segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-033 - Mundo de Gelo em Chamas - Clark Darlton [parte 1]



Autor:
CLARK DARLTON



Tradução:  
RICHARD PAUL NETO



Digitalização:
DENISE BARTOLO



Revisão:
GANDALF01







Os saltadores não conhecem piedade: condenaram um mundo inteiro à morte.
Conflitos na Terra, invasões vindas do cosmos, batalhas espaciais, lutas travadas em planetas distantes, tudo isso a Terceira Potência — criada por Perry Rhodan e ajudada pela antiqüíssima técnica arcônida — conseguiu enfrentar galhardamente em sua curta existência.
Mas os saltadores — uma raça de descendentes dos arcônidas que há oito milênios detém o monopólio comercial na Galáxia, porque reprime implacavelmente qualquer concorrência que se esboce — representam uma ameaça muito séria.
Perry Rhodan tinha feito tudo que estava ao seu alcance para impedir que os saltadores transformassem a Terra numa colônia. Seus cruzadores espaciais realizaram ataques simulados contra a frota reunida dos saltadores, enquanto ele mesmo saiu na Stardust-III em busca do planeta do Imortal, onde espera encontrar uma nova arma que possa ser empregada na luta contra os saltadores.
Já teve que recorrer a essa nova arma, e mais uma vez terá que recorrer a ela, pois Etztak faz do planeta Homem de Neve um Mundo de Gelo em Chamas.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — Soberano da Terceira Potência e comandante da Stardust-III.

Reginald Bell — Amigo íntimo e representante de Perry Rhodan.

Julian Tifflor, Humpry Hifield, Klaus Eberhardt, Mildred Orson, Felicitas Kergonen e RB-013 — Náufragos do mundo de gelo.

Topthor — Que já vê na Terra uma colônia dos saltadores.

Etztak — Patriarca e chefe guerreiro do clã de Orlgans.

Orlgans — Que encontra seu túmulo no mundo que ele mesmo condenou à morte.

Gucky — O executor de uma sentença.

1



Embora aquela criatura se parecesse com um homem, não nasceu na Terra. Mais do que isso, nunca havia visto a mesma e nem sabia exatamente em que lugar descrevia sua órbita em torno do seu pequeno sol.
Sua pátria era o espaço, seu lar a gigantesca nave que, com seus setecentos metros de comprimento, era a mais fortemente armada dentre as de seu clã. Era velho, muito velho. A enorme juba de cabelos cor de gelo emoldurava um rosto moreno, no qual se via um par de olhos duros e implacáveis, que já havia visto milhares de sóis. Os lábios estreitados davam mostras de um caráter acostumado a mandar, e que não admitia o diálogo.
Etztak, o patriarca do clã, estava prestes a incorporar mais um sistema solar ao grande império mercantil dos saltadores.
Aquela raça era chamada de saltadores porque, tendo o Universo por lar, saltava de um sistema solar para outro, a fim de consolidar e ampliar seu monopólio comercial. Eram descendentes dos arcônidas, uma raça humanóide que já erigira um enorme império, e vivia na ilusão de que ainda hoje dominava o mesmo. Há muito os saltadores haviam conseguido a independência, e não davam a menor satisfação aos arcônidas. Negociavam e lucravam e, quando isso se tornasse necessário, também lutavam.
Era o que estava acontecendo naquele momento.
Etztak estreitou os lábios ainda mais ao ver na tela o rosto de seu companheiro de clã, Orlgans, que se encontrava a poucos minutos-luz na sua nave Orla XI.
— O que houve? Mais um ataque desses malditos terranos?
Orlgans era parecido com Etztak. Apenas, seus cabelos não eram cor de gelo; eram mais escuros, de cor marrom ou de um ruivo sujo, conforme a incidência da luz. Foi quem primeiro tentou incorporar a Terra ao império colonial dos saltadores.
— Outro ataque? — soou a voz furiosa vinda do alto-falante. — Não sei se é outro ataque ou se ainda é o mesmo. De qualquer maneira, não houve uma pausa maior. Não compreendo. Por que será que esses terranos não sabem agir com coerência? Atacam, disparam alguns tiros e batem em retirada antes que se consiga destruí-los.
— Acha que isso é uma incoerência? — berrou Etztak com uma sonora gargalhada. — Para mim isso é uma ação inteligente e cautelosa. Sabem perfeitamente que somos superiores a eles.
— Talvez — obtemperou Orlgans com um rosto zangado. — Talvez não.
— No momento está havendo uma pausa. Temos um número suficiente de naves para destruir as duas unidades dos terranos, desde que planejemos nossa ação. Eles apenas querem deter-nos, ou distrair-nos de alguma coisa.
— De quê?
— Se eu soubesse me sentiria mais à vontade — respondeu Etztak, contrariado.
— Por que defendem um sistema solar que, segundo todos sabem, é desabitado e fica a trezentos e vinte anos-luz de sua pátria? Devem ter algum motivo para isso. Esse Rhodan nunca faz nada sem ter um motivo.
Orlgans não respondeu logo. Lançou um olhar pensativo para o gigantesco sol alaranjado, que flutuava no espaço, bem ao longe. Um acompanhante azul gravitava em torno dele. Quatro planetas descreviam órbitas excêntricas em torno dos dois sóis.
O sistema do sol geminado de Beta-Albíreo, situado a 320 anos-luz da Terra, não tinha a menor importância nem oferecia qualquer interesse, a não ser...
— Você se esquece de que ele tem um motivo — disse Orlgans depois de algum tempo. — No segundo planeta do sistema estão alguns humanos que sabem muito mais do que confessaram. Rhodan quer impedir que eles caiam nas nossas mãos.
— Se é assim, por que não os mata?
— Talvez... — Orlgans achou que a suposição era tão fantástica que nem se atrevia a enunciá-la.
— Talvez o quê? — insistiu o patriarca.
— Talvez sejam amigos que ele não quer matar.
Mais uma vez Etztak soltou uma estrondosa gargalhada.
— Amigos! Quem se preocuparia com uma coisa dessas, quando algo muito mais importante está em jogo? Se ele os matasse, teria certeza de que não revelariam seus segredos.
Orlgans não respondeu. Já tivera suas experiências com seres humanos, e sabia que muitas vezes estes encaram as coisas de forma muito diversa que os implacáveis saltadores.
Etztak lançou um ligeiro olhar para as telas de observação. Verificou que sua frota circulava em torno do segundo planeta de Beta-Albíreo, mantendo uma impecável formação de combate. Uma ruga vertical surgiu em sua testa. Refletiu, e o resultado de suas reflexões não parecia deprimi-lo demais.
— Só há cinco terranos naquele mundo de gelo, três homens e duas moças. Pelo que constatamos, trazem um robô com eles. Trata-se de um robô arcônida de combate. Não compreendo por que todas as tentativas de destruir esses cinco humanos falharam.
— Porque ainda tínhamos uma esperança de capturá-los vivos. Sabem coisas que poderão ser muito úteis para nós. Só por isso.
Orlgans sacudiu a cabeça.
— Você sabe tão bem quanto eu que não adiantaria nada matar esses terranos, especialmente o tal do Tifflor. É bem possível que este até conheça a posição do planeta da vida eterna, sobre o qual falam as lendas...
— Não estou interessado em lendas, apenas em fatos — interrompeu o patriarca.
— O planeta da vida eterna não passa duma lenda. Se existisse, nós já o teríamos encontrado. Mas por outro lado gostaria de saber por que Rhodan ainda não encontrou nenhuma possibilidade de salvar as cinco pessoas que se encontram no mundo de gelo.
Orlgans também estreitou os olhos. Uma expressão estranha surgiu em seu rosto. Parecia um cachorro que encontra uma pista farejada há bastante tempo.
— Talvez Rhodan queira distrair nossa atenção dele mesmo. Por que suas naves só nos atacam de vez em quando, e nunca se envolvem numa luta decente? Por que apareceu o tal do Tifflor, que parece saber tanto e na verdade não sabe nada? Por que somos obrigados a concentrar todos os recursos na tarefa de capturar Tifflor e seu grupo? É bem possível que tudo isso não passe dum truque infame desse terrano chamado Rhodan.
Etztak ouvira-o em silêncio. A ruga de sua testa aprofundou-se. Um brilho pensativo surgiu em seus olhos implacáveis. Acenou lentamente com a cabeça e ergueu as duas mãos, o que representava um sinal de concordância.
— Talvez suas suposições sejam corretas. Mas se é que Rhodan quer nos deter e distrair, por que está interessado nisso? Qual é a finalidade que tem em vista?
Orlgans não soube responder.
— Não sei. Acho que devemos fazer mais uma tentativa decisiva de capturar ou matar os cinco terranos que se encontram no mundo de gelo. Quer que incumba algumas naves dessa tarefa?
— Três naves serão suficientes — disse Etztak. — Faça com que a superfície do mundo de gelo se transforme num inferno de fogo. Se os terranos não forem queimados, deverão morrer nas rochas derretidas.
— Não seria melhor capturá-los vivos?
— Talvez não — disse o patriarca. — O que importa é provarmos a Rhodan...
Não pôde completar a frase, pois o alarma encheu a nave.
As duas unidades de Rhodan voltaram a atacar.

* * *

O major Nyssen, comandante do cruzador pesado Solar System, mantinha constato radiofônico permanente com o capitão MacClears, comandante da nave-gêmea Terra.
Os dois veículos espaciais esféricos tinham duzentos metros de diâmetro e estavam equipados com as armas mais avançadas da técnica arcônida. Gigantescos reatores criavam campos energéticos protetores, que não podiam ser rompidos nem mesmo pelos raios disparados pelas naves dos saltadores.
— Vamos lançar mais um ataque, MacClears — gritou Nyssen para seu colega. — Se Rhodan não aparecer logo, acabarei enlouquecendo. Um dia aqueles sujeitos acabarão nos pegando. E nem me atrevo a conjeturar sobre quanto tempo Tiff ainda agüentará viver no mundo de gelo.
— Não gostaria de estar no seu lugar — confessou o capitão.
— Eu cuidarei do pepino-gigante do patriarca Etztak. O senhor atacará a nave que está logo ao lado. E não se esqueça: disparamos uma salva e damos o fora. Não devem ter tempo de nos eliminar com uma descarga concentrada de seus radiadores, e muito menos devem ter oportunidade de demonstrar um interesse excessivo por Tiff.
— Entendido — respondeu MacClears com um sorriso. — Faremos isso mesmo.
Os dois cruzadores aceleraram, saíram da sombra projetada pelo planeta e poucos segundos depois viram-se diante das naves dos saltadores, pegadas de surpresa. Uma salva dos mortais radiadores de energia bateu contra o campo energético do inimigo, sendo desviada sem produzir qualquer dano. De qualquer maneira o súbito ataque preencheu a finalidade de retardar mais uma vez a execução dos planos dos saltadores. E Rhodan ganhou mais um pouco de tempo, embora não o soubesse.
Naquele instante Rhodan se encontrava a mais de 1.750 anos-luz, e dispunha-se a iniciar a transição.
Com a mesma rapidez com que se lançaram ao ataque, os cruzadores pesados Terra e Solar System bateram em retirada. Em hipótese alguma podia-se arriscar as duas naves, pois no momento eram a única coisa que a Terra poderia opor aos agressores vindos das profundezas do Universo. Era bem verdade que a Terra se encontrava a uma distância de 320 anos-luz, mas isso não representava nada, já que distâncias bem maiores que esta podiam ser vencidas numa questão de segundos através do processo da transição.
Naquele momento o planeta Terra estava prestes a alcançar a unificação geral. A formação dum governo mundial seria uma questão de dias. O coronel Freyt, representante da Terceira Potência, faria tudo para quanto antes transformar em realidade o governo mundial.
O surgimento dos mercadores galácticos, também chamados de saltadores, não podia ser comparado com as invasões antes ocorridas. Fora possível repelir os Deformadores Individuais, porque a Terra lhes era superior no terreno da tecnologia. E os tópsidas, seres em forma de lagarto que surgiram no sistema de Vega, também não representaram um perigo muito grande.
Mas com os saltadores as coisas eram diferentes.
Aquela raça poderosa, que por uma circunstância trágica teve sua atenção despertada para a Terra com seu poderio crescente, era superior em todos os sentidos. Era estreitamente aparentada com os antigos senhores do Universo, os arcônidas. Tinham suas armas e conheciam seus métodos — e suas fraquezas.
Viam na Terra, e especialmente em Rhodan, um perigo para seu monopólio comercial. Teriam que forçá-lo a submeter-se à sua vontade, ou destruí-lo.
Mas isso não parecia ser muito fácil.
Defrontavam-se com um inimigo praticamente igual em forças.

* * *

Uma coisa que nem os terranos nem o clã dos saltadores chefiado por Etztak sabiam era que o conflito contava com mais um participante. Alertado pelos sucessivos abalos provocados pelas transições, Topthor resolvera intervir.
Topthor, que também era um saltador, pertencia ao chamado clã dos superpesados. Em tempos remotos seus antepassados viveram num planeta de gravitação muito intensa. No curso dos milênios esses descendentes dos arcônidas perderam a figura humanóide, pois cresceram em largura e diminuíram em altura. Atualmente os superpesados não mediam mais de 160 centímetros, e sua largura era a mesma. Pesavam mais de quinhentos quilos.
Topthor dispunha de oito naves, que circulavam em torno do sistema solar, além da órbita de Plutão. Com outro grupo de oito naves seguira Rhodan quando este se dirigia ao planeta da vida eterna. Quando Rhodan regressou de sua visita ao mundo artificial e invisível, Topthor lançou-se ao ataque contra ele, mas foi surpreendido por uma nova arma e teve destruídas cinco de suas naves. Topthor fugiu em pânico mas, antes de mergulhar numa transição cega, teve tempo de enviar uma mensagem pelo rádio ao seu companheiro de raça. Rhodan não pôde impedir que isso acontecesse, embora conhecesse o teor da mensagem dirigida a Etztak.
A 1.500 anos-luz do sistema de Beta-Albíreo, as três naves de Topthor emergiram do hiperespaço. Levaram horas para calcular a posição e determinar as coordenadas do próximo salto.
O dirigente do clã dos superpesados, chamado Topthor, pretendia voltar ao sistema no qual a Terra gravitava em torno de seu sol como terceiro planeta. Ainda dispunha dum total de onze naves. Com elas poderia destruir a Terra, se assim o desejasse.
Mas com isso destruiria uma colônia bastante rendosa. E Topthor era antes de tudo um negociante, muito embora seu clã cuidasse mais da proteção de comboios que do comércio. Os outros mercadores recorriam à sua frota de guerra quando as coisas esquentavam em algum lugar — e pagavam pelo auxílio.
Mas agora surgira a oportunidade de fundar sua própria colônia. Além disso, Rhodan lhe devia cinco naves.
Por isso Topthor ordenou o salto de volta para o sistema solar.
Além de serem muito reduzidas as forças da Terceira Potência, naquele momento a Terra estava praticamente indefesa.

* * *

A cada 123 anos havia no segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo uma era glacial, que durava perto de oitenta anos. Esse fato era devido à órbita excêntrica, que por sua vez tinha sua origem nos dois sóis. O astro central, um gigante alaranjado, ficava a um bilhão de quilômetros do segundo planeta, enquanto o sol azul distava mais trezentos milhões de quilômetros. Na posição em que se encontravam, a luz e o calor fornecido pelos mesmos eram tão reduzidos que no mundo de gelo — era este o nome dado ao segundo planeta — reinava um crepúsculo constante, e a temperatura média era de cento e dez graus centígrados abaixo de zero.
O inferno de gelo era um inferno, mas um inferno muito frio.
Apesar disso nele viviam seres humanos. Ao fugirem dos saltadores, realizaram um pouso de emergência nesse mundo e tiveram sua nave destroçada. Dali em diante estavam condenados a esperar, inativos, naquele mundo morto e desolado. Mas sabiam que Rhodan não os havia esquecido, e que um dia viria buscá-los.
Julian Tifflor, chefe do grupo de náufragos, tinha vinte e um anos e era considerado o melhor matemático da Academia Espacial, da qual saíra com distinção depois de seis semestres de treinamento hipnótico. Dali em diante passou a servir na frota espacial da Terceira Potência. Desta vez a missão lhe fora confiada pessoalmente por Rhodan. Ele mesmo não sabia muito bem qual seria a finalidade da missão.
O segundo membro do grupo que se encontrava no mundo de gelo era Humpry Hifield. Tinha vinte anos e cabelos cor de palha cortados à escovinha. Considerava-se uma beleza irresistível. Por isso não compreendia como Tiff lhe arrebatara Mildred Orson, uma moça de dezenove anos. Vivia atormentado pelo receio de não ser notado e, apesar de sua superioridade física, os complexos de inferioridade martirizavam-no constantemente. Era este, somente este o motivo da inimizade secreta que nutria para com Tiff.
O cadete Klaus Eberhardt era o terceiro participante da expedição, que esperava naquele mundo desolado que o salvassem. Tinha cabelo castanho-escuro e era meio baixo e gordo. Sempre precisava de muito tempo para resolver qualquer problema. As reações rápidas não constituíam seu forte.
Mildred Orson, bacterióloga cósmica, tinha razão de sobra para orgulhar-se de seu cabelo negro, seus olhos escuros e seu rosto fino e estreito. Ainda não conseguira decidir-se por nenhum de seus fãs, Tiff e Hump, mas tudo indicava que a situação estava mudando. Dera a entender a Hump que preferia Tiff.
Ainda havia Felicitas Kergonen, uma botânica galáctica de cabelos louros e figura delicada. Dedicava um amor secreto ao grosseiro Humpry que, segundo tudo indicava, nem desconfiava dessa inclinação. Felic já completara dezoito anos, sendo o membro mais jovem da expedição frustrada.
Com exceção de Gucky.
Gucky, é bom que se ressalte, não era um ser humano, e ninguém sabia sua idade. O rato-castor de um metro de comprimento vinha dum planeta distante, onde soubera introduzir-se sorrateiramente na nave de Rhodan. Dali em diante nunca mais saíra de junto dele, a não ser que alguma missão importante o obrigasse a tanto. A figura de Gucky lembrava a dum camundongo grandemente ampliado com a cauda achatada dum castor. O que chamava mais a atenção era o solitário dente-roedor, que aparecia principalmente quando Gucky sorria.
No momento não havia nenhum motivo para isso.
Gucky distinguia-se principalmente por suas capacidades quase inacreditáveis, que dele faziam o mais espantoso dos paradotados. O rato-castor, tão engraçado e aparentemente tão inofensivo, era um excelente telepata, e por isso mesmo estava em condições de aprender com a maior rapidez as línguas usuais. Além disso, dominava a teleportação, ou seja, podia transportar-se em qualquer tempo para o lugar que desejasse. Finalmente Gucky era um telecineta. A força de seu espírito permitia-lhe mover objetos, inclusive seres humanos, sem tocá-los.
Essas faculdades só se revelaram integralmente no curso dos últimos meses, pois no início de sua amizade com Rhodan, e especialmente com Bell, só conhecia a telecinésia. Mas o contacto permanente com os membros do exército de mutantes permitira a Gucky o aperfeiçoamento de suas qualidades. Tinha certeza de que no curso do tempo ainda descobriria outras faculdades, que por enquanto jaziam adormecidas.
O estranho ser peludo era dotado duma espantosa capacidade de adaptação. Quase não se importava com o frio intenso do planeta morto. Podia manter-se fora do alojamento, mesmo sem traje espacial, respirando o ar gélido. Naquele mundo gelado só havia um ser que neste ponto podia ser comparado a ele.
Mas pode um robô ser considerado um ser?
RB-013 tinha 2,30 metros de altura e era dotado de duas enormes pernas e quatro braços, sendo que o par de braços inferiores era formado por radiadores energéticos completos. Pertencia ao equipamento permanente dos destróieres de três homens. Só ele conseguira salvar os náufragos depois do pouso de emergência realizado naquele planeta. Só com seu auxílio puderam derreter a rocha, formando uma caverna habitável na superfície gelada do planeta. RB-013 não sabia apenas lutar; também era um trabalhador competente e incansável.
Depois que Bell, numa aventura arriscada, colocara Gucky no mundo de gelo para ajudar Tiff e os membros de seu grupo, a situação tornou-se menos penosa para os membros do grupo, muito embora os ataques constantes dos saltadores desgastassem seus nervos. De qualquer maneira dispunham de equipamentos e provisões de mantimentos que lhes permitiriam agüentar por algum tempo.
Sentado sobre uma caixa, num dos cantos do recinto, Gucky deixou que a bondosa Felicitas Kergonen lhe acariciasse a barriga.
— Você é um anjo — chiou com a voz incrivelmente aguda. — Tenho inveja do homem que for seu marido.
— Tomara que ele também se contente com uma simples carícia na barriga — observou Humpry Hifield em tom sarcástico.
— Seu invejoso! — obtemperou Klaus Eberhardt, que reagira com uma rapidez extraordinária. — Se fosse uma moça, eu também não...
— Acontece que não é! — objetou Humpry. Em sua voz não havia nenhum calor, embora o ar na caverna fosse bastante morno.
O robô construíra uma pequena comporta de ar, o que lhes permitia abrir ao menos o capacete quando se encontravam no interior da caverna.
— Será que vocês não sabem calar a boca? — interveio Tiff. — Devíamos preocupar-nos com coisas mais importantes que essas discussões fúteis e intermináveis. Se os saltadores conseguirem localizar o robô, eles nos mandarão uma carga de gás. Já removeram a capa de gelo de metade da superfície do planeta, e podemos dar-nos por satisfeitos porque ainda não morremos afogados.
— Felizmente a caverna fica em cima dum morro. Ou será que não fica? — perguntou Humpry em tom atrevido.
— Se bombardearem o morro com os canhões de bordo, o que acontecerá, Hump?
Hump não respondeu. Gucky gemeu:
— Ainda bem que sou o único telepata por aqui.
Tiff lançou-lhe um ligeiro olhar e não se interessou mais por Hump. Estava começando a ficar enjoado de tudo aquilo, e falaria sem rebuços a Rhodan, se...
Sim, se...
De repente Gucky levantou-se. O pêlo da nuca arrepiou-se. Afastou lentamente a mão de Felicitas e inclinou a cabeça, como se escutasse atentamente. Tiff notou. Fitou o rato-castor. Depois de algum tempo não agüentou mais.
— Houve alguma coisa, Gucky?
— Acho que sim, Tiff. Voltam a atacar.
Desta vez são três naves. E estão indo tão devagar que até chego a desconfiar.
— Você consegue vê-las?
Há tempo o tratamento formal “o senhor” fora deixado de lado.
— Um instante — disse Gucky, e desapareceu.
As pessoas que se encontravam na caverna olharam-se espantadas. Mais uma vez o rato-castor se teleportara para o exterior, a fim de sondar o terreno.
Klaus Eberhardt estava abrindo a boca para dizer alguma coisa, quando Gucky voltou a materializar-se no interior da caverna.
Seu pêlo marrom estava coberto de neve.
— Temos que dar o fora! — chiou com a voz nervosa. — Dentro de um minuto esta montanha será transformada num inferno.
Os saltadores me viram. Consegui destruir uma de suas naves.
— Destruiu uma nave? — disse Hump com a voz ofegante.
— Deixemos isto para mais tarde — respondeu Gucky. — Ainda bem que aproveitei o tempo em que estive lá fora para procurar outro esconderijo. Eu os levarei para lá. Imediatamente. Fechem os olhos, se quiserem — e os capacetes. A caverna para a qual vamos ainda não tem comporta.
— Uma comporta? — disse Tiff espantado. No mesmo instante desapareceu sem deixar vestígio. As duas moças seguiram-no dali a um segundo. Depois foi a vez de Eberhardt e Hump. Finalmente foi transportado o robô e as caixas de equipamentos.
Até parecia obra de feitiçaria.
A atuação de Gucky era estranha e incompreensível como a dum fantasma. Mal surgia do nada e pegava uma peça de equipamento, desaparecia juntamente com a bagagem. O fenômeno repetia-se com tamanha rapidez que causava pavor até mesmo a alguém que conhecesse as faculdades do rato-castor. Nenhum teleportador trabalhava com tamanha rapidez; para Gucky isso não passava de brincadeira...
As pessoas atingidas pelo fenômeno nem percebiam a viagem. Conservavam a forma natural do corpo, mas o transporte era tão rápido que os órgãos dos sentidos não tinham tempo de captar qualquer impressão, por mais fugaz que fosse.
Enquanto ainda exalava o ar, Tiff viu-se num recinto escuro como breu. Apressou-se em fechar o capacete, pois fazia um frio terrível.
Virou-se e percebeu uma débil luminosidade, vinda de longe. Devia ser a entrada da caverna. Não saberia dizer a que distância ficava de seu esconderijo anterior, pois a distância percorrida por teleportação não se revela na duração do percurso.
Numa questão de segundos os companheiros foram surgindo na escuridão. Ele o sentiu mais do que o via. Mas quando RB-013 acendeu a lanterna constatou que todos se encontravam ali.
Apenas Gucky estava ausente.
O fato não deixou Tiff muito preocupado.
— Provavelmente quer ver o que está acontecendo com nosso antigo esconderijo — conjeturou. — É uma pena que tenhamos de construir outra comporta. Aliás, aqui não existe gelo, apenas a rocha nua. Acredito que desta vez Gucky nos levou ao equador, onde ainda existem trechos sem neve e gelo. Tenho a impressão de que não faz muito frio.
— Sim — disse Hump em tom sarcástico. — Em vez dum frio de cento e dez graus devemos ter apenas noventa graus.
A voz fria e metálica do robô interveio na conversa.
— Temos exatamente quarenta e sete graus centígrados abaixo de zero. Se eu ligar o aquecedor, poderemos dispensar a comporta. Basta fecharmos a entrada com as caixas de equipamentos.
Tiff fez que sim.
— É uma boa sugestão. Vamos ao trabalho.
— E Gucky? — perguntou Klaus Eberhardt.
Hump lançou-lhe um olhar presunçoso.
— Seu idiota! Desde quando Gucky pode ser detido por um montão de caixas?
Eberhardt esteve prestes a responder, mas não teve tempo. De um instante para outro Gucky estava de volta.
— Nem queiram saber! — exclamou, e sua voz fina tremia de excitação. — Nunca me esquecerei do espetáculo que acabo de contemplar. Derreteram nossa montanha de gelo. Consegui destruir uma das naves atacantes. Teleportei para dentro da sala do comandante e quase arranco a barba ruiva do comandante. O sujeito levou um susto tão grande que perdeu o controle e bateu com toda força na primeira montanha de gelo. Metade da nave desapareceu no interior da mesma. Não acredito que alguém tenha escapado com vida, pois a duas naves que restaram esforçaram-se para volatilizar o colega. Não sei se sua tática não admite sobreviventes. De qualquer maneira consegui abandonar a nave no último instante e cuidar da segurança de vocês. Voltei imediatamente. As duas naves preparavam-se para transformar nossa caverna de gelo num mar de chamas. Teríamos morrido queimados ou afogados; nem tenham a menor dúvida. Consegui destruir mais um dos saltadores. Teleportei para o arsenal de armas nucleares e fiz detonar uma bomba atômica. Infelizmente não consegui salvar nossa nave auxiliar.
— Quer dizer que apenas uma das naves conseguiu escapar? — indagou Tiff, que já não parecia tão abatido. — Gucky, não sei o que seria de nós se não tivéssemos uma pessoa como você.
— Queira fazer o favor de não me ofender — disse Gucky em tom sério, mas exibiu seu dente roedor, o que provava que suas intenções não eram tão sérias assim. — Não costumo chamar vocês de rato.
Tiff sorriu.
— Afinal, onde estamos?
— Uns quinhentos quilômetros ao sul do nosso esconderijo anterior. Este mundo de gelo tem aproximadamente o mesmo tamanho da Terra, mas sua gravitação é mais reduzida. Dali se conclui que a densidade do planeta é menor. Estamos numa caverna de rocha natural, nas proximidades do equador. Dificilmente os saltadores nos encontrarão aqui; afinal, duzentos metros de rocha não são nenhuma bagatela.
— Você usa cada expressão! — queixou-se Hump. — Logo se vê que Bell lhe deu aulas de lingüística.
— Não fale mal de Bell — disse Gucky em defesa do amigo. — As expressões que ele usa são mais bonitas que as suas.
— Quer dizer que estamos embaixo do solo? — perguntou Tiff.
Gucky sacudiu a cabeça de rato.
— Não é bem isso. Estamos no interior duma montanha. Mas estamos cercados de rocha maciça; não há gelo. Vamos instalar-nos confortavelmente, e seria ridículo se não agüentássemos por aqui até que Rhodan venha buscar-nos. Se ele vier buscar-nos, você terá cumprido sua finalidade.
De repente Tiff despertou.
— Minha finalidade? Que finalidade é esta?
Gucky sorriu. Seu dente roedor parecia projetar um reflexo desavergonhado sobre Tiff.
— O cilindro implantado em você tem um alcance de dois anos-luz. Quer dizer que nossos telepatas saberão a qualquer momento onde procurá-lo. Acontece que os saltadores acreditam que você conhece uma porção de segredos, motivo por que deixaram distrair-se, não se interessando por Rhodan. Este foi ao planeta da vida eterna e trouxe uma nova arma, pois já não tinha condições de enfrentar os saltadores. Quando voltar, terá a nova arma. Não é uma explicação bem plausível?
— Sem dúvida — confessou Tiff. Seu rosto não parecia muito inteligente. — Quer dizer que todo este tempo apenas servi de isca para os saltadores?
Gucky continuava a sorrir.
— Não se preocupe. A mesma coisa aconteceu comigo e com os outros. — Subitamente tornou-se sério. — O importante é que Rhodan consiga a nova arma, pois sem ela a Terra estaria perdida.
— Acontece que ainda não a conseguiu! — objetou Hump.
— É verdade — respondeu Gucky. — O que afirmei foi que ele estará com ela quando aparecer aqui para libertar-nos. Até lá devemos ter paciência. De resto, espero que aqui terei maior facilidade em entrar em contacto com os sonolentos. Nas proximidades do equador sua capacidade de concentração deve ser maior.
— Os sonolentos? — perguntou uma das moças, que até então não participara do debate.
— Isso mesmo, Milly. É o nome que dei aos habitantes deste planeta. Ainda não vimos nenhum deles, mas consegui captar seus pensamentos. São pensamentos confusos, mas muito inteligentes. Moram sob a superfície, embaixo do gelo, e pelo que soube costumam vir para cima no verão extremamente curto, quando o gelo derrete. Isso só deverá acontecer daqui a alguns decênios.
Tiff sacudiu a cabeça.
— Nunca seria capaz de acreditar que num mundo como este pode existir vida.
— Ainda não sabemos se é uma vida no sentido que nós atribuímos ao termo — disse Gucky, desapontando o entusiasmo.
— É possível que dentro em breve consigamos saber. Procurarei estabelecer contacto com eles. Mas antes de mais nada vamos construir uma muralha contra o frio. Usaremos nossas mãos, pois o exercício nos fará muito bem.
— Depois disso — disse Tiff — quero dar um passeio na superfície.
— Também irei — observou Mildred apressadamente.
— Eu também — cochichou Felicitas.
Gucky não se dispôs a acompanhá-los.
— Poderão ir assim que tivermos terminado nosso serviço. Nosso robô produzirá calor suficiente para tornar a vida agradável. Lá fora basta ligar o aquecedor do traje espacial para a metade de sua potência. O capacete espacial não é indispensável. Vamos ao trabalho!
Bem por dentro, Tiff não estava muito admirado pelo fato de que o rato-castor tirava quase toda a responsabilidade de cima dos seus ombros. Por mais estranhável que isso pudesse parecer, na verdade não havia motivo para isso. Gucky era o ser parapsicológico mais capaz de todo o exército de mutantes. Era um dos membros mais importantes do grupo de combate que no momento estava engajado na defesa da Terra. Na verdade, Gucky não era um ser humano; mas os membros da frota espacial já haviam compreendido que o julgamento de qualquer ser não deve depender de seu aspecto exterior.
Ao olhar para Tiff, Gucky manteve a cabeça ligeiramente inclinada.
— Que problema difícil, não é? — disse com um sorriso insolente. — Não se preocupe sem necessidade. Apenas quero ajudar antes que você perca a coragem. Toda a responsabilidade pesa sobre você, que é o chefe do grupo. Vim apenas para apoiá-los. Se vez por outra fico distribuindo as tarefas, isso acontece apenas porque o tédio não deve nascer entre nós. Na situação em que nos encontramos, não há nada que possa ser tão perigoso como pensar demais.
— Está bem — disse Tiff com um sorriso de gratidão. — Estamos entendidos.
Carregaram as caixas em direção à saída e, mais ou menos na metade do caminho, fizeram uma parede com as mesmas. Deixaram livre uma pequena passagem, fechada com um cobertor. Assim o frio não penetraria tão depressa.
Satisfeito, Gucky esfregou as patas.
— Podem dar seu passeio. Hump cuidará da comida. Eberhardt lhe dará uma mão, sua estatura prova que cozinha muito bem. Quanto a mim...
— Deixe de fazer alusões à minha figura — queixou-se o cadete. — Afinal, não tenho culpa de não ser muito magro.
— Seu bajulador — berrou Hump, soltando uma estrondosa gargalhada. — Não é de admirar que engorda a cada dia que passa. Vive devorando rações duplas. Ainda bem que temos comida que chega...
— ...quanto a mim, farei um reconhecimento no fundo da caverna — disse Gucky, sem deixar que o desviassem. — Talvez descubra algo de interessante.
Naquele instante nem desconfiava de que sua suposição seria plenamente confirmada pelos fatos.


2



Etztak esbravejou de raiva quando o comandante, ao regressar, o informou de que duas das três naves que participaram da missão não regressaram. Uma caíra em virtude dum erro de navegação e tivera que ser destruída para não propiciar informações ao inimigo. A outra explodira no ar sem motivo aparente.
— E o pessoal de Rhodan? — perguntou o patriarca assim que se acalmou o suficiente para recuperar a fala. — Conseguiram agarrá-los?
— Não sei — respondeu o comandante da nave que regressara. — Bombardeamos uma área extensa do setor em que devem encontrar-se. É claro que não pudemos constatar o resultado. Mas vi alguma coisa.
— Alguma coisa? — indagou Etztak sem compreender nada. — Fale logo, homem!
— Não foi um terrano, mas uma criatura pequena, que deve ter a metade do nosso tamanho. Talvez diria que é um jovem terrano, mas não posso imaginar que realmente seja assim.
— Nem eu — disse Etztak em tom sarcástico. Ainda guardava viva a lembrançade Gucky. — Afinal, o que foi?
Não obteve resposta.
O intercomunicador começou a zumbir.
Com um gesto impaciente despediu o comandante mal sucedido e ligou a chave. O rosto barbudo dum telegrafista surgiu na tela.
— Uma hipermensagem, senhor. — Etztak percebeu imediatamente que o telegrafista estava tão perplexo que mal conseguia falar. — É de Topthor.
Etztak não acreditava no que acabara de ouvir.
— De quem?
— De Topthor, senhor.
Etztak reclinou-se na poltrona.
— Do chefe dos superpesados! O que significa isso? Não pedi aos superpesados que se intrometessem nisto. Não preciso de proteção.
— Acho que não se trata disso — arriscou-se a dizer o telegrafista. — Ao menos não diretamente.
— O que quer dizer com isso? Que tal se lesse a mensagem para mim? Talvez com isso verei mais claro.
O telegrafista acenou com a cabeça, olhou para uma folha e leu:

Para Etztak, patriarca do clã de Etztak. Perry Rhodan, o terrano, conseguiu uma nova arma. Com ela conseguiu destruir cinco das minhas naves. Não existe a menor possibilidade de defesa. Etztak, eu o previno. Recorra ao nosso auxílio. Rhodan o atacará e destruirá. Só com um golpe de surpresa conseguiremos destruí-lo. Oportunamente anunciarei minha nova posição e aguardo sua oferta.
Topthor, clã dos superpesados.

Etztak confirmou com um gesto da cabeça e mandou que lhe trouxessem a mensagem. Interrompeu o contacto. Sem a menor demora, deu alarma geral. No momento o segundo planeta com o grupo de Rhodan perdera todo interesse. Antes de mais nada convinha preparar-se para o ataque de Rhodan, que estava eminente.
Ao menos Etztak procurou convencer-se disso. No seu íntimo começou a despontar a idéia de que cometera um erro. Deixara que desviassem sua atenção do que realmente importava. Acreditava que o tal do Tifflor fosse a figura principal. No entanto, o mesmo não passava dum ator secundário, cuja missão consistia apenas em desviar sua atenção de Rhodan, do planeta da vida eterna e da nova arma.
E o inimigo conseguira realizar seu intento.
— Orlgans! — berrou para dentro do microfone, quando os rostos indagadores dos membros do clã surgiram na tela. — Rhodan conseguiu a nova arma. Recebi aviso de Topthor...
— Do chefe dos superpesados? — interrompeu Orlgans.
— Quem poderia ser? — esbravejou Etztak. — Também anda por aqui, embora não tenhamos solicitado seu auxílio. Pois bem, ele me preveniu. Rhodan pretende atacar-nos. Não sei que arma é esta, mas tenho certeza de que conseguiremos defender-nos contra a mesma. Orlgans, você pegará uma das naves e deflagrará uma fogueira atômica no segundo planeta.
— Uma fogueira atômica? — disse Orlgans, erguendo as sobrancelhas. — Quer transformar o planeta num sol? Você sabe que nossas leis proíbem a destruição de qualquer mundo habitável sem que haja motivo muito poderoso.
— Acha que não temos motivo para isso? Quero vingar-me de Rhodan, e principalmente dos prisioneiros fugidos.
— Será que isso é um motivo suficiente? — perguntou Orlgans.
— Para mim é — berrou o patriarca. — Quero que nunca mais sinta vontade de se intrometer nos meus negócios — esqueceu-se de que era exatamente o contrário. Afinal, ele, Etztak, se intrometia nos negócios da Terra. Rhodan se encontrava numa posição defensiva. — Para isso preciso destruir seu grupo e o mundo em que se fixaram.
— Quer dizer que devemos desencadear a fogueira atômica, a fogueira atômica inextinguível?
— Isso mesmo. Quero que o segundo planeta seja transformado num sol.
Orlgans confirmou com um aceno de cabeça e sua imagem desapareceu da tela. Era evidente que não concordava com a ordem que o patriarca acabava de lhe dar. Mas não tinha outra alternativa senão obedecer. Ordenou ao comandante de outra nave que lhe prestasse auxílio e, se necessário, lhe fornecesse cobertura total. Depois destacou-se da formação de naves e iniciou os demorados preparativos necessários à realização do plano diabólico.
Enquanto isso Etztak conferenciou com os outros mercadores, para descobrir a melhor maneira de enfrentar Rhodan. Não era fácil, pois ninguém conhecia o funcionamento da nova arma. As indicações lacônicas de Topthor não permitiam que se formasse uma idéia a este respeito.
Mas Topthor havia prometido que daria sinal de vida. Ninguém sabia quando isso aconteceria.
— Ficaremos bem próximos uns dos outros — ordenou Etztak. — Assim que Rhodan aparecer, concentraremos nosso fogo energético sobre ele. Nem mesmo o campo protetor da Stardust-III agüentará uma carga destas. Não deixem que os dois cruzadores distraiam sua atenção.
De certa forma o patriarca estava com a razão. No entanto, não sabia que os dois cruzadores poderiam perfeitamente lançar ataques mais fortes, destruindo uma ou outra das naves dos saltadores. Se até então se tinham limitado a ataques simulados, assim procediam exclusivamente em virtude das ordens de Rhodan.
Em vez de deixar os saltadores prevenidos por meio dum combate normal, Rhodan pretendia desferir tamanho golpe contra eles que nunca mais pensariam em voltar. Só assim poderia restabelecer a calma.
Só por isso precisara de algum tempo para ir buscar a nova arma no Peregrino, o estranho planeta artificial que existia numa dimensão diferente e fora criado por um ser que representava a espiritualização de toda uma raça tornada imortal. Era o planeta situado nos confins da eternidade, segundo a expressão de Rhodan — que provavelmente acertara em cheio.
Etztak não sabia nada a respeito desse planeta, cuja existência era revelada na Galáxia através duma série de lendas bastante vagas. Ninguém sabia se existia, nem onde. Mas Rhodan o conhecia. Através da ducha celular, ele e Bell conseguiram deter o processo natural do envelhecimento. A cada sessenta e dois anos o tratamento tinha que ser repetido.
Finalmente aquele ser estranho, o imortal, deu a Rhodan a arma que este desejava para defender-se dos ataques desfechados pelos saltadores.
Etztak apenas começou a ter uma vaga idéia de tudo isso, e um sentimento de insegurança foi tomando conta dele. Teria subestimado o inimigo? Mas Rhodan era apenas um terrano, membro duma raça que, segundo os padrões galácticos, devia ser considerada subdesenvolvida. Só há um decênio aquela raça descobrira a navegação espacial. E foi exclusivamente o auxílio dos arcônidas naufragados na Lua que lhes permitiu um grande salto para a frente. Poderia este salto substituir uma evolução natural, processada no curso de vários milênios?
Etztak teve suas dúvidas, mas o sentimento de insegurança continuou a atormentá-lo.

* * *

A nave Stardust-III, que era o gigantesco veículo espacial de Perry Rhodan, concluiu
a transição e materializou no espaço normal. Dera um salto de mais de 1.750 anos-luz.
Rhodan notou que as dores da rematerialização diminuíam e a consciência retornou. Perto dele Reginald Bell soltava gemidos comoventes; até parecia que estava sofrendo uma operação de apendicite sem anestesia. Bell gemia todas as vezes que se realizava uma transição; já se habituara a isso. Não era de admirar que Rhodan não se comovesse.
E os cálculos? Teriam sido corretos?
Rhodan levantou-se e olhou para a tela. Viu uma profusão de estrelas, que logo lhe revelou que já não se encontravam nas proximidades do planeta Peregrino. Mas a olho nu não se podia saber se a Stardust-III chegara ao ponto pretendido. Enquanto permaneceram no planeta Peregrino, este também percorreu uma distância que não lhes era conhecida.
— Chegamos? — perguntou Bell. Tentou um sorriso, mas a tentativa fracassou.
— Que coisa esquisita! Há um instante ainda nos encontrávamos no mundo do imortal, e agora...
— Ali adiante está o sol gêmeo de Beta-Albíreo — interrompeu Rhodan. — A distância é de duas horas-luz aproximadamente. Etztak já deve ter registrado nossa presença e tomado suas providências. Não devemos esquecer-nos de que foi prevenido. É bem verdade que deve quebrar a cabeça em vão para descobrir que arma nova é esta.
— Ficará admirado — disse Bell. — Um transmissor fictício capaz de teleportar qualquer porção de matéria a qualquer distância. Podemos a qualquer momento contrabandear bombas atômicas para o interior de suas naves, sem que eles possam fazer nada para impedi-lo.
— Não se esqueça de que seu potencial de fogo, concentrado simultaneamente sobre nossa nave, romperia os campos energéticos. Quer dizer que não estão totalmente indefesos. O que importa é que sejamos mais rápidos que eles.
— Mesmo que o tal do superpesado — se não me engano o nome é Topthor — os tenha prevenido, não temos nada a temer — profetizou Bell. Para seu espanto, viu que de um instante para outro Rhodan parecia muito pensativo. A menção dos superpesados parecia ter ligado um contacto em seu interior. — O que houve com você?
— Topthor! — disse Rhodan. — Não é que quase me esqueço dele?
— E daí? — disse Bell, sacudindo a cabeça. — Não o compreendo. Destruímos cinco das suas naves; logo, não temos mais nada a recear da parte dele. Só lhe restam três.
— É justamente isso — disse Rhodan.
Em sua testa surgiram rugas profundas. — Não se esqueça do desenrolar dos acontecimentos. Ele deve ter-nos seguido para o planeta da vida eterna. Para fazê-lo, deve ter saltado do mesmo lugar que nós. Acontece que não viemos do sistema de Beta- Albíreo, mas da Terra. Dali se conclui que conhece a posição de nosso planeta. Estou disposto a fazer qualquer aposta de que voltou para lá. Se tiver a idéia de vingar - se... Pense um pouco! De que recursos dispõe a Terra para defender-se contra três couraçados?
Bell parou de sorrir.
— É possível que você tenha uma tendência de assustar gente que não desconfia de nada. Mas talvez esteja com a razão. O que vamos fazer?
Rhodan fitou a tela. Defrontava-se com uma decisão difícil. Lá adiante Tiff aguardava a hora de ser libertado. Não tinha a menor dúvida de que o segundo planeta fora transformado num inferno. Gucky não conseguiria deter os saltadores para sempre. E os dois cruzadores pesados comandados pelo major Nyssen não poderiam prosseguir indefinidamente nos ataques simulados. Etztak não demoraria em descobrir o logro em que estava caindo. Se resolvesse realizar sua ameaça, Tifflor e seus amigos estariam perdidos.
De outro lado, porém, Topthor poderia atacar a Terra com as três naves gigantescas de que dispunha.
Rhodan preferiu não enviar uma mensagem radiofônica para prevenir o coronel Freyt. Não queria trair sua posição. Tinha certeza de que os saltadores estariam em condições de interceptar a mensagem.
A hesitação de Rhodan durou apenas um instante. Decidiu fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Ligou o intercomunicador.
— Atenção, todos os tripulantes! Posto de combate, atenção! Realizaremos mais um salto. Distância de duas horas-luz. Depois da rematerialização os transmissores fictícios de matéria deverão estar prontos para entrar em funcionamento. Preparem duas bombas de fusão. Exatamente vinte segundos depois será realizado o salto em direção à Terra. Aguardem novas instruções. É só. Obrigado. Bell gemeu.
— Vamos pular de novo? Será que nem temos tempo para descansar?
— Não temos tempo para descansar.
— Atenção, o salto será realizado em um minuto.
O cérebro eletrônico de navegação processou as informações e efetuou a regulagem automática da intensidade do suprimento de energia.
— Faltam trinta segundos — disse a voz metálica do robô.
Rhodan manteve-se rígido na sua poltrona. A mão direita segurava fortemente a chave que o mantinha em contacto com o posto de combate. Ao lado dele ficava o botão que acionava o transmissor fictício. Assim que a Stardust-III materializasse, ela se transformaria num monstro mortífero.

* * *

Etztak teve bastante inteligência para não deixar que o novo ataque dos cruzadores Terra e Solar System o distraísse. Uma única de suas naves foi encarregada de responder ao fogo. E os cruzadores bateram em retirada, conforme se esperava.
Não, desta vez Etztak não seria tolo para deixar que desviassem sua atenção. Estava prevenido, à espera de Rhodan.
Os rastreadores estruturais de sua gigantesca nave, de mais de setecentos metros de comprimento, trabalhavam a toda potência. E descobriram alguma coisa.
A uma distância inferior a duas horas-luz houve uma transição. Uma nave devia ter voltado do hiperespaço, pois o abalo fora negativo. Os cérebros positrônicos entraram em funcionamento, e dali a poucos segundos Etztak tinha o resultado diante de si.
A uma distância de exatamente 118,38 minutos-luz uma nave que acabara de percorrer 1.749,89 anos-luz acabara de retornar ao espaço normal e se materializara.
Só poderia ser Rhodan!
Mais uma vez o alarma estridente encheu as naves. Todos os canhões de radiações estavam prontos para disparar. Os campos protetores foram ativados. Etztak mandou que as naves se agrupassem de tal maneira que um inimigo que surgisse de repente poderia ser alvejado de todos os lados.
Logo os rastreadores estruturais registraram outro abalo da estrutura espacial, desta vez positivo...
...no mesmo instante Rhodan encontrava-se em meio ao grupo.
A massa da gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro era maior que a de toda a frota de Etztak reunida. O tamanho assustador paralisou os saltadores por alguns segundos preciosos, que nunca mais conseguiriam recuperar.
Uma das naves dos saltadores explodiu antes que houvesse tempo de disparar um tiro. Explodiu sem qualquer causa aparente, bem diante dos olhos arregalados de Etztak, deixando para trás apenas uma nuvem de pó radioativo que se espalhou para todos os quadrantes. Ninguém poderia imaginar que o transmissor fictício havia transportado uma bomba atômica de tamanho médio para o arsenal da nave, fazendo-se explodir ali mesmo.
Etztak abriu fogo. Todas as peças expeliram raios energéticos que se concentraram sobre o envoltório protetor da Stardust-III. Mas os raios foram desviados sem produzir dano. Os geradores da nave arcônida produziam energia suficiente para compensar o impacto.
Exatamente quinze segundos depois explodiu a segunda nave de Etztak.
Quase cinco segundos se passaram antes que Etztak, ofuscado, pudesse abrir os olhos, apenas para ver a Stardust-III desaparecer. Antes que pudesse recuperar-se da terrível decepção, os dois cruzadores voltaram ao ataque. Quando viu que Rhodan estava entrando em ação, o major Nyssen agiu instintivamente. Sabia que a nova arma fora encontrada e pensou que aquilo já fosse o início do ataque geral.
A Solar System precipitou-se sobre uma das naves da frota dos mercadores que se encontrava um tanto afastada das demais. Era dum tipo menor. Nyssen sabia que continha principalmente compartimentos de carga, sendo bastante reduzido seu armamento. Por isso mesmo os campos energéticos eram menos potentes. O fogo concentrado do cruzador rompeu o envoltório protetor e abriu um rombo a bombordo do cargueiro.
Nyssen não teve tempo para completar a destruição. A Stardust-III desapareceu com a mesma rapidez com que havia aparecido. Não houve nenhuma mensagem, nenhum aviso, nada. A imensa nave surgiu que nem um fantasma, e que nem um fantasma voltou a mergulhar no Universo.
Nyssen ordenou a retirada.
Deixou para trás um Etztak confuso, que no momento se sentia bastante desorientado.
Em menos de vinte segundos perdera três naves.

* * *

Sentado em sua poltrona superdimensionada, Topthor parecia uma gigantesca posta de carne. As constelações de estrelas cristalizavam-se, vindas do nada, e transformaram-se num quadro com que já estava familiarizado.
O salto fora bem sucedido.
Diante das três naves de Topthor apresentava-se o sistema solar, cujo terceiro planeta lhe causava tamanhas preocupações.
Ligou uma chave e estabeleceu contato com as outras naves.
— Grogham, entre em contacto com nossa frota. As oito naves de guerra devem estar do lado oposto do sol. Encontramo-nos a dez horas-luz daqui, sobre uma reta que liga o sol e o planeta exterior. Dentro de duas horas pretendo realizar uma conferência audiovisual.
— Cuidarei disso — prometeu Grogham, vice-comandante da frota de proteção de combate. Também era um dos chamados superpesados: pesava mais de quinhentos quilos. — Daqui a duas horas. Vamos destruir o terceiro planeta, Topthor?
— Se não quiserem aceitar nossa oferta, esses terranos malucos vão pagar por isso. Rhodan está ocupado com Etztak. Quer dizer que temos tempo.
Topthor estava muito enganado, mas não desconfiava de nada. No momento em que estava dizendo essas palavras, três naves de Etztak estavam sendo destruídas. E antes de terminar a Stardust-III voltou a penetrar na quinta dimensão, para efetuar o grande salto em direção à Terra.
Rhodan teve a precaução de se materializar a vinte horas-luz do sol. Sem realizar outra transição, penetrou em nosso sistema à velocidade da luz. Dessa forma o risco de ser localizado era bem menor.
Chegou à Terra sem que sua presença fosse notada e pousou em Terrânia, capital da Terceira Potência. O coronel Freyt ficou muito surpreso em rever o chefe tão cedo. Reprimiu uma observação sarcástica pelo fato de Rhodan não lhe ter enviado qualquer aviso pelo rádio, pois viu que Perry estava com muita pressa. Bell permaneceu a bordo da Stardust-III, e esta se manteve preparada para decolar a qualquer instante. Só Rhodan tomou um carro e dirigiu-se apressadamente à sede do comando situada sob a abóbada energética, a fim de desencadear o alarma na Terra. Algumas mensagens breves dirigidas aos respectivos governos foram suficientes para provocar uma ação comum.
A Terra estava preparada.
E esperava...

* * *

— Seria um absurdo — concluiu Topthor, olhando os comandantes das dez outras naves, como que à espera de aplausos — se atacássemos a Terra sem aviso e a destruíssemos. De que nos serve um planeta destruído, se o mesmo é habitado por uma raça da qual tanto temos a esperar? — os dez rostos barbudos que se viam na tela inclinaram-se em sinal de concordância. — Será mais razoável negociarmos com eles. Rhodan está no sistema situado a trezentos e vinte anos-luz daqui, onde procura dar cabo de Etztak. Até é possível que com a nova arma ele o consiga. Para nós isso não representaria qualquer prejuízo, mesmo que fosse eliminado um clã que constitui uma fonte de lucros para nós. Se nesse meio tempo conseguirmos firmar pé na Terra, teremos possibilidade de fundar uma colônia bastante rendosa dos saltadores.
— E Rhodan? — perguntou alguém.
— Rhodan? — um sorriso largo cobriu o rosto barbudo de Topthor. — Rhodan ficará admirado quando, depois de ter saído vitorioso na batalha contra Etztak, regressar para cá e constatar que seu planeta mudou de dono.
Grogham pigarreou.
— Receio que o senhor esteja subestimando os terranos — objetou.
Topthor olhou-o em cheio e parou de sorrir.
— Então sua opinião é essa? Afinal, temos onze naves construídas especialmente para combater. O que tem Rhodan para contrapor a isto?
— Tem a nova arma.
Topthor parecia não sentir-se muito feliz com a lembrança da destruição fulminante de cinco das suas naves.
— Se surgir qualquer dificuldade, poderemos entrar em contacto com nossa base — ponderou. — De qualquer maneira procurarei conquistar a Terra. Vamos aproximar-nos do planeta até uma distância de dez minutos-luz e procuraremos estabelecer contacto pelo rádio. Veremos como reage o pessoal de Rhodan. Tenho certeza de que não têm nada com que possam defender-se contra nós.
Desta vez não obteve qualquer resposta.
A frota composta de onze naves fortemente armadas, nenhuma das quais com menos de trezentos metros de comprimento, tomou o rumo do sol e dele se aproximou à velocidade da luz. Depois de ultrapassada a órbita de Plutão, Topthor reduziu a velocidade e foi-se aproximando sorrateiramente da Terra.
Mas a cautela revelou-se inútil. Os satélites-espiões já o haviam detectado e prevenido Rhodan. Depois de tomar as providências indispensáveis, este voltou à Stardust-III e logo se dirigiu à sala de comando, onde Bell se mantinha à espera.
— Então? — perguntou Bell. — Como estão as coisas?
— Dei as instruções necessárias ao coronel Freyt. Ele nos transmitirá eventuais mensagens dos superpesados. E eu responderei em seu nome. Não devem desconfiar de que já os esperamos aqui mesmo.
Duas horas depois a luz de controle acendeu-se. O serviço de rádio da Terceira Potência era muito eficiente. Topthor acabara de estabelecer contacto com a Terra, mas não sabia com quem estava falando.
Rhodan tomou a liberdade de atribuir-se um pseudônimo.
Com dois movimentos de chave estabeleceu contacto direto. Era um contacto audiovisual, mas isso não fazia mal. Rhodan conhecia Topthor, mas este nunca havia visto Rhodan.
A figura maciça do gigante causava uma impressão profunda, mas não poderia assustar Rhodan. Conhecia a raça, inclusive suas fraquezas.
— Aqui fala a Terra — disse em tom indiferente. — O senhor chamou?
Topthor demonstrou surpresa pelo fato de não se mostrarem surpresos com sua mensagem.
— Queremos entrar em negociações com os terranos — disse em puro intercosmo, com um ligeiro sotaque. — O clã poderoso dos surperpesados quer fazer algumas propostas aos terranos.
— Pode falar.
— Com quem estou falando? — perguntou Topthor, fitando o rosto de Rhodan.
Este enfrentou o olhar sem pestanejar.
— Sou o coronel Freyt, representante de Perry Rhodan no governo da Terceira Potência.
— O que vem a ser a Terceira Potência?
— É a potência que representa a Terra.
— Por que não posso falar com Rhodan?
Que raposa esperta”, pensou Rhodan, enquanto Bell, que se encontrou fora do alcance da câmara de TV, esboçava um sorriso de deboche. “Quer saber se desconfiamos de alguma coisa.”
— No momento não tenho meio de entrar em contacto com ele — disse Rhodan. — O que deseja?
— Sabem quem eu sou?
— Pelo que vejo, é um monstro — respondeu Rhodan.
— Sou Topthor, o mais velho do clã.
— Será que também é o mais inteligente?
Por um instante Topthor parecia confuso diante de tão estranha pergunta, mas logo se mostrou furioso. Afinal, os comandantes das outras naves assistiam ao diálogo em que estava sendo ridicularizado.
— Fazemos comércio com todos os mundos habitados da Galáxia. Acredito que os senhores tenham algo a oferecer-nos. Vamos pousar. Informe sua posição.
— Não posso autorizar o pouso sem que Rhodan o permita. Prefiro que o senhor me forneça sua posição.
— Forneça as coordenadas do pouso, senão pousaremos em qualquer lugar.
— Devo interpretar isso como uma ameaça? Não nos subestime.
Topthor soltou uma estrondosa gargalhada e passou a mão pela barba.
— Subestimá-los? Se conseguimos enfrentar Rhodan, seu planeta não representará qualquer problema para nós.
— Ah — disse Rhodan. — Então enfrentou Rhodan?
— Isso mesmo. Infelizmente escapou. Vai fornecer as coordenadas de pouso ou não vai?
Rhodan lançou um olhar rápido para Bell. Este entregou-lhe um bilhete. Rhodan segurou-o de tal forma que Topthor podia vê-lo e leu em voz alta.
— Órbita de Marte — direção Terra. Velocidade: 7.653,3km/seg. Rumo MX-T4 —Rhodan levantou os olhos. — Daqui a dez minutos poderemos ter um encontro pessoal, Topthor, se é isso que deseja.
— O que é isso? O que quer dizer precisamente?
— Os dados que acabo de fornecer correspondem à sua posição atual, à sua velocidade e direção de deslocamento. Não pense que só Rhodan tem condições de destruí-lo. E não pense que ignoramos o que aconteceu no planeta da vida eterna. Finalmente, não pense que só possuímos uma única nave da classe da Stardust-III.
Foi um blefe, mas este não deixou de produzir o efeito desejado.
Topthor estremeceu instintivamente.
— Refere-se à esfera gigante? — mas logo sorriu. — Terranos, vocês não me afugentarão. Só Rhodan esteve no planeta da vida eterna, e só ele foi buscar a nova arma.
Os senhores só possuem armas convencionais, e estas não representam qualquer problema para nós.
— Muito bem. Vamos fazer a experiência. Mais uma vez recomendo-lhes que nos deixem em paz e não pretendam impor-nos seu comércio, que nos transformaria numa colônia dos saltadores. Compreendeu?
— Pousaremos dentro de uma hora — respondeu Topthor e interrompeu o contacto.
Rhodan fitou a tela vazia e depois olhou para Bell.
— E agora? Não querem saber de conversa. Sentem-se seguros enquanto a Stardust-III com a nova arma se encontra longe. A constatação de que existem várias naves desse tamanho representa um choque para eles. O sobrevivente revelará o fato aos membros de seu clã, e a Terra se transformará num dos pontos mais temíveis do Universo. Infelizmente deve ser assim mesmo, para que possamos atingir nosso objetivo.
Deu algumas instruções ao coronel Freyt. Depois ligou o intercomunicador da Stardust-III.
— Atenção! Decolaremos dentro de um minuto. Não se esqueçam das medidas de segurança, pois a nave será acelerada fortemente ainda dentro da atmosfera. Atenção, faltam cinqüenta segundos. Não realizaremos nenhuma transição. A ação terá início exatamente dentro de dez minutos. Atenção, faltam quarenta segundos para a decolagem.
Bell colocou o cinto largo em torno do ventre avantajado. Seus olhos brilhavam de animação.
— Talvez você esteja com a razão — disse, vencendo seus escrúpulos morais. —Devemos dar mais uma lição aos superpesados, se a primeira não foi suficiente.
— Depois disso iremos o mais rápido possível ao mundo de gelo. Ando muito preocupado com Tiff e seus amigos.
— E eu me preocupo com Gucky — confessou Bell, acompanhando o movimento dos ponteiros dos instrumentos. — Faltam dez segundos.

3



Quando Tiff saiu da caverna e teve diante de si a paisagem do planeta, não pôde vencer a surpresa. Só nos cumes das montanhas próximas havia neve, e ainda mais à direita, nas encostas que não eram atingidas pelo sol. De resto o solo negro estava livre de neve. Na maior parte era formado de rocha nua, mas vez por outra Tiff tinha a impressão de que essa rocha tinha algo de familiar.
Mildred Orson sacudiu a cabeça com tamanha força que os longos cabelos pretos esvoaçavam. Fazia um frio terrível, mas por alguns minutos suportava-se o mesmo. Além disso, parecia que o impacto direto do sol e a proteção da rocha tornavam o ar menos gélido.
— Não parece tão mau assim — disse em tom alegre, embora por dentro não se sentisse nem um pouco alegre. — Não seria de estranhar se aqui existisse vida.
— Por enquanto só estamos interessados em nossa própria vida — respondeu Tiff com um sorriso. Sabia que Mildred sentia certa inclinação por ele, tendo vencido todas as incertezas. Por Hump parecia sentir apenas compaixão. Isso fez com que Felicitas respirasse aliviada, pois até então seu amor por Hump parecia não ter a menor esperança. O único que parecia não perceber nada desse jogo complicado era Eberhardt. Entendia-se perfeitamente com todos e ficava satisfeito, desde que o deixassem em paz.
— Tiff, você acredita que Rhodan chegará em tempo para libertar-nos? — perguntou Felicitas um pouco amedrontada. O medo fazia parte de sua natureza. — Por que os mercadores ainda não nos atacaram?
— Por enquanto têm problemas que chega — conjeturou Tiff. — Gucky já lhes deu muito trabalho.
— Que seria de nós se não tivéssemos Gucky?
Tiff riu.
— Ora, Felicitas, até parece que você está apaixonada por Gucky.
— De certa forma todos nós estamos, não é verdade, Milly?
A moça acenou com a cabeça de cabelos negros e fechou o capacete do leve traje espacial. Ao mesmo tempo ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo.
— Estou sentindo frio. — disse. — Não se agüenta isto por muito tempo sem o traje protetor. Morreríamos de frio.
— É um mundo hostil — observou Felic, apontando para o vale onde havia algumas manchas de neve. — E seria hostil mesmo que não tivéssemos que temer um ataque dos saltadores.
— Com qualquer mundo pode-se fazer alguma coisa — objetou Tiff sem tirar os olhos do céu. — Até mesmo com este. Pensem na lua, senhoritas. Lá nem sequer existe ar.
— Acontece que não fica tão longe da Terra — disse Molly, ressaltando um ponto muito importante. — Isso parece ser um fator decisivo.
Tiff não respondeu. Por um instante teve a impressão de ter visto um ligeiro relampejo no verde-azulado do céu, mas logo concluiu que devia ter-se enganado. Dirigiu-se a Milly e colocou o braço em torno de seus ombros.
— A distância só tem um significado simbólico; não produz qualquer efeito prático. No mundo podemos sentir-nos mais solitários que aqui, a trezentos e vinte anos-luz da Terra.
— Vamos até o riacho? — sugeriu Milly.
— Parece fazer uma eternidade que não vejo um riacho.
Caminharam lentamente sobre a rocha escura, que formava um contraste acentuado com os restos de neve. No ribeirão havia blocos de gelo, mas o chão parecia irradiar tanto calor que a corrente de água não se congelou totalmente. As ondas brincavam alegremente. Há pouco ainda eram gelo, e logo voltariam a sê-lo.
Felic abaixou-se; em sua voz soou o espanto.

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