terça-feira, 11 de dezembro de 2012

P-030 - Perigo no Planeta Gelado - Kurt Mahr [parte 3]


Exausto e esgotado até a medula, Reginald Bell retornou para bordo da Stardust-III com a Z-13.
O que mais gostaria de fazer era correr para seu camarote e dormir vinte horas ininterruptas.
Pegou a fita na qual estava gravado tudo que falara durante a viagem, e, depois de descer do destróier, pegou o elevador e subiu à sala de comando.
Perry Rhodan já o esperava. Bell apresentou um breve relatório e pediu ao seu interlocutor que recorresse ao relato minucioso gravado em fita.
Depois do arriscado vôo realizado por Bell não havia mais a menor dúvida de que as naves dos saltadores surgidas no setor de Beta-Albíreo pertenciam a dois grupos totalmente distintos. Os veículos em que Bell quase chegou a esbarrar eram, pelo seu formato, naves mercantes. Estavam postadas em cima do mundo em que Tifflor se mantinha escondido, ou nas proximidades do mesmo. Esse grupo era formado por setenta e oito naves. Ninguém sabia a quem pertenciam.
O segundo grupo era formado pelas noventa naves das quais Bell se desviara numa curva bem ampla. Pelo formato tratava-se de naves de guerra. Não eram tão compridas como as naves mercantes, mas em compensação eram menos esguias. Ao que tudo indicava, mantinham ligação com as trinta naves que a Stardust-III, a Terra e a Solar System haviam posto em fuga umas cem horas antes.
Ao que parecia, não havia nenhuma ligação entre os dois grupos. Deviam trabalhar independentemente, a não ser que trocassem informações.
Bell fez questão de enfatizar que não tinha a menor dúvida de que, depois da confusão causada pela Z-13, as noventa naves tentariam localizar o inimigo. Em outras palavras, colocariam as naves em movimento e, divididos em grupos, dariam busca no espaço.
— Quando isso acontecer — profetizou Bell — teremos que ter muito cuidado. Não acredito que com nossas três naves possamos nos empenhar numa luta aberta.
* * *
— Estão chegando! — anunciou Moisés. — São vinte e quatro aparelhos.
Tiff acenou com a cabeça.
Já haviam voltado para o interior da caverna e fechado as paredes divisórias atrás de si. Hump chegara antes deles. Sua sensação de triunfo diminuíra e fora substituída por um profundo desânimo.
— Por uma hora não teremos nada a temer — explicou Tiff em tom tranqüilo. — Permanecerão no interior dos seus veículos espaciais e darão busca na área, para localizar nosso esconderijo.
— É claro que o descobrirão. A peça de engate da parede externa é facilmente perceptível para quem se encontre bem próximo do mesmo.
— Seria de supor que mesmo então não teríamos nada a temer. Os campos defletores nos tornam invisíveis. E os campos protetores nos protegem contra os impactos de todo e qualquer tipo de arma. Além disso, os saltadores estão mais interessados em nos prender que em nos matar.
Lançou os olhos em torno.
— Só receio uma coisa — prosseguiu. — Uma hora destas a paciência deles poderá chegar ao fim, e então nos bombardearão com armas contra as quais nossos campos energéticos não oferecem proteção. Temos que dar o fora daqui, e isso quanto antes. E quanto maior o tempo durante o qual conseguirmos enganar os saltadores, mais cedo estaremos em segurança.
Hump e Eberhardt confirmaram com um aceno de cabeça. As moças arregalaram os olhos. Moisés continuava de pé, rígido, com a cabeça ligeiramente inclinada para trás, como se estivesse examinando o teto da caverna.
— Como poderemos sair daqui sem que eles nos vejam? — perguntou Eberhardt depois de algum tempo. — Se a informação de Moisés é correta, já estão praticamente em cima de nossas cabeças.
Tiff sorriu. Foi um sorriso pequeno, ligeiramente irônico, que dava a entender que já tinha a solução preparada há muito tempo.
— Vamos dar o fora por aí! — disse, apontando com o indicador da mão esquerda por baixo do braço direito, em direção ao fundo da caverna.
Eberhardt virou-se para o lado.
— Por aí?...
Seus olhos voltaram e ficaram grudados nos olhos sorridentes de Tiff.
— Como pretende fazer isso? — murmurou Hump, que se encontrava mais aos fundos.
Tiff não respondeu. Voltou-se para Moisés.
— Onde estão, Moisés?
— Exatamente em cima do lugar em que o senhor derrubou a nave. Estão parados e mantêm-se em grupos de quatro aparelhos superpostos. O grupo que se encontra mais baixo, encontra-se a vinte metros acima do solo, e o mais alto a cento e oitenta metros.
Tiff acenou com a cabeça.
— Está bem. Pode começar, Moisés.
Moisés despertou da sua rigidez. Com uma agilidade que ninguém suspeitaria naquela tonelada de metais, virou-se, deu alguns passos retumbantes em direção aos fundos da caverna e levantou o braço armado do lado esquerdo.
O robô tinha quatro braços, dois de cada lado. O par de braços superior desempenhava as mesmas funções dos braços humanos. Já o par inferior não passava de dois canhões móveis: de um lado, um desintegrador, e de outro lado um radiador de impulsos térmicos.
Feixes energéticos que emitiam uma débil luminosidade esverdeada saíam do braço. A rocha da caverna se derretia como a neve ao sol.
Era bem verdade que não se derretia na verdadeira acepção da palavra. Os efeitos produzidos pelo desintegrador resultavam do fato de que, na área atingida pelos feixes energéticos, a força cristalina da matéria sólida era anulada. Os átomos e as moléculas se desprendiam uns dos outros e a matéria atingida pelas radiações se transformava em gás, ou em plasma, se fossem utilizados desintegradores de elevada potência.
— Fechem os capacetes! — ordenou Tiff, enquanto as outras pessoas do grupo contemplavam fascinadas o trabalho realizado pelo robô.
Nuvens de gás formadas pela poeira da rocha atravessavam a caverna, penetravam no nariz dos que ali estavam e causavam nos pulmões a sensação da sufocação.
Fecharam os capacetes assim que perceberam que a respiração se tornava mais difícil e continuaram a fitar o buraco que se abria na rocha sob a ação do desintegrador.
— Está bem — disse Tiff com um sorriso. — Já viram bastante. Na bagagem de Gucky há outros desintegradores. Cada um de vocês vai pegar um e ajudar Moisés no seu trabalho. Temos de avançar depressa.
Sob a direção de Tiff, as radiações dos desintegradores foram orientadas de tal maneira que os cinco aparelhos cobriam uma área de menos de dois metros de altura e um metro e meio de largura. As armas, que trabalhavam à potência máxima, faziam o buraco afundar à razão de cerca de vinte centímetros por segundo.
O corredor através do qual Tiff esperava escapar dos saltadores crescia rapidamente.
Tiff não ajudou a abrir o corredor. Mexeu na bagagem trazida por Gucky, retirando dela alguns objetos em formato de granadas de mão.
Realmente eram granadas de mão; apenas, em vez de carga explosiva, continham um gerador gravitacional de elevada potência. A vida útil desse gerador era de apenas um milésimo de segundo; mas nesse tempo produzia um campo gravitacional de intensidade considerável. A potência desse campo e sua disseminação explosiva faziam desse tipo de granada uma arma muito eficaz na luta a pequena distância.
Tiff partiu do pressuposto de que a qualquer hora os saltadores descobririam a caverna e procurariam penetrar na mesma. Também encontrariam o corredor que o desintegrador abrira na rocha. Depois disso só precisariam seguir pelo mesmo para encontrar as pessoas em cujo encalço andavam.
Por isso tanto a caverna como a entrada do corredor teriam que ser destruídas assim que os saltadores a encontrassem.
A tarefa em si era bastante fácil. As pequenas granadas possuíam detonadores-relógio primitivos, mas que se prestavam totalmente ao fim que Tiff tinha em mira. Bastaria colocar as granadas nas frestas da parede, ligar o mecanismo de tempo e sair pelo corredor.
Mas havia um detalhe. Gucky ainda não havia voltado. Uma vez concluída sua tarefa, escolheria a caverna como ponto final de teleportação. Tiff não pretendia expô-lo ao risco de entrar na caverna no momento da explosão ou cair nas mãos dos saltadores.
Ainda faltava meia hora para terminar o prazo que Gucky havia combinado com o cadete. Tiff estava decidido a aguardar que essa meia hora passasse, acontecesse o que acontecesse.
Não precisaria se preocupar com Moisés, nem com as outras pessoas do grupo. Moisés ia abrindo caminho, e dentro de meia hora percorreriam cerca de quatrocentos metros. Por enquanto essa distância bastaria para colocá-los em segurança.
Gucky informara a Tiff sobre o transmissor celular que havia sido implantado em seu organismo sem que ele soubesse. Ficou sabendo que o rato-castor, como telepata, era capaz de localizá-lo em qualquer ponto em que se encontrasse, dentro de um raio de dois anos-luz.
Se seguisse os outros pelo corredor, dando a entender a Gucky que já não se encontrava na caverna, este talvez modificasse o rumo de sua operação de teleportação.
Talvez! Sempre o talvez!
Era preferível aguardar a evolução dos acontecimentos...
* * *
Pela quinta vez Enaret relatou o que vira.
— Sim, foi ali que a nave de Pcholgur caiu na neve. Vejam a superfície congelada. Não, não foi lá. Foi ali adiante que Vilagar foi morto. Isso mesmo. Não, não existe o menor vestígio de Horlgon.
Etztak incumbira um certo Wernal do comando das vinte e quatro naves-patrulha.
Para Enaret o mesmo não passava de um bobo, mas ele não iria transmitir sua opinião a ninguém.
Enquanto não tinha necessidade de falar, Enaret contemplava a tela do rastreador. Em sua opinião, não adiantava nada ficar por horas a fio em cima do local do desastre, procurando algum vestígio deixado por Pcholgur, Horlgon ou Vilagar.
Deviam encontrar os fugitivos, não os mortos.
Mas o comando estava nas mãos de Wernal, e este julgou de bom alvitre desperdiçar o tempo.
Isso até que, de repente, Enaret acreditou ter descoberto aquilo que estava procurando.
Na tela do rastreador foi projetada a encosta íngreme de um morro. Na encosta, Enaret notou perfeitamente uma entrada afunilada, que parecia ser o acesso a uma caverna. Acontece que poucos metros atrás da entrada o rastreador foi dar em matéria compacta.
Era uma parede!
O cérebro de Enaret passou a trabalhar febrilmente. Onde já se viu uma caverna que se abria tão profundamente na encosta de uma montanha, para terminar poucos metros atrás da entrada?
Em lugar algum. A parede era artificial.
Enaret entrou em contato com Wernal. Este não parecia muito satisfeito com a notícia de que um dos seus subordinados acabara de fazer uma descoberta que, segundo tudo indicava, era muito importante. Apesar disso, deu o máximo de atenção à informação de Enaret e chegou à conclusão de que provavelmente o mesmo estaria com a razão.
Naquela encosta havia uma caverna. E essa caverna estava separada do mundo exterior por meio de uma parede artificial.
— Vamos para lá! — ordenou Wernal. — Pousaremos em semicírculo, a uma distância de cinqüenta metros da caverna.
* * *
Tiff ouviu o aviso que Moisés transmitiu pelo rádio de capacete:
— Estão chegando. Pousaram diante da caverna.
Tiff respondeu laconicamente:
— Entendido. Prossigam na abertura do corredor.
Quer dizer que já nos encontraram”, pensou Tiff contrafeito.
Ainda faltavam quinze minutos para que se passasse a meia hora. Se não conseguisse deter o inimigo durante esse tempo, Gucky...
Tiff realizou um cuidadoso controle funcional de seu traje transportador. Por fim ligou os campos de deflexão e de proteção.
Colocou perto de si o pesado radiador de impulsos térmicos retirado da bagagem de Gucky, encostou-o na cava do braço esquerdo e, com a mão direita, retirou a peça que fechava a parede interna. Sentiu o solo tremer quando o pesado pedaço de rocha bateu no chão.
A luz irradiada pela única lâmpada de emergência que continuava acesa lhe proporcionava visão até a parede divisória mais próxima, que não ficava a mais de três metros.
Mesmo a essa distância um radiador térmico pesado poderia causar boa dose de destruição.
Que viessem!
* * *
De repente, Wernal se decidiu.
— De cada uma das naves descerá um homem — ordenou. — Enaret, você levará os homens até a caverna. Procure entrar nela com todo o cuidado. E não se esqueçam: se possível, queremos agarrar essa gente viva.
Enaret se preparou para sair. Deixou sua nave na posição em que se encontrava e reuniu em torno de si os homens que desciam das outras naves.
Por mais pressa que Wernal tivesse a essa hora, Enaret achava que era muito importante explicar aos homens que tinham diante de si um inimigo muito perigoso.
— Não há dúvida de que têm defletores.
Talvez também disponham de geradores antigravitacionais e, principalmente, armas muito eficientes. Além disso, encontram-se numa situação tão perigosa que não poderão ter a menor consideração. Atirarão assim que puserem os olhos num inimigo. Portanto, tenham cuidado. Não se metam a bancar o herói.
Depois disso, avançaram em direção à caverna.
* * *
Tiff percebeu que estavam trabalhando na parede exterior.
Quando encontraram a peça que fechava a parede, o tremor do chão cessou. Tiff procurou imaginar de que forma agiriam dali em diante.
Quem sabe se não levariam um tempo maior para alcançar o compartimento interno que o que restava para completar a meia hora?
Onde estaria Gucky?
* * *
O grande número de paredes deixou Enaret nervoso. Ainda não sabia qual era sua finalidade.
Abrigado em lugar seguro, Wernal apressou os homens.
— Tratem de avançar depressa! — ordenou.
Enaret contemplou os homens. Na luz débil da sua lanterna viu que sorriam através dos visores dos capacetes.
— Vamos! — resmungou.
As paredes divisórias construídas pelos fugitivos só iam de uma das paredes da caverna até uma distância de um metro da parede oposta. O intervalo fora fechado com peças de rocha derretidas. Enaret ficou admirado com a exatidão com que essas peças fechavam as aberturas.
As peças haviam sido feitas de tal modo que podiam ser retiradas de um lado e de outro. Para não perder tempo, Enaret ordenara aos homens que empurrassem as pedras para dentro com uma pancada rápida e forte e se desviassem para o lado, pois atrás da parede poderia haver um inimigo à espreita.
A técnica se revelou muito eficiente. Avançaram de uma parede para outra sem serem perturbados. Finalmente, um dos homens anunciou:
— Falta uma parede. Retiramos a peça que fecha a abertura e atrás dela há uma luz acesa.
Nem assim os fugitivos deram sinal de vida.
Enaret começou a suspeitar de que houvesse uma armadilha. Ou será que a caverna tinha outra saída?
Passou junto aos seus homens, se inclinou para a frente e olhou para além da parede divisória.
Viu a parede seguinte e a abertura que, nas outras paredes, estava fechada com peças de rocha. A peça de rocha que costumava fechar aquela parede estava jogada no chão.
Através da abertura Enaret viu um recinto amplo, fracamente iluminado. Uma única lâmpada fornecia um tipo de iluminação de emergência.
No entanto, a parede divisória não permitiu que Enaret visse o corredor que o desintegrador havia aberto na rocha.
— Vamos adiante! — ordenou Enaret.
* * *
Tiff sentiu o baque surdo produzido pela queda da peça que fechava a penúltima parede.
Aproximou a arma mais de seu corpo, para que também o cano fosse abrangido pelo campo de deflexão que o tornava invisível.
Viu quando Enaret enfiou a cabeça pela abertura existente ao lado da parede divisória e olhou para ele.
Faltavam quatro minutos para que terminasse a meia hora. As granadas de mão haviam sido reguladas para detonarem dez minutos depois de terminado esse prazo. Se Gucky não voltasse em tempo, o susto que Tiff pretendia pregar nos saltadores teria que durar pelo menos dez minutos.
Subitamente vieram!
Passaram cautelosamente junto à parede divisória e, com um enorme salto, puseram-se de lado, de tal forma que assumiram uma posição oblíqua face a Tiff.
Este não queria matá-los!
Levantou o cano da pesada arma.
E apertou o gatilho. Disparou uma salva energética de reduzida potência contra a rocha. O resultado foi espantoso.
De um instante para outro, o teto entrou em incandescência, derreteu-se e volatilizou-se. Pingos de rocha caíam ao chão, chiavam em contato com a rocha ainda fria e espalhavam feixes de faíscas.
Os vapores encheram o pequeno recinto e apagaram os contornos. Tiff viu sombras que saltavam desesperadamente. Ao que parece, só pensavam numa coisa: passar pela abertura e se pôr a salvo do fogo de artifício.
Com uma risada, disparou a salva seguinte contra a parede divisória. Num instante, ela se transformou numa massa viscosa incandescente, escorregou para baixo e, através de uma nuvem de vapores esverdeados, pôs à vista a terceira parede.
Os saltadores estavam em fuga desabalada. Tiff viu quando o último deles passou pela abertura seguinte. Mal tinha passado, também destruiu a terceira parede.
No mesmo instante ouviu uma voz alegre e chiante no seu receptor de capacete:
— Muito bem, rapaz! É assim que eu gosto!
Virou-se apressadamente.
Gucky estava sentado no centro do recinto, junto à única lâmpada que continuava acesa.
Tiff suspirou aliviado e desligou o defletor. No mesmo instante se tornou visível aos olhos de Gucky.
Dispôs-se a fornecer uma explicação apressada. Mas Gucky fez um gesto de recusa relaxado, tipicamente humano.
— Já sei — disse. — Tenho o conteúdo de sua mente diante de mim. Dê o fora; enquanto isso eu mantenho a posição.
Tiff compreendeu. Ele mesmo teria que vencer com suas pernas a maior distância possível, antes que ocorresse a explosão. Já Gucky poderia saltar, e o transmissor celular que Tiff trazia em seu corpo o informaria sobre o lugar preciso para qual teria que dirigir seu salto.
— Daqui a dez minutos as granadas vão explodir! — fungou Tiff.
Gucky confirmou com um aceno de cabeça, saltitou até a parede divisória interna e ocupou o lugar em que antes se encontrara Tiff.
— Dê o fora logo! — chiou.
Tiff saiu correndo.
O corredor aberto pelos desintegradores era amplo, permitindo que Tiff corresse à vontade.
O perigo que previra, e com o qual Tiff contara em todos os seus planos, não decorria da explosão propriamente dita, mas de seus efeitos colaterais. O campo gravitacional gerado pelas granadas de mão era muito potente, mas de alcance bastante limitado. Para alguém que tivesse percorrido mais de cinqüenta metros pelo corredor afora, o perigo principal residiria na onda de sucção que percorreria o mesmo, em direção ao ponto de explosão.
Tiff correu em disparada pelo corredor. Moisés avisou-o de que haviam encontrado um tipo de rocha mais favorável, e já estavam a uns seiscentos metros da caverna.
Por uma única vez, Tiff tentou recorrer ao traje transportador. Mas logo constatou que o corredor de um metro e meio de largura não oferecia um campo de manobra suficiente para a locomoção por esse meio.
Três minutos depois de ter deixado Gucky alcançou Moisés, os cadetes e as moças. Durante a corrida já os havia avisado sobre os acontecimentos que se desenrolaram no interior da caverna. Estavam a par.
Sem perder tempo, Tiff substituiu Mildred no trabalho com o desintegrador. Com uma expressão de gratidão no rosto, a moça lhe entregou a arma.
— Ainda bem que tudo deu certo — disse em voz baixa.
Surpreso, Tiff ergueu a cabeça e olhou-a.
Viu seus grandes olhos brilhantes atrás da lâmina do visor e acenou com a cabeça:
— Também fico satisfeito — respondeu em tom um pouco desajeitado.
Segurou o desintegrador firmemente no braço e apertou o gatilho.
Um minuto antes da explosão, Tiff mandou suspender o trabalho e ordenou a todos que se deitassem no chão.
Cinco segundos antes do momento zero, Gucky... surgiu do nada.
Cinco segundos depois do momento zero, um punho gigantesco sacudiu os corpos deitados no chão, e um tremor abafado percorreu a rocha.
Foi só.
Levantaram-se cuidadosamente.
— Tudo em ordem — disse Gucky. — Não apareceu mais nenhum saltador. E agora não nos encontrarão mais.
Depois disso, forneceu um breve relato do que se passara a bordo da Etz XXI. Concluiu da seguinte forma:
— Nenhum deles sabe como um bom telepata pode reconhecer o caráter de um ser inteligente. Quanto a mim, sei perfeitamente que o velho não hesitará um instante sequer em desmanchar este mundo nas suas partes componentes. Isso representa um perigo para nós. Assim que Etztak for avisado sobre o novo fracasso, ferverá de raiva e ordenará a destruição final. Não temos um segundo a perder. Temos que dar um jeito de chegar a bordo da Horl VII e da Etz XXI.
Tiff ouvira-o atentamente.
— Por que temos que ir para a Etz XXI? — perguntou.
Gucky soltou um grito chiante.
— Temos de prender Etztak, se não conseguirmos inutilizar em tempo as bombas que se encontram na Horl VII. Sugiro que nos dirijamos à superfície o mais rápido possível e nos ponhamos em marcha. As informações sobre a estrutura das naves, de que disponho, deverão ser suficientes para orientar os senhores.
* * *
Voltaram à superfície um quilômetro e meio ao norte da caverna, no flanco norte da cadeia de montanhas.
Antes disso, Gucky se certificara por meio de alguns saltos de teleportação para dentro e para fora do corredor de que a área estava limpa.
Além disso, realizara um salto de teleportação para a caverna e voltou com a notícia de que os saltadores estavam ocupados em examinar os vestígios da mesma. Por isso, pelo menos uma hora se passaria antes que Etztak recebesse o aviso definitivo de que a missão fora mal sucedida. Pelo que Gucky leu nos cérebros dos saltadores, estes não estavam dispostos a acreditar na versão do suicídio dos fugitivos. Mas um deles, de nome Wernal, dera ordens para procurar os restos de seus corpos.
— Isso os manterá ocupados por muito tempo — chiou Gucky. — Enquanto isso avançamos mais um pedaço.
Moisés e as moças foram deixados para trás. Moisés recebera ordem para, por meio de suas armas, ampliar a entrada da galeria, para que a mesma pudesse servir de base provisória. Gucky insistiu junto ao robô que o mesmo deveria se render junto com as moças, antes de assumir o risco de que os saltadores atirassem uma bomba sobre a entrada do túnel.
Depois disso, Gucky e os três cadetes saíram. Envergando um simples traje espacial, Gucky ia à frente dos outros por meio de saltos de teleportação e esperava que os cadetes, que se deslocavam em vôo baixo e à velocidade máxima, o alcançassem.
Dessa forma chegaram dentro de poucas horas a vinte quilômetros do local em que estavam pousadas as duas naves dos saltadores. A noite ainda duraria algumas horas. Pelo menos o início da ação poderia se desenvolver sob a proteção da noite.
Enquanto os três cadetes se mantinham a distância segura das duas naves, Gucky, com um salto de teleportação bem orientado, se colocou a bordo da Etz XXI. Sem a menor cerimônia, mas sem cometer o menor engano, prendeu o chefe dos hangares da gigantesca nave em seu escritório e o obrigou a liberar uma das naves-patrulha, e a avisar a Horl VII que ela chegaria dentro de quinze minutos, abrindo a comporta do hangar mediante a simples emissão do sinal codificado, sem nova consulta à nave-mãe.
De posse da nave-patrulha, Gucky voltou para junto dos cadetes, que o esperavam.
— Um dos senhores virá comigo — ordenou Gucky. — Os outros voarão para a Horl VII. As bombas arcônidas estão no depósito número setenta e oito, convés número cinco, contado a partir da comporta do hangar. Terão que dar um jeito de se orientar na nave. E, principalmente, terão que chegar lá em dez minutos. O chefe dos hangares da Etz XXI apenas está inconsciente. Levei-o a um lugar onde tão depressa não será encontrado. Mas dentro de pouco tempo recuperará os sentidos e logo relatará os fatos ao velho Etztak. Até lá deverão estar a bordo da Horl. Ainda acontece que, quando o chefe dos hangares der seu aviso, um alarma geral será desencadeado a bordo da Horl. A tarefa não é fácil. Mas os senhores sabem perfeitamente o que está em jogo. Resolvam quem dos senhores virá comigo e quem irá à Horl.
Era espantoso e até mesmo chocante como se poderia esquecer tão rapidamente que Gucky não era nenhum ser humano, quando falava com a seriedade que costumava usar em instantes como este.
Tiff olhou para os dois cadetes.
— Quero ir para a Horl em companhia do cadete Hifield — disse.
Eberhardt e Hump soltaram um resmungo de surpresa.
Os olhos de Gucky se arregalaram à medida que fitavam um e outro dos cadetes.
Não é de admirar”, pensou Tiff, divertido. “Lê os nossos pensamentos e por isso sabe o que aconteceu.
— Cadete Hifield! — rangeu a voz de Gucky.
— Sim, senhor!
— Está de acordo?
— Sim, senhor!
— Está bem. Vamos embora! Não podemos perder tempo.
Ao passar por Eberhardt, Tiff bateu-lhe no ombro.
— Faça um serviço bem feito! — disse em voz baixa.
Tinha certeza de que Eberhardt compreenderia por que preferira levar Hump em vez dele. Pretendia dar mais uma chance a Hump.
* * *
Etztak foi dominado por uma fúria indescritível.
Parado em meio à sala de comando oval, esbravejava a plenos pulmões. Sua voz potente enchia o recinto.
Há cerca de uma hora, um certo Frerfak fora falar com Etztak, afirmando que, num corredor lateral, se encontrara com um ser peludo que lhe formulara uma pergunta sobre a situação exata da sala de comando. Segundo dizia Frerfak, tratava-se de um telepata que, além disso, devia ter o dom da teleportação.
Furioso, Etztak despedira o homem e o avisara de que a bordo da Etz XXI os mentirosos e outros tipos teriam de contar com uma punição exemplar.
Segundo o raciocínio de Etztak, na galáxia havia seres que possuíam um ou outro dom extraordinário. Tratava-se de telepatas, ou telecinetas, ou então teleportadores. Mas Etztak nunca havia visto um ser que fosse ao mesmo tempo um telepata e um teleportador. E, como nunca o tivesse visto, não acreditava na sua existência, motivo por que em sua opinião Frerfak era um fanfarrão e um mentiroso.
Acontece que, meia hora depois da visita de Frerfak, Holloran, espicaçado pela consciência, apareceu na sala de comando. Contou como certo ser, cuja descrição coincidia exatamente com a fornecida meia hora antes por Frerfak, o obrigara a levá-lo em sua nave-patrulha para bordo da Etz XXI. Também do relato de Holloran deduzia-se sem a menor sombra de dúvida que aquele ser era um telepata e um teleportador.
A opinião firmada de Etztak se tornou mais vacilante.
Vinte minutos depois do aviso de Holloran, chegou uma mensagem de Wernal, que informou sobre o fracasso total da expedição de busca. Cinco minutos depois disso, o chefe dos hangares entrou em contato com Etztak para avisá-lo de que um ser peludo de aspecto estranho, que evidentemente era um telepata e teleportador, obrigara-o a entregar uma das naves-patrulha e a informar à Horl VII de que devia aguardar a chegada de um veículo desse tipo nos próximos quinze minutos.
Com isso, o equilíbrio psíquico de Etztak ficou irremediavelmente perturbado. Esbravejou, gritou ordens para seus subordinados e logo as revogou, antes que pudessem ser retransmitidas. Finalmente se acalmou a ponto de poder anunciar os passos que pretendia tomar.
— Alarma na Horl VII. É provável que haja estranhos a bordo. Quero que a Horl pouse imediatamente. Precisamos das bombas que traz a bordo para destruir esse mundo.
A ordem foi retransmitida no mesmo tom patético em que foi expedida. A Horl VII confirmou que, poucos minutos antes, uma nave-patrulha da Etz XXI havia ingressado a bordo. A nave, cuja chegada havia sido anunciada em conformidade com as normas, emitira a mensagem codificada e, depois de ter ingressado a bordo, dera o aviso costumeiro de estar devidamente guardada.
O comandante da Horl VII, de nome Horlagan, ficou sobremaneira consternado com a advertência partida da Etz. Avisou a este que havia dado o alarma geral de busca e que se preparava para pousar imediatamente

5



Não houve o menor problema. Conforme se previra, a nave-patrulha passou pelo par de escotilhas da comporta, penetrou na galeria do hangar e foi conduzida para um box disponível por meio da direção automática.
Tiff seguiu as instruções de Gucky. Usando o intercomunicador, anunciou ao chefe dos hangares, em intercosmo, que o veículo estava devidamente guardado, e que pretendia se dirigir ao interior da nave juntamente com seus acompanhantes.
O chefe dos hangares não tinha nenhuma objeção. Não estranhou o fato de alguém se comunicar com ele em intercosmo. Eram poucos os saltadores que ainda usavam a língua de sua raça. Por uma questão de comodidade passaram a adotar o costume de usar o intercosmo, mesmo para se comunicarem entre si.
A descrição fornecida por Gucky permitiu a Tiff e Hump que se orientassem na nave com uma facilidade espantosa. Era bem verdade que dois fatores vieram em auxílio dos cadetes. Primeiro, Tiff já estivera várias vezes numa nave dos saltadores, mais precisamente, na Orla XI; depois, os saltadores gostavam de construir suas naves de modo a preservar a sistemática e a boa disposição dos compartimentos.
Os cadetes passaram pelos três conveses inferiores sem serem vistos. Para isso utilizaram o poço de um elevador de carga, proibido para passageiros.
Na altura do terceiro convés, se defrontaram com o perigo de colidir com uma carga que vinha descendo. O enorme volume, revestido de metal plastificado, enchia o poço a tal ponto que Tiff e Hump não tiveram outra alternativa senão saltar para o corredor do terceiro convés.
A carga passou por eles. Mas no mesmo instante em que esse risco havia passado, um novo perigo surgiu sob a forma de um saltador que dobrou o canto do corredor e se dirigiu apressadamente para o poço do elevador.
Hump saltou sobre ele de lado e o derrubou com a coronha de sua arma. Tiff nem teve necessidade de intervir.
— O que vamos fazer com ele? — fungou Hump.
Tiff procurou avaliar o tempo durante o qual o saltador ficaria inconsciente.
Seriam vinte minutos, ou meia hora?
Tiff se aproximou da escotilha mais próxima, levantou a arma de impulsos térmicos e abriu-a.
A peça que ficava do outro lado da escotilha era pequena e estava vazia.
— Vamos colocá-lo aqui! — chiou Tiff.
Hump arrastou o corpo. Reunindo suas forças, colocaram-no no pequeno compartimento e fecharam a escotilha atrás dele.
— Vamos!
Chegaram ao quinto convés sem novos incidentes. Pela descrição fornecida por Gucky, o depósito ficava a cerca de cinqüenta metros do elevador antigravitacional. Eram cinqüenta metros que teriam de ser percorridos através de corredores estreitos e angulosos.
A área em redor do poço do elevador não oferecia o menor perigo. Por alguns segundos puseram-se à escuta; ouviram vozes abafadas vindas de longe.
— Vamos embora!
Caminharam apressadamente, com as armas engatilhadas.
Toda esta área é de depósitos”, pensou Tiff. “Se alguém vier ao nosso encontro, basta entrarmos em uma das salas.”
Passaram por duas, três curvas do corredor.
Subitamente um grupo de saltadores veio ao seu encontro.
— Para a esquerda! — chiou Tiff.
A escotilha se abriu devagar. Hump foi o primeiro a se espremer pela mesma. Gemeu quando o tórax foi comprimido fortemente. Tiff seguiu-o lançando antes mais um olhar para o corredor.
Ao que parecia os saltadores não haviam percebido nada.
Tiff se virou. Viu diante de si as costas largas de Hump e murmurou:
— Escapamos por um...
Hump fez um movimento estranho, como se alguma coisa o assustasse. Tiff se inclinou para o lado, olhando para diante dele.
A três metros diante de Hump um saltador estava de pé, apontando o cano afunilado de sua arma para o ventre de Hump.
Era um único saltador. Mas tinha uma vantagem: já levantara sua arma.
Tiff olhou em torno. A sala estava cheia de prateleiras e separadeiras automáticas montadas na parte superior das prateleiras, que se moviam para cima e para baixo em trilhos verticais.
As prateleiras estavam cheias de peças de reposição, instrumentos e chaves de controles. À esquerda de Tiff havia uma prateleira; bastava-lhe estender o braço para alcançá-la.
— O que você quer? — perguntou a voz rouca de Hump em intercosmo.
O saltador riu.
— Quero saber quem são vocês e o que vieram fazer aqui.
Hump arrastou o pé. Tiff entendeu o sinal. Hump procuraria distrair o saltador; Tiff teria que aproveitar o momento de distração.
Centenas de idéias se atropelaram na mente de Tiff. Mas nenhuma delas era aproveitável.
Não seria mesmo?
Tiff se inclinou para a esquerda. Pelo canto do olho viu a separadeira que, depois de ter sido usada da outra vez, ficara parada junto à quarta repartição. Ela poderia ser alcançada com a mão. Estendeu cuidadosamente a mão em direção ao instrumento, procurando manter a mão oculta atrás das costas de Hump.
Se você ainda não sabe que é muito perigoso ter diante de si dois inimigos colocados um atrás do outro, o azar é seu, saltador”, pensou.
— A resposta é simples — respondeu Hump.
Quem o conhecesse notaria o nervosismo que vibrava em sua voz.
Bem feito, Hump”, pensou Tiff. “Aqui está a chave!
A chave foi ligada com um ligeiro estalo. O aparelho zumbiu e subiu velozmente pelo trilho.
O saltador estremeceu e olhou para o lado. Tiff deu um passo ligeiro para a direita, levantou a arma e disparou.
O saltador teve morte imediata.
Por alguns segundos Tiff e Hump ficaram imobilizados.
— Vamos dar o fora! — exclamou Tiff, que foi o primeiro a recuperar o autocontrole.
Abriram a escotilha com o maior cuidado que seu estado nervoso permitia. O corredor estava vazio.
Saíram andando apressadamente.
Mais uma curva... mais uma...
Ali, gravada em caracteres intercósmicos, estava o número 78 sobre a enorme placa de metal de uma grande escotilha.
Essa escotilha foi tão fácil de abrir como as outras. Não havia a menor indicação de que nesse depósito se encontrassem objetos muito importantes.
Tiff esperara encontrar sentinelas antes ou depois da escotilha, mas não encontrou ninguém. A mentalidade dos saltadores parecia não conhecer o temor do abuso da mais terrível das armas jamais construída por eles.
A sala era menor do que Tiff imaginara. As bombas, formadas por cilindros metálicos de metro e meio de comprimento, com as pontas arredondadas, estavam penduradas em fortes suportes de metal plastificado.
Tiff fechou a escotilha. Observou Hump, que retirou cuidadosamente uma das bombas do suporte e a segurou nos braços. Gemeu. Mas, ao se virar, sorriu:
— Deve pesar uns setenta e cinco quilos. Mal e mal se consegue carregá-la.
Tiff confirmou com um aceno de cabeça.
— A esta hora Gucky devia entrar em ação — respondeu.
* * *
Gucky, dotado de uma série de capacidades parapsicológicas, ajudara o cadete Eberhardt a realizar um salto elegante que o conduziu a bordo da Etz XXI. Gucky deslocou-o da mesma forma pela qual transportara, poucos dias antes, os volumes de carga retirados da Z-13, que fizera pousar na superfície do planeta Homem de Neve: através da teleportação.
Eberhardt pousou na galeria do hangar das naves-patrulha e se escondeu num dos boxes vazios. Gucky surgiu logo atrás dele, anotou em sua mente a posição do esconderijo e voltou a desaparecer.
Eberhardt representava a força de reserva que Gucky lançaria na luta, se as circunstâncias o exigissem. Conhecendo seu esconderijo, poderia chamá-lo a qualquer hora.
Por outro lado, se alguma coisa acontecesse com Gucky, para Eberhardt seria relativamente fácil se apoderar de uma das naves-patrulha e deixar a Etz XXI sem correr maiores riscos.
Por enquanto, Gucky tinha certeza de que não teria maiores problemas em alcançar o objetivo a que se propusera.
Quando voltou a se rematerializar, viu-se numa sala separada apenas por uma parede fina da sala de comando da Etz XXI. Por entre a profusão de pensamentos que investiram sobre sua mente, a maioria deles nervosos e cheios de temor, logo conseguiu identificar os impulsos de Etztak.
* * *
Enquanto estava dando vasão a um acesso de fúria, Etztak sentiu de repente que alguma coisa estranha e inexplicável parecia agarrá-lo. Surpreso, calou-se. Por um instante procurou definir a sensação que se apoderava dele. O medo surgiu em seu espírito.
Quis gritar, e realmente o fez. Mas quando soltou o grito, já não se encontrava na sala de comando. Não percebera o menor movimento. Parecia que alguém afastara uma cortina que se encontrava bem diante de seu rosto, fechando outra logo atrás de sua cabeça.
Etztak reconheceu a sala em que se encontrava; ficava junto à sala de comando.
Mas não sabia como fora parar ali.
Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando quebrou a cabeça sobre o desaparecimento do velho. Primeiro, todos sentiram o silêncio repentino como uma coisa benfazeja. Depois, enquanto os oficiais se inclinavam sobre suas mesas, dedicando-se ostensivamente a várias espécies de trabalho, o comandante se encontrava próximo a várias escotilhas. Era bem possível que tivesse saído da sala sem que ninguém o notasse.
Gucky não sabia nada disso. Apenas fazia votos de que fosse assim.
Etztak interrompeu o grito quando viu o pequeno ser peludo à sua frente, sentado em cima da mesa. Apoiado sobre as patas traseiras, mantinha o corpo erguido e segurava um radiador de impulsos térmicos na mão direita.
Nos últimos anos ninguém jamais vira o velho Etztak tão perplexo como naquele instante.
— Controle-se! — entendeu Etztak. — Preciso falar com você.
A falta de respeito com que essas palavras lhe foram dirigidas fez com que Etztak recuperasse a consciência. Pretendeu esbravejar; mas aquele ser estranho não lhe deixou tempo para isso. E explicou por quê.
— Tudo que temos que fazer — explicou a Etztak — tem de ser feito depressa. Dois dos meus homens se encontram a bordo da Horl VII e, por causa do alarma que você mandou dar, não estão em condições de sair sem serem molestados.
Gucky extraiu a informação sobre o alarma da própria consciência de Etztak.
O rosto de Etztak se contorceu numa careta zombeteira.
— Você fará com que nada lhes aconteça quando saírem da nave — prosseguiu Gucky.
Etztak riu.
— E se eu me recusar? — perguntou.
— Nesse caso farei com que a Horl, a Etz e a Orla voem pelos ares, juntamente com todo o planeta.
O rosto de Etztak se tornou sério.
— Como?
Gucky soltou um assobio estridente.
— Pelo mesmo meio que você pretendia usar: as bombas arcônidas.
Etztak estremeceu.
— Nesse caso você e sua gente também voarão pelos ares.
— Isso mesmo — respondeu Gucky laconicamente. — O resultado compensa o sacrifício.
Gucky percebeu que Etztak procurava encontrar uma saída. O velho também estava interessado em prolongar as negociações para ganhar tempo.
— Vamos logo! — insistiu Gucky e levantou o radiador de impulsos térmicos, fazendo com que o mesmo apontasse por cima do ombro de Etztak. Apertou o gatilho e disparou um tiro ligeiro com um fraco desempenho energético contra a parede.
Etztak recuou, apavorado, e levantou as mãos.
— Não faça isso! — gemeu. — Farei o que você quiser.
No momento, constatou Gucky, o velho estava falando a sério.
— Darei ordem para que o alarma de busca seja suspenso a bordo da Horl — sugeriu Etztak.
Gucky recusou a sugestão, não porque acreditasse que o velho estava tramando algum truque, mas porque sabia qual seria a confusão e a insegurança causada por duas ordens contraditórias dadas com um breve intervalo.
— Você ordenará que a Horl entre em rigorosa prontidão de combate. Cada homem ocupará seu posto. As sentinelas ficarão em posição de reserva. Entendido? E você dará a ordem daqui mesmo.
Etztak hesitou. Gucky voltou a levantar a arma. Com isso a resistência do velho desmoronou.
Dirigiu-se ao intercomunicador e levantou o microfone. Gucky sentou num lugar em que não pudesse ser visto pelo receptor e avisou a Etztak que atiraria se este dissesse uma única palavra errada.
* * *
Por alguns minutos o soalho da sala tremera sob os numerosos pés que passaram correndo pelo corredor.
Mas subitamente o silêncio voltou a reinar.
Logo receberam a breve mensagem de Gucky:
— Caminho livre.
Tiff abriu a escotilha. Hump cambaleou pela abertura. Tiff fechou cuidadosamente a escotilha e saiu correndo atrás de Hump, para ajudá-lo a carregar a bomba.
A Horl estava em rigorosa prontidão de combate. Isso significava que ao menos nas proximidades dos depósitos não havia ninguém.
Chegaram ao elevador de carga sem serem molestados. Era o mesmo pelo qual haviam subido meia hora antes.
Com um suspiro, Hump deixou-se cair para a frente juntamente com a bomba, a fim de que o campo antigravitacional do elevador o sustentasse. Foi descendo pelo poço. Tiff seguiu-o.
— Pare no segundo andar! — ordenou.
Na altura do convés número dois, Hump empurrou-se contra a parede, a fim de atingir em tempo a saída do poço.
— Ande ao menos cinqüenta metros a partir daqui — ordenou Tiff.
O corredor estava vazio. Tiff decifrou o letreiro de uma das escotilhas. Constatou que nessa área da nave havia um espécie de hospital.
Se o plano de Gucky fora bem sucedido, os compartimentos situados atrás dessas escotilhas deviam estar cheios de saltadores, mas nenhum deles sairia para o corredor sem ser chamado.
Hump seguiu cambaleante pelo corredor.
Os letreiros das escotilhas mudavam constantemente.
— Laboratório de análises de alimentos — leu Tiff.
— Vamos entrar aqui!
Encontravam-se numa nave mercante.
Mas mesmo as naves mercantes dos saltadores dispunham de algum armamento, e Tiff sabia que em caso de alarma cada um tinha seu posto bem definido. Naquela hora não haveria nenhum saltador no laboratório destinado à análise de alimentos.
Realmente a sala estava vazia. O laboratório era grande e estava cheio de instrumentos dos tipos mais variados. Seguindo as instruções de Tiff, Hump colocou a bomba de pé nas proximidades do pequeno aparelho de hidratação, formado de quatro recipientes cilíndricos. Ao lado desses cilindros a bomba não daria na vista.
— Regule o detonador para vinte minutos! — ordenou Tiff.
Ajudou Hump na regulagem. O detonador da bomba era um mecanismo relativamente simples.
— Pronto! — fungou Hump. — Vamos dar o fora!
Voltaram ao poço do elevador e desceram ao convés dos hangares. Correndo apressadamente, mas sem o menor barulho, atravessaram a galeria e se dirigiram à escotilha interna da comporta, onde ficava a sala do chefe dos hangares.
Num estado de alarma total a informação habitual não era suficiente para que o chefe dos hangares liberasse uma das naves pequenas.
O homem estava sozinho com seu assistente. Tiff e Hump penetraram na salinha sem que ninguém os percebesse. Só depois de terem entrado, o chefe dos hangares percebeu que se tratava de criaturas estranhas; o assistente nem chegou a percebê-lo. Com um golpe bem dado na região do pescoço de seu traje espacial, Tiff colocou o assistente fora de combate. Hump correu para o outro lado da escrivaninha e derrubou também o chefe dos hangares, antes que este pudesse esboçar qualquer defesa ou pedir socorro.
Tiff já se encontrava a caminho. Com dois passos rápidos se colocou junto ao enorme painel e puxou duas chaves grandes, assinaladas em vermelho.
— A escotilha interna está aberta — gritou para Hump. — Tire a nave.
Hump saiu correndo. Poucos instantes depois o vulto em forma de lentilha de uma das naves-patrulha saiu da galeria do hangar, deslizou pela escotilha aberta, entrando no pavilhão, e parou.
Uma janelinha se abriu. Tiff subiu de um pulo, segurou a abertura com as mãos firmes e entrou na nave.
— Vamos adiante!
Hump acelerou a nave. Atravessaram a enorme comporta e chegaram à escotilha externa no momento exato em que a escotilha interna se fechou, enquanto a primeira se abria, obedecendo ao comando que Tiff dera no painel de comando.
A navezinha disparou para fora, deixando a Horl para trás. Tiff soltou um grito de surpresa quando viu que a grande nave se encontrava a menos de dez quilômetros da superfície do planeta Homem de Neve.
Dali a alguns minutos a manobra de pouso estaria concluída.
Tiff ligou o transmissor de capacete para o alcance máximo.
— Tudo em ordem — anunciou segundo haviam combinado. Olhou para o relógio. — X menos doze minutos.
* * *
Gucky assobiou, satisfeito, quando recebeu o aviso.
— Está bem — disse, dirigindo-se a Etztak. — Meus homens já estão em liberdade. Quero lhe dizer mais uma coisa.
Etztak aguçou o ouvido.
— Eles esconderam uma bomba atômica a bordo da Horl — prosseguiu Gucky. — Ou, mais precisamente, em algum lugar a bordo da Horl. O detonador foi regulado para vinte minutos. Desses vinte minutos já se passaram nove. Quer dizer que a Etz e a Orla dispõem de onze minutos para sair desta área. E a tripulação da Horl dispõe do mesmo tempo para subir a bordo das naves-patrulha e de salvamento e se colocar em segurança.
Não disse mais nada. Desapareceu no mesmo instante. Mas tinha certeza de que Etztak daria a devida atenção à sua advertência.
Sem perder tempo, Gucky surgiu bem à frente do esconderijo de Klaus Eberhardt. Este saltou do boxe e desceu pelo elevador antigravitacional. Dois boxes adiante, Gucky descobriu uma nave-patrulha que estava em condições de decolar. Saltou para dentro da mesma, dirigiu a nave para a galeria e pediu que Eberhardt entrasse, depois que tinha transmitido ao chefe dos hangares os dados costumeiros sobre a retirada da nave-patrulha, pedindo-lhe que abrisse as duas escotilhas da comporta.
Por alguns segundos, Gucky receou que o velho Etztak se recuperasse com demasiada rapidez do susto por que passara, e ordenasse ao chefe dos hangares que não abrisse as escotilhas.
Mas o receio não teve fundamento. As escotilhas se abriram, e a pequena nave disparou com a aceleração máxima para o frio da manhã cinzenta.
Quase no mesmo instante, a nave de Tiff e Hump entrou em contato com eles.
— Vamos voltar à caverna de Moisés! — ordenou Gucky.
* * *
O vôo não durou mais que alguns minutos. Gucky aproveitou o breve intervalo para informar os cadetes do que poderia acontecer se o plano não funcionasse conforme haviam previsto:
— A possibilidade que envolve maiores riscos — soou a voz chiante de Gucky nos receptores da nave em que iam Hump e Tiff — é a de que os tripulantes da Horl localizem a bomba antes da explosão e consigam desativá-la. Mas, se considerarmos o fato de que uma nave como a Horl tem um total de cinco mil salas, a possibilidade de que a bomba venha ser encontrada nos próximos onze minutos é muito remota. Existe outra possibilidade. Talvez Etztak acredite que minha ameaça não passa de um truque, e não dê atenção à mesma. Nesse caso a Horl, a Etz e a Orla serão destruídas por completo. Estão tão próximas uma da outra que nenhuma delas sobreviveria à catástrofe.
“A terceira possibilidade é esta: Etztak pode tomar conhecimento do aviso que lhe dei, levará as duas naves para fora da área de perigo e mandará evacuar a Horl, enviando, porém, grupos de busca atrás de nós. Nesse caso teremos que nos defender.
“De qualquer maneira, não devemos permanecer por muito tempo na caverna de Moisés. Temos que ir a outro lugar; assim que Etztak se tiver recuperado do choque, sairá à nossa procura. Dispomos de duas naves. Se necessário, cada uma delas poderá levar três pessoas. Isso será suficiente, desde que eu me desloque através da teleportação. Apenas teremos que realizar um vôo de volta à caverna para buscar a bagagem que deixamos lá.
“No momento é só o que temos a tratar. Façamos votos de que a bomba não seja descoberta.”
* * *
Pouco antes do pouso, os instrumentos registraram grande movimentação. Duas naves de grande porte se levantaram da superfície do planeta e dispararam espaço afora; e de uma terceira, que descia devagar, saíam pontos minúsculos que, segundo tudo indicava, estavam empenhados em se afastar o mais possível da nave.
O plano fora bem sucedido. Ninguém encontraria a bomba.
No momento do pouso, um choque repentino fez estremecer o solo.
A bomba existente a bordo da Horl VIII acabara de explodir.
Não havia a menor dúvida de que a detonação da bomba reduzira a orgulhosa nave dos saltadores a uma série de fragmentos moleculares e atômicos. O detonador estava regulado para ativar os elementos artificiais, produzidos constantemente pelos reatores de fusão de uma nave espacial.
Quando sentiu o solo estremecer, Tiff reteve a respiração por um instante. Ninguém percebeu, com exceção talvez de Gucky.
Mas Gucky não disse nada, e Tiff se sentiu grato por isso.
Tiff teve a mesma sensação de quem vê cair um avião, sabendo que o mesmo tem bombas atômicas a bordo. Deteve a respiração, esperando que as mesmas detonassem no momento do impacto. Mas isso não aconteceu, porque a detonação de uma bomba atômica exige um mecanismo complicado; uma pancada, por mais forte que seja, não basta.
O homem deteria a respiração, mesmo que soubesse exatamente como funciona uma bomba atômica.
Tiff encontrava-se nessa situação. Sabia que uma bomba arcônida não explode pelo simples fato de que outra bomba do mesmo tipo é detonada perto dela. O mecanismo de detonação era bastante complicado. Uma das bombas explodiria, mas a outra apenas seria despedaçada, reduzida a pó, mas não liberaria sua energia.
Apesar disso, Tiff receara que a explosão de uma bomba provocasse a detonação de todo o arsenal da Horl VII. Uma vez que a Horl se encontrava a apenas um ou dois quilômetros do solo, isso significaria o fim do planeta Homem de Neve.
Mas nada disso aconteceu.
* * *
As moças foram colocadas nas naves auxiliares, juntamente com o incansável Moisés. O robô anunciou que nada de extraordinário acontecera nesse meio tempo.
As moças estavam curiosas. Mas Gucky fez questão de que seu pessoal saísse quanto antes da área de perigo.
Combinou com os pilotos das duas naves — Eberhardt e Tiff — o ponto de encontro, situado três mil quilômetros ao sul. Imediatamente as naves se puseram a caminho.
Gucky saltou no momento em que as perdeu de vista e no mesmo instante chegou ao local de encontro.
Teria que aproveitar o tempo.
Perry Rhodan aguardava informações.
* * *
— Gucky está chamando — disse John Marshall.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Pode começar.
Marshall parecia escutar para dentro de si mesmo. Cerca de dois minutos se passaram. Depois levantou a cabeça e disse:
— Gucky e os cadetes estiveram em perigo de serem mandados para os ares juntamente com o mundo em que se encontram. Conseguiram remover o perigo através de uma ação de emergência. Uma nave inimiga foi destruída. Gucky se esforçou para reduzir ao mínimo as vítimas fatais, advertindo o inimigo do desastre iminente.
— Muito bem! — exclamou Rhodan. — Prossiga.
— Durante essa missão de emergência, Gucky conseguiu extrair dados da maior importância da mente do comandante da maior das naves dos saltadores.
“Primeiro: Tudo que até aqui foi feito contra a Terra partiu de uma única nave, a Orla XI, a mesma que prendeu Tifflor e a Good Hope-IX. Só nos últimos dias, quando tudo indicava que o comandante da Orla não conseguiria vencer as dificuldades sozinho, chamou as naves de guerra.”
“Segundo: Os agentes que o comandante da Orla XI colocou na Terra são robôs especiais...”
Marshall fez uma pausa.
— Então é isso! — murmurou Rhodan. — Não foi por menos que meus telepatas não conseguiram descobrir nenhum dos agentes do inimigo.
Marshall prosseguiu:
— Os robôs têm aspecto humano e só podem ser reconhecidos pelas radiações diminutas dos seus motores de fusão.
— Muito bem! Excelente! — interveio Rhodan.
— E mais: Os saltadores ainda não sabem exatamente o que devem pensar da Terra e da civilização nela reinante. Têm a impressão de que as informações colhidas pelos robôs e os dados obtidos através das naves aprisionadas se contradizem...
— Não é de admirar! — disse Rhodan com uma risada.
— Por isso prevalece entre eles a opinião de que a Terra e seus habitantes devem ser submetidos a um exame mais detido. Se constatarem que a civilização terrestre é subdesenvolvida, pretendem fazer da Terra um entreposto comercial. Mas, se a raça humana estiver aproximadamente no mesmo nível dos saltadores, deve ser punida por ter infringido o monopólio reivindicado pelos saltadores, realizando por conta própria o comércio interestelar.
Rhodan ainda estava rindo.
— Isso não será nada fácil! — disse.
Depois transmitiu suas informações a Gucky.
— Dentro de poucas horas a Stardust-III deixará o setor de Beta-Albíreo. A Terra e a Solar System permanecerão aqui.
Achamos necessário que a Stardust-III seja equipada com novos armamentos, que lhe permitam vencer as naves inimigas nesse setor sem depender de reforços. A Stardust-III ficará fora por um máximo de quatro semanas. A Terra e a Solar System deverão reter o inimigo no setor de Beta-Albíreo, inflingindo-lhe perdas e dando às pessoas que estão executando seus trabalhos no Homem de Neve todo o apoio que esteja ao seu alcance. Ao menos um telepata ficará a bordo de uma das naves.
“Gucky e seus cadetes procurarão colher novas informações junto aos saltadores. Quanto ao mais, terão todo o cuidado para não cair nas mãos do inimigo.”
Marshall traduziu fielmente essa mensagem.
— Fim! — acrescentou Rhodan.
* * *
As naves auxiliares chegaram dali a poucos minutos.
Pousaram junto ao rato-castor. Moisés foi o primeiro que apareceu. Depois desceram as moças, e finalmente os cadetes.
A primeira coisa que Tiff fez foi examinar o termômetro.
— São apenas oitenta graus negativos — murmurou, espantado. — Aqui é muito mais quente.
— Estamos praticamente no equador — explicou Gucky.
Gucky esperara-os no interior de uma espécie de vale. Tratava-se de uma baixada circular de cerca de cem metros de diâmetro, circundada por uma série de suaves colinas brancas, cujos cumes ficavam de cinqüenta a cem metros acima do fundo do vale.
Pela escolha do esconderijo, até se poderia pensar que Gucky já estivera no planeta Homem de Neve.
Na encosta norte de uma das colinas situadas ao sul, abria-se um buraco da altura de um homem. Gucky já o examinara, constatando que se tratava da desembocadura de um túnel que penetrava bem longe abaixo das colinas.
— É um esconderijo feito pela natureza — explicou Gucky. — Naturalmente teremos que fechar a entrada para que não seja vista logo. Além disso, será necessário abri-la mais, para que as duas naves caibam no túnel. Acredito que depois disso será bem difícil que os saltadores nos encontrem.
Logo se puseram a trabalhar. Apenas Tiff voltou mais uma vez à caverna que Moisés abrira na rocha, para salvar a parte da bagagem de Gucky que haviam deixado para trás na sua fuga precipitada.
Tiff sabia que os objetos mais importantes haviam sido salvos. Entre eles encontravam-se as peças de uma usina de força em miniatura, que supriria seu novo esconderijo de luz e calor em abundância. Ainda havia armas e mantimentos. Por fim, um potente transmissor de hipercomunicação, juntamente com o receptor e os acessórios destinados às transmissões piratas, integrações de freqüências e outros truques de que costuma se valer um agente que se encontra em pleno território inimigo.
Quando Tiff regressou, Moisés já havia ampliado a abertura do túnel a tal ponto que as naves auxiliares poderiam entrar sem qualquer dificuldade. Uma vez que estivessem cobertas pela colina, a trinta metros da boca do túnel, ninguém mais as descobriria.
O alojamento propriamente dito foi instalado mais ao fundo, aproximadamente embaixo do ponto mais alto da colina.
A usina de força não demorou a ser instalada. Naquele lugar as paredes não eram feitas de gelo — que em todos os outros pontos da superfície do Homem de Neve cobria o solo até uma altura de pelo menos vinte metros — mas de rocha fria e brilhante. Moisés alisou as paredes por meio de um radiador de impulsos térmicos e, com uma rapidez espantosa, construiu cinco recintos contíguos.
Só depois disso, Gucky se dispôs a informar os cadetes e as moças sobre as instruções de Rhodan.
Depois de ouvir tudo, Hump suspirou. Até parecia que já havia recuperado seus traços de caráter primitivo a ponto de pretender soltar uma de suas observações mordazes.
Mas Tiff se adiantou, dizendo:
— Poderemos agüentar perfeitamente por quatro semanas.
Gucky concordou e Hump olhou para o chão.
— Há mais uma coisa — disse Gucky depois de algum tempo. O tom de sua voz era tão estranho que todo mundo prestou atenção. — Todo o tempo estou captando por via telepática uma estranha irradiação. Parece que nas proximidades há uma pessoa que está inconsciente ou adormecida. Gostaria de saber o que vem a ser isso. Se os saltadores nos deixarem em paz por algum tempo, procurarei descobrir.
* * *
Os saltadores deixaram-nos em paz. Nenhuma nave daquela raça apareceu nas proximidades de seu novo esconderijo. Ninguém saberia dizer se isso acontecia porque Etztak havia suspendido temporariamente as buscas, ou porque os saltadores ainda não tinham dado com a nova pista.
Afinal, o que realmente importava era que tivessem sossego.
De início Gucky se empenhou profundamente na busca do emissor dos impulsos sonolentos. Mas constatou que não havia como fazer a localização goniométrica do mesmo. Os impulsos chegavam de forma difusa, vindos de todas as direções.
Depois de algumas tentativas frustradas de localizar a fonte desses fluxos de idéias, o interesse arrefeceu. As buscas foram suspensas.
Hump recuperara suas características primitivas. Dispunha de nova frente de ataque contra Tiff: Mildred Orson dedicava-lhe uma preferência inequívoca. Hump se aborreceu com isso, sem perceber que, de outro lado, Felicitas Kergonen entretinha um interesse idêntico por ele.
Hump zombava de Tiff, e Tiff zombava de volta, sem que Hump percebesse o motivo.
Isso até que Klaus Eberhardt dissesse um belo dia:
— Se fosse burro como você, Hump, eu me trancaria num quarto e nunca mais abriria a boca.
Gucky se divertiu com as brigas dos cadetes. Bem que aqueles jovens precisavam de uns dias de descanso, durante os quais pudessem se preocupar com seus problemas particulares. O novo golpe de Etztak não tardaria a chegar.




* * *
* *
*







A Terceira Potência possui corajosos representantes no sistema de Beta-Albíreo. Os cadetes liderados por Julian Tifflor, agora auxiliados por Gucky, conseguem impor, de seu esconderijo no planeta gelado, um sério obstáculo aos saltadores. Mas os saltadores já dispõem de vários espiões na Terra; e entre eles se encontra. O Imperador de Nova Iorque.
O Imperador de Nova Iorque é também o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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