— Vejam só!
Existe vida neste mundo de gelo. Plantas de verdade.
— São apenas
algas — disse Milly com um certo desprezo, mas a botânica logo objetou.
— As algas
também são plantas, Milly. Constituem o estágio inicial da vida. A partir deles
tudo se forma, desde que disponham de tempo.
De repente Gucky
surgiu em meio ao grupo, vindo do nada. Transferira-se para lá por meio da
teleportação. Provavelmente tivera muita preguiça para percorrer todo o trecho
em suas perninhas curtas.
— As algas
tiveram tempo de sobra — disse num tom estranho. — Deram origem a outras formas
de vida, e de vida inteligente.
Vamos voltar à
caverna, que eu lhes mostrarei.
— Vida
inteligente? — disse Tiff, esticando as palavras. — Será que você localizou os
chamados sonâmbulos?
— Vocês ficarão admirados
— disse Gucky animadamente. — São criaturas formidáveis — e além de tudo são
telepatas. Quase diria que são hipno-telepatas, pois seus pensamentos
transmitem-se por força dum comando irresistível àquele a que se dirigirem.
— O que
significa isso? — indagou Tiff e sentiu que seus cabelos se arrepiavam.
Teve a mesma sensação
que costumava apossar-se dele nos tempos em que o avô lhe contava, nas horas de
crepúsculo, as conhecidas histórias de fantasmas. — São hipno-telepatas?
— Enquanto pensam,
podem influenciar o espírito de outros seres. Mas não se preocupe, Tiff; são
inofensivos. Têm medo dos saltadores.
— E eles sabem
alguma coisa a respeito dos saltadores? — disse Tiff num espanto sempre crescente.
— Como chegaram a tomar conhecimento da existência deles?
— Os sonolentos dispõem
dum estranho poder de adivinhação. Captaram pensamentos de ódio vindos do
espaço. Só podem ser os pensamentos dos saltadores. Nossa presença não os
incomoda, pois sabem que não pretendemos fazer-lhes nenhum mal. Mas têm medo
dos saltadores, e não confiam em suas intenções. Vocês se admirarão — repetiu
Gucky. — Mas vamos à caverna. Ou será que vocês têm tanta preguiça como eu?
Resmungando,
Tiff pôs-se em movimento. Milly e Felic seguiram-no. Esta última lançou mais um
olhar para as algas que cresciam na margem do riacho e resolveu que mais tarde
voltaria a visitar o estranho planeta.
Gucky
desapareceu. Esperou-os no interior da caverna, onde reinava um calor agradável
— e um cheiro também agradável de comida preparada.
Hump levantou os
olhos quando o grupo entrou.
— Está na hora.
A comida está pronta.
Excepcionalmente
Eberhardt conseguiu fazer alguma coisa de útil. Desembrulhou os alimentos
concentrados.
— Se não fosse
eu, o molho teria queimado — disse Eberhardt, defendendo-se da acusação de Hump.
— Esse sujeito não sabe fazer outra coisa senão falar, e o que fala são apenas
mentiras.
Gucky farejou o
ar e soltou um gemido de gozo.
— Sugiro que
comamos logo. Os sonolentos não vão fugir. Por enquanto não.
— Poderão fugir
mais tarde? — perguntou Tiff, que não soube dominar a curiosidade.
Gucky fez que
sim.
— Mais tarde, na
primavera. Daqui a cinqüenta anos aproximadamente.
Tiff lançou um
olhar demorado para o rato-castor. Seu rosto matreiro não permitia qualquer
conclusão sobre se estava brincando ou não.
RB-013
mantinha-se imóvel num canto, irradiando um calor agradável. A lâmpada
alimentada pela energia inesgotável do reator arcônida espalhava sua luz. Se
não fosse o robô, a vida seria menos agradável.
Sentaram sobre
as caixas emborcadas e comeram. Os mestres-cucas, Hump e Eberhardt, receberam
os elogios merecidos e logo discutiram a respeito de a quem cabia o maior
mérito.
Foi nesse
momento que Felic arriscou o primeiro ataque de frente.
— Hump, você
cozinhou uma sopa gostosíssima — disse, lançando-lhe um olhar de admiração. —
Eu não saberia fazê-la tão gostosa.
Hump sempre era
acessível a um elogio. Enrijeceu o corpo e lançou um olhar de advertência para
Eberhardt. Com um aceno de cabeça, prometeu:
— Quando eu for
casado, minha mulher não precisa cozinhar.
Tiff fez uma
careta.
— Você cozinhará
no lugar dela? — perguntou.
— Claro que sim!
— Ah, é? E sua
mulher sairá para trabalhar?
Por pouco Hump
não engasga.
— Por quê?
Tiff sorriu.
— Homem, você nem
desconfia dos problemas que uma dona-de-casa tem que enfrentar. Pergunte a
Milly. Quando for casada, não terá outra coisa a fazer senão cozinhar. Não
mandarei na cozinha, mas em compensação vou ganhar dinheiro.
O rosto de Hump
foi tão estúpido que Gucky soltou uma gargalhada tão aguda que até fez tremer a
lâmpada do robô. Ninguém deu atenção à reação emotiva da máquina eletrônica,
pois todos concentravam suas atenções em Hump.
O cadete da
frota espacial empalideceu, mas depois seu rosto se tornou vermelho como um
tomate. Passou os olhos de um companheiro para outro, mas só se defrontou com
expressões de expectativa; todos demonstravam um vivo interesse no desenrolar
dos acontecimentos.
Finalmente seus
olhos pousaram em Milly.
— É verdade,
Milly? Você quer casar com ele?
A moça confirmou
com um aceno de cabeça. Uma mecha de cabelo negro caiu em sua testa.
— Você não sabia?
Hump engoliu em
seco.
— Como poderia
saber?
Milly exibiu um
sorriso ingênuo.
— Mesmo que
amasse você, não tiraria o preferido de outra moça. Ainda mais quando sei que
essa moça gosta de você de todo coração, mas você é tão estúpido que não
percebe nada.
O rosto de Hump
tornou-se talvez ainda mais estúpido. Tiff teve de esforçar-se para reprimir o
riso. Felic parecia confusa. Seu rosto alternava entre o vermelho e o pálido. A
colher que segurava na mão tremia fortemente. Eberhardt era o único que não
parecia interessado no que se passava em torno dele. Continuava a devorar
tranqüilamente a sopa e vez por outra soltava um gemido satisfeito, o que fez
com que o rato-castor lhe tocasse o pé às escondidas, para lembrar-lhe as boas
maneiras à mesa.
— Há uma moça
que me ama? — gaguejou Hump depois de algum tempo, totalmente confuso.
— Isso mesmo. É
uma coisa que você não pode compreender, não é? — disse Milly em tom
provocador. — Asseguro-lhe que essa moça não sou eu.
O olhar de Hump
caiu sobre Felic, que parecia muito confusa e não contara com esse auxílio.
Abaixou a cabeça quando Hump a olhou.
— É verdade, Felic?
— cochichou Hump.
Felic confirmou
com um aceno de cabeça.
Foi quando a
paciência de Gucky estourou.
— Os humanos são
criaturas estranhas! Será que vocês têm de escolher justamente a hora do almoço
para tratar de assuntos de família? Até parece que não temos outros problemas.
Tiff apontou
para a panela colocada sobre a caixa emborcada que servia de mesa.
— Para quanta
coisa não pode servir uma boa sopa — disse, lançando um olhar de gratidão para
Milly. — Se você não tivesse dado uma dica tão clara, Hump nunca teria
descoberto. Compreende com muita dificuldade. E Felic é muito tímida. Pelo menos
este problema está resolvido. Será que temos uma sobremesa?
Eberhardt
desertou do cochilo costumeiro.
— Sobremesa? —
resmungou. — Será que vocês têm de empanturrar-se toda vida?
Tiff levantou-se.
— Foi apenas uma
pergunta singela. O que vamos fazer agora, Gucky?
O rato-castor,
que já se acostumara ao alimento dos humanos, embora preferisse uma cenoura,
mostrou o dente roedor e passou as patas pela barba. Só faltava ronronar.
— Depois da
refeição um passeio faz milagres — disse. — Quem ficará por aqui?
Ninguém se
dispôs a ficar. Gucky sorriu.
— Muito bem;
vamos todos. Aconselho que usem botas de borracha e roupa velha.
O caminho é
muito difícil e úmido. Voltaremos sujos que nem uns porcos.
Eberhardt
franziu a testa.
— Eu devia lavar
a louça... — principiou.
— Pelo que vejo,
você quer escapar às canseiras da marcha — disse Gucky com uma expressão de
recriminação. — Pois bem, sempre tem que haver alguém que leva a vida melhor
que os outros. De acordo, Eberhardt.
Tiff olhou em
torno para descobrir a roupa que devia vestir, mas Gucky segurou seu braço. Não
compreendeu logo o que estava acontecendo, mas subitamente viu-se transportado
a mais de cem metros em direção ao fundo da caverna. Poucos segundos depois
surgiram Hump e as moças. Preferiu aguardar as explicações de Gucky.
O rato-castor
apontou com um gesto triunfante em direção à fraca luminosidade, de onde vinha
o ruído inconfundível da água. Um prato de lata tilintava.
— Afinal, alguém
tem que deixar as coisas em ordem — disse. — Vocês acham que eu teria que lavar
a louça mais uma vez? Não se preocupem, o caminho não é difícil. Tiff, você
trouxe a lanterna?
— É claro, seu
espertalhão. Nunca ando sem ela.
— Muito bem.
Daqui em diante podemos andar. Não é longe. A passagem não ficará mais
estreita. Os sonolentos usam-na durante a primavera, quando vão à superfície.
— Eles podem ir
à superfície? — perguntou Milly, arregalando os olhos. — Afinal, o que são?
— Felic terá um
interesse todo especial por eles — prognosticou Gucky sem mostrar-se disposto a
fazer outras revelações.
Milly sacudiu a
cabeça.
— Felic é uma
botânica, Gucky. Reconheço que é uma ciência estreitamente ligada à zoologia,
mas...
— Vocês ficarão admirados
— disse Gucky e saiu balançando o corpo. A cauda larga desempenhava as funções
dum leme, ajudando-o a andar ereto como um homem. Ajudava-o a manter o
equilíbrio e servia-lhe de apoio toda vez que parava. — Cuidado para não bater
com a cabeça. A passagem é boa para andar, mas de vez em quando há uma rocha
saliente. Os sonolentos não são maiores que eu.
— Por que você
os chama de sonolentos? — perguntou Tiff. — Ao menos isso você pode contar.
— Poderia —
disse Gucky com um sorriso matreiro. — É que eles dormem, mas ao mesmo tempo
não dormem. O corpo dorme, mas o espírito continua acordado. Será que vocês
ainda não sentem nada?
— Você acha que
sabemos ler pensamentos? — perguntou Milly.
— Os sonolentos também
sabem comunicar-se com seres que não sejam telepatas. Sua característica
especial consiste justamente nisso. Avisem-me imediatamente quando sentirem
alguma coisa estranha, alguma coisa... bem, alguma coisa diferente.
Felicitas parou.
— Estou com medo
— disse.
Gucky Virou-se
como se alguém tivesse mordido sua cauda.
— Está com medo,
Felic? Você o sente claramente?
A moça parecia
indecisa.
— Como posso sentir
claramente o medo? Estou com medo, mais nada.
Hump pigarreou e
segurou sua mão.
— Não tenha
medo, meu bem. Estou ao seu lado.
Felicitas exibiu
um sorriso corajoso. Tiff sorriu. Lançou um olhar significativo para Milly.
— Como esse
monstro do Hump sabe ser gentil quando ama uma moça que combina com ele. Até já
começo a sentir mais simpatia por você, Hump.
Hump resmungou
alguma coisa que ninguém entendeu e dirigiu-se a Gucky:
— Então, onde é
que estão dormindo suas lindas criaturas do gelo?
Gucky continuou
na caminhada.
— Ainda veremos
se são lindas. Afinal, nem todos têm o mesmo gosto — lançando um olhar de
esguelha para Felicitas, acrescentou: — Ainda bem!
* * *
A frota dos
superpesados aproximava-se da lua terrena.
Um tanto
preocupado em virtude da palestra que mantivera com o homem que, segundo sua
opinião, era o representante de Rhodan, Topthor instruiu seus comandantes a não
tirarem os olhos dos instrumentos de localização. Manteve contacto ininterrupto
com Grogham.
— Será que
levaram a advertência a sério, Topthor? E se forem realmente fortes como
afirmam? Se de fato houver outras naves além da de Rhodan, equipadas com o mesmo
armamento? Não é impossível que nos tenhamos enganado...
— Tolice! —
interrompeu-o Topthor. — Em hipótese alguma podemos admitir que alguém nos
desafie. Onde chegaríamos se permitíssemos uma coisa dessas? Outros saberão e
poderão ter alguma idéia estúpida, como por exemplo, aumentar seus direitos de
exportação ou negociar por conta própria. Perderíamos nosso monopólio. Se não
conseguirmos impor-nos, os mercadores estarão fritos — e nós com eles. Se não houver
mais vôos em comboio para transportar mercadorias preciosas, não teremos mais
nada a proteger.
Grogham não
tirava os olhos da tela do rastreador.
— É claro que
você tem razão, Topthor.
Acontece que
isso não me deixa muito à vontade. Não me esqueci da rapidez com que Rhodan
destruiu cinco das nossas naves.
Topthor não
respondeu. As palavras que Grogham acabara de pronunciar chamaram-lhe à
lembrança a primeira derrota sofrida em sua longa vida. Ainda não conseguira
explicar como Rhodan conseguira destruir cinco de suas naves de guerra antes
que começasse a batalha propriamente dita. Rhodan devia possuir uma arma que
ninguém imaginava como seria. Atravessava os campos energéticos e desencadeava
uma explosão fulminante no interior do objeto alvejado.
O grito de
Grogham arrancou-o das reflexões.
— Ali, os
terranos! A esfera-gigante dos arcônidas. Esses traidores aliaram-se aos terranos.
A Stardust-III
aproximava-se a uma velocidade tresloucada e circulou a uma distância segura em
torno da frota de Topthor. Por enquanto nada indicava que o ataque estivesse
iminente.
Topthor lançou
um olhar para os instrumentos.
— Mantenha o
rumo inalterado, Grogham. Pousaremos no ponto prefixado. Não atacaremos. Vamos
esperar que abram fogo.
Estava lembrado
de que Rhodan não destruíra suas naves antes que estas o atacassem. Talvez o
comandante desse veículo esférico tivesse as mesmas idéias.
Não poderia
adivinhar que o comandante ainda se chamava Rhodan. E também não podia imaginar
que este interpretava o próprio vôo em direção à Terra como uma agressão, e
isso com o consentimento expresso do imortal, que lhe entregara o transmissor
fictício.
A lua passou ao
lado da nave. O globo verde-azulado da Terra aumentava rapidamente, pois
Topthor ainda não mandara iniciar a manobra de desaceleração. As onze naves
aproximavam-se implacavelmente do planeta que os mercadores galácticos
pretendiam incorporar ao seu império colonial. Topthor não se sentiu muito
surpreso quando uma voz potente superou todos os transmissores de bordo. Era a
voz fria e dura que já conhecia. O sujeito aparentemente tão inflexível não
podia ser outro senão o tal do Freyt.
— Topthor, eu o
preveni. Afaste-se da Terra. Estamos dispostos a estabelecer relações
comerciais de igual para igual com os mercadores galácticos, mas não
concordamos em submeter-nos às condições ditadas por vocês.
— Quando
tivermos chegado à Terra, negociaremos — respondeu Topthor, que não se sentia
muito à vontade. — Nossas armas não falarão, a não ser que vocês nos obriguem a
agir de outra forma.
— Ninguém mata as
galinhas cujos ovos quer colher, Topthor. O ato de vocês só é pacífico na
aparência. Previno-o pela segunda vez. Você dispõe de trinta segundos.
Topthor fitou a
Terra, que continuava a aumentar. Já distinguia os continentes e via as grandes
cidades, as vias de comunicação que emitiam um brilho branquicento, o cintilar
das vias férreas, as extensas áreas cultivadas. Lá embaixo havia uma
civilização, negociava-se e ganhava-se dinheiro.
Entesou-se.
— Por que não
concordam em negociar na Terra?
— Temos motivos
para isso, especialmente motivos de ordem tática. Além disso, há uma questão de
princípio — é claro que Rhodan não poderia revelar que havia muitos outros
motivos pelos quais em nenhuma circunstância se poderia permitir que os saltadores
pousassem na Terra. O planeta ainda não alcançara a unificação oficial e ainda
não possuía uma frota espacial que lhes permitisse rechaçar eventuais ataques desfechados
pelas civilizações galácticas. Por enquanto o poder da Terra repousava no blefe.
A Stardust-III era o único couraçado de verdade de que Rhodan podia dispor. — Previno-o
pela última vez, Topthor, volte antes que seja tarde. Só faltam cinco segundos.
Tophtor deixou
que também esses preciosos segundos se passassem em vão.
Duro e rijo
contemplava a tela frontal, que revelava tudo que podia ter algum interesse
para ele: a Terra, a gigantesca nave esférica e os dez cruzadores. Pela
primeira vez na vida Topthor sentia-se inseguro. As dúvidas atormentavam-no:
seu procedimento era acertado, ou estaria cometendo um erro?
Mas Rhodan não
permitiu que a incerteza durasse muito.
De repente
Topthor viu que duas de suas naves entraram em incandescência e caíram aos
pedaços. As peças derretidas, atraídas pela gravitação terrestre, que já se
tornara mais intensa, foram caindo em direção ao planeta.
Em menos de dez
segundos Topthor perdera duas naves, sem que o veículo esférico tivesse
esboçado o menor movimento de ataque. Mas aquilo só podia ser obra da
gigantesca nave.
O rosto de
Rhodan voltou a surgir na tela.
— Então, Topthor,
você ainda quer pousar na Terra, ou mudou de intenção? Eu lhe dou uma última
chance.
Acontece que
Topthor não quis a última chance. Continuava a acreditar na sua superioridade.
Até então suas naves não haviam disparado um único tiro. Nem se dignou de olhar
para Rhodan e não teve tempo de ficar especulando sobre como aquele terrano,
que acreditava ser Freyt, conseguia interferir em sua rede de televisão. Sem
preocupar-se com a possibilidade de que suas ordens pudessem ser ouvidas pelos
terranos, berrou:
— Grogham, vamos
ao ataque! As naves atacarão simultaneamente. Disparem os torpedos e os raios
energéticos. Lancem mão de todos os recursos disponíveis.
Voltou a olhar a
tela e viu o rosto do terrano, que assumiu uma expressão de dureza.
— Topthor, foi
você que quis assim — disse Rhodan, e em sua voz havia um som metálico. —
Pouparei você e Grogham, não por compaixão ou condescendência, mas apenas para
que sobre alguém do clã dos superpesados. Quero que os outros saltadores saibam
o que lhes acontecerá se vierem à Terra com a intenção de conquistá-la. A Terra
é mais poderosa que todas as civilizações guerreiras da Via Láctea, Topthor. E
há mais um recado que você poderá transmitir à sua raça. Estamos dispostos a
viver em paz com todo mundo, mas qualquer um que nos ataque será destruído sem
contemplação. O império dos arcônidas continua a existir, e com ele prevalecem
as leis que visam à paz.
Topthor
estreitou os olhos e esperou que Grogham transmitisse e executasse a ordem que
acabara de dar. Mas antes que isso acontecesse perdeu mais duas naves, que sem
qualquer causa aparente se dissolveram nos seus componentes atômicos.
O superpesado
lançou mão das sete naves que lhe restavam, tentando surpreender o inimigo com
um desesperado ataque. Mas os torpedos explodiram antes que atingissem o campo
energético do veículo esférico, e os raios energéticos concentrados foram
desviados pelo envoltório protetor da Stardust-III.
Subitamente
Topthor ficou com apenas cinco naves.
Seu raciocínio
não quis admitir a realidade. Não era possível que alguém conseguisse romper os
campos energéticos sem mais esta nem aquela. Esses terranos deviam dispor dum
recurso que lhes permitia transformar o inimigo de um estado em outro,
convertendo a matéria em energia pura. Mas como poderia ser feita uma coisa
dessas sem que os campos energéticos fossem tocados?
Topthor não
descobriu a resposta, mas a essa hora só lhe restavam três naves.
Com isso o
instinto de autoconservação venceu a ambição.
— Grogham, vamos
embora! Transição de emergência. O ponto de encontro é Etztak.
Bateu
furiosamente na chave que o afastaria da zona de perigo.
Grogham
seguiu-o, mas a outra nave dos superpesados não conseguiu escapar à destruição.
Volatilizou-se bem acima da atmosfera terrestre.
Nunca Perry
desferira um golpe tão duro e implacável.
Mas teve que
fazê-lo, para que a humanidade continuasse a existir.
E a humanidade
havia de continuar...
4
Orlgans descobrira
os terranos e fora o primeiro a estabelecer contacto com eles, mas submeteu-se
à vontade e às ordens do patriarca de seu clã, Etztak, que assumira
pessoalmente o comando supremo. Os saltadores não eram uma raça combativa. Em
linhas muito gerais, pareciam apenas uma raça mercantilista que sabia impor-se.
Quando houvesse necessidade de lutar, chamava-se o clã dos superpesados para
prestar auxílio, pagava-se, a quantia combinada, e ficava-se livre deles. Mas
desta vez o caso era diferente.
No planeta Terra
havia uma civilização até então totalmente desconhecida, que num salto enorme
avançara até o estágio da Astronáutica e contava com o apoio dos arcônidas. Era
um mundo a ser explorado.
Se outros clãs
viessem a saber disso, perderiam um monopólio garantido. Por isso Etztak
decidira enfrentar sozinho a luta contra o planeta Terra e Perry Rhodan. A luta
parecia mais difícil do que era de supor. Além disso, os superpesados
apareceram em cena, mas Etztak não tinha certeza se conheciam a posição da
Terra. Talvez estivessem blefando.
Bem, Topthor
prometera dar sinal de vida.
Orlgans estava
pensando nisso, enquanto descrevia círculos cada vez mais estreitos em torno do
mundo de gelo. Vez por outra mandava disparar salvas de seus canhões de
radiações contra as montanhas de gelo e a rocha nua, embora soubesse que isso
não adiantaria nada. O motivo de tal procedimento era puramente psicológico.
Orlgans recuou
diante da idéia de destruir esse planeta habitável por meio duma deflagração
atômica irreversível. Uma medida dessa ordem só era permitida quando a
segurança própria dependia dela. E o caso não era este. Dominado de raiva,
Etztak pretendia destruir um mundo apenas para vingar-se de cinco terranos que
haviam feito pouco dele.
Orlgans não
precisaria fazer muita coisa. Bastaria pousar em qualquer ponto do planeta
condenado à morte e colocar a bomba. Um mecanismo a faria detonar dentro de
determinado tempo. Depois da detonação a bomba desencadearia uma reação em
cadeia, que prosseguiria até que a última partícula de matéria tivesse sido
consumida. A reação em cadeia era lenta. Vários dias se passariam até que todo
o planeta estivesse transformado num sol. Mas, uma vez iniciado, não havia como
reverter o processo.
Nada poderia
salvar o segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo.
Mas Orlgans
ainda hesitava.
Se o Tribunal
Supremo dos mercadores galácticos pedisse contas do procedimento de Etztak,
ele, Orlgans, ficaria sujeito ao mesmo castigo. Tinha a obrigação de recusar-se
a cumprir a ordem absurda, que destruiria um mundo capaz de evoluir. Mas o que
aconteceria, perguntou Orlgans de si para si, se realmente se recusasse? Não
atrairia sobre si a cólera do patriarca? E este não lhe causaria uma série de
dificuldades?
Orlgans
respirava pesadamente, enquanto fitava o deserto de gelo que deslizava embaixo
dele. O que havia para destruir lá embaixo? Neve e gelo. Haveria alguma vida?
Só a dos cinco terranos. E daí?
Deu de ombros e
pôs a mão nos controles.
Uma curva
fechada levou a nave ao pólo norte, onde pousou suavemente na neve profunda.
Mas a neve não cedeu. Endurecera de tão congelada que estava.
Orlgans ligou o
intercomunicador. Esperou até que o imediato da Orla XI respondesse ao chamado
e disse:
— Compareça à
minha presença. Temos uma missão a cumprir.
Nem desconfiava
de que já iniciara o cumprimento da tarefa, pois um dos tiros energéticos
disparados a esmo contra a superfície gelada já desencadeara a catástrofe.
* * *
O cadete Klaus
Eberhardt acabara de guardar as panelas e os pratos lavados e divertia-se,
formulando perguntas inteiramente ociosas ao RB-013. Estava confortavelmente
deitado sobre uma coberta, aos pés do robô, regalando-se nos raios de calor
expelidos pelo mesmo.
— Está com frio,
Moisés? — indagou.
Por algum motivo
desconhecido, os cinco terranos haviam dado este nome ao robô. — Afinal, você não
tem ninguém que o aqueça.
— A pergunta
teria muita lógica se eu fosse um ser orgânico — respondeu RB-013, ou seja,
Moisés. — Mas, como não sou, a pergunta não tem nenhuma lógica.
— Só perguntei por
perguntar — desculpou-se Eberhardt. — O tempo custa tanto a passar quando os
outros não estão por aqui. Quase se chega a sentir medo.
— Isso não tem nenhuma
lógica — repreendeu-o Moisés com a voz um tanto enferrujada. — Se os outros
estivessem por perto, o perigo não seria menor.
Eberhardt
suspirou.
— Rapaz, será
que você não é capaz de se esquecer por um instante de que é um robô? Não tem
nenhum sentimento? Conhece apenas a lógica?
— Você me chamou
de rapaz, criatura esquecida. Sou RB-013, construído em Terrânia, e pertenço à
série...
— Já sei — gemeu
Eberhardt, arrependido de se ter envolvido numa discussão com aquele sujeito,
que tinha uma resposta para tudo. — Isso só escorregou dos meus lábios.
Desculpe.
Subitamente
ouviu um uivo, um forte apito, e uma vaga de calor quase insuportável
envolveu-o. As cobertas penduradas entre as caixas foram arrancadas e atiradas
contra a parede de rocha. Mas embora as cobertas tivessem sido afastadas, não
surgiu mais luz no lugar que correspondia à saída para a superfície. E o frio
polar não invadiu a caverna. Pelo contrário: a temperatura subiu.
Moisés desligou
automaticamente o aquecimento e providenciou a refrigeração.
Perplexo,
Eberhardt continuava deitado sobre o cobertor. Levantou-se devagar.
— O que foi
isso? O que aconteceu?
Ouviu-se um
forte clique no interior do robô. Era sinal de que estava consultando seu
cérebro positrônico. Depois respondeu:
— A entrada foi
fechada por meio de raios térmicos. Existem dois fatos que levam a esta
conclusão: o aumento de temperatura e a ausência da luz do dia. Como terceiro
fator podemos citar a falta da correnteza de ar frio. Meu termômetro indica uma
temperatura de vinte e um graus centígrados positivos. É ao menos uma
temperatura extraordinária, desde que minha conclusão seja correta.
— Estamos trancados?
— Eberhardt empalideceu e levantou-se. — Por causa de raios térmicos? Foram os
saltadores?
— Provavelmente.
Quem poderia ter sido? Os raios energéticos disparados por eles derreteram a
rocha e a entrada da caverna foi fechada quando a massa derretida voltou a
endurecer. Suponho que se trate dum simples acaso.
— Isso não deixa
de ser um consolo — cochichou Eberhardt, que subitamente teve a impressão de
que o ar estava muito viciado. — Qual é a grossura da parede?
— Poderemos verificar
isso quando Gucky voltar.
Só agora
lembrou-se dos colegas e das moças.
— Santo Deus, e
os outros? Onde estarão? Tomara que não lhes tenha acontecido nada.
— Eles correm
menos perigo que eu — tranqüilizou-o Moisés. — Esperemos calmamente até que
voltem. Aqui estamos em segurança. Ao menos posso economizar energia, pois o
calor que temos aqui é suficiente.
— E o ar? Como é
que vamos respirar quando o suprimento de oxigênio estiver esgotado? Afinal, a
entrada está fechada.
Moisés levantou
um dos quatro braços e apontou na direção em que Gucky havia desaparecido com
seus amigos.
— Daí vem um
fluxo constante de oxigênio. Nem há necessidade de ligar meu dispositivo de
renovação de ar.
Eberhardt fitou
o corredor escuro.
— Ar puro dali?
Como será possível?
Pela primeira
vez o robô ficou devendo a resposta.
— Não sei —
confessou. — Não disponho de qualquer indicação que me permita formular uma
explicação do fenômeno.
Eberhardt caiu
sobre o cobertor. Parecia ter-se esquecido de que se transformara num
prisioneiro da caverna.
— Graças a Deus!
— gemeu satisfeito. — Finalmente!
* * *
Tiff parou e
respirou profundamente algumas vezes.
— Tenho a
impressão de que ficou mais quente. E estou admirado de que aqui no fundo da
caverna o ar seja tão puro. Há uma explicação para isso?
O rato-castor
sacudiu a cabeça.
— Em hipótese
alguma eu me privarei do prazer da surpresa — disse em tom enfático. — É claro
que existe uma explicação, mas quero que vocês mesmos a descubram.
Não tenham
pressa. Não estão sentindo nada?
Felicitas
apontou para a escuridão que se apresentava diante deles.
— Para onde você
nos leva, Gucky? Ainda falta muito? Estou com medo de verdade.
— Sim, você está
com medo — confirmou Gucky. Parecia satisfeito. — Era o que eu esperava. Você é
a pessoa mais sensível que temos por aqui, e por isso é o melhor objeto de
experiência de que dispomos.
Subitamente uma
ruga vertical surgiu na testa de Tiff.
— Ouça, Gucky.
Reconheço que você tem alguns dons admiráveis, mas sempre se corre o risco de
exagerar as coisas. Você faz alusões misteriosas e nem pensa em fornecer
explicações. Tenho certeza de que você sabe perfeitamente o que está
acontecendo neste mundo. Por que não diz logo o que significa tudo isso?
Gucky riu
satisfeito. As palavras de Tiff não pareciam impressioná-lo nem um pouco.
— O problema é
que você não quer que eu me divirta. Se eu lhe garanto que não há o menor
perigo, isso não basta? O fato de que Felic sente medo apenas confirma minha
teoria. Daqui a pouco todos vocês sentirão o mesmo medo. Digo isto para que estejam
prevenidos. São os pensamentos dos sonolentos, que serão captados por seus cérebros
como se estes fossem uma antena. O que vocês sentirão são o medo de outrem. Não
o medo de vocês.
Tiff prestou
muita atenção ao que estava dizendo. A ruga da testa desapareceu.
— Afinal, você
já renunciou a parte da surpresa — constatou. — Que tal se logo nos contasse o
resto?
O dente roedor
de Gucky avançou por cima do lábio.
— Em hipótese
alguma! — disse energicamente. — Prefiro teleportar-me de volta para a caverna
e ajudar Eberhardt a lavar a louça.
Milly
assustou-se.
— Não faça isso,
querido Gucky. Você não pode nos deixar sós. Hoje de noite cocarei seu pêlo
durante uma hora, se você quiser.
Gucky sorriu.
— Aceito a
proposta — disse com um gesto de condescendência. — Vamos adiante. Não deve
faltar muito.
Tiff sacudiu a
cabeça.
— Pensava que
você soubesse onde é.
— É claro que
sei. Acontece que não percorri todo o caminho a pé. Apenas fiz alguns ensaios.
Por isso não sei qual é a distância. Mas se não estou enganado, depois da primeira
curva deveremos enxergar a luz.
Tiff parou.
Hump, que não enxergava muita coisa sob a luz da única lanterna acesa e estava
entretido com os próprios pensamentos, esbarrou nele. Ambos esbravejaram. Mas
Tiff logo recuperou o controle.
— Luz? —
perguntou.
Gucky fez um
gesto impaciente com a cabeça. Parecia lamentar-se.
— Isso mesmo, luz.
Acabei contando mais uma coisa. Daqui em diante ficarei com a boca fechada.
Caminhou para a
frente, sem preocupar-se em saber se os outros o seguiam. O que poderiam fazer
senão isso? Hump resmungou alguma coisa que soava como “falta de educação”. Ao que tudo indicava, estava aludindo às
maneiras de Gucky. No íntimo Tiff deu-lhe razão, mas não disse nada. Também as
duas moças seguiram-no em silêncio.
A curva
anunciada chegou. O corredor alargou-se. Bem adiante brilhava uma luz.
— É mesmo! —
disse Milly e estremeceu. — Uma luz. Gucky, como é que pode haver luz por aqui,
bem embaixo da montanha? Será uma luz artificial?
— Não sei —
respondeu o rato-castor, que à luz da lâmpada tinha alguma coisa dum rato Jerry
bastante ampliado. Ao que parecia, excepcionalmente estava dizendo a verdade.
Não fizeram
outras perguntas. Seguiram Gucky, que caminhava mais depressa.
O corredor
tornou-se mais largo e mais alto. Tiff calculou que haviam percorrido ao menos
um quilômetro. Como o chão em que pisavam sempre se apresentara em declive
suave, deviam encontrar-se cerca de cinqüenta metros abaixo da superfície. Não
havia dúvida de que a profundidade devia ser maior, se o corredor levava para o
interior da montanha.
A luz tornou-se
mais forte.
Gucky deu mais
um passo e entrou num recinto amplo. Num gesto dramático levantou os braços e
fez um gesto abrangedor. Nesse instante parecia um Napoleão em edição de bolso.
Se a situação fosse outra, Tiff não teria deixado de formular uma observação
nesse sentido; mas ficou calado.
O quadro que se
apresentava diante dele roubou-lhe a fala.
Os outros também
ficaram parados e, boquiabertos, admiravam o que estavam vendo. Acreditaram que
estivessem sonhando, mas as ondas de pânico que passaram por eles faziam com
que o sonho fosse muito realista.
Encontravam-se
num pavilhão que media algumas centenas de metros de diâmetro. Bem no centro
luzia o espelho dum pequeno lago, em cujo centro brotava um repuxo. Não era muito
alto, mas o esguicho fino foi pulverizado de tal forma que uma neblina quase
imperceptível descia em todos os cantos. As paredes rochosas eram bastante
irregulares e não davam mostras de terem sido trabalhadas. Certamente os nichos
foram obra da natureza, da mesma forma que o poço e o repuxo.
E a luz!
As quatro
pessoas do grupo ficaram paradas, olhando para cima, onde um sol brilhava no
centro do teto. Era redondo, mas seu formato não era tão uniforme que lembrasse
um sol de verdade. Antes parecia um gigantesco diamante que irradiasse uma
incandescência vinda de seu interior, fornecendo luz e calor.
Só agora Tiff
sentiu a tepidez do ar. Não era um calor excessivo ou desconfortável, mas a
temperatura ficava em torno de zero graus, o que naquela região representava
uma marca bastante elevada.
— Como é que
esta luz pode chegar até aqui? — perguntou Tiff.
— Deixemos a luz
de lado. Ainda teremos tempo para tratar disso. Não percebeu mais nada, Tiff?
Felicitas não se
interessou muito pelo fenômeno daquela luz estranha, para o qual não encontrou
qualquer explicação. Dedicou sua atenção aos nichos de pedra — e soltou um
grito. Não foi um grito de susto ou de pavor, mas apenas de surpresa.
Os outros
esqueceram-se por um momento do sol de pedra e seguiram na direção apontada por
seu braço estendido. Apoiado sobre a cauda, Gucky cruzou as patas dianteiras e
sorriu.
— Flores! —
gaguejou Felicitas e deu um ou dois passos em direção ao nicho, que ficava a
menos de vinte metros. — Flores de verdade, e bem embaixo da superfície.
Era isso mesmo.
Tiff não pôde negar que a jovem botânica dissera a verdade. Nos nichos cresciam
plantas em formato de tulipas, numa profusão conhecida apenas nas florestas
tropicais. Estavam tão amontoadas que não haveria mais lugar para uma única que
fosse. Exalavam um cheiro forte, que enchia todo o recinto. Tiff admirou-se
ligeiramente de não ter notado o cheiro antes.
— Venham! — convidou
Gucky. — Dêem uma boa olhada no jardim botânico. Vale a pena.
Insatisfeito
como sempre, Hump resmungou:
— Pensei que tivéssemos
vindo para fazer uma visita às inteligências semi-adormecidas, e acabamos parando
num jardim de tulipas.
— As flores que
crescem neste mundo de gelo só por si representam um milagre — obtemperou Tiff.
— Por que não vamos contemplar o milagre? Felic deve ter um interesse todo
especial pelo mesmo.
Parecia que
Gucky nunca queria parar com seus sorrisos.
Tiff seguiu
Felicitas, que fora ao nicho mais próximo e se inclinava para olhar as tulipas
mais de perto. Os outros também não tiveram coisa melhor a fazer senão dedicar
uma atenção toda especial às plantas.
Realmente
lembravam tulipas, mas tulipas grandemente ampliadas, que teriam causado
orgulho a qualquer floricultor terreno. Os longos talos sustentavam enormes
coroas, que se mantinham fechadas. O formato típico das tulipas era
inconfundível. O vermelho e o alaranjado dominavam o quadro, mas também havia
flores azuis, amarelas e roxas.
Na parte de
baixo as raízes mergulhavam na terra fofa. Realmente, havia porções de terra
fofa. Até parecia que um jardineiro cuidadoso preparara a terra especialmente
para servir àquelas plantas.
Felicitas voltou
a endireitar o corpo.
— São flores;
talvez se trate duma variedade de tulipas. Como vieram parar aqui? Alguém deve
tê-las plantado.
— Talvez tenha sido
um dos sonolentos — conjeturou Tiff em tom inseguro.
— Foi o que
pensei no início, Tiff. Pensei que os sonolentos apreciassem as flores. Mas de
certa forma eu me enganei. Dê uma boa olhada nas flores, Felic. Não está
notando nada?
A botânica
voltou a inclinar-se e submeteu as flores a um exame mais detido. Não teve
necessidade de esforçar-se muito, pois as flores tinham quase um metro de
altura. Estreitou os olhos quando viu uma fenda fina, mas bem fechada, que
circundava a corola. Cada pétala da flor tinha uma fenda desse tipo.
— Talvez sejam
plantas carnívoras — conjeturou, mas pelo tom de sua voz percebia-se que não
estava muito convencida do acerto da suposição. — O fato é que dispõem de
aberturas que podem ser fechadas à vontade.
De repente Gucky
soltou uma gargalhada chiante e começou a dançar sobre suas pernas curtas.
Emitiu sons estridentes, que por certo se destinavam a revelar sua alegria.
— Adivinhou! —
exclamou depois de algum tempo, enquanto Tiff e Hump se fitavam numa estranha
harmonia. Naquele momento deviam ter a mesma idéia. Ao que tudo indicava, acreditavam
que o rato-castor tivesse perdido o juízo.
Mas logo
descobririam que não era nada disso.
Quando Gucky
conseguiu acalmar-se, disse:
— É verdade:
podem abrir e fechar as fendas à vontade. Mas estas não são órgãos de nutrição.
Prestem atenção para ver o que vai acontecer. Depois vocês saberão.
Colocou-se ao
lado de Felicitas e tocou uma das plantas com a pata de veludo. Ficou
acariciando as pétalas vermelhas com a suavidade de quem está lidando com um
ser amado.
E o milagre
aconteceu.
A tulipa abriu
as fendas estreitas.
Os quatro
humanos, estupefatos, depararam-se com um verdadeiro olho que os fitava
curiosamente.
— Permitem que
lhes apresente os sonolentos? — disse Gucky com uma mesura impecável.
* * *
Orlgans
contemplou o oficial, quando este, auxiliado por alguns homens, colocou a bomba
no gelo. Os radiadores térmicos abriram um buraco profundo até que,
ultrapassada a camada de neve, encontraram o gelo firme. O buraco encheu-se de
água, mas isso não prejudicaria a execução do plano. A água é uma matéria
estável, tal qual o gelo ou a neve.
Finalmente
Raganzt inclinou-se sobre a bomba e pôs a funcionar o mecanismo de relógio.
Após isso, o instrumento mortal da destruição absoluta foi colocado no buraco
por meio duma corda.
Orlgans
continuava calado. Transmitira a ordem irresponsável, mas não fez a menor
tentativa de impedir sua realização. Ainda não era tarde para isso. Só dali a
trinta minutos seria desencadeada a reação em cadeia. Se isso acontecesse no
espaço cósmico, ela logo se extinguiria, pois a matéria ali existente é tão
tênue que não permite o desenvolvimento do processo.
Orlgans nem
estava pensando nisso. Desejava sair quanto antes desse planeta, que logo se
transformaria num inferno — num inferno criado por suas mãos.
Acompanhado de Raganzt
e dos outros homens do grupo, voltou à nave. Uma vez na sala de comando, entrou
em contacto radiofônico com Etztak e anunciou o cumprimento da ordem.
O patriarca
parecia satisfeito, mas não conseguiu ocultar o nervosismo.
— Volte
imediatamente. Acabamos de receber uma mensagem de Topthor. Realizou um salto
de emergência para fugir da Terra. Sua frota de guerra foi destruída, com
exceção de duas naves. Recusa-se a prestar-nos auxílio e decidiu voltar à sua base.
Orlgans venceu o
primeiro susto.
— Ele se recusa?
— cochichou espantado. — Um superpesado recusa-se a lutar em troca de dinheiro?
Uma coisa terrível deve ter acontecido.
— Possuía
dezesseis naves, e agora só possui duas. E lutou contra um único terrano.
— Foi Rhodan!
— Isso mesmo,
lutou contra Rhodan.
Receio que o
mesmo ainda nos dê trabalho por aqui. Talvez seria preferível se batêssemos em
retirada.
— Sem destruí-lo?
— disse Orlgans, admirado pela súbita mudança que se processara no espírito do
patriarca. — Isso seria uma derrota.
— Poderíamos
voltar mais tarde. Afinal, os terranos são uma raça tão subdesenvolvida que não
poderão enfrentar os saltadores por muito tempo. Sua aparente superioridade provém
exclusivamente do fato de que alguns arcônidas lhes dão auxílio. Mas não se
trata apenas disso. Esse Rhodan conhece a posição do planeta da vida eterna, e
faço questão que ele me revele a mesma.
— Será que fará
isso? — disse Orlgans, manifestando uma dúvida até certo ponto justificada.
— Terá que
fazê-lo... um dia! — afirmou Etztak, seguro de si. — Voltarei com uma frota
enorme e...
O rosto
desapareceu da tela. O contacto sonoro foi mantido. Orlgans ouviu gritos de
pavor, seguidos de vozes de comando. Finalmente, depois de alguns minutos de incerteza,
o rosto de Etztak voltou a surgir. Nos olhos do velho patriarca brilhava a
insegurança e o medo, mas também uma decisão implacável.
— Apresse-se,
Orlgans! Decole imediatamente, mas tenha cuidado quando chegar aqui. Os dois
cruzadores terranos voltaram a atacar, mas desta vez o ataque é sério e mortal.
Dispõem de armas espantosas.
Defendemo-nos contra
eles, mas ao que tudo indica receberam outras instruções.
Não se deixam
pôr em fuga.
— Quem sabe se não
conseguimos surpreendê-los se viermos de outra direção? — sugeriu Orlgans, mas
logo se arrependeu do que acabara de dizer. Como tivera a idéia de atacar
sozinho dois cruzadores que toda a frota de Etztak não conseguira vencer?
— Tente —
confirmou o velho e de permeio deu outras ordens. — Mas se for atacado,
retire-se.
Mais uma vez o
patriarca confirmou com um movimento de cabeça. Após isso, a tela escureceu.
Orlgans aguardou
por alguns segundos. Depois disso suas mãos hábeis passaram pelas chaves e
botões dos controles automáticos. Um zumbido soou no interior da nave. Por um
instante, Orlgans perguntou de si para si onde ficara a nave que devia
acompanhá-lo na missão, mas a idéia de que alguém teria que controlar o espaço
aéreo logo o tranqüilizou. Mas era de estranhar que não conseguia estabelecer contacto.
A Orla XI
decolou.
Lá embaixo, em
meio ao gelo eterno, ficou um buraco negro e quadrado, que abrigava a morte de
todo esse mundo. Orlgans estremeceu à simples idéia do que aconteceria ali
dentro de pouco tempo. Uma explosão atômica normal liberaria um calor tamanho
que a neve e o gelo seriam derretidos num raio amplo. Mas o fenômeno não se
restringiria à explosão. De início ocorreria a transformação dos elementos mais
leves, cuja estrutura atômica se desagregaria, convertendo-se em energia.
Depois seria a vez dos elementos pesados, e o processo prosseguiria até que o
próprio núcleo do planeta se transformasse num inferno em chamas. O sistema de
Beta-Albíreo teria mais um sol.
Apesar das
ordens de Etztak, Orlgans tinha motivo para recorrer mais uma vez à sua tática
de retardamento. Não se sentia muito atraído pela perspectiva de engalfinhar-se
numa luta contra os dois cruzadores, e ficaria satisfeito se as naves terrenas
se retirassem antes que atingisse o setor em que se encontrava seu grupo.
Mas de repente,
enquanto deslizava calmamente sobre a superfície branca sem pensar em ganhar
altitude, uma coisa muito estranha aconteceu a menos de cem quilômetros do
lugar em que fora colocada a bomba mortífera.
Raganzt saíra da
sala de comando para fiscalizar os preparativos a serem tomados nos postos de
combate. De repente Orlgans sentiu que não estava só. Tinha a impressão de que
alguém se encontrava atrás dele, olhando seus dedos.
Virou-se
repentinamente — e deparou-se com o ser mais estranho em que jamais havia posto
os olhos.
Devia ter cerca
de um metro de altura e tinha o formato dum rato grandemente ampliado.
Apoiava-se sobre a cauda larga e contemplava-o com uma expressão suave nos
olhos.
Era Gucky!
Evidentemente
Orlgans não sabia quem era Gucky ou o que sabia fazer. Para ele o estranho
intruso era apenas um animal, mas não sabia se o animal era agressivo ou
inofensivo.
Por um instante
Orlgans pensou que se tratasse dum habitante desse mundo inóspito, que
conseguira penetrar na nave enquanto a mesma estava pousada na zona polar. Mas
só acreditou nisso até que Gucky fizesse sua auto-apresentação.
E a apresentação
foi feita no mais genuíno intercosmo.
— Então um
assassino é assim — disse Gucky.
Orlgans
tornou-se um pouco mais pálido quando o animal lhe dirigiu a palavra. O que
acabara de dizer não era tão importante, mas o fato de que falava representava
uma terrível realidade. Por um instante Orlgans se esqueceu de que havia muitas
raças inteligentes no Universo, muitas das quais não têm aspecto humano.
— Quem é você? —
perguntou, sem conseguir recuperar-se do espanto e do susto. Esqueceu-se por
completo da pistola de radiação que trazia no cinto.
— Meus amigos
costumam chamar-me de Gucky, e um dos meus amigos é Perry Rhodan. Está curioso
para saber como consegui entrar na nave? É simples: sou um teleportador. Sim, e
também sou um telepata; espero que isto o tranqüilize. Ah, o fato o deixa
intranqüilo? Não há nada que eu possa fazer.
— O que deseja?
— gemeu Orlgans.
— Você ainda se
atreve a perguntar, assassino?
— Por que vive
me chamando de assassino?
— Porque você quer
destruir um mundo no qual existe vida, e vida inteligente, Orlgans. Você será
punido por isso.
— Quem deu a
ordem foi Etztak. É ele que terá de dar contas ao Tribunal Supremo, não eu...
— Não acreditamos
muito nos tribunais dos saltadores — chiou Gucky. — O castigo será aplicado por
nós.
Orlgans voltou a
tornar-se mais pálido. A mão direita executou um movimento rápido em direção ao
cinto, mas a pistola foi mais rápida. Saiu do coldre por si mesma e subiu em
direção ao teto, onde parou como se alguém a segurasse.
— Esqueci de
mencionar uma coisa — desculpou-se Gucky em tom zombeteiro. —Também sou um
telecineta. Como já disse, vim para julgá-lo.
— Exijo um
julgamento regular — berrou Orlgans na esperança de que alguém o ouvisse. —
Ninguém pode ser castigado sem que haja uma sentença.
— Uma sentença?
— respondeu o rato-castor. — A sentença já foi proferida. Por ela você é
condenado à morte.
— À morte? — O
saltador recuou instintivamente. — Quem se arroga o direito de condenar-me à
morte?
— Quem foi
condenado não foi apenas você, mas toda a tripulação desta nave —explicou
Gucky. — Você quer saber quem o condenou à morte? Muito bem, eu lhe direi. Foram
aqueles que você condenou à morte. E todo um mundo foi condenado à morte por
você.
— Todo um mundo?
— disse Orlgans num espanto genuíno. — Este planeta está coberto de neve e
gelo. Ninguém pode viver nele.
— Você está
enganado! — subitamente a voz de Gucky tornou-se aguda e estridente. Os pêlos da
nuca eriçaram-se. — Neste mundo vivem os sonolentos, uma raça muito inteligente
em comparação com seus companheiros de espécie de outros mundos. Sabem que no
pólo foi colocada uma bomba que pode explodir a qualquer instante. E sabem que
a mesma provocará uma reação de cadeia que não poderá ser detida. E sabem mais
do que isso, Orlgans: sabem que terão de morrer, porque seu mundo deixará de
existir. E eles me incumbiram de punir o assassino.
Orlgans ouvira-o
num espanto crescente. Vez por outra lançava um olhar sobre a pistola
inatingível, que continuava pendurada sob o teto. Então havia vida nesse mundo?
Não contara com essa possibilidade.
Será que isso o
liberava da culpa?
Gucky sacudiu a
cabeça.
— Não, de forma
alguma, Orlgans. A sentença dos sonolentos está conforme o direito.
O comandante dos
saltadores olhou para a tela.
— Estamos
pousando. O que aconteceu? Por que estamos pousando?
— Assumi o
controle da nave — esclareceu Gucky. — Conforme se constata, a mesma pousará a
menos de trezentos quilômetros do pólo. A bomba explodirá dentro de três
minutos. No momento não lhes fará nada. Dentro de três minutos terão que abandonar
a nave. Não terão tempo de emitir um pedido de socorro dirigido a Etztak. É que
exatamente daqui a três minutos a nave irá pelos ares. Entendido, Orlgans?
Orlgans havia
entendido, embora não compreendesse por que sua nave teria que ir pelos ares.
Mas afinal já vira alguns exemplos.
A nave pousou
suavemente.
— Vamos
transmitir as instruções necessárias aos tripulantes — recomendou Gucky. — Não
têm tempo sequer para levar mantimentos. Mas isso não faz mal. Vocês terão que
passar fome até que sejam atingidos pela deflagração atômica.
Orlgans tremia
que nem uma vara verde.
— Isso é uma
crueldade! Vocês não nos podem expor a um destino desses. Por que não nos matam
de uma vez?
— Farei com que
vocês tenham algumas pistolas — afirmou Gucky sem a menor contemplação. — Quem
quiser poderá fazer uso delas. Não impedirei ninguém de fazê-lo. Quanto a mais,
nada posso fazer por vocês. Uma raça moribunda manifestou seu último desejo. Eu
apenas o cumpro.
Cerca de noventa
segundos depois, Gucky viu do cume duma montanha como os saltadores evacuavam a
nave. Alguns faziam-nos devagar e a contragosto. O prazo que lhes fora fixado
não lhes dava possibilidade de levar mantimentos ou qualquer equipamento.
Raganzt foi à sala de comando e procurou entrar em contacto com Etztak, mas
teve que constatar que os aparelhos de rádio estavam sem energia. Gucky não se
esquecera de nenhum detalhe.
E a nave entrou
em incandescência. A mesma começou na popa e propagou-se rapidamente. Os
instrumentos atingidos em primeiro lugar explodiram. Quando o círculo de fogo
atingiu o arsenal, uma explosão final rasgou a nave.
Alguns dos
saltadores, que não se haviam afastado o bastante, foram soterrados pelos
destroços. Os outros corriam o que davam as pernas. E Gucky constatou bastante
contrariado que se dirigiam para o sul, afastando-se do pólo.
Teriam que
correr bastante se quisessem escapar à deflagração atômica, que naquele
instante se iniciava no pólo norte.
5
— Os sonolentos
são flores?
Tiff proferiu
estas palavras em tom incrédulo, olhando para Felic, como se esta pudesse dar
resposta à sua pergunta. Gucky encarregou-se disso.
— Já conversei
com eles, Tiff, e acho que sei quase tudo a seu respeito. No verão vivem na
superfície, no inverno voltam para cá. O poço fornece-lhes água e do solo
extraem o alimento. Lá em cima brilha o sol eterno. Eles mesmos não sabem dizer
como foi parar lá. Mas sabem que existem outras cavernas onde brilham sóis
semelhantes a este. Dizem que foram criados pelos deuses. Talvez tenham sido
seus antepassados, tecnologicamente mais avançados que eles, mas que acabaram
desaparecendo.
— Como fazem
para ir até lá em cima no verão? — indagou Hump. Em sua voz havia uma ligeira
ironia. — Será que vão caminhando pela caverna?
Gucky continuou
sério.
— Isso mesmo,
caminham. Têm pezinhos delicados, que também desempenham as funções de raízes. Podem
mergulhar esses pés no solo a fim de absorver água e alimentos. No verão levam
vida nômade; andam de um lugar para outro. E o verão também é o tempo da
fecundação. Os sonolentos são polissexuados. Cinco indivíduos de sua raça
formam um casal. Vocês devem ter notado que as flores têm cinco cores principais.
Tiff inclinou-se
para a frente. Seu rosto estava transformado num ponto de interrogação.
— Como é que
você conversa com eles? São telepatas?
— Isso mesmo.
São telepatas de elevada potência. Captam as emissões mentais a grande
distância e são capazes de receber as que vêm das profundezas do espaço. É esta
sua única distração durante os anos de sonolência.

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