
distância, Horlgon disse:
— Será que
convém caminharmos diretamente para o objetivo?
Vilagar
parou.
— Por quê?
Horlgon
estendeu as mãos e virou para cima as palmas revestidas de grossas luvas.
— Afinal,
essa gente tem naves arcônidas. É bem possível que também disponham de geradores
de campo, que lhes permitam tornar-se invisíveis.
Vilagar
soltou uma risada de desprezo.
— Ora essa!
Pousaram num minúsculo veículo, em que cabem apenas três pessoas. Acontece que são
seis, conforme vimos pelos rastos. Você acredita que teriam lugar para levar um
grande arsenal de equipamento técnico?
Horlgon
continuou com as mãos estendidas.
— Não sei,
não. Apenas acho que seria prudente não marcharmos diretamente para o lugar.
A conversa foi
ouvida, através dos rádios de capacete, pelos tripulantes que continuavam no
interior das naves-patrulha. Pcholgur escarneceu:
— Não lhe dê
atenção, Vilagar. Está com medo.
Vilagar riu.
— Acho que é
isso mesmo.
Para se
defender contra a acusação, Horlgon passou por Vilagar e caminhou à frente
deste.
Ainda achava
que o procedimento era perigoso e irresponsável. Mas antes de ser chamado de
covarde preferia que a irresponsabilidade de Vilagar o matasse.
* * *
A luz do sol
alaranjado era suficiente apenas para que alguém que se deslocasse a uma altura
de seis metros acima da neve tivesse uma visão relativamente exata de pequenos
acidentes do terreno.
Para Tiff,
os dois vultos altos e de ombros largos representavam pequenos acidentes do
terreno. Continuavam a caminhar em direção ao objetivo, afundando na neve.
Naquele momento se encontravam a apenas oitenta metros da grota, e a cinqüenta
metros da entrada da caverna.
— Cuidado! —
cochichou Tiff.
Eberhardt já
observara os vultos.
Hump regulou
seu propulsor horizontal para um desempenho mais elevado e se aproximou,
produzindo um ligeiro chiado no ar. Tiff não o viu, mas pelo impacto suave
sentiu que Hump não conseguiu frear em tempo.
— Onde
estão? — fungou.
Tiff não
teve necessidade de responder. Hump viu os dois vultos.
Nunca
descobririam o que Hump sentiu naquele instante.
O fato foi
que arrancou o radiador de impulsos antes que Tiff ou Eberhardt pudessem
impedi-lo e o dirigiu para o vulto que ia à frente.
Horlgon
estava perdido.
Foi atingido
pela energia do raio fulgurante antes que tivesse tempo de se desviar.
Vilagar
soltou um grito agudo e se atirou de bruços ao solo.
Acontece que
seu inimigo tinha boa pontaria. Vilagar só estava meio afundado na neve quando
também foi atingido pelo raio escaldante.
— Seu idiota!
— gritou Tiff furioso.
Bateu em
torno de si. Atingiu alguém, pensando que fosse Hump. Voltou a bater. Hump foi
tangido para longe. Ora de cabeça para cima, ora de cabeça para baixo, foi se
deslocando acima da neve.
— Vamos! — gritou
Tiff. — Rápido! Temos de chegar antes que as naves dêem o fora.
Hump não
ouviu suas palavras.
Só Tiff e
Eberhardt se dirigiram a toda velocidade para o local de pouso das duas
naves-patrulha.
* * *
Enaret ouviu
o grito de pavor de Vilagar. No mesmo instante deu-se conta de como fora sábia
a ordem de não sair dos veículos, dada por Etztak.
— Pegaram-nos!
— gritou para Pcholgur.
Pcholgur
ainda não havia entendido a situação. Enaret ouviu seu chamado monótono:
— Vilagar!
Vilagar! Horlgon! Onde estão?
— Estão
mortos! — gritou Enaret. — Será que você ainda não compreendeu?
Não esperou
a resposta de Pcholgur. Suas mãos ágeis puseram o mecanismo propulsor a
funcionar. A pequena nave se ergueu do solo. Confiou que Pcholgur o seguiria.
Enaret sabia
o que fazer. As duas solitárias naves-patrulha não poderiam fazer nada contra o
inimigo. Precisavam de auxílio.
Subiu para
cerca de trezentos metros e colocou o transmissor na freqüência integral.
— Naves-patrulha
trinta e um e trinta e dois estabeleceram contato com o inimigo. Pedimos auxílio.
Inimigo está bem armado. As coordenadas são as seguintes...
Repetiu a
mensagem por cinco vezes. Depois disso teve certeza de que fora captada em toda
parte. Voltou a se preocupar com Pcholgur.
Na tela do
rastreador, Enaret viu que a nave de Pcholgur se levantava da neve e ganhava
altitude rapidamente. Por alguns segundos teve a impressão de que Pcholgur
voltara a recobrar o juízo, e por isso se esforçava para sair da área perigosa.
Mas,
subitamente, o ponto azul que se via na tela deslizou para o lado. A nave de
Pcholgur não subia mais. A cerca de vinte metros do solo seguiu a pista de
Vilagar e Horlgon.
— Volte,
Pcholgur! — gritou Enaret. — Volte, seu idiota!
Pcholgur não
o ouviu. Nem respondeu. Sua nave se deslocou para o oeste, a uma velocidade
cada vez maior.
* * *
— Nave
levantando — anunciou a voz monótona de Moisés. — Sobe rapidamente.
“Devem estar com medo”, pensou Tiff. “Não sabem com quem estão lidando.”
Poucos
segundos depois, Moisés voltou a relatar:
— Pedido de socorro
em intercosmo transmitido pela faixa de freqüência integral, a grande
intensidade.
Tiff
praguejou baixinho. Dali a poucos minutos todo o bando de saltadores estaria em
cima deles. E tudo isso por causa de Hump!
O robô
voltou a chamar:
— Tenha
cuidado! Outra nave está levantando e vem em sua direção.
Tiff
compreendeu.
— Desvie-se
para a direita! — gritou para Eberhardt.
Eberhardt
obedeceu imediatamente. Tiff ouviu-o passar perto dele.
— Muito bem
— anunciou Moisés. — A nave passará a vinte metros do senhor.
— Vamos
chegar mais perto, Eberhardt — murmurou Tiff.
Voltaram
alguns metros.
E a nave foi
chegando. Tiff ouviu o farfalhar e viu a sombra negra que surgia a poucos
metros de distância. Era um alvo miserável, mas...
* * *
Pcholgur não
se preocupou com coisa alguma.
Nem sabia
por que voava nessa direção.
Estivera
convencido de que os seres que procuravam eram criaturas tolas e famintas. Por
isso, a morte de Vilagar e Horlgon causara-lhe um susto que forçara a mente ao
máximo, levando-o aos limites da loucura.
Por uma
fração de segundo viu os feixes energéticos branco-azulados que, retratados
fielmente pela tela, precipitavam-se sobre sua nave.
Depois foi o
fim.
* * *
Enaret viu
Pcholgur morrer.
De repente,
um ponto ofuscante, que se deslocava rapidamente, surgiu na tela que até então
só retratara a escuridão negra e a débil mancha luminosa e alaranjada do sol
central.
Enaret viu o
impacto na neve, que subiu em forma de repuxo.
— Pcholgur!
A mancha
ofuscante se apagou.
Não houve
resposta.
* * *
Tiff levou
alguns segundos para compreender que ele e Eberhardt realmente haviam derrubado
a nave inimiga com seus pequenos radiadores térmicos.
O que
pretendia era apenas danificar o veículo e obrigá-lo a pousar. Mas a potente
carga energética das duas armas fora suficiente para destruir a nave.
Tiff não
perdeu tempo em olhar a nave que explodira na queda. Sabia que sua hora tinha
soado.
— Vamos
voltar para a caverna! — gritou para Eberhardt. — Desligue o defletor.
Ligou o
transmissor para o alcance máximo e, pondo na voz a velha raiva, ainda não
mitigada, gritou:
— Hump,
volte à caverna! Depressa!
Dali a
alguns minutos os saltadores estariam ali. Em bandos.
4
O salto de
Gucky terminou numa espécie de sala auxiliar de navegação. A peça não tinha
mais de quinze metros quadrados. As paredes estavam cobertas de mapas
estelares; na mesa, que formava a única peça do mobiliário, via-se um
micro-cérebro positrônico, destinado provavelmente à determinação aproximada
das rotas.
Gucky aguçou
o ouvido. Captou uma profusão de pensamentos, que o atingia através da parede,
vinda da peça contígua.
Pôs-se a
classificar os impulsos. Constatou que na peça ao lado havia quatro pessoas. A
atitude fundamental de três delas era fácil de reconhecer: cautela de mistura
com um certo respeito aliado à antipatia que qualquer homem sente diante de um
superior.
“É a típica atitude subalterna”, pensou
Gucky.
Concluía-se
que o quarto elemento devia ser o superior dos outros três.
Gucky não
teve de esperar mais que um minuto até que o nome do superior fosse mencionado
num pensamento.
Era Etztak!
Gucky se
instalou o mais confortavelmente possível embaixo da mesa de cálculos e pôs-se
a separar os impulsos pelos respectivos emissores, a fim de ter uma idéia da
palestra que estava sendo travada na peça ao lado.
Entendeu o
seguinte:
“Isso aconteceu”, disse um dos cérebros
subalternos, “porque Vilagar e Horlgon
saíram do veículo, contrariando suas ordens, senhor.”
Ainda surgiu
uma série de impulsos meio conscientes, meio inconscientes, como por exemplo
este:
“Se estivesse no lugar deles, provavelmente
teria agido da mesma forma. Ainda bem que não fui eu.”
Mas Gucky só
se interessou pelos pensamentos nítidos e produtivos, que costumam servir de
base à palavra falada.
Um potente
fluxo de pensamentos respondeu:
“Pouco importa por que motivo as duas naves
foram derrotadas. O que me interessa é que os fugitivos sejam capturados.”
Outro
subalterno interveio:
“Enviamos todas as naves para a área
assinalada, senhor. Os fugitivos não conseguirão escapar.”
“Será?”, respondeu Etztak em tom irônico.
“Será que da outra vez vocês não
acreditavam a mesma coisa? E, em vez de alcançarmos algum êxito, três dos
nossos homens foram mortos e uma nave foi destruída.”
Houve uma
pausa durante a qual Gucky só capturou pensamentos carregados de embaraço e
desânimo. Depois dela Etztak prosseguiu:
“Não canso de repetir: esses fugitivos são
muito importantes para mim. Mas não são tão importantes a ponto de eu permitir
que me façam de bobo por toda a vida. Se a missão não for coroada de êxito,
esse mundo será transformado num sol.”
Nos impulsos
mentais surgiu o pavor, e logo a movimentação. Ao que parecia, Etztak estava
despedindo seus oficiais.
O velho
ficou sozinho na sala. Depois que os outros três se haviam afastado pelo
corredor, Gucky passou a captar exclusivamente os pensamentos dele.
E os
pensamentos de Etztak encheram a pequena criatura peluda de medo. Etztak não proferira
uma ameaça vã quando anunciou a destruição do planeta. Realmente carregava essa
idéia consigo, e Gucky chegou a ouvir o motivo:
“Não podemos nos dar ao luxo de ficar
procurando toda vida por este mundo”, pensou Etztak. “Despertaremos a atenção dos outros, e depois disso farejarão um negócio
e tentarão arrancá-lo das nossas mãos. Aquilo que pretendemos descobrir de
Tifflor também poderá ser descoberto no mundo de onde ele vem. O estoque de
bombas arcônidas que a Horl VII traz a bordo será suficiente para transformar
este mundo numa fornalha de energia. Ninguém terá oportunidade de pôr as mãos
em Tifflor para interrogá-lo.”
Gucky
percebeu que o perigo se aproximava.
E o perigo
vinha de dois lados.
Em primeiro
lugar, uma busca que procurava localizar Tifflor e seu grupo estava em pleno
andamento e, ao que tudo indicava, já fora coroada de certo êxito.
Além disso,
Etztak destruiria o planeta Homem de Neve, se contra todas as expectativas Tiff
conseguisse transformar os êxitos iniciais da operação de busca num fracasso.
Gucky viu
nessa constelação de alternativas um beco sem saída, e teve certa dificuldade
em tomar uma decisão sobre o passo que deveria tomar.
Poderia se
dirigir para a Horl VII que, segundo as informações fornecidas por Etztak,
encontrava-se no espaço, a uma altitude de oitocentos quilômetros, para
inutilizar sua carga de bombas.
Mas era bem
provável que nesse meio tempo Tiff e as pessoas de seu grupo fossem capturados.
E seria muito mais difícil libertá-los depois que se encontrassem a bordo de
uma das naves do que ir agora em seu auxílio.
Por isso,
Gucky resolveu deixar a Etz XXI e voltar para a caverna.
Se
conseguisse intervir logo na luta e alcançasse uma vitória rápida, talvez ainda
houvesse tempo para remover o perigo representado pelas bombas que se
encontravam a bordo da Horl VII.
Agachado embaixo da mesa de cálculo, se
concentrou sobre a caverna em que os cadetes e as duas moças se mantinham
escondidos... e saltou.

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