segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-034 - Levtan, O Traidor - Kurt Brand [parte 2]


Chegou a Terrânia meia hora depois do regresso de Bell.

* * *

Kitai Ishibashi, o sugestor, batizara seu método de processos por camadas. Perry Rhodan interrompeu-o.
— Ishibashi, não podemos assumir o menor risco. O que está em jogo é muito valioso. Desta vez confio exclusivamente na sua capacidade. A sugestão profunda deve atingir não apenas Levtan, mas todos os tripulantes de sua nave. Entendido?
— Entendido.
— Pois venha comigo. Levtan está esperando por mim na sala ao lado. Pedi que comparecesse para uma troca de idéias.

* * *

A força sugestiva de Kitai Ishibashi foi penetrando cada vez mais profundamente na mente de Levtan.
Rhodan observava os dois.
O sugestor impunha a vontade estranha à mente do mercador proscrito por camadas sucessivas. Acabara de falar com Perry Rhodan a respeito de transplantes — mais precisamente, do transplante duma faixa de pele sadia sobre uma grande área queimada do corpo.
A vontade e a força de representação de Ishibashi transformaram-se na mente, num saber por ele mesmo assimilado e experimentado. Perdeu o caráter estranho, identificando-se com o pária.
Levtan viu o centro de armamentos de Perry Rhodan, situado em Vênus. Eram gigantescas cavernas escondidas sob a rocha, que se estendiam por centenas de quilômetros, e abrigavam um enorme estaleiro espacial, de cujas fitas de montagem saía a cada hora uma imensidade de robôs e de armamentos.
E a vontade de Kitai Ishibashi apresentou-lhe quadros imaginários dum espaçoporto situado em Vênus, instalado abaixo do solo e protegido por campos energéticos, enormes comportas e quilômetros de rocha. Viu mais de cem cruzadores do tipo da Terra e da Solar System e vinte e duas naves do tipo da Stardust-III.
Perry lançou um olhar insistente para Kitai Ishibashi. O japonês parecia dormir. Ligeiramente inclinado na poltrona, estava com as mãos entrelaçadas e os olhos fechados. Nenhum movimento do rosto traía os esforços imensos que pesavam sobre ele.
De repente Ishibashi abriu os olhos e informou Rhodan de que ele, o chefe da Terceira Potência, teria que encarregar-se de Levtan.
Perry olhou para o relógio.
Um minuto se passara desde o instante em que Ishibashi iniciara o tratamento do pária. Este despertou da sugestão e respondeu à pergunta de Rhodan, que foi a única coisa que ouviu antes do tratamento.
— Está certo — respondeu o chefe da Terceira Potência com a voz tranqüila. — Pode decolar dentro de três dias, Levtan. Acho que fez um bom negócio, não fez?
Sabia perfeitamente o que Levtan estava pensando. O saltador proscrito via em sua mente a base fictícia de Vênus. A frota de mais de cem cruzadores pesados e vinte e duas naves de oitocentos metros de diâmetro. Era uma armada de supercouraçados.
Comparou esse poderio com o valor da notícia com que traíra sua raça e não pôde deixar de responder afirmativamente à pergunta de Rhodan. Mas logo seu caráter traiçoeiro veio à tona:
— ...mas o senhor também teve seu lucro, Rhodan. Seus robôs examinaram todos os cantos de minha nave. Aposto que encontraram muita coisa que o senhor ainda não conhecia. Como...?
— Tenho a impressão de que o senhor ainda faz um juízo muito elevado a seu respeito, Levtan. Afinal, é um proscrito. A presunção é o último dos passos que conduzem ao abismo...
— O senhor com suas vinte e duas naves do tipo da Stardust pode falar grosso — disse Levtan em tom odiento. O tom de sua voz revelava a mais pura inveja. Mas no mesmo instante voltou-se no mercador hábil e experimentado. — De qualquer maneira, por enquanto me livrei do aperto. Quer dizer que dentro de três dias poderei decolar.
— O senhor terá que decolar, Levtan — avisou Rhodan, levantando-se. — Hoje os quatro tripulantes de sua nave que adoeceram receberão alta.
— Amanhã — interrompeu Kitai Ishibashi, que se sentia tão exausto que hoje preferia não realizar mais que uma sessão.
Sabia que com isso poderia subverter o cronograma de Perry Rhodan. Engoliu o suspiro de alívio que esteve para soltar quando este retificou suas palavras.
— Compreendo — respondeu Levtan com um olhar traiçoeiro. — Somos expulsos. Da Terra não esperava mesmo um tratamento diferente.

* * *

O Dr. Frank Haggard convocou toda a tripulação da Lev-XIV para comparecer à clínica. Só Levtan foi dispensado; já havia sido submetido ao tratamento.
— Para que tanta vacina? — resmungou um dos saltadores. — Afinal, para que serve isso?
Haggard fez uma ligeira exposição.
Cada vacina demorava um minuto. Era o tempo suficiente para que Kitai Ishibashi aplicasse a cada tripulante seu tratamento por camadas.
Ele mesmo era o último paciente.
Ainda não tinha o aspecto dum cigano estelar.
Deitou calmamente na mesa de operações e entregou-se à arte médica arcônida do Dr. Haggard. Tinha certeza de que nenhum dos tripulantes da Lev-XIV ficaria desconfiado pelo fato de que um dos quatro doentes da nave saíra da clínica um dia depois dos outros.
A última coisa que Kitai Ishibashi sentiu quando foi envolvido pela anestesia foi a música vinda dum mundo irreal.






4



Vinte dias depois de ter pousado em Terrânia, a Lev-XIV decolou do espaçoporto e subiu lentamente ao céu límpido do deserto de Gobi.
Levtan, o saltador, que fora expulso da comunhão dos clãs dos mercadores, deixava a Terra com sua tripulação, aumentada de quatro elementos, a fim de trair Perry Rhodan.
Era este o grande lance galático.

* * *

O campo energético protetor voltara a fechar-se sobre a metrópole de dois milhões de quilômetros enquanto a Lev-XIV ia diminuindo. Nada indicava o estado de alarma.
Este foi proclamado pelo próprio Rhodan.
As salas de comando das quatro naves de grande porte de sua frota receberam as horas de decolagem.
Decolagem dentro de duas horas.
Nunca a curiosidade quanto ao destino duma viagem fora tamanha.
— Avançar até a órbita de Plutão à velocidade da luz — ordenou Rhodan.
Era o rumo que a nave de Levtan acabara de tomar. Será que Perry Rhodan pretendia seguir o pária a uma distância segura, a fim de descobrir para onde o mesmo iria? Será que não confiava nas informações que seus telepatas haviam extraído da massa cinzenta de Levtan? Não estaria acreditando na grande conferência dos patriarcas no sistema 221-Tatlira?
221-Tatlira.
Os gigantescos mapas estelares da Stardust-III não registravam nenhum sistema com esse nome. Mas descobriram os dados no catálogo da Lev-XIV.
A hora da decolagem chegou.
Mais uma vez Rhodan pilotou a Stardust-III. As naves Centauro, Terra e Solar System seguiram na sua esteira.
Desenvolveram velocidade inferior à da luz até atingirem a órbita de Plutão.
A tensão parecia estalar no interior de cada nave. Nenhum dos homens estava acostumado a essa viagem em velocidade de tartaruga.
Notou-se a falta de quatro membros do Exército de Mutantes: John Marshall, o telepata, Tako Kakuta, o teleportador, Kitai Ishibashi, o sugestor, e Tama Yokida, um indivíduo muito retraído, no qual ninguém desconfiaria um telecineta de potência extraordinária.
Perry Rhodan não permitiu que lhe formulassem perguntas.
Mais uma vez transformara-se no pólo que irradiava tranqüilidade em todas as direções. Apenas uma pessoa não acreditava nessa tranqüilidade aparente: era Reginald Bell. Mas este manteve-se calado.
Por dentro, Perry Rhodan ardia como um vulcão no momento da irrupção.
O chefe da Terceira Potência envolvera-se na maior e mais perigosa das aventuras de sua vida. Durante toda a existência da Terra, a existência da mesma nunca estivera por um fio tão delgado como naqueles dias e nos que se seguiriam.
Os postos de observação da Stardust-III não perdiam o controle sobre a nave dos mercadores.
Ao atingirem a órbita de Plutão, as quatro naves pararam e mantiveram-se imóveis no espaço.
— Vamos esperar aqui — disse Rhodan laconicamente.
Encontrava-se diante do grande cérebro positrônico. Vez por outra lançava um olhar pensativo para o gigantesco painel.
Todos procuravam manter-se afastados do chefe, inclusive Bell.
Havia uma coisa muito importante no ar.
Teria Perry Rhodan aguardado a transição da nave dos saltadores?
Os rastreadores estruturais acabaram de medir um salto. Rhodan ordenou em voz alta:
— Tragam-me todos os dados.
Os dados chegaram, e Rhodan introduziu-os no cérebro positrônico.
Bell e as outras pessoas que se encontravam presentes observavam-no. Não entendiam a finalidade do trabalho apressado, mas preciso de Rhodan.
Este moveu outra chave.
O cérebro positrônico da Stardust-III estava acoplado aos cérebros dos três cruzadores.
O resultado chegou, e chegou simultaneamente na Terra, na Solar System e na Centauro.
— Saltaremos dentro de três segundos — gritou Rhodan para dentro do microfone.
A contagem automática de tempo foi iniciada simultaneamente nas três naves.
O resultado fornecido pelo cérebro positrônico dera origem a milhares de ligações em cada uma das naves.
E as quatro naves saltaram ao mesmo tempo através do hiperespaço.
Por meio dum desempenho energético inconcebível, as gigantescas esferas foram retiradas do universo normal e trasladadas para o hiperespaço, que continuava a ser um mistério inacessível à mente humana. Dessa forma eram atiradas, no chamado tempo zero, por distâncias enormes, para voltarem ao ser no fluido espacial com que estavam familiarizadas.
Como sempre, Perry Rhodan foi o primeiro a despertar do estado de semiconsciência. Recuperando-se imediatamente do choque provocado pela transição, tinha concluído o exame dos instrumentos mais importantes quando os outros retornavam lentamente ao mundo da realidade.
— Um sistema semelhante ao sistema solar. Distância da Terra, mil e doze anos-luz. Sete planetas. Um deles, o segundo, figura no catálogo dos saltadores como o planeta de Goszul — Perry Rhodan apontou para a tela de visão global da Stardust-III, onde o brilho de uma estrela de primeira grandeza superava o de todos os sóis.
Notou o olhar indagador de Bell.
— Localização — gritou nesse instante uma voz áspera.
Rhodan voltou-se tranqüilamente para o oficial que servia o instrumento de observação:
— Se for apenas um objeto, deve ser a Lev-XIV. Levtan, o pária, está a caminho do planeta de Goszul, a fim de revelar aos patriarcas dos saltadores o poderio de nossa frota. É apenas um objeto?
— Apenas um — gaguejou o homem, perplexo diante da segurança de Rhodan. — Desloca-se à velocidade de duzentos e cinqüenta mil quilômetros por segundo em direção ao segundo planeta, mas...
— Mas o quê? — perguntou Rhodan laconicamente.
— E o nosso salto? Os rastreadores estruturais dos mercadores devem ter registrado o abalo espacial.
Perry Rhodan foi para junto dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro. Com uma insistência quase hipnótica disse:
— A Lev-XIV teve que realizar dois saltos para vencer uma distância superior a mil anos-luz. O segundo salto da Lev-XIV coincidiu com nosso salto. Se tivemos sorte, os mercadores constataram apenas uma transição nas imediações. Depois disso só falta que descubram o pária, para que saibam quem deu o pulo.
Tiveram sorte.





































5



Levtan torceu-se depois de vencer o choque da segunda transição, quando viu na tela a estrela fulgurante e percebeu que se tratava da 221-Tatlira.
Sentiu-se tomado de pânico, de medo dos patriarcas dos mercadores galácticos, que há anos o expulsaram das suas fileiras porque viam nele um elemento desonesto.
Fez com que a Lev-XIV se deslocasse em direção ao segundo planeta a oitenta por cento da velocidade da luz. Não ouvia o que os membros do clã lhe diziam. Olhava constantemente para o aparelho de observação. Tinha o rosto desfigurado. Não sabia se estava voando para a morte, ou se voltaria a ser admitido na comunidade dos mercadores.
— Deixe-me em paz! — berrou para seu sobrinho, que se encontrava no assento do co-piloto. — Quem está pilotando esta nave sou eu. A nave é minha, e eu sou o comandante.
Seus berros foram ouvidos três cabines adiante. Logo atrás da sala de comando sete homens estavam sentados num pequeno recinto, que graças à generosidade de Rhodan fora instalado luxuosamente e oferecia todas as comodidades.
Estava sendo ocupado pelos mutantes de Rhodan. Kitai Ishibashi não teve a menor dificuldade em sugerir aos párias que lhes oferecessem esse recinto.
Olhavam-se disfarçadamente.
— O velho está enlouquecendo — disse John Marshall em tom indiferente, lidando na regulagem de precisão de seu agregado audiovisual.
— Tomara que isso dê certo — cochichou Kakuta e estava falando sério. Descobrira em sua tela alguns pontos que um segundo antes não estavam lá.
— Estão chegando! — berrou Levtan na pequena sala de comando.
— São seis — disse Tako Kakuta tranqüilamente.
Ninguém respondeu. Mas Levtan voltou a gritar na sala de comando:
— Um couraçado espacial! Um couraçado espacial!
Os receptores da Lev-XIV estavam ligados a todo volume. A mensagem do couraçado foi ouvida até a popa da nave dos párias:
— Nave que se aproxima, qual é o número de registro? Qual é o clã? Queira fornecer o código.
Mais uma vez Levtan sentiu-se tomado de pânico. Em vez de responder, de fornecer qualquer explicação, modificou o curso da nave, acelerou ao máximo e fez uma curva para bombordo.
Um raio ofuscante saiu das profundezas do espaço e procurou atingir a Lev-XIV.
Uma boa estrela estava protegendo o pária. Foi só graças à repentina mudança de rota que não se transformou numa nuvem de gás juntamente com a Lev-XIV.
O tiro seguinte do couraçado também não acertou no alvo.
Levtan quase chegou a colocar a nave de cabeça para baixo. Na cabine situada junto à sala de comando sete homens engoliam em seco. Viam o sol 221-Tatlira correr loucamente pela tela e desaparecer na margem superior da mesma.
Os reatores da nave zumbiram, da sala de máquinas veio um som agudo, os propulsores funcionaram ao máximo de sua capacidade e aceleraram a nave quase até o limite da velocidade da luz.
— Quero ver se lá fora está caindo neve — disse Marshall e levantou-se.
— Não se esqueça de levar um agasalho — gritou Dorget, um dos membros do clã.
— Vou com você — disse Kitai Ishibashi, fez uma volta em torno de dois homens e, uma vez no corredor, acompanhou Marshall.
Limitaram-se a trocar um olhar.
Ninguém contara com o incidente. Nem mesmo Perry Rhodan.
Os campos energéticos da Lev-XIV deviam ter sido atingidos por um dos raios disparados pelo couraçado espacial. Por um instante não houve energia para os neutralizadores gravitacionais da nave. Todos os ocupantes da nave tiveram a impressão de que iriam arrebentar sob o impacto das forças tremendas que subitamente desabaram sobre eles.
O perigo passou, mas dois dos três campos energéticos da nave mercante ainda não haviam sido restaurados.
Na sala de máquinas ouviu-se gente praguejando.
— Levtan está louco de medo. Não sabe o que está fazendo — disse Marshall, dirigindo-se ao sugestor. Logo voltou a concentrar-se sobre os pensamentos do pária.
Kitai Ishibashi sobressaltou-se. Teria cometido um erro? Será que o tempo de sugestão não fora suficiente?
— Tenho que entrar na sala de comando — cochichou Marshall para o companheiro, desviando-se do sobrinho de Levtan, que saiu praguejando da sala de comando e correu para a sala de máquinas.
A escotilha que fechava a sala de comando continuava na mesma posição quando Marshall entrou.
Ninguém lhe deu atenção. Todos estavam de olhos na tela. Além de Levtan havia quatro pessoas na sala.
No cérebro do comandante dos párias, Marshall só leu o pânico e alguns fragmentos de pensamentos confusos.
Se Kitai Ishibashi não interviesse com suas forças mentais, dentro de um minuto eles e a Lev-XIV se teriam transformado numa nuvem de gases.
Três relampejos simultâneos surgiram na tela. Os destróieres dos mercadores estavam intervindo na luta. Tinham uma superioridade total sobre a nave mercante.
Naquele instante um dos parentes mais próximos de Levtan saltou para a frente, quase arrancou o comandante do assento e gritou para o rosto desfigurado do mesmo:
— Seu covarde! Diga-lhes por que viemos. Vamos logo, seu idiota! Quer que sejamos transformados num sol?
John Marshall não viu mais nada.
Uma luz diabólica saíra da tela, um raio disparado nas proximidades. Felizmente não acertou.
— Fale logo! — gritaram para Levtan. Duas mãos seguraram sua cabeça e empurraram-na em direção ao microfone de hipercomunicação. — Vamos, diga agora.
O nome de Perry Rhodan foi mencionado. Mais uma vez. Aludiu-se a uma base instalada em Vênus, a uma frota imensa de cruzadores e a vinte e duas naves do tipo da Stardust-III.
Lá fora, Kitai Ishibashi parecia sonhar diante da escotilha da sala de comando. Não havia o menor movimento em seu rosto que revelasse que estava intervindo na luta, uma luta que a qualquer segundo poderia significar a morte.
Sua energia sugestiva venceu uma distância de quarenta mil quilômetros, rompeu os campos energéticos dum couraçado espacial e penetrou no cérebro do comandante.
Kitai Ishibashi não tinha a menor idéia de que naquele instante o nome de Perry Rhodan caiu pela primeira vez em meio às palavras balbuciadas por Levtan. Admirou-se com a facilidade com que esse comandante podia ser influenciado. Chegou quase a sentir fisicamente o desmoronamento das defesas espirituais e a absorção ávida de suas forças sugestivas.
Procurou ininterruptamente inocular no cérebro do comandante do couraçado a idéia de que devia instruir os destróieres a não lançar novos ataques.
Mais uma vez Kitai Ishibashi recorreu ao método de sugestionamento por camadas. Esse método era mais demorado, mas quando havia algumas camadas homogêneas superpostas, estas deixavam de ser um corpo estranho na mente do indivíduo. O comandante da nave dos mercadores estava convencido de que agia por livre vontade quando transmitiu pelo telecomunicador a instrução destinada aos destróieres:
— Suspender os ataques! Escoltar o pária Levtan. Aguardar licença de pouso para a Lev-XIV.
O grito que Levtan soltou na sala de comando despertou Kitai Ishibashi dos seus sonhos. Respirou profundamente por algumas vezes, passou as mãos pelos olhos e, encurvado, dirigiu-se à sua cabine.
— Então? — cumprimentou-o o teleportador com um sorriso. — Lá fora ainda está caindo neve?
Com a voz indiferente, como se apenas tivesse olhado o tempo, Kitai Ishibashi respondeu:
— Já parou. Mas logo vai começar de novo.

* * *

Longe da Stardust-III e dos três cruzadores, as naves dos mercadores caçavam a Lev-XIV.
A gigantesca tela de visão global da Stardust-III não mostrava nada. A distância era muito grande. Mas os instrumentos ultra-sensíveis reagiam fortemente. Toda vez que os ponteiros disparavam escala acima, um raio desintegrador havia sido disparado em direção à Lev-XIV.
Na sala de comando da Stardust reinava um silêncio mortal.
Rijo como uma estátua, Perry Rhodan mantinha-se diante do grande painel, observando os instrumentos.
— Por que será que Kitai Ishibashi não intervém? — perguntou bastante nervoso.
— Como pôde acontecer um imprevisto desses? Quem havia de dizer que Levtan seria estúpido a ponto de não responder ao chamado da grande nave dos mercadores?
O hipercomunicador captou a mensagem.
Ouviram-se palavras balbuciadas, mas o tom de voz de Levtan era inconfundível.
— Que covarde miserável! — praguejou Bell.
A covardia do pária poderia representar o fim do lance galático de Perry Rhodan e de quatro dos seus melhores mutantes.
Mais cinco raios de desintegrador estenderam-se em direção à Lev-XIV. Instintivamente Perry conteve a respiração. Fitou três instrumentos próximos.
Quando chegaria outro movimento do ponteiro, o maior de todos, indicando que a Lev-XIV se transformara numa nuvem de gases?
Mais uma vez o receptor de hipercomunicação voltou a soar.
— Suspender os ataques! — rangeu a voz no alto-falante. — Escoltar o pária Levtan. Aguardar licença de pouso da Lev-XIV.
Uma das pessoas que se encontravam na sala de comando respirou ruidosamente.
— Depois do pouso nossos mutantes serão desmontados...
Perry Rhodan virou-se abruptamente para a pessoa que acabara de pronunciar estas palavras.
O jovem oficial-telegrafista que soltara a observação enrubesceu e inclinou o rosto sobre o quadro de instrumentos.
Perry Rhodan deu-se conta do fato de que nem Bell estava informado sobre seu plano.
— Nossos mutantes não serão desmontados — declarou com a voz calma, enquanto seus olhos cinzentos pareciam expedir um ligeiro sorriso. — Os tripulantes da Lev encontram-se sob influência sugestiva e não sabem que trazem mais quatro pessoas a bordo. E posso assegurar-lhes que nossos homens têm o aspecto de genuínos ciganos espaciais.
Nesse instante o operador do aparelho de observação disse:
— A formação segue com a Lev-XIV em direção ao segundo planeta.
Com isso a tensão que vinha consumindo os nervos dos ocupantes da Stardust deixou de existir.
Perry Rhodan pôde lançar mais uma parcela a crédito da conta da Humanidade. Crest, o arcônida, que se mantinha discretamente nos fundos, sabia que o homem que acabara de ocupar o assento de piloto da Stardust — Perry Rhodan — era o herdeiro do Universo.

* * *

Em velocidade bastante reduzida, o grupo de destróieres, com a Lev-XIV no centro, passou a baixa altura sobre o planeta de Goszul.
O astro recebera esse nome em homenagem a Goszul, um mercador que o descobrira e dele tomara posse.
Os mutantes ficaram espantados quando a tela lhes mostrou não apenas uma paisagem encantadora, mas também um grande centro industrial. Nem mesmo os verdadeiros membros do clã ocultavam o espanto.
— Então é aqui que ficam os estaleiros dos mercadores — disse Dorget em tom preocupado, coçando o crânio meio tosado.
John Marshall parecia contemplar seu próprio interior de tão ausente que parecia. Na verdade, empenhava todas as energias mentais para captar os pensamentos dos párias.
Mas seu conhecimento do planeta de Goszul não passava daquilo que chegara a eles através de boatos. Fazia muitos anos que Levtan fora expulso da comunidade dos saltadores, e naquela época o planeta ainda levava uma vida pacata.
Descrevendo uma grande curva, retornaram ao formidável centro industrial, sempre acompanhados pelos destróieres. Ao que parecia, a Lev-XIV recebera permissão para pousar.
Mal tocou o solo, a ordem de Levtan foi ouvida em todos os cantos:
— Preparem-se para abandonar a nave.
Os mutantes deixaram que os três membros verdadeiros do clã seguissem à sua frente. Hesitavam em sair dali.
— Seremos presos — informou Marshall.
Ninguém se abalou, pois já contavam com essa possibilidade.
Tama Yokida, um telecineta de estatura mediana, olhou para o lugar em que os robôs haviam escondido algumas armas manuais bastante eficientes.
O rosto estreito de John Marshall empalideceu mais um pouco. Mais uma vez estava captando o pensamento alheio. Retornou à realidade.
— Não podemos levar nada — disse em tom decidido. — Todas as pessoas que saem desta nave serão rigorosamente revistadas...
— Mesmo com...?
Marshall entendera o pensamento de Ishibashi.
— Sim, também com isso. Por enquanto dispensarão apenas a lavagem cerebral. Os saltadores não confiam em Levtan. Ninguém lhes pode levar a mal. Vamos embora. Somos os últimos.

* * *

Goszul, descobridor do sistema 221-Tatlira e conquistador do segundo planeta — ou melhor, o patriarca Goszul — ainda gozava duma saúde excelente. Naquele momento ouvia as notícias sobre o pouso da Lev-XIV.
Mais três patriarcas, sentados em poltronas confortáveis em torno duma mesa redonda, ouviam atentamente as notícias. O nome Perry Rhodan foi mencionado várias vezes, e sempre que isso acontecia um dos patriarcas dava uma expressão de ódio ao rosto e respirava pesadamente.
Goszul, um homem velho, baixo e calvo, notou a respiração pesada de Etztak.
— Está contrariado com o pouso de Levtan? — perguntou. — Ou será que o nome de Rhodan lhe dá tamanha raiva?
Os olhos penetrantes do sagaz Goszul fitaram o amigo, que chegara a acreditar que conseguiria destruir Perry Rhodan, mas deu-se por satisfeito por ter escapado, embora fosse o único.
— Não gosto nem de uma coisa nem de outra, Goszul — respondeu Etztak com uma calma surpreendente. — Conheço Levtan. É um covarde e um criminoso traiçoeiro.
— E Perry Rhodan? Por que não fala a respeito dele? Estou muito interessado em ouvir sua opinião, Etztak.
Etztak lançou um olhar desconfiado para Goszul. Os outros patriarcas sentiram a discussão aproximar-se.
Um deles interveio apressadamente.
— Vamos aguardar o resultado do interrogatório de Levtan. Depois disso ainda poderemos conversar sobre o tal do Perry Rhodan.
Etztak chiou indignado:
— Não é o tal do Perry Rhodan, mas o Perry Rhodan, que encontrou o mundo da imortalidade e sabe onde encontrá-lo de novo. Um ser desse tipo não pode ser designado com a expressão depreciativa “o tal do”.
O patriarca Goszul esboçou um sorriso matreiro.
— Você fala conforme lhe dá na veneta, Etztak. Quanto a mim, nunca acreditei na lenda do mundo da vida eterna. Mas chega de palavras vazias. Não temos muito tempo. Dentro de duas horas começará a reunião na qual será elaborado o programa da grande conferência.

* * *

Parados na grande comporta da Lev-XIV, os mutantes de Perry Rhodan viram como os tripulantes foram recebidos um por um pelos mercadores, sendo obrigados a entrar num veículo fortemente vigiado, depois de terem sido revistados.
— Parece que as coisas não estão boas para nós — constatou Tako Kakuta.
Nesse instante um dos mercadores gritou para eles:
— Vocês querem um convite especial?
Kitai Ishibashi saiu andando. Com toda calma deixou que o revistassem. Caminhou tranqüilamente entre dois mercadores armados até os dentes e entrou num veículo que logo o levaria dali.
— Se fizer qualquer movimento estranho, atiraremos — preveniram seus acompanhantes.
Kitai tomou conhecimento da advertência sem responder nada. Acontece que, uma vez sentado ao lado das sentinelas, o veículo continuou parado.
— Por que não vai embora? — berrou a sentinela, à sua direita, para o condutor do veículo, que não moveu um dedo para colocar a chave na posição de movimento.
— Devo esperar pelos últimos três — respondeu tranqüilamente o mercador, e não se espantou com a resposta do indivíduo que acabara de berrar:
— É verdade, temos que esperar por esses traidores.
Kitai Ishibashi riu para dentro. Estava satisfeito com o servicinho que acabara de realizar. Já era algum consolo saber que os amigos estariam ao seu lado.

* * *

Etztak teve uma conferência com os membros de seu clã.
— Fiquem de olhos abertos amanhã, quando Levtan for interrogado diante da grande assembléia. Não se esqueçam de que por pouco Rhodan não nos destrói. Ainda não consegui convencer Goszul de que Rhodan é um elemento extremamente perigoso.
Seu filho interrompeu-o. Com isso cometeu uma violação grave dos costumes, mas Etztak deixou-a passar.
— Sempre que você alude a Levtan está pensando em Rhodan?
— Será que ainda não me expliquei? — gritou o patriarca para seu filho. — Levtan diz que fugiu do centro de armamentos de Rhodan. Acontece que eu sei como é difícil escapar dessa criatura. Não acredito em Levtan. Sempre andou mentindo para entregar-nos a Rhodan.
— Quer dizer que você não acredita nos vinte e dois supercouraçados que, segundo afirma Levtan...
— Se você me interromper mais uma vez, terá que limpar o campo número três — gritou Etztak para o filho. — Não, para prevenir qualquer pergunta tola, não acredito nas informações de Levtan. Rhodan possui duas naves de grande porte, não vinte e duas. E também não é verdade que tenha cem cruzadores. O pária se vendeu a Rhodan, que por intermédio dele quer descobrir o que pretendemos fazer. Sabe que é fraco...
O filho não pôde deixar de interrompê-lo mais uma vez, embora se arriscasse a limpar com as próprias mãos o grande depósito da nave:
— É tão fraco que destruiu nossa frota. Pai, será que isso é fraqueza?
O velho Etztak estava fervendo por dentro, mas a inteligência conseguiu vencer a cólera. O filho acabara de lembrar um acontecimento que nos últimos quatro meses surgira muitas vezes em seus sonhos, fazendo-o despertar banhado em suor.
Bastante contrariado, respondeu:
— Voltei a dizer a Goszul que Perry Rhodan esteve no mundo da vida eterna. De lá trouxe aquela arma medonha, que faz com que as naves desapareçam sem mais aquela. Acontece que Goszul não acredita nisso. Para ele essas histórias não passam de lendas.
— Ou então não quer confessar que Perry Rhodan representa uma ameaça para ele — interveio o filho mais uma vez. — Acho que Goszul nunca teve que saborear uma derrota.
Todos se surpreenderam quando Etztak respondeu com um gesto amável:
— Cá para mim, desejei muitas vezes que ele tivesse um encontro com Rhodan. Um único encontro fará com que pense e fale de maneira muito diferente. Vocês — disse, apontando para três homens — participarão na qualidade de observadores da conferência que será realizada amanhã. Abram os olhos quando Levtan for chamado a prestar depoimento e apresentar provas das suas declarações. Lembrem-se de que esteve com Rhodan, e nunca se esqueçam do que este fez com as nossas naves.

* * *

Os quatro mutantes de Rhodan registraram atentamente todos os detalhes que puderam ver durante a viagem.
Encontravam-se no interior duma fortaleza. Os canhões pesados não eram novidade para eles; a bordo dos cruzadores e da Stardust-III viram peças iguais. Essa fortaleza dos mercadores galácticos constituía uma posição inexpugnável, capaz de resistir a qualquer ataque vindo do espaço.
Enquanto prosseguia a viagem do veículo que deslizava pouco acima do solo, os quatro mutantes foram percebendo que a tarefa que tinham diante de si era tremenda, quase insolúvel.
Via-se de tudo: estaleiros espaciais, gigantescas fábricas, milhares de robôs que desempenhavam as tarefas mais variadas e gente de pele avermelhada. Eram indivíduos estranhos, mas tinham um aspecto humano e pareciam simpáticos. Esses goszuls preguiçosos...
Foi a única coisa que a pesquisa mental de John Marshall conseguiu revelar a respeito daqueles seres baixos e ruivos, cuja densa cabeleira chamava a atenção.
Os mercadores chamavam-nos de goszuls — e os desprezavam.
Foram recolhidos à prisão. Os quatro mutantes passaram por três áreas distintas e dois conjuntos de muralhas muito altas. Pelas antenas que havia no topo das mesmas via-se que acima delas ainda existia uma grade de radiações.
Pela primeira vez John Marshall fez uma observação para a sentinela que o acompanhava. Era uma observação irônica, que desafiava uma resposta.
— Que monstro de prisão! Entre os mercadores deve haver muitas ovelhas negras.
A sentinela que caminhava à sua esquerda resmungou:
— Recomendo-lhe que não volte a abrir a boca desse jeito, seu pária. Daqui a pouco você verá quem está preso aqui.
Pensou nos goszuls, aquela corja preguiçosa que apesar do treinamento hipnótico continuava a ser falsa e traiçoeira.
Os veículos pousaram um atrás do outro.
— Desçam! — soaram os comandos.
Um campo de radiações abriu-se diante deles. Uma sentinela saiu do portão e perguntou em tom contrariado:
— São os últimos traidores?
Desde o instante do pouso no planeta de Goszul os homens de Levtan só foram chamados assim.
Os acompanhantes estavam satisfeitos por entregarem os prisioneiros. Mas um deles respondeu em tom aborrecido:
— Você pode bancar o arrogante. Bem que eu gostaria de ter um serviço confortável como o seu. Vamos logo! Passe o recibo e desapareça com estes indivíduos.
Os mutantes olharam-se. Seus acompanhantes perceberam. Um dos mercadores aproximou-se de Tako Kakuta e atirou o japonês franzino de encontro à sentinela.
Esta praguejou e conseguiu desviar-se no último instante.
— Quase que ele vai para cima de mim, seu idiota! — gritou para o mercador. — Eu o denunciarei. Aposto que hoje você ainda recebe uma visita.
John Marshall leu os pensamentos e percebeu o que Tako Kakuta pretendia fazer.
Tako demorou propositadamente em pôr-se de pé. Estava atrás da sentinela.
— Vamos, entrem! — resmungou a sentinela para os outros três, deixou-os passar e assinou o documento pelo qual confirmava ter recebido os homens de Levtan.
O mais brutal dentre os mercadores teve que receber o recibo. Foi o último a entrar num dos veículos.
A sentinela seguiu-o com os olhos, virou-se para os quatro homens que acabavam de ser entregues e ouviu um grito.
John Marshall respirou profundamente e lançou um ligeiro olhar para Tako Kakuta.
Por uma fração de segundo o japonês desapareceu, para efetuar um ligeiro salto de teleportação e pagar o brutal mercador na mesma moeda. Voltou no mesmo instante e estava no mesmo lugar de antes... bem no interior do corredor.
Praguejando, o mercador pôs-se de pé. Esfregou a testa, que na queda batera contra uma quina metálica.
— Você me deu um pontapé! — gritou furioso para a sentinela.
— Eu? — respondeu esta em tom sarcástico, apontando-lhe a arma. — Você acha que sei dar saltos milagrosos? Não está vendo onde estou eu e onde está você, seu idiota? Você deve ter tropeçado sobre suas pernas. Você sabe pisar nos outros, mas ainda não aprendeu a andar.
O rosto de Tako Kakuta continuou impassível. No seu íntimo sentia-se alegre.

* * *

Levtan viu-se diante de três mercadores, que o fitavam com uma expressão de profundo desprezo.
As perguntas foram desabando sobre ele.
O pária respondia quase sem refletir.
— Não nos conte lorotas, seu covarde! — gritou subitamente um dos mercadores que o interrogavam. — Sabe quem eu sou? Sou filho de Gaxtek. Isso mesmo! Pertenço ao clã que você logrou na estrela de Caster, tirando-lhe o produto de três circuitos de trabalho. Não está lembrado de mim?
O pária encolheu-se como se estivesse sendo chicoteado, mas o brilho sagaz de seus olhos não se apagou. Gritou:
— Vocês são muito pequenos; não deporei perante vocês. Pedi que fosse conduzido para a grande assembléia. Tenho direito a isto. É um direito que cabe ao proscrito. Vim para trazer informações que nos podem salvar da destruição.
— Seu fanfarrão! — disse Gaxtek por entre os dentes, cerrando os punhos.
— Tenho provas do que digo — disse Levtan em tom irônico, mas no mesmo instante suplicou: — Se eu e o meu clã formos tratados bem...
Gaxtek riu.
— Este sujeito só sabe mentir — disse.
O mercador alto e esguio acenou com a cabeça. O outro, que era um baixote, que se limitara a formular vez por outra uma pergunta durante o interrogatório cerrado, disse:
— Informaremos Goszul sobre as declarações que acaba de prestar. O patriarca decidirá o que deve ser considerado mentira e o que pode ser aceito como verdade. Na minha opinião deve ser levado de volta para sua cela.
Levtan olhou-os com um sorriso malévolo. Sabia que amanhã seria o grande homenageado. Depois disso esses três mercadores seriam os primeiros que sentiriam sua vingança. Lançou mais um olhar traiçoeiro para Gaxtek, antes que as duas sentinelas o conduzissem à sua cela.
— Você viu o olhar dele, Gaxtek? — perguntaram a este, assim que o grupo se viu a sós.
O mercador lançou um olhar pensativo para seus companheiros.
— Sim — respondeu em tom grave — vi o olhar e compreendi. O que acontecerá se aquilo que Levtan acaba de dizer for verdade e amanhã ele conseguir provar o que afirma? Farei uma visita ao patriarca Etztak.
— O que você quer com esse velho impulsivo? — perguntou o indivíduo alto e esbelto em tom de surpresa.
— Procurarei Etztak para semear a desconfiança, a desconfiança contra as declarações de Levtan. Etztak é o único patriarca que já lutou contra Perry Rhodan. Teve que fugir. Teve que fugir de Rhodan. Topthor, o superpesado, perdeu sua frota. Vocês já estão começando a compreender quem é esse Levtan?
Não compreenderam. Limitaram-se a fitá-lo.
— Pois eu lhes direi, e também direi a Etztak. Levtan é a bomba infernal de Perry Rhodan, que fará a desgraça de nosso povo.























6



Kitai Ishibashi empenhara a força de sua vontade para que ele e seus companheiros ocupassem uma cela especial, em vez de serem recolhidos à cela coletiva em que foi abrigada a maioria dos tripulantes da Lev.
Levtan foi o único que ocupou uma cela individual. Na opinião dos mercadores e de seus patriarcas era o homem mais importante. A tripulação desempenhava um papel secundário.
Os mutantes espantaram-se ao notar que os goszuls também trabalhavam na prisão. Por duas vezes John Marshall conseguira entabular conversa comum deles através da portinhola da cela, mas de cada uma das vezes foram surpreendidos por uma sentinela dos mercadores, que interrompeu o contato recém-estabelecido.
Apesar disso as capacidades telepáticas de John Marshall lhe proporcionaram muitas informações.
Aos cochichos transmitiu as mesmas aos amigos, depois que Yokida, o telecineta, realizou um exame minucioso e constatou que não havia microfones na cela.
— Todos os goszuls estão bloqueados, ou seja, escravizados. Não podem voltar para junto dos seus familiares. E querem saber por quê? Não querem que o povo de Goszul saiba que existe a navegação espacial.
Tako Kakuta, o teleportador, desconfiou da veracidade da informação.
— E as naves a cujo pouso e decolagem assistem constantemente? Será que essa gente é cega?
John não levou a pergunta a mal.
— Quando Levtan ainda se encontrava no assento do piloto, captei uma informação a respeito dum corredor de entrada. A esta hora já entendo o motivo da precaução.
— É um ramo encantador dos arcônidas — resmungou Tama Yokida. — Não me sinto nem um pouco à vontade por aqui — pelo brilho dos seus olhos percebia-se que brincava com a idéia de usar seu dom telecinético para abrir a porta maciça da cela.
Por ordem de Rhodan, Marshall assumira o comando do grupo. Este limitou-se a olhar para Tama Yokida, que respirou profundamente e disse:
— Está bem. Deixemos disso.
No mesmo instante ouviram-se passos no corredor. A porta da cela abriu-se, a mesma porta que Yokida pretendia arrombar com sua força telecinética.
Uma sentinela e dois goszuls lançaram os olhos para dentro da cela.
— Saiam! — ordenou a sentinela.
Segurava um radiador numa das mãos. Saíram; Tako Kakuta foi o único que parecia não ter pressa. Ele e Marshall acabaram de combinar alguma coisa.
Quando os três mutantes passaram perto dos goszuls, estes lhes lançaram um olhar estranho. Kitai Ishibashi notou que em seus olhos havia compaixão, mas alguma coisa faltava neles.
John Marshall examinou os pensamentos confusos que atravessavam a mente da sentinela. A única coisa que o homem sabia é que seriam interrogados, e que o tema Levtan empolgava toda a fortaleza.
O grande australiano de rosto estreito perscrutou os pensamentos dos goszuls.
Descobriu a mesma coisa que Kitai Ishibashi havia notado em seus olhos, e ainda compreendeu uma pergunta silenciosa: Por que vieram a este mundo? Não sabem que nunca mais poderão sair dele, tal qual nós?
A sentinela berrou para Tako Kakuta, que continuava parado no interior da cela:
— Vamos logo! Depressa!

* **

No mesmo instante John Marshall sorriu sem querer. Captara os pensamentos de Tako. Todos eles convergiam numa pergunta: Será que este sujeito também vai me dar um pontapé?
O guarda notou o sorriso de Marshall e pensou que o mesmo estivesse zombando dele. Num movimento abrupto levantou o radiador, apontou para Marshall e, com um brilho ameaçador nos olhos, disse:
— Pare de sorrir, senão...
Foi quando Kitai Ishibashi resolveu intervir. Sua vontade tomou conta do guarda.
O rosto de John Marshall estava enrijecendo quando o guarda baixou a arma e disse tranqüilamente a Tako Kakuta:
— Venha, amigo. Não nos faça esperar.
Kitai Ishibashi desligou. O ligeiro tratamento garantiria uma atitude amável do guarda até que chegassem à sala de interrogatórios.
Sentiu o olhar dos dois goszuls pousado nele. E compreendeu o gesto de Marshall. Os dois goszuls possuíam uma reduzida capacidade telepática, bloqueada ou diminuída em 99 por cento por meio dum processo hipnótico.
Kitai Ishibashi percebeu que esse fato fez brotar o suor em seu corpo. Será que ao elaborar seu plano Perry Rhodan contara com a possibilidade de encontrarem telepatas no planeta de Goszul?
Os dois seguiram-nos a poucos metros de distância.
O guarda, que de uma hora para outra se tornara tão amável, abriu-lhes a porta e convidou-os a entrarem.
Etztak lançou um olhar de pavor para o guarda. Os quatro mercadores que se encontravam presentes além dele demonstravam uma perplexidade tipicamente humana.
— Levem esses sujeitos para fora — gritou subitamente Etztak com a voz rouca. — Levem-nos para fora e tranquem-nos em sua cela!
O guarda esteve a ponto de levá-los de volta.
— Fique aqui! — berrou Etztak e apontou sua pesada arma para ele. — Gaxtek e Hor, levem-nos de volta. Levem-nos imediatamente para a mesma cela.
Kitai Ishibashi mal e mal conseguira impor ao patriarca Etztak a ordem de levá-los de volta para a mesma cela, quando Gaxtek e Hor já os estavam tangendo para fora.
John Marshall logo reconheceu o perigo.
Procurou ouvir os pensamentos de Etztak, absorveu-os e sentiu-se muito preocupado. Só quando se encontravam no interior da cela e os fechos magnéticos já haviam trancado a porta, que estava com a portinhola fechada a tramela, contou o que sabia.
Kitai Ishibashi empalideceu.
— O quê? — cochichou. — Etztak quer, fazer uma lavagem cerebral no guarda?
Tako Kakuta, o teleportador, reagiu.
— John, onde está o guarda? Diga logo.
Marshall concentrou-se. As pessoas que se encontravam na cela prenderam a respiração.
Depois de algum tempo Marshall levantou o rosto banhado em suor. Os olhos haviam perdido o brilho, o rosto parecia ainda mais estreito.
— Está sendo levado num veículo blindado, acompanhado de seis guardas.
— Onde está, Marshall? — insistiu
Tako Kakuta, preparando-se para o salto. Com um gesto cansado o telepata respondeu:
— Estou captando muitos pensamentos, mas todos eles representam sua morte, se você saltar. Os seis homens que estão levando o guarda para a lavagem cerebral mantêm o dedo no gatilho. Sinto; não hesitarão em apertar o gatilho.
— Onde está? — perguntou o japonezinho franzino, com uma terrível frieza na voz.
Marshall lhe disse que um dos guardas estava pensando no grande estaleiro pelo qual estavam passando naquele instante.
Só havia três mutantes na cela.
Tako Kakuta, o teleportador, saltara. Saltara para o desconhecido, atrás do guarda que mostraria suas cartas quando fosse submetido à lavagem cerebral.

* * *

Etztak e os outros mercadores saíram da sala de interrogatórios antes que o guarda fosse levado dali. Lá fora entrou num veículo e correu para junto de Goszul. Entrou sem fazer-se anunciar. Interrompeu uma conferência.
Etztak não ligou para o fato.
Principiou com o entusiasmo dum jovem, e estimulado pelo fato de saber que Perry Rhodan representava um perigo que não devia ser subestimado.
Ele o conhecera.
Viu o sorriso condescendente de Goszul. Subitamente Etztak acalmou-se. Interrompeu sua exposição.
— Você não acredita no que acabo de dizer, Goszul? — perguntou em tom indiferente.
— Acredito tanto quanto acredito na estrela da vida eterna — respondeu Goszul. — Etztak, você teve oportunidade de travar conhecimento com Rhodan, e por isso não consegue mais pensar objetivamente. Ainda se sente abalado pelo susto. Eu vejo a coisa sob outro ângulo. Mas não me oponho a que o guarda seja submetido à lavagem cerebral, para que tiremos dele tudo que sabe.
Os mercadores não se comoveram pelo fato de que a lavagem cerebral transformaria um dos seus num idiota.
Subitamente a porta abriu-se. Gaxtek gritou, ainda na entrada:
— Um dos homens que vigiavam o guarda acaba de matá-lo!
— Isso foi obra de Rhodan! — gritou Etztak. — Se não o tivesse feito, muita coisa teria sido diferente.
O patriarca Goszul quase estourou de rir.
Tako Kakuta, o teleportador japonês, estava de volta à cela da qual desaparecera quinze minutos antes.
Reapareceu no mesmo lugar de que saíra.
O rostinho de criança encimado pela testa protuberante parecia ainda menor e revelava um tremendo cansaço.
Enxugava seguidamente o suor da testa. A respiração era rápida.
Com uma paciência sobre-humana, os amigos esperaram que relatasse o que havia acontecido. Marshall era o único que conhecia as experiências pelas quais o japonês acabara de passar, mas preferiu ficar calado.
Tako Kakuta disse com a voz cansada:
— O homem está morto. Estavam parados em círculo, com ele no centro. Quando cheguei ao veículo, apenas para desaparecer no mesmo instante, um dos radiadores foi disparado...
Não contou que teve de executar meia dúzia de saltos perigosos para localizar o veículo blindado. Era de opinião que não valia a pena relatar esse fato. Também não contou que depois do segundo salto foi parar no telhado transparente do estaleiro espacial, o que provocou um alarma geral no mesmo.
Seus amigos fitaram-no em silêncio. Compreendiam perfeitamente por que um dos seis homens que vigiavam o guarda disparara seu radiador. Ainda estavam lembrados do choque que sentiram quando pela primeira vez o teleportador surgiu diante deles, vindo do nada, que nem um fantasma.

* * *

Marshall acordou no meio da noite. Assustou-se; captou impulsos mentais duma criatura estranha. Eram gritos mudos de angústia, uma confusão que conseguiu decifrar. Depois de algum tempo compreendeu de onde vinham os impulsos: da cela ao lado. Um goszul condenado à morte estava mergulhado no desespero.
Marshall acordou os amigos e transmitiu-lhes os pensamentos que acabara de captar.
O planeta de Goszul apresentou-se aos mutantes como um mundo escravizado, digno de lástima. Os mercadores haviam implantado um regime desumano em meio a esse povo pacífico e bondoso.
— Descendentes dos arcônidas? — perguntou Kitai Ishibashi, perplexo. — Quer dizer que estes goszuls também descendem da raça dos arcônidas?
A pergunta não era de estranhar. Muito antes do desaparecimento da Atlântida, os arcônidas aportaram à Terra como se fossem deuses para nunca mais retornar. Apesar disso continuaram a viver nas lendas dos povos. Aqui, no planeta de Goszul, o destino provavelmente seguira por uma trilha semelhante.
E esse povo pacato foi escravizado por seus irmãos de raça.
— Estes saltadores... — disse Tama Yokida, falando entre os dentes, e voltou a prestar atenção aos cochichos de Marshall.
Os goszuls regrediram a um estágio primitivo. Na ciência e na tecnologia não estavam mais avançados que a Terra no século XVII. Quando o patriarca Goszul pousou no planeta com seu clã, acreditaram que se tratasse de deuses. Mas este não viu outra coisa naqueles seres e no seu mundo que um objeto de exploração: foi o melhor negócio de sua vida. Apossou-se do segundo planeta do sol 221-Tatlira. Subjugou a inteligência daquele povo tranqüilo através dum processo de treinamento hipnótico, reduzindo-o à escravidão, deportou-os para esse lugar e, auxiliado pela poderosa comunidade dos mercadores e pelo trabalho dos escravos de Goszul, criou seu centro de poder.
O medo de morrer enlouquecera o homem da cela vizinha. As disfunções doentias de seu cérebro romperam a barreira hipnótica e, sempre que surgia um momento de lucidez em que percebia todo o desespero de sua situação, lembrava-se do que os mercadores haviam feito com ele e com seu povo.
De repente os mutantes que escutavam atentamente foram interrompidos por passos ruidosos. Três guardas caminhavam pelo corredor, passaram por sua cela e pararam diante da porta ao lado.
Ouviram as fechaduras magnéticas que se abriam com um rangido, ouviram quando a porta girou nas dobradiças — e todos abaixaram-se: Kakuta, Ishibashi e Yokida. Só Marshall parecia imobilizado.
Teve a impressão de que via através dos pensamentos que estava captando.
Viu que um dos guardas apontou a arma de radiações para o goszul condenado à morte. O pavor do homem escravizado doeu no telepata.
Subitamente tudo acabou.
John Marshall não ouvira nada.
Mas Ishibashi, Yokida e Kakuta ouviram o chiado típico da arma de radiações.

* * *

O patriarca Goszul não era o idiota que Etztak começava a ver nele.
Goszul ordenara uma investigação sobre a morte do guarda que devia ser submetido à lavagem cerebral. Sharer, um dos membros do clã, apresentou o relatório.
O patriarca ouviu-o sem dizer uma palavra. Não se esquecera da exclamação de Etztak: “Isso foi obra de Rhodan!” E não subestimava esse indivíduo, que vivia num mundo pequeno e afastado, num planeta chamado Terra, situado num braço deserto da Via Láctea.
Formulou a primeira pergunta:
— Quem viu aquela sombra, além do idiota que matou o guarda?
— Ninguém. Interroguei insistentemente todos eles. Aquele que se encontrava à direita do sujeito que atirou diz ter sentido uma pancada nas costas que não consegue explicar.
Apesar da idade, Goszul era dotado duma espantosa agilidade mental. Sabia extrair os pontos importantes de cada situação complexa com que se deparava. Foi o que fez agora.
— Quero que você me repita textualmente o que o homem disse a este respeito.
Sharer refletiu ligeiramente:
Vi Plug atirar. No mesmo instante senti uma pancada e uma mão fechada passou pelas minhas costas. Não podia ter sido Plug, pois este cambaleou e ainda estava cambaleante no momento em que atirou. Lusudo, que se encontrava à minha esquerda, ainda não compreendera o que havia acontecido. Estava parado. Foi o que o homem disse, patriarca Goszul.
— E agora quero que me forneça as declarações de Plug, também textualmente.
— Ele disse o seguinte: “Fui atacado de surpresa. Um homem saltou sobre mim de costas e procurou estrangular-me com a mão esquerda. Ainda sinto o lugar do pescoço em que me apertou com o polegar. O impacto me fez perder o equilíbrio. Tropecei, e nesse instante devo ter disparado a arma de radiações contra o guarda. No mesmo instante tudo desapareceu: não havia mais nenhuma mão que procurava estrangular-me, nenhum homem nas minhas costas, nada, absolutamente nada...”
— Plug lhe mostrou o lugar em que o homem apertou seu pescoço?
Sharer apressou-se em mostrar-lhe o lugar em que Plug, segundo suas declarações, seria estrangulado por um dedo estranho.
O patriarca refletiu por um instante. Depois mandou que o ligassem com a prisão.
— Quero falar com o oficial de plantão! — disse.
O oficial não tardou em responder. Goszul gritou para dentro do microfone:
— Verifique se os tripulantes da nave de Levtan se encontram todos na prisão. Coloque dois guardas diante de cada cela em que haja párias. Se na contagem faltar um homem ou mais, aguardo seu aviso... mas só neste caso.
Voltou a encarar Sharer. Nesse instante a tela começou a tremeluzir, e um leve chiado saiu do alto-falante.
Era um chamado do espaçoporto. Na tela surgiu um rosto safado.
— Aqui fala Ottek — disse o homem. — Concluímos o exame da Lev-XIV. Não encontramos nada. Apenas alguns equipamentos que devem vir do planeta Terra ou Vênus...
— Você acha que isso não é nada? — berrou Goszul. — Será que não se pode confiar em mais ninguém desse clã? Exijo que todos os objetos provenientes do planeta Terra ou Vênus sejam levados imediatamente ao laboratório, para serem examinados. Entendido? E os comprovantes de que o pária vive falando? Onde estão as provas em apoio daquela conversa sobre o estaleiro gigantesco que Rhodan possui em Vênus? Onde está esse material, Ottek?
— Não encontramos nada, patriarca Goszul — respondeu o homem antipático, cabisbaixo.
— Voltem a revistar a nave. Irradiem tudo. No momento em que for iniciada a grande conferência, preciso ter tudo nas mãos. Os comprovantes de Levtan só podem estar na Lev-XIV. Se você não os encontrar, pode tomar a próxima nave para ser levado às minas. Não se esqueça disso, meu filho — Goszul desligou com um sorriso malévolo.
— Sharer, você também pode dar o fora. Quero ficar só.
E Goszul ficou só. Estava a sós com suas angústias. Pronunciou o nome de Perry Rhodan com tamanho ódio que Etztak teria dado uma pancada amistosa no ombro do velho amigo, se pudesse ouvi-lo nesse momento.

* * *

De repente a porta da cela abriu-se. Cinco radiadores dirigiram-se ameaçadoramente contra os mutantes de Rhodan, enquanto estes se erguiam sonolentos, fitando a luz com os olhos semicerrados. Um dos homens contou em voz alta até quatro.
Outro, que se encontrava atrás dele, disse:
— Está certo. O lote está completo.
A porta da cela voltou a fechar-se ruidosamente. Os fechos magnéticos ajustaram-se com um rangido. Dois guardas permaneceram diante da porta. Os outros foram para diante.
O grupo de Rhodan limitou-se a trocar alguns olhares.
Todos haviam compreendido a finalidade do controle.
Era a reação à morte do guarda que seria submetido à lavagem cerebral.
— Os mercadores desconfiaram — cochichou Marshall. — Se houver mais um incidente que não puderem explicar, fatalmente terão a idéia de que entre os tripulantes da Lev existem mutantes.

* * *

Etztak estava sentado diante do patriarca Gaxtek, o mercador que há muitos anos, por obra de Levtan, fora privado dos resultados de seu trabalho.
O filho de Gaxtek era o melhor defensor das idéias de Etztak. Não se esquecera do olhar assassino de Levtan. Nunca se esqueceria de que hoje o clã de Gaxtek seria tão rico como o de Etztak, se não tivesse sido miseravelmente enganado por um indivíduo de seu próprio povo.
Etztak falava em tom insistente:
— Perry Rhodan é forte, mas também é fraco. Ninguém me tira esta idéia da cabeça. Se não fosse assim, já nos teria atacado de novo. Tem algum ponto fraco, e um homem fraco sempre é perigoso. Procura compensar a fraqueza por meio da astúcia. E a astúcia de Rhodan é Levtan. Nunca mais terá uma oportunidade tão boa de destruir os mercadores galácticos num só golpe como na grande conferência. Diga-me uma coisa, Gaxtek: O que faria você se fosse Rhodan?
O ódio que dedicava a Perry Rhodan fez com que Etztak subestimasse o patriarca Goszul.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html