segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-034 - Levtan, O Traidor - Kurt Brand [parte 1]


Autor:
KURT BRAND



Tradução:
RICHARD PAUL NETO



Digitalização:
DENIZE BARTOLO



Revisão:
DROMO




Um saltador pousa em Terrânia e transforma-se na figura principal do grande blefe...
Conflitos na Terra, invasões vindas do espaço, batalhas cósmicas, combates travados em planetas distantes, tudo isso na Terceira Potência de Perry Rhodan, insta­lada com o auxílio da antiqüissima técnica arcônida, venceu galhardamente em sua curta existência.
Mas os saltadores, uma raça descen­dente dos arcônidas, que há oito milênios detém o monopólio incontestado do comér­cio galático, reprimindo implacavelmente qualquer concorrência que se esboce, re­presentam um perigo muito mais sério.
Perry Rhodan fez tudo para evitar que os saltadores transformassem a Terra numa colônia. Seus cruzadores espaciais realizam ataques simulados contra a frota dos saltadores, enquanto ele mesmo se di­rige, a bordo da Stardust-III, ao planeta do imortal, a fim de obter uma nova arma que possa ser empregada contra os saltadores. O poderio dos saltadores é tremendo. Muito embora diante da nova arma tenham ba­tido em retirada, ainda é de se recear que prosseguirão inexoravelmente na execução dos planos de conquista da Terra. Um mer­cador galático, que conhece esses planos, mostra-se disposto a vendê-los por um preço adequado. Trata-se de Levtan, o Traidor...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =


Perry RhodanChefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Amigo íntimo e representante de Perry Rhodan.

Levtan — Um indivíduo expulso da comunidade dos saltadores por sua conduta fraudulenta.

John Marshall — Um telepata.

Tako Kakuta — Cuja especialidade é a teleportação.

Kitai Ishibashi — Cujos dons se situam na área da sugestão.

Tama Yokida — Que domina a telecinésia.

Etztak Goszul — Patriarcas dos saltadores.




1



Na altura da órbita de Plutão, a Terra e a Solar System, cruzadores da Terceira Potência, emergiram do hiperespaço para retornar ao cosmos normal. Mantendo uma distância de 40.000 quilômetros, os dois veículos espaciais atravessaram vertiginosamente o sistema solar, em direção à Terra.
O choque da transição, um acompanhante desagradável de todo salto pelo hiperespaço, já estava superado. Perry Rhodan, que se encontrava a bordo do cruzador pesado Terra, juntamente com Reginald Bell.
Bell e alguns elementos de seu Exército de Mutantes, cumprimentou MacClears, o comandante da nave, com um ligeiro aceno de cabeça, e lançou um olhar convidativo a Bell, após o que se dirigiu ao seu camarote, em companhia do mesmo.
— Ainda não consigo compreender, Perry — principiou Reginald Bell, impressionado pelo silêncio de Rhodan.
Perry esboçou um sorriso amargo, mas ainda não disse nada.
Bell estourou. Aqui, a sós com Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, podia dar-se ao luxo de falar com este de amigo para amigo. Foram os primeiros homens que haviam atingido a Lua a bordo da Stardust, e continuavam amigos enquanto Perry Rhodan se preparava para conquistar a galáxia, incorporando-a aos domínios do planeta Terra.
— Perry, Aquilo ou Ele permitiu-se uma piada de mau gosto. Por que não aceitou tudo na esportiva, insistindo, sem esmorecer, em chegar ao Peregrino?
Perry lançou um olhar pensativo para o amigo.
— Aquilo pode ter feito uma piada, mas nunca uma piada de mau gosto.
Bell, engrenado, não permitiu que Rhodan terminasse.
— Ora, Perry! — disse em tom insistente. — Afinal, não fomos ao Peregrino para fazer turismo, mas porque os mercadores galácticos nos colocaram em situação extremamente difícil. Se eles resolverem lançar seus couraçados num ataque concentrado contra nós, podemos fazer nosso testamento. E foi numa situação destas que Ele ou Aquilo houve por bem não permitir nosso ingresso no Peregrino. Você realmente acha que isso não é uma piada de mau gosto?
Um Perry Rhodan totalmente diferente daquele que os homens conheciam, um homem profundamente decepcionado e abatido, que ainda não via qualquer meio de escapar ao perigo que os mercadores galácticos representavam para a Terra, deixou que seus olhos vagassem ao lado de Bell, que o fitava numa ansiosa expectativa. Sabia que a fala irreverente de Bell apenas tinha por fim dissimular a decepção e encobrir a situação desesperançada.
— Santo Deus, Perry! — exclamou Bell. — Nunca o vi do jeito que o vejo agora.
Perry não reagiu à observação. Disse simplesmente:
— Ele confia mais em nossa capacidade que nós mesmos. Só pode ser isso, Bell. Lembre-se de como ele nos tornou difícil a busca do caminho que conduz ao seu planeta, ao Peregrino. Tanto você como eu ainda temos de aprender a compreender seu senso de humor. Foi por isso que desta vez ele não nos deixou entrar, nem tomou conhecimento da nossa presença. Nem pensa em entregar-nos outros transmissores fictícios. Devemos defender-nos dos mercadores com os recursos de que dispomos.
— Se isso é senso de humor, perdi toda capacidade de apreciar uma boa piada — respondeu Bell em tom sarcástico. — A Stardust possui exatamente dois transmissores fictícios. Isso mesmo: dois. O que acontecerá com ela se os mercadores chamarem seus amigos, os superpesados, para que estes lancem um ataque concentrado contra nosso couraçado? Nesse caso a Stardust já era; e dos cruzadores Terra e Solar System nem se fala. Quanto à Terra, será escravizada e transformada numa colônia dos mercadores.
Subitamente Bell viu um brilho nos olhos do amigo. E, como depois disso um sorriso amargo brincasse em torno dos lábios de Perry e este se espreguiçasse vigorosamente, Reginald Bell já se sentiu um tanto aliviado.
— Você tem razão — confirmou Perry Rhodan. — Se os saltadores voltarem com os superpesados e lançarem um ataque concentrado contra nós, tudo estará perdido. Você não acha engraçado que ele confie tanto em nossa capacidade que acredita que possamos enfrentar os mercadores galácticos e os superpesados?
Decepcionado, Bell reclinou-se na poltrona.
— É só o que você tem a dizer, Perry? — perguntou estupefato.
— No momento, sim. Você é um sujeito formidável. Deu-me uma sacudidela no momento exato.
— Quem? Eu? Mas como? — fez uma cara tão tola que Perry lhe disse com um sorriso:
— Neste momento você não parece muito inteligente.
— Seria capaz de pagar alguma coisa por uma dica de como poderemos enfrentar o perigo que nos ameaça — resmungou Reginald Bell em tom sarcástico. Depois disso manteve-se em silêncio.

* * *

Terrânia chamou. Era a capital da Terceira Potência, situada no deserto de Gobi. Desde aquele 25 de novembro servia de sede ao Governo Universal da Terra.
A aproximação dos cruzadores Terra e Solar System já fora detectada. Logo após o abalo estrutural provocado pelo salto através do hiperespaço, as naves entraram em contato com as estações da Terra, que lhes forneceram as horas em que poderiam pousar sem entrar em choque com o campo energético invencível que se estendia por cima de Terrânia.
Taciturno, Perry Rhodan saiu da Terra. Sua aparência não revelava nada quando retribuía os cumprimentos ou falava com uma ou outra pessoa, mas seu amigo Bell não se deixaria enganar pelas aparências.
Nunca a Terra se defrontara com um perigo tamanho como o que a ameaçava, agora que fora descoberta pelos mercadores galácticos. Membros do império arcônida, que se encontrava num processo de esfacelamento progressivo, os mercadores viviam divididos em clãs que passavam seus dias em gigantescas naves, negociando com qualquer planeta que lhes parecesse lucrativo. Não eram amigos ou inimigos de qualquer raça. Mantinham-se neutros na guerra e vendiam com um lucro adequado a qualquer das partes que se encontrassem em luta. Mas os saltadores, como também eram conhecidos, não podiam ser considerados um grupo de inofensivos ciganos espaciais. Qualquer intruso que tentasse penetrar em seus domínios era destruído sem a menor contemplação. Sempre que os recursos de que dispunham não eram suficientes para isso, recorriam aos superpesados. Estes também descendiam dos arcônidas, mas eram indivíduos de peso inacreditável e, o que os tornava ainda mais perigosos, possuíam gigantescos couraçados espaciais.
Perry Rhodan rechaçara os mercadores e os superpesados, mas não lhes inoculara de forma indelével a idéia de que deviam tirar as mãos da Terra, por representar ela um perigo mortal. Naquele momento Perry Rhodan estava explicando ao seu estado-maior que a frota dos mercadores, reunida aos superpesados, representava o perigo mais grave com que a Terra jamais se defrontara, e que não tinham com que se defender do mesmo.
— Amanhã o cruzador pesado Centauro será batizado e entrará em serviço — interveio Nyssen, comandante da Solar System.
Perry Rhodan exibiu um sorriso condescendente.
— O que significa isso, cavalheiros?
— Nada! Trata-se duma nave com cerca de duzentos metros de diâmetro. Juntamente com a Centauro, disporemos de três naves desse tipo. Isso não representa coisa alguma face ao poderio maciço do inimigo.
— Prometo-lhes um reino por uma boa idéia, e, além disso, lhes ficarei eternamente grato.
Passou os olhos pelo grupo. Fitou Bell, MacClears e Nyssen, os comandantes dos cruzadores, o major Deringhouse, os mutantes e finalmente Crest e Thora, os arcônidas.
Onde seu olhar demorou mais foi na orgulhosa arcônida. Nos últimos anos haviam se aproximado progressivamente sob o aspecto humano, mas nunca a aproximação fora tão grande que um terceiro pudesse esperar que esses belos exemplares se transformassem num par.

* * *

Foi Thora, a arcônida, quem batizou a nave Centauro.
Atrás dela estava o major Deringhouse. Seu rosto manteve-se impassível, mas não pôde reprimir o brilho dos olhos, através do qual exprimiu a alegria de ser comandante da nave.
Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, Bell e Crest, o arcônida, mantinham-se ligeiramente de lado. Enquanto Thora pronunciava, em voz firme, a costumeira fórmula de batismo, Crest cochichou para Perry Rhodan:
— Será que há alguns anos, quando tivemos nosso primeiro encontro, como náufragos presos à superfície lunar, o senhor poderia imaginar que um dia, como administrador do Governo Universal da Terra, tivesse que defender o planeta contra um grupo de invasores do espaço?
Seus olhares encontraram-se. De um lado estava o arcônida, com o saber concentrado duma cultura antiqüíssima, e de outro lado Perry Rhodan, protótipo do homem terreno, inteligente, audacioso e confiante. Era o herdeiro do saber dos arcônidas e, juntamente com Reginald Bell, fora o único ao qual tinha sido conferido o dom de não envelhecer nos próximos seis decênios.
Perry ia responder à pergunta de Crest, quando Bell lhe tocou o braço e apontou para a tela.
Quando a imagem se firmou, a tela mostrou o rosto do coronel Freyt.
— O que houve? — perguntou Perry Rhodan laconicamente, sem elevar a voz.
Preferia que o batismo do cruzador Centauro não sofresse qualquer perturbação. Freyt entendeu a fala contida de Rhodan. Também dominou suas cordas vocais:
— Chefe, os rastreadores estruturais instalados em Marte e numa das luas de Saturno detectaram alguma coisa.
Uma idéia passou pela mente de Perry Rhodan.
São os mercadores!”, pensou. “Levaram três meses para preparar o ataque à Terra. E agora estão chegando.
— Coronel Freyt — disse — queira fornecer...
Mas Freyt interrompeu-o em tom nervoso:
— Nova detecção, chefe. Mais um abalo estrutural. Foi a mesma nave que abandonou o sistema solar.
— Alarma número um — disse Rhodan em tom decidido, lançando um olhar pensativo para o novo cruzador pesado da frota terrena, que acabara de ser batizado por Thora, a arcônida.
Os contornos do rosto do coronel Freyt desfizeram-se. A tela voltou ao cinza. Bell mastigou o lábio inferior. Crest parecia um homem que contém a respiração.
O alarma número um foi desencadeado, e não pegou a cidade de Terrânia desprevenida. O supercouraçado Stardust-III, o máximo da engenharia arcônida, conquistado por Perry Rhodan e seus mutantes no mundo dos ferrônios, estava pronto para decolar. Também os cruzadores Terra e Solar System e alguns grupos de destróieres estavam preparados, enquanto outros, que cruzavam entre os planetas, mantinham a vigilância do sistema.
O alarma número um foi mantido quando Rhodan convocou seus colaboradores mais chegados para uma conferência.
A interpretação dos dados confirmara o fato de que uma nave desconhecida, vinda do hiperespaço, efetuou uma transição que a levou para o interior do sistema solar, realizando poucos segundos depois novo salto, que a levou de volta ao hiperespaço.
Reginald Bell irradiava otimismo.
— Será que é um embaixador dos saltadores?
John Marshall, um homem alto de cabelos escuros, não alterou as feições de seu rosto estreito e duro. Ninguém desconfiaria de que fosse um telepata. Quando Rhodan lhe lançou um olhar indagador, disse:
— Conheço os mercadores galácticos, e por isso sei que essa nave que apareceu para desaparecer imediatamente não é dos saltadores. Estes estão incubando um plano para subjugar-nos de um golpe.
— Será que foi um salto mal sucedido? — disse Bell, pensando em voz alta.
Estremeceu quando Crest, o arcônida, respondeu:
— Os mercadores galácticos são descendentes de nossa raça, Bell...
— Infelizmente — respondeu em tom áspero Bell, que logo recuperara o controle. — É lamentável. Se não fossem eles, os filhos de sua raça não nos dariam tantos aborrecimentos.
Crest estacou um momento, mas logo compreendeu como deviam ser interpretadas as palavras de Bell. Mas estas ficaram atravessadas na garganta de Thora.
Seus olhos chisparam de raiva quando chiou para Bell:
— O senhor não tem o menor motivo para fazer pouco caso de nossa raça. Todo saber de que dispõe provém dela...
Estacou em meio à frase. Não poderia deixar de perceber o riso que Perry Rhodan procurava reprimir. Só agora a arcônida percebeu que mais uma vez se tornara vítima das brincadeiras de Bell.
— Vamos aguardar — disse Rhodan, encerrando a conferência. — Para os destróieres que se encontram no sistema solar continua a vigorar o alarma número um. É a única coisa que podemos fazer no momento.

2



O comandante Deringhouse podia ser encontrado em qualquer lugar dentro de sua nave. Como um sonâmbulo, caminhava de um lado para outro na gigantesca nave esférica de duzentos metros de diâmetro.
Dentro de uma hora, a Centauro decolaria para o vôo inaugural. Pela primeira vez o colosso se ergueria do solo, para penetrar no seu espaço vital, o cosmos mortal, mas admirável.
Verificou pessoalmente os controles finais.
— Controle de armamentos!
A língua falada por todos parecia conhecer apenas esta expressão: “Em ordem.”
Os goniômetros, as instalações de rádio, a comunicação com a sala de máquinas, com os conversores, tudo em ordem...
Finalmente veio o aviso definitivo de que a nave estava em ordem, e Deringhouse respirou aliviado.
Nem se lembrou do alarma número um, que continuava a vigorar.
Um tanto admirado, Perry Rhodan viu entrar Crest e Thora.
John Marshall pretendia despedir-se. Sua capacidade telepática, aperfeiçoada através dum treinamento hipnótico, fizera-o perceber que os arcônidas desejavam falar a sós com Perry Rhodan.
Quando já se dispunha a sair, Rhodan deteve-o.
— Fique aqui, Marshall — disse em tom amável, enquanto cumprimentava os arcônidas com um aceno de cabeça.
A testa de Thora enrugou-se ligeiramente. Sempre que alguma coisa não corresse conforme previra, revelava sua qualidade de arcônida sensível. Crest, um indivíduo alto e magro pertencente à elite científica do Império de Árcon, exibia a tranqüilidade esclarecida que se harmonizava com seu saber.
Diante do olhar sempre amável de Perry, a testa de Thora desanuviou-se. Sem preocupar-se com a presença de Marshall, começou a falar.
— O tempo urge, Perry Rhodan. E o tempo trabalha a favor dos mercadores galácticos e contra a Terra, ou melhor, contra nós, inclusive contra Árcon. A Centauro está preparada para o vôo inaugural. Permita que Crest e eu viajemos para Árcon. Não formulo a proposta para aproveitar as circunstâncias e obter o cumprimento duma promessa, mas pelo simples fato de estar preocupada com o destino da Terra, com o nosso destino...
O rosto de Perry Rhodan assumiu uma expressão dura. Lançou um olhar perscrutador para Thora e Crest. Podia confiar irrestritamente no cientista, mas não era impossível que a mulher impulsiva que tinha diante de si ainda mantivesse reservas mentais.
John Marshall estava de pé atrás dos arcônidas. Reunindo suas forças telepáticas, conseguia penetrar na barreira que cercava o cérebro dos arcônidas, desvendando seus pensamentos.
Quando fitou Perry Rhodan, este compreendeu a linguagem de seus olhos.
— Sei perfeitamente — respondeu este, depois que a informação de Marshall o tranqüilizara — que ainda lhes estou devendo o cumprimento duma promessa...
— Não é disso que se trata — interrompeu Thora, exaltada. — Queremos buscar auxílio, Perry Rhodan. Aquilo, o ser que habita Peregrino, o planeta invisível, acaba de lhe recusar esse auxílio. Meu povo, os arcônidas, não o recusarão. Sem o auxílio do poderio de nossa raça o senhor não conseguirá manter-se contra os saltadores e os superpesados.
— O ataque pode ser lançado a qualquer momento — disse Rhodan, tentando fugir à decisão, embora várias vezes já tivesse dito a si mesmo que chegara o momento em que o auxílio de fora se tornava imprescindível.
Mas não era apenas um homem dotado dum raciocínio e dum senso tático frio; também possuía o dom da intuição e da adivinhação. Uma premonição indefinível dizia-lhe que conseguiria defender-se dos saltadores sem auxílio de fora.
— Perry Rhodan! — disse Crest, dirigindo-se a ele. Seus olhares encontraram-se. — Rhodan, o senhor me decepciona. Procura fugir ao problema. Não adianta inventar desculpas para escapar ao destino. Thora e eu temos que ir a Árcon. E temos que ir imediatamente. A Centauro está pronta para decolar. Permita que viajemos nela. Será que não confia mais em nós?
Foi uma pergunta dura.
Afinal, Perry Rhodan devia a esses dois seres todo o saber e todo o poder de que dispunha.
Sua resposta franca e terminante impressionou os arcônidas:
— Nunca desconfiei dos senhores, mas prefiro adiar a viagem para Árcon. Esperava encontrar um meio de rechaçar os saltadores com meus próprios meios. Mas reconheço que isso não é possível.
Marshall interrompeu-o:
— Chefe, há uma mensagem.
— O que é? — soou a voz rangedora de Rhodan, enquanto este girava o botão da tela. Os traços ordenaram-se, retratando o rosto do coronel Freyt.
— Chefe — disse Freyt em tom nervoso — a estação de rádio principal, instalada na Lua, acaba de captar uma mensagem vinda do mesmo setor em que ontem foram constatados os dois abalos estruturais...
— Qual é o teor da mensagem? — pediu Perry Rhodan.
Freyt transmitiu apressadamente o conteúdo da mensagem:
— Levtan solicita permissão de aterissagem a Rhodan, chefe da Terceira Potência. Peço que a resposta seja transmitida pela mesma onda. Levtan.
— Obrigado, coronel Freyt — exclamou Perry.
Freyt não compreendeu por que uma mensagem desse tipo poderia provocar tamanha alegria no chefe, pois subitamente o rosto do mesmo irradiou alegria.
— Quer dizer que não vamos a Árcon? — adivinhou Crest, antes que Perry Rhodan voltasse a dirigir a palavra aos arcônidas.
— Ainda não, Crest! — dirigindo-se a John Marshall, disse: — O senhor ouviu tudo. Peça a Bell que cuide da interpretação da mensagem. — Voltou a dirigir-se aos arcônidas: — Um momento!
Enquanto ainda era um jovem cadete da Força Espacial dos Estados Unidos, Perry Rhodan já era considerado um “reator psíquico instantâneo”. Depois desenvolvera essa faculdade. Usando o sistema de comunicação audiovisual, mobilizou através de ordens lacônicas todos os postos de alarma. Suas instruções estenderam-se bem além da órbita de Plutão, onde um destróier exercia o serviço de vigilância.
Reginald Bell, amigo e representante de Perry Rhodan, deixou cair sua figura atarracada na poltrona, empurrou para o lado a pilha com as interpretações da mensagem e sorriu para Kitai Ishibashi, um médico e psicólogo japonês.
— Daqui a pouco o senhor terá trabalho, Ishibashi. Estamos esperando visita. Alguém quer falar com o chefe, o senhor da Terra. Este alguém perguntou...
— Será que é um saltador? — perguntou Kitai Ishibashi. Seus olhos em forma de amêndoa iluminaram-se.
— Talvez seja um saltador. É mesmo provável que seja. O fato é que não sabemos. Mas quando a nave dele pousar, sua hora terá chegado. Mantenha-se preparado. Acredito que sua arte representará o fiel da balança...
— Farei o possível — asseverou Kitai Ishibashi.
Bell seguiu-o com um olhar pensativo.
A idéia de receber uma visita dos saltadores não o deixava muito satisfeito. Havia algo de errado nessa história, mas nem mesmo Perry Rhodan sabia onde estava o erro.
Foi por isso que chamou Kitai Ishibashi, o sugestor, cujas energias mentais lhe permitiam impor a qualquer indivíduo sua própria vontade de forma tão terminante que o indivíduo atingido pela operação mental se convencia de que estava agindo por sua livre e espontânea vontade, não em virtude da influência de outrem.
Bell examinou as interpretações.
A mensagem vinda do setor em que se registraram os dois abalos estruturais era um fenômeno único.
— A coisa não poderia ser mais demorada — resmungou, enquanto calculou que a mensagem devia ter levado pelo menos 24 horas para chegar à Lua. — Hum... e isto?
Leu as medições do ângulo em que a mensagem chegara à estação da Lua. Ao lado delas estavam os cálculos do cérebro positrônico. Os mesmos confirmavam que a mensagem redigida em linguagem não codificada deviam provir da nave que 24 horas antes provocara dois abalos estruturais.
— Talvez isso ainda fique bastante divertido... — resmungou Bell, tendo em si mesmo seu único interlocutor. — Talvez não fique...
O comandante Deringhouse pretendia anunciar que tudo estava em ordem com os controles da Centauro, quando o sinal de rigorosa prontidão soou pela nave. Imediatamente a voz tranqüila de Perry Rhodan soou nos alto-falantes. Pouco depois seu rosto surgiu nas telas.
— Ao comandante. Decolagem de emergência. Transição de curta distância em direção à órbita de Plutão. Missão de combate. Tentaremos localizar a nave desconhecida que ontem executou dois saltos. Os dados do cérebro positrônico para a decolagem e a amplitude do salto seguem imediatamente. Repita, comandante Deringhouse.
Este repetiu toda a série de comandos, sem parar para refletir.
As comportas da Centauro fecharam-se. A tripulação e os robôs corriam apressadamente pelos conveses da nave. De todos os lados vinham os avisos de que tudo estava em ordem. A tensão estalava em todos os cantos do cruzador.
Com um som uivante a Centauro disparou em direção ao céu. A imensa esfera foi diminuindo até desaparecer em meio aos reflexos solares. Quando atingiu a altura de vinte quilômetros, transmitiu a primeira mensagem para Terrânia.
Dali a uma hora veio a segunda mensagem:
— Tudo preparado para a transição a curta distância. Deringhouse.
Todos os rastreadores do sistema solar registraram o abalo provocado pela Centauro, quando esta penetrou no hiperespaço para executar o salto em direção à órbita de Plutão.
O coronel Freyt virou-se rapidamente ao notar que duas pessoas entravam na sala. No mesmo instante esqueceu a presença de Perry Rhodan e de Crest.
— Há três minutos houve novo abalo estrutural.
A informação não poderia ser mais lacônica. Mas para Perry Rhodan foi suficiente. Nem notou o olhar de admiração de Crest. A capacidade de extrair o mais importante das coisas importantes, uma constante em Rhodan, nunca deixava de impressionar o arcônida. Acabara de receber outra prova disso.
— É a mesma nave, Freyt?
— O cérebro positrônico ainda está calculando. Ah, o resultado acaba de chegar, chefe.
Leram ao mesmo tempo a interpretação do cérebro positrônico:
— Existe uma probabilidade de 98,3 por cento de que se trate da mesma nave que ontem executou duas transições nas proximidades da órbita de Plutão.
— E a interpretação do rastreador? — indagou Rhodan.
O coronel Freyt já tinha a resposta preparada:
— Nave aproxima-se a uma velocidade que fica 0,9 por cento abaixo da da luz, vinda do espaço interestelar e dirigindo-se ao sistema solar.
O hipercomunicador chamou. A Centauro respondeu.
— Nave desconhecida localizada. Coordenadas conhecidas. Aproximação imediata. Deringhouse.

* * *

Os rastreadores estruturais da Centauro registraram a transição dum veículo espacial, que devia ter ocorrido nas imediações do ponto em que se encontrava.
O comandante Deringhouse lançou um olhar ligeiro para o telegrafista.
— Hipercomunicação para Terrânia — ordenou e transmitiu a informação, sem desconfiar de que Perry Rhodan a estivesse ouvindo.
A Centauro acelerou. Atrás dela foi desaparecendo o relampejar frio dos planetas solares. O planeta Plutão, condenado a descrever sua órbita em torno do Sol numa escuridão eterna, encontrava-se em oposição.
O comandante Deringhouse sentia-se no seu elemento. Tranqüilo, estava reclinado na sua poltrona. Passou os olhos pelas telas, quadros de controle e painéis; vez por outra fitava seus oficiais e tinha a impressão de encontrar-se com a melhor tripulação no melhor cruzador pesado do sistema solar.
— A posição da nave desconhecida! — ordenou em tom enérgico.
O dispositivo automático instalado junto à mesa de instrumentos deu um clique. O cérebro positrônico do cruzador forneceu os dados solicitados por Deringhouse.
Um oficial transmitiu os mesmos em palavras lacônicas e precisas.
— Acelerar dez por cento.
No mesmo instante o veículo espacial deu um salto para o espaço, mas no interior da nave a pressão da aceleração não foi sentida.
A Centauro precipitou-se para a nave desconhecida. As torres de armas estavam ocupadas, aguardando a ordem de fogo.
— Distância um minuto-luz.
Deringhouse confirmou com um aceno de cabeça.
A Centauro continuou a penetrar no espaço, em direção ao desconhecido. Todas as faixas de ondas estavam ligadas. A qualquer instante poderia surgir um chamado da nave desconhecida.
— Distância de dez segundos-luz. Deringhouse reduziu a velocidade da nave à metade. Quando se encontrasse no limite de segurança, não queria realizar nenhuma manobra de frenagem.
— Distância de quinhentos mil quilômetros.
A ordem de Deringhouse foi transmitida apressadamente às posições de combate.
— Retirar as capas dos canhões.
As indicações de distância vinham a curtos intervalos. Quarenta mil quilômetros ainda os separavam do inimigo.
— Malditos saltadores... — disse um dos homens que se encontravam na sala de comando. Deringhouse franziu a testa mas não disse nada, pois acabara de pensar exatamente a mesma coisa.
Os mercadores galácticos estendiam seus tentáculos em direção ao débil planeta Terra. Descobriram-no num dos setores laterais da galáxia e acreditaram que com ele poderiam fazer seus negócios pela forma que costumavam fazer com muitos mundos habitados da Via Láctea.
Corriam em direção a uma dessas naves dos mercadores — dos inimigos mortais da Terra.
— Mensagem do desconhecido — gritou o telegrafista, e Deringhouse descontraiu-se um pouco. — Um certo Levtan pede permissão para vir a bordo.
Deringhouse inclinou-se ligeiramente para a frente para aproximar-se do microfone.
— Atenção, postos de combate. Ao menor movimento suspeito, atirem imediatamente com todas as peças, sem aguardar ordem de fogo da sala de comando.
Sabia que poderia confiar em seus homens.
— Hipercomunicador. Mensagem ao chefe — disse Deringhouse com a voz tranqüila. — Nave desconhecida pede permissão para mandar um certo Levtan para bordo da Centauro. Darei a permissão. Nossas coordenadas são as seguintes...
A estação de Terrânia limitou-se a confirmar o recebimento da mensagem.
— Nave desconhecida aproxima-se. Distância de oito mil quilômetros — assim foi anunciado o resultado da medição da distância. O limite da segurança já fora ultrapassado.
— Deixe que se aproxime — disse Deringhouse e acendeu um cigarro.

* * *

Ao lado da gigantesca Stardust-III, o couraçado de Rhodan com oitocentos metros de diâmetro, os cruzadores pesados Terra e Solar System estavam prontos para decolar.
As autoridades de Terrânia haviam ordenado prontidão rigorosa para as tripulações, mas nem Perry Rhodan, nem Reginald Bell, nem qualquer dos arcônidas se encontrava a bordo dos veículos espaciais.
— Por que estamos esperando por aqui? — perguntou Thora, impaciente. — Não sei qual é a graça! — gritou para o amigo de Perry Rhodan, que continuava tranqüilamente em sua poltrona, sorrindo por todo o rosto.
— A graça é que a senhora está tão nervosa, Thora — respondeu Bell. — Vejo nisso um traço muito humano. Não chegou a dizer que os habitantes da Terra são bárbaros?
Thora e Bell não se suportavam. Não podiam passar um pelo outro sem soltar uma indireta.
— Por que Deringhouse não dá mais nenhum sinal de vida? — perguntou Crest, encerrando a discussão. — É uma leviandade permitir a esse Levtan que venha a bordo da Centauro...
— Leviano? Logo Deringhouse? — Perry sorriu. — É bem verdade que já poderia ter chamado.
— Por que não o chamamos pelo hipercomunicador? — insistiu Thora.
— As comunicações radiofônicas foram suspensas para todos os destróieres. Não posso abrir nenhuma exceção, Thora.
— Será que o chefe da Terceira Potência não ocupa uma posição especial? — perguntou com uma ponta de ironia.
Perry esteve a ponto de responder com uma observação mordaz, mas viu o olhar de advertência de Crest. Por isso limitou-se a dizer:
— A grandeza revela-se através do autodomínio nas pequenas coisas, Thora. E na Terra a curiosidade é considerada um mal.
Atirando a cabeça orgulhosamente para trás, Thora retirou-se. Crest procurou desculpar seu comportamento:
— É a decepção de mais uma vez ver frustradas suas esperanças de ir para Árcon, de ver adiada a volta para seu mundo. Afinal, é uma mulher, Perry Rhodan.
— Está bem, Crest — Perry demonstrou pressa em mudar de assunto. Neste ponto, relacionado com a volta dos arcônidas, não tinha a consciência muito tranqüila. — Por que será que a Centauro não entra em contato conosco? — Rhodan lançou o olhar pela janela, contemplando seus veículos espaciais. — Essas naves representavam muito pouco face ao poder dos mercadores galácticos e dos superpesados. Daria um reino por uma boa idéia.
Ele mesmo, Perry Rhodan, era o mais preocupado, o mais nervoso dos três homens que se encontravam na sala, mas continuou a fazer o papel de pólo inabalável da tranqüilidade.
— Por que será que Deringhouse não entra em contato conosco? — voltou a perguntar de si para si.
O hipercomunicador continuava em silêncio.

* * *

Deringhouse gritou para dentro do microfone:
— Torre número dois, coloque um tiro na frente da proa!
Na grande tela de visão global da sala de comando surgiu um lampejo ofuscante. Pela primeira vez a Centauro deu uma demonstração de força. A uma distância de 3.000 quilômetros quase arranca a proa da nave desconhecida.
Paramos! — foi a mensagem radiofônica em texto não codificado recebida na Centauro. — Viemos para negociar, não para atacar.
Deringhouse lançou um olhar mais prolongado que de costume para seu telegrafista. Alguma coisa não estava certa nessa mensagem expedida pela nave dos saltadores. Na sua opinião, as intenções pacíficas eram pronunciadas demais.
— Comandante para os postos de combate — voltou a chamar as torres de canhões. — Disparem imediatamente se dentro de um minuto o mercador não estiver parado — desligou e chamou o telegrafista: — Mande-lhe isto.
— Tudo? — perguntou o telegrafista.
— Sim, tudo. Quero que saibam o que podem esperar de nós.
A tensão cresceu na sala de comando. Deringhouse não tirava os olhos da tela de visão global. A voz metálica do cérebro positrônico indicava as modificações de distância. A mensagem destinada ao mercador Levtan havia sido expedida.
— A nave está parada — referia-se ao veículo espacial desconhecido.
A Centauro desenvolvia pouca velocidade. Numa curva suave, o cruzador pesado passou pela outra nave a uma distância de três mil duzentos e oito quilômetros.
— A nave contínua parada.
O próprio Deringhouse não compreendia o motivo de tamanha cautela. Tinha uma superioridade imensa sobre o mercador, mas agia como se fosse o mais fraco.
Estaria impressionado com aquilo que Crest lhe contara sobre os clãs dos mercadores e seus patriarcas? Ou seria porque era difícil aceitar a idéia de que um mercador poderia aparecer nas imediações do sistema solar para negociar? Bastaria que os mercadores estendessem a mão para estrangular a Terra.
Naquele instante Deringhouse voltou a transformar-se no piloto do caça tripulado por um homem.
A Centauro correu velozmente em direção à outra nave. O ponto reluzente da tela aumentava rapidamente.
— É um saltador — disse alguém na sala de comando.
— Meu Deus! — exclamou Deringhouse perplexo. — Esse calhambeque está totalmente enferrujado. Quem será esse sujeito que os saltadores nos mandaram?
No mesmo instante James Hugh gritou:
— Localização, comandante. Um objeto estranho aproxima-se a uma velocidade setenta e seis por cento inferior à da luz. Vem de Pi 3,65 Teta 56,19 graus.
O cérebro positrônico interpretou esses dados e logo os transmitiu às torres de canhões.
Então era isso! Tratava-se dum estratagema primário dos mercadores — tão primário que por pouco não cai nele. Mas a indicação de distância? A que distância se encontrava a outra nave?
Descrevendo um salto tremendo, produzindo por uma quantidade inacreditável de energia, a Centauro passou rente à nave enferrujada, descreveu uma curva arriscada e precipitou-se na direção indicada.
— E a distância? — perguntou Deringhouse com a voz fria. — Hugh, por que ainda não me forneceram a distância?
— A positrônica forneceu dois valores — respondeu Hugh com a voz tímida. Deringhouse quase chegou a saltar da poltrona.
— É porque são duas naves dos saltadores. Quero ambas as distâncias. Vamos logo, Hugh!
— Quatro vírgula três oito e quatro vírgula sete um segundos-luz — gaguejou Hugh.
A Centauro já estava acelerando a 10.000 quilômetros por segundo.
— Vamos estragar o prazer deles de uma vez para todas — disse Deringhouse com uma perigosa suavidade. — Depois cuidaremos do Levtan, esse perigoso anjinho da paz.

* * *

Contrariado, Perry Rhodan ergueu os olhos.
— O que houve? — perguntou em tom ainda mais contrariado, mas no mesmo momento fez um gesto de mão para entender que a qualquer momento estaria disposto a falar com John Marshall.
— Um enviado da Federação Asiática solicita uma audiência.
— Peça-lhe que fale com Bell — disse Perry laconicamente. No momento não podia perder tempo ouvindo as ciumeiras dos blocos de potências da Terra.
— Acontece que o enviado faz questão absoluta de falar com o chefe da Terceira Potência. Não quer ir embora.
— Pois eu o mando embora. Diga-lhe isto em termos um pouco mais corteses.
Para Rhodan a interrupção havia chegado ao fim. Entrou em contato com a gigantesca estação de rádio da gigantesca metrópole de dois milhões de habitantes, enquanto John Marshall, o telepata, se dispunha a sair.
— Ainda não chegou nada? — perguntou Rhodan em tom impaciente.
— Não — soou a voz metálica da membrana.
Imediatamente Rhodan entrou em contato com os dois cruzadores pesados.
— A Terra e a Solar System decolarão imediatamente. Entrem em posição para uma transição a curta distância em direção à órbita de Plutão. As ordens para o salto serão dadas separadamente.
No mesmo instante o uivo potente provocado pela decolagem das naves de duzentos metros irrompeu na sala, apesar do isolamento acústico. Girou o botão e viu que os cruzadores pesados, acelerando cada vez mais, corriam em direção à camada de nuvens altas e desapareceram na mesma.
Sua respiração era nervosa e pesada.
O que teria acontecido com a Centauro para lá da órbita de Plutão? O que estariam tramando os mercadores?
Será que ele e toda a Terra teriam se deixado envolver numa trama dos saltadores?
Ainda não teria percebido a cilada?
Mais uma indagação dirigida à estação de rádio.
Nada.
O cruzador pesado Centauro, comandado por Deringhouse, ainda não enviara nenhuma mensagem.

* * *

— São dois meteoros! — exclamou Deringhouse bastante contrariado. Por que tinham que existir esses blocos de metal, e por que tinham que possuir campos magnéticos? — Vamos voltar ao calhambeque enferrujado.
Perdera um tempo precioso. A Centauro teria que mostrar do que era capaz.
O comandante olhou para o relógio. Assustou-se ao ver que já era tão tarde. Refletiu ligeiramente se convinha avisar Terrânia. Resolveu ficar quieto. Não havia nenhuma novidade.
Os localizadores captaram a nave enferrujada. Continuava no mesmo lugar.
Parecia que a Centauro iria abalroar o outro veículo a toda velocidade. Os oficiais foram olhando para Deringhouse. Nos olhares de todos havia a mesma pergunta: Não vai frear?
Deringhouse pilotava a gigantesca esfera como se fosse uma nave de um tripulante.
Subitamente as forças de frenagem rugiram na nave. Mãos titânicas reduziram a velocidade do cruzador. Os valores g subiram vertiginosamente, mas os neutralizadores não permitiram que fosse ultrapassado o valor g 1. Nenhum dos tripulantes sentiu a pressão gigantesca produzida pela desaceleração.
Medonha e ameaçadora, fantasmagórica e silenciosa, a Centauro voltou a aproximar-se da popa da nave dos saltadores, chegando quase a tocá-la com seus campos energéticos.
— Levtan pode vir a bordo — disse Deringhouse ao telegrafista. — Não quero que venha numa nave; apenas num traje espacial. Diga-lhe que providenciaremos um transporte seguro. Enfatize a palavra seguro.
A mensagem foi irradiada. A confirmação do saltador não se fez esperar. Logo a grande tela de visão global mostrou que a pequena comporta da nave enferrujada se abriu, deixando sair um homem que, envergando um traje arcônida e empurrando-se, deslocou-se no rumo exato da Centauro.
Foi quando o telegrafista anunciou a chegada de outra mensagem.
— A Terra e a Solar System acabam de irradiar o sinal de chegada para Terrânia a partir do ponto de salto da transição de curta distância em direção à órbita de Plutão.
Naquele instante um imenso raio magnético expelido pela Centauro apanhou o desconhecido e os imensos campos energéticos da nave abriram-se por um instante para que o mercador pudesse vir a bordo são e salvo.
Ainda não tenho nenhuma informação para Rhodan”, pensou Deringhouse, mas não pôde livrar-se da impressão de que após o pouso levaria uma tremenda bronca do chefe.
Da pequena comporta veio o aviso:
— Homem a bordo. Foi revistado. Não tem armas.
Deringhouse respondeu:
— Traga-o à sala de comando, acompanhado de quatro homens e dois robôs de combate.
— Então realmente veio para negociar — disse James Hugh.
Percebia-se pelo tom da sua voz que continuava desconfiado, sem acreditar no que acabara de dizer.
Deringhouse também estava desconfiado.
























3



A nave cilíndrica de Levtan, que media cento e cinqüenta metros de comprimento, estava pousada ao lado da Centauro. A Terra e a Solar System encontravam-se nos seus pontos de decolagem, como duas naves que nunca estiveram no espaço. Nada indicava que suas armas fulminantes estavam apontadas para a Lev-XIV. Ultimamente Perry Rhodan não costumava demonstrar interesse em pôr Terrânia em perigo através da utilização dos recursos mais radicais de que dispunha. A conferência acabara de ser concluída.
Bell lançou um olhar insatisfeito para a nave dos mercadores, pessimamente conservada.
— A impressão que Levtan me causou quando apareceu na tela foi igual a essa nave. Nunca vi um sujeito tão antipático — disse.
— Foi por isso que nosso vôo para Árcon foi adiado — disse Thora em tom agressivo, sem dar atenção ao olhar repreensivo de Crest. Num gesto de desprezo, atirou os lábios para a frente. — A Lev-XIV não é e nunca foi uma nave dos saltadores.
— Logo saberemos que tipo de nave é a Lev-XIV e quem nos mandou Levtan — interveio Perry Rhodan.
Estas palavras puseram fim à discussão.
Deringhouse surgiu na porta acompanhado de dois robôs de combate e entregou o forasteiro.
Um homem de baixa estatura com traços mongólicos entesou o corpo quando viu os robôs desaparecerem. Com um sorriso autoconfiante, inclinou-se diante do grupo de homens.
Parecia desleixado como sua nave. E a Lev-XIV não estava apenas enferrujada; fedia de tanta sujeira.
Thora torceu o nariz e recuou. Crest fitou o mercador, demonstrando um certo interesse científico. O rosto largo de Bell revelou tudo aquilo que um diplomata nunca deve revelar. Apenas Perry continuou o mesmo. Dominava a situação. Ainda não se mostrava disposto a proferir seu julgamento, pois não sabia o que trouxera Levtan à Terra.
Mas logo ficou sabendo. Não era à toa que os melhores dentre os seus mutantes se encontravam nos fundos da sala. John Marshall já estava lendo os pensamentos de Levtan.
Crest dirigiu a palavra ao saltador:
— Levtan, o senhor não é um mercador. Já foi, mas agora é apenas um pária, um elemento proscrito.
Um brilho traiçoeiro passou pelos olhos oblíquos de Levtan. Olhando de baixo, examinou a figura alta do arcônida.
— O senhor é de Árcon? — perguntou em tom atrevido, em vez de responder à observação de Crest.
— O senhor é um pária — disse Crest, enfatizando a afirmativa anterior, enquanto admitiu ser um arcônida. Perry Rhodan recebeu a informação cochichada que John Marshall lhe transmitiu.
— Levtan é um traidor, um desesperado e um elemento proscrito. Suas idéias estão dominadas pela torpeza, pela traição e pela intenção de praticar chantagem.
Neste momento está refletindo sobre a maneira de lograr-nos.
Perry Rhodan adiantou-se ligeiramente. Deu seu nome a Levtan.
— Perry Rhodan... — repetiu o saltador proscrito e envolveu o chefe da Terceira Potência com um olhar. — Onde está a outra nave arcônida que o senhor possui, Rhodan? Nunca acreditei nesse blefe. Sabia perfeitamente que até hoje o Império só perdeu uma nave desse tipo. Mas não se preocupe; saberei guardar seus segredos, desde que consigamos entender-nos no terreno dos negócios.
Perry não se alterou. Continuou a fitar Levtan com uma expressão fria.
— Não tenho necessidade de blefar.
O atrevimento daquele saltador desleixado era espantoso. Em tom petulante interrompeu Rhodan.
— Também eu não confessarei logo todas as mentiras que soltar diante do senhor. Sua sorte, Rhodan, é que os clãs ainda acreditam que o senhor dispõe de duas naves da classe da Stardust. Bem, deixemos isto de lado...
John Marshall avançou, vindo dos fundos da sala. Passou pelo chefe e só parou quando estava quase pisando nos pés de Levtan.
Perry Rhodan achava que ainda era cedo para ensinar boas maneiras a Levtan. Cochichou para Marshall, ordenando-lhe que se limitasse a chocar o saltador com um fato.
John Marshall reagiu imediatamente, embora já tivesse outra frase na ponta da língua.
— Levtan, o senhor seria capaz de repetir a safadeza com o clã de Gaxtek que o senhor praticou na estrela Caster?
Todos ouviram a respiração pesada de Levtan, que logo soltou um gemido burborejante e se abaixou como um cachorro que acaba de levar um pontapé. Um olhar de falsidade atingiu Marshall. Em tom odiento perguntou:
— Como soube disso?
— Vamos ao que importa, Levtan — interveio Perry Rhodan. O tom de sua voz não admitia réplica. — Por que não nos chamou pelo hipercomunicador? Por que usou aquela onda-tartaruga?
Agira propositadamente ao dar essa formulação à pergunta. Era necessário robustecer por um curto lapso de tempo a autoconfiança de Levtan. Os mutantes telepatas ainda não tinham conseguido extrair todas as informações de sua mente.
Com um sorriso arrogante Levtan respondeu:
— Não sou um idiota para chamar a atenção dos saltadores por meio duma mensagem pelo telecomunicador. Por causa do senhor em toda nave dos saltadores há constantemente alguém ocupado com o goniômetro. Bem, vamos ao que importa. Quero vender uma informação, mas antes de entreter a idéia de fazer este negócio com o senhor, tomei minhas precauções. Não sou o único elemento proscrito de minha raça. Dois amigos que também sabem do blefe a respeito da Stardust aguardam meu regresso apenas por vinte e quatro horas terrenas. Se não voltar, agirão. Então, Rhodan, vamos fazer um negócio?
Marshall cochichou ao ouvido de Rhodan:
— Levtan está blefando. Pensa ininterruptamente nos mercadores e vez por outra lembra-se duma conferência muito importante.
A palavra conferência produziu um choque em Perry Rhodan.
— Tire tudo — disse a Marshall, enquanto Bell se dirigia a Levtan:
— Nossos conversores são tão grandes que podem acolher o senhor com todo o clã dos ciganos espaciais. Por enquanto nossas intenções são pacíficas, saltador. Mas não me venha mais com esses dois amigos que não existem. Vamos...
Levtan não se deixou intimidar. A ameaça do conversor não o impressionou. Com um olhar matreiro contemplou a figura baixa de Bell.
— Ontem saltei duas vezes e hoje uma vez. Os mercadores galácticos não estão dormindo. Se tiverem medido o abalo estrutural, a esta hora podem encontrar-se a caminho com uma pequena frota dos superpesados...
Foi quando interveio Tama Yokida, o telecineta que, pela simples força de sua vontade, podia transportar objetos pesados a qualquer lugar.
Queria que Levtan se aproximasse do teto.
Subitamente o pária, cujo rosto retratava o pavor, começou a debater-se desesperadamente em busca dum apoio, enquanto subia lenta e inexoravelmente em direção ao teto.
— Devíamos deixar que morresse de fome lá em cima — disse Bell em tom contrariado, fitando-o prolongadamente. — Levtan, diga logo o que tem a nos oferecer, senão vamos tratá-lo pela forma como os mercadores costumam tratar seus prisioneiros.
Tama Yokida, um japonês de estatura média que estudava astronomia até que Perry Rhodan teve conhecimento de suas qualidades de mutante e o incorporou ao seu exército, manteve-se imóvel nos fundos da sala e sustentava o pária Levtan no teto.
Marshall transmitiu esta informação ao chefe:
— Está amolecendo; já não pensa em truques. Já não tem certeza se sua informação vale alguma coisa para nós. Em algum lugar da galáxia está havendo uma reunião extraordinária dos mercadores.
Perry Rhodan percebeu a oportunidade. Assumiu o comando das negociações com o pária dos saltadores. Por intermédio de Marshall ordenou a Yokida, o telecineta, que fizesse Levtan descer ao chão.
O mercador, apavorado, desceu devagar, que nem um balão. Quando se viu novamente de pé, passou a mão pela calva suarenta, enxugou a mão na barba rala e soltou um forte gemido.
— Levtan — principiou Rhodan em tom calmo — o senhor está precisando de auxílio. Dar-lhe-emos todos os recursos de que sua nave está precisando. Em compensação o senhor nos dará todas as informações sobre a reunião dos mercadores galácticos.
Era uma atitude típica de Perry Rhodan. Dava a impressão de ter jogado o melhor trunfo, quando na verdade apenas acabara de apresentar a carta mais baixa.
— Preciso de armas — rangeu a voz de Levtan, enquanto seus olhos brilhavam numa expressão gananciosa.
No mesmo instante soltou um grito de pavor e recuou até a porta. Um homem se fez diante dele. Um homem pequeno e franzino com rosto de criança surgiu do nada.
Esse homem, que era japonês como Yokida, seguiu Levtan de perto.
— As armas não são o que mais preciso — retificou o pária apressadamente. Ao que tudo indicava, não estava disposto a arriscar um contato mais estreito com aquele homem franzino. — Com todos os patriarcas, isso é uma coisa horrível...
— Ainda não está sendo bem sincero, chefe — cochichou John Marshall ao ouvido de Perry Rhodan.
— Faça Ras Tshubai entrar em ação — ordenou Rhodan.
O pavor de Levtan subiu ao infinito. No instante em que o homem franzino dava o último passo em sua direção, um homem alto e esbelto, de tez escura, fez-se do nada.
— Meu nome é Ras Tshubai, Levtan. Quer que lhe apresente meus amigos?
— Está maduro, chefe — anunciou Marshall.
— Levtan — disse Rhodan num tom que revelava a maior indiferença. — Dou-lhe um minuto para oferecer sua mercadoria. Se não me oferecer tudo, mas apenas uma parte, farei com que os mercadores saibam do nosso encontro.
Foi quando John Marshall interveio bastante nervoso:
— Chefe, na reunião dos mercadores galácticos o patriarca Etztak apresentará um relatório sobre o senhor.
Perry Rhodan, o “reator psíquico instantâneo”, ainda acrescentou o seguinte às palavras destinadas a Levtan:
— Acho que Etztak ficaria muito satisfeito em tirar o senhor da Lev-XIV. Não é da mesma opinião?
O pária quase desmoronou. Teve que reunir todas as forças para manter-se de pé. Estava satisfeito em ver que o negro e o homem franzino o seguravam de um lado e de outro, mas quando quis apoiar-se nos mesmos, pegou no vazio e viu-se só.
Logo viu os dois homens, que num pestanejar saíram de junto dele, dissolvendo-se no nada, parados junto à janela, atrás do extenso grupo que ali se encontrava.
— Eu... eu... — fungou, cambaleando e comprimindo as têmporas — direi tudo. Não quero negociar.
— Vamos logo! — disse Perry Rhodan laconicamente, lançando-lhe um olhar enérgico.

* * *

Em Terrânia surgiu uma nova Lev-XIV.
Perry Rhodan colocara mais de trezentos robôs sobre a nave arruinada. Mostrava-se tão generoso para com Levtan, o pária, que até Bell se espantou e chegou a resmungar:
— Não precisa dar um presente de milhões a esse traidor.
Rhodan lançou um olhar pensativo para o amigo.
— Você ainda se lembra de que eu estava disposto a dar um reino por uma boa idéia?
— E daí? Não venha me dizer que esse cigano das estrelas lhe trouxe uma boa idéia com sua traição. Será que pretende conquistar o planeta em que os patriarcas vão conferenciar sobre nossa destruição?
— Isso mesmo.
— Dou um reino por uma cadeira — fungou Bell, lançando os olhos em torno sem encontrá-la. — Perry, a piada que você acaba de fazer é tão infame como a que Aquilo ou Ele fez conosco, ao bancar o frio e não permitir que atravessássemos os campos energéticos do Peregrino. Quer conquistar um planeta? Com quê? Com nossa frota liliputiana? Acha que com ela poderá enfrentar os mercadores?
— Talvez possamos conquistar um planeta com outros meios que não sejam uma frota espacial — respondeu Perry sem abalar-se. Sorriu para Reginald Bell e virou-se para cumprimentar Kitai Ishibashi.
Perplexo, Bell seguiu o amigo com os olhos.
— Um reino por uma boa idéia. É verdade, era o que Perry estava disposto a dar. E agora dá um presente de milhões a esse cigano. Um reino é uma coisa muito cara. Mas, caramba, como será que Perry pretende agarrar os patriarcas sem lançar mão da frota?
Viu Perry ao lado de Kitai Ishibashi, o sugestor, a falar com o mesmo. Mas não se deu conta do ovo de Colombo.


* * *

O alarma foi suspenso.
Os amigos mais chegados de Rhodan imploraram para que não se arriscasse a tanto.
Perry mantinha-se calado, mesmo diante de Bell. Mas Reginald Bell conhecia o amigo; sabia que o mesmo obrigava uma idéia a adquirir forma definitiva.
Depois de algum tempo, Rhodan procurou Crest, o arcônida. Conversou com ele. O chefe da Terceira Potência fez de conta que o perigo que os mercadores galácticos representavam nem existia.
Quando Rhodan despediu-se de Crest, este pensou que tivesse tido um dos raros bate-papos com o mesmo.
Enquanto se dirigia ao Dr. Frank Haggard, o descobridor do soro anti-leucêmico que salvara a vida de Crest depois do malogrado pouso da nave arcônida na Lua, Rhodan encontrou-se com Bell.
— Aonde vai, Perry?
— Vou falar com o Dr. Haggard.
— E onde esteve?
— Acabo de falar com Crest.
— Está com pressa, Perry? Também estou.
Com um sorriso, Perry viu o amigo baixote afastar-se. Sabia o que estava afligindo Bell: procurava adivinhar o plano que ele, Rhodan, concebera para afastar o perigo que ameaçava a Terra. E Reginald iria procurar Crest, para ver se conseguia extrair alguma informação do mesmo.
Também o Dr. Frank Haggard surpreendeu-se em ver Perry Rhodan tão loquaz. E nem desconfiou quando, pouco depois, Reginald Bell apareceu e procurou saber sobre o que haviam conversado. Dispôs-se logo a dar a informação.
Mal-humorado, Bell foi ao seu escritório. Não conseguira descobrir nada de concreto. Não atribuiu maior importância à conferência dos mutantes com o chefe.
Deve ser um encontro de rotina”, pensou.
Acontece que, no curso dessa conferência, o plano de Perry Rhodan assumiu forma definida.
Com um gesto disfarçado, Kitai Ishibashi enxugou o suor da testa. O sugestor japonês, um homem alto e magro, parecia totalmente esgotado. Tivera uma tarefa imensa diante de si. E agora já a deixara para trás.
Acabara de impor sua vontade aos quarenta indivíduos que compunham a tripulação da Lev-XIV a tal ponto que todos, inclusive o sagaz Levtan, acreditavam que cada ato, cada pensamento, cada palavra seria produto de sua vontade espontânea.
Sugerira-lhes uma quantidade imensa de dados, implantados na mente de cada um, como se fossem uma engrenagem complicada. Perry Rhodan acabara de realizar, em sua presença, o ensaio geral com Levtan.
Tudo correra conforme fora previsto.
— Obrigado, Ishibashi — disse Perry Rhodan em tom cordial, apertando-lhe a mão. — Acontece que o senhor tem outras tarefas diante de si...
O plano genial, que passaria à história da humanidade com o nome de Lance Galático, ainda estava sendo aperfeiçoado nos seus detalhes.

* * *

Com a precisão dum rastreador estrutural, os fatos se foram conjugando. De repente Bell notou a falta de Tako Kakuta, o teleportador. Antes que pudesse formular uma pergunta a respeito, deu-se conta de que fazia vários dias que não via John Marshall e Tama Yokida.
— Onde estão eles? — gritou pelo intercomunicador. — Será que entendi bem? Kakuta, Marshall e Yokida foram internados na clínica, no setor particular de Haggard?
Realmente estavam internados na clínica. Reginald Bell pegou um carro e foi até lá.
Em companhia do Dr. Haggard viu-se diante de três camas, estacou, lançou mais um olhar e resmungou em voz baixa para o médico:
— Pedi para ver nossos mutantes, não esses ciganos das estrelas.
— Acontece que são nossos mutantes — afirmou o Dr. Haggard com a maior tranqüilidade.
Bell não estava num dia de bom humor.
— Dr. Haggard — disse em tom áspero.
No mesmo instante o paciente desapareceu de uma das camas, enquanto o doente surgiu do nada diante de Reginald Bell.
Bell nem chegou a engolir em seco.
— Kakuta! — berrou, e suas mãos volumosas estavam a ponto de agarrar o japonês franzino, que parecia ser um dos ciganos estelares da nave de Levtan.
Mas suas mãos agarraram o vazio. Num segundo pulinho, Tako Kakuta teleportara-se de volta para a cama.
— Estou doente! — gritou Kakuta, sorrindo.
Aquele homenzinho, que já se permitira várias brincadeiras com Bell, sabia ser prudente. Conhecia o temperamento do outro.
— Ainda lhe torço o pescoço — gritou Bell. Com um olhar pouco gentil para o Dr.Haggard, saiu ruidosamente.
Aos poucos uma luz foi surgindo em seu espírito.
Começou a compreender o plano de Rhodan, mas não acreditava muito no mesmo. Uma vez no corredor, disse de si para si:
— É o gesto desesperado do homem que procura agarrar-se numa palha para não morrer afogado.

* * *

Reginald Bell foi a Pequim na qualidade de representante de Perry Rhodan. A Federação Asiática acreditava ter motivos de queixa por causa das violações cometidas pelo Bloco Ocidental.
Consumira três dias nas negociações e conferências da Federação Asiática. Durante três dias aborrecera-se com as ninharias, que não guardavam a menor proporção com o perigo que ameaçava a Terra. O Bloco Ocidental tivera sua parcela de culpa na contrariedade manifestada pela Federação Asiática.
Bell falara com língua de anjo. Mas ao anoitecer do terceiro dia de conferências intermináveis, quando percebeu que não avançara um passo, sua paciência chegou ao fim.
Perry Rhodan não poderia ter enviado a Pequim um representante menos diplomata que Reginald Bell.
De qualquer maneira, o método de Bell foi coroado de êxito. Quando, na sala de conferências, entrou em contato com Washington, para onde também transmitiu uma série de observações nada amáveis, pôde ir à cama pela meia-noite, dizendo: “Finalmente!”
Voltou para Terrânia num destróier.
Pilotou-o pessoalmente. Nunca se privava desse prazer. O comandante estava sentado na poltrona do co-piloto.
Bell estava muito bem-humorado.
O suor brotava de todos os poros do comandante do destróier, que quase não conseguia respirar. Na sua imaginação já se via estatelado no chão juntamente com seu destróier.
Numa velocidade incrível, Bell realizou uma descida íngreme junto ao campo de pouso.
— Senhor...
— O que houve desta vez? — disse Bell com um sorriso que cobria toda a largura de seu rosto, olhando para o co-piloto.
As energias tremendas da frenagem seguraram o destróier, levando-o à imobilidade. Bell colocou a nave na horizontal. Com um solavanco quase imperceptível a mesma pousou.
— Finalmente estamos em casa — disse Bell, contemplando o espaçoporto. Já se esquecera de que com seu pouso prenunciador de catástrofe pregara um susto mortal ao comandante.
Inclinou-se precipitadamente para a frente e fitou a área de pouso do couraçado.
A Stardust-III havia desaparecido. Não conseguiu descobrir o veículo esférico de oitocentos metros de diâmetro, o couraçado de Perry.
— Onde está Rhodan? — berrou para dentro do microfone.
— Em Vênus — soou a resposta vinda do alto-falante.

* * *

Só havia um meio de realizar o plano de Perry Rhodan com alguma chance de sucesso: através do cérebro positrônico instalado em Vênus.
O cérebro positrônico fora instalado há muitos milênios pelos arcônidas no interior duma montanha rochosa. Esquecido por essa raça, foi redescoberto por Rhodan, que várias vezes o utilizara.
Mais uma vez viu-se diante do mesmo. Sozinho diante do gigantesco painel, introduziu uma seqüência quase infinita de dados no cérebro-mamute.
Durante o vôo para Vênus conversara horas a fio com Crest. Falavam exclusivamente nos mercadores galácticos, seus clãs e suas leis.
O cérebro positrônico informou-o de que dentro de vinte e quatro horas poderia obter a resposta.
Aguardou pacientemente que esse prazo se esgotasse.
Mais uma vez viu-se sozinho diante do cérebro positrônico, calmo e descontraído. Pensava nos mercadores, que representavam o maior perigo que a Terra já enfrentara.
Eram uma raça tão antiga como a dos arcônidas. Mas nos espaços interestelares passaram a constituir uma raça distinta, criando leis destinadas a evitar a ruptura dos elos fracos que os uniam.
Uma lei antiqüíssima determinava que um indivíduo proscrito só poderia ser readmitido nos clãs dos mercadores, se realizasse algo de extraordinário, que trouxesse uma vantagem considerável para toda a raça dos mercadores.
O cérebro forneceu a solução do problema.
As mãos de Perry não tremiam enquanto lia os cálculos precisos e reconhecia os problemas que ainda teria de solucionar.
Dali a uma hora a Stardust-III iniciou sua viagem de volta à Terra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html