Finalmente
estavam mostrando as cartas.
Ligou o
telecomunicador.
— Alô,
Rhodan! Deixarei meu aparelho ligado para a transmissão. Acompanhe as informações.
Fim. Tenho que me teleportar de novo.
Kakuta
saltou para a segunda ante-sala, pela qual o Imperador ainda teria que passar.
— Pare!
Nenhum passo!
Estava com o
radiador de impulsos térmicos apontado para Adams. O Imperador estacou.
— Quem não
quiser ser destruído que saia do meu caminho.
— Um
instante, senhor Imperador. O senhor não pode dispensar o mais importante dos
nossos homens. E entre homens sempre precisamos de um entendimento.
Um dos seus robôs
acaba de disparar contra mim. Exijo garantias contra esse tipo de traição.
— O
Imperador ordena, os outros obedecem.
— Menos eu!
Se não quiser entender a linguagem da razão, terei de matar Mr. Adams. Escolha.
Kakuta
preferiu jogar no seguro. Atirou no primeiro dos robôs de combate, que estava
entrando na sala. Depois saiu correndo e destruiu também o segundo, que naquele
instante considerava concluída sua insensata missão destruidora no gabinete do
chefe. As duas máquinas não haviam sido reguladas para enfrentar um perigo
iminente e por isso mantiveram seus campos protetores desativados.
Kakuta
voltou à ante-sala. Parecia se sentir muito mais à vontade.
— Agora
vamos ao nosso acordo, senhor Imperador! Quero um acordo que inclua garantias
para o edifício da G.C.C. Senão estiver disposto a firmá-lo, o senhor não sairá
daqui. Não tenho o menor interesse na sua dinastia de robôs. Estamos
interessados única e exclusivamente na nossa firma.
A máquina
não deu mostras de qualquer reação emotiva. Nem poderia desenvolver uma reação
desse tipo. Por isso o homem tinha de redobrar os cuidados perante a mesma.
— Eu sou o
Imperador e dou as ordens. Os outros obedecem.
A arrogância
da máquina deixou Kakuta ainda mais irritado. Não devia perder o autocontrole!
Se essa criatura realmente era o imperador, por que não o prendia? Por que não
o destruía?
O
teleportador colocou o dedo no gatilho. Não acreditou que um disparo de sua
arma pudesse salvar Nova Iorque. Era impossível que o comando de todas as
máquinas robotizadas estivesse centralizado nesse cérebro P. Essa história do
imperador só podia ser um blefe. De qualquer maneira, o que poderia fazer?
— Eu o matarei,
senhor Imperador, a não ser que se disponha a negociar em bases justas.
— No momento
em que o senhor me matar, as comunicações com o centro de controle estarão
interrompidas. Isso desencadeará um alarma. Num prazo curtíssimo este edifício
seria reduzido a um montão de ruínas.
— Nada de
violência, Kakuta — voltou a intervir Adams. — O Imperador deve ter tomado
todas as providências para sua garantia. Sugiro um negócio melhor...
— Fale — disse
o Imperador.
— O senhor
nos entrega vinte robôs-polícia em estado passivo, que se encarregarão da
proteção do edifício.
A voz do
Imperador se transformou num ronco. Talvez pretendesse ser um riso irônico.
— No novo
Império só existe uma força policial. Sua proposta é inaceitável. Eu sou o
Imperador, os outros obedecem.
A raiva de
Kakuta foi substituída por uma ligeira satisfação. Afinal, conseguira envolver
o robô numa palestra. O tema não tinha a menor importância. Na situação em que
se encontrava ele se prestaria à palestra mais idiota deste mundo.
— O senhor
está enganado, senhor Imperador! A G.C.C, não pertence ao senhor. Temos de
estabelecer algum tipo de coexistência. Ninguém conseguirá destruir a Terceira
Potência. Não se esqueça disso.
— A Terceira
Potência não pertence ao meu território. Terá outro imperador.
— O
imperador da Terceira Potência já morreu, se é que está interessado nisso. E
com ele morreram duzentos guerreiros seus.
— O destino
dos habitantes de Gobi é lamentável. Mas não é o que está em discussão.
— Esse destino
devia lhe servir de exemplo.
— Eu sou o
Imperador, Mr. Kakuta. A audiência terminou. Mande abrir a porta.
Dois
policiais querem entrar.
Kakuta
teleportou-se para o corredor, onde foi parar no meio de dez robôs. Logo saltou
para diante, pois ali não teria vivido mais de cinco segundos.
— O senhor
está enganado, senhor Imperador. Não são dois robôs, são pelo menos dez. Devemos
interpretar isso como uma ameaça?
— Mande
abrir a porta! — ordenou o Imperador.
Foram suas
últimas palavras. Mal acabara de pronunciar as mesmas, caiu em meio a um
estrondo e ficou reduzido a um montão de sucata.
* * *
— Chega de
táticas de retardamento — disse Perry Rhodan, que subitamente se tornou
visível, vindo do nada. Foi seguido por Anne Sloane, pelo Dr. Manoli e por
Tanaka Seiko. Regularam seus trajes arcônidas para a posição zero e abriram os
capacetes.
Alguns funcionários
do escritório haviam desmaiado.
— Eric, faça
o favor de cuidar dessa gente.
— Como foi
que conseguiu entrar aqui?
— Passei pelo
seu escritório, Adams. Tem um buraco enorme na parede externa.
— Você acaba
de matar o Imperador.
— Que
imperador, que nada! Há pelo menos trinta e cinco tipos destes em Nova Iorque.
Temos que evacuar a cidade, senhoras e senhores. Vamos começar pelo edifício da
G.C.C. O perigo é muito grande.
— Antes de
mais nada, temos de cuidar dos robôs que estão lá fora — advertiu Kakuta. — A
qualquer momento podem entrar aqui.
— Está bem —
confirmou Rhodan. — Somos cinco pessoas equipadas com trajes especiais e radiadores
de impulsos. Eric, você ficará de sentinela na porta. Anne e Tako, subam mais
um andar...
— Não
conseguirão passar. Tako disse que estão bem diante da porta.
— É verdade?
O japonês
fez que sim.
— Nesse caso
abram a porta e disparem uma salva maciça. Dentro de cinco segundos tudo deverá
estar liquidado.
Perry Rhodan
sabia perfeitamente que isso representaria um desafio para o inimigo. Em
Terrânia já perguntara a si mesmo se não teria sido melhor deixar os robôs em
paz. Se o fizesse, naquele dia teria havido menos mortos. Mas qual seria a
alternativa para os sobreviventes? Teriam que ficar quietos e aceitar tudo?
O exército
de robôs teria prosseguido nos serviços de espionagem sem que ninguém os
incomodasse. Teriam revelado aos saltadores, estacionados no sistema de
Beta-Albíreo, onde ficavam as posições mais importantes da Terra. O fim teria
sido a capitulação de nosso planeta.
Os
saltadores descendiam dos arcônidas. Não havia dúvida de que possuíam certa
superioridade técnica.
Nada disso.
Rhodan não se cansara de consultar sua consciência. Qualquer adiamento no
confronto entre os homens e os robôs teria piorado a situação da Humanidade.
Ainda bem que a luta declarada havia irrompido. Só assim a confusão terminaria
logo. E isso apesar de alguns cálculos errados realizados no interior da cúpula
energética, que fez com que, de uma hora para outra, o conflito se alastrasse
por todo o mundo.
As coisas se
tornaram piores do que Rhodan calculara. Justamente por isso fez questão de que
se chegasse a uma decisão rápida.
A porta se
abriu!
Os robôs
estavam sem a menor proteção. Enquanto realizavam a ligação individual que
ativaria seus campos protetores, a energia dos radiadores arcônidas foi
despejada sobre eles.
A escadaria
parecia um inferno. Nenhum dos lutadores artificiais teve tempo de esboçar
qualquer gesto de defesa.
Com os
trajes de batalha fechados, Rhodan, Anne Sloane e Tako Kakuta saltaram para a
frente. Os campos protetores que os cercavam tornavam-nos imunes às radiações
liberadas por ocasião do ataque.
— Vamos
limpar a área em cima e embaixo! — ordenou Rhodan. — Tanaka, onde está você?
Mantenha-se próximo a Tako e dirija-se para cima. Anne, você irá comigo aos
andares inferiores.
Com o
ataque, os elevadores sofreram pesadas avarias e não puderam ser utilizados.
Foi uma desvantagem considerável.
Na verdade,
para as pessoas que portavam os trajes arcônidas o problema não era muito
grave. Podiam flutuar pelas escadarias, sem depender dos degraus.
Rhodan e
Anne chegaram ao décimo segundo pavimento.
— Pare!
Admiraram-se
de não terem encontrado qualquer resistência. Seria de esperar que os robôs
houvessem ocupado ao menos os acessos de todos os pavimentos.
Rhodan tirou
suas conclusões. Estava acostumado a refletir sobre qualquer fato e procurar
adivinhar os motivos.
Havia um
fato conhecido: em Nova Iorque deviam estar estacionados cerca de seiscentos
robôs de combate e uns oitocentos robôs de trabalho. Em meio a uma cidade de
dez milhões de habitantes, o número era insignificante. Mesmo que o inimigo
concentrasse suas atenções sobre a sede da G.C.C, teria que ter muito cuidado
com o seu pessoal.
— Não tenha
medo, Anne — disse o chefe da Terceira Potência para animar sua acompanhante. —
Tenho a impressão de que estamos superestimando a situação dos robôs neste
edifício. Lembre-se de que, segundo dizem, ocuparam os dez pavimentos
inferiores e a cobertura do edifício.
Continuaram
a flutuar para baixo. A telecineta sempre ia um pouco atrás de Rhodan.
No décimo
pavimento encontraram um único robô junto à entrada principal desse setor de
escritório. Estava parado como uma sentinela entediada, que não sentia qualquer
emoção durante as horas de serviço.
— Como esses
caras são estúpidos! Nem tomam conhecimento de que trinta metros acima de suas
cabeças um grupo de companheiros foi destruído.
As palavras
de Rhodan soaram debilmente no ouvido de Anne. No interior do traje
transportador arcônida havia um ambiente fechado. Nem mesmo as ondas sonoras
alcançavam o exterior.
Invisível e
sem fazer o menor ruído, Rhodan se aproximou do inimigo. Aquela sentinela
solitária dera-lhe uma inspiração toda especial. Disparou em primeiro lugar
contra os angulosos braços inferiores, que eram os mais perigosos, já que
portavam as armas. Depois foi a vez das pernas, e por fim dos braços
superiores.
O robô caiu
ao chão como um saco. Em seu crânio logo se desenvolveu uma série de reações. O
alto-falante rangia a intervalos regulares, como se estivesse acoplado a um
pisca-pisca. O robô estava pedindo socorro.
Rhodan
saltou para a frente e moveu a chave-mestre que se encontrava nas costas da criatura,
que foi colocada completamente fora de ação.
— Pegue-o,
Anne. Vamos logo! Leve-o para cima, para a sala da direção. A qualquer momento
a coisa pode...
A coisa já
começara. Três robôs de combate surgiram na porta oposta. Ficaram parados por
alguns instantes. Um homem provavelmente teria ficado tão nervoso que atiraria,
mesmo que não visse nada. Mas os robôs hesitaram, porque não viram nada. Era
bem verdade que o dispositivo de localização de matéria seria posto a funcionar
imediatamente, e contra este a invisibilidade não adiantaria nada.
— Tenha
cuidado, Anne! — chiou Rhodan. — Leve esse sujeito. Preciso dele no estado em
que se encontra. Dê o fora! Eu cobrirei a retirada.
O radar dos
robôs levou perto de quinze segundos para localizar o alvo. Isso bastou para
que a telecineta desaparecesse com sua vítima. Rhodan flutuou para baixo, visto
que a descida para o nono andar era observada menos intensamente pelos robôs. E
dessa direção abriu fogo, antes que os três colossos se dispusessem a atirar.
Dois deles
foram liquidados na primeira investida. O terceiro teve tempo de determinar a
posição de Rhodan e respondeu ao fogo.
O campo
protetor gerado pelo traje de Rhodan torceu-se sob o impacto dos raios
disparados pela arma inimiga. A fluorescência causada pelo atrito das duas
formas de energia revelou ao robô a posição exata de Rhodan. A máquina aumentou
o poder de fogo de seu braço armado. O homem procedeu da mesma forma com seu
radiador de impulsos térmicos. Modificou a focalização, concentrando os raios num
feixe tão estreito que eles atingiam o alvo como uma alfinetada.
Esse tipo de
manejo da arma pressupõe uma prática e uma pontaria extraordinária. E numa luta
contra robôs ainda se tornava necessário que o combatente estivesse a par da
anatomia dessas máquinas.
Rhodan
estava a par.
Atingiu o
reator individual e dessa forma saiu vencedor no duelo, que por pouco não tem
um desfecho totalmente diverso.
O robô
estava fora de combate. Apesar disso, Rhodan esperou um instante e verificou o
andar de cima e o de baixo. O de baixo adquiriu vida, enquanto no décimo
pavimento tudo continuava em silêncio.
Voltou a
flutuar para cima.
Anne Sloane
já colocara o robô no pavimento de Adams, onde foi depositado num lavatório.
— Não está
levando seus sentimentos humanos longe demais? — perguntou Adams, sacudindo a cabeça.
— Desde quando se costuma fazer prisioneiros entre os robôs?
— O menino é
muito precioso. Será levado para Terrânia, onde o examinaremos. É bem possível
que ele acabe nos revelando como foi tramado todo esse complô.
Dali a pouco
Kakuta e Seiko retornaram.
— Limpamos a
cobertura do edifício, chefe. Lá em cima havia cinco robôs.
Adams logo
compreendeu as intenções do chefe. E manifestou sua objeção.
— Acha que
todo mundo deve dar o fora daqui?
— Acho que é
precisamente isso que você mais tem desejado nesta última hora.
— Sem
dúvida. Acontece que a sede da G.C.C, é uma oficina de trabalho insubstituível.
Só os registros guardados neste edifício...
— Está
certo, Adams. A responsabilidade será minha. O que mais vale são os seres
humanos. Não quero perder nenhum deles. Acredito que, assim que tivermos
desaparecido, o interesse da família imperial nova-iorquina será dedicado a
outros objetos.
Poucos
minutos depois, um gigante esférico desceu sobre a cidade de Nova Iorque.
Naquela hora, a cidade das possibilidades ilimitadas estava festejando mais um
triunfo. Apesar do perigo dos robôs, a população assustada corria para os
telhados a fim de contemplar o espetáculo.
O diâmetro
da nave espacial Stardust-III era de oitocentos metros. Quando parou poucos
minutos acima da cobertura do edifício da G.C.C, sua sombra envolveu metade de
Manhattan.
Era a nave
de Perry Rhodan!
Representaria
uma esperança?
Para certas
pessoas. Para os funcionários da G.C.C.
Mais de doze
mil pessoas foram transferidas para o veículo espacial esférico no curso de
duas horas. Ninguém ficou para trás. E os robôs nada fizeram contra esse tipo
de resgate. Ou não se interessavam pelo que estava acontecendo.
* * *
Nova Iorque
era grande!
E tinha um
imperador, embora o Imperador tivesse tombado.
As estações
de rádio transmitiram a notícia de forma bastante dramática. Algumas centenas
de pessoas já haviam sido obrigadas a se colocar ao serviço da nova dinastia.
Outras pessoas, que formavam a maioria, não despertavam o interesse da nova
dinastia.
Depois de
alguma hesitação, a obra de destruição teve início. Ninguém sabia se ela
contava ou não com o consentimento do Imperador. De resto, isso não importava O
que importava eram os fatos. E a evolução destes começou de forma bastante
semelhante à de Terrânia.
No momento
em que o crepúsculo matutino começou a subir pela costa leste dos Estados
Unidos, as duas divisões da F.D.T. enviadas por Mercant chegaram à cidade.
Vieram acompanhadas de tropas aero-transportadas e equipadas com tanques
pesados, protegidos por campos energéticos. Além disso, trouxeram caças de um
tripulante.
As tropas de
infantaria logo conseguiram se firmar na cidade. Foi bem ao norte, onde a
Broadway assumia um caráter pequeno-burguês. Todavia, os pilotos dos caças não
demoraram a constatar que pouco se poderia fazer do ar. A caça de mil e
quatrocentos robôs espalhados pela cidade parecia uma tarefa sem a menor
possibilidade de êxito. Por isso, pelas nove horas os caças foram trocados por
helicópteros.
O movimento
de fugitivos diminuía rapidamente. Durante a noite os robôs apenas se
reagruparam. Com isso, a maior parte dos habitantes de Nova Iorque se iludiu.
Não souberam avaliar o perigo e resolveram ficar em casa. Quando chegaram as
primeiras notícias sobre a ação furiosa dos robôs, o pânico e o caos tomaram
conta da cidade. De uma hora para outra as vias de saída, estações e aeroportos
ficaram congestionadas.
Entre os dez
aviões que decolaram em primeiro lugar, dois foram derrubados por robôs de combate.
Caíram numa área densamente povoada.
As duas
divisões da F.D.T. iniciaram um avanço precipitado, contando com o apoio de
helicópteros em vôo baixo. Venceram seis quilômetros sem serem molestadas. Mas,
de um instante para outro, os movimentos de tropa estacaram em todas as ruas
que se dirigiam para o sul. Precisamente às nove horas e trinta e cinco minutos
teve início o fogo de defesa dos robôs. Pelas previsões humanas, a ação
fulminante teria causado perdas sensíveis às tropas de Mercant. Mas as ordens
transmitidas a estas foram terminantes. Ambas as divisões marcharam todo o
tempo com os campos energéticos individuais ligados, sem se iludir com a
ausência inicial de qualquer defesa. Apesar disso não havia o menor motivo de
ficar alegre.
Uns duzentos
robôs de combate fecharam Manhattan para o norte. Enquanto isso, quatrocentos
faziam estragos pela cidade, espalhando o terror entre a população. Os robôs de
trabalho apoiavam seus colegas o melhor que podiam.
10:15 h.
Mensagem de Allan D. Mercant, dirigida a Perry Rhodan:
— Não conseguimos avançar mais. A atuação da
força aérea demorará em nos levar ao objetivo e, além disso, coloca em perigo a
população civil. Cada minuto custa novas vidas humanas. Precisamos de uma
campanha-relâmpago.
Resposta de Perry Rhodan, dirigida a Allan D.
Mercant:
— Evacuamos todos os colaboradores da G.C.C. que
se encontravam em Nova Iorque. A Stardust-III dirige-se novamente à cidade.
Agüente mais um pouco, coronel. Estamos fazendo o possível; chegaremos dentro
de doze minutos.
A atuação de
Rhodan não poderia ficar restrita exclusivamente a Nova Iorque. Simultaneamente
com a Stardust-III, seis naves auxiliares da classe Good Hope — os chamados
girinos — haviam decolado da base de Gobi. Cada uma das naves auxiliares trazia
ao menos dois mutantes a bordo. Destróieres e caças de um homem haviam decolado
de todos os pontos da Terra em que se encontravam estacionadas as máquinas da
Terceira Potência. Centenas de aparelhos controlavam o espaço aéreo de nosso
planeta e aguardavam ordens para entrar em ação.
Berlim,
Sydney, Durban, Montevidéu, Manila, Madri, Kuwait e mais três dezenas de pontos
geográficos foram assinalados com uma luz amarela no mapa do estado-maior da
Terceira Potência.
Anne Sloane
partira para Berlim, Tanaka Seiko para Manila e Wuriu Sengu para Durban. Os
mutantes começaram a se tornar escassos. E sobrara um único. Ivã Goratchim.
Encontrava-se a bordo da Stardust-III.
10:27 h. A
sombra da gigantesca nave esférica voltara a cobrir a cidade de Nova Iorque.
— Onde está
o efeito moral? — perguntou Reginald Bell, desesperado. — Se os inimigos que se
encontram lá embaixo fossem seres humanos, já teriam feito as malas.
— Paciência —
disse Rhodan. — Resolvemos construir robôs sem nervos. E lá estão eles...
Modificaram
a regulagem das telas de observação. Os detalhes puderam ser vistos. Os quadros
que se desenharam nas telas não foram nada agradáveis.
As perdas
nas divisões da F.D.T. haviam crescido rapidamente. Os tanques destruídos
estavam espalhados por todos os cantos. As tropas de Mercant batiam em
retirada.
Chamado da
Groenlândia.
— Não me
explique o que está acontecendo aqui — respondeu Perry Rhodan. — Vejo-o com os
próprios olhos. E vejo melhor que você. Dê ordens oficiais de retirada. Só
assim poderemos atrair os robôs para fora da cidade. E é exatamente isto que
teremos de fazer para evitar que Nova Iorque desapareça do mapa.
— Está bem.
— Fim!
Ivã
Goratchim, o detonador, entrou num tanque, que foi levado ao chão num campo
gravitacional dirigido. O corpo de Ivã não cabia num traje de batalha normal.
Mais trinta
tanques foram levados ao chão pela mesma forma. Tinham a artilharia e a
tripulação normal, e sua missão consistia em desviar de Ivã Goratchim a atenção
do inimigo.
Em virtude
da situação dos fronts, a área do
cruzamento da Broadway com a Quinta Avenida estava livre de robôs. O grupo de
desembarque da Terceira Potência chegou ao solo sem qualquer problema e logo se
espalhou em blocos de três. Tako Kakuta, o teleportador, serviria de elemento
de ligação entre Rhodan e Ivã.
— Salte quando
for necessário, Tako. Ivã é um produto da natureza siberiana. Não acredita
muito no telecomunicador e no nosso equipamento técnico. É preferível que fique
com ele. Ivã não pode sofrer a menor tensão emocional. Tem de concentrar todas
as suas energias na detonação dos robôs.
Às 10:34 h
Kakuta anunciou a primeira destruição de um robô por Goratchim. No mesmo
instante o hipercomunicador da sala de comando produziu um forte ruído.
— Estabeleça
contato imediatamente! — ordenou Rhodan ao oficial de plantão da sala de
telegrafia. O ruído com que a ligação automática do receptor principal havia
reagido ao chamado era típico. O comandante da nave podia realizar qualquer
palestra sem abandonar seu lugar na ponte de comando. Enquanto isso mais de trinta
pessoas se incumbiam dos trabalhos de registro na sala de telegrafia. A
qualquer hora todas as freqüências possíveis tinham de ser mantidas sob
observação. Três dezenas de telegrafistas e vários mini-robôs eletrônicos
realizavam um controle ininterrupto do espaço. Constantemente chegavam notícias
sobre a situação nos diversos pontos da Terra.
Rhodan
acabara de ler um comunicado sobre a chegada de Anne Sloane a Berlim. O zumbido
do hipercomunicador revelava que o expedidor da mensagem se encontrava num ponto
muito distante.
— Estabeleça
imediatamente a ligação.
— Sim
senhor.
— Cruzador
Solar System para a Terceira Potência. Cruzador Solar System para a Terceira
Potência. O major Nyssen deseja falar com Rhodan.
— Que diabo!
Uma ligação direta — espantou-se Bell. — Deve haver alguma novidade.
O correio
pneumático junto ao assento do piloto-chefe expeliu um cartucho. Um jovem
tenente pegou-o e entregou o bilhete a Rhodan.
— Ivã
registrou novos êxitos, chefe.
— Não me
venha com Ivã a esta hora. Capitão Bols, faça o controle da decodificação
automática e cuide para que nenhuma outra mensagem passe pela minha linha. Alô, major Nyssen! Aqui fala Perry Rhodan. Encontro-me a
bordo da Stardust-III. A nave está na atmosfera terrestre.
Na tela
surgiu o rosto magro do oficial pequeno e rijo. Nyssen sempre exibia um
sorriso, por mais difíceis que fossem os problemas com que se defrontava. Sua
voz rangedora só era agradável para quem o conhecesse muito bem.
— Como está a
situação, major? O momento não é propício para notícias alarmantes.
A base de
impulsos de quinta dimensão garantia a comunicação simultânea a uma distância
de trezentos e vinte anos-luz.
— Em
conformidade com as instruções recebidas, nos mantemos a uma distância segura
da frota dos saltadores. O inimigo vem recebendo reforços constantes, e nossa
situação torna-se cada vez mais difícil.
— Devo
interpretar isso como um pedido de socorro, major?
— Quando
poderá voltar? Afinal, seria importante para nosso planejamento tático que
conhecêssemos esse detalhe.
— Voltaremos
assim que tivermos visitado o planeta Peregrino. Sabe perfeitamente que nestas
circunstâncias não posso fornecer qualquer indicação de tempo. Isso significa
que a ordem de manter sua posição continua de pé. Mais alguma novidade?
— Apenas
duas observações que talvez sejam importantes para você. Há uma hora
constatamos um deslocamento altamente suspeito na frota dos saltadores. Até
agora o receio de que se trate de um ataque em grande escala contra nossas
naves não se confirmou. Nossos telegrafistas dizem que descobriram uma mensagem
direcional orientada para o sistema solar. É claro que isso não pode ser
provado.
— Está bem.
Examinaremos isso. Mais alguma coisa?
— Não
encontramos mais a Orla XI no meio do grupo inimigo.
— Isso significa
que você conseguiu destruí-la. Meus parabéns, major. Tifflor ficará satisfeito ao
saber que seu ex-carcereiro Orlgans viu chegada a hora.
— A Orla não
foi destruída. Simplesmente desapareceu. Receio que se trate de outro truque do
comandante dos saltadores.
— Nesse caso
só posso lhe recomendar que continue de olhos bem abertos. Você ainda terá de
se arranjar por algum tempo sem a nossa presença. Não desanime, major!
— Está bem, chefe.
Mais alguma ordem?
— Quero que
desligue. Lembranças para a frota. Fim.
O contato
foi interrompido.
Poucas vezes
se vira tamanho nervosismo a bordo da Stardust-III como naquela hora. Todos
sabiam que o tempo era muito importante para a expedição. A frota estacionada
no sistema de Beta-Albíreo precisava de socorro imediato. O cérebro P estacionado
em Vênus já preparara os dados sobre o planeta Peregrino e aguardava a visita
de Rhodan. O próprio Peregrino corria por regiões desconhecidas. Uma vaga
esperança fora depositada nele.
E os robôs
rebeldes estavam descarregando sua fúria sobre a Terra.
Rhodan era
um homem diferente. Desde que, valendo-se de alguns estratagemas, conseguira
receber no planeta Peregrino o dom da vida eterna — que além dele só fora
dispensado a Reginald Bell — via-se numa posição bastante delicada. Apesar
disso, a essa altura já devia ser capaz de feitos mais grandiosos.
Teria que
estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
A catástrofe
que desabou sobre Nova Iorque desenhou-se nas telas. Os robôs de combate tinham
transformado quadras inteiras de Manhattan em infernos de fogo. Um traço duro
se desenhou em torno da boca de Rhodan.
5
— Regime de prontidão para a Stardust-III. Avisem
quando estiverem prontos para combater.
O comando de
Rhodan significava que ele interviria no conflito com todo o potencial da nave.
— Você sabe o
que está fazendo, Rhodan.
A
constatação de Reginald Bell deveria ter sido formulada como uma pergunta. Mas
não foi.
— Ponho
vidas humanas em perigo, se é isso que você quer dizer. Mas ponho um número
muito maior de vidas em perigo se não fizermos o que está ao nosso alcance.
A sombra por
cima do inferno atômico de Nova Iorque cresceu. Representava a única esperança
dos seres humanos que ainda viviam na cidade. Todos sabiam que era a nave de
Perry Rhodan.
O campo
energético da Stardust-III tocou a ponta dos arranha-céus mais altos. O gigante
foi parar nas proximidades do Empire State Building.
— Comandante
para os postos de combate. Só abram um fogo bem dirigido. Não disparem cargas
maiores sobre alvos disseminados. Toda e qualquer vida humana deverá ser poupada.
Os disparos serão registrados com exatidão.
No momento
em que chegou o último aviso de prontidão, Perry Rhodan mandou abrir fogo.
A
Stardust-III se deslocou lentamente para o norte, aproximando-se da frente de
luta. Ivã Goratchim se encontrava na rua 42. Kakuta realizou uma teleportação e
compareceu a bordo por dois minutos.
— Trinta e
cinco robôs destruídos. Alguns dos nossos tanques também foram atingidos. Não
dispomos de números exatos.
— Como vai
Ivã?
— Está em
plena forma. Estamos lutando contra máquinas. Por isso não tem problemas de
consciência. E bem verdade que se acostumou à minha presença...
— Pois trate
de voltar quanto antes.
Kakuta
desapareceu imediatamente.
Alguns robôs
tentaram atingir a Stardust-III. O insucesso total, causado pelo campo
energético superpotente da nave, logo os levou a mudar de tática. Reuniram-se
em grupos de três e procuraram se manter sob o abrigo dos edifícios.
Bell
praguejou e chamou-os de bandidos.
— Deixe-se
de nervosismo, Bell. Já alcançamos um êxito. Os robôs já não podem se dedicar
exclusivamente ao ataque. Têm de cuidar também de sua defesa.
Às 11:18 h o
êxito definitivo dos homens começou a se esboçar. As divisões da F.D.T., em sua
retirada, haviam atraído boa parte dos efetivos inimigos para fora da cidade,
onde a Stardust-III em poucos segundos volatilizou perto de cento e cinqüenta
máquinas com um pesado canhão desintegrador. Os soldados de Mercant puderam
contemplar novamente a possibilidade de um avanço. Mais tarde reuniram-se aos
blindados da Terceira Potência, no centro de Manhattan, e avançaram por cima do
East River, em direção ao Brooklyn.
Várias
emissoras transmitiram proclamações do Imperador de Nova Iorque. Tratava-se de
ordens de resistir, do tipo das que costumam ser expedidas por ditadores que vêem
seu sistema desmoronar.
Os homens
que se encontravam nas salas de comando da Stardust-III puderam dar-se
novamente ao luxo de um sorriso.
— Não venham
me dizer que o Imperador não conhece as fraquezas humanas — disse Bell em tom
sarcástico. — As ordens que está transmitindo constituem um indício patente de
loucura.
— Não é bem
isso. As contradições resultam do fato de que pelo menos duas dezenas de
robôs-secretários acreditam que são o Imperador. Deve ter havido um
curto-circuito no seu sistema de comunicações. Para mim isso constitui prova de
que o poder dos robôs chegou ao fim. É bem verdade que há muito trabalho pela
frente, até que a última máquina de combate seja destruída. Temos um girino a
bordo. Coronel Freyt, o senhor ficará por aqui na Good Hope-XVIII até que o
perigo esteja removido. Entre em contato com o capitão Sirola e avise Mercant
na Groenlândia.
—
Perfeitamente, chefe!
— Obrigado.
Prepare-se para a saída.
Às doze
horas e dez minutos a Stardust-III deixará a Terra. Ordem dirigida ao oficial
de mutantes Kakuta. Regresse imediatamente! Daqui em diante, Ivã terá de se
arranjar sem você.
* * *
Bell
reclinou-se na poltrona; respirava pesadamente.
— Estou
acostumado à velocidade com que você costuma agir, Rhodan. Mas agora você está
atropelando seus atos. Você se esqueceu de alguns mutantes que se encontram na
Europa, na África e na Ásia.
— Ainda há
outros na América do Sul e na Austrália. Mais tarde iremos buscá-los. No
momento o que mais importa é irmos para junto do cérebro positrônico instalado
em Vênus. Se não houver nenhum imprevisto.
— Você
desconfia de alguma coisa?
— Estou
pensando na mensagem que Nyssen nos mandou do sistema de Beta-Albíreo.
— Está
aludindo à transmissão direcional dos saltadores? Isso não me preocupa. O fato
de que esses caras mantiveram contato permanente com a Terra não constitui
nenhuma novidade. Sabemos perfeitamente que os robôs não empregaram apenas sua capacidade
militar contra nós; também funcionavam como espiões. A atividade dos robôs de trabalho
constitui testemunho evidente disso. Nossa intervenção apenas desencadeou o
conflito aberto.
— Está certo
— respondeu Rhodan. — Acontece que você se esquece do resultado do nosso
controle de comunicações pelo rádio. Não houve qualquer contato entre os
saltadores e os nossos robôs. Ao menos não houve nenhum contato direto.
— O que você
quer dizer com isso? Um espião que não pode transmitir os resultados de suas
investigações não vale coisa alguma.
— Pois é
justamente isso. Acho que deve existir uma estação retransmissora.
Talvez em
Vênus.
— Isso não
passa de uma suposição.
—
Naturalmente. Vamos verificar o que há de verdade. Não se esqueça da informação
de Nyssen sobre a transmissão direcional. Ainda acontece que, segundo dizem, o
comandante dos saltadores, pertencente à corporação mercantil, desapareceu do
sistema de Beta-Albíreo. Ao que tudo indica, seguiu em direção ao Sol.
A
Stardust-III pusera-se a caminho de Vênus. Rhodan transmitiu, através de um
código secreto, um aviso preliminar dirigido ao cérebro positrônico. Dentro de
um tempo muito breve, compareceria para procurar os dados relativos ao planeta
Peregrino. Se era verdade que Orlgans se encontrava a caminho da Terra, o tempo
urgia ainda mais.
Toda a
tripulação das salas de telegrafia fora instruída a concentrar suas atenções
sobre qualquer mensagem de hipercomunicação. Mal haviam vencido o décuplo da
distância da Lua quando o primeiro resultado foi anunciado.
— Impulsos
de hipercomunicação vindos das profundezas da Via Láctea!
— Não
conseguiu estabelecer a localização goniométrica? — perguntou ao jovem oficial.
— Um
segundo. Durou apenas um instante. Deve se tratar de impulsos de localização
extremamente concentrados no tempo.
— Para que
serve o equipamento eletrônico?
—
Perfeitamente, chefe! Já temos o resultado. Vem quase exatamente da direção de
Beta-Albíreo.
— Pois
então! Deve ser a emissora a que aludiu Nyssen. Ou será que se trata de uma
mensagem expedida por um dos nossos cruzadores?
— Não senhor.
Nenhuma das nossas chaves de codificação adapta-se à mesma.
Não
conseguimos interpretar a mensagem.
— Por
enquanto — disse Rhodan. — Por enquanto só estamos interessados em saber onde
se encontra a estação receptora. Coloque em funcionamento todo o equipamento
goniométrico, tenente. Tenho certeza de que a estação retransmissora hipotética
de Vênus não tardará em trair sua presença.
—
Perfeitamente.
— E agora
vamos dar um passeio pela nave — disse Rhodan, dirigindo-se a Reginald Bell.
* * *
O passeio se
transformou numa verdadeira correria. Rhodan estava com pressa, não apenas
porque queria reassumir quanto antes o comando da Stardust-III, mas também
porque havia uma centena de problemas que o martirizavam ao mesmo tempo.
Pegaram o
elevador e subiram ao pavimento imediatamente superior. Bell viu-se no interior
do laboratório particular de Perry Rhodan. O amigo apontou para um robô de
combate bastante danificado.
— Está
reconhecendo esse sujeito, Bell?
— É o robô
de Nova Iorque? — conjeturou Bell.
— Deixamos
algumas centenas deles nesse estado. É o sujeito que pus fora de combate no
corredor do edifício da G.C.C. Está em condições melhores do que poderia
parecer à primeira vista. Os equipamentos mais importantes de seu corpo não
foram avariados. Como vê, já preparei a experiência.
Bell
confirmou com um aceno de cabeça.
Um emaranhado
de fios ligava o corpo do robô paralisado com uma série de instrumentos. Rhodan
ainda não tivera tempo para realizar as experiências planejadas.
— Ainda bem
que você está aqui. Com isso economizo uma porção de explicações.
— Você acha
que o sujeito lhe revelará muita coisa?
— Faço votos
de que a programação introduzida nele pelos agentes dos mercadores ainda não
tenha sido apagada. De qualquer maneira, lhe restituí a consciência da Terceira
Potência. É um ser muito inteligente com um conflito interior.
Rhodan
interrompeu sua exposição e estabeleceu contato pelo videofone com a sala de
telegrafia.
— Alô,
tenente Evans. Ponha a mensagem misteriosa dos mercadores no meu transmissor.
— Pois não.
A
transmissão foi apenas uma questão de segundos. Rhodan gravou a mensagem
concentrada no tempo sobre um fio e reproduziu-a em intervalos variáveis. O
setor intelectual do robô foi reativado por meio de um simples movimento de
chave.
— Olá,
Robby. Como está a recepção?
— Ótima. Uma
recepção é o suficiente.
— Muito bem.
De onde vem a mensagem?
— De
Orlgans, comandante dos saltadores.
— Obrigado.
O que diz?
— Orlgans
para a estação Sol. No momento não podemos fornecer apoio. Todas as forças dos
mercadores estão engajadas no sistema de Beta-Albíreo, em virtude de fortes
contra-ataques desencadeados por cruzadores e destróieres inimigos. A ordem SZ-7
continua em vigor.
— Um
momento. O que diz a ordem SZ-7?
— É uma
ordem de resistência. Exige um ataque geral e imediato contra a população da
Terra, mediante a utilização de todos os recursos militares.
— Obrigado.
Prossiga com o aviso.
— Chegou ao
fim.
— Muito bem.
Como é que só agora você conseguiu decifrar a mensagem? Pelo que sei existe uma
estação retransmissora no sistema solar, que costumava fornecer-lhes as notícias.
— Nosso
receptor é muito fraco. No caso o equipamento de rádio da Stardust-III
desempenhou as funções de estação retransmissora.
— Hum. A
explicação não deixa de ser plausível. Para onde vocês irradiam suas mensagens
destinadas a Orlgans?
— Na direção
de Aldebaran-Touro...
Bell
interrompeu o robô com um ataque de tosse forçado.
— Veja só.
Você suspeitava de Vênus, Rhodan. Parece que foi um engano.
Rhodan deu
de ombros.
— Foi uma
suposição intuitiva. No momento o planeta Saturno se encontra na posição do
Touro. Robby, será que Saturno está no jogo?
— Não posso
dizer. Não disponho de informações a este respeito.
— Mentiroso!
— trovejou a voz de Reginald Bell. Mas Rhodan assumiu a defesa do robô.
— Robby não
tem nenhum motivo para mentir. Chegaremos mais longe se acreditarmos nele.
Afinal, já conseguimos alguma coisa. O sistema de Saturno não é muito grande;
deverá haver um meio de resolver o problema. Teremos que realizar quanto antes
uma mudança de rota.
— Pelo amor
de Deus! — gemeu Bell. — Até já estou começando a ficar nervoso. Gostaria de
saber o que vai pensar o cérebro P instalado em Vênus quando souber que
voltamos à Ponte.
Rhodan pôs a
mão na chave que desativaria o robô, mas Bell o reteve num gesto rápido.
— Um
momento, Rhodan. Ainda dispomos de dez segundos. Preciso fazer uma pergunta
muito importante a esse menino. Trata-se de uma questão que ninguém conseguiu
solucionar.
Logo depois,
dirigiu-se ao robô:
— Ouça o que
vou dizer. Você voltou a sentir-se como um servo da Terceira Potência, não é,
Robby?
— Sim
senhor.
— Deixe de
cerimônias — insistiu Rhodan. — Está bem. Você está lembrado da revolta de
robôs em Terrânia.
— Não
participei da mesma.
— Mas vocês
tiveram meios de se comunicar entre si.
— Sim
senhor.
— Pois bem.
A revolta foi controlada antes do tempo. Antes que pudessem desferir o golpe,
seus companheiros de Terrânia foram postos fora de ação. Inclusive os robôs de
combate. Apesar disso puseram-se em marcha ao amanhecer e espalharam muita
desgraça. Qual é a explicação?
— Muito
simples. A polícia humana teve que lidar com os robôs um por um. E cometeu o
erro de não vigiar as máquinas desativadas. Alguns robôs ainda livres
dirigiram-se aos seus camaradas enquanto a ação policial estava em andamento e
voltaram a ativá-los. Foi por um estratagema de guerra que todos os robôs de
combate se deixaram depositar no grande pavilhão.
— Desligue
esse sujeito, Rhodan! — exclamou Bell, furioso. — Se escuto isso por mais algum
tempo, acabarei tendo complexos de inferioridade.
* * *
O
treinamento hipnótico e a prática galáctica conferiram-lhes grande presença de
espírito. Ao regressarem à sala de comando, já haviam concluído o processamento
psíquico dos conhecimentos recém-adquiridos. Rhodan voltou a assumir o comando.
— Vamos
alterar a rota.
Seguiram-se
os detalhes e as confirmações expedidas pelos diversos postos.
Saturno?!
Com grande espanto os co-pilotos, engenheiros de máquinas, navegadores,
assistentes e ordenanças tomaram conhecimento do novo objetivo.
Evans
anunciou o resultado da medição goniométrica.
— A resposta
dirigida à base dos saltadores instalada no sistema de Beta-Albíreo é irradiada
a partir do sistema de Saturno.
— Obrigado,
Evans. Já fixamos a rota com esse sistema. Tente obter uma indicação mais
precisa do destino.
O pessoal do
rádio provou que não era totalmente inútil.
— Apuramos a
posição exata da emissora do inimigo, chefe. Fica na lua de Saturno denominada
Titã, a sete graus de longitude oeste e oitenta e quatro graus de latitude
norte, ou seja, nas proximidades do pólo norte.
— Obrigado, tenente.
Foi um serviço bem feito.
— Fixação
precisa da rota. Correções...
A
Stardust-III voltou a desenvolver a velocidade normal, equivalente à da luz,
cruzou a órbita de Marte, atravessou as extremidades do anel de planetóides e
mergulhou no negrume do espaço. Júpiter encontrava-se em oposição. Saturno com
suas nove luas era o objetivo mais próximo que se encontrava a seu alcance.
Os aparelhos
de escuta da Stardust-III estavam regulados ininterruptamente para a estação
retransmissora do inimigo. Mais três mensagens foram captadas. Tratava-se de
pedidos de socorro dos exércitos terrestres de robôs. Na quarta e última
transmissão a estação de Titã anunciou que ela mesma se encontrava em perigo.
Os robôs depositados no laboratório de Rhodan realizaram a decodificação.
— Titã para Orlgans! Titã para Orlgans! O
couraçado Stardust-III aproxima-se, navegando à velocidade da luz. Mantém uma
rota que se dirige exatamente para cá. É impossível que se trate de uma
coincidência. Alguém deve ter revelado nossa posição. Solicitamos apoio
imediato.
— Não podemos dispensar a nave Orla XI. Parta
para o contra-ataque. O girino arcônida dispõe de armamento suficiente para um
ataque de surpresa. Modificação do código. Nova posição: 74 562 AT 9...
O resto foi
incompreensível.
A consulta
que Rhodan formulou ao robô não produziu o menor resultado. Seu cérebro não
fora programado para a chave 74 562 AT 9. A linguagem ininteligível foi introduzida
imediatamente no grande cérebro positrônico instalado a bordo da nave. Mas a
codificação inimiga era tão complicada que várias horas ou mesmo dias poderiam
se passar antes que se dispusesse de um texto compreensível.
Acontece que
a decisão teria que vir nos próximos minutos, pois a Stardust-III, que já
iniciara as manobras de frenagem, encontrava-se a apenas oitenta e cinco
milhões de quilômetros de Titã.
— De
qualquer maneira Orlgans cometeu dois erros — comentou Bell, satisfeito.
— Sabemos
que não pode vir pessoalmente, e que dispõe de uma nave auxiliar arcônida de
sessenta metros. Face a isso podemos avaliar com alguma aproximação a força do
inimigo que nos aguarda em Titã.
— Até
podemos avaliá-la com muita exatidão — disse Rhodan com uma raiva contida. — Na
mensagem foi mencionada a palavra girino.
Acontece que se trata de um apelido que demos às naves dessa classe.
— Dali você
conclui que se trata de uma nave da nossa frota?
— É a
conclusão que se impõe, meu caro. Lembre-se de que ainda não localizamos a Good
Hope-I, comandada pelo tenente Dayton. Todas as buscas foram infrutíferas. Pode-se
perfeitamente conquistar uma nave e tripulá-la com sua própria gente. Acho que
os saltadores não são tolos. Saberão lidar com a tecnologia arcônida central.
— Isso
significa que podemos dar a tripulação comandada por Dayton como perdida...?
Rhodan ficou
devendo a resposta. Não estava tão bem informado.
Faltavam
quinze milhões de quilômetros para Titã.
— Bell,
sugiro que você nos dê cobertura com três destróieres. Com o poder de fogo de
nossa nave provavelmente não precisamos disso, mas nunca se sabe como se
desenvolverá a situação. De qualquer maneira faço questão de que alguém vá dar
uma olhada em Titã. Estou interessado na estação dos saltadores.
— Não
pretende pousar?
— Talvez nem
tenhamos oportunidade para isso. Prepare-se. Leve dois oficiais da guarnição de
reserva e os tripulantes de que precisa. Faltavam dez milhões de quilômetros
para chegar a Titã.
Três
destróieres comandados por Bell saíram da nave-mãe e dispararam para o espaço
em ligeiros impulsos de aceleração. Tomaram uma rota tangencial, a fim de
descrever alguns círculos em torno da maior das luas de Saturno.
No mesmo
instante o girino decolou. Contavam com sua presença e por isso estavam
preparados. Bell esteve a ponto de se precipitar sobre ele. Mas Rhodan ordenou
que não modificasse sua rota.
— O sujeito
foi destinado a nós. Vocês só empreenderão qualquer manobra se forem atacados.
— Está bem —
disse Bell, contrariado, e obedeceu.
O girino se
aproximou silenciosamente. O rugido interno de uma nave espacial acelerada ao
máximo perde-se no vácuo do universo.
— Isso mesmo!
É a Good Hope-I — constatou Crest, o arcônida. — E lá vêm os disparos.
Três
torpedos espaciais se aproximaram vertiginosamente. O campo energético da
Stardust-III se dobrou. Foi um devorar mútuo de energias termodinâmicas. Três
bombas investiram contra o campo energético. Bastava que um dos projéteis
conseguisse vencer o obstáculo para que uma deflagração atômica irreversível
fosse desencadeada em certos elementos do objeto atingido. O artilheiro podia
regular o artefato à vontade, no que dizia respeito aos elementos até o número
oitenta. De qualquer maneira, todos os elementos pesados seriam atingidos pela
conflagração.
A sensação
provocada pelo fato de se encontrar sob o fogo desse instrumento de destruição
maciça não era nada agradável.
Os homens
que ali se encontravam tinham que depositar muita confiança na potência do
campo energético.
Os
instrumentos indicaram a potência do ataque energético.
— Sessenta e
cinco por cento — murmurou Rhodan.
Poucos
segundos depois as agulhas voltaram à posição primitiva. Haviam resistido ao
primeiro ataque.
O segundo
foi desfechado com cinco bombas.
— Setenta e
oito por cento.
— O que está
esperando? — perguntou o Dr. Eric Manoli, que se encontrava perto de Rhodan.
Este se
limitou a lançar-lhe um ligeiro olhar; não disse nada. Afinal, o que poderia
dizer? Que preferia não atirar porque se tratava do girino Good Hope-I? Essa
fala pareceria muito sentimental. Era possível que o motivo fosse outro.
Talvez o
tenente Dayton.
Bell
anunciou sua posição além de Titã.
— Observamos
nitidamente a estação. Trata-se de uma montagem de aparência modesta. Ao que
parece o resto encontra-se sob a superfície da lua. Como estão vocês?
— Bem,
obrigado. Repelimos dois ataques. Não se preocupem conosco. Pousem.
O fim da
ligeira palestra coincidiu com o terceiro ataque do girino. Seis bombas
arcônidas!
— Oitenta e
três por cento!
Os geradores
uivaram em freqüências elevadas. Deram o último de si para recarregar o campo
energético numa fração de segundo.
— Oitenta e
sete por cento! Noventa e dois por cento!
As forças
que protegiam a Stardust-III da destruição pareciam reduzidas a uma fina
membrana. Quando diminuiria a força das seis bombas arcônidas?
Finalmente:
oitenta e nove por cento, oitenta e oito, oitenta e sete...
As agulhas
dos indicadores de carga tenderam para baixo. Mas logo a Stardust-III foi
atingida por uma sacudidela, que só depois de um momento de choque puderam ser
absorvidas pelos compensadores de gravitação. As agulhas saltaram para noventa
e oito por cento.
Nesse
momento da eternidade, os gritos se misturaram. Os instrumentos de alarma
anunciaram a aproximação de matéria pela popa. Tudo foi tão rápido que num
momento de tensão nervosa a mente humana não poderia esboçar qualquer reação.
A única coisa
que poderia salvá-los seria o autômato positrônico.
Cada um dos
três destróieres vindos pelas costas havia disparado uma bomba arcônida. Logo
se seguiram os impactos e os esforços desesperados do dispositivo automático de
defesa.
— Setenta e
dois por cento! Trinta e seis por cento...
As agulhas
caíram para trás. Mas a posição da nave não conferia mais. Que abacaxi!
Saturno
estava a vinte milhões de quilômetros.
— Não é
possível! — disse Manoli, segurando o ombro, com o rosto contorcido de dor.
— Dispomos
de um controle múltiplo. Se você tivesse razão, todos eles teriam falhado.
— Mas...
— Não há
nenhum mas, Eric. Foi apenas um salto espacial involuntário. As energias
liberadas durante o duelo tiveram, por uma simples coincidência, uma disposição
tal que causaram uma verdadeira curvatura do espaço. Por pouco conseguem nos
atirar para fora do conjunto de quatro dimensões. Sugiro que antes de mais nada
cuidemos do girino. Está ficando muito perigoso para que possamos ter qualquer
contemplação.
* * *
— Que é isso,
Flynn? — perguntou Bell em tom de desespero ao seu artilheiro. — Será que
nossas telas goniométricas estão desreguladas?
O tenente
Flynn sabia que o sentido da fala de Bell era muito mais sério do que suas
palavras poderiam dar a entender.
— Se esses bandidos
tivessem destruído a Stardust-III, deveria ter sobrado ao menos uma nuvem
energética.
— A
conclusão não é nada má, desde que nos mantenhamos no seu campo de experiência.
Acontece que estamos lidando com um inimigo cujo poder real talvez nos seja desconhecido.
É bem possível que tenham montado suas armas num girino apresado.
Enquanto
falava, Bell já ligara o receptor. Utilizou a freqüência secreta de emergência.
— Bell para
Rhodan! Bell para Rhodan! Responda, Rhodan!
Houve uma
ligeira pausa. Depois se ouviu:
— Rhodan para Bell! O que houve?
— Graças a
Deus, Rhodan! Onde é que vocês se meteram? Perdemos a posição.
— Sem
querer, realizamos um pequeno salto espacial. Foram quinze milhões de
quilômetros. Os caras lançaram mais três destróieres com que ninguém contava.
Não se preocupem. Cuidaremos da Good Hope-I. Espero receber em breve
informações precisas sobre a situação em Titã. Fim.
Os homens
suspiraram aliviados e se reclinaram nos assentos. A formação de destróieres
girou para baixo e abandonou definitivamente a órbita do satélite.
Rhodan foi
esquecido. Concentraram todas as atenções sobre o pouso. Um mundo de gelo como
Titã, cuja atmosfera cristalina de metano e amoníaco misturados com vários
gases nobres é capaz de uma série de reações químicas, requer muito cuidado de
qualquer astronauta que nela queira penetrar.
Obedecendo
ao comando de Bell, os pilotos ativaram o chamado campo de vácuo, que criava
uma zona neutra de mais de quinhentos metros em torno de cada aparelho.
Sem o menor
incidente, pousaram ao lado da torre de rádio. Não houve o menor movimento
defensivo.
— Aguardem! —
ordenou Bell. — Deixem a temperatura baixar. Liguem a refrigeração artificial.
Avisem assim que o envoltório externo esteja em condições normais.
A operação
durou dois minutos, que não foram desperdiçados. Os homens colocaram trajes
espaciais. Depois disso Bell ordenou o desembarque.
— Dois
homens de cada aparelho virão comigo. Os co-pilotos ficarão para vigiar as
máquinas.
A torre era
uma construção metálica em forma de grade, levantada numa planície lisa que não
poderia fornecer abrigo a ninguém. Apesar disso teriam de agir com cautela. Os
seis homens se aproximaram lentamente do objetivo, com os fuzis de
desintegração e os radiadores de impulsos em posição de atirar. Reginald Bell
caminhava à frente. Seu traje espacial era um equipamento de batalha de origem
arcônida. Mantinha o campo protetor ativado. Os outros cinco andaram em sua
sombra, para que um ataque de surpresa com armas ligeiras pudesse ser
rechaçado.
Mas não aconteceu
nada. Atingiram a armação metálica sem serem molestados. Embaixo dela havia uma
porta-alçapão que conduzia para baixo do solo.
— Tenham
cuidado! — voltou a advertir Bell, quando Flynn se pôs a mexer no fecho. — Está
bem, tenente. Continue a girar isso. Mas não enfie logo a cabeça pela abertura.
Um
dispositivo hidráulico fez o alçapão deslizar para o lado. Bell soltou uma
bolsa presa ao lado externo de seu traje e colocou-a cautelosamente acima da
abertura. Um segundo depois metade do objeto havia sido consumida pelo calor.
— Ah, então
puseram sentinelas!
A
constatação foi pronunciada num tom estranho. Até parecia que Bell se sentia
satisfeito por ter tido razão.
— Podemos
conversar à vontade. Ninguém pode ouvir a conversa travada pelo telecomunicador
de nossos trajes espaciais, mesmo que se encontre a apenas três metros.
Aguardem mais um instante. Vou ligar o defletor de ondas luminosas para dar uma
olhada.
Para os
outros o momento parecia bastante crítico. Mas Bell confiava na eficiência do
aparelho.
Afinal,
estava invisível. O olhar duro do robô de combate constituía a melhor prova
disso.
— Alô, minha
gente, que surpresa! Seis metros abaixo de mim está um robô que os mercadores
de Orlgans devem ter roubado de alguma filial da G.C.C. na Terra. Até parece
que seus olhos estão abrindo furos no ar; ao que tudo indica, aguarda outro
ataque. Vamos ver se temos mais alguns desses sujeitos de lata por aí.
Bell apontou
o radiador de impulsos térmicos para baixo e apertou o gatilho. O robô dobrou
as pernas e volatilizou-se pela metade.
— Vamos
esperar!
Passaram-se
dez segundos, meio minuto.
Nada se
movia.
— Ao que
parece o ambiente está limpo. Mas prefiro descer sozinho para dar uma olhada.
Por alguns
segundos, Bell ficou dando tratos à bola para descobrir como um simples mortal
poderia descer por essa galeria vertical de seis metros. Devia ser uma forma de
deslocamento bastante desconfortável, mesmo que se considerasse que a
gravitação não era superior a um terço da terrestre.
Perto da
galeria havia alguns botões. Devia experimentá-los. Deixou cair algumas pedras.
Ao comprimir um dos botões, as mesmas não caíam mais. Flutuavam.
— Um
elevador antigravitacional! Tudo em ordem, minha gente! Avisarei assim que
puderem seguir.
Bell flutuou
para baixo.
Ao atingir o
primeiro piso, viu-se numa sala pequena. Não se via nada além dos destroços do
robô. Nas paredes viam-se três escotilhas. Eram comportas de ar atrás das quais
devia se encontrar uma atmosfera de nitrogênio e oxigênio. Um exame mais
detalhado confirmou o fato.
Bell
escolheu a passagem do meio.
Mandou que
os cinco homens o seguissem e informou-os ligeiramente sobre sua descoberta.
— Tenente Flynn,
venha comigo. Os outros esperarão aqui.
O corredor
descia obliquamente. Dali a cem metros o mesmo se ampliou, sendo novamente
fechado por três portas. A da direita levava a um grande depósito, ocupado
principalmente por cinco robôs terrestres desativados.
— Esses
sujeitos de lata ficarão admirados quando os despertarmos para a vida...
Como o tempo
fosse escasso, não puderam examinar os detalhes, por mais curioso que Bell
ficasse com os numerosos instrumentos. Um belo dia Freyt teria de cuidar
daquilo.
A segunda
porta dava para um apartamento residencial muito confortável. Lembrava as
residências terrestres; apenas os móveis de uso dos ocupantes pareciam
dimensionados além das normas usuais.
— Isso bem
pode ter sido uma residência de gigantes — constatou Bell em tom indiferente e
dirigiu-se à outra porta.
Penetraram
num recinto escuro, que logo os fez farejar um perigo. Mas depois de terem dado
três passos, a iluminação automática derramou uma luz direta sobre eles.
Era um
pavilhão comprido com boxes abertos.
Havia uma
espécie de enfermaria, sala de repouso, laboratório... e seres humanos.
Bell e Flynn
estacaram por um momento.
Não eram
robôs nem saltadores, mas seres humanos.
O ar era
respirável.
— Retirar o
capacete — ordenou Bell e abriu o visor.
Flynn acompanhou-o.
No mesmo instante as súplicas dos companheiros debilitados atingiram seus
ouvidos.
— Que
patifes! — disse Bell por entre os dentes. — Que patifes de saltadores.
O primeiro
homem que libertaram das amarras que o prendiam ao leito foi o Dr. Berril,
médico de bordo da Good Hope-I. Seguiram-se alguns mortos. O sétimo dos homens
estava vivo, se é que se quisesse chamar de vida aquilo que fez com que o corpo
maltratado se empinasse.
Abatido, o
Dr. Berril sentou-se na beira da cama.
— Fale,
doutor! Mesmo que seja difícil. O senhor tem que fazê-lo por si e pelos
companheiros. Além disso, é o único médico que temos por aqui.
— Eles nos
prenderam e trancafiaram. Todos os dias realizavam interrogatórios psíquicos.
Deixamos de ser homens. Nossos cérebros...
— As reações
de seu cérebro são normais, doutor. Pense nos companheiros que tiveram um
destino pior que o seu. Tome este comprimido energético. E use estes tubinhos
para alimentar os outros. Venha, eu o apoiarei.
O
comandante, tenente Dayton, era um dos mortos. A maior parte dos tripulantes
havia morrido. Só vinte e dois homens podiam ser considerados clinicamente
vivos. E Bell só dispunha de três destróieres completamente lotados.
O problema
fez porejar o suor em sua testa. Tinha que agir. E tinha que agir
imediatamente. Ao lembrar-se de Orlgans, sentiu seu espírito ferver. Onde
estaria Orlgans? Teria abandonado o grupo de seus companheiros de clã
estacionado em Beta-Albíreo? Não poderia surgir a qualquer momento no sistema
do Sol? O destino dos espiões robotizados que deixara na Terra constituiria
motivo mais que suficiente para isso.
As ordens de
Bell foram terminantes, quase grosseiras.
Mandou que
os quatro homens que aguardavam diante das comportas descessem.
— Doutor, o
senhor e Flynn os instruirão. Todos nós dispomos de um estoque de medicamentos
que nos permite prestar os primeiros socorros. Enquanto isso cuidarei de outro
assunto.
Bell
desapareceu sem dar qualquer explicação. Seu destino era o pavilhão da frente,
onde estavam depositados cinco robôs. Conhecia os companheiros de lata de
dentro e de fora. Esse conhecimento pertencia ao saber adquirido através do
treinamento hipnótico.
— Número um —
murmurou em tom sarcástico — levante-se. Você tem visita.
Ativou-o
para um décimo de sua potência, examinou a programação e constatou justamente
aquilo que esperara.
— Seu
desertor de uma figa, eu lhe darei uma lição... Mas como?
Sua mente se
iluminou com uma rapidez extraordinária. O traje arcônida.
O gerador
destinado ao campo defensivo desenvolvia uma energia eletromagnética que
bastaria para apagar a programação indesejada que fora introduzida no robô. As
experiências realizadas por Rhodan já lhe haviam ensinado em que setor do robô
fora introduzida a má consciência.
Número um, a
primeira tentativa.
Deu certo.
O resto não
passou de um trabalho de rotina. Dali a vinte minutos, os cinco robôs de
combate estavam reativados e programados de acordo com os interesses da
Terceira Potência.
Bell emitiu
algumas ordens e explicou a situação. Obedientes, os cinco robôs se espalharam
pela estação. O número um foi à sala de instrumentos, o número dois à
enfermaria, o número três marchou para a residência dos mercadores, o número
quatro assumiu seu posto diante das comportas de ar e o último ficou numa
posição avançada na superfície de Titã.
Um pouco
mais satisfeito, Bell voltou para junto dos companheiros.
— Por
enquanto nossa posição está garantida. Os cinco robôs continuam leais a nós.
Decolarei só no meu destróier e farei com que o coronel Freyt mande socorro
quanto antes. Não deverá demorar mais de um dia.
Bell e Flynn
se despediram. Dali a poucos minutos o destróier disparou para o céu de Titã.
* * *
À decisão de
Rhodan seguiram-se as ordens. Os saltadores que tripulavam a Good Hope-I deviam
ser de opinião que haviam destruído a Stardust-III. Tomaram uma rota estranha.
— Olhe só! —
disse Eric Manoli, espantado. — Dirigem-se à Terra. Será que pensam que ainda
podem salvar alguma coisa? Acredito que Freyt já conseguiu liquidar a
resistência dos robôs.
— As últimas
informações são satisfatórias — disse Rhodan. — Mas a Humanidade tem muitos
mortos e feridos a lamentar em todos os continentes. Quando me encontrar com o
primeiro saltador, registrarei essa dívida. Um momento, Eric! Veja só a rota!
Parece que não é a Terra.
Manoli se
sobressaltou. Depois sacudiu a cabeça e disse:
— Há poucas
horas você me falou em sua intuição. Ao que parece sua idéia ligada a Vênus não
era tão absurda...
Na verdade,
o girino tomara decididamente a rota de Vênus.
— O fato é
que a espionagem realizada pelos robôs revelou a Orlgans algumas coisinhas que
devíamos ter guardado para nós — disse Rhodan. — O ponto nevrálgico da Terceira
Potência não é o deserto de Gobi, mas o grande cérebro positrônico instalado em
Vênus. Está na hora de agir.
— Têm uma
vantagem de mais de vinte milhões de quilômetros — ponderou Manoli.
— E a
velocidade da luz sempre é a velocidade da luz. Tanto faz que seja um pequeno
girino ou a Stardust-III que desenvolve a mesma.
— Faremos
uma coisa proibida — disse Rhodan com um sorriso matreiro.
A coisa
proibida foi uma ligeira transição que os levou através da quinta dimensão. No
interior de qualquer sistema planetário uma manobra desse tipo representava um
perigo inequívoco, pois poderia afetar a estabilidade do conjunto. Mas não era
a primeira vez que Rhodan fazia uma coisa dessas. Já adquirira prática.
As medições
realizadas pelos trinta e cinco observadores e a interpretação dos dados pelo
cérebro positrônico instalado a bordo consumiu dez minutos. A hora havia
chegado.
A
Stardust-III realizou o salto espacial. Desapareceu pura e simplesmente do
setor do espaço em que se encontrava e, sem cruzar a órbita de Júpiter, Marte e
Terra da perspectiva projetada na quarta dimensão, surgiu de uma hora para
outra nas proximidades de Vênus. Abrigou-se atrás do planeta e aguardou o
inimigo que se aproximava.
Aguardou
durante oitenta e quatro minutos.
A surpresa
total foi o grande aliado de Rhodan. Os instrumentos de alarma mal podiam ter
soado na Good Hope-I quando a Stardust-III se transformou num monstro imenso.
Doze bombas carregadas por torpedos que se deslocavam quase à velocidade da luz
precipitaram-se sobre o alvo. Todos os canhões pesados de desintegração
dispararam ao mesmo tempo. A Good Hope-I se transformou numa nuvem de energia.
Os homens
que se encontravam a bordo da Stardust-III ainda não haviam terminado de dar
seu suspiro de alívio quando os instrumentos de alarma anunciaram nova
aproximação de matéria. Três destróieres se aproximaram na esteira da Good
Hope-I. Eram as mesmas naves que por pouco não tinham dado cabo do couraçado.
— Pontaria.
Ponte de comando para direção de tiro. Reconheceram o alvo, ou precisam de
dados goniométricos?
— Obrigado.
Temos os três destróieres grudados na mira. O senhor poderia dar ordem de fogo,
chefe?
— Fogo!
Mais uma vez
contemplaram o fogo de artifício que se exibiu em pleno céu. Rhodan sabia que
não estava indo longe demais. Em situações como esta sempre soubera harmonizar
seus atos com a consciência. Não que sua consciência não prestasse, mas
conhecia perfeitamente os limites e os deveres pelos quais tinha que pautar
seus atos.
Não estava
usando uma desculpa barata ao alegar que agia em prol do bem-estar de toda a
Humanidade.
Quem se
aproximasse pacificamente, poderia contar com um aperto de mão de Rhodan. Mas
quem trouxesse a morte para a Humanidade teria que contar com a própria
destruição.
* * *
Dois
destróieres foram atingidos. O terceiro escapou na sombra de Vênus. Não voltou
a aparecer. Devia ter caído ou pousado.
Um
destróier?
Rhodan se
lembrou do planeta Peregrino. Teria que ir ao Peregrino. Não poderia perder
mais tempo por causa de um destróier que se encontrava a serviço do inimigo.
Mandou que
estabelecessem uma ligação entre sua sala de comando e a cidade de Terrânia. Em
palavras ligeiras, relatou ao coronel Freyt o que havia acontecido. Subitamente
havia um terceiro interlocutor na mesma faixa de ondas.
— Olá, Bell.
Por que está entrando na nossa conversa?
— Tenho
tanta pressa quanto você. Coronel, mande imediatamente um girino para Titã.
Também Bell
ofereceu um relato lacônico de suas descobertas. Freyt confirmou a recepção e,
ao concluir, informou seus interlocutores de que a guerra de robôs na Terra
podia ser considerada finda.
— Nesse caso
posso receber meus mutantes de volta — constatou Rhodan. — Irei em direção ao
cérebro positrônico de Vênus. Coronel, mande a Good Hope-II para Titã e liquide
o assunto com Bell. Voltarei a chamar assim que tiver terminado em Vênus.
Os
instrumentos de Rhodan instalados em Vênus terminaram o trabalho em menos de
dois dias terrestres. O cérebro positrônico já havia preparado os dados sobre a
posição do planeta Peregrino. Mas o registro desses dados, que eram
extremamente complicados, durou várias horas. Na verdade, tratava-se apenas de
valores aproximados, dotados do maior grau possível de probabilidade. Por fim,
as coordenadas foram introduzidas no cérebro positrônico da Stardust-III
através de um código elaborado pelo próprio Rhodan.
Antes de
decolar, Rhodan ainda solicitou um relatório sobre os acontecimentos que se
haviam desenrolado nas últimas semanas em Vênus. O cérebro ali estacionado
informou-o sobre três destróieres que haviam pousado na selva do hemisfério
sul.
— Não é
apenas o sujeito que nos escapou que se mantém escondido aqui.
A
constatação de Rhodan revelou certa contrariedade. A perspectiva mudava
constantemente; até parecia que seus planos seriam estragados a cada hora.
O planeta
Vênus não representava uma folha em branco da história da Humanidade. Há mais
de um ano várias divisões plenamente equipadas do Bloco Oriental, então em
plena revolta, haviam pousado ali. Depois de uma série de lutas de resultado
variável, travadas principalmente entre os cidadãos do Bloco Oriental, fortes
grupos formaram-se sob o comando do general Tomisenkow, e passaram a empreender
uma pacífica atividade colonizadora. Mas também aqui a situação ainda não havia
sido esclarecida. Se Rhodan contasse com a possibilidade de um contato entre
saltadores do clã de Orlgans que haviam pousado ali e os homens de Tomisenkow,
não poderia afastar a possibilidade de novas complicações.
— De
qualquer maneira, não demoraremos nem um minuto — decidiu Perry Rhodan e deu
ordens de decolar.
O coronel
Freyt teria que cuidar de Vênus. Era o homem que na ausência de Rhodan teria
que exercer o governo da Terceira Potência.
Uma vez fora
da densa atmosfera de Vênus, a Stardust-III deu início a uma intensa troca de
mensagens de rádio. Bell respondeu imediatamente, informando que o traslado dos
vinte e dois sobreviventes de Titã fora concluído com êxito. Já se encontravam
nos hospitais de Terrânia.
— ...nossos
mutantes também estão a postos, Rhodan. Não há mais nada que impeça a
decolagem.
— Muito bem.
Apressem-se. Daqui a uma hora no máximo quero recolher a Good Hope-II a bordo e
dar o fora daqui. Ligue-me mais uma vez com o coronel.
Freyt
recebeu instruções detalhadas e se despediu.
— Boa
viagem, Rhodan. E um bom regresso. Lembranças ao pessoal da frota.
Combinou com
Bell um ponto de encontro entre as órbitas da Terra e de Marte. Dali a uma hora
a Stardust-III recolheu a bordo a Good Hope-II e deu início à longa viagem com
destino ao planeta Peregrino.
Antes de
atingir o ponto de transição, situado além da órbita de Plutão, Rhodan pediu
mais uma ligação direta com o major Nyssen. Pediu um relato sobre a situação
atual.
MacClears,
comandante do cruzador Terra, anunciou-se pelo hipercomunicador:
— No momento
o major Nyssen está realizando um vôo contra os saltadores. A Solar System está
envolvida num combate contra três inimigos. Até agora tudo deu certo. Mas não
sabemos até quando será assim. Os mercadores receberam reforços. Receamos a
intervenção de couraçados ainda mais potentes dos saltadores. No momento só nos
resta esperar que a Stardust-III não demore a voltar. — Faremos o que estiver
ao nosso alcance. Mas não sou nenhum profeta e não costumo fazer promessas vazias.
Agüente mais algum tempo.
Com um
laconismo tipicamente militar, MacClears confirmou o recebimento da ordem e
desligou.
— Preparem-se
para o salto interestelar — soou o comando de Rhodan. Reclinara-se
profundamente na poltrona e fitava a tela de proa, que mostrava milhares de
sóis que se desenhavam sobre o fundo negro do espaço cósmico. Em algum ponto
desse labirinto, o planeta da vida eterna percorria seu caminho. Era o planeta
que trazia o nome bastante significativo de Peregrino. Nele estava o próximo
objetivo de Rhodan. Era ali que existia o ser indefinível, que não tinha nome.
Só esse ser poderia salvar a Humanidade ameaçada.
— No planeta
Peregrino receberemos armas que nos assegurarão uma superioridade definitiva
sobre os saltadores — murmurou Rhodan, falando quase para si.
— Isso soa
como uma prece, Rhodan — prosseguiu Bell no raciocínio de Rhodan.
* * *
* *
*
Numa ação maciça, as autoridades militares da Terra conseguiram
remover a ameaça representada por seus próprios robôs, cuja programação foi
alterada. Mas a Terra só poderá se defender contra todos os clãs dos saltadores
se Perry Rhodan puder contar com uma nova arma.
Essa arma lhe é dada durante seu Vôo Para o Infinito.
Vôo Para o Infinito é o título do próximo volume da série Perry
Rhodan.

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