Naquele
instante, a porta do edifício do outro lado da rua se abriu. Um robô saiu.
Kakuta
levantou o radiador manual e disparou. Ao mesmo tempo efetuou uma teleportação
reflexiva, que o colocou sob o abrigo do edifício.
A
reação de Goratchim não foi tão rápida. Não pudera ver o robô. Quando percebeu
ao mesmo tempo o perigo que o ameaçava e a fuga de seu aliado, quase se sentiu
tomado pelo pânico.
Por
alguns segundos permaneceu imóvel em plena rua. Aguardou o golpe mortal.
Algumas frações de unidade de tempo se passaram. Ainda estava vivo.
Depois
disso, a vontade de Goratchim se concentrou sobre o robô, que provavelmente
hesitara porque o homem de duas cabeças lhe causara certa perplexidade. E essa
hesitação foi seu fim. O mutante Goratchim não teve que fazer outra coisa senão
pensar, e o cálcio contido no robô desfez-se numa devastadora reação em cadeia.
* * *
—
Gostaria de saber onde está Tako — disse Rhodan. — Afinal, ele não podia deixar
de perceber o que aconteceu no quarteirão J-D III.
—
Como teleportador não terá o menor problema em escapar ao cerco — afirmou
Manoli. Não compreendia como o chefe poderia ter esquecido esse fato.
—
Ele poderá. Mas não conseguirá tirar Goratchim de lá.
—
Então seu segredo foi esse Goratchim — gemeu Reginald Bell. — Por que não nos
lembramos logo de recorrer a ele? Era uma idéia tão simples. Será que há algo
de errado com nossa capacidade de reação? Eric, o que me diz?
—
Quer que eu responda na qualidade de médico?
Rhodan
interrompeu o debate com um ligeiro movimento de mão.
—
Se é que você procura uma explicação psicológica, Bell, esta só pode ser uma.
Em nosso subconsciente confiamos demais na orientação estratégica fornecida
pelo cérebro P. Todo este alarma complicado foi previamente programado. Mas
nesse alarma não havia lugar para Goratchim, porque o cérebro não o incluía em seus
cálculos. Nossa programação de alarma já tem algum tempo. Acontece que
Goratchim só veio para junto de nós há pouco.
O
quarteirão J-D III estava praticamente cercado pelo exército de robôs. Rhodan
interrompeu sua exposição. Todos sabiam que naquele momento o importante era
agir. E o curso que os acontecimentos tomaram nos próximos minutos realçou
ainda mais a necessidade de ação.
O
coronel Friedrichs lançou helicópteros armados contra o quarteirão J-D III.
Bell imediatamente deu contra-ordem.
—
Será que o senhor ficou louco, coronel? O senhor está atirando para uma área cheia
de civis.
—
As frentes estão misturadas. Se quisermos poupar a vida de nossa gente a
qualquer preço, já não poderemos atingir os robôs.
—
Peço-lhe que deixe a decisão desse tipo de problema por minha conta. Instrua
seus homens a chegar mais perto do inimigo. Procure atingir os robôs um por um.
Mas não extermine a inteligência da Terceira Potência.
Todos
compreenderam que a decisão de Bell transformava o grupo de helicópteros num
comando suicida. Os robôs já haviam derrubado três aparelhos. E o raio
antigravitacional, que representava a arma mais perigosa, tinha que ser
utilizado em escala cada vez maior. Em todos os pontos as frentes se misturavam
numa luta corpo a corpo. Quem fosse subtraído à ação da gravitação terrestre,
passaria a rodopiar no ar. Com isso o caos seria completo.
—
Bell para o coronel Friedrichs. Concentre uma onda de ataque com todas as
forças aéreas disponíveis exclusivamente sobre o quarteirão J-D III. A área tem
que ser libertada de qualquer maneira.
Por
três minutos permaneceram em silêncio diante da tela do videofone. A ordem de
Bell causou uma alteração instantânea na ordem de batalha.
O
ataque concentrado contra o quarteirão J-D III transformou a área num
verdadeiro inferno. Mas percebia-se pelo emprego rigoroso do fogo dirigido que
as perdas dos homens mecanizados eram muito maiores. Os fugitivos puderam
respirar, e conseguiram recuar um pedaço.
A
cunha dos robôs revoltados perdeu tempo e energia. Até parecia que os
indivíduos cibernéticos se impressionaram com a tática. Por um instante davam a
impressão de não saber como as coisas iriam continuar.
Bell
exultou:
—
Estão confusos. Friedrichs! Retire imediatamente os reforços e concentre-os no
quarteirão H-G VII. Repita a manobra.
—
Se você tiver alguma objeção contra minhas disposições intuitivas, Rhodan,
avise logo — prosseguiu Bell, Voltando-se para o amigo. — Ainda não sei o que
houve com Kakuta e Goratchim e não tenho a menor idéia do que você pretende
fazer com eles.
—
Continue assim, Bell. É só por meio de uma série de mudanças táticas que você
conseguirá confundir os robôs, se é que isso se torna possível.
Ninguém
falou nas próprias perdas, muito embora Friedrichs tivesse perdido mais quatro
helicópteros.
Finalmente
Tako transmitiu um aviso pelo telecomunicador portátil.
—
Acordei Goratchim, Rhodan. Ainda estamos na casa dele. O ataque maciço valeu
ouro. Poderia mandar para cá o tanque mais próximo? Ivã é um atacante de
primeira, mas suas defesas contra um ataque à traição são muito débeis.
—
Está bem. Continue no interior da casa. Mandaremos uma máquina com um forte
campo energético.
—
Obrigado.
O
capitão Klein tomou suas providências sem aguardar uma ordem expressa. No
quarteirão J-D IX havia dois tanques de setenta toneladas. Klein mandou que
seguissem imediatamente para a residência de Goratchim.
—
Um dos dois tem que dar um jeito de passar. Protejam-se mutuamente.
—
Às ordens, capitão — disse o primeiro-tenente em tom seco e interrompeu a
comunicação.
O
ataque contra o quarteirão H-G VII não produziu tanto efeito. Talvez fosse
porque os robôs já se haviam adaptado ao plano de Bell.
—
Temos que pensar em outra coisa.
A
constatação foi bastante deprimente. A concentração das forças sobre dois
pontos também trouxera suas desvantagens. Dentro de poucos minutos as duas
tenazes que os robôs estendiam para o norte conseguiram realizar um grande
avanço.
—
Esses patifes aproveitam qualquer chance — resmungou Bell. — Deviam supor que
os pontos em que nossa defesa é mais forte são aqueles em que ficam os
objetivos mais importantes. Será que isso é inteligência?
—
Na minha opinião — interveio Dr.Manoli — o mais importante será descobrirmos de
que forma se comunicam entre si. Só assim poderemos descobrir seus planos.
—
Não diga tolices. Sabemos perfeitamente como se comunicam. Mas não sabemos quem
os comanda.
—
Pois é isso.
—
Consegui. Querem fazer o favor de ficar quietos por um instante?
Todos
olharam para Tanaka Seiko, que até então não dissera praticamente nada. Entre
os mutantes aquele japonês esbelto e delicado sempre fora conhecido como um
homem quieto e introvertido. Esse traço de caráter teria que se cristalizar
forçosamente com base na capacidade parapsicológica da goniometria. Perscrutava
seu interior com uma intensidade muito maior que um telepata. Seu sexto sentido
consistia, sob o ponto de vista puramente técnico, num aparelho de rádio
extremamente complicado, cuja sofisticação ainda não havia sido alcançada pela
mão do homem ou dos arcônidas. Seiko ouvia as ondas de rádio. Além disso,
estava em condições de realizar espontaneamente a determinação de uma
freqüência de ondas, que lhe revelava com toda nitidez o conteúdo da
transmissão que desejasse captar.
Aquela
concentração, que perdurava por vários minutos, sempre resultava em certa
debilidade física.
Sentado
numa poltrona, manteve-se de olhos fechados.
—
Conseguiu o quê, Tanaka?
Seiko
fez um gesto de recusa, que fez com que mesmo Bell e Rhodan se calassem.
Obedientes, mantiveram-se à espera.
O
zumbido do videofone se fez ouvir. Justamente no momento mais impróprio! Bell
se limitou a girar o botão de recepção, que eliminava imagem e som. Pegando o
microfone, cochichou:
—
Aguarde um instante. No momento a recepção é impossível.
O
interlocutor do outro lado protestou com veemência. Mas não chegou a ser
ouvido.
O
que fora conseguido por Tanaka? A questão mais importante era esta.
Pouco
depois Tanaka se descontraiu.
—
Consegui captar uma das freqüências pelas quais os robôs se comunicam. Os
saltadores devem ter modificado seu mecanismo de radiocomunicação. Temos que
sair daqui, Rhodan.
—
Por quê? Afinal, os robôs não têm força aérea e ainda se encontram a um
quilômetro e meio daqui.
—
Um dos seus espiões descobriu que o quartel-general de nossas forças de defesa
fica aqui, no escritório do capitão Klein. Até aqui acreditavam que ficasse no
edifício da sede do governo.
—
Está bem. Procure captar novas mensagens, Tanaka. E esforce-se para não perder
a freqüência. Se nós o incomodarmos, fique na sala ao lado.
—
Acho que seria o melhor.
Seiko
se retirou.
—
...recuso toda e qualquer responsabilidade. Com todo respeito que lhes dedico.
O
súbito berreiro saiu do videofone, que Bell voltara a regular para o volume
máximo. Na tela viu-se o rosto furioso do coronel Friedrichs.
—
Agora chegou sua vez, coronel.
—
Já estava na hora. Minhas tropas já não estão em condições de manter qualquer
posição. Lançar homens contra robôs, isso é uma...
—
Diga logo de que se trata, coronel! — trovejou Bell.
—
Minhas perdas já chegam a um total de quatorze helicópteros. Preciso do apoio
das forças de terra.
—
O apoio é o senhor, coronel. Sinto muito. Não dispomos de outras máquinas e não
temos onde buscá-las. Por questões de segurança a abóbada energética
permanecerá fechada. Retire suas unidades por dez minutos e reagrupe-se com os
remanescentes. O Exército de Mutantes lhe dará apoio. Aguarde novas instruções.
—
Dentro de dez minutos os robôs chegarão ao nosso quartel-general, se não forem atacados
pelo ar. Peço permissão para transferir meu estado-maior para o norte.
Bell
lançou um olhar indagador para Rhodan. Este se limitou a acenar com a cabeça.
—
Está bem. Retire-se para a quadra A-N XII, coronel. Com isso chegará bem perto
do espaçoporto. Mas não se esqueça de que depois disso sua posição não mais
poderá ser modificada.
—
Obrigado.
A
comunicação foi interrompida com um estalo.
—
Vamos aos mutantes, Rhodan! Não temos outra alternativa.
Sem
dizer uma palavra, Rhodan passou os olhos pelo grupo que o cercava.
—
Ishi, você é uma mulher e uma telepata. Suas qualidades não podem ser
utilizadas num confronto com robôs. Gostaria que se retirasse para a quadra
administrativa.
Obediente,
Ishi acenou com a cabeça.
—
Imediatamente?
—
Sim, faça o favor.
Ishi
Matsu fechou seu traje arcônida e se despediu. Decolou do telhado do edifício e
desapareceu, tornando-se invisível aos olhos de qualquer robô.
—
Os outros ficarão aqui até que sejamos cercados. Capitão Klein, avise o
batalhão de guardas sobre a nova situação. Mande que se mantenham em rigorosa
prontidão. Todos os veículos que disponham de campo energético próprio devem se
reunir num grupo de defesa.
—
Às ordens.
A
tela já revelava o perigo da nova situação. De início o plano dos robôs só se
revelava vagamente. Mas Tanaka informou todas as pessoas que se encontravam no
recinto sobre o objetivo visado pelos movimentos das máquinas de guerra. De
repente concentraram quase um quarto de seus efetivos num avanço para o leste.
Já teriam percebido a fraqueza momentânea das defesas humanas? Sem os ataques
vindos do ar praticamente não encontravam resistência. Despedaçavam blocos
inteiros de prédios quando numa rua alguém abria fogo sobre eles, por mais
reduzido que fosse. A três quadras do quartel-general do capitão Klein
defrontaram-se com a primeira linha de defesa mais fortemente estruturada. Três
tanques enfileirados formavam uma grande barreira energética, que cobria toda a
pista de rolamento. O fogo concentrado de suas armas de impulsos abateu a
energia defensiva de sete dos atacantes; sete robôs desfizeram-se na
incandescência provocada pelos tiros.
Mas
os robôs não conhecem medo.
Num
fanatismo cego, a frente por eles formada deslocou-se em direção aos tanques.
Naquele
instante foi derrubado numa outra rua o helicóptero que propiciava a
transmissão da imagem no sistema de videofone.
No
quartel-general perdeu-se todo contato ótico com os acontecimentos. Reginald
Bell soltou uma terrível praga.
* * *
Ivã
Goratchim não era feio apenas por possuir duas cabeças. Seu aspecto geral era
simplesmente monstruoso. Era um dos numerosos mutantes negativos nascidos na
Sibéria depois das primeiras experiências realizadas com bombas atômicas. Os
aspectos negativos revelavam-se de várias formas.
A
altura de dois metros e meio, as disformes pernas de coluna, sua pele
esverdeada e escamosa e seu corpo anguloso e desajeitado eram suficientes para
provocar a impressão de se tratar de um monstro.
No
caráter e na capacidade biológica era uma combinação quase paradoxal entre o
bem e o mal. Se não fosse a mutação que o transformara num detonador, poderia se
dizer que era uma criatura inofensiva. Ambas as cabeças impunham a ele um gênio
paciente, ingênuo e submisso. Desde a infância costumava ser chamado de
monstro. Isso produzira em sua mente um pronunciado complexo de inferioridade.
Até então, praticamente não chegara a tomar qualquer iniciativa. Durante o
curso de uma geração, seus dois cérebros haviam se acostumado a uma espécie de
concorrência. Com isso sua capacidade mental se consumira. Era bem verdade que,
perante um terceiro, as duas cabeças se mantinham unidas como se fossem uma só.
Mas esse fato não substituía a ausência da vontade de impor-se.
Ivã
Goratchim transformara-se numa criatura tipicamente submissa. Só queria servir
para ser recompensado com o amor do próximo.
O
legendário Supercrânio, que há algum tempo cobrira a Terra e a Terceira
Potência, com uma ameaçadora guerra de guerrilhas, fora o descobridor
estratégico de Ivã. Tirara-o da tundra siberiana e lançara mão dele para seus
desígnios maléficos. E Ivã era fácil de aproveitar. Afinal, era ingênuo... e
era um detonador.
Essa
última qualidade, que mais tarde lhe conferiria um lugar de destaque no
Exército de Mutantes de Rhodan, consistia no fato de que suas energias mentais
provocavam nos compostos do cálcio e do carbono o mesmo efeito que um impulso
térmico produz na pólvora. Bastava que Ivã Goratchim se concentrasse, para que
os átomos de cálcio entrassem num processo de fissão nuclear. Acontece que o
cálcio e o carbono estão praticamente em toda parte. Por isso Goratchim, o
detonador, estava em condições de matar qualquer ser vivo e destruir qualquer
objeto, desde que sua mente se concentrasse intensamente para isso. Era ali que
terminava seu caráter inofensivo.
A
destruição do robô de combate provou o fato.
Ivã
viu-se diante de um montão de escombros de metal e de massa plástica. A visão
daquilo restituiu-lhe um pouco de sua autoconfiança. Não era uma criatura
indefesa. Nem mesmo contra essas impiedosas máquinas de guerra. Apenas teria
que agir com cautela. E esta idéia fez com que se retirasse imediatamente para
trás do muro que cercava a área de onde acabara de sair.
A
rua ficou vazia. Não foi disparado mais nenhum tiro. Mas o que aconteceria se
saísse de trás do muro? Não teria sido visto por outro robô que se mantinha
escondido? Do outro lado da rua havia centenas de janelas. Atrás de qualquer
uma delas a destruição poderia estar à espreita.
Esperou.
Quando se lembrou de Tako Kakuta, voltou a sentir medo. Por que o teleportador
havia desaparecido? Certamente apenas porque aqui o ambiente estava carregado
de chumbo e de energia. De repente, o barulho cresceu enormemente. O ouvido já
se acostumara aos ruídos da luta que se desenrolava em ruas distantes. Mas
agora mais de vinte helicópteros corriam pelo céu e disparavam seus radiadores
de impulsos térmicos. A rua já não estava vazia. Dois, três robôs apareceram e
de pernas duras foram caminhando na direção oposta à que tinham vindo. Outros
juntaram-se a eles.
Ivã
olhou pelo canto do muro e voltou a se abrigar. Uns trinta robôs de combate
estavam desfilando pela rua. Parecia ser uma retirada.
Será
que isso significava que Perry Rhodan já conquistara a vitória?
A
ingenuidade de Goratchim era pronunciada demais. Logo esqueceu a prudência. Se
Rhodan estava vencendo, o mais terrível de seus mutantes não poderia deixar de
dar sua contribuição para a vitória.
Levantou-se.
Sua altura equivalia a quase duas vezes a do muro. A cabeça e o tórax estavam
desprotegidos. Os robôs estavam a menos de vinte metros.
Para
eles a percepção e a reação eram simultâneas. A vantagem de Ivã consistia
unicamente na surpresa. Ele o sabia.
Antes
de se levantar, preparara rapidamente a concentração de seus pensamentos. Os
dois cérebros completavam-se numa cadeia de relés. Só por isso seu ataque
alcançou um êxito parcial.
Mais
de uma dezena dos guerreiros artificiais perderam a vida no instante em que
estavam começando a perceber o perigo. Mas os que se encontravam na segunda e
na terceira fila tiveram tempo de reagir. Viram o mutante de duas cabeças e não
perderam tempo em se espantar com o aspecto pouco humano do mesmo. O ataque de
Ivã era sinal de sua periculosidade. E os robôs se orientavam exclusivamente
por essa circunstância.
Fizeram
pontaria com seus olhos estereoscópicos, que incluíam o mecanismo de pontaria.
O funcionamento do radiador de impulsos térmicos era automático.
Nesse
instante alguma coisa pegou nas pernas de Ivã Goratchim, que caiu estendido na
grama plantada atrás do muro. Espantados, seus dois pares de olhos fitaram o
rosto de Tako Kakuta, que se mantinha agachado atrás do muro.
—
Vamos embora! Siga-me, seu idiota! Fique grudado no chão, arrastando-se sobre
os cotovelos e os joelhos.
Para
um teleportador era uma maneira pouco usual de se afastar de uma área de
perigo. Mas a esta hora não poderia se transferir para outro lugar pela simples
força de seu desejo. Levava a reboque a figura desajeitada de Goratchim; não
poderia abraçá-lo e levá-lo num salto teleportado.
Logo
perceberam que a intervenção de Kakuta fora necessária. Antes que a criatura de
duas cabeças tocasse a grama, os primeiros feixes de raios térmicos passaram
por cima dele e demoliram a parede do edifício. Depois disso os robôs baixaram
a direção dos tiros, fazendo pontaria sobre o muro.
Lascas
de pedra esvoaçaram em torno das cabeças de Tako e Ivã. Sentiram que o calor
aumentava a seu lado. Quando tinham percorrido uns dez metros, o muro cedeu. O
raio energético dissociara o silício dos elementos a que estivera ligado,
derretendo-o a uma temperatura de quase dois mil graus centígrados. O muro se desmanchou
num fluxo de lava incandescente. Havia um buraco nele.
Será
que os robôs acreditavam terem liquidado o inimigo?
Não
teriam bastante inteligência para saber que o homem é um ser que sabe rastejar?
Tinham. E estavam programados para se orientar pelas reações humanas. Se o
homem tivesse fugido, ele teria se deslocado para a direita. Logo,
prepararam-se para abrir outro buraco no muro. Mas Tako fizera exatamente o
oposto daquilo que as máquinas esperavam. Rastejara para o canto do jardim que
ficava mais próximo aos robôs. E Ivã seguira-o docemente.
—
Agora estão a apenas dez metros de nós — cochichou o teleportador. — O próximo
ataque tem de ser muito bem preparado. Concentre-se com bastante antecedência
na destruição, Ivã. Eu me teleportarei para a casa em frente e atirarei da
janela com meu radiador de impulsos térmicos. Você só deve detonar no máximo
por três segundos. Depois disso, atire-se ao solo e rasteje o mais depressa
possível. Deixe o resto por minha conta.
Com
uma pancada no ombro de Ivã, Kakuta se despediu.
Tudo
se passara numa questão de segundos. Pelo que se concluía dos ruídos, os robôs
dispunham-se a prosseguir na sua caminhada. Goratchim se concentrou. O primeiro
tiro foi disparado do prédio em frente.
Tako
visou a fileira da frente, formada por quatro robôs que ainda disparavam sobre
o muro. Por isso o radiador de impulsos produziu efeito dentro de poucos
segundos. Quando o feixe de energia atingiu o reator, o campo protetor deixou
de existir.
Doze
ou quatorze dos robôs de quatro braços se viraram instantaneamente e visaram o
novo inimigo. Mas a aparição de Tako na janela não passou de uma sombra fugaz.
O japonês executou novo salto, que o levou ao prédio vizinho, dois andares
abaixo. Logo correu para a janela a fim de sondar a situação.
Ivã
Ivanovitch estava de pé atrás do muro.
Não
houve nenhum relâmpago, nenhum raio energético que envolvesse aquela figura
petrificada. Permaneceu ali apenas por três segundos, mas sua rigidez e
concentração dava a impressão de que ali fora colocado para toda a eternidade.
Mas foi apenas um instante da eternidade que decidiu o destino de nove dos
robôs de combate.
No
centro de seus ventres teve início a reação em cadeia dos átomos de cálcio.
Isso foi sua morte.
Ivã
obedeceu à ordem que lhe fora dada. Deixou-se cair sem aguardar o resultado da
detonação por ele provocada. Os cinco robôs que ainda restavam puseram-se em
movimento sem muita perda de tempo. Dois foram para a direita, três para a
esquerda.
Kakuta
liquidou um deles, deu um salto de trinta metros através das paredes e destruiu
mais um.
Goratchim,
que de repente se esquecera de todo cuidado, tomou conta do resto. Abriu os
braços e deixou-se cair para o lado da rua. Só pensava na destruição do
inimigo.
O
grito de advertência de Kakuta revelou-se inútil. Os robôs não estavam à altura
dessa investida de apaixonada concentração humana. Os que ainda restavam
sucumbiram ao fogo que consumiu seus corpos artificiais.
A
rua estava livre. Kakuta surgiu ao lado de Ivã.
—
Que diabo! Não lhe proibi este tipo de leviandade? Qualquer outro homem preza
sua vida e age com cautela. Mas você...
Goratchim
exibiu dois rostos decepcionados. Esperava que seu ato merecesse uma recompensa
sob a forma de um elogio. Obediente e sacudindo a cabeça dupla, seguiu o
japonês para um edifício, de onde o mesmo solicitou, pelo telecomunicador, o
envio de um carro blindado.
3
— Estamos entrando
na última fase — murmurou Perry Rhodan em tom obstinado. — É ela que decidirá
quem de nós é o mais forte.
Essa idéia
não deixou os amigos muito satisfeitos. Poucas vezes o chefe deixara o
resultado de um combate em aberto como o fizera desta vez. Sempre confiara sua
segurança e a dos indivíduos que o cercavam à técnica de que dispunha. Hoje,
porém, parte da técnica da Terceira Potência passara-se para o lado do inimigo.
Esse fato alterara profundamente a situação.
O cerco em
torno do quartel-general do capitão Klein tornava-se cada vez mais apertado. Os
robôs haviam esmagado a maioria das linhas de defesa colocadas nas ruas. O chão
estava começando a arder sob os pés, no sentido literal da expressão.
Rhodan deu
ordem de retirada ao seu estado-maior.
— Bell, não
faça essa cara de herói frustrado! Hoje não se trata de demonstrar coragem, mas
de não queimar os dedos... Fechar os trajes de combate. Capitão Klein, avise o
comandante do batalhão de guardas. Faremos o possível para providenciar o
revezamento quanto antes.
Klein fez
continência e saiu. Rhodan mexeu na sua pulseira para chamar Kakuta.
— Alô, Tako!
Vamos nos transferir para um edifício de escritório. De qualquer maneira,
procure chegar até aqui com o Ivã, a fim de apoiar a tropa de Klein. No momento
não tenho outras ordens. Os dois tanques já chegaram?
— Não
senhor.
— Pois
espere. Não deverão demorar.
O capitão
Klein voltou.
— Tudo
liquidado, chefe.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Todos
conhecem o objetivo. Vamos embora! Não se esqueçam de ligar os defletores de raios
luminosos. Nossa retirada deve ser invisível.
Decolaram do
telhado. Cada traje arcônida era um veículo. Rhodan flutuou no ar por algum
tempo, para colher uma impressão sobre a situação geral. Não parecia ser boa.
Mais de um terço do território coberto pela abóbada energética estava em poder
dos robôs.
— Wuriu — gritou
Rhodan pelo telecomunicador, enquanto voavam.
— Sim.
— Estou me
lembrando do helicóptero destruído. Fique aqui por uma hora e mantenha-me
informado sobre a situação. Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos cegos no
nosso escritório.
— Perfeitamente!
O contato
através do telecomunicador não representava o menor risco. Os robôs talvez
conseguissem captar transmissões radiofônicas normais, mas não as do aparelho
audiovisual que trabalhava por meio de impulsos codificados.
Pousaram no
telhado do arranha-céu em que ficavam as repartições do governo. Quando regulavam
seus trajes para a posição zero houve alguma exaltação, logo transformada numa
sensação de alívio. O edifício do governo estava cheio de gente retida em seu
local de trabalho por causa do alarma.
— A situação
não está boa, não é, senhor Rhodan? — perguntou uma jovem funcionária.
Pela
primeira vez naquelas horas o chefe da Terceira Potência conseguiu esboçar um
ligeiro sorriso.
— Não, senhorita
Grohte, a situação não está boa. Mas estamos nos esforçando ao máximo para que
as coisas logo se modifiquem a nosso favor. Mantenha-se no seu posto, para que
tudo dê certo.
Pegaram o
elevador e desceram ao escritório de Bell. Chegando lá, encontraram Crest e
Thora, os dois arcônidas que nessa situação de alarma não tinham qualquer
tarefa especial a desempenhar, mas deviam permanecer naquele pavimento por
motivos de segurança.
Thora, a
mulher vinda do longínquo planeta de Árcon, logo se aproximou de Rhodan.
— Como estão
as coisas, Perry?
O tratamento
familiar não combinava com o olhar petrificado. Rhodan deu de ombros.
— A decisão
não deve demorar, Thora.
— Você devia
colocar um girino à nossa disposição, Perry. Crest e eu temos o direito de nos
mantermos afastados desta luta.
— Não há
dúvida. Acontece que nosso plano exige que a abóbada energética permaneça fechada.
Ninguém pode sair do centro de Terrânia.
— Não vejo
por que...
— Está bem.
Se as coisas se tornarem críticas por aqui, voltaremos a falar a respeito. Por
enquanto a área governamental não corre o menor perigo. O front está sob
controle.
A arcônida
teve de se contentar com a explicação.
Pouco depois
Kakuta chamou.
— Os tanques
chegaram. Entramos neles e seguimos na direção indicada.
— A terceira
linha de defesa que cerca o batalhão do capitão Klein foi rompida — anunciou
Wuriu Sengu. — O edifício está ao alcance dos tiros do inimigo. O avanço pelos
flancos foi retardado. Mas o inimigo está formando uma cunha central que avança
em direção à área governamental.
— Aí está — constatou
Thora.
Ninguém deu
atenção às suas palavras. Bell mandou que todos os helicópteros disponíveis
voltassem à luta. O coronel Friedrichs confirmou o recebimento da ordem em tom
resignado.
Rhodan
pareceu tomar uma decisão:
— Se a
entrada em ação de Ivã coincidir com o ataque dos helicópteros, tenho alguma
esperança no êxito da operação. O resultado seria ainda melhor se recorrêssemos
a um terceiro fator. Bell, você está no comando; não precisa de mim. E pode
dispensar Anne e Kitai.
— Basta que
Tanaka fique comigo para captar as ondas irradiadas pelo inimigo. Mas afinal, o
que pretende fazer?
— É o
terceiro fator. Nosso grupo de choque será invisível. Isso representa uma boa
vantagem.
Rhodan não
deu outras explicações. Não podia perder tempo, pois do contrário o apoio do
novo grupo poderia chegar tarde.
Os três se
retiraram e desceram ao quarto subterrâneo. Ali cada um deles pegou cinco
bombas explosivas normais, que apesar de seu peso reduzido produziam o efeito
de uma tonelada de TNT por bomba.
O comandante
dos blindados era o sargento Cry. Era uma alma paciente e um gênio na
distribuição de cargas, pois conseguiu, num espaço de três minutos, acomodar os
dois metros e meio do corpo de Goratchim no espaço estreito de um blindado. E
não foi só isso! Ainda conseguiu abrigar a tripulação normal e Tako Kakuta.
Os homens de
Terrânia já tinham conhecimento das faculdades de Ivã. De repente se sentiram
muito seguros no interior do blindado. Cry apenas ficou quebrando a cabeça
sobre a maneira pela qual Ivã trabalharia. Pois não podia se mexer muito.
— Isso não
tem importância — disse e cabeça da direita. — Não existe campo protetor que
possa resistir à força dos meus pensamentos. Ainda menos o dos robôs. E este
pedacinho de aço dos seus tanques para mim não é nada. Apenas preciso ter um
pouco de visão pela fenda de observação...
— Aqui está
um telescópio. Com isso a visão será melhor e mais confortável.
— Muito bem,
companheiro — disseram as duas cabeças de Goratchim, alegrando-se ao mesmo
tempo.
Os blindados
andavam bem juntos. Seus campos protetores podiam ser regulados para um efeito
aditivo, desde que os geradores ficassem a uma distância menor que o triplo do
raio do campo energético. Qualquer comandante de tanque conhecia o truque. Mas
o mesmo pressupunha grande habilidade de quem dirigisse o veículo, pois as
esteiras dos dois tanques não podiam ficar a uma distância superior a vinte
centímetros.
A área em
torno da quadra J-D III estava vazia. Vez por outra viam-se mortos ou robôs
destruídos. Os destroços das casas desmoronadas não representavam qualquer
obstáculo para aqueles colossos.
Dali a duas
quadras começou a área controlada pelos robôs. A primeira linha foi liquidada
por um impacto casual da peça de artilharia do blindado. Mas a situação logo se
tornou crítica. A troca de tiros atraiu uma dezena de inimigos, que se lançaram
ao ataque em frente ampla.
— Cuidado,
Ivã! — gritou Tako Kakuta.
— Eu os vejo
no telescópio. Devo...?
— É claro
que sim. O que está esperando?
A força
demoníaca da mente de Goratchim pôde se desempenhar em toda a plenitude. Não precisava
pensar na fuga, pois confiava nos campos protetores dos blindados. Por isso
conseguiu se concentrar integralmente no ataque.
Os robôs
estouraram. Foram reduzidos a uma coisa incandescente indefinível.
O
contra-ataque dos dois veículos passou por cima deles.
Mais uma
quadra.
Outros
inimigos. Mais de trinta, que logo abriram um fogo permanente e concentrado.
— Isso é
demais! — gritou Cry. — Nossos campos protetores não agüentam. Temos que
recuar.
— Espere um instante!
— respondeu Kakuta, também gritando.
Cry era o
comandante, mas um oficial do Exército de Mutantes sempre seria seu superior.
Um
tremeluzir inquietante surgiu diante da lâmina do visor. O campo energético
estava sendo solicitado até o limite de sua capacidade. Finalmente a força do
ataque diminuiu. Os pensamentos devoradores de Ivã haviam encontrado seu
caminho.
A rua estava
livre.
Para a
frente!
O suor
porejava nos rostos.
Para a
frente!
Os
helicópteros trovejavam em vôo baixo. Ainda bem que tinham voltado.
Para a
frente!
Destino: o
quartel-general do batalhão de guardas de Klein. O videofone transmitia gritos
de socorro ininterruptos vindos de três posições cercadas.
— Agüentem! —
foi a ordem que Bell transmitiu do edifício do governo.
Era um
consolo débil para os defensores. O som das armas de impulsos dos helicópteros
que voltaram a intervir foi bem mais agradável. Vez ou outra surgiu até um
acesso de otimismo, quando a rádio governamental da Terceira Potência
transmitiu os êxitos observados por Wuriu Sengu.
— O mutante
Ivã Goratchim acaba de entrar em ação. Nos últimos cinqüenta minutos destruiu
setenta e dois robôs de combate.
Passaram
pelo cruzamento de duas ruas principais.
Faltavam
trezentos e cinqüenta metros para atingir o batalhão de guardas do capitão
Klein.
Não se via
nenhum inimigo.
— Cuidado! —
disse Kakuta. — Os robôs gostam de lutar em campo aberto. Mas não devemos
confiar demais nisso. Hoje de manhã fiquei sabendo que às vezes gostavam de
pregar surpresas.
Foi o que
aconteceu nesse instante.
Os quatro
edifícios de esquina, todos eles de doze andares, explodiram ao mesmo tempo.
Milhares de toneladas de concreto subiram para o alto e caíram no cruzamento.
Os campos energéticos dos blindados protegeram-nos contra o impacto
propriamente dito, mas nem mesmo os motores nucleares conseguiram movê-los.
— Estamos
presos! Que surpresa!
Cry nunca
deveria ter dito isso. Ao que parecia os robôs estavam bem informados sobre as
transmissões da rádio Terrânia. Foram avançando de quatro lados ao mesmo tempo.
Eram muito mais de cem.
Cry gritou
para dentro do videofone.
— Solicito apoio
aéreo imediato no cruzamento da Alameda Kepler com a Rua Fermi. Cento e
cinqüenta robôs estão atacando o grupo de choque Goratchim. Os tanques estão
presos nos destroços de concreto.
Ivã teve que
esperar. Quanto mais próximo se encontrasse o objeto, maior era a eficiência de
sua energia mental. Mas Kakuta e Cry apressaram-no.
— É bem
possível que os robôs comecem logo. Quase alcançaram a distância crítica.
No mesmo
instante o pó de concreto esguichou diante do visor. O chiado dos geradores
revelava que os mesmos estavam sendo forçados ao máximo de sua capacidade.
— Deixem
toda a energia para o campo protetor — berrou Cry. — Não atirem mais.
O ataque
ficou exclusivamente a cargo de Ivã. Este se esforçou o mais que pôde e
registrou alguns êxitos. Mas os robôs estavam tão longe que não poderia atingir
todos de um só golpe.
— Se eles
perceberem que o alcance do detonador é limitado, estamos perdidos.
— Helicópteros!
— gemeu o sargento no seu assento de piloto.
Sua voz não
parecia muito confiante.
A imagem que
surgiu na tela revelava que o tanque ao lado não emitia qualquer energia. Fora
atingido. A potência do campo energético comum estava reduzida à metade.
— É o fim! —
afirmou o sargento. — Saiam!
— Revogo a
ordem — berrou Kakuta. — Não perca a cabeça, Cry. Já pensou o que farão com
você se andar pela rua? Sargento, tente deslocar o tanque para trás.
O sargento
obedeceu. Mas não conseguiu mover o tanque um centímetro sequer.
E não era
possível se libertar por meio de disparos energéticos, porque os destroços que
teriam de ser removidos encontravam-se num ângulo morto.
— Coloque
toda energia no campo protetor, sargento. É nossa última salvação. Ivã, faça o
favor de andar mais depressa.
Ivã e
Ivanovitch responderam com um gemido. Três, quatro, cinco exemplares do inimigo
foram para os ares.
— Muito bem,
Goratchim! É assim que eu gosto! Dê-lhes mais. Daqui a pouco estaremos ao
alcance do fogo deles. Até agora esses caras só dispararam alguns tiros
espalhados. Quando concentrarem todo o fogo nos poucos metros quadrados do nosso
tanque, nem teremos tempo para pensar.
O zumbido do
gerador de campo subiu na escala e perdeu-se na freqüência mais elevada,
imperceptível ao ouvido humano.
Calor!
Suor nos
olhos!
Seria apenas
imaginação? Ou será que o campo energético já estava cedendo?
— Ivã!
Ótimo! Mas dê-lhes mais, muito mais. São mais de cem.
Kakuta abriu
a gola da camisa, para respirar melhor. Seu instinto insistia para que
executasse um salto teleportado, que o colocaria a salvo. Mas tinha de ficar ao
lado de Goratchim. Era responsável pelo mesmo.
Os robôs se
lançaram ao ataque geral.
* * *
— Lançar! — ordenou
Rhodan.
Seis bombas
explosivas caíram do nada aparente e detonaram em meio à falange maciça dos
robôs, atirando-os para todos os lados. Os campos energéticos protegiam-nos
contra os estilhaços. Mas o deslocamento de ar atirou-os para o alto. Era este
o momento de Anne Sloane e do neutralizador gravitacional.
Protegida
pela invisibilidade de seu traje, a telecineta descera até um ponto bem próximo
ao solo, flutuando entre os telhados de dois prédios. Concentrou-se sobre o
caos formado pelos inimigos privados do apoio sobre o solo. Com um único
pensamento atingiu um grupo de vinte robôs, impelindo-os para o alto.
Quando
atingiram a altura de oitenta metros, Anne retirou a força cinética de suas
vítimas e deixou que caíssem livremente ao solo. O impacto transformou os robôs
em sucata.
— Vamos
repetir a dose!
Naquela rua
Anne Sloane dependia exclusivamente de si mesma. É que estavam em três e tinham
que repelir os ataques que, divididos em três cunhas vindas do norte, sul e
leste, procediam numa obstinação mecânica contra o tanque encalhado.
Tako Kakuta
captou a última mensagem vinda pelo telecomunicador.
— Rhodan está presente. Anne Sloane,
a telecineta, também. Eles nos tirarão daqui, Ivã. Agüente mais um pouco.
— Vamos
fazer mais três lançamentos de duas bombas de cada vez — ordenou Perry Rhodan.
Mais uma vez
o caos se instalou entre os robôs. A mesma coisa que Anne Sloane conseguia
realizar com seu cérebro, Kitai Ishibashi e Rhodan faziam indiretamente por
meio dos antígravos. Assim que as máquinas rebeldes perdiam o apoio em virtude
das explosões, a força gravitacional era retirada. Os robôs subiam que nem
bolhas de sabão, para despencarem em queda livre.
Nenhum deles
resistia à queda.
Poucos robôs
conseguiram se manter no solo e desapareceram no interior dos edifícios mais
próximos. O ataque contra o tanque comandado por Cry foi suspenso.
— Estamos
salvos — constatou Tako Kakuta.
— Muito bem.
Iremos até aí — comunicou Rhodan. — Anne e Kitai, pousem imediatamente no
cruzamento. Não se esqueçam de deixar ligados os defletores de luz. É bem
possível que ainda haja alguns robôs atocaiados.
A tripulação
do outro tanque estava morta. O lado esquerdo do veículo havia sido esmagado.
Anne Sloane
se aproximou do tanque comandado por Cry e se concentrou.
Até parecia
obra de fantasmas: de uma hora para outra, blocos de concreto de cem quilos
pareciam se mover por sua própria força, deslocando-se para o lado. Aos poucos
os destroços que impediam o movimento do blindado foram sendo removidos.
— Ligue o
motor.
Cry
transmitiu a ordem de Rhodan. Não houve mais qualquer problema para o tanque.
— Muito
obrigado, chefe! Foi formidável!
— Não há por
quê. Dirija-se ao lugar em que está o batalhão do capitão Klein. Acredito que
do lado de cá o cerco já foi rompido. De qualquer maneira, tenha muito cuidado.
Como vai Goratchim?
— O estado
dele é excelente — disse Kakuta. — Está entusiasmado com o seu trabalho.
* * *
Acompanhado
dos dois mutantes, Rhodan realizou um vôo de inspeção por cima das linhas de
combate Do lado leste das três posições cercadas, a situação também parecia
bastante perigosa. Os robôs haviam cercado o regimento de guardas de uma usina
de força, infligindo-lhe graves perdas humanas.
— Vamos
repetir o exercício — disse Rhodan. — Agiremos como da outra vez. Que diabo é
aquilo?
Ainda se
encontravam a uma distância de mil metros. Diante de seus olhos uma dezena de
robôs flutuou no ar e se precipitou ao solo.
Mensagem
transmitida pelo telecomunicador.
— Indagação
geral. Quem está agindo com trajes arcônidas por cima do enclave, oeste?
— Sou eu — respondeu
uma voz bastante familiar. — Não atravesse o meu caminho, Rhodan. Mantenham-se
mais ao sul.
— Ora, Bell!
Será que ficou louco?
— Nada
disso. Afinal, ainda temos o coronel Freyt. Passei o comando a ele. Quando vi o
seu grupo saindo com umas simples bombas explosivas, logo imaginei quais eram
suas intenções. Já deveríamos ter começado com isso há tempo. Não se preocupe
mais com este setor. Dê um apoio ao pessoal do setor central.
Rhodan
concordou, pois as palavras de Bell eram perfeitamente razoáveis. Voltaram.
Realizaram
um controle da situação no batalhão de guardas de Klein.
— Vamos
embora! — ordenou Rhodan. Aqui também não precisavam deles.
Ivã
Goratchim agira como um possesso em meio aos robôs. Os homens já podiam se
deslocar livremente pela rua.
Houve um
ligeiro contato com Kakuta, que ainda se encontrava no tanque de Cry, em
companhia do detonador.
— Tomamos o rumo
oeste, Rhodan. Posição atual, quadra H-G IV. Ivã está bem adaptado ao serviço. Não
enfrentamos qualquer resistência digna de nota. As grandes unidades robotizadas
foram todas dizimadas. Só lançam ataques em grupos de três ou quatro. E a um
ataque desses nosso campo energético pode resistir.
Vez ou outra
ainda se assistia à explosão de uma máquina de guerra. Wuriu Sengu confirmava
os detalhes das observações parciais.
O coronel
Freyt mandou que as tropas que ainda estivessem em condições de combater se
lançassem ao contra-ataque. À uma hora começou a operação de limpeza. Rhodan
anunciou seu regresso ao quartel-general.
— Gostaria
que viesse imediatamente — disse Freyt. — Tenho uma notícia muito importante.
— Dentro de
três minutos estarei aí.
* * *
As pessoas
que se encontravam no gabinete do ministro da segurança pareciam deprimidas.
Isso não era de estranhar. A população de Terrânia sofrera perdas dolorosas.
— O que
houve, coronel? — perguntou Rhodan.
— Uma
mensagem de Adams. Em Nova Iorque estão enfrentando uma situação idêntica.
Rhodan
permaneceu calado o tempo de que precisou para respirar.
— Peço
maiores detalhes. A G.C.C. fica no centro de uma grande metrópole.
Freyt fez
correr a fita gravada.
— Remetente: General Cosmic Company, Homer G.
Adams, diretor-geral. Destinatário: Perry Rhodan, Terrânia, território da
Terceira Potência, deserto de Gobi. Data: 3 de agosto. Hora: 23:45 h, tempo da
costa leste dos Estados Unidos.
“Desde as 23:30 h, seiscentos elementos da
polícia robotizada da G.C.C. estão fora de controle. Não encontramos nenhuma
explicação para o incidente. Três homens que tentaram se aproximar dos robôs
para desligá-los foram mortos. Na sede da G.C.C. a confusão é total. Ao que
parece, alguns andares do edifício da administração central se encontram sob o
controle das máquinas rebeldes. Peço instruções e apoio.”
Desligando a
fita, Freyt completou:
— É só,
chefe.
— E já
chega, coronel. Receio que tenhamos que dispersar nossas forças ainda mais.
Bell ainda não está de volta?
— Não.
Bell foi
chamado e posto a par da nova situação. Reagiu com algumas palavras grosseiras,
mas logo se calou quando lançou os olhos sobre Thora.
— E dizer que
nossa meta era uma transição rápida para o planeta Peregrino. Gostaria de saber
o que será da nossa frota estacionada no sistema de Beta-Albíreo se tivermos
que ficar presos aqui em casa.
— O inimigo
é o mesmo. Apenas, aqui os protagonistas da peça usam outras máscaras. De
qualquer maneira temos que dar um jeito neles. Não podemos deixar a Terra
enquanto perdurar esta situação.
— Sugiro uma
ação-relâmpago. Hoje de manhã conseguimos desenvolver boas táticas de combate
contra robôs desertores. É bem verdade que alguns deles ainda estão andando por
aí. Mas o coronel Freyt não terá nenhum problema em lidar com eles. O trabalho
principal será o de cuidar dos mortos e feridos. Os robôs de trabalho poderão
dar uma ajuda nesses serviços de limpeza. Foram todos examinados e podem ser
reativados logo.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Pelo telecomunicador transmitiu uma
mensagem-relâmpago a Adams, informando-o de que nos próximos minutos seriam
deliberados em Terrânia os detalhes da operação de apoio.
— Até lá não
esboce qualquer reação, Adams. Daqui a pouco voltaremos a entrar em contato com
você.
No momento
em que Bell falou numa ação-relâmpago, não apareceu ninguém que o chamasse de
utopista. Mas, antes que a breve conferência fosse concluída, surgiu outra
notícia vinda da central de informações, que arrefeceu ainda mais o que ainda
restava de otimismo entre os participantes.
— Mensagem de
rádio vinda de Berlim: O escritório da G.C.C. para a Europa Central caiu nas
mãos de robôs policiais e de guerra revoltados. O prefeito de Berlim decretou o
estado de emergência para toda a cidade.
“Mensagem de
rádio vinda de Sydney: O edifício do escritório da G.C.C. para a Austrália foi
mandado para os ares por desconhecidos. Quarenta robôs descontrolados correm
pela cidade, matando o que lhes atravessa pelo caminho. O exército e a polícia
estão impotentes.
“Mensagem de
rádio vinda de Durban: Robôs-polícias da General Cosmic Company atacaram e
mataram o funcionalismo humano. Poucas pessoas conseguiram escapar. Os robôs
entrincheiraram-se no edifício e expediram um ultimato que exige a entrega do
poder ao governo local.
“Mensagem de
rádio vinda de Montevidéu...
“Mensagem de
rádio vinda de Manila... de Madri, do Kuwait...”
Ação-relâmpago!
Era uma
ação-relâmpago, sim, mas dos saltadores. Em todos os lugares em que a G.C.C., o
fator de poder econômico da Terceira Potência, havia instalado suas
dependências, estavam estacionados os robôs de combate.
— Se os
saltadores conseguirem atingir e contaminar todas as nossas filiais, isso
equivalerá a um incêndio mundial — constatou Rhodan. — As mensagens de rádio
que acabamos de receber não serão as últimas. As filiais e fábricas estão
espalhadas por mais de duzentos pontos no globo terrestre. Alô, central. Peço
uma ligação direta imediata com a F.D.T.
A Federação
de Defesa da Terra era comandada por Allan D. Mercant, um homem pequeno e
esguio, e tinha sua sede no fiorde de Umanak, na Groenlândia. O rosto desse
homem só aparecia nas telas do videofone.
— Já sei o
que está querendo, Rhodan. Parabéns pela vitória alcançada em Terrânia...
— Quer dizer
que já está a par?
— Só podia
estar. Meus agentes também estão trabalhando no Canadá. Aliás, seu escritório
de Quebec foi esquecido em todas as mensagens radiofônicas. Não sei o que posso
fazer por você, Rhodan. Afinal, não disponho de cem milhões de cidades. Teremos
que dividir a tarefa.
— Antes de
mais nada, envie tropas especiais com armamentos pesados para Nova Iorque. Se
essa cidade sucumbir, com ela sucumbirá a economia do mundo. E uma nave
espacial será a última coisa que poderá ser usada por lá.
— Posso
dispor de duas divisões para Nova Iorque. Não sei se isso será suficiente para
enfrentar o Imperador de Nova Iorque...
— Enfrentar
quem?
— O
Imperador de Nova Iorque. Ainda não soube que na noite passada os robôs
proclamaram a monarquia?
4
O gabinete de
Adams nunca abrigara tanta gente. O ar estava viciado, apesar das ótimas
instalações de condicionamento de ar.
— ...agradeço,
senhoras e cavalheiros. Peço que voltem a seus lugares e se mantenham calmos.
Estes fenômenos foram observados em todo o mundo. Nem mesmo Terrânia foi
poupada. Por lá a rebelião dos robôs já foi reprimida. E Perry Rhodan está se
dirigindo para cá.
Um gesto
cansado. As pessoas comprimiram-se junto à porta, para sair. Nem todos podiam
voltar aos seus lugares no escritório. Os primeiros dez pavimentos haviam sido
ocupados pelos robôs. E também a cobertura e o campo de pouso de helicópteros e
outras aeronaves de decolagem vertical.
— Quero ar! —
gritou Adams, desesperado.
Miss
Lawrence estava parada na porta. Era o bom espírito de seu corpo secretarial.
Hoje não parecia se sentir tão segura. Isso já se deduzia do simples fato de
que não perguntava pelos desejos de Adams.
— Esta carta
acaba de ser entregue, Mr. Adams. Dizem que é para o senhor.
— Obrigado!
Fique mais um momento. Hoje não suporto ficar sozinho. A correspondência pode
aguardar até amanhã. Até mais.
Abriu a
carta e leu.
— O
Imperador de Nova Iorque honrá-lo-á com sua visita às duas da tarde. Prepare
tudo para a recepção, e tome providências para que possa passar sem enfrentar o
menor perigo. Se o senhor ou seus subordinados tomarem qualquer atitude
inamistosa, a sede da G.C.C, irá pelos ares. Exigimos obediência, mas sabemos
ser um bom senhor para os que nos amam.
Adams
amassou a carta, mas logo se arrependeu e voltou a alisar o papel.
— Leia, miss Lawrence!
A secretária
obedeceu. Sua risada estridente era prova de que acreditava em cada palavra. O
medo e o pânico tiraram-lhe a fala.
— Já temos um
imperador — disse Adams com uma risada. Também essa risada não parecia muito
espontânea, mas de qualquer maneira podia-se entender o gesto. — Os robôs
elegeram um imperador. Gostaria de saber qual foi o secretário que conseguiu
enganá-los. Qual é sua opinião, miss Lawrence?
— Minha
opinião é que a coisa não é de brincadeira. E sei que nunca senti tanto medo
como hoje.
— Não são invasores
extraterrenos, minha filha — procurou consolá-la Adams.
— Não são
monstros, mas simples robôs X, construídos pelo próprio homem. Vamos refletir
friamente sobre o assunto, miss Lawrence. Esses caras estão malucos. Não é
provável que toda a série esteja padecendo de um defeito de construção. Se
fosse assim, as avarias teriam surgido progressivamente, e não em todos os
robôs ao mesmo tempo.
Não tenho a
menor dúvida de que alguém cuja identidade ainda não conhecemos modificou a
programação das máquinas. Talvez tenha agido apenas sobre um único exemplar
dotado de uma inteligência extraordinária. Depois transmitiu as instruções aos
robôs de reparo.
— Queira
desculpar, Mr. Adams. Não tenho seus nervos, e por isso no momento não estou em
condições de refletir sobre as causas do fenômeno. Também não sou nenhuma
cientista, motivo por que não posso compreender os detalhes. O senhor tem que
tomar alguma providência.
— Tomar providências?
— perguntou Adams, esticando as palavras. — Não venha me dizer que acredita
seriamente que vou dar a este bilhete uma atenção maior que a um pedaço de
papel tirado do lixo. Ora, esta, o imperador de Nova Iorque! Que infantilidade!
Que loucura!
— Acontece
que em Terrânia os filhos da loucura mataram mais de mil pessoas. E eu não
gostaria de pertencer aos milhões de Nova Iorque.
O homem
pequeno e corcunda sentado atrás da escrivaninha encolheu a cabeça entre os
ombros.
— Em Terrânia
desencadearam uma guerra feroz — refletiu Adams em voz alta.
— Mas em
Nova Iorque pretendem negociar. Qual é a explicação disso?
— Faltam
apenas dez minutos para as duas, chefe — insistiu a secretária. — Pense nas
pessoas que se encontram no edifício.
— Está bem. Receberei
o Imperador. Quem sabe se não conseguimos envolvê-lo numa discussão mais prolongada?
Nesse caso poderei apresentá-lo a Rhodan. Até que sua idéia não é má. Prepare
bastante café, miss Lawrence. Isto é, basta um pequeno bule para mim. Acho que
o gosto do Imperador será outro.
Homer G.
Adams transmitiu instruções para que os funcionários da empresa se mantivessem
calmos à chegada do Imperador. E manteve uma palestra pelo telecomunicador com
Perry Rhodan.
— Que pena —
concluiu Rhodan. — Não poderemos estar aí antes das três e meia. Mas mandarei
Kakuta.
O
teleportador chegou ao escritório de Adams exatamente dois minutos antes das
duas.
No mesmo
instante, miss Lawrence anunciou a chegada do Imperador. De tão nervosa e
medrosa que estava, mal conseguia pronunciar o nome.
— Deixe-me
ocupar seu lugar — disse Kakuta.
Adams quis
objetar. Fez questão de dizer que não era nenhum covarde.
— Não é por
isso — ponderou o japonês. — Terei mais facilidade em dar o fora que você.
Ponha seu traje arcônida e sente ao meu lado. Esteja invisível. Assim poderá
aparecer a qualquer momento, caso isso seja necessário. Deixarei o telecomunicador
ligado, para que dentro do seu capacete você possa acompanhar a palestra,
palavra por palavra.
— Faltam
dois minutos, miss Lawrence.
Os dois
minutos transformaram-se em três. O Imperador não estava com pressa. Examinou
detidamente todas as ante-salas e, segundo seu gênio, dirigiu algumas perguntas
ingênuas aos presentes. Por outro lado, demonstrou uma série de conhecimentos
superespecializados.
Duas horas e
três minutos.
O Imperador
entrou.
— O senhor
não é Mr. Adams.
— Sou Tako
Kakuta, primeiro teleportador do Exército de Mutantes. Poderei desaparecer a qualquer
momento, se tiver vontade.
— Sou o
Imperador. Chame-me de Imperador.
— Como
queira, senhor Imperador.
— Gostaria
de falar com Mr. Adams. Chame-o imediatamente.
— O chefe não
pode comparecer, senhor Imperador. Eu o represento em qualquer setor.
Por alguns
segundos o Imperador manteve-se imóvel. Depois disso, dois pesados robôs de
combate rolaram para dentro da sala. Só agora se notou a grande diferença. O
Imperador era um robô-secretário com muito saber armazenado. Era a classe que
dispunha do maior grau de inteligência e cultura geral. A altura era de um
metro e setenta. Kakuta lembrou-se que, fora do território da Terceira
Potência, esses tipos dispunham de mecanismos de comando autônomos, tal qual as
máquinas de guerra. Não valia a pena ligar os poucos exemplares disseminados em
largas áreas geográficas a um cérebro de controle centralizado.
— Sou o
Imperador desta cidade e exijo obediência. Qualquer recusa no cumprimento de
uma ordem será punida com a morte.
Kakuta sabia
que um interlocutor desse tipo não teria a menor disposição para negociar. Seu
plano de envolvê-lo numa palestra mais prolongada tinha que cair por água
abaixo.
— Chamarei
Mr. Adams, Majestade.
— Majestade
não! Sou o Imperador!
A teimosia
do secretário mecanizado era altamente ofensiva. Kakuta se controlou.
Dirigiu-se à
sala contígua e deixou a porta aberta para que Adams, invisível, pudesse
segui-lo.
— Chefe, é necessário
que o senhor compareça pessoalmente.
Adams abriu
o capacete. O Imperador não tomou conhecimento de sua estranha vestimenta.
— Precisamos
de sua colaboração, Mr. Adams. Ofereço-lhe um escritório elegante em minha
residência no Empire State Building.
O fato de que o senhor é indispensável para mim constitui a melhor garantia de
sua sobrevivência. O novo Império não poderá ser dirigido totalmente sem
homens. Siga-me.
O Imperador
foi andando. Os dois robôs de combate pararam na porta, como se esperassem que
o maior gênio financeiro do mundo se colocasse entre eles.
Para os dois
homens, o curso que tomaram os acontecimentos representou uma surpresa
excessiva. Estavam habituados à objetividade. Mas a cerimônia do novo soberano
foi rápida demais.
Queriam
Adams e mais ninguém. Assim que Adams se encontrasse do lado de fora, a guerra
desabaria sobre o edifício da G.C.C.
— Siga o
Imperador! — ordenou um dos robôs.
Adams
obedeceu. Estava pálido e suas mãos tremiam. Kakuta fazia votos de que fosse de
raiva, não de medo.
Mas logo o japonês teve que cuidar da própria
segurança. O último dos robôs virou-se para ele e levantou o braço inferior do
lado esquerdo, que tinha um radiador de impulsos térmicos embutido. Kakuta
teleportou-se para a sala contígua e ouviu o som inconfundível da destruição. A
essa hora o gabinete de Adams devia se parecer com um campo de batalha.

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