quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

P-031 - O Imperador de Nova Iorque - W. W. Shols [parte 2]


Naquele instante, a porta do edifício do outro lado da rua se abriu. Um robô saiu.
Kakuta levantou o radiador manual e disparou. Ao mesmo tempo efetuou uma teleportação reflexiva, que o colocou sob o abrigo do edifício.
A reação de Goratchim não foi tão rápida. Não pudera ver o robô. Quando percebeu ao mesmo tempo o perigo que o ameaçava e a fuga de seu aliado, quase se sentiu tomado pelo pânico.
Por alguns segundos permaneceu imóvel em plena rua. Aguardou o golpe mortal. Algumas frações de unidade de tempo se passaram. Ainda estava vivo.
Depois disso, a vontade de Goratchim se concentrou sobre o robô, que provavelmente hesitara porque o homem de duas cabeças lhe causara certa perplexidade. E essa hesitação foi seu fim. O mutante Goratchim não teve que fazer outra coisa senão pensar, e o cálcio contido no robô desfez-se numa devastadora reação em cadeia.
* * *
— Gostaria de saber onde está Tako — disse Rhodan. — Afinal, ele não podia deixar de perceber o que aconteceu no quarteirão J-D III.
— Como teleportador não terá o menor problema em escapar ao cerco — afirmou Manoli. Não compreendia como o chefe poderia ter esquecido esse fato.
— Ele poderá. Mas não conseguirá tirar Goratchim de lá.
— Então seu segredo foi esse Goratchim — gemeu Reginald Bell. — Por que não nos lembramos logo de recorrer a ele? Era uma idéia tão simples. Será que há algo de errado com nossa capacidade de reação? Eric, o que me diz?
— Quer que eu responda na qualidade de médico?
Rhodan interrompeu o debate com um ligeiro movimento de mão.
— Se é que você procura uma explicação psicológica, Bell, esta só pode ser uma. Em nosso subconsciente confiamos demais na orientação estratégica fornecida pelo cérebro P. Todo este alarma complicado foi previamente programado. Mas nesse alarma não havia lugar para Goratchim, porque o cérebro não o incluía em seus cálculos. Nossa programação de alarma já tem algum tempo. Acontece que Goratchim só veio para junto de nós há pouco.
O quarteirão J-D III estava praticamente cercado pelo exército de robôs. Rhodan interrompeu sua exposição. Todos sabiam que naquele momento o importante era agir. E o curso que os acontecimentos tomaram nos próximos minutos realçou ainda mais a necessidade de ação.
O coronel Friedrichs lançou helicópteros armados contra o quarteirão J-D III. Bell imediatamente deu contra-ordem.
— Será que o senhor ficou louco, coronel? O senhor está atirando para uma área cheia de civis.
— As frentes estão misturadas. Se quisermos poupar a vida de nossa gente a qualquer preço, já não poderemos atingir os robôs.
— Peço-lhe que deixe a decisão desse tipo de problema por minha conta. Instrua seus homens a chegar mais perto do inimigo. Procure atingir os robôs um por um. Mas não extermine a inteligência da Terceira Potência.
Todos compreenderam que a decisão de Bell transformava o grupo de helicópteros num comando suicida. Os robôs já haviam derrubado três aparelhos. E o raio antigravitacional, que representava a arma mais perigosa, tinha que ser utilizado em escala cada vez maior. Em todos os pontos as frentes se misturavam numa luta corpo a corpo. Quem fosse subtraído à ação da gravitação terrestre, passaria a rodopiar no ar. Com isso o caos seria completo.
— Bell para o coronel Friedrichs. Concentre uma onda de ataque com todas as forças aéreas disponíveis exclusivamente sobre o quarteirão J-D III. A área tem que ser libertada de qualquer maneira.
Por três minutos permaneceram em silêncio diante da tela do videofone. A ordem de Bell causou uma alteração instantânea na ordem de batalha.
O ataque concentrado contra o quarteirão J-D III transformou a área num verdadeiro inferno. Mas percebia-se pelo emprego rigoroso do fogo dirigido que as perdas dos homens mecanizados eram muito maiores. Os fugitivos puderam respirar, e conseguiram recuar um pedaço.
A cunha dos robôs revoltados perdeu tempo e energia. Até parecia que os indivíduos cibernéticos se impressionaram com a tática. Por um instante davam a impressão de não saber como as coisas iriam continuar.
Bell exultou:
— Estão confusos. Friedrichs! Retire imediatamente os reforços e concentre-os no quarteirão H-G VII. Repita a manobra.
— Se você tiver alguma objeção contra minhas disposições intuitivas, Rhodan, avise logo — prosseguiu Bell, Voltando-se para o amigo. — Ainda não sei o que houve com Kakuta e Goratchim e não tenho a menor idéia do que você pretende fazer com eles.
— Continue assim, Bell. É só por meio de uma série de mudanças táticas que você conseguirá confundir os robôs, se é que isso se torna possível.
Ninguém falou nas próprias perdas, muito embora Friedrichs tivesse perdido mais quatro helicópteros.
Finalmente Tako transmitiu um aviso pelo telecomunicador portátil.
— Acordei Goratchim, Rhodan. Ainda estamos na casa dele. O ataque maciço valeu ouro. Poderia mandar para cá o tanque mais próximo? Ivã é um atacante de primeira, mas suas defesas contra um ataque à traição são muito débeis.
— Está bem. Continue no interior da casa. Mandaremos uma máquina com um forte campo energético.
— Obrigado.
O capitão Klein tomou suas providências sem aguardar uma ordem expressa. No quarteirão J-D IX havia dois tanques de setenta toneladas. Klein mandou que seguissem imediatamente para a residência de Goratchim.
— Um dos dois tem que dar um jeito de passar. Protejam-se mutuamente.
— Às ordens, capitão — disse o primeiro-tenente em tom seco e interrompeu a comunicação.
O ataque contra o quarteirão H-G VII não produziu tanto efeito. Talvez fosse porque os robôs já se haviam adaptado ao plano de Bell.
— Temos que pensar em outra coisa.
A constatação foi bastante deprimente. A concentração das forças sobre dois pontos também trouxera suas desvantagens. Dentro de poucos minutos as duas tenazes que os robôs estendiam para o norte conseguiram realizar um grande avanço.
— Esses patifes aproveitam qualquer chance — resmungou Bell. — Deviam supor que os pontos em que nossa defesa é mais forte são aqueles em que ficam os objetivos mais importantes. Será que isso é inteligência?
— Na minha opinião — interveio Dr.Manoli — o mais importante será descobrirmos de que forma se comunicam entre si. Só assim poderemos descobrir seus planos.
— Não diga tolices. Sabemos perfeitamente como se comunicam. Mas não sabemos quem os comanda.
— Pois é isso.
— Consegui. Querem fazer o favor de ficar quietos por um instante?
Todos olharam para Tanaka Seiko, que até então não dissera praticamente nada. Entre os mutantes aquele japonês esbelto e delicado sempre fora conhecido como um homem quieto e introvertido. Esse traço de caráter teria que se cristalizar forçosamente com base na capacidade parapsicológica da goniometria. Perscrutava seu interior com uma intensidade muito maior que um telepata. Seu sexto sentido consistia, sob o ponto de vista puramente técnico, num aparelho de rádio extremamente complicado, cuja sofisticação ainda não havia sido alcançada pela mão do homem ou dos arcônidas. Seiko ouvia as ondas de rádio. Além disso, estava em condições de realizar espontaneamente a determinação de uma freqüência de ondas, que lhe revelava com toda nitidez o conteúdo da transmissão que desejasse captar.
Aquela concentração, que perdurava por vários minutos, sempre resultava em certa debilidade física.
Sentado numa poltrona, manteve-se de olhos fechados.
— Conseguiu o quê, Tanaka?
Seiko fez um gesto de recusa, que fez com que mesmo Bell e Rhodan se calassem. Obedientes, mantiveram-se à espera.
O zumbido do videofone se fez ouvir. Justamente no momento mais impróprio! Bell se limitou a girar o botão de recepção, que eliminava imagem e som. Pegando o microfone, cochichou:
— Aguarde um instante. No momento a recepção é impossível.
O interlocutor do outro lado protestou com veemência. Mas não chegou a ser ouvido.
O que fora conseguido por Tanaka? A questão mais importante era esta.
Pouco depois Tanaka se descontraiu.
— Consegui captar uma das freqüências pelas quais os robôs se comunicam. Os saltadores devem ter modificado seu mecanismo de radiocomunicação. Temos que sair daqui, Rhodan.
— Por quê? Afinal, os robôs não têm força aérea e ainda se encontram a um quilômetro e meio daqui.
— Um dos seus espiões descobriu que o quartel-general de nossas forças de defesa fica aqui, no escritório do capitão Klein. Até aqui acreditavam que ficasse no edifício da sede do governo.
— Está bem. Procure captar novas mensagens, Tanaka. E esforce-se para não perder a freqüência. Se nós o incomodarmos, fique na sala ao lado.
— Acho que seria o melhor.
Seiko se retirou.
— ...recuso toda e qualquer responsabilidade. Com todo respeito que lhes dedico.
O súbito berreiro saiu do videofone, que Bell voltara a regular para o volume máximo. Na tela viu-se o rosto furioso do coronel Friedrichs.
— Agora chegou sua vez, coronel.
— Já estava na hora. Minhas tropas já não estão em condições de manter qualquer posição. Lançar homens contra robôs, isso é uma...
— Diga logo de que se trata, coronel! — trovejou Bell.
— Minhas perdas já chegam a um total de quatorze helicópteros. Preciso do apoio das forças de terra.
— O apoio é o senhor, coronel. Sinto muito. Não dispomos de outras máquinas e não temos onde buscá-las. Por questões de segurança a abóbada energética permanecerá fechada. Retire suas unidades por dez minutos e reagrupe-se com os remanescentes. O Exército de Mutantes lhe dará apoio. Aguarde novas instruções.
— Dentro de dez minutos os robôs chegarão ao nosso quartel-general, se não forem atacados pelo ar. Peço permissão para transferir meu estado-maior para o norte.
Bell lançou um olhar indagador para Rhodan. Este se limitou a acenar com a cabeça.
— Está bem. Retire-se para a quadra A-N XII, coronel. Com isso chegará bem perto do espaçoporto. Mas não se esqueça de que depois disso sua posição não mais poderá ser modificada.
— Obrigado.
A comunicação foi interrompida com um estalo.
— Vamos aos mutantes, Rhodan! Não temos outra alternativa.
Sem dizer uma palavra, Rhodan passou os olhos pelo grupo que o cercava.
— Ishi, você é uma mulher e uma telepata. Suas qualidades não podem ser utilizadas num confronto com robôs. Gostaria que se retirasse para a quadra administrativa.
Obediente, Ishi acenou com a cabeça.
— Imediatamente?
— Sim, faça o favor.
Ishi Matsu fechou seu traje arcônida e se despediu. Decolou do telhado do edifício e desapareceu, tornando-se invisível aos olhos de qualquer robô.
— Os outros ficarão aqui até que sejamos cercados. Capitão Klein, avise o batalhão de guardas sobre a nova situação. Mande que se mantenham em rigorosa prontidão. Todos os veículos que disponham de campo energético próprio devem se reunir num grupo de defesa.
— Às ordens.
A tela já revelava o perigo da nova situação. De início o plano dos robôs só se revelava vagamente. Mas Tanaka informou todas as pessoas que se encontravam no recinto sobre o objetivo visado pelos movimentos das máquinas de guerra. De repente concentraram quase um quarto de seus efetivos num avanço para o leste. Já teriam percebido a fraqueza momentânea das defesas humanas? Sem os ataques vindos do ar praticamente não encontravam resistência. Despedaçavam blocos inteiros de prédios quando numa rua alguém abria fogo sobre eles, por mais reduzido que fosse. A três quadras do quartel-general do capitão Klein defrontaram-se com a primeira linha de defesa mais fortemente estruturada. Três tanques enfileirados formavam uma grande barreira energética, que cobria toda a pista de rolamento. O fogo concentrado de suas armas de impulsos abateu a energia defensiva de sete dos atacantes; sete robôs desfizeram-se na incandescência provocada pelos tiros.
Mas os robôs não conhecem medo.
Num fanatismo cego, a frente por eles formada deslocou-se em direção aos tanques.
Naquele instante foi derrubado numa outra rua o helicóptero que propiciava a transmissão da imagem no sistema de videofone.
No quartel-general perdeu-se todo contato ótico com os acontecimentos. Reginald Bell soltou uma terrível praga.
* * *
Ivã Goratchim não era feio apenas por possuir duas cabeças. Seu aspecto geral era simplesmente monstruoso. Era um dos numerosos mutantes negativos nascidos na Sibéria depois das primeiras experiências realizadas com bombas atômicas. Os aspectos negativos revelavam-se de várias formas.
A altura de dois metros e meio, as disformes pernas de coluna, sua pele esverdeada e escamosa e seu corpo anguloso e desajeitado eram suficientes para provocar a impressão de se tratar de um monstro.
No caráter e na capacidade biológica era uma combinação quase paradoxal entre o bem e o mal. Se não fosse a mutação que o transformara num detonador, poderia se dizer que era uma criatura inofensiva. Ambas as cabeças impunham a ele um gênio paciente, ingênuo e submisso. Desde a infância costumava ser chamado de monstro. Isso produzira em sua mente um pronunciado complexo de inferioridade. Até então, praticamente não chegara a tomar qualquer iniciativa. Durante o curso de uma geração, seus dois cérebros haviam se acostumado a uma espécie de concorrência. Com isso sua capacidade mental se consumira. Era bem verdade que, perante um terceiro, as duas cabeças se mantinham unidas como se fossem uma só. Mas esse fato não substituía a ausência da vontade de impor-se.
Ivã Goratchim transformara-se numa criatura tipicamente submissa. Só queria servir para ser recompensado com o amor do próximo.
O legendário Supercrânio, que há algum tempo cobrira a Terra e a Terceira Potência, com uma ameaçadora guerra de guerrilhas, fora o descobridor estratégico de Ivã. Tirara-o da tundra siberiana e lançara mão dele para seus desígnios maléficos. E Ivã era fácil de aproveitar. Afinal, era ingênuo... e era um detonador.
Essa última qualidade, que mais tarde lhe conferiria um lugar de destaque no Exército de Mutantes de Rhodan, consistia no fato de que suas energias mentais provocavam nos compostos do cálcio e do carbono o mesmo efeito que um impulso térmico produz na pólvora. Bastava que Ivã Goratchim se concentrasse, para que os átomos de cálcio entrassem num processo de fissão nuclear. Acontece que o cálcio e o carbono estão praticamente em toda parte. Por isso Goratchim, o detonador, estava em condições de matar qualquer ser vivo e destruir qualquer objeto, desde que sua mente se concentrasse intensamente para isso. Era ali que terminava seu caráter inofensivo.
A destruição do robô de combate provou o fato.
Ivã viu-se diante de um montão de escombros de metal e de massa plástica. A visão daquilo restituiu-lhe um pouco de sua autoconfiança. Não era uma criatura indefesa. Nem mesmo contra essas impiedosas máquinas de guerra. Apenas teria que agir com cautela. E esta idéia fez com que se retirasse imediatamente para trás do muro que cercava a área de onde acabara de sair.
A rua ficou vazia. Não foi disparado mais nenhum tiro. Mas o que aconteceria se saísse de trás do muro? Não teria sido visto por outro robô que se mantinha escondido? Do outro lado da rua havia centenas de janelas. Atrás de qualquer uma delas a destruição poderia estar à espreita.
Esperou. Quando se lembrou de Tako Kakuta, voltou a sentir medo. Por que o teleportador havia desaparecido? Certamente apenas porque aqui o ambiente estava carregado de chumbo e de energia. De repente, o barulho cresceu enormemente. O ouvido já se acostumara aos ruídos da luta que se desenrolava em ruas distantes. Mas agora mais de vinte helicópteros corriam pelo céu e disparavam seus radiadores de impulsos térmicos. A rua já não estava vazia. Dois, três robôs apareceram e de pernas duras foram caminhando na direção oposta à que tinham vindo. Outros juntaram-se a eles.
Ivã olhou pelo canto do muro e voltou a se abrigar. Uns trinta robôs de combate estavam desfilando pela rua. Parecia ser uma retirada.
Será que isso significava que Perry Rhodan já conquistara a vitória?
A ingenuidade de Goratchim era pronunciada demais. Logo esqueceu a prudência. Se Rhodan estava vencendo, o mais terrível de seus mutantes não poderia deixar de dar sua contribuição para a vitória.
Levantou-se. Sua altura equivalia a quase duas vezes a do muro. A cabeça e o tórax estavam desprotegidos. Os robôs estavam a menos de vinte metros.
Para eles a percepção e a reação eram simultâneas. A vantagem de Ivã consistia unicamente na surpresa. Ele o sabia.
Antes de se levantar, preparara rapidamente a concentração de seus pensamentos. Os dois cérebros completavam-se numa cadeia de relés. Só por isso seu ataque alcançou um êxito parcial.
Mais de uma dezena dos guerreiros artificiais perderam a vida no instante em que estavam começando a perceber o perigo. Mas os que se encontravam na segunda e na terceira fila tiveram tempo de reagir. Viram o mutante de duas cabeças e não perderam tempo em se espantar com o aspecto pouco humano do mesmo. O ataque de Ivã era sinal de sua periculosidade. E os robôs se orientavam exclusivamente por essa circunstância.
Fizeram pontaria com seus olhos estereoscópicos, que incluíam o mecanismo de pontaria. O funcionamento do radiador de impulsos térmicos era automático.
Nesse instante alguma coisa pegou nas pernas de Ivã Goratchim, que caiu estendido na grama plantada atrás do muro. Espantados, seus dois pares de olhos fitaram o rosto de Tako Kakuta, que se mantinha agachado atrás do muro.
— Vamos embora! Siga-me, seu idiota! Fique grudado no chão, arrastando-se sobre os cotovelos e os joelhos.
Para um teleportador era uma maneira pouco usual de se afastar de uma área de perigo. Mas a esta hora não poderia se transferir para outro lugar pela simples força de seu desejo. Levava a reboque a figura desajeitada de Goratchim; não poderia abraçá-lo e levá-lo num salto teleportado.
Logo perceberam que a intervenção de Kakuta fora necessária. Antes que a criatura de duas cabeças tocasse a grama, os primeiros feixes de raios térmicos passaram por cima dele e demoliram a parede do edifício. Depois disso os robôs baixaram a direção dos tiros, fazendo pontaria sobre o muro.
Lascas de pedra esvoaçaram em torno das cabeças de Tako e Ivã. Sentiram que o calor aumentava a seu lado. Quando tinham percorrido uns dez metros, o muro cedeu. O raio energético dissociara o silício dos elementos a que estivera ligado, derretendo-o a uma temperatura de quase dois mil graus centígrados. O muro se desmanchou num fluxo de lava incandescente. Havia um buraco nele.
Será que os robôs acreditavam terem liquidado o inimigo?
Não teriam bastante inteligência para saber que o homem é um ser que sabe rastejar? Tinham. E estavam programados para se orientar pelas reações humanas. Se o homem tivesse fugido, ele teria se deslocado para a direita. Logo, prepararam-se para abrir outro buraco no muro. Mas Tako fizera exatamente o oposto daquilo que as máquinas esperavam. Rastejara para o canto do jardim que ficava mais próximo aos robôs. E Ivã seguira-o docemente.
— Agora estão a apenas dez metros de nós — cochichou o teleportador. — O próximo ataque tem de ser muito bem preparado. Concentre-se com bastante antecedência na destruição, Ivã. Eu me teleportarei para a casa em frente e atirarei da janela com meu radiador de impulsos térmicos. Você só deve detonar no máximo por três segundos. Depois disso, atire-se ao solo e rasteje o mais depressa possível. Deixe o resto por minha conta.
Com uma pancada no ombro de Ivã, Kakuta se despediu.
Tudo se passara numa questão de segundos. Pelo que se concluía dos ruídos, os robôs dispunham-se a prosseguir na sua caminhada. Goratchim se concentrou. O primeiro tiro foi disparado do prédio em frente.
Tako visou a fileira da frente, formada por quatro robôs que ainda disparavam sobre o muro. Por isso o radiador de impulsos produziu efeito dentro de poucos segundos. Quando o feixe de energia atingiu o reator, o campo protetor deixou de existir.
Doze ou quatorze dos robôs de quatro braços se viraram instantaneamente e visaram o novo inimigo. Mas a aparição de Tako na janela não passou de uma sombra fugaz. O japonês executou novo salto, que o levou ao prédio vizinho, dois andares abaixo. Logo correu para a janela a fim de sondar a situação.
Ivã Ivanovitch estava de pé atrás do muro.
Não houve nenhum relâmpago, nenhum raio energético que envolvesse aquela figura petrificada. Permaneceu ali apenas por três segundos, mas sua rigidez e concentração dava a impressão de que ali fora colocado para toda a eternidade. Mas foi apenas um instante da eternidade que decidiu o destino de nove dos robôs de combate.
No centro de seus ventres teve início a reação em cadeia dos átomos de cálcio. Isso foi sua morte.
Ivã obedeceu à ordem que lhe fora dada. Deixou-se cair sem aguardar o resultado da detonação por ele provocada. Os cinco robôs que ainda restavam puseram-se em movimento sem muita perda de tempo. Dois foram para a direita, três para a esquerda.
Kakuta liquidou um deles, deu um salto de trinta metros através das paredes e destruiu mais um.
Goratchim, que de repente se esquecera de todo cuidado, tomou conta do resto. Abriu os braços e deixou-se cair para o lado da rua. Só pensava na destruição do inimigo.
O grito de advertência de Kakuta revelou-se inútil. Os robôs não estavam à altura dessa investida de apaixonada concentração humana. Os que ainda restavam sucumbiram ao fogo que consumiu seus corpos artificiais.
A rua estava livre. Kakuta surgiu ao lado de Ivã.
— Que diabo! Não lhe proibi este tipo de leviandade? Qualquer outro homem preza sua vida e age com cautela. Mas você...
Goratchim exibiu dois rostos decepcionados. Esperava que seu ato merecesse uma recompensa sob a forma de um elogio. Obediente e sacudindo a cabeça dupla, seguiu o japonês para um edifício, de onde o mesmo solicitou, pelo telecomunicador, o envio de um carro blindado.

3



— Estamos entrando na última fase — murmurou Perry Rhodan em tom obstinado. — É ela que decidirá quem de nós é o mais forte.
Essa idéia não deixou os amigos muito satisfeitos. Poucas vezes o chefe deixara o resultado de um combate em aberto como o fizera desta vez. Sempre confiara sua segurança e a dos indivíduos que o cercavam à técnica de que dispunha. Hoje, porém, parte da técnica da Terceira Potência passara-se para o lado do inimigo. Esse fato alterara profundamente a situação.
O cerco em torno do quartel-general do capitão Klein tornava-se cada vez mais apertado. Os robôs haviam esmagado a maioria das linhas de defesa colocadas nas ruas. O chão estava começando a arder sob os pés, no sentido literal da expressão.
Rhodan deu ordem de retirada ao seu estado-maior.
— Bell, não faça essa cara de herói frustrado! Hoje não se trata de demonstrar coragem, mas de não queimar os dedos... Fechar os trajes de combate. Capitão Klein, avise o comandante do batalhão de guardas. Faremos o possível para providenciar o revezamento quanto antes.
Klein fez continência e saiu. Rhodan mexeu na sua pulseira para chamar Kakuta.
— Alô, Tako! Vamos nos transferir para um edifício de escritório. De qualquer maneira, procure chegar até aqui com o Ivã, a fim de apoiar a tropa de Klein. No momento não tenho outras ordens. Os dois tanques já chegaram?
— Não senhor.
— Pois espere. Não deverão demorar.
O capitão Klein voltou.
— Tudo liquidado, chefe.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Todos conhecem o objetivo. Vamos embora! Não se esqueçam de ligar os defletores de raios luminosos. Nossa retirada deve ser invisível.
Decolaram do telhado. Cada traje arcônida era um veículo. Rhodan flutuou no ar por algum tempo, para colher uma impressão sobre a situação geral. Não parecia ser boa. Mais de um terço do território coberto pela abóbada energética estava em poder dos robôs.
— Wuriu — gritou Rhodan pelo telecomunicador, enquanto voavam.
— Sim.
— Estou me lembrando do helicóptero destruído. Fique aqui por uma hora e mantenha-me informado sobre a situação. Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos cegos no nosso escritório.
— Perfeitamente!
O contato através do telecomunicador não representava o menor risco. Os robôs talvez conseguissem captar transmissões radiofônicas normais, mas não as do aparelho audiovisual que trabalhava por meio de impulsos codificados.
Pousaram no telhado do arranha-céu em que ficavam as repartições do governo. Quando regulavam seus trajes para a posição zero houve alguma exaltação, logo transformada numa sensação de alívio. O edifício do governo estava cheio de gente retida em seu local de trabalho por causa do alarma.
— A situação não está boa, não é, senhor Rhodan? — perguntou uma jovem funcionária.
Pela primeira vez naquelas horas o chefe da Terceira Potência conseguiu esboçar um ligeiro sorriso.
— Não, senhorita Grohte, a situação não está boa. Mas estamos nos esforçando ao máximo para que as coisas logo se modifiquem a nosso favor. Mantenha-se no seu posto, para que tudo dê certo.
Pegaram o elevador e desceram ao escritório de Bell. Chegando lá, encontraram Crest e Thora, os dois arcônidas que nessa situação de alarma não tinham qualquer tarefa especial a desempenhar, mas deviam permanecer naquele pavimento por motivos de segurança.
Thora, a mulher vinda do longínquo planeta de Árcon, logo se aproximou de Rhodan.
— Como estão as coisas, Perry?
O tratamento familiar não combinava com o olhar petrificado. Rhodan deu de ombros.
— A decisão não deve demorar, Thora.
— Você devia colocar um girino à nossa disposição, Perry. Crest e eu temos o direito de nos mantermos afastados desta luta.
— Não há dúvida. Acontece que nosso plano exige que a abóbada energética permaneça fechada. Ninguém pode sair do centro de Terrânia.
— Não vejo por que...
— Está bem. Se as coisas se tornarem críticas por aqui, voltaremos a falar a respeito. Por enquanto a área governamental não corre o menor perigo. O front está sob controle.
A arcônida teve de se contentar com a explicação.
Pouco depois Kakuta chamou.
— Os tanques chegaram. Entramos neles e seguimos na direção indicada.
— A terceira linha de defesa que cerca o batalhão do capitão Klein foi rompida — anunciou Wuriu Sengu. — O edifício está ao alcance dos tiros do inimigo. O avanço pelos flancos foi retardado. Mas o inimigo está formando uma cunha central que avança em direção à área governamental.
— Aí está — constatou Thora.
Ninguém deu atenção às suas palavras. Bell mandou que todos os helicópteros disponíveis voltassem à luta. O coronel Friedrichs confirmou o recebimento da ordem em tom resignado.
Rhodan pareceu tomar uma decisão:
— Se a entrada em ação de Ivã coincidir com o ataque dos helicópteros, tenho alguma esperança no êxito da operação. O resultado seria ainda melhor se recorrêssemos a um terceiro fator. Bell, você está no comando; não precisa de mim. E pode dispensar Anne e Kitai.
— Basta que Tanaka fique comigo para captar as ondas irradiadas pelo inimigo. Mas afinal, o que pretende fazer?
— É o terceiro fator. Nosso grupo de choque será invisível. Isso representa uma boa vantagem.
Rhodan não deu outras explicações. Não podia perder tempo, pois do contrário o apoio do novo grupo poderia chegar tarde.
Os três se retiraram e desceram ao quarto subterrâneo. Ali cada um deles pegou cinco bombas explosivas normais, que apesar de seu peso reduzido produziam o efeito de uma tonelada de TNT por bomba.
O comandante dos blindados era o sargento Cry. Era uma alma paciente e um gênio na distribuição de cargas, pois conseguiu, num espaço de três minutos, acomodar os dois metros e meio do corpo de Goratchim no espaço estreito de um blindado. E não foi só isso! Ainda conseguiu abrigar a tripulação normal e Tako Kakuta.
Os homens de Terrânia já tinham conhecimento das faculdades de Ivã. De repente se sentiram muito seguros no interior do blindado. Cry apenas ficou quebrando a cabeça sobre a maneira pela qual Ivã trabalharia. Pois não podia se mexer muito.
— Isso não tem importância — disse e cabeça da direita. — Não existe campo protetor que possa resistir à força dos meus pensamentos. Ainda menos o dos robôs. E este pedacinho de aço dos seus tanques para mim não é nada. Apenas preciso ter um pouco de visão pela fenda de observação...
— Aqui está um telescópio. Com isso a visão será melhor e mais confortável.
— Muito bem, companheiro — disseram as duas cabeças de Goratchim, alegrando-se ao mesmo tempo.
Os blindados andavam bem juntos. Seus campos protetores podiam ser regulados para um efeito aditivo, desde que os geradores ficassem a uma distância menor que o triplo do raio do campo energético. Qualquer comandante de tanque conhecia o truque. Mas o mesmo pressupunha grande habilidade de quem dirigisse o veículo, pois as esteiras dos dois tanques não podiam ficar a uma distância superior a vinte centímetros.
A área em torno da quadra J-D III estava vazia. Vez por outra viam-se mortos ou robôs destruídos. Os destroços das casas desmoronadas não representavam qualquer obstáculo para aqueles colossos.
Dali a duas quadras começou a área controlada pelos robôs. A primeira linha foi liquidada por um impacto casual da peça de artilharia do blindado. Mas a situação logo se tornou crítica. A troca de tiros atraiu uma dezena de inimigos, que se lançaram ao ataque em frente ampla.
— Cuidado, Ivã! — gritou Tako Kakuta.
— Eu os vejo no telescópio. Devo...?
— É claro que sim. O que está esperando?
A força demoníaca da mente de Goratchim pôde se desempenhar em toda a plenitude. Não precisava pensar na fuga, pois confiava nos campos protetores dos blindados. Por isso conseguiu se concentrar integralmente no ataque.
Os robôs estouraram. Foram reduzidos a uma coisa incandescente indefinível.
O contra-ataque dos dois veículos passou por cima deles.
Mais uma quadra.
Outros inimigos. Mais de trinta, que logo abriram um fogo permanente e concentrado.
— Isso é demais! — gritou Cry. — Nossos campos protetores não agüentam. Temos que recuar.
— Espere um instante! — respondeu Kakuta, também gritando.
Cry era o comandante, mas um oficial do Exército de Mutantes sempre seria seu superior.
Um tremeluzir inquietante surgiu diante da lâmina do visor. O campo energético estava sendo solicitado até o limite de sua capacidade. Finalmente a força do ataque diminuiu. Os pensamentos devoradores de Ivã haviam encontrado seu caminho.
A rua estava livre.
Para a frente!
O suor porejava nos rostos.
Para a frente!
Os helicópteros trovejavam em vôo baixo. Ainda bem que tinham voltado.
Para a frente!
Destino: o quartel-general do batalhão de guardas de Klein. O videofone transmitia gritos de socorro ininterruptos vindos de três posições cercadas.
— Agüentem! — foi a ordem que Bell transmitiu do edifício do governo.
Era um consolo débil para os defensores. O som das armas de impulsos dos helicópteros que voltaram a intervir foi bem mais agradável. Vez ou outra surgiu até um acesso de otimismo, quando a rádio governamental da Terceira Potência transmitiu os êxitos observados por Wuriu Sengu.
— O mutante Ivã Goratchim acaba de entrar em ação. Nos últimos cinqüenta minutos destruiu setenta e dois robôs de combate.
Passaram pelo cruzamento de duas ruas principais.
Faltavam trezentos e cinqüenta metros para atingir o batalhão de guardas do capitão Klein.
Não se via nenhum inimigo.
— Cuidado! — disse Kakuta. — Os robôs gostam de lutar em campo aberto. Mas não devemos confiar demais nisso. Hoje de manhã fiquei sabendo que às vezes gostavam de pregar surpresas.
Foi o que aconteceu nesse instante.
Os quatro edifícios de esquina, todos eles de doze andares, explodiram ao mesmo tempo. Milhares de toneladas de concreto subiram para o alto e caíram no cruzamento. Os campos energéticos dos blindados protegeram-nos contra o impacto propriamente dito, mas nem mesmo os motores nucleares conseguiram movê-los.
— Estamos presos! Que surpresa!
Cry nunca deveria ter dito isso. Ao que parecia os robôs estavam bem informados sobre as transmissões da rádio Terrânia. Foram avançando de quatro lados ao mesmo tempo. Eram muito mais de cem.
Cry gritou para dentro do videofone.
— Solicito apoio aéreo imediato no cruzamento da Alameda Kepler com a Rua Fermi. Cento e cinqüenta robôs estão atacando o grupo de choque Goratchim. Os tanques estão presos nos destroços de concreto.
Ivã teve que esperar. Quanto mais próximo se encontrasse o objeto, maior era a eficiência de sua energia mental. Mas Kakuta e Cry apressaram-no.
— É bem possível que os robôs comecem logo. Quase alcançaram a distância crítica.
No mesmo instante o pó de concreto esguichou diante do visor. O chiado dos geradores revelava que os mesmos estavam sendo forçados ao máximo de sua capacidade.
— Deixem toda a energia para o campo protetor — berrou Cry. — Não atirem mais.
O ataque ficou exclusivamente a cargo de Ivã. Este se esforçou o mais que pôde e registrou alguns êxitos. Mas os robôs estavam tão longe que não poderia atingir todos de um só golpe.
— Se eles perceberem que o alcance do detonador é limitado, estamos perdidos.
— Helicópteros! — gemeu o sargento no seu assento de piloto.
Sua voz não parecia muito confiante.
A imagem que surgiu na tela revelava que o tanque ao lado não emitia qualquer energia. Fora atingido. A potência do campo energético comum estava reduzida à metade.
— É o fim! — afirmou o sargento. — Saiam!
— Revogo a ordem — berrou Kakuta. — Não perca a cabeça, Cry. Já pensou o que farão com você se andar pela rua? Sargento, tente deslocar o tanque para trás.
O sargento obedeceu. Mas não conseguiu mover o tanque um centímetro sequer.
E não era possível se libertar por meio de disparos energéticos, porque os destroços que teriam de ser removidos encontravam-se num ângulo morto.
— Coloque toda energia no campo protetor, sargento. É nossa última salvação. Ivã, faça o favor de andar mais depressa.
Ivã e Ivanovitch responderam com um gemido. Três, quatro, cinco exemplares do inimigo foram para os ares.
— Muito bem, Goratchim! É assim que eu gosto! Dê-lhes mais. Daqui a pouco estaremos ao alcance do fogo deles. Até agora esses caras só dispararam alguns tiros espalhados. Quando concentrarem todo o fogo nos poucos metros quadrados do nosso tanque, nem teremos tempo para pensar.
O zumbido do gerador de campo subiu na escala e perdeu-se na freqüência mais elevada, imperceptível ao ouvido humano.
Calor!
Suor nos olhos!
Seria apenas imaginação? Ou será que o campo energético já estava cedendo?
— Ivã! Ótimo! Mas dê-lhes mais, muito mais. São mais de cem.
Kakuta abriu a gola da camisa, para respirar melhor. Seu instinto insistia para que executasse um salto teleportado, que o colocaria a salvo. Mas tinha de ficar ao lado de Goratchim. Era responsável pelo mesmo.
Os robôs se lançaram ao ataque geral.

* * *

— Lançar! — ordenou Rhodan.
Seis bombas explosivas caíram do nada aparente e detonaram em meio à falange maciça dos robôs, atirando-os para todos os lados. Os campos energéticos protegiam-nos contra os estilhaços. Mas o deslocamento de ar atirou-os para o alto. Era este o momento de Anne Sloane e do neutralizador gravitacional.
Protegida pela invisibilidade de seu traje, a telecineta descera até um ponto bem próximo ao solo, flutuando entre os telhados de dois prédios. Concentrou-se sobre o caos formado pelos inimigos privados do apoio sobre o solo. Com um único pensamento atingiu um grupo de vinte robôs, impelindo-os para o alto.
Quando atingiram a altura de oitenta metros, Anne retirou a força cinética de suas vítimas e deixou que caíssem livremente ao solo. O impacto transformou os robôs em sucata.
— Vamos repetir a dose!
Naquela rua Anne Sloane dependia exclusivamente de si mesma. É que estavam em três e tinham que repelir os ataques que, divididos em três cunhas vindas do norte, sul e leste, procediam numa obstinação mecânica contra o tanque encalhado.
Tako Kakuta captou a última mensagem vinda pelo telecomunicador.
— Rhodan está presente. Anne Sloane, a telecineta, também. Eles nos tirarão daqui, Ivã. Agüente mais um pouco.
— Vamos fazer mais três lançamentos de duas bombas de cada vez — ordenou Perry Rhodan.
Mais uma vez o caos se instalou entre os robôs. A mesma coisa que Anne Sloane conseguia realizar com seu cérebro, Kitai Ishibashi e Rhodan faziam indiretamente por meio dos antígravos. Assim que as máquinas rebeldes perdiam o apoio em virtude das explosões, a força gravitacional era retirada. Os robôs subiam que nem bolhas de sabão, para despencarem em queda livre.
Nenhum deles resistia à queda.
Poucos robôs conseguiram se manter no solo e desapareceram no interior dos edifícios mais próximos. O ataque contra o tanque comandado por Cry foi suspenso.
— Estamos salvos — constatou Tako Kakuta.
— Muito bem. Iremos até aí — comunicou Rhodan. — Anne e Kitai, pousem imediatamente no cruzamento. Não se esqueçam de deixar ligados os defletores de luz. É bem possível que ainda haja alguns robôs atocaiados.
A tripulação do outro tanque estava morta. O lado esquerdo do veículo havia sido esmagado.
Anne Sloane se aproximou do tanque comandado por Cry e se concentrou.
Até parecia obra de fantasmas: de uma hora para outra, blocos de concreto de cem quilos pareciam se mover por sua própria força, deslocando-se para o lado. Aos poucos os destroços que impediam o movimento do blindado foram sendo removidos.
— Ligue o motor.
Cry transmitiu a ordem de Rhodan. Não houve mais qualquer problema para o tanque.
— Muito obrigado, chefe! Foi formidável!
— Não há por quê. Dirija-se ao lugar em que está o batalhão do capitão Klein. Acredito que do lado de cá o cerco já foi rompido. De qualquer maneira, tenha muito cuidado. Como vai Goratchim?
— O estado dele é excelente — disse Kakuta. — Está entusiasmado com o seu trabalho.
* * *
Acompanhado dos dois mutantes, Rhodan realizou um vôo de inspeção por cima das linhas de combate Do lado leste das três posições cercadas, a situação também parecia bastante perigosa. Os robôs haviam cercado o regimento de guardas de uma usina de força, infligindo-lhe graves perdas humanas.
— Vamos repetir o exercício — disse Rhodan. — Agiremos como da outra vez. Que diabo é aquilo?
Ainda se encontravam a uma distância de mil metros. Diante de seus olhos uma dezena de robôs flutuou no ar e se precipitou ao solo.
Mensagem transmitida pelo telecomunicador.
— Indagação geral. Quem está agindo com trajes arcônidas por cima do enclave, oeste?
— Sou eu — respondeu uma voz bastante familiar. — Não atravesse o meu caminho, Rhodan. Mantenham-se mais ao sul.
— Ora, Bell! Será que ficou louco?
— Nada disso. Afinal, ainda temos o coronel Freyt. Passei o comando a ele. Quando vi o seu grupo saindo com umas simples bombas explosivas, logo imaginei quais eram suas intenções. Já deveríamos ter começado com isso há tempo. Não se preocupe mais com este setor. Dê um apoio ao pessoal do setor central.
Rhodan concordou, pois as palavras de Bell eram perfeitamente razoáveis. Voltaram.
Realizaram um controle da situação no batalhão de guardas de Klein.
— Vamos embora! — ordenou Rhodan. Aqui também não precisavam deles.
Ivã Goratchim agira como um possesso em meio aos robôs. Os homens já podiam se deslocar livremente pela rua.
Houve um ligeiro contato com Kakuta, que ainda se encontrava no tanque de Cry, em companhia do detonador.
— Tomamos o rumo oeste, Rhodan. Posição atual, quadra H-G IV. Ivã está bem adaptado ao serviço. Não enfrentamos qualquer resistência digna de nota. As grandes unidades robotizadas foram todas dizimadas. Só lançam ataques em grupos de três ou quatro. E a um ataque desses nosso campo energético pode resistir.
Vez ou outra ainda se assistia à explosão de uma máquina de guerra. Wuriu Sengu confirmava os detalhes das observações parciais.
O coronel Freyt mandou que as tropas que ainda estivessem em condições de combater se lançassem ao contra-ataque. À uma hora começou a operação de limpeza. Rhodan anunciou seu regresso ao quartel-general.
— Gostaria que viesse imediatamente — disse Freyt. — Tenho uma notícia muito importante.
— Dentro de três minutos estarei aí.
* * *
As pessoas que se encontravam no gabinete do ministro da segurança pareciam deprimidas. Isso não era de estranhar. A população de Terrânia sofrera perdas dolorosas.
— O que houve, coronel? — perguntou Rhodan.
— Uma mensagem de Adams. Em Nova Iorque estão enfrentando uma situação idêntica.
Rhodan permaneceu calado o tempo de que precisou para respirar.
— Peço maiores detalhes. A G.C.C. fica no centro de uma grande metrópole.
Freyt fez correr a fita gravada.
Remetente: General Cosmic Company, Homer G. Adams, diretor-geral. Destinatário: Perry Rhodan, Terrânia, território da Terceira Potência, deserto de Gobi. Data: 3 de agosto. Hora: 23:45 h, tempo da costa leste dos Estados Unidos.
“Desde as 23:30 h, seiscentos elementos da polícia robotizada da G.C.C. estão fora de controle. Não encontramos nenhuma explicação para o incidente. Três homens que tentaram se aproximar dos robôs para desligá-los foram mortos. Na sede da G.C.C. a confusão é total. Ao que parece, alguns andares do edifício da administração central se encontram sob o controle das máquinas rebeldes. Peço instruções e apoio.”
Desligando a fita, Freyt completou:
— É só, chefe.
— E já chega, coronel. Receio que tenhamos que dispersar nossas forças ainda mais. Bell ainda não está de volta?
— Não.
Bell foi chamado e posto a par da nova situação. Reagiu com algumas palavras grosseiras, mas logo se calou quando lançou os olhos sobre Thora.
— E dizer que nossa meta era uma transição rápida para o planeta Peregrino. Gostaria de saber o que será da nossa frota estacionada no sistema de Beta-Albíreo se tivermos que ficar presos aqui em casa.
— O inimigo é o mesmo. Apenas, aqui os protagonistas da peça usam outras máscaras. De qualquer maneira temos que dar um jeito neles. Não podemos deixar a Terra enquanto perdurar esta situação.
— Sugiro uma ação-relâmpago. Hoje de manhã conseguimos desenvolver boas táticas de combate contra robôs desertores. É bem verdade que alguns deles ainda estão andando por aí. Mas o coronel Freyt não terá nenhum problema em lidar com eles. O trabalho principal será o de cuidar dos mortos e feridos. Os robôs de trabalho poderão dar uma ajuda nesses serviços de limpeza. Foram todos examinados e podem ser reativados logo.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Pelo telecomunicador transmitiu uma mensagem-relâmpago a Adams, informando-o de que nos próximos minutos seriam deliberados em Terrânia os detalhes da operação de apoio.
— Até lá não esboce qualquer reação, Adams. Daqui a pouco voltaremos a entrar em contato com você.
No momento em que Bell falou numa ação-relâmpago, não apareceu ninguém que o chamasse de utopista. Mas, antes que a breve conferência fosse concluída, surgiu outra notícia vinda da central de informações, que arrefeceu ainda mais o que ainda restava de otimismo entre os participantes.
— Mensagem de rádio vinda de Berlim: O escritório da G.C.C. para a Europa Central caiu nas mãos de robôs policiais e de guerra revoltados. O prefeito de Berlim decretou o estado de emergência para toda a cidade.
“Mensagem de rádio vinda de Sydney: O edifício do escritório da G.C.C. para a Austrália foi mandado para os ares por desconhecidos. Quarenta robôs descontrolados correm pela cidade, matando o que lhes atravessa pelo caminho. O exército e a polícia estão impotentes.
“Mensagem de rádio vinda de Durban: Robôs-polícias da General Cosmic Company atacaram e mataram o funcionalismo humano. Poucas pessoas conseguiram escapar. Os robôs entrincheiraram-se no edifício e expediram um ultimato que exige a entrega do poder ao governo local.
“Mensagem de rádio vinda de Montevidéu...
“Mensagem de rádio vinda de Manila... de Madri, do Kuwait...”
Ação-relâmpago!
Era uma ação-relâmpago, sim, mas dos saltadores. Em todos os lugares em que a G.C.C., o fator de poder econômico da Terceira Potência, havia instalado suas dependências, estavam estacionados os robôs de combate.
— Se os saltadores conseguirem atingir e contaminar todas as nossas filiais, isso equivalerá a um incêndio mundial — constatou Rhodan. — As mensagens de rádio que acabamos de receber não serão as últimas. As filiais e fábricas estão espalhadas por mais de duzentos pontos no globo terrestre. Alô, central. Peço uma ligação direta imediata com a F.D.T.
A Federação de Defesa da Terra era comandada por Allan D. Mercant, um homem pequeno e esguio, e tinha sua sede no fiorde de Umanak, na Groenlândia. O rosto desse homem só aparecia nas telas do videofone.
— Já sei o que está querendo, Rhodan. Parabéns pela vitória alcançada em Terrânia...
— Quer dizer que já está a par?
— Só podia estar. Meus agentes também estão trabalhando no Canadá. Aliás, seu escritório de Quebec foi esquecido em todas as mensagens radiofônicas. Não sei o que posso fazer por você, Rhodan. Afinal, não disponho de cem milhões de cidades. Teremos que dividir a tarefa.
— Antes de mais nada, envie tropas especiais com armamentos pesados para Nova Iorque. Se essa cidade sucumbir, com ela sucumbirá a economia do mundo. E uma nave espacial será a última coisa que poderá ser usada por lá.
— Posso dispor de duas divisões para Nova Iorque. Não sei se isso será suficiente para enfrentar o Imperador de Nova Iorque...
— Enfrentar quem?
— O Imperador de Nova Iorque. Ainda não soube que na noite passada os robôs proclamaram a monarquia?

4



O gabinete de Adams nunca abrigara tanta gente. O ar estava viciado, apesar das ótimas instalações de condicionamento de ar.
— ...agradeço, senhoras e cavalheiros. Peço que voltem a seus lugares e se mantenham calmos. Estes fenômenos foram observados em todo o mundo. Nem mesmo Terrânia foi poupada. Por lá a rebelião dos robôs já foi reprimida. E Perry Rhodan está se dirigindo para cá.
Um gesto cansado. As pessoas comprimiram-se junto à porta, para sair. Nem todos podiam voltar aos seus lugares no escritório. Os primeiros dez pavimentos haviam sido ocupados pelos robôs. E também a cobertura e o campo de pouso de helicópteros e outras aeronaves de decolagem vertical.
— Quero ar! — gritou Adams, desesperado.
Miss Lawrence estava parada na porta. Era o bom espírito de seu corpo secretarial. Hoje não parecia se sentir tão segura. Isso já se deduzia do simples fato de que não perguntava pelos desejos de Adams.
— Esta carta acaba de ser entregue, Mr. Adams. Dizem que é para o senhor.
— Obrigado! Fique mais um momento. Hoje não suporto ficar sozinho. A correspondência pode aguardar até amanhã. Até mais.
Abriu a carta e leu.
— O Imperador de Nova Iorque honrá-lo-á com sua visita às duas da tarde. Prepare tudo para a recepção, e tome providências para que possa passar sem enfrentar o menor perigo. Se o senhor ou seus subordinados tomarem qualquer atitude inamistosa, a sede da G.C.C, irá pelos ares. Exigimos obediência, mas sabemos ser um bom senhor para os que nos amam.
Adams amassou a carta, mas logo se arrependeu e voltou a alisar o papel.
Leia, miss Lawrence!
A secretária obedeceu. Sua risada estridente era prova de que acreditava em cada palavra. O medo e o pânico tiraram-lhe a fala.
— Já temos um imperador — disse Adams com uma risada. Também essa risada não parecia muito espontânea, mas de qualquer maneira podia-se entender o gesto. — Os robôs elegeram um imperador. Gostaria de saber qual foi o secretário que conseguiu enganá-los. Qual é sua opinião, miss Lawrence?
— Minha opinião é que a coisa não é de brincadeira. E sei que nunca senti tanto medo como hoje.
— Não são invasores extraterrenos, minha filha — procurou consolá-la Adams.
— Não são monstros, mas simples robôs X, construídos pelo próprio homem. Vamos refletir friamente sobre o assunto, miss Lawrence. Esses caras estão malucos. Não é provável que toda a série esteja padecendo de um defeito de construção. Se fosse assim, as avarias teriam surgido progressivamente, e não em todos os robôs ao mesmo tempo.
Não tenho a menor dúvida de que alguém cuja identidade ainda não conhecemos modificou a programação das máquinas. Talvez tenha agido apenas sobre um único exemplar dotado de uma inteligência extraordinária. Depois transmitiu as instruções aos robôs de reparo.
— Queira desculpar, Mr. Adams. Não tenho seus nervos, e por isso no momento não estou em condições de refletir sobre as causas do fenômeno. Também não sou nenhuma cientista, motivo por que não posso compreender os detalhes. O senhor tem que tomar alguma providência.
— Tomar providências? — perguntou Adams, esticando as palavras. — Não venha me dizer que acredita seriamente que vou dar a este bilhete uma atenção maior que a um pedaço de papel tirado do lixo. Ora, esta, o imperador de Nova Iorque! Que infantilidade! Que loucura!
— Acontece que em Terrânia os filhos da loucura mataram mais de mil pessoas. E eu não gostaria de pertencer aos milhões de Nova Iorque.
O homem pequeno e corcunda sentado atrás da escrivaninha encolheu a cabeça entre os ombros.
— Em Terrânia desencadearam uma guerra feroz — refletiu Adams em voz alta.
— Mas em Nova Iorque pretendem negociar. Qual é a explicação disso?
— Faltam apenas dez minutos para as duas, chefe — insistiu a secretária. — Pense nas pessoas que se encontram no edifício.
— Está bem. Receberei o Imperador. Quem sabe se não conseguimos envolvê-lo numa discussão mais prolongada? Nesse caso poderei apresentá-lo a Rhodan. Até que sua idéia não é má. Prepare bastante café, miss Lawrence. Isto é, basta um pequeno bule para mim. Acho que o gosto do Imperador será outro.
Homer G. Adams transmitiu instruções para que os funcionários da empresa se mantivessem calmos à chegada do Imperador. E manteve uma palestra pelo telecomunicador com Perry Rhodan.
— Que pena — concluiu Rhodan. — Não poderemos estar aí antes das três e meia. Mas mandarei Kakuta.
O teleportador chegou ao escritório de Adams exatamente dois minutos antes das duas.
No mesmo instante, miss Lawrence anunciou a chegada do Imperador. De tão nervosa e medrosa que estava, mal conseguia pronunciar o nome.
— Deixe-me ocupar seu lugar — disse Kakuta.
Adams quis objetar. Fez questão de dizer que não era nenhum covarde.
— Não é por isso — ponderou o japonês. — Terei mais facilidade em dar o fora que você. Ponha seu traje arcônida e sente ao meu lado. Esteja invisível. Assim poderá aparecer a qualquer momento, caso isso seja necessário. Deixarei o telecomunicador ligado, para que dentro do seu capacete você possa acompanhar a palestra, palavra por palavra.
— Faltam dois minutos, miss Lawrence.
Os dois minutos transformaram-se em três. O Imperador não estava com pressa. Examinou detidamente todas as ante-salas e, segundo seu gênio, dirigiu algumas perguntas ingênuas aos presentes. Por outro lado, demonstrou uma série de conhecimentos superespecializados.
Duas horas e três minutos.
O Imperador entrou.
— O senhor não é Mr. Adams.
— Sou Tako Kakuta, primeiro teleportador do Exército de Mutantes. Poderei desaparecer a qualquer momento, se tiver vontade.
— Sou o Imperador. Chame-me de Imperador.
— Como queira, senhor Imperador.
— Gostaria de falar com Mr. Adams. Chame-o imediatamente.
— O chefe não pode comparecer, senhor Imperador. Eu o represento em qualquer setor.
Por alguns segundos o Imperador manteve-se imóvel. Depois disso, dois pesados robôs de combate rolaram para dentro da sala. Só agora se notou a grande diferença. O Imperador era um robô-secretário com muito saber armazenado. Era a classe que dispunha do maior grau de inteligência e cultura geral. A altura era de um metro e setenta. Kakuta lembrou-se que, fora do território da Terceira Potência, esses tipos dispunham de mecanismos de comando autônomos, tal qual as máquinas de guerra. Não valia a pena ligar os poucos exemplares disseminados em largas áreas geográficas a um cérebro de controle centralizado.
— Sou o Imperador desta cidade e exijo obediência. Qualquer recusa no cumprimento de uma ordem será punida com a morte.
Kakuta sabia que um interlocutor desse tipo não teria a menor disposição para negociar. Seu plano de envolvê-lo numa palestra mais prolongada tinha que cair por água abaixo.
— Chamarei Mr. Adams, Majestade.
— Majestade não! Sou o Imperador!
A teimosia do secretário mecanizado era altamente ofensiva. Kakuta se controlou.
Dirigiu-se à sala contígua e deixou a porta aberta para que Adams, invisível, pudesse segui-lo.
— Chefe, é necessário que o senhor compareça pessoalmente.
Adams abriu o capacete. O Imperador não tomou conhecimento de sua estranha vestimenta.
— Precisamos de sua colaboração, Mr. Adams. Ofereço-lhe um escritório elegante em minha residência no Empire State Building. O fato de que o senhor é indispensável para mim constitui a melhor garantia de sua sobrevivência. O novo Império não poderá ser dirigido totalmente sem homens. Siga-me.
O Imperador foi andando. Os dois robôs de combate pararam na porta, como se esperassem que o maior gênio financeiro do mundo se colocasse entre eles.
Para os dois homens, o curso que tomaram os acontecimentos representou uma surpresa excessiva. Estavam habituados à objetividade. Mas a cerimônia do novo soberano foi rápida demais.
Queriam Adams e mais ninguém. Assim que Adams se encontrasse do lado de fora, a guerra desabaria sobre o edifício da G.C.C.
— Siga o Imperador! — ordenou um dos robôs.
Adams obedeceu. Estava pálido e suas mãos tremiam. Kakuta fazia votos de que fosse de raiva, não de medo.
Mas logo o japonês teve que cuidar da própria segurança. O último dos robôs virou-se para ele e levantou o braço inferior do lado esquerdo, que tinha um radiador de impulsos térmicos embutido. Kakuta teleportou-se para a sala contígua e ouviu o som inconfundível da destruição. A essa hora o gabinete de Adams devia se parecer com um campo de batalha.

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