segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-033 - Mundo de Gelo em Chamas - Clark Darlton [parte 2]


— Vejam só! Existe vida neste mundo de gelo. Plantas de verdade.
— São apenas algas — disse Milly com um certo desprezo, mas a botânica logo objetou.
— As algas também são plantas, Milly. Constituem o estágio inicial da vida. A partir deles tudo se forma, desde que disponham de tempo.
De repente Gucky surgiu em meio ao grupo, vindo do nada. Transferira-se para lá por meio da teleportação. Provavelmente tivera muita preguiça para percorrer todo o trecho em suas perninhas curtas.
— As algas tiveram tempo de sobra — disse num tom estranho. — Deram origem a outras formas de vida, e de vida inteligente.
Vamos voltar à caverna, que eu lhes mostrarei.
— Vida inteligente? — disse Tiff, esticando as palavras. — Será que você localizou os chamados sonâmbulos?
— Vocês ficarão admirados — disse Gucky animadamente. — São criaturas formidáveis — e além de tudo são telepatas. Quase diria que são hipno-telepatas, pois seus pensamentos transmitem-se por força dum comando irresistível àquele a que se dirigirem.
— O que significa isso? — indagou Tiff e sentiu que seus cabelos se arrepiavam.
Teve a mesma sensação que costumava apossar-se dele nos tempos em que o avô lhe contava, nas horas de crepúsculo, as conhecidas histórias de fantasmas. — São hipno-telepatas?
— Enquanto pensam, podem influenciar o espírito de outros seres. Mas não se preocupe, Tiff; são inofensivos. Têm medo dos saltadores.
— E eles sabem alguma coisa a respeito dos saltadores? — disse Tiff num espanto sempre crescente. — Como chegaram a tomar conhecimento da existência deles?
— Os sonolentos dispõem dum estranho poder de adivinhação. Captaram pensamentos de ódio vindos do espaço. Só podem ser os pensamentos dos saltadores. Nossa presença não os incomoda, pois sabem que não pretendemos fazer-lhes nenhum mal. Mas têm medo dos saltadores, e não confiam em suas intenções. Vocês se admirarão — repetiu Gucky. — Mas vamos à caverna. Ou será que vocês têm tanta preguiça como eu?
Resmungando, Tiff pôs-se em movimento. Milly e Felic seguiram-no. Esta última lançou mais um olhar para as algas que cresciam na margem do riacho e resolveu que mais tarde voltaria a visitar o estranho planeta.
Gucky desapareceu. Esperou-os no interior da caverna, onde reinava um calor agradável — e um cheiro também agradável de comida preparada.
Hump levantou os olhos quando o grupo entrou.
— Está na hora. A comida está pronta.
Excepcionalmente Eberhardt conseguiu fazer alguma coisa de útil. Desembrulhou os alimentos concentrados.
— Se não fosse eu, o molho teria queimado — disse Eberhardt, defendendo-se da acusação de Hump. — Esse sujeito não sabe fazer outra coisa senão falar, e o que fala são apenas mentiras.
Gucky farejou o ar e soltou um gemido de gozo.
— Sugiro que comamos logo. Os sonolentos não vão fugir. Por enquanto não.
— Poderão fugir mais tarde? — perguntou Tiff, que não soube dominar a curiosidade.
Gucky fez que sim.
— Mais tarde, na primavera. Daqui a cinqüenta anos aproximadamente.
Tiff lançou um olhar demorado para o rato-castor. Seu rosto matreiro não permitia qualquer conclusão sobre se estava brincando ou não.
RB-013 mantinha-se imóvel num canto, irradiando um calor agradável. A lâmpada alimentada pela energia inesgotável do reator arcônida espalhava sua luz. Se não fosse o robô, a vida seria menos agradável.
Sentaram sobre as caixas emborcadas e comeram. Os mestres-cucas, Hump e Eberhardt, receberam os elogios merecidos e logo discutiram a respeito de a quem cabia o maior mérito.
Foi nesse momento que Felic arriscou o primeiro ataque de frente.
— Hump, você cozinhou uma sopa gostosíssima — disse, lançando-lhe um olhar de admiração. — Eu não saberia fazê-la tão gostosa.
Hump sempre era acessível a um elogio. Enrijeceu o corpo e lançou um olhar de advertência para Eberhardt. Com um aceno de cabeça, prometeu:
— Quando eu for casado, minha mulher não precisa cozinhar.
Tiff fez uma careta.
— Você cozinhará no lugar dela? — perguntou.
— Claro que sim!
— Ah, é? E sua mulher sairá para trabalhar?
Por pouco Hump não engasga.
— Por quê?
Tiff sorriu.
— Homem, você nem desconfia dos problemas que uma dona-de-casa tem que enfrentar. Pergunte a Milly. Quando for casada, não terá outra coisa a fazer senão cozinhar. Não mandarei na cozinha, mas em compensação vou ganhar dinheiro.
O rosto de Hump foi tão estúpido que Gucky soltou uma gargalhada tão aguda que até fez tremer a lâmpada do robô. Ninguém deu atenção à reação emotiva da máquina eletrônica, pois todos concentravam suas atenções em Hump.
O cadete da frota espacial empalideceu, mas depois seu rosto se tornou vermelho como um tomate. Passou os olhos de um companheiro para outro, mas só se defrontou com expressões de expectativa; todos demonstravam um vivo interesse no desenrolar dos acontecimentos.
Finalmente seus olhos pousaram em Milly.
— É verdade, Milly? Você quer casar com ele?
A moça confirmou com um aceno de cabeça. Uma mecha de cabelo negro caiu em sua testa.
— Você não sabia?
Hump engoliu em seco.
— Como poderia saber?
Milly exibiu um sorriso ingênuo.
— Mesmo que amasse você, não tiraria o preferido de outra moça. Ainda mais quando sei que essa moça gosta de você de todo coração, mas você é tão estúpido que não percebe nada.
O rosto de Hump tornou-se talvez ainda mais estúpido. Tiff teve de esforçar-se para reprimir o riso. Felic parecia confusa. Seu rosto alternava entre o vermelho e o pálido. A colher que segurava na mão tremia fortemente. Eberhardt era o único que não parecia interessado no que se passava em torno dele. Continuava a devorar tranqüilamente a sopa e vez por outra soltava um gemido satisfeito, o que fez com que o rato-castor lhe tocasse o pé às escondidas, para lembrar-lhe as boas maneiras à mesa.
— Há uma moça que me ama? — gaguejou Hump depois de algum tempo, totalmente confuso.
— Isso mesmo. É uma coisa que você não pode compreender, não é? — disse Milly em tom provocador. — Asseguro-lhe que essa moça não sou eu.
O olhar de Hump caiu sobre Felic, que parecia muito confusa e não contara com esse auxílio. Abaixou a cabeça quando Hump a olhou.
— É verdade, Felic? — cochichou Hump.
Felic confirmou com um aceno de cabeça.
Foi quando a paciência de Gucky estourou.
— Os humanos são criaturas estranhas! Será que vocês têm de escolher justamente a hora do almoço para tratar de assuntos de família? Até parece que não temos outros problemas.
Tiff apontou para a panela colocada sobre a caixa emborcada que servia de mesa.
— Para quanta coisa não pode servir uma boa sopa — disse, lançando um olhar de gratidão para Milly. — Se você não tivesse dado uma dica tão clara, Hump nunca teria descoberto. Compreende com muita dificuldade. E Felic é muito tímida. Pelo menos este problema está resolvido. Será que temos uma sobremesa?
Eberhardt desertou do cochilo costumeiro.
— Sobremesa? — resmungou. — Será que vocês têm de empanturrar-se toda vida?
Tiff levantou-se.
— Foi apenas uma pergunta singela. O que vamos fazer agora, Gucky?
O rato-castor, que já se acostumara ao alimento dos humanos, embora preferisse uma cenoura, mostrou o dente roedor e passou as patas pela barba. Só faltava ronronar.
— Depois da refeição um passeio faz milagres — disse. — Quem ficará por aqui?
Ninguém se dispôs a ficar. Gucky sorriu.
— Muito bem; vamos todos. Aconselho que usem botas de borracha e roupa velha.
O caminho é muito difícil e úmido. Voltaremos sujos que nem uns porcos.
Eberhardt franziu a testa.
— Eu devia lavar a louça... — principiou.
— Pelo que vejo, você quer escapar às canseiras da marcha — disse Gucky com uma expressão de recriminação. — Pois bem, sempre tem que haver alguém que leva a vida melhor que os outros. De acordo, Eberhardt.
Tiff olhou em torno para descobrir a roupa que devia vestir, mas Gucky segurou seu braço. Não compreendeu logo o que estava acontecendo, mas subitamente viu-se transportado a mais de cem metros em direção ao fundo da caverna. Poucos segundos depois surgiram Hump e as moças. Preferiu aguardar as explicações de Gucky.
O rato-castor apontou com um gesto triunfante em direção à fraca luminosidade, de onde vinha o ruído inconfundível da água. Um prato de lata tilintava.
— Afinal, alguém tem que deixar as coisas em ordem — disse. — Vocês acham que eu teria que lavar a louça mais uma vez? Não se preocupem, o caminho não é difícil. Tiff, você trouxe a lanterna?
— É claro, seu espertalhão. Nunca ando sem ela.
— Muito bem. Daqui em diante podemos andar. Não é longe. A passagem não ficará mais estreita. Os sonolentos usam-na durante a primavera, quando vão à superfície.
— Eles podem ir à superfície? — perguntou Milly, arregalando os olhos. — Afinal, o que são?
— Felic terá um interesse todo especial por eles — prognosticou Gucky sem mostrar-se disposto a fazer outras revelações.
Milly sacudiu a cabeça.
— Felic é uma botânica, Gucky. Reconheço que é uma ciência estreitamente ligada à zoologia, mas...
— Vocês ficarão admirados — disse Gucky e saiu balançando o corpo. A cauda larga desempenhava as funções dum leme, ajudando-o a andar ereto como um homem. Ajudava-o a manter o equilíbrio e servia-lhe de apoio toda vez que parava. — Cuidado para não bater com a cabeça. A passagem é boa para andar, mas de vez em quando há uma rocha saliente. Os sonolentos não são maiores que eu.
— Por que você os chama de sonolentos? — perguntou Tiff. — Ao menos isso você pode contar.
— Poderia — disse Gucky com um sorriso matreiro. — É que eles dormem, mas ao mesmo tempo não dormem. O corpo dorme, mas o espírito continua acordado. Será que vocês ainda não sentem nada?
— Você acha que sabemos ler pensamentos? — perguntou Milly.
— Os sonolentos também sabem comunicar-se com seres que não sejam telepatas. Sua característica especial consiste justamente nisso. Avisem-me imediatamente quando sentirem alguma coisa estranha, alguma coisa... bem, alguma coisa diferente.
Felicitas parou.
— Estou com medo — disse.
Gucky Virou-se como se alguém tivesse mordido sua cauda.
— Está com medo, Felic? Você o sente claramente?
A moça parecia indecisa.
— Como posso sentir claramente o medo? Estou com medo, mais nada.
Hump pigarreou e segurou sua mão.
— Não tenha medo, meu bem. Estou ao seu lado.
Felicitas exibiu um sorriso corajoso. Tiff sorriu. Lançou um olhar significativo para Milly.
— Como esse monstro do Hump sabe ser gentil quando ama uma moça que combina com ele. Até já começo a sentir mais simpatia por você, Hump.
Hump resmungou alguma coisa que ninguém entendeu e dirigiu-se a Gucky:
— Então, onde é que estão dormindo suas lindas criaturas do gelo?
Gucky continuou na caminhada.
— Ainda veremos se são lindas. Afinal, nem todos têm o mesmo gosto — lançando um olhar de esguelha para Felicitas, acrescentou: — Ainda bem!

* * *

A frota dos superpesados aproximava-se da lua terrena.
Um tanto preocupado em virtude da palestra que mantivera com o homem que, segundo sua opinião, era o representante de Rhodan, Topthor instruiu seus comandantes a não tirarem os olhos dos instrumentos de localização. Manteve contacto ininterrupto com Grogham.
— Será que levaram a advertência a sério, Topthor? E se forem realmente fortes como afirmam? Se de fato houver outras naves além da de Rhodan, equipadas com o mesmo armamento? Não é impossível que nos tenhamos enganado...
— Tolice! — interrompeu-o Topthor. — Em hipótese alguma podemos admitir que alguém nos desafie. Onde chegaríamos se permitíssemos uma coisa dessas? Outros saberão e poderão ter alguma idéia estúpida, como por exemplo, aumentar seus direitos de exportação ou negociar por conta própria. Perderíamos nosso monopólio. Se não conseguirmos impor-nos, os mercadores estarão fritos — e nós com eles. Se não houver mais vôos em comboio para transportar mercadorias preciosas, não teremos mais nada a proteger.
Grogham não tirava os olhos da tela do rastreador.
— É claro que você tem razão, Topthor.
Acontece que isso não me deixa muito à vontade. Não me esqueci da rapidez com que Rhodan destruiu cinco das nossas naves.
Topthor não respondeu. As palavras que Grogham acabara de pronunciar chamaram-lhe à lembrança a primeira derrota sofrida em sua longa vida. Ainda não conseguira explicar como Rhodan conseguira destruir cinco de suas naves de guerra antes que começasse a batalha propriamente dita. Rhodan devia possuir uma arma que ninguém imaginava como seria. Atravessava os campos energéticos e desencadeava uma explosão fulminante no interior do objeto alvejado.
O grito de Grogham arrancou-o das reflexões.
— Ali, os terranos! A esfera-gigante dos arcônidas. Esses traidores aliaram-se aos terranos.
A Stardust-III aproximava-se a uma velocidade tresloucada e circulou a uma distância segura em torno da frota de Topthor. Por enquanto nada indicava que o ataque estivesse iminente.
Topthor lançou um olhar para os instrumentos.
— Mantenha o rumo inalterado, Grogham. Pousaremos no ponto prefixado. Não atacaremos. Vamos esperar que abram fogo.
Estava lembrado de que Rhodan não destruíra suas naves antes que estas o atacassem. Talvez o comandante desse veículo esférico tivesse as mesmas idéias.
Não poderia adivinhar que o comandante ainda se chamava Rhodan. E também não podia imaginar que este interpretava o próprio vôo em direção à Terra como uma agressão, e isso com o consentimento expresso do imortal, que lhe entregara o transmissor fictício.
A lua passou ao lado da nave. O globo verde-azulado da Terra aumentava rapidamente, pois Topthor ainda não mandara iniciar a manobra de desaceleração. As onze naves aproximavam-se implacavelmente do planeta que os mercadores galácticos pretendiam incorporar ao seu império colonial. Topthor não se sentiu muito surpreso quando uma voz potente superou todos os transmissores de bordo. Era a voz fria e dura que já conhecia. O sujeito aparentemente tão inflexível não podia ser outro senão o tal do Freyt.
— Topthor, eu o preveni. Afaste-se da Terra. Estamos dispostos a estabelecer relações comerciais de igual para igual com os mercadores galácticos, mas não concordamos em submeter-nos às condições ditadas por vocês.
— Quando tivermos chegado à Terra, negociaremos — respondeu Topthor, que não se sentia muito à vontade. — Nossas armas não falarão, a não ser que vocês nos obriguem a agir de outra forma.
— Ninguém mata as galinhas cujos ovos quer colher, Topthor. O ato de vocês só é pacífico na aparência. Previno-o pela segunda vez. Você dispõe de trinta segundos.
Topthor fitou a Terra, que continuava a aumentar. Já distinguia os continentes e via as grandes cidades, as vias de comunicação que emitiam um brilho branquicento, o cintilar das vias férreas, as extensas áreas cultivadas. Lá embaixo havia uma civilização, negociava-se e ganhava-se dinheiro.
Entesou-se.
— Por que não concordam em negociar na Terra?
— Temos motivos para isso, especialmente motivos de ordem tática. Além disso, há uma questão de princípio — é claro que Rhodan não poderia revelar que havia muitos outros motivos pelos quais em nenhuma circunstância se poderia permitir que os saltadores pousassem na Terra. O planeta ainda não alcançara a unificação oficial e ainda não possuía uma frota espacial que lhes permitisse rechaçar eventuais ataques desfechados pelas civilizações galácticas. Por enquanto o poder da Terra repousava no blefe. A Stardust-III era o único couraçado de verdade de que Rhodan podia dispor. — Previno-o pela última vez, Topthor, volte antes que seja tarde. Só faltam cinco segundos.
Tophtor deixou que também esses preciosos segundos se passassem em vão.
Duro e rijo contemplava a tela frontal, que revelava tudo que podia ter algum interesse para ele: a Terra, a gigantesca nave esférica e os dez cruzadores. Pela primeira vez na vida Topthor sentia-se inseguro. As dúvidas atormentavam-no: seu procedimento era acertado, ou estaria cometendo um erro?
Mas Rhodan não permitiu que a incerteza durasse muito.
De repente Topthor viu que duas de suas naves entraram em incandescência e caíram aos pedaços. As peças derretidas, atraídas pela gravitação terrestre, que já se tornara mais intensa, foram caindo em direção ao planeta.
Em menos de dez segundos Topthor perdera duas naves, sem que o veículo esférico tivesse esboçado o menor movimento de ataque. Mas aquilo só podia ser obra da gigantesca nave.
O rosto de Rhodan voltou a surgir na tela.
— Então, Topthor, você ainda quer pousar na Terra, ou mudou de intenção? Eu lhe dou uma última chance.
Acontece que Topthor não quis a última chance. Continuava a acreditar na sua superioridade. Até então suas naves não haviam disparado um único tiro. Nem se dignou de olhar para Rhodan e não teve tempo de ficar especulando sobre como aquele terrano, que acreditava ser Freyt, conseguia interferir em sua rede de televisão. Sem preocupar-se com a possibilidade de que suas ordens pudessem ser ouvidas pelos terranos, berrou:
— Grogham, vamos ao ataque! As naves atacarão simultaneamente. Disparem os torpedos e os raios energéticos. Lancem mão de todos os recursos disponíveis.
Voltou a olhar a tela e viu o rosto do terrano, que assumiu uma expressão de dureza.
— Topthor, foi você que quis assim — disse Rhodan, e em sua voz havia um som metálico. — Pouparei você e Grogham, não por compaixão ou condescendência, mas apenas para que sobre alguém do clã dos superpesados. Quero que os outros saltadores saibam o que lhes acontecerá se vierem à Terra com a intenção de conquistá-la. A Terra é mais poderosa que todas as civilizações guerreiras da Via Láctea, Topthor. E há mais um recado que você poderá transmitir à sua raça. Estamos dispostos a viver em paz com todo mundo, mas qualquer um que nos ataque será destruído sem contemplação. O império dos arcônidas continua a existir, e com ele prevalecem as leis que visam à paz.
Topthor estreitou os olhos e esperou que Grogham transmitisse e executasse a ordem que acabara de dar. Mas antes que isso acontecesse perdeu mais duas naves, que sem qualquer causa aparente se dissolveram nos seus componentes atômicos.
O superpesado lançou mão das sete naves que lhe restavam, tentando surpreender o inimigo com um desesperado ataque. Mas os torpedos explodiram antes que atingissem o campo energético do veículo esférico, e os raios energéticos concentrados foram desviados pelo envoltório protetor da Stardust-III.
Subitamente Topthor ficou com apenas cinco naves.
Seu raciocínio não quis admitir a realidade. Não era possível que alguém conseguisse romper os campos energéticos sem mais esta nem aquela. Esses terranos deviam dispor dum recurso que lhes permitia transformar o inimigo de um estado em outro, convertendo a matéria em energia pura. Mas como poderia ser feita uma coisa dessas sem que os campos energéticos fossem tocados?
Topthor não descobriu a resposta, mas a essa hora só lhe restavam três naves.
Com isso o instinto de autoconservação venceu a ambição.
— Grogham, vamos embora! Transição de emergência. O ponto de encontro é Etztak.
Bateu furiosamente na chave que o afastaria da zona de perigo.
Grogham seguiu-o, mas a outra nave dos superpesados não conseguiu escapar à destruição. Volatilizou-se bem acima da atmosfera terrestre.
Nunca Perry desferira um golpe tão duro e implacável.
Mas teve que fazê-lo, para que a humanidade continuasse a existir.
E a humanidade havia de continuar...

4



Orlgans descobrira os terranos e fora o primeiro a estabelecer contacto com eles, mas submeteu-se à vontade e às ordens do patriarca de seu clã, Etztak, que assumira pessoalmente o comando supremo. Os saltadores não eram uma raça combativa. Em linhas muito gerais, pareciam apenas uma raça mercantilista que sabia impor-se. Quando houvesse necessidade de lutar, chamava-se o clã dos superpesados para prestar auxílio, pagava-se, a quantia combinada, e ficava-se livre deles. Mas desta vez o caso era diferente.
No planeta Terra havia uma civilização até então totalmente desconhecida, que num salto enorme avançara até o estágio da Astronáutica e contava com o apoio dos arcônidas. Era um mundo a ser explorado.
Se outros clãs viessem a saber disso, perderiam um monopólio garantido. Por isso Etztak decidira enfrentar sozinho a luta contra o planeta Terra e Perry Rhodan. A luta parecia mais difícil do que era de supor. Além disso, os superpesados apareceram em cena, mas Etztak não tinha certeza se conheciam a posição da Terra. Talvez estivessem blefando.
Bem, Topthor prometera dar sinal de vida.
Orlgans estava pensando nisso, enquanto descrevia círculos cada vez mais estreitos em torno do mundo de gelo. Vez por outra mandava disparar salvas de seus canhões de radiações contra as montanhas de gelo e a rocha nua, embora soubesse que isso não adiantaria nada. O motivo de tal procedimento era puramente psicológico.
Orlgans recuou diante da idéia de destruir esse planeta habitável por meio duma deflagração atômica irreversível. Uma medida dessa ordem só era permitida quando a segurança própria dependia dela. E o caso não era este. Dominado de raiva, Etztak pretendia destruir um mundo apenas para vingar-se de cinco terranos que haviam feito pouco dele.
Orlgans não precisaria fazer muita coisa. Bastaria pousar em qualquer ponto do planeta condenado à morte e colocar a bomba. Um mecanismo a faria detonar dentro de determinado tempo. Depois da detonação a bomba desencadearia uma reação em cadeia, que prosseguiria até que a última partícula de matéria tivesse sido consumida. A reação em cadeia era lenta. Vários dias se passariam até que todo o planeta estivesse transformado num sol. Mas, uma vez iniciado, não havia como reverter o processo.
Nada poderia salvar o segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo.
Mas Orlgans ainda hesitava.
Se o Tribunal Supremo dos mercadores galácticos pedisse contas do procedimento de Etztak, ele, Orlgans, ficaria sujeito ao mesmo castigo. Tinha a obrigação de recusar-se a cumprir a ordem absurda, que destruiria um mundo capaz de evoluir. Mas o que aconteceria, perguntou Orlgans de si para si, se realmente se recusasse? Não atrairia sobre si a cólera do patriarca? E este não lhe causaria uma série de dificuldades?
Orlgans respirava pesadamente, enquanto fitava o deserto de gelo que deslizava embaixo dele. O que havia para destruir lá embaixo? Neve e gelo. Haveria alguma vida? Só a dos cinco terranos. E daí?
Deu de ombros e pôs a mão nos controles.
Uma curva fechada levou a nave ao pólo norte, onde pousou suavemente na neve profunda. Mas a neve não cedeu. Endurecera de tão congelada que estava.
Orlgans ligou o intercomunicador. Esperou até que o imediato da Orla XI respondesse ao chamado e disse:
— Compareça à minha presença. Temos uma missão a cumprir.
Nem desconfiava de que já iniciara o cumprimento da tarefa, pois um dos tiros energéticos disparados a esmo contra a superfície gelada já desencadeara a catástrofe.

* * *

O cadete Klaus Eberhardt acabara de guardar as panelas e os pratos lavados e divertia-se, formulando perguntas inteiramente ociosas ao RB-013. Estava confortavelmente deitado sobre uma coberta, aos pés do robô, regalando-se nos raios de calor expelidos pelo mesmo.
— Está com frio, Moisés? — indagou.
Por algum motivo desconhecido, os cinco terranos haviam dado este nome ao robô. — Afinal, você não tem ninguém que o aqueça.
— A pergunta teria muita lógica se eu fosse um ser orgânico — respondeu RB-013, ou seja, Moisés. — Mas, como não sou, a pergunta não tem nenhuma lógica.
— Só perguntei por perguntar — desculpou-se Eberhardt. — O tempo custa tanto a passar quando os outros não estão por aqui. Quase se chega a sentir medo.
— Isso não tem nenhuma lógica — repreendeu-o Moisés com a voz um tanto enferrujada. — Se os outros estivessem por perto, o perigo não seria menor.
Eberhardt suspirou.
— Rapaz, será que você não é capaz de se esquecer por um instante de que é um robô? Não tem nenhum sentimento? Conhece apenas a lógica?
— Você me chamou de rapaz, criatura esquecida. Sou RB-013, construído em Terrânia, e pertenço à série...
— Já sei — gemeu Eberhardt, arrependido de se ter envolvido numa discussão com aquele sujeito, que tinha uma resposta para tudo. — Isso só escorregou dos meus lábios. Desculpe.
Subitamente ouviu um uivo, um forte apito, e uma vaga de calor quase insuportável envolveu-o. As cobertas penduradas entre as caixas foram arrancadas e atiradas contra a parede de rocha. Mas embora as cobertas tivessem sido afastadas, não surgiu mais luz no lugar que correspondia à saída para a superfície. E o frio polar não invadiu a caverna. Pelo contrário: a temperatura subiu.
Moisés desligou automaticamente o aquecimento e providenciou a refrigeração.
Perplexo, Eberhardt continuava deitado sobre o cobertor. Levantou-se devagar.
— O que foi isso? O que aconteceu?
Ouviu-se um forte clique no interior do robô. Era sinal de que estava consultando seu cérebro positrônico. Depois respondeu:
— A entrada foi fechada por meio de raios térmicos. Existem dois fatos que levam a esta conclusão: o aumento de temperatura e a ausência da luz do dia. Como terceiro fator podemos citar a falta da correnteza de ar frio. Meu termômetro indica uma temperatura de vinte e um graus centígrados positivos. É ao menos uma temperatura extraordinária, desde que minha conclusão seja correta.
— Estamos trancados? — Eberhardt empalideceu e levantou-se. — Por causa de raios térmicos? Foram os saltadores?
— Provavelmente. Quem poderia ter sido? Os raios energéticos disparados por eles derreteram a rocha e a entrada da caverna foi fechada quando a massa derretida voltou a endurecer. Suponho que se trate dum simples acaso.
— Isso não deixa de ser um consolo — cochichou Eberhardt, que subitamente teve a impressão de que o ar estava muito viciado. — Qual é a grossura da parede?
— Poderemos verificar isso quando Gucky voltar.
Só agora lembrou-se dos colegas e das moças.
— Santo Deus, e os outros? Onde estarão? Tomara que não lhes tenha acontecido nada.
— Eles correm menos perigo que eu — tranqüilizou-o Moisés. — Esperemos calmamente até que voltem. Aqui estamos em segurança. Ao menos posso economizar energia, pois o calor que temos aqui é suficiente.
— E o ar? Como é que vamos respirar quando o suprimento de oxigênio estiver esgotado? Afinal, a entrada está fechada.
Moisés levantou um dos quatro braços e apontou na direção em que Gucky havia desaparecido com seus amigos.
— Daí vem um fluxo constante de oxigênio. Nem há necessidade de ligar meu dispositivo de renovação de ar.
Eberhardt fitou o corredor escuro.
— Ar puro dali? Como será possível?
Pela primeira vez o robô ficou devendo a resposta.
— Não sei — confessou. — Não disponho de qualquer indicação que me permita formular uma explicação do fenômeno.
Eberhardt caiu sobre o cobertor. Parecia ter-se esquecido de que se transformara num prisioneiro da caverna.
— Graças a Deus! — gemeu satisfeito. — Finalmente!

* * *

Tiff parou e respirou profundamente algumas vezes.
— Tenho a impressão de que ficou mais quente. E estou admirado de que aqui no fundo da caverna o ar seja tão puro. Há uma explicação para isso?
O rato-castor sacudiu a cabeça.
— Em hipótese alguma eu me privarei do prazer da surpresa — disse em tom enfático. — É claro que existe uma explicação, mas quero que vocês mesmos a descubram.
Não tenham pressa. Não estão sentindo nada?
Felicitas apontou para a escuridão que se apresentava diante deles.
— Para onde você nos leva, Gucky? Ainda falta muito? Estou com medo de verdade.
— Sim, você está com medo — confirmou Gucky. Parecia satisfeito. — Era o que eu esperava. Você é a pessoa mais sensível que temos por aqui, e por isso é o melhor objeto de experiência de que dispomos.
Subitamente uma ruga vertical surgiu na testa de Tiff.
— Ouça, Gucky. Reconheço que você tem alguns dons admiráveis, mas sempre se corre o risco de exagerar as coisas. Você faz alusões misteriosas e nem pensa em fornecer explicações. Tenho certeza de que você sabe perfeitamente o que está acontecendo neste mundo. Por que não diz logo o que significa tudo isso?
Gucky riu satisfeito. As palavras de Tiff não pareciam impressioná-lo nem um pouco.
— O problema é que você não quer que eu me divirta. Se eu lhe garanto que não há o menor perigo, isso não basta? O fato de que Felic sente medo apenas confirma minha teoria. Daqui a pouco todos vocês sentirão o mesmo medo. Digo isto para que estejam prevenidos. São os pensamentos dos sonolentos, que serão captados por seus cérebros como se estes fossem uma antena. O que vocês sentirão são o medo de outrem. Não o medo de vocês.
Tiff prestou muita atenção ao que estava dizendo. A ruga da testa desapareceu.
— Afinal, você já renunciou a parte da surpresa — constatou. — Que tal se logo nos contasse o resto?
O dente roedor de Gucky avançou por cima do lábio.
— Em hipótese alguma! — disse energicamente. — Prefiro teleportar-me de volta para a caverna e ajudar Eberhardt a lavar a louça.
Milly assustou-se.
— Não faça isso, querido Gucky. Você não pode nos deixar sós. Hoje de noite cocarei seu pêlo durante uma hora, se você quiser.
Gucky sorriu.
— Aceito a proposta — disse com um gesto de condescendência. — Vamos adiante. Não deve faltar muito.
Tiff sacudiu a cabeça.
— Pensava que você soubesse onde é.
— É claro que sei. Acontece que não percorri todo o caminho a pé. Apenas fiz alguns ensaios. Por isso não sei qual é a distância. Mas se não estou enganado, depois da primeira curva deveremos enxergar a luz.
Tiff parou. Hump, que não enxergava muita coisa sob a luz da única lanterna acesa e estava entretido com os próprios pensamentos, esbarrou nele. Ambos esbravejaram. Mas Tiff logo recuperou o controle.
— Luz? — perguntou.
Gucky fez um gesto impaciente com a cabeça. Parecia lamentar-se.
— Isso mesmo, luz. Acabei contando mais uma coisa. Daqui em diante ficarei com a boca fechada.
Caminhou para a frente, sem preocupar-se em saber se os outros o seguiam. O que poderiam fazer senão isso? Hump resmungou alguma coisa que soava como “falta de educação”. Ao que tudo indicava, estava aludindo às maneiras de Gucky. No íntimo Tiff deu-lhe razão, mas não disse nada. Também as duas moças seguiram-no em silêncio.
A curva anunciada chegou. O corredor alargou-se. Bem adiante brilhava uma luz.
— É mesmo! — disse Milly e estremeceu. — Uma luz. Gucky, como é que pode haver luz por aqui, bem embaixo da montanha? Será uma luz artificial?
— Não sei — respondeu o rato-castor, que à luz da lâmpada tinha alguma coisa dum rato Jerry bastante ampliado. Ao que parecia, excepcionalmente estava dizendo a verdade.
Não fizeram outras perguntas. Seguiram Gucky, que caminhava mais depressa.
O corredor tornou-se mais largo e mais alto. Tiff calculou que haviam percorrido ao menos um quilômetro. Como o chão em que pisavam sempre se apresentara em declive suave, deviam encontrar-se cerca de cinqüenta metros abaixo da superfície. Não havia dúvida de que a profundidade devia ser maior, se o corredor levava para o interior da montanha.
A luz tornou-se mais forte.
Gucky deu mais um passo e entrou num recinto amplo. Num gesto dramático levantou os braços e fez um gesto abrangedor. Nesse instante parecia um Napoleão em edição de bolso. Se a situação fosse outra, Tiff não teria deixado de formular uma observação nesse sentido; mas ficou calado.
O quadro que se apresentava diante dele roubou-lhe a fala.
Os outros também ficaram parados e, boquiabertos, admiravam o que estavam vendo. Acreditaram que estivessem sonhando, mas as ondas de pânico que passaram por eles faziam com que o sonho fosse muito realista.
Encontravam-se num pavilhão que media algumas centenas de metros de diâmetro. Bem no centro luzia o espelho dum pequeno lago, em cujo centro brotava um repuxo. Não era muito alto, mas o esguicho fino foi pulverizado de tal forma que uma neblina quase imperceptível descia em todos os cantos. As paredes rochosas eram bastante irregulares e não davam mostras de terem sido trabalhadas. Certamente os nichos foram obra da natureza, da mesma forma que o poço e o repuxo.
E a luz!
As quatro pessoas do grupo ficaram paradas, olhando para cima, onde um sol brilhava no centro do teto. Era redondo, mas seu formato não era tão uniforme que lembrasse um sol de verdade. Antes parecia um gigantesco diamante que irradiasse uma incandescência vinda de seu interior, fornecendo luz e calor.
Só agora Tiff sentiu a tepidez do ar. Não era um calor excessivo ou desconfortável, mas a temperatura ficava em torno de zero graus, o que naquela região representava uma marca bastante elevada.
— Como é que esta luz pode chegar até aqui? — perguntou Tiff.
— Deixemos a luz de lado. Ainda teremos tempo para tratar disso. Não percebeu mais nada, Tiff?
Felicitas não se interessou muito pelo fenômeno daquela luz estranha, para o qual não encontrou qualquer explicação. Dedicou sua atenção aos nichos de pedra — e soltou um grito. Não foi um grito de susto ou de pavor, mas apenas de surpresa.
Os outros esqueceram-se por um momento do sol de pedra e seguiram na direção apontada por seu braço estendido. Apoiado sobre a cauda, Gucky cruzou as patas dianteiras e sorriu.
— Flores! — gaguejou Felicitas e deu um ou dois passos em direção ao nicho, que ficava a menos de vinte metros. — Flores de verdade, e bem embaixo da superfície.
Era isso mesmo. Tiff não pôde negar que a jovem botânica dissera a verdade. Nos nichos cresciam plantas em formato de tulipas, numa profusão conhecida apenas nas florestas tropicais. Estavam tão amontoadas que não haveria mais lugar para uma única que fosse. Exalavam um cheiro forte, que enchia todo o recinto. Tiff admirou-se ligeiramente de não ter notado o cheiro antes.
— Venham! — convidou Gucky. — Dêem uma boa olhada no jardim botânico. Vale a pena.
Insatisfeito como sempre, Hump resmungou:
— Pensei que tivéssemos vindo para fazer uma visita às inteligências semi-adormecidas, e acabamos parando num jardim de tulipas.
— As flores que crescem neste mundo de gelo só por si representam um milagre — obtemperou Tiff. — Por que não vamos contemplar o milagre? Felic deve ter um interesse todo especial pelo mesmo.
Parecia que Gucky nunca queria parar com seus sorrisos.
Tiff seguiu Felicitas, que fora ao nicho mais próximo e se inclinava para olhar as tulipas mais de perto. Os outros também não tiveram coisa melhor a fazer senão dedicar uma atenção toda especial às plantas.
Realmente lembravam tulipas, mas tulipas grandemente ampliadas, que teriam causado orgulho a qualquer floricultor terreno. Os longos talos sustentavam enormes coroas, que se mantinham fechadas. O formato típico das tulipas era inconfundível. O vermelho e o alaranjado dominavam o quadro, mas também havia flores azuis, amarelas e roxas.
Na parte de baixo as raízes mergulhavam na terra fofa. Realmente, havia porções de terra fofa. Até parecia que um jardineiro cuidadoso preparara a terra especialmente para servir àquelas plantas.
Felicitas voltou a endireitar o corpo.
— São flores; talvez se trate duma variedade de tulipas. Como vieram parar aqui? Alguém deve tê-las plantado.
— Talvez tenha sido um dos sonolentos — conjeturou Tiff em tom inseguro.
— Foi o que pensei no início, Tiff. Pensei que os sonolentos apreciassem as flores. Mas de certa forma eu me enganei. Dê uma boa olhada nas flores, Felic. Não está notando nada?
A botânica voltou a inclinar-se e submeteu as flores a um exame mais detido. Não teve necessidade de esforçar-se muito, pois as flores tinham quase um metro de altura. Estreitou os olhos quando viu uma fenda fina, mas bem fechada, que circundava a corola. Cada pétala da flor tinha uma fenda desse tipo.
— Talvez sejam plantas carnívoras — conjeturou, mas pelo tom de sua voz percebia-se que não estava muito convencida do acerto da suposição. — O fato é que dispõem de aberturas que podem ser fechadas à vontade.
De repente Gucky soltou uma gargalhada chiante e começou a dançar sobre suas pernas curtas. Emitiu sons estridentes, que por certo se destinavam a revelar sua alegria.
— Adivinhou! — exclamou depois de algum tempo, enquanto Tiff e Hump se fitavam numa estranha harmonia. Naquele momento deviam ter a mesma idéia. Ao que tudo indicava, acreditavam que o rato-castor tivesse perdido o juízo.
Mas logo descobririam que não era nada disso.
Quando Gucky conseguiu acalmar-se, disse:
— É verdade: podem abrir e fechar as fendas à vontade. Mas estas não são órgãos de nutrição. Prestem atenção para ver o que vai acontecer. Depois vocês saberão.
Colocou-se ao lado de Felicitas e tocou uma das plantas com a pata de veludo. Ficou acariciando as pétalas vermelhas com a suavidade de quem está lidando com um ser amado.
E o milagre aconteceu.
A tulipa abriu as fendas estreitas.
Os quatro humanos, estupefatos, depararam-se com um verdadeiro olho que os fitava curiosamente.
— Permitem que lhes apresente os sonolentos? — disse Gucky com uma mesura impecável.

* * *

Orlgans contemplou o oficial, quando este, auxiliado por alguns homens, colocou a bomba no gelo. Os radiadores térmicos abriram um buraco profundo até que, ultrapassada a camada de neve, encontraram o gelo firme. O buraco encheu-se de água, mas isso não prejudicaria a execução do plano. A água é uma matéria estável, tal qual o gelo ou a neve.
Finalmente Raganzt inclinou-se sobre a bomba e pôs a funcionar o mecanismo de relógio. Após isso, o instrumento mortal da destruição absoluta foi colocado no buraco por meio duma corda.
Orlgans continuava calado. Transmitira a ordem irresponsável, mas não fez a menor tentativa de impedir sua realização. Ainda não era tarde para isso. Só dali a trinta minutos seria desencadeada a reação em cadeia. Se isso acontecesse no espaço cósmico, ela logo se extinguiria, pois a matéria ali existente é tão tênue que não permite o desenvolvimento do processo.
Orlgans nem estava pensando nisso. Desejava sair quanto antes desse planeta, que logo se transformaria num inferno — num inferno criado por suas mãos.
Acompanhado de Raganzt e dos outros homens do grupo, voltou à nave. Uma vez na sala de comando, entrou em contacto radiofônico com Etztak e anunciou o cumprimento da ordem.
O patriarca parecia satisfeito, mas não conseguiu ocultar o nervosismo.
— Volte imediatamente. Acabamos de receber uma mensagem de Topthor. Realizou um salto de emergência para fugir da Terra. Sua frota de guerra foi destruída, com exceção de duas naves. Recusa-se a prestar-nos auxílio e decidiu voltar à sua base.
Orlgans venceu o primeiro susto.
— Ele se recusa? — cochichou espantado. — Um superpesado recusa-se a lutar em troca de dinheiro? Uma coisa terrível deve ter acontecido.
— Possuía dezesseis naves, e agora só possui duas. E lutou contra um único terrano.
— Foi Rhodan!
— Isso mesmo, lutou contra Rhodan.
Receio que o mesmo ainda nos dê trabalho por aqui. Talvez seria preferível se batêssemos em retirada.
— Sem destruí-lo? — disse Orlgans, admirado pela súbita mudança que se processara no espírito do patriarca. — Isso seria uma derrota.
— Poderíamos voltar mais tarde. Afinal, os terranos são uma raça tão subdesenvolvida que não poderão enfrentar os saltadores por muito tempo. Sua aparente superioridade provém exclusivamente do fato de que alguns arcônidas lhes dão auxílio. Mas não se trata apenas disso. Esse Rhodan conhece a posição do planeta da vida eterna, e faço questão que ele me revele a mesma.
— Será que fará isso? — disse Orlgans, manifestando uma dúvida até certo ponto justificada.
— Terá que fazê-lo... um dia! — afirmou Etztak, seguro de si. — Voltarei com uma frota enorme e...
O rosto desapareceu da tela. O contacto sonoro foi mantido. Orlgans ouviu gritos de pavor, seguidos de vozes de comando. Finalmente, depois de alguns minutos de incerteza, o rosto de Etztak voltou a surgir. Nos olhos do velho patriarca brilhava a insegurança e o medo, mas também uma decisão implacável.
— Apresse-se, Orlgans! Decole imediatamente, mas tenha cuidado quando chegar aqui. Os dois cruzadores terranos voltaram a atacar, mas desta vez o ataque é sério e mortal. Dispõem de armas espantosas.
Defendemo-nos contra eles, mas ao que tudo indica receberam outras instruções.
Não se deixam pôr em fuga.
— Quem sabe se não conseguimos surpreendê-los se viermos de outra direção? — sugeriu Orlgans, mas logo se arrependeu do que acabara de dizer. Como tivera a idéia de atacar sozinho dois cruzadores que toda a frota de Etztak não conseguira vencer?
— Tente — confirmou o velho e de permeio deu outras ordens. — Mas se for atacado, retire-se.
Mais uma vez o patriarca confirmou com um movimento de cabeça. Após isso, a tela escureceu.
Orlgans aguardou por alguns segundos. Depois disso suas mãos hábeis passaram pelas chaves e botões dos controles automáticos. Um zumbido soou no interior da nave. Por um instante, Orlgans perguntou de si para si onde ficara a nave que devia acompanhá-lo na missão, mas a idéia de que alguém teria que controlar o espaço aéreo logo o tranqüilizou. Mas era de estranhar que não conseguia estabelecer contacto.
A Orla XI decolou.
Lá embaixo, em meio ao gelo eterno, ficou um buraco negro e quadrado, que abrigava a morte de todo esse mundo. Orlgans estremeceu à simples idéia do que aconteceria ali dentro de pouco tempo. Uma explosão atômica normal liberaria um calor tamanho que a neve e o gelo seriam derretidos num raio amplo. Mas o fenômeno não se restringiria à explosão. De início ocorreria a transformação dos elementos mais leves, cuja estrutura atômica se desagregaria, convertendo-se em energia. Depois seria a vez dos elementos pesados, e o processo prosseguiria até que o próprio núcleo do planeta se transformasse num inferno em chamas. O sistema de Beta-Albíreo teria mais um sol.
Apesar das ordens de Etztak, Orlgans tinha motivo para recorrer mais uma vez à sua tática de retardamento. Não se sentia muito atraído pela perspectiva de engalfinhar-se numa luta contra os dois cruzadores, e ficaria satisfeito se as naves terrenas se retirassem antes que atingisse o setor em que se encontrava seu grupo.
Mas de repente, enquanto deslizava calmamente sobre a superfície branca sem pensar em ganhar altitude, uma coisa muito estranha aconteceu a menos de cem quilômetros do lugar em que fora colocada a bomba mortífera.
Raganzt saíra da sala de comando para fiscalizar os preparativos a serem tomados nos postos de combate. De repente Orlgans sentiu que não estava só. Tinha a impressão de que alguém se encontrava atrás dele, olhando seus dedos.
Virou-se repentinamente — e deparou-se com o ser mais estranho em que jamais havia posto os olhos.
Devia ter cerca de um metro de altura e tinha o formato dum rato grandemente ampliado. Apoiava-se sobre a cauda larga e contemplava-o com uma expressão suave nos olhos.
Era Gucky!
Evidentemente Orlgans não sabia quem era Gucky ou o que sabia fazer. Para ele o estranho intruso era apenas um animal, mas não sabia se o animal era agressivo ou inofensivo.
Por um instante Orlgans pensou que se tratasse dum habitante desse mundo inóspito, que conseguira penetrar na nave enquanto a mesma estava pousada na zona polar. Mas só acreditou nisso até que Gucky fizesse sua auto-apresentação.
E a apresentação foi feita no mais genuíno intercosmo.
— Então um assassino é assim — disse Gucky.
Orlgans tornou-se um pouco mais pálido quando o animal lhe dirigiu a palavra. O que acabara de dizer não era tão importante, mas o fato de que falava representava uma terrível realidade. Por um instante Orlgans se esqueceu de que havia muitas raças inteligentes no Universo, muitas das quais não têm aspecto humano.
— Quem é você? — perguntou, sem conseguir recuperar-se do espanto e do susto. Esqueceu-se por completo da pistola de radiação que trazia no cinto.
— Meus amigos costumam chamar-me de Gucky, e um dos meus amigos é Perry Rhodan. Está curioso para saber como consegui entrar na nave? É simples: sou um teleportador. Sim, e também sou um telepata; espero que isto o tranqüilize. Ah, o fato o deixa intranqüilo? Não há nada que eu possa fazer.
— O que deseja? — gemeu Orlgans.
— Você ainda se atreve a perguntar, assassino?
— Por que vive me chamando de assassino?
— Porque você quer destruir um mundo no qual existe vida, e vida inteligente, Orlgans. Você será punido por isso.
— Quem deu a ordem foi Etztak. É ele que terá de dar contas ao Tribunal Supremo, não eu...
— Não acreditamos muito nos tribunais dos saltadores — chiou Gucky. — O castigo será aplicado por nós.
Orlgans voltou a tornar-se mais pálido. A mão direita executou um movimento rápido em direção ao cinto, mas a pistola foi mais rápida. Saiu do coldre por si mesma e subiu em direção ao teto, onde parou como se alguém a segurasse.
— Esqueci de mencionar uma coisa — desculpou-se Gucky em tom zombeteiro. —Também sou um telecineta. Como já disse, vim para julgá-lo.
— Exijo um julgamento regular — berrou Orlgans na esperança de que alguém o ouvisse. — Ninguém pode ser castigado sem que haja uma sentença.
— Uma sentença? — respondeu o rato-castor. — A sentença já foi proferida. Por ela você é condenado à morte.
— À morte? — O saltador recuou instintivamente. — Quem se arroga o direito de condenar-me à morte?
— Quem foi condenado não foi apenas você, mas toda a tripulação desta nave —explicou Gucky. — Você quer saber quem o condenou à morte? Muito bem, eu lhe direi. Foram aqueles que você condenou à morte. E todo um mundo foi condenado à morte por você.
— Todo um mundo? — disse Orlgans num espanto genuíno. — Este planeta está coberto de neve e gelo. Ninguém pode viver nele.
— Você está enganado! — subitamente a voz de Gucky tornou-se aguda e estridente. Os pêlos da nuca eriçaram-se. — Neste mundo vivem os sonolentos, uma raça muito inteligente em comparação com seus companheiros de espécie de outros mundos. Sabem que no pólo foi colocada uma bomba que pode explodir a qualquer instante. E sabem que a mesma provocará uma reação de cadeia que não poderá ser detida. E sabem mais do que isso, Orlgans: sabem que terão de morrer, porque seu mundo deixará de existir. E eles me incumbiram de punir o assassino.
Orlgans ouvira-o num espanto crescente. Vez por outra lançava um olhar sobre a pistola inatingível, que continuava pendurada sob o teto. Então havia vida nesse mundo? Não contara com essa possibilidade.
Será que isso o liberava da culpa?
Gucky sacudiu a cabeça.
— Não, de forma alguma, Orlgans. A sentença dos sonolentos está conforme o direito.
O comandante dos saltadores olhou para a tela.
— Estamos pousando. O que aconteceu? Por que estamos pousando?
— Assumi o controle da nave — esclareceu Gucky. — Conforme se constata, a mesma pousará a menos de trezentos quilômetros do pólo. A bomba explodirá dentro de três minutos. No momento não lhes fará nada. Dentro de três minutos terão que abandonar a nave. Não terão tempo de emitir um pedido de socorro dirigido a Etztak. É que exatamente daqui a três minutos a nave irá pelos ares. Entendido, Orlgans?
Orlgans havia entendido, embora não compreendesse por que sua nave teria que ir pelos ares. Mas afinal já vira alguns exemplos.
A nave pousou suavemente.
— Vamos transmitir as instruções necessárias aos tripulantes — recomendou Gucky. — Não têm tempo sequer para levar mantimentos. Mas isso não faz mal. Vocês terão que passar fome até que sejam atingidos pela deflagração atômica.
Orlgans tremia que nem uma vara verde.
— Isso é uma crueldade! Vocês não nos podem expor a um destino desses. Por que não nos matam de uma vez?
— Farei com que vocês tenham algumas pistolas — afirmou Gucky sem a menor contemplação. — Quem quiser poderá fazer uso delas. Não impedirei ninguém de fazê-lo. Quanto a mais, nada posso fazer por vocês. Uma raça moribunda manifestou seu último desejo. Eu apenas o cumpro.
Cerca de noventa segundos depois, Gucky viu do cume duma montanha como os saltadores evacuavam a nave. Alguns faziam-nos devagar e a contragosto. O prazo que lhes fora fixado não lhes dava possibilidade de levar mantimentos ou qualquer equipamento. Raganzt foi à sala de comando e procurou entrar em contacto com Etztak, mas teve que constatar que os aparelhos de rádio estavam sem energia. Gucky não se esquecera de nenhum detalhe.
E a nave entrou em incandescência. A mesma começou na popa e propagou-se rapidamente. Os instrumentos atingidos em primeiro lugar explodiram. Quando o círculo de fogo atingiu o arsenal, uma explosão final rasgou a nave.
Alguns dos saltadores, que não se haviam afastado o bastante, foram soterrados pelos destroços. Os outros corriam o que davam as pernas. E Gucky constatou bastante contrariado que se dirigiam para o sul, afastando-se do pólo.
Teriam que correr bastante se quisessem escapar à deflagração atômica, que naquele instante se iniciava no pólo norte.


5



— Os sonolentos são flores?
Tiff proferiu estas palavras em tom incrédulo, olhando para Felic, como se esta pudesse dar resposta à sua pergunta. Gucky encarregou-se disso.
— Já conversei com eles, Tiff, e acho que sei quase tudo a seu respeito. No verão vivem na superfície, no inverno voltam para cá. O poço fornece-lhes água e do solo extraem o alimento. Lá em cima brilha o sol eterno. Eles mesmos não sabem dizer como foi parar lá. Mas sabem que existem outras cavernas onde brilham sóis semelhantes a este. Dizem que foram criados pelos deuses. Talvez tenham sido seus antepassados, tecnologicamente mais avançados que eles, mas que acabaram desaparecendo.
— Como fazem para ir até lá em cima no verão? — indagou Hump. Em sua voz havia uma ligeira ironia. — Será que vão caminhando pela caverna?
Gucky continuou sério.
— Isso mesmo, caminham. Têm pezinhos delicados, que também desempenham as funções de raízes. Podem mergulhar esses pés no solo a fim de absorver água e alimentos. No verão levam vida nômade; andam de um lugar para outro. E o verão também é o tempo da fecundação. Os sonolentos são polissexuados. Cinco indivíduos de sua raça formam um casal. Vocês devem ter notado que as flores têm cinco cores principais.
Tiff inclinou-se para a frente. Seu rosto estava transformado num ponto de interrogação.
— Como é que você conversa com eles? São telepatas?
— Isso mesmo. São telepatas de elevada potência. Captam as emissões mentais a grande distância e são capazes de receber as que vêm das profundezas do espaço. É esta sua única distração durante os anos de sonolência.

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