Exausto e
esgotado até a medula, Reginald Bell retornou para bordo da Stardust-III com a
Z-13.
O que mais
gostaria de fazer era correr para seu camarote e dormir vinte horas
ininterruptas.
Pegou a fita
na qual estava gravado tudo que falara durante a viagem, e, depois de descer do
destróier, pegou o elevador e subiu à sala de comando.
Perry Rhodan
já o esperava. Bell apresentou um breve relatório e pediu ao seu interlocutor
que recorresse ao relato minucioso gravado em fita.
Depois do
arriscado vôo realizado por Bell não havia mais a menor dúvida de que as naves
dos saltadores surgidas no setor de Beta-Albíreo pertenciam a dois grupos
totalmente distintos. Os veículos em que Bell quase chegou a esbarrar eram,
pelo seu formato, naves mercantes. Estavam postadas em cima do mundo em que
Tifflor se mantinha escondido, ou nas proximidades do mesmo. Esse grupo era
formado por setenta e oito naves. Ninguém sabia a quem pertenciam.
O segundo
grupo era formado pelas noventa naves das quais Bell se desviara numa curva bem
ampla. Pelo formato tratava-se de naves de guerra. Não eram tão compridas como
as naves mercantes, mas em compensação eram menos esguias. Ao que tudo
indicava, mantinham ligação com as trinta naves que a Stardust-III, a Terra e a
Solar System haviam posto em fuga umas cem horas antes.
Ao que
parecia, não havia nenhuma ligação entre os dois grupos. Deviam trabalhar
independentemente, a não ser que trocassem informações.
Bell fez
questão de enfatizar que não tinha a menor dúvida de que, depois da confusão
causada pela Z-13, as noventa naves tentariam localizar o inimigo. Em outras
palavras, colocariam as naves em movimento e, divididos em grupos, dariam busca
no espaço.
— Quando
isso acontecer — profetizou Bell — teremos que ter muito cuidado. Não acredito
que com nossas três naves possamos nos empenhar numa luta aberta.
* * *
— Estão
chegando! — anunciou Moisés. — São vinte e quatro aparelhos.
Tiff acenou
com a cabeça.
Já haviam
voltado para o interior da caverna e fechado as paredes divisórias atrás de si.
Hump chegara antes deles. Sua sensação de triunfo diminuíra e fora substituída
por um profundo desânimo.
— Por uma
hora não teremos nada a temer — explicou Tiff em tom tranqüilo. — Permanecerão
no interior dos seus veículos espaciais e darão busca na área, para localizar
nosso esconderijo.
— É claro
que o descobrirão. A peça de engate da parede externa é facilmente perceptível
para quem se encontre bem próximo do mesmo.
— Seria de
supor que mesmo então não teríamos nada a temer. Os campos defletores nos
tornam invisíveis. E os campos protetores nos protegem contra os impactos de
todo e qualquer tipo de arma. Além disso, os saltadores estão mais interessados
em nos prender que em nos matar.
Lançou os
olhos em torno.
— Só receio
uma coisa — prosseguiu. — Uma hora destas a paciência deles poderá chegar ao
fim, e então nos bombardearão com armas contra as quais nossos campos
energéticos não oferecem proteção. Temos que dar o fora daqui, e isso quanto
antes. E quanto maior o tempo durante o qual conseguirmos enganar os
saltadores, mais cedo estaremos em segurança.
Hump e
Eberhardt confirmaram com um aceno de cabeça. As moças arregalaram os olhos.
Moisés continuava de pé, rígido, com a cabeça ligeiramente inclinada para trás,
como se estivesse examinando o teto da caverna.
— Como
poderemos sair daqui sem que eles nos vejam? — perguntou Eberhardt depois de
algum tempo. — Se a informação de Moisés é correta, já estão praticamente em
cima de nossas cabeças.
Tiff sorriu.
Foi um sorriso pequeno, ligeiramente irônico, que dava a entender que já tinha
a solução preparada há muito tempo.
— Vamos dar
o fora por aí! — disse, apontando com o indicador da mão esquerda por baixo do
braço direito, em direção ao fundo da caverna.
Eberhardt
virou-se para o lado.
— Por aí?...
Seus olhos
voltaram e ficaram grudados nos olhos sorridentes de Tiff.
— Como
pretende fazer isso? — murmurou Hump, que se encontrava mais aos fundos.
Tiff não
respondeu. Voltou-se para Moisés.
— Onde
estão, Moisés?
— Exatamente
em cima do lugar em que o senhor derrubou a nave. Estão parados e mantêm-se em
grupos de quatro aparelhos superpostos. O grupo que se encontra mais baixo,
encontra-se a vinte metros acima do solo, e o mais alto a cento e oitenta
metros.
Tiff acenou
com a cabeça.
— Está bem.
Pode começar, Moisés.
Moisés
despertou da sua rigidez. Com uma agilidade que ninguém suspeitaria naquela
tonelada de metais, virou-se, deu alguns passos retumbantes em direção aos
fundos da caverna e levantou o braço armado do lado esquerdo.
O robô tinha
quatro braços, dois de cada lado. O par de braços superior desempenhava as
mesmas funções dos braços humanos. Já o par inferior não passava de dois
canhões móveis: de um lado, um desintegrador, e de outro lado um radiador de impulsos
térmicos.
Feixes
energéticos que emitiam uma débil luminosidade esverdeada saíam do braço. A
rocha da caverna se derretia como a neve ao sol.
Era bem
verdade que não se derretia na verdadeira acepção da palavra. Os efeitos
produzidos pelo desintegrador resultavam do fato de que, na área atingida pelos
feixes energéticos, a força cristalina da matéria sólida era anulada. Os átomos
e as moléculas se desprendiam uns dos outros e a matéria atingida pelas
radiações se transformava em gás, ou em plasma, se fossem utilizados
desintegradores de elevada potência.
— Fechem os
capacetes! — ordenou Tiff, enquanto as outras pessoas do grupo contemplavam
fascinadas o trabalho realizado pelo robô.
Nuvens de
gás formadas pela poeira da rocha atravessavam a caverna, penetravam no nariz
dos que ali estavam e causavam nos pulmões a sensação da sufocação.
Fecharam os
capacetes assim que perceberam que a respiração se tornava mais difícil e
continuaram a fitar o buraco que se abria na rocha sob a ação do desintegrador.
— Está bem —
disse Tiff com um sorriso. — Já viram bastante. Na bagagem de Gucky há outros
desintegradores. Cada um de vocês vai pegar um e ajudar Moisés no seu trabalho.
Temos de avançar depressa.
Sob a
direção de Tiff, as radiações dos desintegradores foram orientadas de tal
maneira que os cinco aparelhos cobriam uma área de menos de dois metros de
altura e um metro e meio de largura. As armas, que trabalhavam à potência
máxima, faziam o buraco afundar à razão de cerca de vinte centímetros por
segundo.
O corredor
através do qual Tiff esperava escapar dos saltadores crescia rapidamente.
Tiff não
ajudou a abrir o corredor. Mexeu na bagagem trazida por Gucky, retirando dela
alguns objetos em formato de granadas de mão.
Realmente
eram granadas de mão; apenas, em vez de carga explosiva, continham um gerador
gravitacional de elevada potência. A vida útil desse gerador era de apenas um
milésimo de segundo; mas nesse tempo produzia um campo gravitacional de
intensidade considerável. A potência desse campo e sua disseminação explosiva
faziam desse tipo de granada uma arma muito eficaz na luta a pequena distância.
Tiff partiu
do pressuposto de que a qualquer hora os saltadores descobririam a caverna e
procurariam penetrar na mesma. Também encontrariam o corredor que o desintegrador
abrira na rocha. Depois disso só precisariam seguir pelo mesmo para encontrar
as pessoas em cujo encalço andavam.
Por isso
tanto a caverna como a entrada do corredor teriam que ser destruídas assim que
os saltadores a encontrassem.
A tarefa em si
era bastante fácil. As pequenas granadas possuíam detonadores-relógio
primitivos, mas que se prestavam totalmente ao fim que Tiff tinha em mira.
Bastaria colocar as granadas nas frestas da parede, ligar o mecanismo de tempo
e sair pelo corredor.
Mas havia um
detalhe. Gucky ainda não havia voltado. Uma vez concluída sua tarefa,
escolheria a caverna como ponto final de teleportação. Tiff não pretendia
expô-lo ao risco de entrar na caverna no momento da explosão ou cair nas mãos
dos saltadores.
Ainda faltava
meia hora para terminar o prazo que Gucky havia combinado com o cadete. Tiff
estava decidido a aguardar que essa meia hora passasse, acontecesse o que
acontecesse.
Não
precisaria se preocupar com Moisés, nem com as outras pessoas do grupo. Moisés
ia abrindo caminho, e dentro de meia hora percorreriam cerca de quatrocentos
metros. Por enquanto essa distância bastaria para colocá-los em segurança.
Gucky
informara a Tiff sobre o transmissor celular que havia sido implantado em seu
organismo sem que ele soubesse. Ficou sabendo que o rato-castor, como telepata,
era capaz de localizá-lo em qualquer ponto em que se encontrasse, dentro de um
raio de dois anos-luz.
Se seguisse
os outros pelo corredor, dando a entender a Gucky que já não se encontrava na
caverna, este talvez modificasse o rumo de sua operação de teleportação.
Talvez!
Sempre o talvez!
Era
preferível aguardar a evolução dos acontecimentos...
* * *
Pela quinta
vez Enaret relatou o que vira.
— Sim, foi
ali que a nave de Pcholgur caiu na neve. Vejam a superfície congelada. Não, não
foi lá. Foi ali adiante que Vilagar foi morto. Isso mesmo. Não, não existe o
menor vestígio de Horlgon.
Etztak
incumbira um certo Wernal do comando das vinte e quatro naves-patrulha.
Para Enaret
o mesmo não passava de um bobo, mas ele não iria transmitir sua opinião a
ninguém.
Enquanto não
tinha necessidade de falar, Enaret contemplava a tela do rastreador. Em sua
opinião, não adiantava nada ficar por horas a fio em cima do local do desastre,
procurando algum vestígio deixado por Pcholgur, Horlgon ou Vilagar.
Deviam
encontrar os fugitivos, não os mortos.
Mas o
comando estava nas mãos de Wernal, e este julgou de bom alvitre desperdiçar o
tempo.
Isso até
que, de repente, Enaret acreditou ter descoberto aquilo que estava procurando.
Na tela do
rastreador foi projetada a encosta íngreme de um morro. Na encosta, Enaret
notou perfeitamente uma entrada afunilada, que parecia ser o acesso a uma
caverna. Acontece que poucos metros atrás da entrada o rastreador foi dar em
matéria compacta.
Era uma
parede!
O cérebro de
Enaret passou a trabalhar febrilmente. Onde já se viu uma caverna que se abria
tão profundamente na encosta de uma montanha, para terminar poucos metros atrás
da entrada?
Em lugar
algum. A parede era artificial.
Enaret
entrou em contato com Wernal. Este não parecia muito satisfeito com a notícia
de que um dos seus subordinados acabara de fazer uma descoberta que, segundo
tudo indicava, era muito importante. Apesar disso, deu o máximo de atenção à
informação de Enaret e chegou à conclusão de que provavelmente o mesmo estaria
com a razão.
Naquela
encosta havia uma caverna. E essa caverna estava separada do mundo exterior por
meio de uma parede artificial.
— Vamos para
lá! — ordenou Wernal. — Pousaremos em semicírculo, a uma distância de cinqüenta
metros da caverna.
* * *
Tiff ouviu o
aviso que Moisés transmitiu pelo rádio de capacete:
— Estão
chegando. Pousaram diante da caverna.
Tiff
respondeu laconicamente:
— Entendido.
Prossigam na abertura do corredor.
“Quer dizer que já nos encontraram”,
pensou Tiff contrafeito.
Ainda
faltavam quinze minutos para que se passasse a meia hora. Se não conseguisse
deter o inimigo durante esse tempo, Gucky...
Tiff
realizou um cuidadoso controle funcional de seu traje transportador. Por fim
ligou os campos de deflexão e de proteção.
Colocou
perto de si o pesado radiador de impulsos térmicos retirado da bagagem de
Gucky, encostou-o na cava do braço esquerdo e, com a mão direita, retirou a
peça que fechava a parede interna. Sentiu o solo tremer quando o pesado pedaço
de rocha bateu no chão.
A luz
irradiada pela única lâmpada de emergência que continuava acesa lhe
proporcionava visão até a parede divisória mais próxima, que não ficava a mais
de três metros.
Mesmo a essa
distância um radiador térmico pesado poderia causar boa dose de destruição.
Que viessem!
* * *
De repente,
Wernal se decidiu.
— De cada
uma das naves descerá um homem — ordenou. — Enaret, você levará os homens até a
caverna. Procure entrar nela com todo o cuidado. E não se esqueçam: se possível,
queremos agarrar essa gente viva.
Enaret se
preparou para sair. Deixou sua nave na posição em que se encontrava e reuniu em
torno de si os homens que desciam das outras naves.
Por mais
pressa que Wernal tivesse a essa hora, Enaret achava que era muito importante
explicar aos homens que tinham diante de si um inimigo muito perigoso.
— Não há
dúvida de que têm defletores.
Talvez
também disponham de geradores antigravitacionais e, principalmente, armas muito
eficientes. Além disso, encontram-se numa situação tão perigosa que não poderão
ter a menor consideração. Atirarão assim que puserem os olhos num inimigo.
Portanto, tenham cuidado. Não se metam a bancar o herói.
Depois
disso, avançaram em direção à caverna.
* * *
Tiff
percebeu que estavam trabalhando na parede exterior.
Quando
encontraram a peça que fechava a parede, o tremor do chão cessou. Tiff procurou
imaginar de que forma agiriam dali em diante.
Quem sabe se
não levariam um tempo maior para alcançar o compartimento interno que o que
restava para completar a meia hora?
Onde estaria
Gucky?
* * *
O grande
número de paredes deixou Enaret nervoso. Ainda não sabia qual era sua
finalidade.
Abrigado em
lugar seguro, Wernal apressou os homens.
— Tratem de
avançar depressa! — ordenou.
Enaret
contemplou os homens. Na luz débil da sua lanterna viu que sorriam através dos
visores dos capacetes.
— Vamos! —
resmungou.
As paredes
divisórias construídas pelos fugitivos só iam de uma das paredes da caverna até
uma distância de um metro da parede oposta. O intervalo fora fechado com peças
de rocha derretidas. Enaret ficou admirado com a exatidão com que essas peças
fechavam as aberturas.
As peças
haviam sido feitas de tal modo que podiam ser retiradas de um lado e de outro.
Para não perder tempo, Enaret ordenara aos homens que empurrassem as pedras
para dentro com uma pancada rápida e forte e se desviassem para o lado, pois
atrás da parede poderia haver um inimigo à espreita.
A técnica se
revelou muito eficiente. Avançaram de uma parede para outra sem serem
perturbados. Finalmente, um dos homens anunciou:
— Falta uma
parede. Retiramos a peça que fecha a abertura e atrás dela há uma luz acesa.
Nem assim os
fugitivos deram sinal de vida.
Enaret
começou a suspeitar de que houvesse uma armadilha. Ou será que a caverna tinha outra
saída?
Passou junto
aos seus homens, se inclinou para a frente e olhou para além da parede
divisória.
Viu a parede
seguinte e a abertura que, nas outras paredes, estava fechada com peças de
rocha. A peça de rocha que costumava fechar aquela parede estava jogada no
chão.
Através da
abertura Enaret viu um recinto amplo, fracamente iluminado. Uma única lâmpada
fornecia um tipo de iluminação de emergência.
No entanto,
a parede divisória não permitiu que Enaret visse o corredor que o desintegrador
havia aberto na rocha.
— Vamos
adiante! — ordenou Enaret.
* * *
Tiff sentiu
o baque surdo produzido pela queda da peça que fechava a penúltima parede.
Aproximou a
arma mais de seu corpo, para que também o cano fosse abrangido pelo campo de
deflexão que o tornava invisível.
Viu quando
Enaret enfiou a cabeça pela abertura existente ao lado da parede divisória e
olhou para ele.
Faltavam
quatro minutos para que terminasse a meia hora. As granadas de mão haviam sido
reguladas para detonarem dez minutos depois de terminado esse prazo. Se Gucky
não voltasse em tempo, o susto que Tiff pretendia pregar nos saltadores teria
que durar pelo menos dez minutos.
Subitamente
vieram!
Passaram
cautelosamente junto à parede divisória e, com um enorme salto, puseram-se de
lado, de tal forma que assumiram uma posição oblíqua face a Tiff.
Este não
queria matá-los!
Levantou o
cano da pesada arma.
E apertou o
gatilho. Disparou uma salva energética de reduzida potência contra a rocha. O
resultado foi espantoso.
De um
instante para outro, o teto entrou em incandescência, derreteu-se e
volatilizou-se. Pingos de rocha caíam ao chão, chiavam em contato com a rocha
ainda fria e espalhavam feixes de faíscas.
Os vapores
encheram o pequeno recinto e apagaram os contornos. Tiff viu sombras que
saltavam desesperadamente. Ao que parece, só pensavam numa coisa: passar pela
abertura e se pôr a salvo do fogo de artifício.
Com uma
risada, disparou a salva seguinte contra a parede divisória. Num instante, ela
se transformou numa massa viscosa incandescente, escorregou para baixo e,
através de uma nuvem de vapores esverdeados, pôs à vista a terceira parede.
Os
saltadores estavam em fuga desabalada. Tiff viu quando o último deles passou
pela abertura seguinte. Mal tinha passado, também destruiu a terceira parede.
No mesmo
instante ouviu uma voz alegre e chiante no seu receptor de capacete:
— Muito bem,
rapaz! É assim que eu gosto!
Virou-se
apressadamente.
Gucky estava
sentado no centro do recinto, junto à única lâmpada que continuava acesa.
Tiff
suspirou aliviado e desligou o defletor. No mesmo instante se tornou visível
aos olhos de Gucky.
Dispôs-se a
fornecer uma explicação apressada. Mas Gucky fez um gesto de recusa relaxado,
tipicamente humano.
— Já sei —
disse. — Tenho o conteúdo de sua mente diante de mim. Dê o fora; enquanto isso
eu mantenho a posição.
Tiff
compreendeu. Ele mesmo teria que vencer com suas pernas a maior distância
possível, antes que ocorresse a explosão. Já Gucky poderia saltar, e o
transmissor celular que Tiff trazia em seu corpo o informaria sobre o lugar
preciso para qual teria que dirigir seu salto.
— Daqui a
dez minutos as granadas vão explodir! — fungou Tiff.
Gucky
confirmou com um aceno de cabeça, saltitou até a parede divisória interna e
ocupou o lugar em que antes se encontrara Tiff.
— Dê o fora
logo! — chiou.
Tiff saiu
correndo.
O corredor
aberto pelos desintegradores era amplo, permitindo que Tiff corresse à vontade.
O perigo que
previra, e com o qual Tiff contara em todos os seus planos, não decorria da
explosão propriamente dita, mas de seus efeitos colaterais. O campo
gravitacional gerado pelas granadas de mão era muito potente, mas de alcance
bastante limitado. Para alguém que tivesse percorrido mais de cinqüenta metros
pelo corredor afora, o perigo principal residiria na onda de sucção que
percorreria o mesmo, em direção ao ponto de explosão.
Tiff correu
em disparada pelo corredor. Moisés avisou-o de que haviam encontrado um tipo de
rocha mais favorável, e já estavam a uns seiscentos metros da caverna.
Por uma
única vez, Tiff tentou recorrer ao traje transportador. Mas logo constatou que
o corredor de um metro e meio de largura não oferecia um campo de manobra
suficiente para a locomoção por esse meio.
Três minutos
depois de ter deixado Gucky alcançou Moisés, os cadetes e as moças. Durante a
corrida já os havia avisado sobre os acontecimentos que se desenrolaram no
interior da caverna. Estavam a par.
Sem perder
tempo, Tiff substituiu Mildred no trabalho com o desintegrador. Com uma
expressão de gratidão no rosto, a moça lhe entregou a arma.
— Ainda bem
que tudo deu certo — disse em voz baixa.
Surpreso,
Tiff ergueu a cabeça e olhou-a.
Viu seus
grandes olhos brilhantes atrás da lâmina do visor e acenou com a cabeça:
— Também
fico satisfeito — respondeu em tom um pouco desajeitado.
Segurou o
desintegrador firmemente no braço e apertou o gatilho.
Um minuto
antes da explosão, Tiff mandou suspender o trabalho e ordenou a todos que se
deitassem no chão.
Cinco
segundos antes do momento zero, Gucky... surgiu do nada.
Cinco
segundos depois do momento zero, um punho gigantesco sacudiu os corpos deitados
no chão, e um tremor abafado percorreu a rocha.
Foi só.
Levantaram-se
cuidadosamente.
— Tudo em
ordem — disse Gucky. — Não apareceu mais nenhum saltador. E agora não nos
encontrarão mais.
Depois
disso, forneceu um breve relato do que se passara a bordo da Etz XXI. Concluiu
da seguinte forma:
— Nenhum
deles sabe como um bom telepata pode reconhecer o caráter de um ser
inteligente. Quanto a mim, sei perfeitamente que o velho não hesitará um
instante sequer em desmanchar este mundo nas suas partes componentes. Isso
representa um perigo para nós. Assim que Etztak for avisado sobre o novo
fracasso, ferverá de raiva e ordenará a destruição final. Não temos um segundo
a perder. Temos que dar um jeito de chegar a bordo da Horl VII e da Etz XXI.
Tiff
ouvira-o atentamente.
— Por que temos
que ir para a Etz XXI? — perguntou.
Gucky soltou
um grito chiante.
— Temos de prender
Etztak, se não conseguirmos inutilizar em tempo as bombas que se encontram na
Horl VII. Sugiro que nos dirijamos à superfície o mais rápido possível e nos
ponhamos em marcha. As informações sobre a estrutura das naves, de que
disponho, deverão ser suficientes para orientar os senhores.
* * *
Voltaram à
superfície um quilômetro e meio ao norte da caverna, no flanco norte da cadeia
de montanhas.
Antes disso,
Gucky se certificara por meio de alguns saltos de teleportação para dentro e
para fora do corredor de que a área estava limpa.
Além disso,
realizara um salto de teleportação para a caverna e voltou com a notícia de que
os saltadores estavam ocupados em examinar os vestígios da mesma. Por isso,
pelo menos uma hora se passaria antes que Etztak recebesse o aviso definitivo
de que a missão fora mal sucedida. Pelo que Gucky leu nos cérebros dos saltadores,
estes não estavam dispostos a acreditar na versão do suicídio dos fugitivos.
Mas um deles, de nome Wernal, dera ordens para procurar os restos de seus
corpos.
— Isso os
manterá ocupados por muito tempo — chiou Gucky. — Enquanto isso avançamos mais
um pedaço.
Moisés e as
moças foram deixados para trás. Moisés recebera ordem para, por meio de suas
armas, ampliar a entrada da galeria, para que a mesma pudesse servir de base
provisória. Gucky insistiu junto ao robô que o mesmo deveria se render junto
com as moças, antes de assumir o risco de que os saltadores atirassem uma bomba
sobre a entrada do túnel.
Depois
disso, Gucky e os três cadetes saíram. Envergando um simples traje espacial,
Gucky ia à frente dos outros por meio de saltos de teleportação e esperava que
os cadetes, que se deslocavam em vôo baixo e à velocidade máxima, o
alcançassem.
Dessa forma
chegaram dentro de poucas horas a vinte quilômetros do local em que estavam
pousadas as duas naves dos saltadores. A noite ainda duraria algumas horas.
Pelo menos o início da ação poderia se desenvolver sob a proteção da noite.
Enquanto os
três cadetes se mantinham a distância segura das duas naves, Gucky, com um
salto de teleportação bem orientado, se colocou a bordo da Etz XXI. Sem a menor
cerimônia, mas sem cometer o menor engano, prendeu o chefe dos hangares da
gigantesca nave em seu escritório e o obrigou a liberar uma das naves-patrulha,
e a avisar a Horl VII que ela chegaria dentro de quinze minutos, abrindo a
comporta do hangar mediante a simples emissão do sinal codificado, sem nova
consulta à nave-mãe.
De posse da
nave-patrulha, Gucky voltou para junto dos cadetes, que o esperavam.
— Um dos
senhores virá comigo — ordenou Gucky. — Os outros voarão para a Horl VII. As
bombas arcônidas estão no depósito número setenta e oito, convés número cinco,
contado a partir da comporta do hangar. Terão que dar um jeito de se orientar
na nave. E, principalmente, terão que chegar lá em dez minutos. O chefe dos
hangares da Etz XXI apenas está inconsciente. Levei-o a um lugar onde tão
depressa não será encontrado. Mas dentro de pouco tempo recuperará os sentidos
e logo relatará os fatos ao velho Etztak. Até lá deverão estar a bordo da Horl.
Ainda acontece que, quando o chefe dos hangares der seu aviso, um alarma geral
será desencadeado a bordo da Horl. A tarefa não é fácil. Mas os senhores sabem
perfeitamente o que está em jogo. Resolvam quem dos senhores virá comigo e quem
irá à Horl.
Era espantoso
e até mesmo chocante como se poderia esquecer tão rapidamente que Gucky não era
nenhum ser humano, quando falava com a seriedade que costumava usar em
instantes como este.
Tiff olhou
para os dois cadetes.
— Quero ir
para a Horl em companhia do cadete Hifield — disse.
Eberhardt e
Hump soltaram um resmungo de surpresa.
Os olhos de
Gucky se arregalaram à medida que fitavam um e outro dos cadetes.
“Não é de admirar”, pensou Tiff,
divertido. “Lê os nossos pensamentos e
por isso sabe o que aconteceu.”
— Cadete
Hifield! — rangeu a voz de Gucky.
— Sim,
senhor!
— Está de
acordo?
— Sim,
senhor!
— Está bem.
Vamos embora! Não podemos perder tempo.
Ao passar
por Eberhardt, Tiff bateu-lhe no ombro.
— Faça um
serviço bem feito! — disse em voz baixa.
Tinha
certeza de que Eberhardt compreenderia por que preferira levar Hump em vez
dele. Pretendia dar mais uma chance a Hump.
* * *
Etztak foi
dominado por uma fúria indescritível.
Parado em
meio à sala de comando oval, esbravejava a plenos pulmões. Sua voz potente
enchia o recinto.
Há cerca de
uma hora, um certo Frerfak fora falar com Etztak, afirmando que, num corredor
lateral, se encontrara com um ser peludo que lhe formulara uma pergunta sobre a
situação exata da sala de comando. Segundo dizia Frerfak, tratava-se de um
telepata que, além disso, devia ter o dom da teleportação.
Furioso,
Etztak despedira o homem e o avisara de que a bordo da Etz XXI os mentirosos e
outros tipos teriam de contar com uma punição exemplar.
Segundo o
raciocínio de Etztak, na galáxia havia seres que possuíam um ou outro dom
extraordinário. Tratava-se de telepatas, ou telecinetas, ou então
teleportadores. Mas Etztak nunca havia visto um ser que fosse ao mesmo tempo um
telepata e um teleportador. E, como nunca o tivesse visto, não acreditava na
sua existência, motivo por que em sua opinião Frerfak era um fanfarrão e um
mentiroso.
Acontece
que, meia hora depois da visita de Frerfak, Holloran, espicaçado pela
consciência, apareceu na sala de comando. Contou como certo ser, cuja descrição
coincidia exatamente com a fornecida meia hora antes por Frerfak, o obrigara a
levá-lo em sua nave-patrulha para bordo da Etz XXI. Também do relato de
Holloran deduzia-se sem a menor sombra de dúvida que aquele ser era um telepata
e um teleportador.
A opinião
firmada de Etztak se tornou mais vacilante.
Vinte
minutos depois do aviso de Holloran, chegou uma mensagem de Wernal, que
informou sobre o fracasso total da expedição de busca. Cinco minutos depois
disso, o chefe dos hangares entrou em contato com Etztak para avisá-lo de que
um ser peludo de aspecto estranho, que evidentemente era um telepata e
teleportador, obrigara-o a entregar uma das naves-patrulha e a informar à Horl
VII de que devia aguardar a chegada de um veículo desse tipo nos próximos
quinze minutos.
Com isso, o
equilíbrio psíquico de Etztak ficou irremediavelmente perturbado. Esbravejou,
gritou ordens para seus subordinados e logo as revogou, antes que pudessem ser
retransmitidas. Finalmente se acalmou a ponto de poder anunciar os passos que
pretendia tomar.
— Alarma na
Horl VII. É provável que haja estranhos a bordo. Quero que a Horl pouse
imediatamente. Precisamos das bombas que traz a bordo para destruir esse mundo.
A ordem foi
retransmitida no mesmo tom patético em que foi expedida. A Horl VII confirmou
que, poucos minutos antes, uma nave-patrulha da Etz XXI havia ingressado a
bordo. A nave, cuja chegada havia sido anunciada em conformidade com as normas,
emitira a mensagem codificada e, depois de ter ingressado a bordo, dera o aviso
costumeiro de estar devidamente guardada.
O comandante
da Horl VII, de nome Horlagan, ficou sobremaneira consternado com a advertência
partida da Etz. Avisou a este que havia dado o alarma geral de busca e que se
preparava para pousar imediatamente
5
Não
houve o menor problema. Conforme se previra, a nave-patrulha passou pelo par de
escotilhas da comporta, penetrou na galeria do hangar e foi conduzida para um
box disponível por meio da direção automática.
Tiff
seguiu as instruções de Gucky. Usando o intercomunicador, anunciou ao chefe dos
hangares, em intercosmo, que o veículo estava devidamente guardado, e que
pretendia se dirigir ao interior da nave juntamente com seus acompanhantes.
O chefe dos hangares não tinha nenhuma objeção. Não
estranhou o fato de alguém se comunicar com ele em intercosmo. Eram poucos os
saltadores que ainda usavam a língua de sua raça. Por uma questão de comodidade
passaram a adotar o costume de usar o intercosmo, mesmo para se comunicarem
entre si.
A
descrição fornecida por Gucky permitiu a Tiff e Hump que se orientassem na nave
com uma facilidade espantosa. Era bem verdade que dois fatores vieram em
auxílio dos cadetes. Primeiro, Tiff já estivera várias vezes numa nave dos
saltadores, mais precisamente, na Orla XI; depois, os saltadores gostavam de
construir suas naves de modo a preservar a sistemática e a boa disposição dos
compartimentos.
Os
cadetes passaram pelos três conveses inferiores sem serem vistos. Para isso
utilizaram o poço de um elevador de carga, proibido para passageiros.
Na
altura do terceiro convés, se defrontaram com o perigo de colidir com uma carga
que vinha descendo. O enorme volume, revestido de metal plastificado, enchia o
poço a tal ponto que Tiff e Hump não tiveram outra alternativa senão saltar
para o corredor do terceiro convés.
A
carga passou por eles. Mas no mesmo instante em que esse risco havia passado,
um novo perigo surgiu sob a forma de um saltador que dobrou o canto do corredor
e se dirigiu apressadamente para o poço do elevador.
Hump
saltou sobre ele de lado e o derrubou com a coronha de sua arma. Tiff nem teve
necessidade de intervir.
—
O que vamos fazer com ele? — fungou Hump.
Tiff
procurou avaliar o tempo durante o qual o saltador ficaria inconsciente.
Seriam
vinte minutos, ou meia hora?
Tiff
se aproximou da escotilha mais próxima, levantou a arma de impulsos térmicos e
abriu-a.
A
peça que ficava do outro lado da escotilha era pequena e estava vazia.
—
Vamos colocá-lo aqui! — chiou Tiff.
Hump
arrastou o corpo. Reunindo suas forças, colocaram-no no pequeno compartimento e
fecharam a escotilha atrás dele.
—
Vamos!
Chegaram
ao quinto convés sem novos incidentes. Pela descrição fornecida por Gucky, o
depósito ficava a cerca de cinqüenta metros do elevador antigravitacional. Eram
cinqüenta metros que teriam de ser percorridos através de corredores estreitos
e angulosos.
A
área em redor do poço do elevador não oferecia o menor perigo. Por alguns
segundos puseram-se à escuta; ouviram vozes abafadas vindas de longe.
—
Vamos embora!
Caminharam
apressadamente, com as armas engatilhadas.
“Toda esta área é de depósitos”, pensou
Tiff. “Se alguém vier ao nosso encontro,
basta entrarmos em uma das salas.”
Passaram
por duas, três curvas do corredor.
Subitamente
um grupo de saltadores veio ao seu encontro.
—
Para a esquerda! — chiou Tiff.
A
escotilha se abriu devagar. Hump foi o primeiro a se espremer pela mesma. Gemeu
quando o tórax foi comprimido fortemente. Tiff seguiu-o lançando antes mais um
olhar para o corredor.
Ao
que parecia os saltadores não haviam percebido nada.
Tiff
se virou. Viu diante de si as costas largas de Hump e murmurou:
—
Escapamos por um...
Hump
fez um movimento estranho, como se alguma coisa o assustasse. Tiff se inclinou
para o lado, olhando para diante dele.
A
três metros diante de Hump um saltador estava de pé, apontando o cano afunilado
de sua arma para o ventre de Hump.
Era
um único saltador. Mas tinha uma vantagem: já levantara sua arma.
Tiff
olhou em torno. A sala estava cheia de prateleiras e separadeiras automáticas
montadas na parte superior das prateleiras, que se moviam para cima e para
baixo em trilhos verticais.
As
prateleiras estavam cheias de peças de reposição, instrumentos e chaves de
controles. À esquerda de Tiff havia uma prateleira; bastava-lhe estender o
braço para alcançá-la.
—
O que você quer? — perguntou a voz rouca de Hump em intercosmo.
O
saltador riu.
—
Quero saber quem são vocês e o que vieram fazer aqui.
Hump
arrastou o pé. Tiff entendeu o sinal. Hump procuraria distrair o saltador; Tiff
teria que aproveitar o momento de distração.
Centenas
de idéias se atropelaram na mente de Tiff. Mas nenhuma delas era aproveitável.
Não
seria mesmo?
Tiff
se inclinou para a esquerda. Pelo canto do olho viu a separadeira que, depois
de ter sido usada da outra vez, ficara parada junto à quarta repartição. Ela
poderia ser alcançada com a mão. Estendeu cuidadosamente a mão em direção ao
instrumento, procurando manter a mão oculta atrás das costas de Hump.
“Se você ainda não sabe que é muito perigoso
ter diante de si dois inimigos colocados um atrás do outro, o azar é seu,
saltador”, pensou.
—
A resposta é simples — respondeu Hump.
Quem
o conhecesse notaria o nervosismo que vibrava em sua voz.
“Bem feito, Hump”, pensou Tiff. “Aqui está a chave!”
A
chave foi ligada com um ligeiro estalo. O aparelho zumbiu e subiu velozmente
pelo trilho.
O
saltador estremeceu e olhou para o lado. Tiff deu um passo ligeiro para a
direita, levantou a arma e disparou.
O
saltador teve morte imediata.
Por
alguns segundos Tiff e Hump ficaram imobilizados.
—
Vamos dar o fora! — exclamou Tiff, que foi o primeiro a recuperar o
autocontrole.
Abriram
a escotilha com o maior cuidado que seu estado nervoso permitia. O corredor
estava vazio.
Saíram
andando apressadamente.
Mais
uma curva... mais uma...
Ali,
gravada em caracteres intercósmicos, estava o número 78 sobre a enorme placa de
metal de uma grande escotilha.
Essa
escotilha foi tão fácil de abrir como as outras. Não havia a menor indicação de
que nesse depósito se encontrassem objetos muito importantes.
Tiff
esperara encontrar sentinelas antes ou depois da escotilha, mas não encontrou
ninguém. A mentalidade dos saltadores parecia não conhecer o temor do abuso da
mais terrível das armas jamais construída por eles.
A
sala era menor do que Tiff imaginara. As bombas, formadas por cilindros
metálicos de metro e meio de comprimento, com as pontas arredondadas, estavam
penduradas em fortes suportes de metal plastificado.
Tiff
fechou a escotilha. Observou Hump, que retirou cuidadosamente uma das bombas do
suporte e a segurou nos braços. Gemeu. Mas, ao se virar, sorriu:
—
Deve pesar uns setenta e cinco quilos. Mal e mal se consegue carregá-la.
Tiff
confirmou com um aceno de cabeça.
—
A esta hora Gucky devia entrar em ação — respondeu.
* * *
Gucky,
dotado de uma série de capacidades parapsicológicas, ajudara o cadete Eberhardt
a realizar um salto elegante que o conduziu a bordo da Etz XXI. Gucky
deslocou-o da mesma forma pela qual transportara, poucos dias antes, os volumes
de carga retirados da Z-13, que fizera pousar na superfície do planeta Homem de
Neve: através da teleportação.
Eberhardt
pousou na galeria do hangar das naves-patrulha e se escondeu num dos boxes
vazios. Gucky surgiu logo atrás dele, anotou em sua mente a posição do
esconderijo e voltou a desaparecer.
Eberhardt
representava a força de reserva que Gucky lançaria na luta, se as
circunstâncias o exigissem. Conhecendo seu esconderijo, poderia chamá-lo a
qualquer hora.
Por
outro lado, se alguma coisa acontecesse com Gucky, para Eberhardt seria
relativamente fácil se apoderar de uma das naves-patrulha e deixar a Etz XXI
sem correr maiores riscos.
Por
enquanto, Gucky tinha certeza de que não teria maiores problemas em alcançar o
objetivo a que se propusera.
Quando
voltou a se rematerializar, viu-se numa sala separada apenas por uma parede
fina da sala de comando da Etz XXI. Por entre a profusão de pensamentos que
investiram sobre sua mente, a maioria deles nervosos e cheios de temor, logo
conseguiu identificar os impulsos de Etztak.
* * *
Enquanto
estava dando vasão a um acesso de fúria, Etztak sentiu de repente que alguma
coisa estranha e inexplicável parecia agarrá-lo. Surpreso, calou-se. Por um
instante procurou definir a sensação que se apoderava dele. O medo surgiu em
seu espírito.
Quis
gritar, e realmente o fez. Mas quando soltou o grito, já não se encontrava na
sala de comando. Não percebera o menor movimento. Parecia que alguém afastara
uma cortina que se encontrava bem diante de seu rosto, fechando outra logo
atrás de sua cabeça.
Etztak
reconheceu a sala em que se encontrava; ficava junto à sala de comando.
Mas
não sabia como fora parar ali.
Nenhuma
das pessoas que se encontravam na sala de comando quebrou a cabeça sobre o
desaparecimento do velho. Primeiro, todos sentiram o silêncio repentino como
uma coisa benfazeja. Depois, enquanto os oficiais se inclinavam sobre suas
mesas, dedicando-se ostensivamente a várias espécies de trabalho, o comandante
se encontrava próximo a várias escotilhas. Era bem possível que tivesse saído
da sala sem que ninguém o notasse.
Gucky
não sabia nada disso. Apenas fazia votos de que fosse assim.
Etztak
interrompeu o grito quando viu o pequeno ser peludo à sua frente, sentado em
cima da mesa. Apoiado sobre as patas traseiras, mantinha o corpo erguido e
segurava um radiador de impulsos térmicos na mão direita.
Nos
últimos anos ninguém jamais vira o velho Etztak tão perplexo como naquele
instante.
—
Controle-se! — entendeu Etztak. — Preciso falar com você.
A
falta de respeito com que essas palavras lhe foram dirigidas fez com que Etztak
recuperasse a consciência. Pretendeu esbravejar; mas aquele ser estranho não
lhe deixou tempo para isso. E explicou por quê.
—
Tudo que temos que fazer — explicou a Etztak — tem de ser feito depressa. Dois
dos meus homens se encontram a bordo da Horl VII e, por causa do alarma que
você mandou dar, não estão em condições de sair sem serem molestados.
Gucky
extraiu a informação sobre o alarma da própria consciência de Etztak.
O
rosto de Etztak se contorceu numa careta zombeteira.
—
Você fará com que nada lhes aconteça quando saírem da nave — prosseguiu Gucky.
Etztak
riu.
—
E se eu me recusar? — perguntou.
—
Nesse caso farei com que a Horl, a Etz e a Orla voem pelos ares, juntamente com
todo o planeta.
O
rosto de Etztak se tornou sério.
—
Como?
Gucky
soltou um assobio estridente.
—
Pelo mesmo meio que você pretendia usar: as bombas arcônidas.
Etztak
estremeceu.
—
Nesse caso você e sua gente também voarão pelos ares.
—
Isso mesmo — respondeu Gucky laconicamente. — O resultado compensa o
sacrifício.
Gucky
percebeu que Etztak procurava encontrar uma saída. O velho também estava
interessado em prolongar as negociações para ganhar tempo.
—
Vamos logo! — insistiu Gucky e levantou o radiador de impulsos térmicos,
fazendo com que o mesmo apontasse por cima do ombro de Etztak. Apertou o
gatilho e disparou um tiro ligeiro com um fraco desempenho energético contra a
parede.
Etztak
recuou, apavorado, e levantou as mãos.
—
Não faça isso! — gemeu. — Farei o que você quiser.
No
momento, constatou Gucky, o velho estava falando a sério.
—
Darei ordem para que o alarma de busca seja suspenso a bordo da Horl — sugeriu
Etztak.
Gucky
recusou a sugestão, não porque acreditasse que o velho estava tramando algum
truque, mas porque sabia qual seria a confusão e a insegurança causada por duas
ordens contraditórias dadas com um breve intervalo.
—
Você ordenará que a Horl entre em rigorosa prontidão de combate. Cada homem
ocupará seu posto. As sentinelas ficarão em posição de reserva. Entendido? E
você dará a ordem daqui mesmo.
Etztak
hesitou. Gucky voltou a levantar a arma. Com isso a resistência do velho
desmoronou.
Dirigiu-se
ao intercomunicador e levantou o microfone. Gucky sentou num lugar em que não
pudesse ser visto pelo receptor e avisou a Etztak que atiraria se este dissesse
uma única palavra errada.
* * *
Por
alguns minutos o soalho da sala tremera sob os numerosos pés que passaram
correndo pelo corredor.
Mas
subitamente o silêncio voltou a reinar.
Logo
receberam a breve mensagem de Gucky:
—
Caminho livre.
Tiff
abriu a escotilha. Hump cambaleou pela abertura. Tiff fechou cuidadosamente a
escotilha e saiu correndo atrás de Hump, para ajudá-lo a carregar a bomba.
A
Horl estava em rigorosa prontidão de combate. Isso significava que ao menos nas
proximidades dos depósitos não havia ninguém.
Chegaram
ao elevador de carga sem serem molestados. Era o mesmo pelo qual haviam subido
meia hora antes.
Com
um suspiro, Hump deixou-se cair para a frente juntamente com a bomba, a fim de
que o campo antigravitacional do elevador o sustentasse. Foi descendo pelo
poço. Tiff seguiu-o.
—
Pare no segundo andar! — ordenou.
Na
altura do convés número dois, Hump empurrou-se contra a parede, a fim de
atingir em tempo a saída do poço.
—
Ande ao menos cinqüenta metros a partir daqui — ordenou Tiff.
O
corredor estava vazio. Tiff decifrou o letreiro de uma das escotilhas.
Constatou que nessa área da nave havia um espécie de hospital.
Se
o plano de Gucky fora bem sucedido, os compartimentos situados atrás dessas
escotilhas deviam estar cheios de saltadores, mas nenhum deles sairia para o
corredor sem ser chamado.
Hump
seguiu cambaleante pelo corredor.
Os
letreiros das escotilhas mudavam constantemente.
—
Laboratório de análises de alimentos — leu Tiff.
—
Vamos entrar aqui!
Encontravam-se
numa nave mercante.
Mas
mesmo as naves mercantes dos saltadores dispunham de algum armamento, e Tiff
sabia que em caso de alarma cada um tinha seu posto bem definido. Naquela hora
não haveria nenhum saltador no laboratório destinado à análise de alimentos.
Realmente
a sala estava vazia. O laboratório era grande e estava cheio de instrumentos dos
tipos mais variados. Seguindo as instruções de Tiff, Hump colocou a bomba de pé
nas proximidades do pequeno aparelho de hidratação, formado de quatro
recipientes cilíndricos. Ao lado desses cilindros a bomba não daria na vista.
—
Regule o detonador para vinte minutos! — ordenou Tiff.
Ajudou
Hump na regulagem. O detonador da bomba era um mecanismo relativamente simples.
—
Pronto! — fungou Hump. — Vamos dar o fora!
Voltaram
ao poço do elevador e desceram ao convés dos hangares. Correndo apressadamente,
mas sem o menor barulho, atravessaram a galeria e se dirigiram à escotilha
interna da comporta, onde ficava a sala do chefe dos hangares.
Num
estado de alarma total a informação habitual não era suficiente para que o
chefe dos hangares liberasse uma das naves pequenas.
O
homem estava sozinho com seu assistente. Tiff e Hump penetraram na salinha sem
que ninguém os percebesse. Só depois de terem entrado, o chefe dos hangares
percebeu que se tratava de criaturas estranhas; o assistente nem chegou a
percebê-lo. Com um golpe bem dado na região do pescoço de seu traje espacial,
Tiff colocou o assistente fora de combate. Hump correu para o outro lado da
escrivaninha e derrubou também o chefe dos hangares, antes que este pudesse
esboçar qualquer defesa ou pedir socorro.
Tiff
já se encontrava a caminho. Com dois passos rápidos se colocou junto ao enorme
painel e puxou duas chaves grandes, assinaladas em vermelho.
—
A escotilha interna está aberta — gritou para Hump. — Tire a nave.
Hump
saiu correndo. Poucos instantes depois o vulto em forma de lentilha de uma das
naves-patrulha saiu da galeria do hangar, deslizou pela escotilha aberta,
entrando no pavilhão, e parou.
Uma
janelinha se abriu. Tiff subiu de um pulo, segurou a abertura com as mãos
firmes e entrou na nave.
—
Vamos adiante!
Hump
acelerou a nave. Atravessaram a enorme comporta e chegaram à escotilha externa
no momento exato em que a escotilha interna se fechou, enquanto a primeira se
abria, obedecendo ao comando que Tiff dera no painel de comando.
A
navezinha disparou para fora, deixando a Horl para trás. Tiff soltou um grito
de surpresa quando viu que a grande nave se encontrava a menos de dez
quilômetros da superfície do planeta Homem de Neve.
Dali
a alguns minutos a manobra de pouso estaria concluída.
Tiff
ligou o transmissor de capacete para o alcance máximo.
—
Tudo em ordem — anunciou segundo haviam combinado. Olhou para o relógio. — X
menos doze minutos.
* * *
Gucky
assobiou, satisfeito, quando recebeu o aviso.
—
Está bem — disse, dirigindo-se a Etztak. — Meus homens já estão em liberdade.
Quero lhe dizer mais uma coisa.
Etztak
aguçou o ouvido.
—
Eles esconderam uma bomba atômica a bordo da Horl — prosseguiu Gucky. — Ou,
mais precisamente, em algum lugar a bordo da Horl. O detonador foi regulado
para vinte minutos. Desses vinte minutos já se passaram nove. Quer dizer que a
Etz e a Orla dispõem de onze minutos para sair desta área. E a tripulação da
Horl dispõe do mesmo tempo para subir a bordo das naves-patrulha e de
salvamento e se colocar em segurança.
Não
disse mais nada. Desapareceu no mesmo instante. Mas tinha certeza de que Etztak
daria a devida atenção à sua advertência.
Sem
perder tempo, Gucky surgiu bem à frente do esconderijo de Klaus Eberhardt. Este
saltou do boxe e desceu pelo elevador antigravitacional. Dois boxes adiante,
Gucky descobriu uma nave-patrulha que estava em condições de decolar. Saltou
para dentro da mesma, dirigiu a nave para a galeria e pediu que Eberhardt
entrasse, depois que tinha transmitido ao chefe dos hangares os dados
costumeiros sobre a retirada da nave-patrulha, pedindo-lhe que abrisse as duas
escotilhas da comporta.
Por
alguns segundos, Gucky receou que o velho Etztak se recuperasse com demasiada
rapidez do susto por que passara, e ordenasse ao chefe dos hangares que não
abrisse as escotilhas.
Mas
o receio não teve fundamento. As escotilhas se abriram, e a pequena nave
disparou com a aceleração máxima para o frio da manhã cinzenta.
Quase
no mesmo instante, a nave de Tiff e Hump entrou em contato com eles.
—
Vamos voltar à caverna de Moisés! — ordenou Gucky.
* * *
O
vôo não durou mais que alguns minutos. Gucky aproveitou o breve intervalo para
informar os cadetes do que poderia acontecer se o plano não funcionasse
conforme haviam previsto:
—
A possibilidade que envolve maiores riscos — soou a voz chiante de Gucky nos receptores
da nave em que iam Hump e Tiff — é a de que os tripulantes da Horl localizem a
bomba antes da explosão e consigam desativá-la. Mas, se considerarmos o fato de
que uma nave como a Horl tem um total de cinco mil salas, a possibilidade de
que a bomba venha ser encontrada nos próximos onze minutos é muito remota.
Existe outra possibilidade. Talvez Etztak acredite que minha ameaça não passa
de um truque, e não dê atenção à mesma. Nesse caso a Horl, a Etz e a Orla serão
destruídas por completo. Estão tão próximas uma da outra que nenhuma delas
sobreviveria à catástrofe.
“A
terceira possibilidade é esta: Etztak pode tomar conhecimento do aviso que lhe
dei, levará as duas naves para fora da área de perigo e mandará evacuar a Horl,
enviando, porém, grupos de busca atrás de nós. Nesse caso teremos que nos
defender.
“De
qualquer maneira, não devemos permanecer por muito tempo na caverna de Moisés.
Temos que ir a outro lugar; assim que Etztak se tiver recuperado do choque,
sairá à nossa procura. Dispomos de duas naves. Se necessário, cada uma delas
poderá levar três pessoas. Isso será suficiente, desde que eu me desloque
através da teleportação. Apenas teremos que realizar um vôo de volta à caverna
para buscar a bagagem que deixamos lá.
“No
momento é só o que temos a tratar. Façamos votos de que a bomba não seja
descoberta.”
* * *
Pouco
antes do pouso, os instrumentos registraram grande movimentação. Duas naves de
grande porte se levantaram da superfície do planeta e dispararam espaço afora;
e de uma terceira, que descia devagar, saíam pontos minúsculos que, segundo
tudo indicava, estavam empenhados em se afastar o mais possível da nave.
O
plano fora bem sucedido. Ninguém encontraria a bomba.
No
momento do pouso, um choque repentino fez estremecer o solo.
A
bomba existente a bordo da Horl VIII acabara de explodir.
Não
havia a menor dúvida de que a detonação da bomba reduzira a orgulhosa nave dos
saltadores a uma série de fragmentos moleculares e atômicos. O detonador estava
regulado para ativar os elementos artificiais, produzidos constantemente pelos
reatores de fusão de uma nave espacial.
Quando
sentiu o solo estremecer, Tiff reteve a respiração por um instante. Ninguém
percebeu, com exceção talvez de Gucky.
Mas
Gucky não disse nada, e Tiff se sentiu grato por isso.
Tiff
teve a mesma sensação de quem vê cair um avião, sabendo que o mesmo tem bombas
atômicas a bordo. Deteve a respiração, esperando que as mesmas detonassem no
momento do impacto. Mas isso não aconteceu, porque a detonação de uma bomba
atômica exige um mecanismo complicado; uma pancada, por mais forte que seja,
não basta.
O
homem deteria a respiração, mesmo que soubesse exatamente como funciona uma
bomba atômica.
Tiff
encontrava-se nessa situação. Sabia que uma bomba arcônida não explode pelo
simples fato de que outra bomba do mesmo tipo é detonada perto dela. O
mecanismo de detonação era bastante complicado. Uma das bombas explodiria, mas
a outra apenas seria despedaçada, reduzida a pó, mas não liberaria sua energia.
Apesar
disso, Tiff receara que a explosão de uma bomba provocasse a detonação de todo
o arsenal da Horl VII. Uma vez que a Horl se encontrava a apenas um ou dois
quilômetros do solo, isso significaria o fim do planeta Homem de Neve.
Mas
nada disso aconteceu.
* * *
As
moças foram colocadas nas naves auxiliares, juntamente com o incansável Moisés.
O robô anunciou que nada de extraordinário acontecera nesse meio tempo.
As
moças estavam curiosas. Mas Gucky fez questão de que seu pessoal saísse quanto
antes da área de perigo.
Combinou
com os pilotos das duas naves — Eberhardt e Tiff — o ponto de encontro, situado
três mil quilômetros ao sul. Imediatamente as naves se puseram a caminho.
Gucky
saltou no momento em que as perdeu de vista e no mesmo instante chegou ao local
de encontro.
Teria
que aproveitar o tempo.
Perry
Rhodan aguardava informações.
* * *
—
Gucky está chamando — disse John Marshall.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
—
Pode começar.
Marshall
parecia escutar para dentro de si mesmo. Cerca de dois minutos se passaram.
Depois levantou a cabeça e disse:
—
Gucky e os cadetes estiveram em perigo de serem mandados para os ares
juntamente com o mundo em que se encontram. Conseguiram remover o perigo
através de uma ação de emergência. Uma nave inimiga foi destruída. Gucky se
esforçou para reduzir ao mínimo as vítimas fatais, advertindo o inimigo do
desastre iminente.
—
Muito bem! — exclamou Rhodan. — Prossiga.
—
Durante essa missão de emergência, Gucky conseguiu extrair dados da maior
importância da mente do comandante da maior das naves dos saltadores.
“Primeiro:
Tudo que até aqui foi feito contra a Terra partiu de uma única nave, a Orla XI,
a mesma que prendeu Tifflor e a Good Hope-IX. Só nos últimos dias, quando tudo
indicava que o comandante da Orla não conseguiria vencer as dificuldades
sozinho, chamou as naves de guerra.”
“Segundo:
Os agentes que o comandante da Orla XI colocou na Terra são robôs especiais...”
Marshall
fez uma pausa.
—
Então é isso! — murmurou Rhodan. — Não foi por menos que meus telepatas não conseguiram
descobrir nenhum dos agentes do inimigo.
Marshall
prosseguiu:
—
Os robôs têm aspecto humano e só podem ser reconhecidos pelas radiações
diminutas dos seus motores de fusão.
—
Muito bem! Excelente! — interveio Rhodan.
—
E mais: Os saltadores ainda não sabem exatamente o que devem pensar da Terra e
da civilização nela reinante. Têm a impressão de que as informações colhidas
pelos robôs e os dados obtidos através das naves aprisionadas se contradizem...
—
Não é de admirar! — disse Rhodan com uma risada.
—
Por isso prevalece entre eles a opinião de que a Terra e seus habitantes devem
ser submetidos a um exame mais detido. Se constatarem que a civilização
terrestre é subdesenvolvida, pretendem fazer da Terra um entreposto comercial.
Mas, se a raça humana estiver aproximadamente no mesmo nível dos saltadores,
deve ser punida por ter infringido o monopólio reivindicado pelos saltadores, realizando
por conta própria o comércio interestelar.
Rhodan
ainda estava rindo.
—
Isso não será nada fácil! — disse.
Depois
transmitiu suas informações a Gucky.
—
Dentro de poucas horas a Stardust-III deixará o setor de Beta-Albíreo. A Terra
e a Solar System permanecerão aqui.
Achamos
necessário que a Stardust-III seja equipada com novos armamentos, que lhe
permitam vencer as naves inimigas nesse setor sem depender de reforços. A
Stardust-III ficará fora por um máximo de quatro semanas. A Terra e a Solar
System deverão reter o inimigo no setor de Beta-Albíreo, inflingindo-lhe perdas
e dando às pessoas que estão executando seus trabalhos no Homem de Neve todo o
apoio que esteja ao seu alcance. Ao menos um telepata ficará a bordo de uma das
naves.
“Gucky
e seus cadetes procurarão colher novas informações junto aos saltadores. Quanto
ao mais, terão todo o cuidado para não cair nas mãos do inimigo.”
Marshall
traduziu fielmente essa mensagem.
—
Fim! — acrescentou Rhodan.
* * *
As
naves auxiliares chegaram dali a poucos minutos.
Pousaram
junto ao rato-castor. Moisés foi o primeiro que apareceu. Depois desceram as
moças, e finalmente os cadetes.
A
primeira coisa que Tiff fez foi examinar o termômetro.
—
São apenas oitenta graus negativos — murmurou, espantado. — Aqui é muito mais
quente.
—
Estamos praticamente no equador — explicou Gucky.
Gucky
esperara-os no interior de uma espécie de vale. Tratava-se de uma baixada
circular de cerca de cem metros de diâmetro, circundada por uma série de suaves
colinas brancas, cujos cumes ficavam de cinqüenta a cem metros acima do fundo
do vale.
Pela
escolha do esconderijo, até se poderia pensar que Gucky já estivera no planeta
Homem de Neve.
Na
encosta norte de uma das colinas situadas ao sul, abria-se um buraco da altura
de um homem. Gucky já o examinara, constatando que se tratava da desembocadura
de um túnel que penetrava bem longe abaixo das colinas.
—
É um esconderijo feito pela natureza — explicou Gucky. — Naturalmente teremos
que fechar a entrada para que não seja vista logo. Além disso, será necessário
abri-la mais, para que as duas naves caibam no túnel. Acredito que depois disso
será bem difícil que os saltadores nos encontrem.
Logo
se puseram a trabalhar. Apenas Tiff voltou mais uma vez à caverna que Moisés
abrira na rocha, para salvar a parte da bagagem de Gucky que haviam deixado
para trás na sua fuga precipitada.
Tiff
sabia que os objetos mais importantes haviam sido salvos. Entre eles
encontravam-se as peças de uma usina de força em miniatura, que supriria seu
novo esconderijo de luz e calor em abundância. Ainda havia armas e mantimentos.
Por fim, um potente transmissor de hipercomunicação, juntamente com o receptor
e os acessórios destinados às transmissões piratas, integrações de freqüências
e outros truques de que costuma se valer um agente que se encontra em pleno
território inimigo.
Quando
Tiff regressou, Moisés já havia ampliado a abertura do túnel a tal ponto que as
naves auxiliares poderiam entrar sem qualquer dificuldade. Uma vez que
estivessem cobertas pela colina, a trinta metros da boca do túnel, ninguém mais
as descobriria.
O
alojamento propriamente dito foi instalado mais ao fundo, aproximadamente embaixo
do ponto mais alto da colina.
A
usina de força não demorou a ser instalada. Naquele lugar as paredes não eram
feitas de gelo — que em todos os outros pontos da superfície do Homem de Neve
cobria o solo até uma altura de pelo menos vinte metros — mas de rocha fria e
brilhante. Moisés alisou as paredes por meio de um radiador de impulsos
térmicos e, com uma rapidez espantosa, construiu cinco recintos contíguos.
Só
depois disso, Gucky se dispôs a informar os cadetes e as moças sobre as
instruções de Rhodan.
Depois
de ouvir tudo, Hump suspirou. Até parecia que já havia recuperado seus traços
de caráter primitivo a ponto de pretender soltar uma de suas observações
mordazes.
Mas
Tiff se adiantou, dizendo:
—
Poderemos agüentar perfeitamente por quatro semanas.
Gucky
concordou e Hump olhou para o chão.
—
Há mais uma coisa — disse Gucky depois de algum tempo. O tom de sua voz era tão
estranho que todo mundo prestou atenção. — Todo o tempo estou captando por via
telepática uma estranha irradiação. Parece que nas proximidades há uma pessoa
que está inconsciente ou adormecida. Gostaria de saber o que vem a ser isso. Se
os saltadores nos deixarem em paz por algum tempo, procurarei descobrir.
* * *
Os
saltadores deixaram-nos em paz. Nenhuma nave daquela raça apareceu nas
proximidades de seu novo esconderijo. Ninguém saberia dizer se isso acontecia
porque Etztak havia suspendido temporariamente as buscas, ou porque os
saltadores ainda não tinham dado com a nova pista.
Afinal,
o que realmente importava era que tivessem sossego.
De
início Gucky se empenhou profundamente na busca do emissor dos impulsos
sonolentos. Mas constatou que não havia como fazer a localização goniométrica
do mesmo. Os impulsos chegavam de forma difusa, vindos de todas as direções.
Depois
de algumas tentativas frustradas de localizar a fonte desses fluxos de idéias,
o interesse arrefeceu. As buscas foram suspensas.
Hump
recuperara suas características primitivas. Dispunha de nova frente de ataque
contra Tiff: Mildred Orson dedicava-lhe uma preferência inequívoca. Hump se
aborreceu com isso, sem perceber que, de outro lado, Felicitas Kergonen
entretinha um interesse idêntico por ele.
Hump
zombava de Tiff, e Tiff zombava de volta, sem que Hump percebesse o motivo.
Isso
até que Klaus Eberhardt dissesse um belo dia:
—
Se fosse burro como você, Hump, eu me trancaria num quarto e nunca mais abriria
a boca.
Gucky
se divertiu com as brigas dos cadetes. Bem que aqueles jovens precisavam de uns
dias de descanso, durante os quais pudessem se preocupar com seus problemas
particulares. O novo golpe de Etztak não tardaria a chegar.
* * *
* *
*
A Terceira Potência possui corajosos representantes no sistema de
Beta-Albíreo. Os cadetes liderados por Julian Tifflor, agora auxiliados por
Gucky, conseguem impor, de seu esconderijo no planeta gelado, um sério
obstáculo aos saltadores. Mas os saltadores já dispõem de vários espiões na
Terra; e entre eles se encontra. O Imperador de Nova Iorque.
O Imperador de Nova Iorque é também o título do próximo volume
da série Perry Rhodan.

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