quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

P-031 - O Imperador de Nova Iorque - W. W. Shols [parte 3 ]


Finalmente estavam mostrando as cartas.
Ligou o telecomunicador.
— Alô, Rhodan! Deixarei meu aparelho ligado para a transmissão. Acompanhe as informações. Fim. Tenho que me teleportar de novo.
Kakuta saltou para a segunda ante-sala, pela qual o Imperador ainda teria que passar.
— Pare! Nenhum passo!
Estava com o radiador de impulsos térmicos apontado para Adams. O Imperador estacou.
— Quem não quiser ser destruído que saia do meu caminho.
— Um instante, senhor Imperador. O senhor não pode dispensar o mais importante dos nossos homens. E entre homens sempre precisamos de um entendimento.
Um dos seus robôs acaba de disparar contra mim. Exijo garantias contra esse tipo de traição.
— O Imperador ordena, os outros obedecem.
— Menos eu! Se não quiser entender a linguagem da razão, terei de matar Mr. Adams. Escolha.
Kakuta preferiu jogar no seguro. Atirou no primeiro dos robôs de combate, que estava entrando na sala. Depois saiu correndo e destruiu também o segundo, que naquele instante considerava concluída sua insensata missão destruidora no gabinete do chefe. As duas máquinas não haviam sido reguladas para enfrentar um perigo iminente e por isso mantiveram seus campos protetores desativados.
Kakuta voltou à ante-sala. Parecia se sentir muito mais à vontade.
— Agora vamos ao nosso acordo, senhor Imperador! Quero um acordo que inclua garantias para o edifício da G.C.C. Senão estiver disposto a firmá-lo, o senhor não sairá daqui. Não tenho o menor interesse na sua dinastia de robôs. Estamos interessados única e exclusivamente na nossa firma.
A máquina não deu mostras de qualquer reação emotiva. Nem poderia desenvolver uma reação desse tipo. Por isso o homem tinha de redobrar os cuidados perante a mesma.
— Eu sou o Imperador e dou as ordens. Os outros obedecem.
A arrogância da máquina deixou Kakuta ainda mais irritado. Não devia perder o autocontrole! Se essa criatura realmente era o imperador, por que não o prendia? Por que não o destruía?
O teleportador colocou o dedo no gatilho. Não acreditou que um disparo de sua arma pudesse salvar Nova Iorque. Era impossível que o comando de todas as máquinas robotizadas estivesse centralizado nesse cérebro P. Essa história do imperador só podia ser um blefe. De qualquer maneira, o que poderia fazer?
— Eu o matarei, senhor Imperador, a não ser que se disponha a negociar em bases justas.
— No momento em que o senhor me matar, as comunicações com o centro de controle estarão interrompidas. Isso desencadeará um alarma. Num prazo curtíssimo este edifício seria reduzido a um montão de ruínas.
— Nada de violência, Kakuta — voltou a intervir Adams. — O Imperador deve ter tomado todas as providências para sua garantia. Sugiro um negócio melhor...
— Fale — disse o Imperador.
— O senhor nos entrega vinte robôs-polícia em estado passivo, que se encarregarão da proteção do edifício.
A voz do Imperador se transformou num ronco. Talvez pretendesse ser um riso irônico.
— No novo Império só existe uma força policial. Sua proposta é inaceitável. Eu sou o Imperador, os outros obedecem.
A raiva de Kakuta foi substituída por uma ligeira satisfação. Afinal, conseguira envolver o robô numa palestra. O tema não tinha a menor importância. Na situação em que se encontrava ele se prestaria à palestra mais idiota deste mundo.
— O senhor está enganado, senhor Imperador! A G.C.C, não pertence ao senhor. Temos de estabelecer algum tipo de coexistência. Ninguém conseguirá destruir a Terceira Potência. Não se esqueça disso.
— A Terceira Potência não pertence ao meu território. Terá outro imperador.
— O imperador da Terceira Potência já morreu, se é que está interessado nisso. E com ele morreram duzentos guerreiros seus.
— O destino dos habitantes de Gobi é lamentável. Mas não é o que está em discussão.
— Esse destino devia lhe servir de exemplo.
— Eu sou o Imperador, Mr. Kakuta. A audiência terminou. Mande abrir a porta.
Dois policiais querem entrar.
Kakuta teleportou-se para o corredor, onde foi parar no meio de dez robôs. Logo saltou para diante, pois ali não teria vivido mais de cinco segundos.
— O senhor está enganado, senhor Imperador. Não são dois robôs, são pelo menos dez. Devemos interpretar isso como uma ameaça?
— Mande abrir a porta! — ordenou o Imperador.
Foram suas últimas palavras. Mal acabara de pronunciar as mesmas, caiu em meio a um estrondo e ficou reduzido a um montão de sucata.
* * *
— Chega de táticas de retardamento — disse Perry Rhodan, que subitamente se tornou visível, vindo do nada. Foi seguido por Anne Sloane, pelo Dr. Manoli e por Tanaka Seiko. Regularam seus trajes arcônidas para a posição zero e abriram os capacetes.
Alguns funcionários do escritório haviam desmaiado.
— Eric, faça o favor de cuidar dessa gente.
— Como foi que conseguiu entrar aqui?
— Passei pelo seu escritório, Adams. Tem um buraco enorme na parede externa.
— Você acaba de matar o Imperador.
— Que imperador, que nada! Há pelo menos trinta e cinco tipos destes em Nova Iorque. Temos que evacuar a cidade, senhoras e senhores. Vamos começar pelo edifício da G.C.C. O perigo é muito grande.
— Antes de mais nada, temos de cuidar dos robôs que estão lá fora — advertiu Kakuta. — A qualquer momento podem entrar aqui.
— Está bem — confirmou Rhodan. — Somos cinco pessoas equipadas com trajes especiais e radiadores de impulsos. Eric, você ficará de sentinela na porta. Anne e Tako, subam mais um andar...
— Não conseguirão passar. Tako disse que estão bem diante da porta.
— É verdade?
O japonês fez que sim.
— Nesse caso abram a porta e disparem uma salva maciça. Dentro de cinco segundos tudo deverá estar liquidado.
Perry Rhodan sabia perfeitamente que isso representaria um desafio para o inimigo. Em Terrânia já perguntara a si mesmo se não teria sido melhor deixar os robôs em paz. Se o fizesse, naquele dia teria havido menos mortos. Mas qual seria a alternativa para os sobreviventes? Teriam que ficar quietos e aceitar tudo?
O exército de robôs teria prosseguido nos serviços de espionagem sem que ninguém os incomodasse. Teriam revelado aos saltadores, estacionados no sistema de Beta-Albíreo, onde ficavam as posições mais importantes da Terra. O fim teria sido a capitulação de nosso planeta.
Os saltadores descendiam dos arcônidas. Não havia dúvida de que possuíam certa superioridade técnica.
Nada disso. Rhodan não se cansara de consultar sua consciência. Qualquer adiamento no confronto entre os homens e os robôs teria piorado a situação da Humanidade. Ainda bem que a luta declarada havia irrompido. Só assim a confusão terminaria logo. E isso apesar de alguns cálculos errados realizados no interior da cúpula energética, que fez com que, de uma hora para outra, o conflito se alastrasse por todo o mundo.
As coisas se tornaram piores do que Rhodan calculara. Justamente por isso fez questão de que se chegasse a uma decisão rápida.
A porta se abriu!
Os robôs estavam sem a menor proteção. Enquanto realizavam a ligação individual que ativaria seus campos protetores, a energia dos radiadores arcônidas foi despejada sobre eles.
A escadaria parecia um inferno. Nenhum dos lutadores artificiais teve tempo de esboçar qualquer gesto de defesa.
Com os trajes de batalha fechados, Rhodan, Anne Sloane e Tako Kakuta saltaram para a frente. Os campos protetores que os cercavam tornavam-nos imunes às radiações liberadas por ocasião do ataque.
— Vamos limpar a área em cima e embaixo! — ordenou Rhodan. — Tanaka, onde está você? Mantenha-se próximo a Tako e dirija-se para cima. Anne, você irá comigo aos andares inferiores.
Com o ataque, os elevadores sofreram pesadas avarias e não puderam ser utilizados. Foi uma desvantagem considerável.
Na verdade, para as pessoas que portavam os trajes arcônidas o problema não era muito grave. Podiam flutuar pelas escadarias, sem depender dos degraus.
Rhodan e Anne chegaram ao décimo segundo pavimento.
— Pare!
Admiraram-se de não terem encontrado qualquer resistência. Seria de esperar que os robôs houvessem ocupado ao menos os acessos de todos os pavimentos.
Rhodan tirou suas conclusões. Estava acostumado a refletir sobre qualquer fato e procurar adivinhar os motivos.
Havia um fato conhecido: em Nova Iorque deviam estar estacionados cerca de seiscentos robôs de combate e uns oitocentos robôs de trabalho. Em meio a uma cidade de dez milhões de habitantes, o número era insignificante. Mesmo que o inimigo concentrasse suas atenções sobre a sede da G.C.C, teria que ter muito cuidado com o seu pessoal.
— Não tenha medo, Anne — disse o chefe da Terceira Potência para animar sua acompanhante. — Tenho a impressão de que estamos superestimando a situação dos robôs neste edifício. Lembre-se de que, segundo dizem, ocuparam os dez pavimentos inferiores e a cobertura do edifício.
Continuaram a flutuar para baixo. A telecineta sempre ia um pouco atrás de Rhodan.
No décimo pavimento encontraram um único robô junto à entrada principal desse setor de escritório. Estava parado como uma sentinela entediada, que não sentia qualquer emoção durante as horas de serviço.
— Como esses caras são estúpidos! Nem tomam conhecimento de que trinta metros acima de suas cabeças um grupo de companheiros foi destruído.
As palavras de Rhodan soaram debilmente no ouvido de Anne. No interior do traje transportador arcônida havia um ambiente fechado. Nem mesmo as ondas sonoras alcançavam o exterior.
Invisível e sem fazer o menor ruído, Rhodan se aproximou do inimigo. Aquela sentinela solitária dera-lhe uma inspiração toda especial. Disparou em primeiro lugar contra os angulosos braços inferiores, que eram os mais perigosos, já que portavam as armas. Depois foi a vez das pernas, e por fim dos braços superiores.
O robô caiu ao chão como um saco. Em seu crânio logo se desenvolveu uma série de reações. O alto-falante rangia a intervalos regulares, como se estivesse acoplado a um pisca-pisca. O robô estava pedindo socorro.
Rhodan saltou para a frente e moveu a chave-mestre que se encontrava nas costas da criatura, que foi colocada completamente fora de ação.
— Pegue-o, Anne. Vamos logo! Leve-o para cima, para a sala da direção. A qualquer momento a coisa pode...
A coisa já começara. Três robôs de combate surgiram na porta oposta. Ficaram parados por alguns instantes. Um homem provavelmente teria ficado tão nervoso que atiraria, mesmo que não visse nada. Mas os robôs hesitaram, porque não viram nada. Era bem verdade que o dispositivo de localização de matéria seria posto a funcionar imediatamente, e contra este a invisibilidade não adiantaria nada.
— Tenha cuidado, Anne! — chiou Rhodan. — Leve esse sujeito. Preciso dele no estado em que se encontra. Dê o fora! Eu cobrirei a retirada.
O radar dos robôs levou perto de quinze segundos para localizar o alvo. Isso bastou para que a telecineta desaparecesse com sua vítima. Rhodan flutuou para baixo, visto que a descida para o nono andar era observada menos intensamente pelos robôs. E dessa direção abriu fogo, antes que os três colossos se dispusessem a atirar.
Dois deles foram liquidados na primeira investida. O terceiro teve tempo de determinar a posição de Rhodan e respondeu ao fogo.
O campo protetor gerado pelo traje de Rhodan torceu-se sob o impacto dos raios disparados pela arma inimiga. A fluorescência causada pelo atrito das duas formas de energia revelou ao robô a posição exata de Rhodan. A máquina aumentou o poder de fogo de seu braço armado. O homem procedeu da mesma forma com seu radiador de impulsos térmicos. Modificou a focalização, concentrando os raios num feixe tão estreito que eles atingiam o alvo como uma alfinetada.
Esse tipo de manejo da arma pressupõe uma prática e uma pontaria extraordinária. E numa luta contra robôs ainda se tornava necessário que o combatente estivesse a par da anatomia dessas máquinas.
Rhodan estava a par.
Atingiu o reator individual e dessa forma saiu vencedor no duelo, que por pouco não tem um desfecho totalmente diverso.
O robô estava fora de combate. Apesar disso, Rhodan esperou um instante e verificou o andar de cima e o de baixo. O de baixo adquiriu vida, enquanto no décimo pavimento tudo continuava em silêncio.
Voltou a flutuar para cima.
Anne Sloane já colocara o robô no pavimento de Adams, onde foi depositado num lavatório.
— Não está levando seus sentimentos humanos longe demais? — perguntou Adams, sacudindo a cabeça. — Desde quando se costuma fazer prisioneiros entre os robôs?
— O menino é muito precioso. Será levado para Terrânia, onde o examinaremos. É bem possível que ele acabe nos revelando como foi tramado todo esse complô.
Dali a pouco Kakuta e Seiko retornaram.
— Limpamos a cobertura do edifício, chefe. Lá em cima havia cinco robôs.
Adams logo compreendeu as intenções do chefe. E manifestou sua objeção.
— Acha que todo mundo deve dar o fora daqui?
— Acho que é precisamente isso que você mais tem desejado nesta última hora.
— Sem dúvida. Acontece que a sede da G.C.C, é uma oficina de trabalho insubstituível. Só os registros guardados neste edifício...
— Está certo, Adams. A responsabilidade será minha. O que mais vale são os seres humanos. Não quero perder nenhum deles. Acredito que, assim que tivermos desaparecido, o interesse da família imperial nova-iorquina será dedicado a outros objetos.
Poucos minutos depois, um gigante esférico desceu sobre a cidade de Nova Iorque. Naquela hora, a cidade das possibilidades ilimitadas estava festejando mais um triunfo. Apesar do perigo dos robôs, a população assustada corria para os telhados a fim de contemplar o espetáculo.
O diâmetro da nave espacial Stardust-III era de oitocentos metros. Quando parou poucos minutos acima da cobertura do edifício da G.C.C, sua sombra envolveu metade de Manhattan.
Era a nave de Perry Rhodan!
Representaria uma esperança?
Para certas pessoas. Para os funcionários da G.C.C.
Mais de doze mil pessoas foram transferidas para o veículo espacial esférico no curso de duas horas. Ninguém ficou para trás. E os robôs nada fizeram contra esse tipo de resgate. Ou não se interessavam pelo que estava acontecendo.
* * *
Nova Iorque era grande!
E tinha um imperador, embora o Imperador tivesse tombado.
As estações de rádio transmitiram a notícia de forma bastante dramática. Algumas centenas de pessoas já haviam sido obrigadas a se colocar ao serviço da nova dinastia. Outras pessoas, que formavam a maioria, não despertavam o interesse da nova dinastia.
Depois de alguma hesitação, a obra de destruição teve início. Ninguém sabia se ela contava ou não com o consentimento do Imperador. De resto, isso não importava O que importava eram os fatos. E a evolução destes começou de forma bastante semelhante à de Terrânia.
No momento em que o crepúsculo matutino começou a subir pela costa leste dos Estados Unidos, as duas divisões da F.D.T. enviadas por Mercant chegaram à cidade. Vieram acompanhadas de tropas aero-transportadas e equipadas com tanques pesados, protegidos por campos energéticos. Além disso, trouxeram caças de um tripulante.
As tropas de infantaria logo conseguiram se firmar na cidade. Foi bem ao norte, onde a Broadway assumia um caráter pequeno-burguês. Todavia, os pilotos dos caças não demoraram a constatar que pouco se poderia fazer do ar. A caça de mil e quatrocentos robôs espalhados pela cidade parecia uma tarefa sem a menor possibilidade de êxito. Por isso, pelas nove horas os caças foram trocados por helicópteros.
O movimento de fugitivos diminuía rapidamente. Durante a noite os robôs apenas se reagruparam. Com isso, a maior parte dos habitantes de Nova Iorque se iludiu. Não souberam avaliar o perigo e resolveram ficar em casa. Quando chegaram as primeiras notícias sobre a ação furiosa dos robôs, o pânico e o caos tomaram conta da cidade. De uma hora para outra as vias de saída, estações e aeroportos ficaram congestionadas.
Entre os dez aviões que decolaram em primeiro lugar, dois foram derrubados por robôs de combate. Caíram numa área densamente povoada.
As duas divisões da F.D.T. iniciaram um avanço precipitado, contando com o apoio de helicópteros em vôo baixo. Venceram seis quilômetros sem serem molestadas. Mas, de um instante para outro, os movimentos de tropa estacaram em todas as ruas que se dirigiam para o sul. Precisamente às nove horas e trinta e cinco minutos teve início o fogo de defesa dos robôs. Pelas previsões humanas, a ação fulminante teria causado perdas sensíveis às tropas de Mercant. Mas as ordens transmitidas a estas foram terminantes. Ambas as divisões marcharam todo o tempo com os campos energéticos individuais ligados, sem se iludir com a ausência inicial de qualquer defesa. Apesar disso não havia o menor motivo de ficar alegre.
Uns duzentos robôs de combate fecharam Manhattan para o norte. Enquanto isso, quatrocentos faziam estragos pela cidade, espalhando o terror entre a população. Os robôs de trabalho apoiavam seus colegas o melhor que podiam.
10:15 h. Mensagem de Allan D. Mercant, dirigida a Perry Rhodan:
— Não conseguimos avançar mais. A atuação da força aérea demorará em nos levar ao objetivo e, além disso, coloca em perigo a população civil. Cada minuto custa novas vidas humanas. Precisamos de uma campanha-relâmpago.
Resposta de Perry Rhodan, dirigida a Allan D. Mercant:
— Evacuamos todos os colaboradores da G.C.C. que se encontravam em Nova Iorque. A Stardust-III dirige-se novamente à cidade. Agüente mais um pouco, coronel. Estamos fazendo o possível; chegaremos dentro de doze minutos.
A atuação de Rhodan não poderia ficar restrita exclusivamente a Nova Iorque. Simultaneamente com a Stardust-III, seis naves auxiliares da classe Good Hope — os chamados girinos — haviam decolado da base de Gobi. Cada uma das naves auxiliares trazia ao menos dois mutantes a bordo. Destróieres e caças de um homem haviam decolado de todos os pontos da Terra em que se encontravam estacionadas as máquinas da Terceira Potência. Centenas de aparelhos controlavam o espaço aéreo de nosso planeta e aguardavam ordens para entrar em ação.
Berlim, Sydney, Durban, Montevidéu, Manila, Madri, Kuwait e mais três dezenas de pontos geográficos foram assinalados com uma luz amarela no mapa do estado-maior da Terceira Potência.
Anne Sloane partira para Berlim, Tanaka Seiko para Manila e Wuriu Sengu para Durban. Os mutantes começaram a se tornar escassos. E sobrara um único. Ivã Goratchim. Encontrava-se a bordo da Stardust-III.
10:27 h. A sombra da gigantesca nave esférica voltara a cobrir a cidade de Nova Iorque.
— Onde está o efeito moral? — perguntou Reginald Bell, desesperado. — Se os inimigos que se encontram lá embaixo fossem seres humanos, já teriam feito as malas.
— Paciência — disse Rhodan. — Resolvemos construir robôs sem nervos. E lá estão eles...
Modificaram a regulagem das telas de observação. Os detalhes puderam ser vistos. Os quadros que se desenharam nas telas não foram nada agradáveis.
As perdas nas divisões da F.D.T. haviam crescido rapidamente. Os tanques destruídos estavam espalhados por todos os cantos. As tropas de Mercant batiam em retirada.
Chamado da Groenlândia.
— Não me explique o que está acontecendo aqui — respondeu Perry Rhodan. — Vejo-o com os próprios olhos. E vejo melhor que você. Dê ordens oficiais de retirada. Só assim poderemos atrair os robôs para fora da cidade. E é exatamente isto que teremos de fazer para evitar que Nova Iorque desapareça do mapa.
— Está bem.
— Fim!
Ivã Goratchim, o detonador, entrou num tanque, que foi levado ao chão num campo gravitacional dirigido. O corpo de Ivã não cabia num traje de batalha normal.
Mais trinta tanques foram levados ao chão pela mesma forma. Tinham a artilharia e a tripulação normal, e sua missão consistia em desviar de Ivã Goratchim a atenção do inimigo.
Em virtude da situação dos fronts, a área do cruzamento da Broadway com a Quinta Avenida estava livre de robôs. O grupo de desembarque da Terceira Potência chegou ao solo sem qualquer problema e logo se espalhou em blocos de três. Tako Kakuta, o teleportador, serviria de elemento de ligação entre Rhodan e Ivã.
— Salte quando for necessário, Tako. Ivã é um produto da natureza siberiana. Não acredita muito no telecomunicador e no nosso equipamento técnico. É preferível que fique com ele. Ivã não pode sofrer a menor tensão emocional. Tem de concentrar todas as suas energias na detonação dos robôs.
Às 10:34 h Kakuta anunciou a primeira destruição de um robô por Goratchim. No mesmo instante o hipercomunicador da sala de comando produziu um forte ruído.
— Estabeleça contato imediatamente! — ordenou Rhodan ao oficial de plantão da sala de telegrafia. O ruído com que a ligação automática do receptor principal havia reagido ao chamado era típico. O comandante da nave podia realizar qualquer palestra sem abandonar seu lugar na ponte de comando. Enquanto isso mais de trinta pessoas se incumbiam dos trabalhos de registro na sala de telegrafia. A qualquer hora todas as freqüências possíveis tinham de ser mantidas sob observação. Três dezenas de telegrafistas e vários mini-robôs eletrônicos realizavam um controle ininterrupto do espaço. Constantemente chegavam notícias sobre a situação nos diversos pontos da Terra.
Rhodan acabara de ler um comunicado sobre a chegada de Anne Sloane a Berlim. O zumbido do hipercomunicador revelava que o expedidor da mensagem se encontrava num ponto muito distante.
— Estabeleça imediatamente a ligação.
— Sim senhor.
— Cruzador Solar System para a Terceira Potência. Cruzador Solar System para a Terceira Potência. O major Nyssen deseja falar com Rhodan.
— Que diabo! Uma ligação direta — espantou-se Bell. — Deve haver alguma novidade.
O correio pneumático junto ao assento do piloto-chefe expeliu um cartucho. Um jovem tenente pegou-o e entregou o bilhete a Rhodan.
— Ivã registrou novos êxitos, chefe.
— Não me venha com Ivã a esta hora. Capitão Bols, faça o controle da decodificação automática e cuide para que nenhuma outra mensagem passe pela minha linha. Alô, major Nyssen! Aqui fala Perry Rhodan. Encontro-me a bordo da Stardust-III. A nave está na atmosfera terrestre.
Na tela surgiu o rosto magro do oficial pequeno e rijo. Nyssen sempre exibia um sorriso, por mais difíceis que fossem os problemas com que se defrontava. Sua voz rangedora só era agradável para quem o conhecesse muito bem.
— Como está a situação, major? O momento não é propício para notícias alarmantes.
A base de impulsos de quinta dimensão garantia a comunicação simultânea a uma distância de trezentos e vinte anos-luz.
— Em conformidade com as instruções recebidas, nos mantemos a uma distância segura da frota dos saltadores. O inimigo vem recebendo reforços constantes, e nossa situação torna-se cada vez mais difícil.
— Devo interpretar isso como um pedido de socorro, major?
— Quando poderá voltar? Afinal, seria importante para nosso planejamento tático que conhecêssemos esse detalhe.
— Voltaremos assim que tivermos visitado o planeta Peregrino. Sabe perfeitamente que nestas circunstâncias não posso fornecer qualquer indicação de tempo. Isso significa que a ordem de manter sua posição continua de pé. Mais alguma novidade?
— Apenas duas observações que talvez sejam importantes para você. Há uma hora constatamos um deslocamento altamente suspeito na frota dos saltadores. Até agora o receio de que se trate de um ataque em grande escala contra nossas naves não se confirmou. Nossos telegrafistas dizem que descobriram uma mensagem direcional orientada para o sistema solar. É claro que isso não pode ser provado.
— Está bem. Examinaremos isso. Mais alguma coisa?
— Não encontramos mais a Orla XI no meio do grupo inimigo.
— Isso significa que você conseguiu destruí-la. Meus parabéns, major. Tifflor ficará satisfeito ao saber que seu ex-carcereiro Orlgans viu chegada a hora.
— A Orla não foi destruída. Simplesmente desapareceu. Receio que se trate de outro truque do comandante dos saltadores.
— Nesse caso só posso lhe recomendar que continue de olhos bem abertos. Você ainda terá de se arranjar por algum tempo sem a nossa presença. Não desanime, major!
— Está bem, chefe. Mais alguma ordem?
— Quero que desligue. Lembranças para a frota. Fim.
O contato foi interrompido.
Poucas vezes se vira tamanho nervosismo a bordo da Stardust-III como naquela hora. Todos sabiam que o tempo era muito importante para a expedição. A frota estacionada no sistema de Beta-Albíreo precisava de socorro imediato. O cérebro P estacionado em Vênus já preparara os dados sobre o planeta Peregrino e aguardava a visita de Rhodan. O próprio Peregrino corria por regiões desconhecidas. Uma vaga esperança fora depositada nele.
E os robôs rebeldes estavam descarregando sua fúria sobre a Terra.
Rhodan era um homem diferente. Desde que, valendo-se de alguns estratagemas, conseguira receber no planeta Peregrino o dom da vida eterna — que além dele só fora dispensado a Reginald Bell — via-se numa posição bastante delicada. Apesar disso, a essa altura já devia ser capaz de feitos mais grandiosos.
Teria que estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
A catástrofe que desabou sobre Nova Iorque desenhou-se nas telas. Os robôs de combate tinham transformado quadras inteiras de Manhattan em infernos de fogo. Um traço duro se desenhou em torno da boca de Rhodan.


5



— Regime de prontidão para a Stardust-III. Avisem quando estiverem prontos para combater.
O comando de Rhodan significava que ele interviria no conflito com todo o potencial da nave.
— Você sabe o que está fazendo, Rhodan.
A constatação de Reginald Bell deveria ter sido formulada como uma pergunta. Mas não foi.
— Ponho vidas humanas em perigo, se é isso que você quer dizer. Mas ponho um número muito maior de vidas em perigo se não fizermos o que está ao nosso alcance.
A sombra por cima do inferno atômico de Nova Iorque cresceu. Representava a única esperança dos seres humanos que ainda viviam na cidade. Todos sabiam que era a nave de Perry Rhodan.
O campo energético da Stardust-III tocou a ponta dos arranha-céus mais altos. O gigante foi parar nas proximidades do Empire State Building.
— Comandante para os postos de combate. Só abram um fogo bem dirigido. Não disparem cargas maiores sobre alvos disseminados. Toda e qualquer vida humana deverá ser poupada. Os disparos serão registrados com exatidão.
No momento em que chegou o último aviso de prontidão, Perry Rhodan mandou abrir fogo.
A Stardust-III se deslocou lentamente para o norte, aproximando-se da frente de luta. Ivã Goratchim se encontrava na rua 42. Kakuta realizou uma teleportação e compareceu a bordo por dois minutos.
— Trinta e cinco robôs destruídos. Alguns dos nossos tanques também foram atingidos. Não dispomos de números exatos.
— Como vai Ivã?
— Está em plena forma. Estamos lutando contra máquinas. Por isso não tem problemas de consciência. E bem verdade que se acostumou à minha presença...
— Pois trate de voltar quanto antes.
Kakuta desapareceu imediatamente.
Alguns robôs tentaram atingir a Stardust-III. O insucesso total, causado pelo campo energético superpotente da nave, logo os levou a mudar de tática. Reuniram-se em grupos de três e procuraram se manter sob o abrigo dos edifícios.
Bell praguejou e chamou-os de bandidos.
— Deixe-se de nervosismo, Bell. Já alcançamos um êxito. Os robôs já não podem se dedicar exclusivamente ao ataque. Têm de cuidar também de sua defesa.
Às 11:18 h o êxito definitivo dos homens começou a se esboçar. As divisões da F.D.T., em sua retirada, haviam atraído boa parte dos efetivos inimigos para fora da cidade, onde a Stardust-III em poucos segundos volatilizou perto de cento e cinqüenta máquinas com um pesado canhão desintegrador. Os soldados de Mercant puderam contemplar novamente a possibilidade de um avanço. Mais tarde reuniram-se aos blindados da Terceira Potência, no centro de Manhattan, e avançaram por cima do East River, em direção ao Brooklyn.
Várias emissoras transmitiram proclamações do Imperador de Nova Iorque. Tratava-se de ordens de resistir, do tipo das que costumam ser expedidas por ditadores que vêem seu sistema desmoronar.
Os homens que se encontravam nas salas de comando da Stardust-III puderam dar-se novamente ao luxo de um sorriso.
— Não venham me dizer que o Imperador não conhece as fraquezas humanas — disse Bell em tom sarcástico. — As ordens que está transmitindo constituem um indício patente de loucura.
— Não é bem isso. As contradições resultam do fato de que pelo menos duas dezenas de robôs-secretários acreditam que são o Imperador. Deve ter havido um curto-circuito no seu sistema de comunicações. Para mim isso constitui prova de que o poder dos robôs chegou ao fim. É bem verdade que há muito trabalho pela frente, até que a última máquina de combate seja destruída. Temos um girino a bordo. Coronel Freyt, o senhor ficará por aqui na Good Hope-XVIII até que o perigo esteja removido. Entre em contato com o capitão Sirola e avise Mercant na Groenlândia.
— Perfeitamente, chefe!
— Obrigado. Prepare-se para a saída.
Às doze horas e dez minutos a Stardust-III deixará a Terra. Ordem dirigida ao oficial de mutantes Kakuta. Regresse imediatamente! Daqui em diante, Ivã terá de se arranjar sem você.
* * *
Bell reclinou-se na poltrona; respirava pesadamente.
— Estou acostumado à velocidade com que você costuma agir, Rhodan. Mas agora você está atropelando seus atos. Você se esqueceu de alguns mutantes que se encontram na Europa, na África e na Ásia.
— Ainda há outros na América do Sul e na Austrália. Mais tarde iremos buscá-los. No momento o que mais importa é irmos para junto do cérebro positrônico instalado em Vênus. Se não houver nenhum imprevisto.
— Você desconfia de alguma coisa?
— Estou pensando na mensagem que Nyssen nos mandou do sistema de Beta-Albíreo.
— Está aludindo à transmissão direcional dos saltadores? Isso não me preocupa. O fato de que esses caras mantiveram contato permanente com a Terra não constitui nenhuma novidade. Sabemos perfeitamente que os robôs não empregaram apenas sua capacidade militar contra nós; também funcionavam como espiões. A atividade dos robôs de trabalho constitui testemunho evidente disso. Nossa intervenção apenas desencadeou o conflito aberto.
— Está certo — respondeu Rhodan. — Acontece que você se esquece do resultado do nosso controle de comunicações pelo rádio. Não houve qualquer contato entre os saltadores e os nossos robôs. Ao menos não houve nenhum contato direto.
— O que você quer dizer com isso? Um espião que não pode transmitir os resultados de suas investigações não vale coisa alguma.
— Pois é justamente isso. Acho que deve existir uma estação retransmissora.
Talvez em Vênus.
— Isso não passa de uma suposição.
— Naturalmente. Vamos verificar o que há de verdade. Não se esqueça da informação de Nyssen sobre a transmissão direcional. Ainda acontece que, segundo dizem, o comandante dos saltadores, pertencente à corporação mercantil, desapareceu do sistema de Beta-Albíreo. Ao que tudo indica, seguiu em direção ao Sol.
A Stardust-III pusera-se a caminho de Vênus. Rhodan transmitiu, através de um código secreto, um aviso preliminar dirigido ao cérebro positrônico. Dentro de um tempo muito breve, compareceria para procurar os dados relativos ao planeta Peregrino. Se era verdade que Orlgans se encontrava a caminho da Terra, o tempo urgia ainda mais.
Toda a tripulação das salas de telegrafia fora instruída a concentrar suas atenções sobre qualquer mensagem de hipercomunicação. Mal haviam vencido o décuplo da distância da Lua quando o primeiro resultado foi anunciado.
— Impulsos de hipercomunicação vindos das profundezas da Via Láctea!
— Não conseguiu estabelecer a localização goniométrica? — perguntou ao jovem oficial.
— Um segundo. Durou apenas um instante. Deve se tratar de impulsos de localização extremamente concentrados no tempo.
— Para que serve o equipamento eletrônico?
— Perfeitamente, chefe! Já temos o resultado. Vem quase exatamente da direção de Beta-Albíreo.
— Pois então! Deve ser a emissora a que aludiu Nyssen. Ou será que se trata de uma mensagem expedida por um dos nossos cruzadores?
— Não senhor. Nenhuma das nossas chaves de codificação adapta-se à mesma.
Não conseguimos interpretar a mensagem.
— Por enquanto — disse Rhodan. — Por enquanto só estamos interessados em saber onde se encontra a estação receptora. Coloque em funcionamento todo o equipamento goniométrico, tenente. Tenho certeza de que a estação retransmissora hipotética de Vênus não tardará em trair sua presença.
— Perfeitamente.
— E agora vamos dar um passeio pela nave — disse Rhodan, dirigindo-se a Reginald Bell.
* * *
O passeio se transformou numa verdadeira correria. Rhodan estava com pressa, não apenas porque queria reassumir quanto antes o comando da Stardust-III, mas também porque havia uma centena de problemas que o martirizavam ao mesmo tempo.
Pegaram o elevador e subiram ao pavimento imediatamente superior. Bell viu-se no interior do laboratório particular de Perry Rhodan. O amigo apontou para um robô de combate bastante danificado.
— Está reconhecendo esse sujeito, Bell?
— É o robô de Nova Iorque? — conjeturou Bell.
— Deixamos algumas centenas deles nesse estado. É o sujeito que pus fora de combate no corredor do edifício da G.C.C. Está em condições melhores do que poderia parecer à primeira vista. Os equipamentos mais importantes de seu corpo não foram avariados. Como vê, já preparei a experiência.
Bell confirmou com um aceno de cabeça.
Um emaranhado de fios ligava o corpo do robô paralisado com uma série de instrumentos. Rhodan ainda não tivera tempo para realizar as experiências planejadas.
— Ainda bem que você está aqui. Com isso economizo uma porção de explicações.
— Você acha que o sujeito lhe revelará muita coisa?
— Faço votos de que a programação introduzida nele pelos agentes dos mercadores ainda não tenha sido apagada. De qualquer maneira, lhe restituí a consciência da Terceira Potência. É um ser muito inteligente com um conflito interior.
Rhodan interrompeu sua exposição e estabeleceu contato pelo videofone com a sala de telegrafia.
— Alô, tenente Evans. Ponha a mensagem misteriosa dos mercadores no meu transmissor.
— Pois não.
A transmissão foi apenas uma questão de segundos. Rhodan gravou a mensagem concentrada no tempo sobre um fio e reproduziu-a em intervalos variáveis. O setor intelectual do robô foi reativado por meio de um simples movimento de chave.
— Olá, Robby. Como está a recepção?
— Ótima. Uma recepção é o suficiente.
— Muito bem. De onde vem a mensagem?
— De Orlgans, comandante dos saltadores.
— Obrigado. O que diz?
— Orlgans para a estação Sol. No momento não podemos fornecer apoio. Todas as forças dos mercadores estão engajadas no sistema de Beta-Albíreo, em virtude de fortes contra-ataques desencadeados por cruzadores e destróieres inimigos. A ordem SZ-7 continua em vigor.
— Um momento. O que diz a ordem SZ-7?
— É uma ordem de resistência. Exige um ataque geral e imediato contra a população da Terra, mediante a utilização de todos os recursos militares.
— Obrigado. Prossiga com o aviso.
— Chegou ao fim.
— Muito bem. Como é que só agora você conseguiu decifrar a mensagem? Pelo que sei existe uma estação retransmissora no sistema solar, que costumava fornecer-lhes as notícias.
— Nosso receptor é muito fraco. No caso o equipamento de rádio da Stardust-III desempenhou as funções de estação retransmissora.
— Hum. A explicação não deixa de ser plausível. Para onde vocês irradiam suas mensagens destinadas a Orlgans?
— Na direção de Aldebaran-Touro...
Bell interrompeu o robô com um ataque de tosse forçado.
— Veja só. Você suspeitava de Vênus, Rhodan. Parece que foi um engano.
Rhodan deu de ombros.
— Foi uma suposição intuitiva. No momento o planeta Saturno se encontra na posição do Touro. Robby, será que Saturno está no jogo?
— Não posso dizer. Não disponho de informações a este respeito.
— Mentiroso! — trovejou a voz de Reginald Bell. Mas Rhodan assumiu a defesa do robô.
— Robby não tem nenhum motivo para mentir. Chegaremos mais longe se acreditarmos nele. Afinal, já conseguimos alguma coisa. O sistema de Saturno não é muito grande; deverá haver um meio de resolver o problema. Teremos que realizar quanto antes uma mudança de rota.
— Pelo amor de Deus! — gemeu Bell. — Até já estou começando a ficar nervoso. Gostaria de saber o que vai pensar o cérebro P instalado em Vênus quando souber que voltamos à Ponte.
Rhodan pôs a mão na chave que desativaria o robô, mas Bell o reteve num gesto rápido.
— Um momento, Rhodan. Ainda dispomos de dez segundos. Preciso fazer uma pergunta muito importante a esse menino. Trata-se de uma questão que ninguém conseguiu solucionar.
Logo depois, dirigiu-se ao robô:
— Ouça o que vou dizer. Você voltou a sentir-se como um servo da Terceira Potência, não é, Robby?
— Sim senhor.
— Deixe de cerimônias — insistiu Rhodan. — Está bem. Você está lembrado da revolta de robôs em Terrânia.
— Não participei da mesma.
— Mas vocês tiveram meios de se comunicar entre si.
— Sim senhor.
— Pois bem. A revolta foi controlada antes do tempo. Antes que pudessem desferir o golpe, seus companheiros de Terrânia foram postos fora de ação. Inclusive os robôs de combate. Apesar disso puseram-se em marcha ao amanhecer e espalharam muita desgraça. Qual é a explicação?
— Muito simples. A polícia humana teve que lidar com os robôs um por um. E cometeu o erro de não vigiar as máquinas desativadas. Alguns robôs ainda livres dirigiram-se aos seus camaradas enquanto a ação policial estava em andamento e voltaram a ativá-los. Foi por um estratagema de guerra que todos os robôs de combate se deixaram depositar no grande pavilhão.
— Desligue esse sujeito, Rhodan! — exclamou Bell, furioso. — Se escuto isso por mais algum tempo, acabarei tendo complexos de inferioridade.
* * *
O treinamento hipnótico e a prática galáctica conferiram-lhes grande presença de espírito. Ao regressarem à sala de comando, já haviam concluído o processamento psíquico dos conhecimentos recém-adquiridos. Rhodan voltou a assumir o comando.
— Vamos alterar a rota.
Seguiram-se os detalhes e as confirmações expedidas pelos diversos postos.
Saturno?! Com grande espanto os co-pilotos, engenheiros de máquinas, navegadores, assistentes e ordenanças tomaram conhecimento do novo objetivo.
Evans anunciou o resultado da medição goniométrica.
— A resposta dirigida à base dos saltadores instalada no sistema de Beta-Albíreo é irradiada a partir do sistema de Saturno.
— Obrigado, Evans. Já fixamos a rota com esse sistema. Tente obter uma indicação mais precisa do destino.
O pessoal do rádio provou que não era totalmente inútil.
— Apuramos a posição exata da emissora do inimigo, chefe. Fica na lua de Saturno denominada Titã, a sete graus de longitude oeste e oitenta e quatro graus de latitude norte, ou seja, nas proximidades do pólo norte.
— Obrigado, tenente. Foi um serviço bem feito.
— Fixação precisa da rota. Correções...
A Stardust-III voltou a desenvolver a velocidade normal, equivalente à da luz, cruzou a órbita de Marte, atravessou as extremidades do anel de planetóides e mergulhou no negrume do espaço. Júpiter encontrava-se em oposição. Saturno com suas nove luas era o objetivo mais próximo que se encontrava a seu alcance.
Os aparelhos de escuta da Stardust-III estavam regulados ininterruptamente para a estação retransmissora do inimigo. Mais três mensagens foram captadas. Tratava-se de pedidos de socorro dos exércitos terrestres de robôs. Na quarta e última transmissão a estação de Titã anunciou que ela mesma se encontrava em perigo. Os robôs depositados no laboratório de Rhodan realizaram a decodificação.
— Titã para Orlgans! Titã para Orlgans! O couraçado Stardust-III aproxima-se, navegando à velocidade da luz. Mantém uma rota que se dirige exatamente para cá. É impossível que se trate de uma coincidência. Alguém deve ter revelado nossa posição. Solicitamos apoio imediato.
— Não podemos dispensar a nave Orla XI. Parta para o contra-ataque. O girino arcônida dispõe de armamento suficiente para um ataque de surpresa. Modificação do código. Nova posição: 74 562 AT 9...
O resto foi incompreensível.
A consulta que Rhodan formulou ao robô não produziu o menor resultado. Seu cérebro não fora programado para a chave 74 562 AT 9. A linguagem ininteligível foi introduzida imediatamente no grande cérebro positrônico instalado a bordo da nave. Mas a codificação inimiga era tão complicada que várias horas ou mesmo dias poderiam se passar antes que se dispusesse de um texto compreensível.
Acontece que a decisão teria que vir nos próximos minutos, pois a Stardust-III, que já iniciara as manobras de frenagem, encontrava-se a apenas oitenta e cinco milhões de quilômetros de Titã.
— De qualquer maneira Orlgans cometeu dois erros — comentou Bell, satisfeito.
— Sabemos que não pode vir pessoalmente, e que dispõe de uma nave auxiliar arcônida de sessenta metros. Face a isso podemos avaliar com alguma aproximação a força do inimigo que nos aguarda em Titã.
— Até podemos avaliá-la com muita exatidão — disse Rhodan com uma raiva contida. — Na mensagem foi mencionada a palavra girino. Acontece que se trata de um apelido que demos às naves dessa classe.
— Dali você conclui que se trata de uma nave da nossa frota?
— É a conclusão que se impõe, meu caro. Lembre-se de que ainda não localizamos a Good Hope-I, comandada pelo tenente Dayton. Todas as buscas foram infrutíferas. Pode-se perfeitamente conquistar uma nave e tripulá-la com sua própria gente. Acho que os saltadores não são tolos. Saberão lidar com a tecnologia arcônida central.
— Isso significa que podemos dar a tripulação comandada por Dayton como perdida...?
Rhodan ficou devendo a resposta. Não estava tão bem informado.
Faltavam quinze milhões de quilômetros para Titã.
— Bell, sugiro que você nos dê cobertura com três destróieres. Com o poder de fogo de nossa nave provavelmente não precisamos disso, mas nunca se sabe como se desenvolverá a situação. De qualquer maneira faço questão de que alguém vá dar uma olhada em Titã. Estou interessado na estação dos saltadores.
— Não pretende pousar?
— Talvez nem tenhamos oportunidade para isso. Prepare-se. Leve dois oficiais da guarnição de reserva e os tripulantes de que precisa. Faltavam dez milhões de quilômetros para chegar a Titã.
Três destróieres comandados por Bell saíram da nave-mãe e dispararam para o espaço em ligeiros impulsos de aceleração. Tomaram uma rota tangencial, a fim de descrever alguns círculos em torno da maior das luas de Saturno.
No mesmo instante o girino decolou. Contavam com sua presença e por isso estavam preparados. Bell esteve a ponto de se precipitar sobre ele. Mas Rhodan ordenou que não modificasse sua rota.
— O sujeito foi destinado a nós. Vocês só empreenderão qualquer manobra se forem atacados.
— Está bem — disse Bell, contrariado, e obedeceu.
O girino se aproximou silenciosamente. O rugido interno de uma nave espacial acelerada ao máximo perde-se no vácuo do universo.
— Isso mesmo! É a Good Hope-I — constatou Crest, o arcônida. — E lá vêm os disparos.
Três torpedos espaciais se aproximaram vertiginosamente. O campo energético da Stardust-III se dobrou. Foi um devorar mútuo de energias termodinâmicas. Três bombas investiram contra o campo energético. Bastava que um dos projéteis conseguisse vencer o obstáculo para que uma deflagração atômica irreversível fosse desencadeada em certos elementos do objeto atingido. O artilheiro podia regular o artefato à vontade, no que dizia respeito aos elementos até o número oitenta. De qualquer maneira, todos os elementos pesados seriam atingidos pela conflagração.
A sensação provocada pelo fato de se encontrar sob o fogo desse instrumento de destruição maciça não era nada agradável.
Os homens que ali se encontravam tinham que depositar muita confiança na potência do campo energético.
Os instrumentos indicaram a potência do ataque energético.
— Sessenta e cinco por cento — murmurou Rhodan.
Poucos segundos depois as agulhas voltaram à posição primitiva. Haviam resistido ao primeiro ataque.
O segundo foi desfechado com cinco bombas.
— Setenta e oito por cento.
— O que está esperando? — perguntou o Dr. Eric Manoli, que se encontrava perto de Rhodan.
Este se limitou a lançar-lhe um ligeiro olhar; não disse nada. Afinal, o que poderia dizer? Que preferia não atirar porque se tratava do girino Good Hope-I? Essa fala pareceria muito sentimental. Era possível que o motivo fosse outro.
Talvez o tenente Dayton.
Bell anunciou sua posição além de Titã.
— Observamos nitidamente a estação. Trata-se de uma montagem de aparência modesta. Ao que parece o resto encontra-se sob a superfície da lua. Como estão vocês?
— Bem, obrigado. Repelimos dois ataques. Não se preocupem conosco. Pousem.
O fim da ligeira palestra coincidiu com o terceiro ataque do girino. Seis bombas arcônidas!
— Oitenta e três por cento!
Os geradores uivaram em freqüências elevadas. Deram o último de si para recarregar o campo energético numa fração de segundo.
— Oitenta e sete por cento! Noventa e dois por cento!
As forças que protegiam a Stardust-III da destruição pareciam reduzidas a uma fina membrana. Quando diminuiria a força das seis bombas arcônidas?
Finalmente: oitenta e nove por cento, oitenta e oito, oitenta e sete...
As agulhas dos indicadores de carga tenderam para baixo. Mas logo a Stardust-III foi atingida por uma sacudidela, que só depois de um momento de choque puderam ser absorvidas pelos compensadores de gravitação. As agulhas saltaram para noventa e oito por cento.
Nesse momento da eternidade, os gritos se misturaram. Os instrumentos de alarma anunciaram a aproximação de matéria pela popa. Tudo foi tão rápido que num momento de tensão nervosa a mente humana não poderia esboçar qualquer reação.
A única coisa que poderia salvá-los seria o autômato positrônico.
Cada um dos três destróieres vindos pelas costas havia disparado uma bomba arcônida. Logo se seguiram os impactos e os esforços desesperados do dispositivo automático de defesa.
— Setenta e dois por cento! Trinta e seis por cento...
As agulhas caíram para trás. Mas a posição da nave não conferia mais. Que abacaxi!
Saturno estava a vinte milhões de quilômetros.
— Não é possível! — disse Manoli, segurando o ombro, com o rosto contorcido de dor.
— Dispomos de um controle múltiplo. Se você tivesse razão, todos eles teriam falhado.
— Mas...
— Não há nenhum mas, Eric. Foi apenas um salto espacial involuntário. As energias liberadas durante o duelo tiveram, por uma simples coincidência, uma disposição tal que causaram uma verdadeira curvatura do espaço. Por pouco conseguem nos atirar para fora do conjunto de quatro dimensões. Sugiro que antes de mais nada cuidemos do girino. Está ficando muito perigoso para que possamos ter qualquer contemplação.
* * *
— Que é isso, Flynn? — perguntou Bell em tom de desespero ao seu artilheiro. — Será que nossas telas goniométricas estão desreguladas?
O tenente Flynn sabia que o sentido da fala de Bell era muito mais sério do que suas palavras poderiam dar a entender.
— Se esses bandidos tivessem destruído a Stardust-III, deveria ter sobrado ao menos uma nuvem energética.
— A conclusão não é nada má, desde que nos mantenhamos no seu campo de experiência. Acontece que estamos lidando com um inimigo cujo poder real talvez nos seja desconhecido. É bem possível que tenham montado suas armas num girino apresado.
Enquanto falava, Bell já ligara o receptor. Utilizou a freqüência secreta de emergência.
Bell para Rhodan! Bell para Rhodan! Responda, Rhodan!
Houve uma ligeira pausa. Depois se ouviu:
— Rhodan para Bell! O que houve?
— Graças a Deus, Rhodan! Onde é que vocês se meteram? Perdemos a posição.
— Sem querer, realizamos um pequeno salto espacial. Foram quinze milhões de quilômetros. Os caras lançaram mais três destróieres com que ninguém contava. Não se preocupem. Cuidaremos da Good Hope-I. Espero receber em breve informações precisas sobre a situação em Titã. Fim.
Os homens suspiraram aliviados e se reclinaram nos assentos. A formação de destróieres girou para baixo e abandonou definitivamente a órbita do satélite.
Rhodan foi esquecido. Concentraram todas as atenções sobre o pouso. Um mundo de gelo como Titã, cuja atmosfera cristalina de metano e amoníaco misturados com vários gases nobres é capaz de uma série de reações químicas, requer muito cuidado de qualquer astronauta que nela queira penetrar.
Obedecendo ao comando de Bell, os pilotos ativaram o chamado campo de vácuo, que criava uma zona neutra de mais de quinhentos metros em torno de cada aparelho.
Sem o menor incidente, pousaram ao lado da torre de rádio. Não houve o menor movimento defensivo.
— Aguardem! — ordenou Bell. — Deixem a temperatura baixar. Liguem a refrigeração artificial. Avisem assim que o envoltório externo esteja em condições normais.
A operação durou dois minutos, que não foram desperdiçados. Os homens colocaram trajes espaciais. Depois disso Bell ordenou o desembarque.
— Dois homens de cada aparelho virão comigo. Os co-pilotos ficarão para vigiar as máquinas.
A torre era uma construção metálica em forma de grade, levantada numa planície lisa que não poderia fornecer abrigo a ninguém. Apesar disso teriam de agir com cautela. Os seis homens se aproximaram lentamente do objetivo, com os fuzis de desintegração e os radiadores de impulsos em posição de atirar. Reginald Bell caminhava à frente. Seu traje espacial era um equipamento de batalha de origem arcônida. Mantinha o campo protetor ativado. Os outros cinco andaram em sua sombra, para que um ataque de surpresa com armas ligeiras pudesse ser rechaçado.
Mas não aconteceu nada. Atingiram a armação metálica sem serem molestados. Embaixo dela havia uma porta-alçapão que conduzia para baixo do solo.
— Tenham cuidado! — voltou a advertir Bell, quando Flynn se pôs a mexer no fecho. — Está bem, tenente. Continue a girar isso. Mas não enfie logo a cabeça pela abertura.
Um dispositivo hidráulico fez o alçapão deslizar para o lado. Bell soltou uma bolsa presa ao lado externo de seu traje e colocou-a cautelosamente acima da abertura. Um segundo depois metade do objeto havia sido consumida pelo calor.
— Ah, então puseram sentinelas!
A constatação foi pronunciada num tom estranho. Até parecia que Bell se sentia satisfeito por ter tido razão.
— Podemos conversar à vontade. Ninguém pode ouvir a conversa travada pelo telecomunicador de nossos trajes espaciais, mesmo que se encontre a apenas três metros. Aguardem mais um instante. Vou ligar o defletor de ondas luminosas para dar uma olhada.
Para os outros o momento parecia bastante crítico. Mas Bell confiava na eficiência do aparelho.
Afinal, estava invisível. O olhar duro do robô de combate constituía a melhor prova disso.
— Alô, minha gente, que surpresa! Seis metros abaixo de mim está um robô que os mercadores de Orlgans devem ter roubado de alguma filial da G.C.C. na Terra. Até parece que seus olhos estão abrindo furos no ar; ao que tudo indica, aguarda outro ataque. Vamos ver se temos mais alguns desses sujeitos de lata por aí.
Bell apontou o radiador de impulsos térmicos para baixo e apertou o gatilho. O robô dobrou as pernas e volatilizou-se pela metade.
— Vamos esperar!
Passaram-se dez segundos, meio minuto.
Nada se movia.
— Ao que parece o ambiente está limpo. Mas prefiro descer sozinho para dar uma olhada.
Por alguns segundos, Bell ficou dando tratos à bola para descobrir como um simples mortal poderia descer por essa galeria vertical de seis metros. Devia ser uma forma de deslocamento bastante desconfortável, mesmo que se considerasse que a gravitação não era superior a um terço da terrestre.
Perto da galeria havia alguns botões. Devia experimentá-los. Deixou cair algumas pedras. Ao comprimir um dos botões, as mesmas não caíam mais. Flutuavam.
— Um elevador antigravitacional! Tudo em ordem, minha gente! Avisarei assim que puderem seguir.
Bell flutuou para baixo.
Ao atingir o primeiro piso, viu-se numa sala pequena. Não se via nada além dos destroços do robô. Nas paredes viam-se três escotilhas. Eram comportas de ar atrás das quais devia se encontrar uma atmosfera de nitrogênio e oxigênio. Um exame mais detalhado confirmou o fato.
Bell escolheu a passagem do meio.
Mandou que os cinco homens o seguissem e informou-os ligeiramente sobre sua descoberta.
— Tenente Flynn, venha comigo. Os outros esperarão aqui.
O corredor descia obliquamente. Dali a cem metros o mesmo se ampliou, sendo novamente fechado por três portas. A da direita levava a um grande depósito, ocupado principalmente por cinco robôs terrestres desativados.
— Esses sujeitos de lata ficarão admirados quando os despertarmos para a vida...
Como o tempo fosse escasso, não puderam examinar os detalhes, por mais curioso que Bell ficasse com os numerosos instrumentos. Um belo dia Freyt teria de cuidar daquilo.
A segunda porta dava para um apartamento residencial muito confortável. Lembrava as residências terrestres; apenas os móveis de uso dos ocupantes pareciam dimensionados além das normas usuais.
— Isso bem pode ter sido uma residência de gigantes — constatou Bell em tom indiferente e dirigiu-se à outra porta.
Penetraram num recinto escuro, que logo os fez farejar um perigo. Mas depois de terem dado três passos, a iluminação automática derramou uma luz direta sobre eles.
Era um pavilhão comprido com boxes abertos.
Havia uma espécie de enfermaria, sala de repouso, laboratório... e seres humanos.
Bell e Flynn estacaram por um momento.
Não eram robôs nem saltadores, mas seres humanos.
O ar era respirável.
— Retirar o capacete — ordenou Bell e abriu o visor.
Flynn acompanhou-o. No mesmo instante as súplicas dos companheiros debilitados atingiram seus ouvidos.
— Que patifes! — disse Bell por entre os dentes. — Que patifes de saltadores.
O primeiro homem que libertaram das amarras que o prendiam ao leito foi o Dr. Berril, médico de bordo da Good Hope-I. Seguiram-se alguns mortos. O sétimo dos homens estava vivo, se é que se quisesse chamar de vida aquilo que fez com que o corpo maltratado se empinasse.
Abatido, o Dr. Berril sentou-se na beira da cama.
— Fale, doutor! Mesmo que seja difícil. O senhor tem que fazê-lo por si e pelos companheiros. Além disso, é o único médico que temos por aqui.
— Eles nos prenderam e trancafiaram. Todos os dias realizavam interrogatórios psíquicos. Deixamos de ser homens. Nossos cérebros...
— As reações de seu cérebro são normais, doutor. Pense nos companheiros que tiveram um destino pior que o seu. Tome este comprimido energético. E use estes tubinhos para alimentar os outros. Venha, eu o apoiarei.
O comandante, tenente Dayton, era um dos mortos. A maior parte dos tripulantes havia morrido. Só vinte e dois homens podiam ser considerados clinicamente vivos. E Bell só dispunha de três destróieres completamente lotados.
O problema fez porejar o suor em sua testa. Tinha que agir. E tinha que agir imediatamente. Ao lembrar-se de Orlgans, sentiu seu espírito ferver. Onde estaria Orlgans? Teria abandonado o grupo de seus companheiros de clã estacionado em Beta-Albíreo? Não poderia surgir a qualquer momento no sistema do Sol? O destino dos espiões robotizados que deixara na Terra constituiria motivo mais que suficiente para isso.
As ordens de Bell foram terminantes, quase grosseiras.
Mandou que os quatro homens que aguardavam diante das comportas descessem.
— Doutor, o senhor e Flynn os instruirão. Todos nós dispomos de um estoque de medicamentos que nos permite prestar os primeiros socorros. Enquanto isso cuidarei de outro assunto.
Bell desapareceu sem dar qualquer explicação. Seu destino era o pavilhão da frente, onde estavam depositados cinco robôs. Conhecia os companheiros de lata de dentro e de fora. Esse conhecimento pertencia ao saber adquirido através do treinamento hipnótico.
— Número um — murmurou em tom sarcástico — levante-se. Você tem visita.
Ativou-o para um décimo de sua potência, examinou a programação e constatou justamente aquilo que esperara.
— Seu desertor de uma figa, eu lhe darei uma lição... Mas como?
Sua mente se iluminou com uma rapidez extraordinária. O traje arcônida.
O gerador destinado ao campo defensivo desenvolvia uma energia eletromagnética que bastaria para apagar a programação indesejada que fora introduzida no robô. As experiências realizadas por Rhodan já lhe haviam ensinado em que setor do robô fora introduzida a má consciência.
Número um, a primeira tentativa.
Deu certo.
O resto não passou de um trabalho de rotina. Dali a vinte minutos, os cinco robôs de combate estavam reativados e programados de acordo com os interesses da Terceira Potência.
Bell emitiu algumas ordens e explicou a situação. Obedientes, os cinco robôs se espalharam pela estação. O número um foi à sala de instrumentos, o número dois à enfermaria, o número três marchou para a residência dos mercadores, o número quatro assumiu seu posto diante das comportas de ar e o último ficou numa posição avançada na superfície de Titã.
Um pouco mais satisfeito, Bell voltou para junto dos companheiros.
— Por enquanto nossa posição está garantida. Os cinco robôs continuam leais a nós. Decolarei só no meu destróier e farei com que o coronel Freyt mande socorro quanto antes. Não deverá demorar mais de um dia.
Bell e Flynn se despediram. Dali a poucos minutos o destróier disparou para o céu de Titã.

* * *

À decisão de Rhodan seguiram-se as ordens. Os saltadores que tripulavam a Good Hope-I deviam ser de opinião que haviam destruído a Stardust-III. Tomaram uma rota estranha.
— Olhe só! — disse Eric Manoli, espantado. — Dirigem-se à Terra. Será que pensam que ainda podem salvar alguma coisa? Acredito que Freyt já conseguiu liquidar a resistência dos robôs.
— As últimas informações são satisfatórias — disse Rhodan. — Mas a Humanidade tem muitos mortos e feridos a lamentar em todos os continentes. Quando me encontrar com o primeiro saltador, registrarei essa dívida. Um momento, Eric! Veja só a rota! Parece que não é a Terra.
Manoli se sobressaltou. Depois sacudiu a cabeça e disse:
— Há poucas horas você me falou em sua intuição. Ao que parece sua idéia ligada a Vênus não era tão absurda...
Na verdade, o girino tomara decididamente a rota de Vênus.
— O fato é que a espionagem realizada pelos robôs revelou a Orlgans algumas coisinhas que devíamos ter guardado para nós — disse Rhodan. — O ponto nevrálgico da Terceira Potência não é o deserto de Gobi, mas o grande cérebro positrônico instalado em Vênus. Está na hora de agir.
— Têm uma vantagem de mais de vinte milhões de quilômetros — ponderou Manoli.
— E a velocidade da luz sempre é a velocidade da luz. Tanto faz que seja um pequeno girino ou a Stardust-III que desenvolve a mesma.
— Faremos uma coisa proibida — disse Rhodan com um sorriso matreiro.
A coisa proibida foi uma ligeira transição que os levou através da quinta dimensão. No interior de qualquer sistema planetário uma manobra desse tipo representava um perigo inequívoco, pois poderia afetar a estabilidade do conjunto. Mas não era a primeira vez que Rhodan fazia uma coisa dessas. Já adquirira prática.
As medições realizadas pelos trinta e cinco observadores e a interpretação dos dados pelo cérebro positrônico instalado a bordo consumiu dez minutos. A hora havia chegado.
A Stardust-III realizou o salto espacial. Desapareceu pura e simplesmente do setor do espaço em que se encontrava e, sem cruzar a órbita de Júpiter, Marte e Terra da perspectiva projetada na quarta dimensão, surgiu de uma hora para outra nas proximidades de Vênus. Abrigou-se atrás do planeta e aguardou o inimigo que se aproximava.
Aguardou durante oitenta e quatro minutos.
A surpresa total foi o grande aliado de Rhodan. Os instrumentos de alarma mal podiam ter soado na Good Hope-I quando a Stardust-III se transformou num monstro imenso. Doze bombas carregadas por torpedos que se deslocavam quase à velocidade da luz precipitaram-se sobre o alvo. Todos os canhões pesados de desintegração dispararam ao mesmo tempo. A Good Hope-I se transformou numa nuvem de energia.
Os homens que se encontravam a bordo da Stardust-III ainda não haviam terminado de dar seu suspiro de alívio quando os instrumentos de alarma anunciaram nova aproximação de matéria. Três destróieres se aproximaram na esteira da Good Hope-I. Eram as mesmas naves que por pouco não tinham dado cabo do couraçado.
— Pontaria. Ponte de comando para direção de tiro. Reconheceram o alvo, ou precisam de dados goniométricos?
— Obrigado. Temos os três destróieres grudados na mira. O senhor poderia dar ordem de fogo, chefe?
— Fogo!
Mais uma vez contemplaram o fogo de artifício que se exibiu em pleno céu. Rhodan sabia que não estava indo longe demais. Em situações como esta sempre soubera harmonizar seus atos com a consciência. Não que sua consciência não prestasse, mas conhecia perfeitamente os limites e os deveres pelos quais tinha que pautar seus atos.
Não estava usando uma desculpa barata ao alegar que agia em prol do bem-estar de toda a Humanidade.
Quem se aproximasse pacificamente, poderia contar com um aperto de mão de Rhodan. Mas quem trouxesse a morte para a Humanidade teria que contar com a própria destruição.
* * *
Dois destróieres foram atingidos. O terceiro escapou na sombra de Vênus. Não voltou a aparecer. Devia ter caído ou pousado.
Um destróier?
Rhodan se lembrou do planeta Peregrino. Teria que ir ao Peregrino. Não poderia perder mais tempo por causa de um destróier que se encontrava a serviço do inimigo.
Mandou que estabelecessem uma ligação entre sua sala de comando e a cidade de Terrânia. Em palavras ligeiras, relatou ao coronel Freyt o que havia acontecido. Subitamente havia um terceiro interlocutor na mesma faixa de ondas.
— Olá, Bell. Por que está entrando na nossa conversa?
— Tenho tanta pressa quanto você. Coronel, mande imediatamente um girino para Titã.
Também Bell ofereceu um relato lacônico de suas descobertas. Freyt confirmou a recepção e, ao concluir, informou seus interlocutores de que a guerra de robôs na Terra podia ser considerada finda.
— Nesse caso posso receber meus mutantes de volta — constatou Rhodan. — Irei em direção ao cérebro positrônico de Vênus. Coronel, mande a Good Hope-II para Titã e liquide o assunto com Bell. Voltarei a chamar assim que tiver terminado em Vênus.
Os instrumentos de Rhodan instalados em Vênus terminaram o trabalho em menos de dois dias terrestres. O cérebro positrônico já havia preparado os dados sobre a posição do planeta Peregrino. Mas o registro desses dados, que eram extremamente complicados, durou várias horas. Na verdade, tratava-se apenas de valores aproximados, dotados do maior grau possível de probabilidade. Por fim, as coordenadas foram introduzidas no cérebro positrônico da Stardust-III através de um código elaborado pelo próprio Rhodan.
Antes de decolar, Rhodan ainda solicitou um relatório sobre os acontecimentos que se haviam desenrolado nas últimas semanas em Vênus. O cérebro ali estacionado informou-o sobre três destróieres que haviam pousado na selva do hemisfério sul.
— Não é apenas o sujeito que nos escapou que se mantém escondido aqui.
A constatação de Rhodan revelou certa contrariedade. A perspectiva mudava constantemente; até parecia que seus planos seriam estragados a cada hora.
O planeta Vênus não representava uma folha em branco da história da Humanidade. Há mais de um ano várias divisões plenamente equipadas do Bloco Oriental, então em plena revolta, haviam pousado ali. Depois de uma série de lutas de resultado variável, travadas principalmente entre os cidadãos do Bloco Oriental, fortes grupos formaram-se sob o comando do general Tomisenkow, e passaram a empreender uma pacífica atividade colonizadora. Mas também aqui a situação ainda não havia sido esclarecida. Se Rhodan contasse com a possibilidade de um contato entre saltadores do clã de Orlgans que haviam pousado ali e os homens de Tomisenkow, não poderia afastar a possibilidade de novas complicações.
— De qualquer maneira, não demoraremos nem um minuto — decidiu Perry Rhodan e deu ordens de decolar.
O coronel Freyt teria que cuidar de Vênus. Era o homem que na ausência de Rhodan teria que exercer o governo da Terceira Potência.
Uma vez fora da densa atmosfera de Vênus, a Stardust-III deu início a uma intensa troca de mensagens de rádio. Bell respondeu imediatamente, informando que o traslado dos vinte e dois sobreviventes de Titã fora concluído com êxito. Já se encontravam nos hospitais de Terrânia.
— ...nossos mutantes também estão a postos, Rhodan. Não há mais nada que impeça a decolagem.
— Muito bem. Apressem-se. Daqui a uma hora no máximo quero recolher a Good Hope-II a bordo e dar o fora daqui. Ligue-me mais uma vez com o coronel.
Freyt recebeu instruções detalhadas e se despediu.
— Boa viagem, Rhodan. E um bom regresso. Lembranças ao pessoal da frota.
Combinou com Bell um ponto de encontro entre as órbitas da Terra e de Marte. Dali a uma hora a Stardust-III recolheu a bordo a Good Hope-II e deu início à longa viagem com destino ao planeta Peregrino.
Antes de atingir o ponto de transição, situado além da órbita de Plutão, Rhodan pediu mais uma ligação direta com o major Nyssen. Pediu um relato sobre a situação atual.
MacClears, comandante do cruzador Terra, anunciou-se pelo hipercomunicador:
— No momento o major Nyssen está realizando um vôo contra os saltadores. A Solar System está envolvida num combate contra três inimigos. Até agora tudo deu certo. Mas não sabemos até quando será assim. Os mercadores receberam reforços. Receamos a intervenção de couraçados ainda mais potentes dos saltadores. No momento só nos resta esperar que a Stardust-III não demore a voltar. — Faremos o que estiver ao nosso alcance. Mas não sou nenhum profeta e não costumo fazer promessas vazias. Agüente mais algum tempo.
Com um laconismo tipicamente militar, MacClears confirmou o recebimento da ordem e desligou.
— Preparem-se para o salto interestelar — soou o comando de Rhodan. Reclinara-se profundamente na poltrona e fitava a tela de proa, que mostrava milhares de sóis que se desenhavam sobre o fundo negro do espaço cósmico. Em algum ponto desse labirinto, o planeta da vida eterna percorria seu caminho. Era o planeta que trazia o nome bastante significativo de Peregrino. Nele estava o próximo objetivo de Rhodan. Era ali que existia o ser indefinível, que não tinha nome. Só esse ser poderia salvar a Humanidade ameaçada.
— No planeta Peregrino receberemos armas que nos assegurarão uma superioridade definitiva sobre os saltadores — murmurou Rhodan, falando quase para si.
— Isso soa como uma prece, Rhodan — prosseguiu Bell no raciocínio de Rhodan.




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Numa ação maciça, as autoridades militares da Terra conseguiram remover a ameaça representada por seus próprios robôs, cuja programação foi alterada. Mas a Terra só poderá se defender contra todos os clãs dos saltadores se Perry Rhodan puder contar com uma nova arma.
Essa arma lhe é dada durante seu Vôo Para o Infinito.
Vôo Para o Infinito é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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