Autor:
KURT BRAND
Tradução:
RICHARD PAUL NETO
Digitalização:
DENIZE
BARTOLO
Revisão:
DROMO
Um
saltador pousa em Terrânia e transforma-se na figura principal do grande
blefe...
Conflitos
na Terra, invasões vindas do espaço, batalhas cósmicas, combates travados em
planetas distantes, tudo isso na Terceira Potência de Perry Rhodan, instalada
com o auxílio da antiqüissima técnica arcônida, venceu galhardamente em sua
curta existência.
Mas
os saltadores, uma raça descendente dos arcônidas, que há oito milênios detém
o monopólio incontestado do comércio galático, reprimindo implacavelmente
qualquer concorrência que se esboce, representam um perigo muito mais sério.
Perry
Rhodan fez tudo para evitar que os saltadores transformassem a Terra numa
colônia. Seus cruzadores espaciais realizam ataques simulados contra a frota
dos saltadores, enquanto ele mesmo se dirige, a bordo da Stardust-III, ao
planeta do imortal, a fim de obter uma nova arma que possa ser empregada contra
os saltadores. O poderio dos saltadores é tremendo. Muito embora diante da nova
arma tenham batido em retirada, ainda é de se recear que prosseguirão
inexoravelmente na execução dos planos de conquista da Terra. Um mercador
galático, que conhece esses planos, mostra-se disposto a vendê-los por um preço
adequado. Trata-se de Levtan, o Traidor...
= = = = = = = Personagens Principais: = =
= = = = =
Perry Rhodan —
Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell —
Amigo íntimo e representante de Perry Rhodan.
Levtan — Um indivíduo
expulso da comunidade dos saltadores por sua conduta fraudulenta.
John
Marshall — Um telepata.
Tako
Kakuta — Cuja especialidade é a teleportação.
Kitai
Ishibashi — Cujos dons se situam na área da sugestão.
Tama
Yokida — Que domina a telecinésia.
Etztak Goszul — Patriarcas
dos saltadores.
1
Na altura da órbita de Plutão, a
Terra e a Solar System, cruzadores da Terceira Potência, emergiram do
hiperespaço para retornar ao cosmos normal. Mantendo uma distância de 40.000 quilômetros,
os dois veículos espaciais atravessaram vertiginosamente o sistema solar, em
direção à Terra.
O choque da transição, um
acompanhante desagradável de todo salto pelo hiperespaço, já estava superado.
Perry Rhodan, que se encontrava a bordo do cruzador pesado Terra, juntamente
com Reginald Bell.
Bell e alguns elementos de seu
Exército de Mutantes, cumprimentou MacClears, o comandante da nave, com um
ligeiro aceno de cabeça, e lançou um olhar convidativo a Bell, após o que se
dirigiu ao seu camarote, em companhia do mesmo.
— Ainda não consigo compreender,
Perry — principiou Reginald Bell, impressionado pelo silêncio de Rhodan.
Perry esboçou um sorriso amargo,
mas ainda não disse nada.
Bell estourou. Aqui, a sós com
Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, podia dar-se ao luxo de falar com
este de amigo para amigo. Foram os primeiros homens que haviam atingido a Lua a
bordo da Stardust, e continuavam amigos enquanto Perry Rhodan se preparava para
conquistar a galáxia, incorporando-a aos domínios do planeta Terra.
— Perry, Aquilo ou Ele permitiu-se
uma piada de mau gosto. Por que não aceitou tudo na esportiva, insistindo, sem
esmorecer, em chegar ao Peregrino?
Perry lançou um olhar pensativo
para o amigo.
— Aquilo pode ter feito uma
piada, mas nunca uma piada de mau gosto.
Bell, engrenado, não permitiu que
Rhodan terminasse.
— Ora, Perry! — disse em tom
insistente. — Afinal, não fomos ao Peregrino para fazer turismo, mas porque os
mercadores galácticos nos colocaram em situação extremamente difícil. Se eles
resolverem lançar seus couraçados num ataque concentrado contra nós, podemos
fazer nosso testamento. E foi numa situação destas que Ele ou Aquilo houve por
bem não permitir nosso ingresso no Peregrino. Você realmente acha que isso não
é uma piada de mau gosto?
Um Perry Rhodan totalmente
diferente daquele que os homens conheciam, um homem profundamente decepcionado
e abatido, que ainda não via qualquer meio de escapar ao perigo que os
mercadores galácticos representavam para a Terra, deixou que seus olhos vagassem
ao lado de Bell, que o fitava numa ansiosa expectativa. Sabia que a fala
irreverente de Bell apenas tinha por fim dissimular a decepção e encobrir a
situação desesperançada.
— Santo Deus, Perry! — exclamou
Bell. — Nunca o vi do jeito que o vejo agora.
Perry não reagiu à observação.
Disse simplesmente:
— Ele confia mais em nossa
capacidade que nós mesmos. Só pode ser isso, Bell. Lembre-se de como ele nos
tornou difícil a busca do caminho que conduz ao seu planeta, ao Peregrino.
Tanto você como eu ainda temos de aprender a compreender seu senso de humor.
Foi por isso que desta vez ele não nos deixou entrar, nem tomou conhecimento da
nossa presença. Nem pensa em entregar-nos outros transmissores fictícios.
Devemos defender-nos dos mercadores com os recursos de que dispomos.
— Se isso é senso de humor, perdi
toda capacidade de apreciar uma boa piada — respondeu Bell em tom sarcástico. —
A Stardust possui exatamente dois transmissores fictícios. Isso mesmo: dois. O
que acontecerá com ela se os mercadores chamarem seus amigos, os superpesados,
para que estes lancem um ataque concentrado contra nosso couraçado? Nesse caso
a Stardust já era; e dos cruzadores Terra e Solar System nem se fala. Quanto à
Terra, será escravizada e transformada numa colônia dos mercadores.
Subitamente Bell viu um brilho
nos olhos do amigo. E, como depois disso um sorriso amargo brincasse em torno
dos lábios de Perry e este se espreguiçasse vigorosamente, Reginald Bell já se
sentiu um tanto aliviado.
— Você tem razão — confirmou Perry
Rhodan. — Se os saltadores voltarem com os superpesados e lançarem um ataque concentrado
contra nós, tudo estará perdido. Você não acha engraçado que ele confie tanto
em nossa capacidade que acredita que possamos enfrentar os mercadores galácticos
e os superpesados?
Decepcionado, Bell reclinou-se na
poltrona.
— É só o que você tem a dizer,
Perry? — perguntou estupefato.
— No momento, sim. Você é um
sujeito formidável. Deu-me uma sacudidela no momento exato.
— Quem? Eu? Mas como? — fez uma cara
tão tola que Perry lhe disse com um sorriso:
— Neste momento você não parece
muito inteligente.
— Seria capaz de pagar alguma
coisa por uma dica de como poderemos enfrentar o perigo que nos ameaça —
resmungou Reginald Bell em tom sarcástico. Depois disso manteve-se em silêncio.
* * *
Terrânia chamou. Era a capital da
Terceira Potência, situada no deserto de Gobi. Desde aquele 25 de novembro
servia de sede ao Governo Universal da Terra.
A aproximação dos cruzadores
Terra e Solar System já fora detectada. Logo após o abalo estrutural provocado
pelo salto através do hiperespaço, as naves entraram em contato com as estações
da Terra, que lhes forneceram as horas em que poderiam pousar sem entrar em
choque com o campo energético invencível que se estendia por cima de Terrânia.
Taciturno, Perry Rhodan saiu da
Terra. Sua aparência não revelava nada quando retribuía os cumprimentos ou
falava com uma ou outra pessoa, mas seu amigo Bell não se deixaria enganar
pelas aparências.
Nunca a Terra se defrontara com
um perigo tamanho como o que a ameaçava, agora que fora descoberta pelos
mercadores galácticos. Membros do império arcônida, que se encontrava num
processo de esfacelamento progressivo, os mercadores viviam divididos em clãs
que passavam seus dias em gigantescas naves, negociando com qualquer planeta
que lhes parecesse lucrativo. Não eram amigos ou inimigos de qualquer raça.
Mantinham-se neutros na guerra e vendiam com um lucro adequado a qualquer das
partes que se encontrassem em luta. Mas os saltadores, como também eram conhecidos,
não podiam ser considerados um grupo de inofensivos ciganos espaciais. Qualquer
intruso que tentasse penetrar em seus domínios era destruído sem a menor
contemplação. Sempre que os recursos de que dispunham não eram suficientes para
isso, recorriam aos superpesados. Estes também descendiam dos arcônidas, mas
eram indivíduos de peso inacreditável e, o que os tornava ainda mais perigosos,
possuíam gigantescos couraçados espaciais.
Perry Rhodan rechaçara os
mercadores e os superpesados, mas não lhes inoculara de forma indelével a idéia
de que deviam tirar as mãos da Terra, por representar ela um perigo mortal.
Naquele momento Perry Rhodan estava explicando ao seu estado-maior que a frota
dos mercadores, reunida aos superpesados, representava o perigo mais grave com
que a Terra jamais se defrontara, e que não tinham com que se defender do
mesmo.
— Amanhã o cruzador pesado
Centauro será batizado e entrará em serviço — interveio Nyssen, comandante da
Solar System.
Perry Rhodan exibiu um sorriso
condescendente.
— O que significa isso,
cavalheiros?
— Nada! Trata-se duma nave com
cerca de duzentos metros de diâmetro. Juntamente com a Centauro, disporemos de
três naves desse tipo. Isso não representa coisa alguma face ao poderio maciço
do inimigo.
— Prometo-lhes um reino por uma
boa idéia, e, além disso, lhes ficarei eternamente grato.
Passou os olhos pelo grupo. Fitou
Bell, MacClears e Nyssen, os comandantes dos cruzadores, o major Deringhouse,
os mutantes e finalmente Crest e Thora, os arcônidas.
Onde seu olhar demorou mais foi
na orgulhosa arcônida. Nos últimos anos haviam se aproximado progressivamente
sob o aspecto humano, mas nunca a aproximação fora tão grande que um terceiro
pudesse esperar que esses belos exemplares se transformassem num par.
* * *
Foi Thora, a arcônida, quem
batizou a nave Centauro.
Atrás dela estava o major
Deringhouse. Seu rosto manteve-se impassível, mas não pôde reprimir o brilho
dos olhos, através do qual exprimiu a alegria de ser comandante da nave.
Perry Rhodan, chefe da Terceira
Potência, Bell e Crest, o arcônida, mantinham-se ligeiramente de lado. Enquanto
Thora pronunciava, em voz firme, a costumeira fórmula de batismo, Crest
cochichou para Perry Rhodan:
— Será que há alguns anos, quando
tivemos nosso primeiro encontro, como náufragos presos à superfície lunar, o
senhor poderia imaginar que um dia, como administrador do Governo Universal da
Terra, tivesse que defender o planeta contra um grupo de invasores do espaço?
Seus olhares encontraram-se. De
um lado estava o arcônida, com o saber concentrado duma cultura antiqüíssima, e
de outro lado Perry Rhodan, protótipo do homem terreno, inteligente, audacioso
e confiante. Era o herdeiro do saber dos arcônidas e, juntamente com Reginald
Bell, fora o único ao qual tinha sido conferido o dom de não envelhecer nos
próximos seis decênios.
Perry ia responder à pergunta de
Crest, quando Bell lhe tocou o braço e apontou para a tela.
Quando a imagem se firmou, a tela
mostrou o rosto do coronel Freyt.
— O que houve? — perguntou Perry Rhodan
laconicamente, sem elevar a voz.
Preferia que o batismo do
cruzador Centauro não sofresse qualquer perturbação. Freyt entendeu a fala
contida de Rhodan. Também dominou suas cordas vocais:
— Chefe, os rastreadores
estruturais instalados em Marte e numa das luas de Saturno detectaram alguma
coisa.
Uma idéia passou pela mente de
Perry Rhodan.
“São os mercadores!”, pensou. “Levaram
três meses para preparar o ataque à Terra. E agora estão chegando.”
— Coronel Freyt — disse — queira
fornecer...
Mas Freyt interrompeu-o em tom
nervoso:
— Nova detecção, chefe. Mais um
abalo estrutural. Foi a mesma nave que abandonou o sistema solar.
— Alarma número um — disse Rhodan
em tom decidido, lançando um olhar pensativo para o novo cruzador pesado da
frota terrena, que acabara de ser batizado por Thora, a arcônida.
Os contornos do rosto do coronel
Freyt desfizeram-se. A tela voltou ao cinza. Bell mastigou o lábio inferior.
Crest parecia um homem que contém a respiração.
O alarma número um foi
desencadeado, e não pegou a cidade de Terrânia desprevenida. O supercouraçado
Stardust-III, o máximo da engenharia arcônida, conquistado por Perry Rhodan e
seus mutantes no mundo dos ferrônios, estava pronto para decolar. Também os
cruzadores Terra e Solar System e alguns grupos de destróieres estavam
preparados, enquanto outros, que cruzavam entre os planetas, mantinham a
vigilância do sistema.
O alarma número um foi mantido
quando Rhodan convocou seus colaboradores mais chegados para uma conferência.
A interpretação dos dados
confirmara o fato de que uma nave desconhecida, vinda do hiperespaço, efetuou
uma transição que a levou para o interior do sistema solar, realizando poucos
segundos depois novo salto, que a levou de volta ao hiperespaço.
Reginald Bell irradiava otimismo.
— Será que é um embaixador dos
saltadores?
John Marshall, um homem alto de
cabelos escuros, não alterou as feições de seu rosto estreito e duro. Ninguém
desconfiaria de que fosse um telepata. Quando Rhodan lhe lançou um olhar
indagador, disse:
— Conheço os mercadores galácticos,
e por isso sei que essa nave que apareceu para desaparecer imediatamente não é
dos saltadores. Estes estão incubando um plano para subjugar-nos de um golpe.
— Será que foi um salto mal
sucedido? — disse Bell, pensando em voz alta.
Estremeceu quando Crest, o
arcônida, respondeu:
— Os mercadores galácticos são
descendentes de nossa raça, Bell...
— Infelizmente — respondeu em tom
áspero Bell, que logo recuperara o controle. — É lamentável. Se não fossem
eles, os filhos de sua raça não nos dariam tantos aborrecimentos.
Crest estacou um momento, mas
logo compreendeu como deviam ser interpretadas as palavras de Bell. Mas estas
ficaram atravessadas na garganta de Thora.
Seus olhos chisparam de raiva
quando chiou para Bell:
— O senhor não tem o menor motivo
para fazer pouco caso de nossa raça. Todo saber de que dispõe provém dela...
Estacou em meio à frase. Não
poderia deixar de perceber o riso que Perry Rhodan procurava reprimir. Só agora
a arcônida percebeu que mais uma vez se tornara vítima das brincadeiras de
Bell.
— Vamos aguardar — disse Rhodan, encerrando
a conferência. — Para os destróieres que se encontram no sistema solar continua
a vigorar o alarma número um. É a única coisa que podemos fazer no momento.
2
O comandante Deringhouse
podia ser encontrado em qualquer lugar dentro de sua nave. Como um sonâmbulo,
caminhava de um lado para outro na gigantesca nave esférica de duzentos metros
de diâmetro.
Dentro de uma
hora, a Centauro decolaria para o vôo inaugural. Pela primeira vez o colosso se
ergueria do solo, para penetrar no seu espaço vital, o cosmos mortal, mas
admirável.
Verificou
pessoalmente os controles finais.
— Controle de
armamentos!
A língua falada
por todos parecia conhecer apenas esta expressão: “Em ordem.”
Os goniômetros,
as instalações de rádio, a comunicação com a sala de máquinas, com os
conversores, tudo em ordem...
Finalmente veio
o aviso definitivo de que a nave estava em ordem, e Deringhouse respirou
aliviado.
Nem se lembrou
do alarma número um, que continuava a vigorar.
Um tanto
admirado, Perry Rhodan viu entrar Crest e Thora.
John Marshall
pretendia despedir-se. Sua capacidade telepática, aperfeiçoada através dum
treinamento hipnótico, fizera-o perceber que os arcônidas desejavam falar a sós
com Perry Rhodan.
Quando já se
dispunha a sair, Rhodan deteve-o.
— Fique aqui,
Marshall — disse em tom amável, enquanto cumprimentava os arcônidas com um
aceno de cabeça.
A testa de Thora
enrugou-se ligeiramente. Sempre que alguma coisa não corresse conforme previra,
revelava sua qualidade de arcônida sensível. Crest, um indivíduo alto e magro
pertencente à elite científica do Império de Árcon, exibia a tranqüilidade
esclarecida que se harmonizava com seu saber.
Diante do olhar
sempre amável de Perry, a testa de Thora desanuviou-se. Sem preocupar-se com a
presença de Marshall, começou a falar.
— O tempo urge,
Perry Rhodan. E o tempo trabalha a favor dos mercadores galácticos e contra a
Terra, ou melhor, contra nós, inclusive contra Árcon. A Centauro está preparada
para o vôo inaugural. Permita que Crest e eu viajemos para Árcon. Não formulo a
proposta para aproveitar as circunstâncias e obter o cumprimento duma promessa,
mas pelo simples fato de estar preocupada com o destino da Terra, com o nosso
destino...
O rosto de Perry
Rhodan assumiu uma expressão dura. Lançou um olhar perscrutador para Thora e
Crest. Podia confiar irrestritamente no cientista, mas não era impossível que a
mulher impulsiva que tinha diante de si ainda mantivesse reservas mentais.
John Marshall
estava de pé atrás dos arcônidas. Reunindo suas forças telepáticas, conseguia
penetrar na barreira que cercava o cérebro dos arcônidas, desvendando seus
pensamentos.
Quando fitou
Perry Rhodan, este compreendeu a linguagem de seus olhos.
— Sei
perfeitamente — respondeu este, depois que a informação de Marshall o tranqüilizara
— que ainda lhes estou devendo o cumprimento duma promessa...
— Não é disso
que se trata — interrompeu Thora, exaltada. — Queremos buscar auxílio, Perry
Rhodan. Aquilo, o ser que habita Peregrino, o planeta invisível, acaba de lhe
recusar esse auxílio. Meu povo, os arcônidas, não o recusarão. Sem o auxílio do
poderio de nossa raça o senhor não conseguirá manter-se contra os saltadores e
os superpesados.
— O ataque pode
ser lançado a qualquer momento — disse Rhodan, tentando fugir à decisão, embora
várias vezes já tivesse dito a si mesmo que chegara o momento em que o auxílio
de fora se tornava imprescindível.
Mas não era
apenas um homem dotado dum raciocínio e dum senso tático frio; também possuía o
dom da intuição e da adivinhação. Uma premonição indefinível dizia-lhe que
conseguiria defender-se dos saltadores sem auxílio de fora.
— Perry Rhodan!
— disse Crest, dirigindo-se a ele. Seus olhares encontraram-se. — Rhodan, o
senhor me decepciona. Procura fugir ao problema. Não adianta inventar desculpas
para escapar ao destino. Thora e eu temos que ir a Árcon. E temos que ir
imediatamente. A Centauro está pronta para decolar. Permita que viajemos nela.
Será que não confia mais em nós?
Foi uma pergunta
dura.
Afinal, Perry
Rhodan devia a esses dois seres todo o saber e todo o poder de que dispunha.
Sua resposta
franca e terminante impressionou os arcônidas:
— Nunca
desconfiei dos senhores, mas prefiro adiar a viagem para Árcon. Esperava
encontrar um meio de rechaçar os saltadores com meus próprios meios. Mas
reconheço que isso não é possível.
Marshall
interrompeu-o:
— Chefe, há uma
mensagem.
— O que é? —
soou a voz rangedora de Rhodan, enquanto este girava o botão da tela. Os traços
ordenaram-se, retratando o rosto do coronel Freyt.
— Chefe — disse
Freyt em tom nervoso — a estação de rádio principal, instalada na Lua, acaba de
captar uma mensagem vinda do mesmo setor em que ontem foram constatados os dois
abalos estruturais...
— Qual é o teor
da mensagem? — pediu Perry Rhodan.
Freyt transmitiu
apressadamente o conteúdo da mensagem:
— Levtan solicita permissão de aterissagem a Rhodan,
chefe da Terceira Potência. Peço que a resposta seja transmitida pela mesma
onda. Levtan.
— Obrigado,
coronel Freyt — exclamou Perry.
Freyt não compreendeu
por que uma mensagem desse tipo poderia provocar tamanha alegria no chefe, pois
subitamente o rosto do mesmo irradiou alegria.
— Quer dizer que
não vamos a Árcon? — adivinhou Crest, antes que Perry Rhodan voltasse a dirigir
a palavra aos arcônidas.
— Ainda não,
Crest! — dirigindo-se a John Marshall, disse: — O senhor ouviu tudo. Peça a
Bell que cuide da interpretação da mensagem. — Voltou a dirigir-se aos arcônidas:
— Um momento!
Enquanto ainda
era um jovem cadete da Força Espacial dos Estados Unidos, Perry Rhodan já era
considerado um “reator psíquico
instantâneo”. Depois desenvolvera essa faculdade. Usando o sistema de
comunicação audiovisual, mobilizou através de ordens lacônicas todos os postos
de alarma. Suas instruções estenderam-se bem além da órbita de Plutão, onde um
destróier exercia o serviço de vigilância.
Reginald Bell,
amigo e representante de Perry Rhodan, deixou cair sua figura atarracada na
poltrona, empurrou para o lado a pilha com as interpretações da mensagem e
sorriu para Kitai Ishibashi, um médico e psicólogo japonês.
— Daqui a pouco
o senhor terá trabalho, Ishibashi. Estamos esperando visita. Alguém quer falar
com o chefe, o senhor da Terra. Este alguém perguntou...
— Será que é um
saltador? — perguntou Kitai Ishibashi. Seus olhos em forma de amêndoa
iluminaram-se.
— Talvez seja um
saltador. É mesmo provável que seja. O fato é que não sabemos. Mas quando a
nave dele pousar, sua hora terá chegado. Mantenha-se preparado. Acredito que
sua arte representará o fiel da balança...
— Farei o
possível — asseverou Kitai Ishibashi.
Bell seguiu-o
com um olhar pensativo.
A idéia de
receber uma visita dos saltadores não o deixava muito satisfeito. Havia algo de
errado nessa história, mas nem mesmo Perry Rhodan sabia onde estava o erro.
Foi por isso que
chamou Kitai Ishibashi, o sugestor, cujas energias mentais lhe permitiam impor
a qualquer indivíduo sua própria vontade de forma tão terminante que o
indivíduo atingido pela operação mental se convencia de que estava agindo por
sua livre e espontânea vontade, não em virtude da influência de outrem.
Bell examinou as
interpretações.
A mensagem vinda
do setor em que se registraram os dois abalos estruturais era um fenômeno
único.
— A coisa não
poderia ser mais demorada — resmungou, enquanto calculou que a mensagem devia
ter levado pelo menos 24 horas para chegar à Lua. — Hum... e isto?
Leu as medições
do ângulo em que a mensagem chegara à estação da Lua. Ao lado delas estavam os
cálculos do cérebro positrônico. Os mesmos confirmavam que a mensagem redigida
em linguagem não codificada deviam provir da nave que 24 horas antes provocara
dois abalos estruturais.
— Talvez isso
ainda fique bastante divertido... — resmungou Bell, tendo em si mesmo seu único
interlocutor. — Talvez não fique...
O comandante Deringhouse
pretendia anunciar que tudo estava em ordem com os controles da Centauro,
quando o sinal de rigorosa prontidão soou pela nave. Imediatamente a voz
tranqüila de Perry Rhodan soou nos alto-falantes. Pouco depois seu rosto surgiu
nas telas.
— Ao comandante.
Decolagem de emergência. Transição de curta distância em direção à órbita de
Plutão. Missão de combate. Tentaremos localizar a nave desconhecida que ontem
executou dois saltos. Os dados do cérebro positrônico para a decolagem e a
amplitude do salto seguem imediatamente. Repita, comandante Deringhouse.
Este repetiu
toda a série de comandos, sem parar para refletir.
As comportas da
Centauro fecharam-se. A tripulação e os robôs corriam apressadamente pelos
conveses da nave. De todos os lados vinham os avisos de que tudo estava em
ordem. A tensão estalava em todos os cantos do cruzador.
Com um som
uivante a Centauro disparou em direção ao céu. A imensa esfera foi diminuindo
até desaparecer em meio aos reflexos solares. Quando atingiu a altura de vinte
quilômetros, transmitiu a primeira mensagem para Terrânia.
Dali a uma hora
veio a segunda mensagem:
— Tudo preparado
para a transição a curta distância. Deringhouse.
Todos os
rastreadores do sistema solar registraram o abalo provocado pela Centauro,
quando esta penetrou no hiperespaço para executar o salto em direção à órbita
de Plutão.
O coronel Freyt
virou-se rapidamente ao notar que duas pessoas entravam na sala. No mesmo
instante esqueceu a presença de Perry Rhodan e de Crest.
— Há três
minutos houve novo abalo estrutural.
A informação não
poderia ser mais lacônica. Mas para Perry Rhodan foi suficiente. Nem notou o
olhar de admiração de Crest. A capacidade de extrair o mais importante das
coisas importantes, uma constante em Rhodan, nunca deixava de impressionar o
arcônida. Acabara de receber outra prova disso.
— É a mesma
nave, Freyt?
— O cérebro
positrônico ainda está calculando. Ah, o resultado acaba de chegar, chefe.
Leram ao mesmo
tempo a interpretação do cérebro positrônico:
— Existe uma
probabilidade de 98,3 por cento de que se trate da mesma nave que ontem
executou duas transições nas proximidades da órbita de Plutão.
— E a
interpretação do rastreador? — indagou Rhodan.
O coronel Freyt
já tinha a resposta preparada:
— Nave
aproxima-se a uma velocidade que fica 0,9 por cento abaixo da da luz, vinda do
espaço interestelar e dirigindo-se ao sistema solar.
O
hipercomunicador chamou. A Centauro respondeu.
— Nave desconhecida
localizada. Coordenadas conhecidas. Aproximação imediata. Deringhouse.
* * *
Os rastreadores
estruturais da Centauro registraram a transição dum veículo espacial, que devia
ter ocorrido nas imediações do ponto em que se encontrava.
O comandante
Deringhouse lançou um olhar ligeiro para o telegrafista.
— Hipercomunicação
para Terrânia — ordenou e transmitiu a informação, sem desconfiar de que Perry
Rhodan a estivesse ouvindo.
A Centauro
acelerou. Atrás dela foi desaparecendo o relampejar frio dos planetas solares.
O planeta Plutão, condenado a descrever sua órbita em torno do Sol numa
escuridão eterna, encontrava-se em oposição.
O comandante
Deringhouse sentia-se no seu elemento. Tranqüilo, estava reclinado na sua
poltrona. Passou os olhos pelas telas, quadros de controle e painéis; vez por
outra fitava seus oficiais e tinha a impressão de encontrar-se com a melhor
tripulação no melhor cruzador pesado do sistema solar.
— A posição da
nave desconhecida! — ordenou em tom enérgico.
O dispositivo
automático instalado junto à mesa de instrumentos deu um clique. O cérebro
positrônico do cruzador forneceu os dados solicitados por Deringhouse.
Um oficial
transmitiu os mesmos em palavras lacônicas e precisas.
— Acelerar dez
por cento.
No mesmo
instante o veículo espacial deu um salto para o espaço, mas no interior da nave
a pressão da aceleração não foi sentida.
A Centauro
precipitou-se para a nave desconhecida. As torres de armas estavam ocupadas,
aguardando a ordem de fogo.
— Distância um
minuto-luz.
Deringhouse
confirmou com um aceno de cabeça.
A Centauro
continuou a penetrar no espaço, em direção ao desconhecido. Todas as faixas de
ondas estavam ligadas. A qualquer instante poderia surgir um chamado da nave
desconhecida.
— Distância de
dez segundos-luz. Deringhouse reduziu a velocidade da nave à metade. Quando se
encontrasse no limite de segurança, não queria realizar nenhuma manobra de
frenagem.
— Distância de
quinhentos mil quilômetros.
A ordem de
Deringhouse foi transmitida apressadamente às posições de combate.
— Retirar as
capas dos canhões.
As indicações de
distância vinham a curtos intervalos. Quarenta mil quilômetros ainda os
separavam do inimigo.
— Malditos
saltadores... — disse um dos homens que se encontravam na sala de comando.
Deringhouse franziu a testa mas não disse nada, pois acabara de pensar
exatamente a mesma coisa.
Os mercadores galácticos
estendiam seus tentáculos em direção ao débil planeta Terra. Descobriram-no num
dos setores laterais da galáxia e acreditaram que com ele poderiam fazer seus
negócios pela forma que costumavam fazer com muitos mundos habitados da Via
Láctea.
Corriam em
direção a uma dessas naves dos mercadores — dos inimigos mortais da Terra.
— Mensagem do
desconhecido — gritou o telegrafista, e Deringhouse descontraiu-se um pouco. —
Um certo Levtan pede permissão para vir a bordo.
Deringhouse
inclinou-se ligeiramente para a frente para aproximar-se do microfone.
— Atenção, postos
de combate. Ao menor movimento suspeito, atirem imediatamente com todas as
peças, sem aguardar ordem de fogo da sala de comando.
Sabia que
poderia confiar em seus homens.
— Hipercomunicador.
Mensagem ao chefe — disse Deringhouse com a voz tranqüila. — Nave desconhecida
pede permissão para mandar um certo Levtan para bordo da Centauro. Darei a
permissão. Nossas coordenadas são as seguintes...
A estação de
Terrânia limitou-se a confirmar o recebimento da mensagem.
— Nave desconhecida
aproxima-se. Distância de oito mil quilômetros — assim foi anunciado o
resultado da medição da distância. O limite da segurança já fora ultrapassado.
— Deixe que se
aproxime — disse Deringhouse e acendeu um cigarro.
* * *
Ao lado da
gigantesca Stardust-III, o couraçado de Rhodan com oitocentos metros de
diâmetro, os cruzadores pesados Terra e Solar System estavam prontos para
decolar.
As autoridades
de Terrânia haviam ordenado prontidão rigorosa para as tripulações, mas nem
Perry Rhodan, nem Reginald Bell, nem qualquer dos arcônidas se encontrava a
bordo dos veículos espaciais.
— Por que
estamos esperando por aqui? — perguntou Thora, impaciente. — Não sei qual é a
graça! — gritou para o amigo de Perry Rhodan, que continuava tranqüilamente em
sua poltrona, sorrindo por todo o rosto.
— A graça é que
a senhora está tão nervosa, Thora — respondeu Bell. — Vejo nisso um traço muito
humano. Não chegou a dizer que os habitantes da Terra são bárbaros?
Thora e Bell não
se suportavam. Não podiam passar um pelo outro sem soltar uma indireta.
— Por que
Deringhouse não dá mais nenhum sinal de vida? — perguntou Crest, encerrando a
discussão. — É uma leviandade permitir a esse Levtan que venha a bordo da
Centauro...
— Leviano? Logo Deringhouse?
— Perry sorriu. — É bem verdade que já poderia ter chamado.
— Por que não o chamamos
pelo hipercomunicador? — insistiu Thora.
— As
comunicações radiofônicas foram suspensas para todos os destróieres. Não posso
abrir nenhuma exceção, Thora.
— Será que o
chefe da Terceira Potência não ocupa uma posição especial? — perguntou com uma
ponta de ironia.
Perry esteve a
ponto de responder com uma observação mordaz, mas viu o olhar de advertência de
Crest. Por isso limitou-se a dizer:
— A grandeza
revela-se através do autodomínio nas pequenas coisas, Thora. E na Terra a
curiosidade é considerada um mal.
Atirando a
cabeça orgulhosamente para trás, Thora retirou-se. Crest procurou desculpar seu
comportamento:
— É a decepção
de mais uma vez ver frustradas suas esperanças de ir para Árcon, de ver adiada
a volta para seu mundo. Afinal, é uma mulher, Perry Rhodan.
— Está bem,
Crest — Perry demonstrou pressa em mudar de assunto. Neste ponto, relacionado
com a volta dos arcônidas, não tinha a consciência muito tranqüila. — Por que
será que a Centauro não entra em contato conosco? — Rhodan lançou o olhar pela
janela, contemplando seus veículos espaciais. — Essas naves representavam muito
pouco face ao poder dos mercadores galácticos e dos superpesados. Daria um
reino por uma boa idéia.
Ele mesmo, Perry
Rhodan, era o mais preocupado, o mais nervoso dos três homens que se
encontravam na sala, mas continuou a fazer o papel de pólo inabalável da
tranqüilidade.
— Por que será
que Deringhouse não entra em contato conosco? — voltou a perguntar de si para
si.
O
hipercomunicador continuava em silêncio.
* * *
Deringhouse
gritou para dentro do microfone:
— Torre número
dois, coloque um tiro na frente da proa!
Na grande tela
de visão global da sala de comando surgiu um lampejo ofuscante. Pela primeira
vez a Centauro deu uma demonstração de força. A uma distância de 3.000
quilômetros quase arranca a proa da nave desconhecida.
— Paramos! — foi a mensagem radiofônica em
texto não codificado recebida na Centauro. — Viemos para negociar, não para atacar.
Deringhouse
lançou um olhar mais prolongado que de costume para seu telegrafista. Alguma
coisa não estava certa nessa mensagem expedida pela nave dos saltadores. Na sua
opinião, as intenções pacíficas eram pronunciadas demais.
— Comandante
para os postos de combate — voltou a chamar as torres de canhões. — Disparem
imediatamente se dentro de um minuto o mercador não estiver parado — desligou e
chamou o telegrafista: — Mande-lhe isto.
— Tudo? —
perguntou o telegrafista.
— Sim, tudo.
Quero que saibam o que podem esperar de nós.
A tensão cresceu
na sala de comando. Deringhouse não tirava os olhos da tela de visão global. A
voz metálica do cérebro positrônico indicava as modificações de distância. A
mensagem destinada ao mercador Levtan havia sido expedida.
— A nave está
parada — referia-se ao veículo espacial desconhecido.
A Centauro
desenvolvia pouca velocidade. Numa curva suave, o cruzador pesado passou pela
outra nave a uma distância de três mil duzentos e oito quilômetros.
— A nave
contínua parada.
O próprio
Deringhouse não compreendia o motivo de tamanha cautela. Tinha uma
superioridade imensa sobre o mercador, mas agia como se fosse o mais fraco.
Estaria
impressionado com aquilo que Crest lhe contara sobre os clãs dos mercadores e
seus patriarcas? Ou seria porque era difícil aceitar a idéia de que um mercador
poderia aparecer nas imediações do sistema solar para negociar? Bastaria que os
mercadores estendessem a mão para estrangular a Terra.
Naquele instante
Deringhouse voltou a transformar-se no piloto do caça tripulado por um homem.
A Centauro
correu velozmente em direção à outra nave. O ponto reluzente da tela aumentava
rapidamente.
— É um saltador
— disse alguém na sala de comando.
— Meu Deus! —
exclamou Deringhouse perplexo. — Esse calhambeque está totalmente enferrujado.
Quem será esse sujeito que os saltadores nos mandaram?
No mesmo
instante James Hugh gritou:
— Localização,
comandante. Um objeto estranho aproxima-se a uma velocidade setenta e seis por
cento inferior à da luz. Vem de Pi 3,65 Teta 56,19 graus.
O cérebro
positrônico interpretou esses dados e logo os transmitiu às torres de canhões.
Então era isso!
Tratava-se dum estratagema primário dos mercadores — tão primário que por pouco
não cai nele. Mas a indicação de distância? A que distância se encontrava a
outra nave?
Descrevendo um
salto tremendo, produzindo por uma quantidade inacreditável de energia, a
Centauro passou rente à nave enferrujada, descreveu uma curva arriscada e
precipitou-se na direção indicada.
— E a distância?
— perguntou Deringhouse com a voz fria. — Hugh, por que ainda não me forneceram
a distância?
— A positrônica
forneceu dois valores — respondeu Hugh com a voz tímida. Deringhouse quase
chegou a saltar da poltrona.
— É porque são
duas naves dos saltadores. Quero ambas as distâncias. Vamos logo, Hugh!
— Quatro vírgula
três oito e quatro vírgula sete um segundos-luz — gaguejou Hugh.
A Centauro já
estava acelerando a 10.000 quilômetros por segundo.
— Vamos estragar
o prazer deles de uma vez para todas — disse Deringhouse com uma perigosa
suavidade. — Depois cuidaremos do Levtan, esse perigoso anjinho da paz.
* * *
Contrariado,
Perry Rhodan ergueu os olhos.
— O que houve? —
perguntou em tom ainda mais contrariado, mas no mesmo momento fez um gesto de
mão para entender que a qualquer momento estaria disposto a falar com John
Marshall.
— Um enviado da
Federação Asiática solicita uma audiência.
— Peça-lhe que
fale com Bell — disse Perry laconicamente. No momento não podia perder tempo
ouvindo as ciumeiras dos blocos de potências da Terra.
— Acontece que o
enviado faz questão absoluta de falar com o chefe da Terceira Potência. Não
quer ir embora.
— Pois eu o
mando embora. Diga-lhe isto em termos um pouco mais corteses.
Para Rhodan a
interrupção havia chegado ao fim. Entrou em contato com a gigantesca estação de
rádio da gigantesca metrópole de dois milhões de habitantes, enquanto John
Marshall, o telepata, se dispunha a sair.
— Ainda não
chegou nada? — perguntou Rhodan em tom impaciente.
— Não — soou a
voz metálica da membrana.
Imediatamente
Rhodan entrou em contato com os dois cruzadores pesados.
— A Terra e a
Solar System decolarão imediatamente. Entrem em posição para uma transição a
curta distância em direção à órbita de Plutão. As ordens para o salto serão
dadas separadamente.
No mesmo
instante o uivo potente provocado pela decolagem das naves de duzentos metros
irrompeu na sala, apesar do isolamento acústico. Girou o botão e viu que os
cruzadores pesados, acelerando cada vez mais, corriam em direção à camada de
nuvens altas e desapareceram na mesma.
Sua respiração
era nervosa e pesada.
O que teria
acontecido com a Centauro para lá da órbita de Plutão? O que estariam tramando
os mercadores?
Será que ele e
toda a Terra teriam se deixado envolver numa trama dos saltadores?
Ainda não teria
percebido a cilada?
Mais uma
indagação dirigida à estação de rádio.
Nada.
O cruzador
pesado Centauro, comandado por Deringhouse, ainda não enviara nenhuma mensagem.
* * *
— São dois
meteoros! — exclamou Deringhouse bastante contrariado. Por que tinham que
existir esses blocos de metal, e por que tinham que possuir campos magnéticos?
— Vamos voltar ao calhambeque enferrujado.
Perdera um tempo
precioso. A Centauro teria que mostrar do que era capaz.
O comandante
olhou para o relógio. Assustou-se ao ver que já era tão tarde. Refletiu
ligeiramente se convinha avisar Terrânia. Resolveu ficar quieto. Não havia
nenhuma novidade.
Os localizadores
captaram a nave enferrujada. Continuava no mesmo lugar.
Parecia que a
Centauro iria abalroar o outro veículo a toda velocidade. Os oficiais foram
olhando para Deringhouse. Nos olhares de todos havia a mesma pergunta: Não vai
frear?
Deringhouse
pilotava a gigantesca esfera como se fosse uma nave de um tripulante.
Subitamente as
forças de frenagem rugiram na nave. Mãos titânicas reduziram a velocidade do
cruzador. Os valores g subiram vertiginosamente, mas os neutralizadores não
permitiram que fosse ultrapassado o valor g 1. Nenhum dos tripulantes sentiu a
pressão gigantesca produzida pela desaceleração.
Medonha e
ameaçadora, fantasmagórica e silenciosa, a Centauro voltou a aproximar-se da
popa da nave dos saltadores, chegando quase a tocá-la com seus campos
energéticos.
— Levtan pode
vir a bordo — disse Deringhouse ao telegrafista. — Não quero que venha numa
nave; apenas num traje espacial. Diga-lhe que providenciaremos um transporte
seguro. Enfatize a palavra seguro.
A mensagem foi
irradiada. A confirmação do saltador não se fez esperar. Logo a grande tela de
visão global mostrou que a pequena comporta da nave enferrujada se abriu,
deixando sair um homem que, envergando um traje arcônida e empurrando-se,
deslocou-se no rumo exato da Centauro.
Foi quando o
telegrafista anunciou a chegada de outra mensagem.
— A Terra e a
Solar System acabam de irradiar o sinal de chegada para Terrânia a partir do
ponto de salto da transição de curta distância em direção à órbita de Plutão.
Naquele instante
um imenso raio magnético expelido pela Centauro apanhou o desconhecido e os
imensos campos energéticos da nave abriram-se por um instante para que o
mercador pudesse vir a bordo são e salvo.
“Ainda não tenho nenhuma informação para
Rhodan”, pensou Deringhouse, mas não pôde livrar-se da impressão de que
após o pouso levaria uma tremenda bronca do chefe.
Da pequena
comporta veio o aviso:
— Homem a bordo.
Foi revistado. Não tem armas.
Deringhouse
respondeu:
— Traga-o à sala
de comando, acompanhado de quatro homens e dois robôs de combate.
— Então
realmente veio para negociar — disse James Hugh.
Percebia-se pelo
tom da sua voz que continuava desconfiado, sem acreditar no que acabara de
dizer.
Deringhouse
também estava desconfiado.
3
A nave cilíndrica
de Levtan, que media cento e cinqüenta metros de comprimento, estava pousada ao
lado da Centauro. A Terra e a Solar System encontravam-se nos seus pontos de
decolagem, como duas naves que nunca estiveram no espaço. Nada indicava que
suas armas fulminantes estavam apontadas para a Lev-XIV. Ultimamente Perry
Rhodan não costumava demonstrar interesse em pôr Terrânia em perigo através da
utilização dos recursos mais radicais de que dispunha. A conferência acabara de
ser concluída.
Bell lançou um
olhar insatisfeito para a nave dos mercadores, pessimamente conservada.
— A impressão
que Levtan me causou quando apareceu na tela foi igual a essa nave. Nunca vi um
sujeito tão antipático — disse.
— Foi por isso
que nosso vôo para Árcon foi adiado — disse Thora em tom agressivo, sem dar
atenção ao olhar repreensivo de Crest. Num gesto de desprezo, atirou os lábios
para a frente. — A Lev-XIV não é e nunca foi uma nave dos saltadores.
— Logo saberemos
que tipo de nave é a Lev-XIV e quem nos mandou Levtan — interveio Perry Rhodan.
Estas palavras
puseram fim à discussão.
Deringhouse
surgiu na porta acompanhado de dois robôs de combate e entregou o forasteiro.
Um homem de
baixa estatura com traços mongólicos entesou o corpo quando viu os robôs
desaparecerem. Com um sorriso autoconfiante, inclinou-se diante do grupo de
homens.
Parecia
desleixado como sua nave. E a Lev-XIV não estava apenas enferrujada; fedia de
tanta sujeira.
Thora torceu o
nariz e recuou. Crest fitou o mercador, demonstrando um certo interesse
científico. O rosto largo de Bell revelou tudo aquilo que um diplomata nunca
deve revelar. Apenas Perry continuou o mesmo. Dominava a situação. Ainda não se
mostrava disposto a proferir seu julgamento, pois não sabia o que trouxera
Levtan à Terra.
Mas logo ficou
sabendo. Não era à toa que os melhores dentre os seus mutantes se encontravam
nos fundos da sala. John Marshall já estava lendo os pensamentos de Levtan.
Crest dirigiu a
palavra ao saltador:
— Levtan, o
senhor não é um mercador. Já foi, mas agora é apenas um pária, um elemento
proscrito.
Um brilho
traiçoeiro passou pelos olhos oblíquos de Levtan. Olhando de baixo, examinou a
figura alta do arcônida.
— O senhor é de
Árcon? — perguntou em tom atrevido, em vez de responder à observação de Crest.
— O senhor é um
pária — disse Crest, enfatizando a afirmativa anterior, enquanto admitiu ser um
arcônida. Perry Rhodan recebeu a informação cochichada que John Marshall lhe
transmitiu.
— Levtan é um
traidor, um desesperado e um elemento proscrito. Suas idéias estão dominadas
pela torpeza, pela traição e pela intenção de praticar chantagem.
Neste momento
está refletindo sobre a maneira de lograr-nos.
Perry Rhodan
adiantou-se ligeiramente. Deu seu nome a Levtan.
— Perry
Rhodan... — repetiu o saltador proscrito e envolveu o chefe da Terceira
Potência com um olhar. — Onde está a outra nave arcônida que o senhor possui,
Rhodan? Nunca acreditei nesse blefe. Sabia perfeitamente que até hoje o Império
só perdeu uma nave desse tipo. Mas não se preocupe; saberei guardar seus
segredos, desde que consigamos entender-nos no terreno dos negócios.
Perry não se
alterou. Continuou a fitar Levtan com uma expressão fria.
— Não tenho
necessidade de blefar.
O atrevimento
daquele saltador desleixado era espantoso. Em tom petulante interrompeu Rhodan.
— Também eu não
confessarei logo todas as mentiras que soltar diante do senhor. Sua sorte, Rhodan,
é que os clãs ainda acreditam que o senhor dispõe de duas naves da classe da
Stardust. Bem, deixemos isto de lado...
John Marshall
avançou, vindo dos fundos da sala. Passou pelo chefe e só parou quando estava
quase pisando nos pés de Levtan.
Perry Rhodan
achava que ainda era cedo para ensinar boas maneiras a Levtan. Cochichou para
Marshall, ordenando-lhe que se limitasse a chocar o saltador com um fato.
John Marshall
reagiu imediatamente, embora já tivesse outra frase na ponta da língua.
— Levtan, o senhor
seria capaz de repetir a safadeza com o clã de Gaxtek que o senhor praticou na
estrela Caster?
Todos ouviram a
respiração pesada de Levtan, que logo soltou um gemido burborejante e se
abaixou como um cachorro que acaba de levar um pontapé. Um olhar de falsidade
atingiu Marshall. Em tom odiento perguntou:
— Como soube
disso?
— Vamos ao que
importa, Levtan — interveio Perry Rhodan. O tom de sua voz não admitia réplica.
— Por que não nos chamou pelo hipercomunicador? Por que usou aquela
onda-tartaruga?
Agira
propositadamente ao dar essa formulação à pergunta. Era necessário robustecer
por um curto lapso de tempo a autoconfiança de Levtan. Os mutantes telepatas
ainda não tinham conseguido extrair todas as informações de sua mente.
Com um sorriso
arrogante Levtan respondeu:
— Não sou um
idiota para chamar a atenção dos saltadores por meio duma mensagem pelo telecomunicador.
Por causa do senhor em toda nave dos saltadores há constantemente alguém
ocupado com o goniômetro. Bem, vamos ao que importa. Quero vender uma
informação, mas antes de entreter a idéia de fazer este negócio com o senhor,
tomei minhas precauções. Não sou o único elemento proscrito de minha raça. Dois
amigos que também sabem do blefe a respeito da Stardust aguardam meu regresso
apenas por vinte e quatro horas terrenas. Se não voltar, agirão. Então, Rhodan,
vamos fazer um negócio?
Marshall
cochichou ao ouvido de Rhodan:
— Levtan está
blefando. Pensa ininterruptamente nos mercadores e vez por outra lembra-se duma
conferência muito importante.
A palavra
conferência produziu um choque em Perry Rhodan.
— Tire tudo —
disse a Marshall, enquanto Bell se dirigia a Levtan:
— Nossos
conversores são tão grandes que podem acolher o senhor com todo o clã dos
ciganos espaciais. Por enquanto nossas intenções são pacíficas, saltador. Mas
não me venha mais com esses dois amigos que não existem. Vamos...
Levtan não se
deixou intimidar. A ameaça do conversor não o impressionou. Com um olhar
matreiro contemplou a figura baixa de Bell.
— Ontem saltei
duas vezes e hoje uma vez. Os mercadores galácticos não estão dormindo. Se
tiverem medido o abalo estrutural, a esta hora podem encontrar-se a caminho com
uma pequena frota dos superpesados...
Foi quando
interveio Tama Yokida, o telecineta que, pela simples força de sua vontade,
podia transportar objetos pesados a qualquer lugar.
Queria que
Levtan se aproximasse do teto.
Subitamente o
pária, cujo rosto retratava o pavor, começou a debater-se desesperadamente em
busca dum apoio, enquanto subia lenta e inexoravelmente em direção ao teto.
— Devíamos
deixar que morresse de fome lá em cima — disse Bell em tom contrariado,
fitando-o prolongadamente. — Levtan, diga logo o que tem a nos oferecer, senão
vamos tratá-lo pela forma como os mercadores costumam tratar seus prisioneiros.
Tama Yokida, um
japonês de estatura média que estudava astronomia até que Perry Rhodan teve
conhecimento de suas qualidades de mutante e o incorporou ao seu exército,
manteve-se imóvel nos fundos da sala e sustentava o pária Levtan no teto.
Marshall transmitiu
esta informação ao chefe:
— Está
amolecendo; já não pensa em truques. Já não tem certeza se sua informação vale
alguma coisa para nós. Em algum lugar da galáxia está havendo uma reunião
extraordinária dos mercadores.
Perry Rhodan
percebeu a oportunidade. Assumiu o comando das negociações com o pária dos
saltadores. Por intermédio de Marshall ordenou a Yokida, o telecineta, que
fizesse Levtan descer ao chão.
O mercador,
apavorado, desceu devagar, que nem um balão. Quando se viu novamente de pé,
passou a mão pela calva suarenta, enxugou a mão na barba rala e soltou um forte
gemido.
— Levtan —
principiou Rhodan em tom calmo — o senhor está precisando de auxílio.
Dar-lhe-emos todos os recursos de que sua nave está precisando. Em compensação
o senhor nos dará todas as informações sobre a reunião dos mercadores galácticos.
Era uma atitude
típica de Perry Rhodan. Dava a impressão de ter jogado o melhor trunfo, quando
na verdade apenas acabara de apresentar a carta mais baixa.
— Preciso de
armas — rangeu a voz de Levtan, enquanto seus olhos brilhavam numa expressão
gananciosa.
No mesmo
instante soltou um grito de pavor e recuou até a porta. Um homem se fez diante
dele. Um homem pequeno e franzino com rosto de criança surgiu do nada.
Esse homem, que
era japonês como Yokida, seguiu Levtan de perto.
— As armas não
são o que mais preciso — retificou o pária apressadamente. Ao que tudo
indicava, não estava disposto a arriscar um contato mais estreito com aquele homem
franzino. — Com todos os patriarcas, isso é uma coisa horrível...
— Ainda não está
sendo bem sincero, chefe — cochichou John Marshall ao ouvido de Perry Rhodan.
— Faça Ras
Tshubai entrar em ação — ordenou Rhodan.
O pavor de
Levtan subiu ao infinito. No instante em que o homem franzino dava o último
passo em sua direção, um homem alto e esbelto, de tez escura, fez-se do nada.
— Meu nome é Ras
Tshubai, Levtan. Quer que lhe apresente meus amigos?
— Está maduro,
chefe — anunciou Marshall.
— Levtan — disse
Rhodan num tom que revelava a maior indiferença. — Dou-lhe um minuto para
oferecer sua mercadoria. Se não me oferecer tudo, mas apenas uma parte, farei
com que os mercadores saibam do nosso encontro.
Foi quando John
Marshall interveio bastante nervoso:
— Chefe, na
reunião dos mercadores galácticos o patriarca Etztak apresentará um relatório
sobre o senhor.
Perry Rhodan, o “reator psíquico instantâneo”, ainda
acrescentou o seguinte às palavras destinadas a Levtan:
— Acho que
Etztak ficaria muito satisfeito em tirar o senhor da Lev-XIV. Não é da mesma
opinião?
O pária quase
desmoronou. Teve que reunir todas as forças para manter-se de pé. Estava
satisfeito em ver que o negro e o homem franzino o seguravam de um lado e de
outro, mas quando quis apoiar-se nos mesmos, pegou no vazio e viu-se só.
Logo viu os dois
homens, que num pestanejar saíram de junto dele, dissolvendo-se no nada,
parados junto à janela, atrás do extenso grupo que ali se encontrava.
— Eu... eu... —
fungou, cambaleando e comprimindo as têmporas — direi tudo. Não quero negociar.
— Vamos logo! —
disse Perry Rhodan laconicamente, lançando-lhe um olhar enérgico.
* * *
Em Terrânia
surgiu uma nova Lev-XIV.
Perry Rhodan
colocara mais de trezentos robôs sobre a nave arruinada. Mostrava-se tão
generoso para com Levtan, o pária, que até Bell se espantou e chegou a
resmungar:
— Não precisa
dar um presente de milhões a esse traidor.
Rhodan lançou um
olhar pensativo para o amigo.
— Você ainda se
lembra de que eu estava disposto a dar um reino por uma boa idéia?
— E daí? Não
venha me dizer que esse cigano das estrelas lhe trouxe uma boa idéia com sua
traição. Será que pretende conquistar o planeta em que os patriarcas vão
conferenciar sobre nossa destruição?
— Isso mesmo.
— Dou um reino
por uma cadeira — fungou Bell, lançando os olhos em torno sem encontrá-la. —
Perry, a piada que você acaba de fazer é tão infame como a que Aquilo ou Ele fez conosco, ao bancar o frio e não permitir que
atravessássemos os campos energéticos do Peregrino. Quer conquistar um planeta?
Com quê? Com nossa frota liliputiana? Acha que com ela poderá enfrentar os
mercadores?
— Talvez
possamos conquistar um planeta com outros meios que não sejam uma frota
espacial — respondeu Perry sem abalar-se. Sorriu para Reginald Bell e virou-se
para cumprimentar Kitai Ishibashi.
Perplexo, Bell
seguiu o amigo com os olhos.
— Um reino por
uma boa idéia. É verdade, era o que Perry estava disposto a dar. E agora dá um
presente de milhões a esse cigano. Um reino é uma coisa muito cara. Mas,
caramba, como será que Perry pretende agarrar os patriarcas sem lançar mão da
frota?
Viu Perry ao
lado de Kitai Ishibashi, o sugestor, a falar com o mesmo. Mas não se deu conta
do ovo de Colombo.
* * *
O alarma foi
suspenso.
Os amigos mais
chegados de Rhodan imploraram para que não se arriscasse a tanto.
Perry
mantinha-se calado, mesmo diante de Bell. Mas Reginald Bell conhecia o amigo;
sabia que o mesmo obrigava uma idéia a adquirir forma definitiva.
Depois de algum
tempo, Rhodan procurou Crest, o arcônida. Conversou com ele. O chefe da
Terceira Potência fez de conta que o perigo que os mercadores galácticos
representavam nem existia.
Quando Rhodan
despediu-se de Crest, este pensou que tivesse tido um dos raros bate-papos com
o mesmo.
Enquanto se
dirigia ao Dr. Frank Haggard, o descobridor do soro anti-leucêmico que salvara a
vida de Crest depois do malogrado pouso da nave arcônida na Lua, Rhodan
encontrou-se com Bell.
— Aonde vai,
Perry?
— Vou falar com
o Dr. Haggard.
— E onde esteve?
— Acabo de falar
com Crest.
— Está com
pressa, Perry? Também estou.
Com um sorriso,
Perry viu o amigo baixote afastar-se. Sabia o que estava afligindo Bell:
procurava adivinhar o plano que ele, Rhodan, concebera para afastar o perigo
que ameaçava a Terra. E Reginald iria procurar Crest, para ver se conseguia
extrair alguma informação do mesmo.
Também o Dr.
Frank Haggard surpreendeu-se em ver Perry Rhodan tão loquaz. E nem desconfiou
quando, pouco depois, Reginald Bell apareceu e procurou saber sobre o que
haviam conversado. Dispôs-se logo a dar a informação.
Mal-humorado,
Bell foi ao seu escritório. Não conseguira descobrir nada de concreto. Não
atribuiu maior importância à conferência dos mutantes com o chefe.
“Deve ser um encontro de rotina”, pensou.
Acontece que, no
curso dessa conferência, o plano de Perry Rhodan assumiu forma definida.
Com um gesto
disfarçado, Kitai Ishibashi enxugou o suor da testa. O sugestor japonês, um
homem alto e magro, parecia totalmente esgotado. Tivera uma tarefa imensa
diante de si. E agora já a deixara para trás.
Acabara de impor
sua vontade aos quarenta indivíduos que compunham a tripulação da Lev-XIV a tal
ponto que todos, inclusive o sagaz Levtan, acreditavam que cada ato, cada
pensamento, cada palavra seria produto de sua vontade espontânea.
Sugerira-lhes
uma quantidade imensa de dados, implantados na mente de cada um, como se fossem
uma engrenagem complicada. Perry Rhodan acabara de realizar, em sua presença, o
ensaio geral com Levtan.
Tudo correra
conforme fora previsto.
— Obrigado,
Ishibashi — disse Perry Rhodan em tom cordial, apertando-lhe a mão. — Acontece
que o senhor tem outras tarefas diante de si...
O plano genial,
que passaria à história da humanidade com o nome de Lance Galático, ainda
estava sendo aperfeiçoado nos seus detalhes.
* * *
Com a precisão
dum rastreador estrutural, os fatos se foram conjugando. De repente Bell notou
a falta de Tako Kakuta, o teleportador. Antes que pudesse formular uma pergunta
a respeito, deu-se conta de que fazia vários dias que não via John Marshall e
Tama Yokida.
— Onde estão
eles? — gritou pelo intercomunicador. — Será que entendi bem? Kakuta, Marshall
e Yokida foram internados na clínica, no setor particular de Haggard?
Realmente
estavam internados na clínica. Reginald Bell pegou um carro e foi até lá.
Em companhia do
Dr. Haggard viu-se diante de três camas, estacou, lançou mais um olhar e
resmungou em voz baixa para o médico:
— Pedi para ver
nossos mutantes, não esses ciganos das estrelas.
— Acontece que
são nossos mutantes — afirmou o Dr. Haggard com a maior tranqüilidade.
Bell não estava
num dia de bom humor.
— Dr. Haggard —
disse em tom áspero.
No mesmo
instante o paciente desapareceu de uma das camas, enquanto o doente surgiu do
nada diante de Reginald Bell.
Bell nem chegou
a engolir em seco.
— Kakuta! —
berrou, e suas mãos volumosas estavam a ponto de agarrar o japonês franzino,
que parecia ser um dos ciganos estelares da nave de Levtan.
Mas suas mãos
agarraram o vazio. Num segundo pulinho, Tako Kakuta teleportara-se de volta
para a cama.
— Estou doente!
— gritou Kakuta, sorrindo.
Aquele
homenzinho, que já se permitira várias brincadeiras com Bell, sabia ser prudente.
Conhecia o temperamento do outro.
— Ainda lhe
torço o pescoço — gritou Bell. Com um olhar pouco gentil para o Dr.Haggard,
saiu ruidosamente.
Aos poucos uma
luz foi surgindo em seu espírito.
Começou a compreender
o plano de Rhodan, mas não acreditava muito no mesmo. Uma vez no corredor,
disse de si para si:
— É o gesto
desesperado do homem que procura agarrar-se numa palha para não morrer afogado.
* * *
Reginald Bell
foi a Pequim na qualidade de representante de Perry Rhodan. A Federação
Asiática acreditava ter motivos de queixa por causa das violações cometidas
pelo Bloco Ocidental.
Consumira três
dias nas negociações e conferências da Federação Asiática. Durante três dias
aborrecera-se com as ninharias, que não guardavam a menor proporção com o
perigo que ameaçava a Terra. O Bloco Ocidental tivera sua parcela de culpa na
contrariedade manifestada pela Federação Asiática.
Bell falara com
língua de anjo. Mas ao anoitecer do terceiro dia de conferências intermináveis,
quando percebeu que não avançara um passo, sua paciência chegou ao fim.
Perry Rhodan não
poderia ter enviado a Pequim um representante menos diplomata que Reginald
Bell.
De qualquer
maneira, o método de Bell foi coroado de êxito. Quando, na sala de
conferências, entrou em contato com Washington, para onde também transmitiu uma
série de observações nada amáveis, pôde ir à cama pela meia-noite, dizendo: “Finalmente!”
Voltou para
Terrânia num destróier.
Pilotou-o
pessoalmente. Nunca se privava desse prazer. O comandante estava sentado na
poltrona do co-piloto.
Bell estava
muito bem-humorado.
O suor brotava
de todos os poros do comandante do destróier, que quase não conseguia respirar.
Na sua imaginação já se via estatelado no chão juntamente com seu destróier.
Numa velocidade
incrível, Bell realizou uma descida íngreme junto ao campo de pouso.
— Senhor...
— O que houve
desta vez? — disse Bell com um sorriso que cobria toda a largura de seu rosto,
olhando para o co-piloto.
As energias
tremendas da frenagem seguraram o destróier, levando-o à imobilidade. Bell
colocou a nave na horizontal. Com um solavanco quase imperceptível a mesma
pousou.
— Finalmente
estamos em casa — disse Bell, contemplando o espaçoporto. Já se esquecera de
que com seu pouso prenunciador de catástrofe pregara um susto mortal ao
comandante.
Inclinou-se
precipitadamente para a frente e fitou a área de pouso do couraçado.
A Stardust-III
havia desaparecido. Não conseguiu descobrir o veículo esférico de oitocentos
metros de diâmetro, o couraçado de Perry.
— Onde está
Rhodan? — berrou para dentro do microfone.
— Em Vênus —
soou a resposta vinda do alto-falante.
* * *
Só havia um meio
de realizar o plano de Perry Rhodan com alguma chance de sucesso: através do
cérebro positrônico instalado em Vênus.
O cérebro
positrônico fora instalado há muitos milênios pelos arcônidas no interior duma
montanha rochosa. Esquecido por essa raça, foi redescoberto por Rhodan, que
várias vezes o utilizara.
Mais uma vez
viu-se diante do mesmo. Sozinho diante do gigantesco painel, introduziu uma
seqüência quase infinita de dados no cérebro-mamute.
Durante o vôo
para Vênus conversara horas a fio com Crest. Falavam exclusivamente nos
mercadores galácticos, seus clãs e suas leis.
O cérebro
positrônico informou-o de que dentro de vinte e quatro horas poderia obter a
resposta.
Aguardou
pacientemente que esse prazo se esgotasse.
Mais uma vez
viu-se sozinho diante do cérebro positrônico, calmo e descontraído. Pensava nos
mercadores, que representavam o maior perigo que a Terra já enfrentara.
Eram uma raça
tão antiga como a dos arcônidas. Mas nos espaços interestelares passaram a
constituir uma raça distinta, criando leis destinadas a evitar a ruptura dos
elos fracos que os uniam.
Uma lei antiqüíssima
determinava que um indivíduo proscrito só poderia ser readmitido nos clãs dos
mercadores, se realizasse algo de extraordinário, que trouxesse uma vantagem
considerável para toda a raça dos mercadores.
O cérebro
forneceu a solução do problema.
As mãos de Perry
não tremiam enquanto lia os cálculos precisos e reconhecia os problemas que
ainda teria de solucionar.
Dali a uma hora
a Stardust-III iniciou sua viagem de volta à Terra.

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