Autor:
CLARK DARLTON
Tradução:
RICHARD PAUL NETO
Digitalização:
DENISE BARTOLO
Revisão:
GANDALF01
Os saltadores
não conhecem piedade: condenaram um mundo inteiro à morte.
Conflitos na
Terra, invasões vindas do cosmos, batalhas espaciais, lutas travadas em
planetas distantes, tudo isso a Terceira Potência — criada por Perry Rhodan e
ajudada pela antiqüíssima técnica arcônida — conseguiu enfrentar galhardamente
em sua curta existência.
Mas os
saltadores — uma raça de descendentes dos arcônidas que há oito milênios detém
o monopólio comercial na Galáxia, porque reprime implacavelmente qualquer
concorrência que se esboce — representam uma ameaça muito séria.
Perry Rhodan
tinha feito tudo que estava ao seu alcance para impedir que os saltadores
transformassem a Terra numa colônia. Seus cruzadores espaciais realizaram
ataques simulados contra a frota reunida dos saltadores, enquanto ele mesmo
saiu na Stardust-III em busca do planeta do Imortal, onde espera encontrar uma
nova arma que possa ser empregada na luta contra os saltadores.
Já teve que
recorrer a essa nova arma, e mais uma vez terá que recorrer a ela, pois Etztak
faz do planeta Homem de Neve um Mundo de Gelo em Chamas.
= = = = = = = Personagens Principais: = =
= = = = =
Perry Rhodan — Soberano da
Terceira Potência e comandante da Stardust-III.
Reginald Bell — Amigo íntimo e
representante de Perry Rhodan.
Julian Tifflor,
Humpry Hifield, Klaus Eberhardt, Mildred Orson,
Felicitas Kergonen e RB-013 — Náufragos do mundo de gelo.
Topthor — Que já vê na Terra uma colônia
dos saltadores.
Etztak — Patriarca e chefe guerreiro do
clã de Orlgans.
Orlgans — Que encontra seu túmulo no
mundo que ele mesmo condenou à morte.
Gucky — O executor de uma sentença.
1
Embora aquela
criatura se parecesse com um homem, não nasceu na Terra. Mais do que isso,
nunca havia visto a mesma e nem sabia exatamente em que lugar descrevia sua
órbita em torno do seu pequeno sol.
Sua pátria era o
espaço, seu lar a gigantesca nave que, com seus setecentos metros de
comprimento, era a mais fortemente armada dentre as de seu clã. Era velho,
muito velho. A enorme juba de cabelos cor de gelo emoldurava um rosto moreno,
no qual se via um par de olhos duros e implacáveis, que já havia visto milhares
de sóis. Os lábios estreitados davam mostras de um caráter acostumado a mandar,
e que não admitia o diálogo.
Etztak, o
patriarca do clã, estava prestes a incorporar mais um sistema solar ao grande
império mercantil dos saltadores.
Aquela raça era
chamada de saltadores porque, tendo o Universo por lar, saltava de um sistema
solar para outro, a fim de consolidar e ampliar seu monopólio comercial. Eram
descendentes dos arcônidas, uma raça humanóide que já erigira um enorme
império, e vivia na ilusão de que ainda hoje dominava o mesmo. Há muito os
saltadores haviam conseguido a independência, e não davam a menor satisfação
aos arcônidas. Negociavam e lucravam e, quando isso se tornasse necessário,
também lutavam.
Era o que estava
acontecendo naquele momento.
Etztak estreitou
os lábios ainda mais ao ver na tela o rosto de seu companheiro de clã, Orlgans,
que se encontrava a poucos minutos-luz na sua nave Orla XI.
— O que houve?
Mais um ataque desses malditos terranos?
Orlgans era
parecido com Etztak. Apenas, seus cabelos não eram cor de gelo; eram mais
escuros, de cor marrom ou de um ruivo sujo, conforme a incidência da luz. Foi
quem primeiro tentou incorporar a Terra ao império colonial dos saltadores.
— Outro ataque?
— soou a voz furiosa vinda do alto-falante. — Não sei se é outro ataque ou se
ainda é o mesmo. De qualquer maneira, não houve uma pausa maior. Não compreendo.
Por que será que esses terranos não sabem agir com coerência? Atacam, disparam
alguns tiros e batem em retirada antes que se consiga destruí-los.
— Acha que isso
é uma incoerência? — berrou Etztak com uma sonora gargalhada. — Para mim isso é
uma ação inteligente e cautelosa. Sabem perfeitamente que somos superiores a
eles.
— Talvez —
obtemperou Orlgans com um rosto zangado. — Talvez não.
— No momento está
havendo uma pausa. Temos um número suficiente de naves para destruir as duas
unidades dos terranos, desde que planejemos nossa ação. Eles apenas querem
deter-nos, ou distrair-nos de alguma coisa.
— De quê?
— Se eu soubesse
me sentiria mais à vontade — respondeu Etztak, contrariado.
— Por que
defendem um sistema solar que, segundo todos sabem, é desabitado e fica a trezentos
e vinte anos-luz de sua pátria? Devem ter algum motivo para isso. Esse Rhodan
nunca faz nada sem ter um motivo.
Orlgans não
respondeu logo. Lançou um olhar pensativo para o gigantesco sol alaranjado, que
flutuava no espaço, bem ao longe. Um acompanhante azul gravitava em torno dele.
Quatro planetas descreviam órbitas excêntricas em torno dos dois sóis.
O sistema do sol
geminado de Beta-Albíreo, situado a 320 anos-luz da Terra, não tinha a menor
importância nem oferecia qualquer interesse, a não ser...
— Você se
esquece de que ele tem um motivo — disse Orlgans depois de algum tempo. — No
segundo planeta do sistema estão alguns humanos que sabem muito mais do que
confessaram. Rhodan quer impedir que eles caiam nas nossas mãos.
— Se é assim,
por que não os mata?
— Talvez... —
Orlgans achou que a suposição era tão fantástica que nem se atrevia a
enunciá-la.
— Talvez o quê?
— insistiu o patriarca.
— Talvez sejam amigos
que ele não quer matar.
Mais uma vez
Etztak soltou uma estrondosa gargalhada.
— Amigos! Quem
se preocuparia com uma coisa dessas, quando algo muito mais importante está em
jogo? Se ele os matasse, teria certeza de que não revelariam seus segredos.
Orlgans não
respondeu. Já tivera suas experiências com seres humanos, e sabia que muitas
vezes estes encaram as coisas de forma muito diversa que os implacáveis
saltadores.
Etztak lançou um
ligeiro olhar para as telas de observação. Verificou que sua frota circulava em
torno do segundo planeta de Beta-Albíreo, mantendo uma impecável formação de
combate. Uma ruga vertical surgiu em sua testa. Refletiu, e o resultado de suas
reflexões não parecia deprimi-lo demais.
— Só há cinco
terranos naquele mundo de gelo, três homens e duas moças. Pelo que constatamos,
trazem um robô com eles. Trata-se de um robô arcônida de combate. Não
compreendo por que todas as tentativas de destruir esses cinco humanos falharam.
— Porque ainda tínhamos
uma esperança de capturá-los vivos. Sabem coisas que poderão ser muito úteis
para nós. Só por isso.
Orlgans sacudiu
a cabeça.
— Você sabe tão
bem quanto eu que não adiantaria nada matar esses terranos, especialmente o tal
do Tifflor. É bem possível que este até conheça a posição do planeta da vida
eterna, sobre o qual falam as lendas...
— Não estou interessado
em lendas, apenas em fatos — interrompeu o patriarca.
— O planeta da
vida eterna não passa duma lenda. Se existisse, nós já o teríamos encontrado.
Mas por outro lado gostaria de saber por que Rhodan ainda não encontrou nenhuma
possibilidade de salvar as cinco pessoas que se encontram no mundo de gelo.
Orlgans também
estreitou os olhos. Uma expressão estranha surgiu em seu rosto. Parecia um cachorro
que encontra uma pista farejada há bastante tempo.
— Talvez Rhodan
queira distrair nossa atenção dele mesmo. Por que suas naves só nos atacam de
vez em quando, e nunca se envolvem numa luta decente? Por que apareceu o tal do
Tifflor, que parece saber tanto e na verdade não sabe nada? Por que somos
obrigados a concentrar todos os recursos na tarefa de capturar Tifflor e seu grupo?
É bem possível que tudo isso não passe dum truque infame desse terrano chamado
Rhodan.
Etztak ouvira-o
em silêncio. A ruga de sua testa aprofundou-se. Um brilho pensativo surgiu em
seus olhos implacáveis. Acenou lentamente com a cabeça e ergueu as duas mãos, o
que representava um sinal de concordância.
— Talvez suas
suposições sejam corretas. Mas se é que Rhodan quer nos deter e distrair, por que
está interessado nisso? Qual é a finalidade que tem em vista?
Orlgans não
soube responder.
— Não sei. Acho que
devemos fazer mais uma tentativa decisiva de capturar ou matar os cinco
terranos que se encontram no mundo de gelo. Quer que incumba algumas naves
dessa tarefa?
— Três naves
serão suficientes — disse Etztak. — Faça com que a superfície do mundo de gelo
se transforme num inferno de fogo. Se os terranos não forem queimados, deverão
morrer nas rochas derretidas.
— Não seria
melhor capturá-los vivos?
— Talvez não —
disse o patriarca. — O que importa é provarmos a Rhodan...
Não pôde
completar a frase, pois o alarma encheu a nave.
As duas unidades
de Rhodan voltaram a atacar.
* * *
O major Nyssen,
comandante do cruzador pesado Solar System, mantinha constato radiofônico
permanente com o capitão MacClears, comandante da nave-gêmea Terra.
Os dois veículos
espaciais esféricos tinham duzentos metros de diâmetro e estavam equipados com
as armas mais avançadas da técnica arcônida. Gigantescos reatores criavam
campos energéticos protetores, que não podiam ser rompidos nem mesmo pelos
raios disparados pelas naves dos saltadores.
— Vamos lançar
mais um ataque, MacClears — gritou Nyssen para seu colega. — Se Rhodan não
aparecer logo, acabarei enlouquecendo. Um dia aqueles sujeitos acabarão nos
pegando. E nem me atrevo a conjeturar sobre quanto tempo Tiff ainda agüentará
viver no mundo de gelo.
— Não gostaria
de estar no seu lugar — confessou o capitão.
— Eu cuidarei do
pepino-gigante do patriarca Etztak. O senhor atacará a nave que está logo ao
lado. E não se esqueça: disparamos uma salva e damos o fora. Não devem ter
tempo de nos eliminar com uma descarga concentrada de seus radiadores, e muito
menos devem ter oportunidade de demonstrar um interesse excessivo por Tiff.
— Entendido —
respondeu MacClears com um sorriso. — Faremos isso mesmo.
Os dois
cruzadores aceleraram, saíram da sombra projetada pelo planeta e poucos
segundos depois viram-se diante das naves dos saltadores, pegadas de surpresa.
Uma salva dos mortais radiadores de energia bateu contra o campo energético do
inimigo, sendo desviada sem produzir qualquer dano. De qualquer maneira o
súbito ataque preencheu a finalidade de retardar mais uma vez a execução dos
planos dos saltadores. E Rhodan ganhou mais um pouco de tempo, embora não o
soubesse.
Naquele instante
Rhodan se encontrava a mais de 1.750 anos-luz, e dispunha-se a iniciar a
transição.
Com a mesma
rapidez com que se lançaram ao ataque, os cruzadores pesados Terra e Solar
System bateram em retirada. Em hipótese alguma podia-se arriscar as duas naves,
pois no momento eram a única coisa que a Terra poderia opor aos agressores
vindos das profundezas do Universo. Era bem verdade que a Terra se encontrava a
uma distância de 320 anos-luz, mas isso não representava nada, já que
distâncias bem maiores que esta podiam ser vencidas numa questão de segundos
através do processo da transição.
Naquele momento
o planeta Terra estava prestes a alcançar a unificação geral. A formação dum
governo mundial seria uma questão de dias. O coronel Freyt, representante da
Terceira Potência, faria tudo para quanto antes transformar em realidade o
governo mundial.
O surgimento dos
mercadores galácticos, também chamados de saltadores, não podia ser comparado
com as invasões antes ocorridas. Fora possível repelir os Deformadores
Individuais, porque a Terra lhes era superior no terreno da tecnologia. E os
tópsidas, seres em forma de lagarto que surgiram no sistema de Vega, também não
representaram um perigo muito grande.
Mas com os
saltadores as coisas eram diferentes.
Aquela raça
poderosa, que por uma circunstância trágica teve sua atenção despertada para a
Terra com seu poderio crescente, era superior em todos os sentidos. Era
estreitamente aparentada com os antigos senhores do Universo, os arcônidas.
Tinham suas armas e conheciam seus métodos — e suas fraquezas.
Viam na Terra, e
especialmente em Rhodan, um perigo para seu monopólio comercial. Teriam que
forçá-lo a submeter-se à sua vontade, ou destruí-lo.
Mas isso não
parecia ser muito fácil.
Defrontavam-se
com um inimigo praticamente igual em forças.
* * *
Uma coisa que
nem os terranos nem o clã dos saltadores chefiado por Etztak sabiam era que o
conflito contava com mais um participante. Alertado pelos sucessivos abalos
provocados pelas transições, Topthor resolvera intervir.
Topthor, que
também era um saltador, pertencia ao chamado clã dos superpesados. Em tempos
remotos seus antepassados viveram num planeta de gravitação muito intensa. No
curso dos milênios esses descendentes dos arcônidas perderam a figura
humanóide, pois cresceram em largura e diminuíram em altura. Atualmente os
superpesados não mediam mais de 160 centímetros, e sua largura era a mesma.
Pesavam mais de quinhentos quilos.
Topthor dispunha
de oito naves, que circulavam em torno do sistema solar, além da órbita de
Plutão. Com outro grupo de oito naves seguira Rhodan quando este se dirigia ao
planeta da vida eterna. Quando Rhodan regressou de sua visita ao mundo
artificial e invisível, Topthor lançou-se ao ataque contra ele, mas foi
surpreendido por uma nova arma e teve destruídas cinco de suas naves. Topthor
fugiu em pânico mas, antes de mergulhar numa transição cega, teve tempo de
enviar uma mensagem pelo rádio ao seu companheiro de raça. Rhodan não pôde
impedir que isso acontecesse, embora conhecesse o teor da mensagem dirigida a
Etztak.
A 1.500 anos-luz
do sistema de Beta-Albíreo, as três naves de Topthor emergiram do hiperespaço.
Levaram horas para calcular a posição e determinar as coordenadas do próximo
salto.
O dirigente do
clã dos superpesados, chamado Topthor, pretendia voltar ao sistema no qual a
Terra gravitava em torno de seu sol como terceiro planeta. Ainda dispunha dum
total de onze naves. Com elas poderia destruir a Terra, se assim o desejasse.
Mas com isso
destruiria uma colônia bastante rendosa. E Topthor era antes de tudo um
negociante, muito embora seu clã cuidasse mais da proteção de comboios que do
comércio. Os outros mercadores recorriam à sua frota de guerra quando as coisas
esquentavam em algum lugar — e pagavam pelo auxílio.
Mas agora
surgira a oportunidade de fundar sua própria colônia. Além disso, Rhodan lhe
devia cinco naves.
Por isso Topthor
ordenou o salto de volta para o sistema solar.
Além de serem
muito reduzidas as forças da Terceira Potência, naquele momento a Terra estava
praticamente indefesa.
* * *
A cada 123 anos
havia no segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo uma era glacial, que durava
perto de oitenta anos. Esse fato era devido à órbita excêntrica, que por sua
vez tinha sua origem nos dois sóis. O astro central, um gigante alaranjado,
ficava a um bilhão de quilômetros do segundo planeta, enquanto o sol azul
distava mais trezentos milhões de quilômetros. Na posição em que se
encontravam, a luz e o calor fornecido pelos mesmos eram tão reduzidos que no
mundo de gelo — era este o nome dado ao segundo planeta — reinava um crepúsculo
constante, e a temperatura média era de cento e dez graus centígrados abaixo de
zero.
O inferno de
gelo era um inferno, mas um inferno muito frio.
Apesar disso
nele viviam seres humanos. Ao fugirem dos saltadores, realizaram um pouso de
emergência nesse mundo e tiveram sua nave destroçada. Dali em diante estavam
condenados a esperar, inativos, naquele mundo morto e desolado. Mas sabiam que
Rhodan não os havia esquecido, e que um dia viria buscá-los.
Julian Tifflor,
chefe do grupo de náufragos, tinha vinte e um anos e era considerado o melhor
matemático da Academia Espacial, da qual saíra com distinção depois de seis
semestres de treinamento hipnótico. Dali em diante passou a servir na frota
espacial da Terceira Potência. Desta vez a missão lhe fora confiada
pessoalmente por Rhodan. Ele mesmo não sabia muito bem qual seria a finalidade
da missão.
O segundo membro
do grupo que se encontrava no mundo de gelo era Humpry Hifield. Tinha vinte
anos e cabelos cor de palha cortados à escovinha. Considerava-se uma beleza
irresistível. Por isso não compreendia como Tiff lhe arrebatara Mildred Orson,
uma moça de dezenove anos. Vivia atormentado pelo receio de não ser notado e,
apesar de sua superioridade física, os complexos de inferioridade
martirizavam-no constantemente. Era este, somente este o motivo da inimizade
secreta que nutria para com Tiff.
O cadete Klaus
Eberhardt era o terceiro participante da expedição, que esperava naquele mundo
desolado que o salvassem. Tinha cabelo castanho-escuro e era meio baixo e
gordo. Sempre precisava de muito tempo para resolver qualquer problema. As
reações rápidas não constituíam seu forte.
Mildred Orson,
bacterióloga cósmica, tinha razão de sobra para orgulhar-se de seu cabelo
negro, seus olhos escuros e seu rosto fino e estreito. Ainda não conseguira
decidir-se por nenhum de seus fãs, Tiff e Hump, mas tudo indicava que a
situação estava mudando. Dera a entender a Hump que preferia Tiff.
Ainda havia
Felicitas Kergonen, uma botânica galáctica de cabelos louros e figura delicada.
Dedicava um amor secreto ao grosseiro Humpry que, segundo tudo indicava, nem
desconfiava dessa inclinação. Felic já completara dezoito anos, sendo o membro
mais jovem da expedição frustrada.
Com exceção de
Gucky.
Gucky, é bom que
se ressalte, não era um ser humano, e ninguém sabia sua idade. O rato-castor de
um metro de comprimento vinha dum planeta distante, onde soubera introduzir-se
sorrateiramente na nave de Rhodan. Dali em diante nunca mais saíra de junto
dele, a não ser que alguma missão importante o obrigasse a tanto. A figura de Gucky
lembrava a dum camundongo grandemente ampliado com a cauda achatada dum castor.
O que chamava mais a atenção era o solitário dente-roedor, que aparecia
principalmente quando Gucky sorria.
No momento não
havia nenhum motivo para isso.
Gucky
distinguia-se principalmente por suas capacidades quase inacreditáveis, que
dele faziam o mais espantoso dos paradotados. O rato-castor, tão engraçado e
aparentemente tão inofensivo, era um excelente telepata, e por isso mesmo
estava em condições de aprender com a maior rapidez as línguas usuais. Além
disso, dominava a teleportação, ou seja, podia transportar-se em qualquer tempo
para o lugar que desejasse. Finalmente Gucky era um telecineta. A força de seu
espírito permitia-lhe mover objetos, inclusive seres humanos, sem tocá-los.
Essas faculdades
só se revelaram integralmente no curso dos últimos meses, pois no início de sua
amizade com Rhodan, e especialmente com Bell, só conhecia a telecinésia. Mas o
contacto permanente com os membros do exército de mutantes permitira a Gucky o aperfeiçoamento
de suas qualidades. Tinha certeza de que no curso do tempo ainda descobriria
outras faculdades, que por enquanto jaziam adormecidas.
O estranho ser
peludo era dotado duma espantosa capacidade de adaptação. Quase não se
importava com o frio intenso do planeta morto. Podia manter-se fora do
alojamento, mesmo sem traje espacial, respirando o ar gélido. Naquele mundo
gelado só havia um ser que neste ponto podia ser comparado a ele.
Mas pode um robô
ser considerado um ser?
RB-013 tinha
2,30 metros de altura e era dotado de duas enormes pernas e quatro braços,
sendo que o par de braços inferiores era formado por radiadores energéticos
completos. Pertencia ao equipamento permanente dos destróieres de três homens.
Só ele conseguira salvar os náufragos depois do pouso de emergência realizado
naquele planeta. Só com seu auxílio puderam derreter a rocha, formando uma
caverna habitável na superfície gelada do planeta. RB-013 não sabia apenas
lutar; também era um trabalhador competente e incansável.
Depois que Bell,
numa aventura arriscada, colocara Gucky no mundo de gelo para ajudar Tiff e os membros
de seu grupo, a situação tornou-se menos penosa para os membros do grupo, muito
embora os ataques constantes dos saltadores desgastassem seus nervos. De
qualquer maneira dispunham de equipamentos e provisões de mantimentos que lhes
permitiriam agüentar por algum tempo.
Sentado sobre
uma caixa, num dos cantos do recinto, Gucky deixou que a bondosa Felicitas
Kergonen lhe acariciasse a barriga.
— Você é um anjo
— chiou com a voz incrivelmente aguda. — Tenho inveja do homem que for seu
marido.
— Tomara que ele
também se contente com uma simples carícia na barriga — observou Humpry Hifield
em tom sarcástico.
— Seu invejoso!
— obtemperou Klaus Eberhardt, que reagira com uma rapidez extraordinária. — Se
fosse uma moça, eu também não...
— Acontece que não
é! — objetou Humpry. Em sua voz não havia nenhum calor, embora o ar na caverna
fosse bastante morno.
O robô construíra
uma pequena comporta de ar, o que lhes permitia abrir ao menos o capacete
quando se encontravam no interior da caverna.
— Será que vocês
não sabem calar a boca? — interveio Tiff. — Devíamos preocupar-nos com coisas
mais importantes que essas discussões fúteis e intermináveis. Se os saltadores
conseguirem localizar o robô, eles nos mandarão uma carga de gás. Já removeram
a capa de gelo de metade da superfície do planeta, e podemos dar-nos por
satisfeitos porque ainda não morremos afogados.
— Felizmente a
caverna fica em cima dum morro. Ou será que não fica? — perguntou Humpry em tom
atrevido.
— Se
bombardearem o morro com os canhões de bordo, o que acontecerá, Hump?
Hump não
respondeu. Gucky gemeu:
— Ainda bem que
sou o único telepata por aqui.
Tiff lançou-lhe
um ligeiro olhar e não se interessou mais por Hump. Estava começando a ficar
enjoado de tudo aquilo, e falaria sem rebuços a Rhodan, se...
Sim, se...
De repente Gucky
levantou-se. O pêlo da nuca arrepiou-se. Afastou lentamente a mão de Felicitas
e inclinou a cabeça, como se escutasse atentamente. Tiff notou. Fitou o
rato-castor. Depois de algum tempo não agüentou mais.
— Houve alguma
coisa, Gucky?
— Acho que sim,
Tiff. Voltam a atacar.
Desta vez são
três naves. E estão indo tão devagar que até chego a desconfiar.
— Você consegue
vê-las?
Há tempo o
tratamento formal “o senhor” fora
deixado de lado.
— Um instante —
disse Gucky, e desapareceu.
As pessoas que
se encontravam na caverna olharam-se espantadas. Mais uma vez o rato-castor se
teleportara para o exterior, a fim de sondar o terreno.
Klaus Eberhardt
estava abrindo a boca para dizer alguma coisa, quando Gucky voltou a
materializar-se no interior da caverna.
Seu pêlo marrom
estava coberto de neve.
— Temos que dar
o fora! — chiou com a voz nervosa. — Dentro de um minuto esta montanha será
transformada num inferno.
Os saltadores me
viram. Consegui destruir uma de suas naves.
— Destruiu uma
nave? — disse Hump com a voz ofegante.
— Deixemos isto
para mais tarde — respondeu Gucky. — Ainda bem que aproveitei o tempo em que
estive lá fora para procurar outro esconderijo. Eu os levarei para lá.
Imediatamente. Fechem os olhos, se quiserem — e os capacetes. A caverna para a
qual vamos ainda não tem comporta.
— Uma comporta?
— disse Tiff espantado. No mesmo instante desapareceu sem deixar vestígio. As
duas moças seguiram-no dali a um segundo. Depois foi a vez de Eberhardt e Hump.
Finalmente foi transportado o robô e as caixas de equipamentos.
Até parecia obra
de feitiçaria.
A atuação de
Gucky era estranha e incompreensível como a dum fantasma. Mal surgia do nada e
pegava uma peça de equipamento, desaparecia juntamente com a bagagem. O
fenômeno repetia-se com tamanha rapidez que causava pavor até mesmo a alguém
que conhecesse as faculdades do rato-castor. Nenhum teleportador trabalhava com
tamanha rapidez; para Gucky isso não passava de brincadeira...
As pessoas
atingidas pelo fenômeno nem percebiam a viagem. Conservavam a forma natural do
corpo, mas o transporte era tão rápido que os órgãos dos sentidos não tinham
tempo de captar qualquer impressão, por mais fugaz que fosse.
Enquanto ainda
exalava o ar, Tiff viu-se num recinto escuro como breu. Apressou-se em fechar o
capacete, pois fazia um frio terrível.
Virou-se e
percebeu uma débil luminosidade, vinda de longe. Devia ser a entrada da
caverna. Não saberia dizer a que distância ficava de seu esconderijo anterior,
pois a distância percorrida por teleportação não se revela na duração do
percurso.
Numa questão de
segundos os companheiros foram surgindo na escuridão. Ele o sentiu mais do que
o via. Mas quando RB-013 acendeu a lanterna constatou que todos se encontravam
ali.
Apenas Gucky
estava ausente.
O fato não
deixou Tiff muito preocupado.
— Provavelmente
quer ver o que está acontecendo com nosso antigo esconderijo — conjeturou. — É
uma pena que tenhamos de construir outra comporta. Aliás, aqui não existe gelo,
apenas a rocha nua. Acredito que desta vez Gucky nos levou ao equador, onde
ainda existem trechos sem neve e gelo. Tenho a impressão de que não faz muito
frio.
— Sim — disse
Hump em tom sarcástico. — Em vez dum frio de cento e dez graus devemos ter
apenas noventa graus.
A voz fria e
metálica do robô interveio na conversa.
— Temos
exatamente quarenta e sete graus centígrados abaixo de zero. Se eu ligar o
aquecedor, poderemos dispensar a comporta. Basta fecharmos a entrada com as
caixas de equipamentos.
Tiff fez que sim.
— É uma boa
sugestão. Vamos ao trabalho.
— E Gucky? —
perguntou Klaus Eberhardt.
Hump lançou-lhe
um olhar presunçoso.
— Seu idiota! Desde
quando Gucky pode ser detido por um montão de caixas?
Eberhardt esteve
prestes a responder, mas não teve tempo. De um instante para outro Gucky estava
de volta.
— Nem queiram
saber! — exclamou, e sua voz fina tremia de excitação. — Nunca me esquecerei do
espetáculo que acabo de contemplar. Derreteram nossa montanha de gelo. Consegui
destruir uma das naves atacantes. Teleportei para dentro da sala do comandante
e quase arranco a barba ruiva do comandante. O sujeito levou um susto tão
grande que perdeu o controle e bateu com toda força na primeira montanha de gelo.
Metade da nave desapareceu no interior da mesma. Não acredito que alguém tenha
escapado com vida, pois a duas naves que restaram esforçaram-se para
volatilizar o colega. Não sei se sua tática não admite sobreviventes. De
qualquer maneira consegui abandonar a nave no último instante e cuidar da
segurança de vocês. Voltei imediatamente. As duas naves preparavam-se para
transformar nossa caverna de gelo num mar de chamas. Teríamos morrido queimados
ou afogados; nem tenham a menor dúvida. Consegui destruir mais um dos
saltadores. Teleportei para o arsenal de armas nucleares e fiz detonar uma
bomba atômica. Infelizmente não consegui salvar nossa nave auxiliar.
— Quer dizer que
apenas uma das naves conseguiu escapar? — indagou Tiff, que já não parecia tão
abatido. — Gucky, não sei o que seria de nós se não tivéssemos uma pessoa como
você.
— Queira fazer o
favor de não me ofender — disse Gucky em tom sério, mas exibiu seu dente
roedor, o que provava que suas intenções não eram tão sérias assim. — Não
costumo chamar vocês de rato.
Tiff sorriu.
— Afinal, onde
estamos?
— Uns quinhentos
quilômetros ao sul do nosso esconderijo anterior. Este mundo de gelo tem aproximadamente
o mesmo tamanho da Terra, mas sua gravitação é mais reduzida. Dali se conclui
que a densidade do planeta é menor. Estamos numa caverna de rocha natural, nas
proximidades do equador. Dificilmente os saltadores nos encontrarão aqui;
afinal, duzentos metros de rocha não são nenhuma bagatela.
— Você usa cada
expressão! — queixou-se Hump. — Logo se vê que Bell lhe deu aulas de
lingüística.
— Não fale mal
de Bell — disse Gucky em defesa do amigo. — As expressões que ele usa são mais
bonitas que as suas.
— Quer dizer que
estamos embaixo do solo? — perguntou Tiff.
Gucky sacudiu a
cabeça de rato.
— Não é bem
isso. Estamos no interior duma montanha. Mas estamos cercados de rocha maciça; não
há gelo. Vamos instalar-nos confortavelmente, e seria ridículo se não agüentássemos
por aqui até que Rhodan venha buscar-nos. Se ele vier buscar-nos, você terá
cumprido sua finalidade.
De repente Tiff
despertou.
— Minha
finalidade? Que finalidade é esta?
Gucky sorriu. Seu
dente roedor parecia projetar um reflexo desavergonhado sobre Tiff.
— O cilindro
implantado em você tem um alcance de dois anos-luz. Quer dizer que nossos
telepatas saberão a qualquer momento onde procurá-lo. Acontece que os
saltadores acreditam que você conhece uma porção de segredos, motivo por que
deixaram distrair-se, não se interessando por Rhodan. Este foi ao planeta da
vida eterna e trouxe uma nova arma, pois já não tinha condições de enfrentar os
saltadores. Quando voltar, terá a nova arma. Não é uma explicação bem plausível?
— Sem dúvida —
confessou Tiff. Seu rosto não parecia muito inteligente. — Quer dizer que todo
este tempo apenas servi de isca para os saltadores?
Gucky continuava
a sorrir.
— Não se
preocupe. A mesma coisa aconteceu comigo e com os outros. — Subitamente
tornou-se sério. — O importante é que Rhodan consiga a nova arma, pois sem ela
a Terra estaria perdida.
— Acontece que
ainda não a conseguiu! — objetou Hump.
— É verdade —
respondeu Gucky. — O que afirmei foi que ele estará com ela quando aparecer
aqui para libertar-nos. Até lá devemos ter paciência. De resto, espero que aqui
terei maior facilidade em entrar em contacto com os sonolentos. Nas
proximidades do equador sua capacidade de concentração deve ser maior.
— Os sonolentos?
— perguntou uma das moças, que até então não participara do debate.
— Isso mesmo,
Milly. É o nome que dei aos habitantes deste planeta. Ainda não vimos nenhum
deles, mas consegui captar seus pensamentos. São pensamentos confusos, mas
muito inteligentes. Moram sob a superfície, embaixo do gelo, e pelo que soube
costumam vir para cima no verão extremamente curto, quando o gelo derrete. Isso
só deverá acontecer daqui a alguns decênios.
Tiff sacudiu a
cabeça.
— Nunca seria
capaz de acreditar que num mundo como este pode existir vida.
— Ainda não
sabemos se é uma vida no sentido que nós atribuímos ao termo — disse Gucky,
desapontando o entusiasmo.
— É possível que
dentro em breve consigamos saber. Procurarei estabelecer contacto com eles. Mas
antes de mais nada vamos construir uma muralha contra o frio. Usaremos nossas
mãos, pois o exercício nos fará muito bem.
— Depois disso —
disse Tiff — quero dar um passeio na superfície.
— Também irei —
observou Mildred apressadamente.
— Eu também —
cochichou Felicitas.
Gucky não se
dispôs a acompanhá-los.
— Poderão ir
assim que tivermos terminado nosso serviço. Nosso robô produzirá calor
suficiente para tornar a vida agradável. Lá fora basta ligar o aquecedor do
traje espacial para a metade de sua potência. O capacete espacial não é
indispensável. Vamos ao trabalho!
Bem por dentro,
Tiff não estava muito admirado pelo fato de que o rato-castor tirava quase toda
a responsabilidade de cima dos seus ombros. Por mais estranhável que isso
pudesse parecer, na verdade não havia motivo para isso. Gucky era o ser
parapsicológico mais capaz de todo o exército de mutantes. Era um dos membros
mais importantes do grupo de combate que no momento estava engajado na defesa
da Terra. Na verdade, Gucky não era um ser humano; mas os membros da frota
espacial já haviam compreendido que o julgamento de qualquer ser não deve
depender de seu aspecto exterior.
Ao olhar para
Tiff, Gucky manteve a cabeça ligeiramente inclinada.
— Que problema
difícil, não é? — disse com um sorriso insolente. — Não se preocupe sem
necessidade. Apenas quero ajudar antes que você perca a coragem. Toda a responsabilidade
pesa sobre você, que é o chefe do grupo. Vim apenas para apoiá-los. Se vez por
outra fico distribuindo as tarefas, isso acontece apenas porque o tédio não deve
nascer entre nós. Na situação em que nos encontramos, não há nada que possa ser
tão perigoso como pensar demais.
— Está bem —
disse Tiff com um sorriso de gratidão. — Estamos entendidos.
Carregaram as
caixas em direção à saída e, mais ou menos na metade do caminho, fizeram uma
parede com as mesmas. Deixaram livre uma pequena passagem, fechada com um
cobertor. Assim o frio não penetraria tão depressa.
Satisfeito,
Gucky esfregou as patas.
— Podem dar seu
passeio. Hump cuidará da comida. Eberhardt lhe dará uma mão, sua estatura prova
que cozinha muito bem. Quanto a mim...
— Deixe de fazer
alusões à minha figura — queixou-se o cadete. — Afinal, não tenho culpa de não
ser muito magro.
— Seu bajulador
— berrou Hump, soltando uma estrondosa gargalhada. — Não é de admirar que
engorda a cada dia que passa. Vive devorando rações duplas. Ainda bem que temos
comida que chega...
— ...quanto a
mim, farei um reconhecimento no fundo da caverna — disse Gucky, sem deixar que
o desviassem. — Talvez descubra algo de interessante.
Naquele instante
nem desconfiava de que sua suposição seria plenamente confirmada pelos fatos.
2
Etztak esbravejou
de raiva quando o comandante, ao regressar, o informou de que duas das três
naves que participaram da missão não regressaram. Uma caíra em virtude dum erro
de navegação e tivera que ser destruída para não propiciar informações ao
inimigo. A outra explodira no ar sem motivo aparente.
— E o pessoal de
Rhodan? — perguntou o patriarca assim que se acalmou o suficiente para
recuperar a fala. — Conseguiram agarrá-los?
— Não sei —
respondeu o comandante da nave que regressara. — Bombardeamos uma área extensa
do setor em que devem encontrar-se. É claro que não pudemos constatar o
resultado. Mas vi alguma coisa.
— Alguma coisa? —
indagou Etztak sem compreender nada. — Fale logo, homem!
— Não foi um
terrano, mas uma criatura pequena, que deve ter a metade do nosso tamanho. Talvez
diria que é um jovem terrano, mas não posso imaginar que realmente seja assim.
— Nem eu — disse
Etztak em tom sarcástico. Ainda guardava viva a lembrançade Gucky. — Afinal, o
que foi?
Não obteve
resposta.
O
intercomunicador começou a zumbir.
Com um gesto
impaciente despediu o comandante mal sucedido e ligou a chave. O rosto barbudo
dum telegrafista surgiu na tela.
— Uma
hipermensagem, senhor. — Etztak percebeu imediatamente que o telegrafista
estava tão perplexo que mal conseguia falar. — É de Topthor.
Etztak não
acreditava no que acabara de ouvir.
— De quem?
— De Topthor,
senhor.
Etztak
reclinou-se na poltrona.
— Do chefe dos
superpesados! O que significa isso? Não pedi aos superpesados que se
intrometessem nisto. Não preciso de proteção.
— Acho que não se
trata disso — arriscou-se a dizer o telegrafista. — Ao menos não diretamente.
— O que quer
dizer com isso? Que tal se lesse a mensagem para mim? Talvez com isso verei
mais claro.
O telegrafista
acenou com a cabeça, olhou para uma folha e leu:
Para Etztak,
patriarca do clã de Etztak. Perry Rhodan, o terrano, conseguiu uma nova arma.
Com ela conseguiu destruir cinco das minhas naves. Não existe a menor
possibilidade de defesa. Etztak, eu o previno. Recorra ao nosso auxílio. Rhodan
o atacará e destruirá. Só com um golpe de surpresa conseguiremos destruí-lo.
Oportunamente anunciarei minha nova posição e aguardo sua oferta.
Topthor, clã dos
superpesados.
Etztak confirmou
com um gesto da cabeça e mandou que lhe trouxessem a mensagem. Interrompeu o
contacto. Sem a menor demora, deu alarma geral. No momento o segundo planeta
com o grupo de Rhodan perdera todo interesse. Antes de mais nada convinha
preparar-se para o ataque de Rhodan, que estava eminente.
Ao menos Etztak
procurou convencer-se disso. No seu íntimo começou a despontar a idéia de que
cometera um erro. Deixara que desviassem sua atenção do que realmente
importava. Acreditava que o tal do Tifflor fosse a figura principal. No
entanto, o mesmo não passava dum ator secundário, cuja missão consistia apenas
em desviar sua atenção de Rhodan, do planeta da vida eterna e da nova arma.
E o inimigo
conseguira realizar seu intento.
— Orlgans! —
berrou para dentro do microfone, quando os rostos indagadores dos membros do
clã surgiram na tela. — Rhodan conseguiu a nova arma. Recebi aviso de Topthor...
— Do chefe dos
superpesados? — interrompeu Orlgans.
— Quem poderia ser?
— esbravejou Etztak. — Também anda por aqui, embora não tenhamos solicitado seu
auxílio. Pois bem, ele me preveniu. Rhodan pretende atacar-nos. Não sei que
arma é esta, mas tenho certeza de que conseguiremos defender-nos contra a
mesma. Orlgans, você pegará uma das naves e deflagrará uma fogueira atômica no
segundo planeta.
— Uma fogueira
atômica? — disse Orlgans, erguendo as sobrancelhas. — Quer transformar o
planeta num sol? Você sabe que nossas leis proíbem a destruição de qualquer
mundo habitável sem que haja motivo muito poderoso.
— Acha que não
temos motivo para isso? Quero vingar-me de Rhodan, e principalmente dos
prisioneiros fugidos.
— Será que isso é
um motivo suficiente? — perguntou Orlgans.
— Para mim é —
berrou o patriarca. — Quero que nunca mais sinta vontade de se intrometer nos
meus negócios — esqueceu-se de que era exatamente o contrário. Afinal, ele,
Etztak, se intrometia nos negócios da Terra. Rhodan se encontrava numa posição
defensiva. — Para isso preciso destruir seu grupo e o mundo em que se fixaram.
— Quer dizer que
devemos desencadear a fogueira atômica, a fogueira atômica inextinguível?
— Isso mesmo.
Quero que o segundo planeta seja transformado num sol.
Orlgans
confirmou com um aceno de cabeça e sua imagem desapareceu da tela. Era evidente
que não concordava com a ordem que o patriarca acabava de lhe dar. Mas não
tinha outra alternativa senão obedecer. Ordenou ao comandante de outra nave que
lhe prestasse auxílio e, se necessário, lhe fornecesse cobertura total. Depois
destacou-se da formação de naves e iniciou os demorados preparativos
necessários à realização do plano diabólico.
Enquanto isso
Etztak conferenciou com os outros mercadores, para descobrir a melhor maneira
de enfrentar Rhodan. Não era fácil, pois ninguém conhecia o funcionamento da
nova arma. As indicações lacônicas de Topthor não permitiam que se formasse uma
idéia a este respeito.
Mas Topthor
havia prometido que daria sinal de vida. Ninguém sabia quando isso aconteceria.
— Ficaremos bem
próximos uns dos outros — ordenou Etztak. — Assim que Rhodan aparecer, concentraremos
nosso fogo energético sobre ele. Nem mesmo o campo protetor da Stardust-III
agüentará uma carga destas. Não deixem que os dois cruzadores distraiam sua
atenção.
De certa forma o
patriarca estava com a razão. No entanto, não sabia que os dois cruzadores
poderiam perfeitamente lançar ataques mais fortes, destruindo uma ou outra das
naves dos saltadores. Se até então se tinham limitado a ataques simulados,
assim procediam exclusivamente em virtude das ordens de Rhodan.
Em vez de deixar
os saltadores prevenidos por meio dum combate normal, Rhodan pretendia desferir
tamanho golpe contra eles que nunca mais pensariam em voltar. Só assim poderia
restabelecer a calma.
Só por isso
precisara de algum tempo para ir buscar a nova arma no Peregrino, o estranho
planeta artificial que existia numa dimensão diferente e fora criado por um ser
que representava a espiritualização de toda uma raça tornada imortal. Era o
planeta situado nos confins da eternidade, segundo a expressão de Rhodan — que
provavelmente acertara em cheio.
Etztak não sabia
nada a respeito desse planeta, cuja existência era revelada na Galáxia através
duma série de lendas bastante vagas. Ninguém sabia se existia, nem onde. Mas
Rhodan o conhecia. Através da ducha celular, ele e Bell conseguiram deter o
processo natural do envelhecimento. A cada sessenta e dois anos o tratamento
tinha que ser repetido.
Finalmente
aquele ser estranho, o imortal, deu a Rhodan a arma que este desejava para
defender-se dos ataques desfechados pelos saltadores.
Etztak apenas
começou a ter uma vaga idéia de tudo isso, e um sentimento de insegurança foi
tomando conta dele. Teria subestimado o inimigo? Mas Rhodan era apenas um
terrano, membro duma raça que, segundo os padrões galácticos, devia ser
considerada subdesenvolvida. Só há um decênio aquela raça descobrira a
navegação espacial. E foi exclusivamente o auxílio dos arcônidas naufragados na
Lua que lhes permitiu um grande salto para a frente. Poderia este salto
substituir uma evolução natural, processada no curso de vários milênios?
Etztak teve suas
dúvidas, mas o sentimento de insegurança continuou a atormentá-lo.
* * *
A nave
Stardust-III, que era o gigantesco veículo espacial de Perry Rhodan, concluiu
a transição e
materializou no espaço normal. Dera um salto de mais de 1.750 anos-luz.
Rhodan notou que
as dores da rematerialização diminuíam e a consciência retornou. Perto dele
Reginald Bell soltava gemidos comoventes; até parecia que estava sofrendo uma
operação de apendicite sem anestesia. Bell gemia todas as vezes que se
realizava uma transição; já se habituara a isso. Não era de admirar que Rhodan
não se comovesse.
E os cálculos?
Teriam sido corretos?
Rhodan
levantou-se e olhou para a tela. Viu uma profusão de estrelas, que logo lhe revelou
que já não se encontravam nas proximidades do planeta Peregrino. Mas a olho nu
não se podia saber se a Stardust-III chegara ao ponto pretendido. Enquanto
permaneceram no planeta Peregrino, este também percorreu uma distância que não
lhes era conhecida.
— Chegamos? —
perguntou Bell. Tentou um sorriso, mas a tentativa fracassou.
— Que coisa
esquisita! Há um instante ainda nos encontrávamos no mundo do imortal, e
agora...
— Ali adiante está
o sol gêmeo de Beta-Albíreo — interrompeu Rhodan. — A distância é de duas
horas-luz aproximadamente. Etztak já deve ter registrado nossa presença e
tomado suas providências. Não devemos esquecer-nos de que foi prevenido. É bem
verdade que deve quebrar a cabeça em vão para descobrir que arma nova é esta.
— Ficará admirado
— disse Bell. — Um transmissor fictício capaz de teleportar qualquer porção de
matéria a qualquer distância. Podemos a qualquer momento contrabandear bombas
atômicas para o interior de suas naves, sem que eles possam fazer nada para
impedi-lo.
— Não se esqueça
de que seu potencial de fogo, concentrado simultaneamente sobre nossa nave, romperia
os campos energéticos. Quer dizer que não estão totalmente indefesos. O que
importa é que sejamos mais rápidos que eles.
— Mesmo que o
tal do superpesado — se não me engano o nome é Topthor — os tenha prevenido,
não temos nada a temer — profetizou Bell. Para seu espanto, viu que de um
instante para outro Rhodan parecia muito pensativo. A menção dos superpesados
parecia ter ligado um contacto em seu interior. — O que houve com você?
— Topthor! —
disse Rhodan. — Não é que quase me esqueço dele?
— E daí? — disse
Bell, sacudindo a cabeça. — Não o compreendo. Destruímos cinco das suas naves;
logo, não temos mais nada a recear da parte dele. Só lhe restam três.
— É justamente
isso — disse Rhodan.
Em sua testa
surgiram rugas profundas. — Não se esqueça do desenrolar dos acontecimentos.
Ele deve ter-nos seguido para o planeta da vida eterna. Para fazê-lo, deve ter
saltado do mesmo lugar que nós. Acontece que não viemos do sistema de Beta- Albíreo,
mas da Terra. Dali se conclui que conhece a posição de nosso planeta. Estou disposto
a fazer qualquer aposta de que voltou para lá. Se tiver a idéia de vingar - se...
Pense um pouco! De que recursos dispõe a Terra para defender-se contra três couraçados?
Bell parou de
sorrir.
— É possível que
você tenha uma tendência de assustar gente que não desconfia de nada. Mas
talvez esteja com a razão. O que vamos fazer?
Rhodan fitou a
tela. Defrontava-se com uma decisão difícil. Lá adiante Tiff aguardava a hora
de ser libertado. Não tinha a menor dúvida de que o segundo planeta fora
transformado num inferno. Gucky não conseguiria deter os saltadores para
sempre. E os dois cruzadores pesados comandados pelo major Nyssen não poderiam
prosseguir indefinidamente nos ataques simulados. Etztak não demoraria em
descobrir o logro em que estava caindo. Se resolvesse realizar sua ameaça,
Tifflor e seus amigos estariam perdidos.
De outro lado,
porém, Topthor poderia atacar a Terra com as três naves gigantescas de que
dispunha.
Rhodan preferiu
não enviar uma mensagem radiofônica para prevenir o coronel Freyt. Não queria
trair sua posição. Tinha certeza de que os saltadores estariam em condições de
interceptar a mensagem.
A hesitação de
Rhodan durou apenas um instante. Decidiu fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Ligou o
intercomunicador.
— Atenção, todos
os tripulantes! Posto de combate, atenção! Realizaremos mais um salto.
Distância de duas horas-luz. Depois da rematerialização os transmissores
fictícios de matéria deverão estar prontos para entrar em funcionamento.
Preparem duas bombas de fusão. Exatamente vinte segundos depois será realizado
o salto em direção à Terra. Aguardem novas instruções. É só. Obrigado. Bell
gemeu.
— Vamos pular de
novo? Será que nem temos tempo para descansar?
— Não temos tempo
para descansar.
— Atenção, o
salto será realizado em um minuto.
O cérebro
eletrônico de navegação processou as informações e efetuou a regulagem
automática da intensidade do suprimento de energia.
— Faltam trinta
segundos — disse a voz metálica do robô.
Rhodan
manteve-se rígido na sua poltrona. A mão direita segurava fortemente a chave
que o mantinha em contacto com o posto de combate. Ao lado dele ficava o botão
que acionava o transmissor fictício. Assim que a Stardust-III materializasse,
ela se transformaria num monstro mortífero.
* * *
Etztak teve
bastante inteligência para não deixar que o novo ataque dos cruzadores Terra e
Solar System o distraísse. Uma única de suas naves foi encarregada de responder
ao fogo. E os cruzadores bateram em retirada, conforme se esperava.
Não, desta vez
Etztak não seria tolo para deixar que desviassem sua atenção. Estava prevenido,
à espera de Rhodan.
Os rastreadores
estruturais de sua gigantesca nave, de mais de setecentos metros de
comprimento, trabalhavam a toda potência. E descobriram alguma coisa.
A uma distância
inferior a duas horas-luz houve uma transição. Uma nave devia ter voltado do
hiperespaço, pois o abalo fora negativo. Os cérebros positrônicos entraram em
funcionamento, e dali a poucos segundos Etztak tinha o resultado diante de si.
A uma distância
de exatamente 118,38 minutos-luz uma nave que acabara de percorrer 1.749,89
anos-luz acabara de retornar ao espaço normal e se materializara.
Só poderia ser
Rhodan!
Mais uma vez o
alarma estridente encheu as naves. Todos os canhões de radiações estavam
prontos para disparar. Os campos protetores foram ativados. Etztak mandou que
as naves se agrupassem de tal maneira que um inimigo que surgisse de repente
poderia ser alvejado de todos os lados.
Logo os
rastreadores estruturais registraram outro abalo da estrutura espacial, desta
vez positivo...
...no mesmo
instante Rhodan encontrava-se em meio ao grupo.
A massa da
gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro era maior que a de toda a
frota de Etztak reunida. O tamanho assustador paralisou os saltadores por
alguns segundos preciosos, que nunca mais conseguiriam recuperar.
Uma das naves
dos saltadores explodiu antes que houvesse tempo de disparar um tiro. Explodiu
sem qualquer causa aparente, bem diante dos olhos arregalados de Etztak,
deixando para trás apenas uma nuvem de pó radioativo que se espalhou para todos
os quadrantes. Ninguém poderia imaginar que o transmissor fictício havia
transportado uma bomba atômica de tamanho médio para o arsenal da nave,
fazendo-se explodir ali mesmo.
Etztak abriu
fogo. Todas as peças expeliram raios energéticos que se concentraram sobre o
envoltório protetor da Stardust-III. Mas os raios foram desviados sem produzir
dano. Os geradores da nave arcônida produziam energia suficiente para compensar
o impacto.
Exatamente
quinze segundos depois explodiu a segunda nave de Etztak.
Quase cinco
segundos se passaram antes que Etztak, ofuscado, pudesse abrir os olhos, apenas
para ver a Stardust-III desaparecer. Antes que pudesse recuperar-se da terrível
decepção, os dois cruzadores voltaram ao ataque. Quando viu que Rhodan estava
entrando em ação, o major Nyssen agiu instintivamente. Sabia que a nova arma
fora encontrada e pensou que aquilo já fosse o início do ataque geral.
A Solar System
precipitou-se sobre uma das naves da frota dos mercadores que se encontrava um
tanto afastada das demais. Era dum tipo menor. Nyssen sabia que continha
principalmente compartimentos de carga, sendo bastante reduzido seu armamento.
Por isso mesmo os campos energéticos eram menos potentes. O fogo concentrado do
cruzador rompeu o envoltório protetor e abriu um rombo a bombordo do cargueiro.
Nyssen não teve
tempo para completar a destruição. A Stardust-III desapareceu com a mesma
rapidez com que havia aparecido. Não houve nenhuma mensagem, nenhum aviso,
nada. A imensa nave surgiu que nem um fantasma, e que nem um fantasma voltou a
mergulhar no Universo.
Nyssen ordenou a
retirada.
Deixou para trás
um Etztak confuso, que no momento se sentia bastante desorientado.
Em menos de
vinte segundos perdera três naves.
* * *
Sentado em sua
poltrona superdimensionada, Topthor parecia uma gigantesca posta de carne. As
constelações de estrelas cristalizavam-se, vindas do nada, e transformaram-se
num quadro com que já estava familiarizado.
O salto fora bem
sucedido.
Diante das três
naves de Topthor apresentava-se o sistema solar, cujo terceiro planeta lhe
causava tamanhas preocupações.
Ligou uma chave
e estabeleceu contato com as outras naves.
— Grogham, entre
em contacto com nossa frota. As oito naves de guerra devem estar do lado oposto
do sol. Encontramo-nos a dez horas-luz daqui, sobre uma reta que liga o sol e o
planeta exterior. Dentro de duas horas pretendo realizar uma conferência
audiovisual.
— Cuidarei disso
— prometeu Grogham, vice-comandante da frota de proteção de combate. Também era
um dos chamados superpesados: pesava mais de quinhentos quilos. — Daqui a duas
horas. Vamos destruir o terceiro planeta, Topthor?
— Se não quiserem
aceitar nossa oferta, esses terranos malucos vão pagar por isso. Rhodan está
ocupado com Etztak. Quer dizer que temos tempo.
Topthor estava
muito enganado, mas não desconfiava de nada. No momento em que estava dizendo
essas palavras, três naves de Etztak estavam sendo destruídas. E antes de
terminar a Stardust-III voltou a penetrar na quinta dimensão, para efetuar o
grande salto em direção à Terra.
Rhodan teve a
precaução de se materializar a vinte horas-luz do sol. Sem realizar outra
transição, penetrou em nosso sistema à velocidade da luz. Dessa forma o risco
de ser localizado era bem menor.
Chegou à Terra
sem que sua presença fosse notada e pousou em Terrânia, capital da Terceira
Potência. O coronel Freyt ficou muito surpreso em rever o chefe tão cedo.
Reprimiu uma observação sarcástica pelo fato de Rhodan não lhe ter enviado
qualquer aviso pelo rádio, pois viu que Perry estava com muita pressa. Bell
permaneceu a bordo da Stardust-III, e esta se manteve preparada para decolar a
qualquer instante. Só Rhodan tomou um carro e dirigiu-se apressadamente à sede
do comando situada sob a abóbada energética, a fim de desencadear o alarma na
Terra. Algumas mensagens breves dirigidas aos respectivos governos foram
suficientes para provocar uma ação comum.
A Terra estava
preparada.
E esperava...
* * *
— Seria um
absurdo — concluiu Topthor, olhando os comandantes das dez outras naves, como
que à espera de aplausos — se atacássemos a Terra sem aviso e a destruíssemos.
De que nos serve um planeta destruído, se o mesmo é habitado por uma raça da
qual tanto temos a esperar? — os dez rostos barbudos que se viam na tela inclinaram-se
em sinal de concordância. — Será mais razoável negociarmos com eles. Rhodan
está no sistema situado a trezentos e vinte anos-luz daqui, onde procura dar cabo
de Etztak. Até é possível que com a nova arma ele o consiga. Para nós isso não representaria
qualquer prejuízo, mesmo que fosse eliminado um clã que constitui uma fonte de
lucros para nós. Se nesse meio tempo conseguirmos firmar pé na Terra, teremos
possibilidade de fundar uma colônia bastante rendosa dos saltadores.
— E Rhodan? —
perguntou alguém.
— Rhodan? — um
sorriso largo cobriu o rosto barbudo de Topthor. — Rhodan ficará admirado
quando, depois de ter saído vitorioso na batalha contra Etztak, regressar para
cá e constatar que seu planeta mudou de dono.
Grogham
pigarreou.
— Receio que o
senhor esteja subestimando os terranos — objetou.
Topthor olhou-o
em cheio e parou de sorrir.
— Então sua opinião
é essa? Afinal, temos onze naves construídas especialmente para combater. O que
tem Rhodan para contrapor a isto?
— Tem a nova
arma.
Topthor parecia
não sentir-se muito feliz com a lembrança da destruição fulminante de cinco das
suas naves.
— Se surgir
qualquer dificuldade, poderemos entrar em contacto com nossa base — ponderou. —
De qualquer maneira procurarei conquistar a Terra. Vamos aproximar-nos do
planeta até uma distância de dez minutos-luz e procuraremos estabelecer contacto
pelo rádio. Veremos como reage o pessoal de Rhodan. Tenho certeza de que não
têm nada com que possam defender-se contra nós.
Desta vez não
obteve qualquer resposta.
A frota composta
de onze naves fortemente armadas, nenhuma das quais com menos de trezentos
metros de comprimento, tomou o rumo do sol e dele se aproximou à velocidade da
luz. Depois de ultrapassada a órbita de Plutão, Topthor reduziu a velocidade e
foi-se aproximando sorrateiramente da Terra.
Mas a cautela
revelou-se inútil. Os satélites-espiões já o haviam detectado e prevenido
Rhodan. Depois de tomar as providências indispensáveis, este voltou à Stardust-III
e logo se dirigiu à sala de comando, onde Bell se mantinha à espera.
— Então? —
perguntou Bell. — Como estão as coisas?
— Dei as
instruções necessárias ao coronel Freyt. Ele nos transmitirá eventuais mensagens
dos superpesados. E eu responderei em seu nome. Não devem desconfiar de que já
os esperamos aqui mesmo.
Duas horas
depois a luz de controle acendeu-se. O serviço de rádio da Terceira Potência
era muito eficiente. Topthor acabara de estabelecer contacto com a Terra, mas
não sabia com quem estava falando.
Rhodan tomou a
liberdade de atribuir-se um pseudônimo.
Com dois
movimentos de chave estabeleceu contacto direto. Era um contacto audiovisual,
mas isso não fazia mal. Rhodan conhecia Topthor, mas este nunca havia visto
Rhodan.
A figura maciça
do gigante causava uma impressão profunda, mas não poderia assustar Rhodan.
Conhecia a raça, inclusive suas fraquezas.
— Aqui fala a
Terra — disse em tom indiferente. — O senhor chamou?
Topthor
demonstrou surpresa pelo fato de não se mostrarem surpresos com sua mensagem.
— Queremos entrar
em negociações com os terranos — disse em puro intercosmo, com um ligeiro
sotaque. — O clã poderoso dos surperpesados quer fazer algumas propostas aos
terranos.
— Pode falar.
— Com quem estou
falando? — perguntou Topthor, fitando o rosto de Rhodan.
Este enfrentou o
olhar sem pestanejar.
— Sou o coronel
Freyt, representante de Perry Rhodan no governo da Terceira Potência.
— O que vem a
ser a Terceira Potência?
— É a potência
que representa a Terra.
— Por que não
posso falar com Rhodan?
“Que raposa esperta”, pensou Rhodan,
enquanto Bell, que se encontrou fora do alcance da câmara de TV, esboçava um
sorriso de deboche. “Quer saber se
desconfiamos de alguma coisa.”
— No momento não
tenho meio de entrar em contacto com ele — disse Rhodan. — O que deseja?
— Sabem quem eu
sou?
— Pelo que vejo,
é um monstro — respondeu Rhodan.
— Sou Topthor, o
mais velho do clã.
— Será que
também é o mais inteligente?
Por um instante
Topthor parecia confuso diante de tão estranha pergunta, mas logo se mostrou
furioso. Afinal, os comandantes das outras naves assistiam ao diálogo em que
estava sendo ridicularizado.
— Fazemos comércio
com todos os mundos habitados da Galáxia. Acredito que os senhores tenham algo
a oferecer-nos. Vamos pousar. Informe sua posição.
— Não posso
autorizar o pouso sem que Rhodan o permita. Prefiro que o senhor me forneça sua
posição.
— Forneça as
coordenadas do pouso, senão pousaremos em qualquer lugar.
— Devo interpretar
isso como uma ameaça? Não nos subestime.
Topthor soltou
uma estrondosa gargalhada e passou a mão pela barba.
— Subestimá-los?
Se conseguimos enfrentar Rhodan, seu planeta não representará qualquer problema
para nós.
— Ah — disse
Rhodan. — Então enfrentou Rhodan?
— Isso mesmo. Infelizmente
escapou. Vai fornecer as coordenadas de pouso ou não vai?
Rhodan lançou um
olhar rápido para Bell. Este entregou-lhe um bilhete. Rhodan segurou-o de tal
forma que Topthor podia vê-lo e leu em voz alta.
— Órbita de
Marte — direção Terra. Velocidade: 7.653,3km/seg. Rumo MX-T4 —Rhodan levantou
os olhos. — Daqui a dez minutos poderemos ter um encontro pessoal, Topthor, se
é isso que deseja.
— O que é isso?
O que quer dizer precisamente?
— Os dados que
acabo de fornecer correspondem à sua posição atual, à sua velocidade e direção de
deslocamento. Não pense que só Rhodan tem condições de destruí-lo. E não pense
que ignoramos o que aconteceu no planeta da vida eterna. Finalmente, não pense que
só possuímos uma única nave da classe da Stardust-III.
Foi um blefe,
mas este não deixou de produzir o efeito desejado.
Topthor
estremeceu instintivamente.
— Refere-se à
esfera gigante? — mas logo sorriu. — Terranos, vocês não me afugentarão. Só
Rhodan esteve no planeta da vida eterna, e só ele foi buscar a nova arma.
Os senhores só
possuem armas convencionais, e estas não representam qualquer problema para nós.
— Muito bem.
Vamos fazer a experiência. Mais uma vez recomendo-lhes que nos deixem em paz e
não pretendam impor-nos seu comércio, que nos transformaria numa colônia dos
saltadores. Compreendeu?
— Pousaremos
dentro de uma hora — respondeu Topthor e interrompeu o contacto.
Rhodan fitou a
tela vazia e depois olhou para Bell.
— E agora? Não
querem saber de conversa. Sentem-se seguros enquanto a Stardust-III com a nova
arma se encontra longe. A constatação de que existem várias naves desse tamanho
representa um choque para eles. O sobrevivente revelará o fato aos membros de
seu clã, e a Terra se transformará num dos pontos mais temíveis do Universo. Infelizmente
deve ser assim mesmo, para que possamos atingir nosso objetivo.
Deu algumas
instruções ao coronel Freyt. Depois ligou o intercomunicador da Stardust-III.
— Atenção!
Decolaremos dentro de um minuto. Não se esqueçam das medidas de segurança, pois
a nave será acelerada fortemente ainda dentro da atmosfera. Atenção, faltam
cinqüenta segundos. Não realizaremos nenhuma transição. A ação terá início
exatamente dentro de dez minutos. Atenção, faltam quarenta segundos para a decolagem.
Bell colocou o
cinto largo em torno do ventre avantajado. Seus olhos brilhavam de animação.
— Talvez você
esteja com a razão — disse, vencendo seus escrúpulos morais. —Devemos dar mais
uma lição aos superpesados, se a primeira não foi suficiente.
— Depois disso
iremos o mais rápido possível ao mundo de gelo. Ando muito preocupado com Tiff
e seus amigos.
— E eu me
preocupo com Gucky — confessou Bell, acompanhando o movimento dos ponteiros dos
instrumentos. — Faltam dez segundos.
3
Quando Tiff saiu
da caverna e teve diante de si a paisagem do planeta, não pôde vencer a
surpresa. Só nos cumes das montanhas próximas havia neve, e ainda mais à
direita, nas encostas que não eram atingidas pelo sol. De resto o solo negro
estava livre de neve. Na maior parte era formado de rocha nua, mas vez por
outra Tiff tinha a impressão de que essa rocha tinha algo de familiar.
Mildred Orson
sacudiu a cabeça com tamanha força que os longos cabelos pretos esvoaçavam.
Fazia um frio terrível, mas por alguns minutos suportava-se o mesmo. Além disso,
parecia que o impacto direto do sol e a proteção da rocha tornavam o ar menos
gélido.
— Não parece tão
mau assim — disse em tom alegre, embora por dentro não se sentisse nem um pouco
alegre. — Não seria de estranhar se aqui existisse vida.
— Por enquanto
só estamos interessados em nossa própria vida — respondeu Tiff com um sorriso.
Sabia que Mildred sentia certa inclinação por ele, tendo vencido todas as
incertezas. Por Hump parecia sentir apenas compaixão. Isso fez com que
Felicitas respirasse aliviada, pois até então seu amor por Hump parecia não ter
a menor esperança. O único que parecia não perceber nada desse jogo complicado
era Eberhardt. Entendia-se perfeitamente com todos e ficava satisfeito, desde
que o deixassem em paz.
— Tiff, você
acredita que Rhodan chegará em tempo para libertar-nos? — perguntou Felicitas
um pouco amedrontada. O medo fazia parte de sua natureza. — Por que os
mercadores ainda não nos atacaram?
— Por enquanto têm
problemas que chega — conjeturou Tiff. — Gucky já lhes deu muito trabalho.
— Que seria de
nós se não tivéssemos Gucky?
Tiff riu.
— Ora,
Felicitas, até parece que você está apaixonada por Gucky.
— De certa forma
todos nós estamos, não é verdade, Milly?
A moça acenou
com a cabeça de cabelos negros e fechou o capacete do leve traje espacial. Ao
mesmo tempo ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo.
— Estou sentindo
frio. — disse. — Não se agüenta isto por muito tempo sem o traje protetor.
Morreríamos de frio.
— É um mundo
hostil — observou Felic, apontando para o vale onde havia algumas manchas de
neve. — E seria hostil mesmo que não tivéssemos que temer um ataque dos
saltadores.
— Com qualquer
mundo pode-se fazer alguma coisa — objetou Tiff sem tirar os olhos do céu. —
Até mesmo com este. Pensem na lua, senhoritas. Lá nem sequer existe ar.
— Acontece que
não fica tão longe da Terra — disse Molly, ressaltando um ponto muito
importante. — Isso parece ser um fator decisivo.
Tiff não
respondeu. Por um instante teve a impressão de ter visto um ligeiro relampejo
no verde-azulado do céu, mas logo concluiu que devia ter-se enganado.
Dirigiu-se a Milly e colocou o braço em torno de seus ombros.
— A distância só
tem um significado simbólico; não produz qualquer efeito prático. No mundo
podemos sentir-nos mais solitários que aqui, a trezentos e vinte anos-luz da
Terra.
— Vamos até o
riacho? — sugeriu Milly.
— Parece fazer
uma eternidade que não vejo um riacho.
Caminharam
lentamente sobre a rocha escura, que formava um contraste acentuado com os
restos de neve. No ribeirão havia blocos de gelo, mas o chão parecia irradiar
tanto calor que a corrente de água não se congelou totalmente. As ondas
brincavam alegremente. Há pouco ainda eram gelo, e logo voltariam a sê-lo.
Felic
abaixou-se; em sua voz soou o espanto.

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