— Que idade
atingem?
— Chegam aos duzentos
anos, pela contagem terrena. Quer dizer que seu tempo de vida abrange um verão
e um inverno — Gucky inclinou a cabeça e parecia escutar alguma coisa. Seu
dente roedor desapareceu e tudo indicava que não tinha a menor vontade de
reaparecer.
Aproximou-se da
tulipa vermelha, que estava com os cinco olhos arregalados, fitando-o. Havia
uma estranha semelhança entre os olhos da tulipa e os de Gucky. Tinham em comum
não apenas a cor castanha, mas também a expressão de bondade e lealdade.
Gucky permaneceu
na mesma posição por cerca de três minutos. Depois levantou a cabeça.
— Se vocês se
esforçarem, compreenderão seus pensamentos. Infelizmente terei que deixá-los
sós por cinco minutos. Uma coisa horrível acaba de acontecer. Os saltadores
desencadearam um incêndio atômico neste planeta. É um incêndio que ninguém poderá
apagar. Colocaram uma bomba que explodirá dentro de cinco minutos. Não poderei
removê-la, já que o processo que se desenvolve no interior da bomba já foi
iniciado. É tarde. Este mundo está perdido. A única coisa que posso fazer é
vingá-lo.
Subitamente os
quatro humanos viram-se a sós com os sonolentos. Gucky desaparecera sem
despedir-se, a fim de executar a sentença de morte proferida pelas tulipas.
Tiff procurou
dar um tom de realidade à situação fantasmagórica. A planta continuava a
olhá-lo fixamente, e subitamente sentiu que falava a ele. Parecia alguma coisa
que tateava em seu cérebro, que procurava tocar levemente em sua consciência.
“Vocês não são maus”, disse o sonolento,
ou seria a sonolenta? — em silêncio. “E
vocês não sabiam que este mundo é habitado. Seus inimigos querem destruí-los,
mas destroem nosso mundo. São maus e perversos.”
— Serão
castigados por isso — murmurou Tiff, embora soubesse que suas palavras representavam
um consolo muito débil.
Viu que Hump e
as duas moças se mantinham imóveis, escutando. Também deviam ter compreendido a
voz silenciosa.
— Sim, eles vão
morrer. Mas nossa raça morrerá com eles. Ninguém pode extinguir o incêndio
atômico que acaba de ser ateado ao nosso planeta. A história dos sonolentos, que
é o nome que vocês nos dão, está chegando ao fim.
— Se tivéssemos
uma nave que nos salvasse, poderíamos levá-los. Ao menos poderíamos levar
alguns de vocês, para evitar a extinção da raça — disse Tiff, e no mesmo
instante deu-se conta de que não só estes seres estranhos estavam perdidos. Se Rhodan
não acorresse em seu auxílio, ele e seus companheiros também estariam
liquidados. — Acho que ainda não devemos renunciar a todas as esperanças.
— Tiff —
interrompeu-o Felicitas, que compreendera tudo. — De qualquer maneira devíamos
tentar salvar alguns dos sonolentos. Se Rhodan chegar em tempo, poderemos
evitar o extermínio da raça. Posteriormente encontraremos um mundo desabitado
em que poderá começar de novo.
Tiff confirmou
com um aceno de cabeça e inclinou-se para o sonolento que estava acordado.
— Compreendeu o
que ela acaba de dizer? Faremos o possível para conservar sua raça. Mas será
uma decisão muito difícil para vocês. Talvez poderemos levar alguns, mas não
podemos levar todos. Quem fará a escolha?
A onda de pânico
tornou-se mais intensa, mas foi superada pelos pensamentos da tulipa vermelha.
“Todos nós temos apego à vida, mas a
conservação da raça é mais importante que a existência do indivíduo. Escolherei
dez casais, isto é, cinqüenta exemplares jovens e saudáveis de nossa raça.
Estes irão com vocês.”
— Irão? —
indagou Tiff em tom de dúvida.
“Conforme leio nos seus pensamentos, vocês
têm caixas. Uma dessas caixas será suficiente para abrigar os exemplares
escolhidos. E não são muito pesados. Seu amiguinho Gucky não terá a menor
dificuldade em transportá-los pela maneira estranha que lhe é peculiar. Mais
tarde, dentro de vários milênios, os terranos terão um aliado que lhes será
eternamente grato: nossos descendentes.”
— Vamos esperar
a volta de Gucky — sugeriu Tiff. — Até lá queremos aprender tudo que devemos
saber a respeito de vocês. Vocês inspiram gás carbônico?
“E expiramos oxigênio” confirmou a tulipa
vermelha. “Mas só quando brilha o sol, ou
quando, durante o inverno, somos acalentados por nosso sol artificial.”
— Vocês são
aparentados com as plantas do planeta Terra — disse Tiff e viu que Felicitas ia
de um nicho a outro, e vez por outra arrancava cuidadosamente uma das tulipas.
As flores tinham
raízes muito longas, que eram enroladas assim que perdiam o contacto com o solo.
— Assim ocupam
menos lugar — disse o indivíduo que até então lhes falara em silêncio. —
Agüentam muitos dias sem água e alimento. Se não forem expostas a condições
extremamente adversas, não morrerão.
— Se nós formos
salvos, elas também o serão — prometeu Tiff.
Nesse meio tempo
Felicitas conseguira arrancar as cinqüenta plantas e reuni-las num feixe. Na
maior parte das vezes os olhos permaneciam fechados, mas os quatro seres
humanos sentiram a intensificação das idéias de pânico. Estas passavam sobre
eles como as ondas dum oceano, crescendo e diminuindo a intervalos regulares.
Era o canto fúnebre desolado duma raça condenada à extinção.
Subitamente
Gucky estava novamente entre eles sem que se fizesse anunciar. Em seus olhos
castanhos, geralmente tão bondosos, brilhava alguma coisa que Tiff nunca vira
neles. Era o ódio.
— Os assassinos
deste mundo morrerão com ele — disse sua voz aguda. — Destruí sua nave e eles
não têm a menor possibilidade de sair deste planeta. Pelo que li nos pensamentos
do tal do Orlgans, Etztak anda tão ocupado que não terá tempo de preocupar-se
com eles. Além disso, o patriarca não sabe o que aconteceu. Acredita que
Orlgans está regressando de sua missão infame. O assassino morrerá juntamente com
suas vítimas.
— E nós? — perguntou
Tiff. — Não morreremos com eles?
Gucky não deu
atenção às suas palavras. Prosseguiu:
— Aconteceu mais
uma coisa. Uma das naves dos saltadores, provavelmente a de Orlgans, atingiu a
entrada da caverna com um disparo de canhão de radiações. A rocha derreteu-se.
Estamos fechados. Para mim isso não representa qualquer obstáculo, pois posso
transportar-me por meio da teleportação. Mas será difícil levar vocês através
da grossa parede de rocha que nos separa do exterior.
Tiff empalideceu.
— Estamos
fechados? — soltou um gemido desesperado. — Era só o que faltava. O que será de
nós?
Felicitas
aproximou-se. Carregava nos braços o último feixe de tulipas. Ouvira as
palavras que Gucky acabara de pronunciar.
— Estamos
fechados? Neste caso os sonolentos estão perdidos, inclusive os que pretendíamos
salvar.
— Ainda podemos
contar com Moisés, que é nosso robô — disse Hump sem demonstrar muita
esperança. — Talvez possa ajudar-nos.
— Sem dúvida —
confirmou Gucky. — Dispomos de pelo menos dois dias até que o incêndio atômico
atinja a zona equatorial.
A energia de
Moisés será suficiente para abrir a parede de rocha. Teremos que contar com uma
intensa geração de calor, mas a caverna é bastante profunda. Quanto a Moisés,
este saberá cuidar de si.
— Quando
conseguirmos chegar lá fora, só faltará Rhodan para completar nossa felicidade
— observou Milly com a voz tímida.
— Se soubesse
como está nossa situação não perderia um segundo; viria imediatamente em nosso
auxílio.
— No momento Rhodan
tem outras preocupações — disse Tiff, mas o tom de sua voz não era muito convincente.
— Tenho certeza de que se lembrará de nós, quando tiver tempo.
— Ele tem tempo
— disse Gucky, encerrando o tema. — Não acredito que ele nos deixe na mão.
Felicitas
lembrou-se da tarefa que tinha de cumprir.
— Gucky, será
que você pode trazer uma caixa alongada na qual possamos guardar os sonolentos?
Prometemos...
— Já sei —
interrompeu Gucky. — Um instante.
Mais uma vez
deixou-os sós.
* * *
Orlgans sabia
que ele e seus homens estariam perdidos se não recebessem socorro.
Uma luz
ofuscante que brilhava ao norte anunciara-lhe o início da desastrosa reação em
cadeia. Numa fuga precipitada correra para o sul em companhia de alguns dos
seus homens, assim que a nave explodiu. Empreendendo uma verdadeira marcha
forçada, percorreram quase quarenta quilômetros no primeiro dia, atravessando o
deserto de gelo e deixando para trás o furioso incêndio atômico que os
ameaçava, e que já dava sinal de si através de alguns rios, que corriam para o
sul apesar do tremendo frio. Ficara mais quente, conforme Orlgans pôde
constatar em seu instrumento de pulso, muito embora a temperatura ainda fosse
de cinqüenta graus centígrados abaixo de zero. Os rios voltaram a congelar, mas
as massas de água aquecida corriam por cima deles, apenas para congelar também.
As barreiras de
gelo dificultavam a marcha.
Quando os dois
sóis desceram abaixo do horizonte, a noite desceu sobre o planeta.
Mas a
temperatura, em vez de diminuir, aumentou. Os rios não congelavam mais; corriam
furiosamente para o sul. Enchiam os vales largos e pouco profundos com as
massas de água borbulhantes e fumegantes, que vez ou outra penetrava nas
cavernas, sufocando todas as formas de vida subterrânea.
Ao raiar do dia,
uma terrível luz vermelha brilhava ao norte, bem acima do horizonte. A
temperatura subira a zero graus, e a neve derretia em todos os lugares. Os rios
subiam.
Orlgans e seus
homens esforçaram-se para ganhar altura. Depois duma marcha longa e penosa
chegaram a um platô, coberto apenas por uma fina camada de gelo. De todos os
lados desciam as encostas íngremes, um fato que garantia a drenagem do platô.
Ao menos não morreriam afogados.
Será que isso
era uma vantagem?
Orlgans parou e
olhou para o norte, onde a luminosidade se tornara mais intensa. O céu parecia
arder. Colunas gigantescas de chamas turbilhonantes deslocavam-se que nem um
furacão no sentido da rotação do planeta. O novo oceano bramia em torno do
platô. Os saltadores perceberam que a elevação em que se encontravam não
passava duma ilha cercada pelo grande oceano. A retirada lhes havia sido
cortada. Estavam irremediavelmente perdidos.
Raganzt estreitou
os olhos e virou o rosto para o norte.
— Estamos perdidos
— disse, esforçando-se para dar um tom firme à voz. —Estamos numa armadilha. Se
aqui houvesse árvores, poderíamos construir uma jangada.
A correnteza do
mar nos levaria para o sul.
— Morreremos
queimados — confirmou Orlgans com a voz trêmula. — Este planeta morrerá uma
morte terrível.
— E nós
morreremos com ele — constatou Raganzt. — Isso se Etztak não aparecer em tempo
para salvar-nos. Afinal, já estamos atrasados um dia. Bem que poderia imaginar
que houve algum imprevisto.
— Ele sabe que o
planeta está em chamas. Talvez pense que já estamos perdidos. Veja, Raganzt, o
incêndio atômico. Avança mais depressa do que qualquer pessoa poderia correr. E
a temperatura continua a subir. Por enquanto a refrigeração de nossos trajes
espaciais ainda nos oferece alguma proteção. Mas daqui a pouco eles não
servirão para mais nada.
O mar que se
agitava em torno das costas rochosas começava a fumegar cada vez mais. Em
alguns lugares já chegava a borbulhar. Os dois sóis já haviam desaparecido
atrás das nuvens cada vez mais densas, que num gesto de misericórdia ocultava
das estrelas o rosto do planeta que se debatia nos estertores da morte.
O chão começou a
esquentar. Não se podia ficar mais de trinta segundos no mesmo lugar. O resto
do gelo já havia derretido.
A cortina de
fogo, vinda do norte, precipitava-se em direção ao lugar em que se encontravam.
A reação em cadeia não atingira somente a terra e a água, mas também se
desenvolvia na atmosfera. O ar ardia. Transformava-se em energia.
O mundo
submergiu.
Quando o inferno
em fúria chegou às montanhas e a onda de calor que precedia a catástrofe passou
sobre o platô, não encontrou mais nenhuma forma de vida.
Orlgans e seus
cúmplices haviam morrido da mesma morte que destinaram aos outros.
* * *
Etztak teve de
esforçar-se bastante para conservar a calma.
Os
ataques-relâmpago dos dois cruzadores terranos, que eram esferas de duzentos
metros de diâmetro, exigiam toda sua atenção. Orlgans ainda não regressara, e o
comandante da nave que o acompanhara não sabia dar qualquer informação. O
contacto pelo rádio foi interrompido de uma hora para outra, mas isso não
significava necessariamente que havia algo de anormal. Até mesmo a tecnologia
mais avançada não está livre de falhas. De resto, Etztak não teve tempo de
refletir a ausência de Orlgans. De qualquer maneira, suas ordens foram
cumpridas. O segundo planeta começava a arder. A fogueira atômica, iniciada no
pólo norte, espalhava-se de maneira uniforme em direção ao sul.
Rhodan devia
saber que ninguém se intromete nos negócios dos mercadores galácticos sem
receber o castigo merecido.
Etztak já havia
perdido duas de suas naves não adaptadas a uma batalha aberta, quando recebeu
uma mensagem de Topthor, o superpesado. Era uma mensagem lacônica:
Para Etztak,
patriarca do clã. Oferta recebida e recusada. Não estou disposto a entrar em
ação. Rhodan é muito forte. Aconselho a retirada.
Topthor Clã dos
superpesados.
Furioso, Etztak
contemplou o radio-grama, expedido num sistema estelar situado a mais de 15.000
anos-luz. Então Topthor resolvera colocar-se em segurança juntamente com os
restos miseráveis de sua frota. Ninguém poderia levar a mal essa atitude. Mas
Etztak sentiu-se decepcionado.
Enquanto
refletia, dando-se conta de como estava só de uma hora para outra, sentiu uma
correnteza de ar na sala de comando.
Era estranho,
pois todas as portas estavam fechadas e não havia ninguém além dele na extensa
sala.
Ao menos um
segundo atrás ainda não havia.
Horrorizado,
Etztak fitou o fantasma escuro que materializou do nada e, exibindo um amplo
sorriso, fez uma mesura. Usava uniforme, mas não envergava traje espacial. Uma
cabeleira negra encarapinhava-se na cabeça parda; embaixo dos olhos bem abertos
via-se um nariz achatado. Entre os lábios brilhavam duas fileiras de dentes
alvos. As mãos escuras do fantasma seguravam um papel, que contrastava
estranhamente com o vulto escuro.
— Não se
assuste, Etztak — disse o fantasma em intercosmo. — Sou Ras Tshubai e pertenço
ao exército de mutantes de Perry Rhodan. Meu comandante mandou que viesse até
aqui para entregar-lhe um ultimato. Aliás, sou um teleportador, e por isso não
tive a menor dificuldade em penetrar em sua nave.
Naturalmente
Etztak já ouvira falar em seres inteligentes que possuíam o dom da
teleportação. As experiências até então feitas com os terrenos indicavam que
essa raça conseguira desenvolver faculdades extraordinárias. Aos poucos venceu
o espanto.
— Foi Rhodan que
o mandou? — perguntou para certificar-se. Seus instrumentos ainda não haviam
registrado qualquer abalo. Pelo que sabia, Rhodan não podia encontrar-se nas
proximidades. — Por que não vem pessoalmente?
— Seria melhor
para o senhor que não viesse — disse o robusto negro e estendeu-lhe a folha de
papel. — Leia. Depois conversaremos.
Etztak segurou o
papel. À primeira vista percebeu que estava escrito em intercosmo. Não era de
admirar que os terranos, até então uma raça desconhecida, dominassem essa
língua, pois os arcônidas lhes vinham ensinando.
Sem dar atenção
a Ras Tshubai, pôs-se a ler:
Para Etztak,
patriarca de seu clã de saltadores. Destruí a frota de guerra dos superpesados.
Apenas poupei Topthor e Grogham, a fim de que possam retornar para junto de seu
clã e prevenir o mesmo de que nunca mais deve aproximar-se da Terra, a não ser
para fins de negociação. E dou uma última chance ao senhor, Etztak. Desde que
se retire dentro de dez horas, nada lhe acontecerá. Daqui a dez horas irei ao
sistema de Beta-Albíreo para retirar meus homens que se encontram no segundo
planeta. Se ainda o encontrar por lá, eu o destruirei. Não se atreva a lançar
novos ataques contra o segundo planeta. Meus cruzadores receberam instruções
para impedi-lo. O senhor dispõe de dez horas. Aproveite-as. Quando avistar
minha nave, será tarde.
Perry Rhodan Terra.
Etztak leu o
ultimato duas vezes e num movimento vagaroso colocou o papel sobre a mesa.
Sentou. Por um instante parecia ter esquecido a presença do terrano negro.
Será que Rhodan
ainda não sabia que um incêndio atômico havia sido deflagrado no segundo
planeta? Não seria onisciente, como tudo parecia indicar?
Ras Tshubai
pigarreou.
— Meu comandante
gostaria de receber uma resposta. Tenho instruções para estabelecer o contacto
assim que regressar ao cruzador.
Etztak estreitou
os olhos.
— Quero falar pessoalmente
com Rhodan — disse.
— Por quê? Não
há nada para negociar.
— Talvez haja.
Tenho que transmitir-lhe uma informação muito importante.
— Pode dar a
informação a mim. É a mesma coisa. Daqui a cinco minutos estarei falando com
Rhodan.
— Prefiro contar-lhe
pessoalmente.
O negro deu de
ombros.
— Posso
transmitir o recado, mas não tenho muita esperança de que atenda. Se me permite
que lhe dê um conselho estritamente pessoal, Etztak, faça o que Rhodan pede.
Não há outra saída para o senhor.
Etztak não respondeu.
Fitou o rosto de Ras, mas não conseguiu ler no mesmo.
Subitamente o
negro dissolveu-se no ar, e desapareceu.
Etztak não perdeu
tempo. Ligou a chave que estabelecia contacto com suas naves. Quando os
comandantes surgiram nas telas, olhando-o com uma expressão de curiosidade no
rosto, disse no dialeto do clã:
— Os terranos
nos enviaram um ultimato. Eles nos dão dez horas para dar o fora daqui.
Gostaria de saber a opinião de vocês.
Logo teve de
constatar que não havia nem um pouco de união entre os membros do clã. A
maioria achou conveniente ignorar o ultimato e atacar a própria Terra, mas
havia alguns mais cautelosos. Estes recomendaram voltar imediatamente à base do
clã e preparar uma guerra em regra.
Etztak ouviu
pacientemente as opiniões dos comandantes, conforme era costume. Cada um podia
formular sugestões, mas a decisão final cabia ao patriarca.
E não gostou de
ouvir as ponderações dos elementos cautelosos.
— Se cumprirmos
hoje as exigências dos terranos — disse quando notou que não haveria outras
propostas — estaremos reconhecendo nossa derrota. Nós, os mercadores da
Galáxia, capitularíamos diante de seres que só há um decênio descobriram os segredos
da navegação espacial. Nós a conhecemos há oito mil anos, sem contar o tempo em
que nossos antepassados arcônidas a praticavam. Seria como se um homem velho e
experimentado cedesse aos conselhos duma criança. Nem que tivesse que morrer,
nunca faria uma coisa dessas. Todo o meu ser revolta-se diante da perspectiva.
Afinal, quem é este Rhodan, que nos apresenta um ultimato? Apenas um favorito
de alguns arcônidas decadentes, que se apaixonaram por ele e por seu mundo.
— Rhodan conhece
a posição do planeta da vida eterna — disse um dos comandantes. — Todos os
povos da Galáxia procuram esse planeta há milênios, e foi Rhodan que o
encontrou.
— Teve sorte,
mas a sorte nunca dura para sempre — respondeu Etztak, furioso.
— Vamos
capitular só porque um terrano teve sorte?
— Não — disse o
comandante que acabara de falar. — Não é por isso. É porque, segundo dizem, no
planeta da vida eterna existem segredos que transformam aquele que os descobre
no dono de todas as galáxias. É possível que Rhodan tenha descoberto esses
segredos.
Zangado, Etztak
acenou com a cabeça.
— É possível! Se
for assim, está na hora de tirarmos os segredos desse terrano. Qualquer ser que
conheça os segredos do planeta da vida eterna e não é um saltador representa um
perigo para a Galáxia — depois dessa constatação um tanto subjetiva, Etztak
disse em tom desajeitado: — Previno todos os elementos excessivamente
cautelosos para que não tomem uma decisão apressada. Sou a favor da resistência
e da luta. Mas cederei ao desejo da maioria. Qual é a decisão?
A decisão foi
quase unânime.
Etztak e seu clã
lutariam, se necessário até a última nave.
— Alguém deve
prevenir a Galáxia — sugeriu alguém. — Se Rhodan realmente conseguisse destruir
todas as nossas naves...
— Topthor já
fugiu e tomará todas as providências que se fazem necessárias. Não se preocupe,
Heratz. Mesmo que morramos todos, a Galáxia está prevenida. Seremos vingados.
Nas telas
notava-se um silêncio total, até que um dos saltadores disse em tom
ligeiramente irônico:
— Nem por isso
voltaremos a viver.
Etztak não
respondeu. Desligou o rádio e, estreitando os olhos, contemplou o mundo
condenado à morte.
* * *
O cruzador
pesado Solar System separou-se da nave Terra e reduziu a velocidade. Ras
Tshubai entregara a mensagem destinada a Etztak e informou Rhodan. A mensagem
de rádio foi curta e objetiva.
O motivo pelo
qual o major Nyssen reduziu a velocidade e se aproximava cautelosamente do
segundo planeta era mais que evidente. Uma modificação estarrecedora estava
ocorrendo na superfície do mesmo.
De início o pólo
começou a arder. O major Nyssen pensou que se tratasse duma explosão atômica
ultrapotente, destinada talvez a derreter a crosta de gelo. Não desconfiara
logo. Mas quando o fogo se espalhou, avançando lenta, mas inexoravelmente em
direção ao sul, começou a desconfiar.
Uma idéia
terrível surgiu em sua mente.
Enquanto Ras
levou a mensagem à sala de rádio, Nyssen informou MacClears, comandante da
Terra, sobre a ação que iria empreender, instruindo-o para que não esmorecesse
nos ataques contra os saltadores.
— Voltarei o
mais rápido possível, mas é de vital importância verificarmos o que está
acontecendo no mundo de gelo. Não devemos esquecer que um grupo de nossa gente
se encontra lá.
À medida que a
Solar System se aproximava do planeta, a suspeita de Nyssen transformou-se em
certeza. Até parecia que um incêndio atômico estava consumindo o mundo de neve.
E esse incêndio
não poderia ter sido provocado por uma causa natural. Se realmente fosse um
incêndio atômico, este só poderia ter sido ateado pelos saltadores.
Pelo simples
fato de não conseguirem agarrar um grupo de cinco pessoas pertencentes à equipe
de Rhodan destruíam um mundo inteiro.
Sentiu-se
dominado pela cólera. Se Etztak estivesse diante dele, não teria escrúpulos em
estrangulá-lo com as próprias mãos.
Mas logo se
lembrou de Tiff e das moças.
Circulou duas
vezes em torno do mundo de gelo, sem descobrir o menor vestígio do grupo
perdido. Não era de admirar, pois não dispunha de tempo para realizar uma busca
sistemática. E foi por isso que não descobriu Orlgans e sua tripulação.
De qualquer
maneira adquiriu a certeza de que o segundo planeta do sol geminado de
Beta-Albíreo estava a ponto de transformar-se no terceiro sol do sistema. Se
não acontecesse logo alguma coisa, Tiff, Hump, Eberhardt, as duas moças e Gucky
estariam irremediavelmente perdidos.
O que poderia
fazer? Os elementos extraviados não respondiam às mensagens expedidas pelo
rádio. Talvez nem devessem responder. Nyssen não estava muito bem informado
sobre as intenções que animaram Rhodan ao enviar Tiff numa missão secreta
dirigida contra os saltadores.
De forma que só
lhe restava uma possibilidade; e o major Nyssen logo a reconheceu.
Deixou para trás
as fúrias do inferno atômico e penetrou no espaço. A cerca de uma hora-luz de
Beta-Albíreo II, estabeleceu contacto audiovisual com Rhodan.
* * *
Bell saiu do
camarote com o rosto sonolento e lançou um olhar desconfiado para Rhodan, que
se encontrava na sala de comando da Stardust-III.
— Será que você
podia fazer a gentileza de dizer como faz para ficar sem dormir? Se me
deixassem em paz, só acordaria daqui a dois meses.
— É que na
velhice sentimos as conseqüências dos pecados da juventude — disse Rhodan com
um sorriso condescendente.
Bell olhou-o com
a expressão de quem está prestes a sofrer um ataque.
— Não venha me
dizer que com meus trinta e sete anos sou um velho.
Rhodan
continuava a sorrir.
— Em termos
relativos você envelheceu alguns anos, meu caro. Mas quanto aos pecados da sua
juventude, nunca se pode dizer se você não os repetirá na velhice.
Basta lembrar
uma certa Rallas...
— Pare! — berrou
Bell apavorado, sem conseguir impedir que seus cabelos se arrepiassem de pavor.
Bell tinha cabelos ruivos cortados à escovinha. Às vezes sua cabeça parecia uma
escova de fios de arame. Especialmente quando ficava furioso. E também quando
lhe lembravam coisas que preferia esquecer. E não havia nada que gostasse tanto
de esquecer como a tal da Rallas.
— O que houve? —
indagou Rhodan em tom compreensivo. — Afinal, foi uma bela mulher, não foi?
Bell não quis
saber de nada. Era claro que o fenômeno espiritual que o imortal introduzira em
seu camarote fora belo. Mas fora uma simples piada. O imortal gostava de fazer
piadas desse tipo quando alguém o visitava nos confins da eternidade. E toda a
tripulação divertira-se a valer. Bell preferia não pensar nisso.
— Não há nada
mais importante? — resmungou contrariado. — E por uma coisa dessas você mandou
me acordar?
O rosto de
Rhodan assumiu uma expressão séria.
— Não foi só por
isso — confessou. — Tive mais alguns motivos. Acabo de enviar um ultimato a
Etztak por intermédio de Ras Tshubai. O prazo termina daqui a dez horas. É
claro que agora mesmo poderia executar o salto em direção a Beta-Albíreo, mas
prefiro dar tempo aos saltadores, para que reflitam bem sobre o que irão fazer.
Neste meio tempo
não haverá novos ataques ao mundo de gelo, motivo por que Tiff não correrá o
menor perigo. Podemos voltar à Terra, onde temos alguns assuntos a tratar.
— Dentro de dez
horas? — disse Bell em tom de dúvida. — É um prazo muito curto.
— Acontece que
preciso dar algumas instruções ao coronel Freyt. Não sabemos quando voltaremos
de Albíreo.
Bell continuava
a mostrar-se cético.
— Só assim Crest
e Thora voltarão a encher nossos ouvidos com suas lamentações e pedidos de
levá-los para Árcon. Não sei, não...
Rhodan não teve
tempo de pronunciar-se sobre esse assunto melindroso, pois uma luz vermelha de
advertência acendeu-se. A sala de telegrafia desejava entrar em contacto com o
comandante.
Rhodan
estabeleceu o contacto.
— O que houve?
— Estamos em
contacto com o cruzador Solar System. Um chamado de emergência.
Rhodan lançou um
olhar rápido para Bell.
— Contacto! —
ordenou.
— Trata-se dum
contacto audiovisual por hiperondas — explicou o telegrafista de plantão.
Poucos segundos depois a tela de Rhodan iluminou-se. O rosto preocupado do
major Nyssen surgiu na mesma. Rhodan cumprimentou-o com um aceno de cabeça.
— O senhor me
chama por hiperondas, o que só é permitido em casos de extrema urgência. Está
sendo atacado pelos saltadores?
— Estes
continuam a manter-se na defensiva — respondeu Nyssen, sacudindo a cabeça. — O
motivo de meu chamado é outro. Tiff e os membros de seu grupo se encontram numa
situação de grave perigo. Os saltadores desencadearam um incêndio atômico no
segundo planeta.
— Uma reação em cadeia?
— certificou-se Rhodan em tom assustado. O cabelo de Bell reiniciou o jogo cruel,
transformando-se na conhecida escova. — Quer dizer que os saltadores não
tiveram escrúpulos em destruir um mundo?
— Não existe a menor
dúvida. Convenci-me pessoalmente da terrível realidade. O incêndio teve início
no pólo norte e aproxima-se do equador com uma velocidade inacreditável.
— Pelas últimas
notícias que recebemos, Tiff encontra-se na zona equatorial —murmurou Rhodan em
tom preocupado.
— Apesar das pesquisas
que realizei não consegui descobri-lo. Até parece que sumiu da face da terra.
Mas isso não lhe adiantaria nada. O planeta está totalmente perdido. As massas
de gelo já derreteram.
Os rios caudalosos
unem-se para formar mares, que nas zonas temperadas já entraram em ebulição.
— Dei um
ultimato a Etztak — principiou Rhodan, mas Nyssen interrompeu-o abruptamente.
— Daqui a dez
horas o incêndio já terá ultrapassado a zona equatorial. O senhor não pode
esperar tanto tempo, a não ser que queira expor Tiff e seu grupo a um destino
horrível. Gostaria de salvá-lo, mas os saltadores se mantêm alertas.
Atacaram-me com sete naves enquanto efetuei meu vôo de reconhecimento.
Rhodan fez um
sinal a Bell, que se esforçava em vão para formular uma sugestão.
— Com isto meu
ultimato dirigido a Etztak perdeu a validade. De resto, tudo indica que não tem
a indicação de levá-lo a sério. Se não fosse assim, não o teria atacado. Pois
bem, ele terá uma idéia do que acontece a quem ataca nossa Terra. Major Nyssen,
procure descobrir algum sinal de vida de Tiff. Dentro de dez minutos chegarei
aí na Stardust-III. E quando isso acontecer, ai dos saltadores.
A tela apagou-se
e o rosto aliviado de Nyssen desapareceu.
— Isso é...! —
disse Bell. Não conseguiu dizer mais nada.
— Sim, isso é um
ato diabólico e irresponsável. O planeta de gelo é habitado. Nas cavernas
tépidas vivem os sonolentos. Não sei quem são, mas segundo as informações de
Tiff possuem um certo grau de inteligência e bondade. De qualquer maneira são
uma raça pacífica, que não faz mal a ninguém. E essa raça antiga está condenada
a desaparecer, só porque um velho não quis admitir que sofreu uma derrota. Ele
vai pagar por isso.
Antes que Bell
tivesse tempo de responder, Rhodan instruiu o cérebro positrônico a calcular as
coordenadas do salto. A distância era de cerca de 320 anos-luz, e por isso não
representava nenhum problema. O importante era que os cálculos fossem
absolutamente exatos, pois após a rematerialização não se poderia perder um
minuto sequer para calcular a posição.
Dali a cinco
minutos o cérebro expeliu a folha metálica com a resposta. Rhodan pegou-a e a
introduziu no robô de navegação, que dali em diante assumiu o comando da
gigantesca nave.
Rhodan esperou
até que a voz metálica da máquina começasse a falar:
— Conservamos o rumo.
Velocidade constante. Salto será executado exatamente dentro de três minutos.
Coordenadas conhecidas. Contagem regressiva será iniciada a sessenta segundos
antes de zero.
Bell gemeu.
— Só por isso
sou acordado. Bem que poderia dormir durante o salto.
Os traços de
Rhodan descontraíram-se um pouco. As rugas profundas desapareceram, e os olhos
emitiram um brilho irônico.
— Acho que isso
não adiantaria muito, meu velho. O salto propriamente dito só dura alguns
segundos.
— Na minha idade
— respondeu Bell, lançando um olhar sugestivo para o amigo, que contava mais dois
anos que ele — qualquer segundo de sono é uma preciosidade — atirou-se na
poltrona do co-piloto e fitou o relógio de segundos. — Prefiro nem falar na sua
idade.
Naquele instante
a voz metálica do robô iniciou a contagem.
— Sessenta segundos...
cinqüenta e nove segundos... cinqüenta e...
* * *
Moisés levou
quase cinco minutos para anunciar sua decisão ao grupo que se mantinha numa
ansiosa expectativa. Foi o tempo que o cérebro positrônico gastou para pesar
todas as alternativas e descobrir o melhor resultado que as circunstâncias
permitiam.
— Gucky
constatou que um incêndio atômico vindo do norte aproxima-se do equador. A
temperatura externa já subiu acima de zero. O gelo está derretendo ao norte, e
as águas avançam para o sul. Só o fato de que a entrada da caverna foi fechada pelo
bombardeio de radiações salvou-nos da morte por afogamento. Só nos resta uma
saída: para cima.
Tiff e seus
companheiros lançaram um olhar para a maciça camada de pedra.
— Acima de nós
existem pelo menos trinta metros de rocha natural, Moisés — disse em tom
desesperançado.
— Em compensação
provavelmente não existe água — respondeu o robô. — Temos que tentar.
Retirem-se para a entrada da caverna, onde a mesma é mais elevada. Se houver
uma penetração de água, fechem os capacetes dos trajes espaciais. Nesse caso terão
de mergulhar.
— Mergulhar por um
poço cheio de água... e subindo trinta metros?
— Se necessário,
sim. Não nos resta outra alternativa. Não podemos pedir socorro, pois a rocha
representa uma barreira.
Se não nos
salvarmos sozinhos, estaremos perdidos. Embora seja apenas um robô, não tenho a
menor vontade de enferrujar na água.
Gucky lançou um
olhar para a caixa em que estavam guardados os sonolentos.
— A água não
lhes causará maior mal. Além disso, a caixa pode ser hermeticamente fechada.
Mas com o tempo isso não seria bom para eles.
— Vamos começar
— sugeriu Moisés. — Não temos muito tempo. Quando a rocha se tornar
incandescente, será tarde.
Tiff fez um
sinal ao robô.
— Está bem.
Iremos até a entrada antiga. E tome cuidado para não se queimar.
— Não se
preocupe. Meus aparelhos de refrigeração agüentam muita coisa.
Afastaram-se de
Moisés, que logo deu início ao trabalho. Os dois radiadores energéticos
penetravam na rocha maciça, que, depois de derretida, caía em pesados pingos. A
maior parte Volatilizou-se. Os gases, mais pesados que o ar, corriam
preguiçosamente na direção da grande caverna. Para os sonolentos que se
mantinham na expectativa, seriam os prenúncios da morte que se aproximava.
Tiff parou
diante da parede derretida da antiga entrada. Hump, que se mantinha num
estranho silêncio, encostou-se a uma rocha saliente. Eberhardt sentou na caixa
com as tulipas. As duas moças olhavam-se apavoradas, Nos seus olhos lia-se o
medo de morrer. Só Gucky mantinha-se tranqüilo. Fez um sinal tranqüilizador
para Tiff e disse:
— Verificarei
como estão as coisas lá fora. Se soubesse onde estão os cruzadores poderia
arriscar um salto até lá. Mas saltar no escuro seria uma temeridade. É possível
que um dos telepatas capte meu chamado.
Logo estarei de
volta — prometeu, e desapareceu.
Os que ficaram
para trás olharam-se sem dizer uma palavra. Será que Gucky conseguiria entrar
em contacto com os cruzadores?
O tempo passava
devagar. Os gases da rocha volatilizada e o calor chegavam até ali. Quando Tiff
pôs a mão na rocha da parede externa, ele a retirou com um grito de espanto.
Estava morna.
Gucky demorou
dez minutos. Subitamente reapareceu no meio deles. O pêlo estava liso e
molhado. Soltou um apito agudo, que exprimia o maior grau de contrariedade. Seu
rosto parecia feito só de recriminação. Fumegava no verdadeiro sentido da
palavra.
— O que houve,
Gucky? — perguntaram Tiff e Milly, falando ao mesmo tempo.
Gucky
lançou-lhes um olhar de censura.
— Nem me
perguntem, amigos. Talvez a resposta venha a ser uma decepção amarga para
vocês. Mas não posso deixá-los na incerteza. Sabem onde estamos? Não, não
sabem; afinal, não podem adivinhar.
Pois eu lhes
direi: estamos no fundo dum mar.
— Hein? —
perguntou Eberhardt, e por pouco não escorrega da caixa em que estava sentado.
— Onde estamos mesmo?
— É o que lhes digo
— confirmou Gucky. — Eu mesmo não acreditaria, se não tivesse estado lá fora.
Quando me materializei, vi que estava embaixo da água. Ainda bem que acabara de
inspirar. Fiquei tão assustado que preferi não arriscar outro salto; poderia
ter caído algumas dezenas de metros, o que não seria nada agradável. Subi
simplesmente à tona. Temos um mar em cima de nós. A profundidade é de uns
trinta ou quarenta metros. Do morro em que nos encontramos só se vê a ponta.
— Nesse caso a
água penetrará na caverna assim que Moisés romper a superfície — constatou
Hump. — Tem que suspender imediatamente as perfurações.
— Será que você
ficou louco? — perguntou Tiff. — Quer morrer sufocado aqui dentro?
— Morrer
queimado! — retificou Gucky, muito sério. — Não nos resta outra alternativa
senão subir pela água. Aliás, a temperatura da água é bastante agradável.
Calculo que dentro de dez horas estará fervendo.
Por alguns
instantes um silêncio de pavor tomou conta do grupo. Finalmente Tiff disse:
— Pedirei a
Moisés que se apresse. Fiquem aqui mesmo.
Fechou o
capacete do traje espacial e ligou o aparelho de suprimento de oxigênio.
Caminhando a passos firmes, dirigiu-se ao lugar em que Moisés havia
desaparecido na rocha. O material liquefeito continuava a pingar. Não se via
mais nada de Moisés. Tiff esforçou-se para estabelecer contacto com Moisés
através do transmissor de capacete.
— Alô, Moisés.
Onde é que você está?
— Exatamente
dezoito metros e trinta centímetros acima do solo da caverna — veio prontamente
a resposta. — Dentro de uma hora o serviço estará concluído.
— Gucky esteve
lá fora — prosseguiu Tiff. — O morro já está coberto pela água.
— Tínhamos que
contar com isso.
— E a água já
começa a esquentar, Moisés.
Houve um
instante de silêncio. Finalmente Moisés disse:
— Trabalharei mais
depressa. Conseguiremos.
Tiff voltou para
junto dos amigos. Os rostos que encontrou não eram alegres nem confiantes.
— Falta uma hora
— informou Tiff, depois de abrir o capacete. — Assim que a água penetrar aqui,
saberemos que chegou a hora.
Gucky enfiou-se
no traje espacial.
— Não estou com
vontade de toma banho — disse. — Mesmo que seja um banho quente.
O primeiro
minuto de espera parecia uma eternidade.
E a hora tem
sessenta minutos...
6
O patriarca atacou.
Acreditava que
nas próximas horas não precisaria contar com a presença de Rhodan, e assim quis
livrar-se ao menos dos dois cruzadores. Recorreu a toda a frota do clã para
destruir as duas naves de Rhodan.
O major Nyssen
adivinhou a finalidade dupla do patriarca. Etztak pretendia livrar-se dos dois
inimigos antes que tivesse início a luta final com Rhodan, e também quis
impedir que alguém fosse procurar o grupo perdido no mundo de gelo.
— Capitão
MacClears — disse Nyssen, depois de entrar em contacto com o cruzador Terra. —
Procure desviar a atenção dos saltadores, para impedir que eles me sigam. Tenho
que tentar localizar Tiff.
— Confie em mim
— respondeu MacClears e lançou um olhar preocupado para a outra tela. Viu que
as naves dos saltadores entravam em forma para lançar-se ao ataque. Desta vez a
coisa parecia séria. — Saberei defender-me. Quando deverá chegar Rhodan?
— Pode aparecer
a qualquer momento. Se não tiver possibilidade de entrar em contacto, queira
informá-lo sobre o lugar em que me encontro. Entendido?
— Entendido. —
respondeu MacClears e cumprimentou Nyssen com um sorriso forçado. — Mostraremos
uma coisa a essa gente.
Nyssen retribuiu
o sorriso. MacClears viu que a Solar System acelerou fortemente e se precipitou
sobre o mundo em chamas, mergulhando na camada de nuvens que parecia um mar
agitado.
No mesmo
instante os primeiros torpedos atômicos detonaram no campo energético da Terra.
O ataque concentrado dos saltadores começara.
No mesmo
instante o cruzador pesado transformou-se na perfeita máquina que devia ser
segundo seus construtores. Salvas de raios mortíferos saíram do corpo enorme da
nave e rompiam os campos energéticos não muito fortes do inimigo, sempre que
eram atingidos por cinco raios ao mesmo tempo. Seguiram-se os feixes de raios
energéticos que, devidamente concentrados, produziam o mesmo efeito.
Apesar dos
êxitos isolados, a superioridade dos saltadores era muito grande. Desviavam-se
habilmente dos ataques da Terra e procuraram entrar numa posição de tiro
favorável. MacClears percebeu que era sua intenção cercá-lo, para destruir o
cruzador com um golpe energético simultâneo desfechado por vinte naves, o que
seria perfeitamente possível.
Foi nesse
instante que um abalo tremendo da estrutura espaço-temporal fez reagir os rastreadores
estruturais. Num ponto bem próximo uma nave devia ter saído do hiperespaço e
retornado ao espaço normal.
O amigo e o
inimigo viram-na ao mesmo tempo.
Vinda das profundezas
do espaço, a esfera reluzente aproximou-se vertiginosamente, anunciando a
desgraça.
Rhodan surgira
no campo de batalha, a fim de mudar a sorte das armas a seu favor.
Por alguns
segundos preciosos, Etztak ficou tão surpreso que MacClears conseguiu, numa
manobra fulminante, destruir duas de suas naves, que aguardavam ordens. Mas os
saltadores logo bateram numa retirada precipitada, para erigir nova frente
defensiva a alguma distância. Ao que tudo indicava estavam decididos a
enfrentar a Stardust-III.
Rhodan não teve
pressa. A vida de seus homens era mais importante que os saltadores. Entrou em
contacto com a Terra.
— Onde está o
major Nyssen? — foi a primeira pergunta que formulou.
— Tenta salvar
Tiff — explicou MacClears. — Ainda não conseguimos encontrar qualquer vestígio
dele.
— Será que o
senhor pode impedir Etztak de seguir-me, capitão?
— Tentarei. O
que pretende fazer?
— Procurar Tiff.
Marshall está a bordo da Solar System?
— Sim senhor. E
mais alguns mutantes.
— Estou
interessado apenas nos telepatas. Deveriam ter condições de entrar em contacto
com Gucky.
— Está bem, chefe.
Manterei Etztak ocupado. Quando voltará?
— Assim que
tiver encontrado Tiff — disse Rhodan e interrompeu o contacto.
Acelerando ao
máximo, precipitou-se em direção à superfície borbulhante do planeta de gelo,
que estava prestes a transformar-se num mundo de fogo.
* * *
Quando RB-013
saiu da galeria vertical, foi seguido por um filete de água morna. Tiff
espantou-se com isso.
— O que é isso,
Moisés? Por que está entrando tão pouca água?
— Apenas soltei
um pouco a rocha que está na superfície, para que a torrente da água não me
atirasse para baixo. Gucky tem que fazer o resto. Por enquanto estamos seguros
neste lugar, que é o ponto mais elevado da caverna. Teremos que esperar até que
a água encha toda a caverna. Não sei quanto tempo demorará.
— É verdade. Nunca
conseguiríamos vencer a correnteza — reconheceu Tiff. —Acontece que muitas
horas poderão passar antes que as galerias e cavernas subterrâneas estejam
cheias.
— Não; o senhor
está subestimando a força da água. Penetrará com tamanha força que a galeria aumentará
a cada segundo que passa. Quando a água chegar aqui, seu diâmetro será de
vários metros.
Eberhardt lançou
um olhar desolado para o robô.
— E você,
Moisés? Sabe nadar?
— Nado melhor
que vocês — asseverou Moisés. — Meus jatos desenvolvem uma força de empuxo de...
— Nesse caso
será bom que você fique atrás de nós, senão o caldo esquentará demais — decidiu
Tiff. — Então, Gucky? O que nos diz?
O rato-castor
fez uma careta, que parecia dizer “sempre
eu”. Mas finalmente acenou com a cabeça, sentou numa das caixas vazias e
concentrou-se. Os poderosos fluxos espirituais emitidos por sua mente subiram
pela galeria, encontraram a resistência representada pela última pedra, e
agarraram-na.
Não foi fácil
vencer a pressão da água e levantar a cobertura derretida nas bordas, que media
alguns metros quadrados e tinha uma grossura de cinqüenta centímetros.
Mas o êxito logo
se fez sentir.
Com um rugido
ensurdecedor o oceano penetrou no vazio subterrâneo. As águas penetraram na
galeria. Por um instante foram represadas numa das extremidades, mas logo
correram para a parte inferior da caverna.
Dentro de poucos
minutos atingiriam os sonolentos.
Eberhardt, que
estava sentado na caixa que continha os cinqüenta exemplares de tulipas
destinados à sobrevivência, levantou-se subitamente. Nos seus olhos brilhava o
medo e o pavor. Suas mãos começaram a tremer.
— Meu Deus! —
balbuciou. — Meu Deus, que coisa horrível!
Seu corpo
contorceu-se e teria caído se Hump, que estava a seu lado, não o tivesse
segurado.
No mesmo
instante as moças sentiram-se dominadas por uma onda de pânico, emitida pelos
sonolentos moribundos. As idéias que brotaram na mente da raça condenada à
morte penetraram nos cérebros dos homens, enchendo-os de pavor e tristeza. Hump
e Tiff eram os únicos que pareciam imunizados contra isso. E Gucky.
— Quem me dera
que pudesse proteger seus cérebros — lamentou-se o rato-castor.
— Infelizmente
não posso. Não se livrarão do pânico enquanto os sonolentos não estiverem
mortos. Sua morte será nossa única salvação.
— Será que você
não pode dar outro tipo de ajuda? — fungou Tiff, que segurava Milly nos braços,
tentando acalmá-la. — Que tal a telecinésia?
— E a água? —
lembrou Gucky, mas logo se levantou de um salto. — Vou tentar.
Mas temos que esperar
um pouco. Por quanto tempo os sonolentos agüentam embaixo da água? Se
soubesse...
Desapareceu
diante dos olhos de Tiff, para voltar dentro de dez segundos. Seu traje
espacial estava molhado.
— A água já
chega à metade da altura da caverna. O sol artificial apagou-se. Não demorará
muito e a vida dessa raça estranha se extinguirá. Esperem mais um instante. Vou
ver como estão as coisas lá fora.
Fechou o
capacete e desmaterializou-se.
Desta vez levou
quase três minutos para voltar. Estava radiante.
— Estamos
salvos, amigos, desde que consigamos chegar à superfície. O major Nyssen está nas
proximidades. Consegui entrar em contacto com John Marshall, o telepata.
Encontra-se a bordo da Solar System. Também ouve seu emissor celular, Tiff.
De repente.
— Por que só
agora?
Gucky sacudiu os
ombros peludos.
— Não faço a
menor idéia. Provavelmente até aqui foi superado pelos impulsos mentais
provocados pelo medo da raça moribunda. A esta hora a raça está praticamente
morta, e seu transmissor se tornou mais forte. É a única explicação que me ocorre.
— Vou perguntar
a Rhodan que transmissor é este — murmurou Tiff, pensativo. — De qualquer
maneira, ele nos salvou a vida.
— Ainda não —
chiou Gucky, olhando para o alto. O ruído da água diminuíra. O nível da mesma
subia a olhos vistos e estava atingindo a entrada fechada. Eberhardt e as moças
ficaram mais tranqüilas.
— O cume do
morro ainda está fora da água — prosseguiu Gucky. — Temos de chegar lá. A
galeria tem trinta metros e acima dela há pouco menos de dez metros de água. O
cume fica a duzentos metros.
Tiff colocou o
capacete e fez sinal aos outros.
— Está na hora,
amigos Teremos que nadar.
— Levarei as
moças para cima — disse Gucky. — Depois darei uma mão a Eberhardt. Tiff e Hump,
vocês terão que dar um jeito sozinhos. Assim que tiver terminado com os outros,
poderei cuidar de vocês. E você, Moisés?
— Muito obrigado
pelo interesse — respondeu o robô. — Detesto a água, mas não preciso de
auxílio. Quando chegarmos à ilha, eu os enxugarei.
Gucky contorceu
a boca e viu que a água atingiu seus pés e logo chegou aos joelhos. Fechou o
capacete e ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo. Tiff pegou a caixa
com os cinqüenta sonolentos.
A água subia
cada vez mais depressa. Gucky foi o primeiro que desapareceu sob a superfície
ligeiramente ondulada. Os outros seguiram-no. Sentiram-se como mergulhadores
que tivessem penetrado numa caverna do fundo do mar, e não sabiam se voltariam
a ver a luz do dia.
A água chegou ao
teto de pedra, e o silêncio se fez em torno deles.
— Está na hora —
repetiu Tiff. Fez alguns movimentos natatórios lentos e flutuou em direção à
galeria, onde a água parada não oferecia a menor resistência. — Irei na frente.
— Quando estiver
em cima, dê um sinal — pediu Gucky. — Seguirei com Milly.
Hump, fique logo
atrás de Tiff.
Dali em diante
Tiff estava praticamente só.
Chegou à galeria
e olhou para cima. Teve a impressão de que ao longe brilhava uma luz. Devia ser
o céu, do qual estava separado por quarenta metros de água. Segurou firmemente
a caixa, que praticamente não pesava nada. Tinha que apressar-se, pois do
contrário os últimos exemplares duma raça estranha e maravilhosa morreriam
afogados.
Empurrou-se com
o pé e subiu. Admirou-se de que era tão fácil. Usou a mão esquerda para evitar
que esbarrasse em alguma rocha saliente. Moisés tinha razão: a galeria tinha
cinco metros de diâmetro.
A luz acima dele
tornou-se mais forte. Subitamente viu-se no fundo dum imenso oceano. Ao redor
dele só havia água. E abaixo dele abria-se o buraco ameaçador da caverna, do
qual Hump estava emergindo naquele instante.
— Gucky, a
galeria está desimpedida — anunciou Tiff. — Pode vir quando quiser.
— Procurem
atingir a ilha — respondeu Gucky.
Tiff subiu à
tona e por pouco não perde a caixa, que subitamente recuperou o peso. Ao lado
dele surgiu a cabeça de Hump.
— Bem que você
poderia dar uma mão — sugeriu Tiff. — Vamos levantar a caixa um pouco, para que
a água possa escorrer.
Senão morrerão
afogadas.
Hump fez uma
careta, mas não esperou que o amigo repetisse o pedido. Nadando lado a lado,
dirigiram-se à costa rochosa da ilha não muito distante.
— E olhe que
nunca gostei de flores — disse, amargurado.
Tiff não
respondeu. Tentou em vão descobrir no céu qualquer sinal de que estavam sendo
esperados. Mas não viu o menor indício da presença da Solar System. Por que a
nave não vinha agora, que mais precisavam de auxílio? Não demoraria muito para
que a última ilha das proximidades fosse coberta pelo oceano, que subia
constantemente.
Só agora Tiff
percebeu que a água esquentara bastante. Pelos seus cálculos a temperatura era
de pelo menos trinta graus. Tomara que não fizesse mal aos sonolentos. Todavia,
com o auxílio de Hump conseguiu manter acima da água a caixa que continha os
remanescentes duma raça em extinção.
Seus pés tocaram
o chão. Mais alguns passos, e estaria em terra firme. Milly e Felicitas já os
esperavam. Gucky trabalhara depressa. Voltara para buscar Eberhardt.
Dali a cinco
minutos encontravam-se no ponto mais elevado da pequena ilha, olhando em
direção à galeria subterrânea. Esperavam Moisés.
A chegada do
robô foi anunciada por um monte de águas espumejantes, produzida por seus
propulsores. O monstro metálico atravessou as ondas tal qual um submarino e
aterrizou sem problemas na ilha.
Todos haviam
aberto os capacetes e inspiravam o ar tépido e abafado do planeta moribundo.
Moisés espalhava um calor insuportável. Hump resmungou:
— Será que você
não pode ligar a refrigeração? Já chega de calor.
— Sinto muito.
Tenho pavor da água. Se não começar logo a enxugar-me, terei manchas de
ferrugem.
— De qualquer
maneira você será reformado, desde que nos encontrem em tempo — disse Tiff em
tom preocupado, olhando incessantemente para o céu cinzento, onde as nuvens
turbilhonantes impediam a visão. — Gostaria de saber onde se meteu o Nyssen. —
Dirigiu-se a Gucky: — O que está dizendo Marshall?
— Não tenho contacto
com ele — lamentou-se o rato-castor. — Avisará Rhodan.
— Rhodan — disse
Milly em voz baixa e só com grande esforço conseguiu segurar-se em Tiff. — É o
único que poderá salvar-nos. Se não chegar em tempo...
Contemplaram silenciosamente
a água que subia ininterruptamente — e a parede vermelha que começou a brilhar
no horizonte.
* * *
Depois de poucos
segundos, Rhodan descobriu a Solar System. Mandou que Marshall viesse
imediatamente a bordo da Stardust-III num dos pequenos caças espaciais. E
ordenou ao major Nyssen que voltasse imediatamente ao espaço, para ajudar
McClears nas lutas destinadas a desviar a atenção dos saltadores. Não deviam
perturbar a operação de salvamento.
Poucos minutos
depois, Marshall encontrava-se diante de Rhodan.
— No momento não
estou em contacto com Gucky e Tiff, mas sei onde os mesmos podem ser
encontrados. Estão numa caverna no fundo do oceano, mas Gucky diz que pode
salvá-los, levando-os a uma ilha.
— Vamos logo. Não
temos tempo a perder. Sabe onde fica a ilha?
— Mais ou menos.
Com esta neblina a orientação não é fácil.
— Tente
localizar o transmissor de Tiff assim que conseguir captá-lo. E preste atenção às
mensagens telepáticas de Gucky. Bell, coloque a Stardust-III no rumo certo. Um
segundo pode ser decisivo.
Para Rhodan não
havia naquele instante nenhum saltador e nenhum patriarca agressivo. Só
conhecia um problema: a salvação do grupo que por ele se metera num inferno.
A pouca altura a
imensa nave passava acima das ondas do mar fumegante, que mais ao norte já
fervia, atirando nuvens imensas para o céu. Vez por outra surgia uma ilha
rochosa, mas em nenhuma delas encontrou qualquer sinal de vida.
Subitamente
Marshall soltou um grito.
— Consegui, os dois.
Gucky e Tiff. Estão bem perto, e já se encontram na ilha. Mantenha o mesmo
rumo. Deve ser a próxima ilha.
Rhodan olhou
para a tela. Não viu muita coisa, pois a neblina tornava-se cada vez mais
densa. Mas acabou reconhecendo um ponto negro em meio à movimentação da água e
das nuvens.
Era a ilha. Nela
surgiram sete pontos móveis: cinco seres humanos, Gucky e o robô.
Acontece que a
ilha era tão pequena que a Stardust-III não poderia pousar na mesma.
— Pergunte a Gucky
se pode trazer todos até aqui — disse Rhodan e fez a Stardust-III descer, até
que a mesma se manteve imóvel pouco acima da ilha. Naquele instante uma luz
vermelha iluminou-se. Era o sinal vindo da sala de telegrafia.
Rhodan moveu a
chave.
— O que houve?
— Um chamado de emergência
do major Nyssen. Etztak conseguiu separar-se dos cruzadores e está lançando
toda sua frota num ataque contra o planeta de gelo.
Nyssen diz que
tentará atacá-lo pelas costas.
Rhodan confirmou
com uma expressão zangada.
— Muito bem.
Diga a Nyssen que não desista. Vamos pegar Etztak dos dois lados. E diga-lhe
ainda que deste momento em diante não teremos a menor contemplação. Entendido?
— Entendido.
A luz vermelha
apagou-se. Bell estreitou os lábios.
— Quer dizer que
será uma luta de vida e morte? — perguntou.
Rhodan confirmou
com um aceno de cabeça.
— Não temos outra
alternativa. Marshall, avise Gucky de que vamos mandar um destróier. A esta
hora não posso abrir as escotilhas da Stardust-III, pois com isso não teria
condições de combater. Tiff tentará escapar num destróier. Se necessário o robô
terá que ser deixado para trás.
— Os destróieres
leves são pequenos.
Mal podem
abrigar três pessoas — interveio Bell.
— Pois
excepcionalmente a cabine deverá ter lugar para cinco pessoas e o rato-castor,
a não ser que Gucky prefira teleportar-se para a Stardust-III.
— Ele não fará
nada disso — disse Bell, defendendo o amigo. — Ficará com Tiff.
Rhodan chamou o
setor de armamentos.
— Atenção,
preparem ambos os transmissores fictícios. Não, desta vez não se trata de
bombas atômicas, mas dum destróier de três pessoas.
Seguiu-se um silêncio
de perplexidade. Logo surgiu a pergunta:
— Um destróier?
— Correto. Faça a
teleportação dum pequeno destróier para a ilha que se encontra embaixo de nós.
Rápido. Aqui estão os dados...
Rhodan esperou
até que subitamente viu na ilha o formato esbelto de torpedo dum destróier que
surgiu do nada. Logo a Stardust-III subiu, a fim de enfrentar a frota dos
saltadores, que se precipitava dos céus.
* * *
Com a pose dum
general vitorioso, Gucky apontou a área livre da pequena ilha.
— Abracadabra,
caramba, será que vai demorar?
— Será que desta
vez você enlouqueceu de verdade? — indagou Hump em tom preocupado.
— Que nada!
Marshall diz que Rhodan nos mandará um destróier. A remessa será feita por
teleportação. Deve ser alguma novidade que trouxe do planeta da vida eterna.
Não pode cuidar de nós, já que os saltadores estão atacando.
— Um destróier?
— murmurou Tiff em tom pensativo, lançando um olhar rápido para o robô. — Será
muito apertado.
Por alguns
segundos a Stardust-III surgiu acima deles, em meio às nuvens. Logo o destróier
materializou-se no lugar exato apontado por Gucky.
Tiff pegou a
caixa, segurou Milly com a mão livre e correu em direção à nave salvadora. Só
agora deu-se conta de que a rocha em que seus pés pisavam estava morna. A
salvação estava chegando no último instante.
Antes que
chegassem à nave, um feixe energético alaranjado desceu das nuvens e abriu um
funil borbulhante a alguma distância.
— Atenção! —
gritou Gucky. — Vou saltar para abrir a comporta. Continuem a correr. Depois eu
os apanharei.
No mesmo
instante a escotilha abriu-se. Gucky não perdeu tempo. O segundo raio
energético expelido pela nave dos saltadores já chegou mais perto. Mas no mesmo
instante surgiu o vulto da Solar System e abriu fogo maciço contra o inimigo.
De um instante para
outro Tiff viu-se transportado para a pequena cabine de comando do destróier.
Colocou a caixa com os sonolentos embaixo duma mesa e precipitou-se para o
painel.
Milly surgiu
logo depois, seguida por Felicitas. Os propulsores começaram a vibrar.
Também Hump e
Eberhardt apareceram, seguidos poucos segundos depois por Gucky. A cabine era
tão apertada que as moças tiveram que sentar no colo de Hump e Eberhardt, fato
que deixou este último um tanto embaraçado.
— Vamos decolar!
— chiou Gucky, procurando acomodar-se num armário embutido. — Está em cima da
hora. O mar começa a ferver, e a rocha está quente que nem ferro em brasa. Daqui
em diante a coisa será muito rápida.
Enquanto Tiff
acelerava ao máximo, conduzindo o destróier para o céu opaco, lembrou-se de Moisés.
— Hihi — riu
Gucky no armário embutido. — Você está enganado. Acha que seria capaz de deixar
na mão a criatura que salvou nossa vida? Está na sala de máquinas.
Tive que tirar
algumas caixas de ferramentas. Afinal, a rapidez não é bruxaria para quem tem o
dom da teleportação.
Tiff sorriu
aliviado.
— Teria pena do
rapaz; até chego a gostar dele.
Correram
velozmente pelo espaço, passando pelas naves dos saltadores que detonavam e
desviando-se dos feixes energéticos que se estendiam furiosamente em sua direção.
O planeta de gelo mergulhou no espaço. Já não era um planeta de gelo, mas um
sol em formação. Só o pólo sul continuava branco, mas as águas dos mares
recém-formados já se precipitavam sobre as superfícies geladas.
O segundo
planeta do sistema de Beta-Albíreo estava morrendo. As massas de nuvens
turbilhonantes pareciam os últimos estertores dum gigante moribundo.
* * *
Encontravam-se
diante de Rhodan, ouvindo ansiosamente o seu relato. Só as autoridades mais
graduadas da administração de Terrânia e os oficiais que dirigiam a frota
espacial encontravam-se presentes.
Além de Tiff,
Hump, Eberhardt, Milly e Felicitas.
E, naturalmente,
Gucky.
A conferência
estava sendo realizada no jardim da cobertura do edifício da administração
central. Acima deles estendia-se o céu azul e límpido da Terra, que não era
turvado por qualquer nuvem. Os últimos raios do sol no ocaso atravessavam o
vidro do jardim de inverno e brincavam nos pêlos reluzentes de Gucky. O
rato-castor estava ao lado de Bell que, mergulhado em pensamento, lhe
acariciava o pêlo.
Milly e
Felicitas não pareciam ter tempo para esse tipo de atividade. As moças
preocupavam-se exclusivamente com Tiff e Hump. Só Eberhardt continuava fiel à
sua qualidade de ermitão.
— ...de forma
que não tivemos outra alternativa — dizia Rhodan naquele instante. — A frota
dos saltadores lançou mão de todos os recursos para atacar-nos e destruir-nos.
Etztak não pôde defender-se contra nosso transmissor fictício. Perdeu uma nave
após a outra, até que reuniu as duas naves que lhe restavam e, tomado de
pânico, passou à fuga. Pelo que indicam nossos instrumentos, realizou um salto
de mais de doze mil anos-luz. Deixei que se fosse, pois quero que espalhe a
notícia de que a Terra é um terreno muito quente para todos aqueles que se metem
a conquistadores.
Um murmúrio
passou pelos presentes. Rhodan sorriu para apagar a impressão de crueldade
deixada pelas palavras que acabara de proferir.
— Se devemos ser
gratos a alguém pela vitória sobre uma raça fortemente armada e de inteligência
muito evoluída, este alguém é o cadete Julian Tifflor e seus amigos. Sua
atuação corajosa fez com que os saltadores se enganassem sobre nossas reais
intenções. Ainda quero mencionar nosso amiguinho Gucky, graças ao qual a missão
teve um desfecho feliz. A todos manifesto minha gratidão e a do planeta Terra.
Algumas
perguntas foram formuladas, e Rhodan deu as informações solicitadas.
Bell puxou Gucky
para o lado. Os dois amigos, tão desiguais, estavam junto à parede de vidro,
mas não deram atenção ao panorama maravilhoso que se abria diante deles.
Terrânia, a metrópole mais moderna do mundo e a capital da Terceira Potência,
não representava nenhuma novidade para eles.
A novidade eram
os canteiros de flores, arrumados em torno da varanda envidraçada. Neles cresciam
gigantescas tulipas de cinco cores diferentes, estendendo as coroas bem
formadas em direção ao sol terreno. Mantinham os olhos em formato de amêndoa
bem abertos, como se fizessem questão de conhecer todos os detalhes de seu novo
mundo. Um aroma suave subiu dos canteiros, misturando-se ao ar que os homens
respiravam.
— Quer dizer que
estes são os sonolentos — cochichou Bell e acariciou uma das flores. Era
vermelha. Em cada um dos canteiros havia tulipas de cinco cores diferentes. —
São os últimos exemplares de sua raça. Faço votos de que se sintam bem por aqui.
— Sentem-se
muito felizes por terem escapado a uma morte horrível — disse Gucky, colocando
o dente roedor para a frente a fim de esboçar um sorriso satisfeito.
— Elas se
reproduzirão para conservar a espécie. É bem verdade que demorará cinqüenta
anos até que as primeiras mudas se tenham formado. Elas não têm pressa.
— Meio século? —
gemeu Bell e passou a mão cuidadosamente sobre a cabeleira curta e ruiva. —
Meio século para produzir uma muda? Minha tia Amália com sua plantação de
cactos não iria gostar disso.
— Acontece que a
tia Amália não tem tanto tempo quanto os sonolentos... e nós.
— Afinal,
quantos anos você vai fazer, Gucky? Você nunca contou a ninguém.
O dente do
rato-castor emitiu um brilho avermelhado sob o sol em ocaso.
— Quantos anos
vou fazer? Você quer saber quando vou morrer? — Num gesto de lástima sacudiu os
ombros, o que lhe dava um aspecto quase humano. — Bem, isso é bastante incerto.
Na verdade, só há um meio de determinar exatamente o meu tempo de vida.
— É mesmo? —
Bell inclinou-se para seu gracioso amigo. — Que meio é este?
— Você terá que
aguardar minha morte — disse Gucky e teleportou-se para o lado oposto da
varanda.
A mão de Bell
acertou apenas o ar.
* * *
* *
*
*
O mundo de gelo,
onde Julian Tifflor e seus companheiros conseguiram, através de sucessivos
golpes de habilidade, escapar aos comandos de saltadores enviados em sua
perseguição, deixou de existir, apenas porque um dos patriarcas dos saltadores,
dominado pela cólera, deu ordem de destruí-lo.
Mas essa ordem,
concebida como uma sentença de morte que deveria atingir Julian Tifflor e seus
companheiros, foi dada num momento em que Perry Rhodan já estava em condições
de salvar do incêndio atômico não apenas os membros de seu grupo, mas também
alguns dos estranhos habitantes do mundo de gelo, os sonolentos...
Qual será a
próxima ação que os saltadores empreenderão contra a Terra? Quais são seus
planos?
Levtan, o
Traidor, que conhece os planos dos saltadores, entra em contacto com Perry
Rhodan...
Levtan, O
Traidor, é este o título do próximo volume da série.

Nenhum comentário:
Postar um comentário