segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-033 - Mundo de Gelo em Chamas - Clark Darlton [parte 3]


— Que idade atingem?
— Chegam aos duzentos anos, pela contagem terrena. Quer dizer que seu tempo de vida abrange um verão e um inverno — Gucky inclinou a cabeça e parecia escutar alguma coisa. Seu dente roedor desapareceu e tudo indicava que não tinha a menor vontade de reaparecer.
Aproximou-se da tulipa vermelha, que estava com os cinco olhos arregalados, fitando-o. Havia uma estranha semelhança entre os olhos da tulipa e os de Gucky. Tinham em comum não apenas a cor castanha, mas também a expressão de bondade e lealdade.
Gucky permaneceu na mesma posição por cerca de três minutos. Depois levantou a cabeça.
— Se vocês se esforçarem, compreenderão seus pensamentos. Infelizmente terei que deixá-los sós por cinco minutos. Uma coisa horrível acaba de acontecer. Os saltadores desencadearam um incêndio atômico neste planeta. É um incêndio que ninguém poderá apagar. Colocaram uma bomba que explodirá dentro de cinco minutos. Não poderei removê-la, já que o processo que se desenvolve no interior da bomba já foi iniciado. É tarde. Este mundo está perdido. A única coisa que posso fazer é vingá-lo.
Subitamente os quatro humanos viram-se a sós com os sonolentos. Gucky desaparecera sem despedir-se, a fim de executar a sentença de morte proferida pelas tulipas.
Tiff procurou dar um tom de realidade à situação fantasmagórica. A planta continuava a olhá-lo fixamente, e subitamente sentiu que falava a ele. Parecia alguma coisa que tateava em seu cérebro, que procurava tocar levemente em sua consciência.
Vocês não são maus”, disse o sonolento, ou seria a sonolenta? — em silêncio. “E vocês não sabiam que este mundo é habitado. Seus inimigos querem destruí-los, mas destroem nosso mundo. São maus e perversos.
— Serão castigados por isso — murmurou Tiff, embora soubesse que suas palavras representavam um consolo muito débil.
Viu que Hump e as duas moças se mantinham imóveis, escutando. Também deviam ter compreendido a voz silenciosa.
— Sim, eles vão morrer. Mas nossa raça morrerá com eles. Ninguém pode extinguir o incêndio atômico que acaba de ser ateado ao nosso planeta. A história dos sonolentos, que é o nome que vocês nos dão, está chegando ao fim.
— Se tivéssemos uma nave que nos salvasse, poderíamos levá-los. Ao menos poderíamos levar alguns de vocês, para evitar a extinção da raça — disse Tiff, e no mesmo instante deu-se conta de que não só estes seres estranhos estavam perdidos. Se Rhodan não acorresse em seu auxílio, ele e seus companheiros também estariam liquidados. — Acho que ainda não devemos renunciar a todas as esperanças.
— Tiff — interrompeu-o Felicitas, que compreendera tudo. — De qualquer maneira devíamos tentar salvar alguns dos sonolentos. Se Rhodan chegar em tempo, poderemos evitar o extermínio da raça. Posteriormente encontraremos um mundo desabitado em que poderá começar de novo.
Tiff confirmou com um aceno de cabeça e inclinou-se para o sonolento que estava acordado.
— Compreendeu o que ela acaba de dizer? Faremos o possível para conservar sua raça. Mas será uma decisão muito difícil para vocês. Talvez poderemos levar alguns, mas não podemos levar todos. Quem fará a escolha?
A onda de pânico tornou-se mais intensa, mas foi superada pelos pensamentos da tulipa vermelha.
Todos nós temos apego à vida, mas a conservação da raça é mais importante que a existência do indivíduo. Escolherei dez casais, isto é, cinqüenta exemplares jovens e saudáveis de nossa raça. Estes irão com vocês.”
— Irão? — indagou Tiff em tom de dúvida.
Conforme leio nos seus pensamentos, vocês têm caixas. Uma dessas caixas será suficiente para abrigar os exemplares escolhidos. E não são muito pesados. Seu amiguinho Gucky não terá a menor dificuldade em transportá-los pela maneira estranha que lhe é peculiar. Mais tarde, dentro de vários milênios, os terranos terão um aliado que lhes será eternamente grato: nossos descendentes.”
— Vamos esperar a volta de Gucky — sugeriu Tiff. — Até lá queremos aprender tudo que devemos saber a respeito de vocês. Vocês inspiram gás carbônico?
E expiramos oxigênio” confirmou a tulipa vermelha. “Mas só quando brilha o sol, ou quando, durante o inverno, somos acalentados por nosso sol artificial.”
— Vocês são aparentados com as plantas do planeta Terra — disse Tiff e viu que Felicitas ia de um nicho a outro, e vez por outra arrancava cuidadosamente uma das tulipas.
As flores tinham raízes muito longas, que eram enroladas assim que perdiam o contacto com o solo.
— Assim ocupam menos lugar — disse o indivíduo que até então lhes falara em silêncio. — Agüentam muitos dias sem água e alimento. Se não forem expostas a condições extremamente adversas, não morrerão.
— Se nós formos salvos, elas também o serão — prometeu Tiff.
Nesse meio tempo Felicitas conseguira arrancar as cinqüenta plantas e reuni-las num feixe. Na maior parte das vezes os olhos permaneciam fechados, mas os quatro seres humanos sentiram a intensificação das idéias de pânico. Estas passavam sobre eles como as ondas dum oceano, crescendo e diminuindo a intervalos regulares. Era o canto fúnebre desolado duma raça condenada à extinção.
Subitamente Gucky estava novamente entre eles sem que se fizesse anunciar. Em seus olhos castanhos, geralmente tão bondosos, brilhava alguma coisa que Tiff nunca vira neles. Era o ódio.
— Os assassinos deste mundo morrerão com ele — disse sua voz aguda. — Destruí sua nave e eles não têm a menor possibilidade de sair deste planeta. Pelo que li nos pensamentos do tal do Orlgans, Etztak anda tão ocupado que não terá tempo de preocupar-se com eles. Além disso, o patriarca não sabe o que aconteceu. Acredita que Orlgans está regressando de sua missão infame. O assassino morrerá juntamente com suas vítimas.
— E nós? — perguntou Tiff. — Não morreremos com eles?
Gucky não deu atenção às suas palavras. Prosseguiu:
— Aconteceu mais uma coisa. Uma das naves dos saltadores, provavelmente a de Orlgans, atingiu a entrada da caverna com um disparo de canhão de radiações. A rocha derreteu-se. Estamos fechados. Para mim isso não representa qualquer obstáculo, pois posso transportar-me por meio da teleportação. Mas será difícil levar vocês através da grossa parede de rocha que nos separa do exterior.
Tiff empalideceu.
— Estamos fechados? — soltou um gemido desesperado. — Era só o que faltava. O que será de nós?
Felicitas aproximou-se. Carregava nos braços o último feixe de tulipas. Ouvira as palavras que Gucky acabara de pronunciar.
— Estamos fechados? Neste caso os sonolentos estão perdidos, inclusive os que pretendíamos salvar.
— Ainda podemos contar com Moisés, que é nosso robô — disse Hump sem demonstrar muita esperança. — Talvez possa ajudar-nos.
— Sem dúvida — confirmou Gucky. — Dispomos de pelo menos dois dias até que o incêndio atômico atinja a zona equatorial.
A energia de Moisés será suficiente para abrir a parede de rocha. Teremos que contar com uma intensa geração de calor, mas a caverna é bastante profunda. Quanto a Moisés, este saberá cuidar de si.
— Quando conseguirmos chegar lá fora, só faltará Rhodan para completar nossa felicidade — observou Milly com a voz tímida.
— Se soubesse como está nossa situação não perderia um segundo; viria imediatamente em nosso auxílio.
— No momento Rhodan tem outras preocupações — disse Tiff, mas o tom de sua voz não era muito convincente. — Tenho certeza de que se lembrará de nós, quando tiver tempo.
— Ele tem tempo — disse Gucky, encerrando o tema. — Não acredito que ele nos deixe na mão.
Felicitas lembrou-se da tarefa que tinha de cumprir.
— Gucky, será que você pode trazer uma caixa alongada na qual possamos guardar os sonolentos? Prometemos...
— Já sei — interrompeu Gucky. — Um instante.
Mais uma vez deixou-os sós.

* * *

Orlgans sabia que ele e seus homens estariam perdidos se não recebessem socorro.
Uma luz ofuscante que brilhava ao norte anunciara-lhe o início da desastrosa reação em cadeia. Numa fuga precipitada correra para o sul em companhia de alguns dos seus homens, assim que a nave explodiu. Empreendendo uma verdadeira marcha forçada, percorreram quase quarenta quilômetros no primeiro dia, atravessando o deserto de gelo e deixando para trás o furioso incêndio atômico que os ameaçava, e que já dava sinal de si através de alguns rios, que corriam para o sul apesar do tremendo frio. Ficara mais quente, conforme Orlgans pôde constatar em seu instrumento de pulso, muito embora a temperatura ainda fosse de cinqüenta graus centígrados abaixo de zero. Os rios voltaram a congelar, mas as massas de água aquecida corriam por cima deles, apenas para congelar também.
As barreiras de gelo dificultavam a marcha.
Quando os dois sóis desceram abaixo do horizonte, a noite desceu sobre o planeta.
Mas a temperatura, em vez de diminuir, aumentou. Os rios não congelavam mais; corriam furiosamente para o sul. Enchiam os vales largos e pouco profundos com as massas de água borbulhantes e fumegantes, que vez ou outra penetrava nas cavernas, sufocando todas as formas de vida subterrânea.
Ao raiar do dia, uma terrível luz vermelha brilhava ao norte, bem acima do horizonte. A temperatura subira a zero graus, e a neve derretia em todos os lugares. Os rios subiam.
Orlgans e seus homens esforçaram-se para ganhar altura. Depois duma marcha longa e penosa chegaram a um platô, coberto apenas por uma fina camada de gelo. De todos os lados desciam as encostas íngremes, um fato que garantia a drenagem do platô. Ao menos não morreriam afogados.
Será que isso era uma vantagem?
Orlgans parou e olhou para o norte, onde a luminosidade se tornara mais intensa. O céu parecia arder. Colunas gigantescas de chamas turbilhonantes deslocavam-se que nem um furacão no sentido da rotação do planeta. O novo oceano bramia em torno do platô. Os saltadores perceberam que a elevação em que se encontravam não passava duma ilha cercada pelo grande oceano. A retirada lhes havia sido cortada. Estavam irremediavelmente perdidos.
Raganzt estreitou os olhos e virou o rosto para o norte.
— Estamos perdidos — disse, esforçando-se para dar um tom firme à voz. —Estamos numa armadilha. Se aqui houvesse árvores, poderíamos construir uma jangada.
A correnteza do mar nos levaria para o sul.
— Morreremos queimados — confirmou Orlgans com a voz trêmula. — Este planeta morrerá uma morte terrível.
— E nós morreremos com ele — constatou Raganzt. — Isso se Etztak não aparecer em tempo para salvar-nos. Afinal, já estamos atrasados um dia. Bem que poderia imaginar que houve algum imprevisto.
— Ele sabe que o planeta está em chamas. Talvez pense que já estamos perdidos. Veja, Raganzt, o incêndio atômico. Avança mais depressa do que qualquer pessoa poderia correr. E a temperatura continua a subir. Por enquanto a refrigeração de nossos trajes espaciais ainda nos oferece alguma proteção. Mas daqui a pouco eles não servirão para mais nada.
O mar que se agitava em torno das costas rochosas começava a fumegar cada vez mais. Em alguns lugares já chegava a borbulhar. Os dois sóis já haviam desaparecido atrás das nuvens cada vez mais densas, que num gesto de misericórdia ocultava das estrelas o rosto do planeta que se debatia nos estertores da morte.
O chão começou a esquentar. Não se podia ficar mais de trinta segundos no mesmo lugar. O resto do gelo já havia derretido.
A cortina de fogo, vinda do norte, precipitava-se em direção ao lugar em que se encontravam. A reação em cadeia não atingira somente a terra e a água, mas também se desenvolvia na atmosfera. O ar ardia. Transformava-se em energia.
O mundo submergiu.
Quando o inferno em fúria chegou às montanhas e a onda de calor que precedia a catástrofe passou sobre o platô, não encontrou mais nenhuma forma de vida.
Orlgans e seus cúmplices haviam morrido da mesma morte que destinaram aos outros.

* * *

Etztak teve de esforçar-se bastante para conservar a calma.
Os ataques-relâmpago dos dois cruzadores terranos, que eram esferas de duzentos metros de diâmetro, exigiam toda sua atenção. Orlgans ainda não regressara, e o comandante da nave que o acompanhara não sabia dar qualquer informação. O contacto pelo rádio foi interrompido de uma hora para outra, mas isso não significava necessariamente que havia algo de anormal. Até mesmo a tecnologia mais avançada não está livre de falhas. De resto, Etztak não teve tempo de refletir a ausência de Orlgans. De qualquer maneira, suas ordens foram cumpridas. O segundo planeta começava a arder. A fogueira atômica, iniciada no pólo norte, espalhava-se de maneira uniforme em direção ao sul.
Rhodan devia saber que ninguém se intromete nos negócios dos mercadores galácticos sem receber o castigo merecido.
Etztak já havia perdido duas de suas naves não adaptadas a uma batalha aberta, quando recebeu uma mensagem de Topthor, o superpesado. Era uma mensagem lacônica:

Para Etztak, patriarca do clã. Oferta recebida e recusada. Não estou disposto a entrar em ação. Rhodan é muito forte. Aconselho a retirada.
Topthor Clã dos superpesados.

Furioso, Etztak contemplou o radio-grama, expedido num sistema estelar situado a mais de 15.000 anos-luz. Então Topthor resolvera colocar-se em segurança juntamente com os restos miseráveis de sua frota. Ninguém poderia levar a mal essa atitude. Mas Etztak sentiu-se decepcionado.
Enquanto refletia, dando-se conta de como estava só de uma hora para outra, sentiu uma correnteza de ar na sala de comando.
Era estranho, pois todas as portas estavam fechadas e não havia ninguém além dele na extensa sala.
Ao menos um segundo atrás ainda não havia.
Horrorizado, Etztak fitou o fantasma escuro que materializou do nada e, exibindo um amplo sorriso, fez uma mesura. Usava uniforme, mas não envergava traje espacial. Uma cabeleira negra encarapinhava-se na cabeça parda; embaixo dos olhos bem abertos via-se um nariz achatado. Entre os lábios brilhavam duas fileiras de dentes alvos. As mãos escuras do fantasma seguravam um papel, que contrastava estranhamente com o vulto escuro.
— Não se assuste, Etztak — disse o fantasma em intercosmo. — Sou Ras Tshubai e pertenço ao exército de mutantes de Perry Rhodan. Meu comandante mandou que viesse até aqui para entregar-lhe um ultimato. Aliás, sou um teleportador, e por isso não tive a menor dificuldade em penetrar em sua nave.
Naturalmente Etztak já ouvira falar em seres inteligentes que possuíam o dom da teleportação. As experiências até então feitas com os terrenos indicavam que essa raça conseguira desenvolver faculdades extraordinárias. Aos poucos venceu o espanto.
— Foi Rhodan que o mandou? — perguntou para certificar-se. Seus instrumentos ainda não haviam registrado qualquer abalo. Pelo que sabia, Rhodan não podia encontrar-se nas proximidades. — Por que não vem pessoalmente?
— Seria melhor para o senhor que não viesse — disse o robusto negro e estendeu-lhe a folha de papel. — Leia. Depois conversaremos.
Etztak segurou o papel. À primeira vista percebeu que estava escrito em intercosmo. Não era de admirar que os terranos, até então uma raça desconhecida, dominassem essa língua, pois os arcônidas lhes vinham ensinando.
Sem dar atenção a Ras Tshubai, pôs-se a ler:

Para Etztak, patriarca de seu clã de saltadores. Destruí a frota de guerra dos superpesados. Apenas poupei Topthor e Grogham, a fim de que possam retornar para junto de seu clã e prevenir o mesmo de que nunca mais deve aproximar-se da Terra, a não ser para fins de negociação. E dou uma última chance ao senhor, Etztak. Desde que se retire dentro de dez horas, nada lhe acontecerá. Daqui a dez horas irei ao sistema de Beta-Albíreo para retirar meus homens que se encontram no segundo planeta. Se ainda o encontrar por lá, eu o destruirei. Não se atreva a lançar novos ataques contra o segundo planeta. Meus cruzadores receberam instruções para impedi-lo. O senhor dispõe de dez horas. Aproveite-as. Quando avistar minha nave, será tarde.
Perry Rhodan Terra.

Etztak leu o ultimato duas vezes e num movimento vagaroso colocou o papel sobre a mesa. Sentou. Por um instante parecia ter esquecido a presença do terrano negro.
Será que Rhodan ainda não sabia que um incêndio atômico havia sido deflagrado no segundo planeta? Não seria onisciente, como tudo parecia indicar?
Ras Tshubai pigarreou.
— Meu comandante gostaria de receber uma resposta. Tenho instruções para estabelecer o contacto assim que regressar ao cruzador.
Etztak estreitou os olhos.
— Quero falar pessoalmente com Rhodan — disse.
— Por quê? Não há nada para negociar.
— Talvez haja. Tenho que transmitir-lhe uma informação muito importante.
— Pode dar a informação a mim. É a mesma coisa. Daqui a cinco minutos estarei falando com Rhodan.
— Prefiro contar-lhe pessoalmente.
O negro deu de ombros.
— Posso transmitir o recado, mas não tenho muita esperança de que atenda. Se me permite que lhe dê um conselho estritamente pessoal, Etztak, faça o que Rhodan pede. Não há outra saída para o senhor.
Etztak não respondeu. Fitou o rosto de Ras, mas não conseguiu ler no mesmo.
Subitamente o negro dissolveu-se no ar, e desapareceu.
Etztak não perdeu tempo. Ligou a chave que estabelecia contacto com suas naves. Quando os comandantes surgiram nas telas, olhando-o com uma expressão de curiosidade no rosto, disse no dialeto do clã:
— Os terranos nos enviaram um ultimato. Eles nos dão dez horas para dar o fora daqui. Gostaria de saber a opinião de vocês.
Logo teve de constatar que não havia nem um pouco de união entre os membros do clã. A maioria achou conveniente ignorar o ultimato e atacar a própria Terra, mas havia alguns mais cautelosos. Estes recomendaram voltar imediatamente à base do clã e preparar uma guerra em regra.
Etztak ouviu pacientemente as opiniões dos comandantes, conforme era costume. Cada um podia formular sugestões, mas a decisão final cabia ao patriarca.
E não gostou de ouvir as ponderações dos elementos cautelosos.
— Se cumprirmos hoje as exigências dos terranos — disse quando notou que não haveria outras propostas — estaremos reconhecendo nossa derrota. Nós, os mercadores da Galáxia, capitularíamos diante de seres que só há um decênio descobriram os segredos da navegação espacial. Nós a conhecemos há oito mil anos, sem contar o tempo em que nossos antepassados arcônidas a praticavam. Seria como se um homem velho e experimentado cedesse aos conselhos duma criança. Nem que tivesse que morrer, nunca faria uma coisa dessas. Todo o meu ser revolta-se diante da perspectiva. Afinal, quem é este Rhodan, que nos apresenta um ultimato? Apenas um favorito de alguns arcônidas decadentes, que se apaixonaram por ele e por seu mundo.
— Rhodan conhece a posição do planeta da vida eterna — disse um dos comandantes. — Todos os povos da Galáxia procuram esse planeta há milênios, e foi Rhodan que o encontrou.
— Teve sorte, mas a sorte nunca dura para sempre — respondeu Etztak, furioso.
— Vamos capitular só porque um terrano teve sorte?
— Não — disse o comandante que acabara de falar. — Não é por isso. É porque, segundo dizem, no planeta da vida eterna existem segredos que transformam aquele que os descobre no dono de todas as galáxias. É possível que Rhodan tenha descoberto esses segredos.
Zangado, Etztak acenou com a cabeça.
— É possível! Se for assim, está na hora de tirarmos os segredos desse terrano. Qualquer ser que conheça os segredos do planeta da vida eterna e não é um saltador representa um perigo para a Galáxia — depois dessa constatação um tanto subjetiva, Etztak disse em tom desajeitado: — Previno todos os elementos excessivamente cautelosos para que não tomem uma decisão apressada. Sou a favor da resistência e da luta. Mas cederei ao desejo da maioria. Qual é a decisão?
A decisão foi quase unânime.
Etztak e seu clã lutariam, se necessário até a última nave.
— Alguém deve prevenir a Galáxia — sugeriu alguém. — Se Rhodan realmente conseguisse destruir todas as nossas naves...
— Topthor já fugiu e tomará todas as providências que se fazem necessárias. Não se preocupe, Heratz. Mesmo que morramos todos, a Galáxia está prevenida. Seremos vingados.
Nas telas notava-se um silêncio total, até que um dos saltadores disse em tom ligeiramente irônico:
— Nem por isso voltaremos a viver.
Etztak não respondeu. Desligou o rádio e, estreitando os olhos, contemplou o mundo condenado à morte.

* * *

O cruzador pesado Solar System separou-se da nave Terra e reduziu a velocidade. Ras Tshubai entregara a mensagem destinada a Etztak e informou Rhodan. A mensagem de rádio foi curta e objetiva.
O motivo pelo qual o major Nyssen reduziu a velocidade e se aproximava cautelosamente do segundo planeta era mais que evidente. Uma modificação estarrecedora estava ocorrendo na superfície do mesmo.
De início o pólo começou a arder. O major Nyssen pensou que se tratasse duma explosão atômica ultrapotente, destinada talvez a derreter a crosta de gelo. Não desconfiara logo. Mas quando o fogo se espalhou, avançando lenta, mas inexoravelmente em direção ao sul, começou a desconfiar.
Uma idéia terrível surgiu em sua mente.
Enquanto Ras levou a mensagem à sala de rádio, Nyssen informou MacClears, comandante da Terra, sobre a ação que iria empreender, instruindo-o para que não esmorecesse nos ataques contra os saltadores.
— Voltarei o mais rápido possível, mas é de vital importância verificarmos o que está acontecendo no mundo de gelo. Não devemos esquecer que um grupo de nossa gente se encontra lá.
À medida que a Solar System se aproximava do planeta, a suspeita de Nyssen transformou-se em certeza. Até parecia que um incêndio atômico estava consumindo o mundo de neve.
E esse incêndio não poderia ter sido provocado por uma causa natural. Se realmente fosse um incêndio atômico, este só poderia ter sido ateado pelos saltadores.
Pelo simples fato de não conseguirem agarrar um grupo de cinco pessoas pertencentes à equipe de Rhodan destruíam um mundo inteiro.
Sentiu-se dominado pela cólera. Se Etztak estivesse diante dele, não teria escrúpulos em estrangulá-lo com as próprias mãos.
Mas logo se lembrou de Tiff e das moças.
Circulou duas vezes em torno do mundo de gelo, sem descobrir o menor vestígio do grupo perdido. Não era de admirar, pois não dispunha de tempo para realizar uma busca sistemática. E foi por isso que não descobriu Orlgans e sua tripulação.
De qualquer maneira adquiriu a certeza de que o segundo planeta do sol geminado de Beta-Albíreo estava a ponto de transformar-se no terceiro sol do sistema. Se não acontecesse logo alguma coisa, Tiff, Hump, Eberhardt, as duas moças e Gucky estariam irremediavelmente perdidos.
O que poderia fazer? Os elementos extraviados não respondiam às mensagens expedidas pelo rádio. Talvez nem devessem responder. Nyssen não estava muito bem informado sobre as intenções que animaram Rhodan ao enviar Tiff numa missão secreta dirigida contra os saltadores.
De forma que só lhe restava uma possibilidade; e o major Nyssen logo a reconheceu.
Deixou para trás as fúrias do inferno atômico e penetrou no espaço. A cerca de uma hora-luz de Beta-Albíreo II, estabeleceu contacto audiovisual com Rhodan.

* * *

Bell saiu do camarote com o rosto sonolento e lançou um olhar desconfiado para Rhodan, que se encontrava na sala de comando da Stardust-III.
— Será que você podia fazer a gentileza de dizer como faz para ficar sem dormir? Se me deixassem em paz, só acordaria daqui a dois meses.
— É que na velhice sentimos as conseqüências dos pecados da juventude — disse Rhodan com um sorriso condescendente.
Bell olhou-o com a expressão de quem está prestes a sofrer um ataque.
— Não venha me dizer que com meus trinta e sete anos sou um velho.
Rhodan continuava a sorrir.
— Em termos relativos você envelheceu alguns anos, meu caro. Mas quanto aos pecados da sua juventude, nunca se pode dizer se você não os repetirá na velhice.
Basta lembrar uma certa Rallas...
— Pare! — berrou Bell apavorado, sem conseguir impedir que seus cabelos se arrepiassem de pavor. Bell tinha cabelos ruivos cortados à escovinha. Às vezes sua cabeça parecia uma escova de fios de arame. Especialmente quando ficava furioso. E também quando lhe lembravam coisas que preferia esquecer. E não havia nada que gostasse tanto de esquecer como a tal da Rallas.
— O que houve? — indagou Rhodan em tom compreensivo. — Afinal, foi uma bela mulher, não foi?
Bell não quis saber de nada. Era claro que o fenômeno espiritual que o imortal introduzira em seu camarote fora belo. Mas fora uma simples piada. O imortal gostava de fazer piadas desse tipo quando alguém o visitava nos confins da eternidade. E toda a tripulação divertira-se a valer. Bell preferia não pensar nisso.
— Não há nada mais importante? — resmungou contrariado. — E por uma coisa dessas você mandou me acordar?
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria.
— Não foi só por isso — confessou. — Tive mais alguns motivos. Acabo de enviar um ultimato a Etztak por intermédio de Ras Tshubai. O prazo termina daqui a dez horas. É claro que agora mesmo poderia executar o salto em direção a Beta-Albíreo, mas prefiro dar tempo aos saltadores, para que reflitam bem sobre o que irão fazer.
Neste meio tempo não haverá novos ataques ao mundo de gelo, motivo por que Tiff não correrá o menor perigo. Podemos voltar à Terra, onde temos alguns assuntos a tratar.
— Dentro de dez horas? — disse Bell em tom de dúvida. — É um prazo muito curto.
— Acontece que preciso dar algumas instruções ao coronel Freyt. Não sabemos quando voltaremos de Albíreo.
Bell continuava a mostrar-se cético.
— Só assim Crest e Thora voltarão a encher nossos ouvidos com suas lamentações e pedidos de levá-los para Árcon. Não sei, não...
Rhodan não teve tempo de pronunciar-se sobre esse assunto melindroso, pois uma luz vermelha de advertência acendeu-se. A sala de telegrafia desejava entrar em contacto com o comandante.
Rhodan estabeleceu o contacto.
— O que houve?
— Estamos em contacto com o cruzador Solar System. Um chamado de emergência.
Rhodan lançou um olhar rápido para Bell.
— Contacto! — ordenou.
— Trata-se dum contacto audiovisual por hiperondas — explicou o telegrafista de plantão. Poucos segundos depois a tela de Rhodan iluminou-se. O rosto preocupado do major Nyssen surgiu na mesma. Rhodan cumprimentou-o com um aceno de cabeça.
— O senhor me chama por hiperondas, o que só é permitido em casos de extrema urgência. Está sendo atacado pelos saltadores?
— Estes continuam a manter-se na defensiva — respondeu Nyssen, sacudindo a cabeça. — O motivo de meu chamado é outro. Tiff e os membros de seu grupo se encontram numa situação de grave perigo. Os saltadores desencadearam um incêndio atômico no segundo planeta.
— Uma reação em cadeia? — certificou-se Rhodan em tom assustado. O cabelo de Bell reiniciou o jogo cruel, transformando-se na conhecida escova. — Quer dizer que os saltadores não tiveram escrúpulos em destruir um mundo?
— Não existe a menor dúvida. Convenci-me pessoalmente da terrível realidade. O incêndio teve início no pólo norte e aproxima-se do equador com uma velocidade inacreditável.
— Pelas últimas notícias que recebemos, Tiff encontra-se na zona equatorial —murmurou Rhodan em tom preocupado.
— Apesar das pesquisas que realizei não consegui descobri-lo. Até parece que sumiu da face da terra. Mas isso não lhe adiantaria nada. O planeta está totalmente perdido. As massas de gelo já derreteram.
Os rios caudalosos unem-se para formar mares, que nas zonas temperadas já entraram em ebulição.
— Dei um ultimato a Etztak — principiou Rhodan, mas Nyssen interrompeu-o abruptamente.
— Daqui a dez horas o incêndio já terá ultrapassado a zona equatorial. O senhor não pode esperar tanto tempo, a não ser que queira expor Tiff e seu grupo a um destino horrível. Gostaria de salvá-lo, mas os saltadores se mantêm alertas. Atacaram-me com sete naves enquanto efetuei meu vôo de reconhecimento.
Rhodan fez um sinal a Bell, que se esforçava em vão para formular uma sugestão.
— Com isto meu ultimato dirigido a Etztak perdeu a validade. De resto, tudo indica que não tem a indicação de levá-lo a sério. Se não fosse assim, não o teria atacado. Pois bem, ele terá uma idéia do que acontece a quem ataca nossa Terra. Major Nyssen, procure descobrir algum sinal de vida de Tiff. Dentro de dez minutos chegarei aí na Stardust-III. E quando isso acontecer, ai dos saltadores.
A tela apagou-se e o rosto aliviado de Nyssen desapareceu.
— Isso é...! — disse Bell. Não conseguiu dizer mais nada.
— Sim, isso é um ato diabólico e irresponsável. O planeta de gelo é habitado. Nas cavernas tépidas vivem os sonolentos. Não sei quem são, mas segundo as informações de Tiff possuem um certo grau de inteligência e bondade. De qualquer maneira são uma raça pacífica, que não faz mal a ninguém. E essa raça antiga está condenada a desaparecer, só porque um velho não quis admitir que sofreu uma derrota. Ele vai pagar por isso.
Antes que Bell tivesse tempo de responder, Rhodan instruiu o cérebro positrônico a calcular as coordenadas do salto. A distância era de cerca de 320 anos-luz, e por isso não representava nenhum problema. O importante era que os cálculos fossem absolutamente exatos, pois após a rematerialização não se poderia perder um minuto sequer para calcular a posição.
Dali a cinco minutos o cérebro expeliu a folha metálica com a resposta. Rhodan pegou-a e a introduziu no robô de navegação, que dali em diante assumiu o comando da gigantesca nave.
Rhodan esperou até que a voz metálica da máquina começasse a falar:
— Conservamos o rumo. Velocidade constante. Salto será executado exatamente dentro de três minutos. Coordenadas conhecidas. Contagem regressiva será iniciada a sessenta segundos antes de zero.
Bell gemeu.
— Só por isso sou acordado. Bem que poderia dormir durante o salto.
Os traços de Rhodan descontraíram-se um pouco. As rugas profundas desapareceram, e os olhos emitiram um brilho irônico.
— Acho que isso não adiantaria muito, meu velho. O salto propriamente dito só dura alguns segundos.
— Na minha idade — respondeu Bell, lançando um olhar sugestivo para o amigo, que contava mais dois anos que ele — qualquer segundo de sono é uma preciosidade — atirou-se na poltrona do co-piloto e fitou o relógio de segundos. — Prefiro nem falar na sua idade.
Naquele instante a voz metálica do robô iniciou a contagem.
— Sessenta segundos... cinqüenta e nove segundos... cinqüenta e...

* * *

Moisés levou quase cinco minutos para anunciar sua decisão ao grupo que se mantinha numa ansiosa expectativa. Foi o tempo que o cérebro positrônico gastou para pesar todas as alternativas e descobrir o melhor resultado que as circunstâncias permitiam.
— Gucky constatou que um incêndio atômico vindo do norte aproxima-se do equador. A temperatura externa já subiu acima de zero. O gelo está derretendo ao norte, e as águas avançam para o sul. Só o fato de que a entrada da caverna foi fechada pelo bombardeio de radiações salvou-nos da morte por afogamento. Só nos resta uma saída: para cima.
Tiff e seus companheiros lançaram um olhar para a maciça camada de pedra.
— Acima de nós existem pelo menos trinta metros de rocha natural, Moisés — disse em tom desesperançado.
— Em compensação provavelmente não existe água — respondeu o robô. — Temos que tentar. Retirem-se para a entrada da caverna, onde a mesma é mais elevada. Se houver uma penetração de água, fechem os capacetes dos trajes espaciais. Nesse caso terão de mergulhar.
— Mergulhar por um poço cheio de água... e subindo trinta metros?
— Se necessário, sim. Não nos resta outra alternativa. Não podemos pedir socorro, pois a rocha representa uma barreira.
Se não nos salvarmos sozinhos, estaremos perdidos. Embora seja apenas um robô, não tenho a menor vontade de enferrujar na água.
Gucky lançou um olhar para a caixa em que estavam guardados os sonolentos.
— A água não lhes causará maior mal. Além disso, a caixa pode ser hermeticamente fechada. Mas com o tempo isso não seria bom para eles.
— Vamos começar — sugeriu Moisés. — Não temos muito tempo. Quando a rocha se tornar incandescente, será tarde.
Tiff fez um sinal ao robô.
— Está bem. Iremos até a entrada antiga. E tome cuidado para não se queimar.
— Não se preocupe. Meus aparelhos de refrigeração agüentam muita coisa.
Afastaram-se de Moisés, que logo deu início ao trabalho. Os dois radiadores energéticos penetravam na rocha maciça, que, depois de derretida, caía em pesados pingos. A maior parte Volatilizou-se. Os gases, mais pesados que o ar, corriam preguiçosamente na direção da grande caverna. Para os sonolentos que se mantinham na expectativa, seriam os prenúncios da morte que se aproximava.
Tiff parou diante da parede derretida da antiga entrada. Hump, que se mantinha num estranho silêncio, encostou-se a uma rocha saliente. Eberhardt sentou na caixa com as tulipas. As duas moças olhavam-se apavoradas, Nos seus olhos lia-se o medo de morrer. Só Gucky mantinha-se tranqüilo. Fez um sinal tranqüilizador para Tiff e disse:
— Verificarei como estão as coisas lá fora. Se soubesse onde estão os cruzadores poderia arriscar um salto até lá. Mas saltar no escuro seria uma temeridade. É possível que um dos telepatas capte meu chamado.
Logo estarei de volta — prometeu, e desapareceu.
Os que ficaram para trás olharam-se sem dizer uma palavra. Será que Gucky conseguiria entrar em contacto com os cruzadores?
O tempo passava devagar. Os gases da rocha volatilizada e o calor chegavam até ali. Quando Tiff pôs a mão na rocha da parede externa, ele a retirou com um grito de espanto.
Estava morna.
Gucky demorou dez minutos. Subitamente reapareceu no meio deles. O pêlo estava liso e molhado. Soltou um apito agudo, que exprimia o maior grau de contrariedade. Seu rosto parecia feito só de recriminação. Fumegava no verdadeiro sentido da palavra.
— O que houve, Gucky? — perguntaram Tiff e Milly, falando ao mesmo tempo.
Gucky lançou-lhes um olhar de censura.
— Nem me perguntem, amigos. Talvez a resposta venha a ser uma decepção amarga para vocês. Mas não posso deixá-los na incerteza. Sabem onde estamos? Não, não sabem; afinal, não podem adivinhar.
Pois eu lhes direi: estamos no fundo dum mar.
— Hein? — perguntou Eberhardt, e por pouco não escorrega da caixa em que estava sentado. — Onde estamos mesmo?
— É o que lhes digo — confirmou Gucky. — Eu mesmo não acreditaria, se não tivesse estado lá fora. Quando me materializei, vi que estava embaixo da água. Ainda bem que acabara de inspirar. Fiquei tão assustado que preferi não arriscar outro salto; poderia ter caído algumas dezenas de metros, o que não seria nada agradável. Subi simplesmente à tona. Temos um mar em cima de nós. A profundidade é de uns trinta ou quarenta metros. Do morro em que nos encontramos só se vê a ponta.
— Nesse caso a água penetrará na caverna assim que Moisés romper a superfície — constatou Hump. — Tem que suspender imediatamente as perfurações.
— Será que você ficou louco? — perguntou Tiff. — Quer morrer sufocado aqui dentro?
— Morrer queimado! — retificou Gucky, muito sério. — Não nos resta outra alternativa senão subir pela água. Aliás, a temperatura da água é bastante agradável. Calculo que dentro de dez horas estará fervendo.
Por alguns instantes um silêncio de pavor tomou conta do grupo. Finalmente Tiff disse:
— Pedirei a Moisés que se apresse. Fiquem aqui mesmo.
Fechou o capacete do traje espacial e ligou o aparelho de suprimento de oxigênio. Caminhando a passos firmes, dirigiu-se ao lugar em que Moisés havia desaparecido na rocha. O material liquefeito continuava a pingar. Não se via mais nada de Moisés. Tiff esforçou-se para estabelecer contacto com Moisés através do transmissor de capacete.
— Alô, Moisés. Onde é que você está?
— Exatamente dezoito metros e trinta centímetros acima do solo da caverna — veio prontamente a resposta. — Dentro de uma hora o serviço estará concluído.
— Gucky esteve lá fora — prosseguiu Tiff. — O morro já está coberto pela água.
— Tínhamos que contar com isso.
— E a água já começa a esquentar, Moisés.
Houve um instante de silêncio. Finalmente Moisés disse:
— Trabalharei mais depressa. Conseguiremos.
Tiff voltou para junto dos amigos. Os rostos que encontrou não eram alegres nem confiantes.
— Falta uma hora — informou Tiff, depois de abrir o capacete. — Assim que a água penetrar aqui, saberemos que chegou a hora.
Gucky enfiou-se no traje espacial.
— Não estou com vontade de toma banho — disse. — Mesmo que seja um banho quente.
O primeiro minuto de espera parecia uma eternidade.
E a hora tem sessenta minutos...

6



O patriarca atacou.
Acreditava que nas próximas horas não precisaria contar com a presença de Rhodan, e assim quis livrar-se ao menos dos dois cruzadores. Recorreu a toda a frota do clã para destruir as duas naves de Rhodan.
O major Nyssen adivinhou a finalidade dupla do patriarca. Etztak pretendia livrar-se dos dois inimigos antes que tivesse início a luta final com Rhodan, e também quis impedir que alguém fosse procurar o grupo perdido no mundo de gelo.
— Capitão MacClears — disse Nyssen, depois de entrar em contacto com o cruzador Terra. — Procure desviar a atenção dos saltadores, para impedir que eles me sigam. Tenho que tentar localizar Tiff.
— Confie em mim — respondeu MacClears e lançou um olhar preocupado para a outra tela. Viu que as naves dos saltadores entravam em forma para lançar-se ao ataque. Desta vez a coisa parecia séria. — Saberei defender-me. Quando deverá chegar Rhodan?
— Pode aparecer a qualquer momento. Se não tiver possibilidade de entrar em contacto, queira informá-lo sobre o lugar em que me encontro. Entendido?
— Entendido. — respondeu MacClears e cumprimentou Nyssen com um sorriso forçado. — Mostraremos uma coisa a essa gente.
Nyssen retribuiu o sorriso. MacClears viu que a Solar System acelerou fortemente e se precipitou sobre o mundo em chamas, mergulhando na camada de nuvens que parecia um mar agitado.
No mesmo instante os primeiros torpedos atômicos detonaram no campo energético da Terra. O ataque concentrado dos saltadores começara.
No mesmo instante o cruzador pesado transformou-se na perfeita máquina que devia ser segundo seus construtores. Salvas de raios mortíferos saíram do corpo enorme da nave e rompiam os campos energéticos não muito fortes do inimigo, sempre que eram atingidos por cinco raios ao mesmo tempo. Seguiram-se os feixes de raios energéticos que, devidamente concentrados, produziam o mesmo efeito.
Apesar dos êxitos isolados, a superioridade dos saltadores era muito grande. Desviavam-se habilmente dos ataques da Terra e procuraram entrar numa posição de tiro favorável. MacClears percebeu que era sua intenção cercá-lo, para destruir o cruzador com um golpe energético simultâneo desfechado por vinte naves, o que seria perfeitamente possível.
Foi nesse instante que um abalo tremendo da estrutura espaço-temporal fez reagir os rastreadores estruturais. Num ponto bem próximo uma nave devia ter saído do hiperespaço e retornado ao espaço normal.
O amigo e o inimigo viram-na ao mesmo tempo.
Vinda das profundezas do espaço, a esfera reluzente aproximou-se vertiginosamente, anunciando a desgraça.
Rhodan surgira no campo de batalha, a fim de mudar a sorte das armas a seu favor.
Por alguns segundos preciosos, Etztak ficou tão surpreso que MacClears conseguiu, numa manobra fulminante, destruir duas de suas naves, que aguardavam ordens. Mas os saltadores logo bateram numa retirada precipitada, para erigir nova frente defensiva a alguma distância. Ao que tudo indicava estavam decididos a enfrentar a Stardust-III.
Rhodan não teve pressa. A vida de seus homens era mais importante que os saltadores. Entrou em contacto com a Terra.
— Onde está o major Nyssen? — foi a primeira pergunta que formulou.
— Tenta salvar Tiff — explicou MacClears. — Ainda não conseguimos encontrar qualquer vestígio dele.
— Será que o senhor pode impedir Etztak de seguir-me, capitão?
— Tentarei. O que pretende fazer?
— Procurar Tiff. Marshall está a bordo da Solar System?
— Sim senhor. E mais alguns mutantes.
— Estou interessado apenas nos telepatas. Deveriam ter condições de entrar em contacto com Gucky.
— Está bem, chefe. Manterei Etztak ocupado. Quando voltará?
— Assim que tiver encontrado Tiff — disse Rhodan e interrompeu o contacto.
Acelerando ao máximo, precipitou-se em direção à superfície borbulhante do planeta de gelo, que estava prestes a transformar-se num mundo de fogo.

* * *

Quando RB-013 saiu da galeria vertical, foi seguido por um filete de água morna. Tiff espantou-se com isso.
— O que é isso, Moisés? Por que está entrando tão pouca água?
— Apenas soltei um pouco a rocha que está na superfície, para que a torrente da água não me atirasse para baixo. Gucky tem que fazer o resto. Por enquanto estamos seguros neste lugar, que é o ponto mais elevado da caverna. Teremos que esperar até que a água encha toda a caverna. Não sei quanto tempo demorará.
— É verdade. Nunca conseguiríamos vencer a correnteza — reconheceu Tiff. —Acontece que muitas horas poderão passar antes que as galerias e cavernas subterrâneas estejam cheias.
— Não; o senhor está subestimando a força da água. Penetrará com tamanha força que a galeria aumentará a cada segundo que passa. Quando a água chegar aqui, seu diâmetro será de vários metros.
Eberhardt lançou um olhar desolado para o robô.
— E você, Moisés? Sabe nadar?
— Nado melhor que vocês — asseverou Moisés. — Meus jatos desenvolvem uma força de empuxo de...
— Nesse caso será bom que você fique atrás de nós, senão o caldo esquentará demais — decidiu Tiff. — Então, Gucky? O que nos diz?
O rato-castor fez uma careta, que parecia dizer “sempre eu”. Mas finalmente acenou com a cabeça, sentou numa das caixas vazias e concentrou-se. Os poderosos fluxos espirituais emitidos por sua mente subiram pela galeria, encontraram a resistência representada pela última pedra, e agarraram-na.
Não foi fácil vencer a pressão da água e levantar a cobertura derretida nas bordas, que media alguns metros quadrados e tinha uma grossura de cinqüenta centímetros.
Mas o êxito logo se fez sentir.
Com um rugido ensurdecedor o oceano penetrou no vazio subterrâneo. As águas penetraram na galeria. Por um instante foram represadas numa das extremidades, mas logo correram para a parte inferior da caverna.
Dentro de poucos minutos atingiriam os sonolentos.
Eberhardt, que estava sentado na caixa que continha os cinqüenta exemplares de tulipas destinados à sobrevivência, levantou-se subitamente. Nos seus olhos brilhava o medo e o pavor. Suas mãos começaram a tremer.
— Meu Deus! — balbuciou. — Meu Deus, que coisa horrível!
Seu corpo contorceu-se e teria caído se Hump, que estava a seu lado, não o tivesse segurado.
No mesmo instante as moças sentiram-se dominadas por uma onda de pânico, emitida pelos sonolentos moribundos. As idéias que brotaram na mente da raça condenada à morte penetraram nos cérebros dos homens, enchendo-os de pavor e tristeza. Hump e Tiff eram os únicos que pareciam imunizados contra isso. E Gucky.
— Quem me dera que pudesse proteger seus cérebros — lamentou-se o rato-castor.
— Infelizmente não posso. Não se livrarão do pânico enquanto os sonolentos não estiverem mortos. Sua morte será nossa única salvação.
— Será que você não pode dar outro tipo de ajuda? — fungou Tiff, que segurava Milly nos braços, tentando acalmá-la. — Que tal a telecinésia?
— E a água? — lembrou Gucky, mas logo se levantou de um salto. — Vou tentar.
Mas temos que esperar um pouco. Por quanto tempo os sonolentos agüentam embaixo da água? Se soubesse...
Desapareceu diante dos olhos de Tiff, para voltar dentro de dez segundos. Seu traje espacial estava molhado.
— A água já chega à metade da altura da caverna. O sol artificial apagou-se. Não demorará muito e a vida dessa raça estranha se extinguirá. Esperem mais um instante. Vou ver como estão as coisas lá fora.
Fechou o capacete e desmaterializou-se.
Desta vez levou quase três minutos para voltar. Estava radiante.
— Estamos salvos, amigos, desde que consigamos chegar à superfície. O major Nyssen está nas proximidades. Consegui entrar em contacto com John Marshall, o telepata. Encontra-se a bordo da Solar System. Também ouve seu emissor celular, Tiff.
De repente.
— Por que só agora?
Gucky sacudiu os ombros peludos.
— Não faço a menor idéia. Provavelmente até aqui foi superado pelos impulsos mentais provocados pelo medo da raça moribunda. A esta hora a raça está praticamente morta, e seu transmissor se tornou mais forte. É a única explicação que me ocorre.
— Vou perguntar a Rhodan que transmissor é este — murmurou Tiff, pensativo. — De qualquer maneira, ele nos salvou a vida.
— Ainda não — chiou Gucky, olhando para o alto. O ruído da água diminuíra. O nível da mesma subia a olhos vistos e estava atingindo a entrada fechada. Eberhardt e as moças ficaram mais tranqüilas.
— O cume do morro ainda está fora da água — prosseguiu Gucky. — Temos de chegar lá. A galeria tem trinta metros e acima dela há pouco menos de dez metros de água. O cume fica a duzentos metros.
Tiff colocou o capacete e fez sinal aos outros.
— Está na hora, amigos Teremos que nadar.
— Levarei as moças para cima — disse Gucky. — Depois darei uma mão a Eberhardt. Tiff e Hump, vocês terão que dar um jeito sozinhos. Assim que tiver terminado com os outros, poderei cuidar de vocês. E você, Moisés?
— Muito obrigado pelo interesse — respondeu o robô. — Detesto a água, mas não preciso de auxílio. Quando chegarmos à ilha, eu os enxugarei.
Gucky contorceu a boca e viu que a água atingiu seus pés e logo chegou aos joelhos. Fechou o capacete e ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo. Tiff pegou a caixa com os cinqüenta sonolentos.
A água subia cada vez mais depressa. Gucky foi o primeiro que desapareceu sob a superfície ligeiramente ondulada. Os outros seguiram-no. Sentiram-se como mergulhadores que tivessem penetrado numa caverna do fundo do mar, e não sabiam se voltariam a ver a luz do dia.
A água chegou ao teto de pedra, e o silêncio se fez em torno deles.
— Está na hora — repetiu Tiff. Fez alguns movimentos natatórios lentos e flutuou em direção à galeria, onde a água parada não oferecia a menor resistência. — Irei na frente.
— Quando estiver em cima, dê um sinal — pediu Gucky. — Seguirei com Milly.
Hump, fique logo atrás de Tiff.
Dali em diante Tiff estava praticamente só.
Chegou à galeria e olhou para cima. Teve a impressão de que ao longe brilhava uma luz. Devia ser o céu, do qual estava separado por quarenta metros de água. Segurou firmemente a caixa, que praticamente não pesava nada. Tinha que apressar-se, pois do contrário os últimos exemplares duma raça estranha e maravilhosa morreriam afogados.
Empurrou-se com o pé e subiu. Admirou-se de que era tão fácil. Usou a mão esquerda para evitar que esbarrasse em alguma rocha saliente. Moisés tinha razão: a galeria tinha cinco metros de diâmetro.
A luz acima dele tornou-se mais forte. Subitamente viu-se no fundo dum imenso oceano. Ao redor dele só havia água. E abaixo dele abria-se o buraco ameaçador da caverna, do qual Hump estava emergindo naquele instante.
— Gucky, a galeria está desimpedida — anunciou Tiff. — Pode vir quando quiser.
— Procurem atingir a ilha — respondeu Gucky.
Tiff subiu à tona e por pouco não perde a caixa, que subitamente recuperou o peso. Ao lado dele surgiu a cabeça de Hump.
— Bem que você poderia dar uma mão — sugeriu Tiff. — Vamos levantar a caixa um pouco, para que a água possa escorrer.
Senão morrerão afogadas.
Hump fez uma careta, mas não esperou que o amigo repetisse o pedido. Nadando lado a lado, dirigiram-se à costa rochosa da ilha não muito distante.
— E olhe que nunca gostei de flores — disse, amargurado.
Tiff não respondeu. Tentou em vão descobrir no céu qualquer sinal de que estavam sendo esperados. Mas não viu o menor indício da presença da Solar System. Por que a nave não vinha agora, que mais precisavam de auxílio? Não demoraria muito para que a última ilha das proximidades fosse coberta pelo oceano, que subia constantemente.
Só agora Tiff percebeu que a água esquentara bastante. Pelos seus cálculos a temperatura era de pelo menos trinta graus. Tomara que não fizesse mal aos sonolentos. Todavia, com o auxílio de Hump conseguiu manter acima da água a caixa que continha os remanescentes duma raça em extinção.
Seus pés tocaram o chão. Mais alguns passos, e estaria em terra firme. Milly e Felicitas já os esperavam. Gucky trabalhara depressa. Voltara para buscar Eberhardt.
Dali a cinco minutos encontravam-se no ponto mais elevado da pequena ilha, olhando em direção à galeria subterrânea. Esperavam Moisés.
A chegada do robô foi anunciada por um monte de águas espumejantes, produzida por seus propulsores. O monstro metálico atravessou as ondas tal qual um submarino e aterrizou sem problemas na ilha.
Todos haviam aberto os capacetes e inspiravam o ar tépido e abafado do planeta moribundo. Moisés espalhava um calor insuportável. Hump resmungou:
— Será que você não pode ligar a refrigeração? Já chega de calor.
— Sinto muito. Tenho pavor da água. Se não começar logo a enxugar-me, terei manchas de ferrugem.
— De qualquer maneira você será reformado, desde que nos encontrem em tempo — disse Tiff em tom preocupado, olhando incessantemente para o céu cinzento, onde as nuvens turbilhonantes impediam a visão. — Gostaria de saber onde se meteu o Nyssen. — Dirigiu-se a Gucky: — O que está dizendo Marshall?
— Não tenho contacto com ele — lamentou-se o rato-castor. — Avisará Rhodan.
— Rhodan — disse Milly em voz baixa e só com grande esforço conseguiu segurar-se em Tiff. — É o único que poderá salvar-nos. Se não chegar em tempo...
Contemplaram silenciosamente a água que subia ininterruptamente — e a parede vermelha que começou a brilhar no horizonte.

* * *

Depois de poucos segundos, Rhodan descobriu a Solar System. Mandou que Marshall viesse imediatamente a bordo da Stardust-III num dos pequenos caças espaciais. E ordenou ao major Nyssen que voltasse imediatamente ao espaço, para ajudar McClears nas lutas destinadas a desviar a atenção dos saltadores. Não deviam perturbar a operação de salvamento.
Poucos minutos depois, Marshall encontrava-se diante de Rhodan.
— No momento não estou em contacto com Gucky e Tiff, mas sei onde os mesmos podem ser encontrados. Estão numa caverna no fundo do oceano, mas Gucky diz que pode salvá-los, levando-os a uma ilha.
— Vamos logo. Não temos tempo a perder. Sabe onde fica a ilha?
— Mais ou menos. Com esta neblina a orientação não é fácil.
— Tente localizar o transmissor de Tiff assim que conseguir captá-lo. E preste atenção às mensagens telepáticas de Gucky. Bell, coloque a Stardust-III no rumo certo. Um segundo pode ser decisivo.
Para Rhodan não havia naquele instante nenhum saltador e nenhum patriarca agressivo. Só conhecia um problema: a salvação do grupo que por ele se metera num inferno.
A pouca altura a imensa nave passava acima das ondas do mar fumegante, que mais ao norte já fervia, atirando nuvens imensas para o céu. Vez por outra surgia uma ilha rochosa, mas em nenhuma delas encontrou qualquer sinal de vida.
Subitamente Marshall soltou um grito.
— Consegui, os dois. Gucky e Tiff. Estão bem perto, e já se encontram na ilha. Mantenha o mesmo rumo. Deve ser a próxima ilha.
Rhodan olhou para a tela. Não viu muita coisa, pois a neblina tornava-se cada vez mais densa. Mas acabou reconhecendo um ponto negro em meio à movimentação da água e das nuvens.
Era a ilha. Nela surgiram sete pontos móveis: cinco seres humanos, Gucky e o robô.
Acontece que a ilha era tão pequena que a Stardust-III não poderia pousar na mesma.
— Pergunte a Gucky se pode trazer todos até aqui — disse Rhodan e fez a Stardust-III descer, até que a mesma se manteve imóvel pouco acima da ilha. Naquele instante uma luz vermelha iluminou-se. Era o sinal vindo da sala de telegrafia.
Rhodan moveu a chave.
— O que houve?
— Um chamado de emergência do major Nyssen. Etztak conseguiu separar-se dos cruzadores e está lançando toda sua frota num ataque contra o planeta de gelo.
Nyssen diz que tentará atacá-lo pelas costas.
Rhodan confirmou com uma expressão zangada.
— Muito bem. Diga a Nyssen que não desista. Vamos pegar Etztak dos dois lados. E diga-lhe ainda que deste momento em diante não teremos a menor contemplação. Entendido?
— Entendido.
A luz vermelha apagou-se. Bell estreitou os lábios.
— Quer dizer que será uma luta de vida e morte? — perguntou.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Não temos outra alternativa. Marshall, avise Gucky de que vamos mandar um destróier. A esta hora não posso abrir as escotilhas da Stardust-III, pois com isso não teria condições de combater. Tiff tentará escapar num destróier. Se necessário o robô terá que ser deixado para trás.
— Os destróieres leves são pequenos.
Mal podem abrigar três pessoas — interveio Bell.
— Pois excepcionalmente a cabine deverá ter lugar para cinco pessoas e o rato-castor, a não ser que Gucky prefira teleportar-se para a Stardust-III.
— Ele não fará nada disso — disse Bell, defendendo o amigo. — Ficará com Tiff.
Rhodan chamou o setor de armamentos.
— Atenção, preparem ambos os transmissores fictícios. Não, desta vez não se trata de bombas atômicas, mas dum destróier de três pessoas.
Seguiu-se um silêncio de perplexidade. Logo surgiu a pergunta:
— Um destróier?
— Correto. Faça a teleportação dum pequeno destróier para a ilha que se encontra embaixo de nós. Rápido. Aqui estão os dados...
Rhodan esperou até que subitamente viu na ilha o formato esbelto de torpedo dum destróier que surgiu do nada. Logo a Stardust-III subiu, a fim de enfrentar a frota dos saltadores, que se precipitava dos céus.

* * *

Com a pose dum general vitorioso, Gucky apontou a área livre da pequena ilha.
— Abracadabra, caramba, será que vai demorar?
— Será que desta vez você enlouqueceu de verdade? — indagou Hump em tom preocupado.
— Que nada! Marshall diz que Rhodan nos mandará um destróier. A remessa será feita por teleportação. Deve ser alguma novidade que trouxe do planeta da vida eterna. Não pode cuidar de nós, já que os saltadores estão atacando.
— Um destróier? — murmurou Tiff em tom pensativo, lançando um olhar rápido para o robô. — Será muito apertado.
Por alguns segundos a Stardust-III surgiu acima deles, em meio às nuvens. Logo o destróier materializou-se no lugar exato apontado por Gucky.
Tiff pegou a caixa, segurou Milly com a mão livre e correu em direção à nave salvadora. Só agora deu-se conta de que a rocha em que seus pés pisavam estava morna. A salvação estava chegando no último instante.
Antes que chegassem à nave, um feixe energético alaranjado desceu das nuvens e abriu um funil borbulhante a alguma distância.
— Atenção! — gritou Gucky. — Vou saltar para abrir a comporta. Continuem a correr. Depois eu os apanharei.
No mesmo instante a escotilha abriu-se. Gucky não perdeu tempo. O segundo raio energético expelido pela nave dos saltadores já chegou mais perto. Mas no mesmo instante surgiu o vulto da Solar System e abriu fogo maciço contra o inimigo.
De um instante para outro Tiff viu-se transportado para a pequena cabine de comando do destróier. Colocou a caixa com os sonolentos embaixo duma mesa e precipitou-se para o painel.
Milly surgiu logo depois, seguida por Felicitas. Os propulsores começaram a vibrar.
Também Hump e Eberhardt apareceram, seguidos poucos segundos depois por Gucky. A cabine era tão apertada que as moças tiveram que sentar no colo de Hump e Eberhardt, fato que deixou este último um tanto embaraçado.
— Vamos decolar! — chiou Gucky, procurando acomodar-se num armário embutido. — Está em cima da hora. O mar começa a ferver, e a rocha está quente que nem ferro em brasa. Daqui em diante a coisa será muito rápida.
Enquanto Tiff acelerava ao máximo, conduzindo o destróier para o céu opaco, lembrou-se de Moisés.
— Hihi — riu Gucky no armário embutido. — Você está enganado. Acha que seria capaz de deixar na mão a criatura que salvou nossa vida? Está na sala de máquinas.
Tive que tirar algumas caixas de ferramentas. Afinal, a rapidez não é bruxaria para quem tem o dom da teleportação.
Tiff sorriu aliviado.
— Teria pena do rapaz; até chego a gostar dele.
Correram velozmente pelo espaço, passando pelas naves dos saltadores que detonavam e desviando-se dos feixes energéticos que se estendiam furiosamente em sua direção. O planeta de gelo mergulhou no espaço. Já não era um planeta de gelo, mas um sol em formação. Só o pólo sul continuava branco, mas as águas dos mares recém-formados já se precipitavam sobre as superfícies geladas.
O segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo estava morrendo. As massas de nuvens turbilhonantes pareciam os últimos estertores dum gigante moribundo.

* * *

Encontravam-se diante de Rhodan, ouvindo ansiosamente o seu relato. Só as autoridades mais graduadas da administração de Terrânia e os oficiais que dirigiam a frota espacial encontravam-se presentes.
Além de Tiff, Hump, Eberhardt, Milly e Felicitas.
E, naturalmente, Gucky.
A conferência estava sendo realizada no jardim da cobertura do edifício da administração central. Acima deles estendia-se o céu azul e límpido da Terra, que não era turvado por qualquer nuvem. Os últimos raios do sol no ocaso atravessavam o vidro do jardim de inverno e brincavam nos pêlos reluzentes de Gucky. O rato-castor estava ao lado de Bell que, mergulhado em pensamento, lhe acariciava o pêlo.
Milly e Felicitas não pareciam ter tempo para esse tipo de atividade. As moças preocupavam-se exclusivamente com Tiff e Hump. Só Eberhardt continuava fiel à sua qualidade de ermitão.
— ...de forma que não tivemos outra alternativa — dizia Rhodan naquele instante. — A frota dos saltadores lançou mão de todos os recursos para atacar-nos e destruir-nos. Etztak não pôde defender-se contra nosso transmissor fictício. Perdeu uma nave após a outra, até que reuniu as duas naves que lhe restavam e, tomado de pânico, passou à fuga. Pelo que indicam nossos instrumentos, realizou um salto de mais de doze mil anos-luz. Deixei que se fosse, pois quero que espalhe a notícia de que a Terra é um terreno muito quente para todos aqueles que se metem a conquistadores.
Um murmúrio passou pelos presentes. Rhodan sorriu para apagar a impressão de crueldade deixada pelas palavras que acabara de proferir.
— Se devemos ser gratos a alguém pela vitória sobre uma raça fortemente armada e de inteligência muito evoluída, este alguém é o cadete Julian Tifflor e seus amigos. Sua atuação corajosa fez com que os saltadores se enganassem sobre nossas reais intenções. Ainda quero mencionar nosso amiguinho Gucky, graças ao qual a missão teve um desfecho feliz. A todos manifesto minha gratidão e a do planeta Terra.
Algumas perguntas foram formuladas, e Rhodan deu as informações solicitadas.
Bell puxou Gucky para o lado. Os dois amigos, tão desiguais, estavam junto à parede de vidro, mas não deram atenção ao panorama maravilhoso que se abria diante deles. Terrânia, a metrópole mais moderna do mundo e a capital da Terceira Potência, não representava nenhuma novidade para eles.
A novidade eram os canteiros de flores, arrumados em torno da varanda envidraçada. Neles cresciam gigantescas tulipas de cinco cores diferentes, estendendo as coroas bem formadas em direção ao sol terreno. Mantinham os olhos em formato de amêndoa bem abertos, como se fizessem questão de conhecer todos os detalhes de seu novo mundo. Um aroma suave subiu dos canteiros, misturando-se ao ar que os homens respiravam.
— Quer dizer que estes são os sonolentos — cochichou Bell e acariciou uma das flores. Era vermelha. Em cada um dos canteiros havia tulipas de cinco cores diferentes. — São os últimos exemplares de sua raça. Faço votos de que se sintam bem por aqui.
— Sentem-se muito felizes por terem escapado a uma morte horrível — disse Gucky, colocando o dente roedor para a frente a fim de esboçar um sorriso satisfeito.
— Elas se reproduzirão para conservar a espécie. É bem verdade que demorará cinqüenta anos até que as primeiras mudas se tenham formado. Elas não têm pressa.
— Meio século? — gemeu Bell e passou a mão cuidadosamente sobre a cabeleira curta e ruiva. — Meio século para produzir uma muda? Minha tia Amália com sua plantação de cactos não iria gostar disso.
— Acontece que a tia Amália não tem tanto tempo quanto os sonolentos... e nós.
— Afinal, quantos anos você vai fazer, Gucky? Você nunca contou a ninguém.
O dente do rato-castor emitiu um brilho avermelhado sob o sol em ocaso.
— Quantos anos vou fazer? Você quer saber quando vou morrer? — Num gesto de lástima sacudiu os ombros, o que lhe dava um aspecto quase humano. — Bem, isso é bastante incerto. Na verdade, só há um meio de determinar exatamente o meu tempo de vida.
— É mesmo? — Bell inclinou-se para seu gracioso amigo. — Que meio é este?
— Você terá que aguardar minha morte — disse Gucky e teleportou-se para o lado oposto da varanda.
A mão de Bell acertou apenas o ar.



* * *
* *
*








O mundo de gelo, onde Julian Tifflor e seus companheiros conseguiram, através de sucessivos golpes de habilidade, escapar aos comandos de saltadores enviados em sua perseguição, deixou de existir, apenas porque um dos patriarcas dos saltadores, dominado pela cólera, deu ordem de destruí-lo.
Mas essa ordem, concebida como uma sentença de morte que deveria atingir Julian Tifflor e seus companheiros, foi dada num momento em que Perry Rhodan já estava em condições de salvar do incêndio atômico não apenas os membros de seu grupo, mas também alguns dos estranhos habitantes do mundo de gelo, os sonolentos...
Qual será a próxima ação que os saltadores empreenderão contra a Terra? Quais são seus planos?
Levtan, o Traidor, que conhece os planos dos saltadores, entra em contacto com Perry Rhodan...
Levtan, O Traidor, é este o título do próximo volume da série.

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