Chegou a
Terrânia meia hora depois do regresso de Bell.
* * *
Kitai Ishibashi,
o sugestor, batizara seu método de processos por camadas. Perry Rhodan
interrompeu-o.
— Ishibashi, não
podemos assumir o menor risco. O que está em jogo é muito valioso. Desta vez
confio exclusivamente na sua capacidade. A sugestão profunda deve atingir não
apenas Levtan, mas todos os tripulantes de sua nave. Entendido?
— Entendido.
— Pois venha
comigo. Levtan está esperando por mim na sala ao lado. Pedi que comparecesse
para uma troca de idéias.
* * *
A força
sugestiva de Kitai Ishibashi foi penetrando cada vez mais profundamente na
mente de Levtan.
Rhodan observava
os dois.
O sugestor
impunha a vontade estranha à mente do mercador proscrito por camadas
sucessivas. Acabara de falar com Perry Rhodan a respeito de transplantes — mais
precisamente, do transplante duma faixa de pele sadia sobre uma grande área
queimada do corpo.
A vontade e a
força de representação de Ishibashi transformaram-se na mente, num saber por
ele mesmo assimilado e experimentado. Perdeu o caráter estranho,
identificando-se com o pária.
Levtan viu o centro
de armamentos de Perry Rhodan, situado em Vênus. Eram gigantescas cavernas
escondidas sob a rocha, que se estendiam por centenas de quilômetros, e
abrigavam um enorme estaleiro espacial, de cujas fitas de montagem saía a cada
hora uma imensidade de robôs e de armamentos.
E a vontade de
Kitai Ishibashi apresentou-lhe quadros imaginários dum espaçoporto situado em
Vênus, instalado abaixo do solo e protegido por campos energéticos, enormes
comportas e quilômetros de rocha. Viu mais de cem cruzadores do tipo da Terra e
da Solar System e vinte e duas naves do tipo da Stardust-III.
Perry lançou um
olhar insistente para Kitai Ishibashi. O japonês parecia dormir. Ligeiramente
inclinado na poltrona, estava com as mãos entrelaçadas e os olhos fechados.
Nenhum movimento do rosto traía os esforços imensos que pesavam sobre ele.
De repente
Ishibashi abriu os olhos e informou Rhodan de que ele, o chefe da Terceira
Potência, teria que encarregar-se de Levtan.
Perry olhou para
o relógio.
Um minuto se
passara desde o instante em que Ishibashi iniciara o tratamento do pária. Este
despertou da sugestão e respondeu à pergunta de Rhodan, que foi a única coisa
que ouviu antes do tratamento.
— Está certo —
respondeu o chefe da Terceira Potência com a voz tranqüila. — Pode decolar
dentro de três dias, Levtan. Acho que fez um bom negócio, não fez?
Sabia
perfeitamente o que Levtan estava pensando. O saltador proscrito via em sua
mente a base fictícia de Vênus. A frota de mais de cem cruzadores pesados e
vinte e duas naves de oitocentos metros de diâmetro. Era uma armada de
supercouraçados.
Comparou esse
poderio com o valor da notícia com que traíra sua raça e não pôde deixar de
responder afirmativamente à pergunta de Rhodan. Mas logo seu caráter traiçoeiro
veio à tona:
— ...mas o senhor
também teve seu lucro, Rhodan. Seus robôs examinaram todos os cantos de minha
nave. Aposto que encontraram muita coisa que o senhor ainda não conhecia.
Como...?
— Tenho a
impressão de que o senhor ainda faz um juízo muito elevado a seu respeito,
Levtan. Afinal, é um proscrito. A presunção é o último dos passos que conduzem ao
abismo...
— O senhor com
suas vinte e duas naves do tipo da Stardust pode falar grosso — disse Levtan em
tom odiento. O tom de sua voz revelava a mais pura inveja. Mas no mesmo instante
voltou-se no mercador hábil e experimentado. — De qualquer maneira, por
enquanto me livrei do aperto. Quer dizer que dentro de três dias poderei
decolar.
— O senhor terá
que decolar, Levtan — avisou Rhodan, levantando-se. — Hoje os quatro tripulantes
de sua nave que adoeceram receberão alta.
— Amanhã —
interrompeu Kitai Ishibashi, que se sentia tão exausto que hoje preferia não
realizar mais que uma sessão.
Sabia que com
isso poderia subverter o cronograma de Perry Rhodan. Engoliu o suspiro de
alívio que esteve para soltar quando este retificou suas palavras.
— Compreendo —
respondeu Levtan com um olhar traiçoeiro. — Somos expulsos. Da Terra não
esperava mesmo um tratamento diferente.
* * *
O Dr. Frank
Haggard convocou toda a tripulação da Lev-XIV para comparecer à clínica. Só
Levtan foi dispensado; já havia sido submetido ao tratamento.
— Para que tanta
vacina? — resmungou um dos saltadores. — Afinal, para que serve isso?
Haggard fez uma
ligeira exposição.
Cada vacina
demorava um minuto. Era o tempo suficiente para que Kitai Ishibashi aplicasse a
cada tripulante seu tratamento por camadas.
Ele mesmo era o
último paciente.
Ainda não tinha
o aspecto dum cigano estelar.
Deitou
calmamente na mesa de operações e entregou-se à arte médica arcônida do Dr. Haggard.
Tinha certeza de que nenhum dos tripulantes da Lev-XIV ficaria desconfiado pelo
fato de que um dos quatro doentes da nave saíra da clínica um dia depois dos
outros.
A última coisa
que Kitai Ishibashi sentiu quando foi envolvido pela anestesia foi a música
vinda dum mundo irreal.
4
Vinte dias
depois de ter pousado em Terrânia, a Lev-XIV decolou do espaçoporto e subiu
lentamente ao céu límpido do deserto de Gobi.
Levtan, o
saltador, que fora expulso da comunhão dos clãs dos mercadores, deixava a Terra
com sua tripulação, aumentada de quatro elementos, a fim de trair Perry Rhodan.
Era este o
grande lance galático.
* * *
O campo
energético protetor voltara a fechar-se sobre a metrópole de dois milhões de
quilômetros enquanto a Lev-XIV ia diminuindo. Nada indicava o estado de alarma.
Este foi
proclamado pelo próprio Rhodan.
As salas de
comando das quatro naves de grande porte de sua frota receberam as horas de
decolagem.
Decolagem dentro
de duas horas.
Nunca a
curiosidade quanto ao destino duma viagem fora tamanha.
— Avançar até a
órbita de Plutão à velocidade da luz — ordenou Rhodan.
Era o rumo que a
nave de Levtan acabara de tomar. Será que Perry Rhodan pretendia seguir o pária
a uma distância segura, a fim de descobrir para onde o mesmo iria? Será que não
confiava nas informações que seus telepatas haviam extraído da massa cinzenta
de Levtan? Não estaria acreditando na grande conferência dos patriarcas no
sistema 221-Tatlira?
221-Tatlira.
Os gigantescos
mapas estelares da Stardust-III não registravam nenhum sistema com esse nome.
Mas descobriram os dados no catálogo da Lev-XIV.
A hora da
decolagem chegou.
Mais uma vez
Rhodan pilotou a Stardust-III. As naves Centauro, Terra e Solar System seguiram
na sua esteira.
Desenvolveram
velocidade inferior à da luz até atingirem a órbita de Plutão.
A tensão parecia
estalar no interior de cada nave. Nenhum dos homens estava acostumado a essa
viagem em velocidade de tartaruga.
Notou-se a falta
de quatro membros do Exército de Mutantes: John Marshall, o telepata, Tako
Kakuta, o teleportador, Kitai Ishibashi, o sugestor, e Tama Yokida, um
indivíduo muito retraído, no qual ninguém desconfiaria um telecineta de
potência extraordinária.
Perry Rhodan não
permitiu que lhe formulassem perguntas.
Mais uma vez
transformara-se no pólo que irradiava tranqüilidade em todas as direções.
Apenas uma pessoa não acreditava nessa tranqüilidade aparente: era Reginald
Bell. Mas este manteve-se calado.
Por dentro,
Perry Rhodan ardia como um vulcão no momento da irrupção.
O chefe da
Terceira Potência envolvera-se na maior e mais perigosa das aventuras de sua
vida. Durante toda a existência da Terra, a existência da mesma nunca estivera
por um fio tão delgado como naqueles dias e nos que se seguiriam.
Os postos de
observação da Stardust-III não perdiam o controle sobre a nave dos mercadores.
Ao atingirem a
órbita de Plutão, as quatro naves pararam e mantiveram-se imóveis no espaço.
— Vamos esperar
aqui — disse Rhodan laconicamente.
Encontrava-se
diante do grande cérebro positrônico. Vez por outra lançava um olhar pensativo
para o gigantesco painel.
Todos procuravam
manter-se afastados do chefe, inclusive Bell.
Havia uma coisa
muito importante no ar.
Teria Perry
Rhodan aguardado a transição da nave dos saltadores?
Os rastreadores
estruturais acabaram de medir um salto. Rhodan ordenou em voz alta:
— Tragam-me
todos os dados.
Os dados
chegaram, e Rhodan introduziu-os no cérebro positrônico.
Bell e as outras
pessoas que se encontravam presentes observavam-no. Não entendiam a finalidade
do trabalho apressado, mas preciso de Rhodan.
Este moveu outra
chave.
O cérebro
positrônico da Stardust-III estava acoplado aos cérebros dos três cruzadores.
O resultado
chegou, e chegou simultaneamente na Terra, na Solar System e na Centauro.
— Saltaremos
dentro de três segundos — gritou Rhodan para dentro do microfone.
A contagem
automática de tempo foi iniciada simultaneamente nas três naves.
O resultado
fornecido pelo cérebro positrônico dera origem a milhares de ligações em cada
uma das naves.
E as quatro naves
saltaram ao mesmo tempo através do hiperespaço.
Por meio dum
desempenho energético inconcebível, as gigantescas esferas foram retiradas do
universo normal e trasladadas para o hiperespaço, que continuava a ser um
mistério inacessível à mente humana. Dessa forma eram atiradas, no chamado
tempo zero, por distâncias enormes, para voltarem ao ser no fluido espacial com
que estavam familiarizadas.
Como sempre,
Perry Rhodan foi o primeiro a despertar do estado de semiconsciência.
Recuperando-se imediatamente do choque provocado pela transição, tinha
concluído o exame dos instrumentos mais importantes quando os outros retornavam
lentamente ao mundo da realidade.
— Um sistema
semelhante ao sistema solar. Distância da Terra, mil e doze anos-luz. Sete
planetas. Um deles, o segundo, figura no catálogo dos saltadores como o planeta
de Goszul — Perry Rhodan apontou para a tela de visão global da Stardust-III,
onde o brilho de uma estrela de primeira grandeza superava o de todos os sóis.
Notou o olhar
indagador de Bell.
— Localização —
gritou nesse instante uma voz áspera.
Rhodan voltou-se
tranqüilamente para o oficial que servia o instrumento de observação:
— Se for apenas
um objeto, deve ser a Lev-XIV. Levtan, o pária, está a caminho do planeta de
Goszul, a fim de revelar aos patriarcas dos saltadores o poderio de nossa
frota. É apenas um objeto?
— Apenas um —
gaguejou o homem, perplexo diante da segurança de Rhodan. — Desloca-se à
velocidade de duzentos e cinqüenta mil quilômetros por segundo em direção ao
segundo planeta, mas...
— Mas o quê? —
perguntou Rhodan laconicamente.
— E o nosso
salto? Os rastreadores estruturais dos mercadores devem ter registrado o abalo
espacial.
Perry Rhodan foi
para junto dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro. Com uma insistência quase hipnótica
disse:
— A Lev-XIV teve
que realizar dois saltos para vencer uma distância superior a mil anos-luz. O
segundo salto da Lev-XIV coincidiu com nosso salto. Se tivemos sorte, os
mercadores constataram apenas uma transição nas imediações. Depois disso só
falta que descubram o pária, para que saibam quem deu o pulo.
Tiveram sorte.
5
Levtan torceu-se
depois de vencer o choque da segunda transição, quando viu na tela a estrela
fulgurante e percebeu que se tratava da 221-Tatlira.
Sentiu-se tomado
de pânico, de medo dos patriarcas dos mercadores galácticos, que há anos o
expulsaram das suas fileiras porque viam nele um elemento desonesto.
Fez com que a
Lev-XIV se deslocasse em direção ao segundo planeta a oitenta por cento da
velocidade da luz. Não ouvia o que os membros do clã lhe diziam. Olhava
constantemente para o aparelho de observação. Tinha o rosto desfigurado. Não
sabia se estava voando para a morte, ou se voltaria a ser admitido na
comunidade dos mercadores.
— Deixe-me em
paz! — berrou para seu sobrinho, que se encontrava no assento do co-piloto. —
Quem está pilotando esta nave sou eu. A nave é minha, e eu sou o comandante.
Seus berros
foram ouvidos três cabines adiante. Logo atrás da sala de comando sete homens
estavam sentados num pequeno recinto, que graças à generosidade de Rhodan fora
instalado luxuosamente e oferecia todas as comodidades.
Estava sendo
ocupado pelos mutantes de Rhodan. Kitai Ishibashi não teve a menor dificuldade
em sugerir aos párias que lhes oferecessem esse recinto.
Olhavam-se
disfarçadamente.
— O velho está
enlouquecendo — disse John Marshall em tom indiferente, lidando na regulagem de
precisão de seu agregado audiovisual.
— Tomara que
isso dê certo — cochichou Kakuta e estava falando sério. Descobrira em sua tela
alguns pontos que um segundo antes não estavam lá.
— Estão
chegando! — berrou Levtan na pequena sala de comando.
— São seis —
disse Tako Kakuta tranqüilamente.
Ninguém
respondeu. Mas Levtan voltou a gritar na sala de comando:
— Um couraçado
espacial! Um couraçado espacial!
Os receptores da
Lev-XIV estavam ligados a todo volume. A mensagem do couraçado foi ouvida até a
popa da nave dos párias:
— Nave que se
aproxima, qual é o número de registro? Qual é o clã? Queira fornecer o código.
Mais uma vez
Levtan sentiu-se tomado de pânico. Em vez de responder, de fornecer qualquer
explicação, modificou o curso da nave, acelerou ao máximo e fez uma curva para
bombordo.
Um raio
ofuscante saiu das profundezas do espaço e procurou atingir a Lev-XIV.
Uma boa estrela
estava protegendo o pária. Foi só graças à repentina mudança de rota que não se
transformou numa nuvem de gás juntamente com a Lev-XIV.
O tiro seguinte
do couraçado também não acertou no alvo.
Levtan quase
chegou a colocar a nave de cabeça para baixo. Na cabine situada junto à sala de
comando sete homens engoliam em seco. Viam o sol 221-Tatlira correr loucamente
pela tela e desaparecer na margem superior da mesma.
Os reatores da
nave zumbiram, da sala de máquinas veio um som agudo, os propulsores
funcionaram ao máximo de sua capacidade e aceleraram a nave quase até o limite
da velocidade da luz.
— Quero ver se
lá fora está caindo neve — disse Marshall e levantou-se.
— Não se esqueça
de levar um agasalho — gritou Dorget, um dos membros do clã.
— Vou com você —
disse Kitai Ishibashi, fez uma volta em torno de dois homens e, uma vez no
corredor, acompanhou Marshall.
Limitaram-se a
trocar um olhar.
Ninguém contara
com o incidente. Nem mesmo Perry Rhodan.
Os campos
energéticos da Lev-XIV deviam ter sido atingidos por um dos raios disparados
pelo couraçado espacial. Por um instante não houve energia para os
neutralizadores gravitacionais da nave. Todos os ocupantes da nave tiveram a
impressão de que iriam arrebentar sob o impacto das forças tremendas que
subitamente desabaram sobre eles.
O perigo passou,
mas dois dos três campos energéticos da nave mercante ainda não haviam sido
restaurados.
Na sala de
máquinas ouviu-se gente praguejando.
— Levtan está
louco de medo. Não sabe o que está fazendo — disse Marshall, dirigindo-se ao
sugestor. Logo voltou a concentrar-se sobre os pensamentos do pária.
Kitai Ishibashi
sobressaltou-se. Teria cometido um erro? Será que o tempo de sugestão não fora
suficiente?
— Tenho que
entrar na sala de comando — cochichou Marshall para o companheiro, desviando-se
do sobrinho de Levtan, que saiu praguejando da sala de comando e correu para a
sala de máquinas.
A escotilha que
fechava a sala de comando continuava na mesma posição quando Marshall entrou.
Ninguém lhe deu
atenção. Todos estavam de olhos na tela. Além de Levtan havia quatro pessoas na
sala.
No cérebro do
comandante dos párias, Marshall só leu o pânico e alguns fragmentos de
pensamentos confusos.
Se Kitai
Ishibashi não interviesse com suas forças mentais, dentro de um minuto eles e a
Lev-XIV se teriam transformado numa nuvem de gases.
Três relampejos
simultâneos surgiram na tela. Os destróieres dos mercadores estavam intervindo
na luta. Tinham uma superioridade total sobre a nave mercante.
Naquele instante
um dos parentes mais próximos de Levtan saltou para a frente, quase arrancou o
comandante do assento e gritou para o rosto desfigurado do mesmo:
— Seu covarde!
Diga-lhes por que viemos. Vamos logo, seu idiota! Quer que sejamos
transformados num sol?
John Marshall
não viu mais nada.
Uma luz
diabólica saíra da tela, um raio disparado nas proximidades. Felizmente não
acertou.
— Fale logo! —
gritaram para Levtan. Duas mãos seguraram sua cabeça e empurraram-na em direção
ao microfone de hipercomunicação. — Vamos, diga agora.
O nome de Perry
Rhodan foi mencionado. Mais uma vez. Aludiu-se a uma base instalada em Vênus, a
uma frota imensa de cruzadores e a vinte e duas naves do tipo da Stardust-III.
Lá fora, Kitai
Ishibashi parecia sonhar diante da escotilha da sala de comando. Não havia o
menor movimento em seu rosto que revelasse que estava intervindo na luta, uma
luta que a qualquer segundo poderia significar a morte.
Sua energia
sugestiva venceu uma distância de quarenta mil quilômetros, rompeu os campos
energéticos dum couraçado espacial e penetrou no cérebro do comandante.
Kitai Ishibashi
não tinha a menor idéia de que naquele instante o nome de Perry Rhodan caiu
pela primeira vez em meio às palavras balbuciadas por Levtan. Admirou-se com a
facilidade com que esse comandante podia ser influenciado. Chegou quase a
sentir fisicamente o desmoronamento das defesas espirituais e a absorção ávida
de suas forças sugestivas.
Procurou
ininterruptamente inocular no cérebro do comandante do couraçado a idéia de que
devia instruir os destróieres a não lançar novos ataques.
Mais uma vez
Kitai Ishibashi recorreu ao método de sugestionamento por camadas. Esse método
era mais demorado, mas quando havia algumas camadas homogêneas superpostas,
estas deixavam de ser um corpo estranho na mente do indivíduo. O comandante da
nave dos mercadores estava convencido de que agia por livre vontade quando
transmitiu pelo telecomunicador a instrução destinada aos destróieres:
— Suspender os
ataques! Escoltar o pária Levtan. Aguardar licença de pouso para a Lev-XIV.
O grito que
Levtan soltou na sala de comando despertou Kitai Ishibashi dos seus sonhos.
Respirou profundamente por algumas vezes, passou as mãos pelos olhos e,
encurvado, dirigiu-se à sua cabine.
— Então? —
cumprimentou-o o teleportador com um sorriso. — Lá fora ainda está caindo neve?
Com a voz
indiferente, como se apenas tivesse olhado o tempo, Kitai Ishibashi respondeu:
— Já parou. Mas
logo vai começar de novo.
* * *
Longe da
Stardust-III e dos três cruzadores, as naves dos mercadores caçavam a Lev-XIV.
A gigantesca
tela de visão global da Stardust-III não mostrava nada. A distância era muito
grande. Mas os instrumentos ultra-sensíveis reagiam fortemente. Toda vez que os
ponteiros disparavam escala acima, um raio desintegrador havia sido disparado
em direção à Lev-XIV.
Na sala de
comando da Stardust reinava um silêncio mortal.
Rijo como uma
estátua, Perry Rhodan mantinha-se diante do grande painel, observando os
instrumentos.
— Por que será
que Kitai Ishibashi não intervém? — perguntou bastante nervoso.
— Como pôde
acontecer um imprevisto desses? Quem havia de dizer que Levtan seria estúpido a
ponto de não responder ao chamado da grande nave dos mercadores?
O
hipercomunicador captou a mensagem.
Ouviram-se
palavras balbuciadas, mas o tom de voz de Levtan era inconfundível.
— Que covarde
miserável! — praguejou Bell.
A covardia do
pária poderia representar o fim do lance galático de Perry Rhodan e de quatro
dos seus melhores mutantes.
Mais cinco raios
de desintegrador estenderam-se em direção à Lev-XIV. Instintivamente Perry
conteve a respiração. Fitou três instrumentos próximos.
Quando chegaria
outro movimento do ponteiro, o maior de todos, indicando que a Lev-XIV se
transformara numa nuvem de gases?
Mais uma vez o
receptor de hipercomunicação voltou a soar.
— Suspender os
ataques! — rangeu a voz no alto-falante. — Escoltar o pária Levtan. Aguardar
licença de pouso da Lev-XIV.
Uma das pessoas
que se encontravam na sala de comando respirou ruidosamente.
— Depois do
pouso nossos mutantes serão desmontados...
Perry Rhodan
virou-se abruptamente para a pessoa que acabara de pronunciar estas palavras.
O jovem
oficial-telegrafista que soltara a observação enrubesceu e inclinou o rosto
sobre o quadro de instrumentos.
Perry Rhodan
deu-se conta do fato de que nem Bell estava informado sobre seu plano.
— Nossos
mutantes não serão desmontados — declarou com a voz calma, enquanto seus olhos
cinzentos pareciam expedir um ligeiro sorriso. — Os tripulantes da Lev
encontram-se sob influência sugestiva e não sabem que trazem mais quatro pessoas
a bordo. E posso assegurar-lhes que nossos homens têm o aspecto de genuínos ciganos
espaciais.
Nesse instante o
operador do aparelho de observação disse:
— A formação
segue com a Lev-XIV em direção ao segundo planeta.
Com isso a
tensão que vinha consumindo os nervos dos ocupantes da Stardust deixou de
existir.
Perry Rhodan
pôde lançar mais uma parcela a crédito da conta da Humanidade. Crest, o
arcônida, que se mantinha discretamente nos fundos, sabia que o homem que
acabara de ocupar o assento de piloto da Stardust — Perry Rhodan — era o
herdeiro do Universo.
* * *
Em velocidade
bastante reduzida, o grupo de destróieres, com a Lev-XIV no centro, passou a
baixa altura sobre o planeta de Goszul.
O astro recebera
esse nome em homenagem a Goszul, um mercador que o descobrira e dele tomara
posse.
Os mutantes
ficaram espantados quando a tela lhes mostrou não apenas uma paisagem
encantadora, mas também um grande centro industrial. Nem mesmo os verdadeiros
membros do clã ocultavam o espanto.
— Então é aqui
que ficam os estaleiros dos mercadores — disse Dorget em tom preocupado,
coçando o crânio meio tosado.
John Marshall
parecia contemplar seu próprio interior de tão ausente que parecia. Na verdade,
empenhava todas as energias mentais para captar os pensamentos dos párias.
Mas seu
conhecimento do planeta de Goszul não passava daquilo que chegara a eles
através de boatos. Fazia muitos anos que Levtan fora expulso da comunidade dos
saltadores, e naquela época o planeta ainda levava uma vida pacata.
Descrevendo uma
grande curva, retornaram ao formidável centro industrial, sempre acompanhados
pelos destróieres. Ao que parecia, a Lev-XIV recebera permissão para pousar.
Mal tocou o
solo, a ordem de Levtan foi ouvida em todos os cantos:
— Preparem-se
para abandonar a nave.
Os mutantes
deixaram que os três membros verdadeiros do clã seguissem à sua frente.
Hesitavam em sair dali.
— Seremos presos
— informou Marshall.
Ninguém se
abalou, pois já contavam com essa possibilidade.
Tama Yokida, um
telecineta de estatura mediana, olhou para o lugar em que os robôs haviam
escondido algumas armas manuais bastante eficientes.
O rosto estreito
de John Marshall empalideceu mais um pouco. Mais uma vez estava captando o
pensamento alheio. Retornou à realidade.
— Não podemos
levar nada — disse em tom decidido. — Todas as pessoas que saem desta nave
serão rigorosamente revistadas...
— Mesmo com...?
Marshall
entendera o pensamento de Ishibashi.
— Sim, também
com isso. Por enquanto dispensarão apenas a lavagem cerebral. Os saltadores não
confiam em Levtan. Ninguém lhes pode levar a mal. Vamos embora. Somos os
últimos.
* * *
Goszul,
descobridor do sistema 221-Tatlira e conquistador do segundo planeta — ou
melhor, o patriarca Goszul — ainda gozava duma saúde excelente. Naquele momento
ouvia as notícias sobre o pouso da Lev-XIV.
Mais três
patriarcas, sentados em poltronas confortáveis em torno duma mesa redonda,
ouviam atentamente as notícias. O nome Perry Rhodan foi mencionado várias
vezes, e sempre que isso acontecia um dos patriarcas dava uma expressão de ódio
ao rosto e respirava pesadamente.
Goszul, um homem
velho, baixo e calvo, notou a respiração pesada de Etztak.
— Está
contrariado com o pouso de Levtan? — perguntou. — Ou será que o nome de Rhodan
lhe dá tamanha raiva?
Os olhos
penetrantes do sagaz Goszul fitaram o amigo, que chegara a acreditar que
conseguiria destruir Perry Rhodan, mas deu-se por satisfeito por ter escapado,
embora fosse o único.
— Não gosto nem
de uma coisa nem de outra, Goszul — respondeu Etztak com uma calma
surpreendente. — Conheço Levtan. É um covarde e um criminoso traiçoeiro.
— E Perry
Rhodan? Por que não fala a respeito dele? Estou muito interessado em ouvir sua
opinião, Etztak.
Etztak lançou um
olhar desconfiado para Goszul. Os outros patriarcas sentiram a discussão
aproximar-se.
Um deles
interveio apressadamente.
— Vamos aguardar
o resultado do interrogatório de Levtan. Depois disso ainda poderemos conversar
sobre o tal do Perry Rhodan.
Etztak chiou
indignado:
— Não é o tal do
Perry Rhodan, mas o Perry Rhodan, que encontrou o mundo da imortalidade e sabe
onde encontrá-lo de novo. Um ser desse tipo não pode ser designado com a
expressão depreciativa “o tal do”.
O patriarca
Goszul esboçou um sorriso matreiro.
— Você fala
conforme lhe dá na veneta, Etztak. Quanto a mim, nunca acreditei na lenda do
mundo da vida eterna. Mas chega de palavras vazias. Não temos muito tempo.
Dentro de duas horas começará a reunião na qual será elaborado o programa da
grande conferência.
* * *
Parados na grande
comporta da Lev-XIV, os mutantes de Perry Rhodan viram como os tripulantes
foram recebidos um por um pelos mercadores, sendo obrigados a entrar num
veículo fortemente vigiado, depois de terem sido revistados.
— Parece que as
coisas não estão boas para nós — constatou Tako Kakuta.
Nesse instante
um dos mercadores gritou para eles:
— Vocês querem
um convite especial?
Kitai Ishibashi
saiu andando. Com toda calma deixou que o revistassem. Caminhou tranqüilamente
entre dois mercadores armados até os dentes e entrou num veículo que logo o
levaria dali.
— Se fizer
qualquer movimento estranho, atiraremos — preveniram seus acompanhantes.
Kitai tomou
conhecimento da advertência sem responder nada. Acontece que, uma vez sentado
ao lado das sentinelas, o veículo continuou parado.
— Por que não
vai embora? — berrou a sentinela, à sua direita, para o condutor do veículo,
que não moveu um dedo para colocar a chave na posição de movimento.
— Devo esperar
pelos últimos três — respondeu tranqüilamente o mercador, e não se espantou com
a resposta do indivíduo que acabara de berrar:
— É verdade,
temos que esperar por esses traidores.
Kitai Ishibashi
riu para dentro. Estava satisfeito com o servicinho que acabara de realizar. Já
era algum consolo saber que os amigos estariam ao seu lado.
* * *
Etztak teve uma
conferência com os membros de seu clã.
— Fiquem de
olhos abertos amanhã, quando Levtan for interrogado diante da grande
assembléia. Não se esqueçam de que por pouco Rhodan não nos destrói. Ainda não
consegui convencer Goszul de que Rhodan é um elemento extremamente perigoso.
Seu filho
interrompeu-o. Com isso cometeu uma violação grave dos costumes, mas Etztak
deixou-a passar.
— Sempre que
você alude a Levtan está pensando em Rhodan?
— Será que ainda
não me expliquei? — gritou o patriarca para seu filho. — Levtan diz que fugiu
do centro de armamentos de Rhodan. Acontece que eu sei como é difícil escapar
dessa criatura. Não acredito em Levtan. Sempre andou mentindo para entregar-nos
a Rhodan.
— Quer dizer que
você não acredita nos vinte e dois supercouraçados que, segundo afirma
Levtan...
— Se você me
interromper mais uma vez, terá que limpar o campo número três — gritou Etztak
para o filho. — Não, para prevenir qualquer pergunta tola, não acredito nas
informações de Levtan. Rhodan possui duas naves de grande porte, não vinte e
duas. E também não é verdade que tenha cem cruzadores. O pária se vendeu a Rhodan,
que por intermédio dele quer descobrir o que pretendemos fazer. Sabe que é fraco...
O filho não pôde
deixar de interrompê-lo mais uma vez, embora se arriscasse a limpar com as
próprias mãos o grande depósito da nave:
— É tão fraco
que destruiu nossa frota. Pai, será que isso é fraqueza?
O velho Etztak
estava fervendo por dentro, mas a inteligência conseguiu vencer a cólera. O
filho acabara de lembrar um acontecimento que nos últimos quatro meses surgira
muitas vezes em seus sonhos, fazendo-o despertar banhado em suor.
Bastante
contrariado, respondeu:
— Voltei a dizer
a Goszul que Perry Rhodan esteve no mundo da vida eterna. De lá trouxe aquela
arma medonha, que faz com que as naves desapareçam sem mais aquela. Acontece
que Goszul não acredita nisso. Para ele essas histórias não passam de lendas.
— Ou então não
quer confessar que Perry Rhodan representa uma ameaça para ele — interveio o
filho mais uma vez. — Acho que Goszul nunca teve que saborear uma derrota.
Todos se
surpreenderam quando Etztak respondeu com um gesto amável:
— Cá para mim,
desejei muitas vezes que ele tivesse um encontro com Rhodan. Um único encontro
fará com que pense e fale de maneira muito diferente. Vocês — disse, apontando
para três homens — participarão na qualidade de observadores da conferência que
será realizada amanhã. Abram os olhos quando Levtan for chamado a prestar
depoimento e apresentar provas das suas declarações. Lembrem-se de que esteve
com Rhodan, e nunca se esqueçam do que este fez com as nossas naves.
* * *
Os quatro
mutantes de Rhodan registraram atentamente todos os detalhes que puderam ver
durante a viagem.
Encontravam-se
no interior duma fortaleza. Os canhões pesados não eram novidade para eles; a
bordo dos cruzadores e da Stardust-III viram peças iguais. Essa fortaleza dos
mercadores galácticos constituía uma posição inexpugnável, capaz de resistir a
qualquer ataque vindo do espaço.
Enquanto
prosseguia a viagem do veículo que deslizava pouco acima do solo, os quatro
mutantes foram percebendo que a tarefa que tinham diante de si era tremenda,
quase insolúvel.
Via-se de tudo:
estaleiros espaciais, gigantescas fábricas, milhares de robôs que desempenhavam
as tarefas mais variadas e gente de pele avermelhada. Eram indivíduos
estranhos, mas tinham um aspecto humano e pareciam simpáticos. Esses goszuls
preguiçosos...
Foi a única
coisa que a pesquisa mental de John Marshall conseguiu revelar a respeito
daqueles seres baixos e ruivos, cuja densa cabeleira chamava a atenção.
Os mercadores
chamavam-nos de goszuls — e os desprezavam.
Foram recolhidos
à prisão. Os quatro mutantes passaram por três áreas distintas e dois conjuntos
de muralhas muito altas. Pelas antenas que havia no topo das mesmas via-se que
acima delas ainda existia uma grade de radiações.
Pela primeira
vez John Marshall fez uma observação para a sentinela que o acompanhava. Era
uma observação irônica, que desafiava uma resposta.
— Que monstro de
prisão! Entre os mercadores deve haver muitas ovelhas negras.
A sentinela que
caminhava à sua esquerda resmungou:
— Recomendo-lhe
que não volte a abrir a boca desse jeito, seu pária. Daqui a pouco você verá
quem está preso aqui.
Pensou nos goszuls,
aquela corja preguiçosa que apesar do treinamento hipnótico continuava a ser
falsa e traiçoeira.
Os veículos
pousaram um atrás do outro.
— Desçam! —
soaram os comandos.
Um campo de
radiações abriu-se diante deles. Uma sentinela saiu do portão e perguntou em
tom contrariado:
— São os últimos
traidores?
Desde o instante
do pouso no planeta de Goszul os homens de Levtan só foram chamados assim.
Os acompanhantes
estavam satisfeitos por entregarem os prisioneiros. Mas um deles respondeu em
tom aborrecido:
— Você pode
bancar o arrogante. Bem que eu gostaria de ter um serviço confortável como o
seu. Vamos logo! Passe o recibo e desapareça com estes indivíduos.
Os mutantes
olharam-se. Seus acompanhantes perceberam. Um dos mercadores aproximou-se de
Tako Kakuta e atirou o japonês franzino de encontro à sentinela.
Esta praguejou e
conseguiu desviar-se no último instante.
— Quase que ele
vai para cima de mim, seu idiota! — gritou para o mercador. — Eu o denunciarei.
Aposto que hoje você ainda recebe uma visita.
John Marshall
leu os pensamentos e percebeu o que Tako Kakuta pretendia fazer.
Tako demorou
propositadamente em pôr-se de pé. Estava atrás da sentinela.
— Vamos, entrem!
— resmungou a sentinela para os outros três, deixou-os passar e assinou o
documento pelo qual confirmava ter recebido os homens de Levtan.
O mais brutal
dentre os mercadores teve que receber o recibo. Foi o último a entrar num dos
veículos.
A sentinela
seguiu-o com os olhos, virou-se para os quatro homens que acabavam de ser
entregues e ouviu um grito.
John Marshall
respirou profundamente e lançou um ligeiro olhar para Tako Kakuta.
Por uma fração
de segundo o japonês desapareceu, para efetuar um ligeiro salto de teleportação
e pagar o brutal mercador na mesma moeda. Voltou no mesmo instante e estava no
mesmo lugar de antes... bem no interior do corredor.
Praguejando, o
mercador pôs-se de pé. Esfregou a testa, que na queda batera contra uma quina
metálica.
— Você me deu um
pontapé! — gritou furioso para a sentinela.
— Eu? —
respondeu esta em tom sarcástico, apontando-lhe a arma. — Você acha que sei dar
saltos milagrosos? Não está vendo onde estou eu e onde está você, seu idiota?
Você deve ter tropeçado sobre suas pernas. Você sabe pisar nos outros, mas
ainda não aprendeu a andar.
O rosto de Tako
Kakuta continuou impassível. No seu íntimo sentia-se alegre.
* * *
Levtan viu-se
diante de três mercadores, que o fitavam com uma expressão de profundo
desprezo.
As perguntas
foram desabando sobre ele.
O pária
respondia quase sem refletir.
— Não nos conte
lorotas, seu covarde! — gritou subitamente um dos mercadores que o
interrogavam. — Sabe quem eu sou? Sou filho de Gaxtek. Isso mesmo! Pertenço ao
clã que você logrou na estrela de Caster, tirando-lhe o produto de três
circuitos de trabalho. Não está lembrado de mim?
O pária
encolheu-se como se estivesse sendo chicoteado, mas o brilho sagaz de seus
olhos não se apagou. Gritou:
— Vocês são
muito pequenos; não deporei perante vocês. Pedi que fosse conduzido para a
grande assembléia. Tenho direito a isto. É um direito que cabe ao proscrito.
Vim para trazer informações que nos podem salvar da destruição.
— Seu fanfarrão!
— disse Gaxtek por entre os dentes, cerrando os punhos.
— Tenho provas
do que digo — disse Levtan em tom irônico, mas no mesmo instante suplicou: — Se
eu e o meu clã formos tratados bem...
Gaxtek riu.
— Este sujeito
só sabe mentir — disse.
O mercador alto
e esguio acenou com a cabeça. O outro, que era um baixote, que se limitara a
formular vez por outra uma pergunta durante o interrogatório cerrado, disse:
— Informaremos
Goszul sobre as declarações que acaba de prestar. O patriarca decidirá o que
deve ser considerado mentira e o que pode ser aceito como verdade. Na minha
opinião deve ser levado de volta para sua cela.
Levtan olhou-os
com um sorriso malévolo. Sabia que amanhã seria o grande homenageado. Depois
disso esses três mercadores seriam os primeiros que sentiriam sua vingança.
Lançou mais um olhar traiçoeiro para Gaxtek, antes que as duas sentinelas o
conduzissem à sua cela.
— Você viu o
olhar dele, Gaxtek? — perguntaram a este, assim que o grupo se viu a sós.
O mercador
lançou um olhar pensativo para seus companheiros.
— Sim —
respondeu em tom grave — vi o olhar e compreendi. O que acontecerá se aquilo
que Levtan acaba de dizer for verdade e amanhã ele conseguir provar o que afirma?
Farei uma visita ao patriarca Etztak.
— O que você
quer com esse velho impulsivo? — perguntou o indivíduo alto e esbelto em tom de
surpresa.
— Procurarei Etztak
para semear a desconfiança, a desconfiança contra as declarações de Levtan.
Etztak é o único patriarca que já lutou contra Perry Rhodan. Teve que fugir.
Teve que fugir de Rhodan. Topthor, o superpesado, perdeu sua frota. Vocês já
estão começando a compreender quem é esse Levtan?
Não
compreenderam. Limitaram-se a fitá-lo.
— Pois eu lhes
direi, e também direi a Etztak. Levtan é a bomba infernal de Perry Rhodan, que
fará a desgraça de nosso povo.
6
Kitai Ishibashi
empenhara a força de sua vontade para que ele e seus companheiros ocupassem uma
cela especial, em vez de serem recolhidos à cela coletiva em que foi abrigada a
maioria dos tripulantes da Lev.
Levtan foi o
único que ocupou uma cela individual. Na opinião dos mercadores e de seus
patriarcas era o homem mais importante. A tripulação desempenhava um papel
secundário.
Os mutantes
espantaram-se ao notar que os goszuls também trabalhavam na prisão. Por duas
vezes John Marshall conseguira entabular conversa comum deles através da
portinhola da cela, mas de cada uma das vezes foram surpreendidos por uma
sentinela dos mercadores, que interrompeu o contato recém-estabelecido.
Apesar disso as
capacidades telepáticas de John Marshall lhe proporcionaram muitas informações.
Aos cochichos
transmitiu as mesmas aos amigos, depois que Yokida, o telecineta, realizou um
exame minucioso e constatou que não havia microfones na cela.
— Todos os
goszuls estão bloqueados, ou seja, escravizados. Não podem voltar para junto
dos seus familiares. E querem saber por quê? Não querem que o povo de Goszul
saiba que existe a navegação espacial.
Tako Kakuta, o
teleportador, desconfiou da veracidade da informação.
— E as naves a
cujo pouso e decolagem assistem constantemente? Será que essa gente é cega?
John não levou a
pergunta a mal.
— Quando Levtan
ainda se encontrava no assento do piloto, captei uma informação a respeito dum
corredor de entrada. A esta hora já entendo o motivo da precaução.
— É um ramo
encantador dos arcônidas — resmungou Tama Yokida. — Não me sinto nem um pouco à
vontade por aqui — pelo brilho dos seus olhos percebia-se que brincava com a
idéia de usar seu dom telecinético para abrir a porta maciça da cela.
Por ordem de
Rhodan, Marshall assumira o comando do grupo. Este limitou-se a olhar para Tama
Yokida, que respirou profundamente e disse:
— Está bem.
Deixemos disso.
No mesmo
instante ouviram-se passos no corredor. A porta da cela abriu-se, a mesma porta
que Yokida pretendia arrombar com sua força telecinética.
Uma sentinela e
dois goszuls lançaram os olhos para dentro da cela.
— Saiam! — ordenou
a sentinela.
Segurava um
radiador numa das mãos. Saíram; Tako Kakuta foi o único que parecia não ter
pressa. Ele e Marshall acabaram de combinar alguma coisa.
Quando os três
mutantes passaram perto dos goszuls, estes lhes lançaram um olhar estranho. Kitai
Ishibashi notou que em seus olhos havia compaixão, mas alguma coisa faltava
neles.
John Marshall
examinou os pensamentos confusos que atravessavam a mente da sentinela. A única
coisa que o homem sabia é que seriam interrogados, e que o tema Levtan empolgava
toda a fortaleza.
O grande
australiano de rosto estreito perscrutou os pensamentos dos goszuls.
Descobriu a
mesma coisa que Kitai Ishibashi havia notado em seus olhos, e ainda compreendeu
uma pergunta silenciosa: Por que vieram a este mundo? Não sabem que nunca mais
poderão sair dele, tal qual nós?
A sentinela
berrou para Tako Kakuta, que continuava parado no interior da cela:
— Vamos logo!
Depressa!
* **
No mesmo
instante John Marshall sorriu sem querer. Captara os pensamentos de Tako. Todos
eles convergiam numa pergunta: Será que este sujeito também vai me dar um
pontapé?
O guarda notou o
sorriso de Marshall e pensou que o mesmo estivesse zombando dele. Num movimento
abrupto levantou o radiador, apontou para Marshall e, com um brilho ameaçador
nos olhos, disse:
— Pare de
sorrir, senão...
Foi quando Kitai
Ishibashi resolveu intervir. Sua vontade tomou conta do guarda.
O rosto de John
Marshall estava enrijecendo quando o guarda baixou a arma e disse
tranqüilamente a Tako Kakuta:
— Venha, amigo.
Não nos faça esperar.
Kitai Ishibashi
desligou. O ligeiro tratamento garantiria uma atitude amável do guarda até que
chegassem à sala de interrogatórios.
Sentiu o olhar
dos dois goszuls pousado nele. E compreendeu o gesto de Marshall. Os dois
goszuls possuíam uma reduzida capacidade telepática, bloqueada ou diminuída em
99 por cento por meio dum processo hipnótico.
Kitai Ishibashi
percebeu que esse fato fez brotar o suor em seu corpo. Será que ao elaborar seu
plano Perry Rhodan contara com a possibilidade de encontrarem telepatas no
planeta de Goszul?
Os dois
seguiram-nos a poucos metros de distância.
O guarda, que de
uma hora para outra se tornara tão amável, abriu-lhes a porta e convidou-os a
entrarem.
Etztak lançou um
olhar de pavor para o guarda. Os quatro mercadores que se encontravam presentes
além dele demonstravam uma perplexidade tipicamente humana.
— Levem esses
sujeitos para fora — gritou subitamente Etztak com a voz rouca. — Levem-nos
para fora e tranquem-nos em sua cela!
O guarda esteve
a ponto de levá-los de volta.
— Fique aqui! —
berrou Etztak e apontou sua pesada arma para ele. — Gaxtek e Hor, levem-nos de
volta. Levem-nos imediatamente para a mesma cela.
Kitai Ishibashi
mal e mal conseguira impor ao patriarca Etztak a ordem de levá-los de volta para
a mesma cela, quando Gaxtek e Hor já os estavam tangendo para fora.
John Marshall
logo reconheceu o perigo.
Procurou ouvir
os pensamentos de Etztak, absorveu-os e sentiu-se muito preocupado. Só quando
se encontravam no interior da cela e os fechos magnéticos já haviam trancado a
porta, que estava com a portinhola fechada a tramela, contou o que sabia.
Kitai Ishibashi
empalideceu.
— O quê? —
cochichou. — Etztak quer, fazer uma lavagem cerebral no guarda?
Tako Kakuta, o
teleportador, reagiu.
— John, onde está
o guarda? Diga logo.
Marshall
concentrou-se. As pessoas que se encontravam na cela prenderam a respiração.
Depois de algum
tempo Marshall levantou o rosto banhado em suor. Os olhos haviam perdido o
brilho, o rosto parecia ainda mais estreito.
— Está sendo
levado num veículo blindado, acompanhado de seis guardas.
— Onde está,
Marshall? — insistiu
Tako Kakuta,
preparando-se para o salto. Com um gesto cansado o telepata respondeu:
— Estou captando
muitos pensamentos, mas todos eles representam sua morte, se você saltar. Os
seis homens que estão levando o guarda para a lavagem cerebral mantêm o dedo no
gatilho. Sinto; não hesitarão em apertar o gatilho.
— Onde está? —
perguntou o japonezinho franzino, com uma terrível frieza na voz.
Marshall lhe
disse que um dos guardas estava pensando no grande estaleiro pelo qual estavam
passando naquele instante.
Só havia três
mutantes na cela.
Tako Kakuta, o
teleportador, saltara. Saltara para o desconhecido, atrás do guarda que
mostraria suas cartas quando fosse submetido à lavagem cerebral.
* * *
Etztak e os
outros mercadores saíram da sala de interrogatórios antes que o guarda fosse
levado dali. Lá fora entrou num veículo e correu para junto de Goszul. Entrou
sem fazer-se anunciar. Interrompeu uma conferência.
Etztak não ligou
para o fato.
Principiou com o
entusiasmo dum jovem, e estimulado pelo fato de saber que Perry Rhodan
representava um perigo que não devia ser subestimado.
Ele o conhecera.
Viu o sorriso
condescendente de Goszul. Subitamente Etztak acalmou-se. Interrompeu sua
exposição.
— Você não
acredita no que acabo de dizer, Goszul? — perguntou em tom indiferente.
— Acredito tanto
quanto acredito na estrela da vida eterna — respondeu Goszul. — Etztak, você
teve oportunidade de travar conhecimento com Rhodan, e por isso não consegue
mais pensar objetivamente. Ainda se sente abalado pelo susto. Eu vejo a coisa sob
outro ângulo. Mas não me oponho a que o guarda seja submetido à lavagem
cerebral, para que tiremos dele tudo que sabe.
Os mercadores
não se comoveram pelo fato de que a lavagem cerebral transformaria um dos seus
num idiota.
Subitamente a
porta abriu-se. Gaxtek gritou, ainda na entrada:
— Um dos homens
que vigiavam o guarda acaba de matá-lo!
— Isso foi obra
de Rhodan! — gritou Etztak. — Se não o tivesse feito, muita coisa teria sido
diferente.
O patriarca
Goszul quase estourou de rir.
Tako Kakuta, o
teleportador japonês, estava de volta à cela da qual desaparecera quinze
minutos antes.
Reapareceu no
mesmo lugar de que saíra.
O rostinho de
criança encimado pela testa protuberante parecia ainda menor e revelava um
tremendo cansaço.
Enxugava
seguidamente o suor da testa. A respiração era rápida.
Com uma
paciência sobre-humana, os amigos esperaram que relatasse o que havia
acontecido. Marshall era o único que conhecia as experiências pelas quais o
japonês acabara de passar, mas preferiu ficar calado.
Tako Kakuta
disse com a voz cansada:
— O homem está
morto. Estavam parados em círculo, com ele no centro. Quando cheguei ao
veículo, apenas para desaparecer no mesmo instante, um dos radiadores foi
disparado...
Não contou que
teve de executar meia dúzia de saltos perigosos para localizar o veículo
blindado. Era de opinião que não valia a pena relatar esse fato. Também não
contou que depois do segundo salto foi parar no telhado transparente do
estaleiro espacial, o que provocou um alarma geral no mesmo.
Seus amigos
fitaram-no em silêncio. Compreendiam perfeitamente por que um dos seis homens
que vigiavam o guarda disparara seu radiador. Ainda estavam lembrados do choque
que sentiram quando pela primeira vez o teleportador surgiu diante deles, vindo
do nada, que nem um fantasma.
* * *
Marshall acordou
no meio da noite. Assustou-se; captou impulsos mentais duma criatura estranha.
Eram gritos mudos de angústia, uma confusão que conseguiu decifrar. Depois de
algum tempo compreendeu de onde vinham os impulsos: da cela ao lado. Um goszul
condenado à morte estava mergulhado no desespero.
Marshall acordou
os amigos e transmitiu-lhes os pensamentos que acabara de captar.
O planeta de
Goszul apresentou-se aos mutantes como um mundo escravizado, digno de lástima.
Os mercadores haviam implantado um regime desumano em meio a esse povo pacífico
e bondoso.
— Descendentes
dos arcônidas? — perguntou Kitai Ishibashi, perplexo. — Quer dizer que estes
goszuls também descendem da raça dos arcônidas?
A pergunta não
era de estranhar. Muito antes do desaparecimento da Atlântida, os arcônidas
aportaram à Terra como se fossem deuses para nunca mais retornar. Apesar disso
continuaram a viver nas lendas dos povos. Aqui, no planeta de Goszul, o destino
provavelmente seguira por uma trilha semelhante.
E esse povo
pacato foi escravizado por seus irmãos de raça.
— Estes
saltadores... — disse Tama Yokida, falando entre os dentes, e voltou a prestar
atenção aos cochichos de Marshall.
Os goszuls
regrediram a um estágio primitivo. Na ciência e na tecnologia não estavam mais
avançados que a Terra no século XVII. Quando o patriarca Goszul pousou no
planeta com seu clã, acreditaram que se tratasse de deuses. Mas este não viu
outra coisa naqueles seres e no seu mundo que um objeto de exploração: foi o
melhor negócio de sua vida. Apossou-se do segundo planeta do sol 221-Tatlira.
Subjugou a inteligência daquele povo tranqüilo através dum processo de
treinamento hipnótico, reduzindo-o à escravidão, deportou-os para esse lugar e,
auxiliado pela poderosa comunidade dos mercadores e pelo trabalho dos escravos
de Goszul, criou seu centro de poder.
O medo de morrer
enlouquecera o homem da cela vizinha. As disfunções doentias de seu cérebro
romperam a barreira hipnótica e, sempre que surgia um momento de lucidez em que
percebia todo o desespero de sua situação, lembrava-se do que os mercadores
haviam feito com ele e com seu povo.
De repente os
mutantes que escutavam atentamente foram interrompidos por passos ruidosos.
Três guardas caminhavam pelo corredor, passaram por sua cela e pararam diante
da porta ao lado.
Ouviram as
fechaduras magnéticas que se abriam com um rangido, ouviram quando a porta
girou nas dobradiças — e todos abaixaram-se: Kakuta, Ishibashi e Yokida. Só
Marshall parecia imobilizado.
Teve a impressão
de que via através dos pensamentos que estava captando.
Viu que um dos
guardas apontou a arma de radiações para o goszul condenado à morte. O pavor do
homem escravizado doeu no telepata.
Subitamente tudo
acabou.
John Marshall
não ouvira nada.
Mas Ishibashi,
Yokida e Kakuta ouviram o chiado típico da arma de radiações.
* * *
O patriarca
Goszul não era o idiota que Etztak começava a ver nele.
Goszul ordenara
uma investigação sobre a morte do guarda que devia ser submetido à lavagem
cerebral. Sharer, um dos membros do clã, apresentou o relatório.
O patriarca
ouviu-o sem dizer uma palavra. Não se esquecera da exclamação de Etztak: “Isso foi obra de Rhodan!” E não subestimava
esse indivíduo, que vivia num mundo pequeno e afastado, num planeta chamado
Terra, situado num braço deserto da Via Láctea.
Formulou a
primeira pergunta:
— Quem viu
aquela sombra, além do idiota que matou o guarda?
— Ninguém. Interroguei
insistentemente todos eles. Aquele que se encontrava à direita do sujeito que
atirou diz ter sentido uma pancada nas costas que não consegue explicar.
Apesar da idade,
Goszul era dotado duma espantosa agilidade mental. Sabia extrair os pontos
importantes de cada situação complexa com que se deparava. Foi o que fez agora.
— Quero que você
me repita textualmente o que o homem disse a este respeito.
Sharer refletiu
ligeiramente:
— Vi Plug atirar. No mesmo instante senti uma
pancada e uma mão fechada passou pelas minhas costas. Não podia ter sido Plug,
pois este cambaleou e ainda estava cambaleante no momento em que atirou.
Lusudo, que se encontrava à minha esquerda, ainda não compreendera o que havia
acontecido. Estava parado. Foi o que o homem disse, patriarca Goszul.
— E agora quero
que me forneça as declarações de Plug, também textualmente.
— Ele disse o
seguinte: “Fui atacado de surpresa. Um
homem saltou sobre mim de costas e procurou estrangular-me com a mão esquerda.
Ainda sinto o lugar do pescoço em que me apertou com o polegar. O impacto me
fez perder o equilíbrio. Tropecei, e nesse instante devo ter disparado a arma
de radiações contra o guarda. No mesmo instante tudo desapareceu: não havia
mais nenhuma mão que procurava estrangular-me, nenhum homem nas minhas costas,
nada, absolutamente nada...”
— Plug lhe
mostrou o lugar em que o homem apertou seu pescoço?
Sharer
apressou-se em mostrar-lhe o lugar em que Plug, segundo suas declarações, seria
estrangulado por um dedo estranho.
O patriarca
refletiu por um instante. Depois mandou que o ligassem com a prisão.
— Quero falar
com o oficial de plantão! — disse.
O oficial não
tardou em responder. Goszul gritou para dentro do microfone:
— Verifique se
os tripulantes da nave de Levtan se encontram todos na prisão. Coloque dois
guardas diante de cada cela em que haja párias. Se na contagem faltar um homem
ou mais, aguardo seu aviso... mas só neste caso.
Voltou a encarar
Sharer. Nesse instante a tela começou a tremeluzir, e um leve chiado saiu do
alto-falante.
Era um chamado do
espaçoporto. Na tela surgiu um rosto safado.
— Aqui fala
Ottek — disse o homem. — Concluímos o exame da Lev-XIV. Não encontramos nada.
Apenas alguns equipamentos que devem vir do planeta Terra ou Vênus...
— Você acha que
isso não é nada? — berrou Goszul. — Será que não se pode confiar em mais
ninguém desse clã? Exijo que todos os objetos provenientes do planeta Terra ou
Vênus sejam levados imediatamente ao laboratório, para serem examinados.
Entendido? E os comprovantes de que o pária vive falando? Onde estão as provas em
apoio daquela conversa sobre o estaleiro gigantesco que Rhodan possui em Vênus?
Onde está esse material, Ottek?
— Não
encontramos nada, patriarca Goszul — respondeu o homem antipático, cabisbaixo.
— Voltem a
revistar a nave. Irradiem tudo. No momento em que for iniciada a grande
conferência, preciso ter tudo nas mãos. Os comprovantes de Levtan só podem
estar na Lev-XIV. Se você não os encontrar, pode tomar a próxima nave para ser
levado às minas. Não se esqueça disso, meu filho — Goszul desligou com um
sorriso malévolo.
— Sharer, você
também pode dar o fora. Quero ficar só.
E Goszul ficou
só. Estava a sós com suas angústias. Pronunciou o nome de Perry Rhodan com
tamanho ódio que Etztak teria dado uma pancada amistosa no ombro do velho amigo,
se pudesse ouvi-lo nesse momento.
* * *
De repente a
porta da cela abriu-se. Cinco radiadores dirigiram-se ameaçadoramente contra os
mutantes de Rhodan, enquanto estes se erguiam sonolentos, fitando a luz com os
olhos semicerrados. Um dos homens contou em voz alta até quatro.
Outro, que se
encontrava atrás dele, disse:
— Está certo. O
lote está completo.
A porta da cela
voltou a fechar-se ruidosamente. Os fechos magnéticos ajustaram-se com um
rangido. Dois guardas permaneceram diante da porta. Os outros foram para
diante.
O grupo de
Rhodan limitou-se a trocar alguns olhares.
Todos haviam
compreendido a finalidade do controle.
Era a reação à
morte do guarda que seria submetido à lavagem cerebral.
— Os mercadores
desconfiaram — cochichou Marshall. — Se houver mais um incidente que não
puderem explicar, fatalmente terão a idéia de que entre os tripulantes da Lev
existem mutantes.
* * *
Etztak estava
sentado diante do patriarca Gaxtek, o mercador que há muitos anos, por obra de
Levtan, fora privado dos resultados de seu trabalho.
O filho de
Gaxtek era o melhor defensor das idéias de Etztak. Não se esquecera do olhar
assassino de Levtan. Nunca se esqueceria de que hoje o clã de Gaxtek seria tão
rico como o de Etztak, se não tivesse sido miseravelmente enganado por um
indivíduo de seu próprio povo.
Etztak falava em
tom insistente:
— Perry Rhodan é
forte, mas também é fraco. Ninguém me tira esta idéia da cabeça. Se não fosse
assim, já nos teria atacado de novo. Tem algum ponto fraco, e um homem fraco
sempre é perigoso. Procura compensar a fraqueza por meio da astúcia. E a
astúcia de Rhodan é Levtan. Nunca mais terá uma oportunidade tão boa de
destruir os mercadores galácticos num só golpe como na grande conferência.
Diga-me uma coisa, Gaxtek: O que faria você se fosse Rhodan?
O ódio que
dedicava a Perry Rhodan fez com que Etztak subestimasse o patriarca Goszul.

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